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112 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Unidade IV 7 A FORMAÇÃO DA GASTRONOMIA BRASILEIRA A alimentação revela a complexidade das relações humanas, remete‑nos aos primórdios da nossa civilidade, nos leva a buscar nossas origens, nos faz questionar nossa moral, nossos comportamentos. Cultura é um conjunto de características de uma sociedade, por isso cultura e gastronomia andam juntas. A gastronomia brasileira tem heranças africana, indígena e do branco europeu. Como isso teve início? Em março de 1500, Pedro Álvares Cabral comandou uma expedição que partiu de Portugal à procura de novos caminhos às Índias, com o objetivo de buscar cravo, canela, gengibre, mostarda, erva‑doce, pimenta e outras riquezas. Vale destacar que na época a pimenta tinha um valor muito superior ao atual, pela função que desempenhava ao mudar o sabor das carnes (que era prejudicado pela armazenagem). Cabral foi enviado pela coroa portuguesa com o intuito de driblar as limitações comerciais impostas pela Espanha, França e Inglaterra. Se ele voltasse para as terras lusitanas com novidades de territórios e outras especiarias, auxiliaria a aumentar a força econômica portuguesa e o status de nação política e socialmente forte. E foi o que aconteceu. Em 22 de abril de 1500, a expedição comandada por Cabral chegou à Ilha de Vera Cruz (depois reconhecida e chamada Terra de Santa Cruz e, por fim, nomeada como Brasil) com vários homens ávidos por riquezas e metais preciosos. O início da colonização portuguesa foi, de certa forma, amigável, o que mudou completamente 30 anos depois: a exploração e o genocídio foram marcas do domínio português sobre as etnias indígenas que viviam no território brasileiro. A colonização portuguesa caracterizou‑se pela miscigenação e pela adaptação alimentar em todas as terras exploradas por eles no período das grandes navegações. Como a maioria dos homens vinha sem mulheres, acabaram relacionando‑se com indígenas e negras vindas da África, constituindo uma população híbrida e geneticamente flexível. É bem verdade que o clima amistoso entre índios, negros e brancos é um mito, pois morte, exploração e preconceito racial fizeram parte de todo o período colonial brasileiro e estão enraizados em nossa história. Diferentemente do que ocorreu nas bases colonizadoras europeias, os portugueses instituíram uma colônia de exploração no Brasil, optando por uma unidade de produção familiar com base na sociedade agrícola de família rural. Essas famílias constituídas por brancos europeus utilizaram mão de obra escrava indígena e negra para enriquecer uma parcela mínima da população. Quanto ao regime de cultivo, a monocultura foi adotada como forma de exploração do solo brasileiro, tornando‑se uma grande influenciadora da gastronomia do nosso país. O padrão alimentar baseava‑se 113 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO em mandioca (e seus derivados), frutas nativas, carne de caça e doces à base de açúcar (o grande produto de monocultura no início da colonização portuguesa no nordeste brasileiro). Figura 65 – A rapadura, um produto tipicamente brasileiro derivado da cana‑de‑açúcar Segundo o Instituto Brasileiro de Florestas (IBF) existem alguns biomas importantes encontrados em nosso país. Veja o quadro a seguir. Quadro 1 – Biomas brasileiros Bioma amazônia A floresta amazônica Bioma mata atlântica A mata atlântica é caracterizada por uma riquíssima biodiversidade. Nos tempos do descobrimento estendia‑se do nordeste do País até o Paraná, atualmente, no entanto, restam apenas entre 7% e 8% da mata original. Bioma caatinga A caatinga é composta por uma mata rala, com cactos, árvores de folhas pequenas e secas, troncos de árvores baixas com casca grossa e escamas, arbustos de troncos retorcidos. Tais características são próprias da região árida, onde a terra é ressequida, como é o caso do sertão nordestino. Bioma cerrado O cerrado é muito parecido com a caatinga, porém menos árido: possui capins altos, flores secas do campo, árvores baixas de caules finos, igualmente retorcidos e de cascas grossas, que cobrem uma espécie de cortiça com as quais essas árvores se protegem da secura do clima, do sol ardente, das queimadas e dos incêndios florestais, que são frequentes num clima seco. O cerrado é um bioma característico do Planalto Central e de áreas próximas, estendendo‑se por vários pontos da Região Centro‑Oeste do País. Bioma pampa Região de campos naturais, conhecidos como pampas, existentes no Rio Grande do Sul; neles os rio‑grandenses criam gado. Adaptado de: Instituto Brasileiro de Florestas (2017). 7.1 Influências religiosas Como vimos anteriormente, o simbolismo na relação entre gastronomia e religião não data do mundo contemporâneo; os símbolos da religião estão totalmente ligados à comida desde os primórdios da humanidade. 114 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV O cristianismo, por exemplo, que é a religião mais difundida no mundo ocidental, tem na comida vários pilares de sua formação. Pensemos nos dogmas e nos símbolos de alguns episódios narrados na Bíblia sobre a vida de Cristo. A célebre frase proferida por Cristo na Santa Ceia, afirmando ser o pão da vida, é, até hoje, o símbolo maior da simbiose entre alimento, fé e religião cristã. Mas não é apenas o cristianismo que se vale de ritos na comida, aliás, dada a enorme quantidade de povos participantes da construção da identidade brasileira, a gastronomia também sofreu influências das várias religiões desses muitos povos que habitaram e habitam o país. Assim, a identidade de um povo ou de uma nação é o resultado da soma entre sua língua e sua cultura alimentar. Um conjunto de práticas alimentares pode identificar um povo e se tornar patrimônio cultural. As formas de cozinhar os alimentos, os processos de cultivo e coleta, por exemplo, são processos sociais e culturais. Inicialmente, o domínio das culturas portuguesa, indígena e africana variou conforme a região do Brasil. Em Pernambuco, por exemplo, ponto geograficamente dos mais próximos à Europa, as três influências foram bem distribuídas, e a alimentação característica do estudo reflete isso. Dos portugueses herdaram a língua, os costumes, a gastronomia, o hábito de festejar e reunir amigos e familiares em volta da mesa, juntando os temperos perfumados de influência indígena e as formas de cozimento de influência africana. As tradicionais festas juninas têm os populares Santo Antônio, São João e São Pedro celebrados com mesas repletas de arroz‑doce português e pamonha brasileira, por exemplo. Os portugueses, por sua parte, contribuíram muito com a gastronomia típica de nosso país: eles trouxeram vacas, bois, ovelhas, cabras, porcos, galinhas, patos e gansos para o Brasil; plantaram figo, romã, laranja, lima e limão; semearam arroz, melão, melancia, abóbora, gengibre, mostarda, hortelã, manjericão, cebola, alho, berinjela e cenoura. Figura 66 – A canjica, como a pamonha, o curau, o bolo de milho e a pipoca, é uma comida típica de festas juninas Vivendo principalmente à base de caça e pesca assadas ao fogo, os índios também comiam alimentos crus, frutas nativas, ervas e embora mais lhe importassem a mandioca e seus derivados, como mingaus, pirão e paçoca (vale esclarecer que na época o trigo não se desenvolvia no solo brasileiro). Os portugueses ingeriram 115 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e dod ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO mandioca, assada ou cozida, por meio das receitas de bolo, caldos e cozidos; misturavam às carnes, às frutas e vegetais, além de fazer também farinha, tapioca, beiju e bebidas que aprenderam com os indígenas. Observação A prática de plantio e de beneficiamento dos subprodutos derivados da mandioca, sobretudo da farinha, é até hoje feita de forma ancestral e artesanal. O tubérculo ainda é a base alimentícia de grande parte das famílias nortistas, pela difusão ampla de cultivo e consumo, pois dela se aproveita da folha ao sumo. Aliás, exatamente por isso foi eleita, pela Organização das Nações Unidas (ONU), o alimento do século XXI, já que se apresenta como a possibilidade de reduzir a fome no mundo. A Bahia é o estado com maior influência africana do Brasil. Características da cultura afro‑brasileira, as festas para os santos possuem simbologia única. Em casas, terreiros ou nos dias dos santos, pode‑se presenciar preparações especiais, por exemplo: o caruru dos meninos é o dia de São Cosme e Damião, e os licores de jenipapo, arroz‑doce e munguzá são consumidos após as ladainhas cantadas em latim para Santo Antônio, destinando‑se ao ritual da Igreja Católica. Figura 67 – Imagens de orixás expostas em Salvador, na Bahia No candomblé Nagô, o acarajé de Iansã, o feijão de Ogum, o ipeté de Oxum, o pilão (ou o inhame) de Oxalá e o amalá de Xangô exemplificam o calendário litúrgico dos orixás, quando, após se encerrarem os toques, são compartilhadas as preparações. A relação entre festas e pratos demonstra a importância do que se come na vida do baiano, suas divindades, crenças e história. Típicas receitas para festas de orixás foram incluídas na rotina alimentar baiana por ex‑cozinheiras de casas‑grandes, que foram às ruas vender quitutes em tabuleiros. Primeiramente vendedeiras e ganhadeiras, são as hoje reconhecidas baianas. Suas saborosas preparações são costumeiramente 116 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV encontradas nas esquinas da cidade de Salvador, em barracas de feiras e mercados, nos candomblés e nas casas residenciais das famílias baianas. O acarajé, um bolo de feijão‑fradinho frito em azeite de cheiro (dendê), é um prato típico. Não compõe a refeição comum, sendo consumido na rua e adquirido das baianas. Os ingredientes básicos do caruru, do efó e do vatapá são: azeite de dendê e camarão seco defumado. Feito com os mesmos ingredientes do acarajé, o abará diferencia‑se por ser colorido com azeite de cheiro e cozido numa cuscuzeira (ou em banho‑maria tampado). Figura 68 – O acarajé de Iansã Acarajé Você conhece a receita do acarajé? A seguir estão os ingredientes e a forma de preparo. Ingredientes 1 kg de feijão‑fradinho limpo, sem casca e sem pele 2 cebolas médias picadas 2 dentes de alho 1 colher (sopa) de sal 1 litro de azeite de dendê para fritar Modo de preparo Em uma bacia, coloque o feijão com bastante água e deixe descansar de um dia para o outro (esse processo facilita a retirada das cascas). No dia seguinte, lave várias vezes, até 117 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO a casca se desprender. Bata o feijão, as cebolas, o alho e o sal aos poucos no liquidificador, até obter uma massa lisa. Então coloque a massa em um recipiente fundo e bem limpo (não pode haver nenhum resquício de gordura). Mexa de baixo para cima com uma colher de pau, até que a massa fique fofa e dobre de tamanho. Na sequência, esquente o azeite de dendê em uma frigideira grande, enquanto isso, molhe uma colher grande na água fria e use‑a para moldar bolinhos. Depois, coloque‑os no azeite de dendê fervendo, para fritar. Sirva o acarajé recheado com vatapá, pimenta, camarão seco refogado (com cebola e azeite‑de‑dendê) e molho vinagrete. Tempo de preparo: 1 hora e 20 minutos Rendimento: 20 porções Na Bahia podemos nos deparar com o sincretismo religioso. À comemoração católica de 27 de setembro, por exemplo, de São Cosme e Damião, mistura‑se o dia do Ibêji (ou Bêji), orixás gêmeos nagôs. Trata‑se de um momento de festa e fartura: galinha de xinxim e vatapá compõem o cardápio. Festivo também é o arroz de hauçá, prato dos mais representativos da culinária afro‑brasileira, trazido pelos hauçás, muçulmanos (malês para os nagôs) da Nigéria. Figura 69 – Um exemplo de sincretismo religioso: festa católica e de umbanda acontecendo juntas na Bahia A Igreja Católica também teve sua participação na construção da identidade gastronômica brasileira trazendo festas tradicionais com seus cantos e danças próprios, como a Quaresma, as festas juninas e o Natal (CASCUDO, 2011). Em Belém do Pará, por exemplo, o círio de Nossa Senhora de Nazaré é a maior manifestação de sincretismo religioso do Brasil, envolvendo a Igreja Católica, as tradições indígenas e os hábitos da culinária negra. No segundo domingo de outubro, as comidas típicas, os festejos e a procissão com 118 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV mais de 2 milhões de pessoas tomam conta da capital paraense. É o momento de exaltação da fé à padroeira dos paraenses, e momento também de comer a maniçoba, que perfuma os lares paraenses por pelo menos sete dias antes do círio. São 15 dias de Quaresma regados a muito pato no tucupi, maniçoba, arroz de pato, doce de cupuaçu e outras delícias da culinária paraense (uma culinária de forte influência indígena). O círio de Nazaré abrange toda a cultura sincrética paraense. As várias procissões passam pelos rios de Belém, pela Catedral Metropolitana, pelo Túnel das Mangueiras, pelo Teatro da Paz e pelo icônico mercado do Ver‑o‑Peso (onde é possível comprar cheiros e banhos que relacionados às crenças indígenas da região). O mercado do Ver‑o‑Peso, em Belém do Pará, representa um despertar dos sentidos para a diversidade cultural, gastronômica e ecológica da região. A começar pela profusão de cores dos alimentos, como o amarelo translúcido do tucupi, o ouro líquido da Amazônia, colocado em garrafas que ficam penduradas nas bancas. [...] O prato mais simbólico do Pará é o peculiar e ancestral pato no tucupi, que leva também jambu na sua preparação. Seu sabor é inigualável. Você poderia perguntar de onde vem o pato. Há indícios de que existia, desde o período pré‑colonial, uma espécie selvagem na região. Graças ao empenho de chefs como Paulo Martins (1946‑2010), do restaurante Lá em Casa, de Belém do Pará, e o paulistano Alex Atala, [...] a cozinha amazônica está superando seus limites. Considerado o embaixador da cozinha local, Paulo Martins investiu na divulgação dos produtos amazônicos e promoveu um evento anual que conta com várias edições, o Ver‑o‑Peso da Cozinha Paraense (FREIXA; CHAVES, 2009, p. 237‑238). Figura 70 – Círio de Nazaré, em Belém 119 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO A mandioca está firmemente enraizada na cultura brasileira, e, apesar de fazer parte de nosso dia a dia, ainda envolve muito mistério e misticismo. Segundo as crenças resultantes de histórias indígenas e católicas, a mandioca seria um dos presentes do apóstolo São Tomé (o bondoso herói Sumé dos índios), oferecido durante suas peregrinações em nossa terra. Dessas andanças, além de preciosos ensinamentos, São Tomé teria deixado pegadas gravadas em pedras nolitoral. O pão é um alimento simbólico que faz parte da vida dos povos, em todos os lugares do mundo. No Brasil, é simbolizado pela mandioca, que, por sua vez, foi responsável por dar forças a toda uma civilização, sendo conhecida como pão da terra ou pão indígena. Entre os vários mitos que a envolvem, destacamos a lenda da Casa de Mandi (ou Mani Oca), disponível no Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (mostrando a influência direta da herança indígena nas tradições e costumes dos povos da Amazônia). Diz a lenda: Mara era uma jovem índia, filha de um cacique, que vivia sonhando com o amor e um casamento feliz. Certa noite, Mara adormeceu na rede e teve um sonho estranho. Um jovem loiro e belo descia da Lua e dizia que a amava. O jovem, depois de lhe haver conquistado o coração, desapareceu de seus sonhos como por encanto. Passado algum tempo, a filha do cacique, embora virgem, percebeu que esperava um filho. Para surpresa de todos, Mara deu à luz uma linda menina, de pele muito alva e cabelos tão loiros quanto a luz do luar. Deram‑lhe o nome de Mandi (ou Mani) e na tribo ela era adorada como uma divindade. Pouco tempo depois, a menina adoeceu e acabou falecendo, deixando todos amargurados. Mara sepultou a filha em sua oca, por não querer separar‑se dela. Desconsolada, chorava todos os dias, de joelhos diante do local, deixando cair leite de seus seios na sepultura. Talvez assim sua filha voltasse à vida, pensava. Até que um dia surgiu uma fenda na terra de onde brotou um arbusto. A mãe se surpreendeu. Talvez o corpo da filha desejasse dali sair. Resolveu então remover a terra, encontrando apenas raízes muito brancas, como Mandi (Mani), que, ao serem raspadas, exalavam um aroma agradável. Todos entenderam que criança havia vindo à Terra para ter seu corpo transformado no principal alimento indígena. O novo alimento recebeu o nome de Mandioca, pois Mandi (Mani) fora sepultada na oca (FUNAI, 2017). Conforme indicado na lenda, a mandioca foi uma planta que favoreceu a estruturação de pequenas comunidades. Assim, o projeto tem como objeto de pesquisa as casas de farinha e a resistente e ancestral produção do alimento mais popular da alimentação brasileira: a farinha de mandioca. Como já é sabido: [na] região amazônica, a alimentação, tendo a mandioca como base, é um traço cultural indígena reproduzido até hoje. Consumida em forma de farinha d’água ou seca, faz parte da alimentação cotidiana das populações ribeirinhas, as quais complementam sua dieta alimentar com peixes 120 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV frescos e salgados, caças e frutos. A população urbana a utiliza misturada ao feijão, às carnes, e nos alimentos que compõem a sua alimentação (ANGELO MENEZES, 1999, p. 238). Figura 71 – Ritual indígena na Amazônia Saiba mais Sobre a mandioca, diz CARNEIRO (2003, p. 1) que “a alimentação é, após a respiração e a ingestão de água, a mais básica das necessidades humanas. Mas como ‘não só de pão vive o homem’, a alimentação, além de uma necessidade biológica, é um complexo sistema simbólico de significados sociais, sexuais, políticos, religiosos, éticos, estéticos etc.” Você pode aprofundar seu conhecimento no assunto lendo a obra indicada a seguir: CARNEIRO, H. Comida e sociedade: uma história da alimentação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. 7.2 Principais povos formadores da gastronomia brasileira Antes de falarmos sobre os principais povos formadores da gastronomia brasileira, precisamos apresentar um pouco da historiografia da alimentação brasileira, ou seja, quem já escreveu e pesquisou e o que escreveu e pesquisou sobre esse tema tão importante. Infelizmente, a verdade é que no Brasil ainda não dispomos de uma vasta literatura abordando nossos hábitos alimentares ou a diversidade da culinária regional. Pois bem, durante muito tempo, Josué de Castro e Luís da Câmara Cascudo foram os expoentes da História da alimentação no Brasil. Josué de Castro, sociólogo, médico e geógrafo, tinha como objeto de pesquisa a fome instaurada no Brasil. Já Câmara Cascudo, folclorista e sociólogo, estava preocupado em mapear a comida brasileira e suas origens étnicas. 121 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO A obra de Luís da Câmara Cascudo abordou as contribuições dos três componentes (indígena, português e africano) para o começo da dieta alimentar brasileira no início da colonização portuguesa na América. A contribuição de Josué de Castro foi dividir o Brasil em cinco grandes áreas: a Amazônia, a Zona da Mata, o Sertão, o Centro e o Sul. Em 1977, Joaquim Ribeiro, na obra O Folklore do Açúcar, utilizou a divisão de Josué e as classificou em função da dieta de cada região: a Amazônia ficou com o pirarucu e tartaruga; o litoral ficou com os peixes em geral; a zona sertaneja ficou com a carne de cabrito; a zona agrícola ficou com a carne de porco e a zona do pampa ficou com o churrasco (RIBEIRO, 1977). Obviamente, não podemos esquecer o antropólogo Gilberto Freyre, que escreveu uma verdadeira bíblia sobre o açúcar e os doces brasileiros derivados dessa monocultura tão vigente para a economia de exploração no período colonial que era a cana‑de‑açúcar. O livro de Gilberto Freyre em questão, Açúcar, foi publicado em 1939 e se debruça sobre os hábitos alimentares de forma nacional, ainda que com foco no Nordeste brasileiro. Gilberto Freyre distinguiu as tradições regionais em hábitos alimentares: a colonial mineira (sopas de legumes, lombos de porco, doces de leite e requeijões), a colonial baiana (azeite de dendê, vatapá, caruru e mingaus), açoriano‑brasileira ou da área de Rio Grande do Sul e Santa Catarina (carne fresca e influências da dieta espanhola), a colonial paulista (influências dos indígenas aprendidas pelos bandeirantes), a regional do Pará e Amazonas (influências das tribos indígenas antes da colonização) e, finalmente, a colonial nordestina (zona açucareira, comidas de coco e quitutes de mandioca, doces de frutas, compotas, sururu, lagosta e peixe). Freyre instituiu dois grandes complexos alimentares no período colonial brasileiro: o litoral da mandioca e do peixe, e o sertanejo (ou interiorano) do milho e do porco. Em suas pesquisas aparecem duas farinhas principais: a farinha de mandioca e a farinha de milho. Junto com essas farinhas apareceram receitas de preparo e de acompanhamentos para esses produtos. Era comum encontrar no litoral brasileiro pirão, tapioca, mingau, moqueca, cauim; já no sertão, pratos como angu, fubá, canjica, cuscuz, pipoca, aluá, charque, feijão tropeiro e arroz de carreteiro. A cozinha nas Américas é a junção de várias populações pré‑colombianas e pós‑invasão europeia. Então, hábitos, necessidades, variedades de alimentos, temperos, receitas baseadas no novo território ou ausência de ingrediente sazonal e, claro, crenças e tabus, compõem a diversa e complexa cultura alimentar brasileira. Portugueses, africanos e indígenas experimentaram combinações gastronômicas e se alimentavam com pirões, farofas, bolos e tortas de fubá e de mandioca, cuscuz árabe, caldos e cozidos. Até a família real portuguesa chegar ao Brasil, em 1808, e os portos brasileiros se abrirem ao mundo, os estrangeiros não entravam livremente no Brasil. Após a Proclamação da República, em 1889, a imigração e o comércio internacional cresceram e povos em busca de vida melhor chegaram aos montes, especialmente italianos, espanhóis, alemães, japoneses e coreanos. Segundo o antropólogo Roberto Da Matta: 122 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D iagr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Nós, brasileiros, sempre privilegiamos comidas nacionais e preferimos alimentos cozidos, do cozido à peixaria e à feijoada, da farofa ao pirão, aos molhos, guisados e mexidos, às dobradinhas e às papas. Parece‑nos ter especial predileção pelo alimento que fica entre o líquido e o sólido, evitando – nas grandes refeições onde celebram as amizades – o assado, que não permite a mistura. Daí usarmos a farinha de mandioca na forma simples ou como farofa, em todas as refeições. De fato, a farinha serve como cimento a ligar todos os pratos e todas as comidas. Enquanto ingleses e franceses usam molhos para pratos específicos, nós temos comidas que são múltiplas com seus caldos, molhos e sucos. Mas é importante acentuar que a comida misturada é a espécie de imagem perfeita da situação que ela engendra e ajuda a saborear. É traço importante a transformar o ato de comer num gesto brasileiro. Assim, entre o sólido (prato principal de comidas europeias e americanas) e o líquido, preferimos a forma intermediária. O cozido é sólido e é líquido. Entre a carne e a verdura – que entram nos pratos europeus como comidas principais e secundárias –, somos dados a uma ligação entre os dois. E o cozido e a feijoada o realizam de modo perfeito, com a moqueca e a peixada, onde se pode reunir tudo. É claro que isso foi um legado do mundo ibérico, que enquadra nossa culinária, mas a preferência denota uma forma evidente de escolha. Tal como sermos um país de três raças, mestiços e mulatos, onde tudo que é contrário lá fora aqui dentro fica combinado, nossa comida revela a mesma lógica. Temos uma culinária relacional, que expressa de modo privilegiado uma sociedade relacional. É um sistema em que as relações são mais que mero resultado de ações, desejos e encontros individuais. Entre nós se constituem, em muitas ocasiões, em verdadeiros sujeitos das situações, trazendo para elas o seu ponto de vista. Um ponto de vista que sintetiza sempre as posições de quem está engajado na relação. No nosso mundo culinário, o que privilegiamos não é o prato separado (China ou Japão), nem a combinação de pratos separados fortes e descontínuos (França e Inglaterra), mas a possibilidade de estabelecer, também pela comida, gradações e hierarquias, permitindo escolhas entre uma comida (o prato) que é central e dada de uma vez por todas – a comida principal – e seus coadjuvantes ou ingredientes periféricos, que servem para juntar e misturar. Temos na nossa cozinha, na nossa comida e no nosso modo de comer uma obsessão pelo código culinário relacional e intermediário. Um código marcado pela ligação (DAMATTA, 1986, p. 4‑6). Assim, a descoberta, a estranheza, o deslumbramento, a rejeição e o fascínio foram as sensações vividas pelos portugueses ao tomarem contato com a fauna e a flora brasileira. Romantismos à parte, a comida dos índios e, posteriormente, a dos negros eram vistas com grande desconfiança e até mesmo com repugnância por parte da população branca que visitava ou se fixava no Brasil. 123 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Durante a viagem que Yves d’Évreux realizou pelo Norte do Brasil, a repugnância às comidas indígenas foi relatada em suas crônicas (entre 1613 e 1614). O autor observou e descreveu as práticas alimentares dos índios, bem como a aversão que certos preparos lhe causavam, o que não era uma realidade para todos os restantes franceses que o acompanhavam. Por exemplo, em relação aos jacarés, considerou: [...] se são pequenos, cozinham‑nos com escamas, e assim preparados acham‑nos muito bons, até delicados, porque assados com sua gordura, dizem eles, nada perdem de sua substância. Achei melhor crer do que experimentar, embora tivesse muitas ocasiões de o fazer [...]. A recordação somente desses animais me fazia náuseas até o coração, à vista destes pedaços (D’ÉVREUX, 1984, p. 205). Nem todos os gêneros locais agradaram os europeus, na realidade, parece ter sido frequente a importação de vários bens alimentares e de bebidas, da metrópole e de diversos outros pontos da Europa, que não eram produzidos na colônia. Apesar das críticas, os europeus também elogiavam os produtos brasileiros. Em 1561, o padre Rui Pereira (1988), que nunca poupou elogios à culinária indígena, informou que, por falta de farinha, os jesuítas residentes da Bahia comiam bananas assadas e milho verde. Se alguns tinham que se adaptar aos novos sabores e outros se valiam da importação, outros, ainda, por necessidade e/ou por curiosidade, não deixaram de experimentar os produtos exóticos. Entre esses contam‑se não só os colonos, mas também missionários e viajantes mais ousados. Na verdade, o que acontecia era a busca incessante por produtos que substituíssem os sabores das receitas que os europeus estavam acostumados a ingerir. Para muitos, o fascínio mais significativo foi provocado não pela fertilidade da terra (e pela consequente diversidade de produtos), mas em especial pelas frutas. O fascínio pelas novidades da fauna e da flora de outros continentes deu origem, logo no final do século XV, à prática de colecionar espécies diferentes das existentes na Europa. A curiosidade por novas plantas e novos animais motivou descrições e desenhos, mas faltava um método científico que permitisse classificar e sistematizar as espécies. A influência de Portugal e de Castela na introdução dos produtos das colônias no continente europeu foi uma realidade incontestada. A Europa passou a conhecer as primeiras descrições das floras, das faunas e dos povos africanos, asiáticos e americanos principalmente por meio dos relatos das viagens exploratórias e colonizadoras de portugueses e espanhóis. Os primeiros colonizadores, ao viajarem, levaram um conjunto de práticas culturais alimentares, as quais foram sendo adaptadas conforme os elementos locais e dando origem, por sua vez, a um novo sistema alimentar e a uma nova cozinha, num processo dinâmico que foi influenciado por alterações temporais e espaciais. Tupi, guarani, tupinambá, tapuia, xavante, kamayurá, yanomami, kadiweu, txukarramãe, kaingang, krahô, kalapalo, yawalapiti são algumas das etnias que estavam no Brasil antes de os colonizadores portugueses chegarem, em 1500. Os indígenas são a memória viva do tempo em que se caminhava com a floresta, os rios, as estrelas e as montanhas no território brasileiro. 124 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Esses clãs, tribos e povos têm uma árvore em comum que remete aos nomes: Tupy, Jê, Karib e Aruak. Antes da chegada dos portugueses, esses povos nativos eram denominados em tupi como filhos do sol e filhos da lua. Na língua abanheenga também se dizia tupinambá, tupi‑guarani e tapuia. Os tapuia eram nômades e tinham muitos dialetos. Os tupi dividiam‑se em tupinambá e tupi‑guarani e trouxeram a tradição do sol e da lua. Os povos chamados tapuia no século XVI pelos tupinambás e de negros da terra pelos colonizadores contribuíram fortemente para a construção cultural e alimentar do povo brasileiro, principalmente com relação à forma de cultivar e de manejar a terra. Segundo estudiosos da civilização urbana, as formas nativas de lidar com a flora e a fauna foram desenvolvidas para gerar um equilíbrio sustentável no processamento de alimentos e adquiridas pelos exploradores. Os livros de História do Brasil iniciam seu texto em 1500, com a chegada de Cabral, na Bahia, sem trazer relevância aos povos indígenas que aqui habitavam. Em outros locais da América Latina, como no México, o culto à ancestralidadepré‑colombiana passa pelo clamor de identidade indígena: ter uma identidade é ter memória própria. Por isso, a recuperação da História indígena é um direito fundamental da sociedade brasileira. É, também, pela atual Constituição, o fundamento dos direitos territoriais indígenas e, particularmente, da garantia de suas terras. Os índios, diferentemente do agricultor ocidental que classifica determinados solos como improdutivos, conhecem e entendem a diversidade ecológica e o habitat de cada espécie e, dessa maneira, promovem o desenvolvimento vegetal e a integração com os animais e o homem. Pelo conhecimento que têm da natureza, suas ações valorizam a diversidade biológica e ecológica, pois visam à conservação do ambiente no qual vivem. Várias espécies vegetais já eram coletadas e utilizadas pelos índios antes de serem descobertas e adotadas pelos colonizadores europeus e ganharem reconhecimento mundial, como: borracha, castanha‑do‑pará, batata, milho, guaraná, erva‑mate, tabaco, algodão etc. Ainda, diversas plantas medicinais que servem de base para fabricação de remédios foram descobertas e utilizadas primeiramente pelos índios. Os conhecimentos etnobotânicos e etnozoológicos também são destaque pelo modo pouco agressivo com o qual os índios manejam os pequenos ambientes que exploram. O cultivo é feito de maneira racional, com rotação do solo, com fertilização inorgânica e controles naturais da exposição ao sol e à chuva. A mandioca é indicada como a principal planta herdada dos indígenas e representa a maior fonte de sua alimentação. Entre as várias vantagens em seu cultivo, estão a pouca suscetibilidade a pragas, a propensão ao desenvolvimento em qualquer tipo de solo e a facilidade de estocagem. Portanto, a grande lição moral e ecológica que os índios nos ensinam é que o homem faz parte de um sistema cuja importância transcende nossas vidas, sendo a preservação da qualidade de vida apenas possível se houver uma harmoniosa evolução de todas as formas de vida, ou seja, o equilíbrio do ecossistema. 125 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Figura 72 – Indígenas da Amazônia Aos nativos do Brasil juntaram‑se os negros trazidos da África. O milho foi saboreado na pamonha e na canjica, o mingau de carimã com base fermentada de mandioca recebeu açúcar ou mel, transformando‑se em um delicioso creme. Da mistura acrescida de leite de vaca e gema de ovo nasceram bolos brasileiros com erva‑doce, cravo‑da‑índia, canela e alecrim. A culinária portuguesa era permeável às contribuições nativas e africanas. Para desenvolver a doceria no Brasil, as quituteiras escravas passaram a fazer parte da vida da colônia emprestando feições e sabores às casas senhoriais, desenvolvendo, assim, grande influência na evolução da culinária brasileira. Receitas tradicionais portuguesas evoluíram nas mãos das africanas, que incluíram caju, amendoim, maracujá, abacaxi, mangaba, goiaba, que eram frutas da terra (em Portugal tais receitas eram feitas com maçãs, peras, pêssegos, figos e marmelos). Os negros africanos deram também seu toque em pratos salgados, introduzindo o azeite de dendê, o camarão seco, a pimenta malagueta, o inhame e as folhas para condimentos e molhos. No preparo do bacalhau, trocaram o azeite doce por leite de coco, incluíram feijão‑preto, quiabo e angu. A influência africana incidiu sobre preparar, temperar alimentos e integrar ingredientes à culinária brasileira. O avanço da colonização concretizou refeições luso‑tropicais. Guiné e Angola são as duas regiões da África que mais possuem ligações ancestrais com os negros que foram forçados a vir para o Brasil no período da escravidão. Viajavam amontoados em grandes navios, acorrentados, em condições desumanas, sem higiene e alimentação mínima. Muitos nem completavam a travessia da África ao Brasil, morrendo em razão das péssimas condições da viagem. Juntamente com os negros que desembarcavam no Brasil, chegaram também os brancos colonizadores portugueses. Muitos deles se instalaram aqui com suas famílias e aprenderam com as tribos indígenas, que já eram habitantes do território, e com os negros forçados a vir ao Brasil a cozinhar e se alimentar adaptando‑se ao solo brasileiro. Assim, nasceu a cozinha brasileira, de raízes indígena, negra e portuguesa. 126 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Os escravos negros eram afeiçoados e acostumados culturalmente a comer carne de caça, peixe, crustáceos e moluscos. Raramente matavam cabras, porcos, ovelhas ou carneiros para consumo próprio, fazendo‑o apenas para vender. Nesses casos, aproveitavam as vísceras para comer fritas, assadas ou cozidas no feijão, e também os ossos, com os quais preparavam o tutano para comer ou fazer remédio para reumatismo, desprezando a língua e os miolos. Também não gostavam de beber leite dos animais, nem cru, nem cozido, pois consideravam bebida de criança, e não de adulto. O escravo negro usava o leite apenas coalhado ou misturado a outros alimentos como abóboras, batatas ou farinhas. Quanto às galinhas trazidas para o Brasil pelos portugueses, nem os negros, nem os índios as apreciavam, sendo elas geralmente reservadas para as mulheres em dias de resguardo no pós‑parto. Daí até hoje considerarmos canja de galinha uma comida de doente. O português foi o maior consumidor de galinhas e de seus produtos, mas, mesmo assim, ela não era comida do povo, estando reservada às classes ricas para os domingos ou dias santos: eram recheadas com farinha de mandioca torrada, manteiga e especiarias. Até pouco tempo atrás, aliás, a galinha era consumida ocasionalmente, não fazendo parte da dieta brasileira no período colonial. Tampouco os ovos de galinha eram apreciados pelos índios e pelos negros, pois eles acreditavam que a caça de pesca era mais justa na relação entre homem e animal. Já os portugueses usavam muito os ovos em seus pratos, passando a prepará‑los cozidos, fritos, moles, quentes ou em fritadas variadas. Foram ainda acrescentados aos pratos indígenas, como canjica, mingaus e principalmente nos doces. Muitas sobremesas nasceram no Brasil com a fusão das culturas de índios, negros e portugueses, com o açúcar dos engenhos, oferecendo criatividade e valorização de receitas simples (como os mingaus). O cará foi transformado em manjar, e a goma passou a substituir a farinha de trigo vinda da Europa, fazendo surgir os primeiros bolos brasileiros (como o bolo de macaxeira). Dentre as diferentes formas de memória coletiva, uma das mais persistentes é a memória culinária, com sua variedade de sabores, aromas e cores que resistem ao impacto do tempo e até mesmo ao desenraizamento cultural e geográfico. Por isso, a lembrança dos pratos feitos pelos antepassados ocupa um lugar tão importante nos relatos dos imigrantes que trocam de país, obrigados a se adaptarem a novas relações sociais, novos costumes e, sobretudo, novos hábitos alimentares. Ainda que cada um guarde em seu depoimento a singularidade de um percurso familiar cheio de acidentes e de motivações diversas, todos acabam compondo um relato exemplar da trajetória do imigrante que viajou com a expectativa de conquistar a América e às vezes sonhou com o retorno à pátria original. Uns, conseguiram; outros, acabaram constituindo famílias por aqui. Tanto os imigrantes que se fixaram no Brasil quanto os que retornaram à sua pátria original auxiliaram na construção de um mosaico de costumes, línguas, religiões e sabores da cultura nacional. Como resultado, podemos perceber e viver uma culinária brasileira diversa que se construiu através da memória coletiva de váriospovos. 127 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Observação Você sabe a origem do nome do famoso prato italiano spaghetti alla puttanesca? Conta‑se que foram as prostitutas de Nápoles que inventaram o spaghetti alla puttanesca. Esse prato, por seu delicioso aroma de azeitonas, alho e anchovas, cozinhando em molho de tomate, atrairia mais fregueses. Há quem diga que a história é outra. Puttanesca seria o prato ideal da mulher respeitável, que se encontra com o amante no fim da tarde, mas não pode falhar com seus compromissos domésticos. Antes de sair para o encontro, ela prepara o molho, deixando‑o marinar enquanto está fora. Depois, volta para casa e, em minutos, o serve para o marido faminto. Encantado e saciado, quem disse que ele desconfiaria (HECK; BELLUZZO, 1999)? 8 AS CARACTERÍSTICAS REGIONAIS DA GASTRONOMIA NO BRASIL As características regionais da culinária brasileira estão ligadas a fatores ambientais e sociais. Ambientais como solo, clima, geografia, fauna e flora; já os sociais estão ligados ao tipo de colonização e de imigração em determinados períodos da história do País. Durante pelo menos três séculos e meio, a alimentação do brasileiro, de um modo geral e sobretudo nas áreas em que mais se fez sentir a influência dos nativos, repousava em grande parte na cultura e no consumo da mandioca (Manihot utilíssima), em suas diferentes maneiras de preparo. Na geografia alimentar do Brasil, em todas as regiões a mandioca exerce ainda hoje importante papel no regime nutricionista, muito embora complementarmente com a carne e outros produtos alimentícios. A mandioca é a mais brasileira de todas as plantas econômicas, dada a sua ligação com o desenvolvimento histórico, social e econômico do nosso povo, como cultura de subsistência, acompanhando a construção do Estado‑nação brasileiro. É incontestável que antes da chegada dos europeus ao nosso território, os índios tupis já conheciam o uso e a cultura da mandioca. Gilberto Freyre, em 1926, escreveu o Manifesto Regionalista e fez o resumo do discurso da culinária brasileira vigente pelo menos até o final do século XX, antes da Amazônia ser compreendida internacionalmente como a última fronteira gastronômica do mundo. Três regiões culinárias destacam‑se hoje no Brasil: a baiana, a nordestina e a mineira. A baiana é decerto a mais poderosamente imperial das três. Mas talvez não seja a mais importante do ponto de vista sociologicamente brasileiro. Outras tradições culinárias menos importantes poderiam ser acrescentadas, com suas cores próprias, ao mapa que se organizasse das variações de mesa, sobremesa e tabuleiro em nosso país: a região do extremo Norte, 128 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV com a predominância de influência indígena e dos complexos culinários da tartaruga [...] e da castanha, que se salienta não só na confeitaria como nas próprias sopas regionais – tudo refrescado com açaí célebre [...]; a região fluminense e norte‑paulista, irmã da nordestina em muita coisa, pois se apresenta condicionada por idênticas tradições agrário‑patriarcais e, mais de uma sub‑região fluminense, pelo mesmo uso farto do açúcar; a região gaúcha, em que a mesa é um tanto rústica, embora mais farta que as outras em boa carne [...]. O mais poderia ser descrito, do ponto de vista culinário, como sertão: áreas caracterizadas por uma cozinha ainda agreste [...], e nas florestas do centro do país, pela utilização da caça e do peixe de rio – tudo ascética e rusticamente preparado. A influência portuguesa onde parece manifestar‑se ainda hoje mais forte é no litoral, do Maranhão ao Rio de Janeiro. Ao Rio de Janeiro ou a Santos. [...] A influência ameríndia é particularmente notável no extremo Norte [...]. Mas, como noutras artes, as três grandes influências de cultura que se encontram à base das principais cozinhas regionais brasileiras de sua estética são a portuguesa, a africana e a ameríndia, com as predominâncias regionais já assinaladas (FREYRE, 1952, p. 82). Quadro 2 – Principais produtos e pratos típicos das regiões brasileiras Região Norte Mandioca, farinha, beijus, pirões, mingaus, cupuaçu, pupunha, biriba (fruta‑do‑conde mais doce), castanha‑do‑pará, guaraná. Além de alimentos secos como o camarão, as frutas silvestres (açaí, murici, graviola, bacuri, mangaba, pupunha), jambu. Pratos típicos: tacacá (caldo do tucupi com folhas de jambu); maniçoba (carne de sol, cabeça de porco, mocotó, toucinho, sal, alho, louro, hortelã‑pimenta e folhas de mandioca tratada); açaí com tapioca; carnes assadas de jacaré e tartarugas, caruru, vatapá. Região Nordeste Alimentos derivados da farinha de mandioca, feijão, carne de sol (influência indígena), rapadura, milho, peixes, frutos do mar. Sertão: carne bovina, caprina, leite e manteiga, feijão, batata‑doce, mandioca, alguns legumes e frutas nativas. Pratos típicos: angu e cuscuz (cujo modo de preparo pode variar dependendo do local); abóbora com leite, queijo com rapadura, batata‑doce com café, doce de leite com banana, polenta com leite; galinha de cabidela (influência portuguesa); acarajé, vatapá, abará, caruru (influência africana). Região Centro‑Oeste Pesca e caça (pacu, piranha, dourado, pintado, anta, cotia, paca, capivara, veado, jacaré). Alguns pratos típicos: peixe na telha, peixe com banana, carne com banana, costelinha, bolinhos de arroz, pamonha, feijão tropeiro, carne seca, toucinho, banha de porco. Região Sudeste Goiabada cascão, doce de leite, feijão, milho, porco, queijo serra da canastra, pão de queijo, ora‑pro‑nóbis. Pratos típicos: moqueca de peixe cozida em panela de barro à base de coentro e urucum. Tem‑se ainda quibebe, torta capixaba (feita de bacalhau), peixes e frutos do mar, feijão tropeiro, tutu de feijão, torresmo, angu com quiabo, couve à mineira, canjiquinha com carne, curau, pamonha, broa. Influência dos imigrantes: pizza, lasanha, macarrão, nhoque, canelone, pães, paelha, quibes, esfihas, grão de bico, gergelim, sushi, sashimi. Região Sul Influência culinária dos poloneses: repolho à moda, pão de leite e sopas; dos italianos: uvas, vinho, pães, queijos, salames, massas em geral e sorvetes; dos alemães: batata, centeio, carnes defumadas, cerveja, linguiça, laticínios, cuca, torta de maçã, bolo de frutas, hábito do café colonial. Peixes como tainha e demais frutos do mar, arroz com charque, churrasco. 129 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO 8.1 Região Norte A Região Norte conta, ainda no século XXI, com características relacionadas aos povos indígenas. A mandioca é o alimento típico dessa região, herdada da cultura das etnias indígenas vigentes na área, porém, não é exclusividade do Norte do Brasil. Ela é consumida em todo o território nacional; na verdade, a mandioca é um alimento internacional. Inicialmente indígena, as práticas de caça, pesca, cultivo de mandioca e preparação de pratos dominaram o hábito alimentar amazônico, apesar da imigração nordestina. A situação geográfica instigou o modo de se alimentar, e o peixe é a proteína base até hoje. Quando europeus – ingleses, alemães, italianos, franceses e portugueses – descobriram a riqueza da região, foi necessário trazerem de seus países conservas alimentícias para se manterem alimentados, conservas as quais posteriormente foram combinadas ao charque, ao feijão, à farinha d’água e ao arroz. O Norte abriga uma biodiversidade de fauna e flora que lhe garantevariedade de ingredientes e modos para pratos típicos. Fundamentada em caça e pesca, a cozinha do Norte do País tem o ritual dos molhos, como o tucupi, que não suportam viagens longas, deteriorando‑se facilmente e, por isso, precisam ser consumidos em curto prazo. Tal característica afeta, inclusive, a exportação do tucupi: mesmo congelado, não há garantia de fidelidade e propriedade do paladar (à parte a indiscutível segurança alimentar). Tambaqui, traíra, piranha, pescada amarela, pescada branca, sardinha de rio, tucunaré, pacu, mapará e pirarucu (também é conhecido como bacalhau da Amazônia) são os peixes mais conhecidos. A cozinha é popular e explora produtos regionais e sazonais. Consomem‑se alimentos ao ar livre, em tabuleiros, às portas de igrejas, calçadas, largos, em esquinas, mercados, feiras e em pequenos restaurantes de estradas. Come‑se até hoje o que o índio comia: peixes de rio, milho, mandioca, cará (inhame), utilizando‑se temperos com ervas naturais. A autenticidade continua na sobremesa, com as frutas locais se transformando em sorvetes, compotas, doces, geleias, tortas, pudins e bombom de cupuaçu. Na gastronomia amazônica, o molho é fundamental: combinam‑se limão, pimenta, sal e alho para temperar guisados de caça e peixes. Pimenta‑de‑cheiro e jambu proporcionam sabor picante e dormência nos lábios. O tacacá é um caldo inspirado na culinária indígena, servido quente em uma cuia. A receita leva goma de mandioca, camarão seco, pimenta‑de‑cheiro, tucupi e jambu (erva que causa leve sensação de dormência na boca). No fim da tarde, procurar uma barraquinha e pedir um tacacá é um dos programas mais saborosos da capital paraense. Os locais garantem que o caldo, de tão quente, ajuda a espantar o calor úmido típico da região (no Marrocos os chás também são consumidos bem quentes, segundo os locais, para equilibrar o calor constante de clima de deserto). 130 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Figura 73 – O camarão seco é um dos componentes do tacacá O tucupi, extraído da mandioca‑brava, é o principal ingrediente da culinária do Pará. O suco obtido após a prensa da raiz precisa ser fervido demoradamente – só assim é possível eliminar o venenoso ácido cianídrico do líquido amarelado. No último estágio, o caldo ganha tempero de chicória e alfavaca. É no equilíbrio entre o uso desses temperos e do tempo de fervura que é obtido o líquido um tanto quanto ácido, fundamental para pratos como tacacá e pato no tucupi. A maniçoba é feita com pertences suínos. Apesar de ser conhecida como feijoada paraense, também é típica do Recôncavo baiano. A diferença é que a folha da maniva (folha da mandioca) substitui o feijão. De origem indígena, a receita envolve um verdadeiro ritual de preparo: são sete dias de cozimento da folha da mandioca até que todo o ácido cianídrico (que é venenoso) seja totalmente evaporado. Arroz, farinha de mandioca e pimenta acompanham o prato, que tem presença obrigatória no Natal dos paraenses, o Círio de Nazaré. Figura 74 – Plantação de mandioca 131 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO 8.2 Região Nordeste Gostos, temperos, receitas caracterizam uma das culturas mais originalmente brasileiras. Resultante da miscigenação entre indígenas, africanos e lusitanos, especialmente, a culinária nordestina transformou ingredientes que a boa e generosa natureza oferecia, enriquecendo‑os com produtos da Península Ibérica, com receitas tradicionais adaptadas. Regionalmente, as cozinhas assumem diferentes valores. Os cardápios do sertão são mais secos, angulosos, de sabores pontuais; abastecem mesas com delícias assadas, cozidas com suas carnes. A do litoral é mais diversificada, especialmente na produção de doces variados em quantidade e sabores. A singularidade da culinária baiana provém do dendê, antes utilizado para embelezar corpos e cabelos de negros ou protegê‑los contra energias negativas. Seu fruto íntegro serve como fetiche de Ifá, o orixá da adivinhação. A gastronomia da Baía de Todos‑os‑Santos pode ser dividida em: • culinária de festas: enriquecida por azeite de cheiro ou de dendê; • culinária cotidiana: sem ingredientes típicos; • cozinha sertaneja: de grande influência portuguesa, caracteriza‑se pela simplicidade e pelo aproveitamento de produtos regionais (carne de sol, de bode, jerimum, aipim/mandioca, feijão andu e feijão de leite), que alimentam boiadeiros e sertanejos. Moqueca, poquemboqué (guarani), pokeka (Pará) e mu’keka (África) são alternativas à origem da moqueca baiana. De etimologia incerta, é fundamentalmente uma preparação muito picante (em razão da pimenta malagueta). Sua receita pode conter leite de coco, dendê e azeite de oliva, variação africana. Câmara Cascudo (2004) diz ser moqueca uma palavra tupi, referente a alimentos cozidos ou assados em grelhas de paus (moquéns), onde pequenos peixes envoltos em folhas de bananeira recheados com pimenta eram grelhados (moqueados). A moqueca de folha atual é consumida fria, como o acarajé ou o abará, à venda entre as baianas dos tabuleiros. Derivações da moqueca são pratos quentes. Evoluídos ao se preparar não apenas com peixes e mariscos, mas com carne de sol, carne charqueada ou ovos, respeita‑se a característica principal, a pimenta, a ser servida à parte, como molho, acompanham arroz branco e farofa de dendê. Em moquecas de siri mole, feijão de leite e farinha seca são mais aceitos. Carne verde e carne seca são complementadas com farofa d’água ou farinha seca (CASCUDO, 2004). 132 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Figura 75 – Moqueca e acompanhamentos No bobó de camarão tradicional emprega‑se inhame (raiz asiática trazida ao Brasil pelos negros africanos no período da escravidão) ou mandioca. Assemelha‑se ao prato africano ipetê: camarão seco, azeite de dendê e pimenta malagueta. A doceria baiana sofreu influência direta de Portugal, adaptando as receitas aos ingredientes da terra: alféloa, amigueiro, ambrosia, beijo de estudante, beijo de jenipapo, cocadas e doces de frutas. Essencialmente, a culinária alagoana segue a dos demais estados nordestinos. Influenciada por europeus, indígenas e africanos, explorando ao máximo os ingredientes disponíveis na região. Pescados e frutos do mar, como cavala‑perna‑de‑moça, sirigado, arabaiana, cioba, robalo, carapeba, pitu, sururu e camarão à base de leite de coco são os destaques da gastronomia (CASCUDO, 2004). As frutas da região são variadas e exóticas: jaca, manga, graviola, caju, cajá, acerola, mangaba, pitanga, pitomba, seriguela, sapoti e pinha são alguns exemplos de produtos consumidos in natura ou como sucos, sorvetes e doces. Doce de banana, de goiaba e pastilha de jenipapo são considerados patrimônios do povo alagoano. A presença de pescados e frutos do mar na gastronomia sergipana é inevitável. Destacam‑se o guaiamum (crustáceo graúdo, de cor azulada e semelhante ao caranguejo), consumido em bares e quiosques da orla. Arraia servida com leite de coco, ensopada e na forma de moqueca também estão entre os pratos mais pedidos em Sergipe. O litoral pernambucano, cobiçado pela riqueza do seu solo e alta capacidade de produção da cana‑de‑açúcar e algodão, foi palco de lutas entre portugueses e holandeses. Os habitantes locais (índios caetés) foram exterminados e a mão de obra, então, era o escravo africano. Os africanos tiveram um papel significativo na popularização da culinária presente nas casas‑grandes ao levarem seus tabuleirospara as ruas e vendendo seus quitutes. Devido à abundância do açúcar, muitas receitas de sobremesa ficaram famosas em Pernambuco, sendo o bolo de rolo e o bolo Souza Leão as mais conhecidas e tradicionais. 133 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Figura 76 – Bolo de rolo, uma das iguarias mais famosas de Pernambuco O bolo de rolo, típico de Pernambuco, é constituído por finíssimas camadas de massa intercaladas com goiabada, assemelhando‑se à bebinca, um doce português criado em Goa, e à dobostorte austríaca. Atualmente outros recheios podem ser utilizados, mas a preferência continua sendo pelo original, com goiabada, servido em fatias tão finas quanto as suas camadas. No entanto, a receita de doce pernambucano mais conhecida é do bolo Souza Leão. Sua massa é feita à base açúcar, água fria, manteiga, massa de mandioca (puba), gema‑de‑ovo, leite de coco, canela, cravo‑da‑índia e erva‑doce. Traz o nome da família que o criou na época dos engenhos de açúcar. Receita de bolo Souza Leão Sobre 2 cocos raspados deitam‑se 2 xícaras d’água fervendo e um pouquinho de sal. Abafa‑se tudo por espaço de 10 minutos e espreme‑se. Derrete‑se separadamente 1 colher de manteiga e, depois de fria, reúne‑se ao leite de coco. Juntam‑se 12 gemas apenas desmanchadas, 3 xícaras de massa de mandioca, ½ quilo de açúcar. Passa‑se tudo em uma peneira e por fim deita‑se um punhado de castanhas de caju e vai ao forno quente, em forma untada com manteiga. Fonte: Freyre,1939, p. 120. 134 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV A região do agreste esbanja a diversidade de seus rebanhos, com produção de queijos de manteiga, de coalho, carne de sol, buchadas e arroz de leite. No sertão, paçocas e arrumadinhos fazem sucesso. Em todo o Pernambuco, as festas juninas merecem destaque pela abundância na fabricação de bolos de milho, pamonhas e cocadas. 8.3 Região Centro‑Oeste O Centro‑Oeste tem uma diversidade gastronômica influenciada por exploradores e viajantes que passaram ou ali se instalaram. Existem elementos em todo o País, como carne de sol nordestina, milho de mineiros e arroz carreteiro de gaúchos. Bandeirantes, garimpeiros, afrodescendentes fugindo da escravidão, experimentaram a febre do ouro, da prata e dos diamantes, mas eram escassos os recursos do solo. Em compensação, pecuaristas, seringueiros e exploradores de erva‑mate descobriram as riquezas e transformaram a pecuária e a agricultura em suas principais atividades econômicas. Figura 77 – A flor do pequi A culinária regional recebeu influências indígenas, africanas e portuguesas, por meio de riquezas naturais e terras férteis. Da Bolívia e do Paraguai houve também uma influência considerável: os bolivianos com as saltenhas (pastéis de frango assado) e os paraguaios com suas chipas (biscoito com formato de ferradura). Entretanto, guariroba, pequi, banana‑da‑terra, peixes e alguns tipos de caça (capivara, tatu, anta, paca e marreco) fazem a festa da terra. Uma característica comum às receitas é o uso abundante de condimentos: cúrcuma em pó, gengibre, alho, cebola, salsinha, cebolinha e pimenta. De longa data é a miscigenação do branco europeu com o índio em Mato Grosso. Várias etnias indígenas habitavam a região. A influência dos negros veio duzentos anos mais tarde que a dos brancos europeus, após a Guerra do Paraguai. 135 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Saiba mais Durante a Guerra do Paraguai, mais de 350 mil pessoas morreram. O documentário indicado a seguir permite que você aprofunde seu conhecimento sobre o assunto tendo acesso a locais de batalha, documentos e fotografias raras, além da análise de especialistas no assunto: A ÚLTIMA guerra do Prata. Brasil: TV Escola/Digitallcine, 2014. 110 minutos. Disponível em: <https://tvescola.mec.gov.br/tve/video/documentario ‑‑a‑ultima‑guerra‑do‑prata‑‑versao‑original>. Acesso em: 8 dez. 2017. A culinária mato‑grossense é rica em peixes, carnes de porco, boi, caças, arroz, tubérculos, chás e frutas. Os mato‑grossenses herdaram dos índios o hábito de não beber leite, nem ingerir seus derivados. Já no Mato Grosso do Sul, a culinária pantaneira sofreu influências indígenas e de colonizadores jesuítas espanhóis. Os bandeirantes chegaram pelo planalto, saindo de São Paulo e seguindo os rios Tietê e Paraná, em busca de riquezas minerais e mão de obra indígena. Figura 78 – A pecuária de corte e o desmatamento em prol do agronegócio Inicialmente, as atividades ligavam‑se à pecuária de corte; depois, à agricultura. Usa‑se a carne em receitas típicas: arroz de carreteiro, sarrabulho (carnes e miúdos cozidos em vinho), cozido (carne, legumes, milho e banana), puchero (prato espanhol adaptado do Paraguai com carne com osso, alho e sal bem cozidos) e caribéu (carne seca frita, depois cozida com mandioca e polpa de bocaiuva). Apesar da forte influência pantaneira, fora dos pantanais a gastronomia assimila sabores japoneses, chineses, libaneses, paraguaios, italianos, bolivianos, gaúchos e mineiros, confirmados nos estabelecimentos comerciais de alimentos e bebidas, com destaque à culinária japonesa. 136 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV 8.4 Região Sudeste A cozinha paulista generaliza‑se na mistura dos povos que predominam no Brasil: índios, negros, portugueses, italianos, japoneses, libaneses e árabes tipificaram uma culinária própria na região. A diversificação iniciada na colônia e sequenciada no império até hoje lega contribuições à gastronomia. As etnias rendem a São Paulo o título de capital da gastronomia, com restaurantes e pratos típicos de mais de quarenta países. A extensão consagra opções que tornam a capital paulista uma cidade movimentada em oferta alimentícia internacionalmente. Ao contrário de outras capitais brasileiras, São Paulo não focou sua economia na monocultura. É verdade que o café foi muito forte na região, mas a cidade de São Paulo apenas ganhou força nacional com o declínio da economia cafeeira e o surgimento da economia industrial. Com a policultura firmada, imigrantes desenvolveram pratos típicos no estado, logo juntados a hábitos brasileiros. Italianos com macarronadas e pizzas, árabes com quibes, portugueses com bacalhoadas e assim por diante. O passado bandeirante legou os costumes e a influência sertaneja paulista à gastronomia típica de viajantes. A população adaptou a simplicidade dos pratos com carne seca (ou defumada ou toucinho) e fez as receitas de arroz carreteiro e virado de feijão a seu modo. O cuscuz à paulista, herdado de índios e bandeirantes, é elaborado com farinha de milho. A criação é inspirada nos mouros, que introduziram o cuscuz na Península Ibérica (Portugal e Espanha), de onde veio para o Brasil. O Nordeste brasileiro ganhou a versão doce e São Paulo ganhou a versão de tropeiros, com galinha e camarão. Figura 79 – O cuscuz marroquino inspirou o cuscuz brasileiro 137 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Figura 80 – O cuscuz paulista é salgado e pode ser feito com camarão e ovo cozido Por ter recebido a corte portuguesa em 1808, o Rio de Janeiro foi a cidade que mais recebeu novidades gastronômicas no Brasil. O grande orgulhocarioca é a feijoada, prato que é a principal referência nacional, quanto à gastronomia, no mundo inteiro. Mas o Rio de Janeiro não é apenas a feijoada. Filé com fritas, sopa Leão Veloso e camarão ensopado também fazem parte da culinária típica carioca. Atração à parte são os botequins e sua culinária: filé à Osvaldo Aranha, malpassado, com arroz, batatas fritas, farofa e bastante alho, e filé à francesa, acompanhado de ervilha, tiras de presunto e batata palha. A maioria dos botequins cariocas tem inspiração ou influência portuguesa. Na fase imperial de 1840‑1889, mocotó, bobó, pirão de peixe, caruru, vatapá e feijoada eram os pratos mais populares da capital fluminense. Das mais autênticas, a cozinha capixaba recebeu grande influência das cozinhas portuguesa (azeite de oliva, alho, coentro, pimenta‑do‑reino) e indígena (farinha de mandioca, óleo de urucum, banana‑da‑terra), conservando o hábito (secular) de cozer em panelas de barro. Em tupi, capixaba significa pequena propriedade ou rocinha de milho provinda da cultura indígena na região. A cozinha mineira é bem brasileira, de parca influência estrangeira, bastante diversificada no seu próprio estado. A culinária encanta por ser característica, rica em sabor, repleta de histórias de bandeirantes e escravos no ciclo do ouro, das pedras preciosas. O que conta é a fartura, não deixar o visitante insatisfeito. A preocupação de combinar pratos não existe, e sua base é a tríade: feijão, angu e couve. 138 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Figura 81 – Um símbolo nacional, o feijão Minas Gerais formou‑se no fim do século XVII, com a economia da mineração. Os primeiros habitantes não pensaram em agricultura, nem em pecuária. Os alimentos eram escassos. Todos queriam a extração mineral. A decadência da cana‑de‑açúcar levou gente do litoral para o interior do Brasil. As cozinheiras descobriram como criar em seus quintais porcos e galinhas, herança portuguesa. A culinária de Minas é conceitualmente a do viajante. Combina feijão, milho, porco, mandioca, ovo, couve, linguiça e cebola. Feijão é hábito alimentar indígena, absorvido na formação dos povos brasileiros. É o mais mineiro dos pratos, numa gastronomia com fogão à lenha e temperos caseiros. O século XIX ampliou ingredientes e receitas, tornando a cozinha mais completa. O café tornou‑se bebida predileta. Após a decadência da mineração, a agricultura de subsistência prosperou. A pecuária e os laticínios foram o ponto forte da economia mineira. Leites, queijos, doce de leite e pão de queijo (o patrimônio imaterial brasileiro). As aguardentes servem até hoje como aperitivos. Saiba mais O dossiê indicado a seguir trata em detalhes sobre o queijo artesanal mineiro: MENESES, J. N. C. Queijo artesanal de Minas: patrimônio cultural do Brasil. Belo Horizonte: Ministério da Cultura, 2006. Disponível em: <http:// portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/arquivos/Dossie_modo_fazer_queijo_ minas.pdf>. Acesso em: 8 dez. 2017. 139 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Figura 82 – Pão de queijo, patrimônio imaterial brasileiro 8.5 Região Sul Os portugueses abordaram o Paraná por volta de 1540, mas só nos anos 1600 ocuparam a região, que já contava com várias etnias indígenas. Portugueses, negros, índios e espanhóis foram os povos que desenvolveram a culinária do estado, criando e comercializando gado, além de plantar milho, feijão, mandioca, batata, trigo e arroz. Charque e carnes suínas e bovinas, peixe, leite e derivados, laranja, pêssego, ameixa, maçã, jabuticaba, pera, marmelo, limão e uva também compunham a alimentação. Quando Curitiba foi instituída capital, em 1853, da Província do Paraná, incentivou a entrada de imigrantes europeus que desenvolvessem a agricultura de subsistência. A cidade crescia e atraía imigrantes alemães, por causa do clima, para a Colônia Dona Francisca. Eles foram responsáveis pela reativação do comércio, da agricultura e do transporte. Para preservar sua cultura, os alemães importavam presunto, queijos, vinhos, champanhe, licores, chocolates, chá e manteiga. Enquanto isso, incorporaram a cerveja, a salsicha, a carne defumada, a linguiça, o salame, as conservas salgadas e doces. Na região dos Pampas (que abrange Brasil, Argentina e Uruguai), preparava‑se o típico churrasco em um buraco aberto no chão (o fogo de chão era costume indígena), temperando‑o com as cinzas do braseiro. Costela e minga (costelinha), matambre (entre as costelas e o couro) e granito (do peito) são os cortes preferidos. Parceiro do churrasco era o chimarrão. De origem indígena, gostoso, revigorante e fraterno, uma cuia passa de mão em mão nas rodas de conversa. Digestivo, combina bem com o churrasco. O sabor amargo vem dos tempos de açúcar raro. 140 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Figura 83 – Chimarrão na cuia A gastronomia gaúcha também recebeu influência italiana, responsável pela introdução do galeto, da polenta e do vinho. Dos alemães, os gaúchos incorporaram as carnes defumadas, as linguiças, os doces com menor quantidade de açúcar e o café colonial. 8.6 O papel da gastronomia na atualidade Devido à ausência de geleiras, desertos ou grandes desastres naturais, o Brasil tem a vantagem de ter uma grande área do seu território disponível para a agricultura. Assim, a maior parte do País é habitável. A floresta amazônica está sendo dizimada pelo agronegócio. Índios, caboclos e ribeirinhos não só habitam na Amazônia como precisam dela para sobreviver. A floresta vale mais em pé do que desmatada, pois seu solo não é fértil sem as árvores, que promovem umidade e absorvem a chuva. Até os dias atuais, muitos brasileiros e estrangeiros não entendem que os índios (e também os caboclos) têm uma cultura diferente; não se trata de atraso, ignorância ou barbárie, e sim de diferença cultural. Sob os mais variados pretextos, os povos indígenas do Brasil e da região foram combatidos não apenas porque eram julgados inferiores, mas, principalmente, porque ocupavam e ocupam terras cobiçadas. Na época dos primeiros colonizadores portugueses, a população indígena brasileira era estimada entre 2 a 4 milhões de índios e ficou reduzida a menos de 200 mil índios em meados do século XX. Até hoje, no século XXI, as etnias indígenas continuam sendo dizimadas, principalmente por lutas por terras e sob o pretexto de os índios atrapalharem o progresso do agronegócio brasileiro. 141 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Mas o que isso tem a ver com a gastronomia? Qual o papel da gastronomia na atualidade? A diversidade da floresta amazônica é o ponto primordial para o desenvolvimento sustentável da gastronomia brasileira, pois a natureza é um sistema integrado, suas partes se completam. Não há seres vivos na natureza que vivam sem precisar dos demais. Essa integração ocorre em todas as formas de natureza e, portanto, o mesmo se passa com a natureza amazônica. Como os diversos elementos da natureza são integrados, a floresta precisa do solo e do rio, assim como o rio precisa da floresta. A vida dos rios depende da floresta. E a vida dos animais depende de ambos. Quando se devasta, degrada e destrói um deles, o outro também fica prejudicado. De mãos dadas com a gastronomia está a hospitalidade. E ela tem um papel fundamental na busca pelo desenvolvimentosustentável e pela empatia no que se refere à alimentação (e, no limite, ao ato de servir dos restaurantes). Para além do ato de servir e cozinhar, a questão dos refugiados nunca esteve tão em ebulição como atualmente, pelo menos com relação à divulgação na mídia e notícias. O mundo cobra e se cobra alguma atitude. A hospitalidade não é um assunto de hoje nas discussões entre as sociedades, mas, devido ao desenvolvimento e à amplitude das redes sociais, tem se intensificado a divulgação de notícias sobre catástrofes naturais e constantes guerras entre as nações. Além disso, a Organização das Nações Unidas (ONU) informa que mais de um bilhão de pessoas se tornarão refugiadas em um futuro breve. Assim, a tarefa primordial precisa ser aprender, de uma vez por todas, a conviver com as diversidades culturais, ou, então, o mundo entrará em colapso. Já é sabido que as imigrações de grupos religiosos, étnicos ou de diversas nacionalidades possuem diferentes causas, mas, normalmente, as consequências são as mesmas. As principais são: problemas econômicos pela falta de emprego ou péssimas condições de trabalho, exploração, perseguições, exílios, atentados, guerras, fanatismos religiosos, discriminação pela orientação sexual, pobreza, miséria, intolerância contra grupos e conflitos culturais. De forma geral, as consequências são a esperança nos deslocamentos geográficos e as frustrações com a continuidade de todas as causas. Porém, não podemos esquecer que os conflitos culturais e os deslocamentos geográficos são tão antigos quanto a presença humana na Terra (PEREIRA, 2011). Mas por quê estamos discutindo sobre imigração? Porque a questão da imigração está intimamente relacionada à hospitalidade, ao turismo e à gastronomia. Mas, qual seria o papel da hospitalidade nesse processo? Antes de refletirmos sobre tal pergunta, nós iremos passear pelos conceitos de hospitalidade e, para isso, precisamos saber a origem da palavra. Portanto, qual a origem etimológica da palavra hospitalidade? Ou seja: de onde vem a palavra hospitalidade? Etimologia é o estudo que analisa a descrição de uma palavra em vários âmbitos linguísticos anteriores à sua formação. Um dicionário etimológico, portanto, é um mapa da origem das palavras usadas na língua portuguesa. Vale ressaltar que a etimologia não trabalha com definições, mas com explicações sobre como as palavras surgiram, trazendo mais luz sobre seu significado. 142 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Agora que você conhece o conceito de etimologia, responda: você imaginaria que termos como hospitalidade e hostilidade têm a mesma origem etimológica? Hostilidade: o adjetivo hostil vem do latim hostile, cuja significação pode ser contrário, adverso, inimigo, agressivo, provocante e, às vezes, cruel. A hostilidade deriva do latim hostilitate, que designa a qualidade do sujeito ser hostil (ZIMERMAN, 2009). Já hospitalidade, segundo Boff (2005) e Montandon (2011), está relacionada aos mínimos cuidados humanos ou às formas essenciais de socialização, à capacidade de sermos solidários, cooperativos e capazes de conviver. Voltando à pergunta feita anteriormente, qual o papel da hospitalidade no processo imigratório? Segundo Leonardo Boff (2005), no processo migratório, em que se podem observar intolerâncias de todos os níveis, a hospitalidade se impõe como uma atitude e uma virtude fundamental. A seguir estão listadas algumas ações relacionadas a ela: • Boa vontade incondicional: é a última tábua de salvação que nos resta. Não podemos colocar tudo e todos sob suspeita o tempo todo. Precisamos ser razoáveis nas desconfianças, pois a situação mundial é de calamidade. • Acolher generosamente: significa, no limite, aceitar as diferenças sociais. Aceitar as diversidades entre os seres humanos mesmo sendo da mesma comunidade. Convivência e tolerância são essenciais. • Escutar atentamente: aqui, a ideia é abrir‑se cordialmente para escutar o outro. Aprender com a escuta, confrontar a partir da escuta, nos completar e enriquecer culturalmente a partir do contato com o diferente. • Dialogar francamente: significa ter reciprocidade em relação à ideia do outro. Respeito entre as diversas culturas, religiões e demais escolhas (individuais ou de grupos). • Negociar honestamente: significa encontrar a justa medida dentro da lógica do ganha‑ganha e, sempre que possível, dar centralidade ao bem comum (em vez dos bens particulares). • Renunciar desinteressadamente: significa conviver humanamente juntos dentro da mesma casa, ganhando em paz e sustentabilidade. • Responsabilizar‑se conscientemente: significa evitar que as singularidades de cada povo ou de cada indivíduo façam barreiras à execução do bem comum. • Relativizar corajosamente: significa relativizar a própria visão de mundo sem renunciar aos próprios valores. A ideia é não tornar nossas ideias com validades únicas e absolutas, para não conflitar com quem pensa diferente. 143 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO • Transfigurar inteligentemente: significa transfigurar as dimensões de violência, por exemplo. Ou seja, fazer com que a nossa dimensão de violência não seja mortal. É a passagem do estado natural para o estado civilizado. Desse modo, os processos de globalização evidentes naquele tempo e espaço estavam voltados às atitudes e aos comportamentos de hospitalidade face aos milhões de refugiados (em razão de alterações de clima ou por escassez de água). Pouco mais de cinco anos após a escrita do último texto, torna‑se assunto premente a inclusão dos milhares de refugiados de guerra. Em 2017, segundo a ONU, atingiu‑se o número mais alto da história, fato que mostra a necessidade urgente de se combater a xenofobia e o nacionalismo. E a hospitalidade e o turismo são ferramentas importantes para esse combate. Aprendemos que a hospitalidade é tão antiga quanto a própria civilização. O ato de ajudar abarca desde o antigo costume de dividir o pão com um estranho até as complexas relações que ser hospitaleiro e acolher alguém em sua casa (ou em seu território) podem desvendar. Cada região do mundo exibe hábitos alimentares próprios e desenvolve a gastronomia sob condições de solo, clima, vegetação e espaço. Para além disso, o consumidor quer saúde, nutrição e sabor no momento das refeições. A comensalidade contemporânea caracteriza‑se pela escassez de tempo para preparar e consumir alimentos, pelo uso de produtos inovadores no preparo e na conservação, pela mudança de local das refeições e pela magna oferta de produtos em toda a Terra. Objetivamente, as mudanças transformaram a alimentação mundial. A mão de obra tornou‑se mais jovem e rotativa, a comunicação à mesa cedeu espaço a descartáveis e fast‑foods, simplificaram‑se e homogeneizaram‑se processos culinários. Mas nem tudo é treva: o ressurgimento dos ingredientes sazonais e da culinária regional vem ganhando força como tendência da gastronomia nacional. A gastronomia tem o papel de incentivar cozinhas locais com marcas identitárias da comunidade e da região para promover o turismo local e, assim, auxiliar na diminuição do êxodo rural ou regional, por exemplo. Os últimos anos têm legado mais espaço à cozinha regional, foco de atenção de chefs de cozinha conceituados que ressaltam tradições, influências recentes ou o equilíbrio da criação de pratos respeitando a sazonalidade dos ingredientes. Entre os seres humanos, fome e sede são necessidades vitais. O homem se alimenta conforme a sua sociedade. Se houver incentivo à técnicas e ingredientes locais, os custos cairão e surgirão mais postos de trabalho,tanto no meio urbano quanto no meio rural. Incentivar a agricultura familiar é o grande papel da gastronomia na atualidade para diminuir a fome e a miséria no Brasil e impedir a concentração de renda nas mão de um mínimo de empresas que faturam bilhões. Apesar de alterar a alimentação humana, a culinária não associou a qualidade do processo alimentar à de vida. Nos séculos XIX e XX, viveu‑se em soberbas aglomerações urbanas; no século XXI, continuamos vivendo, e as práticas agrícolas seculares estão sendo substituídas pelas técnicas vinculadas à modernidade. E modernidade, atualmente, significa prover as necessidades das cidades o mais rápido possível. 144 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV No final da década de 1980, a Itália apareceu com um movimento que sacudiria a gastronomia mundial: o movimento slow food. Tal movimento tinha o objetivo de resgatar rituais alimentares e mais atividades que envolvessem qualidade de vida. Alcançou visibilidade mundial ao ser lançado em Paris, em 1989. Além de gastronômico, o movimento é literário e ambientalista. Os adeptos do slow food declaram‑se ecogastrônomos e afirmam que o prazer não pode desconectar‑se do prazer alheio, cabendo permanecer equilibrado com o meio ambiente. Em 2000, surgiu o Slow Food Award for the Defense of Biodiversity que incentiva pesquisas, documenta, produz e populariza a escola gastronômica de slow food em prol da biodiversidade e da agroindústria. Os princípios desse movimento estão indicados a seguir: • Não comer apressadamente, em pé ou vendo TV. • Priorizar os alimentos saudáveis, especialmente os orgânicos. • Partilhar refeições com amigos e parentes. Divulgadores do slow food enfatizam a hospitalidade, o descanso e a morosidade, ressaltando‑os como fatores essenciais para a retomada da qualidade de vida, a saber: • Morosidade: respeitar a lentidão do caracol. Seres humanos agitados são tolos, carregam as casas nas costas para se sentirem em seus lares onde estiverem. • Descanso: exaltar o descanso e usufruir in totum (em sua totalidade) de todas as sensações, o que requer tempo e disponibilidade. • Hospitalidade: ritualizada em dar prazer aos comensais. O slow food é um movimento filosófico‑comportamental de combate ao ritmo de vida acelerado de metrópoles e megalópoles. Seus membros defendem a tríade: comida, saúde, cultura. A saúde depende da alimentação, que se espelha em tradições culturais e nos alimentos regionais para adaptação de receitas. Se as tradições se quebram e os alimentos são extintos, os hábitos sofrem modificações e a saúde humana é prejudicada. Desse modo, a agricultura familiar no Brasil iniciou uma nova trajetória a partir da Constituição de 1988, a qual incentivou o surgimento de novos espaços de participação social. São exemplos disso: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura (Pronaf) em 1995, a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) em 1999 e da Secretaria da Agricultura Familiar (SAF) em 2001, e a regulamentação da Lei da Agricultura Familiar em 2006. Sobre essa lei vale destacar sua importância, reconhecendo a agricultura familiar como categoria social e definindo, assim, sua estrutura conceitual; desde então, essa lei passou a balizar as políticas públicas relacionadas a esse grupo social (GRISA; SCHNEIDER, 2015). 145 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO Vale ressaltar que os movimentos sociais e sindicais da agricultura continuam reivindicando políticas públicas contundentes que sejam pensadas na heterogeneidade da realidade do campo no Brasil e também para o empoderamento das próprias organizações sociais (ABRAMOVAY; VEIGA, 1999). São alguns exemplos de protestos e organizações: Gritos da Terra, Marcha das Margaridas, Abril Vermelho, Jornadas de Luta da Agricultura Familiar e ocupações de prédios públicos. Assim, é necessário haver conhecimento e respeito à cultura do homem da Amazônia por parte dos setores regionais de desenvolvimento que buscam auxiliar sua trajetória de liberdade política e cultural, a fim de construir uma nova história que contemple os saberes ancestrais desse povo. É sabido que o Brasil é um dos países com a maior diversidade cultural e linguística do mundo. Nesse sentido, o termo indígena não deve nos fazer esquecer da existência de variados povos, como os yanomami, os asuruni, os guarani, os xakriabá e outros tantos povos distribuídos por toda a América Latina. Por causa dessa homogeneização dos povos, os direitos dos indígenas ainda estão constantemente ameaçados pelos brancos, dado o interesse econômico em suas terras e o desprezo por suas culturas e tradições. Alimentos e bebidas continuam a centralizar o desenvolvimento das sociedades e a ser o foco de celebrações e festividades. Contemporaneamente, o consumo de alimentos é também referência de qualidade de vida. A ciência da composição química dos alimentos e das técnicas gastronômicas possibilita elaborar produtos balanceados, em termos nutricionais e sensoriais. Mantêm‑se e intensificam‑se formas distintas, odores, sabores, texturas, cores e apresentações. Não há revolução tecnológica, científica, pós‑industrial ou cibernética que retire do homem o prazer de se alimentar. A gastronomia transcende o tempo e mantém intacta a capacidade de encantar gerações da espécie humana. O alimento é, portanto, um código simbólico que organiza a produção econômica e as interações sociais. Saber e sabor, sabor e saber têm a mesma raiz, não sendo possível preservar um sem o outro. Comer é comunhão. Alimentação é rito e identidade cultural. Gastronomia é história, ciência e arte tudo junto e misturado com várias receitas milenares. Resumo Nesta unidade tratou‑se da realidade da gastronomia brasileira e das peculiaridades e diversidades culinárias das regiões do Brasil. A tentativa de conhecer os fenômenos constituintes dessa realidade gastronômica busca uma aproximação, dada a sua complexidade e a sua dinamicidade de ingredientes e de culturas. Desse modo, destaca‑se a importância da atuação crítica, reflexiva e embasada na compreensão da realidade das comunidades e a utilização de ingredientes regionais que são (re) visitados pelos chefs brasileiros atuais, contribuindo para o novo papel da gastronomia na atualidade. Tal gastronomia deve estar voltada à luta pela igualdade social, pela cidadania, pela efetivação de direitos fundamentais e à valorização dos pequenos agricultores e da culinária regional. 146 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV Exercícios Questão 1. A colonização portuguesa oficial do Rio Grande do Sul, no extremo sul brasileiro, inicia‑se nas primeiras décadas do século XVIII. Anteriormente, a região era habitada por índios. Os colonos portugueses trazem o escravo negro. No início do século XIX, começa a imigração alemã e, em seus anos finais, a italiana. Fonte: CORRÊA, N. F. A cozinha é a base da religião: a culinária ritual no batuque do Rio Grande do Sul. In: CANESQUI, A. M.; DIEZ GARCIA, R. W (org.). Antropologia e nutrição: um diálogo possível. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005. p. 69‑85. Disponível em: <https:// edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/2926698/mod_resource/content/1/TDA%204%20‑%20A%20cozinha%20%C3%A9%20a%20 base%20da%20religi%C3%A3o.pdf>. Acesso em: 9 nov. 2017. Sabemos que esses acontecimentos influenciaram diretamente a culinária daquela região. Com essa informação, podemos afirmar que: I – A influência indígena trouxe o churrasco(carne assada na brasa), o chimarrão e a farinha de mandioca. II – A influência alemã trouxe a batata e a polenta. III – A influência portuguesa trouxe vários pratos, com destaque para o arroz e o feijão. Assinale a alternativa correta: A) Todas estão corretas. B) I e II estão corretas. C) I e III estão corretas. D) II e III estão corretas. E) III está correta. Resposta correta: alternativa C. Análise das afirmativas I) Afirmativa correta. Justificativa: deve‑se aos índios a invenção do típico dos típicos: o churrasco, além da farinha de mandioca, que acompanha o primeiro; e o chimarrão, infusão feita com as folhas da erva‑mate moídas. 147 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a HISTÓRIA DA ALIMENTAÇÃO II) Afirmativa incorreta. Justificativa: os alemães encarregaram‑se de popularizar a batata, enquanto os italianos trouxeram a polenta. Observa‑se que a batata e a polenta são alimentos emblemáticos das populações de ascendência alemã e italiana do Rio Grande do Sul, respectivamente. III) Afirmativa correta. Justificativa: os portugueses contribuíram com a maioria dos pratos, destacando‑se o arroz e o feijão. Questão 2. “O batuque é uma religião afro‑brasileira de culto aos Orixás. É fruto de religiões dos povos da Costa da Guiné e da Nigéria, com as nações Jêje, Ijexá, Oyó, Cabinda e Nagô. Nela se cultuam vários Orixás, oriundos de várias partes da África, e suas forças estão em parte dentro dos terreiros e na maior parte na natureza: rios, lagos, matas, mar, pedreiras, cachoeiras etc., onde também invocamos as vibrações de nossos Orixás. Todo ser humano nasce sob a influência de um Orixá, e em sua vida terá as vibrações e a proteção deste. O culto, no batuque, é feito exclusivamente aos Orixás, sendo o Bará o primeiro a ser homenageado antes de qualquer outro, e encontra‑se seu assentamento em todos os terreiros; no candomblé o chamam de Exu.” Fonte: FREITAS, C. Candomblé: culto aos orixás africanos. 2010. Disponível em: <https://cesarulisses.wordpress.com/page/4/>. Acesso em: 9 nov. 2017. Após a leitura do texto, analise as afirmativas: I – O batuque surgiu, como diversas religiões afro‑brasileiras praticadas no Brasil, com raízes na África, tendo sido criado e adaptado pelos negros no tempo da escravidão e carregando, por isso, hábitos alimentares e uma série de outros costumes como forma de preservar a identidade cultural dos ancestrais. II – As entidades cultuadas são as mesmas em quase todas as religiões afro‑brasileiras, existindo rituais e rezas muito parecidos. As diferenças residem essencialmente em relação às tradições próprias de cada raiz ancestral, como no preparo de alimentos e oferendas sagradas. III – A carne dos animais imolados será preparada em forma de canja, de amalá, assados, enfarinhados, e consumidos durante o período de obrigação e pelas pessoas que comparecerem ao toque, batuque. Os couros retirados dos animais, depois de preparados, são utilizados na confecção dos tambores e instrumentos tocados durante o batuque. Nada é desperdiçado. IV – Em outras religiões, como a católica e a judaica, não se oferecem alimentos como oferendas. Assinale a alternativa correta: A) I e II estão corretas. 148 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Unidade IV B) II e IV estão corretas. C) I, II e IV estão corretas. D) I, II e III estão corretas. E) Todas as estão corretas. Resolução desta questão na plataforma. 149 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a FIGURAS E ILUSTRAÇÕES Figura 1 FOOD‑1898194__340.JPG. Disponível em: https://cdn.pixabay.com/photo/2016/12/10/21/26/ food‑1898194__340.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2017. Figura 2 EAT‑2064948_960_720.JPG. Disponível em: https://cdn.pixabay.com/photo/2017/02/14/07/29/ eat‑2064948_960_720.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2017. Figura 3 CAVE‑PAINTIG‑490205_960_720.JPG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/ photo/2014/10/15/19/11/cave‑paintig‑490205_960_720.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2017. Figura 4 ANCESTOR‑1257195__340.JPG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/photo/2016/03/15/09/04/ ancestor‑1257195__340.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2017. Figura 5 NEANDERTHALS‑96507__340.JPG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/photo/2013/03/24/19/27/ neanderthals‑96507__340.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2017. Figura 6 CAVEMAN‑149157__340.PNG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/photo/2013/07/12/14/59/ caveman‑149157__340.png>. Acesso em: 15 dez. 2017. Figura 7 COW‑2949075__340.JPG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/photo/2017/11/14/16/58/ cow‑2949075__340.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2017. Figura 8 PROMETHEUS‑1902749_960_720.JPG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/photo/2016/ 12/12/21/35/prometheus‑1902749_960_720.jpg>. Acesso em: 15 dez. 2017. 150 Re vi sã o: N om e do re vi so r - D ia gr am aç ão : N om e do d ia gr am ad or - d at a Figura 9 OUTDOOR‑1689777__340.JPG. Disponível em: <https://cdn.pixabay.com/photo/2016/09/23/14/05/ outdoor‑1689777__340.jpg>. 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