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6 - ESCOLA DA AGU - CORTES INTERNACIONAIS

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Publicações da Escola da AGU 
Publicações da 
Escola da AGU Brasília v. 10 n. 01 p. 1-384 jan./mar. 2018
volume 10 - n. 01 - Brasília-DF, jan./mar. 2018
ISSN-2236-4374
Publicações da Escola da AGU 
II Curso Cortes Internacionais e 
Constituições: princípios, modelos e 
estudo comparado
Os conceitos, as informações, as indicações de legislações e as opiniões expressas nos artigos 
publicados são de responsabilidade exclusiva de seus autores.
 
 Brasília: EAGU, 2012. mensal.
A partir do ano III, n. 8 passou a ser periódico bimestral, a partir do ano IV, nº 14 
periodicidade mensal e a partir do ano VII v. 39 periodicidade trimestral.
A partir de 2016, houve alteração no número dos exemplares. A Revista receberá 
numeração 1-4 em todos os volumes subsequentes.
ISSN 2236-4374
1 - Direito Público - Artigos - Brasil I. Título. II. Série.
CDD 340 . 5
CDU 34 (05)
Publicações da Escola da AGU
Escola da Advocacia-Geral da União
Ministro Victor Nunes Leal
SIG - Setor de Indústrias Gráficas, Quadra 06, lote 800
CEP 70610-460 – Brasília – DF Telefones (61) 2026-7368 e 2026-7370
e-mail: eagu.secretaria@agu.gov.br
ADVOGADA-GERAL DA UNIÃO 
Ministra Grace Maria Fernandes Mendonça
ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO - SUBSTITUTO
Paulo Gustavo Medeiros Carvalho
DIREÇÃO GERAL DA AGU
 Paulo Gustavo Medeiros Carvalho Secretário-Geral de Consultoria
 Izabel Vinchon Nogueira de Andrade Procuradora-Geral da União
 Fabrício da Soller Procurador-Geral da Fazenda Nacional
 Marcelo Augusto Carmo de Vasconcellos Consultor-Geral da União
 Cleso José da Fonseca Filho Procurador-Geral Federal
 Isadora Maria Belem Rocha Cartaxo de Arruda Secretária-Geral de Contencioso
 Altair Roberto de Lima Corregedor-Geral da Advocacia-Geral da União
 Cristiano de Oliveira Lopes Cozer Procurador do Banco Central
 Maria Aparecida Araújo de Siqueira Secretária-Geral de Administração
 Francis Christian Alves Scherer Bicca Ouvidor-Geral da Advocacia-Geral da União
ESCOLA DA AGU
 Diogo Palau Flores dos Santos Diretor
 Douglas Henrique Marin dos Santos Coordenador-Geral de Ensino 
 Eduardo Fernandes de Oliveira Coordenador-Geral Administrativo
EDITOR RESPONSÁVEL
Diogo Palau Flores dos Santos
CONSELHO EDITORIAL
Douglas Henrique Marin dos Santos: Escola da AGU Ministro Víctor Nunes Leal
Adriano SantAna Pedra: Procuradoria Federal do Espírito Santo
Carlos Marden Cabral Coutinho: Procuradoria Federal de Minas Gerais
Karine de Aquino Câmara: Procuradoria Federal do Pará
 Diagramação/Capa: Niuza Lima/Gláucia Pereira 
Sumário
Apresentação .......................................................................................................... ..........7
Irretroatividade dos Efeitos da Nova Jurisprudência sob a Ótica da 
Corte Europeia de Direitos Humanos
Non-retroactivity of the New Case law From the Point of iew of the European 
Court of Human Rights
Adriano Sant’Ana Pedra
Gustavo Cabral Vieira ....................................................................................................... 9
Aspectos do Controle Concorrencial na União Europeia e no Brasil
Aspects of Competition Control in the European Union and in Brazil
Ana Claudia Ferreira Pastore
Fábia Mara Felipe Belezi ..............................................................................................25
A Corrupção Sistêmica como Grave Ofensa aos Direitos Humanos
Systemic Corruption as a Serious Violation of Human Rigths
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara
Murilo Strätz ...................................................................................................................41
O Tribunal de Justiça da União Européia e a Aplicabilidade do Direito 
Comunitário em Âmbito Interno
The European Union Court of Justice and the Aplicability of the Community Law
Carlos Marden
Adriana Albuquerque .......................................................................................................57
O Direito Fundamental à Previdência Social à Luz da Jurisprudência 
da Corte Europeia de Direitos Humanos
The Fundamental Right to Social Security Under the Jurisprudence of the 
European Court of Human Rights
Carmen Silvia Arrata
Juliana Munhoz da Cunha Marques .............................................................................71
Representatividade de Gênero e Composição dos Tribunais no Cenário 
Internacional
Representativeness on Gender Equality and Composition in Courts on the 
International Scenery
Clara Marcelle Alves Meneses
Natalia de Melo Lacerda ................................................................................................85
Precedentes Judiciais no Sistema Constitucional Brasileiro: direito 
romano-germânico e common law em crescente aproximação
Judicial Precedents in the Brazilian Constitutional System: the increasing approach 
of the roman-german law and the common law
Daniela Gonçalves de Carvalho
Marcus Vinicius de Albuquerque Portella ....................................................................101
O Posicionamento da Corte Europeia de Direitos Humanos sobre a 
Violação ao Princípio da Duração Razoável do Processo
The position of the European Court of Human Rights about the Principle of 
Reasonable duration of the Proceedings
Denise Oliveira Floriano De Lima ..............................................................................113
O “Rule of Law” no Estado Islâmico: “Sharia” 
Islamic State’s Rule of Law: ‘Sharia’
Diego Calandrelli ...........................................................................................................127
Breve Paralelo Entre a Corte Constitucional Italiana e oTribunal 
Constitucional Federal Alemão 
A Brief Comparison Between Italian Constitutional Court and German Federal 
Constitutional Court
Elise Mirisola Maitan ...................................................................................................141
A Implementação de Políticas Públicas em Decorrência das Decisões 
dos Sistemas Regionais Europeu e Interamericano de Direitos 
Humanos
The Implementation of Public Policies as a Result of the Decisions of 
the European and Inter-American Regional Systems for the Protection of 
Human Rights
Fabiana Guancino Persicotti
Natalya Maria Sales Caboclo .......................................................................................155
Os Subsistemas Internacionais de Proteção de Direitos Humanos no 
Âmbito da Europa e das Américas como Mecanismos de Promoção e 
Proteção Multinível dos Direitos Humanos
International Subsystems for Protection of Human Rights in Europe and Americas 
as a Promotion and Multilevel Protection Mechanisms of Human Rights
Fátima Sibelli Monteiro Nascimento Santos
Geruza Ribeiro do Espírito Santos ..............................................................................171
A Suprema Corte Americana e o Writ of Certiorari
The Supreme American Court and the Writ of Certiorari 
Fernanda Mattar Furtado Suriani .............................................................................187
Cortes Constitucionais e Votos Divergentes (“Dissenting Opinions”): 
em direção a uma corte mais democrática e transparente?
Constitutional Courts and Dissenting Opinions: towards a more democratic and 
accountable court?
Flávio Novaes Outani ...................................................................................................207
A Democratização da Jurisdição Constitucional enquanto Proteção 
dos Direitos Fundamentais no Século XXI
The Democratization of Constitutional Jurisdiction While Protection of 
Fundamental Rights in the 21St Century
Herta Rani Teles Santos
José Péricles Pereira de Sousa .......................................................................................223
O Acesso às Cortes Internacionais de Direitos Humanos: um 
comparativo entre a Corte Interamericana e a Corte EuropeiaThe Access to International Courts of Human Rights: a comparative between 
Inter-American Court and European Court 
Izabel Dourado de Medeiros ........................................................................................239
Controvérsias Jurídicas acerca da Compatibilidade do Tribunal Penal 
Internacional com a Constituição Brasileira 
Legal Disputes Regarding the Compatibility of the International Criminal Court 
with the Brazilian Constitution
Juliano Fernandes Escoura ...........................................................................................249
Algumas Implicações Globais Decorrentes do Papel Efetivador de 
Direitos Humanos/Fundamentais das Cortes Internacionais
Some Global Implications Arising Out of the Role of Human Rights/
Fundamental Rights of International Courts
Juliano Ribeiro Santos Veloso .......................................................................................265
Desafios na Aplicação do Direito Ambiental no Sistema Jurídico 
Europeu
Challenges in the Application of Environmental Law in the European Legal System
Karine de Aquino Câmara
Larissa Suassuna Carvalho Barros .............................................................................279
A Corrupção e os Seus Instrumentos de Combate no Âmbito da União 
Europeia
Corruption and the Instruments to Combat it Within the European Union
Larissa Cavalcante Teixeira
Luiza Eunice Barbosa Godê de Vasconcelos ................................................................295
A Adoção das Sentenças Piloto pela Corte Europeia de Direitos 
Humanos: uma abordagem comparativa
The Use of the Pilot Judgments for the European Court of Human Rights: the 
comparative approach
Lívia Gervásio Braga
Tahiana Viviani Viera ..................................................................................................309
Ålands Vindkraft Ab Contra Energimyndigheten: estudo de caso à luz 
do princípio da segurança jurídica
Ålands Vindkraft Ab Vs. Energimyndigheten: case study considering the principle 
of legal certainty
Lúcia Penna....................................................................................................................321
Direito Comunitário, Direito Internacional Clássico e a Primazia do 
Direito Supranacional Sobre a Legislação Nacional da União Europeia
Community Law, Classic International Law And The Primacy Of Supranational 
Law In European Union
Pedro Alexandre Menezes Barbosa
Ricardo Macedo Duarte ................................................................................................331
Da Análise Comparada entre o Instituto Europeu Denominado 
Preliminary Ruling e o Incidente de Resolução de Demandas 
Repetitivas
Comparative Analysis of the European Preliminay Ruling Doctrine and the 
Incidentes of Resolution of Recurring Complaints
Nick Simonek Maluf Cavalcante
Luiz Augusto de Mello Carvalho .................................................................................343
Efetivação de Direitos Humanos na Regularização Fundiária 
Quilombola
Effectiveness of Human Rights in Quilombola Land Regularization
Sávia Maria Leite Rodrigues
Mariney de Barros Guiguer ..........................................................................................359
Direitos Humanos e Notas Sobre a Corte Européia de Direitos 
Humanos
Rights Human and Notes About the European Court of Human Rights
Vanessa Viana Ribeiro ...................................................................................................375
APRESENTAçãO
Em julho de 2017, a Escola da Advocacia-Geral da União realizou 
o II Curso “Cortes Internacionais e Constituições: princípios, modelos 
e estudo comparado” em parceria com a Universidade de Roma X – 
Tor Vergata. Durante 02 (duas) semanas, dezenas de membros das 
várias carreiras da Advocacia-Geral da União (entre Advogados da 
União, Procuradores da Fazenda Nacional e Procuradores Federais) 
participaram das atividades acadêmicas relacionadas ao programa.
A primeira semana do curso foi dedicada às aulas de conteúdo 
relacionado ao Direito Constitucional e ao Direito Comunitário 
Europeu, oportunidade na qual os participantes tiveram a oportunidade 
de conhecer melhor como funciona o sistema constitucional italiano e 
especialmente o projeto da União Europeia, com foco na questão dos 
direitos humanos e fundamentais. Esse primeiro momento foi concluído 
com uma visita institucional à Embaixada do Brasil em Roma e ao órgão 
responsável pela Advocacia Pública italiana.
A segunda semana do curso foi dedicada a visitar uma série 
de países europeus, com o propósito de conhecer melhor as Cortes 
envolvidas no projeto. Neste momento, os participantes tiveram 
a oportunidade de visitar a Corte Europeia de Direitos Humanos 
(Estrasburgo); a Corte Europeia de Justiça (Luxemburgo); e a Corte 
Constitucional Alemã (Karlsruhe). Todas as visitas foram destinadas 
a audiência de julgamentos e/ou ao contato com juízes e responsáveis 
diretamente pelas atividades das instituições em questão.
Durante essas 02 (duas) semanas, os membros da Advocacia-
Geral da União participantes do curso “Cortes Internacionais e 
Constituições: princípios, modelos e estudo comparado” tiveram a 
oportunidade de expandir seus conhecimentos, por meio não apenas 
das aulas, mas especialmente do diálogo com professores e colegas, 
além do incomparável valor de visitar as instituições diretamente. Uma 
experiência única que certamente marcou a carreira acadêmica de cada 
um dos participantes do projeto.
Tais carreiras acadêmicas, inclusive, foram responsáveis por 
possibilitar que cada participante utilizasse os conhecimentos do curso 
para ampliar as pesquisas de sua área de especialidade, buscando sempre 
a aplicação teórico-prática do conteúdo aprendido e das experiências 
vividas. O resultado de tais pesquisas qualificadas foi a produção de uma 
série de artigos, os quais estão reunidos no presente volume, perfazendo 
uma valiosa documentação dos resultados do projeto.
O curso “Cortes Internacionais e Constituições: princípios, 
modelos e estudo comparado” foi uma grande oportunidade para os 
membros da Advocacia-Geral da União expandirem seus conhecimentos 
para além das fronteiras típicas de sua atividade funcional. Segue-se uma 
amostra de como a experiência nos possibilitou a ampliação de nossos 
horizontes acadêmicos e profissionais.
Adriano Pedra
Carlos Marden
Karine Aquino
9
IRRETROATIVIDADE DOS EFEITOS DA 
NOVA JURISPRUDêNCIA SOB A ÓTICA 
DA CORTE EUROPEIA DE DIREITOS 
HUMANOS
NON-RETROACTIVITy OF THE NEW CASE LAW FROM THE 
POINT OF VIEW OF THE EUROPEAN COURT OF HUMAN 
RIGHTS
Adriano Sant’Ana Pedra
Procurador Federal
Doutor em Direito Constitucional (PUC/SP)
Professor da Faculdade de Direito de Vitória - FDV
Gustavo Cabral Vieira
Procurador Federal
SUMÁRIO: Introdução; 1 A interpretação das normas 
convencionais e o caso concreto; 2 Interpretação 
evolutiva e previsibilidade do Direito; 3 Evolução da 
jurisprudência da Corte Europeia de Direitos Humanos: 
estudo de casos; 3.1 O caso “C. R. v. Reino Unido”; 
3.2 O caso “Del Río Prada v. Espanha”; 4 Abordagem 
comparativa; 5 Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 10
RESUMO: Trata-se de estudo com o objetivo de analisar o entendimento 
da Corte Europeia de Direitos Humanos acerca da previsibilidade do 
Direito e da retroatividade da nova jurisprudência do tribunal. Aborda-se 
a interpretação do Direito no caso concreto e a evolução da jurisprudência 
e previsibilidade do Direito para, na sequencia, apresentar estudo de 
casos da CEDH comparando-os com casos jugados pela Suprema Corte 
brasileira e pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
PALAVRAS-CHAVE: Corte Europeia. Direitos Humanos. Previsibilidade 
de Direito. Retroatividade de Nova Jurisprudência. Estudo de Casos. 
EstudoComparado. 
ABSTRACT: The aim of this study is to analyze the European Court 
of Human Rights’s understanding of the predictability of the law and 
the retroactivity of the new case law of the court. The interpretation 
of the Law in the specific case and the evolution of the jurisprudence 
and predictability of the law to follow are presented in a case study of 
the ECHR comparing them with cases played by the Brazilian Supreme 
Court and the Inter-American Court of Human Rights.
KEYWORDS: European Court. Human Rights. Predictability of Law. 
Retroactivity of New Case Law. Case Study. Comparative Study.
Adriano Sant’Ana Pedra 
Gustavo Cabral Vieira 11
INTRODUÇÃO
Cada vez mais tem crescido a demanda das cortes internacionais de 
direitos humanos na defesa de tais direitos nas mais diversas situações nas 
quais as pessoas não obtiveram a devida proteção do sistema interno do seu 
país de origem.
Este estudo objetiva analisar o entendimento da Corte Europeia de 
Direitos Humanos acerca da previsibilidade do Direito e da retroatividade da 
nova jurisprudência do tribunal. Para tanto, o estudo traz um embasamento 
jurídico do tema tratado e demonstra o posicionamento da Corte Europeia de 
Direitos Humanos – CEDH em casos concretos relevantes.
A pesquisa apoia-se na doutrina concernente à hermenêutica 
jurídica para, então, apreciar dois casos identificados pelo estudo como 
pontos chave para analisar o entendimento da Corte Europeia de Direitos 
Humanos acerca da previsibilidade do Direito e da retroatividade da nova 
jurisprudência do tribunal. Por fim, abordam-se casos pertinentes de 
mesma temática que foram julgados pelo Supremo Tribunal Federal e 
pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
1 A INTERPRETAÇÃO DAS NORMAS CONVENCIONAIS E O CASO 
CONCRETO
A abertura de normas convencionais, vale dizer, normas com pouca 
densidade normativa, é uma das características das sociedades complexas 
(PEDRA, 2011b, p. 227-244), porque, diante da multiplicidade dos problemas 
que podem surgir, uma Convenção procura abarcar as demandas de diferentes 
nações além de buscar soluções para acompanhar este casuísmo problemático, 
e, por isso, o conteúdo dessas normas necessita ser objeto de concretização.
Enquanto, na hermenêutica tradicional, a interpretação era compreendida 
apenas como a descoberta do sentido do texto normativo, na concretização “o 
processo interpretativo não é apenas cognitivo, mas fundamentalmente volitivo, 
criativo” (TAVARES, 2006, p. 60). Neste sentido, o direito é essencialmente 
voluntarista, ou seja, necessita da vontade do intérprete (BASTOS, 2002, p. 47).
Assim, o texto normativo previamente dado não constitui a norma 
jurídica, mas apenas constitui o ponto de partida para sua construção ante o 
caso concreto (ADEODATO, 2006, p. 214). Por isso, deve-se distinguir o papel 
desempenhado pelo legislador, que cria (ou reforma) o texto normativo, do 
papel que assume o intérprete do texto normativo de produzir as suas normas. 
Isto ocorre porque, no método hermenêutico concretizador, o papel 
do intérprete não é o de desvelar o “sentido oculto” do texto normativo, 
mas sim o de criar a norma a ser aplicada em uma situação concreta. 
Publicações da Escola da AGU 12
O caráter aberto e amplo de uma Convenção exige maior atenção com 
a sua interpretação (PEDRA, 2011a, p. 3-19). A hermenêutica ensina que as 
diretivas de ação e as proposições valorativas, contidas nos preceitos jurídicos, só 
podem ser compreendidas e inteligidas quando aplicadas a situações concretas 
(QUEIROZ, 2000, p. 151). A interpretação é fundamental, pois, em razão do 
caráter aberto e amplo da Convenção, os problemas de interpretação surgem 
com maior frequência neste do que em outros setores do ordenamento jurídico 
cujas normas são mais detalhadas (HESSE, 1992, p. 34).
Dessa forma, é importante estabelecer a distinção existente entre 
texto normativo e norma (PEDRA, 2011c, p. 15-35). Para que a Convenção 
seja aplicada, é necessário fazer a interpretação do seu texto normativo, a 
partir de onde será extraída a norma jurídica (PEDRA, 2011a, p. 3-19), ou 
seja, as normas resultam da interpretação dos textos normativos.
O texto constitui o ponto de partida para a formação das significações 
e, ao mesmo tempo, para a referência aos entes significados. Em um sistema 
de signos, a decodificação tomará por base o texto, e o desenvolvimento 
hermenêutico fixará nessa instância material o apoio de suas construções 
(CARVALHO, 2006, p. 17). As normas resultam da interpretação dos textos e 
interpretar é atribuir valores aos símbolos, isto é, adjudicar-lhes significações 
e, por meio destas, referências a objetos (CARVALHO, 2006, p. 62).
A norma é construída pelo intérprete no decorrer do processo de 
concretização do direito. Dessa forma, não há como isolar a norma de sua 
concretização. “Concretização da norma é construção da norma” (MÜLLER, 
2008, p. 231). A norma jurídica só se movimenta ante um fato concreto, 
pela ação do aplicador do direito, que é o intermediário entre a norma 
e os fatos da vida. Por outro lado, o intérprete não pode dar sentidos de 
forma arbitrária aos textos, pois texto e norma não estão separados. Texto 
normativo e norma são coisas distintas, mas não separadas – no sentido 
de que um possa existir sem o outro. E, também por isso, um não contém 
o outro (STRECK, 2004, p. 130).
2 INTERPRETAÇÃO EVOLUTIVA E PREVISIBILIDADE DO DIREITO
A realidade fática e a realidade normativa encontram-se em uma 
relação de reciprocidade (BASTOS e MEyER-PFLUG, 2007, p. 150), 
e não é possível separá-las, pois se encontram mutuamente imbricadas. 
O texto normativo é composto por palavras, cujos significados não são 
únicos, e ainda são cambiantes com o passar do tempo. Daí a importância de 
compreender que toda interpretação ocorre em um determinado contexto, 
que não pode ser desconsiderado. Em verdade, não há texto sem contexto. 
O texto normativo e a realidade social sempre se buscam.
Adriano Sant’Ana Pedra 
Gustavo Cabral Vieira 13
WITTGENSTEIN (2008) mostra que as palavras somente adquirem 
sentido mediante o uso compartilhado, reforçando as noções de historicidade 
e de intersubjetividade. Assim, o compreender é marcado por um contexto 
sócio-histórico, razão pela qual o significado de uma palavra depende do 
sentido que lhe é atribuído no seu uso social. A linguagem real da vida 
abre-se, então, para usos sempre novos e jogos em contínua reformulação.
Segundo CARRIÓ (2006, p. 29), o significado das palavras dá-se em 
função do contexto linguístico em que aparecem e da situação humana na 
qual são usadas. O processo interpretativo implica sempre uma produção de 
sentido a partir da apropriação da tradição pelo intérprete, e a compreensão 
ocorre “a partir da condição de ser-no-mundo do intérprete” (STRECK, 
2004, p. 153-154).
O que se tem é que a verdade humana é datada, precária e 
contextualizada, o que a torna passível de ser modificada. Martin Heidegger 
destaca que o meio no qual o intérprete está inserido será determinante 
na sua compreensão.
O compreender sempre diz respeito a todo o ser-no-mundo. Em todo 
compreender de mundo, a existência também está compreendida e 
vice-versa. Toda interpretação, ademais, move-se na estrutura prévia 
já caracterizada. Toda interpretação que se coloca no movimento de 
compreender já deve ter compreendido o que se quer interpretar 
(HEIDEGGER, 2008, p. 213).
No mesmo sentido, GADAMER anota que as condições existenciais 
do homem determinam como ele interpreta e como convive com o mundo. 
O sujeito apreende o sentido do mundo de acordo com a sua condição 
histórica (1999, p. 415-416).
Daí é relevante considerar a questão da pré-compreensão do 
intérprete. A compreensão é uma atividade referencial, ou seja, ocorre 
através de uma constante referência à nossa experiência. A compreensãoviabiliza-se quando se compara o objeto cognoscível com aquilo que já é 
conhecido pelo indivíduo.
Neste aspecto, QUEIROZ destaca que a tese heideggeriana e gadameriana 
da historicidade da interpretação e da acentuada relação entre a hermenêutica e 
a linguagem – uma importante doutrina filosófica contemporânea – “confirma 
nos teóricos do direito a ideia de que os significados normativos podem 
não apenas variar no tempo como podem ainda ser interpretados de forma 
cambiante e diferenciada” (QUEIROZ, 2000, p. 151).
GRAU (2006, p. 85) vê o conjunto de textos normativos como 
apenas ordenamento em potência, isto é, um conjunto de possibilidades 
Publicações da Escola da AGU 14
de interpretação, um conjunto de normas potenciais. O significado – ou 
seja, a norma – é o resultado da tarefa interpretativa. E diz ainda:
A norma encontra-se, em estado de potência, involucrada no texto. Mas 
ela se encontra assim nele involucrada apenas parcialmente, porque 
os fatos também a determinam – insisto nisso: a norma é produzida, 
pelo intérprete, não apenas a partir de elementos que se desprendem 
do texto (mundo do dever-ser), mas também a partir de elementos do 
caso ao qual será ela aplicada, isto é, a partir de elementos da realidade 
(mundo o ser). (GRAU, 2006, p. 32)
Dessa forma, afirmar que um texto é portador de vários sentidos 
significa que este pode conter várias normas entre as quais o órgão de 
aplicação deverá “escolher” o que aplicar. É nesta “escolha” que tem lugar 
a interpretação e, antes desta, não existe norma, mas apenas um texto 
(QUEIROZ, 2000, p. 108). Por isso é que se nega a existência de uma única 
resposta correta – ou verdadeira – para o caso, mesmo que o intérprete 
esteja vinculado pelo sistema jurídico (GRAU, 2006, p. 40).
E, como a interpretação é uma escolha entre várias opções 
(BASTOS e MEyER-PFLUG, 2007, p. 155), a interpretação só pode 
ser considerada como sendo a mais adequada dentro de um dado contexto. 
Nesse sentido, o caso concreto ganha relevo, pois ref lete uma nova 
situação em que o intérprete jurídico tem que renovar a efetividade da 
norma. Segundo Hans-Georg Gadamer, o intérprete jurídico não pode 
sujeitar-se à intenção dos que elaboraram a lei. “Pelo contrário, está 
obrigado a admitir que as circunstâncias foram sendo mudadas e que, 
por conseguinte, tem que determinar de novo a função normativa da 
lei” (GADAMER, 1999, p. 485).
Isso ocorre porque a interpretação não persegue o sentido, mas um 
dos sentidos, que deverá ser contextualmente possível e adequado. Essa 
possibilidade de múltiplas interpretações viabiliza a evolução da norma 
mesmo que o texto permaneça.
Como as necessidades sociais estão em permanente evolução, o 
texto deve ser interpretado em função das necessidades do momento e 
pode mudar de sentido ao longo do período em que estiver em vigor. Nesta 
perspectiva, o intérprete pode adaptar o texto às necessidades sociais de 
sua época buscando o que seria o pensamento dos legisladores se eles 
estivessem legislando hoje (BERGEL, 2001, p. 118).
Assim, a norma é capaz de se adequar para corresponder às diferentes 
exigências variantes no tempo e produzir efeitos mesmo quando mudarem 
os fatos e os valores em razão dos quais veio à luz. Através da interpretação, 
Adriano Sant’Ana Pedra 
Gustavo Cabral Vieira 15
é possível a adaptação das normas jurídicas às mudanças ocorridas na 
sociedade, à sua natural evolução, ou até mesmo com relação ao surgimento 
de novos valores e ideologias (BASTOS e MEyER-PFLUG, 2007, p. 157). 
A norma mantém-se em permanente evolução para responder às 
novas necessidades, aos novos problemas surgidos em razão dos novos 
tempos, ganhando novos sentidos que o seu elaborador não poderia ter 
previsto. O direito, assim, está estreitamente relacionado ao estado da 
sociedade por ele representada, embora dela se distinga para exercer sua 
tarefa normativa de organizá-la.
Deste modo, o ordenamento jurídico é formado e conformado pela 
realidade (GRAU, 2006, p. 79), é um sistema dinâmico que interage com 
a realidade fática que objetiva regular. As mudanças havidas na sociedade 
interferem no sistema normativo, que deve, por sua vez, acompanhar estas 
transformações. Não é plausível que as normas jurídicas, inclusive as 
normas convencionais, apresentem-se afastadas e defasadas da realidade 
fática (BASTOS e MEyER-PFLUG, 2007, p. 145).
Nesse sentido, a evolução da jurisprudência é importante para o 
equilíbrio entre a dinâmica e a estabilidade, por significar, ao mesmo tempo, 
uma transformação substancial e uma permanência formal. E, como os 
termos são contextualmente utilizados com uma significação alterável, 
a interpretação proporciona a atualização e a vivificação constante do 
sentido de um dispositivo da Convenção.
3 EVOLUÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA DA CORTE EUROPEIA DE DIREITOS 
HUMANOS: ESTUDO DE CASOS
3.1 O caso “C.R. v. Reino Unido” (n. 20190/92)
O primeiro caso interessante a ser abordado é caso “C.R. v. Reino 
Unido” julgado pela Corte Europeia de Direitos Humanos em 22/11/1995. 
O requerente havia sido acusado e condenado pela prática de tentativa de 
estupro e agressão física consumada contra sua esposa, fatos ocorridos 
em novembro de 1989. Eles haviam se casado em 1984 e tiveram um filho 
em 1985, sendo que um mês antes dos fatos ela tinha saído de casa para 
morar com os pais. Ela, inclusive, já havia consultado um advogado sobre 
assuntos matrimoniais e deixou uma carta para o requerente na qual ela 
havia informado que pretendia solicitar o divórcio. No entanto, nada havia 
sido providenciado oficialmente.
Na sua defesa o requerente alegou que o casamento implicava em 
consentimento implícito para manter relações sexuais e que não poderia 
Publicações da Escola da AGU 16
ser acusado de estupro por ser marido da alegada vítima, bem como que 
esse consentimento somente poderia ser revogado sob certas condições, 
utilizando-se como fundamento na jurisprudência até então aplicável que 
é sintetizada na declaração feita por Sir Matthew Hale CJ na History of the 
Pleas of the Crown publicada em 1736 (registro feito no próprio julgado)1. 
A tese de defesa não foi acolhida pelo judiciário nacional, tendo o juiz do 
caso justificado que essa declaração fora feita em termos gerais e em um tempo 
em que o casamento era indissolúvel. Em segundo lugar, o juiz observou 
que era evidente a partir do Acórdão do Tribunal de Recurso no processo 
“R. v. Steele” (1976) que o consentimento implícito poderia ser retirado 
por acordo entre as partes, inclusive que tal acordo poderia claramente ser 
implícito pois não havia nada na jurisprudência para sugerir o contrário. Em 
terceiro lugar, o juiz entendeu que na common law se reconhecia que uma 
retirada de qualquer uma das partes da convivência, acompanhada de uma 
clara indicação de que o consentimento para a relação sexual foi encerrado, 
equivaleria a revogação do consentimento implícito. Ele concluiu que tanto a 
segunda quanto a terceira exceção à imunidade matrimonial contra acusação 
por violação se aplicava ao caso. Após essa decisão do juiz, o requerente se 
declarou culpado de tentativa de estupro e que havia causado ferimentos 
corporais reais, e foi condenado a três anos de prisão.
O recorrente perante a CEDH reclamou que a sua condenação por 
tentativa de violação de sua esposa constituiu uma punição retrospectiva 
em violação ao artigo 7º da Convenção Europeia de Direitos Humanos (a 
Convenção), tendo argumentado que a imunidade matrimonial era aceita 
pela jurisprudência ao tempo do cometimento dos fatos. 
Contudo, a CEDH indeferiu o pleito tendo em vista que o carácter 
essencialmente degradante de estupro é tão evidente que o resultado das 
decisões do Tribunal de Recurso e da Câmara dos Lordes - que o requerente 
poderia ser condenado por tentativa de estupro, independentemente da suarelacionamento com a vítima - não pode ser tido em desacordo com o objeto 
e a finalidade do artigo 7º da Convenção, tendo concluído que era previsível a 
evolução da interpretação, não tendo ocorrido violação à Convenção, inclusive 
a nova interpretação seria condizente com os objetivos fundamentais da 
Convenção e representaria um conceito civilizado de casamento. 
Com isso, verifica-se que o entendimento da CEDH à época era no 
sentido de que não havia óbice à aplicação retroativa de nova interpretação, 
desde que no contexto de observância dos objetivos fundamentais da 
Convenção.
1 “But the husband cannot be guilty of rape committed by himself upon his lawful wife, for by their matrimonial 
consent and contract the wife hath given up herself in this kind unto her husband, which she cannot retract.” 
Adriano Sant’Ana Pedra 
Gustavo Cabral Vieira 17
3.2 O caso “Del Río Prada v. Espanha” (n. 42750/09)
O segundo caso da CEDH emblemático a ser abordado é o Del Río 
Prada contra Espanha. A Sra. Inés Del Río Prada, membro do grupo terrorista 
ETA, estava cumprindo pena de prisão2 em razão de ter cometido diversos 
atos terroristas entre 1982 e 1987, tendo sido condenada a mais de três mil 
anos de prisão pelo conjunto de oito condenações penais entre 1989 e 2000.
Após decisão da Audiencia Nacional3, a mesma fora notificada no 
sentido de que as ligações legais e cronológicas entre as ofensas das 
quais foi condenada tornaram possível agrupá-las em conjunto, tendo se 
fixado em trinta anos o tempo máximo a ser cumprido pela requerente 
em relação às suas penas. 
A questão se tornou mais complexa quando as autoridades prisionais 
apresentaram proposta à Audiencia Nacional no sentido de que a Sra. 
Del Río Prada fosse solta em 02/07/2008 tendo em conta a remissão de 
3.282 dias que ela tinha direito em razão de todo o trabalho que realizou 
desde 1987 quando foi presa. No entanto, em 19/05/2008, a Audiência 
Nacional rejeitou essa proposta e pediu às autoridades da prisão que 
apresentassem uma nova data para a soltura da requerente com base em 
um novo precedente conhecido como “doutrina Parot”4. Assim, por um 
despacho de 23/06/2008, com base numa nova proposta das autoridades 
penitenciárias, a Audiencia Nacional fixou novamente a data para a libertação 
final da requerente em 27/06/2017.
A reclamação apresentada à CEDH em 2009 continha a alegação 
de que a continuidade de sua manutenção na prisão pelas autoridades 
espanholas não era legal e não estava de acordo com procedimento previsto 
em lei, em contrariedade ao artigo 5º § 1º da Convenção Europeia dos 
Direitos do Homem. Com base no artigo 7º, ela também reclamou que, 
o que ela considerou uma aplicação retroativa de uma nova abordagem 
adotada pelo Supremo Tribunal espanhol em decisão tomada após a sua 
condenação, e que aumentou a duração da sua prisão por quase nove anos, 
violava o princípio da aplicação não retroativa de disposições penais menos 
favoráveis ao acusado.
2 A requerente foi detida em prisão preventiva a partir de 06/07/1987 e começou a cumprir definitivamente 
após a primeira condenação em 14/02/1989.
3 Tribunal com jurisdição em casos de terrorismo, entre outros, sediado em Madri (Espanha).
4 Como consta na decisão objeto de análise, a “doutrina Parot” foi estabelecida em julgamento da Suprema 
Corte espanhola em 28/02/2006. Trata-se de outro caso de um terrorista (este especificamente um membro 
do grupo separatista ETA) que havia sido condenado com base no Código Penal espanhol de 1973 (julgamento 
n. 197/2006). O Plenário da Sessão criminal da Suprema Corte decidiu que os benefícios das execuções 
penais como as remissões de dias trabalhados devem incidir em cada uma das sentenças condenatórias e 
não no total da pena máxima de trinta anos.
Publicações da Escola da AGU 18
No julgamento em 10/07/2012, a Câmara julgadora entendeu que 
houve uma violação ao artigo 7º da Convenção (princípio da legalidade). 
Contra a decisão da Câmara, foi requerido e admitido a submissão do caso 
à Grande Câmara da CEDH, cujo julgamento foi concluído em 21/10/2013. 
A Grande Câmara fixou as premissas de julgamento no princípio 
“nullum crimen, nulla poena sine lege”, no conceito de pena e seu objetivo e 
na previsibilidade do direito penal.
No que tange ao objetivo da pena imposta, a Grande Câmara considerou 
que, no momento em que o requerente cometeu as infrações que levaram à 
sua acusação e quando foi tomada a decisão de combinar as sentenças e fixar 
uma pena de prisão máxima, a legislação espanhola relevante, tomada como um 
todo, incluindo a jurisprudência, foi formulada com suficiente precisão para 
permitir ao requerente discernir, em um grau razoável nas circunstâncias, o 
alcance da penalidade que lhe foi imposta, tendo em conta o prazo máximo de 
trinta anos e as remissões de sentença para o trabalho realizado em detenção, 
ambos previstas e lei. A penalidade imposta à requerente foi, portanto, de 
trinta anos de prisão máxima, e qualquer remissão de sentença por trabalho 
realizado em detenção seria deduzida dessa penalidade máxima.
A Corte concluiu que a nova abordagem da aplicação de remissões 
de sentença por trabalho realizado em detenção introduzido pela “doutrina 
Parot” não pode ser considerado como uma medida relativa unicamente à 
execução da sanção imposta à recorrente, mas à redefinição do escopo da 
“penalidade” imposta. Assim, concluiu que a Espanha infringiu a última parte 
do artigo 7°, n° 1, da Convenção: “não pode ser imposta uma pena mais grave 
do que a aplicável no momento em que a infracção foi cometida”. Adiante, 
a Corte analisou se a “doutrina Parot” era razoavelmente previsível, tendo 
para tanto examinado se a requerente poderia ter previsto no momento da 
sua condenação e também quando foi notificada da decisão de combinar 
as sentenças e fixar uma pena máxima de prisão – se necessário, depois 
de devidamente orientado por advogado – que a pena imposta poderia se 
tornar em trinta anos de prisão real, sem redução de qualquer remissão de 
sentença por trabalho realizado em detenção. Ao fazê-lo, deve ter em conta a 
lei aplicável na época e, em particular, a prática judicial e administrativa antes 
da “doutrina Parot”. Em que pese a Corte Constitucional ter se posicionado 
no sentido do entendimento anterior apenas em um caso julgado em 1994, a 
Corte observou que o próprio Governo admitiu que era prática das autoridades 
penitenciárias e judiciais antes da “doutrina de Parot” aplicar remissões de 
sentença por trabalho realizado em detenção no prazo máximo de trinta 
anos de prisão.
A Corte considerou ainda que, por trás da alteração de interpretação 
na mudança do entendimento jurisprudencial, houve um endurecimento 
Adriano Sant’Ana Pedra 
Gustavo Cabral Vieira 19
da política criminal concomitante com a mudança na legislação tomada 
em 2003 (Lei n. 7/2003). Mesmo não tendo sido aplicada essa lei no caso 
concreto, verificou-se que o objetivo da mudança jurisprudencial era o 
mesmo da lei acima mencionada, a saber, garantir a execução plena e 
efetiva do prazo legal máximo de prisão por pessoas que servem várias 
sentenças longas. Concluiu então a Corte que o artigo 7° da Convenção 
proíbe incondicionalmente a aplicação retrospectiva do direito penal 
quando se trata da desvantagem de um acusado de modo que este desvio 
no curso da jurisprudência teve como efeito modificar o alcance da sanção 
imposta, em detrimento do requerente.
Por fim, a Grande Câmara da CEDH ainda analisou a alegação de 
violação do § 1º do art. 5º da Convenção, que trata do direito à liberdade e à 
segurança. Em razão da conclusão da Corte de que houve violação ao art. 7º, 
a CEDH concluiu que, a partir de 03/07/2008, a detenção do recorrente não 
era “lícita” e, por conseguinte, violava o artigo 5°, n. 1, da Convenção. Ou seja, 
a ilegalidade na fixação do termofinal para cumprimento da pena deduzidas 
as remissões, estando a requerente mantida detida, desde 03/07/2008, havia a 
ofensa ao direito à liberdade. Diante da gravidade dessa circunstância, a CEDH 
aplicou o art. 46 da Convenção, que é resguardado para casos mais graves, e 
determinou a soltura imediata da requerente, o que foi cumprido em decisão no 
dia seguinte pela Audiencia Nacional, que prolatou decisão decretando a liberdade 
imediata da Sra. Del Río Prada e declarou extinta a punibilidade penal da mesma.
Portanto, verifica-se que atualmente a CEDH entende que a 
jurisprudência nova (notadamente se maléfica) não pode ser aplicada de 
forma retroativa por considerar que a jurisprudência é expressão do direito 
e que essa retroatividade fere o artigo 7° da Convenção.
4 ABORDAGEM COMPARATIVA
Para fins de mera comparação com a perspectiva brasileira, vale 
anotar que, no âmbito do Supremo Tribunal Federal - STF, a questão 
ora trata foi objeto de discussão em decisão plenária ocorrida em 1998 
tratando de matéria penal. No caso, foi expressamente afastada a aplicação 
da técnica denominada de prospective overruling pelos norte-americanos 
tendo se pontuado que não se confunde alteração legislativa com mudança 
jurisprudencial (HC 75.793/RS).
Posteriormente, em 2011, o tema foi tratado em matéria eleitoral, 
em decisão da lavra do Min. Celso de Mello (MS 30.380 MC/DF):
As múltiplas funções inerentes à jurisprudência – tais como a de 
conferir previsibilidade às futuras decisões judiciais nas matérias 
Publicações da Escola da AGU 20
por elas abrangidas, a de atribuir estabilidade às relações jurídicas 
constituídas sob a sua égide, a de gerar certeza quanto à validade 
dos efeitos decorrentes de atos praticados de acordo com esses 
mesmos precedentes e a de preservar, assim, em respeito à ética do 
Direito, a confiança dos cidadãos (omissis) nas ações do Estado -, tem 
reconhecido a possibilidade, mesmo em temas de índole constitucional 
(RE 197.917/SP, Rel. Min. MAURÍCIO CORRêA), de determinar, 
nas hipóteses de revisão substancial da jurisprudência derivada da 
ruptura de paradigma, a não incidência, sobre situações previamente 
consolidadas, dos novos critérios que venham a ser consagrados pelo 
Supremo Tribunal Federal.
[...]
Vale mencionar, por oportuno, a título de mera ilustração, que também a 
prática jurisprudencial da Suprema Corte dos EUA tem observado esse 
critério, fazendo-o incidir naquelas hipóteses em que sobrevém alteração 
substancial de diretrizes que, até então, vinham sendo observadas na 
formação das relações jurídicas, inclusive em matéria penal. Refiro-me, 
não só ao conhecido caso “Linkletter” – Linkletter v. Walker, 381 U.S. 
618, 629, 1965 –, como, ainda, a muitas outras decisões daquele Alto 
Tribunal, nas quais se proclamou, a partir de certos marcos temporais, 
considerando-se determinadas premissas e com apoio na técnica do 
“prospective overruling”, a inaplicabilidade do novo precedente a 
situações já consolidadas no passado...
Outra decisão interessante mais recente que merece destaque adotada 
pelo Pleno do STF ocorreu no julgamento do Recurso Extraordinário 
590.809 em matéria tributária, no qual a decisão foi pela impossibilidade 
de retroagir alteração jurisprudencial em caso em de rescisória no qual 
o acórdão rescindendo não poderia ser visto como a violador de lei, mas 
como resultado da interpretação possível segundo manifestações do próprio 
Plenário do Supremo Tribunal Federal que existiam à época5. 
Por f im, interessante registrar o entendimento da Corte 
Interamericana de Direitos Humanos, adotado no caso “Gomes Lund e 
outros (‘Guerrilha do Araguaia”) v. Brasil”. Tal qual consta na sentença 
do caso, “a demanda se refere à alegada ‘responsabilidade [do Estado] 
pela detenção arbitrária, tortura e desaparecimento forçado de 70 pessoas, 
entre membros do Partido Comunista do Brasil […] e camponeses da 
região, […] resultado de operações do Exército brasileiro empreendidas 
5 O caso era de matéria tributária, mas consta nos debates que tal entendimento se aplica a todos os casos em geral.
Adriano Sant’Ana Pedra 
Gustavo Cabral Vieira 21
entre 1972 e 1975 com o objetivo de erradicar a Guerrilha do Araguaia, 
no contexto da ditadura militar do Brasil (1964–1985)’.”
Trata-se de caso no qual se verifica a aplicação retroativa da norma 
jurídica sob o argumento de que, por se tratar de desaparecimento forçado 
e ainda não terem encontrado os desaparecidos ou seus corpos, resta 
caracterizada a continuidade delitiva no tempo. Isso inclusive foi usado 
como fundamento para, em sede de preliminar de “incompetência temporal 
do Tribunal”, se assentar a competência da Corte, haja vista que o Brasil 
reconheceu a competência contenciosa da Corte apenas em 10/12/1998 
e, em sua declaração, indicou que o Tribunal teria competência para os 
“fatos posteriores” a esse reconhecimento.
5 CONCLUSÃO
Uma alteração na interpretação convencional tem grande repercussão 
e pode gerar uma grande insegurança jurídica. Daí ser necessário que se 
amenize o impacto jurídico provocado por essas mudanças jurisprudenciais, 
vedando uma insegurança retroativa, para que o novo entendimento seja 
aplicado apenas para os casos posteriores a ele.
Foi visto no início deste estudo que a norma é construída pelo 
intérprete, no decorrer do processo de concretização do direito constitucional, 
ou seja, no processo de concretização haverá a própria elaboração da 
norma convencional. Dessa forma, quando há uma nova interpretação, 
na verdade ocorre a criação de uma norma convencional nova, que, em 
razão desta situação, não poderá produzir efeitos para eventos pretéritos, 
em homenagem ao princípio da segurança jurídica.
Assim, quando um novo significado é dado ao comando convencional, 
é necessário resguardar deste novo entendimento as relações jurídicas 
havidas no passado. Deste modo, Tércio Sampaio Ferraz Junior leciona que
a doutrina da irretroatividade serve ao valor da segurança jurídica: o 
que sucedeu já sucedeu e não deve, a todo momento, ser juridicamente 
questionado, sob pena de se instaurarem intermináveis conflitos. 
Essa doutrina, portanto, cumpre a função de possibilitar a solução 
de conflitos com o mínimo de perturbação social. Seu fundamento 
é ideológico e reporta-se à concepção liberal do direito e do Estado. 
(FERRAZ JUNIOR, 2001, p. 248)
A segurança jurídica deve estar presente na sociedade, pois representa 
a certeza de agir conforme os padrões comportamentais em vigor. As 
pessoas precisam saber como devem comportar-se perante a comunidade 
Publicações da Escola da AGU 22
em que vivem, e isso é incompatível com a retroatividade das normas. 
Ronald Dworkin lembra a objeção de que “se um juiz criar uma nova lei e 
aplicá-la retroativamente ao caso que tem diante de si, a parte perdedora 
será punida, não por ter violado algum dever que tivesse, mas sim por 
ter violado um novo dever, criado pelo juiz após o fato” (DWORKIN, 
2002, p. 132).
A nova interpretação somente pode produzir efeitos prospectivos, 
sempre para frente ao longo do tempo6. Tal limitação apenas poderia 
ser excepcionada quando se tratar de norma penal7 mais benéfica para o 
réu, hipótese em que deve operar efeitos retroativos a fim de alcançar no 
tempo a conduta deste8.
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incidência. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2006.
6 Em casos específicos, pode ser exigido que a nova interpretação somente seja aplicável após um determinado 
prazo, como ocorre no exemplo do princípio da anualidade (ou anterioridade) eleitoral (art. 16, CF).
7 O mesmo ocorre quando se tratar de sanção administrativa.
8 Nesse sentido, o artigo 5º, XL, da Constituição brasileira (“a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar 
o réu”) poderia ser lido como “a norma penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”.
Adriano Sant’Ana Pedra 
Gustavo Cabral Vieira 23
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25
ASPECTOS DO CONTROLE 
CONCORRENCIAL NA UNIãO EUROPEIA 
E NO BRASIL
ASPECTS OF COMPETITION CONTROL IN THE EUROPEAN 
UNION AND IN BRAZIL
Ana Claudia Ferreira Pastore
Procuradora Federal, lotada no Núcleo de Matéria Finalística da Procuradoria 
Regional Federal da 3ª Região – SP/MS, Subnúcleo de Infraestrutura e 
Desenvolvimento. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São 
Paulo PUC/SP. Especialista, em Direito Administrativo pela PUC/SP/COGEAE.
Fábia Mara Felipe Belezi 
Procuradora Federal, lotada no Núcleo de Matéria Finalística da Procuradoria 
Regional Federal da 3ª Região – SP/MS, Subnúcleo de Infraestrutura e 
Desenvolvimento. Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo - USP. 
Especialista em Direito Administrativo pela Universidade de Brasília - UnB.
Publicações da Escola da AGU 26
SUMÁRIO: Introdução; 1 Breve noção sobre o controle 
concorrencial na União Europeia; 1.1 Principais regras 
aplicáveis; 1.2 Funções e competências da Comissão 
Europeia no controle concorrencial; 1.3 Funções 
e competências da Corte Europeia de Justiça de 
Luxemburgo no controle concorrencial; 2 Breve noção 
sobre o controle concorrencial no Brasil; 2.1 Principais 
regras aplicáveis; 2.2 Funções e competências do CADE; 
2.3 O papel do Judiciário na defesa da concorrência; 3 
Análise de casos; 4 Conclusão; Referências. 
RESUMO: O presente trabalho pretende, em uma abordagem simples 
e objetiva, apresentar um breve relato sobre o controle concorrencial 
na União Europeia e no Brasil. Traçando um paralelo entre as funções 
e competências nos âmbitos administrativo e judicial, comparando as 
atribuições do Tribunal de Justiça da União Europeia e da Comissão 
Europeia com as atribuições do Judiciário brasileiro e do CADE, 
iremos analisar o julgamento de casos semelhantes nos dois sistemas, 
abordando a influência das decisões proferidas na União Europeia no 
controle concorrencial interno, além de buscar lições e exemplos que 
podem servir à melhoria do sistema brasileiro e à criação de um mercado 
interno livre e mais dinâmico.
PALAVRAS-CHAVE: Direito da Concorrência. União Europeia. 
Processo Administrativo. Controle Jurisdicional. Brasil. Estudo de Casos.
ABSTRACT: This paper intends to present a brief report on the control 
of competition in the European Union and in Brazil. Making a parallel 
between the administrative and judicial functions and competences, 
by comparing the attributions of European Court of Justice and the 
European Commission with the attributions of the Judiciary Power 
and the Administrative Council for Economic Defense – CADE, we 
will examine the trial of similar cases on both systems, addressing 
the influence of the decisions rendered by the European Union on the 
internal competition control, in addition to the searching for lessons 
and examples which can be used for the improvement of the Brazilian 
system leading to the creation of a more free and dynamic internal 
market.
KEYWORDS: Competition Law. European Union. Brazil. Administrative 
Process. Judicial Control. Study of Cases.
Ana Claudia Ferreira Pastore 
Fábia Mara Felipe Belezi 27
INTRODUÇÃO
É certo que a tendência mais atual indica cada vez mais ser necessária 
a existência de mecanismos de controle da concorrência não só no âmbito 
interno dos países, mas também em nível supranacional como ocorre 
na União Europeia. A ideia da existência de tribunais supranacionais 
que decidem sobre questões envolvendo os diversos setores econômicos 
demonstra a preocupação de uniformização de entendimentos bem como 
com a melhor proteção dos direitos de todos os envolvidos, quais sejam 
as empresas que atuam no território regulado e os consumidores.
Não obstante, na prática se trata de tarefa bastante difícil, principalmente 
tendo em vista os altos interesses econômicos envolvidos, que dificultam a 
aceitação das decisões, a sua aplicação e o cumprimento de modo geral.
A compreensão das dimensões do problema da existênciae 
operacionalização de sistemas de controle da concorrência tanto no âmbito 
administrativo quanto no judicial necessita da definição de alguns aspectos 
básicos sobre a estrutura e funcionamento desses sistemas.
Após o que, poderemos tecer comentários sobre as suas funções 
e competências, comparando as atribuições do Tribunal de Justiça da 
União Europeia e da Comissão Europeia com as atribuições do Judiciário 
brasileiro e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica - CADE, 
através da análise de casos e da influência das decisões proferidas no 
controle concorrencial interno, buscando lições e alternativas para uma 
defesa da concorrência mais efetiva no Brasil.
1 BREVE NOÇÃO SOBRE O CONTROLE CONCORRENCIAL NA UNIÃO 
EUROPEIA
Desde o início do processo de integração a proteção à concorrência 
tem sido considerada essencial às normas comunitárias como elemento de 
inibição das formas diretas e indiretas de discriminação ou proteção nacional, 
permitindo-se o livre desenvolvimento do mercado interno europeu. 
À Comissão Europeia foram concedidos poderes para garantir o 
respeito às regras comunitárias de concorrência. Suas atribuições consistem 
em supervisionar e, se necessário, impedir: os acordos anticoncorrenciais, 
em especial os carteis (Artigos 101.º e 106.º c.c. Artigo 105.º do Tratado 
Sobre o Funcionamento da União Europeia - TFUE); os abusos de posição 
dominante nos mercados (Artigos 102.º e 106.º c.c. Art. 105.º); as fusões 
e aquisições; e, as ajudas públicas (Art. 107.º c.c. Art. 108.º).
Em 2004, os Estados-Membros passaram a exercer uma 
série de funções de aplicação da legislação no âmbito do processo de 
Publicações da Escola da AGU 28
“modernização” (Regulamento n.º 1/2003), de forma que as autoridades 
responsáveis pela concorrência e os tribunais nacionais podem aplicar e 
fazer cumprir o direito comunitário, encerrando acordos e práticas que 
restringem a concorrência bem como aplicando sanções pecuniárias às 
empresas infratoras
Neste ponto, importante que se mencione a Rede Europeia de 
Concorrência - REC, dirigida pela Comissão Europeia, com vistas à 
atuação conjunta e global das diversas autoridades concorrenciais tanto 
da Comissão quanto dos Estados-Membros.
Os poderes da Comissão estão sujeitos ao controle jurisdicional do 
Tribunal de Justiça da União Europeia (Artigos 256.º e 263.º do TFUE).
1.1 Principais Regras Aplicáveis
Seguem os principais documentos legais que dão suporte ao controle 
da concorrência na União Europeia1: Artigos 101.º a 109.º do TFUE e o 
Protocolo n.º 27 relativo ao mercado interno e à concorrência que declara 
que o objetivo do mercado interno, tal como estabelecido no Artigo 3.º, 3, 
do Tratado da União Europeia - TUE, inclui a concorrência não falseada; 
Regulamento (CE) n.º 139/2004 relativo ao controle das concentrações de 
empresas; Artigos 37.º, 106.º e 345.º do TFUE para as empresas públicas, 
Artigos 14.º, 59.º, 93.º, 106.º, 107.º, 108.º e 114.º do TFUE para os serviços 
públicos, os serviços de interesse geral e os serviços de interesse econômico 
geral, bem como o Protocolo n.º 26 sobre os serviços de interesse geral, 
além do Artigo 36.º da Carta dos Direitos Fundamentais sobre o acesso 
a serviços de interesse econômico geral.
Tais dispositivos, em linhas gerais, proíbem os acordos entre 
empresas bem como todas as práticas que possam configurar impedimento, 
restrição ou falseamento da concorrência. A empresa que detenha uma 
posição dominante está proibida de explorá-la de modo abusivo e, assim, 
de afetar as transações comerciais entre os Estados-Membros. 
A subvenção estatal concedida a determinados produtos ou empresas 
passíveis de distorcer a concorrência também é proibida, embora passível 
de autorização em determinados casos específicos.
A Comissão Europeia exerce o controle sobre os atos de concentração 
(fusões e aquisições) dentro da Comunidade e tem poderes para proibi-los 
ou adotar medidas que minimizem as distorções da concorrência. Tais 
ações fundamentam-se no Regulamento (CE) nº. 139/2004, conhecido 
como “Regulamento das Concentrações”.
1 Sobre o tema, cf. site do Parlamento Europeu. Disponível em: <http://www.europarl.europa.eu/atyourservice/
pt/displayFtu.html?ftuId=FTU_3.2.1.html>. Acesso em: set. 2017.
Ana Claudia Ferreira Pastore 
Fábia Mara Felipe Belezi 29
As empresas públicas assim como os serviços públicos e aqueles de interesse 
geral também estão sujeitos ao controle e às regras gerais de concorrência, desde 
que isso não impeça a realização dos seus objetivos específicos.
O Artigo 107.º do TFUE prevê como incompatíveis com o mercado 
interno, na medida em que afetem as trocas comerciais entre os Estados-
membros, os auxílios concedidos pelos Estados ou provenientes de recursos 
estatais, independentemente da forma que assumam, que falseiem ou 
ameacem falsear a concorrência, favorecendo certas empresas ou certas 
produções. Vale ressaltar que o Artigo 107.º, nº. 2, do TFUE admite auxílios 
estatais que são ou podem ser compatíveis com o mercado interno, como 
no caso do nº. 3 do mesmo artigo, criando, assim, um conjunto de exceções.
Tais regras têm como escopo não a concorrência efetiva em si mesma, 
mas a criação de um ambiente para a existência de um mercado interno 
livre e dinâmico, instrumento de promoção do bem-estar econômico geral 
dos Estado Membros. Nessa perspectiva, existe a possibilidade de uma 
medida anticompetitiva não ser condenada, caso gere efeitos positivos, 
como um ganho de eficiência, por exemplo. É importante salientar que o 
conceito de mercado interno para a realidade da Comunidade Europeia 
possui larga abrangência, conforme explicado a seguir: 
A percepção econômica clássica de que as nações não fazem tudo 
igualmente bem ou de maneira eficiente, o comércio entre nações 
pode ser benéfico para todas, já teve sua importância. No entanto, o 
mercado interno possui ambições além do comércio entre Estados. Tem 
por objetivo fundir os mercados dos Estados Membros em mercado 
mais abrangente, algo que confira maior grau de uniformidade de 
estrutura e condições. (CHALMERS, DAVIES & MONTI, 2010, p. 
675-676, tradução livre).
1.2 Funções E Competências Da Comissão Europeia No Controle 
Concorrencial
A Comissão Europeia é o órgão executivo da União Europeia que 
detém o monopólio da iniciativa legislativa bem como possui poderes 
de aplicação e fiscalização das regras referentes à execução das políticas 
de concorrência e do comércio externo. É composta por comissários 
representantes de cada um dos Estados-Membros. A sua atuação na área 
da concorrência é regulada pelos Artigos 103.º a 109.º do TFUE.
A sua atuação ocorria através da Direção Geral da Concorrência, 
com o auxílio das autoridades concorrenciais dos Estados-Membros, 
Publicações da Escola da AGU 30
em total monopólio, de acordo com o Regulamento n.º 17 de 1962, com 
poderes exclusivos. Todavia, com as alterações legislativas ocorridas após 
a edição do Regulamento n.º 1/2003 do Conselho da União Europeia, foi 
dada competência para que as autoridades concorrenciais dos Estados-
Membros também pudessem aplicar as regras contidas nos Artigos 102.º 
e 103.º do TFUE, podendo ser controladas pelos tribunais nacionais e 
pelo Tribunal de Justiça.
Essas alterações foram bastante proveitosas para a melhoria da defesa da 
concorrência na União Europeia pois a exclusividade e o monopólio concedidos 
à Comissão atrapalhavam de certa maneira a realização do controle, fiscalização 
e defesa das normas, conforme esclarecem WHISH & BAILEy: 
No entanto, o monopólio tinha muitas desvantagens: a Comissão nunca 
possuía pessoal suficiente para lidar com o volume enorme de contratos 
dos quais era notificada: o resultado experimentado era a intensa demora; 
uma grande quantidade de tempo de negócios era despendida com a 
coleta de dados e a preparaçãodo famoso Formulário A/B no qual as 
notificações eram apresentadas; as despesas também eram grandes, não 
com os honorários de advogados mas de outros profissionais também; e as 
empresas enfrentavam um longo período de incerteza quanto à legalidade 
de seus contratos. (WHISH; BAILEy, 2012, p. 166-167, tradução livre).
1.3 Funções E Competências Da Corte Europeia De Justiça De Luxemburgo 
No Controle Concorrencial 
O direito da União Europeia deve ser aplicado por todos os tribunais 
(nacionais, regionais ou locais) dos Estados-Membros e compete ao Tribunal de 
Justiça da União Europeia - TJUE interpretá-lo e aplicá-lo de forma uniforme 
em todos eles, bem como decidir sobre as disputas legais entre os governos 
nacionais e as instituições europeias. Em alguns casos, os particulares, empresas 
ou organizações que considerem que os seus direitos foram violados por uma 
instituição europeia também podem recorrer ao Tribunal2.
Os processos mais comuns submetidos ao TJUE são: 1) pedidos de 
decisão prejudicial - se um juiz nacional tem dúvidas sobre a interpretação 
ou a validade de um ato adotado pela União, pode pedir esclarecimentos ao 
Tribunal. Neste caso, a instância no tribunal nacional é suspensa e submete-
se a questão ao TJUE, que se pronuncia sobre a interpretação ou validade 
das disposições. Uma vez proferida a decisão pelo Tribunal de Justiça, o juiz 
2 Sobre o Tribunal de Justiça da União Europeia, cf. Disponível em: <https://europa.eu/european-union/
about-eu/institutions-bodies/court-justice_pt>. Acesso em: set. 2017.
Ana Claudia Ferreira Pastore 
Fábia Mara Felipe Belezi 31
nacional pode resolver o litígio de sua competência. Uma tramitação prejudicial 
urgente (PPU) está prevista para casos que carecem de uma resposta breve. 
O mesmo mecanismo pode ser utilizado para determinar se uma dada lei ou 
prática nacional é compatível com o direito europeu; 2) recursos das decisões 
proferidas pelo Tribunal Geral, que são o meio pelo qual o TJUE pode 
anular decisões do Tribunal Geral; 3) ações e recursos diretos, que visam, 
notadamente, à anulação de um ato da União (recurso de anulação) ou à 
declaração de incumprimento do direito da União por um Estado-Membro 
(ação por incumprimento). Se o Estado-Membro não executar o acórdão que 
reconheceu o incumprimento, numa segunda ação, denominada ação por 
duplo incumprimento, pode ser aplicada uma sanção pecuniária; 4) pareceres 
sobre a compatibilidade com os Tratados de um projeto de acordo que a União 
pretenda celebrar com um Estado terceiro ou organização internacional. Tal 
pedido pode ser apresentado por um Estado-Membro ou por uma instituição 
europeia (Parlamento, Conselho ou Comissão).
O Tribunal de Justiça da União Europeia é composto por duas jurisdições: 
o Tribunal de Justiça, que trata dos pedidos de decisões a título prejudicial 
provenientes das jurisdições nacionais, bem como de certas ações de anulação e 
de recursos e o Tribunal Geral, que trata dos recursos de anulação interpostos 
por particulares, empresas e, em certos casos, governos nacionais. Na prática, 
este tribunal cuida essencialmente dos processos relacionados com o direito 
da concorrência e os auxílios estatais.3
Dos 704 processos findos no ano de 2016 no TJUE, 56 tinham como 
principal matéria tratada concorrência e auxílios de Estado4. 
Importante neste ponto frisar que o Tribunal fiscaliza a legalidade das 
ações das instituições da UE, dentre as quais as decisões da Comissão Europeia.
2 BREVE NOÇÃO SOBRE O CONTROLE CONCORRENCIAL NO BRASIL
2.1 Principais Regras Aplicáveis
O Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência - SBDC, estruturado 
pela Lei nº 12.529, de 30 de novembro de 2011, é o conjunto de entidades 
integradas na Administração pública federal com o fito de promover a prevenção 
e repressão às infrações contra a ordem econômica, com atuação orientada 
3 Sobre o tema, conferir o site da União Europeia. Disponível em: <https://europa.eu/european-union/
about-eu/institutions-bodies/court-justice_pt#composição>. Acesso em: set.2017.
4 Conferir Relatório Anual 2016 do Tribunal de Justiça da União Europeia. Disponível em: <https://curia.
europa.eu/jcms/upload/docs/application/pdf/2017-04/ti_pubpdf_qdaq17001ptn_pdfweb_20170424163218.
pdf>. Acesso em: set.2017.
Publicações da Escola da AGU 32
pelos princípios constitucionais da liberdade de iniciativa, livre concorrência, 
função social da propriedade, defesa dos consumidores e repressão ao abuso 
do poder econômico (art. 1º). Nos termos do art. 3º da citada lei, o SBDC 
é formado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE), 
autarquia federal vinculada ao Ministério da Justiça, e pela Secretaria de 
Acompanhamento Econômico (SEAE), integrante do Ministério da Fazenda.
O CADE, composto pelo Tribunal Administrativo de Defesa 
Econômica, pela Superintendência-Geral e pelo Departamento de Estudos 
Econômicos, tem como atribuições analisar e aprovar ou não os atos 
de concentração econômica, investigar as condutas prejudiciais à livre 
concorrência e, se for o caso, aplicar as devidas punições aos infratores, 
bem como disseminar a cultura da livre concorrência. 
A SEAE, por sua vez, com atribuições delineadas na Portaria nº 386, 
de 14 de julho de 20095, promove a chamada “advocacia da concorrência” 
perante os órgãos do governo e a sociedade.
2.2 Funções E Competências Do CADE
O CADE exerce, em todo o território nacional, as atribuições previstas 
pela Lei nº 12.529/2011, complementadas pelo Regimento Interno do CADE 
– RiCade, aprovado pela Resolução nº 1, de 29 de maio de 20126. O conjunto 
de atribuições legais conferidas à autarquia ostentam as seguintes funções: 
1) preventiva (análise e posterior decisão sobre fusões, aquisições de controle, 
incorporações e outras operações de concentração); 2) repressiva (investigação, 
julgamento e punição das infrações à ordem econômica); e, 3) educativa (difusão 
da cultura da concorrência por meio da instrução da sociedade em geral 
sobre os atos lesivos à livre concorrência, incentivos e estímulos a pesquisas 
e estudos sobre o tema)7.
Com a edição da nova lei, o CADE ficou bastante fortalecido como 
entidade de controle da concorrência no país, compondo-se de: TADE 
(Tribunal Administrativo de Defesa Econômica), com funções de julgamento, 
instrução de processos de concentração e de controle de infrações, inclusive 
com poderes de julgamento de concentrações de menor relevância; 
Superintendência-Geral, órgão que, a partir da entrada em vigor da Lei 
nº 12.529/2011, passa a desempenhar as atribuições do Departamento de 
5 Disponível em: <http://seae.fazenda.gov.br/acesso-a-informacao/institucional/competencias/competencias/
Portaria386_2009.pdf>. Acesso em: set.2017.
6 Disponível em: <file:///C:/Users/fabia.belezi/Downloads/Resolu%C3%A7%C3%A3o%20n%C2%BA%20
01_2012%20-%20Regimento%20Interno%20do%20CADE%20-%20RICADE.pdf>. Acesso em: set. 2017.
7 Sobre as competências do CADE, conferir o site oficial da autarquia: <http://www.cade.gov.br/acesso-a-
informacao/institucional/copy_of_competencias>. Acesso em: set.2017.
Ana Claudia Ferreira Pastore 
Fábia Mara Felipe Belezi 33
Proteção e Defesa Econômica da Secretaria de Direito Econômico, como 
a investigação e a instrução de processos de repressão ao abuso do poder 
econômico e a análise dos atos de concentração; e, DEE (Departamento de 
Estudos Econômicos), órgão de apoio técnico das atividades da autarquia. 
Nota-se, assim, a unificação das funções de investigação de casos de 
conduta anticompetitiva, de instrução de atos de concentração e de decisão 
final no CADE, abandonando-se a sobreposição de funções entre entidades 
distintas, característica da estrutura anterior. Sobre o tema, veja-se: 
Ao contrário do que ocorre na Comissão Europeia (foco das críticas 
à combinação das funções investigativas e decisóriasem uma mesma 
agência), o exercício das funções de investigação e de decisão já foi 
desenhado de forma claramente separada pelo legislador brasileiro, 
ainda que tais funções sejam atribuídas a um só ente da administração 
pública (CARVALHO; LIMA, 2012, p. 22).
Outra mudança introduzida pela Lei nº 12.529/2011 consiste na 
previsão de controle prévio dos atos de concentração econômica, que devem 
ser obrigatoriamente submetidos à aprovação do CADE. Pela legislação 
anterior, essas operações podiam ser comunicadas à autarquia depois de serem 
consumadas, o que fazia do Brasil um dos únicos países do mundo a adotar um 
controle de estruturas a posteriori. A aprovação prévia trouxe mais segurança 
jurídica às empresas e maior agilidade na análise dos atos de concentração.
Além disso, a nova legislação também trouxe avanços no controle de 
condutas, a exemplo de novos critérios para a aplicação de multas, ampliação 
das hipóteses de concessão de leniência e reforço na persecução cível e criminal 
de cartéis no país.
No caso de condenação de algum agente por prática anticompetitiva, o 
cumprimento das penas está ligado aos indivíduos, e não à empresa ou agente 
que representam. Essa observação é importante já que no sistema europeu 
não há previsão para a criminalização de indivíduos.
2.3 O Papel Do Judiciário Na Defesa Da Concorrência
O Poder Judiciário pode ser envolvido em questões concorrenciais ainda 
nas fases iniciais da investigação conduzida pelo CADE, com a propositura, 
pela Procuradoria Federal que atua junto à autarquia, das medidas judiciais 
necessárias à obtenção de documentos para a instrução de processos 
administrativos, nos termos da lei antitruste (cf. art. 15 da Lei nº 12.529/2011). 
Além disso, pessoas físicas e jurídicas investigadas por vezes submetem ao 
Judiciário questões referentes ao processo administrativo de investigação
Publicações da Escola da AGU 34
Face do princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional previsto 
no art. 5º, XXXV, da Constituição Federal, as decisões proferidas pelo CADE, 
que são de natureza administrativa, são passíveis de revisão judicial:
A autoridade brasileira de defesa da concorrência, a autarquia 
denominada Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), 
é independente e suas decisões constituem título executivo extrajudicial. 
Não há recurso hierárquico, de modo que os acórdãos prolatados pelo 
tribunal administrativo do Cade podem ser executados imediatamente. 
Como qualquer outra decisão administrativa, no entanto, as decisões do 
Cade – diferentemente da tradição europeia de cortes administrativas 
de justiça – são passíveis de controle jurisdicional, o que deriva do 
princípio constitucional de inafastabilidade da jurisdição.
De modo geral, o controle jurisdicional dos atos administrativos 
limita-se aos aspectos exteriores do ato, isto é, à sua legalidade. Mas 
há inúmeras decisões judiciais que têm examinado também o mérito 
do ato administrativo. Não obstante o amplo padrão de justiciabilidade 
dos atos administrativos, cerca de 80% das decisões do CADE são 
confirmadas pelo Judiciário. Pode-se atribuir tal sucesso aos continuados 
esforços da autarquia em manter alto grau de transparência e de 
adequação aos parâmetros fixados pela lei do processo administrativo 
(Lei n. 9.784/1999). A adesão da autoridade da concorrência ao devido 
processo legal administrativo é notável e tem ido além do exigido em 
lei: por exemplo, desde 2004, as sessões de julgamento do Cade são 
transmitidas ao vivo pela internet. (CUEVA, 2017, p. 18, grifo nosso).
Ou seja, apesar de a Lei nº 12.529/2011 considerar o CADE como 
“entidade judicante” (art. 4º), tal expressão deve ser entendida enquanto 
medida que vincula a autarquia a um certo método de trabalho, orientado 
por condições de independência, imparcialidade e impessoalidade; contudo, 
ao passo que a atuação do CADE se aproxima daquela do Judiciário com 
relação ao método utilizado, dela se afasta no que concerne à abrangência 
e aos efeitos da atuação (SUNDFELD, 2003, p. 02).
Portanto, apesar das inúmeras discussões a respeito do tema, 
notadamente relacionadas às dificuldades atinentes à complexidade do 
conhecimento técnico envolvido8, é ao Judiciário que cabe, em última 
8 Sobre o tema, interessantes as ponderações feitas no Seminário Os Desafios da Judicialização da Defesa da 
Concorrência, da Regulação e do Comércio Internacional, promovido pelo Conselho da Justiça Federal nos dias 
12 e 13 de novembro de 2015, em Brasília. Disponível em: <file:///C:/Users/fabia.belezi/Downloads/serie-cad-
cej-32-Semin%C3%A1rio-Os-Desafios-da-Judicializa%C3%A7%C3%A3o...-2017.pdf>. Acesso em: out.2017.
Ana Claudia Ferreira Pastore 
Fábia Mara Felipe Belezi 35
instância, a aplicação da lei antitruste. Neste ponto, importante notar 
a diferença no controle sobre os atos relacionados à concorrência em 
comparação com o sistema europeu, visto que a revisão operada pelo 
Judiciário brasileiro é mais ampla, não se restringindo apenas às questões 
de legalidade, mas também de mérito.
A possiblidade de ampla revisão das decisões do CADE pelo Poder 
Judiciário pode, em muitos aspectos, ser vista como um entrave à atividade 
repressiva da autarquia, quer pelo elevado número de pedidos de antecipação 
de tutela deferidos, quer pela demora no julgamento das ações anulatórias, 
o que faz com que a punição dos agentes econômicos infratores da lei de 
defesa da concorrência seja protelada.
3 ANÁLISE DE CASOS
Conforme amplamente noticiado na imprensa, em junho de 2017, a 
Comissão Europeia, após uma investigação que vem desde 2010, condenou 
o Google a pagar uma multa de €2,42 bilhões, equivalente a R$8,97 bilhões, 
por abuso de posição dominante nas pesquisas gerais na internet, favorecendo 
o seu próprio comparador de preços para compras online, o Google Shopping. 
A decisão concluiu que o Google ao desfrutar de uma posição 
dominante nos mercados de serviço de pesquisa na internet em todo o 
Espaço Econômico Europeu (EEE), composto por 31 países, o que não é, 
em si, ilegal face às regras antitruste da EU, abusou da sua forte posição 
de mercado, restringindo a concorrência, ao dar ao seu próprio serviço 
de comparação de preços uma vantagem ilegal.
Conforme declarou a comissária Margrethe Vestager, responsável 
pela política da concorrência:
A Google tem criado muitos produtos e serviços inovadores que 
mudaram as nossas vidas, o que é uma boa coisa! Porém, a estratégia 
da Google para o seu serviço de comparação de preços não era apenas 
a de atrair clientes tornando o seu produto melhor do que o dos 
seus concorrentes. Em vez disso, a Google abusou da sua posição 
dominante no mercado na vertente de motor de busca, promovendo 
o seu próprio serviço de comparação de preços nos seus resultados de 
pesquisa e despromovendo os dos concorrentes. O que a Google tem 
feito é ilegal ao abrigo das regras anti-trust da UE. Negou a outras 
empresas a possibilidade de competir com base nos seus méritos e de 
inovar. Mais importante ainda, negou aos consumidores europeus uma 
escolha genuína de serviços e a possibilidade de tirar pleno partido 
dos benefícios da inovação (EUROPEAN COMISSION, 2017).
Publicações da Escola da AGU 36
A decisão da Comissão, além da aplicação da multa, exige que o Google 
ponha termo à sua conduta ilegal, no prazo de 90 dias a contar da data da decisão, 
bem como que se abstenha de tomar qualquer medida que tenha o mesmo 
objeto ou efeito, ou equivalente. Concretamente, a decisão ordena ao Google que 
respeite o simples princípio de dar tratamento igual aos serviços de comparação 
concorrentes de preços e ao seu próprio serviço. Se não der cumprimento à 
decisão da Comissão, a multa poderá ser agravada em até 5% do volume de 
negócios médio diário a nível mundial da Alphabet, empresa-mãe do Google.
No Brasil, o buscadordo Google também é objeto de investigação. A 
Superintendência-Geral do CADE instaurou três processos administrativos 
para apurar supostas práticas anticompetitivas adotadas pelo Google 
Inc. e pelo Google Brasil Internet Ltda. no mercado brasileiro de buscas 
online. As denúncias foram apresentadas pela E-Commerce Media Group 
Informação e Tecnologia Ltda., detentora dos sites Buscapé e Bondfaro, e 
pela Microsoft Corporation, controladora do site de buscas Bing. Vejamos 
os processos e seus objetos9:
- Processo Administrativo nº 08012.010483/2011-94: a partir de 
denúncia da E-Commerce, apura se o Google Buscas beneficia 
seus próprios sites temáticos, como o Google Shopping, em 
prejuízo dos sites de comparação de concorrentes, como o 
Buscapé e Bondfaro. De acordo com a denúncia, a prática 
teria acontecido de duas formas: por meio do posicionamento 
privilegiado do Google Shopping na busca do Google e através 
da apresentação do link para a loja do Google em posição de 
destaque patrocinado com fotos na busca.
Também é objeto de investigação a alegação de que o Google Buscas, 
de forma discriminatória, permitiria a veiculação de anúncios com fotos, mais 
atraentes, pelo Google Shopping, mas não pelos sites temáticos concorrentes. 
- Processo Administrativo nº 08700.009082/2013-03: apura 
a prática denominada “scraping”, que consiste em suposta 
“raspagem”, pelo Google, de conteúdo concorrencialmente 
relevante de sites temáticos rivais para uso em seus buscadores. 
Segundo a representação oferecida ao CADE pela E-Commerce, 
o Google Shopping teria se apropriado de reviews (comentários 
de clientes sobre produtos e lojistas) reunidos pelos sites Buscapé 
e Bondfaro, subtraindo, assim, vantagens competitivas detidas 
9 Informações constantes do site do CADE. Disponível em: < http://www.cade.gov.br/noticias/cade-investiga-
supostas-praticas-anticompetitivas-do-google-no-mercado-brasileiro-de-buscas-online>. Acesso em: out.2017.
Ana Claudia Ferreira Pastore 
Fábia Mara Felipe Belezi 37
por seus rivais ao mesmo tempo em que o Google impede 
que os seus concorrentes façam “raspagens” de sites temáticos 
pertencentes a ele.
- Processo Administrativo nº 08700.005694/2013-19: apura 
supostas restrições anticompetitivas do contrato de prestação 
de serviços da plataforma de publicidade online do Google, 
conhecida como Google AdWords. 
A Microsoft não comenta o caso, contudo, de acordo com o site do 
CADE, o processo foi iniciado em 2013 e o Google é acusado de impor 
restrições à operação conjunta de plataformas de buscas patrocinadas, como 
o Google Ad Words e o Bing Ads. Segundo a fabricante, as restrições 
estariam nos termos e condições da API (interface de programação de 
aplicativos, na sigla em inglês) do Google AdWords e impediam a veiculação 
da mesma campanha em mais de uma plataforma.
Após a instauração dos referidos processos, o Google foi notificado 
para apresentar defesa e, ao final da instrução, a Superintendência-Geral 
emitirá parecer opinando pela condenação ou pelo arquivamento dos 
processos, após o que enviará os casos para o julgamento final pelo Tribunal 
do CADE. Segundo consta do site da autarquia:
As condutas investigadas, caso comprovadas, podem dificultar a entrada 
e o desenvolvimento de concorrentes no mercado brasileiro de buscas 
online, além de incrementar o já elevado poder de mercado do Google 
nesse segmento – próximo a 99% segundo algumas análises. Desse 
modo, resultariam em obstáculos a inovações, menos opções de empresas, 
produtos e serviços aos usuários e, eventualmente, impactos nos preços 
de produtos e serviços ofertados aos consumidores online (CADE, 2016).
A decisão da Comissão Europeia em multar o Google pode ser usada 
pelas empresas que denunciaram o Google como mais uma prova nos 
processos em andamento no Brasil, podendo influenciar no seu julgamento.
4 CONCLUSÃO
Ao longo do presente trabalho, buscamos traçar os principais 
aspectos do controle concorrencial na União Europeia e no Brasil por 
meio da indicação das regras aplicáveis bem como das competências e 
formas de atuação da Comissão Europeia, do TJUE e, de outra parte, 
dos entes que compõem o Sistema Brasileiro de Defesa da Concorrência, 
Publicações da Escola da AGU 38
com destaque para o CADE e, por fim, do papel revisional exercido pelo 
Judiciário brasileiro.
Como visto, o direito vigente na União Europeia é caracterizado por 
normas supranacionais que gozam de supremacia em relação às normas 
internas dos Estados-Membros, o que permite uma maior homogeneidade 
nas relações comerciais. Nessa linha, a experiência da União Europeia 
poderia ser assimilada para a condução da política de concorrência entre os 
Estados-Membros do Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), estimulando 
a criação de entidades supranacionais, respeitadas as especificidades dos 
seus Estados-Membros e do processo histórico desse bloco, de modo a 
assegurar uniformidade de interpretação assim como a aplicação das regras 
de concorrência, consolidando o mercado interno dessa comunidade. 
De outra parte, no que tange ao controle jurisdicional exercido 
pelos tribunais brasileiros sobre as decisões do CADE, diferentemente da 
tradição europeia de cortes administrativas de justiça, é necessário que tal 
revisão seja repensada, pois se feita com alto grau de intensidade (controle 
substantivo) incorrerá em demora injustificada na implementação da 
medida administrativa, duplicando custos para o Estado e os particulares, 
além de causar perda do bem-estar social em razão da persistência de uma 
situação de fato que a Administração procurou remediar mas foi impedida.
Outro aspecto a se considerar é a criação de varas especializadas 
no Judiciário para lidar com os casos de alta complexidade de direito da 
concorrência, o que viabilizaria não só que decisões mais técnicas fossem 
proferidas, mas também mais rápidas.
Sem dúvidas, o estudo do sistema de controle da concorrência da 
UE pode ser de grande utilidade para a melhoria do sistema brasileiro e 
a criação de um mercado interno livre e mais dinâmico, que promova o 
bem-estar econômico, com efetivos ganhos de eficiência.
REFERÊNCIAS
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Disponível em: <http://www.europarl.europa.eu/charter/pdf/text_pt.pdf>. 
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CONSELHO ADMINISTRATIVO DE DEFESA ECONÔMICA. Cade 
investiga supostas práticas anticompetitivas do Google no mercado brasileiro de 
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41
A CORRUPçãO SISTêMICA COMO GRAVE 
OFENSA AOS DIREITOS HUMANOS
SySTEMIC CORRUPTION AS A SERIOUS VIOLATION OF 
HUMAN RIGTHS
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara
Advogado da União
Especialista em Direito Público pela UnB
Chefe da Assessoria Jurídica junto ao Serviço Florestal Brasileiro
Murilo Strätz
Advogado da União
Mestre em Direito pela UFRJ
Procuradoria-Regional da União – 2ª Região
SUMÁRIO: Introdução; 1 A importância do combate 
à corrupção sistêmica para garantia da efetividade 
das políticas públicas; 2 A globalização da corrupção 
sistêmica; 3 A posição dos principais organismos 
internacionais quanto ao combate à corrupção; 4 A 
evolução dos Sistemas Internacionais de Proteção 
aos Direitos Humanos no combate à corrupção; 5 
Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 42
RESUMO: O presente trabalho avalia o combate à corrupção enquanto 
importante instrumento na execução de políticas públicas voltadas à 
efetivação dos Direitos Humanos e da Cidadania. Em sequência, analisa 
como o fenômeno patológico espalhou-se mundo afora como um vírus, 
tendo em vista o movimento econômico da Globalização, e como os 
organismos internacionais se posicionaram a esse respeito. Aborda-
se a tendência universal no sentido de que a corrupção seja vista não 
só como um problema de direitos humanos, mas também como uma 
potencial violação destes, ainda que isso se dê, por ora, mais em um plano 
simbólico do que propriamente efetivo do ponto de vista jurídico. Por 
fim, examina-se a possibilidade de se classificar a corrupção sistêmica 
como crime contra a humanidade.
PALAVRAS-CHAVE: Corrupção Sistêmica. Políticas Públicas. Grave 
Violação aos Direitos Humanos e à Cidadania. Globalização. Organismos 
Internacionais. Cortes Internacionais de Direitos Humanos. 
ABSTRACT: The present study evaluates the fight against corruption 
as an important tool in implementing public policies aimed at effective 
Human Rights and Citizenship. In sequence, analyzes how the evil 
phenomenon of corruption has spread worldwide like a virus, in view 
of the economic movement of globalization, and as international bodies 
have positioned themselves in this regard. The universal tendency is 
that corruption should be seen not only as a human rights problem, 
but also as a potential violation of these rights, even if this is for the 
moment more on a symbolic rather than a real legal point of view. 
Finally, we examine the possibility of classifying systemic corruption 
as a crime against humanity.
KEYWORDS: Systemic Corruption. Public Policies. Serious Violation 
of Human Rights and Citizenship. Globalization. International Bodies. 
International courts of Human Rights.
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara
Murilo Strätz 43
INTRODUÇÃO
O presente artigo iniciará enaltecendo a importância do combate 
à corrupção sistêmica para garantia da efetividade das políticas públicas, 
considerando-se a sua globalização. Abordar-se-á, em seguida, a posição 
dos principais organismos internacionais de combate à corrupção. Por fim, 
será demonstrada a evolução institucional dos Sistemas Internacionais de 
Proteção aos Direitos Humanos no combate à corrupção.
Com efeito, os estudiosos vêm se deparando com a ligação 
estreita entre a corrupção sistêmica e a falência da efetivação de políticas 
públicas fundamentais à consecução do desenvolvimento humano e da 
efetiva cidadania. Tal fenômeno vem sendo classificado como elemento 
causador direto de graves ofensas aos Direitos Humanos por Organismos 
Internacionais, como a ONU e a OCDE, bem como pelo Sistema 
Internacional de Proteção aos Direitos Humanos.
No Brasil, em particular, o fenômeno da corrupção sistêmica vem 
embaraçando a concretização de políticas públicas assecuratórias de direitos 
básicos garantidos pela Constituição Federal de 1988, a exemplo do direito à 
saúde, à educação, à segurança pública, dentre outros, o que tem levado a um 
baixo desempenho nos índices internacionais de desenvolvimento humano, a 
exemplo da medição do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes 
– PISA, a despeito de, contraditoriamente, o Brasil ser uma das dez maiores 
economias do mundo. Nesse sentido, matéria jornalística divulgada no G1:
Os resultados do Brasil no Programa Internacional de Avaliação de 
Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), divulgados na manhã desta terça-feira 
(6), mostram uma queda de pontuação nas três áreas avaliadas: ciências, 
leitura e matemática. A queda de pontuação também refletiu uma queda do 
Brasil no ranking mundial: o país ficou na 63ª posição em ciências, na 59ª 
em leitura e na 66ª colocação em matemática. A prova é coordenada pela 
Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e 
foi aplicada no ano de 2015 em 70 países e economias, entre 35 membros 
da OCDE e 35 parceiros, incluindo o Brasil. Ela acontece a cada três anos 
e oferece um perfil básico de conhecimentos e habilidades dos estudantes, 
reúne informações sobre variáveis demográficas e sociais de cada país e 
oferece indicadores de monitoramento dos sistemas de ensino ao longo 
dos anos. (MORENO, 2016).
O principal objeto deste artigo é verificar como a corrupção 
sistêmica se espalhou mundialmente a partir do crescimento exponencial 
da Globalização e discutir se pode ser contextualizada como grave ofensa 
Publicações da Escola da AGU 44
aos Direitos Humanos, à luz dos entendimentos institucionais firmados 
no âmbito do Sistema Internacional de Proteção aos Direitos Humanos 
e como isso poderá modificar o panorama de atuação da comunidade 
internacional a fim de se exigir um efetivo combate à corrupção sistêmica 
mundo afora.
A chaga da corrupção tem deixado há muito de ser apenas um 
problema de ordem criminal e administrativa, com foco exclusivamente 
em agentes públicos e privados infratores, para se tornar um dos maiores 
problemas do mundo moderno, tornando-se possivelmente um dos maiores 
desafios deste século para as autoridades internacionais, juntando-se, no 
mesmo nível de importância, aos conflitos armados e à crise humanitária 
de refugiados.
Nessa toada, classificar a corrupção sistêmica como grave ofensa aos 
Direitos Humanos passa a ser uma prioridade para o Sistema de Proteção 
Internacional de Direitos Humanos a fim de evitar uma catástrofe de 
proporções mundiais.
1 A IMPORTâNCIA DO COMBATE à CORRUPÇÃO SISTÊMICA PARA 
GARANTIA DA EFETIVIDADE DAS POLíTICAS PúBLICAS
Não resta dúvida que a corrupção sistêmica permite, ainda que de 
forma velada, a falência de muitos programas de Governo, normalmente 
custeados pelas receitas que aportam anualmente nos cofres públicos, 
gerando ineficiência das políticas públicas gestadas durante anos pelos 
agentes do Estado com objetivo de minimizar os efeitos nefastos das 
desigualdades sociais e econômicas que assolam os cidadãos dos países 
menos desenvolvidos.
Deveras, para Anne Peters, Diretora do Instituto Max-Planck de 
Direito Público Comparado e Direito Internacional Público: 
De fato, países com altosníveis de corrupção são aqueles com baixos 
índices de respeito aos Direitos Humanos. [...] Aparentemente, 
corrupção e violações aos Direitos Humanos florescem no mesmo 
ambiente e provavelmente têm as mesmas causas originárias, como 
pobreza e instituições fracas” (PETERS, 2016, p. 1, tradução nossa). 
Faz-se mister encarar a corrupção não só como um problema de 
Direitos Humanos, mas também como uma potencial violação destes, 
ainda que isso se dê mais em um plano simbólico, pois se revela difícil 
provar, na Justiça, o prejuízo concreto, em um processo individual, que 
uma pessoa sofre com os efeitos da corrupção sistêmica.
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara
Murilo Strätz 45
Embora se discuta academicamente se a corrupção constitui, por 
si só, violação aos direitos humanos, o fato é que sua prática sistêmica 
ameaça, sim, a estrutura protetiva destes, ainda que indiretamente, pois 
enfraquece os mecanismos institucionais de mitigação da desigualdade 
social.
Em tal medida, a corrupção sistêmica acarreta sérios prejuízos 
ao País e pode ser materializada, por exemplo, por desvios de recursos 
públicos, fraude em licitações, recebimento de propinas em troca de favores 
governamentais e até mesmo renúncias e isenções fiscais legalmente (de 
modo formal) autorizadas.
Aqui os licitantes sem sucesso são as vítimas em potencial, se a eles 
não são concedidos o contrato devido a fatores externos, pelo menos se 
eles têm uma expectativa concreta para o contrato e não perspectivas 
meramente abstratas. Clientes e usuários finais são naturalmente, 
também negativamente, afetados pela corrupção nos contratos 
públicos se eles têm de pagar preços mais elevados ou se receberem 
um produto que não vale o dinheiro porque os fundos foram desviados 
durante o processo de produção. Perguntas relacionadas são como 
a corrupção pode afetar os direitos de propriedade e de investidor 
dos licitantes bem sucedidos. Claro que a avaliação será diferente 
dependendo se o licitante tinha ganho a licitação através de corrupção, 
ou se seu investimento tenha sido adulterado posteriormente por atos 
corruptos do Estado anfitrião (PETERS, 2016, p. 5, tradução nossa). 
A empresa de consultoria e auditoria PricewaterhouseCoopers 
estimou que a União Europeia tenha aproximadamente 13%, de todo o 
seu orçamento de licitações públicas, envolvido em corrupção:
Posteriormente, foi feita uma estimativa do desempenho destes projetos 
assim como do prejuízo aos cofres públicos devido à corrupção. Para 
isso, diferenças de eficácia e de eficiência entre casos de corrupção 
e do colarinho branco, por um lado, e de casos limpos, de outro 
lado, foram avaliadas tendo em conta elementos como saturações de 
custos, atrasos e considerações de qualidade. A análise confirmou a 
suposição de que os casos de corrupção e do colarinho branco possuem 
menor desempenho do que os de licitações “limpas”, muito embora 
estes últimos também pudessem sofrer com preocupações quanto à 
eficiência e à eficácia. Na amostra de 192 casos, foi identificado um 
prejuízo aos cofres públicos claramente maior nos casos de corrupção 
e do colarinho branco: enquanto casos limpos geram um prejuízo de 
Publicações da Escola da AGU 46
5% dos seus custos projetados, casos de corrupção e do colarinho 
branco geram um prejuízo de 18%. Assim, 2/3 dos problemas de 
desempenho em licitações corruptas e de colarinho branco (13% 
dos Orçamentos envolvidos) podem ser atribuídos à corrupção 
(PRICEWATERHOUSECOOPERS, 2013, p. 15, tradução nossa). 
Em 1997, ou seja, vinte anos atrás, Paolo Mauro, ex-economista 
do Fundo Monetário Internacional, escreveu trabalho singular a esse 
respeito, concluindo que a perda de receitas públicas pode decorrer de 
diversos fatores: evasão fiscal, concessão de isenções indevidas, redução 
de cobrança de tributos ou do aumento do nível de despesas públicas:
• Quando ela assume a forma de evasão fiscal ou clama por isenções 
fiscais impróprias, a corrupção pode provocar perda de receitas fiscais. 
• Através da redução de receita fiscal ou do aumento do nível das 
despesas públicas, a corrupção pode levar a consequências orçamentárias 
adversas. Também pode causar problemas monetários se ela assume 
a forma de empréstimos impróprios concedidos por instituições 
financeiras públicas à taxas de juros abaixo do mercado. 
• A alocação de contratos em licitações públicas através de um sistema 
corrupto pode conduzir à baixa qualidade de infraestrutura e serviços 
públicos. 
• Corrupção pode distorcer a composição das despesas do governo. 
Corrupção pode levar agentes públicos a escolher gastos governamentais 
não em razão do interesse público mais em razão da oportunidade que 
é proporcionada para solicitar suborno. Grandes projetos cujo valor 
exato é difícil de monitorar podem apresentar oportunidades lucrativas 
para a corrupção. A priori, poder-se-ia esperar que seja mais fácil 
receber subornos substanciais em grandes projetos de infra-estrutura 
ou sistemas de defesa de alta tecnologia do que em livros escolares 
ou salários de professores. (MAURO, 1997, p. 7, tradução nossa). 
No Brasil, por exemplo, o Banco Nacional do Desenvolvimento 
Econômico e Social – BNDES foi responsável pelo empréstimo a grupos 
empresariais, muitas vezes fora do escopo e do propósito de seus objetivos 
estatutários, de bilhões de reais a taxas de juros irrisórias:
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara
Murilo Strätz 47
O Brasil pode ver-se livre dos efeitos negativos dos subsídios nas 
operações de crédito do BNDES. A solução virá caso seja aprovada a 
medida provisória 777, que cria a Taxa de Longo Prazo.
É justificável conceder subsídios de crédito em investimento que 
gerem elevados retornos sociais. Se o sistema de crédito privado não 
se dispuser a financiá-lo, essa falha de mercado deve ser resolvida por 
ação do Estado. Isso acontece em todo o mundo.
No Brasil, esse subsídio, em especial no BNDES, virou fonte de 
distorções, o que foi acentuado no governo Dilma com a vultosa 
transferência de recursos do Tesouro ao banco (mais de R$ 600 bilhões 
a preços de hoje), para apoiar a formação de “campeões nacionais” ou 
simplesmente para disseminar a concessão de crédito a juros camaradas. 
(NÓBREGA, 2017)
Nesse espectro de solução de continuidade das políticas públicas e de 
seus respectivos programas de governo, ante a um orçamento insuficiente 
causado pelos desvios advindos da corrupção sistêmica, é que a corrupção 
se projeta como verdadeira ofensa aos Direitos Humanos dos cidadãos 
que vivem, normalmente, em condições de precariedade e sem condições 
mínimas de sobrevivência com dignidade.
2 A GLOBALIzAÇÃO DA CORRUPÇÃO SISTÊMICA
Ao longo dos últimos anos a comunidade internacional vem clamando 
cada vez mais por transparência e reforma das instituições de Estado 
com o objetivo de proporcionar fiscalização ampla e atuação institucional 
mais efetiva, a fim de que os recursos disponibilizados possam garantir o 
cumprimento das necessidades de seus cidadãos.
Na década de noventa do século passado, esta necessidade se tornou 
mais premente tendo em vista os diversos escândalos políticos e financeiros 
que foram divulgados na mídia mundial, transformando a corrupção não 
mais apenas em um problema predominantemente nacional ou regional, mas 
em uma questão realmente séria a ser combatida por toda a comunidade 
internacional:
As forças motrizes primordiais dessa mudança são o crescimento da 
riqueza e da educação, e o surgimento da era da informação. A crescente 
disponibilidade e o consumo mundial de informação, a influência cada 
vez maior dos meios de comunicação e os avanços tecnológicos que 
Publicações da Escola da AGU 48
dão primazia ao conhecimento e à informação na vida econômica 
contribuíram, todos, para um contexto rico em informações, no qual 
os líderes, querqueiram quer não, são mais que nunca forçados a vir 
a público para prestar contas mais detalhadas de seus atos.
O sigilo e a manipulação orwelliana da verdade – pedras angulares do 
regime autoritário e totalitário – tornaram-se cada vez mais difíceis de 
ser mantidos em um contexto pós-industrial de transparência crescente. 
Com seus poderes fortalecidos pela informação, praticamente em todos 
os lugares, as pessoas estão expressando repulsa contra atividades 
feitas “por debaixo dos panos” por elites arraigadas e corruptas, estão 
levando suas insatisfações para as ruas e, onde possível, para as urnas. 
(GLyNN; KOBRIN; NAÍM, 2002, p. 29).
Após uma segunda revolução tecnológica, a do século atual - que, 
bem ou mal, transformou-se na era do conhecimento indiscriminado 
e terminou por impor a queda da vestal e proporcionar a visualização 
explícita dos maus feitos promovidos por agentes públicos e particulares 
de um sem número de nacionalidades -, passamos a assistir também, 
porém, à eclosão e ao acirramento de grandes catástrofes humanitárias. 
Nesse particular, foi possível assistir, com uma perplexidade jamais 
vista, ao aumento exponencial dos conflitos armados em todo o mundo e 
à maior crise humanitária desde a Segunda Grande Guerra:
5. Qual era a situação na Síria antes da guerra - e o que levou ao conflito?
Antes do início do conflito, muitos sírios se queixavam de um alto nível 
de desemprego, corrupção em larga escala, falta de liberdade política 
e repressão pelo governo Bashar al-Assad - que havia sucedido seu 
pai, Hafez, em 2000.
Em março de 2011, adolescentes que haviam pintado mensagens 
revolucionárias no muro de uma escola na cidade de Deraa, no sul do 
país, foram presos e torturados pelas forças de segurança.
O fato provocou protestos por mais liberdades no país, inspirados na 
Primavera Árabe - manifestações populares que naquele momento se 
estendiam pelos países árabes (BBC, 2017).
O mundo enfrenta a maior crise humanitária desde 1945, ano em que 
terminou a Segunda Guerra Mundial e foi fundada a Organização 
das Nações Unidas (ONU). O alerta é de Stephen O’Brien, diretor 
de Operações Humanitárias da ONU. Em discurso ao Conselho de 
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara
Murilo Strätz 49
Segurança das Nações Unidas, na sexta-feira (10), O’Brien afirmou 
que mais de 20 milhões de pessoas passam fome em quatro países – 
Iêmen, Sudão do Sul, Somália e Nigéria – e pediu o envio imediato de 
ajuda financeira “para evitar uma catástrofe”. “Para ser exato, serão 
necessários US$ 4,4 bilhões até junho”, afirmou. “Sem esforços globais 
coletivos e coordenados, as pessoas morrerão de fome e muitos mais 
vão sofrer e morrer de doenças. (REDAçãO ÉPOCA, 2017).
Não resta qualquer dúvida de que os elementos intrínsecos da 
corrupção estão diretamente relacionados às citadas catástrofes. 
Seguramente, temos que reconhecer que as grandes crises da humanidade e 
seus respectivos conflitos mundiais decorrem da precariedade das condições 
de vida de mais de um bilhão de seres humanos, totalmente desassistidos e 
sem a intervenção do Estado, também em decorrência de atos de corrupção 
perpetrados com o objetivo de manter o status quo de determinados 
governos refratários à adoção de um regime democrático e transparente. 
Portanto, não nos surpreende a reação da comunidade internacional 
aos atos de corrupção sistêmica mundo afora, elevando-os à drástica 
qualificação de ofensa grave aos Direitos Humanos.
3 A POSIÇÃO DOS PRINCIPAIS ORGANISMOS INTERNACIONAIS 
QUANTO AO COMBATE à CORRUPÇÃO
A evolução do posicionamento da comunidade internacional quanto 
à proteção integral dos Direitos Humanos vem se deparando com um 
fenômeno novo, até então desconhecido como elemento causador de grave 
ofensa àqueles ou até mesmo não classificado como tal. Estamos falando da 
“Corrupção” como causa originária do desrespeito aos Diretos Humanos. 
O então Secretário-Geral da ONU, Kofi Annam, falou o seguinte a esse 
respeito, por ocasião da Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção 
- UNCAC (2003):
Corrupção é uma praga insidiosa que possui uma vasta extensão de 
efeitos corrosivos nas sociedades. Isto compromete a democracia e o 
Estado de Direito, conduz a violações de direitos humanos, distorce 
os mercados, permite a erosão da qualidade de vida e a escalada do 
crime organizado, do terrorismo e outras ameaças ao florescimento 
da segurança da humanidade. (PETERS, 2016, p. 7, tradução nossa).1
1 “Corruption is an insidious plague that has a wide range of corrosive effects on societies. It undermines democracy and 
the rule of law, leads to violations of human rights, distorts markets, erodes the quality of life and allows organized 
crime, terrorism and other threats to human security to flourish.”
Publicações da Escola da AGU 50
A proposta internacional de modulação da corrupção como grave 
ofensa aos Direitos Humanos conquistou relativo sucesso em face da 
existência de diversos atos internacionais2 – entre tratados internacionais 
e regionais com diversos protocolos adicionais, bem como o costume 
internacional (soft law) -, a exemplo da Convenção das Nações Unidas contra 
a Corrupção, de 31 de outubro de 2003, da Convenção Interamericana contra 
a Corrupção, de 29 de março de 1996, e da Convenção de Combate ao Suborno 
de Agentes Públicos em Transações Comercias Internacionais (celebrada no 
âmbito da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico 
– OCDE), de 17 de dezembro de 1997, que intensificaram o combate à 
corrupção no plano internacional. 
Vejamos o que diz David Weissbrodt em artigo intitulado “Papéis 
e Responsabilidades do Atores Não-Estatais”, verbis:
A Convenção da OCDE para o Combate ao Suborno de Agentes Públicos 
em Transações Comercias Internacionais, de 1997 — comumente 
referida como Convenção da OCDE Anti-Suborno – estabeleceu mais 
padrões exigíveis para o relacionamento entre entidades comerciais 
e governos estrangeiros com o objetivo de lutar contra a corrupção 
e criar um nível para o ambiente de negócios. A Corrupção é cada 
vez mais parte da agenda de direitos humanos e como isso afeta, em 
particular, o desfrute aos direitos econômicos, sociais e culturais. 
Igualmente, tratados estabelecendo padrões que impactam o ambiente 
de atividades comerciais permitem ainda mais o direito ao mais alto 
padrão de saúde atingível. Um desses acordos é o Protocolo de 1996 à 
Convenção para Prevenção à Poluição Marinha pelo Despejo de Rejeitos 
e Outras Matérias, pela qual as partes contratantes acordaram em 
tentar acabar com o despejo de rejeitos industriais e outros materiais 
perigosos nos oceanos (WEISSBRODT, 2013, p. 6, tradução nossa).3
2 Convenção Interamericana contra a Corrupção, aprovada pela Organização dos Estados Americanos em 
29 de março de 1996, o Convênio relativo à luta contra os atos de corrupção no qual estão envolvidos 
funcionários das Comunidades Europeias e dos Estados Partes da União Europeia, aprovado pelo Conselho 
da União Europeia em 26 de maio de 1997, o Convênio sobre a luta contra o suborno dos funcionários 
públicos estrangeiros nas transações comerciais internacionais, aprovado pelo Comitê de Ministros do 
Conselho Europeu em 27 de janeiro de 1999, o Convênio de direito civil sobre a corrupção, aprovado pelo 
Comitê de Ministros do Conselho Europeu em 4 de novembro de 1999 e a Convenção da União Africana 
para prevenir e combater a corrupção, aprovada pelos Chefes de Estado e Governo da União Africana em 
12 de julho de 2003.
3 “The 1997 OECD Convention on Combating Bribery of Foreign Public Officials in International Business 
Transactions – commonly referred to as the OECD Anti-Bribery Convention – established more enforceable standards 
for business entities’ interactions with foreign governments in order to fight corruption and create a level playing 
field for all businesses.Corruption is increasingly part of the human rights agenda, as it affects, in particular, the 
enjoyment of economic, social, and cultural rights. Similarly, treaties establishing standards on the environmental 
impact of commercial activities may further the right to the highest attainable standard of health. One such agreement 
is the 1996 Protocol to the 1972 Convention on the Prevention of Marine Pollution by Dumping of Wastes and 
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara
Murilo Strätz 51
Nessa mesma linha, a Assembleia Geral da ONU, através da Agenda 
2030 para o Desenvolvimento Sustentável, de 2015, solicita de todos os 
Estados que “reduzam substancialmente a corrupção e o suborno em todas 
as suas formas e recuperem todos os recursos desviados até 2030” (PETERS, 
2016, p. 7, tradução nossa).4
4 A EVOLUÇÃO DOS SISTEMAS INTERNACIONAIS DE PROTEÇÃO AOS 
DIREITOS HUMANOS NO COMBATE à CORRUPÇÃO
No âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) – considerado 
o sistema universal ou global de proteção aos Direitos Humanos, por 
ter sua origem na Carta da ONU ou em suas Convenções -, a apuração 
de violações a estes pode dar-se de duas formas: a) convencional; e b) 
extraconvencional. A apuração convencional se subdivide em: a.1) não-
contenciosa (conciliação e relatórios periódicos/supervisão, realizados pelo 
Alto Comissariado das ONU para os Direitos Humanos, com sede em 
Genebra/Suíça); a.2) quase judicial (petições/controle); e a.3) judicial (por 
meio da Corte Internacional de Justiça – CIJ, sediada em Haia/Holanda). 
Já a apuração extraconvencional dá-se a partir das Resoluções editadas 
pela ONU (RAMOS, André de Carvalho, 2016, pp. 80-83).
O Comitê Consultivo do Conselho de Direitos Humanos da ONU 
anunciou proposta no sentido de que a corrupção sistemática com recursos 
públicos seja tratada como crime contra a humanidade. Em texto que será 
submetido ao Conselho de Direitos Humanos da entidade, seus autores 
questionam a devolução feita pelos países receptores dos desvios de apenas 
1% do valor congelado. O conteúdo elaborado pelo Comitê Consultivo do 
colegiado, obtido pelo Estadão5, será votado pelos integrantes do colegiado, 
Other Matter, in which the contracting parties agreed to attempt to end the dumping of industrial waste and other 
hazardous materials into the oceans.” In: WEISSBRODT, David. Roles and Responsibilities of Non-State Actors. 
In: SHELTON, Dinah (Org.). The Oxford Handbook of International Human Rights. Oxford: OUP, 2013. p. 1-14.
4 Itens 16.5. e 16.4. da Resolução 70/1 da Assembleia Geral da ONU: “Transformando nosso Mundo: A 
Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, de 25 de setembro de 2015.
5 “’Não existem dúvidas de que organizações criminosas emergindo de regimes cleptocráticos – aquele cujo 
único objetivo é pilhar o Estado – causam dano ao Estado e afetam os direitos fundamentais e liberdades 
da população. Estados devem considerar formas de caracterizar como crimes internacionais, em especial 
crimes contra a humanidade, atos de corrupção que sejam conduzidos de forma sistemática e que tenham 
um impacto no bem-estar da população’, diz o texto dos peritos Obiora Okafor e Jean Ziegler. 
 O documento também sugere que as investigações transnacionais tramitem em esferas internacionais. ‘Sob 
certas circunstâncias, crimes financeiros com implicações transnacionais deveriam ser julgados em um nível 
internacional’, defende. 
 O texto faz referência a dados da entidade Global Financial Integrity sobre a estimativa de que US$ 1,1 
trilhão poderia ter deixado países em desenvolvimento em fluxos financeiros ilícitos. A entidade francesa 
Comitê Católico contra a Fome cita 800 bilhões de euros.” (CHADE, Jamil. ONU propõe tratar corrupção 
como crime contra a humanidade. Artigo publicado em 01º/09/2017 no Estadão. Disponível em: <http://
Publicações da Escola da AGU 52
que inclui o Brasil. Lembrando como bancos suíços agiram com “completa 
impunidade” no passado, o documento admite que as leis no país alpino 
mudaram, mas que as regras são pouco respeitadas e grandes escândalos 
internacionais envolvendo o mercado financeiro suíço continuam a aparecer. 
Daí a necessidade de que bancos e intermediários financeiros envolvidos 
em esquemas de corrupção sejam responsabilizados criminalmente por 
seu envolvimento.
A já citada Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção 
(adotada pela Assembléia-Geral das Nações Unidas em 31 de outubro 
de 2003, assinada pelo Brasil em 9 de dezembro de 2003 e promulgada 
pelo Decreto nº 5.687, de 31 de janeiro de 2006), em seu capítulo sobre 
cooperação internacional, enfatiza que todos os aspectos dos esforços 
anticorrupção necessitam de cooperação internacional, tais como assistência 
legal mútua na coleta e transferência de evidências, nos processos de 
extradição, e ações conjuntas de investigação, rastreamento, congelamento 
de bens, apreensão e confisco de produtos da corrupção. A Convenção 
inova em relação a tratados anteriores ao permitir assistência legal mútua 
mesmo na ausência de dupla incriminação, quando não envolver medidas 
coercitivas. O princípio da dupla incriminação prevê que um país não 
necessita extraditar pessoas que cometeram atos que não são considerados 
crimes em seu território. Mas, a partir da convenção, esses requisitos se 
tornam mais maleáveis, pois a convenção prevê que mesmo crimes que não 
são definidos com os mesmos termos ou categoria podem ser considerados 
como equivalentes, possibilitando a extradição. 
No Brasil recente, tivemos avanços, sobretudo, com a Lei 
Anticorrupção, que veio estimular empresas interessadas em prevenir 
a corrupção a aderirem a programas de compliance, e com a Lei das 
Organizações Criminosas, que ampliou a capacidade investigativa do 
Estado, mediante meios mais elásticos de obtenção de provas.6
Vale ressaltar, por fim, que, a par dos mecanismos já previstos pela 
legislação nacional com vistas à cooperação internacional7 em matéria 
de crimes contra os Cofres Públicos, a Convenção reforça o cabimento 
politica.estadao.com.br/noticias/geral,orgao-da-onu-propoe-tratar-corrupcao-como-crimes-contra-a-
humanidade,70001961296>. Acesso em: 18 out. 2017).
6 HAGE, Jorge; MAGRI, Caio. Aqui uma Proposta. Revista Veja, Editora Abril, edição 2550, ano 50, n. 40, 
p. 54-55, 04 out. 2017.
7 “Artigo 37
 Cooperação com as autoridades encarregadas de fazer cumprir a lei
 1. Cada Estado Parte adotará as medidas apropriadas para restabelecer as pessoas que participem ou que 
tenham participado na prática dos delitos qualificados de acordo com a presente Convenção que proporcionem 
às autoridades competentes informação útil com fins investigativos e probatórios e as que lhes prestem ajuda 
efetiva e concreta que possa contribuir a privar os criminosos do produto do delito, assim como recuperar 
esse produto.
André Gustavo Vasconcelos de Alcântara
Murilo Strätz 53
de extradição nos casos de corrupção, sempre que os requisitos de dupla 
incriminação estejam preenchidos. Para tanto, os Estados Partes não devem 
considerar os crimes de corrupção como crimes políticos; e os estados que 
condicionam a extradição à existência de acordos podem usar a Convenção 
como base normativa. Ademais disso, a cooperação entre Estados também 
acabará promovendo, como efeito positivo, o intercâmbio científico e de 
técnicas criminais entre seus respectivos especialistas8.
E, se um país não extradita nacionais, deverá, segundo a Convenção, 
usar o pedido do outro país como fundamento para um processo interno, 
além de buscar harmonizar suas leis nacionais aos tratados existentes 
sobre a matéria.
5 CONCLUSÃO
Conclui-se que há uma tendência universal no sentido de que a 
corrupção seja vista não só como um problema de direitos humanos, mas 
também como uma potencial violação destes, ainda que isso se dê, por 
ora, mais em um plano simbólicodo que propriamente efetivo do ponto 
de vista jurídico. 
Nessa perspectiva sinaliza o Comitê Consultivo do Conselho de 
Direitos Humanos da ONU, como visto acima, ao anunciar proposta no 
sentido de que a corrupção sistemática com recursos públicos seja tratada 
como crime contra a humanidade, proposta esta que ainda deverá ser aprovada 
pelo Conselho de Direitos Humanos da entidade.
Com efeito, embora possa ser difícil provar, na Justiça, o prejuízo 
concreto, em um processo individual, que uma pessoa sofreu com os efeitos 
da corrupção sistêmica, o fato é que sua prática sistêmica ameaça, sim, 
 2. Cada Estado Parte considerará a possibilidade de prever, em casos apropriados, a mitigação de pena 
de toda pessoa acusada que preste cooperação substancial à investigação ou ao indiciamento dos delitos 
qualificados de acordo com a presente Convenção.
 3. Cada Estado parte considerará a possibilidade de prever, em conformidade com os princípios fundamentais 
de sua legislação interna, a concessão de imunidade judicial a toda pessoa que preste cooperação substancial 
na investigação ou no indiciamento dos delitos qualificados de acordo com a presente Convenção.
 4. A proteção dessas pessoas será, mutatis mutandis, a prevista no Artigo 32 da presente Convenção.
 5. Quando as pessoas mencionadas no parágrafo 1 do presente Artigo se encontrem em um Estado Parte 
e possam prestar cooperação substancial às autoridades competentes de outro Estado Parte, os Estados 
Partes interessados poderão considerar a possibilidade de celebrar acordos ou tratados, em conformidade 
com sua legislação interna, a respeito da eventual concessão, por esse Estrado Parte, do trato previsto nos 
parágrafos 2 e 3 do presente Artigo.”
8 “It should be emphasized again, that in similar way not only and not so much the suggestions are formulated on 
additions and amendments to the corresponding national legislation. The universal methodological recommendations 
are proposed in order to improve the efficiency of detection and investigation of corruption crimes. Therefore, combining 
of the efforts of scientists from different countries for elaboration of such techniques – is a perspective direction for 
further international research at the intersection of criminalistics, operational and search activities, criminal law 
and other sciences of anti-crime cycle.” (GARMAEV, 2015, p. 271).
Publicações da Escola da AGU 54
a estrutura protetiva destes de modo coletivo, ainda que indiretamente, 
pois aprofunda as crises humanitárias (tais como as atuais catástrofes que 
assolam de fome 20 milhões de pessoas no Iêmen, Sudão do Sul, Somália 
e Nigéria, p. e.) e enfraquece os mecanismos institucionais de mitigação 
da desigualdade social.
Enfim, infere-se que a corrupção sistêmica é um fenômeno tão 
ofensivo à proteção efetiva dos direitos humanos, que os olhos da comunidade 
internacional estão cada vez mais voltados a prevenir e reprimir, em âmbito 
globalmente interligado, a sua perniciosa prática, como forma de mitigar 
os nefastos efeitos por ela produzidos, sobretudo, nas populações mais 
desassistidas e carentes de provimentos estatais de necessidade básica, 
que vivem, não por acaso, nos países mais corruptos do planeta.
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57
O TRIBUNAL DE JUSTIçA DA UNIãO 
EUROPÉIA E A APLICABILIDADE DO 
DIREITO COMUNITÁRIO EM ÂMBITO 
INTERNO
THE EUROPEAN UNION COURT OF JUSTICE AND THE 
APLICABILITy OF THE COMMUNITy LAW
Carlos Marden
Doutor em Direito Processual pena Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. 
Professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu do Centro Universitário 
Christus. Procurador Federal atuando junto ao Conselho Superior da Advocacia-Geral 
da União
Adriana Albuquerque
Especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Direito Tributário. 
Mestre em Direito Tributário pela Universidade Federal de Pernambuco. Procuradora 
da Fazenda Nacional lotada na Procuradoria-Regional da 5ª Região
SUMÁRIO: Introdução; 1 O arcabouço normativo da 
União Europeia; 2 A relação entre o Direito Comunitário 
e o direito interno; 3 Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 58
RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo analisar a aplicabilidade 
do Direito Comunitário no âmbito interno dos países que compõem a 
União Europeia, destacando o protagonismo do Tribunal de Justiça nesse 
processo. Para tanto, pretende-se inicialmente apresentar o arcabouço 
normativo da União Europeia, mostrando que existe uma série de 
diferentes espécies de normas, cada uma delas recebendo tratamento 
específico. Na sequência, será discutido como é encarada a questão da 
hierarquia entre Direito Comunitário e direito interno, no caso de haver 
choque de legislação, a despeito da obrigação de conformidade dos países-
membros. Como desenvolvimento, far-se-á uma reflexão a respeito do 
papel do Tribunal de Justiça da Comunidade Europeia no processo de 
afirmação história do Direito Comunitário no âmbito interno dos países. 
Por fim, buscar-se-á demonstrar que existe uma tendência significativa 
a fazer prevalecer o Direito Comunitário e que o Tribunal de Justiça tem 
protagonismo na questão.
PALAVRAS-CHAVE: Tribunal de Justiça. União Europeia. Direito 
Comunitário. Direito Interno. Novo Modelo.
ABSTRACT: The aim of this study is to analyze the applicability of 
Community law within the European Union countries, highlighting 
the role of the Court of Justice in this process. To do so, it is initially 
intended to present the European Union’s normative framework, 
showing that there are a number of different kinds of standards, each 
receiving specific treatment. It will then be discussed how the hierarchy 
between Community law and domestic law is discussed in the event of 
a clash of legislation, despite the Member States’ obligation to comply. 
As a development, there will be a reflection on the role of the Court 
of Justice of the European Community in the process of affirming the 
history of Community Law within the countries. Finally, it will be sought 
to demonstrate that there is a significant tendency to make Community 
law prevail and that the Court has a leading role in the matter.
KEYWORDS: Court of Justice. European Union. Community Law. 
Domestic Law. New Model.
Carlos Marden 
Adriana Albuquerque 59
INTRODUÇÃO
A assinatura do Tratado que criou a União Europeia deu início a um 
processo de integração que, por sua natureza peculiar, não mais se adequava 
nem podia ser explicado pelas Teorias Clássicas do Direito Internacional. O 
surgimento do Direito Comunitário Europeu1 reabriu, no âmbito do cenário 
internacional, a discussão acerca da necessidade de uma redefinição do conceito 
clássico de soberania. Durante muito tempo, a doutrina tradicional correlacionou 
o conceito de soberania à existência de um poder absoluto a ser exercido pelo 
Estado, em função do qual lhe incumbia definir, isoladamente e sem interferências 
externas, as regras que deveriam vigorar no espaço de seu território.
Dissociando-se da concepção clássica, o conceito de soberania passou 
a significar, com o advento do Direito Comunitário, a existência de certa 
liberdade, por parte do Estado nacional, para dispor do poder que lhe é inerente, 
restringindo-o (ou dele abrindo mão parcialmente) em determinadas áreas, em 
prol da consecução de objetivos pré-estabelecidos. A grande inovação advinda 
da construção do Direito Comunitário encontra-se na constatação de que, ao 
longo do processo de integração europeia, os Estados nacionais redesenharam 
o conceito de poder soberano, promovendo uma autolimitação de seus direitos, 
seguida por uma explícita transferência de parcelas de poder legislativo para 
um novo ente legal - a Comunidade. 
A existência de uma nova ordem legal no âmbito da Europa, pautada 
na transferência de poder por parte dos Estados nacionais a um organismo 
supranacional, foi evidenciada pela primeira vez em 1963, quando do 
julgamento, pelo TJCE, do caso Van Gen em Loos. Nesta decisão, o TJCE 
asseverou que “the EC is a new legal order in international law, on behalf 
of wich states have limited their sovereign rights in certain fields and whose 
subjects comprise not only states but also individuals”. (KENT, 2000, p. 03). 
Embora tenha permitido o desenrolar do processo integrativo, a 
relativização do conceito clássico trouxe consigo um problema até então 
não enfrentado no âmbito do Direito Internacional Público. Tratava-se 
de saber como compatibilizar o exercício concomitante de poder pelo ente 
1 A Comunidade Europeia constitui o primeiro dos três pilares sobre os quais se assenta a União Europeia. 
Em 1957, criou-se, através do Tratado de Roma, a Comunidade Econômica Europeia (CEE), que contava com 
a adesão da Alemanha, Bélgica, França. Itália, Luxemburgo e Países Baixos. Neste mesmo ano, assinou-se, 
também em Roma, o Tratado que estabeleceu a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (EURATOM). 
Em 1993, com a entrava em vigor do Tratado de Maastricht, assinado em 1992, a CEE passou a chamar-se 
Comunidade Europeia (CE), constituindo a base do que hoje se denomina de União Europeia. Assim, a União 
Europeia representou, durante muito tempo, uma realidade mais abrangente que a Comunidade Europeia. 
Além da Comunidade (primeiro pilar), ela abrangia também a existência de uma política de segurança 
comum (segundo pilar) e uma política de cooperação em matéria judicial (terceiro pilar). Qualquer referência 
à Comunidade Europeia se direciona, portanto, ao primeiro pilar da União Europeia, já com as alterações 
sofridas pelas assinaturas dos Tratados de Amsterdã, celebrado em 1997, e Nice, celebrado em 2000. 
Publicações da Escola da AGU 60
supranacional e pelos Estados nacionais. Embora o Direito Comunitário 
se fundamente no princípio da autolimitação da soberania nacional pelos 
próprios Estados membros, não há dúvidas de que esta transferência 
parcial de soberania2 gerou, no seio da Europa, uma tensão, ainda latente, 
entre o caráter supranacional da Comunidade e as esferas nas quais ainda 
prepondera o aspecto intergovernamental. 
É a contraposição entre a supranacionalidade e a intergovernamentabilidade 
– entre os objetivos comuns a serem perquiridos e os interesses nacionais que 
ainda precisam ser protegidos - que conduz a velocidade e o aprofundamento 
do processo de integração. A constatação da existência desta tensão impôs 
uma análise mais detida acerca da relação entre o Direito Comunitário e os 
ordenamentos domésticos dos Estados nacionais, que restou delimitada pela 
construção da jurisprudência do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias. 
Diante do silêncio do Tratado da União Europeia acerca de como 
deveria se comportar o Direito supranacional recém estabelecido perante as 
ordens internas dos Estados nacionais, coube à Corte de Justiça solucionar 
o impasse jurisprudencialmente e estabelecer até que ponto a construção da 
Comunidade asseguraria aos indivíduos dos antigos Estadoseuropeus o direito 
de invocar, diante de suas cortes internas, quaisquer das previsões do Tratado 
e das legislações secundárias, enquanto forma de se opor à aplicação de uma 
medida que julgassem contrárias aos dispositivos comunitários. 
Este artigo se propõe a analisar a evolução da integração europeia a 
partir de uma análise do papel desempenhado pelo Tribunal de Justiça da União 
Europeia enquanto um dos órgãos comunitários de natureza eminentemente 
supranacional. Para tanto, evidencia-se a atuação do Tribunal enquanto 
garantidor da nova ordem legal, ao construir os princípios da primazia, 
aplicabilidade direta e indireta do direito comunitário, responsabilidade 
estatal, pilares sobre os quais se assenta a União Europeia.
1 O ARCABOUÇO NORMATIVO DA UNIÃO EUROPEIA
Antes de analisar a relação do Direito Comunitário com as ordens 
jurídicas nacionais, é importante evidenciar, ainda que sucintamente, suas 
fontes, características e princípios informadores, de modo a construir um 
panorama amplo e real acerca desta nova ordem legal mencionada pelo 
Tribunal de Justiça no caso Van Gen em Loos (MENEZES, 2011). 
No âmbito do Direito Comunitário, é possível visualizar basicamente 
duas espécies de instrumentos introdutores de normas: os próprios textos 
2 José Antônio Farah (2006) ressalta que a transferência de soberania, de fato, não poderia ser total, sob pena 
de que a Europa adquirisse a natureza de uma Federação, com o consequentemente desaparecimento dos 
Estados nacionais enquanto tais. 
Carlos Marden 
Adriana Albuquerque 61
dos tratados constitutivos da Comunidade - denominados de fontes primárias 
- e a legislação derivada, constituída pelas diretivas, recomendações, 
regulamentos, decisões e opiniões, nos termos do artigo 249 do Tratado 
que estabelece a Comunidade Europeia (TCE)3. 
As fontes primárias - as previsões dos Tratados - caracterizam-se 
pela sua capacidade de serem aplicadas imediatamente, gerando efeito 
vinculante tanto perante os Estados membros, quanto perante seus 
indivíduos. A aplicabilidade direta - bem como o caráter vinculante 
dos preceitos dos Tratados - constitui mera consequência do fato 
de que as fontes primárias retiram seu fundamento de validade da 
autolimitação espontânea de soberania perpetrada pelos Estados 
nacionais. 
O princípio da aplicabilidade direta4 da legislação primária restou 
plenamente consolidado no âmbito do Tribunal de Justiça no caso Defrenne v. 
Sabena, de 1976. Ao analisar este caso, a Corte de Justiça assentou que “treaty 
provisions are capable of creating both direct effects vertically between the state 
and individuals and horizontally between individuals” (KENT, 2000, p. 07). 
Na legislação secundária, no entanto, nem todas as normas apresentam 
esta característica. Com efeito, algumas das normas que compõem a 
legislação secundária, tais como as opiniões e as recomendações, sequer 
apresentam caráter vinculante. Na medida em que constituem instrumentos 
de soft law, estas espécies de regras não interferem necessariamente nos 
ordenamentos domésticos dos Estados. (CRAIG, DE BÚRCA, 2002)5. 
Uma vez afastadas as recomendações e opiniões, faz-se mister 
analisar as fontes derivadas do Direito Comunitário dotadas de caráter 
coativo, quais sejam as diretivas, os regulamentos e as decisões. Diretivas 
são legislações comunitárias endereçadas aos Estados membros (mas não 
necessariamente a todos) que, em virtude de sua flexibilidade, funcionam 
como o instrumento maior de harmonização da política legislativa Européia, 
3 Cumpre-nos, aqui, salientar que sempre que o texto se referir a Tratado estará fazendo alusão ao Tratado que 
estabelece a Comunidade Européia em sua versão compilada, ou seja, ao Tratado de Roma (1957), já alterado 
por todos os Tratados posteriores, quais sejam Maastricht, Amsterdã, Nice e mais recentemente Lisboa. 
4 Por efeito imediato (aplicabilidade direta) entende-se a possibilidade de que os comandos dos Tratados 
sejam imediatamente utilizados pelos Estados membros e pelos indivíduos na defesa de seus direitos, sem 
qualquer necessidade de interiorização.
5 Por uma questão de precisão técnica, é importante trazer à colação ressalva feita por Paul Craig e Gráinne 
de Búrca (2002, p. 116) no sentido de que a inexistência de força coativa nas recomendações e opiniões, 
embora lhes retire a capacidade de vincular os Estados e seus indivíduos, “does not immunize them from 
the judicial process. It is, for example, open to a national court to make a reference to the ECJ concerning 
the interpretation or validity of such a measure”. 
Publicações da Escola da AGU 62
uma vez que introduzem no âmbito dos ordenamentos nacionais as 
modificações tidas como complexas6 (CRAIG, DE BÚRCA, 2002). 
Diferentemente dos demais instrumentos que compõem a legislação 
secundária (regulamentos e decisões), as diretivas não são automaticamente 
incorporadas aos sistemas legais dos Estados membros, devendo, 
necessariamente, ser transpostas aos sistemas internos por um procedimento 
de caráter específico a ser realizado pelos Estados aos quais são endereçadas. 
Assim, percebe-se que, porquanto coercitivo apenas no que se refere ao 
resultado a ser obtido, este instrumento normativo confere às autoridades 
nacionais um âmbito relativo de discricionariedade para escolher como e 
quando harmonizá-lo com seus ordenamentos jurídicos. 
Esta é a primeira diferença entre as diretivas e os dispositivos dos 
Tratados: enquanto as previsões dos Tratados possuem aplicabilidade imediata, 
as diretivas não são diretamente aplicáveis aos ordenamentos nacionais, 
precisando ser incorporadas. No caso Pubblico Ministero v. Batti, o Tribunal 
de Justiça da União Europeia tratou acerca da correlação entre a necessidade 
de interiirização das diretivas e sua capacidade de vincular os Estados, para 
estabelecer que “A directive containing for implementation is only capable 
of creating direct effect from the date of the deadline”. (KENT, 2000, p. 7).
Ao assim dispor, a Corte de Justiça assentou, de forma clara, as 
regras que devem nortear a aplicação deste instrumento legislativo, as quais 
podem ser assim sintetizadas: a) as diretivas vinculam os Estados quanto 
aos resultados a serem obtidos, mas não quanto a forma de sua incorporação 
aos ordenamentos nacionais; b) a existência de discricionariedade estatal 
acerca da forma de incorporação não significa que as diretivas podem 
ser incorporadas a qualquer tempo, de modo que os Estados membros 
devem respeitar os prazos de internalização em regra existentes no próprio 
instrumento legislativo; c) quando estabelecem prazo de internalização, as 
diretivas só podem criar direitos subjetivos após o transcurso do mencionado 
prazo; d) se nenhum prazo for especificado, entende-se que a diretiva passa 
a ter efetividade no vigésimo dia posterior ao da sua publicação no Diário 
Oficial da Comunidade (artigo 254 do Tratado) (CRAIG, DE BÚRCA, 2002). 
Cumpre ressaltar, no entanto, a possibilidade de que, em casos 
específicos, as diretivas sejam invocadas imediatamente pelos Estados membros 
e pelos indivíduos, sem que haja qualquer procedimento de incorporação aos 
6 Ao longo dos últimos anos, por exemplo, diretivas foram utilizadas para legislar acerca de temas tais 
como o mútuo reconhecimento de qualificações profissionais e educacionais no âmbito da União (diretivas 
89/48 e 92/51), a livre movimentação de pessoas (diretiva 64/221) e a conceituação de “medidas com efeito 
equivalente” no que se refere a livre circulação de mercadorias (diretiva 70/50). As diretivas são bem mais 
utilizadas que os regulamentos nas matérias tidas por completas porque não são imediatamente aplicáveis 
aos ordenamentos nacionais. Assim, sua necessidade de incorporação confere aos Estados membros o tempo 
necessário para compatibilizar seus ordenamentos internos com as previsõescomunitárias. 
Carlos Marden 
Adriana Albuquerque 63
ordenamentos domésticos, à semelhança do que ocorre com as previsões dos 
Tratados e com os regulamentos. Com efeito, tomando-se parâmetro o artigo 
249 do Tratado, apenas os artigos do Tratado e os regulamentos possuiriam a 
capacidade de vincular imediatamente os Estados membros e seus indivíduos 
independentemente de qualquer procedimento de interiorização. 
No entanto, no caso Van Duyn v. Home Office, o Tribunal de Justiça 
da União Europeia construiu o entendimento de que, excepcionalmente, as 
diretivas podem ser aplicadas diretamente. O requisito imposto pela Corte 
para acatar a aplicabilidade imediata é o de que a obrigação imposta pela direta 
seja suficientemente clara, incondicional e completa, tornando-a passível, 
portanto, de ser cumprida independentemente da implementação de qualquer 
método de incorporação por parte dos Estados membros. (BIRK, 2006). 
Há, ainda, uma segunda diferença entre as diretivas e a legislação 
primária. Diferentemente das previsões dos Tratados, capazes de vincular 
imediatamente tanto os Estados membros quanto seus indivíduos nas 
relações entre si (vertical and horizontal direct effect7), as diretivas, uma vez 
que endereçadas tão somente aos Estados nacionais, produzem efeito direto 
vertical - podem ser invocadas como embasamento legal nas relações entre o 
Estado e o individuo -, mas, em regra, não apresentam efeito direto horizontal.8 
A impossibilidade de utilização das diretivas para fins de solucionar 
conflitos eminentemente privados foi estabelecida pelo Tribunal de Justiça 
no caso Marshall v. South West Area Health Authority, em 1986, quando a 
Corte dispôs que “The obligation in a directive is adressed to Member 
States and cannot be enforced against individuals”. (KENT, 2000, p. 08). 
Em acórdãos posteriores, tais como Faccini Dori e Rivero, a Corte ratificou 
o entendimento consolidado em Marshall. No entanto, no caso Foster v. 
British Gas, de 1989, a Corte desenvolveu exceção ao princípio, admitindo 
7 Legislações comunitárias que possuem “efeito direto horizontal” são aquelas que incidem em relações estabelecidas 
entre indivíduos, ou seja, que podem ser invocadas de forma a solucionar conflitos privados, prescrevendo direitos e 
deveres que recaem diretamente sobre o cidadão. Dispositivos que incidem apenas “verticalmente”, por sua vez, são 
aqueles que só podem ser aplicados diante de relações estabelecidas entre os indivíduos e um Estado ou um órgão 
do Estado. A Corte de Justiça teve papel fundamental na determinação dos efeitos que recaem sobre cada espécie 
da tipologia legislativa da Comunidade. Assim, foi a jurisprudência da Corte que estabeleceu que os artigos dos 
tratados são passíveis de aplicabilidade vertical e horizontal (Vand Gend en Loos / Defrrennne v. Sabena), ao passo que 
as diretivas só podem ser aplicadas diretamente de forma vertical( Marshall/ Paolo Faccini/ Corte Inglês v. Riivero).
8 Há de se diferenciar aplicabilidade direta de efeito direto. A aplicabilidade direta significa que um dispositivo 
comunitário, uma vez construído, pode ser utilizado imediatamente, sem que haja qualquer necessidade de incorporação 
aos sistemas normativos dos Estados membros. Os dispositivos dos Tratados e os regulamentos possuem aplicabilidade 
direta em virtude da expressa previsão do artigo 239 do TCE. As diretivas, em regram não possuem aplicabilidade 
direta, vez que precisam ser incorporadas. No entanto, excepcionalmente poderão apresentar esta característica, 
se suas previsões forem suficientemente claras, precisas e incondicionais. Efeito direito, por sua vez, significa que 
o dispositivo comunitário não incorporado pode ser invocado, pelos indivíduos, nas relações que venham a surgir 
entre eles e o Estado que descumpriu a regra de incorporação. Assim, se um Estado não incorpora uma diretiva, 
seus indivíduos podem nela se basear diretamente, para fins de assegurar seus direitos frente ao Estado. 
Publicações da Escola da AGU 64
a produção de efeito direto horizontal, pelas diretivas, quando utilizadas 
para dirimir relações entre indivíduos, nas quais um deles funcione como 
uma emanação do Estado9.
Esta, pois, a segunda especialidade das diretivas frentes às fontes 
primárias e demais fontes secundárias do Direito Comunitário: as diretivas 
geram efeito direito vertical, mas apenas excepcionalmente efeito direto 
horizontal. No que concerne às decisões e aos regulamentos, demais 
espécies de legislação derivada, tem-se que:
As regulamentações têm aplicação geral. Elas são diretas e totalmente 
aplicáveis em todos os países-membros. As decisões, por sua vez, estabelecem 
vínculos com aqueles aos quais se destinam. Elas passam a vigorar no 
momento em que seus destinatários são notificados. (BIRK, 2006, p. 05)
Por fim, ainda tratando das fontes do Direito Comunitário, faz-
se fundamental ressaltar, mais uma vez, a importância do Tribunal de 
Justiça da Comunidade Europeia. Embora não previsto como instrumento 
introdutor de normas no rol do artigo 249 do Tratado (o que faz absoluto 
sentido, na medida em que se trata de uma instituição comunitária) não 
há dúvidas de que o Tribunal, ao longo do processo integrativo, deve ser 
louvado enquanto instrumento político fundamental na construção do novo 
sistema, ao estabelecer regras de adequação entre o Direito Comunitário e os 
ordenamentos domésticos, através da construção dos princípios da primazia, 
efeito direito e indireto e responsabilidade estatal (MENEZES, 2011).
2 A RELAÇÃO ENTRE O DIREITO COMUNITÁRIO E O DIREITO INTERNO
No tópico anterior, referente às normas introdutoras do Direito 
Comunitário, discorreu-se, sucintamente, acerca do princípio do efeito direito. 
Afirmou-se que, ao longo de sua jurisprudência, o TJCE ampliou a abrangência 
do princípio da aplicabilidade imediata conferido pelo artigo 249 do Tratado à 
legislação primária e aos regulamentos, para abarcar, também, as diretivas, desde 
que as obrigações por ela impostas fossem claras, incondicionais e completas. 
Procendendo a uma interpretação ampliativa do artigo 249 do 
Tratado, a Corte de Justiça da União Europeía construiu, a partir de 
Van Gen en Loos, o entendimento de que o Direto Comunitário, uma vez 
que construído a partir de uma autolimitação espontânea de soberania 
por parte dos Estados membros, deve apresentar relativa autonomia em 
relação aos ordenamentos nacionais. Assim, deve ser aplicado sempre 
9 No caso Foster v. British Gas, o TJCE decidiu que uma diretiva poderia ser utilizada como base legal para 
solucionar relações privadas, quando uma das partes da relação realizasse um serviço público sob controle 
estatal, possuindo, portanto, poderes diversos daqueles normalmente existentes entre indivíduos. 
Carlos Marden 
Adriana Albuquerque 65
que suficientemente claro, preciso e incondicional, independentemente de 
qualquer ato de concordância dos Estados via incorporação. 
A pedra de toque que define a possibilidade da aplicabilidade imediata 
das normas comunitárias passa a ser, portanto, a substância da previsão – 
se suficientemente clara, precisa e incondicional - e não necessariamente 
sua natureza – se artigo de Tratado, regulamento ou diretiva. 
Neste contexto, os artigos dos Tratados constitutivos são imediatamente 
aplicados no âmbito dos ordenamentos domésticos face à sua essência 
juridicamente perfeita, mera consequência do fato de os Tratados terem sido 
assinados sem reservas pelos Estados10. Os regulamentos são imediatamente 
aplicáveis porque assim o estipula o artigo 249 do TCE. As diretivas, embora 
não apresentem, em regra, aplicabilidade direta, poderão, enquanto normas 
introdutoras que são, apresentar efeito imediato quando impuserem obrigações 
claras, precisas e incondicionais. 
A construção do princípio da aplicabilidade direta das normas comunitáriaspela Corte, em 1962, já evidenciava uma predisposição do aparato institucional 
em assegurar o cumprimento do direito Comunitário ainda que em descompasso 
com os ordenamentos jurídicos nacionais. Essa predisposição ganhou ainda 
mais evidência quando da adoção, pelo Tribunal, do princípio do efeito indireto.
De fato, o entendimento assente no Tribunal de Justiça, desde o caso 
Marshall, era no sentido de que as diretivas geram, em regra, efeito direito 
vertical, mas não efeito direito horizontal. Isso significa que elas não poderiam 
ser invocadas diretamente pelos indivíduos no âmbito de suas relações privadas, 
a não ser que um deles funcionasse como uma emanação do Estado11. Se o 
Estado membro não transpusesse a diretiva no prazo estipulado, os indivíduos 
só poderiam utilizá-la como embasamento legal nas suas relações com o 
Estado Membro (efeito direto vertical), mas não em suas relações com os 
outros indivíduos. 
Com a construção do princípio do efeito indireto, a impossibilidade 
de aplicação das diretivas no âmbito das relações absolutamente privadas foi 
relativizada pela Corte. A partir de então, adotou-se entendimento no sentido 
de que a não transposição das diretivas ou sua transposição incorreta não pode 
importar em prejuízo ao indivíduo, razão pela qual o Estado nacional tem o 
dever de interpretar sua legislação interna à luz dos ditames comunitários. 
Com efeito, se a diretiva não pode ser aplicada na relação entre indivíduos, 
o será a legislação doméstica. Pelo princípio do efeito indireto, suscitado pela 
10 A assinatura sem reservas é consequência inquestionável da necessidade de que se respeite o princípio do 
acervo comunitário. 
11 Ver caso Foster v. British Gás, de 1989, já mencionado.
Publicações da Escola da AGU 66
primeira vez no caso Von Colson12, de 1984, e reafirmado posteriormente em 
Marleasing13, de 1990, ao aplicar sua legislação interna, o Estado membro deve ter 
em mente, sempre que possível, os objetivos e propósitos das normas comunitárias. 
Assim, deve permitir que os termos das diretivas, embora inaplicáveis, influenciem 
na escolha da melhor interpretação a ser conferida à legislação nacional. 
Uma vez consolidado que as normas comunitárias apresentam 
aplicabilidade direta – ainda que sob determinadas condições, no caso das 
diretivas - e que, na ausência de transposição adequada das diretivas, as 
legislações nacionais devem, sempre que possível, ser interpretadas à luz 
da legislação comunitária, coube à Corte de Justiça explicitar a supremacia 
da legislação comunitária sobre as legislações internas. 
O posicionamento do Tribunal começou a ser delineado no leading 
case Costa v. Enel, quando a Corte de Justiça dispôs que:
By creating a Community.... having...real powers stemming from a 
limitation of sovereignty or transfer of powers from the states to the 
Community, the Member States have limited their sovereign rights, albeit 
within their limited fields, and thus have created a body of law which binds 
both their nationals and themselves (CRAIG, DE BÚRCA, 2002, p. 277) 
Da mesma forma, no caso Italian Minister of Finance v. Simmenthal 
Spa, o TJCE delimitou de forma mais clara o sentido da “nova ordem” em 
construção ao determinar
It follows that.... every national court must, in a case within its 
jurisdiction, apply Community law in its entirety and protect rights 
which the latter confers on individual and must accordingly set aside 
any provision of national law which may conflict with it, whether prior 
or subsequent to the national rule (CRAIG, DE BÚRCA, pg. 281)
A partir da leitura dos acórdãos acima transcritos, conclui-se que, na 
construção de seu entendimento, a concepção sob a qual se pautou o TJCE 
foi a de que ao transferir espontaneamente parte de sua soberania ao novo 
ente em formação e permitir que este ente supranacional instituísse direitos e 
12 Ao contrário de Marleasing, onde de debateu a necessidade de que a legislação interna aplicada às relações 
privadas fosse interpretada à luz das diretivas, em Von Colson discutia-se a tentativa de um empregador 
estatal de aplicar uma direta mal incorporada numa relação estabelecida entre ele e um indivíduo. A Corte 
decidiu que a diretiva não poderia ser utilizada como base legal para solucionar a questão, mas que a legislação 
doméstica deveria ser interpretada à luz da diretiva. 
13 Em Marleasing, estabeleceu-se uma disputa entre dois indivíduos. A legislação doméstica era anterior à 
implementação da diretiva. A Corte argüiu que no que diz respeito ao direito interno, as Cortes domésticas 
devem, na medida do possível, interpretar suas legislações nacionais à luz das diretivas, independentemente 
de elas terem sido editadas antes da norma comunitária. 
Carlos Marden 
Adriana Albuquerque 67
deveres que os vinculou, os Estados membros criaram para si um duplo dever, 
caracterizado pelo fato de terem de adequar seus sistemas internos às novas 
previsões (conduta ativa) e, ao mesmo tempo, se privarem de editar qualquer 
dispositivo contrário aos objetivos da Comunidade (conduta omissiva). 
É exatamente por esta razão que, na parte final da decisão prolatada em 
Simmenthal, a Corte de Justiça enfatiza que não importa se a norma de direito 
interno que conflita com o dispositivo comunitário é anterior ou posterior à 
sua edição. Sendo anterior, o Direito Comunitário deve ser aplicado porque é 
dever do Estado nacional coadunar seu sistema interno com a nova realidade 
jurídica instaurada. Se posterior, a primazia do Direito Comunitário advém 
do fato de que, com a assinatura do Tratado14, os países europeus assumiram 
o compromisso de não obstacularizar a concretização dos objetivos coletivos. 
Perceba-se que, na construção do princípio da primazia, a Corte de 
Justiça parte da premissa de que o Tratado, além de funcionar como elemento 
balizador do Direito Comunitário, constitui uma parte integral dos próprios 
sistemas legais dos Estados que compõem a Comunidade. Assim, tanto em 
Costa v. Enel como nos casos subseqüentes, a jurisprudência do Tribunal 
tem amparado a tese de que defender a aplicação das normas previstas nos 
Tratados constitutivos é, ainda que indiretamente, assegurar a proteção do 
próprio direito dos Estados membros a verem a parcela de soberania que 
transferiram à Comunidade legitimada pela realização dos objetivos almejados. 
Neste contexto, diante da existência de eventuais conflitos entre o Direito 
Comunitário e os direitos internos dos Estados – consequência necessária da 
aplicabilidade imediata e direta /indireta das normas comunitárias - deve-se 
conferir primazia ao preceito supranacional em detrimento das legislações 
domésticas. Entretanto, de nada adiantaria assegurar que a norma comunitária 
é imediatamente aplicada e tem prevalência sobre as normas domésticas, 
se não houvesse um mecanismo de responsabilização estatal em caso de 
descumprimento dos preceitos comunitários pré-estabelecidos. 
Assim como os demais princípios, o mecanismo de responsabilização 
dos Estados membros por descumprimento do Direito Comunitário também 
foi construído pela jurisprudência do TJCE, quando da decisão referente ao 
caso Francovich & Bonifaci v. Italy, de 1990. Em Francovich, a Corte de Justiça 
estabeleceu que os Estados membros são obrigados a ressarcir os indivíduos por 
qualquer dano que estes venham a suportar em virtude de uma conduta estatal 
(ativa ou passiva) que, viciando seriamente15 as normas do direito Comunitário, 
impeça a fruição de quaisquer direitos por seus nacionais. 
14 Mais uma vez deve-se ressaltar que está-se fazendo referência, sempre, ao Tratado de Roma em sua versão 
compilada, ou seja, com as alterações sofridas com a assinatura dos Tratados de Maastricht, Amsterdã e Nice. 
15 Na determinação da seriedade do vício cometido, algumas perguntas devem ser formuladas: a regra deDireito 
Comunitário era suficientemente clara e precisa? O Estado encontrava-se dotado de discricionariedade em 
Publicações da Escola da AGU 68
Neste caso específico, a Itália não implementou, no prazo apropriado, 
a Diretiva Comunitária n° 80/987, referente à proteção dos direitos dos 
trabalhadores na hipótese de insolvência dos empregadores. Francovich 
& Bonifaci possuiam queixas contra uma empresa na qual trabalharam, 
declarada em estado de falência em 1985. Como não podiam opor ação contra 
a empresa para requerer o cumprimento da norma não-implementada, os 
particulares acionaram o Estado italiano, requerendo que ele lhes pagasse 
compensação, à luz do estabelecido na diretiva não incorporada. 
Ao julgar o caso, o Tribunal de Justiça assentou que os Estados 
membros são obrigados a compensar os particulares pela não incorporação 
de diretivas, acaso três condições se apresentem: a) o objetivo da diretiva deve 
ser conferir direitos aos indivíduos; b) os direitos a serem conferidos precisam 
ser identificáveis a partir da diretiva; e c) haja um nexo de causalidade 
entre o descumprimento, no caso a não-incorporação, e o dano causado 
(KENT, 2000). Somando-se aos princípios da aplicabilidade direta, do 
efeito direito e indireto e ao da primazia, o princípio da responsabilidade 
estatal por descumprimento (state liability) completa o arcabouço sob o qual 
se fundamenta o Direito Comunitário.
3 CONCLUSÃO
Durante os últimos séculos, a geopolítica mundial conviveu 
com o modelo do Estado-Nação, com base no qual foi organizada a 
própria comunidade internacional, partindo da lógica segundo a qual 
cada país era absolutamente soberano dentro de seu próprio território, 
bem como para aderir ou não às normas de direito internacional. Como 
resultado do fenômeno da globalização, as últimas décadas viram um 
esfacelamento do modelo do Estado-Nação, o que vem gerando uma 
série de quebra de paradigmas, sendo uma delas aquela consistente 
no surgimento do direito comunitário (segundo o qual o país abre 
mão de parte de sua soberania em favor de uma comunidade de vários 
países-membros).
Certamente o exemplo de maior sucesso desse novo modelo é a 
União Europeia, que desde a metade do século XX tem progressivamente 
avançado no sentido de transferir parcela de soberania dos países-
membros para o elemento comunitário (chegando mesmo a instituir 
uma moeda única, o euro). A priori, pode-se pensar que a transferência 
de competências não entra em conf lito com a soberania, na medida 
sua conduta? O dano causado foi intencional? O erro cometido pelo Estado era escusável? Alguma das 
Instituições Comunitárias contribuíram para que a regra fosse quebrada? Algum dispositivo do direito 
doméstico contrário ao preceito comunitário foi aplicado em seu lugar?
Carlos Marden 
Adriana Albuquerque 69
em que cada país decide soberanamente aderir ou não à comunidade 
(e aos seus respectivos tratados), mas a realidade se mostra um pouco 
mais complexa. 
Na realidade, o que se tem verificado é que progressivamente se 
tem construído um entendimento segundo o qual existe uma hierarquia 
entre o direito comunitário e o direito interno, resultado de um processo 
que tem sido capitaneado pelo Tribunal de Justiça da Comunidade 
Europeia, como órgão responsável por garantir a eficácia das normas 
comunitárias (inclusive em face do direito interno). Como demonstrado 
nos casos aqui elencados, o Tribunal de Justiça atuou em inúmeras 
ocasiões no sentido de estabelecer que os países da União Europeia 
sofrem sim uma limitação de soberania em relação à obediência do 
direito comunitário.
Em pleno início do século XXI, talvez o mundo esteja a presenciar 
o colapso do secular paradigma do Estado-Nação, que parece dar lugar 
a um novo modelo de Estado, no qual o Poder é exercido em parte de 
maneira soberana, em parte de maneira compartilhada (PIOVESAN, 
2014). Se efetivamente este for o caso, a União Europeia está na 
vanguarda de todo o processo e seu Tribunal de Justiça se apresenta 
na condição de protagonista da construção do que deve vir a ser um 
novo paradigma para o futuro. 
REFERÊNCIAS 
BIRK, Dieter. Jurisprudência Comunitária: Os casos essenciais. 2006. 41f. 
Monografia (III Curso de Integração Econômica e Direito Internacional Fiscal) 
– ESAF e União Europeia. Brasília.
CRAIG, Paul; DE BÚRCA, Gráinne. EU Law. Tex, cases and Materials. Oxford: 
Oxford university press, 2003. 
KENT, Penélope. Nutcases. European Union Law. London: Switch and Maxwell, 
2006.
MENEZES, Adriana Reis Albuquerque de. Elisão fiscal e mercado comum europeu. 
Olinda: Livro Rápido, 2011.
PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 
São Paulo: Saraiva, 2014.
71
O DIREITO FUNDAMENTAL À PREVIDêNCIA 
SOCIAL À LUZ DA JURISPRUDêNCIA DA 
CORTE EUROPEIA DE DIREITOS HUMANOS
THE FUNDAMENTAL RIGHT TO SOCIAL SECURITy UNDER 
THE JURISPRUDENCE OF THE EUROPEAN COURT OF 
HUMAN RIGHTS
Carmen Silvia Arrata
Graduada em Direito pela UFPR. Procuradora Federal em exercício na Procuradora 
Federal no Estado do Paraná
Juliana Munhoz da Cunha Marques
Graduada em Direito pela UFPR. Procuradora Federal em exercício na Procuradora 
Federal no Estado do Paraná
SUMÁRIO: Introdução; 1 Direito à previdência social 
como direito fundamental; 2 Não previsão do direito 
a benefícios previdenciários na Convenção Europeia 
dos Direitos Humanos e interpretação extensiva pela 
jurisprudência; 3 A jurisprudência da CEDH nos 
casos de redução de benefícios sociais e seus princípios 
norteadores; 3.1 Caso Da Silva Carvalho Rico v. Portugal; 
3.2 Caso Koufaki and Adedy v. Greece; 3.3 Caso Valkov 
and Others v. Bulgária; 3.4 Os princípios norteadores 
das decisões da corte; 4 Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 72
RESUMO: O presente estudo parte da definição do direito à previdência 
social como direito fundamental e pretende demonstrar de que forma 
a Corte Europeia de Direitos Humanos vem desenvolvendo sua 
jurisprudência, de modo a absorver alguns dos direitos sociais como parte 
dos direitos fundamentais por ela protegidos, a partir do reconhecimento 
do caráter pecuniário das prestações previdenciárias, que atrai a incidência 
da proteção do direito de propriedade previsto no art. 1º do Protocolo 1 
da Convenção Europeia de Direitos Humanos. Nesse contexto, passa-se à 
análise de algumas decisões da Corte que concluíram não haver violação 
ao direito de propriedade em casos envolvendo a redução de benefícios 
sociais na Grécia, Portugal e Bulgária, em virtude de medidas de 
austeridade adotadas para enfrentar grave crise financeira e econômica ou 
reformulação do sistema de previdência social nesses países, extraindo os 
seus princípios norteadores. Pretende-se ao final analisar se tais decisões 
seriam aplicáveis no sistema previdenciário brasileiro, que prevê, com 
status constitucional, o princípio da irredutibilidade do valor dos benefícios 
previdenciários.
PALAVRAS-CHAVE: Previdência Social. Direito Fundamental. 
Interferência. Direito de Propriedade. Medidas de Austeridade. Interesse 
Público. Proporcionalidade.
ABSTRACT: The present research starts from the definition of the right 
to social security as a fundamental right and aims to demonstrate how the 
European Court of Human Rights has been developing its jurisprudence, in 
order to absorb some of the social rights as part of the fundamental rights 
protected by the Convention, from the recognition of the pecuniary nature 
of social security benefits, which attracts the incidence of the protection 
of the right of property foreseen in art. 1 of Protocol 1 of the European 
Convention on Human Rights. In this context, it is analyzed some decisions 
of the Court which concluded that there was no violation of property rights 
in cases involving the reductionof social benefits in Greece, Portugal and 
Bulgaria, due to austerity measures adopted to deal with a serious financial 
crisis and economic reform or reformulation of the social security system 
in those countries, while drawing their guiding principles. The purpose 
is to analyze whether such decisions would be applicable in the Brazilian 
pension system, which provides, with constitutional status, the principle of 
irredutibility of the social security benefits.
KEYWORDS: Social Security. Fundamental Right. Interference. Right 
to Property. Austerity Measures. Public Interest. Proporcionality.
Carmen Silvia Arrata
Juliana Munhoz da Cunha Marques 73
INTRODUÇÃO 
O escopo do presente artigo é trazer uma análise da jurisprudência da 
Corte Europeia de Direitos Humanos, doravante denominada como CEDH, 
em matéria de previdência social, notadamente nos casos envolvendo países 
em grave crise financeira, que adotaram medidas severas de redução de 
benefícios sociais como parte de um programa de recuperação financeira 
e econômica, bem como em países que promoveram uma reforma da 
legislação previdenciária recentemente, a fim de adequar-se a novas 
situações sociais. Serão analisados os princípios norteadores das decisões 
da Corte, tanto no que se refere aos requisitos autorizadores da redução de 
direitos sociais num contexto social ou econômico desfavorável, como em 
relação aos limites de ingerência do Tribunal Internacional nas políticas 
públicas adotadas pelos Estados-membros da União Europeia.
O assunto é atual e desafia um novo pensar sobre o direito 
previdenciário brasileiro, nesse momento histórico de Reforma da 
Previdência frente à grave crise econômica e financeira também enfrentada 
pelo Brasil, e à constante discussão sobre a interferência do argumento 
econômico no direito previdenciário (SERAU JUNIOR, 2015).
1 DIREITO à PREVIDÊNCIA SOCIAL COMO DIREITO FUNDAMENTAL
Em breve síntese, a ideia de direitos fundamentais nasce a partir da 
concepção jusnaturalista, “doutrina filosófica que fez do indivíduo, e não 
mais da sociedade, o ponto de partida para construção de uma doutrina 
da moral e do direito” (BOBBIO, 2004, p. 30). 
A partir da revolução francesa, com o fim do Estado absolutista, 
surge a noção de direitos fundamentais civis e políticos, garantidores das 
liberdades individuais oponíveis ao Estado. São os denominados, segundo 
divisão clássica dos direitos fundamentais, direitos de primeira geração 
ou primeira dimensão.
A revolução industrial e a evolução do capitalismo levaram a uma 
nova transformação na sociedade, que passou a exigir proteção especial 
em relação ao mercado e à exploração do trabalho, levando ao surgimento 
e ao reconhecimento dos chamados direitos de segunda geração, entre 
eles os direitos sociais, que exigem não mais uma postura meramente 
abstencionista do Estado, e sim prestações positivas garantidoras desses 
direitos, instrumentalizadas através de políticas públicas nas áreas de 
saúde, educação, cultura, e previdência social.
Dando seqüência ao dinamismo próprio do direito, surgiram ainda 
os chamados direitos fundamentais de terceira geração, direitos difusos e 
Publicações da Escola da AGU 74
coletivos, como o direito ao meio ambiente equilibrado, à paz, à vida saudável, 
e, nesse contexto, é possível inserir o direito a uma previdência social 
sustentável, haja vista que baseada também no princípio da solidariedade 
e no pacto intergeracional. 
No Brasil, a materialização dos direitos de segunda e terceira geração 
ocorreu com a Constituição Federal de 1988. A Carta Magna traz como 
princípio estruturante do Estado Democrático de Direito o postulado 
da dignidade da pessoa humana, do qual derivam os demais direitos 
fundamentais previstos no art. 5º. Especificamente em relação aos direitos 
sociais, que interessam ao presente estudo, foram estabelecidos no art. 6º 
da Constituição, que assegura o direito à educação, saúde, alimentação, 
trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança, previdência social, proteção 
à maternidade e à infância, e assistência aos desamparados. O sistema de 
seguridade social, no qual se inclui a previdência social, vem estruturado 
a partir do art. 193, estabelecendo o rol de direitos previdenciários e 
respectivas garantias, fontes de custeio, e critérios de cálculos, protegendo, 
especialmente, o valor real dos benefícios, ao prever a sua irredutibilidade 
(Constituição Federal, art. 194, IV).
2 NÃO PREVISÃO DO DIREITO A BENEFíCIOS PREVIDENCIÁRIOS NA 
CONVENÇÃO EUROPEIA DOS DIREITOS HUMANOS E INTERPRETAÇÃO 
EXTENSIVA PELA JURISPRUDÊNCIA 
A Convenção para a Proteção dos Direitos do Homem e das 
Liberdades Fundamentais, comumente denominada de Convenção Europeia 
dos Direitos do Homem, foi assinada em Roma em 04/11/1950 e prevê 
essencialmente direitos e liberdades civis e políticos. Os direitos sociais 
e econômicos, incluindo o direito à seguridade e assistência social, são 
tutelados através da Carta Social da Europa, assinada em 1961 em Turim, 
matéria não abrangida pela jurisdição da Corte Europeia de Direitos 
Humanos.
A Corte Europeia de Direitos Humanos, criada em 1959, tem por 
objetivo garantir a aplicabilidade dos direitos e liberdades previstos na 
Convenção pelos Estados-membros. Ou seja, sua competência ratione 
materiae está adstrita aos direitos catalogados na Convenção.
Embora o direito à seguridade social, nele inserido o direito à 
previdência social, não esteja abrangido entre os direitos tutelados pela 
Convenção, a Corte Europeia de Direitos Humanos vem desenvolvendo 
sua jurisprudência de modo a absorver alguns dos direitos sociais como 
parte dos direitos fundamentais por ela protegidos. Ou seja, a Convenção 
tem sido interpretada de forma dinâmica e evolutiva, de modo a se tornar 
Carmen Silvia Arrata
Juliana Munhoz da Cunha Marques 75
permeável aos direitos sociais, dando concretude assim ao princípio geral 
da indivisibilidade dos direitos fundamentais.1
A proteção material dos direitos sociais, embora complexa em face da 
margem de discricionariedade conferida a cada Estado na elaboração da respectiva 
política pública, pode ser observada na jurisprudência da Corte principalmente a 
partir do reconhecimento do caráter pecuniário das prestações previdenciárias, 
que atrai a incidência da proteção do direito de propriedade (art. 1º do Protocolo 
1 da Convenção), mas a ele não se limita. A Corte também analisou diversos 
casos que envolvem a proteção prevista no art. 14 da Convenção (proibição de 
discriminação na concessão de prestações do seguro social), e aos arts. 2º, 3º e 
8º (direito à vida, proibição à tortura, e direito à vida familiar e privada) dentro 
do âmbito dos direitos econômicos e sociais.
Para efeitos deste estudo, interessa primordialmente o entendimento 
firmado pela Corte sob a ótica da proteção ao direito de propriedade, frente à 
exigência do interesse público comum no reequilíbrio financeiro e econômico 
de um Estado em momento de grave crise econômica ou social. Ou seja, tratar-
se-á dos casos em que um Estado-membro foi compelido a adotar medidas de 
austeridade para controle da crise econômica e financeira interna, ou para adequar 
o sistema de seguridade social a novas exigências sociais, atingindo, com essas 
medidas, o pagamento de salários e benefícios previdenciários de seus cidadãos.
O reconhecimento do direito a um benefício previdenciário como um 
direito de natureza pecuniária, suscetível de proteção como direito à propriedade, 
foi inicialmente rechaçado pela Corte na década de 60. Posteriormente, a 
jurisprudência evoluiu para se considerar os benefícios contributivos como um 
direito de propriedade, pois o dever de contribuir para um sistema de previdência 
social pode gerar o direito a um patrimônio assim constituído2.
Esse posicionamento fica claro no julgamento do caso Gaygusuzvs. 
Austria (1996), em que a Corte reconheceu que o direito ao benefício social 
de auxílio-desemprego (denominado de assistência emergencial na legislação 
austríaca) estava diretamente ligado ao pagamento de contribuições ao fundo 
de seguro por desemprego. Por consequência, não haveria direito a esse 
1 “Indivisibilidade porque a garantia dos direitos civis e políticos é condição para a observância dos direitos 
sociais, econômicos e culturais e vice-versa. Quando um deles é violado, os demais também o são. Os 
direitos humanos compõem, assim uma unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, capaz de 
conjugar o catálogo de direitos civis e políticos com o catálogo de direitos sociais, econômicos e culturais.” 
(PIOVESAN, 2006, p. 13)
2 ECHR, Muller v. Austria, 1974. “Aqui a Comissão entendeu que o dever de contribuir para um sistema de 
previdência social pode gerar o direito a um patrimônio assim constituído, e que a existência desse direito 
pode depender da forma de utilização desse patrimônio no pagamento de benefícios. No caso de uma 
pessoa que contribuiu para um sistema de previdência social e obteve o direito a um benefício, houve uma 
interpretação no sentido de que esse benefício se constitui em direito de propriedade passível de proteção 
com base no art. 1 do Protocolo 1”. Tradução livre. (GOMEZ HEREDERO, 2007)
Publicações da Escola da AGU 76
benefício quando estas contribuições não existissem.3 E, no caso em análise, 
o demandante havia contribuído para o fundo de seguro por desemprego 
durante os períodos em que trabalhou na Áustria, nas mesmas condições 
que os cidadãos austríacos, e o benefício foi lhe negado exclusivamente 
em face da sua nacionalidade estrangeira. A ratio decidendi desta decisão 
é justamente a vinculação do dever de pagamento de contribuições a um 
fundo previdenciário ou assistencial ao direito a receber as respectivas 
prestações, caso cumpridos os requisitos legais, as quais, sob esse ponto de 
vista, podem ser incluídas no âmbito de proteção do direito de propriedade, 
na forma estabelecida no art. 1º do Protocolo 1 da Convenção.
As decisões da Corte sobre a aplicação do art. 1º do Protocolo 1, 
entretanto, oscilaram por algum tempo, particularmente em relação a 
benefícios não contributivos. Assim como nas deliberações sobre o conceito 
de direitos e obrigações civis, diferentes visões podem ser encontradas a 
respeito da interpretação do conceito de “posse e propriedade”.
Foi isso que levou a Seção IV da Corte, em 2004, a levar à Grande 
Câmara o caso Stec and others v. the United Kingdom4. A Corte, em sua 
formação plena, ao analisar o caso sob a perspectiva do art. 1 do Protocolo 
1, em conjunto com o art. 14 da Convenção, ressalta que 
Article 1 of Protocol No. 1 does not include a right to acquire property. 
It places no restriction on the Contracting States’ freedom to decide 
whether or not to have in place any form of social security scheme, 
or to choose the type or amount of benefits to provide under any 
such scheme. If, however, a State does decide to create a benefits or pension 
scheme, it must do so in a manner which is compatible with Article 14 of 
the Convention5(grifo nosso)
Em outras palavras, o Tribunal considerou que, se um Estado-
membro tem uma legislação em vigor prevendo o pagamento de prestações 
sociais – condicionadas ou não ao prévio pagamento de contribuições 
– essa legislação deve ser reconhecida como geradora de um interesse 
pecuniário abrangido pelo âmbito do art. 1 do Protocolo 1 para as pessoas 
3 ECHR. Gaygusuz v. Austria, nº 17371/90, 1996. Disponível em: <http://hudoc.echr.coe.int/eng?i=001-58060>.
4 ECHR. Stec and others v. the United Kingdom [GC], nº 65731/01 and 65900/01, 2004. Disponível em: <http://
hudoc.echr.coe.int/eng?i=001-73198>.
5 “O Artigo 1.º do Protocolo n.º 1 não inclui um direito de adquirir propriedade. Ele não coloca nenhuma 
restrição sobre a liberdade do Estado contratante para decidir se quer ou não adotar alguma forma de forma 
de regime de seguro social, ou para escolher o tipo ou a quantidade de benefícios para fornecer sob qualquer 
regime. Se, no entanto, um Estado decide criar um regime de aposentadorias ou pensões, deve fazê-lo de 
uma forma que seja compatível com o artigo 14 da Convenção” Tradução livre. 
Carmen Silvia Arrata
Juliana Munhoz da Cunha Marques 77
que satisfazem as exigências. O interesse pecuniário, portanto, se encaixa 
no conceito de “posse”, para os fins da proteção prevista na Convenção. 
Assim, inserindo o direito a uma prestação previdenciária na 
concepção de direito de propriedade tal como previsto no art. 1º do 
Protocolo 1, a Corte admitiu diversas queixas relacionadas à redução de 
benefícios sociais pelos Estados-membros, inserindo no âmbito de sua 
competência, ainda que indiretamente, a análise de casos relativos ao 
direito à previdência social.
3 A JURISPRUDÊNCIA DA CEDH NOS CASOS DE REDUÇÃO DE 
BENEFíCIOS SOCIAIS E SEUS PRINCíPIOS NORTEADORES
A crise econômica e financeira pela qual passou a Europa a partir 
de 2008 trouxe novos desafios à Corte Europeia de Direitos Humanos a 
fim de compatibilizar o respeito aos direitos fundamentais do homem e 
as medidas de austeridade adotadas pelos Estados-membros, entre elas a 
redução de salários e benefícios sociais. 
Os dois exemplos mais representativos dessa problemática são os 
casos da Grécia e Portugal, que adotaram severas medidas de austeridade 
para fazer frente à grave crise econômica, além do caso da Bulgária, que 
reformulou seu sistema previdenciário após a transição do regime socialista 
para o regime democrático, que serão analisados a seguir.
3.1 Caso Da Silva Carvalho Rico v. Portugal6
Neste caso, a reclamante, cidadã portuguesa, alega violação ao direito 
de propriedade em face da redução de sua aposentadoria após as medidas 
de austeridade tomadas pelo governo de Portugal, em particular pela 
introdução de um desconto denominado de contribuição extraordinária 
de solidariedade (“CES”). O governo português, para enfrentar a grave 
crise econômica e financeira interna, empreendeu negociações para receber 
apoio financeiro da União Europeia, dos Estados-Membros da área do euro 
e do Fundo Monetário Internacional, comprometendo-se a implementar 
políticas económicas e sociais restritivas no período de 2011 a 2014, o que 
foi efetivado através das Leis Orçamentárias de 2011, 2012 e 2013, que 
instituíram a contribuição ora discutida, suas alíquotas e base de cálculo. 
Com base nessas leis, a requerente, beneficiária do regime de previdência 
do setor público, sofreu redução no valor de seus proventos nos anos de 
2013 e 2014. 
6 ECHR. Da Silva Carvalho Rico v. Portugal (dec.), nº 13341/14, 2015. Disponível em: <http://hudoc.echr.coe.
int/eng?i=001-157567>.
Publicações da Escola da AGU 78
A demandante alegou perante a CEDH que estas medidas teriam 
violado o direito à proteção de seus bens, nos termos do artigo 1º do 
Protocolo 1, da Convenção Europeia dos Direitos do Homem. 
Analisando o caso, o Tribunal assinalou que todos os princípios gerais 
aplicáveis em casos do art. 1º do Protocolo 1 são igualmente relevantes 
quando se referem a pensões. Em particular, o art. 1º do Protocolo 1, como 
restou assentado no caso Stec and others v. the United Kingdom (2004), já 
citado, não cria o direito de adquirir uma propriedade. Também não garante 
o direito a uma pensão de determinado valor. Conclui, portanto, que o 
direito a um benefício previdenciário em um determinado valor não está 
incluído como tal entre os direitos e liberdades garantidos pela Convenção. 
Entretanto, a redução ou descontinuidade de um benefício pode constituir 
uma interferência no direito à propriedade que precisa ser justificada nos 
termos da segunda parte do primeiro parágrafo do art. 1º do Protocolo 1.
Nesse sentido, para ser compatívelcom o Art. 1 do Protocolo nº 1, 
segundo a Corte, uma medida de interferência no direito de propriedade deve 
preencher três condições básicas: deve estar expressamente prevista em lei, 
o que exclui uma ação arbitrária por parte das autoridades nacionais; deve 
ser “no interesse público”; e deve representar um justo equilíbrio entre os 
direitos do proprietário e os interesses da comunidade (proporcionalidade).
Abordando separadamente cada um desses requisitos, concluiu a 
Corte que o princípio da legalidade foi observado (pois a contribuição 
questionada foi introduzida por lei), que as medidas adotadas foram no 
interesse público, pois tiveram por escopo reduzir o gasto público, sendo 
parte de um programa mais amplo definido pelas autoridades nacionais, 
a União Europeia e o FMI para permitir a Portugal assegurar uma 
liquidez de curto prazo para o orçamento estatal com vistas a alcançar uma 
recuperação econômica a médio prazo. Na análise quanto à observância 
da princípio do justo equilíbrio ( fair balance) entre os interesses coletivos 
e o direito fundamental a ser protegido, a Corte ponderou se a redução 
no valor dos proventos da demandante era de tal magnitude a ponto 
de esvaziar a própria essência do seu direito ao amparo previdenciário, 
comprometendo seus meios de subsistência, ou se a restrição imposta era 
razoável e proporcional ao seu objetivo, concluindo que, no caso concreto, 
não houve redução dos bens decorrentes de direitos sociais regularmente 
previstos a um nível em que priva o direito de sua essência.
Na análise deste caso, ainda, a Corte expressamente encampou a 
teoria da reserva do possível adotada em diversos julgados pela Corte 
Constitucional de Portugal, segundo o qual um Estado não pode ser forçado 
a cumprir suas obrigações no campo dos direitos sociais se ele não tem os 
meios econômicos necessários para tanto. Nesse contexto, as limitações 
Carmen Silvia Arrata
Juliana Munhoz da Cunha Marques 79
orçamentárias para a implementação dos direitos sociais poderiam ser 
aceitas desde que elas sejam proporcionais ao interesse público perseguido 
e não reduzam esses direitos sociais a montantes meramente simbólicos
Por conseguinte, considerou o Tribunal que a redução da pensão 
constituía uma restrição proporcional ao direito da requerente à proteção 
dos bens, a fim de obter uma recuperação econômica a médio prazo no país.
3.2 Caso Koufaki and Adedy v. Greece7
O caso teve origem em reclamações formuladas por uma servidora 
pública e pelo Sindicato dos Servidores Públicos contra sucessivas leis 
aprovadas pelo governo da Grécia em 2010, que reduziram o valor das 
remunerações, benefícios, bônus e aposentadorias dos servidores públicos, 
com o intuito de reduzir os gastos públicos e fazer frente à grave crise 
econômica e financeira pela qual o país vinha passando.
As partes alegaram que o direito dos servidores públicos ao 
pagamento de seu salário faz parte de seus bens, os quais estão dentro 
do âmbito da proteção do artigo 1º do Protocolo 1. Eles sustentaram que a 
redução de salários e pensões prevista pelas leis ora questionadas equivale 
a uma privação de bens. Alegam ainda que o conceito de “interesse público” 
referido no primeiro parágrafo do art. 1º do Protocolo 1 não se relaciona 
apenas com os interesses do Tesouro ou do Estado, ou com a estabilidade 
das finanças públicas, devendo ser demonstrado detalhadamente que não 
havia outras medidas menos drásticas a serem implantadas com o mesmo 
resultado. Afirmam que a privação de bens deve ser considerada apenas 
como última alternativa.
A Corte considerou que as restrições introduzidas pelas medidas 
de austeridade questionadas podem ser consideradas, de fato, como uma 
interferência no direito de propriedade dos reclamantes – ou no direito 
de usufruir seus bens, para os fins do art. 1º do Protocolo 1. Entretanto, 
asseverou que as medidas foram justificadas pela excepcional crise financeira, 
sem precedentes na história atual da Grécia, e que requeria uma imediata 
redução nos gastos públicos. Os objetivos dessas medidas eram de interesse 
geral e também coincidiam com os objetivos dos Estados-membros da área 
do euro, tendo em conta o requisito estabelecido na legislação da União 
Europeia para assegurar a disciplina orçamentária e preservar a estabilidade 
da área do euro. Reafirmou ainda a Corte que o legislador tem, nesse caso, 
uma grande margem de discricionariedade para implementar as políticas 
sociais e econômicas que julgar sejam mais eficientes.
7 ECHR. Koufaki and Adedy v. Greece (dec), nº 57665/12 and 57657/12, 2013. Disponível em: <http://hudoc.
echr.coe.int/eng?i=001-140594>.
Publicações da Escola da AGU 80
A Corte considerou que a redução do benefício da primeira requerente, 
de EUR 2.435,83 para EUR 1.885,79, não era de tal monta que pusesse 
em risco a sua subsistência de forma incompatível com a proteção prevista 
no art. 1º do Protocolo 1. À vista dessas circunstâncias, e da situação 
particular de dificuldades econômicas em que ocorreu, a interferência 
em questão não poderia ser considerada como tendo imposto um encargo 
excessivo ao requerente.
A mera possibilidade existirem soluções alternativas, segundo o 
Tribunal, por si só, não torna a legislação impugnada injustificada. Desde 
que o legislador permaneça dentro dos limites de sua margem de apreciação, 
não é dado à Corte dizer se a legislação representava a melhor solução para 
lidar com o problema ou se o poder discricionário do legislativo deveria 
ter sido exercido de outra forma.
Ou seja, as medidas de austeridade adotadas pelos governos da 
Grécia e Portugal em momento de crise financeira, e que importaram 
em reduções de benefícios sociais, foram ratificadas pela Corte Europeia 
de Direitos Humanos, porque consideradas em conformidade com a lei, 
instituídas com base em um interesse público justificável, e proporcionais 
aos fins que se pretendia, não acarretando o esvaziamento da essência do 
direito a uma prestação social.
3.3 Caso Valkov and others v. Bulgária
Esses mesmos princípios que levaram a CEDH a decidir que o direito 
a uma prestação previdenciária ou assistencial não é um direito absoluto, 
podendo sofrer limitação por parte do Estado foram também utilizados no 
julgamento do caso Valkov and others v. Bulgária8, como se verá a seguir.
Os requerentes, no caso acima, invocaram à Corte Europeia lesão ao 
direito de propriedade e discriminação (art. 1º do Protocolo 1 e art. 14 da 
Convenção), em face das inúmeras alterações na legislação previdenciária 
ocorrida no País, a partir de 1999, o que levou a uma limitação do valor 
de suas aposentadorias, concedidas sob a égide de legislações anteriores, 
que não previam tais limitações, nem ao menos, discriminação em razão 
de determinadas funções desempenhadas por alguns cidadãos. 
Mister ressaltar que os autores eram todos servidores públicos, com 
funções destacadas na sociedade, e com salários em níveis acima da média 
da população em geral. E por serem funcionários do Estado, à época da 
prestação de serviços, não contribuíam para o sistema previdenciário do 
país, sendo esta uma obrigação exclusiva do Estado.
8 ECHR. Valkov and Others v. Bulgaria, nº 2033/04, 19125/04, 19475/04, 19490/04, 19495/04, 19497/04, 
24729/04, 171/05 and 2041/05, 2011. Disponível em: <http://hudoc.echr.coe.int/eng?i=001-107157>.
Carmen Silvia Arrata
Juliana Munhoz da Cunha Marques 81
As alterações realizadas na legislação, a partir do Ato 1957, e 
alterações posteriores, tinham como escopo introduzir a obrigação do 
trabalhador no recolhimento de contribuições previdenciárias, a fim de que 
o sistema, ao longo das gerações, se tornasse sustentável, e não apenas uma 
obrigação estatal. Cada trabalhador teria uma cota de sua aposentadoria 
paga pelo Estado, e outra parte decorrente de sua cotização particular,a 
qual geraria um fundo exclusivo em nome de cada trabalhador, destinado 
à complementação de sua aposentadoria.
No entanto, aos autores e demais aposentados nascidos anteriormente a 
1960, não se estendeu esta possibilidade, já que estes não teriam condições de 
contribuir e criar um fundo suficiente a pagar a complementação pretendida. 
Portanto, estes continuariam recebendo seus benefícios diretamente do Estado.
A CEDH, ao julgar a reclamação, entendeu não haver violação ao 
artigo 1º do Protocolo 1 nem ao art. 14 da Convenção, sob o pressuposto 
de que não caberia a um Tribunal Internacional interferir na legislação 
interna do País, que tem o poder de regulação em relação à política do 
Seguro Social a ser estabelecida. Também não haveria violação em relação 
ao estabelecimento dos cargos e funções que devem ser considerados 
diferenciados e excepcionados quanto ao regime usual de previdência, haja 
vista que essa é uma decisão política de cada país, que possui legitimação 
democrática direta para fazer declarações acerca de tais assuntos.
Também nesse caso, portanto, aplicados os princípios norteadores 
antes delimitados, a Corte concluiu pela não violação ao direito de propriedade.
3.4 Os princípios norteadores das decisões da Corte
Da análise desses casos, constata-se que o direito de propriedade, 
notadamente no que se refere ao direito a uma prestação previdenciária ou 
assistencial, não é absoluto, e pode sofrer limitação por parte do Estado 
nas seguintes circunstâncias: a) se observado o princípio da legalidade, 
ou seja, desde que a redução ou limitação no direito esteja prevista em lei; 
b) se operada em face de um interesse público legítimo; c) se observada a 
proporcionalidade entre os meios e os fins.
Estas restrições encontram-se no próprio conteúdo do direito de 
propriedade definido pelo art. 1º do Protocolo 1 da Convenção Europeia 
dos Direitos Humanos, que prevê:
Qualquer pessoa singular ou coletiva tem direito ao respeito dos seus 
bens. Ninguém pode ser privado do que é sua propriedade a não ser por 
utilidade pública e nas condições previstas pela lei e pelos princípios 
gerais do direito internacional.
Publicações da Escola da AGU 82
As condições precedentes entendem-se em prejuízo do direito que os 
Estados possuem de pôr em vigor as leis que julguem necessárias para a 
regulamentação do uso dos bens, de acordo com o interesse geral, ou para 
assegurar o pagamento de impostos ou outras contribuições ou de multas.
O primeiro princípio que releva examinar, segundo a Corte, é o da 
legalidade. O art. 1º do Protocolo 1 exige que qualquer interferência por 
parte de uma autoridade pública no direito de propriedade deve ter previsão 
legal: de fato, a segunda frase do primeiro parágrafo desse artigo autoriza a 
privação dos bens “nas condições previstas pela lei e pelos princípios gerais 
do direito internacional”. 
Em segundo lugar, a Corte salienta que qualquer interferência no direito 
de propriedade, ainda que prevista em lei, deve ter por objetivo um interesse 
público, um interesse geral da comunidade.
A esse respeito, uma grande margem de apreciação é permitida ao 
Estado-membro pela Convenção quando se trata de políticas econômicas e 
sociais. Por causa de seu conhecimento direto a respeito da sua sociedade e suas 
necessidades, as autoridades nacionais estão em princípio melhor preparadas 
que os juízes internacionais para apreciar o que é o interesse público em 
termos sociais e econômicos, e a Corte respeita a política pública adotada pelo 
legislador, a não ser que seja manifestamente desprovida de fundamentação 
razoável. Essa margem é ainda maior quando a matéria envolve a análise de 
prioridades na alocação de recursos limitados do Estado. 
Entretanto, a margem de apreciação de que gozam os Estados, nesse 
campo em particular, não é ilimitada. A Corte deve estar convencida de 
que houve um justo equilíbrio entre as demandas do interesse público da 
comunidade e as demandas de proteção de um direito fundamental individual. 
Em particular, a Corte precisa se certificar de que por força da interferência 
do Estado a pessoa atingida não teve que suportar um ônus excessivo e 
desproporcional.
E, além disso, deve haver a necessária proporcionalidade, ou seja, a 
interferência no direito de propriedade deve estar relacionada a um fim legítimo, 
e, sobretudo, buscar um “justo equilíbrio” (fair balance), entre as demandas do 
interesse público e a exigência de proteção a um direito fundamental individual. 
Aqui também os Estados possuem grande margem de discricionariedade 
na análise tanto do que seja o bem comum, como da necessidade e extensão 
da restrição a ser imposta, e qual a melhor forma de fazê-lo.
Na análise dessa proporcionalidade deve ser levado em conta se 
as medidas adotadas pelo Estado com relação ao direito às prestações 
previdenciárias são de tal ordem que implicam no esvaziamento do próprio 
conteúdo desses direitos ou não. Ou seja, se a restrição imposta diz respeito a 
Carmen Silvia Arrata
Juliana Munhoz da Cunha Marques 83
apenas uma parte desse direito, que não impõe ao segurado um risco de sua 
própria subsistência, ou se a própria essência do direito – vinculada sempre ao 
direito à dignidade da pessoa humana e ao mínimo existencial – foi violada.
Nos casos analisados pela Corte, foi levado em consideração que 
as medidas restritivas adotadas por Portugal tinham duração limitada 
no tempo e na sua extensão, e, portanto, não interferiram no direito 
fundamental de propriedade dos requerentes, tal como previsto na 
Convenção. As medidas foram consideradas proporcionais à gravidade 
da situação econômica e financeira do país, e não comprometeram o direito 
ao mínimo existencial, é dizer, à subsistência dos segurados atingidos.
Na Grécia, embora as medidas não tivessem esse caráter de 
temporariedade, foram consideradas como proporcionais e justificáveis 
dentro do contexto econômico e financeiro do país, cuja gravidade foi 
amplamente comprovada no caso.
4 CONCLUSÃO
Após analisar a vasta jurisprudência e decisões da CEDH acerca 
do tema abordado, chega-se à conclusão de que o direito a um benefício 
previdenciário ou de cunho social é tido por tal Corte não como um direito 
social, mas um direito patrimonial, sujeito a tutela da corte nos estritos 
termos da Convenção Europeia dos Direitos Humanos.
Tal decisão confronta-se com as decisões sobre o tema no direito 
pátrio, que dia a dia, coloca tal direito como um direito social, estabelecido 
pela Constituição Federal no artigo 6º, e, por conseguinte, sujeito ao 
regramento constitucional sobre o tema.
O artigo 194 da Constituição Federal de 1988, em seu inciso IV, 
é claro ao estabelecer como objetivo do Poder Público a irredutibilidade 
do valor dos benefícios. Por essa razão, a simples alteração de legislação 
previdenciária infraconstitucional não seria suficiente para, como nos casos 
julgados pela CEDH mencionados, seccionar ou diminuir o valor nominal 
dos benefícios, temporária ou definitivamente, em face da crise econômica, 
déficit dos sistemas de previdências ou readequação da legislação por força 
de alterações demográficas ou sociais.
Portanto, somente se e quando houver alteração constitucional, 
poder-se-á falar em redução, de alguma forma, do valor ou forma de 
cálculo de benefícios, o que, à luz da jurisprudência da CEDH, ainda 
que não aplicável ao Brasil, deveria guardar os princípios de legalidade, 
interesse público, e especialmente, proporcionalidade. 
Não respeitados tais princípios, haveria lesão ao direito de propriedade 
de cada cidadão que contribuiu para o sistema de seguridade social do Brasil.
Publicações da Escola da AGU 84
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de Janeiro: Elsevier, 7. reimpressão, 2004.
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proteção dos direitos fundamentais no ordenamento comunitário. Coimbra: Coimbra, 
2002.
85
REPRESENTATIVIDADE DE GêNERO 
E COMPOSIçãO DOS TRIBUNAIS NO 
CENÁRIO INTERNACIONAL
REPRESENTATIVENESS ON GENDER EQUALITy AND 
COMPOSITION IN COURTS ON THE INTERNATIONAL 
SCENERy
Clara Marcelle Alves Meneses
Mestre em Políticas Públicas pela Hertie School of Governance na Alemanha, 
especialista em Direito Público pela UnB, professora de Direito e Políticas Públicas do 
curso de pós-graduação do IDP, Procuradora da Fazenda Nacional
Natalia de Melo Lacerda
Procuradora Federal, vinculada ao Programa de Mestrado do UniCEUB na condição 
de aluna especial, graduada em Direito pela UFPE. 
SUMÁRIO: Introdução; 1 Por que a representatividade 
feminina no Poder Judiciário importa?; 2 Desenhos 
institucionais e sua influência na (des)igualdade de 
gênero das Cortes internacionais e brasileiras; 3 
Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 86
RESUMO: O presente artigo trata da composição dos Tribunais no 
contexto internacional e da representatividade de gênero, com o objetivo 
de abordar a relevância da presença feminina em tais Cortes e de estudar 
as principais causas para a existência de barreiras formais e informais 
ao acesso de mulheres nessas esferas públicas de poder. A partir da 
revisão da literatura estrangeira, foi verificado que as escolhas de design 
das Cortes influenciam a natureza representativa da instituição e que 
é necessário o desenvolvimento de políticas públicas para equalizar a 
distorção entre a presença de homens e mulheres no Poder Judiciário.
PALAVRAS-CHAVE: Democracia. Representatividade Feminina. 
Políticas de Gênero. Poder Judiciário.
ABSTRACT: This essay examines the composition of the Judiciary 
Branch and women´s representation on the Courts abroad. It discusses 
why gender representation in those institutions matters and studies the 
main factors that cause explicit and implicit barriers to women access 
to leadership in public life. Cross-national researches point out that 
institutional design choices have a significant impact on the feminine 
participation. Furthermore, inclusive public policies are needed to lower 
those barriers and to promote gender equality on the Judiciary.
KEYWORDS: Democracy. Women’s Representation. Gender Policies. 
Judiciary Branch. 
Clara Marcelle Alves Meneses
Natalia de Melo Lacerda 87
INTRODUÇÃO
A primeira juíza do Supremo Tribunal Federal - STF foi Ellen 
Gracie, em 2000. Quando Gracie tomou posse naquela Corte, a saia era 
traje obrigatório para as mulheres, às quais se proibia o uso de calças 
nos recintos daquela instituição. Hoje a composição do mais importante 
Tribunal do país conta com apenas duas mulheres dentre onze juízes, menos 
de um quinto dos membros. Apesar de essa proibição administrativa ter 
sido retirada por votação não unânime entre os ministros naquele ano, a 
tradição e a norma social do vestuário perdurou por muito mais. Carmen 
Lúcia foi a primeira ministra do Tribunal a quebrá-la e a virar notícia em 
uma sessão no ano de 2007 (CARMÉN…, 2007).
Estudos acerca das causas da baixa representatividade feminina 
no Poder Judiciário e as diferenças comparativas entre os países são 
diminutos. A academia brasileira se ressente da ausência de pesquisas 
sobre a importância da representatividade nos três poderes da República 
e sobre as possíveis causas dessa baixa representatividade atual. Esses 
estudos são ainda mais escassos no que diz respeito à participação no 
Poder Judiciário e no STF ou nos Tribunais Superiores.
Na doutrina estrangeira, esse problema tem sido objeto de 
pesquisas crescentes, embora ainda estejam longe de serem suficientes. 
Há, contudo, um texto relevante que analisa dados da participação feminina 
nas Cortes superiores nos membros da Organização para a Cooperação 
e o Desenvolvimento Econômico - OCDE de 2006 a 2007: “Women’s 
Representation on High Courts in Advanced Industrialized Countries”, de 
Margaret S. Williams e Frank C. Thames. O texto analisa como escolhas 
institucionais de forma de seleção e nomeação e fatores estruturais 
domésticos interferem na representação feminina. Nos países estudados, 
a variação na participação das mulheres nesses Tribunais foi de 0% em 
alguns para 60% em outros. A pesquisa concluiu que essa variação é afetada 
por diversos fatores identificados e tratados mais adiante.
No Brasil, um estudo desse tipo ainda é inédito. Recentemente, a 
Ministra Carmen Lúcia instituiu um Grupo de Trabalho para tratar das 
questões de gênero no Poder Judiciário. Uma das coordenadoras, a juíza federal 
Clara Mota, escreveu recentemente o artigo denominado “Gênero, espaço 
público e poder: uma análise sobre a composição das comissões examinadoras 
de concurso da magistratura”. Em seus próprios termos, o texto analisou:
[...] os resultados de pesquisa empírica sobre participação feminina 
em bancas de concurso público da magistratura federal, ampliando 
as conclusões do estudo para refletir sobre o preenchimento de 
Publicações da Escola da AGU 88
espaços públicos de poder, no contexto das múltiplas interações e 
condicionantes que eles recebem da esfera privada. (ALVES, 2017)
O presente artigo pretende jogar luz sobre o problema e trazê-lo 
para a agenda. Parte-se da premissa de que as escolhas de design das Cortes 
influenciam a natureza representativa da instituição. Pretende-se também 
apontar o vácuo de estudos sobre esse tema e por quais motivos ele merece ser 
estudado. Por isso, inicia-se com o tópico que discute por que representatividade, 
em geral, e representatividade feminina, especificamente, importam. Em 
seguida, apontam-se linhas gerais sobre a composição de gênero no Poder 
Judiciário internacional. Para tanto, foram examinadas algumas pesquisas sobre 
o Poder Judiciário levadas a cabo pela OCDE e pela Organização das Nações 
Unidas - ONU. Examinou-se também o resultado de pesquisas recentes sobre 
o Poder Judiciário europeu e americano. Ao final, sugere-se uma agenda de 
pesquisa para o tema, a fim de averiguar se as causas apontadas para os demais 
países seriam verificadas no Brasil. O objetivo como um todo é colaborar para 
discussões, na língua portuguesa, que levem a um aprofundamento democrático 
das instituições brasileiras, mormente no Poder Judiciário, o qual não funda 
a sua legitimidadeno voto popular direto. 
1 POR QUE A REPRESENTATIVIDADE FEMININA NO PODER JUDICIÁRIO 
IMPORTA? 
Se os juízes não são eleitos pelo povo ou sequer exercem a 
atividade legislativa no sentido típico, qual é a importância de se buscar 
a representatividade feminina no Poder Judiciário? A questão é meramente 
simbólica ou existem repercussões práticas ou mesmo substantivas no 
processo de decisão? Essas perguntas ainda são incipientes no debate 
brasileiro e demandam o diálogo com os vários ramos das ciências sociais 
e o direito. Desde logo, adverte-se que o objetivo do presente artigo não 
é o de fornecer soluções definitivas para os problemas suscitados, mas, 
sim, de tentar fomentar as reflexões em torno do tema, o qual envolve os 
desdobramentos da presença da mulher na esfera de poder responsável pelo 
resguardo dos direitos fundamentais, dentre eles o da igualdade de gênero.
Ainda predomina, na atualidade, a percepção de neutralidade da lei 
perante as questões de gênero. Porém, na prática, a aplicação da lei tende a 
levar em consideração fatores de gênero quando os juízes utilizam o seu senso 
de justiça no processo de decisão1. Dada a baixa representatividade feminina 
1 Na perspectiva de Hart, o ordenamento jurídico não é hermético, e, por isso, podem os magistrados agir de 
modo criativo e construtivo diante dos “casos difíceis”, nisso repousando a abertura para a discricionariedade 
judicial, inobstante limitada por um núcleo de clareza de significado de certas normas. 
Clara Marcelle Alves Meneses
Natalia de Melo Lacerda 89
no Poder Judiciário, cabe precisamente analisar em que medida a abertura para 
a reprodução de interpretações baseadas em uma ótica predominantemente 
masculina pode vir a interferir de modo substantivo nas decisões judiciais e, 
se, em virtude também da aceitação dessa premissa, deveriam existir mais 
mulheres nos Tribunais. A questão rende grandes controvérsias na literatura 
estrangeira (HART, 1986). 
De um lado, defende-se a inexistência de uma necessária correlação entre 
o gênero das magistradas e a eventual predisposição delas para reconhecer certos 
valores femininos. Como explica Rosalind Dixon, muitas abordagens feministas 
não consideram a complexa relação existente entre gênero e ideologia dos 
magistrados no processo de decisão, além do grau em que certos juízes do sexo 
masculino podem avançar na agenda de equidade de gênero2 (DIXON, 2009). 
When close attention is paid to empirical studies of female judicial 
behavior in the United States below the Supreme Court level, those 
studies also fail to reveal the kind of interaction between gender and 
ideology, and gender and panel composition […] At a more qualitative 
level, when the cases behind leading empirical studies are examined 
in more detail, they also reveal differences between female and male 
judges that are irrelevant, ambiguous, or extremely limited in their 
significance from a feminist perspective.3 (DIXON, op. cit.)
Ou seja, segundo essa ótica, as pesquisas empíricas que embasaram as 
abordagens feministas falharam ao não isolar as decisões a ponto de se saber 
se foram tomadas com base em uma ideologia mais liberal, e, portanto, menos 
conservadora, ou se em virtude de valorações baseadas em perspectivas de 
gênero. Além disso, para Dixon, as juízas nomeadas mais recentemente serão 
menos suscetíveis a experimentar o mesmo grau de discriminação das juízas 
nomeadas no passado, e, portanto, serão menos predispostas a abordar as 
reivindicações de discriminação de gênero da mesma maneira (DIXON, 2009). 
Em sentido oposto, várias teorias defendem a possibilidade de reflexos 
substantivos correlacionados ao aumento da presença de mulheres no Poder 
Judiciário. Conforme identificado por Rosemary Hunter, o endosso quanto ao 
aspecto prático da representatividade feminina baseia-se, principalmente, nos 
seguintes argumentos: (i) as juízas tendem a agir com mais empatia para com 
as mulheres litigantes, testemunhas, vítimas dos crimes, e assim, podem lidar 
2 Também, no mesmo sentido, ver: KENNEy, 2002. 
3 Em tradução livre: Quando se analisa atentamente os estudos empíricos do comportamento judicial feminino 
nos Estados Unidos, no nível abaixo da Suprema Corte, percebe-se não ser possível revelar o tipo de relação 
entre gênero e ideologia e a composição de gênero e de painel [...] A um nível mais qualitativo, quando os 
casos analisados nos estudos empíricos são examinados com mais detalhes, os estudos também revelam 
que as diferenças entre juízes do sexo feminino e masculino são irrelevantes, ambíguas ou extremamente 
limitadas em termos de uma perspectiva feminista. 
Publicações da Escola da AGU 90
melhor com essas participantes; (ii) é provável a não aceitação por parte das 
magistradas de qualquer tipo de discriminação no curso do procedimento para 
com as outras mulheres, inclusive as advogadas; (iii) diante da falta de tolerância 
nos bastidores, as juízas podem operar para educar e civilizar os seus pares, 
o que afastaria comportamentos tidos por discriminatórios; e, por fim, (iv) as 
mulheres poderão transportar a sensibilidade de gênero ao processo, de modo 
a alterar – por vezes – os resultados dos julgamentos (HUNTER, 2015). 
Existem duas principais teorias que sustentam a possibilidade de 
modificação de resultados no processo a depender do sexo do magistrado. 
A primeira delas defende haver uma incorporação da experiência de vida do 
julgador para o processo, e as experiências femininas – tais como a gravidez, 
a educação dos filhos, o balanceamento de deveres do trabalho e familiares – 
são muito diferentes das experimentadas pelos homens (HUNTER, op. cit.). 
Considerando-se a predominância de juízes do sexo masculino, isso 
sugere haver uma tendência para a verificação de julgamentos baseados na 
experiência de vida dos homens, a implicar a confusão entre homogeneidade 
e neutralidade. Assim, a inclusão das perspectivas das mulheres tornará a 
aplicação da lei mais representativa em relação à variedade das experiências 
humanas. A segunda teoria, desenvolvida por Carol Gilligan, defende a 
existência de uma voz diferente no processo de decisão (nos termos da autora, 
women judge ‘in a different voice’), é dizer que existiria uma moral feminina 
diferente daquela enxergada e pensada pelos homens (GILLIGAN, 2003).
Desde logo, é preciso cautela para não fundamentar a defesa da presença 
feminina nos Tribunais com base na universalização de estereótipos baseados 
em uma dicotomia entre homens e mulheres. Ainda que possam existir 
diferenças derivadas do gênero, elas não podem ser enxergadas como essenciais, 
porque as pessoas passam por experiências de vida muito distintas e adotam 
ideologias diferentes. Ou seja, não há garantias de mudanças substantivas 
advindas tão-somente da composição de mulheres no Poder Judiciário. 
Para Sally Kenny, a consciência feminista não decorre de resultado 
inevitável de ser mulher ou de viver a vida como mulher, pois ela é fruto de 
uma conquista política. Assim, a existência de um olhar atento às questões 
de gênero para julgar é fruto de uma realização organizacional (de homens e 
mulheres) e não um resultado automático da presença de mulheres. O gênero 
é uma categoria relevante para a interação social, e a ausência ou a presença 
de mulheres pode mudar a dinâmica de grupo; mas isso não significa uma 
mudança de perspectiva fixa, previsível e estática. Por isso, especialmente nos 
órgãos colegiados, a busca de diversidade de experiências entre os juízes pode 
ser mais útil que a utilização do critério automático de gênero (KENNEy, 2012).
As pesquisas recentes sobre o tema judiciário sugerem que a presença 
das mulheres na composição das Cortes pode fazer a diferença, desde que 
Clara Marcelle Alves Meneses
Natalia de Melo Lacerda 91
elas adotem uma orientação feminista A orientaçãopode repercutir em 
uma maior atenção sobre as histórias de vida das mulheres, e, também, 
a sua reprodução nas decisões. (BOyD; EPSTEIN; MARTIN, [s.d.]).
Para Rosemary Hunter, 
It also involves questioning the current legal construction of ‘woman’, 
rejecting ‘stock stories’ about women’s reactions and behaviour, not 
relying on stereotypical or gender-biased assumptions about sexual 
difference or behaviour, challenging myths and stereotypes about 
women, and critiquing previous judgments or the decisions of ‘brother’ 
judges that adopt such myths and stereotypes4. (HUNTER, 2008)
Assim, mais que a presença de mulheres no judiciário, é necessário 
trazer a experiência de vida feminina para as Cortes como forma de 
romper o paradigma na leitura do mundo e na própria compreensão da 
mulher. Essa experiência também não é unívoca. Como fator comum, 
a experimentação de vida da mulher é permeada de riscos de violência 
sexual, desvalorização de gênero, exclusão e discriminação. 
No momento atual, a ausência de mulheres no Poder Judiciário e 
no Poder Legislativo pode ocasionar a manutenção de uma percepção de 
mundo masculina e patriarcal na elaboração e na aplicação da lei (mais 
uma vez, em razão da experiência de vida). Por isso, a frase “the law sees and 
treats women the way men see and treat women” ainda faz bastante sentido 
no presente contexto de sociedade (MACKINNON, 1983). 
Na esteira do que foi dito, Sally Kenney sustenta o seguinte:
We need more feminist judges: judges who understand women’s 
experiences and take seriously harm to women and girls, who ask 
the gender question, ‘How might this law, statute, or holding affect 
men and women differently?’; who interpret equal protection and 
discrimination law in light of those provisions’ broad social change 
purposes; who value women’s lives and women’s work; who do not 
believe women to be liars, whores, or deserving of violence by nature; 
who question their own stereotypes and predilections and listen 
to evidence; and who, simply put, believe in equal justice for all.5. 
(KENNEy, 2013, pp. 15-16) 
4 Em tradução livre: “[...] isso também envolve questionar a atual construção legal de ‘mulher’, rejeitando ‘histórias 
de estoque’ sobre as reações e o comportamento das mulheres, não dependendo de suposições estereotipadas 
ou tendenciosas sobre gênero ou diferença sexual, mitos desafiadores e estereótipos sobre mulheres e críticas 
a julgamentos anteriores ou as decisões dos juízes ‘irmãos’ que adotam tais mitos e estereótipos”. 
5 Em tradução livre: “Precisamos de mais juízes feministas: juízes que entendam as experiências das mulheres e 
que vejam com seriedade os danos que podem ser ocasionados contra as mulheres e as meninas, e que façam a 
pergunta de gênero: ‘Como essa lei, estatuto ou detenção pode afetar homens e mulheres de maneira diferente?’; 
Publicações da Escola da AGU 92
Louise Chappell6 narra um exemplo bastante interessante a respeito 
de como juízes feministas podem operar mudanças de paradigmas no plano 
internacional. As juízas Carmen Argibay (Tribunal Internacional de Crimes 
de Guerra da Mulher sobre a escravidão sexual militar do Japão), Navanethem 
Pillay (Tribunal Penal Internacional), Elizabeth Odio Benito e Florence 
Mumba (Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia) desafiaram 
os estereótipos de gênero para mudar a forma como as experiências de 
guerra e conflito das mulheres são concebidas de acordo com o direito 
internacional. Como resultado de seus julgamentos, pela primeira vez sob o 
direito internacional, o estupro foi tratado como um crime grave equivalente 
à tortura e a outros crimes de guerra e a crimes contra a humanidade.
Assim, subsistem razões para permitir a introdução da experiência 
de vida feminina no processo de decisão judicial, pois a abertura para tanto 
pode culminar com o fim da falácia de objetividade e uniformidade da lei, a 
qual acaba por perpetuar a discriminação institucional das mulheres. Cabe 
precisamente ao Poder Judiciário balizar as injustiças de gênero advindas 
da aplicação de uma legislação pretensamente tida por neutra e imparcial. 
Muitas vezes enxergar a neutralidade da lei significa reproduzir o status 
quo de desigualdade em detrimento das mulheres. 
Em suma, as possíveis interpretações da lei devem prestigiar a 
perspectiva feminina, de modo a impedir que as mulheres continuem a ser 
prejudicadas por uma aplicação míope da lei. O Poder Judiciário não pode 
ficar indiferente à questão, e, por isso, a busca por um maior número de 
juízas feministas pode facilitar esse processo. Porém, não se pode negar que, 
mesmo diante do incremento desse número, é possível que as mulheres ainda 
enfrentem a dificuldade de inserir suas perspectivas na elaboração das decisões 
judiciais, até porque, frequentemente, o ordenamento jurídico é construído para 
reforçar a conformidade com as normas e com precedentes já estabelecidos.
Conforme destacado por Hunter, existem na atualidade vários 
projetos de julgamento feminista ( feminist judgment projects), os quais 
procuram reconstruir várias decisões em casos importantes, com o fim 
de demonstrar os possíveis resultados oriundos da introdução de uma 
visão diferente, seja para o fim de construção da fundamentação, seja em 
relação aos resultados em si (HUNTER, 2008). 
A partir disso, decisões judiciais passam considerar as vozes e as 
experiências anteriormente excluídas ou marginalizadas, em uma abordagem 
que interpretem igualmente proteção e a discriminação legais à luz dessas questões de grandes propósitos de 
mudança social; que valorizem a vida das mulheres e o seu trabalho; que não acreditem que as mulheres sejam 
mentirosas, vadias ou que merecem violência de qualquer natureza; que questionem seus próprios estereótipos 
e predileções e escutem evidências; e que, simplesmente, acreditem em justiça igual para todos.
6 CHAPPELL, 2010.
Clara Marcelle Alves Meneses
Natalia de Melo Lacerda 93
variada desafiadora do viés de gênero na doutrina jurídica e no raciocínio judicial 
ou passaram a promover a igualdade substantiva. Conforme notado, nem 
sempre houve alteração no resultado dos julgamentos, mas o desenvolvimento 
em si de uma nova fundamentação representa um enriquecimento do debate 
argumentativo. A representatividade feminina também repousa em argumentos 
simbólicos. É inegável a maior possibilidade de intervenção do Poder Judiciário 
na realidade social e na vida das pessoas, e, diante disso, não se pode negligenciar 
a necessidade de uma conexão das Cortes com as múltiplas experiências 
existentes na sociedade, até mesmo para garantir a legitimidade democrática. 
Outrossim, a presença de mulheres juízas sinaliza a igualdade de oportunidades 
na vida professional e demonstra a abertura do poder governamental para 
atender a todas as pessoas aspirantes ao cargo, pela adoção de um processo 
de indicação não discriminatório (KENNEy, 2002). 
Para Dixon, a presença feminina nos Tribunais pode auxiliar na superação 
de muitos preconceitos relacionados à condução da profissão legal pelas mulheres, 
o que ainda representa um grande obstáculo para as nomeações e as indicações. 
Tais preconceitos não decorrem de explícitas generalizações acerca de inaptidão 
ou de baixa performance das mulheres, mas são representações de uma tendência 
subconsciente responsável por associar o comportamento masculino às noções 
de talento, o mesmo não ocorrendo com as mulheres. Como esses preconceitos 
são implícitos, são mais difíceis de serem contidos. Ao mesmo tempo, o autor 
destaca que esses vieses podem ser mitigados. A esse exemplo, um experimento 
comportamental demonstrou que se as juízas forem posicionadas geograficamente 
em locais associado ao poder, os advogados irão gradualmente começar a 
apresentar um menor viés de gênero (DIXON, op. cit.).
Mais uma vez, cabe ratificarque a remoção de barreiras formais 
ou informais, visíveis ou invisíveis significa um movimento em prol 
da igualdade de oportunidades. Ademais disso, o enriquecimento do 
processo de decisão judicial com a introdução de visões de mundo mais 
consentâneas com a pluralidade de experiências pode repercutir de modo 
direto e indireto na substância dos julgamentos. Nesse sentido, sobram 
razões para defender a maior presença feminina nos Tribunais.
2 DESENHOS INSTITUCIONAIS E SUA INFLUÊNCIA NA (DES)IGUALDADE 
DE GÊNERO DAS CORTES INTERNACIONAIS E BRASILEIRAS
O tópico anterior abordou a questão da importância da 
representatividade feminina. Este pretende avançar para um breve 
panorama do estado da arte do tema nos Tribunais estrangeiros.
Por óbvio, o direito humano fundamental à igualdade perante a lei, a 
não discriminação pela Justiça e ao acesso a um Poder Judiciário independente 
Publicações da Escola da AGU 94
e imparcial não estará assegurado se o próprio Poder Judiciário e as profissões 
jurídicas excluírem as mulheres na lei ou na prática (WOMEN..., 2014). 
Embora esses direitos civis sejam uma conquista arraigada, na realidade, 
números da ONU indicam que, em média, as mulheres são pouco mais de 
25% dos judicial officers no mundo e, em muitas regiões, esse percentual 
situa-se abaixo de 10% (IN PURSUIT..., 2011, p. 60-61). 
Quando se verificam os países desenvolvidos, embora boa parte deles 
esteja mais avançada em relação à promoção de igualdade de gênero na 
vida pública, ainda se percebe a existência de um “teto de vidro”. Esse teto 
é visível nas Cortes superiores e gritante para as posições de presidência. 
Confira-se, respectivamente (EUROPEAN..., 2016): 
Nos Estados Unidos, por exemplo, com a confirmação da Associate 
Justice Elena Kagan em 2010, a Suprema Corte alcançou o número de três 
mulheres entre os nove Justices pela primeira vez em sua história. Ainda 
assim, isso representa tão-somente um terço do total. O National Women’s 
Clara Marcelle Alves Meneses
Natalia de Melo Lacerda 95
Law Center divulgou que apenas quatro dos 112 Justices que já integraram 
o Tribunal eram do sexo feminino (WOMEN..., 2016). 
Como dito alhures, o artigo “Women’s Representation on High Courts 
in Advanced Industrialized Countries”, de Margaret S. Williams e Frank 
C. Thames, analisou como escolhas institucionais de forma de seleção e 
nomeação e fatores estruturais domésticos interferem na representação 
feminina, que variou, de 2006 a 2007, de 0% a 60% nos países membros 
da OCDE, ou seja, nos mais desenvolvidos do mundo. A pesquisa concluiu 
que essa variação é afetada por diversos fatores identificados, tais como (i) 
prestígio do Tribunal; (ii) método de seleção; e (iii) tradição e importância 
da participação das mulheres no país.
Em relação ao prestígio ou à hierarquia, percebe-se que, no caso 
brasileiro, a justiça federal ostenta uma participação feminina menor 
que a justiça estadual; ainda, que quanto mais alta for a hierarquia da 
instância, maior a discrepância de gênero. Assim é que o percentual 
de mulheres na magistratura como um todo é de 35,9%, mas a justiça 
federal alberga apenas 26% de magistradas, segundo o Censo do Poder 
Judiciário do Conselho Nacional de Justiça elaborado em 2014. Nos 
Tribunais Regionais Federais, esse percentual cai para aproximadamente 
20%. Curiosamente, o Tribunal Regional Federal da 5ª Região, com sede 
em Recife, Pernambuco, só teve uma mulher em toda a sua história, e 
atualmente não possui nenhuma. 
Nas Cortes mais altas, o Superior Tribunal de Justiça - STJ e 
o STF, a composição de mulheres é de meros 18%. Ainda assim, essa 
composição não vem a reboque de uma política (policy) consistente e 
duradoura em prol da igualdade de gênero, é resultado de circunstâncias 
episódicas (politics) e, por isso, não sustentáveis. Além disso, esses números 
denotam a existência de um “teto de vidro” para as mulheres, cujas causas 
têm sido pouco investigadas. Se as normas e os processos de seleção e 
promoção tivessem realmente um impacto neutro quanto ao gênero, a 
mesma proporção seria observada. 
No que se refere ao método de seleção, a juíza Clara Mota explica 
que:
[...] não se sabe, em que grau, superada a forma de ingresso [...], as 
mulheres são convidadas para tomar parte em posições de poder ou a 
relação que se estabelece entre estas posições e as futuras promoções 
para cargos como o de desembargador. (ALVES, 2017) 
Nesse ponto, sobre a composição das bancas examinadoras de 
concurso público para ingresso na magistratura federal, a autora discorre 
(grifos nossos):
Publicações da Escola da AGU 96
Dentro deste contexto, a Comissão detectou que, desde a Constituição 
de 1988, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região promoveu 16 
concursos públicos, contando com 80 participações de homens como 
titulares nas bancas examinadoras. Apenas em 06 oportunidades as 
mulheres estiveram presentes entre os examinadores, o que nos leva ao 
inexpressivo percentual de 7,5% de mulheres até hoje convidadas. No 
TRF da 4ª Região os resultados são igualmente insatisfatórios, pois, 
entre os membros titulares, houve 03 participações femininas diante 
de 85 masculinas, gerando um percentual de 3,5%, após 17 seleções. 
No TRF da 3ª Região, a participação feminina ficou na casa de 25,5%, 
ao passo em que no TRF da 2ª Região ela redundou em 10%. Por fim, 
no TRF da 5ª Região, temos que apenas 4,65% dos examinadores 
titulares foram mulheres [...]. (ALVES, op. cit.)
E adiante:
Se esses conceitos são construídos, eles devem ser questionados. 
Diversos estudos e forças-tarefas direcionadas à inclusão de gênero 
nas justiças ao redor do mundo têm mostrado que as barreiras de 
promoção têm como uma das suas causas até mesmo a dificuldade 
feminina de relacionamento em ambientes masculinos. Uma série 
de desdobramentos da carreira ocorrem em encontros informais, 
criando-se, não raro, uma situação de fraternidade enviesada pelo 
gênero, no que foi denominado pela força-tarefa norte-americana 
como a atmosfera de ‘old boys club’. Seguramente esses elementos 
influenciam a questão ora tratada, afinal a ausência de examinadoras 
mulheres, de juízas em funções de assessoramento e convocação, ou 
como palestrantes e professoras, tem perpetuado o círculo vicioso e 
impedido o estabelecimento de relações de convivência e trabalho das 
mulheres nestes espaços. Quem nunca foi visto, jamais será lembrado. 
(ALVES, op. cit.)
Essa análise se refere mais ao terceiro fator acima listado, i.e., 
quanto à tradição e à importância da participação das mulheres no país. 
Kate Brooks, no ensaio “Women in the Judiciary: what solutions to advance 
gender-responsive and gender-diverse justice systems?”, publicado pela 
OCDE em 2017, ela observa que as mulheres têm sido bem sucedidas em 
galgar a entrada nas profissões jurídicas, mas, em seguida, progridem 
lentamente para as posições de liderança. Por isso, sugere que as 
atenções agora devem ser voltadas para regras que acarretem a melhoria 
da cultura corporativa e das condições de trabalho, além da introdução 
de aconselhamento e mentoria, com monitoramento do resultado dessas 
medidas.
Clara Marcelle Alves Meneses
Natalia de Melo Lacerda 97
Um estudo que mapeou a eficiência e a qualidade dos sistemas judiciais 
europeus apontou que, até 2016, a maioria dos países adotaram alguma norma 
geral que resguardasse o objetivo de paridade entre homens e mulheres no 
serviço público, o que influenciaria diretamente a organização do sistema 
judiciário. Alemanha (no nível de Länder), Áustria, Dinamarca, Noruega e Israel 
expressamente estendem esse regramento ao sistema judicial. Na Alemanha, por 
exemplo, outras medidas são adotadas, tal como a preocupação de se preservar 
a representatividade na composição das Turmas da Corte constitucional, de 
forma que uma Turma com trêsjuízes deveria conter pelo menos uma mulher. 
Em que pesem esses comentários, poucos países ou instituições europeias 
implementaram medidas específicas para a promoção de igualdade de gênero 
por meio da seleção e do recrutamento de juízes. Esses poucos são Armênia, 
Bósnia-Herzegovina, Dinamarca, Alemanha, Montenegro, Noruega, Reino 
Unido e País de Gales. Na Armênia, a busca pela paridade é observada na lista 
de candidatos, que deve conter no mínimo 25% de um dos gêneros. Outros países 
como Reino Unido, Bósnia-Herzegovina e Montenegro também observam a 
paridade no procedimento para nomeações (EUROPEAN..., 2016).
Ainda na doutrina estrangeira, destaca-se o artigo recente chamado 
“Justice, interrupted: the effect of gender, ideology and seniority at Supreme Court oral 
arguments”, de Tonja Jacobi and Dylan Schweers. Ele foi citado em plenário pela 
Ministra-Presidente do STF, que mencionou uma das conclusões do trabalho, 
no sentido de que as juízas da Suprema Corte Americana são interrompidas 
dezoito vezes mais que o juízes nos debates da Corte, prática que se cunhou 
por manterrupting. 
O estudo analisou decisões desde os anos 1970 e verificou que o 
aumento da composição feminina no Tribunal não refreou o número de 
Publicações da Escola da AGU 98
interrupções que, ao contrário, continuou aumentando: em 1990, 35,7% 
das interrupções eram dirigidas à única juíza da Suprema Corte à época; 
em 2002, o Tribunal contava com duas juízas, ao passo que as interrupções 
dirigidas a elas aumentaram para 45,3%; em 2015, com três juízas, 65,9% de 
todas as interrupções nos debates foram dirigidas às mulheres do Tribunal. 
Como os autores observaram, as dinâmicas de gênero persistem mesmo 
em altos postos de poder ocupados por mulheres. É de se notar que esse 
é outro aspecto da representatividade, pois, dado que a argumentação e a 
participação nos debates influenciam na decisão dos Tribunais e na formação 
de jurisprudência, o menor espaço neles diminui a representatividade feminina 
nas mais importantes decisões da sociedade (JACOBI; SCHWEERS, 2017).
A representatividade feminina no Poder Judiciário importa e deve 
ser incluída na promoção de uma ampla estratégia de políticas públicas para 
a igualdade de gênero. Essa é uma providência que agrega accountability e 
sustentabilidade a essas medidas e estimula um ciclo virtuoso de reforço, pois 
o Poder Judiciário, em si, é um espaço de tomada de decisões na vida pública.
3 CONCLUSÃO
No presente artigo, se buscou analisar a importância da representatividade 
feminina no Poder Judiciário no contexto brasileiro e internacional. No aspecto 
substantivo, notou-se não haver garantias de mudanças tão-somente em função 
da participação de mulheres no Poder Judiciário, se advertiu, porém, que a 
ausência ou a presença de mulheres pode mudar a dinâmica de grupo; mas 
isso não significa uma mudança de perspectiva fixa, previsível e estática. Na 
verdade, do ponto de vista de resultados, mais que a presença de mulheres no 
Poder Judiciário, é necessário trazer a experiência de vida feminina para as 
Cortes, como forma de romper o paradigma na leitura do mundo fortemente 
masculinizado. Concluiu-se que a representatividade feminina também repousa 
em argumentos simbólicos. É inegável que a maior possibilidade de intervenção 
do Poder Judiciário na realidade social e na vida das pessoas, e diante disso, 
não se pode negligenciar a necessidade de uma conexão das Cortes com as 
múltiplas experiências existentes na sociedade, até mesmo para garantir a 
legitimidade democrática. Outrossim, a presença de mulheres juízas sinaliza 
a igualdade de oportunidades na vida professional e demonstra a abertura do 
poder governamental para atender a todas as pessoas aspirantes ao cargo, pela 
adoção de um processo de indicação não discriminatório.
Verificou-se, a partir da literatura estrangeira, que a variação de 
composição feminina nas Cortes é afetada por diversos fatores identificados, tais 
como: (i) prestígio do Tribunal; (ii) método de seleção; e (iii) tradição e importância 
da participação das mulheres no país. Em que pesem esses comentários, poucos 
Clara Marcelle Alves Meneses
Natalia de Melo Lacerda 99
países ou instituições europeias implementaram medidas específicas para a 
promoção de igualdade de gênero por meio da seleção e do recrutamento de juízes. 
Por fim, vê-se que o tema é pouco reconhecido como um problema e 
estudado de forma insuficiente na literatura estrangeira sobre os Tribunais, 
menos ainda na doutrina pátria. Nos limites epistemológicos deste trabalho, 
buscou-se trazer para literatura nacional um diagnóstico inicial do problema, 
levantaram-se hipóteses advindas de pesquisas estrangeiras e houve o reforço 
de que esses possíveis fatores sejam estudados pela doutrina no Brasil, uma 
vez que redundam em déficit democrático. Futuros estudos podem contribuir 
para o delineamento do problema e para que essas políticas sejam informadas 
por dados empíricos, no sentido de diminuir efetivamente barreiras implícitas 
e explícitas à igualdade na liderança da vida pública.
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em: 17 out. 2017. 
101
PRECEDENTES JUDICIAIS NO SISTEMA 
CONSTITUCIONAL BRASILEIRO: DIREITO 
ROMANO-GERMÂNICO E COMMON LAW 
EM CRESCENTE APROXIMAçãO
JUDICIAL PRECEDENTS IN THE BRAZILIAN 
CONSTITUTIONAL SySTEM: THE INCREASING APPROACH 
OF THE ROMAN-GERMAN LAW AND THE COMMON LAW
Daniela Gonçalves de Carvalho
Procuradora Federal. Coordenadora de Cobrança e Execução Fiscal Trabalhista da 
PSF Duque de Caxias/RJ. Pós-graduada em Direito Público (UCP). Professora da 
Escola Brasileira de Ensino Jurídico pela Internet (EBEJI)
Marcus Vinicius de Albuquerque Portella
Pós-graduado em Direito Privado (UGF)
Procurador Federal - Procurador-Chefe da Procuradoria junto à Fundação Biblioteca 
Nacional (PF-FBN) 
SUMÁRIO: Introdução; 1 Aumento do papel político 
da jurisdição constitucional; 1.1 Pós-Guerra na Europa; 
1.2 Pós 1988 no Brasil; 1.3 Evolução concomitante entre 
common law e sistemas da Europa Continental; 2 Déficit 
de representação democrática no Poder Legislativo no 
Brasil e o papel democrático das cortes constitucionais; 
3 Sistema de precedentes pelo CPC 2015; 4 Conclusão; 
Referências.
Publicações da Escola da AGU 102
RESUMO: O presente artigo acompanha a evolução dos sistemas 
jurídicos da Civil law, predominante na Europa Continental, e da Common 
law, característico de países como os Estados Unidos da América e 
integrantes do Reino Unido, buscando analisar como acontecimentos 
históricos no Brasil e no mundo influenciaram ambos os sistemas, 
principalmente no que se refere à jurisdição constitucional, tendo como 
reflexo uma aproximação entre eles. Como reflexo desse fenômeno de 
aproximação dos sistemas na experiência brasileira, é possível reconhecer 
o salto de relevância conferido pelo legislador aos precedentes judiciais, 
conforme se evidencia de dispositivos do Código de Processo Civil de 
2015, estabelecendo-se definitivamente as decisões judiciais como fonte 
normativa do Direito. Em sentido contrário, são apresentadas evidências 
de que os países da Common law vêm incrementado significativamente a 
sua produção legislativa.
PALAVRAS-CHAVE: Sistema Constitucional Brasileiro. Sistema 
Romano-Germânico. Common Law. Precedentes Judiciais. CPC 2015.
ABSTRACT: This article encompasses the evolution of two distinct 
law systems, Civil Law, predominant in Continental Europe, and 
Common Law, typical of places like the United States of America and 
the United Kingdom, focusing on analyzing how brazilian and world 
histories shaped both systems, especially in regard to the constitutional 
jurisdiction promoting more similarities in between the two systems. 
As a result of these two systems becoming more similar, the brazilian 
experience shows an increasingly higher value placed by legislators on 
judicial precedents, as the 2015 Civil Procedure Code establishes that 
judicial decisions of the court be used as a source for future decision 
making. In the other direction, a higher production rate of written law 
becomes evident in traditionally Common Law countries.
KEYWORDS: Brazilian Constitutional System. Roman-Germanic 
system. Common Law. Judicial Precedents. CPC 2015.
Daniela Gonçalves de Carvalho
Marcus Vinicius de Albuquerque Portella 103
INTRODUçãO
É notável que o Poder Judiciário vem ganhando as manchetes de jornais 
com uma frequência nunca antes vista no Brasil, em especial, o Supremo 
Tribunal Federal (STF). 
Como justificativas para esse recente protagonismo da magistratura 
nacional, é possível destacar suas decisões tomadas em questões controvertidas 
para a sociedade, que envolvem inegável carga de ativismo, como o casamento 
entre pessoas do mesmo sexo1, o aborto de fetos anencefálicos2, o ensino 
religioso em escolas públicas3, assim como o julgamento de grandes casos 
de corrupção, envolvendo cifras exorbitantes e importantes agentes políticos, 
primeiramente com o chamado Caso Mensalão4 e atualmente com a Lava Jato5, 
com a recente permissão de encarceramento antes do trânsito em julgado da 
decisão condenatória6.
Essas e outras decisões suscitam a rediscussão do alcance e conteúdo da 
proteção dos Direitos Humanos, que desde o fim da Segunda Grande Guerra 
vem apresentando sensíveis avanços. No plano internacional, o assunto ganha 
destaque a reboque das questões que envolvem os movimentos migratórios 
em virtude de conflitos armados, como na Síria e Líbia, mas também por 
conta da ameaça terrorista que aflige varados países como França, Inglaterra 
e Espanha, apenas para mencionar os casos mais recentes.
Os direitos humanos na ordem do dia, do Brasil e do mundo, aliado ao 
acentuado fenômeno da globalização (iniciado, para uns, na época das grandes 
navegações, para outros, desde a expansão do Império Romano) podem explicar 
o quadro perceptível de aproximação entre sistemas jurídicos distintos.
Como será melhor visto adiante, o Novo Código Civil de 2015 demonstra 
que a cultura de precedentes judiciais veio para ficar, inaugurando um sistema 
misto que prima tanto pelo respeito às leis positivadas quanto pela hierarquia 
das decisões judiciais e ao judicial review.
A Europa continental e seu conhecido apego ao formalismo e ao direito 
positivado (Sistema Romano-germânico) vem cedendo espaço à sedimentação 
de costumes e à jurisprudência como fonte do Direito, típicos da Common law. 
Por outro lado, países adeptos da Common law vêm editando legislações 
cada vez com mais frequência, especialmente países da Europa comunitária, 
por necessidade de promover uma maior integração entre as nações que fazem 
1 ADI 4277 e ADPF 132.
2 ADPF 54.
3 ADI 4439.
4 AP 470.
5 HC 126.292
6 Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/segunda-guerra-mortos.htm>. Acesso 
em: 18 set. 2017.
Publicações da Escola da AGU 104
parte da União Europeia (UE). Mas nos Estados Unidos da América (EUA), 
fenômeno semelhante pode ser igualmente percebido, o que denota que esse 
processo de aproximação dos sistemas jurídicos é global e multifatorial.
1 AUMENTO DO PAPEL POLíTICO DA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL
O progressivo protagonismo do Poder Judiciário que se verifica 
recentemente contrasta com a histórica prevalência do Poder Executivo 
frente as demais funções estatais, dentro da clássica tripartição de 
Montesquieu. Mas o Executivo continua a exercer sua prevalência, em 
especial, nos países com regime de governo presidencialista.
Retroagindo no tempo, tendo como marco histórico a Revolução Francesa, 
assistiu-se o rompimento da figura divina do monarca, muito em virtude 
dos descontentamentos da classe burguesa com seus abusos e desmandos. A 
desconfiança que se tinha em relação ao ocupante do trono era estendida aos 
membros do Judiciário, e no intuitode prevenir abusos, era difundida a concepção 
de que o juiz deveria ser simplesmente a “boca-da-lei”, ou seja, um mero repetidor 
acrítico das normas estabelecidas pelos demais poderes.
No entanto, os horrores da Segunda Guerra Mundial na Europa 
e o posterior obscurantismo do Regime Militar no Brasil provocaram 
uma mudança drástica de cenário, criando as bases para o florescimento 
dos Direitos Humanos, concomitantemente ao papel do Judiciário como 
promovedor destes excelsos direitos. É o que se passa a analisar.
1.1 Pós-Guerra na Europa
O regime nazifascista ceifou cerca de 47 milhões de vidas7, somente 
na Europa, sob comando do Fuher, autoridade suprema do Poder Executivo, 
com base em leis e atos normativos amplamente apoiados Poder Legislativo 
(ou simplesmente ignorando esta função do estado) e com um Poder 
Judiciário tíbio e subjugado.
Como consequência, o pós-Guerra provocou uma reflexão moral 
de proporções jamais vistas, em todas as nações. Seria necessário criar 
garantias e mecanismos efetivos de proteção da pessoa humana em face dos 
arbítrios de seus próprios governos. Era preciso estabelecer limites ao atuar 
estatal, resguardando assim os direitos humanos de seus cidadãos. Nesse 
contexto é que emergem as constituições ditas garantistas mundo afora.
7 Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/segunda-guerra-mortos.htm>. Acesso 
em: 18 set. 2017. Segundo consta, o maior número de mortes, aproximadamente 16 milhões, ocorreu na 
extinta União Soviética (URSS).
Daniela Gonçalves de Carvalho
Marcus Vinicius de Albuquerque Portella 105
Ao mesmo tempo, restou nítida a importância e necessidade de um 
Judiciário forte e independente o suficiente para obstar eventuais abusos de 
poder dos demais Poderes. Em vários países da Europa, como Alemanha 
e Itália, as Cortes Constitucionais foram erigidas como órgãos autônomos 
e independentes dos demais poderes, inclusive do próprio Judiciário.
Esses fatores naturalmente atraem os holofotes para o Judiciário, 
em especial para as cortes constitucionais, que a todo momento precisam 
sopesar a medida de sua atuação, promovendo a proteção aos direitos 
fundamentais, mas exercitando também sua autocontenção, para não 
invadir espaços estatais reservados aos demais poderes ou até mesmo o 
espaço próprio das demais instâncias do próprio Judiciário.
Tomando a Alemanha novamente como exemplo, a ideia de corte 
constitucional não como uma superinstância recursal, mas como foro de 
proteção dos direitos fundamentais, foi reafirmada pela Ministra Sibylle 
KessakWulf (CANÁRIO, 2016):
O tribunal constitucional não é uma instância recursal, ele apenas 
responde se houve desrespeito a direitos fundamentais. Nós 
respeitamos a interpretação das instâncias anteriores e as soluções 
propostas pelo legislador.
Os reflexos, no Brasil, desse contexto histórico, e o consequente 
incremento do constitucionalismo no país, serão investigados adiante.
1.2 Pós 1988 no Brasil
Nesse ponto, é necessário um breve retrospecto das principais 
constituições brasileiras. À Constituição de 1934, a terceira do jovem país 
independente e a segunda de sua experiência republicana, sucedeu-se a Carta 
de 1937, considerada extremamente restritiva das liberdades individuais.
A disparidade entre os documentos salta aos olhos. Na Constituição 
de 1934, foi estabelecido pela primeira vez liberdades como o voto feminino 
e secreto. Já na Carta de 1937, que veio para legitimar o chamado Estado-
Novo e o governo ditatorial de Getúlio Vargas, o Poder Executivo 
incorporou diversas funções do Legislativo, foi estabelecida a possibilidade 
de dissolução do Congresso Nacional pelo Presidente da República, e o 
Judiciário permaneceu submisso durante o período da “Constituição Polaca”, 
assim chamada em razão da clara influência da constituição daquele país.
Na sequência, a Constituição de 1946 se apresenta sob forte 
influência do fim dos regimes autoritários na Europa, resgatando valores 
do documento de 1934, como a liberdade de expressão e as eleições diretas. 
De curta duração, infelizmente.
Publicações da Escola da AGU 106
Em 1964, grupos militares tomam o poder. Por nítida incongruência 
entre a Constituição de 1946 e os atos institucionais editados, com posturas 
restritivas de direitos individuais, em 1967, é editada uma nova Carta, 
representando uma ruptura com a ordem constitucional anterior. Sobre 
o tema, Giorgio Agabem (2004, p. 13):
O totalitarismo moderno pode ser definido, nesse sentido, como a 
instauração por meio de estado de exceção, de uma guerra civil legal 
que permite a eliminação física não só dos adversários políticos, mas 
também de categorias inteiras de cidadãos que, por qualquer razão, 
parecem não integráveis ao sistema político. Desde então, a criação de 
um estado de emergência permanente (ainda que, eventualmente, não 
declarado no sentido técnico) tornou-se uma das práticas essenciais 
dos Estados contemporâneos, inclusive dos chamados democráticos.
Com a abertura política e o restabelecimento da democracia, edita-se 
a Constituição de 1988. Ampla, recheada de garantias, direitos fundamentais 
e instrumentos para protegê-los, de início, o STF não explorou todas as 
suas possibilidades hermenêuticas, deixando de avançar significativamente, 
adotanfo postura de notável autocontenção, talvez em virtude de carência 
geral de maturidade democrática, inclusive da Corte.
Contudo, a partir do início da década de 1990, a garantia do amplo 
acesso à Justiça, previsto no artigo 5º, inciso XXXV da Constituição 
vigente, ajudou a capitanear mudanças substantivas. O Poder Judiciário 
viu-se diante da possibilidade real de implementar direitos. 
Consoante acentua Jane Reis8, merecem destaque a ascensão dos 
direitos do consumidor, o reconhecimento da união estável para fins 
sucessórios e previdenciários e o acesso à saúde, com as ações pleiteando 
a obrigação de fornecer medicamentos negados na rede pública.
Jane Reis9 prossegue e lança luz sobre a importância estrutural 
da criação dos juizados especiais. Menciona ainda o rompimento do 
formalismo exacerbado por parte dos juízes (ainda que se enxergue aqui 
e acolá “deslizes” de cunho formalista). 
O Judiciário viu-se abarrotado de demandas de baixa complexidade, 
fazendo popularizar o acesso à Justiça, não imune a críticas acerca da 
duração razoável do processo e da qualidade de algumas decisões. Mas o 
8 Opinião exposta durante a Mesa do Seminário Direitos Fundamentais e Jurisdição Constitucional, realizado em 
setembro de 2015, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, organizado pela Clínica de Direitos Fundamentais 
da Faculdade de Direito da UERJ e pela Revista Publicum, ainda com a presença de Luís Roberto Barroso e Daniel 
Sarmento. Disponível em: <http://uerjdireitos.com.br/mesa-direitos-fundamentais-e-stf/>. Acesso em: 15 set. 2017.
9 Ibidem.
Daniela Gonçalves de Carvalho
Marcus Vinicius de Albuquerque Portella 107
aspecto que se busca salientar nesse contexto é justamente o protagonismo 
assumido a partir de então.
1.3 Evolução concomitante entre common law e sistemas da Europa 
Continental
Paralelamente ao panorama histórico desenhado nos itens anteriores, 
sob o ponto de vista sistemático, é possível dividir o direito ocidental em dois 
grandes sistemas dogmáticos: o sistema Romano-germânico e o sistema do 
Common law. 
No sistema Romano-germânico, a legislação positivada é a principal 
fonte normativa e seu marco teórico pode ser fixado nos primórdios do Direito 
Romano e das ordenações legais que o sucederam ao longo dos séculos.
Já no Common law, típico dos países anglo-saxônicos, a decisão judicial é 
a fonte primordial do direito. Parte-se do caso concreto para a criação de direitos 
abstratos. Legitima-se pela exposição de argumentação racional na exposição 
das razões de decidir, perpetuando-sepela cultura dos precedentes judiciais.
Patrícia Perrone Campos Mello e Luís Roberto Barroso nos mostram 
que (2016, p. 9):
Esses sistemas não evoluem, contudo, de forma estanque. Ao contrário, 
há relativo consenso de que se encontram em crescente aproximação. 
O triunfo das ideias democráticas, a assunção de certos compromissos 
internacionais e a necessidade de implementar mudanças sociais rápidas 
são fatores que contribuíram historicamente para uma maior produção 
de normas legisladas em países do common law.
Assim, podemos citar como exemplos de aproximação entre ambos 
os sistemas a adoção cada vez maior de vinculação aos precedentes em 
países como Alemanha, Espanha e Itália. Em sentido oposto, verifica-se o 
incremento da via legislativa por parte do Reino Unido por exemplo, como 
é o caso do Human Rights Acts, de 1998 e do Constitucional Act, de 2005.
Já na América Latina, não se pode esquecer da grande importância 
que o sistema de jurisdição constitucional Norte-americano exerce sobre 
toda a região, inclusive o Brasil. Assim, o sistema misto de controle de 
constitucionalidade brasileiro, que adota jurisdição constitucional centralizada 
e abstrata, tal como na Áustria e Alemanha, mas também admite o controle 
difuso e concreto, está sob constante influência norte-americana.
Por isso, importante apontar as mudanças que também se verificam 
nos EUA, país que adota o sistema jurídico da Common law mas que vem 
pouco a pouco aumentando a sua produção legislativa, com leis, regulamentos 
e afins, movimento que vem acompanhado de um crescente respeito e das 
Publicações da Escola da AGU 108
cortes judiciais pela norma positivada, o que só reforça a ideia de crescente 
aproximação entre ambos os sistemas como um fenômeno global.
2 DéFICIT DE REPRESENTAÇÃO DEMOCRÁTICA NO PODER LEGISLATIVO 
NO BRASIL E O PAPEL DEMOCRÁTICO DAS CORTES CONSTITUCIONAIS 
As notícias constantes de escândalos de corrupção, vindas de todas 
as esferas de governo, a exemplo do escândalo dos desvios de dinheiro 
descobertos pela operação Lava Jato, provocam um crescente sentimento 
de descrença do cidadão comum com a política.
O desânimo geral da população com a política partidária acentua a 
falta de representatividade de diversos segmentos sociais no Parlamento. 
Juliana Cesario Alvim Gomes (2016) já apontava que mulheres, negros, 
indígenas e homossexuais são minoria absoluta no Congresso, isso quando 
há representantes no poder Legislativo.
Para que seja evitado o que se convencionou chamar tirania da 
maioria, é necessário que haja um exercício de mediação, na promoção 
do equilíbrio entre os Poderes, papel este que deve ser assumido pelo 
Judiciário. Nesta tarefa, é preciso que se proteja de maneira adequada os 
direitos fundamentais daqueles que não possuem voz política. 
Caso emblemático foi o já mencionado reconhecimento, pelo STF, 
da constitucionalidade da união civil entre pessoas do mesmo sexo, 
posicionamento progressista que dificilmente seria alcançado com a atual 
composição do Congresso Nacional. Não imune a críticas, haja vista o 
flagrante papel legislador adotado pelo órgão de cúpula do Judiciário, que 
adotou postura, nesse caso, de forte ativismo judicial, contrário à vontade 
dos representantes escolhidos pelo voto.
Esta não é a visão unânime sobre o papel das Cortes Constitucionais, 
eis que a unanimidade nesse assunto não existe. Mas é a posição defendida, 
por exemplo, por Luís Roberto Barroso (2015), que chama isso de papel 
representativo das Supremas cortes. 
Um exemplo em que o STF igualmente entrou em confronto com 
o posicionamento do Legislativo, mas dessa vez atendendo aos anseios 
da maioria da população, foi por ocasião da edição da Súmula Vinculante 
n. 13, que veda o nepotismo nos três Poderes. Dificilmente um projeto 
de lei seria aprovado pelo Parlamento de então sem que o STF houvesse 
editado aquele ato normativo.
Nesse quadro, faz cada vez mais sentido a ideia de sistematizar a 
vinculação de precedentes no Brasil, e como será visto no tópico a seguir, 
foi justamente o que o Código de Processo Civil de 2015 buscou realizar.
Daniela Gonçalves de Carvalho
Marcus Vinicius de Albuquerque Portella 109
3 SISTEMA DE PRECEDENTES ADOTADO PELO CPC 2015
A doutrina processualista vem afirmando, não sem razão, que 
o Código de Processo Civil de 2015 adotou, em definitivo, o sistema 
de precedentes. Um exemplo cristalino dessa vontade legislativa é o 
artigo 489, abaixo transcrito:
Art. 489. [...].
§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja 
ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:
[...]
VI deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou 
precedente invocado pela parte, sem demonstrar a existência de 
distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento.
A mens legis do dispositivo é o ideal de isonomia, pela perspectiva 
da coerência do sistema, de modo a não fazer das ações individuais uma 
verdadeira loteria.
Os artigos 926 e 927 também traduzem a vontade de uniformização e 
respeito à autoridade das decisões das cortes, em especial do STF enquanto 
corte constitucional:
Art. 926. Os tribunais devem uniformizar sua jurisprudência e mantê-
la estável, íntegra e coerente.
Art. 927. Os juízes e os tribunais observarão:
I as decisões do STF em controle concentrado de constitucionalidade;
II os enunciados de súmula vinculante;
III os acórdãos em incidente de assunção de competência ou de 
resolução de demandas repetitivas e em julgamento de recursos 
extraordinário e especial repetitivos;
IV os enunciados das súmulas do STF em matéria constitucional e 
do STJ em matéria infraconstitucional;
V a orientação do plenário ou do órgão especial aos quais estiverem 
vinculados.
§ 1º Os juízes e os tribunais observarão o disposto no art. 10 e no 
art. 489, § 1o, quando decidirem com fundamento neste artigo.
Publicações da Escola da AGU 110
§ 2º A alteração de tese jurídica adotada em enunciado de súmula 
ou em julgamento de casos repetitivos poderá ser precedida de 
audiências públicas e da participação de pessoas, órgãos ou entidades 
que possam contribuir para a rediscussão da tese.
§ 3º Na hipótese de alteração de jurisprudência dominante do STF 
e dos tribunais superiores ou daquela oriunda de julgamento de 
casos repetitivos, pode haver modulação dos efeitos da alteração no 
interesse social e no da segurança jurídica.
§ 4º A modificação de enunciado de súmula, de jurisprudência 
pacificada ou de tese adotada em julgamento de casos repetitivos 
observará a necessidade de fundamentação adequada e específica, 
considerando os princípios da segurança jurídica, da proteção da 
confiança e da isonomia.
A exemplo do que ocorre na Itália, onde o Tribunal constitucional 
tem o poder de cassar a decisão que contraria a Constituição, o Código 
de Processo Civil de 2015 disciplinou o já conhecido instrumento da 
Reclamação constitucional. Por esse instrumento, é possível ter acesso 
direto ao STF para apontar o desrespeito a um precedente seu, que tem 
o poder de cassar a decisão que lhe contrariou.
Patrícia Perrone Campos Mello (2016, p. 47) elucida com precisão 
a dimensão das mudanças trazidas pelo novo diploma processual, que 
assimila influências dos sistemas europeu e Norte-americano:
O CPC 2015 acolheu categoria muito semelhantes àquelas do direito 
comparado. Determinou, assim, que o teor vinculante do precedente 
corresponderá à tese firmada no julgamento (art. 988, III, IV e 
parágrafo 4º c/c art. 987, parágrafo 2º). Previu, também, que a tese 
não se confunde com os fundamentos da decisão, embora reconheça 
a importância destes para determinar o teor e o alcance daquela. O 
exame sistemático dos vários dispositivos que tratam do assunto 
permite a definição da tese como um conceito assemelhado ao conceito 
de ratio decidendi do commonlaw, ou seja, como uma descrição do 
entendimento jurídico firmado pela corte como premissa necessária 
para a decisão do caso.
4 CONCLUSÃO
A jurisdição constitucional ganhou importância superlativa após a 
Segunda Guerra Mundial e permanece em franca ascensão, sendo possível 
Daniela Gonçalves de Carvalho
Marcus Vinicius de Albuquerque Portella 111
observar uma recente aproximação entre os sistemas do Civil law e do Common 
law, no Brasil e em outros países do mundo, como Itália, EUA, países do Reino 
Unido.
Cada vez mais o sistema Romano-germânico adota a cultura do precedente, 
assim como os sistemas de origem Anglo-saxã vêm incrementando fortemente 
a produção legislativa, positivando importantes direitos. 
Nesse contexto, no Brasil, o Código de Processo Civil de 2015 trouxe 
importantes novidades, estabelecendo de vez os precedentes judiciais como fonte 
de direito e ressaltando a característica de Corte guardiã da Constituição ao STF.
Não sem razão, é possível notar um crescente protagonismo do Poder 
Judiciário, em especial o STF, associado a fatores como o descontentamento 
popular com a classe política, fenômeno bastante evidente no Brasil atual, em 
virtude dos inúmeros casos de corrupção desvelados, o que parece conferir um 
certo papel democrático às Cortes.
REFERÊNCIAS
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MELLO, Patrícia Perrone Campos; BARROSO, Luís Roberto. Trabalhando 
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em: <http://uerjdireitos.com.br/mesa-direitos-fundamentais-e-stf/>. Acesso 
em: 15 set. 2017.
113
O POSICIONAMENTO DA CORTE 
EUROPEIA DE DIREITOS HUMANOS 
SOBRE A VIOLAçãO AO PRINCÍPIO DA 
DURAçãO RAZOÁVEL DO PROCESSO
THE POSITION OF THE EUROPEAN COURT OF HUMAN 
RIGHTS ABOUT THE PRINCIPLE OF REASONABLE 
DURATION OF THE PROCEEDINGS
Denise Oliveira Floriano de Lima
Pós-Graduação lato sensu em Processo Civil em Direito pela Universidade Católica 
de Pernambuco. Pós-Graduação lato sensu em Direito Público pela Universidade 
Anhamguera-Uniderp. Pós-Graduação lato sensu em Direito Constitucional pela 
Faculdade de Direito da Fundação Escola Superior do Ministério Público do Mato 
Grosso. Procuradora Federal. 
SUMÁRIO: Introdução; 1 Da Internacionalização dos 
Direitos Humanos. da Convenção Européia de Direitos 
Humanos; 1.1 A Corte Europeia de Direitos Humanos; 
1.2 Do Procedimento Judicial Para Julgamento das 
Demandas pela Corte Europeia de Direitos Humanos; 
2 Do Poscionamento da Corte Europeia de Direitos 
Humanos Sobre o Princípio da Duração Razoável do 
Processo; 2.1 O Princípio da Duração Razoável do 
Processo; 2.2 Dos Julgamentos da Corte Europeia de 
Direitos Humanos Sobre as Violações do Princípio da 
Razoável Duração do Processo por Parte dos Estados 
Nacionais Europeus; 3 Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 114
RESUMO: O presente artigo aborda o direito à duração razoável 
do processo judicial, através da análise do posicionamento da Corte 
Europeia de Direitos Humanos sobre o tema. Com a internacionalização 
dos direitos humanos na Europa, destacou-se o papel da Corte Europeia 
de Direitos Humanos na proteção desses direitos. Por isso, é relevante 
conhecer o funcionamento e a evolução do procedimento adotado por 
esta Corte em seus julgamentos. Dessa forma, pode-se examinar o 
enfretamento do problema do aumento das demandas pela Corte, de 
modo a preservar o direito à duração razoável do processo, bem como 
melhor avaliar os julgamentos da Corte sobre as violações a esse direito 
por parte dos Estados Nacionais europeus.
PALAVRAS-CHAVE: Duração Razoável do Processo. Direitos Humanos. 
Internacionalização dos Direitos Humanos. Convenção Europeia de 
Direitos Humanos. Corte Europeia de Direitos Humanos. Reformas 
Processuais.
ABSTRACT: The objective of this essay is discussing about the right of 
reasonable duration of judicial process by examining the position of the 
European Court of Human Rights about the subject. As a result of the 
internationalization of human rights in Europe, the role of the European 
Court of Human Rights in protecting these rights was highlighted. 
Therefore, it is relevant to know the organization and the evolution of 
the procedure adopted by this Court in its judgments. In this way, it is 
possible to evaluate the problem of increased demands by the Court in 
order to preserve the right of reasonable length of judicial process, as 
well as to better examine the Court’s judgments about violations of this 
right by the european National States.
KEYWORDS: Reasonable Duration of the Process. Human Rights. 
Internationalization of Human Rights. European Convention on Human 
Rights. European Court of Human Rights. Procedural Reforms.
Denise Oliveira Floriano de Lima 115
INTRODUÇÃO
Um dos grandes problemas do Poder Judiciário é a lentidão e a 
demora em prestar a tutela jurisdicional. 
É inquestionável que o decurso do tempo irrazoável pode causar a 
sua inutilidade e ineficácia da tutela judicial a ser concedida. 
Por isso, os ordenamentos jurídicos internos devem prever 
meios que garantam a celeridade da tramitação do processo, através da 
desburocratização e simplificação dos procedimentos.
Afinal de contas, o direito à prestação efetiva da tutela jurisdicional é 
uma das funções primordiais do Estado Democrático do Direito e corolário 
do direito à dignidade humana.
Ocorre que, na medida em que se amplia o acesso à Justiça, o aumento 
das demandas acarreta, inevitavelmente, dificuldades em conceder uma 
tutela em tempo razoável.
Assim, no âmbito dos Estados Nacionais, apesar da consagração do 
direito à tutela efetiva como direitos fundamentais em seus ordenamentos 
constitucionais, falha-se na garantia da sua efetivação. 
No plano internacional, a questão merece relevo em razão do processo 
de internacionalização dos direitos humanos. 
Ultrapassou-se, assim, a concepção tradicional dos direitos 
fundamentais, em que há um relacionamento binário entre o Estado e o 
indivíduo. Surgiram sistemas regionais de proteção aos direitos humanos.
A Convenção Europeia de Direitos Humanos, na medida em que 
previu garantias de cumprimento das obrigações assumidas pelos Estados 
consignantes, promoveu avanço no tratamento dos direitos humanos.
Dessa forma, diante da falha do ordenamento jurídico dos Estados 
Nacionais em garantir, no plano interno, os direitos inerentes da pessoa 
humana, dá-se uma nova chance às vítimas de buscar a tutela judicial do 
seu direito na esfera supranacional.
Nesse contexto, o presente estudo busca avaliar o tratamento do 
princípio da duração razoável do processo na Corte Europeia de Direitos 
Humanos, considerando que este direito resta previsto no artigo 6º, 
parágrafo primeiro, da Convenção Europeia de Direitos Humanos, in verbis:
Qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada, equitativa 
e publicamente, num prazo razoável por um tribunal independente 
e imparcial, estabelecido pela lei, o qual decidirá, quersobre a 
determinação dos seus direitos e obrigações de carácter civil, quer sobre 
o fundamento de qualquer acusação em matéria penal dirigida contra 
ela. O julgamento deve ser público, mas o acesso à sala de audiências 
Publicações da Escola da AGU 116
pode ser proibido à imprensa ou ao público durante a totalidade ou 
parte do processo, quando a bem da moralidade, da ordem pública ou 
da segurança nacional numa 10 11 sociedade democrática, quando 
os interesses de menores ou a proteção da vida privada das partes no 
processo o exigirem, ou, na medida julgada estritamente necessária pelo 
tribunal, quando, em circunstâncias especiais, a publicidade pudesse 
ser prejudicial para os interesses da justiça. (Grifo nosso).
1 DA INTERNACIONALIzAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS. DA 
CONVENÇÃO EUROPéIA DE DIREITOS HUMANOS
No cenário do direito internacional, a partir da segunda guerra mundial 
e início da Guerra Fria, a proteção jurídica dos direitos humanos passou a 
ser internacionalizada. 
Esse processo de internacionalização dos direitos humanos deflagrou-
se, definitivamente, com a adoção pela Assembleia Geral das Nações Unidas 
da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que apesar de não ter força 
normativa, vinculativa (por não ser um tratado), tem sua relevância política 
e moral. Afinal de contas, sua autoridade histórica confere-lhe o papel de 
apontar valores elementares compartilhados pela comunidade internacional. 
Assim, os direitos ali enunciados impõem-se como diretrizes norteadoras do 
desenvolvimento do direito internacional dos direitos humanos.
A partir desse marco, surgiu um Sistema Universal de Direitos Humanos 
que viria para mudar as relações entre os estados nacionais e os indivíduos. 
Os autores Dimoulis e Leonardo Martins assim sintetizam esse processo:
As principais dimensões da internalização podem ser resumidas da 
seguinte forma: (a) riquíssima produção normativa internacional em 
prol dos direitos humanos (declarações, convenções, pactos, tratados 
etc.); b)crescente interesse das organizações internacionais pelos direitos 
humanos e criação de organizações cuja principal finalidade é promovê-los 
e tutelá-los; (c) criação de mecanismos internacionais de fiscalização de 
possíveis violações e de responsabilização de Estados ou indivíduos que 
cometem tais violações (organização e procedimento); (d) intensa produção 
doutrinária em âmbito internacional, incluindo debates de cunho político 
e filosófico, assim como análises estritamente jurídicas de dogmática geral 
e especial. (DIMOULIS; MARTINS, 2012, p. 27)
Ultrapassou-se, assim, a concepção tradicional dos direitos fundamentais, 
em que há um relacionamento binário entre o Estado e o indivíduo. Surgem, 
sujeitos de direito internacional, como as organizações internacionais. Não é 
Denise Oliveira Floriano de Lima 117
demais ressaltar que, evidentemente, os Estados nacionais ainda mantêm posição 
relevante na proteção dos direitos humanos, tanto que a maioria das violações 
ou limitações aos direitos humanos são resolvidos no âmbito do direito interno. 
A comunidade internacional assistiu, então, ao surgimento de sistemas 
regionais de proteção aos direitos inerentes aos seres humanos. Nesse contexto, 
com o poderio mundial sendo disputado entre as duas grandes potências, os 
Estados Unidos e a antiga União soviética, os Estados europeus passaram a 
buscar uma cooperação entre si, fazendo surgir várias organizações internacionais 
na Europa Ocidental. Dentre elas, foi criado, em 1949, o Conselho da Europa 
que tinha por objetivo a garantia dos direitos humanos, o regime democrático 
e o Estado de Direito. No ano seguinte, os Estados fundadores do Conselho da 
Europa firmaram a Convenção Europeia dos Direitos do Homem e Liberdades 
Fundamentais, com vigência iniciada em 1953, a qual já foi ratificada por quarenta 
e sete Estados europeus.
No decorrer de sua história, a Convenção já foi aditada dezesseis vezes, 
o que retrata a evolução da proteção a que se objetiva.
O destaque desta Convenção residiu no fato de que não foram apenas 
declarados os direitos humanos, mas sobretudo os Estados europeus passaram 
a se submeter à égide de órgãos internacionais supranacionais e independentes 
(a Comissão e a Corte europeias). 
Surgiu, assim, um mecanismo coletivo de proteção aos direitos humanos. 
Ou seja, no âmbito de abrangência do Conselho da Europa, criou-se um sistema 
de garantia de cumprimento das obrigações assumidas pelos Estados-partes. 
Comprovado que um Estado nacional violou os direitos humanos de um 
indivíduo e esgotados os meios de impugnação internos, passou-se a ter um 
poder jurisdicional supranacional para julgar os descumprimentos das obrigações 
previstas na Convenção.
1.1 A Corte Europeia de Direitos Humanos
No texto original da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, 
previu-se a existência de um órgão de investigação e conciliação, a Comissão 
Europeia; um órgão político, com competência decisória residual, o Comitê 
de Ministro; e um órgão judicial de responsabilidade dos Estados, a Corte 
Europeia de Direitos Humanos. Nessa composição estabelecida inicialmente, 
tinha-se um procedimento bifásico. Primeiramente, os indivíduos ou os 
Estados-partes apresentavam suas petições à Comissão, denunciando 
violações de direitos humanos cometidas por um Estado consignatário. 
Após investigação e uma vez inexitosa a tentativa de conciliação, a Comissão 
decidia por: a) arquivar o caso; b) propor uma ação de responsabilidade 
internacional perante a antiga Corte Europeia de Direitos Humanos; ou c) 
Publicações da Escola da AGU 118
adjudicar o caso ao Comitê de Ministros, cuja decisão tinha caráter político, 
tendo, consequentemente, o Estado requerido melhores condições de vitória.
Sobre a natureza jurídica desse primeiro órgão a atuar, a Comissão 
europeia, Andre de Carvalho Ramos explica:
A natureza jurídica da Comissão foi considerada pela doutrina como sendo 
“quase judicial”. Muitos chegaram a compará-la com o papel exercido em 
vários países europeus pelo Ministério Público, já que a Comissão era 
a encarregada da investigação e era titular da ação de responsabilidade 
internacional do Estado perante a antiga Corte Europeia de Direitos 
Humanos. (RAMOS, A.C., 2015, p. 165).
Quanto ao trâmite da demanda neste órgão, descreve: 
Após o procedimento de admissibilidade e a tentativa de conciliação 
caberia á Comissão elaborar um relatório final sobre os fatos apresentados 
e sobre a responsabilidade internacional do Estado requerido, com base 
no artigo 31 da Convenção Europeia de Direitos Humanos. O relatório 
“31” era considerado peça conclusiva de um verdadeiro julgamento de 
órgão internacional, após a fase postulatória, instrutória e conciliatória.
[...]
A falta de força vinculante do Relatório “31” acarretava a necessidade de 
provocação da Corte Europeia ou ainda a adjudicação do caso ao Comitê 
de Ministros, que desempenhava um papel anômalo de julgamento de 
violações de direitos humanos. (RAMOS, A. C., op. cit., 167). 
O vertiginoso aumento das demandas sobre violações de direitos 
humanos e as mudanças ocorridas no cenário geopolítico após a queda do 
muro de Berlim e o ingresso de novos membros da Europa Oriental no 
Conselho da Europa provocaram a necessidade de reforma no sistema, com 
a extinção do sistema bifásico, de modo a evitar a lentidão nos julgamentos. 
Em 1998, com a entrada em vigou do Protocolo nº11, esse órgão foi extinto.
Na verdade, foram fundidas a Comissão Europeia de Direitos 
Humanos e a antiga Corte, criando-se uma nova Corte Europeia de Direitos 
Humanos. A partir dai, as vítimas de violação a direitos humanos passaram 
a ter legitimidade para apresentar, diretamente à Corte, a sua demanda.
Com efeito, passou-se a ter um efetivo acesso à jurisdição 
internacional. Até então, apenas os Estados e a Comissãopodiam 
submeter um caso diretamente à Corte. 
Denise Oliveira Floriano de Lima 119
Para melhor demonstrar o problema da morosidade do sistema anterior, 
basta relatar que, desde o primeiro julgamento da Corte, em 1960, até a 
extinção da Comissão, foram distribuídos para aquele órgão 45.000 petições, 
tendo sido efetivamente julgados pela Corte apenas 837 demandas. 
Com a mencionada reforma, os julgamentos da Corte aumentaram 
bastante, atingindo à marca do julgamento número 10.000, em 2008, dez 
anos após ao Protocolo adicional nº11. 
No entanto, se por um lado o acesso direto à Corte representou um 
incremento no nível de proteção dos direitos humanos, passou-se a ter um 
outro problema, a dificuldade em prestar a jurisdição em prazo razoável. Assim, 
Uma grave crise de efetividade se instalou. A reforma acima referida 
eliminou a Comissão, abandonando o sistema de admissibilidade de 
dois níveis, sem, no entanto, prever instrumentos capazes de enfrentar 
o crescimento exponencial da demanda que sobreviria, ameaçando o 
recém-nascido direito de petição individual e a capacidade da Corte 
de manter a confiança pública (RAMOS, C. F. S., [s.d.]) 
Para enfrentar esta realidade sobreveio, posteriormente, nova reforma 
consubstanciada no Protocolo nº14, que criou um novo procedimento para 
julgamento de Estados consignantes por violação de direitos humanos.
1.2 Do procedimento judicial para julgamento das demandas pela Corte 
Europeia de Direitos Humanos
A respeito da sua composição e funcionamento, a Corte divide-se 
em cinco Seções, compostas por sete juízes. Ressalte-se que há também 
demandas que são julgadas pelo Tribunal Pleno (Grand Chamber), onde 
atuam dezessete juízes.
Com as reformas advindas do Protocolo nº 14 que buscou dar 
efetividade à Convenção com soluções para enfrentar o aumento das demandas 
decorrente tanto da nova possibilidade de acesso direto dos indivíduos à 
Corte, como da adesão de novos Estados nacionais à Convenção, algumas 
alterações procedimentais foram implementadas.
Primeiramente, os processos, que são distribuídos Juiz singular 
(Relator), passaram a sofrer um juízo de admissibilidade monocrático. 
Não declarada a inadmissibilidade pelo Juiz relator, o processo é 
submetido a um Comitê ou a uma Seção para a devida apreciação. Já havendo 
posição pacífica sobre o tema, remete-se ao Comitê composto por três 
juízes, que pode julgar, por unanimidade, quanto ao mérito. No caso de 
não se alcançar a unanimidade, o julgamento é feito pela Seção. Como bem 
observado por André Carvalho:
Publicações da Escola da AGU 120
Assim, o Juiz singular e o Comitê constituem-se em órgãos de filtragem 
(substituindo, com vantagens, a antiga Comissão) para amenizar a preocupação 
com uma explosão de causas que paralisasse a Corte. Os números são 
eloquentes: noventa por cento das petições individuais analisadas em 2010 
foram declaradas inadmissíveis.(RAMOS, A.C., op.cit., 178)
Além disso, como outra medida para responder ao vertiginoso 
crescimento de demandas, o Protocolo nº 14 estabeleceu novo critério de 
admissibilidade (a existência de prejuízo significativo para o reclamante), 
bem como criou novos mecanismos para julgamento de casos repetitivos. 
Tinha ficado claro que, com o acesso direto da vítima, o sistema iria entrar 
em colapso impedindo a prestação de uma tutela efetiva, caso não encontrasse 
uma solução para as demandas repetitivas, as “demandas clones”. 
Além dessas inovações do Protocolo nº14, relevante destacar que os 
julgamentos pela nova Corte Europeia se dão através de um procedimento 
judicial submetido aos princípios do contraditório e da ampla defesa.
Quanto à decisão a ser proferida, esta é de natureza declaratória, pois 
a pretensão submetida a Corte busca o reconhecimento do descumprimento 
do dever de proteção aos direitos humanos. 
Com decisão favorável à vitima, compete ao próprio Estado violador 
definir os mecanismos internos para reparação adequada. Apenas quando o 
Direito Interno não é capaz de reparar o dano, há uma condenação a uma 
satisfação equitativa correspondente a um valor pecuniário. Na verdade, 
nessas circunstancias, é fácil extrair que:
Foi criado um falso comprometimento do Estados europeus com os 
direitos humanos internacionais, pois a sentença da Corte é vinculante 
(artigo 46), porém pode ser substituída por uma “satisfação equitativa” 
(artigo 41) bastando o Estado comunicar que, em face do seu próprio 
Direito, não é possível a cessação do ilícito ou a restituição na íntegra 
à situação anterior à violação. (RAMOS, A. C., op. cit.) 
Diante dessa realidade, apesar da previsão da natureza essencialmente 
declaratória das decisões, novos precedentes surgiram na Corte, no sentido 
de ampliar o poder das suas decisões. Interpretando-se os artigos 41 e 46 e 
em respeito à força normativa da decisão internacional, passou-se a impor o 
dever do Estado condenado de não só cessar a conduta violadora de direitos 
humanos, bem como de restaurar a situação existente antes da violação.
Essa mudança de entendimento, inclusive, é uma forma de induzir 
aos Estados nacionais a mudarem o seu comportamento frente às ameaças 
aos direitos humanos. Pode-se considerar que as situações que geravam 
Denise Oliveira Floriano de Lima 121
as demandas repetitivas decorriam também do fato de que o Estado se 
limitava a pagar a satisfação equitativa (pena pecuniária), postergando a 
adoção de medidas para enfrentar, de forma efetiva, as causas das violações 
dos direitos humanos. 
2 DO POSCIONAMENTO DA CORTE EUROPEIA DE DIREITOS HUMANOS 
SOBRE O PRINCíPIO DA DURAÇÃO RAzOÁVEL DO PROCESSO
2.1 O princípio da duração razoável do processo
Como corolário do princípio do Estado de Direito e do postulado da 
dignidade da pessoa humana, tem-se um direito fundamental à proteção 
judicial efetiva, ou seja, adequada e com razoável duração. 
A efetividade do processo corresponde, necessariamente, a uma 
proteção assegurada em tempo adequado. Afinal de contas, um processo 
judicial com duração desmesurada, excessiva faz com que o direito permaneça 
insatisfeito e danos sejam causados ao seu titular. Ou seja, a demora na 
concessão do provimento requerido pode gerar risco ou a sua inutilidade. 
Por outro lado, a celeridade não deve ser alcançada a qualquer custo. 
Deve haver um equilíbrio entre os valores segurança e celeridade, não 
podendo ser mitigadas as demais garantias processuais do devido processo 
legal. Nesse sentido, explanam Marinoni e Mitidiero:
O direito à duração razoável do processo não constitui e não 
implica direito a processo rápido ou célere. As expressões não são 
sinônimas. A própria ideia de processo já repele a instantaneidade e 
remete ao tempo com algo inerente a fisiologia processual. 
A natureza necessariamente temporal do processo constitui imposição 
democrática, oriunda do direito das partes de nele participarem de 
forma adequada, donde o direito ao contraditório e os demais direitos 
que confluem para organização do processo justo ceifam qualquer 
possibilidade de compreensão do direito ao processo com duração 
razoável simplesmente como direito a um processo célere.(MARINONI, 
2012, 678).
No sistema jurídico internacional europeu, o princípio da duração 
razoável do processo está consagrado na Convenção de Direitos Humanos, 
no seu art. 6º, parágrafo primeiro, que trata do processo equitativo. Ali 
foram previstas as garantias de um processo efetivo: o juiz natural, a 
imparcialidade do julgamento, a publicidade, o procedimento legítimo e 
a duração adequada.
Publicações da Escola da AGU 122
2.2 Dos julgamentos da Corte Europeia de Direitos Humanos sobre as 
violações do princípio da razoável duração do processo por parte dos 
Estados Nacionais europeus 
Por força do aludido art. 6º da Convenção Europeia de Direitos 
Humanos, a jurisprudênciada Corte Europeia tem estabelecido critérios 
para a observância da duração razoável do processo.
A apreciação, no caso concreto, tem sido feita de acordo com 
as circunstâncias da causa, a complexidade das questões envolvidas, o 
comportamento das partes e das autoridades competentes e a natureza 
do litígio para os interessados.
A responsabilização ocorre quando observada a desídia, falta de 
diligência por parte de autoridades nacionais, dentre eles, o juiz ou até 
auxiliares da justiça. No caso dos juízes, revela-se justificada apenas a 
demora em julgamentos sobre questões de complexidade, que lhe demande 
uma apuração mais pormenorizada. 
Ademais, considera-se que incumbe ao Estado organizar um sistema 
judiciário capaz de promover julgamentos com uma razoável duração do 
processo. 
Em regra, a Corte, no que tange a esse ponto, entende que: a) o Estado 
deve organizar seu sistema judiciário de modo que a sua jurisdição possa 
assegurar a cada um o direito de obter uma decisão definitiva sobre uma 
ação relativa a direitos e obrigações de caráter civil dentro de um prazo 
razoável; b) uma sobrecarga crônica de trabalho não é motivo legítimo 
para a demora excessiva na prestação jurisdicional; c) por outro lado, um 
estrangulamento passageiro do serviço, não faz surgir a responsabilidade 
do Estado, se ele toma, com a devida prontidão, as medidas necessárias à 
solução do problema; incumbe ao juiz, entendido em sentido lato, de modo 
a abranger até o tribunal constitucional, assegurar o andamento célere do 
processo (COUR EUROPÉENNE DE DROITS DE L’HOMME, 2013e). 
(RAMOS, C.F.S., op. cit.)
Nesse trilhar, a Corte Europeia tem reconhecido a responsabilidade 
dos Estados nacionais em razão da organização e funcionamento da sua 
Justiça. Para a Corte, a falta de recurso não é justificativa para a ausência 
de meios jurídicos e judiciários que permitam a duração razoável do 
processo. Por isso, 
é possível perceber os esforços dispendidos pelos Estados membros, 
por meio de uma regular atuação legislativa, no intuito de confeccionar 
Denise Oliveira Floriano de Lima 123
meios capazes de tornar seus respectivos processos internos mais 
céleres, por ora tornando os prazos processuais peremptórios, ora 
fixando requisitos que devem guiar as decisões relativas ao tempo 
das demandas. (POLIS, [s.d.]).
Mesmo assim, impressionam os números de recursos à Corte 
Europeia sob a alegação de violação do princípio da duração razoável do 
processo, sendo recorrentes as condenações.
[...] os dados mostram que aproximadamente metade de todos os 
julgamentos da Corte por violação à Convenção incluía desrespeito ao 
artigo 6º, seja por questão de justiça no julgamento, seja por demora 
do procedimento (EUROPEAN COURT OF HUMAN RIGHTS, 
2013a). No mesmo sentido, verifica-se que de um total de 15.947 
julgamentos feitos pela Corte de 1959 a 2012, 5.037 referiam-se 
à demora no procedimento (EUROPEAN COURT OF HUMAN 
RIGHTS, 2013b). (RAMOS, C. F. S., op. cit.)
Frise-se que os Estados são condenados por violação à garantia 
da duração razoável do processo mesmo sem que seja abordada a questão 
de fundo. Assim, por exemplo, a França já foi condenada pela demora no 
julgamento de casos envolvendo tortura e maus tratos, sem que fosse 
apreciado o efetivo cometimento da tortura.
3 CONCLUSÃO
No plano internacional, os direitos humanos desenvolveram-se 
justamente para promover a proteção do indivíduo diante da falha 
do Estado em cumprir tal dever. A internacionalização dos direitos 
humanos teve por fim ultrapassar a concepção tradicional de direitos 
fundamentais, em que há uma relação binária entre o Estado nacional 
e o indivíduo.
Por isso, a proteção internacional aos direitos humanos exige 
o esgotamento dos recursos internos. A jurisdição internacional é, 
portanto, subsidiária, tendo por escopo conceder mais uma chance de 
proteção dos direitos humanos ao indivíduo ignorado no plano interno.
Nesse contexto, os Estados europeus, após a Segunda Guerra 
Mundial, firmaram a Convenção Europeia dos Direitos do Homem e 
Liberdades Fundamentais.
 Dentre os direitos humanos consagrados pela Convenção Europeia, 
tem-se o princípio da duração razoável do processo. Afinal de contas, a 
Publicações da Escola da AGU 124
submissão de um indivíduo a um processo judicial indefinido, sem uma 
duração razoável, atenta contra o princípio da tutela judicial efetiva e fere 
o princípio da dignidade da pessoa humana.
Não há dúvida, a demora na concessão da tutela judicial pode causar a 
sua inutilidade e ineficácia. Em razão disso, os ordenamentos jurídicos devem 
prever meios que garantam a celeridade da tramitação do processo, através da 
desburocratização e simplificação dos procedimentos. A maioria dos Estados 
nacionais, porém, falham na efetivação do direito à duração razoável do processo.
Ao analisar o sistema de julgamento da Corte Europeia e a evolução do 
procedimento por ela adotado, fica demonstrado que reformas procedimentais 
são fundamentais, quando há ameaça à garantia da tutela efetiva. Nesse 
sentido, o Protocolo nº 11 e o Protocolo nº 14 que aditaram o texto original 
da Convenção Europeia consubstanciam mecanismos para evitar a demora 
nos julgamentos da Corte.
Primeiro, reconhecendo que o seu procedimento de responsabilidade 
internacional do Estado no sistema europeu era moroso, sobreveio o Protocolo 
nº11, com a consequente extinção do sistema bifásico até então vigente. Com essa 
reforma, as vítimas de violação a direitos humanos passaram a ter legitimidade 
para apresentar, diretamente à Corte, a sua demanda.
Posteriormente, para enfrentar o aumento das demandas decorrente 
tanto da nova possibilidade de acesso direto dos indivíduos à Corte, como da 
adesão de novos Estados nacionais à Convenção Europeia, algumas alterações 
procedimentais foram implementadas pelo Protocolo nº 14. Dentre as mudanças, 
surgiu o juízo de admissibilidade monocrático feito por um juiz singular e 
criaram-se novos mecanismos para julgamento de casos repetitivos.
Como se vê, ao incrementar o acesso à justiça, provocando-se um 
aumento de demandas, deve-se valer de mecanismos a fim de evitar prejuízo 
da concessão da tutela efetiva.
Por fim, constatou-se que, no escopo de consagrar os direitos humanos 
através de uma tutela efetiva, a Corte Europeia evoluiu sua posição tradicional 
de proferir decisões meramente declaratórias. Com a mudança, passou a 
buscar alterações estruturais dos ordenamentos internos, de modo a provocar 
o enfrentamento real das causas das violações dos direitos humanos. 
REFERÊNCIAS
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4. ed. revisada, atualizada e ampliada, São Paulo: Atlas, 2012.
IWAKURA, Christiane Rodrigues. Celeridade e urgência: duração razoável do 
processo, filtros recursais.
Denise Oliveira Floriano de Lima 125
LENZA, Pedro. Direito Constitucional esquematizado. 18. ed. revisada, atualizada 
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MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito 
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MENDES, Gilmar Ferreira; COELHO, Inocêncio Mártires; BRANCO, Paulo 
Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional. 4. ed. revisada e atualizada, São 
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______. Teoria Geral dos Direitos Humanos. 5. ed. São Paulo: Saraiva,2015.
RAMOS, Carlos Fernando Silva. A afirmação do direito à razoável duração do 
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SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais 
na Constituição Federal de 1988. 9. ed. revisada e atualizada. 2. tiragem, Porto 
Alegre: Livraria do Advogado, 2012.
127
O “RULE OF LAW” NO ESTADO ISLÂMICO: 
“SHARIA” 
ISLAMIC STATE’S RULE OF LAW: ‘SHARIA’
Diego Calandrelli
Procurador Federal, responsável pelo Núcleo Previdenciário no Escritório Avançado 
de Foz do Iguaçu/PR, da Procuradoria Seccional de Cascavel/PR. Ex-Procurador 
Municipal. Especialista em Direito Civil
SUMÁRIO: Introdução; 1 Do conceito de estado de 
Direito “Ocidental”; 2 Do conceito de “rule of law” no 
Estado Islã – “Sharia”; 3 Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 128
RESUMO: Este ensaio pretende discutir o Estado de Direito, o famoso 
“rule of law”. Desde o advento do Estado Liberal até o Estado Social 
e Democrático, desenvolveu-se uma teoria segura quanto ao alcance 
do termo “Estado de Direito”, com pilares no constitucionalismo, na 
laicidade do Estado e na separação de poderes. Já nos Estados Árabes, 
a sua ligação com a figura da religião é muito mais forte, a ponto de, 
muitas vezes, tornar-se centro de convergência das decisões políticas 
estatais. A “Sharia”, ordem fundada desde o profeta Muhammad, envolve 
mais do que apenas um modo de vida religiosa; traduz-se, sim, em uma 
forma de viver do povo e uma maneira de se pensar o próprio Estado 
Islâmico.
PALAVRAS-CHAVE: Estado de Direito. Estado Islâmico. Direito 
Constitucional. “Sharia”.
ABSTRACT: This study aims to discuss the concept of rule of law, 
from Liberal to Social-Democratic State. Nowadays we can describe 
what the concept of rule of law is, the importance of constitutionalism, 
secularism and the check of balance doctrine. Although, in Arab States, 
we cannot separate easily State and religion (especially Islam); their elo 
is firmly held. In Addiction, Islam has become an important issue to 
take Islamic State’ decisions. “Sharia”, founded by prophet Muhammad, 
has been not only a religion for them, or a regard of how they live deem 
the rule in their lives; it has been a formula to think the concept of 
Islamic State.
KEYWORDS: Rule of Law. Islamic State. Constitutional Law. ‘Sharia’.
Diego Calandrelli 129
INTRODUÇÃO
Pode–se afirmar que o conceito de Estado de Direito é uniforme 
em todo o globo? 
Justamente este é o ponto deste trabalho. Demonstrar que o conceito 
de “rule of law” pode ter outras significações, que não apenas aquela 
cunhada pelo pensamento ocidental. 
No Estado “Ocidental”, a produção jurídica centra-se no conceito de 
Estado de Direito, da observância da Constituição e das leis, com completa 
submissão de todos os poderes estatais a ordem vigente. Em uma análise 
singela (e meramente provocativa), portanto, o intérprete foca bastante 
sua análise da norma examinanda e no Ordenamento Jurídico vigente, 
principalmente, na norma constitucional. 
No Brasil, o exemplo cotidiano do império da lei encontra-se 
no direito administrativo: a norma vinda do Poder Legislativo, com 
generalidade, abstração e fruto da vontade geral (art. 37, da CF/881). A 
atuação do administrador, portanto, deve ser somente infralegal2 para 
atingir o interesse público.
Agora, nos Estados Islâmicos3, como se verá nos tópicos seguintes, 
ganha enorme relevo não apenas a lei, mas também a “Sharia”, fruto da 
incorporação das normas do Islã no próprio Estado. Desse ponto já se 
vê que, ao contrário dos Estados aqui denominados “Ocidentais”, há um 
componente adicional: a religião. Por isso, o conceito de Estado de Direito 
também deve divergir.
1 DO CONCEITO DE ESTADO DE DIREITO “OCIDENTAL”
Para se analisar o Estado de Direto à luz do direito islâmico, faz-se 
necessário que se defina o que consiste o “rule of law” ocidental.
Ainda que a expressão “Estado de Direito” tenha sido deturpada, como 
ocorreu no “Rechtsstaat nazista” – em que direitos e garantias individuais 
foram suprimidos4 -, utilizar-se-á aqui justamente no seu sentido puro, 
original, qual seja, o direito para evitar arbitrariedades, com um máximo 
de respeito à Constituição e à lei. Nasce o conceito a partir das Revoluções 
1 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 26 set. 2017.
2 JUSTEN FILHO, Marçal. Curso de Direito Administrativo. 11. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. p. 206. 
3 A referência a “Estado Islâmico” para fins deste trabalho limitar-se-á ao direito constitucional, ou seja, aos 
Estados geralmente constitucionais, que adotam dentre as normas constitucionais, os ideais da “Sharia”. 
Não tem qualquer relação com o EI, ou seja, o Estado Islâmico fundado pelo líder Abu Bark Al-Baghdadi, 
nem com o grupo terrorista que proclama a Guerra Santa, a “Jihad ”. 
4 AFONSO DA SILVA, José. Curso de Direito Constitucional Positivo. 39. ed. São Paulo: Malheiros, 2016. p. 115.
Publicações da Escola da AGU 130
Liberais Burguesas dos séculos XVIII e XIX, em contraponto ao Estado 
Absolutista, de forma a submeter o soberano às regras previstas nas leis, 
limitando, inclusive, a sua política administrativa.
Como bem alertado por Jorge Miranda5, é equivocado afirmar que 
no Estado Absolutista (subdividido pelo Professor Português em Estado 
Absolutista, fundado no poder divino, e Estado de Polícia, no Iluminismo) 
não tinham leis ou que o soberano não as seguissem. A verdade é que eram 
poucas, esparsas e muitas vezes não escritas, o que dava grande margem de 
manobra aos monarcas e príncipes, principalmente pela máxima “princeps 
legibus solutus”, ou seja, de que o soberano estava sujeito apenas às leis 
divinas, naturais e as fundamentais do reino6. 
Instauradas as Revoluções Americana e Francesa, respectivamente, 
com a edição da “Virgina Declaration of Rights” e a Declaração dos Direitos 
do Homem e do Cidadão, inaugura-se um novo modelo, o Estado Liberal. 
Aliados aos estudos de Kant, Locke, Montesquieu e Rosseau7, funda-se 
o chamado “Stato di Diritto”, “Estado de Derecho” ou Estado de Direito, 
traduzido da expressão alemã “Rechtsstaat”, cunhada pela primeira vez por 
Johann Willhelm Placidus, em 17988. 
No direito inglês, tem-se o “Rule of law” ou “The Reign of Law”, cunhado 
nos Estados Unidos, que, ainda que não tenham uma única significação 
jurídica (até por foça da tradição da “common law” nesses países), possuem no 
seu íntimo o âmbito exegético do sistema de limitação legal do poder estatal9.
Em síntese, portanto, o Estado de Direito buscou os seguintes 
pontos principais10:
a) supremacia da Constituição;
b) tripartição de poderes;
c) submissão do Estado à lei; e
5 MIRANDA, Jorge. Manual de Direito Constitucional. 6. ed. Coimbra: Coimbra, 1997. p. 79-81.
6 BOBBIO, Norberto. 2000, p. 18.
7 MENDES, Gilmar; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 9. ed. São Paulo: 
Saraiva, 2014. p. 103-105.
8 FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Princípio Fundamentais de Direito Constitucional: o estado da questão 
no início do século XXI, em face do direito comparado e, particularmente, do direito positivo brasileiro. 4. 
ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 190.
9 CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 5. ed. Almedina, 2003. p. 93-95. 
10 SUNDFELD, Carlos Ari. Fundamentos de Direito Público. 4. ed. São Paulo: Malheiros, 2000. p. 39-40. 
Diego Calandrelli 131
d) fixação de direitos e garantias individuais, pela transformação 
do direito natural em norma constitucional.
Com a virada ao século XX,o conceito de Constituição Liberal perde 
a credibilidade para resolver problemas jurídicos, sociais e econômicos11. O 
surgimento de regimes autoritários e totalitários, emancipação de povos 
coloniais, a passagem do liberalismo para o Estado intervencionista, sem 
deixar de citar também o advento da defesa internacional de direitos 
humanos, colocaram em xeque o Estado de Direito. 
Daí surge o Estado Social como modelo desenvolvido do Estado 
de Direito (ou, nas palavras de Jorge Miranda, a “segunda fase do Estado 
Constitucional”) em que o interesse é o desenvolvimento de direitos sociais, 
de trazer à tona a igualdade social (e não apenas formal), bem como, pois, 
permitir a segurança social12. Deste conceito desenvolvido ganharam 
relevância como direitos fundamentais não apenas os individuais, mas, 
também os direitos à saúde, à educação e à Previdência Social.
Finalmente, em nova evolução, ter-se-á o Estado Democrático de 
Direito que, conforme bem ensina Canotilho13, incorpora-se a “liberdade 
positiva”, ou seja, a ligada ao exercício democrático do poder pelo povo, 
pelos cidadãos. Nesse plano, por exemplo, o art. 1º, Parágrafo Único, da 
Constituição Federal de 1988. 
Sem abandonar a ideia dos direitos fundamentais, individuais e 
sociais, incorpora-se ao Estado Democrático de Direito a famosa “regra da 
maioria”, em que se ganha interesse a alternância do poder e o vencimento 
das antíteses econômicas e sociais14 pela vontade do povo, seja por meio 
de uma democracia representativa, seja pelo exercício real de voto.
Afirmam expressamente em suas Constituições como Estado 
Democrático de Direito, por exemplo, o Brasil (art. 1º, da CF/88); a Itália 
(art. 1º15); a Espanha (art. 1º, n.º 116) e Portugal (art. 2º17). 
11 MIRANDA, op. cit., p. 90-97.
12 HESSE, Konrad. Elementos de Direito Constitucional da República Federativa da Alemanha. Tradução de Luís 
Afonso Heck. Porto Alegre, 1998. p. 173-177.
13 CANOTILHO, op. cit., p. 97-100.
14 STRECK, Lenio L.; MORAIS, José Luiz Bolzan de. Estado Democrático de Direito. In: CANOTILHO, J. 
J. Gomes; MENDES, Gilmar F.; SARLET, Ingo W.; _ (Coords.). Comentários à Constituição do Brasil. São 
Paulo: Saraiva, 2013. p. 114.
15 ITALIA. Constituzione della Repubblica Italiana. Disponível em: <https://www.senato.it/documenti/
repository/istituzione/costituzione.pdf>. Acesso em: 26 set. 2017.
16 ESPAÑA. Constitución Española. Disponível em: <http://www.congreso.es/consti/constitucion/indice/
index.htm>. Acesso em: 26 set. 2017.
17 PORTUGAL. Constituição da República Portuguesa. Disponível em: <http://www.parlamento.pt/Legislacao/
Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx>. Acesso em: 26 set. 2017.
Publicações da Escola da AGU 132
2 DO CONCEITO DE “RULE OF LAw” NO ESTADO ISLÃ – “SHARIA”
De início, no período pré-Islâmico, reinavam tribos pagãs na região 
da Arábia (considerada a terra onde se desenvolveram os descendentes de 
Sem, filho de Noé), inclusive, com práticas e cultos politeístas. Por se tratar 
originalmente de um regime tribal, sua proteção jurídica também estava 
restrita às pessoas que pertenciam àquele clã, com grande preponderância 
de relações hereditárias, com regimes penais próprios, mormente, baseados 
em compensações (vingança mediante a “tar’r” em casos de homicídios) 
ou a pagamentos18 (que às vezes, por exemplo, podiam chegar a débitos 
mensurados em até cem camelos19).
Com a vinda da reforma religiosa promovida por Muhammad em 
Meca, – que, segundo a história, recebeu a mensagem de Deus pelo anjo 
Gabriel por volta de 610 d.c. - um novo sistema religioso foi implantado 
na comunidade dos mulçumanos, atraindo a concepção monoteísta de 
adoração20, já anteriormente inaugurada por Abraão, personagem de 
destaque também na Bíblia Católica e na Torá Judaica. 
Baseada, agora, não mais em uma tradição de “ jus sanguinis”, tinha 
como ponto principal a figura dos fiéis que, crentes em Allah, - o grande 
legislador (Alcorão, Surata 59:22-2421) - formariam a verdadeira “umma”, ou 
seja, uma comunidade universal do Islã, sem limites nacionais ou territoriais22.
Esse dever inicialmente religioso e que depois se tornou ético e jurídico 
denomina-se Sharia e prescreve, enfim, obrigações rígidas, morais, espirituais, 
bem como sociais e até normas reais e penais23, divididas em cinco categorias 
de condutas: obrigatórias, proibidas, aconselháveis, condenáveis e lícitas. 
A Sharia, como um verdadeiro código de normas do Islã, foi dirigida 
inicialmente a regular a religião e a vida do fiel, posterirormente vindo a 
fazer parte da própria máquina estatal. Pela própria definição de Islã, ou seja, 
“submissão”, suas bases estão na crença em Allah (Alcorão, 1:1-6; 112:1-4), nos 
18 SCHACHT, Joseph. An introduction to Islamic Law. Oxford, 1964. p. 6-7.
19 SOBOTTA, Johannes. O Islã e o direito islâmico. São Leopoldo: UNISINOS, 1987. p. 101.
20 Interessante notar que o islã enaltece a figura e os passos de Abraão, considerado também patriarca das 
religiões cristã (Gênesis 12:1) e judaica (Bereishit 16:5).
21 ALCORãO SAGRADO. Os significados dos versículos do Alcorão sagrado. Tradução de Samir el Hayek. São 
Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil. p. 460. 
22 XXIII – Direito de Liberdade de Movimento e de Moradia
 a. Considerando o fato de que o Mundo do Islam é verdadeiramente a Ummah Islâmica, todo muçulmano 
terá o direito de se mover livremente dentro e fora de qualquer país muçulmano. (Declaração Islâmica 
Universal dos Direitos Humanos). Disponível em: <http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/
Documentos-n%C3%A3o-Inseridos-nas-Delibera%C3%A7%C3%B5es-da-ONU/declaracao-islamica-
universal-dos-direitos-humanos-1981.html>. Acesso em: 20 set. 2017.
23 MORêZ, Francielli. Introdução ao Direito Islâmico: evolução histórica, aspectos dogmáticos e elementos de 
inserção social. Curitiba: Juruá, 2011. p. 115-116.
Diego Calandrelli 133
seus anjos, nos profetas24, bem como na sabedoria, na doutrina, na feitura 
dos rituais e da interpretação da lei. Visa regulamentar o relacionamento 
entre Deus e suas criaturas, inclusive, como modelo de orientação de uma 
sociedade justa, por meio de uma conduta humana decente25 (por exemplo, 
cite-se Alcorão, 06:151-153) e um sistema econômico equitativo.
Como dito, a Sharia evoluiu da mera concepção de regulamentação 
da vida religiosa da sociedade para incorporar-se também à política e ao 
direito (“ fiqh” - jurisprudência islâmica), tendo hoje aplicação bem ampla, 
ora a pontuar regras privatistas, como contratos e direito sucessório, ora 
disciplina normas de direito administrativo e até militar26. 
No campo do direito constitucional, mais especificamente, muitos países 
islâmicos em razão da sua importância incorporaram-na expressamente em 
suas Constituições. São os casos, por exemplo, de Egito (art. 2º, Constituição 
de 2014); Emirados Árabes Unidos (art. 7º, Constituição de 1971); Kuwait 
(art. 2º, Constituição de 1962); Marrocos (ar. 3º, Constituição de 2011); Síria 
(art. 3º, Constituição de 2012) e Iraque (art. 1º, Constituição de 2005). 
Lógico, não há uma uniformidade em todos os Estados Islâmicos na 
forma de exercício do poder político (Monarquia ou República) ou sistemas 
de governo (presidencialismo ou parlamentarismo), havendo até alguns 
países que seguem o regime socialista (Vietnã, art. 1º, da Constituição27). 
Da mesma forma, também não há uma uniformidade na questão de qual 
“status” a Sharia recebe no âmbito estatal. 
No Reino da Arábia Saudita, a título de ilustração, a “Basic Law of 
Governance”28 adota a Sharia nos princípios e a admite como fórmula de 
integração pela equidade:
Chapter One: General Principles
Article 1: The Kingdom of Saudi Arabia is a sovereign Arab Islamic 
State. Its religion is Islam. Its constitution is Almighty God’s Book, 
The Holy Qur’an, and the Sunna (Traditions) ofthe Prophet (PBUH). 
24 São profetas para o Islã: Adão, Noé, Abraão, Ismael, Isaac, Jacó, José, Moisés, Abraão, Davi, Salomão, Elias, 
Jonas, João Batista, Jesus Cristo e Muhammad. (Compreenda o Islam e os Muçulmanos. Departamento 
Islâmico da Embaixada de Arábia Saudita, Washington DC. Disponível em: <http://www.fambras.org.br/
media/5608077fca5aa.pdf>. Acesso em: 06 out. 2017. p. 5-7). 
25 AL-TUM, Muhammad yahia. Você pergunta e o Alcorão responde. Disponível em: <http://www.fambras.org.
br/media/560807d3df03a.pdf>. Acesso em: 06 out. 2017. p. 10-11
26 SOBOTTA, op. cit., p. 115-116.
27 VIETNAM. Constitution of Socialist Republic of Vietnam. Disponível em: <https://www.constituteproject.
org/constitution/Socialist_Republic_of_Vietnam_2013?lang=en>. Acesso em: 05 out. 2017.
28 SAUDI ARABIA. Basic Law of Governance. Disponível em: <https://www.saudiembassy.net/basic-law-
governance>. Acesso em: 14 set. 2017.
Publicações da Escola da AGU 134
Arabic is the language of the Kingdom. The City of Riyadh is the 
capital
[…]
Article 7: Government in the Kingdom of Saudi Arabia derives its 
authority from the Book of God and the Sunna of the Prophet (PBUH), 
which are the ultimate sources of reference for this Law and the other 
laws of the State.
Article 8: Governance in the Kingdom of Saudi Arabia is based on justice, 
shura (consultation) and equality according to Islamic Sharia. (grifos do 
autor)
Já na República Islâmica do Irã, as leis estatais das principais áreas do 
direito não podem romper com o Islã29. De forma semelhante, na República 
Federal da Somália, a norma constitucional provisória não permite leis 
que sequer contrariem a Sharia, conforme tradução não-oficial em inglês 
de seu art. 2º30: 
Article 2. State and Religion
1. Islam is the religion of the State.
2. No religion other than Islam can be propagated in the country.
3. No law which is not compliant with the general principles of Shari’ah 
can be enacted. (grifos do autor)
Ainda no campo exemplificativo, há Constituições Islâmicas que 
limitam o exercício religioso das minorias, como a do Irã (art. 1331). De 
outra banda, ao alinho ao item XIII, da Declaração Islâmica Universal 
29 Article 4 All civil, penal, financial, economic, administrative, cultural, military, political, and other laws 
and regulations must be based on Islamic criteria. This principle applies absolutely and generally to all 
articles of the Constitution as well as to all other laws and regulations, and the fuqaha’ of the Guardian 
Council are judges in this matter. (Iran. Constitution of Islamic Republic of Iran. Disponível em: <https://
www.constituteproject.org/constitution/Iran_1989?lang=en>. Acesso em: 23 set. 2017.)
30 SOMALIA. Provisional Constitution of the Federal Republic of Somalia. Disponível em: <https://www.
constituteproject.org/constitution/Somalia_2012?lang=en>. Acesso em: 20 set. 2017.
 Traduções verossimilhantes da Constituição Provisória da Somália são encontradas também em: 
 _. Disponível em: <http://www.wipo.int/wipolex/en/text.jsp?file_id=324354>. Acesso em: 23 set. 2017.
 _. Disponível em: <http://www.constitutionnet.org/sites/default/files/adopted_constitution_eng_final_
for_printing_19sept12_-_1.pdf>. Acesso em: 23 set. 2017.
31 Article 13
 Zoroastrian, Jewish, and Christian Iranians are the only recognized religious minorities, who, within the 
limits of the law, are free to perform their religious rites and ceremonies, and to act according to their 
own canon in matters of personal affairs and religious education. (IRAN. Constitution of Islam Repubic 
Diego Calandrelli 135
dos Direitos Humanos de 1981, outras permitem a prática livre de outras 
religiões32, como, por exemplo, a Síria (art. 3º); o Líbano (art. 9º), o Kuwait 
(art. 35) e Egito (art. 64).
Pois bem. Quanto ao objeto deste trabalho, a doutrina competente 
defende que os Estados Islâmicos possuem a máxima do “rule of law”. Mas, 
obviamente, não na versão familiar aos Estados Constitucionais Ocidentais, 
em que se visa, em um debate jurídico, ao respeito à Carta Magna, à lei e 
à proteção dos direitos e garantias fundamentais33. 
Ainda que se possa questionar no Ocidente quais direitos e garantias 
possam ser postos como fundamentais, o Estado de Direito preserva-os 
não como fruto de uma exegese religiosa, mas, sim, com base na norma 
nacional e supranacional. Se houve um ponto de vista religioso, ainda que 
a princípio argumentativo, este é na atualidade seguramente minoritário 
frente ao arcabouço teórico de índole notoriamente jurídica, com forte 
apelo à origem racional do Estado, implícito no próprio surgimento pelas 
Revoluções Liberais. Sem medo do efeito pleonástico, para o mundo 
ocidental, o Estado nasce e é regulado pelo próprio Estado, guardando 
imaculada a tripartição de poderes.
A dicotomia Estado e religião é tão importante aos Estados Ocidentais 
que, por exemplo, no Brasil, há norma expressa nesse sentido (art. 19, da 
Constituição Federal de 198834). Normas semelhantes são encontradas 
nas Constituições dos Estados Unidos da América (1ª Emenda35), da Itália 
(art. 7º36), de Portugal (art. 41º, n.º 437), da Espanha (art. 16, n.º 138) e do 
Paraguai (art. 2439).
of Iran. Disponível em: < https://www.constituteproject.org/constitution/Iran_1989?lang=en>. Acesso 
em: 27 set. 2017.)
32 AED, Saleh Ibn Hussein el. Tradução de Sheikh Ali M. Abdune. MANCILHA, Soraia C. (Adapt.). O direito 
dos não-muçulmanos sob um governo Islâmico. Wamy. p. 23.
33 FLORENZANO, Damiano; BORGONOVO RE, Donata; CORTESE, Fulvio. Diritti Inviolabili, doveri di 
solidarietà e principio di eguaglianza: un’introduzione. Torino: G. Giappichelli Editore, 2015. p. 10-11.
34 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 26 set. 2017.
35 United States OF AMERICA. Constitution of the United States. Disponível em: <https://www.senate.gov/
civics/constitution_item/constitution.htm>. Acesso em: 26 set. 2017.
36 ITALIA. Constituzione della Repubblica Italiana. Disponível em: <https://www.senato.it/documenti/
repository/istituzione/costituzione.pdf>. Acesso em: 26 set. 2017.
37 PORTUGAL. Constituição da República Portuguesa. Disponível em: <http://www.parlamento.pt/Legislacao/
Paginas/ConstituicaoRepublicaPortuguesa.aspx>. Acesso em: 26 set. 2017.
38 ESPAÑA. Constitución Española. Disponível em: <http://www.congreso.es/consti/constitucion/indice/
index.htm>. Acesso em: 26 set. 2017.
39 PARAGUAy. Constitución de la República de Paraguay. Disponível em: <http://jme.gov.py/transito/leyes/1992.
html>. Acesso em: 26 set. 2017.
Publicações da Escola da AGU 136
De outra banda, o “rule of law” do Estado Islâmico tem enorme 
inspiração religiosa, principalmente, da Sharia, que regula, senão de 
forma normativa (inclusive, muitas vezes, com base constitucional), faz 
de maneira cultural, reflexiva, pela importância do conceito da “umma” 
e do respeito à religião. A par do quanto exposto, interessante expor os 
ensinamentos de Papa e Ascanio40, quanto à importância da incorporação 
da Sharia nas Cartas Constitucionais Islâmicas:
Sotto il profilo politico, infine, l’inserimento delle disposizioni 
costituzionali che atribuiscono valore normativo alla shari’a ha 
constituito spesso per i governanti un mezzo per recuperare, 
strumentalizzare l’islam e controbilanciare l’insorgenza dell’opposizione 
islamita attraverso la promozione di un islam ufficiale. Si trata tuttavia 
di un’arma a doppio taglio, poiché i movimenti islamici radicali invocano 
essi stessi questa referenza costituzionale, per fondare la propria 
contestazione del poter e richiedere che la pratiche governative siano 
modellate in conformità com gli obblighi costituzionali dello Stato. [...]
L’ancoraggio all’islam e alla suatradizione giuridica in ina Costituzione 
implica, perlomeno, un preciso obbligo da parte del potere politico 
a non mettersi in contrasto in maniera eclatante con i principi e le 
regole dell’islam.
É verdade que a assunção da Sharia como um valor supraconstitucional 
não é regra: em exemplo, dite-se novamente a Somália que reconhece 
imperativo da Sharia sobre a própria Constituição (art. 4º, n.º 141). Tampouco 
a existência de órgãos com função de verificar se as normas postas estão 
40 PAPA, Massimo; ASCANIO, Lorenzo. Shari’a: la legge sacra dell’islam. Bologna: dal Mulino, edição Kindle, 
2014. cap. 6.
41 Article 4. Supremacy of the Constitution
 1. After the Shari’ah, the Constitution of the Federal Republic of Somalia is the supreme law of the country. 
It binds the government and guides policy initiatives and decisions in all departments of government. 
(SOMALIA. Provisional Constitution of the Federal Republic of Somalia. Disponível em: <https://www.
constituteproject.org/constitution/Somalia_2012?lang=en>. Acesso em: 20 set. 2017.)
Diego Calandrelli 137
em consonância com o Islã: como o Irã (arts. 72 e 96, da Constituição42) 
ou o Paquistão (art. 203D, n.º 1, da Constituição43).
Entretanto, a Sharia tem efeitos mais consistentes na 
regulamentação da vida do muçulmano, na exigência da oração, do jejum, 
da peregrinação, da contribuição ou esmola44, nos direitos pessoais, 
matrimoniais e sucessórios45. De fato, a leitura dos direitos humanos 
para o Islã é feita de fórmula diversa da Ocidental: a título de exemplo, 
o respeito à pessoa humana está ligado não apenas à exegese nacional 
ou supranacional, mas, principalmente, à concepção religiosa de homem, 
indivíduo que deve ser respeitado e preservado, pois, afinal, foi criado 
por Allah (Alcorão 17:7046; 20:11647). Vide a Introdução da Declaração 
Islâmica Universal dos Direitos Humanos.
Daí, repita-se, a exigência do Estado Islâmico de respeitar as 
normas da Sharia, ou, ainda, de ao menos não editar leis que a contrariem 
frontalmente48. 
42 Article 72
 The Islamic Consultative Assembly cannot enact laws contrary to the usul and ahkam of the official religion 
of the country or to the Constitution. It is the duty of the Guardian Council to determine whether a violation 
has occurred, in accordance with Article 96. 
 […]
 Article 96
 The determination of compatibility of the legislation passed by the Islamic Consultative Assembly with the 
laws of Islam rests with the majority vote of the fuqaha’ on the Guardian Council; and the determination 
of its compatibility with the Constitution rests with the majority of all the members of the Guardian 
Council. (IRAN. Constitution of Islam Repubic of Iran. Disponível em: <https://www.constituteproject.
org/constitution/Iran_1989?lang=en>. Acesso em: 27 set. 2017.)
43 203D. Powers, jurisdiction and functions of the Court
 1. The Court may, either of its own motion or on the petition of a citizen of Pakistan or the Federal Government 
or a Provincial Government, examine and decide the question whether or not any law or provision of law is 
repugnant to the Injunctions of Islam, as laid down in the Holy Quran and the Sunnah of the Holy Prophet, 
hereinafter referred to as the Injunctions of Islam. (PAKISTAN. Constitution of Pakistan. Disponível em: 
<https://www.constituteproject.org/constitution/Pakistan_2015?lang=en>. Acesso em: 27 set. 2017)
44 SOBOTTA, op. cit., p. 143-157.
45 AGRAVO DE INSTRUMENTO. Pedido de suspensão dos efeitos de partilha extrajudicial na qual fora 
excluída a cônjuge supérstite em virtude de ter sido casada com o de cujus no regime da separação total 
de bens. Casamento celebrado no Líbano, sendo o único regime de bens existente, mas que nem por isso 
se enquadra na hipótese prevista do art. 1641 e 1696 configurando separação obrigatória, porquanto não 
existente qualquer causa suspensiva que tornaria cogente o regime. Ademais, o instituto da separação total 
não se confunde com a separação obrigatória, não podendo ser interpretado de forma prejudicial à cônjuge 
supérstite. Recurso provido. (BRASIL. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Agravo de Instrumento 
n. 2046457-71.2014.8.26.0000. Relator: Desembargador James Siano. São Paulo, 30 de setembro de 2014. 
Disponível em: <https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/resultadoCompleta.do>. Acesso em: 27 set. 2017.)
46 ALCORãO SAGRADO, op. cit., p. 241.
47 Ibidem, p. 266.
48 BAHLUL, Raja. Perspectivas islâmicas do constitucionalismo. In: COSTA, Pietro; ZOLO, Danilo (Org.). São 
Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 771-778.
Publicações da Escola da AGU 138
3 CONCLUSÃO
Como se viu, o conceito do “rule of law” para os Estados 
Ocidentais não é o mesmo que dos Estados Islâmico; prevalecem 
nestes as normas da Sharia, regras que foram trazidas do Islã e 
que passaram a povoar a vida particular, da sociedade e do próprio 
conceito de Estado.
Em um ponto comum, a Sharia deve ser objeto de indagação 
do legislador e administrador do Estado Islâmico, não só para que 
não elaborem leis que a contrariem declaradamente, mas, também, 
para que as aplique em conformidade com os princípios ditados no 
original pelo profeta Muhammad.
REFERÊNCIAS
AED, Saleh Ibn Hussein el. Tradução de Sheikh Ali M. Abdune. MANCILHA, 
Soraia C. (Adapt.). O direito dos não-muçulmanos sob um governo Islâmico. Wamy.
AFONSO DA SILVA, José. Curso de Direito Constitucional Positivo. 39. ed. São 
Paulo: Malheiros, 2016.
ALCORãO SAGRADO. Os significados dos versículos do Alcorão sagrado. Tradução 
de Samir el Hayek. São Paulo: Federação das Associações Muçulmanas do Brasil.
AL-TUM, Muhammad yahia. Você pergunta e o Alcorão responde. Disponível em: 
<http://www.fambras.org.br/media/560807d3df03a.pdf>. Acesso em: 06 out. 2017.
BAHLUL, Raja. Perspectivas islâmicas do constitucionalismo. In: COSTA, Pietro; 
ZOLO, Danilo (Org.). São Paulo: Martins Fontes, 2006.
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141
BREVE PARALELO ENTRE A CORTE 
CONSTITUCIONAL ITALIANA E O 
TRIBUNAL CONSTITUCIONAL FEDERAL 
ALEMãO 
A BRIEF COMPARISON BETWEEN ITALIAN CONSTITUTIONAL 
COURT AND GERMAN FEDERAL CONSTITUTIONAL COURT
Elise Mirisola Maitan
Especialista em Direito Público e Direito Processual
Procuradora Federal
SUMÁRIO: Introdução; 1 O papel fundamental das 
Cortes Supremas; 2 A Corte Constitucional Italiana; 
3 O Tribunal Constitucional Federal Alemão; 4 
Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 142
RESUMO: O presente estudo aborda, de modo sintético, as principais 
características da Corte Constitucional Italiana e do Tribunal 
Constitucional Federal Alemão. Efetuando-se uma análise com método 
comparativo entre referidas Cortes Supremas, propõe-se uma visão geral 
sobre os aspectos mais relevantes concernentes à composição das cortes 
e suas respectivas atuações quanto ao controle de constitucionalidade. O 
paralelo firmado entre as atividades desempenhadas pelas Cortes da Itália 
e da Alemanha contribuem para o estudo comparado, tendo por escopo 
preservar a supremacia das normas constitucionais, sendo instrumento 
de interpretação e aplicação das leis conforme a Constituição. Assim, 
o que se busca com o presente trabalho é demonstrar a fundamental 
importância das Cortes Constitucionais, notadamente no que tange à 
harmonização das normas da Itália e da Alemanha de acordo com suas 
respectivas Constituições. 
PALAVRAS-CHAVE: Direito Comparado. Cortes Constitucionais. 
Itália. Alemanha. Controle de Constitucionalidade. 
ABSTRACT: The present study summarizes the main features of the 
Italian Constitutional Court and the German Federal Constitutional 
Court. A comparative analysis of these Supreme Courts is carried out, 
and an overview is presented on the most relevant aspects concerning 
the composition of the courts and their respective performance 
regarding the control of constitutionality. The parallels between the 
activities carried out by the Courts of Italy and Germany contribute 
to the comparative study, with the aim of preserving the supremacy 
of constitutional norms, being an instrument of interpretation and 
application of laws according to the Constitution. Thus, this study 
aims to demonstrate the fundamental importance of the Constitutional 
Courts, especially with regard to the harmonization of the norms of 
Italy and Germany according to their respective Constitutions.
KEYWORDS: Comparative Law. Constitutional Courts. Italy. Germany. 
Control of Constitutionality.
Elise Mirisola Maitan 143
INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem por objetivo destacar a importância 
da preservação do ordenamento legislativo em conformidade com a 
Constituição, no caso, da Itália e da Alemanha, a fim de preservar os 
princípios, as normas basilares e os direitos fundamentais.
Seguindo o modelo de jurisdição concebido pelo ilustre jurista Hans 
Kelsen, consideramos a Constituição Federal como o ápice da pirâmide 
normativa, sendo que toda legislação infraconstitucional deve seguir os 
preceitos nela insculpidos, sob pena de afrontar o Texto Supremo e incidir 
em vício de inconstitucionalidade.
No cenário histórico, após a II Guerra Mundial, a necessidade de 
se garantir os direitos fundamentais ganhou ainda mais ênfase, sendo 
as Constituições da Itália e da Alemanha relevantes protagonistas, já 
que instituíram suas Cortes Supremas como guardiãs das respectivas 
Constituições.
Neste espeque, iremos efetuar um estudo comparativo entre a Corte 
Constitucional Italiana e o Tribunal Constitucional Federal Alemão, os 
quais desempenham a importante jurisdição constitucional, com a fundamental 
função de exercitar o controle de legitimidade constitucional das leis.
É sob este conceito que se fundamenta o controle de constitucionalidade, 
levando em conta a supremacia das normas constitucionais para a manutenção 
do Estado de Direito. Neste sentido, destaca-se que os Tribunais Supremos 
têm a atribuição vital de efetuar o controle de constitucionalidade e defender 
a ordem jurídica estabelecida, de forma imparcial, possuindo autonomia e 
independência necessárias para garantir a estrita observância da Carta Magna.
Portanto, a abordagem comparativa das constituições e legislações 
nos permite aprender e comparar diferentes sociedades e como elas se 
comportam frente a preservação dos direitos fundamentais e das normas 
constitucionais. 
1 O PAPEL FUNDAMENTAL DAS CORTES SUPREMAS
As Cortes Supremas têm um papel fundamental no Estado 
Democrático de Direito, na medida em que possuem o poder de declarar 
a inconstitucionalidade e controlar a constitucionalidade de leis vigentes, 
votadas e aprovadas pelo Parlamento. Portanto, desempenham a 
importante função de guardião da Constituição, exercendo o controle de 
constitucionalidade.
Neste sentido, não se pode olvidar as lições do renomado jurista 
Hans Kelsen, criador da Teoria Pura do Direito, que contribuíram para a 
Publicações da Escola da AGU 144
evolução da jurisdição constitucional em todo o mundo. Seus ensinamentos 
sustentam a rigidez constitucional, tendo a Constituiçãocomo a autoridade 
mais alta, no topo da pirâmide, onde somente um Tribunal Constitucional, 
separado dos Poderes Legislativo e Executivo, pode decidir acerca da 
validade constitucional de uma lei.
O modelo kelseniano de controle de constitucionalidade, consagrado pela 
Constituição Austríaca de 1920, ganhou força a partir da II Guerra Mundial e, 
por conseguinte, influenciou, entre outras, as Constituições Italiana e Alemã.
Tal orientação preceitua que o Tribunal Constitucional de uma 
nação não pode ser um órgão do Poder Legislativo, donde emanam as 
legislações subordinadas à Constituição. Da mesma forma, não pode ser 
vinculado ao Poder Executivo, o qual possui os poderes constitucionais 
de aplicar as leis. Dessa forma, como guardião da Constituição e tendo 
o poder de controlar os atos legislativos, a Corte Constitucional possui 
função verdadeiramente jurisdicional.
As normas constitucionais são supremas e, portanto, servem de 
parâmetro obrigatório para todas as normas inferiores. Caso as normas 
infraconstitucionais estejam em desconformidade com os preceitos da 
Constituição, incidem em vício de inconstitucionalidade.
Assim, considerando a supremacia da Constituição, bem como o 
papel fundamental das Cortes Constitucionais de resguardar a harmonia 
entre a legislação infraconstitucional e os preceitos constitucionais, surge 
o conceito de controle de constitucionalidade.
Sob essa ótica, tem-se os chamados modelos concentrado e difuso, 
ambos de controle de constitucionalidade. O primeiro, de maior frequência 
no continente Europeu, reserva de forma exclusiva a um único Tribunal 
Constitucional a tarefa de analisar as ofensas à supremacia constitucional. 
Em contraposição, há o modelo difuso, protagonizado majoritariamente no 
continente Americano, onde são atribuídos a todos os juízes, indistintamente, 
os julgamentos sobre a legitimidade constitucional, não se restringindo o 
controle de constitucionalidade tão somente à Corte Suprema.
Devido à fundamental importância das Cortes Constitucionais 
no cenário jurídico, os juízes que as compõem são escolhidos de forma 
democrática, por meio da participação dos órgãos de soberania da respectiva 
nação, legitimando a atuação dos mesmos na defesa da Constituição. São 
escolhidos membros dotados de conhecimento notório e técnico-jurídico 
necessários para discutir e decidir acerca da constitucionalidade das leis 
e atos normativos de seu país.
Justamente por aceitar a Constituição como ápice das normas e 
fundamento de validade das leis inferiores, os sistemas Italiano e Alemão, 
assim como em diversos outros países, possuem suas Cortes Supremas para 
Elise Mirisola Maitan 145
exercer o respectivo controle de constitucionalidade, a quem compete declarar 
eventual nulidade daquilo que contraria a Carta Magna, em regra, com 
efeito erga omnes e eficácia vinculante, de forma imparcial e independente. 
Isto posto, veremos que a Corte Constitucional Italiana e o 
Tribunal Constitucional Federal Alemão possuem papel fundamental 
para contribuir com a preservação da supremacia de suas normas 
constitucionais, exercendo relevante destaque para a manutenção do 
Estado Democrático de Direito.
2 A CORTE CONSTITUCIONAL ITALIANA
A Corte Constitucional Italiana1 (Corte Costituzionale) fica sediada na 
cidade de Roma, sendo instituída no Título VI, Seção I, da Constituição da 
República Italiana, a qual fora promulgada pela Assembleia Constituinte 
em 22 de dezembro de 1947, entrando em vigor em 1º de janeiro de 1948. 
A primeira audiência pública da Corte Italiana ocorreu em 23 de abril de 
1956, sendo proferida a primeira sentença nesse mesmo ano.
Inicialmente, observa-se que na Constituição da Itália, a Corte 
Constitucional foi descrita fora dos três poderes, gerando entendimento 
na doutrina de que sua natureza de controlador de constitucionalidade 
seria de um órgão político, desvinculado do Poder Judiciário. Todavia, 
o posicionamento majoritário considera a Corte Constitucional como 
organismo jurisdicional, inclusive porque a Magna Carta Italiana se vale 
de expressões jurídicas para especificar a Corte, notadamente no que tange 
à sua função fundamental, sua composição e os efeitos de sua decisão. 
Após a instituição da Corte pela Constituição, surgiram sucessivas 
legislações que disciplinam a atividade do Tribunal, merecendo destaque para 
as Leis Constitucionais nº 01/1948 e nº 01/1953 e a Lei Ordinária nº 87/1953.
A Corte Constitucional da Itália tem a atribuição de dirimir 
controvérsias relativas: à constitucionalidade das leis e dos atos com força 
de lei, do Estado e das Regiões; aos conflitos de atribuição entre os poderes 
do Estado e aqueles entre o Estado e as Regiões, ou ainda entre as próprias 
Regiões; ao julgamento do Presidente da República pelo pleno, nos casos 
em que o Parlamento, em sessão conjunta, autorize a abertura de processo 
por crime de alta traição e atentado à Constituição, consoante artigo 1342 
da respectiva Magna Carta. 
1 Disponível em: <www.cortecostituzionale.it>.
2 Art. 134. O Tribunal constitucional julga: sobre as controvérsias relativas à legitimidade constitucional das 
leis e dos atos, tendo força de lei, do Estado e das Regiões; sobre os conflitos de atribuição entre os poderes 
do Estado e sobre aqueles entre o Estado e as Regiões, e entre as Regiões; sobre as acusações fomentadas 
contra o Presidente da República; a norma da Constituição.
Publicações da Escola da AGU 146
O artigo 1353 da Constituição Italiana de 1948 estabelece que sua Corte 
Constitucional deve ser composta por quinze juízes, nomeados: um terço pelo 
Presidente da República com decreto convalidado pelo Presidente do Conselho 
de Ministros (artigo 4º da Lei nº 87/1953); um terço pelo Parlamento em sessão 
das duas casas reunidas por meio de votação secreta e com maioria de dois 
terços; e um terço pelos membros das magistraturas superiores, ordinária e 
administrativa, nesta hipótese sendo três entre os magistrados da Corte de 
Cassação (Corte di Cassazione), um do Conselho de Estado (Consiglio di Stato) 
e um do Tribunal de Contas (Corte dei Conti), de acordo com o disposto em 
modo específico pelo artigo 2º da Lei nº 87/1953. Devem ser escolhidos 
magistrados, ainda que aposentados, das magistraturas superiores, ordinárias e 
administrativas, bem como professores de universidades em matérias jurídicas 
e advogados com experiência de pelo menos vinte anos de exercício.
Após a escolha, devem ter sua nomeação ou eleição convalidada pela 
Corte, a fim de que possam efetivamente atuar como juízes constitucionais. 
Em seguida, prestam juramento perante o Presidente da República na 
presença dos Presidentes das duas casas do Parlamento (artigo 5º da Lei 
nº 87/1953). A partir da data do juramento se iniciam os seus mandatos, 
permanecendo no cargo por nove anos, improrrogável, não sendo reelegíveis.
Durante o período do mandato, os juízes constitucionais não poderão 
exercer outras funções, razão pela qual são afastados de suas atividades 
por todo o período em que permanecerem no cargo ou até quando não 
atingirem os limites de idade para serem aposentados (artigo 7º da Lei 
nº 87/1953). Possuem imunidade penal (artigo 3º da Lei nº 01/1948) e 
liberdade de opinião no exercício de suas funções (artigo 5º da Lei nº 
01/1953). Ao final do mandato é garantido o retorno ao exercício de suas 
anteriores atividades profissionais.
O Presidente da Corte é um juiz escolhido entre um de seus membros, 
eleito pela maioria dos componentes do próprio Tribunal, com mandato 
trienal e renovável, dentro da duração máxima do mandato de nove anos. 
3 Art. 135. O Tribunal constitucional é composto por quinze juízes nomeados por um terço pelo Presidente da 
República, por um terço do Parlamento em sessão comum e por um terço das supremas magistraturas ordinárias 
e administrativas. Os juízes doTribunal constitucional são escolhidos por entre os magistrados também 
reformados das jurisdições superiores ordinária e administrativas, os professores ordinários de universidades 
em matérias jurídicas e os advogados após vinte anos de exercício. Os juízes do Tribunal constitucional são 
eleitos por nove anos, decorrentes para cada um deles, a partir do dia do juramento, e não podem ser novamente 
eleitos. No prazo terminado o juiz constitucional cessa o cargo e o exercício das funções. O Tribunal elege por 
entre os seus membros, segundo as normas estabelecidas pela lei, o Presidente que permanece no cargo por três 
anos, e é reelegível permanecendo em todo o caso os prazos do gabinete do juiz. O gabinete do juiz do Tribunal 
é incompatível com aquele do membro do Parlamento, de um Conselho regional, com exercício da profissão de 
advogado e com qualquer cargo e gabinete indicados pela lei. Nos juízos de acusação contra o Presidente da 
República, intervêm, além dos juízes ordinários do Tribunal, dezesseis membros escolhidos aleatoriamente de 
uma lista de cidadãos tendo os requisitos para a elegibilidade para senador que o Parlamento reúne cada nove 
anos mediante eleição, com as mesmas modalidades estabelecidas para a nomeação dos juízes ordinários. 
Elise Mirisola Maitan 147
Dentre suas funções, destaca-se a decisão no caso de empate dos demais 
juízes, além da fixação do calendário de julgamentos. Composta a Corte 
Constitucional Italiana, suas decisões devem observar o princípio da 
publicidade, bem como devem ser tomadas por maioria qualificada, ou seja, 
pela maioria absoluta de seus membros. Nota-se que o quórum exigido 
é de onze juízes (artigo 16, §2º, da Lei nº 87/1953), sendo que o quórum 
reduz para nove no caso de deliberações não jurisdicionais (artigo 6º, §3º, 
do Regulamento Geral da Corte).
A Constituição Italiana de 1948 adotou o sistema de controle concentrado 
de constitucionalidade, ou seja, é incumbência exclusiva da Corte Constitucional 
Italiana manifestar-se acerca da compatibilidade constitucional das normas.
Observa-se que, embora a apreciação da alegação de inconstitucionalidade 
de leis ou atos normativos pertencer à Corte Constitucional, tal exclusividade 
se manifesta quando já em vigor a lei, ou ato com força de lei, suscetível de 
impugnação. Assim, a Corte Constitucional Italiana exerce o controle repressivo, 
haja vista que o controle preventivo é exercido pelo Presidente da República no 
momento de promulgar a lei ou ato normativo.
No sistema Italiano de controle concentrado de constitucionalidade, duas 
são as formas de manifestação, quais sejam, incidental e principal.
O procedimento por via incidental é exercitado durante o tramitar de um 
processo por ocasião da aplicação da lei ao caso concreto, onde o interessado não 
ataca o ato inconstitucional diretamente, mas se defende contra ele na hipótese de 
ser submetido à sua aplicação. Nesta hipótese, é permitido ao juiz, de ofício ou a 
requerimento de qualquer das partes ou do Ministério Público, suscitar à Corte 
o incidente de constitucionalidade de norma aplicável no caso em exame, o que 
deve ser feito em autos próprios, ensejando a suspensão do processo originário 
até decisão definitiva pela Corte Constitucional.
Para o controle incidental, devem ser observados os requisitos da 
relevância e da questão não manifestamente infundada. Observa-se, ainda, que 
a jurisprudência Italiana vem adotando o entendimento de que o juiz, no caso 
concreto, antes de submeter a questão à Corte, deve efetuar todas as tentativas 
de conferir à norma impugnada a devida interpretação conforme a Constituição. 
Tal entendimento se deve ao fato de que, por ser vetado o acesso direto do 
cidadão comum perante a Corte, mister a apreciação prévia pelo juiz comum.
O outro modo de manifestação é por via principal, através de 
ação proposta diretamente à Corte Constitucional, independente de 
processo judicial ou administrativo, de natureza abstrata. De acordo com 
a Constituição Italiana, são legitimados para a proposição desta ação o 
Estado e as Regiões. Normalmente, este procedimento é utilizado na 
hipótese de conflito entre uma lei federal e uma lei regional, bem como 
quando o Estado ou uma Região tenha uma lei contrária à Constituição.
Publicações da Escola da AGU 148
Com fulcro no artigo 1364 da Constituição, a decisão que declara 
a inconstitucionalidade da lei ou ato normativo tem eficácia erga omnes 
e, em regra, efeitos ex tunc. Porém, para fins de modulação dos efeitos 
por razões de segurança jurídica, existe a possibilidade de se admitir que 
sejam produzidos efeitos ex nunc. Nota-se que em face das decisões do 
Tribunal Constitucional não é admitida nenhuma impugnação, conforme 
artigo 1375 da Magna Carta Italiana.
Observa-se, ainda, que se a Corte rejeita a inconstitucionalidade 
arguida, tal decisão não tem efeito erga omnes, podendo ser suscitada 
novamente sob outros argumentos, com possibilidade de ser declarada 
inconstitucional em outro momento, no tramitar de um processo diverso. 
Desse modo, a decisão de indeferimento pelo Tribunal tem efeito inter partes 
e não implica na declaração de constitucionalidade da norma impugnada.
Por fim, além de decidir acerca das normas constitucionais no âmbito 
do Poder Judiciário, destaca-se que a Corte Constitucional Italiana exerce 
um papel ativo e positivo, no sentido de estimular e aperfeiçoar a correta 
aplicação da Constituição da Itália no âmbito da administração pública e 
dos Poderes Legislativo e Executivo, efetuando recomendações específicas 
para o efetivo cumprimento das normas preceituadas na Constituição da 
República Italiana.
3 O TRIBUNAL CONSTITUCIONAL FEDERAL ALEMÃO
O Tribunal Constitucional Federal Alemão6 (Bundesverfassungsgericht) 
fica sediado na cidade de Karlsruhe, sendo estabelecido pela Lei Fundamental 
da República Federal da Alemanha (Grundgesetz), formalmente aprovada 
em 8 de maio de 1949 e com entrada em vigor em 23 de maio de 1949. O 
Tribunal da Alemanha iniciou seu funcionamento em 1951.
Primeiramente, insta salientar que o Tribunal Alemão é um órgão 
constitucional independente, com nítida natureza jurisdicional, não 
estando sujeito a qualquer supervisão por parte dos Poderes Legislativo 
ou Executivo, pertencendo, pois, à organização do Poder Judiciário, de 
4 Art. 136. Quando o Tribunal declara a ilegitimidade constitucional de uma norma de lei ou de um ato 
tendo força de lei, a norma cessa de ter eficácia a partir do dia seguinte à publicação da decisão. A decisão 
do Tribunal é publicada e comunicada às Câmaras e aos Conselhos regionais interessados, para que se o 
acharem, necessário providenciem nas formas constitucionais. 
5 Art. 137. Uma lei constitucional estabelece as condições, as formas, os termos de propostas dos juízes de 
legitimidade constitucional e as garantias de independência dos juízes do Tribunal. Com lei ordinária são 
estabelecidas as outras normas necessárias para a constituição e funcionamento do Tribunal. Contra as 
decisões do Tribunal constitucional não é admitida nenhuma impugnação.
6 Disponpivel em: <www.bundesverfassungsgericht.de>.
Elise Mirisola Maitan 149
acordo com o artigo 927 da Magna Carta Alemã. Assim, o Tribunal 
Supremo goza de total autonomia no plano administrativo e financeiro, 
zelando pela conservação e respeito do ordenamento constitucional por 
parte dos outros poderes estatais, Governo Federal, Parlamento Federal 
e Conselho Federal.
Desde sua criação, o Tribunal Constitucional Federal tem monitorado 
com maestria a aderência da Lei Fundamental da República Alemã no 
ordenamento jurídico tedesco, possuindo um papel extremamente importante 
na democracia moderna da Alemanha, com solidez e transparência.
Em síntese, consoante artigo 938 da Lei Fundamental Alemã, 
a competência do Tribunal Constitucional Federal é definidapara os 
seguintes procedimentos: controle abstrato das normas; controle concreto 
das normas; verificação normativa; reclamação constitucional; lides entre 
órgãos estatais; litígio entre a união e estados-membros; proibição de 
partido político.
7 Artigo 92. [Organização do Poder Judiciário]
 O Poder Judiciário é confiado aos juízes; ele é exercido pelo Tribunal Constitucional Federal, pelos tribunais 
federais previstos nesta Lei Fundamental e pelos tribunais dos Estados.
8 Artigo 93. [Competência do Tribunal Constitucional Federal]
 (1) O Tribunal Constitucional Federal decide: 
 1. sobre a interpretação desta Lei Fundamental em controvérsias a respeito da extensão dos direitos e deveres de um 
órgão superior da Federação ou de outros interessados, dotados de direitos próprios pela presente Lei Fundamental 
ou pelo regulamento interno de um órgão federal superior;
 2. no caso de divergências ou dúvidas a respeito da compatibilidade formal e material da legislação federal ou estadual 
com a presente Lei Fundamental ou da compatibilidade da legislação estadual com outras leis federais, quando o 
solicitem o Governo Federal, o governo de um Estado ou um quarto dos membros do Parlamento Federal; 
 2 a. no caso de divergências, se uma lei corresponde aos requisitos do artigo 72 §2, por requerimento do Conselho 
Federal, do governo de um Estado ou da Assembleia Legislativa de um Estado; 
 3. no caso de divergências sobre direitos e deveres da Federação e dos Estados, especialmente a respeito da execução 
de leis federais pelos Estados e do exercício da fiscalização federal; 
 4. em outras controvérsias de direito público entre a Federação e os Estados, entre diversos Estados e dentro de um 
Estado, sempre que não exista outra via judicial; 
 4 a. sobre os recursos de inconstitucionalidade, que podem ser interpostos por todo cidadão com a alegação de ter 
sido prejudicado pelo poder público nos seus direitos fundamentais ou num dos seus direitos contidos nos artigos 
20 §4, 33, 38, 101, 103 e 104; 
 4 b. sobre os recursos de inconstitucionalidade de municípios e associações de municípios contra a violação por uma 
lei do direito de autonomia administrativa, estabelecido no artigo 28; no caso de leis estaduais, no entanto, apenas 
se o recurso não puder ser interposto no respectivo Tribunal Constitucional Estadual; 
 5. nos demais casos previstos na presente Lei Fundamental. 
 (2) O Tribunal Constitucional Federal decide, além disso, por petição do Conselho Federal, do governo de um 
Estado ou da Assembleia Legislativa de um Estado, se, no caso do artigo 72 §4, não subsiste a necessidade de uma 
regulamentação por lei federal, segundo o artigo 72 §2, ou se o direito federal já não poderia mais ser aplicado 
nos casos do artigo 125a §2, primeira frase. A constatação de que a necessidade já não existe ou que o direito da 
Federação não deva ser aplicado, substitui uma lei federal aprovada segundo o artigo 72 §4, ou segundo o artigo 
125a §2, segunda frase. A petição, conforme a primeira frase, só é admissível, quando um projeto de lei segundo o 
artigo 72 §4 ou segundo o artigo 125a §2, segunda frase, tenha sido rejeitado no Parlamento Federal ou não tenha 
sido debatido e votado no prazo de um ano ou se um projeto de lei correspondente foi rejeitado no Conselho Federal. 
 (3) O Tribunal Constitucional Federal atuará, além disso, nos casos que lhe forem conferidos por lei federal. 
Publicações da Escola da AGU 150
A Corte Alemã possui peculiaridades quanto à sua estrutura de 
funcionamento, sendo composta de dois Senados internos, cada qual com 
oito juízes, sendo que, em regra, um decide sobre os direitos fundamentais 
e outro sobre matéria de organização estatal. Havendo dúvida sobre a 
competência de um procedimento, é formada uma comissão composta pelo 
Presidente, Vice-Presidente e quatro juízes convocados, dois de cada Senado, 
a fim de deliberar qual Senado é competente para apreciação da questão. 
Portanto, nos termos do artigo 949 da Lei Fundamental, a Corte 
Suprema da Alemanha é composta por dezesseis juízes, sendo: metade eleita 
pelo Parlamento Federal (Bundestag) e metade pelo Conselho Federal (Bundesrat), 
por maioria de dois terços. Conforme exposto, os membros eleitos se dividem 
em dois Senados, cada um com oito juízes, os quais são eleitos para ocupar seus 
lugares em um determinado Senado, com atribuição específica. O Presidente e o 
Vice-Presidente da Corte também são eleitos, alternadamente, pelo Parlamento 
Federal e pelo Conselho Federal, cada um pertencendo a um Senado diverso.
Dentre os membros eleitos, seis são juízes federais, que devem ter exercido 
suas atividades por pelo menos três anos nas jurisdições superiores. Os outros 
dez juízes devem ser escolhidos entre pessoas com idade superior a quarenta 
anos e com idade máxima de sessenta e oito anos, com diploma para exercer 
atividade como magistrado e haver declarado, por escrito, estar disposto a tornar-
se membro do Tribunal Constitucional. Os membros não podem pertencer ao 
Parlamento Federal, ao Conselho Federal, ao Governo Federal, nem aos órgãos 
estatais correspondentes. Dessa forma, sendo eleitos para o Tribunal, eles se 
retiram de tais órgãos e atividades, havendo incompatibilidade para o exercício 
de qualquer outro cargo ou função, exceto o exercício do magistério.
Na posse do cargo para juiz da Corte Constitucional, o membro eleito 
presta juramento perante o Presidente da República Federal da Alemanha, 
somente a partir de quando poderá dar início aos trabalhos no Tribunal. 
Ressalta-se que os juízes serão independentes e se submeterão apenas à lei. 
A duração do mandato dos juízes eleitos para exercício perante o 
Tribunal Constitucional é de doze anos, sem possibilidade de reeleição, 
salientando-se que podem solicitar, a qualquer tempo, sua exoneração do cargo. 
Ainda com relação à estrutura de funcionamento do Tribunal, destaca-se 
que cada um dos Senados possui Câmaras internas, cada uma composta por 
9 Artigo 94. [Composição do Tribunal Constitucional Federal]
 (1) O Tribunal Constitucional Federal compõe-se de juízes federais e outros membros. Os membros do 
Tribunal Constitucional Federal serão eleitos em partes iguais pelo Parlamento Federal e pelo Conselho 
Federal. Eles não poderão pertencer ao Parlamento Federal, ao Conselho Federal ou a órgãos correspondentes 
de um Estado.
 (2) Uma lei federal regulará a sua organização e processo, determinando os casos em que as suas decisões 
terão força de lei. Poderá impor como condição para os recursos de inconstitucionalidade, que se tenha 
esgotado previamente as vias legais e prever um processo especial de adoção dos processos. 
Elise Mirisola Maitan 151
três juízes. As Câmaras têm a principal tarefa de decidir acerca de questões 
constitucionais que não sejam de importância fundamental e que ainda não 
foram decididas, em princípio, por um dos Senados. 
Mister salientar que as decisões das Câmaras devem ser tomadas por 
unanimidade de votos. Já as decisões proferidas por cada um dos Senados, deve 
ter quórum de, pelo menos, seis juízes. Para quórum de votação pelo pleno 
do Tribunal, devem estar presentes dois terços dos juízes de cada Senado.
Os juízes membros da Corte decidem sobre todas as questões concernentes 
à interpretação da Lei Fundamental, inclusive no que tange aos conflitos de 
competência entre os órgãos constitucionais, portanto, o Tribunal é órgão 
máximo de solução de controvérsias, acima de todas as demais instâncias. 
Com relação ao controle de constitucionalidade, a Alemanha o exerce de 
modo concentrado, exclusivamente via Tribunal Constitucional Federal. Quanto 
ao momento do controle, é misto, ou seja, pode ser preventivo ou repressivo. 
No que pertine ao controle preventivo das leis na Alemanha, há quem 
defenda que pode acontecer em três hipóteses: quando uma lei queaprova 
um tratado é encaminhada ao Tribunal; quando o Presidente se recusa a 
promulgar uma lei e outro órgão aciona o Tribunal; e quando o Tribunal 
retarda a entrada em vigor de uma lei até que profira sentença sobre o tema. 
De outro lado, o controle repressivo ocorre por via de ação, efetuando 
o Tribunal o controle abstrato das normas consoante o já citado artigo 93 da 
Carta Magna Alemã, bem como o controle concreto das normas de acordo 
com o artigo 10010 da Lei Fundamental da República Federal da Alemanha.
No controle abstrato das normas, objetivando dirimir as divergências a 
respeito da compatibilidade formal e material da legislação federal ou estadual 
com a Lei Fundamental, ou a compatibilidade da legislação estadual com outras 
leis federais, são legitimados o Governo Federal, o governo de um Estado ou 
um terço dos membros do Parlamento Federal, os quais buscam expurgar a 
norma inconstitucional do ordenamento jurídico, com nítido interesse público.
Já o controle concreto das normas ocorre no âmbito de um 
processo judicial. No modelo tedesco, todo juiz tem o dever de verificar 
10 Artigo 100. [Controle concreto de normas]
 (1) Quando um tribunal considerar uma lei, de cuja validade dependa a decisão, como inconstitucional, ele 
terá de suspender o processo e submeter a questão à decisão do tribunal estadual competente em assuntos 
constitucionais, quando se tratar de violação da constituição de um Estado, ou à decisão do Tribunal 
Constitucional Federal, quando se tratar da violação desta Lei Fundamental. Isto também é aplicável, 
quando se tratar da violação desta Lei Fundamental pela legislação estadual ou da incompatibilidade de 
uma lei estadual com uma lei federal. 
 (2) Quando surgirem dúvidas num litígio, se uma norma do direito internacional público é parte integrante 
do direito federal, gerando diretamente direitos e deveres para o indivíduo (artigo 25), o tribunal terá de 
solicitar a decisão do Tribunal Constitucional Federal. 
 (3) Se, na interpretação da Lei Fundamental, o tribunal constitucional de um Estado quiser divergir de uma 
decisão do Tribunal Constitucional Federal ou do tribunal constitucional de um outro Estado, ele deverá 
submeter a questão à decisão do Tribunal Constitucional Federal. 
Publicações da Escola da AGU 152
a constitucionalidade da norma que aplica sobre um determinado caso, 
independentemente de provocação da parte processual interessada, porém 
não pode negar a aplicabilidade quando ainda não declarada inconstitucional 
pelo Tribunal Supremo, o qual possui competência exclusiva para tanto. Assim, 
quando um juiz ou tribunal considerar uma lei como inconstitucional, com 
possível violação da Lei Fundamental, deverá suspender o processo e submeter 
a questão para que o Tribunal Constitucional Federal se posicione a respeito.
Além disso, diversamente do sistema Italiano, supracitado, que veda o 
acesso direto do cidadão comum perante a Corte, o sistema Alemão prioriza o 
acesso à justiça e permite que qualquer cidadão possa interpor uma reclamação 
constitucional no caso de afronta ao direito decorrente diretamente da lei, 
alegando que seus direitos, sejam eles fundamentais ou equivalentes, foram 
violados diretamente por um ato de direito público, por decisões de outros 
tribunais, legislação ou atos de órgãos administrativos, sendo garantida a 
gratuidade dos procedimentos e dispensada a representação por um advogado.
Neste sentido, toda pessoa que entender que seus direitos fundamentais 
foram violados pelo poder público, pode efetuar uma queixa constitucional à 
Corte Suprema da Alemanha, em face da medida de uma autoridade, de uma 
sentença ou de uma lei supostamente inconstitucional, sendo imprescindível 
a invocação da violação do direito fundamental e o esgotamento da via 
judicial nas instâncias inferiores, como pressupostos de sua admissibilidade.
Nota-se que se a decisão do Tribunal Constitucional for de deferimento, 
deve expor de forma expressa qual o preceito da Lei Fundamental que 
foi violado, bem como por qual ação ou omissão. Na hipótese de recurso 
constitucional interposto contra uma sentença, a Corte informa a decisão 
e remete ao juízo competente para novo julgamento. Se a insurgência foi 
interposta contra uma lei, a mesma deve ser declarada nula, com eficácia 
erga omnes e, em regra, com efeitos ex tunc. 
Em remate, destaca-se que a decisão final do Tribunal Constitucional 
Federal Alemão sobre a inconstitucionalidade de uma lei ou ato normativo 
obedece ao princípio da publicidade e vincula todos os outros órgãos 
constitucionais da Federação e dos Estados, bem como todos os tribunais 
e autoridades, não sendo passível de revisão, cassação ou suspensão, e 
possuindo, nos casos particulares, força de lei objetiva.
4 CONCLUSÃO
Com o processo de evolução das sociedades, surgiram Constituições 
que estabelecem preceitos para se preservar, entre outros, a dignidade da 
pessoa humana e os direitos fundamentais. Tais normas constitucionais 
são supremas e devem ser respeitadas por todos no ordenamento jurídico.
Elise Mirisola Maitan 153
Tão importante quanto o conteúdo de uma Carta Magna, é o resguardo 
aos preceitos nela descritos, inclusive quanto ao controle de constitucionalidade 
das leis e atos normativos. Considerando a importância do enfoque e o papel 
fundamental das Cortes Supremas, salientamos a relevante atuação da Corte 
Constitucional Italiana e do Tribunal Constitucional Federal Alemão, como 
instrumento de proteção da ordem jurídica e do Estado de Direito, de acordo 
com os ditames de suas respectivas Constituições.
Em síntese, restou evidenciado pelo estudo, que a Corte da Itália foi 
estabelecida pela Constituição Italiana de 1948, sendo composta por quinze 
juízes com mandato de nove anos, os quais exercem controle concentrado 
de constitucionalidade, de modo repressivo, pela via incidental ou principal.
De outro lado, ficou demonstrado que o Tribunal Alemão foi 
instituído pela Lei Fundamental da República Federal da Alemanha de 
1949, estruturado em dois Senados internos, cada qual com suas Câmaras, 
sendo composto por dezesseis juízes com mandato de doze anos, os quais 
exercem controle concentrado de constitucionalidade, de forma preventiva e 
repressiva. Ademais, observa-se que o sistema Alemão permite que qualquer 
cidadão possa interpor uma reclamação diretamente ao Tribunal Federal.
Destaca-se, ainda, que as Cortes possuem natureza nitidamente 
jurisdicional, sendo seus membros escolhidos de forma democrática, para 
apreciarem questões da mais alta relevância. Além disso, não se pode olvidar 
que ambas se utilizam do balanceamento de interesses e direitos para solucionar 
conflito entre princípios constitucionais, assegurando o respeito à Constituição.
Diante do exposto, deduzimos que as referidas Cortes Supremas 
possuem a função primordial e exclusiva de decidir sobre a constitucionalidade 
das legislações, objetivando a manutenção da harmonia e equilíbrio entre 
as normas constitucionais e a legislação infraconstitucional.
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155
A IMPLEMENTAçãO DE POLÍTICAS 
PÚBLICAS EM DECORRêNCIA DAS 
DECISÕES DOS SISTEMAS REGIONAIS 
EUROPEU E INTERAMERICANO DE 
DIREITOS HUMANOS
THE IMPLEMENTATION OF PUBLIC POLICIES AS A RESULT OF 
THE DECISIONS OF THE EUROPEAN AND INTER-AMERICAN 
REGIONAL SySTEMS FOR THE PROTECTION OF HUMAN RIGHTS
Fabiana Guancino Persicotti
Procuradora Federal, atuando na Divisão de Matéria Administrativa na Procuradoria 
Federal no Estado do Paraná
Natalya Maria Sales Caboclo
Procuradora Federal, atuando na Divisão de Matéria Previdenciária na Procuradoria 
Federal no Estado do Paraná
SUMÁRIO: Introdução; 1 Breve apanhado histórico do 
desenvolvimento do Direito Internacional dos Direitos 
Humanos; 2 Influência do direito internacional para 
a criação de políticas públicas; 3 Algumas das políticas 
públicas resultantes de determinações dos sistemas regionais 
europeu e interamericano de proteção dos direitos humanos; 
4 Cumprimento das determinações internacionais: ausência 
de coercibilidade; 5 Conclusão; Referências.
Publicações da Escola da AGU 156
RESUMO: Este artigo busca examinar a implementação de políticas 
públicas na ordem normativa interna dos Estados submetidos à jurisdição 
internacional de direitos humanos em relação às decisões oriundas dos 
Sistemas Europeu e Interamericano de Proteção dos Direitos Humanos. 
Parte-se de um breve apanhado histórico do desenvolvimento do Direito 
Internacional dos Direitos Humanos como um ramo autônomo do Direito 
e a necessidade de proteção desses direitos a partir de sua concepção 
contemporânea, o que demanda a adoção de políticas públicas pelos 
Estados. São examinados alguns casos submetidos ao sistema regional 
europeu e ao sistema regional interamericano de proteção dos direitos 
humanos que resultaram em determinações aos Estados signatários 
para a criação de políticas públicas. Por fim, abordam-se algumas das 
dificuldades enfrentadas relativamente ao efetivo cumprimento dessas 
determinações.
PALAVRAS-CHAVE: Direitos Humanos. Sistema Internacional de 
Proteção. Políticas Públicas. Cumprimento. 
ABSTRACT: This article seeks to examine the implementation of 
public policies in the internal normative order of states submitted to the 
international human rights jurisdiction in relation to decisions arising 
from the European and Inter - American Systems for the Protection 
of Human Rights. It is based on a brief history of the development 
of international human rights law as an autonomous branch of law 
and the need to protect these rights based on a contemporary concept, 
which requires the adoption of public policies by the states. A few cases 
submitted to the European regional system, as well as to the inter-
American regional system for the protection of human rights, which 
determined the signatory States should set certain policies have been 
examined. Ultimately, some of the difficulties concerning the effective 
fulfillment of these determinations have been addressed. 
KEYWORDS: Human Rights. International Protection System. Public 
Policy. Compliance.
Fabiana Guancino Persicotti
Natalya Maria Sales Caboclo 157
INTRODUÇÃO 
Partindo de um breve apanhado histórico da consagração do 
Direito Internacional dos Direitos Humanos como um ramo autônomo 
do Direito, este artigo evidencia sua importância no cenário internacional 
e inf luência na ordem normativa interna dos Estados, o que passa a 
ocorrer a partir da Segunda Guerra Mundial, em que os direitos humanos 
assumem caráter de internacionalidade e universalidade, adquirindo uma 
concepção contemporânea, sintonizada com a primazia do ser humano. 
A partir da adoção dessa concepção verifica-se que a garantia e proteção 
dos direitos humanos por meio dos sistemas de proteção internacional não se 
restringem à cessação de violações, albergando a garantia de que tais direitos 
não mais sejam maculados. Esta ação, que não só é a esperada a partir da atuação 
interna dos Estados, mas recomendada pelos sistemas internacionais de tutela 
dos direitos humanos, configura-se como programas de ação governamental 
qualificados como políticas públicas, tendentes a resolver questões estruturais e 
sistêmicas, as quais culminam na reiteração de violações similares aos direitos 
humanos. Examina-se, em seguida, casos submetidos a sistemas internacionais 
de proteção aos direitos humanos dos quais resultaram determinações para 
criação de políticas públicas. Finalmente, abordam-se dificuldades observadas 
quando do cumprimento destas determinações.
1 BREVE APANHADO HISTÓRICO DO DESENVOLVIMENTO DO DIREITO 
INTERNACIONAL DOS DIREITOS HUMANOS 
Com a Revolução Francesa operou-se uma quebra de paradigma 
no direito, ganhando relevância os direitos do homem, consagrados pela 
aprovação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão em 1789. 
Norberto Bobbio anota que os historiadores da época consideravam esta 
declaração uma solução de continuidade em relação ao antigo regime com 
o início de uma nova era que marcaria “uma virada na história do gênero 
humano” (BOBBIO, 2004, p. 40).
Se esse foi o primeiro passo para o reconhecimento dos direitos humanos 
cuja proteção passou a estar gradativamente mais presente na ordem jurídica 
interna dos Estados, após a Segunda Grande Guerra vivenciou-se um segundo 
passo de importância ímpar, qual seja, a assunção pelos direitos humanos de 
um protagonismo no cenário mundial, resultando no reconhecimento do ser 
humano, independentemente da nacionalidade, como sujeito desses direitos, 
a fim de salvaguardá-lo sob toda e qualquer circunstância.
Mireya Castillo Daudi (DAUDI, 2006 apud TAIAR, 2009, p. 194) 
justifica esse dado histórico afirmando que “el moderno derecho internacional de 
Publicações da Escola da AGU 158
los derechos humanos surge después de la Segunda Guerra Mundial, como reacción 
a las monstruosas violaciones de tales derechos, cometidas por el régimen hitleriano.” 
Flávia Piovesan, ao apontar esse mesmo fato, demonstra sua influência no 
Direito Constitucional Ocidental que passou a se orientar a partir da adoção de 
“textos abertos a princípios, dotados de elevada carga axiológica, comdestaque 
para o valor da dignidade humana” (PIOVESAN, 2013, p. 87). Afirma que: 
A internacionalização dos direitos humanos constitui, assim, um 
movimento extremamente recente na história, que surgiu a partir do 
pós-guerra, como resposta às atrocidades e aos horrores cometidos 
durante o nazismo. Apresentando o Estado como o grande violador de 
direitos humanos, a Era Hitler foi marcada pela lógica da destruição e 
da descartabilidade da pessoa humana, o que resultou no extermínio 
de onze milhões de pessoas (PIOVESAN, 2013, p. 191).
A Carta da Nações Unidas, assinada em 1945 com a criação das Nações 
Unidas, foi o marco para a internacionalização dos direitos humanos. Esse 
movimento restou acolhido pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, 
aprovada logo depois, em 10 de dezembro de 1948 pela Assembleia Geral das 
Nações Unidas pela unanimidade de 48 estados (VAZ, 2007, p. 15). A partir 
deste momento passou a se solidificar um novo ramo do Direito Público 
Internacional denominado Direito Internacional dos Direitos Humanos, já 
com acepção científica e dotado de autonomia (TAIAR, 2009, p.196)1. 
Desta feita, a violação de direitos humanos passa a ter contornos de 
internacionalidade, adotando-se uma concepção ampla e contemporânea 
de tais direitos. 
Anote-se que a Declaração Universal dos Direitos do Homem adota 
essa concepção contemporânea e ampla de direitos humanos, abrangendo 
não apenas aqueles relacionados aos princípios da igualdade e liberdade, 
mas também os voltados aos princípios da solidariedade, os quais envolvem 
os direitos econômicos, sociais e culturais.2 Pertinente apontar que o 
1 No que tange essa autonomia, Flávia Piovesan afirma o caráter específico e especial desse ramo do Direito 
apontando que, “enquanto o Direito Internacional busca tradicionalmente disciplinar relações de reciprocidade 
e equilíbrio entre Estados, por meio de negociações e concessões recíprocas que visam ao interesse dos 
próprios Estados pactuantes, o Direito Internacional dos Direitos Humanos objetiva garantir o exercício 
dos direitos da pessoa humana” (PIOVESAN, 2013, p. 77).
2 “A Declaração de 1948 vem a inovar ao introduzir a chamada concepção contemporânea de direitos 
humanos, marcada pela universalidade e indivisibilidade desses direitos. Universalidade porque clama pela 
extensão universal dos direitos humanos, sob a crença de que a condição de pessoa é o requisito único para 
a titularidade de direitos, considerando o ser humano um ser essencialmente moral, dotado de unicidade 
existencial e dignidade, esta como valor intrínseco à condição humana. Indivisibilidade porque a garantia 
dos direitos civis e políticos é condição para a observância dos direitos sociais, econômicos e culturais e 
vice-versa. Quando um deles é violado, os demais também são. Os direitos humanos compõe, assim, uma 
Fabiana Guancino Persicotti
Natalya Maria Sales Caboclo 159
Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos foi adotado em 16 de 
dezembro de 1966 e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais 
e Culturais foi adotado em 19 de dezembro de 1996 pela XXI Sessão da 
Assembleia–Geral das Nações Unidas. 
Consagrou-se, portanto, o reconhecimento de que os Direitos Humanos 
se consubstanciam em valores que devem efetivamente ser tutelados pela 
comunidade internacional, o que é constatado pelo grande número de Estados 
signatários que se submetem à jurisdição internacional correlata, legitimando 
a importância dos instrumentos normativos internacionais que os reconhecem. 
Verifica-se, contudo, que muitos desses direitos quando violados refletem 
uma constante presente na ordem interna dos estados. Desta feita, na esteira 
da proteção de caráter universal e indivisível dos direitos humanos adotada 
pela comunidade internacional, a tão só reparação da violação não se revela 
suficiente diante da possibilidade de se estar diante de uma situação em que 
a ofensa aponta para a existência de problemas contínuos, refletindo mácula 
na ordem estrutural ou sistêmica do estado e que, por isso, demanda, mais 
do que a reparação da violação, mas a adoção de ações capazes de solucionar 
a gênese do problema. 
2 INFLUÊNCIA DO DIREITO INTERNACIONAL PARA A CRIAÇÃO DE 
POLíTICAS PúBLICAS
Consoante apontado, observa-se que parcela das violações aos direitos 
humanos levadas ao sistema internacional de proteção trazem à tona a existência 
de problemas domésticos que culminam com a reiteração dessas violações. 
Nessas situações a mera reparação não se revela suficiente, tornando-
se necessária a adoção pelo estado envolvido de ações que tenham efetividade 
na solução da origem do problema, evitando a perpetuação da ofensa. Nas 
palavras de Norberto Bobbio “o importante não é fundamentar os direitos 
do homem, mas protegê-los” de modo que “o problema real que temos 
que enfrentar, contudo, é o das medidas imaginadas e imagináveis para a 
efetiva proteção desses direitos” (BOBBIO, 2004, p. 22). Nesse contexto, 
assumem importância as determinações dos sistemas de proteção dos 
direitos humanos que demandam a criação e implementação pelos estados 
de ações qualificadas como políticas públicas. 
Embora bastante abrangente, a conceituação de políticas públicas, 
nas palavras de Maria Dallari Bucci, compreendem “programas de ação 
governamental visando a coordenar os meios à disposição do Estado e as 
atividades privadas, para a realização de objetivos socialmente relevantes e 
unidade indivisível, interdependente e inter-relacionada, capaz de conjugar o catálogo de direitos civis e 
políticos com o catálogo de direitos sociais, econômicos e culturais” (PIOVESAM, 2006, p.13).
Publicações da Escola da AGU 160
politicamente determinados” (BUCCI, 2002, p. 241). Com efeito, tratam-se 
de ações e programas com objetivo de dar efetividade a diretrizes, valores e 
escolhas “conformadoras do sistema jurídico político modelado pela ordem 
constitucional de determinado Estado nacional e também pelas normas 
internacionais constantes nos tratados pelos quais o país ratificou e internalizou” 
(MENEGUETTI, 2016, p. 9).
A necessidade de adoção desses programas de ação governamental tem 
sido apontada pelas decisões oriundas do Sistema Internacional de Proteção dos 
Direitos Humanos como imprescindíveis, uma vez que a ofensa, não obstante 
materializada em um caso referente a um indivíduo, pode estar refletindo 
uma constante na atuação ou omissão na ordem interna do Estado envolvido. 
Essas situações são identificadas nas manifestações dos Sistemas 
Regionais Europeu e Interamericano a seguir examinadas. 
3 ALGUMAS DAS POLíTICAS PúBLICAS RESULTANTES DE DETERMINAÇÕES 
DOS SISTEMAS REGIONAIS EUROPEU E INTERAMERICANO DE PROTEÇÃO 
AOS DIREITOS HUMANOS 
O sistema internacional de proteção dos direitos humanos conta 
com o Sistema Global da ONU e com os sistemas regionais de proteção, 
destacando-se os sistemas da Europa, América e África. 
Embora complementares e não dicotômicos e dotados da perspectiva 
de maximizar a proteção aos direitos humanos, cada um dos sistemas possui 
características particulares e contam com um aparato jurídico próprio, o que, 
contudo, refoge ao objeto deste artigo. Nas próximas linhas serão analisadas 
algumas das manifestações proferidas respectivamente pelo Sistema Regional 
Europeu e pelo Sistema Regional Interamericano de Proteção dos Direitos 
Humanos no que toca à criação e implementação de políticas públicas. 
O Sistema Europeu, atento à reiteração de violações provenientes de 
um mesmo estado e que culminaram por revelar a existência de problemas 
estruturais, criou um instrumental que permitiu não apenas a apreciação 
célere de tais violações, como garantiu o efetivo funcionamento da Corte3, 
uma vez que sua viabilidade começava a se mostrar ameaçada ante o elevado 
número de requerimentos que se intensificaram a partir da adoçãodo 
Protocolo 11 (BUySE, 2009). Trata-se do denominado Julgamento Piloto4, 
procedimento destinado à solução de problemas de abrangência generalizada 
3 A Corte Europeia de Direitos Humanos (ECHR), constituída em 1959, a partir de 1998 com o advento 
do Protocolo 11, passou a admitir o recebimento de petições diretamente dos indivíduos. Disponível em: 
<http://www.echr.coe.int/Documents/Court_in_brief_POR.pdf>. Acesso em: 20 set. 2017.
4 Incluído à Regras da ECHR em fevereiro de 2011, por meio da Regra 61. Disponível em: <http://www.echr.
coe.int/Documents/FS_Pilot_judgments_ENG.pdf>. Acesso em: 20 set. 2017.
Fabiana Guancino Persicotti
Natalya Maria Sales Caboclo 161
por meio da apreciação de um caso isolado dotado de características que 
permitem sua identificação com os demais5. 
Inúmeros pleitos individuais levados à jurisdição da Corte Europeia 
de Direitos Humanos refletem um dissenso constante na ordem interna 
do Estado envolvido, o que traduz uma demanda que vai muito além da 
necessidade de reparação do dano, requerendo a adoção de medidas aptas, 
adequadas e eficientes a solucionar a origem dessas contendas. 
Diversos pronunciamentos da Corte já utilizaram o Julgamento Piloto, 
tendo determinado a adoção pelo Estado signatário envolvido de medidas 
que ultrapassam a reparação do dano e sua compensação e que se revestem 
como verdadeiras políticas públicas de implementação dos direitos humanos.6
O caso italiano “Torreggiani et al v. Itália”7, julgado em janeiro 
de 2013, bem ilustra a adoção dessas medidas. Trata-se do pedido de 
sete prisioneiros detidos nas prisões de Busto Arsizio e Piacenza em que 
argumentavam estarem submetidos a situação degradante em virtude 
do elevado número de detentos e de condições de iluminação e ventilação 
inadequadas, o que culminou por representar ofensa ao Artigo 3º da 
Convenção Europeia dos Direitos Humanos.8 
O pedido foi submetido ao procedimento do Julgamento Piloto por 
ter sido identificada a existência de um problema estrutural no sistema 
prisional italiano, que afetava inúmeros estabelecimentos de detenção e 
não apenas as duas instituições carcerárias envolvidas.
A Corte entendeu pela necessidade de fazer cessar a situação que 
gerava ofensa aos direitos humanos e recomendou à Itália a implementação, 
no prazo de um ano, de medidas internas capazes de solucionar a questão 
afeta à superpopulação das prisões italianas. 
A constatação da existência de um problema estrutural no sistema 
carcerário italiano permitiu conferir larga abrangência às diretrizes 
5 Antonine Buyse em relação ao aumento de demandas dirigidas à Corte Europeia afirma “it is precisely 
because of these high numbers that the Court has started to deal creatively with large-scale violations of 
human rights by way of so-called pilot judgments”. (BUySE, 2009).
6 Não obstante os ganhos oriundos da adoção do Julgamento Piloto, há na doutrina posições que o criticam. 
Nesse sentido Maria Issaeva, Irina Sergeeva e Maria Suchkova, em análise acerca da execução da decisão 
da Corte Europeia na Rússia, apontam que embora possa o Julgamento Piloto solver um grande número 
de pendências, há que se atentar para o risco de lidar com um problema sistêmico complexo de um estado a 
partir do exame isolado de um único caso, o que pode fornecer um arcabouço fático insuficiente à formação 
das adequadas medidas corretivas a serem tomadas na ordem interna dos países envolvidos (ISSAEVA; 
SERGEEVA; SUCHKOVA, 2011).
7 ECHR, Torreggiani e Altri c. Italia. Ricorsi nn. 43517/09, 46882/09, 55400/09, 57875/09, 61535/09, 35315/10 
e 37818/10, 2013. Disponível em: <http://hudoc.echr.coe.int/eng?i=001-115937>. Acesso em: 18 set. 2017.
8 ARTIGO 3°. Proibição da tortura. Ninguém pode ser submetido a torturas, nem a penas ou tratamentos 
desumanos ou degradantes. ECHR, Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Disponível em: <http://
www.echr.coe.int/Documents/Convention_POR.pdf>. Acesso em: 18 set. 2017.
Publicações da Escola da AGU 162
destinadas à Itália com o desiderato de promover a adequação de outros 
estabelecimentos prisionais. Evidencia-se, portanto, na manifestação da 
Corte a clara determinação para que o Estado envolvido adote políticas 
públicas eficazes voltadas à garantia da dignidade da pessoa humana.
Já no Sistema Interamericano - SIDH não há uma ferramenta tal 
qual o julgamento piloto e, diferentemente do Sistema Europeu, naquele 
os pleitos individuais são dirigidos à Comissão Interamericana de Direitos 
Humanos – CIDH, remetendo-se à Corte Interamericana – Corte IDH 
apenas os casos de violação aos direitos humanos enviados diretamente 
pelo Estado ou pela Comissão. Portanto, a influência das manifestações do 
SIDH na ordem doméstica dos Estados se verifica tanto em decorrência 
das emanações da Comissão como da Corte IDH. 
O SIDH possui como principal fundamento a Convenção Americana 
- CADH9 que, além de prever os direitos que devem ser respeitados pelos 
Estados signatários, criou os dois órgãos acima referidos. 
Cabe à Comissão10 a formulação de recomendações aos Estados, 
a publicação de suas conclusões sobre os distintos casos de violações aos 
direitos humanos, bem como a indicação de uma ação contra um Estado em 
representação da vítima perante a Corte Interamericana, tendo em vista que, 
diferentemente do sistema europeu, as pessoas físicas e organizações não têm 
legitimidade para ingressar diretamente com uma queixa perante a Corte 
Interamericana. Já à Corte IDH11, cabe receber da Comissão ou dos Estados 
casos individuais sobre violações aos direitos instituídos pela Convenção, 
prolatando as sentenças correspondentes e emitindo opiniões às petições de 
consulta formuladas pelos Estados-parte da OEA ou pela Comissão.
Dentre as políticas públicas determinadas pelo SIDH em relação 
ao Brasil, pode-se apontar as resultantes dos casos Ximenes Lopes, no 
qual o Brasil foi condenado pela Corte IDH e do caso Maria da Penha, 
no qual a Comissão elaborou recomendações ao Estado Brasileiro, por 
meio do Relatório 54/01.12
O caso Ximenes Lopes constitui a primeira condenação do Brasil por 
violações de direitos humanos pela Corte - IDH. A condenação resultou da 
morte de Damião Ximenes Lopes em uma clínica psiquiátrica, vítima de 
9 Também denominada Pacto de San José da Costa Rica, ratificado pelo Brasil pelo Decreto 678 de 06 de 
novembro de 1992.
10 Artigo 44 da CADH: Qualquer pessoa ou grupo de pessoas, ou entidade não-governamental legalmente 
reconhecida em um ou mais Estados membros da Organização, pode apresentar à Comissão petições que 
contenham denúncias ou queixas de violação desta Convenção por um Estado Parte.
11 Artigo 61 da CADH: 1. Somente os Estados Partes e a Comissão têm direito de submeter caso à decisão 
da Corte.
12 Disponível em: <http://www.sbdp.org.br/arquivos/material/299_Relat%20n.pdf>. Acesso em: 09 set. 2017.
Fabiana Guancino Persicotti
Natalya Maria Sales Caboclo 163
tortura e maus-tratos. A sentença proferida, além de condenar o Brasil a 
reparar pecuniariamente as vítimas, determinou que o Estado continuasse a 
Desenvolver um programa de formação e capacitação para o pessoal 
médico, de psiquiatria e psicologia, de enfermagem e auxiliares de 
enfermagem e para todas as pessoas vinculadas ao atendimento de 
saúde mental, em especial sobre os princípios que devem reger o trato 
das pessoas portadoras de deficiência mental, conforme os padrões 
internacionais sobre a matéria13. 
Dentre as medidas implementadas o Brasil editou a Lei 10.216/2001 
que implantou uma rede de serviços de atenção diária em saúde mental de base 
territorial e integração dos pacientes às respectivas famílias e comunidade.14 
O caso Maria da Penha também implicou na criação de políticas 
públicas, mas resultante de determinação da Comissão envolvendo a questão 
da violência doméstica.15A Comissão responsabilizou o Brasil por negligência 
e omissão em relação à violência doméstica e recomendou a adoção de várias 
medidas, dentre elas a de “prosseguir e intensificar o processo de reforma, a 
fim de romper com a tolerância estatal e o tratamento discriminatório com 
respeito à violência doméstica contra as mulheres no Brasil”.16 
Como resposta às recomendações, em 24 de novembro de 2003 foi 
editada a Lei 10.778 que determina a notificação compulsória no território 
nacional de casos de violência contra a mulher que for atendida em serviços 
de saúde públicos ou privados. Em 07 de agosto de 2006 foi publicada a 
Lei 11.340, conhecida como “Lei Maria da Penha” criando mecanismos 
para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher. 
Nos casos examinados se verificou uma resposta dos Estados às 
determinações exaradas pelos órgãos de proteção internacional de direitos 
13 Disponível em: <http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_149_por.pdf>. Acesso em: 07 set. 2017.
14 Cássia Maria Rosato e Ludmila Cerqueira Correia apontam que “A referida lei somente foi aprovada após 
doze anos de tramitação no Congresso Nacional, o que permite afirmar que o Caso Damião Ximenes 
contribuiu para acelerar o processo de aprovação da mesma, no sentido de o Brasil dar respostas à demanda 
internacional apresentada perante a CIDH no ano de 1999” (ROSATO; CORREIA, 2011, P. 16).
15 Trata-se de denúncia formulada pela Sra. Maria da Penha Maia Fernandes, pelo Centro pela Justiça e 
pelo Direito Internacional (CEJIL) e pelo Comitê Latino Americano de Defesa dos Direitos da Mulher 
(CLADEM) perante a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Alegava-se a tolerância do Brasil 
para com a violência cometida pelo cônjuge durante os anos de convivência matrimonial, que culminou 
numa tentativa de homicídio e novas agressões em maio e junho de 1983. Maria da Penha em decorrência 
dessas agressões sofre de paraplegia irreversível e outras enfermidades desde esse ano. CIDH, Relatório 
Anual 2000, Relatório n. 54, 2001. Caso 12.051. Disponível em: <http://www.sbdp.org.br/arquivos/
material/299_Relat%20n.pdf>. Acesso em: 19 set. 2017.
16 Comissão Interamericana de Direitos Humanos – OEA, Informe 54/01, caso 12.051, Maria da Penha Fernandes v. 
Brasil, 16/04/01, parágrafos 54 e 55. Disponível em: <http://www.cidh.oas.org/annualrep/2000port/12051.htm>.
Publicações da Escola da AGU 164
humanos. Contudo, a adoção das recomendações e condenações não é uma 
constante, não sendo raras as situações em que os estados se furtam de 
cumpri-las, o que que se revela preocupante ante a ausência de mecanismos 
eficazes de coercibilidade. 
4 CUMPRIMENTO DAS DETERMINAÇÕES INTERNACIONAIS: AUSÊNCIA 
DE COERCIBILIDADE
Se de um lado consagrou-se o reconhecimento dos Direitos Humanos 
como um valor a ser efetivamente tutelado pelos Estados e pela comunidade 
internacional, de outro, busca-se meios para que tais valores sejam 
efetivamente protegidos, contornando-se entraves e resistências dos Estados. 
A sociedade internacional, composta por Estados em paridade de 
condições jurídicas, não se submete a nenhum poder supranacional capaz 
de regulá-la. Essa a razão da doutrina comumente apontar como um dos 
principais obstáculos à submissão das decisões das cortes internacionais 
a questão relacionada à soberania estatal, que poderia estar mitigada 
ante a intervenção do Direito Internacional na ordem interna. Defende-
se, contudo, que esse instituto deve ser revisitado para se amoldar à 
necessidade de coexistência da independência dos Estados em harmonia 
com a comunidade internacional e com os valores que merecem proteção. 
Nesse rumo, a noção de soberania tem evoluído para se amoldar à 
nova configuração da comunidade internacional de modo a permitir que 
haja permeabilidade da ordem interna dos Estados não apenas em relação 
às disposições normativas de tratados internacionais, dos quais os Estados 
são signatários, como também pela normatividade das decisões oriundas 
dos Sistemas Internacionais de Direitos Humanos. Nesse sentido, José 
Augusto Lindgren aponta que um Estado ao aderir a uma convenção 
internacional de direitos humanos, submete-se voluntariamente à sua 
normatividade e “abdica soberanamente de uma parcela da soberania em 
sentido tradicional, obrigando-se a reconhecer o direito da comunidade 
internacional” (ALVES, 2003, apud TAIAR, 2009, p. 266).
Mas se a soberania se mostra como um obstáculo à permeabilidade 
dos Estados ao Direito Internacional, ainda que superada, há outros que 
se refletem em um momento posterior, quando da efetiva proteção dos 
direitos humanos oriunda das manifestações da jurisdição internacional. 
Não se trata, portanto, do reconhecimento da jurisdição internacional, 
mas do eficaz cumprimento de suas decisões. Flavia Piovesan afirma que 
o grande desafio do Direito Internacional sempre foi o de adquirir “garras 
e dentes”, ou seja, poder e capacidade sancionatórios (Piovesan, 2003, 
p. 23). Norberto Bobbio ensina que as atividades implementadas pelos 
Fabiana Guancino Persicotti
Natalya Maria Sales Caboclo 165
organismos internacionais para a proteção dos direitos humanos podem 
ser consideradas sob três aspectos, quais sejam, a promoção, o controle 
e a garantia de modo que esta última corresponde a uma autêntica tutela 
jurisdicional de nível internacional que tenha capacidade de se impor e 
sobrepor sobre às jurisdições nacionais (BOBBIO, 2004, p. 23)17. 
Mas a comunidade internacional ainda está longe desse passo. Com 
efeito, a normatividade das decisões oriundas dos Sistemas Internacionais 
de Proteção dos Direitos Humanos ainda encontra resistência à efetiva 
integração à ordem interna dos Estados. Ao abordar o assunto relativamente 
à Corte Interamericana de Direitos Humanos, Antônio Augusto Cançado 
Trindade aponta que “é de se esperar que os Estados Partes busquem equipar-
se para assegurar a fiel execução das sentenças da Corte Interamericana”, 
prossegue afirmando que o nível de cumprimento se deve, sobretudo à boa-fé 
e lealdade processual dos Estados (TRINDADE, 2001, p. 21). 
A ausência de sanções contundentes é um dos fatores que impactam 
diretamente no eficiente implemento das determinações e diretrizes 
estampadas em tais deliberações. No mesmo sentido, Isabela Garbelli 
Ramanzini afirma que: 
O cumprimento das sentenças prolatadas pela Corte IDH enfrenta 
um desafio que decorre da própria natureza do direito internacional: 
a falta de poder coercitivo (enforcement) das normas internacionais. 
A ausência de uma norma superior, que subordine e imponha limites 
à atuação dos Estados no plano internacional, somado ao princípio da 
soberania dos Estados, repercute na atividade jurídica dos tribunais 
internacionais e, portanto, da Corte IDH no sistema regional. Embora 
o sistema interamericano de direitos humanos seja um regime de 
direito, não se pode negar seu caráter político, principalmente no 
que diz respeito aos elementos que tornam possível a aplicação das 
recomendações da CIDH e o cumprimento das sentenças da Corte 
IDH. (RAMANZINI, 2014, p. 86).
Grande parte do cumprimento das decisões oriundas do Sistema 
Internacional de Proteção deve-se ao efetivo comprometimento do Estado, 
a boa fé e lealdade. Esse dado é corroborado pela análise levada a efeito 
por Fernando Basch18 em relação às decisões e recomendações oriundas 
17 Norberto Bobbio aponta que “as formas de garantia internacional são mais evoluída hoje nos casos em que 
são mais evoluídas as garantias nacionais, ou seja, a rigor, nos casos em que são menos necessárias”. E diz 
“não há dúvidas de que os cidadãos que têm mais necessidade de proteção internacional são os cidadãos dos 
Estados de não Direito” (BOBBIO, 2004, p. 24).
18 Trata-se de pesquisa desenvolvida com a finalidade de, mediante o exame das determinações

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