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01 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Questionando o que lemos LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A01 Alguns aspectos importantes sobre a leitura, os seus diferentes conceitos, as diferentes formas de ler, que variam com os diferentes objetivos que temos e a relação entre leitura e escrita. Iniciamos aqui o nosso percurso em uma nova disciplina: Leitura e Produção de Textos. Ao estudar a disciplina Língua Portuguesa, você já percebeu que toda a nossa comunicação cotidiana se estabelece a partir de textos que elaboramos de acordo com a situação que estamos vivendo. Lembra? São os gêneros textuais. Produzimos e lemos os diferentes gêneros através de competências que desenvolvemos em nosso processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem. Você também deve se lembrar que utilizamos, nesse processo de comunicação, diferentes linguagens que, muitas vezes, se complementam: a linguagem verbal e as não-verbais. A linguagem verbal nós utilizamos de duas formas: oral e escrita. Muito bem. É na linguagem verbal que essa nossa disciplina se concentrará. Em nosso processo de ler e produzir textos, principalmente textos de caráter técnico, acadêmico e científi co. Ao longo desta disciplina nós lidaremos com alguns conhecimentos necessários à produção de textos de natureza técnica, acadêmica e científi ca, tais como: resenhas, resumos, artigos científi cos, relatórios. Portanto, estudaremos as características e as formas de organização de textos dessa natureza, assim como formas de utilizar citações ou elaborar referências. A ideia é somar todos esses conhecimentos aos já adquiridos na disciplina Língua Portuguesa e pô-los em prática na elaboração de seus textos. Compreender os diferentes conceitos de leitura. Conhecer os diferentes objetivos da leitura e sua relação com a produção escrita. Avaliar os textos para fi xar melhor o conhecimento. Refl etir acerca da leitura e da escrita como estudante de EAD. 2 Leitura e Produção de Textos A01 Para começo de conversa... Infância A Abgar Renault Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. Minha mãe fi cava sentada cosendo. Meu irmão pequeno dormia. Eu sozinho menino entre mangueiras lia a história de Robinson Crusoé, comprida história que não acaba mais. No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu chamava para o café. Café preto que nem a preta velha café gostoso café bom. Minha mãe fi cava sentada cosendo olhando para mim: – Psiu... Não acorde o menino. Para o berço onde pousou um mosquito. E dava um suspiro... que fundo! Lá longe meu pai campeava no mato sem fi m da fazenda. E eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Carlos Drummond de Andrade Disponível em: <http://www.memoriaviva.com.br/drummond/poema002.htm>. Acesso em: 28 dez. 2009. O poema de Drummond, anterior, fala de como as memórias de um menino são permeadas não só por acontecimentos cotidianos, como a imagem da mãe embalando o irmão mais novo, ou a ida do pai ao trabalho, mas pelas viagens da leitura. A leitura, nesse caso, para o entretenimento. Mas essa não é a única forma de ler nem o único objetivo da leitura. Ao longo desta aula falaremos sobre as inúmeras possibilidades de leitura e de como é necessário, ao estudarmos, questionarmos o que lemos de forma a aprender melhor e com criticidade. 1Praticando... 3 Leitura e Produção de Textos A01 Relembrando Se você retomar a segunda aula da disciplina Língua Portuguesa, vai encontrar lá algumas considerações interessantes sobre leitura. O fato, por exemplo, de que a leitura é fruto de uma sociedade mais individualista, ou seja, antes, nas sociedades primitivas, quando não havia a escrita, havia não um leitor, mas um ouvinte, assim como não havia um escritor, mas um narrador, que, em geral, passava ensinamentos acerca dos modelos ideais daquela sociedade. Lembre-se de que estamos nos concentrando aqui na linguagem verbal, assim não vale falar dos desenhos rupestres que eram registros permanentes e são textos pictóricos acerca dos modos de vida dos homens pré-históricos. Muito bem. Voltando à aula 2 de Língua Portuguesa, vemos nela algumas dicas interessantes que podemos aplicar em nossa vida de leitores, que parte do princípio de que, em primeiro lugar, sempre devemos folhear o texto, dar uma olhada geral, apreender sua estrutra básica e os seus conteúdos mais gerais. Só depois, se for de nosso interesse, é que vamos atentar para os detalhes. Se o texto visar apenas entretenimento, em geral, não nos detemos muito sobre ele, mas se for para estudo, precisamos voltar a ele diversas vezes e compreender bem o seu conteúdo, coisa que conseguimos melhor quando sintetizamos, com nossas próprias palavras aquilo que lemos. Diante de tudo o que vimos sobre leitura até aqui podemos afi rmar, com certo nível de certeza, portanto, que sabermos quais são os nossos objetivos é aspecto fundamental para a qualidade da nossa leitura. Ou seja, leremos com menor ou maior aprofundamento na medida daquilo que almejamos com aquele texto: entretenimento ou produção técnica, acadêmica ou científi ca. Como o nosso objetivo, nesta disciplina, é discutirmos a leitura voltada para a produção de gêneros técnicos, acadêmicos ou científi cos, vamos nos concentrar em uma leitura mais cuidadosa. Antes de continuarmos, no entanto, é bom rever alguns aspectos interessantes que já foram estudados antes, por isso, vamos a uma atividade de revisão. Volte à Aula 2 de Língua Portuguesa e: 1. Elabore um conceito de leitura. 2. Explique como as diferentes abordagens a um texto se relacionam com os diferentes objetivos que temos com aquela leitura. Socráticas 4 Leitura e Produção de Textos A01 Questionando o que lemos Algumas técnicas facilitam a nossa compreensão do que estamos lendo, como as questões socráticas, aquelas questões próprias dos diálogos socráticos, na antiguidade grega, que tanto o mestre fazia aos seus discípulos com a fi nalidade de pôr em cheque o conteúdo de seu discurso, quanto as que os discípulos faziam ao mestre, tentando apreender os múltiplos aspectos do conteúdo discutido. Questionar o que estamos lendo nos ajuda a fi xar o conteúdo e apreendê-lo em seus diversos matizes. Também nos ajuda a adquirir um posicionamento crítico, essencial na construção de nosso conhecimento. É que temos o hábito de considerar como verdadeiro tudo aquilo que lemos, é mais fácil não pensar sobre o assunto, não questionar, não criticar. No entanto, para efeito de estudo, questionar é fundamental. Criticar é um passo mais aprofundado que nos ajuda a elaborar uma síntese, produção própria a partir do conhecimento a que tivemos acesso. Observe a Figura 1, ela nos oferece uma idéia de como se processa um estudo de qualidade. Fo nt e: < ht tp :/ /i m ag es .g oo gl e. co m .b r/ im gr es ?i m gu rl= ht tp :/ /w e- bs m ed .p or to al eg re .r s. go v. br /e sc ol as /m ar ci rio /J or na l_ co m _b ah / an o4 _1 /i m ag en s/ zi ra ld o. jp g> . Ac es so e m : 2 8 d ez . 2 0 0 9 . Sócrates: fi lósofo ateniense e um dos mais importantes ícones da tradição fi losófi ca ocidental e um dos fundadores da atual Filosofi a Ocidental. Os diálogos socráticos são, na verdade, seu método de ensino. O Método Socrático é uma abordagem para geração e validação de ideias e conceitos baseada em perguntas, respostas e mais perguntas. Vontade de estudar Capacidade de usar adequadamente os instrumentos de estudo A TÉCNICA DE ESTUDO COMPREENDE O DOMÍNIO DE PRÉ-REQUISITOS 5 Leitura e Produção de Textos A01 Figura 1 – Ler e compreender o texto Vamos pensar algumas perguntas que podemos fazer a nós mesmos nesse processo? Essas questões foram adequadas de forma que o leitor possa questionar o que está lendo e a si mesmo quanto à compreensão de sua leitura. É óbvio que você não precisa fazer todas as questões. Elas dependem do que cada leitor deseja em relação ao texto. Se o leitor deseja esclarecer algo, verifi car algo, compreender a linha de raciocínio do autor, o ponto de vista, as perspectivas ou as consequências de suas afi rmações. Perguntas de esclarecimento O que o autor quer dizer quando afi rma que ______? Qual é o ponto crucial de seu texto? Qual é a relação entre _____ e _____? Isso pode ser explicado de uma outra maneira? Vejamos se entendi o ponto de vista do autor: ele quer dizer _____ ou _____? Qual é a relação entre isto e o foco do problema/discussão/argumento? Será que eu consigo resumir com as minhas palavras o que o autor disse? Ele traz algum exemplo? _____ seria um bom exemplo disso? Perguntas que verifi cam suposições Qual é a suposição do autor aqui? O que eu poderia supor em vez disto? Fo nt e: < w w w .c oo ep e. co m .b r/ im g/ en te nd a_ ea d_ fi g ur a0 1 .g if> . Ac es so e m : 2 8 d ez . 2 0 0 9 . 6 Leitura e Produção de Textos A01 Todo o discurso do autor depende da ideia de que _____. Por que ele baseou a sua hipótese em _____ em vez de em _____? Parece que ele supõe que _____. Posso ter isso como uma verdade? É sempre assim? Por que ele acha que essa suposição é pertinente? Por que alguém partiria desta suposição? Perguntas que verifi cam evidências e linhas de raciocínio Qual a linha de raciocínio do autor? Como isso se aplica a este caso? Existe uma razão para duvidar desta evidência? Quem pode saber que isto é verdade? O que ele diria a alguém que afi rmasse o contrário? Algum outro autor apresenta evidências a favor deste ponto de vista? Como ele chegou a essa conclusão? Como podemos descobrir se isso é verdade? Perguntas sobre pontos de vista ou perspectivas Em que implica essa afi rmação? Quando ele diz _____, subentende-se _____? Mas se isto acontecesse, quais seriam os outros resultados? Por quê? Quais seriam os efeitos disso? Isso aconteceria necessariamente ou é apenas uma possibilidade? Existem alternativas? Se _____ e _____ são verdadeiros, o que mais poderia sê-lo? Se dissermos que ____ é ético, o que podemos dizer de _____? Perguntas que verifi cam implicações e consequências Como posso descobrir isso? Qual é a suposição dessa pergunta? Seria possível elaborar essa questão de outra forma? Que outro autor poderia esclarecer essa questão? É possível subdividir essa questão? Essa pergunta é clara? Entendi isso? Essa pergunta é fácil ou difícil de responder? Por quê? Para responder a essa pergunta, que outras perguntas é preciso responder primeiro? Por que essa questão é importante? Essa é a pergunta mais importante ou existe uma outra questão na qual essa se baseia? É possível relacionar isso a algum outro conteúdo ou área de estudo? Fo nt e: < ht tp :/ /w w w .e ad ad m .u fs c. br /h el p. ph p? fi l e= qu es tio ns .h tm l> . Ac es so e m : 2 8 d ez . 2 0 0 9 . 2Praticando... Jorge Fernandes 7 Leitura e Produção de Textos A01 1. Escolha um dos textos de seu curso. 2. Leia-o, elaborando alguns questionamentos sobre esse texto. Utilize as questões expostas na aula. 3. Você acha que questionar o texto ajudou você a compreendê-lo melhor? A leitura na rede Não, não estamos falando aqui daquele hábito que herdamos dos nossos antepassados indígenas, daquele balançar malemolente que já é traço de nossa identidade nacional. A famosa rede que o poeta potiguar Jorge Fernandes eternizou em seu poema. Jorge Fernandes de Oliveira (1887-1953) nasceu em Natal-RN. É considerado um dos precursores da poesia modernista no Rio Grande do Norte, pois seu Livro de Poemas (1927), com poemas elaborados a partir dos pressupostos modernistas é marco na Literatura do RN e se insere no movimento modernista das décadas iniciais do século XX no Brasil. Um de seus mais famosos poemas fala sobre a rede, herança indígena, que suspensa entre armadores, embala os brasileiros em momentos de descanso. Estamos falando mesmo dessa rede que nos consome hoje. Criada para facilitar a nossa vida e a nossa comunicação, para agilizar a nossa produção e a divulgação do conhecimento, mas que, ao mesmo tempo, nos leva a acessar um sem-número de informações irrelevantes ou desnecessárias ou nos torna, muitas vezes, incapazes de refl etir ou de criticar o que acessamos, mecanizando nosso estudo a partir de três teclinhas perigosas Ctrl + C (copiar) e Ctrl + V (colar). Praticando... 3Praticando... 8 Leitura e Produção de Textos A01 Fonte: <http://tbn0.google.com/images?q=tbn:c-DbPTK2GFDAM: http://www.galizacig.com/imxact/2005/11/acceso_internet590.jpg>. Acesso em: 28 dez. 2009. A Internet nos leva a lugares que nem imaginávamos existir, nos permite acessar textos a que difi cilmente teríamos acesso, a conhecer o acervo de instituições renomadas, a descobrir novidades em todas as áreas do conhecimento, mas uma difi culdade se impõe: como processar todas essas informações? Que informações são relevantes? Que informações são desnecessárias? O que explorar sobre cada assunto pesquisado? Em EAD, o estudo independente é uma ferramenta básica e fundamental, pois, além de atender às necessidades específi cas de alguns aprendizes, tem também a vantagem de permitir um ensino em larga escala. Além disso, o material de autoinstrução pode ser parte integrante de propostas interativas para ensino em rede, uma vez que permite estudo complementar independente. Em EAD, mais do que nunca, é preciso interagir com o texto em busca de sentido. A melhor alternativa talvez seja priorizar tarefas que nos levem a interagir com o texto e a buscar, de forma indutiva e refl exiva, o uso de estratégias de leitura. Como norma, é interessante priorizar as perguntas de compreensão. As questões de cunho linguístico devem voltar-se para difi culdades específi cas. Leia o texto a seguir e responda a algumas questões que procuram pôr em prática alguns dos conteúdos estudados nesta aula. 9 Leitura e Produção de Textos A01 Texto 1 O uso cotidiano e a mídia trabalham juntos na manutenção (ou não) das expressões populares Nem sempre se percebe, mas aqui e ali surgem expressões novas. Quando surgem, vêm assim, de mansinho, e logo estão “na boca do povo”. É difícil saber quando algum deles vai se tornar moda e ser usado por muitos, ou quando será esquecido. Mas existem alguns indicadores que ajudam, ao menos, a apostar numa das alternativas. Há pouco tempo, numa empresa de São Bernardo do Campo, SP, durante um telefonema, uma secretária reclamou com o departamento de Compras. Disse que a jarra da cafeteira estava quase quebrando. Avisou que havia o perigo de a jarra se quebrar, etc. Em certo momento da conversa, em tom um tanto exaltado, disse: “Você vai esperar a jarra quebrar?!” Alguns dias mais tarde, outra funcionária, que ouvira apenas parte da conversa (essa acima, reproduzida entre aspas), numa tentativa de pressionar o departamento com o qual conversava, disse: “Olha que eu vou quebrar a jarra, heim?! Aí você vai ver!”. Na hora, ninguém entendeu. Mais tarde, a indignada funcionária repetiu que “se não se quebra a jarra, não se consegue nada”. Surgiu nesse dia, naquela hora, a expressão “quebrar a jarra”. Provavelmente, com o tempo, o sentido mude um pouco. É comum que isso aconteça. Mas, até lá, quebrar a jarra vai signifi car “chutar o balde”, “exaltar- se”, “tomar providências drásticas”. Fonte: <http://www.discutindolinguaportuguesa.com.br/reporte10ditado.asp>. Acesso em: 28 dez. 2009. 1. O que signifi ca “a jarra quebrar” no segundo parágrafo do texto? 2. Que novos signifi cados a expressão ganha no último parágrafo? 10 Leitura e Produção de Textos A01 3. Que relação entre o exemplo da jarra e o título do texto pode ser estabelecida? 4. O que o enunciado “Mas existem alguns indicadores que ajudam, ao menos, a apostar numa das alternativas” no primeiro parágrafo do texto, cria, em termos de expectativa, no leitor? Essa expectativa é satisfeita no texto? 5. Você conhece alguma expressão popular que tenha sido criada por um veículo de comunicação? Qual expressão e que veículo? 11 Leitura e Produção de Textos A01 Leitura e produção de textos Sabemos que a leitura é uma atividade que nos permite ter acesso a todo o conhecimento produzido pelo homem. Mas nem sempre lemos apenas para compreender, também lemos para produzir, produzir conhecimento. Ou seja, lemos para nos aprofundarmos em determinados tópicos e construirmos nossos próprios textos. Esse tipo de leitura não é feita para distrair, mas para informar. Visamos com ela uma coleta de dados ou de informações que serão utilizadas em trabalhos para responder a questões específi cas. Nesse caso, deve-se ter sempre presente o objetivo da pesquisa: caso contrário, a leitura informativa torna-se distrativa ou passatempo. A leitura informativa apresenta algumas fases que precedem a leitura propriamente dita e que também a sucedem e cuja gradação permite a elaboração do pensamento refl exivo e, assim, a construção do conhecimento científi co. Vejamos que fases são essas: Fase de pré-leitura Se você busca conhecimento acerca de um determinado assunto que o ajude a construir seu texto, em primeiro lugar, você vai ler para certifi car-se de que aquele texto que tem Praticando... 4Praticando... 12 Leitura e Produção de Textos A01 diante de si apresenta as informações específi cas que você procura, assim você obtém uma visão global sobre o texto. A fi nalidade dessa fase é selecionar os documentos bibliográfi cos que contêm dados ou informações susceptíveis de serem aproveitados na fundamentação de seu trabalho. Além disso, essa fase possibilita a formação de uma visão global do assunto focalizado, visão indeterminada, mas indispensável para progredir no conhecimento. Faz-se a pré-leitura, por exemplo, examinando a folha de rosto, os sumários e índices, a bibliografi a, as citações ao pé da página, a introdução e a conclusão. Vamos avaliar o seu aprendizado sobre pré-leitura? Escolha um livro da área de seu interesse. Abra-o e folheie-o rapidamente. Observe a capa, o sumário, orelha e contracapa. Agora faça anotações acerca do que você pode dizer sobre o livro a partir, apenas, dessa pré-leitura. Tente responder às seguintes perguntas: 1. Qual o tema em foco no livro? 13 Leitura e Produção de Textos A01 2. Como ele está organizado? 3. Quem é o autor e qual a sua autoridade para escrever sobre o tema em foco? 4. O que você identificou de mais interessante, em termos de conteúdo e estrutura, no livro? Fase de leitura seletiva Localizados os textos e as informações nos textos, procede-se à escolha dos textos mais apropriados, de acordo com os propósitos do trabalho. Selecionar é eliminar o dispensável para fi xar-se no que realmente é de seu interesse. Para selecionar os dados e informações é necessário defi nir os critérios. Os critérios da leitura seletiva são os propósitos do trabalho: o problema formulado, as perguntas elaboradas quando se questionou o assunto ou, em outros termos, os objetivos intrínsecos do seu trabalho. 14 Leitura e Produção de Textos A01 Fase de leitura crítica ou refl exiva Após a seleção do material útil para o trabalho, ou seja, naquele momento em que você tem em sua mesa de trabalho uma infi nidade de livros, documentos, xérox e em seu computador ou pen drive mais uma série de arquivos coletados virtualmente, é hora de ingressar no estudo propriamente dito dos textos, com a fi nalidade de saber o que cada autor afi rma sobre o assunto que você pesquisa. Nesta fase são necessárias certas atitudes, como o culto desinteressado da verdade e ausência de preconceitos. É uma fase de estudos, isto é, de refl exão deliberada e consciente; de percepção dos signifi cados, o que envolve um esforço refl exivo que se manifesta por meio das operações de análise, comparação, diferenciação, síntese e julgamento; da apropriação dos dados referentes ao assunto ou ao problema. A leitura crítica supõe a capacidade de escolher as ideias principais de cada autor e de diferenciá-las entre si e das secundárias. Os critérios de julgamento serão os propósitos do seu trabalho: assim, as ideias terão valor e serão úteis se interessarem à sua pesquisa. A análise dos documentos desdobra-se, portanto, em certo número de operações muito precisas: a) identifi cação e escolha da ideia central e das ideias secundárias; b) diferenciação ou comparação das ideias entre si a fi m de determinar a importância relativa de cada uma no conjunto das ideias; c) compreensão do signifi cado exato dos termos ou dos conceitos que expressam; d) julgamento do material, após escolha, diferenciação e compreensão. Fase de leitura interpretativa Essa é a última etapa da leitura de um texto e sua aplicação aos fi ns particulares da produção científi ca. Esta fase implica um tríplice julgamento: Praticando... 5Praticando... 15 Leitura e Produção de Textos A01 I – Partindo das intenções do autor e do tema do texto, o leitor procura saber o que o autor realmente afi rma, quais os dados que oferece e as informações que transmite. Qual o seu problema, suas hipóteses, suas teses, suas provas, suas conclusões. Esta crítica objetiva é de grande importância: o leitor não pode incorporar no seu trabalho conclusões alheias que não repousem sobre provas convincentes. II – A seguir, o leitor relaciona o que o autor afi rma com os problemas para os quais está procurando uma solução. Cada dado terá valor, utilidade ou importância se concorrer para solucionar o problema do leitor/pesquisador. III – Finalmente, o material coletado é julgado em função do critério de verdade. O leitor/pesquisador deve duvidar da realidade de toda e qualquer proposição (é a chamada dúvida metódica). Uma afi rmação sem provas terá apenas valor provisório, servindo como ponto de referência, nunca como conclusão, por maior que seja a autoridade do autor no assunto. Feita a análise e o julgamento, procede-se, enfi m, à operação de síntese, isto é, de integração racional dos dados descobertos em um conjunto organizado, que é o texto do próprio leitor. Leia o texto que segue a partir das etapas relacionadas abaixo: 1. Identifi que o tema do texto e a opinião do autor acerca desse tema. 2. Faça um levantamento dos termos que você não compreende e, antes de prosseguir nesta atividade, procure o signifi cado desses termos em um bom dicionário. 3. Indique os principais argumentos utilizados pelo autor na defesa de sua opinião. 16 Leitura e Produção de Textos A01 4. Identifi que a conclusão a que chega o autor. 5. Pesquise mais acerca da globalização e elabore um texto que evidencie seu posicionamento a favor ou contra o tema seguinte: “A globalização exige mais qualifi cação do trabalhador”. 6. Estabeleça relações entre o tema sugerido para você e as ideias apresentadas pelo autor do texto abaixo. Texto 1: GLOBALIZAÇÃO – sobre o mundo do trabalho* HOLGONSI SOARES Prof. Ass. Depto de Sociologia e Política-UFSM * Artigo publicado no jornal “A Razão” em 09.05.97 No lugar do trabalho organizado, altos níveis de desemprego estrutural; rápida destruição e reconstrução de habilidades; ganhos modestos, quando há, de salários reais; e o retrocesso do poder sindical. (D.Harvey) Considerando-se o caminho histórico temporal do processo de globalização (que começou há cem anos atrás), estamos vivendo atualmente os impactos da quinta fase deste processo denonimada por R. Robertson, de “fase da incerteza”. Nesta, as sociedades (sejam centrais, periféricas ou semiperiféricas) enfrentam-se cada vez mais com novas fontes de pressão, problemas de multinacionalidade e de politecnicidade, e questões sociais que atingem uma dimensão também global. O chamado “capitalismo tardio/multinacional” reorganiza as bases do mundo do trabalho para manter a obtenção máxima de saldos, pois como diz I.Wallerstein, “o acúmulo de capital requer uma evolução contínua na organização da produção”. Assim, temos hoje um processo de produção no qual: a padronização cede lugar a uma grande variedade de produtos (a atração está no diferente); o controle de qualidade está presente em cada ritmo e sequência do processo, pois com a ampliação da concorrência ganha quem conquista o ISO (certifi cado de qualidade); e, os grandes estoques deixam de existir (a cada dia a mídia gera novas necessidades de consumo). No mundo do trabalho, o multiprofi ssional ocupa o lugar daquele que domina apenas uma tarefa; o treinamento é supervalorizado; a criatividade do trabalhador é incentivada, e a liderança participativa rompe com o comando autoritário. Para que esta reorganização seja possível, a estrutura do mercado de trabalho está se adaptando ao novo paradigma produtivo e tecnológico, cujas palavras de ordem são: produtividade, competitividade e lucratividade. Porém esta adaptação está sendo feita com um custo social bastante elevado e consequências imprevisíveis para as 17 Leitura e Produção de Textos A01 próximas décadas. A ruptura do compromisso keynesiano traz consigo um mercado no qual o emprego regular (ou de “tempo integral”) com segurança, salários reais, vantagens sociais, começa a se tornar escasso para a maioria; em seu lugar surge o emprego temporário, parcial, casual, e outras modalidades que representam na verdade, o chamado “desemprego disfarçado”, cujas condições de trabalho estão muito abaixo dos padrões aceitáveis, e reeditam o pré-fordismo principalmente nos países subdesenvolvidos. Somando-se a este, o “desemprego estrutural” (ou “tecnológico”) está afastando um grande número de pessoas do mercado de trabalho; torna-se global, e tende a crescer na mesma proporção dos requisitos tecnológicos. A reorganização do mundo do trabalho na economia globalizada, portanto, é paradoxal; gerando uma incerteza em todos os aspectos do trabalho (mercado, emprego, renda e representação), constitui-se na realidade numa desorganização, que, parafraseando Gramsci, está refl etindo também no modo de viver, de pensar e sentir a vida hoje. Se a segunda revolução industrial trouxe a conversão do trabalho em trabalho assalariado, a terceira está trazendo o fi m deste, e convertendo progressivamente ciência e tecnologia em forças produtivas, o que representa grandes desafi os para o processo formativo e educacional do homem. Disponível em: <http://www.angelfi re.com/sk/holgonsi/index.gtrabalho.html>. Acesso em: 30 dez. 2009. Leituras complementares KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender: os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006. Esse livro é uma ótima fonte de conhecimento. Nele você vai encontrar boas explicações sobre os aspectos que implicam na leitura. Também há belos fi lmes que tratam sobre a importância da leitura para as pessoas, tais como Uma leitora bem particular e Sociedade dos poetas mortos. O primeiro é uma comédia de 1998, do diretor francês Michel Devillee. Trata das experiências de uma moça que trabalha como leitora para pessoas que apresentam alguma necessidade especial. O segundo é um drama americano, dirigido por Peter Weir e trata não só da leitura, mas da possibilidade de transformação que a literatura pode trazer para os indivíduos. Autoavaliação 18 Leitura e Produção de Textos A01 Nesta aula, você viu como lemos por diferentes motivos e cada motivo leva a diferentes resultados quanto à compreensão dos textos. A leitura que visa mais que o mero entretenimento segue algumas etapas (pré-leitura, leitura crítica e leitura interpretativa) que, se seguidas, facilitam não só a compreensão dos textos, mas a melhor seleção de informações e também uma possível produção textual posterior. Leitura Para Todos Carlo Carrenho Até 1808, o Brasil não possuía nenhuma publicação, pois Portugal proibira a existência de imprensa na colônia. Foi só com a chegada de D. João VI ao Rio de Janeiro que o País iniciou suas atividades gráfi cas e editoriais. Portanto, por mais de três séculos, o Brasil era uma nação praticamente sem acesso à leitura. Quase duzentos anos depois, temos uma indústria editorial ativa, criativa e de qualidade; nossa imprensa, com grandes jornais e revistas, atingiu um excelente patamar de desenvolvimento; e a internet foi adotada no País como poucas nações do mundo o fi zeram. Mas e o acesso à leitura? Até que ponto ele se democratizou? Infelizmente, ainda é preciso muito trabalho para alcançar a total democratização da leitura no Brasil. E é justamente por isso que a proclamação de 2005 como o Ano Ibero-americano da Leitura pelos países que compõem a OEI (Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, Ciência e Cultura) é extremamente bem-vinda. No Brasil, o Ano Ibero-americano da Leitura ganhou o nome de VIVALEITURA e é coordenado em conjunto pelo governo, setor privado e 3º setor. Um dos principais objetivos do VIVALEITURA tem sido a criação de um banco de dados de projetos de leitura e a divulgação de um calendários de eventos e ações ligados ao livro e à leitura que acontecem no Brasil neste ano de 2005. Estes projetos e ações podem ser consultados no site www.vivaleitura.com.br. 19 Leitura e Produção de Textos A01 No entanto, mais do que divulgar projetos, o VIVALEITURA tem contribuído com a construção de um ambiente favorável ao incentivo à leitura. Graças à ótima receptividade que o ano comemorativo tem encontrado em todas as camadas da sociedade, é possível observar uma série de mudanças e atitudes de valorização da leitura. Os veículos de mídia, por exemplo, tem dedicado mais espaço ao livro. A MTV foi ainda mais longe e freqüentemente tira sua programação do ar por alguns minutos, convidando os telespectadores a lerem um livro. Empresas como Nestlé, DPaschoal, Suzano e Itaú têm investido em ações em prol da leitura. No terceiro setor, são vários os projetos de qualidade de incentivo ao ato de ler. A Expedição Vaga Lume, composta por três garotas que espalham bibliotecas pela Amazônia, é um ótimo exemplo. E o governo não fi ca atrás. No fi m do ano passado, o livro foi completamente desonerado pelo Governo Federal. O projeto Livro Aberto, capitaneado pela Biblioteca Nacional, irá, até o fi nal do governo Lula, zerar o número de municípios sem bibliotecas no País. E há iniciativas positivas de áreas teoricamente distantes do terreno cultural, mas não da construção da cidadania, como o projeto Arca das Letras, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, que já instalou 630 minibibliotecas em assentamentos agrários e comunidades quilombolas. É claro que todas estas ações têm vida própria, e existiriam de forma independente, sem a ação do VIVALEITURA. O papel do ano comemorativo, portanto, tem sido apenas dar visibilidade aos projetos e permitir que o responsável por uma ação no Amapá saiba o que os gaúchos estão fazendo pela leitura, e vice-versa. O VIVALEITURA, na verdade, é um adubo que ajuda na germinação e desenvolvimento de cada uma destas sementes que a sociedade brasileira está plantando. Sua atribuição é justamente criar um ambiente propício ao desenvolvimento do hábito da leitura. E tudo isso justamente para que o acesso à leitura seja uma realidade para cada cidadão brasileiro. Nenhuma cidadania é completa sem a leitura. Nenhum povo pode se considerar desenvolvido sem livros e bibliotecas acessíveis a todos. Enfi m, não existe democracia sem democratização da leitura. O dramaturgo francês Francis de Croisset (1877-1937) disse certa vez que “a leitura é a viagem dos que não podem tomar o trem”. Mas temos de aprofundar neste conceito. Na verdade, é justamente a leitura que permitirá que cada cidadão se desenvolva e tenha acesso a qualquer trem e a qualquer viagem – não só no sentido fi gurado, mas acima de tudo, no sentido real. Ler é existir. Fonte: <http://www.vivaleitura.com.br/artigos_show.asp?id_noticia=8>. Acesso em: 18jsn. 2010. 20 Leitura e Produção de Textos A01 Viva(mos) a leitura! Jorge Werthein Há no Brasil, de acordo com o Indicador Nacional de Analfabetismo Funcional (Inaf), 16 milhões de analfabetos absolutos, com 15 anos ou mais (9% da população). Os estudos apontam, ainda, que só um terço dos brasileiros domina os princípios básicos de leitura e da escrita. Os outros 66% lêem, mas não entendem sequer textos simples. Dados revelam a necessidade de se investir na melhoria da qualidade do ensino para recuperar o tempo perdido e colocar o País no circuito das idéias contemporâneas, entre as quais se destaca a luta pela universalização da cidadania. Urge a formação de uma sociedade leitora. A leitura é um dos meios que o indivíduo tem de se comunicar com o mundo, de ter contato com novas idéias, pontos de vista e experiências que talvez sua vida prática jamais lhe proporcionasse. Não ler traz prejuízos que vão desde o desenvolvimento pessoal e profi ssional até a ampliação das desigualdades sociais. O Brasil é um país que lê pouco, mas que tem grande potencial para se tornar uma nação de leitores. Segundo o Inaf, 67% dos brasileiros se dizem interessados pela leitura. Conforme o Ministério da Cultura, o Brasil tem a maior indústria editorial daAmérica Latina com excelente nível de produção editorial, parque gráfi co atualizado e grande produção de papel. Se é assim, por que não lê? Não lê pela difi culdade de acesso ao livro e pela falta de bibliotecas e de livrarias. Calcula-se que 73% dos livros no País estejam concentrados nas mãos de 16% da população. Em cerca de 1 mil municípios, nos quais vivem 14 milhões de pessoas, não existem bibliotecas públicas; em 89% deles, não há livrarias. Para reverter esse quadro, o Ministério da Cultura, com a participação do Ministério da Educação, tem impulsionado o Programa Fome de Livro, apoiado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Brasil. Uma das novidades é a desoneração da comercialização e importação de livros, o que resultará em uma redução estimada de 10% nos preços. O Fome de Livro enfatiza ainda a importância das bibliotecas públicas e o desenvolvimento de parcerias e programas voltados à promoção da leitura. O programa é um importante passo rumo à democratização da leitura no Brasil, mas tem pontos que merecem atenção: o primeiro é a necessidade de capacitar professores para que apresentem a leitura aos alunos como uma atividade prazerosa; deve-se ainda garantir que as bibliotecas escolares tenham livros não apenas em quantidade adequada, mas também diversifi cados, que permitam ao aluno escolher a leitura com a qual se identifi ca. E os livros eletrônicos, também chamados e-livros, e disponíveis 21 Leitura e Produção de Textos A01 em CD-Rom ou na internet, também mereceriam ter sido contemplados pelo programa já que as novas tecnologias são potenciais meios de democratizar o acesso à informação. Este ano foi escolhido pela Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI) como o Ano Ibero-Americano para a Leitura. Países de todo o continente dedicarão esforços para cumprir um amplo calendário de eventos e metas, com o objetivo de aumentar a média de livros lidos anualmente por habitante. No Brasil, o Ministério da Cultura, em parceria com a Unesco e a Caixa Econômica Federal, lançou o “Viva Leitura”, para coordenar a realização dessa agenda. Esforcemo-nos para saciar uma fome que, idealmente, deve ser insaciável. Que os livros migrem das estantes para as mãos de muitos leitores. Afi nal, uma política de educação para todos requer também livros para todos. Fonte: <http://www.vivaleitura.com.br/artigos_show.asp?id_noticia=5>. Acesso em: 18 jan. 2010. Leia os artigos acima e responda: 1. Qual é o tema de cada autor? 2. O que cada autor defende sobre o assunto? 3. Quem parece apresentar os melhores argumentos? 4. Qual a sua opinião sobre o tema “ leitura”? 5. Por que você prefere pensar dessa forma? 6. Com que autores você se identifi ca mais, então? A partir daí, elabore um breve artigo em que você deixe claro o que já conhece sobre o assunto, em quem você se baseia para discutir e qual a sua opinião sobre o assunto. 22 Leitura e Produção de Textos A01 Referências BRAGA, Denise Bértoli. Aprendendo a ler na rede: a construção de material didático para aprendizagem autônoma de leitura em inglês. Disponível em: <http://www.abed.org. br/antiga/htdocs/paper_visem/denise_bertoli_braga.htm>. Acesso em: 30 dez. 2009. BERVIAN, Pedro A.; CERVO, Amado L. Metodologia científi ca. 5. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2002. GARCEZ, Lucília. Técnicas de redação: o que é preciso saber para bem escrever. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. ZAHAR, Cristina. Fala Mestre! Roger Chartier. Os livros resistirão às tecnologias digitais. Disponível em: <http://abruzaca.blogspot.com/2007/08/os-livros-resistiro- s-tecnologias.html>. Acesso em: 30 dez. 2009. Anotações 23 Leitura e Produção de Textos A01 Anotações 24 Leitura e Produção de Textos A01 Anotações 02 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Da leitura para a escrita LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A02 Considerações acerca das diferentes formas que utilizamos para nos expressar através da escrita. Para isso, refl etimos sobre alguns “mitos” que costumam ser divulgados sobre o ato de escrever e sua relação com a leitura. Além disso, complementamos o que estudamos na aula anterior sobre leitura. Você viu que existem diferentes formas de ler um texto que partem dos diferentes objetivos que temos. Nesta aula, você irá perceber que traçar objetivos também é muito importante ao escrevermos. Compreender os aspectos que diferenciam as produções orais e escritas. Conhecer diferentes formas de organização das ideias na produção escrita. Elaborar objetivos e esquemas que facilitem o processo de produção escrita. João Cabral de Melo Neto 2 Leitura e Produção de Textos A02 Para começo de conversa... 1. Catar feijão se limita com escrever: jogam-se os grãos na água do alguidar e as palavras na da folha de papel; e depois joga-se fora o que boiar. Certo, toda palavra boiará no papel, água congelada, por chumbo seu verbo: pois para catar feijão, soprar nele, e jogar fora o leve e oco, palha e eco. 2. Ora, nesse catar feijão, entra um risco: o de entre os grãos pesados entre um grão qualquer, pedra ou indigesto, um grão imastigável, de quebrar dente. Certo não, quanto ao catar palavras: a pedra dá à frase seu grão mais vivo: obstrui a leitura fl uviante, fl utual, açula a atenção, isca-a com o risco. (Catar Feijão – João Cabral de Melo Neto ) O poema de João Cabral de Melo Neto associa o ato de escrever ao ato cotidiano de catar feijões. Isso pode nos parecer, à primeira vista, um tanto inusitado, porém, se lermos com cuidado o poema, vamos perceber o quanto o poeta pernambucano tem razão. Ao catar feijão, escolhemos cuidadosamente os melhores grãos, jogando fora grãos ocos e fragmentos de palha. Tradicionalmente, ao catar os grãos, jogamo-los na água e retiramos aqueles que boiarem, são os grãos ocos, desnecessários. Da mesma forma, ao escrever, devemos retirar do texto tudo o que sobrar, deixando-o preciso e objetivo. O poeta aponta uma dessemelhança, entretanto, entre o escrever e o catar: no catar, jogamos fora as pedras, que podem quebrar um dente se forem cozidas junto aos grãos. No papel, a pedra é a ideia mais dura, aquela que chama a atenção do leitor, evitando que ele mergulhe numa leitura automática, que não instigue o raciocínio. Vamos discutir, ao longo de nossa aula, sobre a necessidade de pesarmos nossas palavras e pensarmos o nosso discurso? João Cabral de Melo Neto (1920 – 1999) foi um poeta e diplomata brasileiro. Sua obra poética, caracterizada pelo rigor estético, com poemas avessos a confessionalismos e marcados pelo uso de rimas toantes, inaugurou uma nova forma de fazer poesia no Brasil. Mitos 3 Leitura e Produção de Textos A02 Escrever para quê? Parafraseando Faraco e Tezza (2003, p. 9), não é fácil enumerar todos os motivos que nos levam a escrever. Escrevemos para dar ordens (É PROIBIDO FUMAR); para avisar de alguma coisa, para reclamar, para receitar, para advertir, para pedir, para tirar uma boa nota, para informar, para lembrar, para expressar o que sentimos, para contar uma história, enfi m... para um sem-número de coisas. Mas todos esses motivos podem chegar a um denominador comum: escrevemos para suprir uma defi ciência de nossa linguagem oral, ou seja, para alcançar algo ou alguém que nossa fala não consegue. Na linguagem oral contamos com uma série de recursos que nos permitem agregar informação às palavras que desfi amos em discurso. Recursos tais como expressões faciais, gestos, entonação, comunicam por si mesmas e compõem junto aos enunciados os sentidos que pretendemos alcançar. Além disso, na linguagem oral o interlocutor tem sempre a possibilidade de interromper a fala do enunciador e pedir para explicar novamente algo que não fi cou claro. Na linguagem escrita essa possibilidade é rara, a não ser, evidentemente, através de bate-papos eletrônicos, em que os interlocutores estão conversando ao mesmo tempo, a maioria dos textos escritos a distância, no espaço e no tempo, separam os interlocutores. Assim, a linguagem escrita precisa contar com recursos próprios, que permitam superar as difi culdades da distância. Por isso, é fundamental conseguir ordenar bem as ideias para poder expressar o pensamento da melhor forma possível e alcançar a comunicação. Em geral, temos difi culdade em escrever, até porque essa não é mesmo uma atividade fácil como é a de falar, para nós, seres humanos. Alguns preceitos arraigados em nossa formação básica, ou em nossa cultura, também acabam por difi cultar esse processo. Lucília Gacez (2004), em seu livro Técnica de Redação, comenta alguns mitos que cercam o ato de escrever. Vamos retomar alguns desses mitos apontados pela autora e ver se você já ouviu ou acredita em alguns deles? Mito 1: Escrever é um dom Muitas pessoas afi rmam que só consegue escrever bem quem tem uma habilidade inata, um dom para isso. Em geral, as pessoas sentem-se amedrontadas diante da página em branco e não conseguem superá-la e acabam por acreditar que o que as impede é essa falta de um “dom” específi co. Bem, lembre-se que não estamos discutindo aqui, a escrita literária. Mas a escrita técnica, acadêmica e científi ca, que tem características próprias e divergentes da escrita Vale salientar que a palavra mito, aqui, está sendo usada com o sentido de falsa crença, ou seja, preceito arraigado e, em geral, equivocado, que é reproduzido socialmente e considerado como verdadeiro pela maioria das pessoas. Carlos Drummond de Andrade 4 Leitura e Produção de Textos A02 mais criativa. É óbvio que algumas pessoas têm o dom da escrita, assim como outras têm o dom da música e outras o dom da pintura, etc. Mas, mesmo essas pessoas que têm o dom, o que haveria com elas se nunca aprendessem a escrever? Provavelmente, o seu dom não iria se desenvolver tanto, não é mesmo? O fato é que a escrita é uma construção social e, portanto, coletiva, que se desenvolveu ao longo da história da humanidade e se transformou consideravelmente ao longo do tempo. Se é coletiva e evoluiu, é claramente acessível a todos os seres humanos a partir do domínio de sua técnica. A criança não nasce sabendo falar ou escrever. Ela aprende a falar primeiro, mas ao longo de seu crescimento também aprende a escrever. Como? Dominando a técnica de segurar o lápis, de digitar no computador, de compreender as letras e as palavras e de seu uso nos enunciados. Assim, podemos afi rmar, com tranquilidade, que escrever é dominar tecnicamente a língua. Assim, em grande medida, o que determina a nossa maior ou menor familiaridade com a escrita, é o modo como aprendemos e desenvolvemos nossa linguagem, a importância que o texto escrito tem para nós e para a nossa sociedade e cultura e a frequência com que colocamos em prática a própria escrita. Acerca do ato de escrever, vejamos o que diz Carlos Drummond de Andrade, um dos poetas mais reconhecidos da literatura brasileira: (1902 -1987) foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Se dividirmos o Modernismo numa corrente mais lírica e subjetiva e outra mais objetiva e concreta, Drummond faria parte da segunda, ao lado do próprio Mário de Andrade. Lutar com palavras é a luta mais vã. Entanto, lutamos mal rompe a manhã. São muitas, eu pouco. Algumas, tão fortes como o javali. Não me julgo louco. Se o fosse, teria poder de encantá-las. Mas lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Deixam-se enlaçar, tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem, sevícia que as traga de novo ao centro da praça. [...] Lutar com palavras parece sem fruto. Não têm carne e sangue... Entretanto, luto. (O lutador – Carlos Drummond de Andrade). Eu lírico Praticando...Praticando... 1 5 Leitura e Produção de Textos A02 O poema “O lutador” é longo, aqui estão apenas alguns fragmentos, mas também é longa a luta do eu lírico apresentada no texto, não é mesmo? Carlos Drummond de Andrade, o autor, é o que podemos considerar uma pessoa que tinha o dom para escrever, no entanto, a escrita também não era um processo fácil e simples para ele, ele também tinha que se debater com as palavras. Podemos apreender desse poema, portanto, que mesmo as pessoas que têm o dom da escrita precisam colocar em prática esse dom e desenvolver a técnica. A técnica, em si, portanto, é acessível a todos. Ela só exige a prática. Quanto mais escrevemos, mais familiaridade temos com o processo. Eu lírico é o sujeito que, em um poema, expressa os seus sentimentos ou a sua visão de mundo. 1. Qual seria a diferença entre escrita literária e escrita técnica? 2. Leia os textos 1 e 2, a seguir e comente o que eles expressam sobre o processo de escrita. Texto 1 A noite inteira o poeta em sua mesa, tentando salvar da morte os monstros germinados em seu tinteiro. Monstros, bichos, fantasmas de palavras, circulando urinando sobre o papel sujando-o com seu carvão. Carvão de lápis, carvão da ideia fi xa, carvão da emoção extinta, carvão consumido nos sonhos. (A lição de poesia – João Cabral de Melo Neto). Clarice Lispector 6 Leitura e Produção de Textos A02 Texto 2 Esta é uma confi ssão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafi o para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superfi cialismo. Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope (A descoberta do Mundo – Clarice Lispector) Mito 2: Algumas “dicas” resolvem o problema de quem não consegue escrever Dicas podem ser muito úteis na hora de fazer uma prova de concurso ou um exame de seleção. Mas será que elas, de fato, resolvem as difi culdades de escrita? Muitos cursinhos oferecem receitas prontas com fórmulas preparadas para iniciar, desenvolver e concluir uma redação, mas esquecem que, para rechear essas fórmulas é necessário conhecimento do tema a ser desenvolvido, conhecimento de mundo, conhecimento da língua (lembra das competências para a leitura e produção de textos que você estudou na disciplina Língua Portuguesa?). Não acredite em fórmulas prontas. Sua redação só vai ser realmente boa se você conhecer aquilo sobre o que você fala. Escrever bem é resultado de um processo que envolve leitura, refl exão e ação. Só assim você se envolverá realmente com o seu texto e o produzirá com a coesão e a coerência necessárias. As “dicas” serão úteis se associadas à prática da escrita e da leitura. Isoladas, elas poderão até confundir você. No entanto, se você lê e escreve frequentemente, mesmo que só para exercitar-se, você poderá, inclusive, prescindir das dicas. Se você é um bom leitor deve pensar que isso também resolve seu problema com a escrita. Não é bem assim. Ler é, com certeza, um grande auxílio no processo de escrita, pois facilita nosso acesso à informações, desenvolve nossa capacidade de análise e nossa refl exão crítica, mas não é certo que quem lê muito escreverá bem. Pois se a pessoa só lê e não escreve, terá também difi culdades em escrever. Assim, ler e escrever são atividades distintas, embora interligadas. Quanto mais lemos, mais convivência temos com textos de naturezas diversifi cadas, o que nos auxiliará, (1920 -1977) foi uma escritora naturalizada brasileira, nascida na Ucrânia. De família judaica, recebeu o nome de Haia Lispector, terceira fi lha de Pinkouss e de Mania Lispector. Clarice Lispector surpreendeu a crítica com seu romance, seja pela problemática de caráter existencial, completamente inovadora, seja pelo estilo solto elíptico, e fragmentário, que críticos reputaram reminiscente de James Joyce e Virginia Woolf, se bem que ainda mais revolucionário. Software Download Upload 7 Leitura e Produção de Textos A02 evidentemente no processo de escrita, pois compreenderemos melhor como adaptar nosso discurso para cada situação específi ca de comunicação. Mas além de ler, precisamos escrever. Mito 3: Escrever não é tão necessário no mundo moderno A sociedade moderna está muito automatizada. Já não escrevemos mais cartas como antes, já não necessitamos de formulários de papel como antes. Esse fato pode nos levar a pensar, e muitas pessoas de fato pensam, que podemos prescindir da escrita. No entanto, paradoxalmente, quanto mais automatizado o mundo, quanto mais virtual, mais exigente em relação à leitura e à escrita. Já não podemos mais contar apenas com uma caneta e um papel, precisamos conhecer os softwares de editoração de texto, já não lidamos apenas com uma atendente de correio para enviar nossa correspondência, precisamos criar endereços virtuais, dominar uma linguagem específi ca, com arrobas e abreviações (.com.br) e palavras criadas para agilizar a conversa informal (blz, naum, aeow). Os velhos formulários de papel hoje estão on line e precisamos conhecer e fazer o download dos programas que nos permite abri-los e preenchê-los para, posteriormente fazermos um upload e enviá-los às instituições de origem. Percebeu como o processo hoje, ao invés de mais simples está mais complexo? O mundo contemporâneo exige que dominemos mais linguagens e novos processos de escrita. Pois, na informática tudo é dominado pela escrita. Tudo o que somos, o que temos, o que realizamos, depende desses novos instrumentos. Ainda impera, em face da mutabilidade do tempo, a permanência da escrita. Tudo o que escrevemos, no entanto, está inserido em uma situação social. Cada texto é regido por diversos fatores que se apresentam em cada situação específi ca. Assim, escrevemos, como falamos, adaptando nossa linguagem aos diferentes momentos que vamos vivendo. Uma carta familiar exige um nível menos formal da linguagem. Uma receita médica e um relatório exigem conhecimento técnico. Um artigo científi co, além do conhecimento técnico, exige o jargão acadêmico. A escrita é uma forma de organização do pensamento. É uma oportunidade para que o indivíduo demonstre o que sente, conheceu, descobriu, investigou e sabe sobre determinado assunto. Saber escrever é compartilhar práticas sociais de diversas naturezas. Para cada situação, objetivo, desejo, necessidade, há uma imensa variedade de textos de que dispomos e que precisamos nos adaptar. Software, tecnicamente, é o nome dado ao conjunto de produtos desenvolvidos durante o processo de software, o que inclui não só o programa de computador propriamente dito, mas também manuais, especifi cações, planos de teste, etc. Download signifi ca descarregar, em português; é a transferência de dados de um computador remoto para um computador local, o inverso de upload (“carregar” em Portugal). Por vezes, é também chamado de puxar (ex: puxar o arquivo) ou baixar (e.g.: baixar o arquivo), e em Portugal de descarregar. Upload é a transferência de dados de um computador local para um servidor. 2Praticando... 8 Leitura e Produção de Textos A02 1. Refl ita sobre suas crenças pessoais acerca do processo de escrita. Elabore um texto, em primeira pessoa, em tom de depoimento, relatando quando e como aprendeu a ler e escrever. Reveja todo o seu percurso. Comente suas principais difi culdades para ler e escrever. 2. Releia, pondo-se no lugar de um leitor, o texto que você produziu, ou então, peça a algum de seus colegas de disciplina que o leia. Questione-se ou peça ao colega que questione você: o texto está claro? Há alguma passagem difícil de compreender? Memória e pensamento Ao escrever lidamos com a nossa memória, ou seja, colocamos no papel, de forma lógica e ordenada, aquilo que lembramos sobre um determinado tema. Essa memória é construída a partir do que lemos, vivenciamos, conhecemos acerca daquele determinado tema que vamos desenvolver. Fazem parte da memória, por exemplo, os conhecimentos sobre a língua, os conhecimentos sobre os diversos gêneros textuais, os conhecimentos gerais e específi cos sobre o tema a ser tratado. Assim, memória vazia, produz texto fraco, sem substância. Utilizamos a memória durante todo o processo de elaboração do texto e, quando ela não tem estoque sufi ciente para o assunto que vamos desenvolver, buscamos ajuda. Como se dá essa busca? Buscamos mais informações através de amigos, de livros, de sítios na internet, etc. A escrita é, portanto, um processo que não se inicia ao começarmos o texto, mas muito antes. Cada texto está inserido dentro de uma prática social e nela adquire sentido. Ou seja, o que mobiliza um indivíduo a escrever um texto é uma necessidade, uma motivação que nasce de uma situação social específi ca. Essa situação vai exigir do indivíduo que ele dê sua opinião, expresse uma emoção, relate uma experiência, apresente uma proposta de trabalho, regule normas, comunique algo, enfi m, as necessidades motivadoras são as mais diversas, assim como o são, também, os objetivos a alcançar. 9 Leitura e Produção de Textos A02 Partindo dessa necessidade, o produtor já tem algumas informações sobre o texto, sufi cientes para poder elaborar um primeiro plano de trabalho: quais os objetivos a que o texto se propõe; qual o assunto/tema a ser abordado; qual o gênero mais adequado aos objetivos; quem vai ler; que nível de linguagem deve ser utilizado; quanto de subjetividade pode ser inserida no texto; quais as condições práticas para a produção do texto: tempo, apresentação e formato, por exemplo. Partindo dessa base inicial, o produtor do texto vai organizar as próprias ideias e monitorar-se para não fugir da rota. Esse planejamento inicial é muito importante e ajuda o produtor a dispor suas ideias de forma efi caz. Ou, como afi rma Boaventura (2002, p. 8/9) Sem estabelecer um plano sobre o que se vai escrever, as difi culdades depressa começam a surgir. Sem plano, há o risco de se perder sem se aprofundar em nenhum aspecto e pode-se acabar por fazer um trabalho superfi cial. Para estabelecer o plano, precisamos pensar as partes que o texto deve conter. Claro que, dependendo do caráter do texto a ser desenvolvido e de seus objetivos as partes vão ser de natureza diferente, mas imprescindivelmente o texto conterá: introdução, desenvolvimento e conclusão. O que contêm cada uma dessas partes, porém? Veja o esquema a seguir: Introdução: apresentação do tema de estudo. Desenvolvimento: as partes que apresentam os aspectos a serem tratados sobre o tema. Conclusão: a retomada de tudo que foi tratado de forma a fechar o assunto. 10 Leitura e Produção de Textos A02 Cada pessoa, no entanto, tem a sua forma específi ca de escrever, precisa desenvolver a sua técnica. Mas, para que alcance sucesso com o seu texto é preciso dedicar-se a ele. É preciso, por exemplo, ler e reler o texto após a sua produção. Essas etapas ainda fazem parte do processo de escrita. Nesse momento fi nal é importante perceber o texto observando se precisam ser: enfatizadas as ideias principais; reordenadas as informações; substituídas as ideias inadequadas; eliminadas as ideias desnecessárias ou repetidas; acrescentados exemplos, ilustrações, citações, argumentos; criados vínculos entre as ideias; estabelecidas hierarquias entre as ideias. Como fazer esses ajustes? Para isso, é preciso: acrescentar termos ou expressões; eliminar termos ou expressões repetidos, inadequados ou desnecessários; substituir termos ou expressões; transformar, modifi car, reorganizar períodos; revisar linguisticamente, corrigindo problemas de ortografi a, pontuação, concordância, entre outros. Mesmo depois de sua leitura, você ainda pode recorrer a uma segunda leitura, feita por outra pessoa. O olhar do outro é muito importante. Pois, como estamos habituados ao nosso texto, muitas vezes lemos o que queremos ler e não o que está lá. Outra pessoa, com olhos livres, poderá perceber detalhes ou falhas que nós não percebemos. Escritores famosos, em geral, submetem seu trabalho à leitura prévia, antes da publicação. PRÁTICA SOCIAL QUE EXIGE A ESCRITA CONTEXTO DA PRODUÇÃO DO TEXTO PROCESSAMENTO DO TEXTO AVALIAÇÃO CONSTANTE DO PROCESSO REVISÕES ORGANIZAÇÃO REESCRITA MEMÓRIA ASSUNTO MOTIVADOR 3Praticando... 11 Leitura e Produção de Textos A02 Enfi m, se pensarmos na escrita como um processo, podemos visualizá-la a partir do seguinte esquema: Que tal praticar um pouco a escrita? Pense em algum momento marcante de sua vida e procure relatá-lo. Para isso, trace um plano de trabalho: o que você vai relatar? Quando isso aconteceu? Por que esse momento é importante para você? Depois de escrever a primeira vez, leia em voz alta, procure perceber se o texto realmente diz aquilo que você queria dizer. Procure observar se há problemas linguísticos, corrija-os e só depois reescreva. Autoavaliação 12 Leitura e Produção de Textos A02 Leitura complementar <http://www.pucrs.br/manualred/prefacio.php>. Nesse site, você vai acessar o manual de redação da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul, com uma série de explicações sobre os aspectos gramaticais da produção de textos e ainda alguns links para textos interessantes sobre redação. Nesta aula, estudamos um pouco acerca do processo da escrita, desfazendo alguns mitos que cercam o ato de escrever, ressaltando as relações entre leitura e escrita e, também, reforçando a importância de uma organização prévia necessária ao processo de elaboração de textos. Identifi que nos textos seguintes, o tema discutido, a intenção comunicativa e o tipo de situação de comunicação em que ele pode estar inserido. Texto 1 A infl ação calculada pelo Índice de Preços ao Consumidor – Semanal (IPC-S) recuou em seis das sete capitais pesquisadas pela Fundação Getulio Vargas (FGV) na passagem da terceira para a quarta semana de junho. O maior recuo foi verifi cado no Rio de Janeiro, onde o indicador passou de 0,88% para 0,65% – um recuo de 0,23 ponto percentual. Fonte: <www.g1.globo.com>. Acesso em: 5 dez. 2009. Adélia Prado 13 Leitura e Produção de Textos A02 Texto 2 Casamento Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como “este foi difícil” “prateou no ar dando rabanadas” e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. Por fi m, os peixes na travessa, vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva. Adélia Prado Texto 3 O comércio baseia-se na troca voluntária de produtos. As trocas podem ter lugar entre dois parceiros (comércio bilateral) ou entre mais do que dois parceiros (comércio multilateral). Na sua forma original, o comércio fazia- se por troca direta de produtos de valor reconhecido como diferente pelos dois parceiros, cada um valoriza mais o produto do outro. Os comerciantes modernos costumam negociar com o uso de um meio de troca indireta, o dinheiro. É raro fazer-se troca direta hoje em dia, principalmente nos países industrializados. Como consequência, hoje podemos separar a compra da venda. A invenção do dinheiro (e subsequentemente do crédito, papel- moeda e dinheiro não-físico) contribuiu grandemente para a simplifi cação e promoção do desenvolvimento do comércio. Fonte: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Com%C3%A9rcio>. Acesso em: 5 dez. 2009. (1935) é uma escritora brasileira. Seus textos retratam o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela sua fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo. Anotações 14 Leitura e Produção de Textos A02 Referências BOAVENTURA, Edivaldo. Como ordenar as idéias. 8. ed. São Paulo: Ática, 2002. FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristóvão. Ofi cina de texto. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003. Anotações 15 Leitura e Produção de Textos A02 Anotações 16 Leitura e Produção de Textos A02 03 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Tópicos de Gramática LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A03 Uma seleção de tópicos gramaticais que representam problemas recorrentes para a produção de textos de toda natureza, principalmente aqueles que exigem mais acuidade em sua elaboração, como os de natureza técnica, acadêmica e científi ca. Ao longo desta aula você poderá pôr em prática o seu conhecimento acerca do uso de pronomes, advérbios, verbos e expressões que causam confusão para os usuários da língua portuguesa. Compreender alguns dos problemas mais comuns na produção de textos mais formais. Utilizar corretamente, em produções textuais, pronomes, verbos, advérbios e expressões que causam confusão entre os usuários da língua portuguesa. 2 Leitura e Produção de Textos A03 Para começo de conversa... Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente. Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida, regular como um paradigma da 1ª conjunção. Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial, ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto. Casou com uma regência. Foi infeliz. Era possessivo como um pronome. E ela era bitransitiva. Tentou ir para os EUA. Não deu. Acharam um artigo indefi nido na sua bagagem. A interjeição do bigode declinava partículas expletivas, conectivos e agentes da passiva o tempo todo. Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça. (O assassino era o escriba - Paulo Leminski). O divertido poema do poeta curitibano Paulo Leminski utiliza a nomenclatura da gramática normativa para narrar uma pequena história. A gramática tem sido um motivo de grande preocupação para estudantes de língua portuguesa no Brasil desde longa data. O problema não é ela em si, no entanto, mas a forma como percebemos a sua importância. A gramática de uma língua é fundamental, sem gramática não teríamos como elaborar enunciados com sentido. No entanto, tendemos a acreditar que aprender gramática é o sufi ciente para aprender a escrever. E não é bem assim. Conhecer bem a gramática normativa não garante a qualidade de sua produção textual, ela é apenas um instrumento a mais que, se for bem utilizado, pode ser muito útil, mas não é o único instrumento. 3 Leitura e Produção de Textos A03 A escrita e a gramática F alar e escrever são coisas muito diferentes, e nós já vimos algumas dessas diferenças ao longo de nossas aulas da disciplina Língua Portuguesa. Mas uma diferença que pesa bastante é que, ao escrever textos de natureza técnica, científi ca ou acadêmica, somos mais cobrados na atenção às normas da língua. Ou seja, precisamos estar mais atentos à gramática. Por isso, ao longo desta aula, vamos discutir alguns dos problemas mais comuns de quem lida com textos mais formais. Os diferentes “quês” Um probleminha comum para quem escreve é o uso ou não da vírgula antes da palavra “que”. Já tivemos uma aula sobre vírgulas na disciplina Língua Portuguesa, portanto, aqui vamos só relembrar algumas razões que remetem à necessidade de usar vírgulas ao utilizar o “que”. Veja o exemplo: 4 Leitura e Produção de Textos A03 Exemplo 1 Algum tempo atrás, antes do real, você podia dizer que, no Brasil, o dinheiro não durava muito e logo perdia o valor. Mas não se pode dizer isso da nota de dinheiro. Aquela folhinha que a gente pega, dobra, amassa, põe no bolso e, principalmente, tira do bolso a toda hora... Quantos quês foram utilizados no exemplo? 1. Você pode até dizer que, no Brasil, o dinheiro não dura muito e logo perde o valor. 2. Aquela folhinha que a gente pega, dobra, amassa, põe no bolso e, principalmente, tira do bolso a toda hora. São duas orações: 1. João é o homem. 2. Eu amo o João. No primeiro enunciado o “que” vem depois do verbo (dizer) e não faz referência a nenhuma palavra ou expressão anterior, ele apenas conecta o verbo ao seu objeto (verbo dizer + objeto dinheiro). No enunciado entre o verbo e o objeto há uma informação intercalada (no Brasil) que é uma indicação do lugar sobre o qual se fala. As vírgulas estão presentes para demonstrar essa interlocução adverbial na oração. Portanto, entre o “que” e o verbo não há vírgulas. A oração principal é “Você pode até dizer que o dinheiro não dura muito no Brasil”. No segundo enunciado, o “que” remete à “folhinha”. Neste caso, funciona como um pronome relativo, ou seja, como um elemento que remete a um nome. É o mesmo caso de “João é o homem que eu amo”. 5 Leitura e Produção de Textos A03 Para não precisarmos repetir João ou o homem, usamos o pronome relativo e unimos as duas orações. Todo pronome relativo introduz uma oração que está ligada a um nome, seja esse nome de pessoa, objeto, animal etc. Outro exemplo: Exemplo 2 Os compositores de que gosto são brasileiros. Há, além do “que”, uma preposição exigida pelo verbo. Quando gostamos, gostamos de alguma coisa, não é mesmo? Nesses casos em que há necessidade de uma preposição, ela entra na oração que o que introduz (de que, com que, a que, para que). Mas em algumas orações em que o pronome relativo “que” surge, há necessidade de vírgulas. Vamos ver alguns exemplos? Exemplo 3 A árvore, que é um ser vivo, pode adoecer. Exemplo 4 Maria, que é feliz, nunca chora. Nos exemplos 3 e 4, as orações entre vírgulas têm um “que” funcionando como pronome relativo, ou seja, remetendo aos sujeitos do enunciado que são, respectivamente, árvore e Maria. Muito bem, mas essas orações introduzidas pelo “que” vêm entre vírgulas, por quê? Lembra da aula sobre uso da pontuação, na disciplina Língua Portuguesa? Lá, esclarecemos que usamos a vírgula sempre que intercalamos, na oração principal, um aposto, ou seja, algo que explica alguma coisa sobre quem a oração fala. No caso dos enunciados dos exemplos 3 e 4 é isso que temos: o primeiro explica que a árvore é um ser vivo; o segundo, que Maria é feliz. Explicadas essas coisas, compreendemos tanto o porquê da árvore adoecer quanto de Maria chorar. 6 Leitura e Produção de Textos A03 Assim, só utilizamos vírgulas em orações introduzidas pelo pronome relativo “que”, quando essas orações tiverem a função de aposto explicativo. Certo é que podemos nos confundir ou não identifi car, de pronto, se uma oração é explicativa ou não. Veja os exemplos a seguir: Exemplo 5 O homem que fuma morre mais cedo. Exemplo 6 O homem, que fumava, precisou sair do restaurante. Por que há vírgulas no enunciado do exemplo 5 e não há vírgulas no enunciado do exemplo 6? Vamos analisar... Em “O homem que fuma” o “que” funciona como pronome relativo, certo? Pois ele remete à palavra homem. No enunciado do exemplo 6 também, “o homem fumava”, mas há uma diferença. No enunciado do exemplo 5 sabemos que todos os seres humanos morrem não é mesmo? Mas o que o enunciado quer dizer é que uma parcela dos homens, aqueles que fumam, morrem mais cedo que os demais. Assim, no exemplo 5 não há uma intenção de explicar no enunciado “que fuma”, mas de restringir em um amplo contingente, uma parcela que morre mais cedo. Portanto, “que fuma” é uma oração restritiva e não explicativa. Já no enunciado do exemplo 6, a oração “que fumava” explica por que o homem precisou sair do restaurante. Ele saiu do restaurante porque fumava. Entendeu? Outro detalhe: o pronome “que” não é o único utilizado como pronome relativo em orações explicativas. Observe os exemplos a seguir: Exemplo 7 Minha mãe mora em Natal, onde a água costumava ser pura. Exemplo 8 Essa garota, cujas ofensas já suportei, é muito indelicada. 1Praticando... 7 Leitura e Produção de Textos A03 Nos exemplos 7 e 8, as orações explicativas são introduzidas, respectivamente, pelos pronomes “onde” e “cujas”. Mas lembre-se, o pronome “onde” só deve ser utilizado quando nos referimos a lugares, no caso, a palavra a que ele remete é Natal. Exercite um pouco do que você aprendeu nas orações a seguir. Coloque as vírgulas onde for necessário. a) O show de corrupção que Natal tem mantido em cartaz não estimula a população a imaginar que seja possível eliminar a criminalidade. b) A multidão que estava faminta gritava sem parar. c) Ela que não é boba disse que estava tudo errado. d) O homem que assaltou o banco usava calça preta. e) Ele que estava cansado gostou da massagem. Os diferentes porquês Uma coisa que incomoda a quem escreve também são as diferentes formas de grafar o “porquê”. Quando falamos, todos eles soam igual, então, por que escrevê-los de forma diferente? Isso só se justifi ca quando remetemos à função que cada um deles exerce na oração. Vejamos cada caso: 8 Leitura e Produção de Textos A03 Exemplo 9 Por que ele não veio? Exemplo 10 Eu não sei por que ele não veio. Por que Nesse caso “por que” pode ser substituído por “por que motivo”. Ele investiga a causa de alguma coisa. Observe o exemplo: No caso dos exemplos 9 e 10 há uma junção entre a preposição por e o pronome interrogativo “que”. Juntos eles devem ser utilizados em orações que interrogam (exemplo 9) direta ou indiretamente (exemplo 10). Existem casos em que por que é formado pela junção de preposição e pronome relativo. Nesses casos ele equivale a pelo qual, pelos quais, pelas quais, pela qual. Exemplo 11 A rua por que passamos não era a que procuramos. No caso do exemplo 11, não há um questionamento direto nem indireto. O “por que” pode ser substituído por pela qual. Por quê Caso o questionamento, a interrogação que se faça não venha no início ou no meio da oração, mas no fi nal, é preciso agregar ao que, um acento circunfl exo, pois no fi nal da oração o monossílabo “que” passa a ser tônico, essa é a função do acento. Por isso, só usamos o “por quê” em fi nais de oração: 9 Leitura e Produção de Textos A03 Exemplo 12 – Você gosta dele? – Claro. Por quê? Exemplo 13 Não terminou por quê? Não sei por quê! Porque A forma “porque” é explicativa. Poderia ser substituída na maioria dos casos por pois, já que, uma vez que, quando remete a uma causa, ou por para que, a fi m de, quando remete a uma fi nalidade. Veja o exemplo: Exemplo 14 Ela não está falando comigo porque faltei ao nosso encontro. Porquê Essa forma é substantivada e, portanto, vem sempre acompanhada por um artigo (o porquê) ou por um pronome (esse porquê). Além disso, sofre mudança de número, ou seja, vai para o plural (os porquês). Vamos ao exemplo: Exemplo 15 Os verdadeiros porquês do assassinato estão sendo investigados. Praticando...Praticando... 2 10 Leitura e Produção de Textos A03 Novamente vamos exercitar. Insira nas lacunas das orações abaixo os seus respectivos por que, por quê, porque ou porquê. a) Ninguém sabe ___________ o secretário não assinou o documento. b) O presidente assinou a medida provisória _____________ quis. c) Afi nal, ele não veio _____________? d) Qual o _____________ de sua demissão? Onde ou aonde? “Onde”, eis uma palavrinha muito utilizada. E, em geral, de forma inadequada, pois oralmente usamos indefi nidamente para indicar tempo, lugar etc. Veja os exemplos: Exemplo 16 Em fevereiro, onde a nova lei será implantada, serão feitas alterações na estrutura pública. Exemplo 17 Estive no estádio, onde é muito bonito, mas gostei mais do museu. Exemplo 18 Curitiba, onde haverá eleições municipais, está tranquila. Qual desses exemplos (16, 17 ou 18) apresenta o uso correto da palavra onde? Você consegue identifi car? Muito bem, você acertou se disse que o único enunciado correto é o exemplo 18. No padrão escrito, a palavra onde só deve ser utilizada para indicar lugar. Praticando...Praticando... 3 11 Leitura e Produção de Textos A03 No caso, ele remete à cidade de Curitiba. Por isso, o termo a que o “onde” remete deve estar sempre próximo a ele. O uso excessivo do “onde” acaba por eliminar também de nossa prática o uso do “aonde”. O fato é que ambos são muito parecidos. O “onde” é utilizado em situações estáticas, enquanto o “aonde” é a combinação da preposição “a + onde”. Indica movimento para algum lugar. Dá ideia de aproximação. É usado com os verbos ir, chegar, retornar e outros que pedem a preposição a. Veja alguns exemplos: Exemplo 19 – Onde você está? – Em casa. Exemplo 20 – Aonde você vai? – Para casa. Percebeu a diferença? A casa, no exemplo 19, é um lugar estático onde se está. No exemplo 20, a pessoa ainda não está em casa, mas está a caminho, portanto, em movimento de ida. Coloque adequadamente nas orações abaixo “onde” ou “aonde”. a) ___________ fi ca o Sudão? b) Sabe __________ eles estão indo? c) Estavam à deriva sem saber ___________ ir. d) De ___________ você está falando? e) Não sei ___________ ele estava com a cabeça quando disse isso. 12 Leitura e Produção de Textos A03 Este ou esse? Os pronomes demonstrativos são palavrinhas bem versáteis da nossa língua. Eles têm três empregos, como veremos a seguir. Indicam situação no espaço Quando estamos remetendo, no texto, em geral em conversas orais, cujos interlocutores estão no mesmo local e falam sobre o que está a seu redor, podemos dizer: Exemplo 21 – Esta sala está suja. A sala é o local onde as pessoas participando do diálogo estão localizadas, portanto, o pronome “esta” remete a algo que está fora do texto, indica um espaço em que os interlocutores se encontram. Exemplo 22 – Esse quarto não está bem arrumado. O quarto é um local que o enunciador está vendo, mas em que não está. Pode estar lá a pessoa com quem o enunciador fala. Nesse caso, o pronome também poderia indicar um objeto a que uma das pessoas do diálogo se referisse. Exemplo 23 – Este lápis é seu? (A pessoa precisaria estar próxima ao lápis) – Aquela caneta vermelha é a minha? (A pessoa estaria distante da caneta). 13 Leitura e Produção de Textos A03 Resumindo: o lugar onde estou: este; o lugar onde você está: esse; o lugar distante do falante e do ouvinte: aquele. Indicam situação no tempo Quando remetemos, no texto, a situações temporais que estamos vivendo fora do texto. Se o tempo a que nos referimos é tempo presente (em curso), pode-se usar “este”. Se nos referimos a um tempo passado próximo, usamos “esse”. Se o passado a que nos referimos já está distante, usamos “aquele”. Exemplo 24 Esta semana viajo para a Espanha. (A semana já está em curso) Exemplo 25 Esse ano visitei minha tia. (A visita foi feita em algum momento do ano, num passado próximo, pois o ano ainda está em curso). Exemplo 26 Aquele foi um ano feliz! (O ano de que se fala já passou, é um passado remoto) Mas, quando saber se o lugar ou o tempo estão próximos ou distantes? Só o contexto pode nos ajudar nisso. No caso do tempo, a nossa relação com ele é ditada, principalmente, pela nossa psique. Em uma sala de espera de um médico, o tempo dura uma eternidade, se estamos nos divertindo com um grupo de amigos, no entanto, como ele passa rápido, não é? Assim, o que precisamos é nos guiar pelo contexto. 14 Leitura e Produção de Textos A03 Resumindo: tempo presente: este; passado ou futuro próximo: esse; passado distante: aquele. Indicam situação no texto Muitas vezes os pronomes remetem a termos ou expressões utilizadas dentro do texto. Nesses casos é que costumamos nos confundir mais. Se o termo de referência ainda vai ser anunciado, usamos este. Exemplo 27 O presidente disse esta pérola: “Nossa política não possui erros”. No exemplo 27, o pronome “esta” remete à toda frase dita pelo presidente que foi explicitada logo depois. Se o termo de referência já foi enunciado, utiliza-se “esse”. Exemplo 28 “Nossa política é bem planejada”. Essa frase foi pronunciada pelo presidente. Agora, quando temos dois termos comparativos, usa-se “este” para fazer referência ao mais próximo e “aquele” para fazer referência ao mais distante. 4Praticando... 15 Leitura e Produção de Textos A03 Exemplo 29 Lula e FHC são dois presidentes da história recente do Brasil. Este, conhecido por uma sigla, aquele, por um apelido. Resumindo: o que vai ser mencionado: este; o que se mencionou antes: esse; entre dois ou três fatos citados: o primeiro que foi citado: aquele; o do meio: esse; o último citado: este. Aplique corretamente este/esse/aquele nos enunciados a seguir: a) __________ ano [ano em curso] pouco se fez em favor dos sem-teto. b) Não há ocorrência de acidentes ___________ data (de hoje). c) Bons tempos ______________! - diz vovó, nostálgica. d) Nosso vizinho vive repetindo ____________provérbio: “Casa de ferreiro, espeto de pau”. e) Quando o rei D. João V faleceu e D. José ocupou o trono,___________ recorreu a Sebastião José para ser Ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros. f) ____________ sala em que você está é muito mal arrumada. 16 Leitura e Produção de Textos A03 Concordar pra quê? Na linguagem coloquial, diária, é comum usarmos expressões tais como: “Vamo lá!” ou “Tu sabe disso?”. Essas expressões, que passam despercebidas na linguagem oral familiar, ou entre amigos, se escritas em textos mais formais, indicam sério problema de uso da expressão gramatical: falta de concordância. A língua portuguesa estabelece regras de concordância verbal e nominal. Ou seja, precisamos concordar todas as palavras, situando-as no singular ou no plural, no masculino ou no feminino e adequando- as ao modo e ao tempo verbal. Os textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica exigem o uso da linguagem padrão, por isso precisamos nos ater às regras de concordância. Assim, observe o exemplo a seguir: Exemplo 30 A maioria das pessoas consideram correto o consumo de verduras. Qual é o problema nessa oração? Você consegue identifi cá-lo? Não? Vamos a ele: “a maioria” é um nome que traz uma ideia de grande quantidade, não é mesmo? Por isso, em geral, temos a tendência de concordar o verbo com a quantidade que o nome indica e colocamos o verbo no plural (consideram). Mas, apesar da ideia, o termo “a maioria” é singular e, portanto, o verbo precisa permanecer na terceira pessoa do singular (considera). Também difi culta a concordância quando o sujeito aparece depois do verbo. Veja o exemplo: 5Praticando... 17 Leitura e Produção de Textos A03 Exemplo 31 Foi anunciada na semana passada a inauguração da usina hidrelétrica. Saíram os resultados da última eleição. Apareceu dez pessoas com o mesmo traje. Qual dos enunciados do Exemplo 31 apresenta problemas de concordância? Descobriu? Muito bem! “Dez pessoas apareceram com o mesmo traje.” Fica muito mais fácil fazer a concordância quando colocamos o sujeito antes do verbo, não é mesmo? Teste seu domínio de concordância reescrevendo os enunciados abaixo substituindo as palavras em negrito pelas palavras entre parênteses e fazendo as adequações necessárias. a) Faltou troco, mas no primeiro dia de convivência com a nova moeda de R$2,00 não houve maiores problemas. (moedas) b) Fechada no dia da Independência, a pesquisa apresentou resultados favoráveis ao candidato da oposição. (os dados) c) Os juros, que são o grande vilão do mercado consumidor, foram temas de reunião ministerial. (a taxa de juros) d) Aconteceu, ao contrário do que previa o noticiário, uma boa receptividade ao novo sistema de avaliação do Ensino Médio. (os comentaristas/ manifestações de apoio) 18 Leitura e Produção de Textos A03 Uso da crase Crase é outro bicho-papão de quem usa a língua portuguesa. Quando usar? Quando não usar? Sempre fi camos em dúvida. Mas, o que é crase, afi nal? Crase é a contração da preposição “a” mais o artigo “a”. Isso signifi ca que só colocaremos o acento grave (`) indicador de crase, quando houver a necessidade de usar ambos: “a + a”. É por isso que jamais usamos a crase antes de palavras masculinas, porque elas não pedem artigo feminino, não é? É claro que há exceções: “aquele”, às vezes, pede crase, apesar de masculino, se o verbo antecedente pedir preposição. Ao unir-se ao pronome, que começa com a letra “a”, haverá crase. Exemplo 32 O governador reclamou àquele (a+ aquele) mesmo secretário que havia aclamado. Ou quando fi car subentendida a expressão “à moda de”, então, mesmo que o nome seguinte seja masculino, a crase é colocada. Exemplo 33 Contou uma piada à Chico Anísio (à moda de Chico Anísio) Também não usamos crase antes de ela, essa, esta, uma. 19 Leitura e Produção de Textos A03 Convém lembrar, ainda, que nos casos de numerais indicativos de hora de relógio, a crase é permitida, pois sempre usamos crase antes de numeral que indica hora de relógio. Portanto, se “uma” na oração, referir-se à hora de relógio, a crase é permitida. Exemplo 34 Ele disse a verdade a ela. Ninguém obedece a essa regra. O deputado referiu-se a esta declaração. Ele foi a uma sessão da câmara. Exemplo 35 A loja abre às duas horas. A mercearia abre à uma e meia. Nomes de países, estados e cidades são caprichosos. Ora pedem artigo. Ora esnobam-no. Por isso, às vezes exigem crase. Às vezes não. Como saber? Se a frase for construída com o verbo ir, há um truque. Substitua o ir por voltar. Depois, siga o conselho da quadrinha: Se, ao voltar, volto da, crase no a Se, ao voltar, volto de, crase pra quê? 20 Leitura e Produção de Textos A03 Vamos ver alguns usos típicos que às vezes nos confundem: 1. às vezes – Isso acontece às vezes; 2. à base de – A massa foi feita à base de amido; 3. à moda de – Bife à moda francesa; 4. às tantas horas – Ela chegou às cinco horas; 5. às escuras – O encontro foi às escuras; 6. à toa – Estava à toa na vida; 7. à exceção de – À exceção do seu amigo, todos estavam na festa; 8. à mão – Escrevi à mão, depois digitei; 9. à escuta – Os policiais fi caram à escuta, acompanhando a conversa. Antes que você diga, no entanto, que difícil em português é o fato de toda regra ter exceção, vamos a duas tabelinhas que vão resumir o uso e não uso de crase e facilitar a sua compreensão. Resumindo Nunca use crase antes de Exemplo Masculino Bife a cavalo, entrega a domicílio. Verbo Disposto a reagir. Pronomes (que não aceitem o artigo a(s)) Falei a cada prima. Dirigiu-se a ela. Referia-me a esta moça. Parabéns a você. Expressões formadas por palavras repetidas Gota a gota, face a face. Nomes de cidades sem determinação (exceção: haverá crase, se o nome da cidade vier determinado) Vou a Santos. Vou à poluída Santos. Palavras no plural precedidas de a (no singular) Assisti a demonstrações de carinho. Quadro 1 - Quando não se deve usar crase. Fonte: <http://www.geocities.com/mgh_7/gramatica.html>. Acesso em: 7 jan. 2010. 6Praticando... 21 Leitura e Produção de Textos A03 Sempre use crase Exemplo Na indicação do número de horas À uma e meia, às nove. Quando há ou se pode subentender a palavra moda Chapéu à gaúcha (à moda gaúcha). sopa à calabresa (à moda calabresa). Nas locuções adverbiais, prepositivas e conjuntivas Às vezes choro. Acabou devido à falta de luz. Saímos à medida que recebíamos. Quadro 2 - Usos da crase. Fonte: <http://www.geocities.com/mgh_7/gramatica.html> 1. Use a crase nos termos grifados, quando necessário: a) Quanto as crianças abandonadas, as mesmas estão a procura da felicidade, mas só encontram a incompreensão e o desprezo da sociedade. b) Dada a urgência da situação referente a negociação imobiliária, se eu resolver vender a casa, volto a telefonar-lhe. c) Esta advertência não se destina aqueles alunos que comparecem as aulas. d) As vezes as medidas governamentais contemplam somente aqueles que contribuem há mais tempo para a autarquia, não visando aquela parcela da população que ainda não quitou a dívida. e) De segunda a quinta, das nove as dezessete horas, estaremos sempre lá, a postos, a disposição da população, para esclarecer as dúvidas. Favor, dirijam-se a Marechal Floriano para maiores esclarecimentos. f) A partir de setembro, não haverá mais resistência as nossas ideias, devendo a chefi a submeter-se as reivindicações dos funcionários. Autoavaliação 22 Leitura e Produção de Textos A03 Leitura complementar CAMPOS, Carmem Lúcia; SILVA, Nilson Joaquim (Org.). Lições de gramática para quem gosta de literatura. São Paulo: Panda Books, 2007. Se você quiser divertir-se um pouco com aspectos da gramática aplicados a textos literários, leia o livro Lições de gramática para quem gosta de literatura, que reúne textos de diversos autores, cada um enfocando alguma questão problemática do uso da língua portuguesa. Nesta aula, abordamos o uso de alguns tópicos gramaticais como os diversos porquês, este/esse, concordância verbal e nominal e crase, que às vezes causam confusão no processo de produção textual. Mas é importante lembrar que esses tipos de dúvidas gramaticais só podem ser respondidos na medida em que você for escrevendo e pesquisando para elaborar com qualidade o seu texto. 1. Observe os termos em destaque no texto 1 e corrija quando necessário, de acordo com as questões a e b . Texto 1 Com fardas do Exército, homens rendem e assaltam lotérica e farmácia 1 Um grupo com aproximadamente cinco homens, segundo populares, rendeu e assaltou clientes e funcionários de dois estabelecimentos comerciais próximos, no município de Severiano Melo, a 357 km de Natal, na manhã desta segunda- feira, as 9h da manhã. 5 De acordo com informações da Delegacia de Polícia Civil de Severiano Melo, a Lotérica Rafael e a Drogaria Santa Teresinha, vizinhas, estavam em funcionamento normal quando os assaltantes chegaram, camufl ados, com fardas do Exército, dizendo serem policiais e alegando que fariam uma inspeção no local. 23 Leitura e Produção de Textos A03 10 15 20 Começando pelo primeiro estabelecimento, logo renderam e mandaram que todos fi cassem deitados. A mesma ação aconteceu na Drogaria, logo depois. “Foi uma grande humilhação”, defi niu Francisco Erismar Monteiro, de 35 anos, um dos clientes que estavam na farmácia. Segundo ele, que testemunhou a polícia, os assaltantes levaram cerca de R$ 5 mil em dinheiro e cheque, celulares, inclusive novos que estavam a venda em um dos estabelecimentos, pertences de clientes e até cartões de benefícios como aposentadoria e Bolsa Família. Populares informaram que viram o grupo fugir em um Fiat Uno branco com placas de Recife. A polícia acredita, já no início das investigações que se trata de uma quadrilha que age e é natural da própria região. O delegado José Célio de Oliveira Fonseca está apurando o caso. Gabriela Olivar Fonte: <http://www.diariodenatal.com.br/int_cotidiano_interna.php?id=35716>. Acesso em: 8 jun. 2008. a) Observe se há a necessidade de uso de crase nas palavras em negrito das linhas 3, 11, 15 e 16 e corrija, quando houver. b) Observe, nos trechos sublinhados se há necessidade de uso da vírgula antes do pronome que. Corrija quando houver. 2. Identifi que no texto 2 se há problemas de concordância e de uso do pronome relativo “onde” nos trechos sublinhados e corrija, quando necessário. Texto 2 Ônibus com destino a Natal sofre atentado 1 Um ônibus da empresa Nordeste que fazia a rota Fortaleza/Natal foi vítima de uma tentativa de assalto na madrugada desta terça, próxima ao posto Zé da Volta, localizado entre as cidades de Assu e Mossoró. O veículo chegou a ser alvejado e dois passageiros fi caram feridos. 5 10 De acordo com agentes da delegacia de Assu, os passageiros e o motorista do ônibus relataram que era por volta das 3h40 da manhã onde um carro tipo Corsa Sedan Vermelho encostou no veículo e efetuou vários disparos na tentativa de fazê-lo parar. Ao todo, seis disparos atingiram a parte lateral e a frente do ônibus. O assalto só não foi bem-sucedido porque o motorista, que não teve o nome revelado, acelerou até encontrar uma viatura da PM já próximo a cidade de Assu. 15 Os estilhaços do pára-brisa chegou a ferir duas pessoas de forma leve. Os passageiros foram encaminhados, ainda de acordo com a polícia, para o hospital regional de Assu onde foram medicados e liberados em seguida para seguir viagem. Um Policial Militar de Assu, para dar assistência, veio para Natal dentro do ônibus. Ao chegar à capital potiguar, o motorista dirigiu-se até a Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos para realizar um Boletim de Ocorrência. Anotações 24 Leitura e Produção de Textos A03 20 O Grupo Tático de Combate de Mossoró e de Assu realizaram diligências pelo local da ocorrência e ainda pelas estradas carroçáveis de Serra do Mel e Upanema, mas não conseguiu chegar até os suspeitos. Carlos Eduardo Araújo Fonte: <http://www.diariodenatal.com.br/int_cotidiano_interna.php?id=35733>. Acesso em: 8 jul. 2008. Referências BECHARA, Evanildo. Gramática escolar da língua portuguesa: com exercícios. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. CAMPOS, Carmem Lúcia; SILVA, Nilson Joaquim (Org.). Lições de gramática para quem gosta de literatura. São Paulo: Panda Books, 2007. FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristóvão. Ofi cina de texto. Petrópolis: Vozes, 2003. SQUARISI, Dad. Dicas da Dad: português com humor. 10. ed. São Paulo: Contexto, 2005. 04 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Características da linguagem técnica, acadêmica e científi ca LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A04 Alguns aspectos que constituem a linguagem técnica, científi ca ou acadêmica e que são importantes de ser lembrados ao ler e produzir textos dessa natureza. Lembre-se de que nós já discutimos, nas aulas anteriores, acerca da leitura para fi ns de estudo e de produção técnica, científi ca ou acadêmica, assim como refl etimos sobre alguns mitos que cercam o ato de escrever e sobre a estrutura geral que cerca a situação de produção escrita. Compreender a natureza da linguagem técnica, científi ca ou acadêmica. Aplicar esses conhecimentos em produções textuais dessa natureza. 2 Leitura e Produção de Textos A04 Para começo de conversa... Uma tese é uma tese Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca. As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte. O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fi ca curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fi o. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre - sempre - uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo. 3 Leitura e Produção de Textos A04 São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós? Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fi ca no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto. Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo para, o dinheiro entra apertado, os fi lhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase signifi ca que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta. E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profi ssionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo. Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afi rmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290. Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática. Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto. (PRATA, 1998, extraído da Internet). O texto de Mário Prata é uma bem humorada crítica ao jargão da academia. Ou seja, é uma crítica à forma muito normalizada de escrita dos textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica. É justamente sobre essa linguagem que estamos nos debruçando nesta disciplina. Apesar de cheia de normas, ela não precisa ser complicada, ou difícil de ler pelos leitores que não pertencem ao mundo acadêmico. Na verdade, o que defendemos, ao longo desta disciplina, é justamente a simplicidade, a objetividade e a clareza da escrita, de forma que ela seja acessível a todos que por ela se interessem. Sobre essas características do texto de natureza técnica, científi ca ou acadêmica é que iremos discutir aqui. 4 Leitura e Produção de Textos A04 A natureza da linguagem técnica, científi ca ou acadêmica Como você já viu na aula anterior, escrever não é fácil, mas também não depende apenas de um dom. Todos nós nos deparamos em algum momento de nossa existência com a difi culdade de iniciar um texto, de romper a brancura de uma folha (real ou virtual) e iniciar a tratar de um tema qualquer. Essa difi culdade é, talvez, mais evidente quando temos de tratar de um assunto de natureza técnica, científi ca ou acadêmica. Pois, nesse caso, não basta colocarmos no papel aquilo que vimos, sentimos ou sabemos, é preciso adequação a um estilo específi co de texto, a uma série de normas, a uma série de etapas. Os textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica seguem alguns princípios que podem ser resumidos em quatro pontos fundamentais: clareza, precisão, comunicabilidade e consistência. Vamos discutir cada ponto individualmente? Clareza Para Cervo e Bervian (2002), essa é a característica primordial. Tudo que for escrito deve ser perfeitamente compreensível pelo leitor, ou seja, este não deve ter nenhuma dificuldade para entender o texto. Com esse fi m, o autor deve ler cuidadosamente o que escreveu como se fosse o próprio leitor. Um texto é claro quando não deixa margem a interpretações diferentes da que o autor quer comunicar. Uma linguagem muito rebuscada que utiliza termos desnecessários desvia a atenção de quem lê e pode confundir. Ao escrever um texto de natureza técnica, científi ca ou acadêmica precisamos dizer as coisas de forma compreensiva. Isso não signifi ca que precisamos ser vulgares, ou 5 Leitura e Produção de Textos A04 devamos ser coloquiais. De forma alguma! Um texto é claro quando utiliza uma linguagem simples, direta e precisa, isto é, quando cada palavra empregada traduz exatamente o pensamento que se deseja transmitir. Isso nos leva, portanto, a outro aspecto. Precisão A linguagem científi ca deve ser precisa e as palavras e seus acompanhantes (fi guras, gráfi cos, tabelas, etc.) necessitam ser decodifi cadas pelo leitor à medida que este percorre o texto. As palavras e os acompanhantes que entrarão no texto deverão ser escolhidos com cuidado para exprimir exatamente o que se tem em mente. É mais fácil ser preciso na linguagem científi ca do que na literária, na qual a escolha de termos é bem mais ampla. De qualquer forma, a seleção dos termos e a cautela no uso de expressões coloquiais devem estar sempre presentes na redação acadêmica. Expressões como “nem todos”, “praticamente todos”, “vários deles” são interpretadas de formas diferentes e tiram força das afi rmações. Será sempre melhor utilizar expressões como: “cerca de 90%”, “menos da metade”, ou ainda com maior precisão: “93%”, “40%”. Lembrando, sempre, que, ao utilizarmos medidas, precisamos estar baseados em dados. Dados que devem ser retirados de estudos, de pesquisas, de fontes confi áveis. Convém escolher criteriosamente o material que será utilizado no texto de uma dissertação, tese, monografi a, relatório ou artigo. O autor deve selecionar a informação disponível e apresentar somente o que for relevante. Esse aspecto é ainda mais importante em um artigo, em que a concisão é geralmente desejada pelo leitor. Comunicabilidade Comunicar bem um determinado tema é essencial na linguagem técnica, científi ca ou acadêmica. Pois nesse tipo de texto os temas devem ser abordados de maneira direta e simples, com lógica e continuidade no desenvolvimento das ideias. É muito desagradável uma leitura em que frases substituem simples palavras ou quando a sequência das ideias apresentadas é interrompida atrapalhando o entendimento. Ou mesmo, quando o autor, querendo demonstrar conhecimento, utiliza vocabulário arcaico ou não usual. É evidente que, ao discutirmos conceitos específi cos de determinadas áreas, nem sempre os termos são fáceis ou usuais, mas a comunicabilidade exige, nesses casos, que se explique, exatamente, o sentido com que aquele termo está sendo utilizado e, inclusive, se utilize de exemplos ou ilustrações que facilitem a compreensão do mesmo. 6 Leitura e Produção de Textos A04 Consistência Finalmente, o princípio da consistência é um importante elemento do estilo. A consistência é a capacidade que um texto tem de ser coerente e coeso e, ao mesmo tempo, bem fundamentado teórica e metodologicamente. Um texto consistente, enfi m, é um texto que apresenta uniformidade. A consistência pode ser considerada sob três dimensões: Expressão gramatical Escrever indevidamente pode demonstrar ignorância ou desleixo. Se for por ignorância, o melhor é consultar dicionários e textos de gramática. Se for por desleixo, o leitor terá todo direito de pensar que o trabalho em si também foi feito com desleixo. Seja qual for a razão, sempre será um desrespeito ao leitor. É importante que um texto de natureza técnica, científi ca ou acadêmica apresente uniformidade gramatical, por exemplo. E isso não diz respeito apenas à correção de termos e expressões, mas a seu uso uniforme. Um erro comum que ocorre na enumeração de itens pode ser observado no Exemplo 1: Exemplo 1 “Na redação científi ca, cumpre observar, entre outras regras: (1) terminologia precisa; (2) pontuação criteriosa; (3) não abusar de sinônimos; (4) evitar ambiguidade de referências”. 7 Leitura e Produção de Textos A04 Observe que o primeiro item da enumeração é um substantivo, o segundo uma frase e o terceiro um período completo. Os itens (3) e (4), para que se seja observada a consistência da expressão gramatical, teriam de ser enunciados da seguinte forma: “(3) bom senso no uso de sinônimos; (4) clareza nas referências”. Por quê? Você pode perguntar. Para que o leitor não se confunda ou desvie a sua atenção do que o texto está querendo comunicar. Categoria Ao elaborar um texto, como já vimos em aula anterior, é preciso pensar um plano de como o texto será dividido. Nesse caso, quanto maior as divisões em tópicos, mais cuidado é preciso ter na organização lógica entre os diferentes tópicos. As seções de um capítulo devem manter um equilíbrio, ou seja, conteúdos semelhantes. Por exemplo: um capítulo cujas três primeiras seções se referem, respectivamente, aos aspectos tecnológicos, econômicos e sociais dos Sistemas de Informação e uma quarta seção que trate de ferramentas de análise e desenvolvimento de Sistemas de Informação está desequilibrado. A quarta seção, sem dúvida, apresenta matéria de categoria diferente da abordada pelas três primeiras, devendo, portanto, pertencer a outro capítulo. Sequência A sequência adotada para a apresentação do conteúdo deve refl etir uma organização lógica, foi o que acabamos de comentar. Mas nem sempre a sequência a ser observada precisa ser óbvia, como uma sequência cronológica, por exemplo. Existe, em qualquer enumeração, uma lógica inerente ao assunto, do mais amplo para o mais particular, por exemplo. Uma vez detectada, essa lógica determinará a ordem em que capítulos, seções, subseções e quaisquer outros elementos devem aparecer. Fo nt e: ht tp :/ /w w w .s lic eo fs ci fi . co m /w p- co nt en t/ up lo ad s/ 2 0 0 8 /0 2 /n c_ ev ol ut io n_ 0 8 0 1 0 3 _m s. jp g. 1Praticando... 8 Leitura e Produção de Textos A04 Observe os fragmentos textuais a seguir e indique os problemas que dizem respeito a sua qualidade como textos de natureza técnica, científi ca ou acadêmica. Mas não esqueça que esses são apenas fragmentos e não textos completos. a) Tomando como unidade o município, o objetivo é descrever a distribuição espacial das atividades científi cas e tecnológicas, a partir de estatísticas de patentes, uma proxy de capacitação tecnológica, uma proxy de capacitação científi ca e produção de pesquisadores, indicadores de recursos humanos alocados para atividades científi cas. b) Foram analisados a coluna de mercúrio ou eletrônico); b) verificar acalibração do manômetro; c) dimensões da bolsa de borracha; d) boa posição do paciente; e) se houve descanso do paciente; f) as fases de Korotkoff que determinam a pressão sistólica (PAS)e diastólica (PAD) e g) bom número de medidas realizadas. c) A composição deste artigo é, antes de tudo, elaborada para mostrar como são calculados os fatores de impacto de revistas científi cas. Pra isso começamos por analisar as consequências do emprego do número de citações de artigos científi cos na literatura internacional. Depois procuramos particularizar analisando um artigo na área de Física e a partir daí, tecemos considerações sobre a importância e as limitações do emprego dos indicadores de avaliação científi ca em revistas internacionais para então, enumerarmos quais são os indicadores nacionais. 9 Leitura e Produção de Textos A04 Um texto técnico, científi co ou acadêmico, por natureza, apresenta as tradicionais fases: introdução, desenvolvimento e conclusão, devendo ser completo em si mesmo. A redação de trabalhos acadêmicos e de artigos técnicos possui algumas características que devem ser obedecidas pelo autor para que a transmissão da informação e a sua compreensão por parte do leitor sejam efi cazes. Vamos detalhar mais ainda algumas informações que estivemos discutindo até agora. Vale aqui uma regra básica: ao redigir, coloque-se sempre na posição do leitor. O autor, ao redigir o trabalho fi nal para apresentar os resultados do seu trabalho de pesquisa, precisa ter em mente que estará escrevendo para dois públicos distintos. Um pode ser chamado de público interno, pertencente às comunidades técnicas, acadêmicas e científi cas, composto por pessoas que também fazem pesquisa e que também escrevem. O outro é o público externo, composto, não necessariamente, mas inclusive, por leigos, que podem ter interesse ou necessidade de leituras do gênero, mas que não dominam ou nem precisam dominar a linguagem técnica, acadêmica e científi ca. Qualidades de um bom texto Ter isso em mente pode facilitar muito a escolha dos termos apropriados e a forma de apresentá-los como você verá a seguir. Impessoalidade Em geral, trabalho técnico, científi co ou acadêmico deve ter caráter impessoal. Ele é redigido na terceira pessoa, evitando-se referências pessoais, como “meu trabalho”, “meus estudos”, “minha tese”. Utilizam-se, em tais casos, expressões como o “presente 10 Leitura e Produção de Textos A04 trabalho”, o “presente estudo”. O uso do “nós”, pretendendo indicar impessoalidade é igualmente desaconselhável, embora tal construção possa aparecer quando se trata de marcar os resultados obtidos pessoalmente com uma pesquisa: “somos de opinião que...”, “julgamos que...”, “chegamos à conclusão de que...”, “deduzimos que...”, etc. Objetividade O caráter objetivo da linguagem que veicula conhecimentos científi cos resulta da própria natureza da ciência. Por isso, essa linguagem impessoal e objetiva deve afastar do campo científi co pontos de vista pessoais que deixem transparecer impressões subjetivas, não fundadas, sobre dados concretos. Expressões como “eu penso”, “parece-me”, “parece ser” e outras violam frequentemente o princípio da objetividade, indicando raciocínio subjetivo. A linguagem científi ca deve, portanto, ser objetiva, precisa, isenta de qualquer ambiguidade. Contrasta, nesse sentido, com a linguagem subjetiva, apreciativa, adequada a outros fi ns. Modéstia e cortesia Figura 1 – Garfi eld, a imagem da vaidade Traduzido de: http://1.bp.blogspot.com/_H3sm1NKMagM/SFrn9L_gxLI/AAAAAAAAAZc/K7lOmf5fIrA/s1600-h/Garfi eld.jpeg. Acesso: 18 jan. 2010. O que pode ser muito engraçado numa tirinha como Garfi eld (Figura 1), como sua vaidade exagerada, não é nada interessante quando tratamos de textos de natureza técnica, científi ca ou acadêmica. Os resultados de um estudo ou pesquisa, quando cientifi camente alcançados, impõem-se por si mesmos. O pesquisador não deve, portanto, insinuar que os resultados de outros 2Praticando... 11 Leitura e Produção de Textos A04 estudos ou pesquisas anteriores estejam cobertos de erros e incorreções. O próprio trabalho, por mais perfeito que seja, nem sempre está isento de erros. A cortesia é traço importante de todo trabalho, sobretudo quando se trata de discordar dos resultados de outras pesquisas. A cortesia sucede à modéstia, quando o pesquisador se torna especialista em seu ramo. Ao adquirir conhecimentos profundos no setor do seu estudo específi co, o pesquisador não deve transmiti-los com ares de autoridade absoluta. Sua pesquisa impõe-se por si mesma. A linguagem que a reveste limita-se à descrição de seus passos e à transmissão de seus resultados, testemunhando intrinsecamente a modéstia e a cortesia essenciais a um bom trabalho. Sua fi nalidade é expressar, não impressionar. 1. Identifi que, nos fragmentos textuais a seguir, os problemas referentes à qualidade dos textos: a) A pergunta inicial dos autores, que sem dúvida não é nova, se insere numa instigante polêmica que abrange questões epistemológicas importantes como as relações entre pragmática e teorética, linguagem e funcionamento mental, cognição e memória, dentre muitas outras. Ao destacar e sugerir uma defi nição de memória, a indubitável questão, tal como formulada, indica um certo modo de tergiversar sobre o tema e uma certa esfera de preocupações que direcionam o pensamento para opções teóricas, restrições e, também, obliviamentos. b) Pensar e estudar sobre a “formação da mente” em um perspectiva histórico-cultural implica compreender e relevar esses aspectos. Elaborar uma cronologia das ideias sobre memória. Procuramos entender as condições e os modos de produção. Investigar as práticas que envolvem motivos e formas de lembrar e esquecer. Há maneiras de contar. Percebemos maneiras de fazer e registrar histórias. c) Muitos autores comentam sobre a intensa ginástica interna, sobre esse trabalho invisível que pode nos parecer tão estranho a tantas pessoas, mas que, ao mesmo tempo, indica a muitos as formas de organização, da arquitetura, de prática da memória antiga. (Fragmentos adaptados para fi ns didáticos) 12 Leitura e Produção de Textos A04 Recomendações gerais O uso da terceira pessoa do singular e da voz passiva é recomendado na linguagem científi ca, que deve ser o máximo possível, despersonalizada. Quanto ao tempo do verbo, o relatório fi nal é redigido no passado, admitindo-se, igualmente, o presente, quando apropriado. No projeto de pesquisa, tese ou dissertação, emprega-se o tempo futuro, pois o texto refere-se a intenções e não a fatos já consumados, como é o caso de um relatório técnico ou de estágio. Expressões taxativas devem ser evitadas. Por exemplo, em vez de se dizer que “o resultado do teste da hipótese provou…”, cabe, com mais propriedade, dado o caráter probabilístico inerente à estatística de inferência, afi rmar que “o resultado do teste da hipótese apresentou evidências de que…” Recomenda-se, também, cuidado no uso de sinônimos. Embora seja louvável substituir as palavras, pois a variedade de termos evita repetições e embeleza o estilo, o leitor poderá ter dúvidas quanto à intenção do autor quando este introduz novos termos. Portanto, o ideal é manter o mesmo signifi cado do termo precedente ou introduzir uma diferença sutil. Períodos curtos são de compreensão mais fácil que os longos, mas o autor experiente saberá manter-se entre o estilo telegráfi co e outro mais longo, entre a pobreza de expressão e a excessiva qualifi cação, imprópria ao discurso científi co. O essencial, entretanto, é que cada período seja compreendido facilmente, sem que seja necessário ao leitor reportar-se a exposições anteriores. Ao mesmo critério deve obedecer a extensão dos parágrafos. Embora as ideias devam fl uir livremente, se a matéria for longa demais merecerá reorganização para que, sem quebra da lógica e da clareza, possa distribuir-se em parágrafos cuja extensão ofereça conforto ao leitor, inclusive visualmente. 13 Leitura e Produção de Textos A04 Estes são alguns dos princípios a que deve atender a boa redação científi ca. Não devem ser, entretanto, tão rigidamente observados a ponto de sufocarem o estilo pessoal. Não têm, também, a pretensão de assegurar a boa qualidade da redação, da mesma forma que o conhecimento de regras gramaticais não garante a boa qualidade da comunicação. A impessoalização do texto Um texto é pessoal e subjetivo quando pronomes pessoais e possessivos, verbos conjugados e em terceira pessoa contribuem para que o diálogo se estabeleça entre autor e leitor de forma explícita, evidente. Nem sempre temos interesse em deixar explícitas a nossa voz e as diversas vozes que são trazidas para compor um texto. Muitas vezes queremos adotar uma posição impessoal, aparentemente neutra, atenuando a dialogia e ocultando o agente das ações. Gramaticalmente há muitas maneiras de conseguir esse objetivo. Vejamos algumas delas. Generalizar o sujeito, colocando-o no plural Uma forma elegante de se distanciar relativamente da subjetividade é pluralizar o agente. O uso da primeira e da terceira pessoa do plural é a estratégia recomendada quando a intenção é atenuar a subjetividade da primeira pessoa, sem adotar a neutralidade absoluta. Frases como “Procuramos demonstrar...”, “Os pesquisadores reconhecem...”, “Nossas conclusões...”, são menos subjetivas que “Procurei demonstrar...”, “Reconheço...”, “Minhas conclusões...”. Ocultar o agente A expressão “é preciso” serve a esse propósito de neutralidade. Assim também expressões como: “é necessário”, “é urgente”, “é imprescindível”, são utilizadas para ocultar o agente. Quem precisa? Quem necessita? Para quem é urgente? Para quem é imprescindível? Não podemos defi nir com clareza. Torna-se uma realidade geral, universal, neutra, objetiva. Os textos dissertativos, informativos, expositivos, científi cos apresentam, muitas vezes, essa característica de ocultar o agente. Tudo é dito como se fosse uma realidade que se apresenta sem intermediários. 14 Leitura e Produção de Textos A04 Colocar um agente inanimado Outra maneira de impessoalizar o texto é colocar como agente um ser inanimado, um fenômeno, uma instituição ou uma organização. Quando escrevo frases como “O Ministério decidiu...”, “A diretoria ordenou...”, “O governo protelou...”, a responsabilidade em relação à ação está diluída e não se pode identifi car claramente de onde ou de quem emanou a iniciativa. É um recurso muito utilizado na administração pública e na política. Uso gramatical do sujeito indeterminado Como a própria nomenclatura indica, não se pode determinar com precisão quem realizou uma ação quando usamos a estrutura de sujeito indeterminado. Ela é muito útil quando queremos inserir uma informação da qual não sabemos a procedência exata. Quem realizou? Quem está revelando? A voz passiva oculta o agente. Como vimos, há diversas maneiras de tornar o texto impessoal e todas elas utilizam recursos e possibilidades presentes no sistema gramatical da língua. Exemplo 2 Vive-se esperando o aumento de preços. Acreditava-se em uma diminuição dos impostos. Fala-se muito em renovação dos quadros funcionais. O uso da voz passiva Enquanto na voz ativa temos um agente explícito, na voz passiva esse agente pode estar oculto. Assim, usar a passiva sem esclarecer seu agente é um recurso gramatical para impessoalizar a informação. Veja o exemplo: Exemplo 3 Novas descobertas foram realizadas em centros de estudo e laboratórios ao redor do mundo. Está sendo revelado ao mundo que o cérebro é um órgão mais fascinante, complexo e poderoso do que antes se imaginava. Praticando... 3 15 Leitura e Produção de Textos A04 Leia os textos a seguir e descreva: a) situação de comunicação em que se inserem; b) intenção comunicativa; c) público leitor a que se dirigem; d) características da linguagem técnica, acadêmica e científi ca que apresentam. Texto 1 Fonte: <http://tbn0.google.com/images?q=tbn:1Ztb1XROl2hsaM:http://www.geocities.com/luisacortesao/image12.gif>. Acesso em: 8 set. 2008. Texto 2 A Bio Cibernética Bucal (BCB) é o nome de uma das várias escolas odontológicas existentes, a partir das diferentes interpretações do conceito da Oclusão, e que foi criada por dois cientistas brasileiros no começo dos anos 70. [...] O principal objetivo deste enfoque é a procura de uma resposta somática favorável, uma vez reposturado, reabilitado o paciente, segundo os padrões saudáveis do seu programa biológico. Fonte: <http://www.biociberbucal.com.br/bcb.htm>. Acesso em: 27 ago. 2008. 16 Leitura e Produção de Textos A04 Texto 3 A física Clássica incluía a mecânica de partículas e a mecânica ondulatória, mas cada qual tinha um domínio de aplicação exclusivo. Partículas seguiam trajetórias bem defi nidas e não se dividiam em espelhos semi-refl etores. Ondas se espalhavam pelo espaço, se dividiam, interferiam consigo mesmas, eram limitadas pelo princípio de incerteza (por exemplo, um pulso de luz emitido em um intervalo de tempo curto não podia ter uma frequência bem defi nida), sofriam tunelamento, e exibiam fl utuações em sua intensidade. A física quântica é justamente a teoria que atribui todas essas propriedades ondulatórias a partículas individuais. (PESSOA JÚNIOR, 2008, p. 185) Leituras complementares <http://www.mundovestibular.com.br/articles/746/1/TECNICAS-DE REDACAO/ Paacutegina1.html> <http://www.espirito.org.br/portal/palestras/klickeducacao/>. Esses endereços eletrônicos apresentam uma série de links bastante interessantes sobre tópicos discutidos ao longo desta nossa aula. Visite-os e aprofunde seus conhecimentos! Nesta aula, discutimos algumas das características da linguagem técnica, acadêmica ou científi ca. Vimos que para elaborar textos dessa natureza é preciso seguir algumas regras básicas que dizem respeito à clareza, à precisão, à comunicabilidade e à expressão gramatical. Essas regras orientam, portanto, quanto ao uso adequado do idioma, quanto à qualidade das informações utilizadas, quanto às relações estabelecidas entre as informações apresentadas e quanto à lógica na organização dos textos. Fique atento a essas informações, pois elas serão úteis também no desenvolvimento das aulas seguintes. Autoavaliação 17 Leitura e Produção de Textos A04 Os fragmentos abaixo foram modifi cados para fi ns didáticos. Leia-os, identifique neles os principais problemas de linguagem que os descaracterizam como textos técnicos, acadêmicos ou científi cos e, quando possível, reescreva-os na forma adequada. a) Na sociedade atual, os riquíssimos senhores e o poderoso clero detinham a posse das terras e os pobres servos as cultivavam e guerreavam sobre elas. Foi nessa época que as lindas fl orestas da Europa começaram a desaparecer. Enquanto isso, a poderosa igreja vivia seu tempo áureo de recebimento de doações, honras e terras, mantendo seu enorme poder. b) Foi a partir de então que se iniciou uma ampla discussão sobre os problemas ambientais, como crescimento populacional, a qualidade da água piorou, rejeitos tóxicos e radioativos, a biodiversidade foi afetada, esgotamento de recursos energéticos, mudanças climáticas e aquecimento global, erosão dos solos agrícolas, desastres naturais, dentre outros. c) Vejo claramente a incapacidade da população em fazer frente a um capitalismo que se embasa no consumismo exagerado, gerando, com isso, a revolta social, com destaque para a violência urbana, vista nos grandes centros e copiada pelos municípios em quase todo o Brasil. Na realidade, acreditamos que há um uso indiscriminado do poder, exigindo o consumo exagerado dos recursos naturais. Conclui-se então, que, como o sistema econômico vigente, o sonho do desenvolvimento sustentável pode ser visto como uma utopia. d) Se, por um lado, a revolução tecnológica, sustentada pelos paradigmas da política da Modernização Ecológica, propicia o surgimento das sociedades industriais modernas, caracterizadas pela riqueza, pelo consumismo e pela expectativa de que os bens materiais e o conforto estariam sempre disponíveis para todos, por outro, a vida da maioria da população vive à margem, lutando para não perder as suas conquistas sociais alcançadas, como energia, transportes, saúde, educação, previdência, dentre outros. Ao contrário disto, vê-se no aumento do lixo espalhado por todo o planeta, na poluição de mananciais, no corte indiscriminado da madeira e na caça, dentre outros. e) O Brasil ostenta uma das mais regressivas repartições de renda no mundo, com diferenças abismais entre a minoria dos bem de vida e a massa dos pés-rapados. Entre bem de vida e pé-rapado está imprensada uma classe média bastante numerosa, que se distanciou muito das classes populares. 18 Leitura e Produção de Textos A04 f) Segundo alguns, dentre a maioria dos estudiosos, economia globalizada se refere a uma lógica de guerra cujo “desenvolvimento” talvez se vincule a um tipo qualquer de mundialização das fi nanças. Muitos afi rmam que isto é uma coisa nova e recente, mas outros negam que essa seja a verdadeira essência do desenvolvimento. g) Após a Segunda Guerra Mundial, ainda com o mundo disperso diante das atrocidades cometidas, foi criado os primeiros organismos internacionais de proteção do ambiente: a União internacional para a Proteção da Natureza, sob atenção da UNESCO, esboçando os primeiros contornos da consciência ambiental; e o Clube de Roma, criado a partir da realização da Conferência Internacional sobre o Homem e o Meio Ambiente em Estocolmo. h) Sabe-se que o processo de urbanização no Brasil acelerou-se após os anos 40. Desta forma, pode-se afi rmar, sem sombra de dúvidas, que neste período o país alcançou um grande índice de desenvolvimento, principalmente no que diz respeito ao crescimento das suas cidades. Referências BRAGA, W. D., Ciência e mídia: a legitimação de um mito perigoso. Rio de Janeiro: Pós- Graduação em Comunicação e Cultura da Escola de Comunicação/UFRJ, 1999. CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A. Metodologia científi ca. 5. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2002. GARCEZ, Lucília H. do Carmo. Técnica de redação. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. GOUVEIA, L. M. B. A redação de documentos científi cos: dicas para a escrita de textos de relatórios e monografi a. Universidade Fernando Pessoa, abr. 1997. Disponível em: <http://www2.ufp.pt/~lmbg/textos/rddoc_id.htm>. Acesso em: 9 set. 2008. PESSOA JÚNIOR, Oswaldo. A física quântica seria necessária para explicar a consciência? Disponível em: <www.ffl ch.usp.br/df/opessoa/Cons.pdf>. Acesso em: 9 set. 2008. PINHEIRO, J. M. S. Elaboração de uma Redação Científi ca. Disponível em: <http://www. centralmat.com.br/Artigos/Mais/cuidadosElaboracaoRedacaoCientifi ca.pdf>. Acesso em: 5 jan. 2010.. PRATA, Mário. Uma tese é uma tese. O Estado de S. Paulo, quarta-feira, 7 out. 1998. Caderno 2. Disponível em: <http://www.puc-rio.br/sobrepuc/depto/apg/marioprata. html>. Acesso em: 8 set. 2008. Anotações 19 Leitura e Produção de Textos A04 Anotações 20 Leitura e Produção de Textos A04 05 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Modos de citação do discurso alheio Leitura e Produção de textos Você ve rá por aqu i... Coordenadora da Produção dos Materias Marta Maria Castanho Almeida Pernambuco Coordenador de edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de revisão Giovana Paiva de Oliveira design Gráfico Ivana Lima diagramação Ivana Lima José Antônio Bezerra Júnior Mariana Araújo de Brito Vitor Gomes Pimentel arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin revisão tipográfica Adriana Rodrigues Gomes design instrucional Janio Gustavo Barbosa Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Jeremias Alves A. Silva Margareth Pereira Dias revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade revisão das Normas da aBNt Verônica Pinheiro da Silva adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho revisão técnica Rosilene Alves de Paiva equipe sedis | universidade do rio grande do norte – ufrn Projeto Gráfico Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da educação Você ve rá por aqu i... � Leitura e produção de textos a05 objetivo Recursos utilizados para fazer citação do discurso alheio. Dentre outros discursos, você verá o discurso direto, o indireto, a modalização em discurso segundo e a ilha textual. Aprender a fazer citações é um recurso fundamental para elaboração de textos, principalmente os de caráter técnico, científico e acadêmico. Conhecer cada modo de citação do discurso alheio. Utilizar corretamente, em suas produções textuais de natureza acadêmica, técnica ou científica, os modos de citação do discurso alheio. � Leitura e produção de textos a05 Para começo de conversa... Por acaso, surpreendo-me no espelho: Quem é esse que me olha e é tão mais velho que eu? [...] Parece meu velho pai - que já morreu! [...] Nosso olhar duro interroga: “O que fizeste de mim?” Eu pai? Tu é que me invadiste. Lentamente, ruga a ruga... Que importa! Eu sou ainda aquele mesmo menino teimoso de sempre E os teus planos enfim lá se foram por terra, Mas sei que vi, um dia - a longa, a inútil guerra! Vi sorrir nesses cansados olhos um orgulho triste (Mário Quintana – Espelho) No poema, Mário Quintana dialoga no espelho, consigo mesmo, acerca da passagem do tempo, do envelhecimento. De como nos surpreendemos, às vezes, quando notamos, ao nos olhar no espelho, as marcas do tempo em nossa face. Nesse diálogo, ele cita uma questão do rosto do espelho: “O que fizeste de mim?” Para fazer essa questão ser lida, realmente, como um enunciado dito pelo outro que surge no espelho, ele utiliza um verbo de dizer “interroga” e logo após a questão, destacada entre aspas. Vamos discutir, nesta aula, exatamente a forma de utilizar, em nosso discurso, o enunciado de outras pessoas. � Leitura e produção de textos a05 alguns modos de citar o discurso alheio sempre que produzimos textos, é comum fazermos referência a falas de outras pessoas para reforçar nossas idéias, fazer nosso interlocutor aceitá-las, mudar de opinião e passar para nosso lado. Não é isso que ocorre geralmente? Nossos discursos não pretendem que os outros aceitem nossas idéias e ajam conforme nossos “conselhos e dicas”? Para tanto, utilizamos, entre outros artifícios, a citação do discurso alheio. Há diversos mecanismos lingüísticos que servem para registrar o discurso alheio no interior de um texto, como o discurso direto, o indireto, a modalização em discurso segundo e a ilha textual. Vejamos cada um desses. Para compreendermos isso, é preciso estarmos conscientes de que há, sempre, portanto, um discurso citante, o discurso de quem está produzindo o texto e um discurso citado, aquele discurso utilizado para complementar ou ilustrar o discurso citante. � Leitura e produção de textos a05 discurso direto Leia a tirinha de Mafalda, a seguir: Figura � - Tirinha 338 de Mafalda Fo nt e: Q ui no (2 0 0 0 , p . 7 3 ). Na tirinha, Mafalda, a menininha inteligente e questionadora criada pelo desenhista argentino Quino, conversa com sua amiga. Mas a fala de ambas, nos primeiros três quadrinhos, tem uma grafia diferente da fala de Mafalda no último quadrinho. Por que será? Observe que no último quadro Mafalda afirma “O bom de ir para a escola é que a gente pode ter conversas literárias”. Nessa última fala da personagem reside o elemento cômico de toda a tirinha e indica, ao leitor, que o diálogo estabelecido com a amiga antes fora retirado dos textos escolares. Uma crítica, aliás, à alienação da realidade dos textos didáticos. A fala dos três primeiros quadrinhos, portanto, tem destaque com outra fonte porque é citada por Mafalda e pela amiga dos textos didáticos da escola. Esse tipo de citação é o que denominamos discurso direto. O discurso direto exime o enunciador citante de qualquer responsabilidade e caracteriza- se por dissociar as duas situações: a do discurso citante e a do citado. exemplo � Em um de seus primeiros discursos após o resgate, a ex-senadora franco- colombiana fez questão de ressaltar a importância da rádio para todos os seqüestrados, dizendo que o programa era essencial e que os reféns ouviam a rádio sempre. “Muito obrigado por seu apoio. A rádio foi uma grande companhia por muitos anos”, disse. 5 Leitura e produção de textos a05 No exemplo 1 vemos uma notícia acerca da libertação de uma refém da guerrilha colombiana, a ex-senadora do país, Ingrid Betancourt. No texto, ela agradece a um jornalista de uma rádio que costumava escutar ao longo dos seis anos em que esteve sob o poder dos seqüestradores. O discurso citado, nesse caso, é do jornalista que redigiu o texto e se divide em duas partes: a primeira parte do início até a palavra “sempre”; a segunda parte somente o verbo “disse”. Esse verbo demonstra para o leitor que o texto entre aspas faz parte do discurso de Ingrid Betancourt e foi citado exatamente da forma como ela enunciou. Na verdade, mesmo se apresentando sob a forma de citação direta, é uma encenação visando a criar um efeito de autenticidade. Por mais que aparente ser fiel, o discurso direto é sempre um fragmento do texto submetido ao enunciador do discurso citante, que dispõe de múltiplos meios para lhe dar um enfoque pessoal. A oração que consta do exemplo 1 não é o discurso completo de Ingrid, é apenas uma parte dele, acoplada ao discurso do jornalista que redigiu o texto, não é mesmo? O discurso citante deve satisfazer a duas exigências em relação ao leitor: indicar que houve um ato de fala (emprego de verbos de dizer, como afirmar, assegurar, confirmar, discordar, perguntar, responder, etc.) e marcar a fronteira que o separa do discurso citado (no caso de textos acadêmicos, técnicos e científicos, com o auxílio de dois-pontos e aspas), conforme você pôde constatar no exemplo 1. Ainda no caso de citações diretas em textos acadêmicos, técnicos e científicos, há necessidade de explicitação do ano da fonte consultada, acrescido da indicação das páginas, como no exemplo a seguir. exemplo � Contrapondo-se à admiração exagerada das pessoas pela tecnologia, Cury (2005, p. 36) enfatiza: “A maioria dos seres humanos elogia as maravilhas da tecnologia, mas não conseguem se encantar com o espetáculo da construção de pensamentos que ocorre na psique humana”. Concluindo, podemos dizer, então, que o discurso direto se caracteriza por abrir espaço, no texto, para uma outra voz, cujo discurso, ou ato de fala é recortado e esse recorte é copiado na íntegra e integrado ao discurso citante. � Leitura e produção de textos a05 discurso indireto O discurso indireto é uma condensação ou uma paráfrase do que foi proferido pelo enunciador citado. Paráfrase é um recurso textual que implica em dizer com outras palavras aquilo que já foi dito por alguém a quem citamos. A citação no discurso indireto, no entanto, não é feita da mesma forma que no discurso direto que acabamos de ler. Lá, o discurso citado é copiado da mesma forma; aqui, o discurso citado é apropriado pelo enunciador do discurso citante e é apresentado sob a forma de uma oração subordinada substantiva objetiva, introduzida por um verbo de dizer. Veja o exemplo 3, a seguir: exemplo � Irene Knysak, diretora do laboratório de artrópodes do Instituto Butantan, afirmou que há cerca de 35 mil espécies de aranha. No exemplo 3 podemos perceber que há alguém sendo citado (Irene Knysak). Essa pessoa citada afirmou (verbo de dizer) o quê? Que existem 35 mil espécies de aranhas. No entanto a oração “que há cerca de 35 mil espécies de aranha” não foi dita por ela exatamente dessa mesma forma, o enunciador do texto está dizendo de novo o que ela disse e não copiando as palavras dela. Será que deu para entender? Vamos ver, então, como ficaria esse mesmo texto se fosse dito em discurso direto: ABNT: Fundada em 1940, a associação Brasileira de Normas técnicas (aBNt) é o órgão responsável pela normalização técnica no país, fornecendo a base necessária ao desenvolvimento tecnológico brasileiro. É uma entidade privada, sem fins lucrativos, reconhecida como único Foro Nacional de Normalização através da Resolução n.º 07 do CONMETRO, de 24.08.1992. É membro fundador da ISO (International Organization for Standardization), da COPANT (Comissão Panamericana de Normas Técnicas) e da AMN (Associação Mercosul de Normalização). A ABNT é a única e exclusiva representante no Brasil das seguintes entidades internacionais: ISO (International Organization for Standardization), IEC (International Electrotechnical Comission); e das entidades de normalização regional COPANT (Comissão Panamericana de Normas Técnicas) e a AMN (Associação Mercosul de Normalização). (ABNT, 2008, extraído da Internet). aBNt � Leitura e produção de textos a05 exemplo � Irene Knysak, diretora do laboratório de artrópodes do Instituto Butantan afirmou: “Há 35 mil espécies de aranha no mundo”. Percebeu a diferença entre a forma de citar do exemplo 3 e a do exemplo 4? No último exemplo a oração foi citada da mesma forma como foi dita por Irene e usou-se aspas para indicar isso. No primeiro caso, a oração foi dita, com outras palavras, pelo enunciador do discurso citante, que nesse caso não precisa usar aspas e transforma a fala do discurso citado em oração subordinada ao seu próprio discurso. Em se tratando de textos acadêmicos, técnicos e científicos, há necessidade, em todas as citações, de ser indicada a data da fonte consultada (e as páginas, no caso de discurso direto; essa indicação é obrigatória). exemplo 5 Olérion (1890, p. 13) afirma que a demonstração científica não é tão pura e rigorosa quanto alguns acadêmicos acreditam ser. exemplo � Bagno (1999) assegura ser muito comum os pais de alunos cobrarem dos professores o ensino tradicional de gramática. Nos exemplos 5 e 6, o ano que aparece entre parênteses diz respeito ao ano de publicação do livro, ou do texto de onde se retirou a citação. Falaremos um pouco mais sobre isso, quando estudarmos algumas orientações das normas ditadas pela associação Brasileira de Normas técnicas (ABNT) em aula subseqüente. � responda aqui Praticando... � Leitura e produção de textos a05 Que elementos da linguagem escrita caracterizam o discurso direto e o indireto numa notícia ou reportagem? e num texto acadêmico, como devem ser usados o discurso direto e o indireto? Qual a razão de um enunciador citar o discurso de outra pessoa? � Leitura e produção de textos a05 Modalização em discurso segundo A modalização em discurso segundo é muito parecida com o discurso indireto. Ela não cita o texto da mesma forma que foi dita pela pessoa citada. Mas também não subordina, necessariamente, essa fala ao discurso do enunciador do texto. Além disso, nessa forma de citação, o enunciador deixa claro que o que ele está afirmando está baseado em outra pessoa. Por isso é comum o uso de expressões como: “segundo fulano”, “de acordo com beltrano”, “baseado em tal pessoa”, etc. Esse é, talvez, o modo mais simples de o enunciador citante de um texto mostrar que não é responsável por uma determinada citação, apenas indica que está se apoiando em um discurso alheio. exemplo � A incidência de câncer de pulmão entre as mulheres, de acordo com as mais recentes pesquisas científicas, é maior que entre os homens. exemplo � Segundo fontes bem informadas, caçadores de Mianmar, sul da China, matam ursos para vender as patas, uma iguaria culinária. exemplo � Para a pesquisadora Maria Firmina dos Reis, do Instituto de Ciências da USP, as pichações em portas de banheiros públicos revelam um lado escondido da psique humana. �0 Leitura e produção de textos a05 Observe nos exemplos 7, 8 e 9 que todas as afirmações feitas pelo enunciador baseiam- se em alguma outra pessoa ou instituição, explicitada ou não no texto. Como podemos constatar isso? Através das expressões “de acordo com as mais recentes pesquisas científicas”, “segundo fontes bem informadas” e “para a pesquisadora Renata Plaza Teixeira”. Ao utilizar tais expressões, o enunciador do texto parece querer dar mais credibilidade ao seu texto, pois busca o apoio de uma autoridade que o apóie nas afirmações. A organização lingüística dessa forma de citar apóia-se na articulação de dois elementos: uma expressão como “de acordo com”, “segundo dizem”, “conforme Beltrano”, “para Fulano”, dentre outras, e uma condensação ou uma paráfrase do que foi proferido pelo enunciador citado. Essa é uma forma de citação indireta, uma vez que não apresenta transcrição. A propósito, os textos dos exemplos 7, 8 e 9 têm um caráter mais jornalístico, pois não se preocupam em ser minuciosos na apresentação de suas fontes, ou seja, expressões como “as mais recentes pesquisas” e “fontes bem informadas” são muito vagas, não devem, por exemplo, ser utilizadas em discursos mais técnicos, científicos ou acadêmicos. Em se tratando de texto de natureza acadêmica, técnica ou científica, há necessidade de, após a indicação do responsável pela citação, ser explicitado, entre parênteses, o ano da fonte consultada (e em se querendo surtir mais efeito de credibilidade, as páginas que registram o que foi proferido), conforme os modelos a seguir. exemplo �0 Conforme Maingueneau (1998), a retórica desapareceu do ensino francês no final do séc. XIX. exemplo �� De acordo com Bellenguer (1987, p. 29-33), o discurso falsificado desenvolve-se com o auxílio dos seguintes meios: a fabulação, a simulação, a dissimulação, a polidez, a calúnia e o equívoco. Você consegue perceber a diferença entre os exemplos 10 e 11 e os exemplos 7, 8 e 9? Nos últimos (10 e 11) as fontes são cuidadosamente citadas, incluindo, no exemplo 11, até as páginas em que a informação citada pode ser encontrada. Assim é como deve ser o discurso de natureza técnica, científica e acadêmica. �� Leitura e produção de textos a05 ilha textual Nesse modo de citar, o enunciador citante, recorrendo geralmente à modalização em discurso segundo ou ao discurso indireto (formas de citação indireta), isola, entre aspas, um fragmento que, ao mesmo tempo, ele utiliza e menciona, emprega e cita. Tem-se, então, uma forma híbrida: mesmo, por exemplo, tratando-se globalmente de discurso indireto, esse contém palavras atribuídas aos enunciadores citados. exemplo �� No vestiário, o craque disse que ganhariam a copa “de qualquer jeito, com ou sem dopping”. Perceba no exemplo 12 que o enunciador inicia a citação como se fosse utilizar o discurso indireto, pois utiliza o verbo de dizer (disse) e a partícula integradora (que), além disso, as primeiras palavras do discurso citado são apropriadas pelo enunciador (ganhariam a copa); só no final do enunciado ele usa aspas e cita, em forma de discurso direto, um fragmento do discurso do craque citado da maneira como ele disse (de qualquer jeito, com ou sem dopping). Essa fragmentação do discurso citado, que depende do discurso citante, inclusive para ganhar um sentido completo, contextualizado, é que caracteriza a ilha textual. exemplo �� Segundo o porta-voz do planalto, o Brasil está mudando “de forma acelerada, aceleradíssima”. �Praticando... �� Leitura e produção de textos a05 Não esqueça, no entanto, que, no caso de textos acadêmicos, técnicos e científicos, a data e as páginas devem se fazer presentes. exemplo �� Landowsky (1989, p. 2) diz que a enunciação é o “ato pelo qual o sujeito faz ser o sentido” e o enunciado, o “objeto cujo sentido faz ser o sujeito”. exemplo �5 Para Reboul (1989, p. 137), o problema não é descartar as figuras de linguagem, mas “conhecê-las e compreender seu perigoso poder, para não ser vítima dele”. Convém ainda acrescentar que a ABNT dispõe de documentos, como a NBR 10520 e a NBR 6023, ambas de agosto de 2002, que tratam, especificamente, dos aspectos técni- cos (aqui tão-somente tangenciados) a serem considerados quanto à produção de textos acadêmicos, técnicos e científicos, em citações diretas e indiretas e em referências bibliográficas, respectivamente. Vamos falar mais sobre a ABNT em aula posterior. �. Explicite o uso da modalização em discurso segundo e o uso da ilha textual em textos de natureza jornalística. �. Quanto ao texto científico, por exemplo, como devem ser utilizadas a modalização em discurso segundo e a ilha textual? responda aqui �� Leitura e produção de textos a05 �� Leitura e produção de textos a05 uma reflexão A utilização de qualquer uma dessas formas de citar o discurso alheio está associada ao gênero textual e às estratégias utilizadas pelo enunciador citante. Para criar, por exemplo, efeito de autenticidade, mostrar-se supostamente neutro, não aderir ao que é dito ou até mesmo revelar inteira adesão, o enunciador citante recorre ao discurso direto e à ilha textual. Nos gêneros jornalísticos escritos, excluindo-se os da imprensa popular e sensacionalista, é mais comum o discurso indireto, a modalização em discurso segundo e a ilha textual. Já nos gêneros acadêmicos, técnicos e científicos, as formas de citar tendem a ser variadas, tanto para alternar o padrão estilístico das citações quanto para permitir, ao enunciador citante, a consolidação das mais diversas intenções. Lembre-se, também, de ter cuidado, nas suas produções textuais, ao utilizar citações de outras pessoas. Elas devem ser retiradas de forma cuidadosa. Ao recortar um texto para citá-lo como base ou complemento de seu discurso, observe se ele está coerente com o que você afirma. Pois, muitas vezes, incorremos no erro de acharmos interessante uma afirmação de um autor que em fragmento parece concordar com o que queremos afirmar, mas pode, dentro de seu contexto mais amplo, contradizer o que pregamos. Esse cuidado é preciso, principalmente, quando o texto que produzimos vai ser alvo de avaliação por uma banca ou por um professor, numa disciplina. O fato é que, como citamos apenas fragmentos dos discursos alheios, podemos correr o risco de estarmos utilizando as idéias dos outros incorretamente. Além disso, é preciso estar atento às normas da ABNT. Ela tem muitos detalhes, mas os detalhes são importantes para os leitores de seus textos, pois a indicação de ano e pá- gina permitem que os leitores pesquisem diretamente as fontes utilizadas por você. �5 Leitura e produção de textos a05 Leituras complementares MODOS de citação do discurso alheio. Disponível em: <http://pt.shvoong.com/ books/1749837-modos-cita%C3%A7%C3%A3o-discurso-alheio-in/>. Acesso em: 10 set. 2008. SILVA, Patrícia Alves do Rego. as marcas de enunciação no texto jornalístico policial. Disponível em: <http://www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno07-02.html>. Acesso em: 10 set. 2008. Nos sítios anteriores você vai encontrar informações interessantes sobre as diferentes formas de citar o discurso de outras pessoas. O primeiro sítio apresenta algumas informações sobre citações baseadas no livro Lições de texto, de Platão e Fiorin, citado como fonte de referência desta aula. E o segundo traz um artigo sobre uso de citações no discurso jornalístico. Nesta aula, estudamos algumas formas de citação do discurso alheio: discurso direto, discurso indireto, modalização em discurso segundo e ilha textual. Vimos também o que diferencia um modo de citação do outro e quais as marcas textuais relevantes para construir cada uma dessas formas de citação. Além disso, observamos que os textos de natureza técnica, científica e acadêmica exigem uma atenção às normas da ABNT no tocante à citação de vozes alheias. auto-avaliação �. Em cada trecho de artigo científico apresentado a seguir e criado para esta avaliação, identifique o modo de citação do discurso alheio utilizado pelo produtor. a) Ferreira (1986) afirma que uma das principais características das leis científicas é a de que elas assumem a forma lógica de uma generalização universal. b) Segundo Hulot (1982), há duas razões principais que poderiam explicar o fato de que, apesar de a história ser um simples relato de fatos que realmente aconteceram, os historiadores dificilmente se põem de acordo sobre as causas de muitos acontecimentos importantes na história, como, por exemplo, a queda do Império Romano. c) Por outro lado, Camembert (1996, p. 234) chama a atenção contra o perigo dos conceitos classificadores e explicita: “Dizemos apenas que todo conceito classificador é falso porque nenhum acontecimento se parece com outro [...]”. d) Dessa forma, a necessidade que se tem de, na pesquisa histórica, fazer uso de hipóteses universais das quais a grande maioria vem de outros campos de pesquisa tradicionalmente distintos da história, conforme Haidel (2001), “é exatamente um dos aspectos de que se pode chamar unidade metodológica da ciência empírica”. e) Câmara Ferreira (2006, p. 90) afirma: “A expressão de grau não é um processo flexional em português, porque não é um mecanismo obrigatório”. f) Ferreira (1998, p. 72) assegura que, para o poeta popular, “a poesia é a roda do engenho, a máquina do mundo, o exercício possível para a recuperação da neutralidade”. g) De acordo com Oliveira (2004), muitos estudiosos, contrariando a orientação saussuriana de Bally e influenciados, sobretudo, pelo pensamento estético idealista de Croce, transformam a fala literária em objeto de estudo. h) Para Bezerra (2001, p. 345), a linguagem é, nesse sentido, a “possibilidade da subjetividade, pelo fato de conter sempre as formas lingüísticas apropriadas à sua expressão”. referências ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. Conheça a aBNt. Disponível em: <http://www.abnt.org.br/default.asp?resolucao=1024X768>. Acesso em: 10 set. 2008. ______. NBr �05�0: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro, 2002. ______. NBr �0��: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de Janeiro, 2002. BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. 2. ed. São Paulo: Edicões Loyola, 1999. BELLENGUER, Lionel. a persuasão. Rio de Janeiro: Zahar, 1987. CURY, A. J. inteligência multifocal: análise da construção dos pensamentos e da formação de pensadores. 7. ed. São Paulo, Vozes, 2005. LANDOWSKY, E. a sociedade refletida. São Paulo, PUCSP, 1989. MAINGUENEAU, D. análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 2001. p. 137-154. PLATÃO, Francisco; FIORIN, José Luiz. Lições de texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 2003. QUINO. toda a Mafalda: da primeira à última tira. São Paulo: Martins Fontes, 2000. RÉBOUL, Olivier. Les valeurs de l’éducation , in a. Jacob (org.), L’univers Philosophique. Encyclopédie philosophique universelle, Paris: Puf, 1989, i) No parecer de Ferreira Júnior (2006) e de outros, como Santana (1998) e Zigby (1975), os sufixos formadores de aumentativos ou de diminutivos é sempre derivacional. j) Lima e Bezerra (2000) afirmam que um texto coerente é um conjunto harmônico, em que todas as partes se encaixam de maneira complementar, de modo que não haja nada destoante, nada ilógico, nada contraditório, nada desconexo. anotações �� Leitura e produção de textos a05 anotações �� Leitura e produção de textos a05 anotações �0 Leitura e produção de textos a05 06 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Seguindo a ABNT LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A06 Algumas recomendações sobre a qualidade dos textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica no que tange ao estilo e à utilização das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Ao longo desta disciplina, você tem estudado acerca dos gêneros técnicos, científi cos e acadêmicos e vem observando que eles sempre são regidos pelas recomendações das normas da ABNT, por isso, é importante conhecer um pouco das razões que levam ao uso e à aplicação dessas normas. Conhecer alguns parâmetros de qualidade para a produção de textos escritos. Conhecer alguns problemas que devem ser evitados na produção escrita. Entender as razões e as aplicações das normas da ABNT. 2 Leitura e Produção de Textos A06 Para começo de conversa... Mas não fi ca bem para um homem de letras começar um trecho de diário sem lembrar uma frase ou verso ilustre, a reputação requer um constante burnir. Necessário achar imediatamente meus dicionários de citações, para me lembrar repentinamente de pérolas literárias e poder manter este diário. Quem pensa que a vida do homem de letras é mole está muito enganado. (Do diário de um homem de letras – João Ubaldo Ribeiro). O texto de João Ubaldo Ribeiro comenta, de forma bem-humorada, as difi culdades que um homem de letras tem para ilustrar seu texto com citações. Um homem de letras, no entanto, não precisa fi car preocupado em fazer a referência exata da fonte de uma citação que ele tenha utilizado. Esse tipo de referência só é cobrado mais fi rmemente daqueles que produzem textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica, como veremos nesta aula. 3 Leitura e Produção de Textos A06 Considerações sobre o ato da escrita Já comentamos, nesta disciplina, sobre a necessidade, ao escrever textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica, de procurarmos seguir algumas orientações básicas quanto ao estilo do texto, seguindo as noções de clareza, precisão, concisão, imparcialidade, simplicidade, expressão gramatical adequada. Lembra-se? Se não se lembrar, retome a aula correspondente a esse assunto. Essas não são, no entanto, as únicas características do texto técnico, científi co e acadêmico. Lembre-se de que nós também já comentamos que, para qualquer texto dessa natureza que você precise escrever, é preciso fazer boas leituras prévias, que o ajudem a desenvolver bem os conteúdos a serem abordados. Leituras efi cientes, como nós também já discutimos, requerem boa compreensão do que foi lido. A leitura diária de jornais e revistas também amplia a visão e aguça o espírito crítico, pois permite que o leitor entre em contato com diferentes tipos de problemas, de ideias, de informações dos mais variados assuntos. A leitura que visa à produção de textos técnicos, científi cos e acadêmicos, no entanto, requer ainda mais, requer que consigamos sintetizar em texto nosso, em produção textual, aquilo que compreendemos nas leituras e pesquisas que fazemos. Requer, também, que consigamos nos expressar bem, com linguagem e conteúdo adequados ao gênero textual que nos propomos a escrever. Bem, diante de tudo isso, é interessante ressaltar que, para escrever bem, você não precisa utilizar frases complexas e vocabulário difícil. Algumas considerações extras que podem ser úteis em sua vida de estudante é que, para escrever textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica você deve procurar utilizar-se de simplicidade, concisão, imparcialidade, originalidade, ordem e acuidade. Vejamos cada item mais cuidadosamente. Simplicidade Procure usar termos e expressões simples. É comum acreditarmos que escrever textos de caráter mais técnico, científi co ou acadêmico exige de nós a utilização de expressões difíceis e termos pomposos. Não é verdade. Em textos dessa natureza você não precisa complicar as coisas, ou como dizem por aí, usar de “prosopopeia fl ácida para acalentar bovinos”, que é uma forma mais elegante 4 Leitura e Produção de Textos A06 de “conversa pra boi dormir”. Entendeu a diferença? Você vai ser compreendido se utilizar palavras que todos compreendam. Esses tipos de textos são escritos para serem lidos e compreendidos, expressando da melhor maneira possível suas ideias e seus argumentos. Assim, procure empregar construções simples, diretas e espontâneas, obviamente, sem o vulgar e o excessivamente coloquial, visto que esses são textos que exigem um nível mais formal da linguagem. Concisão Também é de bom tom, principalmente em gêneros mais curtos, como resumos, resenhas, artigos científi cos, ser conciso. Isto é, expor suas ideias de forma breve, clara e em poucas palavras. Ou seja, usando de objetividade, evitando repetir ou parafrasear muito as ideias, dar exemplos em demasia, evitar pormenores que não agreguem valor real ao que você quer expressar. Imparcialidade É característica do estudante, do pesquisador, enfim, do produtor de textos de caráter técnico, científi co ou acadêmico, a imparcialidade. Ou seja, buscar demonstrar os vários aspectos dos problemas levantados, fundamentar seu ponto de vista em um suporte teórico-metodológico, argumentar com clareza e com qualidade, fazer referência às fontes de dados e informações, não se deixando influenciar por ideias preconcebidas ou supervalorizando aquilo que está pesquisando. O julgamento de quem pesquisa e escreve deve ser o mais exato e justo possível. Assim, tudo que for afi rmado deve estar baseado em evidências e de acordo com o que se leu sobre o assunto. Originalidade Na verdade, tudo já foi pensado, dito ou escrito, é o que se costuma ouvir e dizer quando se está estudando e produzindo textos de natureza técnica, científi ca ou acadêmica. O que é novo, então? O novo consiste na forma de abordar um determinado assunto. Ou na forma de expor ou na forma de argumentar sobre 5 Leitura e Produção de Textos A06 ele. A novidade está no olhar do pesquisador, posto que, por mais que você pesquise algo que já tenha sido pesquisado por outros, o seu olhar está permeado por toda a sua vivência e esta é única, pois só você a experimentou. Assim, o seu olhar é que tem caráter próprio, é individual, inédito. Ordem Ao expor suas ideias, procure sempre organizá-las de uma maneira lógica. Por isso é sempre importante uma esquematização prévia do conteúdo de seu trabalho. Elaborar um plano do que se vai escrever ajuda muito a não perder de vista o objeto de estudo e os objetivos a serem alcançados com o texto. Assim, as partes de seu texto obedecerão a uma sequência clara e compreensível. Acuidade Acuidade diz respeito à capacidade de discriminação que você deve ter ao selecionar as informações mais relevantes para dispor e desenvolver em seu texto. Assim como implicam em observações cuidadosas, medidas e verifi cadas, explicadas através de palavras precisas e exatas. Enfi m, só para retomar com outras palavras aquilo que já vem sendo tão marcadamente dito nesta disciplina, Markoni e Lakatos (2001, p. 176) comentam que, entre outras características, os textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica devem apresentar: a) Equilíbrio: apresentando senso de proporções. b) Coerência: ajustamento no emprego de termos. c) Controle: obediência e rigor na organização. d) Interesse: despertando a atenção e o agrado. e) Persuasão: visando convencer sobre o assunto exposto. f) Sinceridade: valendo-se da franqueza e da honestidade. g) Unidade: signifi cando uniformidade na disposição do assunto. 1Praticando... 6 Leitura e Produção de Textos A06 1. Observe os fragmentos textuais a seguir, elaborados para esta atividade e identifi que os principais problemas quanto às características necessárias para os textos de natureza técnica, científi ca ou acadêmica. a) No curso de graduação enfocado, os ótimos projetos de intervenção são cursos preparados para escolas de ensino fundamental que precisam muito da intervenção dos estagiários, por estarem muito defi citárias em termos de qualidade de ensino. Esses ótimos estagiários apresentam projetos de grande qualidade que são analisados de forma positiva aqui. b) A análise dos textos numa perspectiva dialética permite a equiparação entre escola e trabalho e proporciona o despertar da consciência cognitiva do professor pesquisador quanto à evolução psicossocial de seus aprendizes, elevando-os à condição de sujeitos de seu próprio aprendizado. c) Trabalhadas essas questões e levantados os elementos. Essa refl exão é bastante relevante, já que o fato de introduzir um instrumento que parece bom não nos garante que ele funcionará. Entretanto, nos últimos anos, têm aparecido estudos que colocam que é preciso um ponto de vista mais integrativo. d) O que há de absolutamente inovador aqui, é que nunca antes ninguém pensou dessa forma acerca do problema do aprendizado, constituindo-se este estudo em um estudo totalmente inovador e original, baseado em uma perspectiva totalmente inédita. Para apresentar todos esses requisitos é preciso, portanto, evitar que seu texto apresente alguns defeitos, que são expostos por Markoni e Lakatos (2001) e sobre os quais vamos nos deter ainda um pouco. Defeitos de estilo Antes de falar das normas da ABNT propriamente, ainda cabe tecer algumas considerações sobre a qualidade de estilo dos textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica. Observe alguns defeitos que podem prejudicar a qualidade de seu texto e que você deve evitar. 7 Leitura e Produção de Textos A06 Períodos longos ou breves demais Convém ter cuidado no tamanho dos períodos que vai produzir. Nem tão curtos que se tornem telegráfi cos, nem tão longos que se tornem confusos e prolixos. Os primeiros tornam o estilo monótono e cansativo; os segundos prejudicam a clareza. O ideal seria a combinação dos dois, que poderá resultar em mais harmonia, mais equilíbrio para a linguagem. Repetição de palavras É preciso ter atenção também quanto ao uso do vocabulário. Muitas vezes, por medo de que estejamos fugindo do conceito exato que queremos expressar, ou por queremos ser bastante claros, acabamos por repetir inúmeras vezes as mesmas palavras ou expressões. Isso não é muito bom, pois denota pobreza de vocabulário. A solução será sempre a procura de sinônimos, no entanto, é preciso, também, usar de equilíbrio no uso dessas substituições de termos, não fazê-las aleatoriamente, mas cuidadosamente. Frases desconexas Uma das difi culdades de quem escreve é conseguir ter uma perspectiva crítica sobre o próprio texto. Assim, muitas vezes acabamos por ler o que queremos ler no nosso texto e não o que está lá, escrito. O olhar de outra pessoa sobre o texto que você produzir é importante para detectar a elaboração de períodos confusos, de difícil entendimento ou mesmo que não apresentem a coesão necessária. Expressões vulgares Na redação de natureza técnica, científi ca ou acadêmica, não se permite a gíria nem as expressões populares. Os assuntos devem sempre ser abordados com elegância. Chavões ou clichês São sentenças ou frases muito comuns, vulgarmente usadas. Formas de expressão de uso na linguagem corriqueira, do dia a dia, tais como “quem está na chuva é para se molhar” ou “escrevo estas mal traçadas linhas” já foram tão utilizadas que hoje em dia se considera vulgar utilizá-las em produções textuais. 8 Leitura e Produção de Textos A06 Vícios de linguagem Muitas vezes deixamos que a linguagem oral interfi ra em nosso texto escrito de uma forma não muito positiva, criando fi guras de efeito sonoro esdrúxulo tais como: Exemplo 4 Ela apresentava uma evidente hemorragia de sangue. Exemplo 1 O menino contente mente repetidamente. b) Cacófato: criação de sons desagradáveis a partir da junção de palavras. Exemplo 2 Foram pagos dois reais por cada. Exemplo 3 Ela tinha quatro anos. c) Pleonasmo: repetição desnecessária de uma ideia. a) Eco: rima na prosa. 2Praticando... 9 Leitura e Produção de Textos A06 1. Identifi que, nos fragmentos textuais a seguir, alguns dos defeitos de estilo discutidos nesta aula: a) Trabalhadas as questões, partiu-se para a pesquisa. Realizada. Apresentados os resultados. Considerados. Discorre-se sobre eles. Chega-se a conclusões fi nais. b) Dessa forma, as normas para a realização de textos seguem as normas da ABNT que são normas de elaboração de citações e referências. Essas normas não podem ser ignoradas pelos produtores de textos. c) Então, Magalhães (apud Machado, 2008, p. 100) afi rmou que “as teorias que subjazem aos estudos que consideram a relação linguagem e trabalho são as mais consultadas”, mesmo sabendo que a galerinha, a rapeize da street gosta mesmo é de falar coisa maneira, da hora. Usando as normas da ABNT Existem várias normas que regem a produção técnica, científi ca e acadêmica, todas formuladas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). As normas sobre as quais vamos nos debruçar aqui são a NBR 10520/2002, que trata das citações, e a NBR 6023/2002, que trata sobre as referências, ou seja, a forma correta de indicarmos a referência dos diversos textos de diferentes naturezas que consultarmos para a realização de nossas produções textuais. Certamente, esta aula não tem a intenção de esgotar o assunto, apenas de dar algumas orientações gerais sobre o uso das normas, mas para os detalhes, o importante é que você consulte e siga as próprias normas da ABNT. Falando sobre citações, nós já discutimos, em aula anterior, algumas formas de como citar o discurso alheio, agora vamos ver, para a ABNT, em que se constitui uma citação. Exemplo 5 Exemplo 6 10 Leitura e Produção de Textos A06 Citações Citação é a menção, em um texto, de informação extraída de outra fonte (material e/ou documental) com o objetivo de esclarecer, reforçar ou ilustrar o que se diz. Ao fazer citações, você deve expor as ideias alheias com clareza, exatidão e precisão, para que o leitor do trabalho possa localizar a obra mencionada com facilidade, caso deseje aprofundar-se nos estudos sobre o assunto. Assim, todas as fontes de onde foram extraídas as ideias e os trechos citados em seu trabalho devem ser referidas, caso contrário, você estará incidindo em plágio, o que é crime previsto por lei. Portanto, muito cuidado ao utilizar as teclas “Ctrl + C” e “Ctrl + V” ao produzir seus textos, você pode ser facilmente rastreado pelo professor e estará, possivelmente, incorrendo em erro e crime. Para a ABNT, existem dois modos de citação: direta e indireta. A primeira é uma transcrição literal da informação dita por outro. Aquilo que nós estudamos como discurso direto, por exemplo. A segunda é a paráfrase da fala ou discurso de outra pessoa, aquilo que nós já vimos nesta disciplina como modalização em discurso segundo ou discurso indireto. A ABNT, portanto, estabelece normas para ambos os tipos de citação. Em linhas gerais, da seguinte forma: a) Citações diretas breves – até três linhas Deve ser inserida no corpo do texto, entre aspas duplas, em letras normais. Deve trazer indicação de nome completo ou sobrenome do autor, ano do texto lido e a página de onde a citação foi retirada, de acordo com os exemplos abaixo: Bagno (2004, p. 69) esclarece que: “O domínio da norma culta não é instrumento de ascensão social.” Segundo Bagno (2004, p. 27): “Essa mesma idealização da norma culta como um padrão linguístico 100% ‘puro’ – como uma pedra preciosa sem nenhuma jaça [...] se verifi ca num texto publicado por Pasquale Cipro Neto [...]” Exemplo 7 Exemplo 8 11 Leitura e Produção de Textos A06 Há anos são empregados os sistemas de unidades métricas e “[...] atualmente, a maior parte do mundo científi co emprega a versão chamada unidades SI” (RUSSEL, 1994, p. 44). Observe que: O sobrenome do autor citado pode vir fora ou entre parênteses: se vier fora, o sobrenome do autor não precisa, necessariamente, vir em maiúsculas; se vier dentro dos parênteses, o sobrenome do autor deve vir, necessariamente, em maiúsculas. Caso haja um termo ou expressão destacado dentro da citação, usam-se aspas simples para manter o destaque, como a palavra ‘puro’ no exemplo 6. Quando há supressões do texto na citação, ou seja, quando o texto original foi recortado por você, indique essa supressão com o uso de colchetes e reticências, como nos exemplos 6 e 7. Essas observações valem tanto para citações de apenas um autor ou de dois autores. b) Citações diretas longas A diferença está na maneira de formatar o texto, mas todas as observações dadas para as citações breves acima também são úteis nesse caso. A formatação para citações acima de três linhas deve ser feita destacando-se o texto citado do corpo de seu texto com um recuo de 4 cm (além da margem esquerda), com letra menor que a do texto utilizado (fonte 10), sem itálico e sem aspas. Observe os exemplos a seguir: Segundo Perelman e Olbrechts-Tyteca, para argumentar: [...] é preciso ter apreço pela adesão do interlocutor, pelo seu consentimento, pela sua participação mental [...]. Quem não se incomoda com um contato assim com os outros será julgado arrogante, pouco simpático, ao contrário daqueles que, seja qual for a importância de suas funções, não hesitam em assinalar por seus discursos ao público o valor que dão à sua apreciação (2000, p. 18). Exemplo 10 Exemplo 9 12 Leitura e Produção de Textos A06 “Demóstenes faz alusão, em sua Primeira olintíaca, ao decreto ateniense que interditava, sob pena de morte, a introdução de um projeto de lei [...]” (PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 2000, p. 64, grifo nosso). c) Citações indiretas Segundo Russel (1994, p. 44), o método do fator unitário é o mais aperfeiçoado para cálculos numéricos. Observe que: No caso de citações indiretas você não é obrigado a citar o número de página da citação, você pode citar apenas o ano do texto lido entre parênteses. Não se esqueça de indicar supressões com [...], interpolações, acréscimos ou comentários do autor do trabalho usar [ ] e ênfase ou destaque com grifo, negrito ou itálico. Quando estiver citando dados obtidos por informação verbal (palestras, debates, comunicações etc.), você deve indicar, entre parênteses, a expressão (informação verbal), mencionando os dados disponíveis, em nota de rodapé. Se desejar dar ênfase a trechos da citação, a alteração realizada deve ser indicada com a expressão “grifo nosso” entre parênteses, após a chamada da citação. Veja o exemplo 10: Nesse caso, você se apropria do discurso do autor citado, dizendo-o com suas palavras, mas mesmo assim você precisa fazer referência a esse autor, pois é dele a ideia que você está utilizando. Assim, observe os exemplos a seguir: 3Praticando... Exemplo 11 13 Leitura e Produção de Textos A06 d) Citação da citação Às vezes lemos um autor e encontramos em seu texto uma citação de algum outro autor que consideramos bastante relevante para o nosso trabalho. Fazemos uma citação da citação, porque pegamos uma citação que alguém fez. Nesse caso, estamos usando uma citação de “segunda mão” e devemos indicar isso através do uso da expressão apud, que signifi ca “citado por”. Esse tipo de recurso só deve ser empregado quando o acesso à obra original for impossível, pois esse tipo de citação compromete a credibilidade do trabalho. Segundo Luft (apud BAGNO, 2004, p. 63): “Um ensino gramaticalista abafa justamente os talentos naturais, incute insegurança na linguagem, gera aversão ao estudo do idioma [...]” 1. Elabore um texto de 20 linhas utilizando uma citação direta e uma citação indireta retirada de textos de suas disciplinas. Utilize como tema para a elaboração de seu texto: As responsabilidades de um estudante de EaD. Notas de rodapé Notas de rodapé também são recursos úteis para quem está produzindo um texto de natureza técnica, científi ca ou acadêmica, mas também convém utilizá-las com parcimônia. As notas podem ser explicativas (observações, aditamentos e informações paralelas ao texto), remissivas (quando remetem o leitor para outra parte do texto ou para outras fontes) e de tradução. Mas devem trazer sempre informações que, se colocadas no corpo do texto, se mostrariam desnecessárias ou poderiam desviar a leitura de seus objetivos. Exemplo 13 14 Leitura e Produção de Textos A06 As notas de rodapé devem ser numeradas com algarismos arábicos, devendo ter numeração única e consecutiva para cada capítulo ou parte. Não se inicia a numeração a cada página. A redação da nota de rodapé deve ter espaço entre linhas simples e fonte tamanho 10. Referências Para a NBR 6023/2002, as referências de um trabalho de natureza técnica, científi ca ou acadêmica é um conjunto padronizado de elementos descritivos, retirados de um documento, que permite sua identifi cação individual. Existem, na elaboração das referências, alguns elementos que são considerados essenciais e outros que são considerados complementares. Tanto os elementos essenciais quanto os complementares precisam ser apresentados em uma sequência padronizada, de forma que todos os leitores possam, a partir do padrão, identifi car esses elementos e, consequentemente, o tipo de documento que eles descrevem. São utilizadas duas formas de fazer referências na construção de textos de caráter técnico, científi co e acadêmico: as referências dentro do texto e as referências no fi nal do texto. Dentro do texto deve-se procurar simplifi car o tipo de referência utilizada, por isso a norma aconselha utilizar o sistema autor/data. No fi nal do texto, utilizando as entradas dadas através do sistema autor/data ao longo do texto, coloca-se o conjunto de informações acerca de cada um dos documentos utilizados durante o processo de construção do texto. Vejamos cada forma de referência separadamente. a) Sistema autor/data Cada vez que citamos algum documento no texto devemos colocar, entre parênteses, o sobrenome do autor, o ano de publicação daquele documento que citamos e o número da página de onde foi retirada a citação, no caso de citações diretas. Observe o exemplo: Como fontes confi áveis para referências acadêmicas e científi cas deve-se privilegiar dissertações, teses, tratados, revistas periódicas vinculadas às instituições de ensino ou de pesquisa e artigos publicados em revistas científi cas catalogadas nos respectivos órgãos normatizadores e fi scalizadores (CERVO, BERVIAN, 2003, p. 157). O exemplo 13 demonstra como deve ser feita a referência aos autores citados de forma direta dentro do texto, depois, no fi nal do trabalho, e seguindo as mesmas entradas feitas no texto, ou seja, os sobrenomes dos autores na mesma ordem. Deve-se colocar a referência completa do documento, da forma como está exposta no exemplo a seguir: Exemplo 14 Exemplo 15 15 Leitura e Produção de Textos A06 CERVO, Amado L.; BERVIAN, Pedro A. Metodologia científi ca. 5. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. b) Referências gerais São colocadas ao fi nal dos textos de natureza técnica, acadêmica ou científi ca e apresentam o rol dos documentos utilizados pelo pesquisador-autor do texto. Apresentam alguns elementos essenciais dispostos na seguinte ordem e formatação: SOBRENOME DO AUTOR, Nome. Título do texto. n. ed. Cidade da publicação: Editora, ano da publicação. Além desses elementos essenciais, podem-se acrescentar alguns elementos complementares, por exemplo, se for texto traduzido, o nome completo do tradutor logo após o título do trabalho. Pode-se também agregar, ao fi nal da referência, após o ano, a quantidade de páginas do volume. Alguns dos elementos complementares mais utilizados são: Tradutor, prefaciador, introdutor (entre o título e o número da edição, quando houver, ou local de publicação, em caso de primeira edição, seguido de ponto). Número de páginas (após o ano de publicação, seguido por um “p.” e espaço) ou de volumes (havendo mais de um: após o ano de publicação, seguido de “v.” e espaço). Título da série (coleção, cadernos etc.) e número da publicação na série (entre parênteses, após o item anterior, separados por vírgula e seguidos de ponto). ECO, Umberto. Como se faz uma tese. Trad. Gilson César Cardoso de Souza. 10. ed. São Paulo: Perspectiva, 1993. 170 p. (Coleção estudos, 85). Exemplo 16 Exemplo 18 Exemplo 17 16 Leitura e Produção de Textos A06 OLIVEIRA, V. B.; BOSSA, N. A. (Org.). Avaliação psicopedagógica da criança de sete a onze anos. Petrópolis: Vozes, 1996. Observe-se que: As referências bibliográficas devem ser apresentadas em ordem alfabética, cronológica e sistemática (por assunto). Indica(m)-se o(s) autor(es) pelo último sobrenome, em letras maiúsculas, seguido(s) do(s) prenome(s) e outro(s) sobrenome(s), abreviados ou não. Quando houver dois ou três autores, os nomes devem ser separados por ponto-e- vírgula, seguidos de espaço. Quando existirem mais de três autores, indica-se apenas o primeiro, acrescentando- se a expressão latina et al, que signifi ca e outros. PEAR, L. et al. Sobre a qualidade de aprendizagem no tratamento de pessoas autistas. Terapia behaviorista, São Paulo, v. 30, n. 2, p. 21-39, 2007. Quando houver indicação explícita de responsabilidade pelo conjunto da obra, em coletâneas de vários autores, a entrada deve ser feita pelo nome do responsável, seguida pela abreviatura singular do mesmo, (organizador, coordenador, editor etc.), entre parênteses. Em caso de autoria desconhecida, a entrada é feita pelo título. CONSULTORIO del amor: edicación sexual, creatividad y promoción de salud. La Habana: Academia, 1994 Exemplo 20 Exemplo 19 17 Leitura e Produção de Textos A06 As obras de responsabilidade de entidades coletivas (órgãos governamentais, empresas, associações, congressos, seminários etc.) têm entrada pelo seu próprio nome por extenso em caixa alta, considerando a subordinação hierárquica, quando houver. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informação e documentação: referência – elaboração. Rio de Janeiro, 2000. Quando a entidade tem uma denominação genérica, seu nome é precedido pelo nome do órgão superior, ou pelo nome da jurisdição geográfi ca à qual pertence. SÃO PAULO (Estado). Secretaria do Meio Ambiente. Manjuba (ancharella lepidentostole) no rio Ribeira de Iguape. São Paulo: Ibama, 1990. Sobre as referências colocadas ao fi nal dos textos, é interessante ainda acrescentar que podem agregar textos de naturezas diversas, não só publicações impressas como livros, revistas, jornais, mas publicações em CD-ROM, sites, arquivos de vídeo, de áudio, em CD e DVD, enfi m, tudo o que possa ser utilizado como fonte de pesquisa. Para cada espécie de documento, no entanto, há especifi cidades no que tange à sua referenciação. Por isso, é importante consultar as normas sempre que você não souber como fazer a referência de um determinado documento que esteja utilizando. 4Praticando... 18 Leitura e Produção de Textos A06 1. Coloque em formato adequado, de acordo com a ABNT, as seguintes referências: a) AUTORA: Ilane Ferreira Cavalcante; TÍTULO: O Romance da Besta Fubana: festa, utopia e revolução no interior do Nordeste; Editora: Bagaço; Cidade: Recife; Ano: 2008. b) AUTORES: Andressa Pereira e Paulo B. Cunha; TÍTULO DO ARTIGO: A relação pessoa-ambiente: uma avaliação do desconforto térmico. TÍTULO DO PERIÓDICO: Cadernos Temáticos. PÁGINAS: 58 a 64; CIDADE: Brasília; EDITORA: Secretaria de Educação Profi ssional e Tecnológica; VOLUME: 01; NÚMERO: 11; DATA: Novembro de 2006. c) TÍTULO: Conselho relata atentado contra índios em Raposa Serra do Sol. DISPONÍVEL EM: http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0 ACESSO: 27 de outubro de 2007. Leituras complementares NORMAS da ABNT: citações e referências bibliográfi cas. Disponível em: <http://www. leffa.pro.br/textos/abnt.htm>. Acesso em: 30 jan. 2009. Visite o sítio anterior. Nele, você encontrará uma orientação geral sobre como elaborar citações e referências com base nas normas da ABNT. Além disso, há diversos manuais de metodologia científi ca que você pode utilizar para estudar mais sobre o assunto. Alguns, inclusive, trazendo modelos de organização de trabalhos de natureza técnica, acadêmica e científi ca, tais como projetos de pesquisa, artigos, monografi as, dissertações. É o caso do livro de Amado Cervo e Pedro Bervian que consta nas referências desta aula. Nesta aula, estudamos algumas considerações acerca do ato da escrita e sobre estilo na elaboração de textos de natureza técnica, científi ca ou acadêmica, além de orientações de como organizar citações e referências dentro dos moldes propostos pela ABNT. Autoavaliação 19 Leitura e Produção de Textos A06 1. Leia os trechos abaixo, criados para esta atividade. Identifi que os problemas no uso das referências e das citações do discurso alheio e reescreva o trecho empregando corretamente a citação do discurso alheio indicada entre os parênteses. a) Jean PARIS e M. NIGRA (1953, pág. 357) acreditam “que o tema é proveniente da França, tendo se propagado pela Itália setentrional e dali passado para a Catalunha que o levaria à Castela e a Portugal”. (Discurso indireto) b) O Conde Alarcos é um romance novelesco muito antigo, provavelmente surgido antes dos épicos nacionais na Península Ibérica. Wolf, em sua Primavera de Romance (1990; 3 p.), considera-o “um dos romances jogralescos mais completos e formosos”. (Modalização em discurso segundo) c) O estudioso português Theóphilo Bezerra (2003, pp. 61-62) encontra o motivo histórico do romance na Antiguidade romana, na fi gura de Júlia, fi lha do Imperador Augusto: “se alguma realidade histórica existe desse romance é o das relações de Júlia, fi lha do Imperador Augusto, com alguns dos seus maridos, descasados para satisfazer os seus caprichos [...]”. (Ilha textual) 2. Utilize as informações abaixo e elabore as referências de cada um dos volumes. AUTOR (ES) TÍTULO CIDADE EDITORA ANO INFORMAÇÃO COMPLEMENTAR Rudolf von Ihering A luta pelo Direito São Paulo Martin Claret 2003 Tradução Pietro Nássetti Vários autores Modernidades tardias Belo Horizonte Editora da UFMG 1998 Organizadora Eneida Maria de Souza Clarice Lispector Perto do Coração Selvagem Rio de Janeiro Nova Fronteira 1986 12ª edição 216 páginas 20 Leitura e Produção de Textos A06 Maria Cecília P. de Souza e Silva e Ingedore Villaça Koch Linguística aplicada ao português: sintaxe São Paulo Editora Cortez 1983 3ª edição 160 páginas 3. Procure a NBR 6023/2002 em uma biblioteca pública ou em sítios na Internet e descubra como fazer referências de: a) artigos de revista; b) artigos de jornais; c) textos retirados da internet; d) DVDs. Referências CERVO, Amado L.; BERVIAN, Pedro A. Metodologia científi ca. 5. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2003. MACHADO, Anna Rachel (Coord.); LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI, Lília Santos. Planejar gêneros acadêmicos. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Metodologia do trabalho científi co. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2001. 07 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Fichamento LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A07 Algumas considerações acerca do fi chamento. Qual a fi nalidade, quais as características e a utilidade de elaborar fi chamentos em sua vida de estudante. A partir desta aula, você passará a estudar alguns gêneros importantes para as suas atividades estudantis, tais como o fi chamento, o resumo, a resenha, o relatório. Começamos pelo fi chamento, porque ele será necessário e importante para o sucesso na elaboração de todos os demais. Conhecer o gênero fi chamento, seus tipos, usos e objetivos. Aplicar técnicas de elaboração de diferentes tipos de fi chamento. 2 Leitura e Produção de Textos A07 Para começo de conversa... Livro bom, mesmo, é aquele de que às vezes interrompemos a leitura para seguir — até onde? — uma entrelinha... Leitura interrompida? Não. Esta é a verdadeira leitura continuada. (Da Leitura – Mário Quintana). Às vezes, quando lemos um livro por prazer, como comenta Quintana no fragmento acima, queremos guardar aquela frase que consideramos incrível, ou divagamos acerca do assunto que nos leva a outros assuntos... Outras vezes, quando lemos por obrigação, em geral, temos difi culdade de nos concentrar e compreender bem o que aquele texto nos fala. Como fi xar, então, o conhecimento que adquirimos com nossas leituras? Vamos refl etir um pouco sobre isso. Sobre o fi chamento Já estudamos, em aulas e disciplinas anteriores, que é importante estarmos atentos ao que lemos e questionarmos os textos, de forma a não acreditar simplesmente, mas a estabelecer relações entre as produções textuais lidas. Até algum tempo atrás, quando não havia computadores, o que faziam os leitores que precisavam ler diversos livros para produzir algum conhecimento, fosse esse novo conhecimento livros, aulas ou trabalhos escolares? Será que eles decoravam tudo o que liam? Não. Como você, hoje, que lê um texto e anota à margem, em comentários pessoais, ou elabora apontamentos virtuais, em seu computador, os estudantes e pesquisadores buscavam registrar o que tinham compreendido dos textos fazendo fi chamentos. Mas, você pode dizer, se isso existia na época em que não havia computador, porque eu ainda tenho de estudar isso hoje? Porque hoje mudaram os instrumentos, os recursos de pesquisa e de estudo, mas não a necessidade de registrar, de alguma forma o que lemos, para não esquecermos. O fi chamento, físico ou virtual, ainda é possível e permanece sendo uma boa maneira de fi xar o que compreendemos. 3 Leitura e Produção de Textos A07 Defi nição Fichamento é uma forma de investigação que se caracteriza pelo ato de fi char (registrar) todo o material necessário à compreensão de um texto ou tema. Pode ser feito através de fi chas que facilitam a documentação e preparam a execução do trabalho, como os estudantes e pesquisadores de antes do computador pessoal faziam. Eles contavam com fi chas de papel apropriadas, utilizadas para anotar as principais informações obtidas nos textos lidos. Observe a fi gura 1, a seguir. Figura 1 – Exemplo de fi cha de estudo Fonte: <http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://trilux.org/img/fi cha-3x5.jpg>. Acesso em: 5 jan. 2010. Essas fi chas poderiam ser, posteriormente, acondicionadas em fi chários em uma ordem preestabelecida pelo pesquisador e consultadas sempre que necessário. Evidentemente, o uso do computador evita o acúmulo de papel e facilita a busca. Mas, mesmo virtual, o fi chamento ainda é uma forma de estudar e assimilar criticamente os melhores textos/ temas de sua formação acadêmico-profi ssional. Assim, seja em arquivos no seu computador, seja em fi chas de papel, ou mesmo em cadernos, fi char pode ser um excelente exercício para você e facilitar muito o seu trabalho quando você tiver de voltar a um texto lido há algum tempo, pois, de acordo com a qualidade do seu fi chamento, você pode até substituir a releitura do texto original pela leitura do seu fi chamento, apenas. 1Praticando... 4 Leitura e Produção de Textos A07 Existem diversos tipos de fi chamento que atendem a diversas fi nalidades: Fichas de citações Funcionam, basicamente, para guardar a reprodução de algumas sentenças relevantes de outros autores sobre o estudo que você estiver desenvolvendo. Há fi chas de resumo de conteúdo, cuja fi nalidade é dizer, em poucas linhas, o conteúdo de um determinado texto lido. Fichas de esboço Esquematiza-se não o que se leu, mas o que se pretende abordar em uma palestra ou comunicação que se proferirá. Fichas de comentário Consistem na interpretação crítica pessoal de ideias expressas em textos de outros autores. Fichas bibliográfi cas Sua fi nalidade maior é destacar do texto lido o campo de saber que é abordado no texto fi chado; os temas mais relevantes tratados no texto; as conclusões alcançadas; as contribuições especiais em relação ao assunto desenvolvido; os modos de abordagem utilizados pelo autor do texto lido; a utilização de recursos como tabelas, gráfi cos etc. Sobre essas fi chas, mais completas e que dizem respeito ao estudante, é que vamos tratar nesta aula. 1. O que é fi chamento? 2. Identifi que os tipos de fi chamento apresentados e a fi nalidade de cada um. 3. Como o fi chamento pode ser útil em sua vida de estudante a distância? 4. Como você pode adaptar esta atividade para sua rotina de estudos? 1 2 3 4 5 5 Leitura e Produção de Textos A07 Elementos de um fi chamento Adaptado de: <http://tbn0.google.com/images?q=tbn:u D0mYMmXNwxhxM:http://appt21.org.pt/produtos/img/ logo_bicho_conta>. Acesso em: 5 jan. 2010. Para padronizar o trabalho de fi char, há uma sequência de informações que são importantes para o fi chamento. Essa sequência procura abranger todos os elementos necessários a uma leitura de qualidade e a uma referenciação que evite equívocos, quando da necessidade de reutilizar os textos fi chados em algum trabalho de natureza técnica, científi ca ou acadêmica. Assim, é importante que seu fi chamento contenha: 1. Indicação bibliográfi ca – mostrando a fonte da leitura, feita de acordo com as normas da ABNT. 2. Resumo – sintetizando o conteúdo da obra. Trabalho que se baseia em um esquema prévio do texto lido. 3. Citações – apresentando as transcrições signifi cativas da obra. 4. Comentários – expressando a compreensão crítica do texto, baseando-se ou não em outros autores e outras obras. 5. Ideação – colocando em destaque as novas ideias que surgiram durante a leitura refl exiva e que podem ser desenvolvidas por você em trabalhos futuros. Modelo de fi chamento Indicação bibliográfi ca (conforme as normas da ABNT) 1ª parte: apresentação objetiva das ideias do autor 1. Resumo (baseado no esquema) 2. Pequenas citações (entre aspas e páginas) 2ª parte: elaboração pessoal sobre a leitura 1. Comentários (parecer e crítica) 2. Ideação (novas perspectivas) 2Praticando... 6 Leitura e Produção de Textos A07 1. Faça um fi chamento desta aula. 2. Como você organizou as informações do texto em seu fi chamento? 3. Escolha um texto do curso e elabore um fi chamento de acordo com o modelo apresentado nesta aula. Orientações sobre fi chamento Para fazer um bom fichamento não basta um modelo. É bom que você conheça alguns aspectos sobre os objetivos e as normas de elaboração de textos que podem auxiliá-lo, de forma que sua leitura do texto a ser fi chado seja realmente proveitosa e seu fi chamento possa ser utilizado ainda por um longo tempo em seu processo de aprendizagem. Vamos a essas considerações. Objetivos do fi chamento Os fi chamentos são elaborados para: recolher dados, informações que uma obra pode nos oferecer; organizar materialmente essas informações de modo que o trabalho a ser elaborado se desenvolva melhor e de maneira mais rápida; assegurar a retenção daquilo que se quer conservar – a memória interna é frágil – os apontamentos são como uma memória exterior. ATENÇÃO!! 7 Leitura e Produção de Textos A07 Normas práticas para assegurar um fi chamento efi ciente Para que seu fi chamento seja útil a você durante muito tempo, mesmo depois que você tenha esquecido de que leu aquele texto, é preciso ser detalhista e cuidadoso no registro dos dados do texto. Assim, procure ter em vista os objetivos do trabalho, buscando: anotar somente os dados suscetíveis de fornecer elementos sobre o problema formulado; fazer uma leitura prévia de todo o texto para ter uma ideia geral do assunto tratado, de modo a evitar redundâncias nas anotações; sublinhar os pontos principais ou anotar o que mais interessa, registrando a página do livro em que se localiza tal afi rmação. As citações textuais devem vir entre aspas. As ideias pessoais que surgirem durante a leitura podem ser colocadas ao fi nal da página, ou anotadas de modo diferente no computador. Além disso, é preciso não se esquecer de colocar a referência bibliográfi ca completa da obra no cabeçalho da fi cha ou folha. Por fi m, lembre-se: para produzir um bom fi chamento, é necessário saber distinguir o essencial do acessório. Evite acumular material, fazendo os apontamentos com refl exão e sobriedade. São mais importantes as ideias gerais do que as particulares, os detalhes e os exemplos. Por isso, é interessante utilizar frases ou palavras próprias e ter o cuidado de reproduzir com fi delidade o signifi cado do que o autor expressa, colocando, inclusive, o número de página de cada citação retirada do texto. Concluindo No fi chamento, portanto, esteja atento aos seguintes dados: Identifi cação da fonte Quando é feito o registro dos dados bibliográfi cos da obra, segundo as normas da ABNT. Detecção das ideias centrais do texto Quando, após a pré-leitura, busca-se na segunda leitura, mais concentrada e profunda, assinalar as unidades de pensamento das partes ou parágrafos do texto. Praticando...Praticando... 3 8 Leitura e Produção de Textos A07 Coleta dos dados Quando se documenta, no fi chamento, as partes essenciais da leitura, seja por meio de transcrições literais de trechos do texto (sempre entre aspas), por meio do resumo feito pelo leitor ou por uma síntese esquemática do texto lido. A opinião do leitor aborda a inteligibilidade do texto, sua estrutura, articulação interna, grau de difi culdade (linguagem, estilo, neologismos etc.) e atualidade do tema e bibliografi a. Nesta parte, o leitor demonstra o quanto conseguiu assimilar e interpretar do texto. Leia e faça um fi chamento do texto abaixo. Siga as orientações da aula, sem esquecer-se de informar: a) a fonte b) as ideias centrais do texto c) o que o texto suscita a você como futuro técnico em Segurança do Trabalho. Internet no Século XXI A Internet não é mais novidade. Ela já é um poderoso meio de comunicação que deve ser usado por todos nós como instrumento de difusão do conhecimento. Em 1996 e 1997, tive a oportunidade de escrever, na Revista CIPA (www.cipanet.com.br), uma série de artigos cujo principal objetivo era o de apresentar a Internet a uma grande parte dos leitores. Hoje, a Internet já faz parte do cotidiano de muitas empresas, instituições e profi ssionais das áreas de Segurança e Saúde do Trabalho. Se você observar os anúncios que estão distribuídos pelas páginas das revistas especializadas, irá constatar a presença de endereços eletrônicos na maioria deles. Muitos articulistas também oferecem um e-mail para contato. Ora, se essa grande rede mundial já é amplamente conhecida e utilizada pelos profi ssionais e instituições do setor de SST, porque voltar a escrever sobre esse tema? A minha resposta é que ainda há muita coisa a ser feita por nós para que a Internet seja mais útil e melhor aproveitada. Tenho acompanhado, de perto, o crescimento da presença do setor nessa incrível rede mundial de computadores e não há dúvida que chegou a hora da inovação. Nesta primeira fase, isto é, desde o surgimento da Internet comercial no Brasil (setembro de 1995) até agora, o que se caracterizou para nós foi um período de “marcar presença”, 9 Leitura e Produção de Textos A07 estabelecer-se na Grande Rede e utilizar os recursos básicos para trocar informações (correio eletrônico, listas de discussão, bate-papo) e expor produtos e serviços (páginas da Web). Conhecendo o potencial da Internet e suas aplicações interativas (home- banking, livrarias virtuais, supermercados delivery, bibliotecas digitais etc.) temos que adaptá-los aos nossos interesses. Enviar a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) pela Internet é um grande avanço, já disponibilizado pela Previdência Social, mas ele se tornará maior ainda quando o processamento das informações nos permitir acesso, até mesmo em tempo real, às estatísticas dos acidentes. A edição de uma norma ou a publicação de uma portaria pode ser divulgada por meio de uma mensagem automática dirigida a todos aqueles que estiverem cadastrados para isso. Isso pode ser implementado pelo Ministério do Trabalho (www.mte.gov.br), da Previdência (www.mpas.gov.br) ou, até mesmo, pela Imprensa Nacional (www.in.gov.br). Antes de o Diário Ofi cial sair da gráfi ca, você já terá recebido o novo diploma legal em sua casa, escritório, enfi m, onde você estiver, até mesmo em seu telefone celular. Para quem está distante dos grandes centros urbanos isso é uma revolução, especialmente se, por esse mesmo canal, for aberto um processo de discussão pública. Outra área de aplicação do potencial interativo da Internet é a educação à distância. A Universidade Virtual já é realidade em alguns países, os cursos de extensão também. Além de textos e imagens estáticas, dentro de pouquíssimo tempo, poderemos transmitir, pela Internet, fi lmes de treinamento, seminários e palestras ao vivo, sem o aparato de uma sala de vídeo conferência. Estamos nos preparando para isso? A digitalização de publicações técnicas é um outro passo que precisará ser dado com mais velocidade. Já existem os meios tecnológicos para realizar essa tarefa. A quantidade poderá ser pequena no início, mas o importante é reconhecermos a importância dessa biblioteca digital e trabalharmos nessa direção. Não se trata de substituir livros, trata-se de ampliar a difusão do conhecimento técnico em segurança e saúde do trabalho, atingindo profi ssionais, estudantes e instituições que não têm acesso fácil a bibliotecas e cursos de atualização. Tenho certeza de que as empresas, as entidades, especialmente os órgãos públicos, compreenderão a necessidade de investimento nessas aplicações interativas da Internet. Em um país continental como o Brasil, a Internet deve ser explorada por cada um de nós para que ela seja a Rede do Conhecimento, ao contrário da televisão aberta, que tinha esse potencial mas que se transformou, com honrosas exceções, na Rede da Alienação. É o momento de migrarmos da era da informação para a era do conhecimento. A segurança e a saúde dos trabalhadores depende disso também. Nossos indicadores sociais estão muito aquém das metas de qualidade de vida de um povo e os números dos acidentes e doenças do trabalho nos revelam um grave problema de saúde pública. Todos os meios disponíveis para mudar esse quadro devem ser utilizados, à exaustão, pelos trabalhadores, empresários e governo. A Internet é um desses meios; mãos à obra! Autoavaliação 10 Leitura e Produção de Textos A07 *Ricardo Pereira de Mattos (ripemattos@ig.com.br) é engenheiro eletricista, engenheiro de segurança e professor dos cursos de pós-graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sócio Efetivo da Sociedade Brasileira de Engenharia de Segurança, ex-diretor da Sociedade de Engenharia de Segurança do Estado do Rio de Janeiro e ex-conselheiro do CREA-RJ. É autor da publicação eletrônica O Endereço da Prevenção: www.ricardomattos.com. Aplique os conhecimentos desta aula fazendo um fi chamento sobre um dos artigos de comércio exterior que você encontra no seguinte site: INTERLEGIS. Artigos sobre comércio exterior. Disponível em: <http://www. interlegis.gov.br/processo_legislativo/copy_of_20020319150524/20040 805152317/20040804163612>. Acesso em: 11 fev. 2009. Nesta aula, vimos o que é e qual a utilidade do fi chamento, principalmente para um estudante. Estudamos também quais são os elementos fundamentais e imprescindíveis de um fi chamento e tivemos acesso a algumas orientações gerais acerca de como fazer uma produção textual efi ciente desse gênero que seja útil para guardar informações relevantes sobre os textos que você tiver que estudar. Leitura complementar MACHADO, Anna Raquel; LOUSADA, Eliane; TARDELLI, Lília Santos Abreu. Como planejar gêneros acadêmicos. Rio de Janeiro: Parábola, 2007. Nessa obra você poderá aprofundar um pouco mais seus conhecimentos sobre como pesquisar, planejar e elaborar gêneros de natureza investigativa e mais acadêmica. Anotações 11 Leitura e Produção de Textos A07 Referências FICHAMENTO: organizando a informação. Disponível em: <http://www.ucb.br/prg/ comsocial/cceh/normas_organinfo_fi chario.htm>. Acesso em: 20 maio 2007. HUHNE, L. M. Metodologia científi ca. 7. ed. Rio de Janeiro: Agir, 2000. p. 64 - 65. Anotações 12 Leitura e Produção de Textos A07 08 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Resumo LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A08 A diferença entre índice e sumário e algumas estratégias para fazer uma sumarização, também válidas para a elaboração de resumos. Verá também os principais tipos de resumo formais exigidos do estudante, a saber: o indicativo, o informativo e o crítico, importantes para as produções de natureza técnica, científi ca e acadêmica. Compreender a diferença entre índice, sumário e resumo. Conhecer e aplicar técnicas de sumarização de textos. Conhecer os diferentes tipos de resumo. Conhecer e aplicar técnicas de elaboração dos principais tipos de resumo. 2 Leitura e Produção de Textos A08 Para começo de conversa.... Eu vou lhe deixar a medida do Bonfi m não me valeu Mas fi co com o disco do Pixinguinha, sim! O resto é seu Trocando em miúdos, pode guardar As sobras de tudo que chamam lar As sombras de tudo que fomos nós As marcas de amor nos nossos lençóis As nossas melhores lembranças! [...] (Trocando em miúdos, Chico Buarque e Francis Hime). A música de Chico Buarque e Francis Hime, “Trocando em miúdos”, fala sobre o fi nal de um relacionamento, quando não há muito a dizer e é preciso separar aquilo que se conquistou ao longo da história. Ao utilizar a expressão “trocando em miúdos”, o eu-lírico parece querer dizer algo como, “para simplifi car”. A expressão que dá título à canção, portanto, indica a necessidade de simplifi car a conversa mais longa, evitar a discussão acerca de mágoas antigas, enfi m, sumarizar a separação a algumas unidades mais simples que, no entanto, guardam em si toda uma história: o disco, a medida do Bonfi m são elementos que contam um pouco da vida em comum do casal que se separa, mas que simplifi cam a conversa sobre separação. É sobre essa simplifi cação do discurso que vamos conversar um pouco nesta aula. Não de forma tão melancólica quanto a canção de Chico Buarque e Francis Hime, é claro. Mas sobre como essa necessidade de sumarização das ideias é importante em nosso dia a dia. Trocando em miúdos Etimologicamente, a palavra resumo origina-se do verbo latino sumere, ou seja, reduzir, diminuir, sintetizar. O adjetivo sumarius pode ser traduzido, então, como simples, feito sem formalidades ordinárias, isto é, resumidamente e, portanto, breve e sem delongas. 1Praticando... 3 Leitura e Produção de Textos A08 A sumarização é uma atividade, então, em que reduzimos ao mínimo necessário, ou fundamental, aquilo que lemos, soubemos, conhecemos. E é uma atividade cada dia mais importante devido ao grande volume de informações produzido diariamente. A sumarização, aliás, é uma atividade bastante comum. Quando se narra um evento a uma pessoa, costuma-se fazer um resumo do que aconteceu e não uma narração completa e muito detalhada. Inconscientemente, as pessoas estão sempre sumarizando, quer oralmente, quer por escrito. Se você parar para pensar, vai ver que manchetes de jornais e seus subtítulos, denominados leads, são exemplos de sumários escritos. Você já imaginou se alguém decidisse ler tudo o que é publicado diariamente em jornais e revistas? Impossível, não é mesmo? As horas do dia não seriam sufi cientes para tanto. Mesmo que essa pessoa decidisse ler somente o que é publicado em jornais, no Brasil, seria praticamente impossível ler tudo. Ou se essa pessoa escolhesse um assunto e resolvesse ler tudo o que já foi escrito sobre aquilo. Será que conseguiria? Difi cilmente. Um bom exemplo dessa difi culdade se dá quando resolvemos pesquisar algo em um site de busca. Basta digitar uma palavra e pronto, temos uma enorme quantidade de links que se abrem para que escolhamos aquilo que mais nos convém. O mais difícil hoje, aliás, não é encontrar as informações, temos informações aos borbotões, por todos os lados, nas bancas de jornal, na televisão, na internet. O difícil mesmo é selecionar as informações relevantes, é identifi car aquilo que é mais plausível, mais adequado, mais correto. Bem, fazer uma seleção requer não só uma boa base de conhecimentos, mas a capacidade de fazer uma leitura rápida e crítica que nos permita identifi car, em breves palavras, o conteúdo de um determinado texto. Ou seja, fazemos uma sumarização dos assuntos e identifi camos se determinado texto nos é útil ou não em determinado momento. 1. O que é sumarização? 2. Leia o fragmento abaixo, retirado do texto desta aula e refl ita se você concorda ou discorda com ele. A seguir, elabore um texto esclarecendo e justifi cando a sua opinião. 1. Introdução 2. Apresentação 3. Proposta de trabalho 3.1 Produto 3.2 Objetivos 4. Metodologia 5. Definição 6. Apresentação física 7. Estrutura do trabalho 7.1 Pré-textuais 7.2 Textuais 7.3 Pós-textuais 8. Citações 8.1 Citação direta 8.2 Citação Indireta 8.3 Citação de citação 9. Notas de rodapé 9.1 Notas de referência 9.2 Notas explicativas 10. Considerações finais 11. Referências 12. Índice 07 08 09 10 11 14 20 23 26 32 38 42 51 52 53 54 55 56 57 58 59 60 Sumário 4 Leitura e Produção de Textos A08 O mais difícil hoje não é encontrar as informações, temos informações aos borbotões, por todos os lados, nas bancas de jornal, na televisão, na internet. O difícil mesmo é selecionar as informações relevantes, é identifi car aquilo que é mais plausível, mais adequado, mais correto. Bem, fazer uma seleção requer não só uma boa base de conhecimentos, mas a capacidade de fazer uma leitura rápida e crítica que nos permita identifi car, em breves palavras, o conteúdo de um determinado texto. Sumarizar para quê? Sumarizar é um instrumento útil na elaboração de textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica, pois esse procedimento ajuda a fi xar o conhecimento adquirido através da leitura e auxilia na elaboração dos próprios textos. Quando se fala de sumarização, é necessário referir-se ao que se entende por um sumário. O que é um sumário, você sabe? No início de textos técnicos, científi cos e acadêmicos em geral sempre encontramos um sumário. Ele é mais ou menos assim: Figura 1 – Exemplo de sumário 5 Leitura e Produção de Textos A08 Ele se parece muito com um índice, não é mesmo? Qual seria a diferença entre ambos? Segundo a norma NBR 14724, da ABNT: Sumário é uma “enumeração das divisões, seções e outras partes de uma publicação, na mesma ordem e grafi a em que a matéria nele se sucede.” Índice é uma “lista de palavras ou frases, ordenadas segundo um critério predefi nido, que localiza e remete para as informações contidas no texto.” Assim é possível encontrar diferentes tipos de índices – índice de assuntos, índice de autores, entre outros. Os sumários, portanto, costumam vir no início dos livros e trabalhos técnicos, científi cos e acadêmicos, enquanto o índice sempre virá no fi nal. O sumário também costuma ser organizado na mesma ordem da divisão dos textos, demonstrando, para quem vai ler os principais tópicos e subtópicos do texto, a página em que eles se encontram. Os índices, por sua vez, se organizam de diferentes formas. A palavra “índice” signifi ca lista de identifi cadores que indicam onde as informações se encontram. Desta forma, pode ser o índice de obras de uma biblioteca; o índice de livros de uma coleção; o índice de um livro. O “index” da igreja Católica era o índice de obras cuja impressão ela permitia ou proibia, funcionava como uma censura e era, muitas vezes, instrumento no processo inquisitório contra as pessoas. O índice normalmente fi ca no fi nal. Um bom exemplo de índice é o “remissivo”, em que são listados assuntos ou tópicos que apontam para capítulos ou parágrafos do texto; pode ser, inclusive, analítico, ou seja, bem detalhado, contendo o apontamento de onde se encontra cada detalhamento nas páginas, títulos, parágrafos etc. Normalmente, os índices são organizados em ordem alfabética e também trazem a referência das páginas em que são encontrados os assuntos, por isso alguns o chamam de “índice alfabético”. Mas, embora um sumário não deixe de ser um resumo daquilo que o texto contém, organizado por seus tópicos, não é sobre esse tipo de sumário que vamos tratar nesta aula. Mas sobre o processo de sumarizar. Ou seja, sobre o processo de transformar em poucas palavras aquilo que é bem mais extenso. Por sua utilidade e frequência, fala-se muito em automatizar o processo de sumarização. Mas não há automação ou técnica efi ciente que substitua a necessidade de ler e compreender aquilo que lemos. No campo da sumarização humana, por exemplo, encontramos vários tipos de sumários: resenhas de notícias jornalísticas, sinopses do movimento da bolsa Exemplo 1 Exemplo 2 6 Leitura e Produção de Textos A08 de valores, sumários de novelas, extratos de livros científi cos, resumos de previsões meteorológicas etc. Cada um desses tipos envolve pressuposições e características diversas, assim como conteúdos e correspondência com suas variadas fontes. Observe o exemplo a seguir: Polícia ainda não tem pistas sobre crime na Serra de Martins Fonte: <http://tribunadonorte.com.br/>. Acesso em: 21 jul. 2008. É muito fácil identifi carmos que o exemplo 1 apresenta o título de uma notícia, não é mesmo? A partir desse título é possível pressupor o conteúdo do texto? Vejamos: sabemos, a partir da leitura do título, que houve um crime na Serra de Martins. Se houve um crime, há, obviamente, um criminoso e uma investigação policial. Pelo título da notícia já sabemos que a polícia, que investiga o crime, ainda não tem pistas sobre ele, o que nos leva a supor que a polícia não deve saber ao certo, portanto, quem o cometeu ou como ele foi cometido. Bem, deu para notar, pelo exemplo 1, portanto, que um título deve indicar ao leitor o conteúdo daquilo que ele irá ler. Mas você pode se perguntar, agora: “Se já sabemos do conteúdo pelo título, para que ler o texto?” Ora, uma resposta possível é: lemos para saber os detalhes: de que tipo de crime se trata? Foi um assalto, um assassinato, um arrombamento, o quê? Quando aconteceu? Faz muito tempo, pouco tempo? Em que circunstâncias esse crime aconteceu? Quem são os personagens envolvidos nessa história? Enfi m, lemos para conhecer detalhes que um título não nos pode dar. Agora, observe o exemplo 2, a seguir: Vidas sem Rumo Fonte: <http://tribunadonorte.com.br/>. Acesso em: 21 jul. 2008. O que nos indica o título acima? É um título bem abrangente, não é mesmo? Pode ser o título de um romance romântico, de um fi lme dramático, de uma notícia sobre os menores abandonados, enfi m, pode ser sobre inúmeros assuntos. Nesse caso, o título Exemplo 3 7 Leitura e Produção de Textos A08 funciona muito mais como um atrativo, chamando a atenção do leitor que, levado pela curiosidade, lerá o texto para descobrir que vidas são essas que estão sem rumo. No caso desse texto em particular sabe do que se trata? Veja um pouquinho: O título do comentário que abre a coluna deste domingo é facilmente identifi cável: fui buscá-lo no best seller da escritora S. E. Hinton, transformado em filme por Francis Ford Copolla. Com algumas variações, retrata o drama dos nossos craques dos anos 50 a 70, a grande maioria alcançando o tempo de parar com a bola, mas sem lenço e sem documento, como no sucesso de Caetano Veloso. Nesta mesma edição da TN tem matéria que fi z sobre a vida de um jogador falecido no começo desta semana, aos 68 anos. Chamava-se José Ireno, craque, exageradamente simples, introvertido, sem qualquer plano para um futuro absolutamente previsível. Parou aos 33 anos, sem ter pra onde ir, sem qualquer qualifi cação profi ssional. Como gostava da bebida, se instalou num pequeno boteco exatamente para vender bebida e tira gosto. Fonte: <http://tribunadonorte.com.br/coluna/2003/data/20-7-2008>. Acesso: 21 jul. 2008. Você poderia imaginar, pelo título, que se tratava de um texto sobre craques do futebol? Eu acho que não... É possível encontrar inúmeras variações da qualidade de títulos de textos jornalísticos apenas investigando os jornais de um mesmo dia. E esse tipo de variação é mesmo muito comum na elaboração de sumarizações de qualquer natureza. Vale notar, no entanto, que ambas as formas podem ser associadas. Ambos os exemplos de sumários, neste caso, apresentam ainda uma característica bastante peculiar: podem e devem sumarizar seus correspondentes textos, seja de forma direta (exemplo 1) ou indireta (exemplo 2). Com esses exemplos, referimo-nos a uma característica importante na sumarização humana: a variação de conteúdo informativo pressupõe uma multiplicidade sentencial ou estrutural dos sumários e, portanto, a possibilidade de se produzir mais de um sumário para um mesmo texto. O importante é notar que: 2Praticando... 8 Leitura e Produção de Textos A08 Sumários: remetem, necessariamente, a eventos ou textos originários; devem ser construídos tendo em mente que não pode haver perda do signifi cado original, muito embora contenham menos informações e possam apresentar diferentes estruturas, em relação a suas fontes. 1. Qual a diferença entre sumário e índice? 2. Pesquise, em livros de várias naturezas, alguns exemplos de índice. Por exemplo, índices de conteúdo, índices remissivos, índices de autores... Observe como eles foram elaborados e identifi que a diferença entre eles. O processo de sumarização O mais importante para sumarizar um texto é conseguir reconhecer o que é relevante e o que pode ser descartado nesse texto. Mas esse também é o maior problema, pois a importância do conteúdo de um texto pode depender de fatores como: a) os objetivos do autor; b) os objetivos ou interesses de seus possíveis leitores; c) a importância relativa (e subjetiva) que o próprio autor (ou leitor) atribui às informações textuais. Assim sendo, analisar o conteúdo de um texto é uma das atividades mais importantes no processo de elaboração de um resumo desse texto. É possível, por exemplo, seguir a forma como o assunto foi abordado pelos autores do texto, estabelecendo, no resumo, a mesma sequência de ideias. 9 Leitura e Produção de Textos A08 Finalmente, antes da sumarização propriamente dita, faz–se necessário investigar a estrutura do discurso do texto original. E isso pode ser feito observando a rede de relações entre as sequências do texto. Para fazer isso é preciso que quem elabora o sumário possua: a) um bom domínio do assunto específi co, de forma a conseguir abstrair ou generalizar as informações que ele lê; b) um conhecimento prévio sobre aquele assunto. Para isso, é fundamental que se leia o texto mais de uma vez. Na primeira leitura, observamos o conteúdo geral e a estrutura do texto. Na segunda leitura, somos mais capazes de perceber, de forma analítica: o plano geral da obra ou a ideia central do autor; o propósito que norteou o autor; as partes principais em que se estrutura o texto; a ordem em que as diferentes partes do texto se organizam. A partir da observação desses aspectos já somos capazes de elaborar um bom resumo. O resumo tem por objetivo apresentar com fi delidade ideias ou fatos essenciais contidos num texto. Sua elaboração é bastante complexa, já que envolve habilidades como leitura competente, análise detalhada das ideias do autor, discriminação e hierarquização dessas ideias e redação clara e objetiva do texto fi nal. Em contrapartida, dominar a técnica de fazer resumos é de grande utilidade para qualquer atividade intelectual que envolva seleção e apresentação de fatos, processos, ideias etc. Resumos são, igualmente, ferramentas úteis ao estudo e à memorização de textos escritos. Além disso, textos falados também são passíveis de resumir. Anotações de ideias signifi cativas ouvidas no decorrer de uma palestra, por exemplo, podem vir a constituir uma versão resumida de um texto oral. 3Praticando... 10 Leitura e Produção de Textos A08 1. Quais são os fatores determinantes para a elaboração do resumo de um texto? 2. Precisamos de, no mínimo, quantas leituras para a elaboração de um bom resumo? 3. Para que podem ser úteis os resumos? Formas de resumo O resumo pode se apresentar de várias formas, conforme o objetivo a que se destina. No sentido estrito, padrão, o resumo deve reproduzir as opiniões do autor do texto original, a ordem como essas ideias são apresentadas e as articulações lógicas do texto, sem emitir comentários ou juízos de valor. Dito de outro modo, trata-se de reduzir o texto a uma fração da extensão original, mantendo sua estrutura e seus pontos essenciais. Quando não há a exigência de um resumo formal, o texto pode igualmente ser sintetizado de forma mais livre, com variantes na estrutura. Uma maneira é iniciar com expressões como: “No texto..., de..., publicado em..., o autor apresenta/discute/analisa/critica/ questiona... tal tema, posicionando-se...”. Essas expressões têm a vantagem de dar ao leitor uma visão prévia e geral, orientando assim, a compreensão do que segue. Esse tipo de resumo pode, se for pertinente, vir acompanhado de comentários e julgamentos sobre a posição do autor do texto e até sobre o tema desenvolvido. Em qualquer tipo de resumo, entretanto, dois cuidados são indispensáveis: buscar a essência do texto e manter-se fi el às ideias do autor. Copiar partes do texto e fazer uma “colagem”, sob a alegação de buscar fi delidade às ideias do autor não é permitido, pois o resumo deve ser o resultado de um processo de “fi ltragem”, uma (re)elaboração de quem resume. Se for conveniente utilizar excertos do original (para reforçar algum ponto de vista, por exemplo), esses devem ser breves e estar identifi cados (autor e página), ou seja, devem ser feitos em forma de citação. Uma sequência de passos efi ciente para fazer um bom resumo é a seguinte: Exemplo 4 11 Leitura e Produção de Textos A08 1. Ler atentamente o texto a ser resumido, assinalando nele as ideias que forem parecendo signifi cativas à primeira leitura. 2. Identifi car o gênero a que pertence o texto (uma narrativa, um texto opinativo, uma receita, um discurso político, um relato cômico, um diálogo etc.). 3. Identifi car a ideia principal. 4. Identifi car a organização – articulações e movimento – do texto (o modo como as ideias secundárias se ligam logicamente à principal). 5. Identifi car as ideias secundárias e agrupá-las em subconjuntos (por exemplo: segundo sua ligação com a principal, quando houver diferentes níveis de importância; segundo pontos em comum, quando se perceberem subtemas). 6. Identifi car os principais recursos utilizados pelo(s) autor(es) do texto (exemplos, comparações e outras vozes que ajudam a entender o texto, mas essas comparações e comentários não devem constar no resumo formal, apenas no livre, quando necessário). 7. Esquematizar, quando o texto for mais complexo, o resultado desse processamento. 8. Redigir o texto. O coração da empresa Tom Coelho “Se fôssemos bons em tudo não necessitaríamos de trabalhar em equipe”. (Gisela Kassoy) É comum qualifi carmos as empresas como “organismos vivos”. E, sob esta óptica, comparar o seu funcionamento ao do corpo humano. Evidentemente, alguns resumos são mais fáceis de fazer do que outros, dependendo especialmente da organização e da extensão do texto original. Assim, um texto não muito longo e cuja estrutura seja perceptível à primeira leitura, apresentará poucas difi culdades a quem resume. De todo modo, quem domina a técnica – e esse domínio só se adquire na prática – não encontrará obstáculos na tarefa de resumir, qualquer que seja o tipo de texto. 12 Leitura e Produção de Textos A08 A nossa “máquina”, projectada e esculpida por Deus, apresenta uma série de funções intimamente relacionadas. Do sistema digestivo ao excretor, passando pelo respiratório e reprodutor, a saúde do corpo depende de um equilíbrio dinâmico orquestrado por um órgão fundamental: o coração. Quando ele pára, o corpo padece e desfalece. No mundo empresarial acontece o mesmo. Os organogramas indicam-nos a existência de uma série de departamentos. Assim, o departamento de Fornecimentos adquire matéria-prima que será processada pela Produção, colocada no mercado pelo Marketing, tudo fi nanciado pelo departamento de Finanças, com apoio do departamento Jurídico e da Contabilidade. A Informática sistematiza tudo e em todos estes sectores há pessoas assistidas pelos Recursos Humanos. Mas, qual destes equivale ao coração da empresa? Uma empresa pode ter um excelente sistema de compras, obtendo suprimentos de inquestionável qualidade, junto de conceituados fornecedores, pelos preços mais baixos e com os melhores prazos. Pode apresentar um sistema de produção perfeitamente afi nado, desde a recepção da matéria-prima até a expedição do produto acabado, com certifi cação, entrega pontual e assistência técnica permanente. Pode ter estratégias de marketing muito bem planifi cadas, com identidade visual, pesquisas de prospecção de clientes e desenvolvimento de produtos, DBM, CRM, SAC e uma série de outras siglas. Pode contar com um economista criterioso na concessão de crédito, enérgico na cobrança, responsável na aplicação de recursos, dotado de capital próprio e com acesso a diversas linhas de fi nanciamento. Pode dispor de um corpo jurídico preventivo e contencioso, um controle efi ciente na gestão tributária e um sistema de informações capaz de interligar todas as áreas da empresa, possibilitando agilidade na tomada de decisões. Pode ter uma equipa integrada e sinérgica, alinhada com os valores da empresa, com políticas de remuneração variável, incentivo, treino e avaliação por competências, entre outras. Todavia, mesmo todos estes recursos e infra-estruturas não são sufi cientes para fazer uma empresa prosperar. E isto porque o coração de uma empresa é representado pelo departamento de Vendas. É lamentável que tantos empresários não se apercebam disso! Ao longo da minha trajectória profissional, vi empresas saudáveis descapitalizarem-se, empresas tradicionais sucumbirem. E, não raramente, porque deixaram de procurar o oxigênio para a sua durabilidade, através dos 13 Leitura e Produção de Textos A08 seus profi ssionais de vendas. Apenas um departamento comercial forte, com profi ssionais qualifi cados, conhecedores dos seus clientes e produtos, adequadamente remunerados e incentivados, é capaz de promover o crescimento sustentado de uma empresa. As vendas são o órgão vital de uma empresa. É o que a impede de morrer. Embora não seja o único... (COELHO, 2008, extraído da Internet, grifos nossos). Observe os termos e expressões destacados no texto do exemplo 4. Eles foram destacados após uma primeira leitura geral, em que identifi quei tema, autoria e conteúdo geral do texto. Numa segunda leitura tentei identifi car os elementos mais importantes de cada parágrafo e os coloquei em destaque. A partir desses elementos é possível elaborar um esquema do texto como o exemplo que segue: Exemplo 5 O coração da empresa Ideia central: Empresas = organismos vivos Argumentos: Um corpo vivo tem vários sistemas (digestivo, respiratório etc.) mantidos em equilíbrio dinâmico por um órgão: o coração. 1. No mundo empresarial os organogramas demonstram que as empresas assemelham-se a um organismo vivo. 2. Qual seria o coração da empresa? 3. Uma empresa tem vários sistemas (de compras, de produção, de marketing, de economia, jurídico e de gestão) que necessitam de uma equipe dinâmica integrada. 4. Mas todos esses sistemas não são sufi cientes para a saúde da empresa se ela não apresentar um bom departamento de vendas. 5. A trajetória profi ssional do autor indica que as empresas falecem se não investem em um departamento comercial forte. Conclusão: as vendas são o coração de uma empresa. Exemplo 6 Praticando... 4Praticando... 14 Leitura e Produção de Textos A08 Muito bem, a partir do esquema acima, é possível elaborar o resumo do texto. Vamos a ele? Observe o exemplo a seguir: O artigo de opinião escrito por Tom Coelho associa uma empresa a um organismo vivo. Para ele, da mesma forma que um organismo é dotado de vários sistemas que o mantêm em equilíbrio, uma empresa precisa de vários departamentos trabalhando coordenadamente para manter- se saudável. Assim, como em um organismo vivo, em que os vários sistemas são coordenados pelo coração, uma empresa também tem um órgão capaz de fazê-la prosperar, se for forte, ou fazê-la perecer, se não obtiver bastante investimento. O coração de uma empresa, conclui o autor, baseado em sua ampla experiência profi ssional, é o departamento de vendas. Esse departamento precisa ser bem articulado dentro da empresa para fazê-la prosperar. 1. Vamos praticar sua capacidade de sumarização? Leia o texto a seguir e elabore um resumo. Siga os passos indicados na aula. Espécies que desafi am os séculos Vanessa Vieira e Roberta de Abreu Lima Uma das grandes ambições do ser humano é encontrar meios de prolongar a vida. Não é à toa que o mito da imortalidade, em matizes diversos, permeia todas as religiões. A aspiração à vida longa aguça-se ainda mais diante da constatação de que várias espécies, da fl ora e da fauna, são capazes de viver por vários séculos. A descoberta de um grupo de cientistas da Universidade de Bangor, do País de Gales, divulgada na semana passada, pode trazer novas pistas para explicar os segredos da longevidade. Eles encontraram no fundo do Atlântico Norte, próximo à costa da Islândia, o animal mais velho de que se tem notícia: uma concha do tipo Quahog, com mais de 400 anos. A idade do molusco foi determinada com base na contagem dos anéis de crescimento 15 Leitura e Produção de Textos A08 que se formam na concha periodicamente. Para se ter uma idéia de quanto o molusco viveu, basta pensar que, quando ele veio ao mundo, William Shakespeare escrevia suas obras mais famosas, como Otelo e Macbeth, e o Brasil havia sido descoberto apenas 100 anos antes. Afi nal, por que existe uma diferença tão grande entre o tempo de vida das espécies? Porque cada uma envelhece a um ritmo próprio. O envelhecimento, segundo a consagrada teoria do pesquisador Leonard Hayfl ick, elaborada nos anos 60, é um conjunto de processos mecânicos que acontecem dentro e ao redor das células. Um ser vivo permanece saudável enquanto suas células têm o poder de se dividir e, assim, se renovar. A quantidade de vezes que as células podem se dividir é programada geneticamente. Mesmo que um dia a medicina seja capaz de curar todos os males que acometem os seres humanos na velhice, difi cilmente alguém conseguiria passar dos 120 anos – esse é considerado o limite biológico de nossa longevidade. Além da infl uência do fator genético, a longevidade de cada espécie também está relacionada à intensidade com que ela se alimenta e gasta sua energia. Quanto mais intenso o metabolismo de um ser vivo, mais curta tende a ser sua vida. Para bater as asas a um ritmo de até noventa vezes por segundo, o beija-fl or precisa consumir mais de 6.000 calorias por dia, o equivalente a oito vezes o peso do seu corpo. Tanta atividade tem um preço. Algumas espécies de beija-fl or vivem, em média, dois anos, contra vinte de um canário e até oitenta de um papagaio. Já a gigantesca baleia fi n pode viver cerca de 100 anos porque, proporcionalmente, não gasta tantas calorias. “As reações químicas por meio das quais o organismo sintetiza energia também produzem radicais livres, que provocam a oxidação celular e, por conseqüência, o envelhecimento do corpo”, explica o biólogo Carlos Navas, da Universidade de São Paulo. Os seres mais primitivos, unicelulares, não envelhecem. Desde que não sofram a interferência de fatores externos, como a falta de alimento, a desidratação ou a ação de predadores, podem viver indefi nidamente. Essa característica assegura a sobrevivência de seus genes. Com a evolução e o surgimento dos seres pluricelulares, a transmissão dos genes começou a ser feita por meio da reprodução sexuada. A partir daí, os seres vivos passaram a envelhecer. No estágio atual da evolução, o organismo dos animais só se preserva saudável até o período em que eles são capazes de se reproduzir. Depois disso, suas células começam a perder a capacidade de renovação. No reino vegetal, a capacidade de renovação das células pode se estender por milhares de anos. Na região de Sierra Nevada, na Califórnia, o pinheiro batizado de Matusalém tem quase 5.000 anos de idade. No Brasil, o jequitibá-rosa do Parque Estadual de Vassununga, no estado de São Paulo, já passou dos 3.000 anos. Quando Jesus Cristo veio ao mundo, o jequitibá já era um velho senhor. Enquanto a ciência não descobre como o ser humano pode cruzar a barreira dos 120 anos, o jeito é cuidar bem da saúde. ( Veja, 7 nov. 2007). Exemplo 7 16 Leitura e Produção de Textos A08 Tipos de resumo Formalmente, os livros de metodologia científi ca admitem a existência de três tipos de resumo. Vamos organizá-los aqui em ordem de difi culdade, do mais fácil para o mais difícil. Indicativo ou descritivo Esse tipo de resumo faz referência às partes mais importantes do texto. Ao escrevê-lo você não deve entrar em detalhes como exemplos, dados qualitativos ou quantitativos. Para elaborá-lo, você deve utilizar frases curtas, cada uma correspondendo a um elemento importante do texto a ser apresentado. Esse resumo não dispensa a releitura do texto, pois apenas descreve a sua natureza, forma e propósito. Um bom exemplo desse tipo de resumo são as sinopses de fi lmes e livros que são publicadas em revistas de grande circulação nacional ou em sites de divulgação na internet. Observe o exemplo a seguir. “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick (1971) A Clockwork Orange é um dos clássicos de Stanley Kubrick, produzido em 1971. Foi baseado no romance distópico homônimo de Anthony Burgess, cuja primeira edição é de 1962. Na Londres de um futuro não muito distante, o jovem Alex De Large (interpretado por Malcolm McDowell) e seus amigos (ou drugues, na linguagem Nadsat, criada por Burguess), Pete, Georgie e Dim, espancam um velho mendigo, enfrentam uma gang rival, provocam acidentes 17 Leitura e Produção de Textos A08 na estrada, assaltam e estupram casa de família. Certo dia, ao assaltar a mansão de uma criadora de gatos, Alex é traído pelos seus amigos e é capturado pela polícia. Acusado da morte de sua vítima de assalto, é condenado a 14 anos de prisão. Entretanto, na penitenciária, ele se oferece para ser cobaia do Tratamento Ludovico, que busca regenerar criminosos comuns através da eliminação do refl exo criminal. A Técnica Ludovico manipula o cérebro utilizando drogas e vídeos. Um dos temas candentes de Laranja Mecânica é o problema da ressocialização penal, ou seja, o que fazer com a crescente população prisional nas sociedades tardias do capital. É um tema de atualidade premente nos países capitalistas centrais ou periféricos, com o crescente contingente de jovens desempregados e imersos em profunda crise fi scal. Naquela época, de prenúncio da crise do fordismo-keynesiano, o problema da juventude marginal já se tornava motivo de preocupação dos governos (a questão de classe social é importante: o jovem Alex, que adora sexo, violência e Beethoven, é fi lho único de uma família de trabalhadores ingleses). Ao abordar, em 1962 (e em 1971, no caso de Kubrick), a utilização de técnicas neurais para o controle social, Burgess e Kubrick demonstram sua genialidade, antecipando o que é vigente em nossos dias: o uso abusivo das drogas para a adaptação social. Na verdade, por trás da Técnica Ludovico está um dos temas marcantes da fi lmografi a de Kubrick: a discussão da identidade do homem em tempos de agudo estranhamento e de fetichismo da mercadoria. A Clockwork Orange pode nos indicar as formas expressivas de estranhamento vigentes no capitalismo manipulatório. (2005) Fonte: <http://www.telacritica.org/letraL.htm#laranja>. Acesso em: 4 ago. 2008. Observe que, no caso da sinopse exposta no exemplo 7, ela apresenta um fi lme para o leitor. Sua função é indicar o conteúdo e alguns temas apresentados ao longo do fi lme e o enredo, em linhas gerais, mas a sinopse não substitui a leitura do fi lme, o que ela pode é gerar ou não interesse em seu leitor. Informativo ou analítico Quando contém todas as informações principais apresentadas no texto e permite dispensar a leitura desse último; portanto, é mais amplo do que o anterior. Tem a fi nalidade de informar o conteúdo e as principais ideias do autor, salientando: Exemplo 8 18 Leitura e Produção de Textos A08 os objetivos e o assunto; os métodos e as técnicas que ele utilizou; os resultados e as conclusões a que ele chegou. Esse é, por exemplo, o tipo de resumo utilizado antes de trabalhos de natureza técnica, acadêmica e científi ca. Através dele o estudante ou o pesquisador que busca um tema específi co, pode analisar se o texto precedido por aquele resumo pode ou não ser útil para a elaboração de sua própria pesquisa, o que, em muitos casos, evita a leitura do texto completo. Resumo Este trabalho focaliza o modelo de letramento construído nas atividades de uso da leitura em aulas de Espanhol como Língua Estrangeira, baseando-se na compreensão de que em toda sala de aula, professores e alunos estão construindo modelos particulares de letramento e compreensões particulares do que está envolvido na aprendizagem sobre como ser letrado. Este estudo analisa a interação em eventos de leitura de uma sala de aula da 6ª série do Ensino Fundamental e discute o que conta como ações letradas neste grupo específi co. Os resultados revelam que nesta sala de aula a leitura não é vista como um evento social e os alunos estão engajados em ações letradas que não envolvem a negociação na construção do signifi cado. Palavras-chave: letramento; interação; leitura; ensino-aprendizagem de E/LE. (ROLA, 2006, p. 57). Observe que o resumo exposto no exemplo 8 apresenta alguns elementos específi cos. Não possui recuo de parágrafo, por exemplo. Além disso, apresenta o tema do trabalho (análise da interação em eventos de leitura de uma sala de aula da 6ª série do Ensino Fundamental), apresenta a base teórica a partir dos conceitos utilizados (letramento, Espanhol como Língua Estrangeira, interação); indica os resultados que foram alcançados pelo pesquisador (na sala de aula estudada a leitura não é vista como um evento social e os alunos estão engajados em ações letradas que não envolvem a negociação na construção do signifi cado). Esses elementos são imprescindíveis nesse tipo de resumo e são orientados pela ABNT. Exemplo 9 Resenha 19 Leitura e Produção de Textos A08 Crítico Quando se formula um julgamento sobre o trabalho. Esse resumo não costuma ter informações agregadas. Há autores que o comparam a uma resenha, mas ela apresenta, por exemplo, a possibilidade de citações não só do autor do texto resumido, mas de outros autores com os quais você, que está resumindo o texto, acredita que este possa relacionar-se. Esse é, provavelmente, o tipo de resumo mais pedido, por exemplo, quando se está fazendo um curso de graduação ou pós-graduação, pois ele avalia, de forma mais técnica, a qualidade de um determinado texto. Quando um resumo crítico tem o objetivo de ser publicado em uma revista de caráter técnico, científi co ou acadêmico, geralmente é chamado de resenha. Por conta disso, os professores costumam chamar de resenha o resumo crítico elaborado pelos estudantes como exercício didático. A rigor, você só escreverá uma resenha no dia em que seu resumo crítico for publicado em uma revista. Até lá, o que você faz é um resumo crítico. São Paulo metrópole. A arquitetura e seus habitantes Fernanda Fernandes Inicialmente proposta como dissertação de mestrado, Arquitetura metropolitana, de Denise Xavier, ganha agora formato de livro, tornando- se acessível a um número maior de leitores e não apenas aos que já se encontraram com seu conteúdo nos exemplares bastante manuseados de nossas bibliotecas, a indicar o interesse dessas páginas. A apresentação, feita pelo professor Carlos Martins, é passagem imperdível, pois esclarece a dimensão acadêmica do trabalho e, ao mesmo tempo, sugere desdobramentos de leitura. E essa leitura tem como eixo a análise de quatro edifícios da São Paulo de 1950. Eles constituem o mote da narrativa e o texto fl uente da autora nos oferece a possibilidade de refl etir, por essa via, sobre o papel da arquitetura na ordenação dos centros urbanos e na vida coletiva, que é a forma de sociabilidade das cidades. A autora analisa com rigor os quatro edifícios escolhidos como principal objeto de estudo: o edifício do jornal O Estado de S. Paulo, os edifícios Itália e Copan e o Conjunto Nacional são apresentados como os protagonistas da cidade que se faz metrópole, para tanto exigindo novos equipamentos e estimulando mudanças no modo de vida e nas relações sociais dos habitantes. Você estudará resenha em nossa próxima aula. 20 Leitura e Produção de Textos A08 Embora analisados separadamente, os quatro projetos estabelecem vínculos entre si. Todos se caracterizam pelo uso misto e dialogam com a situação metropolitana, propondo espaços voltados para a vida coletiva. Dois deles nascem do traço de um mesmo arquiteto, dois são obra de um único empreendedor, outros dois se situam em esquinas, três são planejados para uso também hoteleiro – ainda que apenas um deles alcance esse objetivo – e, por fi m, todos aspiram a ter seu nível térreo compartilhado pela cidade e seus habitantes, desejo concretizado com êxito. [...] Fonte: <http://www.vitruvius.com.br/resenhas/textos/resenha207.asp>. Acesso em: 4 ago. 2008. Nesta aula, estudamos a diferença entre índice e sumário. Depois, vimos como sumarizar, que é o processo de identifi cação das principais ideias do texto, fundamental para a realização de resumos. Além disso, estudamos quais são os principais tipos de resumos formais exigidos do estudante: o indicativo, o informativo e o crítico. O fragmento de texto apresentado no exemplo 9 é oriundo de uma resenha. Observe que é um resumo bem detalhado que não apenas indica ou informa as partes do conteúdo do texto a ser apresentado, mas analisa e critica o próprio desenvolvimento do conteúdo explorado pelo autor do texto original. O autor desse tipo de texto precisa não só ler mais de uma vez o texto a ser resumido, mas conhecer bem o assunto sobre o qual ele trata. Bem, agora você já conhece os vários tipos de resumo e pode treinar, não é mesmo? Que tal começar escolhendo um texto curto, de uma revista que seja de seu interesse e elaborando um bom resumo? Procure seguir as orientações que demos ao longo da aula! Mas não pare por aí, passe a aplicar esses conhecimentos adquiridos em seu dia a dia de estudante! Leitura complementar MACHADO, A. R. (Coord.). Resumo. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. O livro de Machado é extremamente interessante para quem estuda sozinho, caso da maioria dos estudantes de EaD, não é mesmo? Nele você encontra vários exemplos de sumarização, de textos mais simples aos mais complexos e aprende a fazer resumos. Autoavaliação 21 Leitura e Produção de Textos A08 1. Elabore um resumo informativo do texto a seguir. Utilize todos os passos que você aprendeu ao longo da aula. Você está despedido! Você é diretor de uma indústria de geladeiras. O mercado vai de vento em popa e a diretoria decidiu duplicar o tamanho da fábrica. No meio da construção, os economistas americanos prevêem uma recessão, com grande alarde na imprensa. A diretoria da empresa, já com um fl uxo de caixa apertado, decide, pelo sim, pelo não, economizar 20 milhões de dólares. Sua missão é determinar onde e como realizar esse corte nas despesas. Esse é o resumo de um dos muitos estudos de caso que tive para resolver no mestrado de administração, que me marcou e merece ser relatado. O professor chamou um colega ao lado para começar a discussão. O primeiro tem sempre a obrigação de trazer à tona as questões mais relevantes, apontar as variáveis críticas, separar o joio do trigo e apresentar um início de solução. “Antes de mais nada, eu mandaria embora 620 funcionários não essenciais, economizando 12 200 000 dólares. Postergaria, por seis meses, os gastos com propaganda, porque nossa marca é muito forte. Cancelaria nossos programas de treinamento por um ano, já que estaremos em compasso de espera. Finalmente, cortaria 95% de nossos projetos sociais, afi nal nossa sobrevivência vem em primeiro lugar”. É exatamente isso que as empresas brasileiras estão fazendo neste momento, muitas até premiadas por sua “responsabilidade social”. Terminada a exposição, o professor se dirigiu ao meu colega e disse: – Levante-se e saia da sala. – Desculpe, professor, eu não entendi – disse John, meio afl ito. – Eu disse para sair desta sala e nunca mais voltar. Eu disse: PARA FORA! Nunca mais ponha os pés aqui em Harvard. Ficamos todos boquiabertos e com os cabelos em pé. 22 Leitura e Produção de Textos A08 Nem um suspiro. Meu colega começou a soluçar e, cabisbaixo, se preparou para deixar a sala. O silêncio era sepulcral. Quando estava prestes a sair, o professor fez seu último comentário: – Agora vocês sabem o que é ser despedido. Ser despedido sem mostrar nenhuma defi ciência ou incompetência, mas simplesmente porque um bando de prima-donas em Washington meteu medo em todo mundo. Nunca mais na vida despeçam funcionários como primeira opção. Despedir gente é sempre a última alternativa. Aquela aula foi uma lição e tanto. É fácil despedir 620 funcionários como se fossem simples linhas de uma planilha eletrônica, sem ter de olhar cara a cara para as pessoas demitidas. É fácil sair nos jornais prevendo o fi m da economia ou aumentar as taxas de juros para 25% quando não é você quem tem de despedir milhares de funcionários nem pagar pelas conseqüências. Economistas, pelo jeito, nunca chegam a estudar casos como esse nos cursos de política monetária. Se você decidiu reduzir seus gastos familiares “só para se garantir”, também estará despedindo pessoas e gerando uma recessão. Se todas as empresas e famílias cortarem seus gastos a cada previsão de crise, criaremos crises de fato, com mais desemprego e mais recessão. A solução para crises é reservas e poupança, poupança previamente acumulada. O correto é poupar e fazer reservas públicas e privadas, nos anos de vacas gordas para não ter de despedir pessoas nem reduzir gastos nos anos de vacas magras, conselho milenar. Poupar e fazer caixa no meio da crise é dar um tiro no pé. Demitir funcionários contratados a dedo, talentos do presente e do futuro, é suicídio. Se todos constituíssem reservas, inclusive o governo, ninguém precisaria fi car apavorado, e manteríamos o padrão de vida, sem cortar despesas. Se a crise for maior que as reservas, aí não terá jeito, a não ser apertar o cinto, sem esquecer aquela memorável lição: na hora de reduzir custos, os seres humanos vêm em último lugar. Fonte: Kanitz (2001, extraído da Internet). Anotações 23 Leitura e Produção de Textos A08 Referências ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 14724: informação e documentação: trabalhos acadêmicos. Rio de Janeiro, 2006. COELHO, Tom. O coração da empresa. 2008. Disponível em: <http://www.psicologia. com.pt/artigos/ver_opiniao.php?codigo=AOP0157&area=&subarea>. Acesso em: 5 fev. 2009. KANITZ, Stephen. Você está despedido! Revista Veja, ed. 1726, ano 34, n. 45, 14 nov. 2001. Disponível em: <http://www.kanitz.com/veja/outplacement.asp>. Acesso em: 4 ago. 2008. MARTINS, Camilla Brandel et al. Introdução à sumarização automática. Disponível em: <http://www.icmc.usp.br/~taspardo/RTDC00201-CMartinsEtAl.pdf>. Acesso em: 11 jul. 2008. PASQUARELLI, Maria Luiza Rigo. Normas para a apresentação de trabalhos acadêmicos: ABNT/NBR-14724, agosto, 2002. 2. ed. Osasco: EDIFIEO, 2004. RESENHA: organizando a informação: resumo crítico ou resenha. Disponível em: <http:// www.ucb.br/prg/comsocial/cceh/normas_organinfo_resumo_critico.htm>. Acesso em: 4 ago. 2008. RESUMOS. Disponível em: <http://www.pucrs.br/manualred/resumos.php>. Acesso: 11 jul. 2008. ROLA, Ana Paula Carneiro. O uso da leitura em aulas de espanhol como língua estrangeira. Linguagem e Ensino, v. 9,n. 2,p. 57 – 77, jul./dez. 2006. Anotações 24 Leitura e Produção de Textos A08 09 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Resenha LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A09 Considerações acerca da resenha como um dos gêneros técnicos, científi cos e acadêmicos. As aulas anteriores abordaram o fi chamento e o resumo e você vai ver que ambos serão úteis na elaboração de uma resenha, que pode ser um gênero um pouco mais complexo. Você conhecerá a estrutura ideal de uma resenha, verá que ela é um gênero que faz parte de seu dia a dia e terá acesso a orientações necessárias para elaborar uma. Compreender a resenha como um dos gêneros técnicos, científi cos e acadêmicos. Conhecer a estrutura prototípica de uma resenha, seus diferentes tipos e formatos e seus elementos básicos. Diva Cunha Intertextualidade 2 Leitura e Produção de Textos A09 Para começo de conversa... Sou todos os poetas que li com a devida ressalva eles não sou eu cadeira que ocupo enquanto escrevo (Diva Cunha – Canto de Página). O poema da poetisa potiguar fala de como o que ela escreve tem uma base naqueles autores que ela leu ao longo de sua vida, mas ela faz a ressalva, apesar de ser resultado de tudo o que ela leu, seus poemas não são iguais aos dos outros autores, são diferentes, são dela, é o ponto de vista dela sobre o mundo. Diva Cunha aborda aqui a questão da intertextualidade, que está ligada ao que vamos tratar nesta aula. Falaremos justamente de como os textos dialogam entre si e de como há textos que são elaborados, justamente, para comentar, criticar, indicar, discutir outros textos. Sobre resenhas O termo resenha é muito utilizado em algumas regiões do país para referir-se a “fofocas”, “novidades”, algo assim. Mas o seu uso técnico, científi co e acadêmico diz respeito a um gênero textual. Como tal, a resenha é um texto que tem a função de apresentar outro texto, o qual pode ser um livro, um fi lme, um cd etc. Você já deve ter lido resenhas ao folhear revistas ou jornais e, muitas vezes, ela pode ter sido a responsável por você ter escolhido assistir a um fi lme ou comprar um livro. O objetivo da resenha nesse tipo de veículo é servir de guia para o leitor na selva de textos que compõe a produção cultural diária e que tende a confundir até os mais familiarizados leitores. (1947) nasceu em Natal/RN e é professora aposentada de literatura da UFRN. Escreveu, entre outros livros: Dom Sebastião: a metáfora de uma espera (1970), sua dissertação de mestrado e os livros de poesia Canto de Página (1986), Coração de Lata (1996) e Armadilha de vidro (2004). pode ser defi nida como um “diálogo” entre textos. Esse diálogo pressupõe um universo cultural amplo e complexo, pois implica na identifi cação e no reconhecimento de remissões a obras ou a trechos mais ou menos conhecidos. Dependendo da situação, a intertextualidade tem funções diferentes que dependem dos textos/contextos em que ela é inserida. Mas sempre que um texto referir-se ou remeter a outro texto está-se diante, em maior ou menor grau, do fenômeno da intertextualidade. 3 Leitura e Produção de Textos A09 Nesse tipo de resenha mais livre, você encontra não só uma sinopse do que vai encontrar naquele texto que está sendo apresentado, mas algumas críticas que podem servir de direção geral para a sua compreensão do texto original. Assim, um bom resenhista, além de saber fazer um bom resumo, gênero que vimos na aula anterior, também deve saber expressar-se criticamente, equilibrando seu posicionamento crítico de forma elegante, isto quer dizer que não se deve elaborar uma resenha com o objetivo de, apenas, reclamar de um determinado texto que o resenhista achou ruim, é preciso ter bons argumentos, tanto para elogiar, quanto para reclamar do texto resenhado. Como um exercício de escrita, a resenha pode ser bem importante. Ela é útil como instrumento para o levantamento bibliográfi co ou para estabelecer prioridades de leitura, ou ainda para estabelecer a necessidade de fi char ou não o texto original. Além disso, propicia o desenvolvimento da mentalidade científi ca: da capacidade de síntese, de interpretação e de desempenho crítico. Elementos básicos de uma resenha Já vimos, em linhas gerais, como pode ser uma resenha e mais adiante veremos também que existem alguns tipos mais padronizados. Contudo, há alguns elementos básicos comuns a todos os tipos de resenha, a saber: 1Praticando... 4 Leitura e Produção de Textos A09 1. Identificação da obra: você deve colocar os dados bibliográficos essenciais do texto que você vai resenhar. 2. Apresentação da obra: a ideia é passar para o leitor, em poucas palavras, todo o conteúdo do texto resenhado. 3. Identifi cação do autor: na resenha você apresenta o autor da obra que foi resenhada (não do autor da resenha que, no caso, é você). Fale brevemente da vida e de algumas outras obras desse autor. 4. Descrição da estrutura: comente, se o texto resenhado for um livro, a divisão em capítulos; no caso de outros gêneros, se há diferentes seções, qual o foco narrativo ou mesmo, de forma sutil, o número de páginas do texto completo. 5. Descrição do conteúdo: resuma de forma clara, precisa e objetiva, o enredo, ou seja, o conteúdo do texto original. 6. Recomendação da obra: com base na apresentação geral da obra, feita até agora, recomende-a. Procure não se basear em uma mera opinião, analise, de forma bem clara, para quem aquele texto pode ser útil. Utilize critérios sociais ou pedagógicos, baseie-se na idade, na escolaridade, na renda etc. 7. Assine e identifi que-se: só agora, após o último parágrafo, você deve escrever seu nome e apresentar seu currículo breve, algo como: “João Maria Gaspar, aluno do segundo período do curso Atividades do Comércio”. Retome o conteúdo estudado, respondendo às questões a seguir: 1. O que é resenha? 2. Qual a intenção comunicativa desse gênero textual? 3. Quais são os elementos básicos de qualquer tipo de resenha? 5 Leitura e Produção de Textos A09 Tipos de resenha Sobre os tipos mais padronizados de resenha, a mais conhecida delas é a resenha acadêmica, que apresenta moldes bastante rígidos, responsáveis pela padronização dos textos científi cos e também se subdivide em três diferentes formatos: resenha crítica, resenha descritiva e resenha temática. Resenha crítica A resenha crítica, como o próprio nome já diz, apresenta um elemento a mais quanto ao conteúdo: um posicionamento crítico. Ao longo do texto você vai mostrar sua opinião acerca de sua qualidade e importância. É evidente que você não deverá demonstrar sua opinião apenas com base no que você acha. Argumente, baseando-se em teorias de outros autores, fazendo comparações ou até mesmo utilizando-se de explicações que foram dadas em aula. Enfi m, dê asas ao seu senso crítico. Justamente por causa desse aparato crítico, autores como Medeiros (2003, p. 158) advertem para o fato de que a resenha crítica é tarefa para professores e especialistas, pois exige: a) envolvimento com o assunto; b) conhecimento de obras similares para estabelecer comparação; c) maturidade intelectual, uma vez que implica avaliação e inevitável juízo de valor. A resenha crítica consiste em agregar, aos demais elementos de conteúdo apresentados no tópico anterior, os seguintes elementos: a) avaliar as informações contidas na obra e a forma de apresentação; b) justifi car a avaliação. Observe o texto a seguir, exposto no exemplo 1. Ele é bem didático, pois foi, originalmente, dividido em partes que demonstram a estrutura típica de uma resenha crítica. Exemplo 1 6 Leitura e Produção de Textos A09 Quotidiano e Poder REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA DIAS, Maria Odila da Silva. Quotidiano e poder em S. Paulo no século XIX: Ana Gertrudes de Jesus. São Paulo: Brasiliense, 1984. APRESENTAÇÃO DA AUTORA A autora Maria Odila Leite da Silva Dias possui graduação em História (1961), mestrado (1965) e doutorado em História Social (1972) pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora titular da Universidade de São Paulo e professora doutora contratada da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem experiência na área de História, com ênfase em História do Brasil Império, atuando principalmente nos seguintes temas: historiografi a, história social, história urbana, escravidão, relações de gênero e cultura. RESUMO O livro “Quotidiano e poder” é dividido em Introdução e sete capítulos; sendo que na introdução a autora aborda as explicações do seu objeto de estudo. Discorrendo de forma sucinta faz um apanhado geral da obra. Partindo do pressuposto de que a mulher sempre esteve à margem da história, relegadas ao campo do mítico, os historiadores muitas vezes a vêem como meras coadjuvantes, e não como algo importante dentro da história. A obra em foco busca pôr em evidência as relações femininas cotidianas na sociedade paulista do século XIX. Faz isso por meio da análise de fontes da época. Segundo a autora, para descobrir as riquezas das relações sociais femininas é necessário esmiuçar as informações, ler as entrelinhas do documento, fi ltrar aquilo que o documento não necessariamente se propôs a relatar. A história do cotidiano vem se revelando um campo profícuo de estudo historiográfi co. Através dele podemos perceber os inúmeros elementos que formam a sociedade e, por conseguinte a vida da mesma. 7 Leitura e Produção de Textos A09 O comércio voltado para a exportação, que com os seus lucros ou com sua produção pouco favorecia à cidade, contribuía para o inchaço da mesma. Inchaço esse que aumentava a pobreza e a mão-de-obra. As mulheres enquadravam-se dentro dessa realidade, assim como os demais elementos sociais sofriam com os problemas da época, especifi camente no caso do mercado de trabalho, sofriam em dobro, pois eram poucos os estabelecimentos em que poderiam trabalhar. Contudo “essas mulheres pobres, sós ou chefes de famílias” precisavam de uma forma de trabalho para conseguir o seu próprio sustento e dos seus dependentes. O trabalho autônomo temporário fora a solução encontrada; eram elas as quitandeiras, vendedoras de tabuleiros, lavadeiras, artesãs, entre outras profi ssões consideradas de âmbito feminino, por isso mesmo, desvalorizadas, desempenhadas à margem do trabalho patronal e assalariado. Esses trabalhos eram forjados na relação de vizinhanças; na conversa de porta de casa, nos velórios e nas visitas, eram espalhados e ganhavam maiores proporções. Essas ocupações eram um desdobramento do doméstico, pois tais afazeres principiavam como um trabalho interno e só posteriormente ganhavam espaço do público. Essas mulheres disseminaram suas atividades nas partes mais variadas do espaço urbano, concentrando-se muitas vezes em lugares considerados inadequados, tornando-se incômodas aos moradores e aos comerciantes locais, pois, segundo os documentos, elas atraíam pessoas, produziam barulho, e por venderem a preço abaixo do estabelecido provocavam perdas ao comércio. O processo que as gerou foi o mesmo que as expulsou para fora do centro, relegando a elas o setor periférico. No primeiro capítulo a autora discute o espaço reservado a essas mulheres pobres e a relação de Tolerância para com elas, buscando entender o porquê de algumas vezes poderem circular entre os diversos locais da cidade e possuírem certa autonomia para trabalhar e, em outras, serem repreendidas. Nesta mesma parte do texto podem-se perceber as inúmeras teias de relações desses sujeitos sociais: o compadrio, a amizade, a vizinhança, o concubinato, a proteção, tais relações que formavam uma rede de proteção em redor dessas desprovidas. A palavra falada era elemento essencial no cotidiano dessas mulheres, como já foi dito anteriormente, eram nos bate-papos que os negócios se 8 Leitura e Produção de Textos A09 engendravam, também era por meio da fala (ou grito) que as vendedoras anunciavam suas vendas, entre outras atividades. Assim como a fala, os gestos, os trejeitos próprios, são fontes com que o historiador não poderá contar, pois, esvaíram-se no tempo. Contudo as fontes escritas, se bem observadas, revelam parte desse passado perdido, como é o caso dos processos de prisões de mulheres acusadas de desordem, bagunça e difamação moral. Os ouvidos atentos poderão ouvir esses gritos, talvez não como realmente foram, mas, com alguma similitude com o original. A pouca documentação em relação ao modo de vida dessas mulheres deve-se ao fato da visão preconceituosa da época, suas atividades eram subestimadas, seus modos de vidas considerados devassos, as suas relações amorosas poucos duradoras aumentavam ainda mais este preconceito. Porém, através da escassa documentação, percebemos a intensidade dessas vidas e quanto elas eram ativas no seio da sociedade. Essas mulheres não eram partes de um único grupo, existia uma grande diversidade entre elas: mulheres brancas empobrecidas, moças brancas sem dotes, mulatas agregadas, negras escravas, negras forras, brancas agregadas. Mulheres que “viviam de suas agências”, e travavam batalha diária pela sobrevivência. Famílias matrilineares, tendo como chefe uma senhora já de idade avançada, mãe de homens e mulheres, sendo que estas tinham grande tendência a seguir os passos das mães. Dos seus relacionamentos amorosos poucos duradouros nasciam frutos, crianças que se tornam membros da família e partícipe da renda familiar. No capítulo seguinte, a autora aborda as formas utilizadas por essas mulheres para ludibriar a lei, seus meios de contornar as situações. As padeiras possuíam escravas ou agregadas que vendiam seus produtos nas ruas. Para que pudessem transitar livres havia a necessidade de pagar anualmente uma licença e ajustar os pesos e medidas, coisa que muitas vezes eram desrespeitadas, principalmente nos momentos de crises, quando as despesas aumentavam. São muitos os casos de problemas com a prisão de escravas por estarem vendendo nas ruas sem a licença devida. As resistências vinham em forma de não cumprimento do preço determinado, o não pagamento da licença, greves camufl adas, entre outros recursos. 9 Leitura e Produção de Textos A09 As quitandeiras e vendedoras ambulantes eram mulheres que possuíam meios de obter acesso aos alimentos de primeira necessidade, e revendiam esses alimentos na maioria das vezes abaixo do preço estabelecido, burlando as leis e com isso provocando a fúria dos donos de armazéns sobrecarregados de impostos. No capítulo denominado “o mito da dona ausente”, Maria Odila comenta a crença difundida no imaginário da época onde a mulher branca de sangue puro devia viver para o seu lar, sempre cercada por escravas, e que pouco precisava sair nas ruas e quando saísse, deveria procurar se expor o mínimo possível. Segundo a visão da época essas senhoras, exemplo de recato, contrastavam com as mulatas da terra que viviam exibindo sua sensualidade. Entretanto, há outras explicações para o relativo enclausuramento privado dessas senhoras, segundo a autora “sair de casa implicava elaborado ritual de palanquins, liteiras e redes lavradas...” Nos dois capítulos seguintes, há uma abordagem sobre quem eram essas mulheres: as brancas empobrecidas, envergonhadas do trabalho que precisavam realizar diariamente, vivendo em casa de aluguel sem poder ao menos manter a aparência de dama da sociedade, rechaçadas do ciclo social a que outrora pertenceram. Moças sem dotes, aceitando viver em concubinato. Escravas e forras vivendo do comércio clandestino, tendo como donas ou “patroas” senhoras brancas empobrecidas; mulatas vivendo do seu próprio negócio; escravas morando de aluguel, pago por sua dona; relação de prostituição para complementar a renda. Nos últimos capítulos, a autora reitera alguns pontos expostos na obra, como a família matrifocal, os agregados, a dependência dos fi lhos em relação às mães. E repassa novas informações; essas mulheres eram olhadas inúmeras vezes como bruxas, detentoras de poderes supra- humanos, principalmente aquelas que utilizavam a sabedoria popular para curar os males do corpo. ANÁLISE CRÍTICA No livro “Quotidiano e poder”, Maria Odila Leite da Silva Dias busca um novo enfoque para entender a sociedade paulista do século XIX. Demonstrando assim que há muitas histórias nas entrelinhas da história ofi cial, a qual tende a revelar e perpetuar a versão dos vencedores. O seu objeto de estudo “os papéis sociais das mulheres” revela minúcias muitas vezes despercebidas pelos historiadores do período, que aspiram abarcar o todo e tendem inevitavelmente para as generalizações, repetindo 10 Leitura e Produção de Textos A09 as “verdades prescritas” sem procurar de fato entender a enorme diversidade dos acontecimentos. “Quotidiano e poder” faz parte de um grupo de trabalhos que enxergam a história como uma construção de vários sujeitos. Ao lê-lo, percebemos como essas mulheres estavam presentes ativamente no cotidiano dessa sociedade, apreendemos suas vidas, suas artimanhas, seu labor, suas difi culdades diárias, seu respeito ou rechaço às convenções. Fonte: Tetê Castilho. Disponível em: <http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/1117660>. Acesso em: 2 mar. 2009. Observe que, para efeito de publicação, uma resenha crítica sempre apresenta título, não necessariamente o título do livro que vai ser resenhado, embora seja esse o caso da resenha apresentada no exemplo 1, mas um título que diga respeito ao teor da resenha. Resenha descritiva A resenha descritiva é bem mais simples que a resenha crítica. Ela apresenta a maioria dos elementos apresentados no primeiro tópico desta aula. Mas nenhum juízo de valor sobre a obra. Aliás, nenhum é impossível, pois ao escolhermos vocabulário e formas de apresentar o texto já estamos exercendo um juízo de valor. Mas não há intenção clara, nesse tipo de resenha, de apresentar um posicionamento crítico. Conforme Fiorin e Savioli (1990, p. 426), “a resenha pode ser puramente descritiva, isto é, sem nenhum julgamento ou apreciação do resenhador”. Esse tipo de resenha deve conter, então, uma parte descritiva com informações sobre o texto (autor, título, editora, local e data); e uma parte com o resumo do conteúdo da obra (assunto tratado, ponto de vista adotado, perspectiva teórica, gênero, método, entre outros). Cabe ainda uma síntese apontando os pontos essenciais do texto e seu plano geral. Exemplo 2 11 Leitura e Produção de Textos A09 O Milionário mora ao lado, de Thomas J. Stanley Publicado em 18.01.2008 na categoria Finanças, Resenhas Você sabia que a grande parte dos milionários dos Estados Unidos não fizeram fortuna criando empresas ou produtos inovadores e sim economizando centavos e levando uma vida frugal? Essa é apenas uma das informações reveladoras feitas em O Milionário mora ao lado, livro que é resultado de uma pesquisa de anos do autor Thomas J. Stanley sobre como os milionários norte-americanos conseguiram juntar o tão mitifi cado patrimônio líquido de um milhão de dólares. A obra mostra quem são os ricos, quais as suas ocupações, onde fazem compras, como fazem investimentos, como fi caram ricos, quais os setores de maior perspectiva para obter-se lucros e muito mais. Um dos pontos interessante é quando o autor mostra como esses milionários compram seus carros ou como a herança que deixam para seus fi lhos podem colocá-los em grandes problemas em vez de ajudá-los. Para quem gosta de ler sobre fi nanças, mas não suporta nada que passe perto de auto-ajuda, o livro de Stanley – sempre baseado em dados obtidos em sua pesquisa científi ca – é uma excelente opção de leitura. Fonte: <http://fatorw.com/resenhas/o-milionario-mora-ao-lado-de-thomas-j-stanley/>. Acesso em: 2 mar. 2009. 12 Leitura e Produção de Textos A09 Observe que a resenha apresentada no exemplo 2 procura apenas indicar para o leitor dados técnicos sobre o livro resenhado (autor, editora, ano de publicação) e, em linhas gerais, o conteúdo do livro em questão. Mas, mesmo assim, não é puramente descritiva, pois há um posicionamento do resenhista sobre o livro: “Um dos pontos interessantes...” e “... é uma excelente opção de leitura”. É muito difícil uma resenha ser puramente descritiva, pois, mesmo na mera escolha do vocabulário, há um posicionamento crítico do resenhista na elaboração do texto. Resenha temática A resenha temática é a mais simples dos três formatos de resenha, sua principal diferença em relação às demais é que nela você fala de vários textos que tenham um tema em comum e não de um só texto, como nas anteriores. Os passos para a elaboração desse tipo de resenha são mais simples, pois você não precisa tecer considerações críticas nem recomendar a leitura, a não ser que você queira recomendar algum dos textos que está apresentando. Por ser um pouco diferente das demais, vamos ver os passos fundamentais na elaboração desse tipo de resenha: 3. Apresentação do tema: diga ao leitor qual é o assunto principal dos textos que você apresentará ao longo de sua resenha e qual o motivo de ter escolhido esse tema em particular. 4. Resumo dos textos: procure não se alongar muito no resumo dos textos, também não fale mais sobre um texto do que sobre outro, a não ser que haja um motivo específi co para isso. O ideal é que você estabeleça um parâmetro de igualdade na apresentação de cada texto, pode ser um parágrafo para cada um, por exemplo. Procure deixar claro, logo no início, quem é o autor daquele texto e explicar como aquele autor aborda o tema em questão. 5. Conclusão: após explicar cada um dos textos, você pode opinar e tentar relacionar esses diferentes textos, de forma a chegar a uma conclusão sobre o tema tratado. 6. Identifi cação das fontes: coloque as referências bibliográfi cas de todos os textos que você usou e procure seguir as normas da ABNT para isso. 7. Identifi cação do resenhista: em geral, como nas demais resenhas, isso ocorre fora do texto propriamente dito, em rodapé. Você deve colocar seu nome e uma breve descrição sobre o seu currículo. Veja um exemplo de resenha temática bem simples apresentado no exemplo 3, a seguir. Exemplo 3 13 Leitura e Produção de Textos A09 Humor à francesa – 7 comédias cult do cinema francês Direto ou dissimulado, bobo ou irônico: o riso, próprio do homem segundo Rabelais, sempre teve como terreno fértil a nossa absurda e humana condição. Portanto, não surpreende que tenha achado no cinema, que decifra incessantemente o ser humano, um de seus modos de expressão mais naturais. O riso é universal. Seus estopins e seus caminhos são complexos e multiformes, refl exos de uma cultura, uma época, uma sociedade. Uma boa comédia resulta de uma alquimia e de um trabalho dos quais só alguns visionários detêm o segredo. Ou seja, fazer rir é um negócio dos mais sérios e difíceis! Nós temos o prazer de oferecer ao público algumas fatias de humor à francesa que alegremente descortinam nossa sociedade: sua história (Asterix e Obelix: Missão Cleópatra, Os Visitantes), seus costumes (Brice de Nice, O Barco da Liberdade), seus excluídos (Papai Noel é um Picareta), seus tabus (Uma Cama para Três)... E, esse conjunto, numa variedade de estilos: entre o trash (Bernie), o kitsch (Os Bronzeados), o politicamente incorreto (Papai Noel é um Picareta), o fi lme de autor (O Barco da Liberdade) e assim por diante. O painel oferecido pelo ciclo permite também perceber a evolução do cinema cômico francês: a velha guarda – os De Funès, Bourvil, Fernandel – veio do music-hall. A geração seguinte veio do café-teatro, especialmente da trupe do Splendid (Os Bronzeados, Papai Noel é um Picareta). Desde os anos 90, a televisão se tornou laboratório do humor à francesa: Alain Chabat (ator no fi lme Uma Cama para Três e diretor de Asterix e Obelix: Missão Cleópatra), Jean Dujardin (Brice de Nice) ou Jamel Debbouze (Asterix e Obelix: Missão Cleópatra) são os exemplos mais famosos do momento. Mas, atrás do ecletismo, os fi lmes apresentados aqui possuem uma mesma característica: o enorme sucesso de público. Dentre eles, Os Visitantes (14 milhões de pagantes!), Asterix e Obelix: Missão Cleópatra (10 milhões) ou o mais recente, Brice de Nice (4,5 milhões). A maior parte é de fi lmes cult na França, alguns são verdadeiros fenômenos de sociedade como Os Bronzeados, que a cada nova exibição na TV (quase uma por ano) tem mais de 10 milhões de telespectadores! O terceiro episódio da série, que acaba de estrear na França, conquistou 11 milhões de espectadores. Fonte: <http://www.cinefrance.com.br/cinemateca/colecoes/?colecao=7>. Acesso em: 2 mar. 2009. 14 Leitura e Produção de Textos A09 Obviamente, o texto exposto no exemplo 3 não está preocupado em divulgar ou apresentar um fi lme, um livro, um cd. Está, sim, apresentando uma coleção de 7 fi lmes franceses reunidos sob um mesmo tema: o humor. Os fi lmes representam, cada um em sua época e em seu estilo, o tipo de humor específi co do cinema francês sobre o qual a resenha trata. Não há no texto uma preocupação em identifi car o resenhista porque o texto pertence a site ofi cial da embaixada francesa, que pretende divulgar a cultura daquele país. Mas há, por exemplo, a apresentação breve de cada um dos fi lmes comentados, a apresentação e a problematização do tema (os dois primeiros parágrafos), o estabelecimento de relações entre os fi lmes comentados e a conclusão com recomendações sobre os fi lmes (um é cult, outro alcança 10 milhões de espectadores etc.). Por ser um texto muito breve, evidentemente não há aprofundamento sobre o tema explorado e, por ser apenas um texto de divulgação, também não há a preocupação com a indicação das fontes ou com a ABNT, aspectos que são mais comuns em textos de natureza técnica, científi ca e acadêmica. Condições para se fazer uma resenha Agora que você já conhece os diferentes tipos de resenha, já está preparado para elaborá-las, assim, vamos ver, de forma mais resumida, então, quais são os elementos gerais necessários para a elaboração de uma resenha. Medeiros (2003, p. 160/162) propõe “condições de abordagem e inteligibilidade” que servem para “qualquer texto”, na verdade. Vamos a elas: 1. Delimitar a extensão da leitura Intuitivamente fazemos isto: caminhamos por etapas como quem sobe uma escada. Vale, por vezes, saltar degraus, valendo-se de muita segurança. Nesta circunstância, o efeito do tombo, se for o caso, será sentido muito depois. Isso quer dizer que você só deve alterar a ordem dos passos que temos dado ao longo desta aula, se souber muito bem como retomar o caminho sem se perder, se tiver segurança na elaboração de seu texto e no assunto sobre o qual você está tratando. 2. Análise textual Compreende fases que não permitem o menor descuido: a) estudo do vocabulário e conceitos; b) verifi cação das doutrinas expostas; 2Praticando... 15 Leitura e Produção de Textos A09 c) sondagem de fatos apresentados; d) autoridade de autores citados; O seu texto, como qualquer outro, deve ser esquematizado e dividido em introdução, desenvolvimento e conclusão. 3. Análise temática Evidencia pontos importantes: a) assunto de que trata o texto; b) tema, isto é, a perspectiva em que foi tratado o assunto; c) problema evidenciado no assunto; d) a tese, isto é, como foi solucionado o problema. 4. Análise interpretativa Entram a posição própria do autor da resenha sobre as ideias do autor do texto resenhado. A argumentação daquele deve se orientar, também, por ideias de outros textos similares. Acrescenta Medeiros (2003, p.161): “Deve-se situar o autor dentro de sua obra e no contexto da cultura de sua área. Destacam-se as contribuições originais”. 5. Problematização Consiste em explicitar as questões levantadas pelo texto. 6. Síntese Deve abordar todas as fases anteriores com concisão e originalidade, de forma a concluir o assunto e, com ele, o texto. 1. Estabeleça a diferença entre resenha crítica, descritiva e temática. 2. Explique como se dá a presença da análise textual e da análise interpretativa em uma resenha. 16 Leitura e Produção de Textos A09 3. Escolha exemplos, extraídos de resenhas, que representem a delimitação da extensão da leitura, a problematização e a síntese. 4. Identifi que, na resenha abaixo, os seguintes elementos: a) gênero do texto resenhado; b) autoria do texto resenhado; c) resumo do texto; d) recomendação da obra; e) traços da opinião do resenhista. ALMAS REENCARNADAS De Takashi Shimizu Com Yûka, Takako Fuji, Mantarô Koichi, Marika Matsumoto, Tomoko Mochizuki, Kippei Shiina Terror Diretor começa a selecionar atores para seu próximo fi lme, baseado na história real de doze pessoas que foram assassinadas em um hotel. Enquanto as fi lmagens acontecem, atriz principal começa a suspeitar de uma profunda ligação dela com o episódio ocorrido anos atrás ao mesmo tempo em que fantasmas do passado resolvem aparecer. Mais um típico fi lme de terror japonês, que aposta nos mesmos sustos de sempre, ou seja, crianças como assombrações, espíritos querendo justiça, etc. No começo da trama, há elementos interessantes mas aos poucos o fi lme se perde em histórias paralelas, cenas monótonas e sustos óbvios. Sem falar de alguns efeitos especiais toscos que fazem algumas cenas beirarem o ridículo. Fonte: <http://wcinema.blogspot.com/2006/12/resenha-de-fi lmes-13.html>. Acesso em: 2 mar. 2009. Estrutura da resenha Conforme Lakatos e Marconi (1985, p. 210-220) e Andrade (1987, p. 62-63), podemos estabelecer o esquema básico de uma resenha, ou seja, o esqueleto de uma resenha, tendo como suporte as condições e os elementos básicos que apresentamos ao longo desta aula e que, nesse esqueleto, aparecem de forma ainda mais resumida. Observe que os itens “f” e “g” não seriam próprios à resenha descritiva. Na resenha científi ca, no entanto, caberiam todos os itens: 17 Leitura e Produção de Textos A09 a) referência bibliográfi ca, conforme ABNT; b) informações sobre o autor; c) detalhamento das ideias principais; d) conclusões do autor; e) quadro de referência: modelo e método utilizados; f) julgamento da obra: como ela se apresenta em relação a outras obras do gênero; g) mérito da obra: contribuição, originalidade das ideias e nível de ampliação dos conhecimentos; h) estilo e nível de linguagem; i) forma: disposição das ideias; j) público alvo. Temos, pois, três possibilidades: a resenha crítica, a resenha descritiva e a resenha temática. A primeira, como vimos, exige erudição. Sendo assim, como trabalho acadêmico é mais cabível nos cursos de pós-graduação, no processo de realização das monografi as. Aliás, uma resenha crítica bem acabada pode converter-se num pequeno artigo científi co, gênero sobre o qual trataremos na próxima aula. A resenha descritiva seria mais adequada à graduação: por um lado, está próxima do fi chamento, por outro, inevitavelmente apontará o caminho do acadêmico para a resenha crítica. A resenha temática, por fi m, é mais livre, embora seja mais profunda de acordo com o conhecimento que o resenhista tenha sobre o tema tratado, mas ela é compatível com qualquer nível de ensino. Fazer uma resenha, portanto, não é muito difícil, mas devemos tomar muito cuidado, pois, dependendo da forma como se posicione e do local de publicação, o resenhista pode fazer um livro ou um cd mofarem nas prateleiras ou transformar um fi lme ou uma peça de teatro em um verdadeiro fracasso. As resenhas podem, também, funcionar como ótimos guias para os apreciadores da arte em geral e, sob o ponto de vista do processo de ensino-aprendizagem, ser uma ferramenta essencial para estudantes que precisam selecionar quantidades enormes de conteúdo em um tempo relativamente pequeno. Agora, que tal colocar a mão na massa e começar a produzir suas próprias resenhas? Praticando... 3Praticando... 18 Leitura e Produção de Textos A09 Observe se a resenha a seguir contempla todos os elementos destacados (da letra “a” até a “j”) ao longo do tópico anterior desta aula. Identifi que cada um desses elementos no texto e indique quais os elementos que não estão presentes. CARTAS DE IWO JIMA Vinicius Vieira Acabei de ler a minha crítica do fi lme “A Conquista da Honra” e lá para o fi nal do texto eu comento que Clint Eastwood fez um fi lme tecnicamente muito acima da média, e é exatamente isso que me fez esperar com tanta apreensão o fi lme “Cartas de Iwo Jima”, já que parecia, para mim, que ali estava um passo a mais nessa média, e por sorte é isso que acontece. Para quem não sabe, “Cartas de Iwo Jima” poderia ser considerado o fi lme irmão de “A Conquista da Honra”, enquanto esse mostrava os Estados Unidos atacando a importante ilha japonesa, o outro nos joga do lado nipônico tentando se defender, em uma missão fadada a derrota, onde eles tinham um número absurdamente menor de homens (22 mil contra os mais de cem mil americanos), sem apoio marítimo nem aéreo, apenas alguns poucos tanques, e a honra de morrer pelo solo de seu país. E a palavra do fi lme é essa mesmo, honra, muito mais que no outro fi lme, e Eastwood sabe disso, com isso conseguindo fazer um fi lme contundente, emocionante e acima de tudo heróico, que por pouco, não faz o outro se tornar dispensável. 19 Leitura e Produção de Textos A09 A verdade é que depois de ver o lado japonês da batalha, você acaba se perguntando até onde os Estados Unidos mereciam tomar a ilha à custa de tantas mortes, em uma guerra que estava fadada a acabar, e ainda, até onde os japoneses mereciam ser exterminados (foram quase 21 mil mortes), já que estavam ali defendendo um princípio, uma vida e, como eu já disse acima, suas honras. O diretor parece fazer um fi lme mais cuidadoso em relação a “A Conquista”, mais preocupado com seu andamento, criando um fi lme mais lento, que desenvolve muito melhor os personagens, lhes dá mais profundidade, e no fi nal das contas te faz se identifi car muito mais com eles. Mesmo quando o ataque começa, você não vê qualquer correria, o que você vê é uma quantidade sem número de jovens acuadas, esperando pela morte certa, seus desesperos e suas dúvidas, e graças à habilidosa direção e o ótimo roteiro escrito por Paul Haggis (“Crash” e “A Conquista da Honra”) e Íris Yamashita, o fi lme não perde o ritmo, e você percebe que está vendo um fi lme de guerra diferenciado, muito mais focado no que acontece do lado de dentro dos uniformes. E novamente, o que salta aos olhos é a parte técnica do fi lme, principalmente a fotografi a de Tom Stern, colaborador usual do diretor, que faz um trabalho a milhas de distância de qualidade do fi lme “irmão”, ele cria um tom apagado, meio lavado e velho, quase sépia em alguns momentos, quase preto e branco em outros, criando uma experiência visual única. O outro ponto alto da fotografi a é algo que, em parceria com o diretor, sempre gostou de fazer (mas que foi um pouco esquecida em “A Conquista”), mostrar como as vezes a ausência de luz pode ser bem tratada, de uma hora para outra você dá de cara com cenas onde a tela é totalmente tomada pela escuridão, com a luz mostrando exatamente como é participar de uma guerra de dentro de uma caverna, sensacional. Clint Eastwood só esbarra na hora de levar algumas cenas que poderiam ter menos cortes, americanizando um pouco demais a levada do fi lme, talvez com medo de tornar o fi lme menos popular ainda nos Estados Unidos (além da fotografi a diferenciada para os padrões, o fi lme ainda é falado em japonês), algo que com certeza vai agradar os espectadores mais normais, mas que fará uma minoria torcer o nariz, que como eu, pode se incomodar um pouco com isso, além do modo “Titanic” da narração (grupo de pesquisa descobre alguma coisa no começo do fi lme, ele recua ao passado, e ao fi nal volta ao presente para mostrar o tal achado) que imbeciliza um pouco o público. Mas sem sombra de dúvida nenhuma, “Cartas de Iwo Jima” é muito melhor que “A Conquista da Honra” e mostra todo poder do diretor que, como poucos, hoje sabe contar uma história e vai se superando a cada vez que vai para trás das câmeras. Título Original: Letters from Iwo Jima Gênero: Drama 20 Leitura e Produção de Textos A09 Duração: 140 min. Ano: EUA – 2006 Distribuidora: Warner Bros./Paramount Pictures Direção: Clint Eastwood Roteiro: Iris Yamashita Site Ofi cial: <www.iwojimathemovie.warnerbros.com/lettersofi wojima>. Fonte: <http://www.cranik.com/iwojima.html>. Acesso em: 2 mar. 2009. Leituras complementares COMO elaborar uma resenha. Disponível em: <http://www.pucrs.br/gpt/resenha.php>. Acesso em: 2 mar. 2009. No site anterior, você encontra uma boa orientação sobre a elaboração de resenhas e alguns exemplos bastante interessantes. MACHADO, Anna Rachel; LOUSADA, Eliane; ABREU-TARDELLI, Lília Santos. Resenha. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. Esse livro também é muito interessante, pois foi elaborado para quem estuda sozinho, tem vários exemplos de resenha e você elabora uma resenha passo a passo ao longo de sua leitura. Nesta aula, vimos em que se constitui o gênero resenha e os seus diferentes tipos, observando também os passos que levam à elaboração de cada um desses tipos de resenha, desde indicações sobre os elementos básicos até um esquema que contempla não só os tópicos fundamentais de uma resenha mais simples até os fatores críticos de uma resenha mais complexa e profunda. Autoavaliação 21 Leitura e Produção de Textos A09 1. Elabore uma resenha descritiva sobre o fi lme Tempos Modernos, de Charles Chaplin, disponível em qualquer boa locadora. É um fi lme bem antigo, mas muito interessante, que discute, de forma bem humorada, aspectos ligados à modernidade e ao trabalho. Título Original: Modern Times Gênero: Comédia Tempo de Duração: 87 minutos Ano de Lançamento (EUA): 1936 Estúdio: United Artists / Charles Chaplin Productions Distribuição: United Artists Direção: Charles Chaplin Roteiro: Charles Chaplin Produção: Charles Chaplin Música: Charles Chaplin Fotografi a: Ira H. Morgan e Roland Totheroh Direção de Arte: Charles D. Hall e J. Russell Spencer 2. Elabore uma resenha temática sobre “O riso no cinema”. Para isso: a) Agrupe algumas das comédias de que você mais gosta. b) Pesquise sobre a natureza do riso. c) Pesquise sobre a presença do riso no cinema. d) Construa seu texto seguindo os passos indicados para esse tipo de resenha. Anotações 22 Leitura e Produção de Textos A09 Referências ANDRADE, Maria Margarida. Como preparar trabalhos para cursos de pós-graduação: noções práticas. São Paulo: Atlas, 1997. CUNHA, Diva. Canto de página. Natal: Clima, 1986. FIORIN, José Luiz; SAVIOLI, Francisco Platão. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1990. GAZOLA, André. Como fazer uma resenha. Disponível em: <http://www.lendo.org/como- fazer-uma-resenha/>. Acesso em: 2 mar. 2009. LAKATOS, Eva Maria; MARCONI, Marina de Andrade. Metodologia científi ca. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1985. MEDEIROS, João Bosco. Resenha. In: ______. Redação científi ca: a prática de fi chamentos, resumos, resenhas. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2003. p. 158-180. Anotações 23 Leitura e Produção de Textos A09 Anotações 24 Leitura e Produção de Textos A09 10 Ilane Ferreira Cavalcante C U R S O T É C N I C O E M S E G U R A N Ç A D O T R A B A L H O Artigo científi co e relatório LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS Coordenadora da Produção dos Materias Vera Lucia do Amaral Coordenador de Edição Ary Sergio Braga Olinisky Coordenadora de Revisão Giovana Paiva de Oliveira Design Gráfi co Ivana Lima Diagramação Elizabeth da Silva Ferreira Ivana Lima José Antonio Bezerra Junior Mariana Araújo de Brito Arte e ilustração Adauto Harley Carolina Costa Heinkel Huguenin Leonardo dos Santos Feitoza Revisão Tipográfi ca Adriana Rodrigues Gomes Margareth Pereira Dias Nouraide Queiroz Design Instrucional Janio Gustavo Barbosa Jeremias Alves de Araújo Silva José Correia Torres Neto Luciane Almeida Mascarenhas de Andrade Revisão de Linguagem Maria Aparecida da S. Fernandes Trindade Revisão das Normas da ABNT Verônica Pinheiro da Silva Adaptação para o Módulo Matemático Joacy Guilherme de Almeida Ferreira Filho EQUIPE SEDIS | UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE – UFRN Projeto Gráfi co Secretaria de Educação a Distância – SEDIS Governo Federal Ministério da Educação Você ve rá por aqu i... Objetivos 1 Leitura e Produção de Textos A10 Algumas considerações acerca da elaboração de artigos científi cos e de relatórios, os dois últimos gêneros que estudaremos. Esta aula será dividida em duas partes, cada uma correspondendo a um desses gêneros. Na primeira parte, trataremos dos artigos científi cos e na segunda parte, veremos características do relatório, importante por ser ele o mais imediatamente útil à sua formação, pois, em geral, precisamos fazer relatórios ao terminar nossos cursos profi ssionalizantes, não é mesmo? Vamos a eles! Conhecer os gêneros artigo científi co e relatório. Compreender os principais elementos de composição destes gêneros textuais. 2 Leitura e Produção de Textos A10 Para começo de conversa... A Lua da Língua Existe uma língua para ser usada de dia, debaixo da luz forte do sentido. Língua suada, ensopada de precisão. Que nós fabricamos especialmente para levar ao escritório, e usar na feira ou ao telefone, e jogar fora no bar, sabendo o estoque longe de se acabar. Língua clara e chã, ocupada com as obrigações de expediente, onde trabalha sob a pressão exata e dicionária, cumprimentando pessoas, conferindo o troco, desfazendo enganos, sendo atenciosamente sem mais para o momento. É a língua que Cristina usou para explicar quem quebrou o cabo da escova na pia do banheiro, num dia de sol em Fortaleza. Ou a língua empregada pelas aeromoças nos avisos mecanicamente fundamentais. Língua comum; mútua e funcionária. Língua diária; isto é, língua à luz do dia. Mas no entardecer da linguagem, por volta das quatro e meia em nossa alma, começa a surgir um veio leve de angústia. As coisas puxam uma longa sombra na memória, e a própria palavra tarde fi ca mais triste e morna, contrastando com o azul fresco e branco da palavra manhã. À tarde, a luz da língua migalha. E, por ser já meio escura, o mundo perde a nitidez. Calar, a tarde não se cala, mas diz menos o que veio a dizer. Por isso, poucas vezes se usa esta língua rouca do ciciar das cigarras, que cede à luz minguante da sintaxe, mas meio bêbada de escuridão. 3 Leitura e Produção de Textos A10 É a que freqüenta os cartões de namoro, as confi ssões, as brigas e os gritos, ou a atenção desajeitada de velórios, também os momentos relevantes em vidas sem relevo, ou está nas palavras sussurradas entre os lençóis (ou ao pé dos muros nos bairros mais distantes) sob o calor da noite. Mas noite aqui, na face da Terra; que é bem diferente da noite nos breus de uma língua. Pois quando a língua em si mesma anoitece, o escuro espatifa o sentido. O sol, esfacelado, vira pó. E a linguagem se perde dos trilhos de por onde ir. Tateia, titubeia e, com alguma sorte, tropeça, esbarrando em regras, arrastando a mobília das normas, e deixando no carpete apenas as marcas de onde um dia estiveram outros móveis. À noite sonha nossa língua. O céu da boca, onde esta noite se forma, não tem estrelas de tão preto. É onde as palavras guardam ainda seu cheiro de pensamento. E têm a densidade vazia das idéias vagas, condensando-se invisivelmente como nuvens de um céu sem luz. No calor tempestuoso destas noites, é possível a bailarina ser feita de borracha e pássaro. José Ribamar põe aves dentro dos frutos maranhenses. E Murilo solta os pianos na planície deserta. Tudo é dito e tudo é silêncio, distante dos ruídos do dia. Existe o verbo, existe o verso. Existe a canção. Rosa mineira do Lácio. Tudo é possível na escuridão, sombra que alumbra; penumbra. Luz negra da noite. Quando abrimos a boca, a língua amanhece. (LAURENTINO, 2007, p. 96 - 98). O texto de André Laurentino nos mostra o quanto a nossa língua pode ser plástica, maleável, bela, passível de ser usada tanto para a produção de textos poéticos, como o dele, ou de textos mais técnicos, como aqueles de que iremos tratar aqui. 4 Leitura e Produção de Textos A10 Sobre os gêneros técnicos, científi cos e acadêmicos Existem diversos gêneros produzidos com a fi nalidade de divulgar conhecimento, entre eles um dos mais breves seria o artigo científi co. Além dele, outro gênero breve seria o ensaio, que é essencialmente um texto híbrido, visto que é um texto opinativo, geralmente escrito na primeira pessoa e não é puramente técnico, acadêmico ou científi co, mas passeia pelas fronteiras da literatura. Gêneros mais longos seriam a dissertação e a tese. A primeira é produzida como trabalho fi nal de um percurso de mestrado, e a segunda, trabalho fi nal elaborado ao longo do percurso de um doutorado. Ambos são gêneros acadêmicos que trazem o resultado de uma pesquisa realizada ao longo de alguns anos (que variam de acordo com a instituição em que se estuda) e apresentam uma investigação de caráter inovador sobre um determinado tema de qualquer natureza, dependendo da área em que se insere o pesquisador. Dentre esses gêneros, o mais curto, também de caráter investigativo, seria o artigo científi co. Os artigos são textos curtos (entre 10 e 20 páginas, aproximadamente), completos, que tratam de uma questão científi ca. Apresentam o resultado de um estudo ou de uma pesquisa, seja documental, bibliográfi ca ou de campo. Pesquisas documentais são elaboradas a partir da coleta e análise de documentos de diversas naturezas. Um bom exemplo é a pesquisa em manuscritos antigos, que pode informar muito sobre a vida das pessoas em determinada época, sobre sua saúde, sobre o desenvolvimento de uma família, enfi m, sobre muitas coisas. Pesquisa bibliográfi ca é a primeira etapa de qualquer tipo de pesquisa, ela envolve a busca por publicações sobre um determinado tema que estejamos pesquisando, a seleção de leituras apropriadas e relevantes sobre aquele tema, a leitura, o fi chamento dessas leituras e, por fi m, a elaboração da síntese acerca do que conseguimos compreender sobre aquele determinado tema. A pesquisa de campo, em linhas gerais, é desenvolvida quando o pesquisador precisa ir a campo, ou seja, ir ao local onde o seu objeto de estudo, o assunto que ele está pesquisando, se encontra. Dessa natureza são, por exemplo, as pesquisas em que pessoas são entrevistadas, questionários são aplicados, dados são levantados sobre determinado tema. 1Praticando... 5 Leitura e Produção de Textos A10 Os artigos científi cos, portanto, são elaborados após uma pesquisa e para apresentação em eventos de natureza técnica, científi ca e acadêmica e visam uma publicação. Eles são mais comuns na rotina de estudantes universitários e daqueles que participam de pesquisas de iniciação científi ca, primeiro passo para a formação do pesquisador. A publicação desses estudos permite não só a divulgação científi ca produzida pelo pesquisador/autor, mas permite, mediante a descrição da metodologia empregada na realização da pesquisa e da descrição dos resultados obtidos, que o leitor repita a experiência. Essa publicação se dá, geralmente, em periódicos de natureza técnica, científi ca ou acadêmica e esses artigos são, também em geral, avaliados por um conselho ou por pareceristas que determinam a qualidade do artigo para a publicação naquele determinado periódico. 1. Cite exemplos de três gêneros técnicos, científi cos e acadêmicos. 2. Qual a diferença entre pesquisa documental, pesquisa bibliográfi ca e pesquisa de campo? As partes do texto Pensando na organização do texto, vamos discutir um pouco acerca das principais partes que o compõem? Não esqueça que a nossa perspectiva, aqui, são os gêneros de natureza técnica, acadêmica e científi ca. Portanto, vamos considerar, especifi camente, a clássica divisão entre introdução, desenvolvimento e conclusão, comum a todos os gêneros textuais de natureza técnica, científi ca e acadêmica. Introdução Na introdução se encontra o resumo de todas as ideias que orientaram o pensamento do autor. A introdução funciona, portanto, como uma espécie de apresentação geral do texto para que o leitor se situe. Assim, na introdução, deve-se defi nir o tema, mostrar o problema, despertar o interesse e decompor os elementos gerais do texto. 6 Leitura e Produção de Textos A10 Facilita, para quem não tem muita experiência em produção escrita, defi nir, logo de início, o objeto a ser discutido no texto. Nessa exposição, é preciso ser claro e preciso, de forma que não gere problemas de compreensão para o leitor. Ao defi nir-se o tema, delimita-se, também, o recorte que se vai dar a ele. Observe o exemplo a seguir: Exemplo 1 A Gramática na Aula de Português Eliana Melo Machado Moraes - UFG Este trabalho procura apresentar refl exões a partir de práticas de ensino de professores de Português que atuam no Ensino Fundamental, em escolas públicas, localizadas na cidade de Jataí, no Sudoeste do Estado de Goiás. Ele tem como subsídio a dissertação de mestrado: A gramática na aula de Português defendida em agosto de 2000 e discute: quando os professores trabalham “conteúdos gramaticais” – hoje, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais – Língua Portuguesa, “práticas de análise lingüística” -, “o que” e “como” trabalham? De que gramática estão falando? O trabalho procura descrever práticas de sete professores de Português que possuíam na época da realização da pesquisa, cursos de Pós-graduação, em nível de especialização e que afi rmassem estar trabalhando dentro da proposta apresentada no Programa Curricular Mínimo do Estado de Goiás – Português 5ª a 8ª séries do Ensino Fundamental. Fonte: <http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=artigos/docs/gramaticanaaula>. Acesso em: 3 mar. 2009. A introdução exposta no exemplo 1 apresenta logo no primeiro e no segundo parágrafos o tema de estudo do artigo (veja destaque em negrito). Assim, o objetivo do trabalho é descrever e refl etir sobre a prática de sete professores de Português da rede pública da cidade de Jataí/GO. Nem todos os autores são tão diretos na apresentação do tema, mas essa é uma boa maneira de iniciar a introdução de seu trabalho, se você está iniciando ainda o seu percurso de pesquisador. 7 Leitura e Produção de Textos A10 Desenvolvimento Como o próprio nome já diz, o desenvolvimento apresenta o corpo da pesquisa. Ou seja, após a introdução, em que você apresentou o tema de estudo, justifi cou a importância desse tema e descreveu como irá desenvolver a pesquisa, é no desenvolvimento que você vai demonstrar a sua refl exão sobre o tema. Defi nir os conceitos que irá utilizar, demonstrar os conhecimentos teóricos que você adquiriu (caso de uma pesquisa bibliográfi ca), apresentar os sujeitos e o campo de estudo (no caso de uma pesquisa de campo) ou os documentos utilizados (no caso de uma pesquisa documental) e demonstrar os resultados alcançados. Só não incorra no erro de colocar o título “Desenvolvimento”, nessa parte de seu texto você deve escolher títulos que digam respeito ao conteúdo de seu trabalho. Veja o sumário de um livro apresentado na fi gura 1, a seguir: Figura 1 – Sumário Fo nt e: C av al ca nt e (2 0 0 8 ). A fi gura 1, acima, apresenta o sumário de um livro. Após a introdução, você identifi ca a divisão em capítulos, cada um com um determinado título. Pois bem, o conjunto dos quatro capítulos do livro forma o desenvolvimento. Cada título de capítulo diz respeito a um determinado aspecto da pesquisa apresentada ao longo do livro. Após o desenvolvimento, ou seja, após o quarto capítulo, você identifi ca a conclusão na fi gura, não é mesmo? Vamos falar sobre ela agora. 8 Leitura e Produção de Textos A10 Conclusão A conclusão é uma retomada de todos os assuntos desenvolvidos ao longo do artigo, de forma a interligá-los e ainda apontar para as possibilidades de desenvolvimento daquela pesquisa. Exemplo 2 CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo deste trabalho, buscamos responder às questões que dizem respeito à compreensão dos fenômenos relacionados à mobilidade urbana e a sua relação com a inclusão social no espaço urbano. O processo acelerado da urbanização no país manifesta-se na metropolização, na favelização e na periferização de grandes contingentes populacionais. Estes fenômenos, amplamente reconhecidos pela literatura geográfi ca, ainda são os principais desafi os para a superação da pobreza e da desigualdade no acesso a serviços públicos e aos equipamentos coletivos. [.....] Enfi m, verifi camos que em locais onde o sistema de transporte público é precário, a população não usufrui das mesmas oportunidades das pessoas residentes em áreas mais privilegiadas, confi gurando um obstáculo ao uso dos espaços da cidade, ao direito de ir e vir, e ao exercício pleno à condição de cidadão. Salientamos que a mobilidade urbana não determina a condição de exclusão social de determinado grupo de pessoas, mas se constitui em uma das ferramentas para superação dessa condição. De modo que esta pode ser considerada uma das cinco bases da inclusão social, ou seja, as políticas de inclusão devem agregar além da mobilidade urbana as políticas de emprego e renda, saúde, educação e habitação e que ambas se fortaleçam como política de Estado e não de governos. E sem pretender formalizar conclusões, salientamos a importância deste estudo, como mais um trabalho que poderá servir como base para outros que possam vir a surgir sobre a temática dos transportes, visto que ao tratar sobre o tema não devemos esquecer que este diz respeito a pessoas e por conseguinte à (re)produção do espaço. (ASSUNÇÃO; ARAÚJO, 2008, p. 74). 2Praticando... 9 Leitura e Produção de Textos A10 No fragmento de conclusão apresentado no exemplo 2, você pode observar que, em primeiro lugar, o tópico não é conclusão, mas considerações fi nais. Alguns autores preferem este título porque leva em consideração o fato de que nunca, na verdade, concluímos algo. Existe sempre algo mais a dizer, o que nós fazemos é fi nalizar um trabalho que consiste em uma etapa, ou em um olhar sobre um determinado objeto de estudo. Por isso, as autoras evidenciam que não têm a pretensão de “formalizar conclusões”. Em segundo lugar, observe como, ao longo do texto, as autoras retomam aquilo que foi discutido ao longo do artigo. Para isso, elas utilizam expressões como: “Ao longo deste trabalho, buscamos...” ou “Salientamos que...”, e apontam, ainda, para futuros trabalhos que outros pesquisadores possam desenvolver utilizando o mesmo tema. 1. Escolha um artigo científi co de sua preferência e identifi que as partes que o compõem: introdução, desenvolvimento e conclusão. 2. Elabore um esquema desse artigo, como se estivesse elaborando um sumário, mas sem a necessidade de informar o número das páginas de cada tópico. Artigo científi co Agora que você já viu a estrutura geral de qualquer gênero técnico, científi co e acadêmico, vamos aos detalhes da estrutura de um artigo científi co. Estrutura O artigo científi co tem uma estrutura bastante variável, visto que ela muda de acordo com o veículo em que ele for publicado. Mas, em linhas gerais, ele pode apresentar a mesma estrutura detalhada dos demais gêneros de natureza técnica, científi ca e acadêmica como você pode perceber a seguir: 10 Leitura e Produção de Textos A10 Elementos pré-textuais São os elementos que compõem a apresentação geral do artigo: cabeçalho: título e subtítulo do trabalho; autor(es); credenciais do(s) autor(s); local de atividades desses autores. Veja, no exemplo 3, o modelo de cabeçalho da revista Holos, a revista eletrônica do IFRN. Exemplo 3 LEITE e OLIVEIRA (2008) RECURSOS HUMANOS EM VIGILÂNCIA SANITÁRIA: UMA DISCUSSÃO SOBRE PERFIL PROFISSIONAL Maria Jalila Vieira de Figueirêdo Leite Cirurgiã-dentista, Mestre em Odontologia Social, Servidora do Centro de Formação de Pessoal/SESAP-RN. jalilaleite@rn.gov.br Angelo Giuseppe Roncalli da Costa Oliveira Cirurgião-dentista, Doutor em Odontologia Preventiva e Social, Professor da UFRN. roncalli@terra.com.br Observe que a revista dá destaque aos sobrenomes dos autores e depois apresenta o título do artigo, os autores e suas credenciais. Resumo ou sinopse Você aprendeu a fazer resumos na aula 8 desta disciplina, lembra? Ele é exigido na maioria das publicações de caráter técnico, científi co e acadêmico, e não só em língua materna, mas em língua estrangeira também, acompanhado das palavras-chave nos dois idiomas. Observe que o exemplo 4, a seguir, é o resumo do artigo cujo cabeçalho foi apresentado no exemplo anterior. 11 Leitura e Produção de Textos A10 Exemplo 4 RESUMO Este trabalho tem como tema o fenômeno da mobilidade urbana e sua importância para a inclusão social na sociedade contemporânea. Tem como referência de análise a localidade de Cidade Praia, situada no bairro Lagoa Azul, Natal – RN. É um dos bairros mais populosos da cidade e predomina a função residencial, uma vez que o setor produtivo local não absorve a demanda de mão-de-obra existente, fazendo com que a população economicamente ativa se desloque, diariamente, para outras áreas que apresentam maior dinamismo econômico. Nesse sentido, foi realizada pesquisa de campo cuja análise aponta que a mobilidade urbana não determina a condição de exclusão social de determinado grupo de pessoas, mas se constitui em uma das ferramentas para superação dessa condição. Dessa forma, esta pode ser considerada uma das cinco bases da inclusão social, ou seja, as políticas de inclusão devem agregar além das políticas de emprego e renda, saúde, educação e habitação, uma política de mobilidade urbana para que todos possam ter direito à cidade. PALAVRAS-CHAVE: Mobilidade Urbana, Inclusão Social, Espaço Urbano. FOR THE RIGHT TO GO AND TO COME IN THE CITY: URBAN MOBILITY AND SOCIAL INCLUSION IN CIDADE PRAIA – NATAL/RN ABSTRACT This work has as subject the phenomenon of urban mobility and its importance for the social inclusion in the contemporary society. Has as analysis reference the locality of Cidade Praia, situated in the district Lagoa Azul, Natal – RN. It is one of the district most populous of the city were predominates the residential function, a time that the local productive sector does not absorb the demand of existing workforce, making with that the economically active population if dislocates, daily, for other areas that present greater economic dynamism. In this direction, fi eld research was carried through whose analysis points that urban mobility does not determine the condition of social exclusion of determined group of people, but if constitutes in one of the tools for overcoming of this condition. In way that this can be considered one of the fi ve bases of the social inclusion, so the inclusion politics must add beyond the politics of job and income, health, education and habitation, one politics of urban mobility so that all can have right to the city. KEY WORDS: Urban Mobility, Social Inclusion, Urban Space. 12 Leitura e Produção de Textos A10 Observe que a revista apresenta os resumos em língua materna e em língua estrangeira, ambos acompanhados das palavras-chave, os termos ou expressões mais relevantes para a compreensão do artigo. Observe ainda que a partir da leitura do resumo, pode- se identifi car não só o objeto de estudo do artigo, mas a metodologia empregada na pesquisa e os resultados alcançados. Corpo do artigo Trata-se do artigo propriamente dito, com aquela estrutura apresentada anteriormente: introdução; desenvolvimento; conclusão. Elementos pós-textuais É tudo o que vem após o corpo do texto: Referências: com a listagem, de acordo com a ABNT, de tudo o que foi pesquisado para a elaboração do artigo: livros, cd-roms, sites etc. Apêndices ou anexos (quando houver necessidade): documentos a que o autor faça referência ao longo do artigo e cuja leitura pode ser importante para o leitor. Agradecimentos (opcional). Data (local, mês e ano de elaboração do texto). Conteúdo de um artigo científi co O conteúdo de um artigo científi co pode abranger os mais variados assuntos, das mais variadas áreas. Em geral, apresenta abordagens novas, atuais, diferentes sobre o tema em estudo. Assim, ele pode tratar de: Estudo pessoal, descoberta, ou enfoque contrário ao já estabelecido para um determinado assunto. Soluções para questões controvertidas. Aspectos levantados em alguma pesquisa. Da mesma forma que qualquer outro texto de caráter técnico, científi co ou acadêmico, um artigo científi co deve apresentar uma linguagem clara, concisa, objetiva. O autor Responda aqui 3Praticando... 13 Leitura e Produção de Textos A10 deve primar pelo uso de uma linguagem correta e simples. Adjetivos supérfl uos, rodeios, repetições ou explicações desnecessárias devem ser evitados, assim como um texto excessivamente fragmentado. Bem, paramos por aqui a nossa discussão sobre artigos científi cos, mas esta aula ainda não terminou. Você vai estudar, como último assunto, a forma e a organização dos relatórios. Visite um periódico científi co, sugerimos a revista Holos, por exemplo, que é acessível a partir do link http://www2.ifrn.edu.br/ojs/index.php/HOLOS. Você também pode acessá-la entrando no sítio do IFRN: http://www.ifrn.edu.br/. Nesse sítio você pode digitar o nome da revista no instrumento de busca e ele levará você a links para os números mais recentes. Escolha um artigo científi co de sua preferência e identifi que nele as partes que o compõem: elementos pré-textuais, corpo de texto e elementos pós-textuais. O que ele contém? O que ele não contém? 14 Leitura e Produção de Textos A10 Relatórios Existem inúmeros tipos de relatórios, dependendo da situação, relatórios de visitas técnicas, por exemplo, são elaborados por um técnico após visita a um determinado local, para inspeção, ou análise de algum dado, por exemplo. Odacir Beltrão (1998) enumera, entre outros, os seguintes tipos de relatórios: Relatório de gestão anual Elaborados anualmente (em geral, um ano civil, fi scal, fi nanceiro) nas empresas, é exigido por lei ou estatuto, sendo destinado aos sócios acionistas ou à população (no caso das empresas estatais). Relatório de inquérito (policial, administrativo etc.) Elaborado, eventualmente, para fi ns de investigação, de estudo de normas de procedimento, de relato, de visita. Relatório parcial Elaboração para abranger uma fração de exercício ou de gestão (mensal, trimestral, semestral). Relatório de rotina Elaborado em função da rotina de trabalho de gerência, chefi a e equivalentes. Relatório de pesquisa Elaborado por profi ssional técnico ou científi co, ao fi nal da pesquisa (seja ela bibliográfi ca, de laboratório, campo, gabinete etc.). Relatório científi co Elaborado por pesquisadores, em função de atividades acadêmicas ou para divulgação em revistas científi cas. Relatório de estágio E há, por fi m, um que talvez diga mais respeito à sua situação de aluno: nele você irá demonstrar o desenvolvimento de seu estágio em uma determinada empresa ou instituição. 15 Leitura e Produção de Textos A10 De um modo geral, podemos dizer que todos os tipos de relatório são escritos com os objetivos de: divulgar os dados técnicos obtidos e analisados; registrá-los em caráter permanente. Fases de elaboração de um relatório Geralmente a elaboração do relatório passa pelas seguintes fases: a) Plano inicial: determinação da intenção do relatório, o que signifi ca a determinação do tipo de relatório a ser elaborado, preparação do relatório e do programa de seu desenvolvimento. b) Coleta e organização do material: durante a execução do trabalho, é feita a coleta, a ordenação e o armazenamento do material necessário ao desenvolvimento do relatório. c) Redação: um relatório é sempre escrito após uma determinada experiência, o que implica que ele se debruça sobre um determinado local, aspecto, sobre uma determinada pesquisa etc. Trata, portanto, de algo que já ocorreu, por isso, a redação poderá utilizar verbos no pretérito. Recomenda-se sempre, após a redação, uma revisão crítica do relatório, considerando- se os seguintes aspectos: redação (conteúdo e estilo), sequência das informações, apresentação gráfi ca e física. Só então ele estará pronto para ser entregue. Estrutura do relatório técnico-científi co Os relatórios técnico-científi cos constituem-se dos seguintes elementos: Capa nome da organização responsável, com subordinação até o nível da autoria; título; 16 Leitura e Produção de Textos A10 subtítulo, se houver; local; ano de publicação, em algarismo arábico. Exemplo 5 INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA CURSO TÉCNICO DE NÍVEL SUBSEQUENTE DISCIPLINA: LEITURA E PRODUÇÃO DE TEXTOS TÍTULO DO TRABALHO AUTOR - BOLSISTA ORIENTADOR MODALIDADE LOCAL MÊS/ANO 17 Leitura e Produção de Textos A10 Falsa folha de rosto Precede a folha de rosto. Deve conter apenas o título do relatório. Ve rso da falsa folha de rosto Nessa folha elabora-se padronizadamente, a “fi cha catalográfi ca”. Essa fi cha, como o próprio nome já diz, é a catalogação de seu trabalho a partir de normas de bibliotecas, por isso, é preciso solicitar o auxílio ao bibliotecário da sua área para a confecção da fi cha. Errata Lista de erros tipográfi cos ou de outra natureza, com as devidas correções e indicação das páginas e linhas em que aparecem. É geralmente impressa em papel avulso ou encartado, que se anexa ao relatório depois de impresso. Folha de rosto É a fonte principal de identifi cação do relatório, devendo conter os seguintes elementos: a) nome da organização responsável, com subordinação até o nível de autoria; b) título; c) subtítulo, se houver; d) nome do responsável pela elaboração do relatório; e) local; f) ano da publicação em algarismos arábicos. Sumário É a relação dos capítul os e seções no trabalho, na ordem em que aparecem. Não deve ser confundido com: a) índice: relação detalhada dos assuntos, nomes de pessoas, nomes geográfi cos e outros, geralmente em ordem alfabética; b) resumo: apresentação concisa do texto, destacando os aspectos de maior interesse e importância; c) listas: é a enumeração de apresentação de dados e informação (gráfi cos, mapas, tabelas) utilizados no trabalho. 18 Leitura e Produção de Textos A10 Listas de tabelas, ilustrações, abreviaturas, siglas e símbolos Listas de tabelas e listas de ilustrações são as relações das tabelas e ilustrações na ordem em que aparecem no texto. As listas têm apresentação similar à do sumário. Quando pouco extensas, as listas podem fi gurar sequencialmente na mesma página. Resumo É a apresentação concisa do texto, destacando os aspectos de maior importância e interesse. Como você já sabe desde a aula 8, o resumo não deve ser confundido com sumário, que é uma lista dos capítulos e seções. No sumário, o conteúdo é descrito por títulos e subtítulos, enquanto no resumo, que é uma síntese, o conteúdo é apresentado em forma de texto. Texto Parte do relatório em que o assunto é apresentado e desenvolvido. Conforme sua fi nalidade, o relatório é estruturado de maneira distinta. O texto dos relatórios técnico- científi cos contém as seguintes seções fundamentais: a) Introdução: parte em que o assunto é apresentado como um todo, sem detalhes. b) Desenvolvimento: parte mais extensa que visa a comunicar o assunto propriamente dito. Nessa p1. Deve-se incluir a análise crítica do trabalho realizado durante o estágio. 2. Deve-se enfatizar: as tecnologias com as quais o aluno se deparou no estágio; se o aluno tinha uma boa base nos conhecimentos prévios que o estágio pressupunha; se o que foi aprendido no estágio foi positivo para a formação do aluno e se terá impacto tanto nas disciplinas que o aluno está cursando, bem como naquelas que ainda irá cursar; a metodologia de desenvolvimento dos projetos no estágio (colaborativa ou não, ferramentas de projeto utilizadas etc.); a ambientação profi ssional, social e humana do aluno no estágio. c) Resultados e conclusões: consistem na recapitulação sintética dos resultados obtidos, ressaltando o alcance e as consequências do estudo. d) Recomendações: contêm as ações a serem adotadas, as modifi cações a serem feitas, os acréscimos ou supressões de etapas nas atividades. 19 Leitura e Produção de Textos A10 Corpo do relatório O corpo é a parte mais extensa do trabalho e relata o desenvolvimento das ideias da introdução. Aqui se incluem: assunto; objeto a ser tratado; as preocupações que motivaram o trabalho; a metodologia da sequência de exposição; a construção de argumentos e objetivos; a descrição de métodos e técnicas usados; a análise e interpretação dos dados; a explicação de conceitos e noções; conclusões; anexos; bibliografi a. Anexo (ou Apêndice) É a matéria suplementar, tal como leis, questionários, estatísticas, que se acrescenta a um relatório como esclarecimento ou documentação, sem dele constituir parte essencial. Os anexos são enumerados com algarismos arábicos, seguidos do título. Exemplo 6 ANEXO 1 - FOTOGRAFIAS ANEXO 2 – QUESTIONÁRIOS Referências É, da mesma forma que no artigo científi co, a relação das fontes bibliográfi cas utilizadas pelo autor. Todas as obras citadas no texto deverão obrigatoriamente fi gurar nas referências. A padronização das referências é seguida de acordo com a NBR-6023/ ago.1989 da ABNT. 20 Leitura e Produção de Textos A10 A redação do relatório Normalmente, em um relatório, são usadas várias sequências textuais, mas, principalmente: a descrição (de objetos, de procedimentos, de fenômenos), a narração (de fatos ou ocorrências) e a dissertação (explanação didática, argumentação). É evidente que a redação deve ser clara, coerente e pautar-se pelo uso da norma culta escrita. A linguagem usada normalmente é formal, mas há exemplos de relatórios em que a criatividade estilística rompe a rotina e o estereótipo, como o que foi escrito por Graciliano Ramos, quando era prefeito de Palmeira dos Índios (1928) e do qual transcrevemos um fragmento: Exemplo 7 Exmo. Sr. Governador: Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeiras dos Índios em 1928. Não foram muitos, que os nossos recursos são exíguos. Assim minguados, entretanto, quase insensíveis ao observador afastado, que desconheça as condições em que o Município se achava, muito me custaram. COMEÇOS O PRINCIPAL, o que sem demora iniciei, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração. Havia em Palmeira inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o comandante do destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com prefeitos, coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões. Os fi scais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam. Para que semelhante anomalia desaparecesse lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela - dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro. Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos: saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se metem onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles. Não sei se a administração do Município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior. Fonte: <http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=redacao/correspondencias/docs/relatorio>. Acesso em: 6 mar. 2009. 4Praticando... 21 Leitura e Produção de Textos A10 Curiosamente, foi a leitura desses relatórios elaborados pelo então prefeito Graciliano Ramos que fez com que um editor e também escritor, Augusto Frederico Schmidt, reconhecesse neles o talento de escritor de literatura. Depois esse mesmo editor descobre que o prefeito possuía guardado o original do que viria a ser o seu primeiro romance, “Caetés” (1933). Observe no fragmento exposto no exemplo 6, a linguagem formal (Exmo. Sr. Governador), além da correção linguística e do uso constante do pretérito perfeito: “não foram muitos...” ou “ muito me custaram...” e do pretérito imperfeito: “havia”, “resolviam”. Observe também algo que foge à natureza mais formal do relatório: o uso de fi guras de linguagem como metáforas (“uma resistência mole, suave, de algodão em rama”) que dão a esse relatório um caráter mais literário. 1. Enumere quatro tipos de relatórios e o que os diferencia. 2. Quais são as partes que compõem um relatório? 3. Que informações o resumo de um artigo científi co deve conter? Leitura complementar MACHADO, Anna Rachel (Coord.). Planejar gêneros acadêmicos. São Paulo: Parábola Editorial, 2005. Esse livro é bastante útil para treinar a elaboração de gêneros de natureza técnica, científi ca e acadêmica, pois proporciona uma série de exercícios que partem das etapas mais simples às mais complexas no exercício de escrita desses gêneros textuais. Autoavaliação 22 Leitura e Produção de Textos A10 Nesta aula, estudamos dois gêneros textuais de caráter técnico, científi co e acadêmico: o artigo científi co e o relatório. Vimos as partes que compõem cada um desses gêneros, os seus diferentes tipos e a natureza da linguagem que deve ser utilizada na sua elaboração, assim como identificamos a necessidade de sua adequação às normas da ABNT. Elabore um relatório breve acerca de uma experiência prática que você tenha vivido ao longo de seu curso. Procure seguir as orientações apresentadas nesta aula. Referências ASSUNÇÃO, Juciara Conceição de Freitas; ARAÚJO, Maria Cristina Cavalcanti. Pelo direito de ir e vir na cidade: mobilidade urbana e inclusão social em Cidade Praia – Natal/RN. Holos, ano 24, v. 1, p. 48 - 74, 2008. BELTRÃO. Odacir. Correspondências. 16. ed. São Paulo: Atlas, 1998. CAVALCANTE, Ilane Ferreira. O romance da Besta Fubana: ou festa, utopia e revolução no interior do Nordeste. Recife: Bagaço, 2008. LAURENTINO, André. A lua da Língua. In: CAMPOS, Carmen Lucia; SILVA, Nilson Joaquim (Coord.). Lições de gramática para quem gosta de literatura. São Paulo: Panda Books, 2007. MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos de metodologia científi ca. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2006. MOTTA, T. V. T; HESSELN, L. G.; SILVESTRI, G. Normas técnicas para apresentação de trabalhos científi cos. 3. ed. Caxias do Sul: EDUCS, 2004. Anotações 23 Leitura e Produção de Textos A10 Anotações 24 Leitura e Produção de Textos A10 leitura_producao_texto_01 leitura_producao_texto_02 leitura_producao_texto_03 leitura_producao_texto_04 leitura_producao_texto_05 leitura_producao_texto_06 leitura_producao_texto_07 leitura_producao_texto_08 leitura_producao_texto_09 leitura_producao_texto_10