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Introdução à esquizoanálise Baremblitt 2003

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Introdução à Esquizoanálise 
Gregório Baremblitt 
 
Belo Horizonte: Biblioteca Instituto Félix Guattari, 2003, 138p 
 
2.edição 
 
 
 
 
 
 
 
Baremblitt, Gregório [2003]. Introdução à Esquizoanálise 2.ed, Belo Horizonte: 
Biblioteca Instituto Félix Guattari, 2003, 138p 
 
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Apresentação – 2.a Edição 
É com gratidão e satisfação que o Instituto Felix Guattari de Belo Horizonte apresenta 
a segunda edição do "Introdução à Esquizoanálise" de Gregorio F. Baremblitt. 
Os exemplares da primeira edição se esgotaram com uma rapidez que não 
esperávamos, e os leitores, especialmente alunos universitários, os de nossos cursos e 
outros interessados na obra de Deleuze e Guattari nos solicitaram uma ampliação da 
mesma. Essa estimulante demanda fez com que a presente edição seja de um nÚmero 
limitado de exemplares e possa ser considerada como preliminar de uma terceira, 
muito mais extensa, que está no prelo. 
O autor considerou necessário acrescentar a essa segunda edição um apêndice no qual 
se trata de temas, preferencialmente incluídos em "Mil Platôs", que foram pouco 
desenvolvidos na primeira. 
Fazemos presente aqui nosso agradecimento ao staff do Instituto Felix Guattari pela 
eficiente e generosa colaboração nas tarefas de tradução, correção e montagem do 
presente texto, assim como por valiosas sugestões recebidas para o conteÚdo do 
mesmo: Oalva A . Lima, Érika Rianni, Irene Ferreira do A . Oliveira, Luciana Tonelli, 
Neuza Beatriz H. G. Pereira e Patrícia Ayer de Noronha. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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In Memoriam de Felix Guattari* 
Este evento é especialmente emocionante para mim por vános motivos. Ele é 
emocionante no sentido das emoções entusiásticas, porque as idéias de Guattari têm 
sido fundamentais em minha formação e, como pretendo explicar, também em minha 
vida cotidiana, pessoal. 
Mas também é um momento duplamente triste porque estarnos reunidos para 
prestar homenagem a uma figura que faleceu em uma idade e com uma vitalidade que, 
fazia-nos pensar, poderíamos aguardar muito ainda de sua capacidade produtiva. Por 
outro lado, uma grande amiga nossa, Sonízia Maria de Castro Máximo, que foi a 
gestora de todo esse encontro, também faleceu, de forma ãbsolutamente inesperada, 
vítima de um acidente de trânsito: Sendo assim, hoje estou aqui para falar a vocês no 
marco da perda de dois grandes amigos, e tentaremos transformar esta situação de luto 
em, pelo menos, um encontro produtivo, que nos permita superar essa tristeza. 
Felix Guattari, em uma vida relativamente breve, conseguiu desenvolver 
tantas atividades, produzir tanto, criar tanto, que falar acerca desta vida, em um tempo 
curto, é uma tarefa quase impossível. Mas faço questão de falar de todas e de cada 
uma das coisas que ele fez, embora apenas mencionando-as, enumerando-as. Eu acho 
que, entre todos os méritos que Guattari tem ou teve, o fundamental é o de fazer ver 
ao mundo, este mundo um tanto cético, um tanto decepcionado no qual nós vivemos, 
este mundo utilitarista, pragmatista (no mal sentido da palavra), este mundo, em 
muitos sentidos, medíocre e cínico, que é possível viver de uma maneira produtiva, de 
uma maneira brilhante, de uma maneira heróica. Não dentro das modalidades do 
heroísmo revolucionário clássico, mas abrindo a perspectiva de um novo tipo de 
heroísmo... um heroísmo mais amoroso, mais moderado, como Guattari mesmo o 
chamou, em algum livro, "uma nova suavidade". Então, parece-me importante 
detalhar tudo o que Guattari fez, porque uma das queixas que eu formulo, e que sei 
que muitas pessoas formulam em nosso meio, é de que "não têm tempo" para fazer 
grandes coisas. É interessante poder 
Conferência proferida por Gregorio F. Barcmblitt na Aliança Francesa em 26/1 0/92, 
como homenagem póstuma a Felix Guattari. 
 
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exaltar, poder examinar a vida de uma pessoa que tinha tanto ou menos . tempo que 
nós. E, sem dúvida, foi capaz de fazer uma quantidade de coisas que deixaram o 
mundo diferente depois de ele ter passado por onde passou. 
Guattari faleceu aos sessenta e dois anos de idade, na noite de 28 de agosto 
passado, no hospital onde ele trabalhava muitos anos, desempenhando tarefas 
clínicas. Ele nasceu em trinta de abril de mil novecentos e trinta, em Colombes, 
França. Sua escolaridade foi muito irregular e difícil. Estudou farmácia e filosofia, 
mas não conseguiu formar-se em nenhum desses dois cursos. Na Segunda Guerra 
Mundial participou de um movimento destinado a construir albergues juvenis, 
moradias para os refugiados de guelTa. Dentro de suas tarefas políticas, ele teve 
contato com muitas figuras intelectuais da França, e se encontrou com duas 
especialmente importantes. Uma, a do trabalhador em saúde mental de orientação 
anarquista e libertária, François Tosquelles, que tinha imigrado da Catalunha, no 
tempo da guerra civil. E com Jean Oury, um grande psiquiatra francês. Por outro 
lado, Guattari tinha descoberto as idéias de outro grande psiquiatra, Franz Fannon, 
um psiquiatra argelino, que posteriormente chegou a ser Ministro da Saúde Pública 
da Argélia, autor daquele grande livro "Os Condenados da Terra". 
Jean Oury, Guattari e outros acharam um castelo em ruínas e, fazendo 
uma reforma do mesmo, construíram uma célebre clínica psicoterapêutica e 
psiquiátrica denominada "La Borde", que se transformou em um verdadeiro campo 
experimental para uma série de propostas psiquiátricas modernas, alternativas e até 
revolucionárias, que continua existindo e sendo uma fonte de inspiração para todos 
os movimentos alternativos psiquiátricos do mundo. 
Guattari militou na Juventude Comunista, mas foi expulso por sua 
oposição aos acontecimentos de Budapeste e à política do Partido Comunista na 
Argélia. Participou na organização de ajuda à "Frente de Libertação Nacional 
Argelina". Escreveu para um periódico comunista relacionado com a Liga 
Comunista e com as organizações marxistas e anarquistas. Interessou-se p-ela 
Psicanálise e se analisou com o professor Jacques Lacan durante sete anos. 
Pertenceu à Escola Freudiana de Paris, que, como veremos mais para a frente, teve 
vários dissidentes, mas nenhum destes chegou a questionar a razão da existência 
dessa escola, 
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ou seja, a Psicanálise em si mesma. Guattari fundou a Federação de Grupos de Estudo 
e Pesquisa Institucional, ou seja, uma enorme corrente que reunia experts de diferentes 
disciplinas, antropólogos, sociólogos, economistas, etc., que se ocupavam em estudar 
as instituições. Guattari fundou também a revista "Recherche", que teve um papel 
importantíssimo na, divulgação das idéias institucionalistas. Em 1966, organizou um 
jornal e um grande agrupamento que se denominou "Oposição de Esquerda". 
Participou também da redação das novas teses da "Oposição de Esquerda", propondo 
uma ética militante que reunia os descontentes de todos os partidos políticos de 
esquerda, particularmente da Liga Trotskista e do Partido Comunista Francês. 
Participou na operação de ajuda ao povo do Vietnã na guerra contra os Estados 
Unidos. Em 1967 foi um dos fundadores da Organização de Solidariedade com a 
Revolução Latino-americana, organização esta do intelectual Régis Debray, que 
estava preso na Bolívia. Em maio de 1968, Guattari associou-se a vários setores 
protagonistas desse impQrtantíssimo fato histórico e participou, pessoalmente, de uma 
das manobras táticas que foi a ocupação do teatro Odeon. Fundou o CEPFI – Centro 
de Estudos e Pesquisas de Formação Institucional, centro esse que publicou obras tais 
como "Genealogia dos Equipamentos Coletivos", "O ideal militante", etc. Dentre suas 
publicações na Revista "Recherche", uma