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Um Estudo Enunclatluo
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Eduardo Guimaráes
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30/11/11 R$10,87
Copyright @ Eduardo Guimarães
Indices para catálogo sistemático:
PONTES EDITORES
|1 P. Arlindo Joaquim de Lemos, 133313100-451 Campinas Sp Brasil
Fone (19) 3252.6011
Fax (19)32s3.0769
ponteseditores@ponteseditores. com. br
2005
Impresso no Brasil
Ernesto Guimarães
Capa: Eckel Wayne
sores da pontes Editores
Dados Internacionais de Catatogação na publicação (CIp)
Câmara Brasileira do Livro, Sp, Brasil
Guimarães, Eduardo
Semântica do acontecimento: um estudo enunciativo
da designação / Eduardo Guimarães _ Curnpinu., õp ,Pontes, 2" edição, 2005.
Bibliografia.
ISBN 85-71 I3_161_9
l. Lingüistica 2. Nomes de rua 3. Nomes geográficos
4. Nomes pessoais 5. porruguês _ semântica i. iit"l"
02-007 5 cDD-469.2
SUMARIO
APRESENTAÇÃO 
.....
TNTRODUÇÃo..........
C¡piruto I
ENTiNCIAçÃO B ACONTECTMENTO 
...
Ctpiruro II
O NOME PRÓPRIO DE PESSOA
C,qpírurc III
NOMES DE RUA
It
CtpÍrurc IV
NOMES DE RUA E O MAPA COMO TEXTO
C,qpiruro V
NOMES DA CIDADE
C¿pirurc VI
A CIDADE E OS NOMES DE ESPAçO 
....
CONCLUSÃO 
.......
BIBLIOGRAFIA...
5
7
l' Designação : Estudo enunciativo : Semântica : português : Lingüística 469.22. Nomes ; Sentido : Semântica : português , fi.rgi;Lìi"u +Ol.Z
11
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Caixa de texto
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APRESENTAÇAO
Como para todo semanticista, a questão da relação das palavras
com o mundo sempre rondou meus interesses. Esta questão se pôs para
mim pela via dos estudos argumentativos. Para esta posição o sentido das
expressões lingüísticas não é referencial, ou seja, não pode se apresentar
a partir do conceito de verdade. Neste sentido, as expressões lingüísticas
significam no enunciado pela relação que têm com o acontecimento em
quefuncionam.
Coloco-me deste modo, numa posição materialista, junto com aque-
les que não tomam a linguagem como transparente, considerando que sua
relacão com o real é histórica.
A partir do início dos anos 90 do século XX, ou seja, há pelo menos
dez anos, {ediquei-me ao estudo das questões relativas ao domínio da de-
signação e referência na linguagem. Inicialmente meu interesse se deveu ao
estudo da questão da cidadania nas constituições brasileiras. O que me
levou a analisar a designação de palavras como cidadão e república nos
diversos textos constitucionais da história do Brasil, motivo de viírios tex-
tos publicados nestes últimos 10 anos. Neste momento desenvolvi uma
primeira abordagem da questão dos nomes próprios e de sua relação com
os nomes comuns. Estes estudos eu os apresentei, no início dos anos 90, em
cursos na Pós-graduação de Lingüística do Instituto de Estudos da Lingua-
gem da Unicamp. Isto produziu, desde então, o envolvimento de outras pes-
soas nesta via de reflexão enunciativa para os problemas da designação.
Neste período meus contatos com outros países da América Lati-
na e com a lJnemat, em Cáceres, me levou a refletir mais especifica-
mente sobre as relações do Brasil com a América Latina, e sobre as
relações das línguas do Brasil (reflexão que venho fazendo como mem-
bro do Projeto História das Idéias Lingüísticas no Brasil: Ética e Polí-
tica de Línguas). Isto fqi decisivo para a melhor configuração do con-
ceito de espaço de enunciação.
5
Envolvido nos projetos do Laboratório de Estudos Urbanos da
Unicanp, levei este meu interesse para os estudos das palavras da cida-
de: cidade, município, comarca, rua, nomes de ruas, etc. E aqui a questão
dos nomes próprios acabou por assumir um lugar muito significativo.
Neste livro estarão presentes muitos aspectos deste percurso, pelo
qual espero poder contribuir para uma reflexão sobre os nomes e seus
sentidos configurada no interior de uma concepção enunciativa e históri-
ca da linguagem.
INTRODUÇAO
Colocar-se na posição do semanticista é inscrever-se num domínto
de saber que inclui no seu objeto a consideração de que a linguagem fala
de algo. Pour outro lado, não há como pensar uma semântica lingüística
sem levar em conta que o que se diz é incontornavelmente construído na
linguagem.
E no espaço conformado por estas duas necessidades que procura-
rei configurar o que é para mim uma semântica do acontecimento. Ou
seja, uma semântica que considera que a análise do sentido da linguagem
deve localizar-se no estudo da enunciação, do acontecimento do dizer'
Por outro lado, considerando aprópriaoperação de análise, tomar
o ponto de vista de uma semântica lingüística é tomar como lugar de
observação do sentido o enunciado. Deste modo, saber o que significa
uma fornia é dizer como seu funcionamento é parte da constituição do
sentido do enunciado. Mas para mim, considerar o processo no qual uma
forma constitui o sentido de um enunciado é considerar em que medida
esta forma funciona num enunciado, enquanto enunciado de um texto.
Ou seja, não há como considerar que uma forma funciona em um enunci-
ado, sem considerar que ela funciona num texto, e em que medida ela é
constitutiva do sentido do texto.
Deste modo, procuro ttilizar aqui o que Benveniste (1966)t consi-
derou como o movimento intregrativo de uma unidade lingüística. Para
ele esta relação (integrativa) dá o sentido da unidade. Ou seja, o sentido
de um elemento lingüístico tem a ver com o modo como este elemento faz
parte de uma unidade maior ou mais ampla. Vê-se que ao fazer este uso
da relação integrativa, a despeito de Benveniste ter dito que ela não per-
mitia passar do limite do enunciado, estou dizendo que há uma passagem
do enunciado para o texto, para o acontecimento, que não é segmental' E
esta é a relação de sentido.
76
l. Em "Os Níveis da Análise Lingüística"
Tratar a enunciação, coloca de saída a questão do sujeito que enun-
cia, e assim a questão do sujeito na linguagem. E para os meus propósi-
tos isto deve levar a uma recolocação do lugar dos estudos da enunciação
num espaço distinto do que eles tiveram ou têm ainda em certas de suas
formulações. Para mim o tratamento da enunciação deve se dar num es-
paço em que seja possível considerar a constituição histórica do sentido,
de modo que a semântica se formule, claramente, como uma disciplina do
campo das ciências humanas, fora de suas relações com a lógica ou a
gramática pensadas ou como o matematizável ou como uma estrutura
biologicamente determinada.
Este trabalho mantém assim um diálogo com domínios como a filo-
sofia da linguagem, notadamente a teoria dos atos de fala, apragmâtica,
a semântica argumentativaz. Por outro lado mantém também um diálogo
decisivo com a Análise de Discurso tal como praticada no Brasil3 e que
se organiza e desenvolve a partir dos trabalhos de Pêcheux.
Mais especificamente, tomo a enunciação como um acontecimento
no qual se dá a relação do sujeito com a língua. A questão é como descre-
ver e analisar esta relação.
Ao lado de tratar o sentido tal como acima exponho, vou considerar
a questão do político na linguagem, tômando como lugar de reflexão o
domínio da semântica, mais especificamente o domínio dos estudos da
enunciação. Isto quer dizer que para mim enunciar é uma prática política
em um sentido muito preciso, que procurarei apresentar a seguir, no pri-
meiro capítulo. Tanto a noção de político, que vou fazer operar aqui,
quanto minha concepção de sentido são pensadas historicamente e não
como uma açãoparticular numa situação particular.
Como objeto específico de reflexão vou estudar a designação,
constitutiva do sentido dos nomes. De um lado tratarei de nomes pró-
prios, ou seja, nomes que se apresentam como nomes de objetos úni-
cos. Para isso vou deter-me no estudo dos nomes próprios de pessoa e
dos nomes de ruas. Quero, ao tomar estes objetos de análise, enfren-
tar diretamente, em análises específicas, nomes que poderiam levar,
com alguma facilidade, a uma concepção segundo à qual estes nomes
funcionam meramente por suas relações com os objetos únicos que
nomeiam.
2. NestalinhadefiliaçãolembroBréal(1897),Bally(1932),Benvenisre(1966, 1974),Ducrot
(1972,1973,1984); Austin (1962),Grice(1957,t96j), Seæle (1969); entre ourros.3. Tal como ap¿rece na obra de E. Orlandi (ver, por exemplo, Orlandi (1983,1990,1992,
t996,1e99)).
Por outro lado vou me ocupar do estudo de um conjunto de nomes
comuns, que procurarei, de alguma forma, ligar à problemática dos no-
mes próprios aqui estudados. Vou estudar a designação de nomes como
cidade, nrunicípio, contarca, rua, ruela, nxorro.
O centro de meu interesse é o estudo do funcionamento dos nomes, e
especificamente da designação. Para configurar o que considero designação
vou distinguir esta palavra num conjunto de palavras muitas vezes usadas
umas pelas outras, ou distinguidas de modos diferentes dependendo do autor
ou da posição de cada um. Nonteação, designação, referência, denotação,
por exemplo, e palavras correlatas, são muitas vezes usadas como sinônimas
e às vezes como diferentes. Basta ver como denotaçcn pc/le ser usada como
sinônima ou não de designnção e referênclc. Vou aqui usar designação como
distinta de nomeação e de referência (denotação).
Anomeação é o funcionamento semântico pelo qual algo recebe um
nome (não vou aqui discutir este processo). A designação é o que se
poderia chamar de signifìcação de um nome, mas não enquanto algo abs-
trato. Seria a significação enquanto algo próprio das relações de lingua-
gem, mas enquanto uma relação lingüística (simbólica) remetida ao real,
exposta ao real, ou seja, enquanto uma relação tomada na história. É
neste sentido que não vou tomar o nome como um palavra que classifica
objetos, incluindo-os em certos conjuntos. Vou considerar, tal como con-
sidera Rancière (1992), que os nomes identificam objetos. Hipótese que
me intereqsafortemente tanto para os nomes comuns, como para os no-
mes próprios> como se verá. A referência será vista como a particulari-
zação de algo na e pela enunciação.
Se, do ponto de vista da filosofia e da lógica, a consideração da
linguagem diz respeito a que é preciso saber como uma expressão lin-
güística se relaciona inequivocamente com aquilo que ela significa (refe-
re), para a lingüística, e especificamente para a semântica lingüística, a
questão não é necessariamente essa.
Para a semântica lingüística o que interessa é saber, no que diz res-
peito à relação da linguagem com as coisas, como ao dizer algo fala-se
das coisas. Ou seja, a questão não é ontológica mas simbólica. Não pode-
mos esquecer de lembrar aqui que no nascimento da lingüística moderla
Saussure separou de modo absoluto estas duas questões (a lingüística e a
da relação com as coisas).
De certo modo pode-se ver, no que diz respeito à relação da lin-
guagem com o mundo, um debate diretamente afetado pela lógica. E
os problemas são consiilerados segundo tragamdificuldades próprias
para as hipóteses de unicidade e existência vindas desta disciplina.
8 9
Diante, por exemplo, de nomes como Super-homem, unicórnio em
frases como o unicórnio não existe, ou se admite que estes nomes têm
sentido, e assim se é levado a considerar como não tendo valor de
verdade uma frase claramente verdadeira, ou admite-se que estas ex-
pressões não têm nelas nenhum sentido, e tudo que uma expressão
referencial faz é, numa dada frase, denotar um objeto. Ou seja, toda a
significação é redtzida à referênciaa.
No entanto nada impede que tenhamos, como lingüistas, que res-
ponder como se pode falar de alguém, que não é um jogador de tênis,
dizendo o jogador de ránis. Assim como é perfeitamente possível falar de
uma mesma coisa usando expressões como meu carro e aquele carro da
esquerda, ao mesmo tempo em que a segunda expressão pode ser usada
para falar de um carro que não é meu e a primeira, em princípio, não.
Um outro aspecto importante aqui. O que significa dizer qlue o nome
próprio não tem sentido (tal como diz Russell)? Esta é uma solução que
esfâligada ao referencialismo e empirismo de sua posição e assim leva a
pensar que à linguagem cabe só indicar (de modo transparente) as coisas
existentes. Esta solução não considera que as coisas existentes são referi-
das enquanto significadas, e não simplesmente enquanto existentes. E é
isso que tomar a questão pela lingüística permite considerar. E, assim, a
partir do fato semântico de que as coisas são referidas enquanto
significadas e não enquanto simplesmente existentes, podemos conside-
rar que é possível referir porque as coisas são significadas e não simples-
mente existentes. Podemos referir algo com a palavra pedra porque a
linguagem significa o mundo de tal modo qte identificd os seres em vir-
tude de significá-los. E é isso que torna possível a referência a um ser
particular entre os seres assim identificados. É este tipo de questão que
queremos discutir ao estudar aqui a designação.
4. Esta discussão se dá entre, por exemplo, as posições de Frege e Russell.
C¡pírurc I
ENUNCIAÇAO E ACONTECIMENTO
A enunciação, enquanto acontecimento de linguagem, se faz pelo
funciönamento da língua. Inscrevo minha posição numa linha de filiações
próximas que passa por Benveniste (1970), em "O Aparelho Formal da
Enunciação",paraquem a enunciação é a língua posta em funcionamen-
to pelo locutor, e por Ducrot (1984), em "Esboço de uma Teoria Polifônica
da Enunciação",paÍaquem a enunciação é o evento do aparecimento de
um enunciado. Para mint' a questão é como tÍatar a enunciação como
funcionamento da língua sem remeter isto a um locutor, a uma centralidade
do sujeito.
Dois elementos são decisivos para a conceituação deste aconteci-
mento deJinguagem: a língua e o sujeito que se constitui pelo funciona-
mento da'lírigua na qual enuncia-se algo. Por outro lado, um terceiro
elemenio decisivo, de meu ponto de vista, na constituição do aconteci-
mento, é sua temporalidade. Um quarto elemento aindaé o real a que o
dizer se expõe ao falar dele. Não se trata aqui do contexto, da situação,
tal como pensada na pragmática, por exemplo. Trata-se de uma
materialidade histórica do real. Ou seja, não se enuncia enquanto ser
físico, nem meramente no mundo físico. Enuncia-se enquanto ser afetado
pelo simbólico e num mundo vivido através do simbólico.
1. ACONTECIMENTO E TEMPORALIDADE
Considero que algo é acontecimento enquanto diferença na sua pró-
pria ordem. E o que caracterizaa diferença é que o acontecimento não é
um fato no tempo. Ou seja, não é um fato novo enquanto distinto de
qualquer outro ocorrido antes no tempo. O que o caracteriza como dife-
rença é que o aconteciryento temporaliza. Ele não está num presente de
10
5. Ver Guimarães (1989 e 1995)
11
um antes e de um depois no tempo. O acontecimento instala sua própria
temporalidade: essa a sua diferença.
Antes de falar de como se dá a temporalidade do acontecimento, gos-
taria de recusar aqui a posição benvenistiana6, segundo à qual o tempo da
enunciação se constitui pelo locutor ao enunciar. Ou seja, o presente do
acontecimento não é, para mim, como quer Benveniste, o tempo no qual o
locutor diz eu e enuncia, a partir do qual se organizam um passado (um
antes) e um futuro (um depois), constituindo-se assim, a partir do Eu, uma
linha de sucessividade. O que quero dizer é que não é o sujeito que
temporaliza, é o acontecimento. O sujeito não é assim a origem do tempo
da linguagem. O sujeitoé tomado na temporalidade do acontecimento.
E o que é esta temporalidade? De um lado ela se configura por um
presente que abre em si uma latência de futuro (uma futuridade), sem a
qual não há acontecimento de linguagem, sem a qual nada é significa-
do, pois sem ela (a latência de futuro) nada hâ aí de projeção, de
interpretável. O acontecimento tem como seu um depois incontornável,
e próprio do dizer. Todo acontecimento de linguagem significa porque
projeta em si mesmo um futuro.
Por outro lado este presente e futuro próprios do acontecimento fun-
cionam por um passado que os faz significar. Ou seja, esta latência de
futuro, que, no acontecimento, projeta sentido, significa porque o aconte-
cimento recorta umpassado como memorável.
A temporalidade do acontecimento constitui o seu presente e um
depois que abre o lugar dos sentidos, e um passado que não é lembran-
ça ou recordação pessoal de fatos anteriores. O passado é, no aconteci- .
mento, rememoração de enunciações, ou seja, se dá como parte de uma
nova temporalização,tal como a latência de futuro. É nesta medida que
o acontecimento é diferença na sua própria ordem: o acontecimento é
sempre uma nova temporalização, um novo espaço de conviviabilidade
de tempos, sem a qual não há sentido, nãohâ acontecimento de lingua-
gem, não há enunciação.
Tomemos para ilustrar nosso ponto de vista o índice de uma revista.
Vou utilizar aqui uma parte do índice da Revista Vejade l7 de janeiro de
2001, especificamente sua Seção Brasll:
São Paulo
Justiça
Congresso
A doença marca as aparições públicas de Covas............36
Caso do ktlau abre a discussão sobre a prisão especial...39
Sucessão napresidência da Câmara e do \enado...............40
6. Benveniste (1974a),"A Linguagem e a Experiência Humana"
Municípios
Fórunt
Minas Gerais
Igreja
Acre
CPI
Receila
Privatização
P reþitos deixarant as cfula.des deperutdas.......................42
O s anticapitalistas se reúnem no 9ul............................44
A tenente diz que não está mais com 1tanm........45
Boctlo sobre rcnuatce afasta patlre de paróquia clique.,46
O plano paranlatar o governador Jorge Vana.........47
P e r g unt a s hil ári as do s de p utatlo s s o b re fut e b o1....... 47
Decreto escatxcara o sigilo bancário........................48
Umnegócio da China..... .....................49
Uma análise tradicional deste índice procuraria observar seu aspec-
to meramente informativo. Ou seja, o índice diz ao leitor quais são as
matérias da revista e em que páginas elas estão.
Do meu ponto de vista há aí bem mais do que isso. De um lado as
matérias aparecem como sendo de uma seção específica, "Brasil", entre
outras ("Internacional, Geral, Economia e Negócios, Guia, Artes e Espetá-
culos"). Sem utilizar aqui categorias de análise específicas, podemos dizer
que o que se diz na primeira coluna do índice pode ser considerado como o
dizer de um locutor que categoriza os espaços da revista, ao passo que a
segunda coluna é um dizer de um locutor que toma os títulos de matéria (á
enunciados por outros locutores) e indica suas páginas iniciais. Deste modo
o presente do acontecimento deste índice é o tempo em que o locutor da
formulação do índice atribui uma matéria a uma certa categoria, categoria
que aí est{ como um passado neste acontecimento, que se apresenta como
um rememoiado, que faz significar de um cerlo modo, e não de outro, o
título da matériae amatéria. E tudo isso projeta sentidos futuros, sentidos
capazes de movimentar, inclusive, outras enunciações. Por exemplo:
Municípios Prefeitos deixaram as cidades depenadas
O que aqui se rememora como categoria para amatéria (Municípi-
os) faz o título projetar como sentidos (futuridade do acontecimento),
entre outros, a) as cidades como sinônimo de municípios; b) a
irresponsabilidade das administrações das cidades como própria dos
municípios brasileiros; e c) um sentido de generalizaçã'o da
irresponsabilidade neste nível de governo: o município como lugar da
irresponsabilidade (o que sem dúvida localiza a atenção do leitor de um
modo muito particular).
Constitui-se no índice o que é o presente para esta edição daVeja-
Não há nada nele que relacione necessariamente uma matéria desta edi-
ção com qualquer outra da semana anterior. O presente aínão é um de-
12 13
pois da semana anterior, nem o passado é um antes da semana em ques-
tão, nem o futuro é aqui a semana posterior àquela em que se está.
Neste sentido diria que a significação do índice é uma instrução7 de
como saber de que trata a revista, onde isto está, e das conseqüências dos
sentidos aí tratados. O índice não é uma mera indicação de onde algo
.z
está. E uma indicação que passa pelo sentido que o acontecimento cons-
truiu. Deste modo o índice é uma instrução de como interpretar tanto um
modo de chegar à matéria, como a própria construção de algo como notí-
cia, que para ser notícia é constituído por uma temporalidade específica.
Esta caracterização datemporalidade do acontecimento não coincide,
portanto, com o tempo do ego que diz eu,que chamo aqui locutors. A confì-
guração do Locutor no acontecimento é a de que ele é a origem do dizer e
assim da temporalidade. Diria que Benveniste limitou-se a tratar desta repre-
sentação. Deste modo a temporalidade do acontecimento da ennciaçãotraz
sempre esta disparidade temporal entre o tempo do acontecimento e a repre-
sentação da temporalidade pelo Locutor. Esta disparidade significa direta-
mente a inacessibilidade do Locutor àquilo que enuncia. O locutor não estií
onde a enunciação signifìca sua unidade (tempo do Locutor).
Assim o Locutor está dividido no acontecimento. E está dividio por-
que falar, enunciar, pelo funcionamehto da língua no acontecimento, é
falar enquanto sujeito. Para caracterizar este aspecto recorro, neste pon-
to, à posição da análise de discurso paraa qual o sujeito que enuncia é
sujeito porque fala de uma região do interdiscurso, entendendo este como
uma memória de sentidos. Memória que se estrutura pelo esquecimento
de que já significa (Orlandi, 1999). Ser sujeito de seu dizer, ser suj eito, é
falar de uma posição de sujeito.
Esta tomada de posição teórica dá um sentido bem específico e forte
à consideração de que o acontecimento de linguagem não se dá no tempo,
nem no tempo do locutor, mas é um acontecimento que temporaliza: uma
temporalidade em que o passado não é um antes mas um memorável
recortado pelo próprio acontecimento que tem também o futuro como
uma latência de futuro. O sujeito não fala no presente, no tempo, embora
o locutor o represente assim, pois só é sujeito enquanto afetado pelo
interdiscuro, memória de sentidos, estruturada pelo esquecimento, que
faz alíngua funcionar. Falar é estar nesta memória, portanto não é estar
no tempo (dimensão empírica).
7. UsoaquianoçãodeinstruçãoapafirdosentidoquelhedáO.Ducrot(1984),emboranão
de maneira absolutamente igual.
8. Mais à frente vou ratil de modo mais específico das figuras da enunciação (locutor,
enunciador, etc), ao falar da cena enunciativa.
O acontecimento em que se fala é, do meu ponto de vista, espaço de
temporalização. Nesta medida o passado no acontecimento é uma
rememoração de enunciações por ele recortada, fragmentos do passado
por ele representados como o seu passadoe.
A questão para mim é poder descrever como se dá este aconteci-
mento de linguagem, como ele se constitui. E o que faremos mais à frente
ao falar de cena enunciativa e espaço de enunciação. Antes vou caracte-
rizar o que é para mim o político.
2. O POLITTCO: DTSTRIBLIçÃO DE DESIGUALDADES E A
AFIRMAÇÃO DE PERTENCIMENTO
Colocando-me no domínio das posições materialistas vou considerar
o político como algo que é próprio da divisão que afeta materialmente a
linguagem e, para o que me interessa aqui, o acontecimento da enunciaçãolO.
Começo por considerar o modo como Rancière (1995) caracteiza
as abordagens do político nafilosofia.Para ele estas abordagens tratam
do que ele chamou a arqui-política, a para-política e a meta-política. A
primeira (a arqui-política) temsua configuração no pensamento platôni-
co e, segundo Rancière, transforma a política em organização. Isto se
enuncia emPlatão em afirmações diretivas como "é necessário fazer seu
próprio trabalho" que aparecia já como um artifício retórico que formu-
lava a suþqissão do povo à distrìbuição ordenada dos papéis sociais. A
política é neste caso mentira. Cabia à arqui-políticaanular a "falsa polí-
tica", a democracia, pela constituição da República.
A para-política, qrue aparece na formulação de Aristóteles que não
aceitaadescaracterização da política feiø por Platão, integra e neutraliza o
conflito entre pobres e ricos, entre interesses opostos. A política é neste caso
aparência e ela encontra seu fim na pacificação social. Se, por exemplo, o
govemante está diante da possibilidade de um levante popula¡ então ele
devefazer como se governasse para o povo, neutralizando assim o conflito.
9. É preciso não confundir a memória de sentidos (memória discursiva: interdiscurso) do
passado no acontecimento (memorável de enunciações recortado pela temporalização do
acontecimento). O que procuro é desenhar a articulação, no quadro que aqui proponho,
entre o interdiscurso e o acontecimento.
10. Lembro aqui duas posições a respeito do político e da política que se desenvolveram no
domÍnio do materialismo e com as quais minha posição guarda relações evidentes. De um
lado a consideração do político como conflito, tal como Orlandi (1990) apresenta em
Terra à Vsta, e de outrq a consideração da política como disse¿so tal como apresenta
Racière (1995) em In méÍentenl¿. Evidentemente que estas duas posições não são iguais.
Valho-me aqui de um debate que se instala de pronto entre elas pa-ra formular o que segue.
l4 15
A meta-política denuncia o excesso das injustiças e das desigualda-
des relativamente ao que a política enuncia. Ou seja a meta-política de-
nuncia as mentiras da política, de modo que para ela a política é a mani-
festação da falsidade. Isto leva ameta-políticaaatacar direitos formula-
dos por instituições sustentadas no conceito de soberania, já que para
esta posição tudo o que vem do político é falso.
Assim estes três modos de conceþr o político o tomam como apráti-
ca do falso ou do aparente e assim procuram organizá-lo, ou integrá-lo ou
denunciá-lo. Como então considerar o político? Ele não é nem o falso nem
o verdadeiro. Procuro assim, a seguir, caractenzâ-lo fora destas concep-
ções negativas, para que possamos tratar do político como fundamento das
relações sociais, no que tem importância central a linguagem. Deste modo
importa, antes de ir à frente, uma observação: o político não é o que se fala
sobre a igualdade, sobre os direitos, etc. Colocar-se neste lugar é também e
ainda conceber o político negativamente, por tratá-lo como o lugar do en-
godo, da, na melhor das hipóteses, doce mentira.
O político, ou a política, é para mim caracterizado pela contradição
de uma normatividade que estabelece (desigualmente) um divisão do real
e aafrmação de pertencimento dos qge não estão incluídos. Deste modo
o político é um conflito entre uma divisão normativa e desigual do real e
uma redivisão pela qual os desiguais afirmam seu pertencimento. Mais
importante ainda para mim é que deste ponto de vista o político é
incortornável porque o homem fala. O homem está sempre a assumir a
palavra, por mais que esta lhe seja negada.
Esta concepção nos leva a algumas considerações aparentemente
contraditórias em princípio. O Político está assim sempre dividido pela
desmontagem da contradição que o constitui. De tal modo que o estabele-
cimento da desigualdade se apresenta como necessária à vida social e a
afirmação de pertencimento, e de igualdade, é significada como abuso,
impropriedade. Esta desmontagem é o esforço do poder em silenciarrr a
contradição, na busca de um político como ação homogeneizadora que
ora se esgota no administrativo, ora naquilo que Racière chamou de po-
lícia, e que ele opöe à política.
Tomemos aqui um exemplo. Em uma reunião de um colegiado uni-
versitário em que se discute a demissão de um aluno de seu posto de
estagiário há um embate que sintetizo:
a) A adminstração, em nome da decisão do funcionário que demitiu
o aluno, diz que aquele estava autorizado afazê-lo baseado nas regras
11. No sentido que este conceito tem para Orlandi (1992).
que regem a assiduidade dos funcionários. Aqui já poderíamos refletir
sobre esta divisão do real feito pelas designações que, no caso, ora
categorizam alguém como aluno, ora como funcionário.
b) Um outro aluno, que defende o aluno/funcionário demitido, con-
tra-argumenta, incessantemente, durante algo como duas horas ou mais,
que a questão não é se o aluno seu colega (aluno estagiário) deveria ser
demitido de seu posto enquanto funcionário, mas que ele o foi sem que
lhe fosse assegurado um direito mínimo, consignado na declaração uni-
versal dos direitos do homem, o de apresentar sua defesa.
O que temos aqui? De um lado a afirmação de uma distribuição de
papéis, desigualmente, onde alguns podem fazer coisas e outros devem obe-
decê-las, distribuição feita pela adminsitração, e de outro a afirmação de
pertencimento do aluno à categoria do humano na qual todos têm o direito
igual de se defender de qualquer acusação. Cafegoiadaqual, no sentido que
ele lhe dá, o aluno estagiário está sendo retirado. Esta afirmação de
pefencimento, por precisar se repetir como eco por um longo período de
discussão, significa a sua falta de sentido no acontecimento. Ou seja, afirmar
o direito é neste acontecimento sem sentido, para aqueles que falam do lugar
da normatividade, por mais sentido que a afirmação do aluno tenha para ele
e o demitido (a Declaração Universal dos Direitos do Homem não é aqui
memorável). Está-se diante, neste caso, do funcionamento da contradição
própria do político, e de tal modo, neste acontecimento, que o esforço
enunciatiyo do aluno defensor do colega é tomado sem sentido, e sua
enunciação por mais que afirme o pertencimento do aluno à categoria do
humano, não consegue aí significá-lo, pela sopreposição "gloriosa" do
adminstrativo, e do homogêneo. O Político é para mim não o dizer normati-
zado da adminstração, nem simplesmente a afirmação de pertencimento do
aluno. E a contradição que instala este conflito no centro do dizer. Ele se
constitui pela contradição enfre a normatividade das instituições sociais que
organizam desigualmente o real e a afrmação de peftencimento dos não
incluídos. O político é a aftrmação da igualdade, do pertencimento do povo
ao povo, em conflito com a divisão desigual do real, para redividi-lo, para
refazêlo incessantemente emnome do perlencimento detodos no todos.
Com esta concepção de político voltamos à consideração dos aspec-
tos enunciativos. Com ela pretendemos uma melhor configuração do po-
lítico na linguagem.
. O acontecimento de linguagem por se dar nos espaços de enunciação
é um acontecimento políticot2. Ou seja, a constituição da temporalidade
t6
12. TraIei desta questão em Guima¡ães (2000a).
t7
do acontecimento se faz pelo funcionamento da língua enquanto numa
relação com línguas e falantes regulada por uma deontologia global do
dizer em uma certa língua.
3. ESPAçO DE ENTTNCTAçAO
Considerar a configuração do acontecimento, tal como fizemos em 1.,
coloca uma relação por todos os aspectos decisiva: a relação entre a língua e
o falante, pois só há línguas porque há falantes e só há falantes porque há
línguas. E esta relação não pode ser tomada como uma relação empírica do
tipo: em uma cerla situação as pessoas faldm na língua x, em outra, na língua
y. Por exemplo, no Brasil se fala Português, na França, Francês, etc. Ou
ainda, no Paraguai se fala o Espanhol e o Guarani. Esta relação entre falan-
tes e línguasinteressa enquanto um espaço regulado e de disputas pela pala-
vra e pelas línguas, enquanto espaço político, poftanto. A língua é dividida
no sentido de que ela é necessariamente atravessada pelo político: ela é
normativamente dividida e é também a condição para se afirmar o
pertencimento dos não incluídos, a igualdade dos desigualmente divididos.
Os falantes não são os indivíduos, as pessoas que falam esta ou aquela
língua. Os falantes são estas pessoas enquanto determinadas pelas línguas
que falam. Neste sentido falantes não são as pessoas na atividade físico-
fisiólogica, ou psíquica, de falar. São sujeitos da língua enquanto constituí-
dos por este espaço de línguas e falantes que chamo espaço de enunciação.
Deste modo considero que o falante, tal como o conceituo, é uma
categoria lingüística e enunciativa. Neste ponto diferencio minha posição
da de Ducrot. Mas num sentido muito preciso. Primeiro devo dizer que
concordo que o falante, tal como Ducrot o conceitua (como figura físico-
fisiológica e psíquica), não é um personagem da enunciação. Minha dife-
rença está em que considero que o falante não é esta figura empírica,
mas uma figura política constituída pelos espaços de enunciação. E nesta
medida ela deve ser incluída entre as figuras da enunciação.
Os espaços de enunciação são espaços de funcionamento de lín-
guas, que se dividem, redividem, se misturam, desfazem, transformam
por uma disputa incessante. São espaços "habitados" por falantes, ou
seja, por sujeitos divididos por seus direitos ao dizer e aos modos de
dizer. São espaços constituídos pela equivocidade própria do aconteci-
mento: da deontologiat3 que organiza e distribui papéis, e do conflito,
indissociado desta deontologia, que redivide o sensível, os papéis soci-
13. Tomo aqui esta noção a partir da formulação que lhe deu Ducrot (1972) em Dire et ne
pas Dire.
ais. O espaço de enunciação é um espaço político, no sentido em que
considerei há pouco o político.
Tomemos um exemplo. O que éfalar Porluguês na América Latina
hoje?ta Primeiro aspecto: é falar uma língua oficial de um Estado, que
nesta medida está numa relação de convivência e de disputa na América
Latina com o Espanhol, também língua oficial de vários Estados vizi-
nhos do Brasil15.
Segundo aspecto. Consideremos, por exemplo, um fato como a de-
rivação que em Português forma palavras como cces.rar. Esta palavra,
tal como deletar e tantas outras, entra no Português do Brasil por uma
relação com o Inglês.
Se tomamos acessar, podemos vê-la como um derivado de acesso,
o que seria perfeitamente possível em virtude dos procedimentos de deri-
vação da Língua Portuguesa. Mas é preciso ver aítambém, mesmo neste
caso (o caso de deletar envolve o fato de que não hâ delet emPortuguês),
que ûcessar é um derivado em Português de to acess do Inglês. Estamos
diante de uma divisão tal que o espaço de enunciação do Português do
Brasil inclui uma relação com o Inglês. Em outras palavras, o espaço de
enunciação do Português é também ocupado pela língua inglesa.
Tomemos um outro exemplo interessante. Houve, durante umpe-
ríodo recente, em Campinas, um estabelecimento comercial cujo nome
era Center Frutas Broto. Estamos aqui diante de um procedimento de
nomeação há, já algtmtempo em funcionamento no Brasil.
O qu'e témos nesta nomea çã,o? Elase constrói por uma relação dire-
ta entre falante e as línguas portuguesa e inglesa. Não simplesmente por-
que há empréstimo de uma palavra, center, ou porque se construiu um
nome com uma frase inglesa, o que seria também um simples emprésti-
mo. Estamos diante de um embate em que o falante está divido por sua
relação com duas línguas: veja como a presença do center não define a
sintaxe nem como inglesa nem como portuguesa: no primeiro caso seria
Broto Frutas Center e no segundo Center de Frutas Broto. Há algo em
frutas (Português) que impede a primeira construção, e há algo em center
(é uma palavra "emprestada" com sua sintaxe) que impede a segunda
construção. Ou seja, esta nomeação se dá num espaço de enunciação em
que o Inglês fornece modelos ao Português. Mas este modelo não se cum-
14. Vou retomar e ampliar, segundo a especificidade desta pergunta, uma análise que fiz em
"Política de Línguas na Améria Latina" (Guimæães, 1997) sobre o espaço de enunciação
latino-americano.
15. Para não me ater muito na questão da disputa, podemos lembrar, por exemplo, a prática de
incompreensão dos falantds de Espanhol relativamente ao Português, oposta à prática de
brasileiros com o espanhol.
18 19
pre completamente porque ele é refeito pelo embate das línguas na rela-
ção com o falante no espaço de enunciação.
Um outro caso deste tipo, com uma configuração diversa, é o nome
de um outro estabelecimento do mesmo gênero, em um outro bairro de
Campinas: Cambuí Fruit Center. Neste caso o falante está tomado, no
espaço de enunciação, pela língua que não é a sua.
Nesta medida não se pode deixar de levar em conta que línguas
como Português e Espanhol não são, no espaço de enunciação latino-
americano, legítimas tal com a língua inglesa, que tem, neste espaço com
o Português e o Espanhol, uma legitimidade especial, notadamentepara
relações internacionais de um certo tipo: comércio, ciênciar6, etc.
Não estou aqui levando em conta um conjunto de tantos outros
problemas extremamente relevantes, como, por exemplo, no Brasil se
falam ainda em torno de 150 línguas indígenas, várias línguas européi-
as e orientais, aí incluindo o Espanhol, notadamente em regiões de fron-
tefta.Há no Brasil, inclusive, índios que falam Espanhol preferencial-
mente.
Dada a descrição acima, com a devida ressalva, podemos dizer
que o espaço de enunciação latino-americano caracteriza-se por uma
disputa pela palavra regulada por umâ distribuição de papéis que colo-
ca brasileiros e latino-americanos dos demais países como falantes que
excluem a língua do outro e incluem o Inglês como "língua franca",
mesmo que uma pessoa em particular não a fale. A questão aqui não é
individual.
Neste espaço, trabalhar o ensino do Português do Brasil nos países
vizinhos e do espanhol no Brasil é um modo de redividir o espaço para
torná-lo cadavezmais sul-americano e cada vez menos norte-americano
ou europeu, ao lado de trabalhar a resistência ao avanço do Inglês,
notadamente o americano, como língua de todos. É uma resistência a um
certo tipo de monolingüismo. Não se trata aqui de uma atitude quixotesca
e sem conseqüências como aquela que busca proibir o uso de palavras
estrangeiras no Porluguês. A questão política é noutro lugar, inclusive
porque os espaços de enunciação são espaços, divididos desigualmente,
de disputa pela palavra.
Podemos tomar a questão do espaço de enunciação através de uma
outra pergunta: o que é falar Português no Brasil? Sem dúvida que o
primeiro aspecto que devemos considerar é que o Português é alíngta
oficial do Estado Brasileiro, e é, nesta medida, a língua nacional do
I 6. Tratei deste aspecto específico de uma política de línguas em "Produção e Circulação do
Conhecimento sobre Lite¡atura e Linguagem" (Guimarães, 1999a).
Brasil. Ou seja, é elemento de identificação de sujeitos enquanto cida-
dãos do Estado. Mas falar Português no Brasil é falar uma língua que
são várias. Assim a relação dos falantes com a língua está regulada por
uma relação com a língua do Estado, enquanto uma língua, a língua
(una) do Estado: gramatizadatl,normatizada. Está por outro lado regu-
lada pelo fato de que há regiões em que se fala, por exemplo, [mutjo]
(como em Cuiabá), e outras em que se fala [muito]. Regiões em que se
fala [maI] (como em Piracicaba, São Paulo) e regiões em que se fala
[mar]. Consideremos, para os efeitos desta argumentação, que estes
poucos fatos sejam todas as diferenças existentes que temos neste espa-
ço enunciativo. Não há igual direito adizer [mutjo] ou [muito], ou [mai]
e [mar]. O direito à palavra é distribuído de talmodo que ele é um para
os que dizem [muito] e [mar] e outro para os que dizem [mutjo] epala
os que dizem [mai]. Assim falar Português é estar afetado por estas
divisões que caracterizamo espaço de enunciação da Língua Portugue-
sa no Brasil. Não estamos aqui considerando todo um conjunto mais
complexo de questões como o fato, jâ referido antes, de que se falam no
Brasil inúmeras línguas indígenas e diversas línguas européias e orien-
tais.
Isto me leva a dizer que, do ponto de vista que aqui assumo, uma
língua náo é variável, no sentido em que esta noção é tomada pela
sociolingüística quantitativa.
Para mim uma línga é dividida, de tal modo que ela é uma e é dife-
rente dissd. d esta divisão diz respeito exatamenteã relação dos falantes
com a língua, de tal modo que os falantes se identificam exatametne por
essa divisão. No caso do nosso pequeno exemplo, há os falantes que se
identificam pela divisão da língua que os faz dizer [mutio] de um lado ou
[muito] de outro.
E esta divisão é marcada por uma hierarquia de identidades. Ou
seja, esta divisão distribui desigualmente os falantes segundo os valores
próprios desta hierarquia. E aqui pode-se ver como a Escola, entre outras
instituições e instrumentos, é fundamental na configuração do espaço
enunciativo de uma língua nacional, no nosso caso o Português. Ou seja,
a Escola é fundamental no modo de dividir os falantes e sua relação com
a língua.
E estar identificado pela divisão da língua é estar destinado, por
uma deontologia global da língua, a poder dizer certas coisas e não ou-
tras, a poder falar de certos lugares de locutor e não de ouÍos, a ter
certos interlocutores e não outros.
20
17. No sentido que tem gramatizaçáo para Auroux (1992).
2I
Por exemplo, aquele que é identificado por falar lmutjo] ou [mai]
pode falar cotidianamente para seus familiares, amigos, colegas, habi-
tantes de sua cidade, mas não pode falar como locutor-jornalista, na tele-
visão, para os telespectadores. Mesmo que estejamos considerando a te-
levisão na região de Cuiabá e Cáceres, no Estado de Mato Grosso, de um
lado, ou de Piracicaba e Itu, no Estado de São Paulo, de outro. Ele só
poderá fazê-lo se aparecer como um personagem e não como um apre-
sentador. Ou seja, ele pode ser na mídia só o locutor-cuiabano, o locutor-
piracicabano. Aparecer como personagemé aparecer como locutor cita-
do na fala do locutor-jornalista que ele não pode ser. Este tipo de questão
é extremamente importante para dar um sentido muito fofte ao modo
como estamos considerando a divisão do Locutor que, ao desconhecer
que fala de um lugar social, desconhece que seus lugares de fala foram
dividos e interditados. Operar sobre e contra este desconhecimento é o
próprio do político no acontecimento de linguagem.
Antes de terminar estas considerações sobre o político quero reto-
mar as distinções entre arqui-política, para-política e meta-política.Dina,
ao retomá-la, que uma abordagem sociolingüística quantitativa, enquan-
to tal, opera com o conceito de parh-política, jâ que suas descrições
distribuem para cada um o que é seu, neutralizando o conflito por um
procedimento descritivo do que é de cada um. Ao lado disso ela pode
operar por acréscimo, não exatamente por seu dizer científico, como meta-
política, como forma de denunciar a distribuição do que é de cada um
para cada um. Ou seja, ou ela integra o conflito ou pode falar sobre ele.
O Espaço de enunciação é assim decisivo para se tomar a enunciação
como uma prática política e não individual ou subjetiva, nem como uma
distribuição estratificada de características. Falar é assumir a palavra nes-
te espaço divido de línguas e falantes. É semp.e, assim, uma obediência
e/ou uma disputa. Se é que se pode falar em simples obediência.
Enunciar é estar na língua em funcinamento. E a língua não funciona
no tempo, mas pelas relações semiológicas que tem. A língua funciona no
acontecimento, pelo acontecimento, e não pela assunção de um indivíduo.
Neste sentido, diríamos, a enunciação se dá por agenciamentos es-
pecíficos da língua. No acontecimento o que se dá é um agenciamento
político da enunciação. Neste embate entre línguas e falantes, próprio
dos espaços de enunciação, os falantes são tomados por agenciamentos
enunciativos, configurados politicamente.
A noção de agenciamento da enunciação está aqui a partir do que
Deleuze e Guattari (1980) colocam em Mille Plateaux, ao caracteiza-
22
rem a enunciação a partir da conceituação que Ducrot (1972) faz dos
atos ilocucionais. A diferença é que para mim este agenciamento é políti-
co. Ou seja, não é que ele é coletivo, como um "acordo" de um grupo. Ele
é, para mim, afetado politicamente por se dar segundo os espaços de
enunciação.
4. A CENA ENTINCIATIVA
Diante da concepção de político acima exposta é decisivo tratar de
como se dá a assunção da palavra. Diremos que ela se dá em cenas
enunciativas. Uma cena erumciativa se carac|enza por constituir modos
específicos de acesso à palavra dadas as relações entre as figuras da
enunciação e as formas lingüísticas.
Este conceito aparece definido pela primeiravez emTexto e Argu-
mentação (Guimarães ,1987), quando estudei as mudanças que levaram
o embora de expressão adverbial a conjunção. Cenas são especificações
locais nos espaços de enunciação.
A Cena enunciativa é assim um espaço paftictlarizado por uma
deontologia específica de distribuição dos lugares de enunciação no acon-
tecimento. Os lugares enunciativos são configurações específicas do
agenciamento enunciativ o para "aquele que fala" e "aquele para quem se
fala". Na cena enunciativa "aquele que fala" ou "aquele para quem se
fala" não qãopessoas mas uma configuração do agenciamento enunciativo.
São lugares constituídos pelos dizeres e não pessoas donas de seu dizer.
Assiméstudá-la é necessariamente considerar o próprio modo de consti-
tuição destes lugares pelo funcionamento da língua.
Esta distribuição de lugares se faz pela temporalização própria do
acontecimento. Neste sentido a temporalidade específica do acontecimento
é fundamento da cena enunciativa.
Na continuidade do que vimos colocando desdeTexto e Argumenta-
ção, podemos considerar que assumir a palavra é por-se no lugar que
enuncia, o lugar do Locutor que vou chamar de Locutor (com maiúscu-
la), ou simplesmente Lr8. L é então o lugar que se representa no próprio
dizer como fonte deste dizer.E desta maneira representa o tempo do dizer
1 8. Como se verá no que segue, retomo aqui o que Ducrot chamou de polifonia da enunciação,
aprofundando a diferença que eujá apresentavaemTexto e Argumentação, pela conside-
ração do locutor enquanto pessoa como socialmente constituído. Isto me levou a, inclusi-
ve, usar de maneira diferepte os termos locutor e enunciador que Ducrot distingue e que
também distingo, mas já ntrm outro quadro de categorias, onde procuro caracterisa¡ não a
multiplicação das figuras da enunciação, mas sua divisão.
23
como contemporâneo deste mesmo L, e assim representa o dizer como o
que está no presente constituído por este L.
Mas esta representação de origem d o dizer, na sua própria represen-
tação de unidade e de parâmetro do tempo se divide porque para se estar
no lugar de L é necessário estar afetado pelos lugares sociais autorizados
afalar, e de que modo, e em que língua (enquanto falantes). Ou seja, para
o Locutor se representar como origem do que se enuncia, é preciso que
ele não seja ele próprio, mas um lugar social de locutor. Tomemos um
exemplo inicial. Se o Presidente da República, ou um Governador de
Estado Decreta X, ele ofaz não porque alguém se dá a si ser a origem do
que Decreta, mas porque enquanto Presidente (falante de Português) ele
pode se dar como origem daquilo qlue Decreta, ou melhor, do próprio ato
de decretar. O que signifìca dizer que assumir a palavra para decretar só
é possível na medida em que o Locutor, que se dá como origem dodecre-
to, só o é enquanto constituído como um lugar social de locutor, ou seja,
o locutor-presidente que fala em Língua Portuguesa. Em outras palavras,
o Locutor só pode falar enquanto predicado por um lugar social. A este
lugar social do locutor chamaremos de locutor-x, onde o locutor (com
minúscula) sempre vem predicado p9r um lugar social que a variável x
representa (presidente, governador, etc). Assim é preciso distinguir o
Locutor do lugar social do locutor, e é só enquanto ele se dá como lugar
social (locutor-x) que ele se dá como Locutor. Ou seja, o Locutor é díspar
a si. Sem esta disparidade não há enunciação.
Deste modo, no acontecimento de enunciação há uma disparidade
constitutiva do Locutor e do locutor-x, uma disparidade entre o presente
do Locutor e a temporalidade do acontecimento.re
Esta distinção pode ser diretamente mostrada, no caso do ato de
decretar, pelo próprio modo de dizer o decreto, que se dá em formas do
tipo "O Presidente da República, no uso de suas atribuições, decreta...".
Neste caso o Locutor está diretamente separado do locutor-x que decreta.
O Locutor é sempre locutor-presidente, locutor-índio, locutor-consumi-
dor, locutor-jornalista, etc. No caso do decreto, o locutor-presidente é
falante da Língua Portuguesa. Ou seja, não há decreto do presidente a
não ser emLíngua Porluguesa. Esta configuração do espaço de enunciação,
pela exclusão de qualquer outra língua, está diretamente regulada pela
definição da Língua Portuguesa como língua do Estado Brasileiro. Neste
lugar de inseparabilidade da língua e do Estado está o ponto da máxima
resistência a outras línguas, o Inglês por exemplo, que pode até ser língua
19. Lembro aqui Ranc.ière (1992), qe numa análise enunciativa do discurso da história, diz
que o sujeito falante é anacrônico.
24
de ciência para cientistas brasileiros, mas não é a língua paraalegislação
brasileira, não é a língua de um ato de decretar, por exemplo.
Passemos para um outro aspecto da questão. Tomemos um enuncia-
do do cotidiano como "eu prometo que vou a sua casa". Aqui parece se
poder dizer que a promess a é do eu dado como origem da promessa, distin-
to do eu devou, aquele que deverá cumprir a promessa. Ao contrário disso
diria que neste caso a expressão da primeira pessoa em prometo é só a
marca da representação da origem, marca que representa seu presente como
o tempo d,o dizer. Ou seja, este eu é a representação de que não há lugar
social no dizer.E, de um lado, a marca do desconhecimento do Locutor a
propósito do lugar do qual fala: de amigo, de pai, de filho, de vendedor, etc.
Ou seja, de que lugar pode prometer algo a alguém? Em outras palavras, o
eu do Locutor é o eu que não sabe que fala em uma cena enunciativa. É
assim'um eu que desconhece que fala de algum lugar. A tal ponto que se
toma como a pessoa, meramente enquanto tal, que deverâ cumprir sua
própria promessa. Aqui o lugar de Locutor se representa como lugar de
dizer simplesmente. E neste caso tmlugar de dizer que se representa como
individual20. Vou chamar este lugar de dizer de enunciador. Considerare-
mos, no caso em análise, que se trata de um enunciador-individual. Ou
seja, estamos diante de uma enunciação que se dá como independente da
história pela representação desta individualidade a partir da qual se pode
falar. O enunciador-individual, enquanto um lugar de dizer, trazum aspec-
to especílçopara isto que estamos chamando lugares de enunciação.E a
representação de um lugar como aquele que está acima de todos, como
aquele que retira o dizer de sua circunstancialidade. E aofazer isso repre-
senta a linguagem como independente dahistória.
Um outro lugar de dizer, que se apresenta como o apagamento do
lugar social, é o do enunciador-genérico. Pensemos aqui em ditos popu-
lares como "Qugm semeia vento colhe tefnpestade". Neste caso o Locu-
tor também simula ser a origem do que aqui se diz. Mas o que aí se diz é
dito, não de um lugar individual, independente de qualquer contexto, mas
é dito do lugar de um acordo sobre o sentido de repetir o dito popular. O
que se diz é dito como aquilo que todos dizem. Um todos que se apresenta
como diluído numa indefinição de fronteiras para o conjunto desse todos.
O enunciador se mostra como dizendo com todos os outros: se mostra
como um indìvíduo que escolhe falar tal como outros indivíduos, uma
outra forma de se apresentar como independente da história.
20. Isto significa dizer que as æorias dos atos de fala têm operado sobre um desconhecimento
fundamental, o de que um aïo de linguagem não é uma ação individual, é a constituição de
um sentido, por um agenciamento enunciativo específico.
25
Ainda um outro caso. Quando se faz uma afirmação sem qualquer
modalização como "Todas as pessoas morrem", o enunciador, ao se apre-
sentar como o lugar do dizer, apresenta-se como quem diz algo verdadei-
ro em vinude da relação do que diz com os fatos. O que esta representa-
ção significa? Significa a identificação do lugar do enunciador com o
lugar do universal. Ou seja, um lugar de dizer que se apresenta como não
sendo social, como eslandofora da história, ou melhor, acima dela. Este
lugar representa um lugar de enunciação como sendo o lugar do qual se
diz sobre o mundo. O enunciador-universal é um lugar que significa o
Locutor como submetido ao regime do verdadeiro e do falso. Este lugar é
próprio do discurso científico, embora não seja exclusivo dele. A afirma-
ção acima, por exemplo,náo é exclusiva do discurso científico.
Consideramos, então, que a cena enunciativa coloca em jogo, de
um lado, lugares sociais do locutor, papéis enunciativos como locutor-
brasileiro, locutor-presidente, locutor-jornalista, locutor-professor, lo-
cutor-índio, locutor-consumidor, etc. O Locutor não se apresenta senão
enquanto predicado por um lugar social distribuído por uma deontologia
do dizer. De que lugares sociais é possível dizer o que se diz e deste
modo?
Por outro lado, a cena enunciativá coloca em jogo, também, lugares
de dizer quie estamos aqui chamando de enunciadores. E estes se apresen-
tam sempre como a representação da inexistência dos lugares sociais de
locutor. E embora sempre se apresentem como independentes da história
ou fora da história, são lugares próprios de uma história. Temos então
enunciadores como: enunciador-individual, quando a enunciação repre-
senta o Locutor como independente da história; enunciador-genérico,
quando a enunciação representa o Locutor como difuso num todos em
que o indivíduo fala como e com outros indivíduos; enunciador-univer-
sal, quando a enunciação representa o Locutor como fora da história e
submetido ao regime do verdadeiro e do falso.
5. ENUNCIAçAO, REESCRITURA, TEXTUALIDADE
Como dissemos anteriormente, para nós o sentido de uma expressão
pode ser analisado como seu modo de integração num enunciado, en-
quanto elemento de um texto. Deste modo, a relação integrativa é vista
aqui como uma relação não segmental. A seguir procuro constituir um
modo de operar esta relação.
Vamos, para nosso estudo da designação, observar a relação entre
designar e nomear, de um lado, e de designar e referir, de outro. Ou seja,
o modo de nomear, o agenciamento enunciativo específico da nomeação é
elemento constitutivo da designação de um nome. Da mesma maneira
que as referências feitas com um nome, ou as referências feitas por ou-
tros nomes, como substitutivos do nome, em um texto, são também ele-
mentos constitutivos da designação
No caso da relação entre designação e nomeação, o que se deve
observar é uma relação entre enunciações, entre acontecimentos de lin-
guagem. Num acontecimento em que um certo nome funciona a nomea-
ção é recortada como memorável por temporalidades específicas. Para o
estudo dos nomes próprios vamos tormar este aspecto como fundamento
de nossa análise.
No caso da relação entre designação e referência, o que se deve buscar
é como um nome aparece referindono texto em que ocoffe. Assim é funda-
mentalobservar como o nome eslá relacionado pela textualidade com outros
nomes ali funcionando sob a aparência da substituibilidade. Neste caso os
conjuntos de modos de referir organizados em tomo de um nome são um
modo de determináJo, de predicálo. E neste sentido é que constituem a de-
signação do nome em questão. Chamo a atenção aqui para o fato de que,
deste ponto de vista, arelação de predicação a que me refro aqui se dá por
sobre a segmentalidade, ou seja, por sobre as fronteiras dos enunciados.
Para enfrentar este último tipo de análise, apresento a seguir o que
venho considerando como um processo de reescritura2t próprio, para
mim, das rplações de textualidade. Com este tipo de análise vou estudar
um conjunto de designações de nomes comuns.
Para caracterizat aqtú o procedimento da reescrituração retomo a aná-
lise que fiz do os no texto da Constituição do Império do Brasil na seqüência
"São cidadãos Brasileiros
1" Os que no Brasil tiverem nascido..."
Esta análise (Guimarães,I99Ia) mostra pelo menos duas possibili-
dades de interpetação do os: uma anafórica e outra dêitica. Ela mostra
como, ao estabelecer um ponto de interpretação no texto (os) relativa-
mente a outro (o antecedente do os), o que se tem é uma falta de relação
unívoca entre estes dois pontos.
De acordo com esta análise, considero que procedimentos como
anâfora, catâfora, repetição, substituição, elipse, etc, são procedimen-
tos de deriva2z do sentido próprios da textualidade. O que significa di-
zer qtJe é este processo que constitui o sentido destas expressões, bem
21. Cf. Guimarães (1999b). 
1
22. A palavra deriva deve ser tomada no sentido que the deu Pêcheux (1983) em Di.scurso.
Estrutura ou Acontecimento.
26 2l
como que não há, texto sem o processo de deriva de sentidos, sem
reescrituração. Esta deriva enunciativa incessante é que constitui, a um
só tempo, os sentidos e o texto. O interessante desta deriva é que ela se
dá exatamente nos pontos de estabelecimentos de identificação de se-
melhanças, de correspondências, de igualdade, de retificações. Quando
uma forma se dá como igual/correspondente a outra (a anaforiza, a
substitui, etc), o sentido está se fazendo como diferença e constitui
textualidade. O procedimento de reescrituração no texto faz com que
algo do texto seja interpretado como diferente de si. E analisar a desig-
nação de uma palavra é ver como sua presença no texto constitui
predinações por sobre a segmentalidade do texto, e que produzem o
sentido da designação.
O que pretendo dizer é que as questões tomadas como procedi-
mentos de textualidade são procedimentos de reescritura. Ou seja, são
procedimentos pelos quais a enunciação de um texto rediz insistente-
mente o que já foi dito. Assim a textualidade e o sentido das expressões
se constitui pelo texto por esta reescrituração infinita da linguagem que
se dá como finita pelo acontecimento (e sua temporalidade) em que se
enuncia.
A reescrituraçãoéuma operação que significa, na temporalidade do
acontecimento, o seu presente. A reescrituração é, a pontuação constante
de uma duração temporal daquilo que ocoffe. E ao reescritrtrar, aofazer
interpretar algo como diferente de si, este procedimento atribui (predica)
algo ao reescriturado. E o que ele atribui? Aquilo que a própria
reescrituração recorta como passado, como memorável. No caso do exem-
plo acima, na medida que o rs reescritura cidadãos, nos dá, pela inter-
pretação anafónca, a preexistência do sentido de cidadão,que ao mesmo
tempo é predicado pela sobreposição da interpretação dêitica, que coloca
em circulação a preexistência do sentido de pessoa, de indivíduo. E esse
movimento de predicação na duração do presente pelo memorável signi-
fica porque projeta um futuro, o tempo da interpretação no depois do
acontecimento no qual o reescriturado é refeito pelo reescriturante.
Deste modo minha posição é radicalmente anticomposicional. Ou
seja, o sentido de uma expressão não é construído pelo sentido de suas
partes. O sentido é constituído pelo modo de relação de uma expressão
com ouffas expressões do texto, tal como exemplifiquei acima a propósi-
to de cidadão. Só assim se torna possível deixar intervir na descrição do
sentido os rememorados que os diversos pontos de um texto recortam.
Ou seja, a descrição do sentido não pode se limitar ao estudo do funcio-
namento do enunciado. Este é parte da questão e não seu lugar.
6. CENA ENTINCIATIVA E DIVISAO DO LOCUTOR
Voltemos ao enunciado "O Presidente da República, no uso de suas
atribuições, Decreta...". Se caracterizamos que o Locutor ai, enquanto
lugar social, é o locutor-presidente, que figura de enunciador aí fala?
Não parece ser um enunciador individual. Podemos dizer que se trata de
um enunciador-universal. Ou seja, a enunciação do enunciado acima é
um dizer que se apresenta como válido para todos e cada um e para todas
as situações descritas no Decreta... O que aí se enuncia não se enuncia
como independente da história, mas como fora da história, como válido
para qualquer fato como aquilo que vai dirigir os fatos. Podemos dizer
que o Locutor está aqui dividido por ser a um tempo o locutor-presidente
e o enunciador-universal.
O que isto coloca de saída é que o sentido da enunciação é produ-
zido por esta divisão, por esta disparidade do Locutor a si. A questão
está em como explicar esta divisão própria do Decreta, que seria dife-
rente, por exemplo, de um caso em que o Presidente da República dis-
sesse "Quem semeia vento colhe tempestade" (suponhamos que ele o
tenha dito como comentário a uma ação política da oposição). Como
poderíamos descrever esta enunciação? Diríamos que háraítmlocutor-
presidente que fala do lugar de enunciador-genérico (não se trata, en-
tão, de enunciador universal, como no caso anterior). Esta divisão se
faz num aÇo4tecimento cuja temporalidade recorta uma memória de
dizeres populares estereotipados. Uma enunciação como essa, ao pro-
duzir esta nova divisão do Locutor, produz sentidos como "o Presiden-
te ameaçou a oposição, acusou a oposição de semear vento, discórdia,
etc", a partir de um dizer que não é só seu, mas é de todos. O locutor-
presidente toma o enunciador-genérico como argumento para si. A sua
voz é como avoz de todos, por isso ele fala com razão. E este enunciador-
genérico produz aí o efeito de que ele não fala como presidente mas
como um do todos, do povo.
Como dissemos antes, esta distribuição de lugares se constitui pelo
acontecimento por sua própria temporalização. Ou seja, no caso do De-
creta-X a temporalidade do acontecimento enunciativo é o presente que
ele (acontecimento) constitui e é uma memória, um passado de dizeres,
que autoriza o Presidente decretar e decretar-x. Por exemplo, é preciso
que x não tenha sido decretado, que x não diga o contrário de algo cons-
titucional, etc. O decreta x tem como seu passado esta memória de leis,
que aí está com o presente do acontecimento. Por outro lado, esta me-
mória faz sentido no acontecimento porque para um depois nele pró-
28 29
prio. Ou seja, se o presente não inclui nele mesmo uma projeção de um
depois nãohâ Decreta X, não há"1e7" senão para projetar um futuro de
sentidos (de obrigações).
7. LUGARES DE ENUNCIAÇÃO E POSIÇÃO DE SUJEITO
Este funcionamento do Locutor dividido pelo próprio jogo de se
representar como idêntico a si, quando se lhe é díspare, é o processo pelo
qual a enunciação apaga seu caráter social e histórico. Poderíamos per-
guntar: por que o Locutor é significado no acontecimento como indepen-
dente ou fora da história? Por que este colocar-se à margem da história se
produz por este modo de representação dos lugares de dizer (enunciador)
como apagamento do lugar social do locutor (locutores-x)? O que expli-
ca estas divisões do Locutor que funcionam produzindo o apagamento do
social e da história?
Como colocamos antes, para nossoponto de vista, falat e fazer-se su-
jeito é estar numa região do interdiscurso, de uma memória de sentidos
(Orlandi, 1999). Assim ser sujeito é estar afetado por este esquecimento que
se significa nesta posição. Deste modo a.representação do Incutor se consti-
tui neste esquecimento e é isto que divide o Locutor e apaga o locutor-x.
Voltemos ao caso do Decreta de um lado e ao caso do dito popular
de outro. No primeiro caso o lugar social de presidente é apresentado
como voz universal e o sujeito fala de uma região do interdiscurso (da
posição de sujeitojurídico-liberal). Falar desta posição de sujeito e nesta
cena enunciativadâ sentido ao apagamento das configurações sociais e
assim às disputas, dissimetrias do dizer (os conflitos próprios do lugar
social do locutor-x), pela representação do Locutor enquanto enunciador-
universal. Já no caso do dito popular, o sujeito fala de uma ouÍa região
do interdiscurso (posição de sujeito), a do senso comum. Posição que dá
ao todos a sabedoria irrefletida pela qual o Presidente não se diz Presi-
dente mas umdos que lhe são historicamente dissimétricos.
As duas caracterizações acima poderiam levar a pensar que a figura
do enunciador não énada mais do que uma repetição da questão da posi-
ção do sujeito. Mas não é o caso. O enunciador-universal, por exemplo,
pode ser o lugar do dizer de enunciações para as quais a posição do
sujeito no interdiscurso é a do discurso jurídico-liberal, como no caso do
Decreta X. Poderia ser, por outro lado, o lugar de dizer de enunciações
em que o sujeito estivesse na posição de sujeito administrativo, ou cientí-
fico. E estas diferenças levam a relações diversas entre o lugar de dizer e
o lugar social do dizer. Da posição do discurso juídico e do discurso
administrativo, o enunciador-universal pode ser o lugar de dizer que apa-
ga o locutor-presidente. Mas este mesmo enunciador-universal pode ser
o lugar que fala a partir da posição do discurso científico. O que pode
tanto deslocar, por exemplo, Fernando Herinque Cardoso (que hoje ocu-
pa a Presidência da República no Brasil) do lugar de locutor-presidente
para o de locutor-sociólogo, como não. Nada impede que da posição de
sujeito científico o lugar do dizer seja o enunciador-universal e o lugar
social seja o de locutor-presidente. Tantas vezes o atual presidente mobi-
lizou argumentações próprias da economia, da sociologia, etc, enuncian-
do do lugar de presidente. Mas não deixa de ser interessante ver como
falar do lugar do presidente apartir de uma posição do discurso científi-
co é diferente de falar do lugar do presidente a partir de uma posição do
discurso jurídico, como no caso do Decreta, ou de uma posição no dis-
curso político, como no caso do dito popular "Quem semeia vento, colhe
tempestade". E observe-se que o passado (memorável) do acontecimento
é emcadacaso outro.
1i
30 3T
Cnpfruro II
O NOME PROPRIO DE PESSOA23
Tomemos agora o objeto de que nos ocuparemos de modo específi-
co, o funcionamento da designação. Inicio pelo estudo da designação dos
nomes próprios de pessoa.
Pensar o nome próprio de pessoa nos coloca diante da relação nome/
coisa, na qual se considera que se está diante dos casos em que se tem um
nome único para um objeto único. Por outro lado se coloca a questão de
que há uma relação particular: o nome único é nome de uma pessoa úni-
ca. Ou seja, estamos na situação em que o nome está em relação com
aqueles que falam, que são sujeito no dizer. Isto por si só resignifica a
questão darelação nome/coisa, na medida em que arelação é nome/pes-
soa, nome/falante, nome/sujeito.
Um dutfo aspecto importante a considerar é que a relação nome
único/objeto único pode levar a uma hipótese de unicidade do nome.
Vamos, neste capítulo, procurar discutir as questões acima a partir
de uma posição enunciativa tal como acabamos de configurar. Como se
verâ,, o estudo do nome próprio de pessoa leva a recolocar fortemente as
questões relativas ao domínio que pensa arelação da linguagem com o
mundo e como sujeito.
Observaremos, inicialmente, os aspectos morfossinLáticos (um modo
de construção) do funcionamento do nome próprio de pessoa e em segui-
da seus aspectos semântico-enunciativos.
1. FUNCIONAMENTO MORFOSSINTÁTICO
Se tomamos nomes próprios tal como os existentes na nossa socie-
dade, encontramos nomes como: Getúlio Domelles Vargas, João Belchior
23. Esta seção retoma parte do que disse em'Designação e Processos de Enunciaçáo", de 7993,
mimeo. Faz também parte, com algumas diferenças, de Guimarães (2000b). Cf. outros estu-
dos sobre designação em Guimarães (1991a, l99Lb e 1993)
JJ
Marques Goularl, Antônio Cândido de Melo e Souza, Joaquim Mattoso
Câmara Júnior João Café Filho.
Nestes nomes, como em outros, vamos encontrar nomeações que se
formam a partir da combinação de dois tipos de nome: Os nomes e os
sobrenomes. Ou seja, temos uma classe de nomes como Getúlio, João,
Belchiof Antônio, Cândido, Joaquim, e outra de nomes como Vargas,
Marques, Goulart, Melo, Souza, Mattoso, Câmara, Café.
Além disso temos nomes de uma terceira classe como Júnior e
Filho.
O que se observa é que o nome próprio de pessoa, que é apresentado
como umnome único para uma pessoa única,é na verdade uma construção
tal que um sobrenome determina lm nomeu. Por exemplo, Marques e
Goulart determinam João Belchior. Há que se considerar aqui que nome e
sobrenome podem ter uma relação de determinação interna através de um
procedimento de aposição de um nome ou sobrenome ao outro. Voltemos à
determinação do nome pelo sobrenome. Ela diz que este João Belchior é
tmMarques Goulart. É dapamitiaMarques Goulart. Ou seja, o funcio-
namento do nome próprio de pessoa é construído por uma determinação.
Se observarmos, ainda, o funcionamento de nomes da terceira clas-
se (Júnior, Filho), vamos ver que esteis palavras têm também um funcio-
namento determinativo que se caracterizapor estabelecer uma distinção
entre nomes iguais. Joaquim Mattoso Câmara Júnior é, o Joaquim dos
Mattoso Câmara que é filho de um oatro Joaquim dos Mattoso Câmara.
Ou seja, há uma constituição morfossintática do nome próprio de
pessoa e ela se dá como relações de determinação que especificam algo
sobre o que se nomeia. E estas relações são restrições que determinam o
modo de nomear alguém.
Um outro aspecto interessante a observar é que a relação entre o
sobrenome e o nome se dá tanto por uma justaposição, como em Getúlio
Dornelles Vargas quanto através de preposição, como é o caso de Antô-
nio Cândido de Melo e Souza, em que o de liga Melo e Souza a Antônio
Cândido. Aqui se observa também que os sobrenomes, quando mais de
um, podem vir justapostos como em Mattoso Câmara, ou articulados
por uma conjunção, como em Melo e Souza2s.
As ligações entre o nome e o sobrenome podem se dar ainda com
algumas variações como as que estão em Epitócio da Silva Pessoa,
24. Volta¡emos depois sobre esta questão da determinação, que do ponto de vista semântico-
enunciativo é mais complexa e contém também a determinação do nome sobre o sobrenome.
25. Não deixa de ter interesse observar como a ortografia, Souza ou Sousa, por exemplo, faz
parte destes mecanismos determinativos e identificadores.
34
Hermes Rodrigues da Fonseca. Nestes casos vê-se a ligação entre onome
e o sobrenome feita por uma preposição e um determinante (artigo) as-
simcomo uma ligação entre os sobrenomes, damesmaforma. Apresen-
ça do artigo traz mais um aspecto das determinações que se podem dar na
constituição do nome próprio
Esta observação inicial já nos leva a considerar que o nome próprio
de pessoa é, na nossa sociedade, uma construção em que relações semân-
ticas de determinação constituem o nome, o que já nos afasta de posições
estritamente referências ou cognitivas no estudo do nome próprio. Isto
ficará mais claro ainda pelas análises que se seguem.
2. O FI.]NCIONAMENTO SEMÂNTICO-ENUNCIATIVO
Antesde analisar aspectos específicos deste funcionamento, é pre-
ciso observar que a nomeação de pessoas se dá no espaço de enunciação
da Língua Oficial do Estado, aLíngtaNacional, como homogênea. Ob-
serve, por exemplo, os nomes acima apresentados, e considere a incum-
bência da autoridade responsável pelo registro de crianças em não aceitar
nomes "fora de propósito". É pensando neste espaço de enunciação que
vamos aqui observar como a nomeação constitui a designação de um
nome próprio de pessoa. Consideraremos, nos textos nos quais se apre-
senta, as relações do-funcionamento designativo do nome prórpio com as
enunciaçÕeq de nomeação (nas quais um nome é atribuído a uma pessoa).
Tomaremos para isso quatro aspectos.
A) O ato de dar nome a uma pessoa, na nossa sociedade, pelos pais;
B) Relativamente ao item A, o que nos diria o fato de que em cada
época há nomes predominantes, que são mais usados? (Reportagem de
jornal de cerca de quatro ou cinco anos dava conta de que o nome predo-
minante naquele momento era Bruno, para os meninos);
C) Por que alguém que foi nomeado
a) Antônio Cândido de Melo e Souza é no uso corrente Antônio
Cândido?
b) Maximino de Araújo Maciel é Maximino Maciel?
D) No serviço militar alguém que se charnaloão Roberto Rodrigues da
Silvapde ser João ot Roberto ou Rodrigues ou Silva, e mesmo da Silva?
A análise destes aspectos põe de início a questão sobre o funciona-
mento do nome próprio que se constitui como a busca de uma unicidade.
Ou seja, um nome para uma única pessoa. Unicidade que o funcionamen-
to morfossintático mostraqlue é, em verdade, uma construção de relações
lingüísticas e não uma relação diretaentre palavra e objeto. Como vimos,
35
um nome de pessoa é uma construção com determinações de um certo
tipo. A questão interessante é procurar saber o que significa esta constru-
ção de unicidade do nome próprio.
Minha hipótese aqui é que esta unicidade é um efeito do funciona-
mento do nome próprio como processo de identificação social do que se
nomeia. Isto ganha contornos especiais e muito particulares no caso dos
nomes próprios de pessoa porque neste caso o funcionamento do nome se
dá no processo social de subjetivação. Ou seja, passa a ser uma questão
do sujeito.
Vamos, então, para refletir sobre esta questão fundamental, tomar
os quatro aspectos há pouco colocados.
2. 1. Tomemos o caso A. Dar nome a uma criança é uma "obriga-
ção" dos pais que a devem registrar. E é uma "obrigação" estabelecida
pela lei (um conjunto de textos específicos), que obriga os pais a registra-
rem um recém-nascido. Os pais devem solicitar ao cartório a emissão de
uma certidão, um texto sustentado pela lei, que nomeia e inclui o nomea-
do no Estado, com as obrigações e direitos advindos desta inclusão. Dar
nome a uma pessoa se faz, então, do lugar da paternidade (locutor-pai)
que se configura como um lugar socialbem caracteizado. Não é a pater-
nidade biológica que interessa no processo, embora o direito coloque a
relação biológica como elemento do lugar da paternidade. Mas os pais
nomeiam como aqueles que escolhem, segundo querem, um nome. Te-
mos, então, um enunciador-individual. A representação deste enunciador
apaga a constituição do Locutor pela rede jurídica que o instala como
pai, no espaço enunciativo da Língua Portuguesa, com certas obrigações
de dizer (dar nomes aos filhos, por exemplo).
Dar nome é, assim, identificar um indivíduo biológico enquanto in-
divíduo para o Estado e para a sociedade, é tomá-lo como sujeito. Deste
ponto de vista ganha interesse o funcionamento determinativo da cons-
trução do nome próprio de pessoa. No caso de Antônio Cândido de MeIo
e Souza, por exemplo, nomeá-lo é colocá-lo na relação social como o
Antônio Cândido dos Melo e Souza. É colocá-lo na sociedade com uma
identificação.
2.2.Yejamos o aspecto B. Ele mostra, claramente, que a "escolha,,
do nome não é uma escolha. Sua "origem" não é nem o locutor-pai (lugar
social) nem o enunciador-individual (lugar de dizer). O Locutor se repre-
senta, na escolha do nome Bruno, como um enunciador-contemporâneo,
que se caracteizapor enunciar tal como se "escolhe" enunciar num certo
momento. Ou seja, a "escolha" do nome se dá segundo um agenciamento
enunciativo específico. Este acontecimento de nomear recorta como me-
moráveis os nomes disponíveis como contemporâneos, próprios de sua
época. Assim se este enunciador apaga o lugar do pai, o signficia, ao
mesmo tempo, como moderno.
O processo enunciativo da nomeação pode, então, envolver lugares
de dizer diferentes, o que diz respeito ao fato de que uma enunciação que
nomeia pode estar citando enunciações diversas. No caso de Bruno há
alguns anos, a enunciação do pai cita a enunciação daqueles que são
tidos como modernos, engajados no seu presente. Lembremos também
como muitas crianças chamaram-se Donizete, no Brasil, num celto mo-
mento, por causa de um padre cujo sobrenome era Donizete. As nomea-
ções dos pais citam as enunciações que nomearam tal padre Donizete.
Isto se dá por um acontecimento que recorta uma outra memorialidade de
nomes no espaço da contemporaneidade, o das celebridades. Em oposi-
ção a isso se pode ter, e se tem, casos de pais que adotam nomes que
parecem não estar disponíveis num certo momento. Neste caso são ou-
tras as enunciações citadas.
Esta questão mostra, ao mesmo tempo, que nas nomeações podem-
se cruzar Íegiões diferentes do interdiscurso (posições de sujeito diferen-
tes). No Caso do nome Bruno a posição de sujeito é a jurídico-liberal, no
caso de Donizete cruzam-se duas posições de sujeito, de um lado a jurídi-
co-liberal (aquela da qual se nomeia por obrigação do Estado) e de outro
a posição de sujeito religioso. O agenciamento enunciativo específico é
afetado pef a gremória do dizer, pelo interdiscurs o.
A análise acima nos leva a dizer qtJe o nome determina, na constru-
ção do nome de pes soa, o sobrenome. Se alguém é nomeado Donizete da
Silva, o é por uma memorialidade de nomes célebres enunciada de uma
posição de sujeito religioso. Assim Doni zete determina da Silva, na me-
dida em que particulariza um da Silva a partr desta posição religiosa.
Do mesmo modo que o da Silva, como qualquer sobrenome, ver o que
disse em2.1 ,pafüøtlarizatmDonizete,quenáoé só este. São muitos os
que naquele momento se chamaram Donizete, como em outro caso Brut -
no. Estar num lugar enunciativo e nomear uma criança é particularizat
um dos Silva, Melo, etc.E interessante observar aqui a articulação da
temporalidade do acontecimento, um memorável contemporâneo de cele-
bridades, e a posição de sujeito religioso no interdiscurso
Mais uma vez a construção do nome opera enunciativamente no
processo de identificação social do indivíduo. Um Donizete da Silva é
tm Donizete que configura os da Sl/va, mesmo que o lugar do dizer
(enunciador-individual) dpresente a nomeação como a escolha de um nome
para particularizar um ser biológico específico.
36 37
2.3. Agora o aspecto C. Primeiro há que se registrar que ao lado da
nomeação dos pais, há um processo de designação que se dá para alguém,
a partir da enunciação dos pais, mas numprocesso de certa forma distinto.
Deste modo o nome que é dado do lugar do pai é alterado no proces-
so da vida social em que o indivíduo está e acaba por se reduzir, modifi-
car. Por exemplo, Antônio Cândido de Melo e Souza torna-se Antônio
Cândido por um trabalho enunciativo sobre a enunciação inicial que re-
gistrou um nome para a pessoa. A mesma coisa se dâpara Maximino de
Araújo Maciel que se toma Maximino Maciel. São outros lugares de
enunciação que renomeiam o que se nomeou do lugar do pai. Este jogo de
enunciar a partir de outras enunciações refazatemporalidade do primei-
ro acontecimento, exatamente por tomáJo diretamente como o rememorado
que o presente do segundo acontecimento modifica.
Diríamos que há duas direções diferentes operando: em uma opera
uma "individtalização",em outra opera a relação de família. Aqui se
poderia ver porque alguém cujo nome fosse João Rodrigues passa a ser
J oão ol então Rodri gue s.
No primeiro caso, tem-se uma enunciação que inclui a nomeação
inicial (feita do lugar da patemidade, por um enunciador-individual) pela
desmontagem da determinação do sobrenome sobre o nome. Isto se dá
por um locutor-x que enuncia como um enunciador-coletivo.
O enunciador-coletivo é este lugar de dizer que se caracterizapor
ser a voz de todos como uma inicavoz.
No segundo caso tem-se o mesmo processo de uma enunciação que
toma outra enunciação, agora pela desmontagem da determinação do nome
sobre o sobrenome. E isto se dá por um locutor-x que enuncia como um
enunciador-genérico. Esta diferença está, para mim, ligada à diferença
entre nome e sobrenome naLínguaPortuguesa. No espaço de enunciação
do Português no Brasil há uma distribuição da língua tal que renomear
pelo nome inclui no lugar de renomeação o próprio renomeado. É como
um nós, do qual o renomeado faz parte. Por outro lado renomear pelo
sobrenome é falar do lugar de um acordo genérico no qual se diluem o
lugar que diz e a pessoa renomeada.
Neste percurso cotidiano do funcionamento dos nomes o processo
de indentificação estabelece uma relação muito particular entre o nome a
que se chega e a pessoa. Assim o nome acaba por funcionar, a parlir de
uma história de enunciações, como um nome para a uma pessoa, cuJo
processo de construção é esquecido. É como se não houvesse outra pes-
soa com o mesmo nome, como se a homonímia se desfizesse pela própria
história enunciativa que levou a este nome "definitivo". Se encontramos
dois Rodrigues eles "não são homônimos" porque a enunciação de um
como Rodrigues se dâ a partir de um acontecimento enunciativo que o
nomeot João Rodrigues distinto daquele que nomeot João Rodrigues ao
outro. Da mesma forma, se se encontram dois Antônio Cândido, tm é
aquele nomeado antes Antônio Cândido de MeIo e Souza e o outro é o
nomeado antes Antônio Cândido X.
Este percurso social do nome, e ele não é homogêno para todas as
pessoas (que inclui a refotmulação por um enunciador-coletivo ou gené-
rico de uma enunciação de um locutor-pai), é o que faz com que o nome
funcione como se fosse uma unidade não construída que tem uma relação
unívoca com algum objeto, a pessoa que o nome nomeia. Na medida em
que o acontecimento em que fala um enunciador-coletivo ou genérico tem
como passado a enunciação de um locutor-pai, a unicidade se representa
como'efeito da temporalidade do acontecimento. Esta memória coloca
uma relação um p ai,/um filho/um nome. Ou seja, a unicidade é um resul-
tado da não unicidade de um nome para a mesma pessoa. E porque a
nomeação de uma pessoa não é unívoca, ou seja, uma pessoa não tem no
processo de sua vida social um único nome, que o nome próprio de pes-
soa acaba por mostrar-se como funcionando univocamente. E o trabalho
de uma enunciação segunda sobre a enunciação da paternidade pelo Es-
tado que desfaz arelação de determinação entre o nome e o sobrenome.
2.4.Por fim o caso D. O lugar do qual se nomeia neste caso é, de
uma maneira direta, o que toma explicitamente a necessidade do único
como cardctérística do nome próprio, como característica da designação:
como a dizer que se a sociedade não respeita esta unicidade, a corporação
deve repô-la. Ou seja, se há dois João Rodrigltes, ùm deve ser João e
oltro Rodrigues. Aqtiestá em jogo o que Pêcheux (1983) chamou de o
logicamente estabilizado. Este procedimento se dá como uma enunciação
que toma as enunciações primeiras para, de algum modo, *censurá-las",
por uma escolha no seu interior. Isto se faz por um locutor-chefe (lugar
social) e um enunciador-corporativo: um nome é dito único para uma
pessoa na relação com todas as pessoas, apagando-se seu caráter
corporativo e específico
Quanto à posição do sujeito diria que se trata da posição do discur-
so administrativo que só distribui nomes como se não houvesse aí nenhu-
ma memória, embora o acontecimento em que se dá tenha uma
temporalidade em que o passado são as enunciações primeiras que nome-
aram todos que ali estão.
Funciona neste caso uma hipótese sobre uma necessidade para o
funcionamento da linguagem. A designação deve, em um universo dado,
38 39
produzir a unicidade, a inequivocidade da referência. Ou seja, este proce-
dimento, mesmo censurando a não univocidade, não consegue funcionar
senão,a partir de uma hipótese fraca para a univocidade.
E importante ressaltar que no interior de todo grupo há uma neces-
sidade de se instalar o único relativamente ao nome próprio. Numa famí-
lia não se dá o mesmo nome duas vezes, etc. Aqui se poderia inclusive
lembrar que quando se dá o nome de alguém ao seu próprio filho, acres-
centa-se, ao final, Filho ou Júnior.
Isto leva a considerar o fato de que o funcionamento do nome pró-
prio de pessoa, na nossa sociêdade, inclui uma hipótese de unicidade que
não tem, no entanto, procedimentos de diferenciação suficientes a não ser
no interior de cada família, ou seja, o nome próprio funciona como se
fosse único, embora não o seja. E a não unicidade se dá pelo cruzamento
de lugares enunciativos diferentes que levam à nomeação: o da corporação,
o coletivo, o da atualidade, etc., relacionados com uma história de
enunciações que vai afetando o nome.
Um outro aspecto é observar como este procedimento de uma
corporação militar, que se pode encontrar em outras instituições, é uma
intervenção de uma posição que funciona no centro do imaginário de que
há um Locutor que por si nomeia, que iliz que um nome (este) é para uma
pessoa (esta). Ou seja, de que o Locutor é uno e não é afetado pela divi-
são sócio-histórica do dizer.
Mas mais vmavez podemos ver aí, funcionando, o papel do nome
no processo de identificação social. Ou seja, como a unicidade que se
busca para o nome é efeito da identificação: você é você e não é nenhum
outro. Assimé possível referi-lo, interpelá-lo, responsabilizâ-lo, etc,"sem
possibilidade de erro, de equívoco". É possível tomá-lo em cenas
enunciativas específicas, segundo a distribuição dos papéis de locutor-x
e alocutá.rio (correlato deste).
3. O NOME PRÓPRrO: DESTGNAçÃO B SUBJETTVAÇÃO
O processo enunciativo da designação significa, então, na medida
em que se dá como um confronto de lugares enunciativos pela própria
temporalidade do acontecimento. Este confronto recorta e assim constitui
um campo de "objetos". Se se mudam os lugares enunciativos em con-
fronto recorta-se um outro memorável, um outro campo de "objetos"
relativos a um dizer.
Assim há uma diferença de sentido emAntônio Cândido relativa-
mente a Maximino Maciel.Para o primeiro caso não funciona o memorá-
vel da genealogia, enquanto que para o segundo sim. Por outro lado, para
alguém queé João Roberto Rodrigues da Silva, significa diferentemente
quando for ou João, ol Roberto, etc. no serviço militar. A posição de
unicidade própria deste funcionamento recorta como memorável no acon-
tecimento um dizer anterior que nomeou a pessoa como se essa primeira
nomeação fosse indiferente, relativamente à necessidade da não
ambiguidade do nomepróprio. Estamos aqui diante de umclaro conflito
do funcionamento conente que nomeia e do funcionamento da corporação
que aí intervém diretamente em nome da unicidade.
Isto signific a dizer que as pessoas têm nelas algo que lhes é dado
pelo processo da designação.Faz parte deste processo o fato de que o
sujeito destas enunciações é sujeito enquanto fala de uma posição ideolo-
gicamente configurada pelo interdiscurso: posição de sujeito jurírido-li-
beral, ou religioso, ou administrativo, etc. As pessoas não são pessoas
em si. O sentido do nome próprio lhes constitui, em certa medida. O
sentido constitui o mundo que povoamos. E o constitui enquanto produz
identificações sociais que são o fundamento do funcionamento do indiví-
duo enquanto sujeito. E aqui é precisolembrar que este processo de iden-
tificação se faz no espaço de enunciação da Língua do Estado, e assim
identifica o indivíduo como cidadão.
Poderia dizer que o funcionamento referencial destes nomes (de par-
tictlanzar alguém) é produzido pelo processo enunciativo que se dá como
procedimorrtq do processo de identif,icação social. A unicidade, ou seja, o
efeito de que não há nenhuma distância que separe o nome de uma pessoa
dessa mesma pessoa, portanto seu funcionamento eminentemente
referencial, é um efeito do funcionamento do nome próprio neste proces-
so social de identificação do indivíduo, de sua subjetivação. Ou seja'
nomear um pessoa é uma enunciação que funciona por um processo de
determinação semântico-enunciativa em virtude de se dar no interior do
processo social de identificação, mas que, ao apagar, pela representação
do enunciador, o lugar social de locutor, se mostra como meramente
referencial. Este apagamento do locutor-x (lugar social da enunciação)
se dá porque o Locutor não sabe que fala de uma posição ideológica de
sujeito. A referencialidade do nome próprio é produzida por este apaga-
mento em virtude deste esquecimento.
4. NOMEAçÃO, DESIGNAçÃO, REFERÊNCIA
Dar um nome próprio é falar segundo a deontologia do espaço
enunciativo de uma língua. Para o nosso caso, só o locutor-pai pode
40 4I
nomear, sendo-lhe negado o direito de não nomear, de não dizer (instalar)
o nome do filho. E esta nomeação se dá segundo as regularidades dos
procedimentos de determinação dos nomes de pessoa. E nesta configura-
ção própria do espaço enunciativo de uma língua, o Português por exem-
plo, que o nome próprio de pessoa tem sua história, pela qual ele ao se
construir e reconstruir enunciativamente trabalha a identificação do indi-
víduo que se nomeia, sem que ele próprio tenha escolhido seu nome.
A capacidade referencial não ê, assim o fundamento do funciona-
mento do nome próprio. A referência resulta do sentido do nome consti-
tuído por seu funcionamento no acontecimento enunciativo. Quando um
nome próprio funciona ele recorta um memorável que enquanto passado
próprio da temporalidade do acontecimento relaciona um nome a uma
pessoa. Não é um sujeito que nomeia, ou refere, nem a expressão, mas o
acontecimento, exatamente porque ele constitui seu próprio passado.
Assim a unicidade do nome próprio de pessoa é uma construção da
disparidade que acompanha seu funcionamento. O que ele refere hoje é o
que uma nomeação passada (de um locutor-pai) nomeou. O que ele signi-
fica numa dada enunciação (com sua temporalidade) é toda sua história
de nomeações, renomeações e rqferências realizadas (com suas
temporalidades próprias).
C¡pirurc III
NOMES DE RUA
Os nomes de ruas e de lougradouros públicos em geral se nos apre-
sentarhprincipalmente por seu aspecto cotidiano. Ou seja, são nomes que
usamos no nosso dia a dia por razões práticas como encontrar a casa de
alguém, uma loja, mandar uma carta, etc. Estes nomes estão presentes
para nós por uma estabilidade cotidiana do endereço.
Dados os objetivos deste trabalho vou tomar os nomes de ruas
como mais ummodo de questionar as posições informacionais no modo
como tratam a relação da linguagem com as coisas, com o mundo. Ques-
tão, como já disse antes, incontomável para quem estuda a linguagem.
Para analisar esta questão vou tomar um caso específico: os nomes
de ruas da cidade de Cosmópolis. Esta cidade, com uma população entre
40.000 
" 
3o.bOO habitantes, nos permite tomar todos seus nomes de rua
para encontrar neles, de forma objetivada, um conjunto de questões que
envolvem o funcionamento deste tipo de nome próprio.
1. OS NOMES NO MAPA: PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE
Vou analisar os nomes de ruas de Cosmópolis enquanto nomes no
mapa da cidade. Neste sentido, o co{pus não é simplesmente o rol dos
nomes das ruas, mas o mapa da cidade enquanto um texto. Desta maneira
coloco o modo específîco como vou considerar a relação integrativa do
nome, ou seja, o que é o seu sentido. Tomar o mapa como corpus permite
tomar, também, a questão da relação dos nomes no seu conjunto e sua
distribuição no espaço urbano. Pode-se, então, refletir, como algo próprio
do corpus em análise, sobre a questão da nomeação dos espaços da cidade,
bem como o modo de distribuição dos nomes pelos espaços historicamente
constituídos. Ou seja, não consideramos o espaço físico, que tem uma pa-
lavra na língua para referi-lo, e depois os episódios históricos que ali ocor-
42 43
reram. Para nossa posição, o espaço do homem só é espaço enquanto his-
toricamente determinado, e a linguagem o designa neste processo histórico.
Ao tomar a análise destes nomes enquanto nomes num mapa,
podemos considerar que estamos diante de uma cena enunciativa em
que a configuração de unidade textual do Locutor está aí dividida em
um locutor-oficial (da adminisfração pública da cidade), enquanto lugar
social que enuncia, e um enunciador-universal, que coloca a enunciação
dos nomes no mapa como nomes para todos e para sempre. Ao mesmo
tempo estou considerando que vou analisar o funcionamento dos nomes
num acontecimento afetado pela posição de sujeito jurídico-adminis-
trativo, enquanto posição do interdiscurso que afeta a língua neste
acontecrmento.
Evidentemente que um estudo como esse não inviabiliza a conside-
ração das questões postas por acontecimentos enunciativos do cotidiano,
nos quais os nomes funcionam de modo semelhante, mas, seguramente,
com diferenças importantes.
Vamos analisar, pelo estudo do mapa, a existência de um nome en-
quanto nome de uma rua. Isto quer dizer, para nós, que vamos analisar de
um lado o processo enunciativo que produziu cada nomeação (que no-
meou tal rua com tal nome), e de outrô, como estes nomes se relacionam
neste texto que é um mapa enquanto mapa de uma cidade. E a considera-
ção do mapa como texto para nele estudar estas nomeações coloca a
questão de saber como se dá a relação de cada nome com aquilo que
nomeia fora do texto, na cidade.
Nesta medida os nomes de rua são enunciados de seu texto, o mapa.
E nesta medida são nomes cujo funcionamento é diverso de outros nomes
próprios, como os nomes de pessoa, por exemplo. Por outro lado, estes
enunciados têm uma outra caracaterística importante: não têm estrutura
de frase. E as relações que organizam estes enunciados no texto são de uma
natureza muito diversa daquelas que uma lingüística textual desenvolve.
Se tomamos um conjunto de nomes de ruas (e aqui os tomo tal como
aparecem no mapa de Cosmópolis) podemos pensar no funcionamento
do nome enquanto uma unidade. Por exemplo:
Av. Centenário do Dr Paulo de Almeida Nogueira,
R. Anchieta
Independentemente de uma diferença de construção, são to-
dos tomados como tendo o mesmo funcionamento semântico-
enunciativo.
Por outro lado, podemos fazer atenção à diferença de construção do
nome próprio de rua. Para pensar estas diferenças vou analisar:
a) sua estrutura morfossintática;
b) seu funcionamento semântico-enunciativo;
c) a configuração da temporalidade do acontecimento.
2. AS ESTRUTURAS MORFOSSINTATICAS
Os nomes das ruas de Cosmópolis podem ser:
a)Nomes próprios depessoas: R. Antonio Carlos Nogueira; R. Artur
Nogueira; Av Ester; R. Juscelino Kubitschek de Oliveira.
b) Nomes próprios topográficos: R. Monte Castelo
c) Nomes próprios de Cidades ou País: R. Brasília; R. Campinas;
R. Paulínea; R. São Paulo; R. Portugal (no corpus em questão é o único
nome de País enunciado como nome de rua).
d) Ñorhes próprios de pessoas determinados por uma titulação: R.
Baronëza Geraldo de Resende; R. Coronel SilvaTþles; R. Pastor Paulo
Leiva Macadão; R. Evangelista Luiz Semensato Primo; R. Cabo Cruz; .
Presidente Getúlio Vargas; R. Dr Rui Barbosa.
e) Sintagmas preposicionados: R. dos Expedicionários; R. dos Pro-
fessores; Av. dos Trabalhadores; R. do Vereador; Av. da Saudade; R. das
Laranjeiras; R. dos Sorocabanos.Ð Nomes seguidos ou precedidos de uma determinação: Au Cente-
nório do Dn Paulo de Almeida Nogueira; R. Santa Cruz.
g) Numeral Seguido de um Sintagma preprosicionado (datas): R. Z
de Abril; R. 22 de Abril; R. 25 de Dezembro; R. l5 de Novembro; R.7 de
Setembro.e
44
R. 7 de Abril. h) Números: Rua 1; R.2; R. 3.
45
Estas estruturas já mostram uma diferença do funcionamento dos
nomes de ruas relativamente a outros nomes próprios como os nomes
próprios de pessoa e os nomes de quadros de pintura, por exemplo.
No caso dos nomes próprios de pessoa, como mostramos anteriormen-
te, eles se constituem de nomes e sobrenomes e podem ter uma preposição (e
mesmo artigo) antes de algum sobrenome. Eventualmente um segundo so-
brenome é precedido de uma conjunção e. Por exemplo: Paulo Rodrigues;
Antonio Candido deMelo e Sotza;Manuel Deodoro da Fonseca.
No caso dos nomes próprios de quadros de pintura podemos reto-
mar a análise feita por B. Bosredon (1999). Segundo ele os nomes de
quadros têm formas diversas, mas na maioria dos casos faz parte da
categoria nominal. Os nomes de quadro podem ser constituídos poÍi "no-
mes próprio,s: nome de pessoa, como Célestine (Picasso); nome de lugar,
como Sacré-Coeur (id.). Encontramos também nomes comuns sem ex-
pansão, como Montagne fMontanha] (Kandinsky), Les repasseuses fl's
Passadeiras] (Degas), ou com expansão como P aysage avec vaches fPai-
sagem com Vacasl (Rousseau), Jeune fille en blanc dans un bois [Moça
de Branco num Bosquel (Van Gogh), Deux blanchisseuses portant du
lingefDuas Lavadeiras levando Roupal (Degas). O Grupo Nominal é às
vezes duplo: Printemps; Argenteuil [Pri-mavera; Argenteuil] (Monet). Uma
lista pode inclusive constituir um título: Escargot, femme, fleur, étoile
[Caramujo, Mulher, Flor, Estrela] (Miró). Notamos igualmente estrutu-
ras nominais dotadas de uma função sintática implícita sob a forma de
sintagmas preposicionais: Sans titre fSemTítulol (Kandinsky); Dans le
åols [No Bosque] (Van Gogh); Chez la modiste [Na modista] (Degas).
As vezes, acaracteização do núcleo nominal passa por outros meios de
expressão que não formas estritamente linguísticas, como T. 1973-8.3.
111X180 cm. de Harlung, que parecem as designações de uma lingua-
gem técnica documentária. Alguns títulos, finalmente, constituem jogos
de linguagem que os afastam ainda mais das estruturas morfossintáticas
padrão, como este estranho Galacidalacidisoxyribonucléidacide de Sal-
vador Dalí. Todos esses títulos, à exceção das estruturas Preposição+N e
os últimos exemplos, entram na categoria nominal, entendida num senti-
do amplo.
A outra famíliamuito mais reduzida está composta de proposições
e de frases: Ils sont de retour [Eles Estão de Volta] (Artistas Franceses);
C'est encore un Cubas Glaser! Refusé [É Ain¿a um Cubas Glaser! Re-
cusadol (Artistas Franceses); Bonjour; Monsieur Courbet! [ Bom dia,
Senhor Courbetll (Courbet); Bonjour Monsieur Gauguin! [Bom dia,
Senhor Gauguin ! I (Gauguin)" (Bosredon, 1999, 19 -20)
46
Podemos observar que os nomes próprios de ruas funcionam de um
modo muito mais "frxo" que os nomes de quadros, mas de um modo menos
fxo que os nomes de pessoa. Veja, por exemplo, que no corpus de Cosmópolis
não se encontra como nome próprio de rua descrições como 'Duas Lavadei-
ras Lavando Roupa", ou "Moça de Branco numBosque". Não há também
nos nomes próprios deruagrupos nominais múltiplos como em"Primavera;
Argenteuil", ou "Caramujo, Mulher, Flor, Estrela". Por outro lado, há no
corpus de Cosmópolis nomes que são sintagmas preposicionados como "Sem
título" ou "No Bosque": veja o caso de Rua do Vereaàor; das lttranjeiras,
etc.HátamÉm neste corpus nonrcs comdeterminações (expansões) tal como
nos nomes de quadros como "Paisagem com vacas". E o caso de "Rua Cen-
tenário do Dr. Paulo de Almeida Nogueita".
Na medida em que se vêem diferenças entre tipos de nomes próprios
(de pessoas, de quadros, de ruas), no que diz respeito à sua estrutura
morfos sintá tica, faz- se neces s ário perguntar s obre o que elas si gnificam.
Não se pode pensar que uma estrutura corresponde a um modo de signi-
ficar, como se verá depois. Mas por outro lado há impedimentos para que
certas estruturas funcionempara certos tipos de nomes. O que este impe-
dimento significa? Em verdade deve-se perguntar: o que produzem estes
diferentes impedimentos ?
Uma outra pergunta: Qual a razão desta diferença de estrutura intema
dos nomes próprios de rua? O que ela significa? Estas diferenças dizemres-
peito aos difErentes agenciamentos enunciativos dos espaços de enunciação
nos quais as nomeações se constituem e as designações funcionam.
3. O FI.INCIONAMENTO SEMÂNTICO-ENUNCIATIVO
Neste caso, tal como para os nomes próprios de pessoa, há que
se levar em conta que as cenas enunciativas da nomeação das ruas se
dão no espaço enunciativo da Língua Oficial do Estado, da língua
Nacional.
Um aspecto importante deste funcionamento é o modo como a
enunciação que nomeia uma rua se relaciona com outras enunciações: as
que nomeiam pessoas ou datas, por exemplo.
A nossa hipótese, como resposta à última pergunta da seção anteri-
or, é a de que a unidade do nome de rua não é construída pela enunciação
que nomeia arua, mas por outra enunciação que está contida na enunciação
que nomeia a rua.
A enunciação dos nomes de ruas é sempre uma enunciação a partir
de outra enunciação.
4l
a) No caso de ruas com nomes próprios de pessoa, a enunciação que
nomeia a rua toma e inclui a enunciação que nomeou a pessoa. Conside-
remos alguns casos.
A R. Juscelino Kubitschek de Oliveira tem este nome por uma
enunciação que a nomeia a partir da enunciação que nomeou alguém com
esse nome. Este tipo de funcionamento enunciativo se dá também em outros
casos como: R. Antonio Carlos Nogueira, R. Artur Nogueira, Av. Ester.
Este mesmo processo se dá com a nomeação de ruas a partir de
nomes de cidades: R. Brasília, R. Campinas, R. Paulínea, R. São Paulo.
Ou de nomes de acidentes geográficos: R. Monte Castelo.
b) Há um caso assemelhado, mas que já envolve duas enunciações. É
o caso dos nomes próprios de pessoa determinados por uma titulação. Nes-
te caso a enunciação que retoma o nome retoma a enunciação que nomeou
alguém e a enunciação que lhe deu um título. Assim, Presidente Getúlio
Vargas, como nome de rua, traz a enunciação que nomeou alguém como
Getúlio Vargas e a enunciação que o predicou como Presidenfe26.
Um caso especial aqui é o de Baroneza Geraldo de Resende como
nome de rua. Esta nomea ção traz a enunciação de alguém como "B at oneza
Geraldo de Resende", mas isto é o apggamento da nomeação específica
de uma mulher para assumir uma titulação que the vem pelo nome do
marido. Assim a enunciação da R. Baroneza Geraldo de Resende inclti
a enunciação do nome de registro (de batismo) da mulher que se casou
com Geraldo de Resende; a enunciação que nomeou alguém como Geral-
do de Resende; a enunciação que confe¡iu o título de Barão a Geraldo de
Resende e assim à Baroneza. E por estas últimas traz o silenciamento da
nomeação da mulher que se casou com Geraldo de Resende. Se Baroneza
é aqui uma "segunda" enunciação, ela se dá como silenciamento da
enunciação da nomeação primeira da baroneza.
c) Os nomes caracferizados como sintagmas preposicionados, fun-
cionam como nomes que se enunciam a partir de enunciações de descri-
ções definidas. Assim rR ua dos Sorocabanos se dá como um nome de rua
que busca, na enunciação descritiva de que há uma rua com sorocabanos,
o fundamento para a enunciação do nome. O mesmo se dá com R. das
Inranjeiras, R. dos Trabalhadores, R. dos Professores, R. dos Expedi-
cionários, etc.
26. Seria interessante observar que nesta relação de enunciações a segunda pode modificar a
primeira. No caso da Av. Presidente Getúlio Vargas, a nomeação da rua modifica a nome-
ação da pessoa que fora nomeada Getúlio Dornelles Vargas. Talvez aqui fosse necessário
observarque a enunciação que nomeia a rua se dá incluindo uma história de enunciações
quejá reduzira Getúlio Dornelles Vargas para Getúlio Vargas.
48
Mas se observa que, mesmo sem conhecer a história, que este
tipo de nomeação não é uma descrição, mas funciona como se fosse.
Cabe aqui perguntar sobre como se deu esta passagem que apaga o
aspecto descritivo da nomeação desfazendo seu caráter de descrição
definida.
Neste caso o sintagma preposicionado funciona como uma deter-
minação para Rua, Avenida, etc. E aponta para que os nomes das ruas
são determinações de Rua, Avenida, em construções em que Rua e
Avenidafazemuma referência e a determinação predica a referência e
assimnomeia.
d) Há enunciações que se formulam como enunciações de nomes
(nomeação) como enunciações primeiras. Mas é preciso observar me-
lhor estes casos. Tomemos alguns para refletir: R. Centenário do Dr
Paulò de A. Nogueira, R. Santa Cruz, R. 7 de Setembro, R. 15 de
novembro, R. I, R.2.
- No caso de R. Centenário do Dr Paulo de Almeida Nogueira, a
nomeação da rua incorpora a nomeação de alguém como "Paulo de
Almeida Nogueira", a qualificação desta pessoa como Doutor. O que há
de particular é a qualificação do Centenário (por Dr Paulo de Almeira
Nogueira) como móvel desta enunciação.
-No caso de R. Santa Cruz,háque se levar em conta que este é um
nome disponível no Brasil desde a chegada dos portugueses. Um dos
primeirospo¡nes do Brasil foi Terra de Santa Cruz. Nomear algum lugar
como Santa cruzé sempre reporlar à enunciação do Brasil como Terra de
Santa Cruz. Além disso, em Campinas, cidade a que Cosmópolis perten-
ceu antes de ser município, há uma praça que se chama Largo de Santa
Cruz e uma Rua Santa Cruz.
- As datas que se tornam nomes de rua são datas enunciadas como
memoráveis para a história do País, do Estado, da Cidade. É o caso de R.
7 de setembro e R. 15 de novembro (datas da independência do Brasil e
da Proclamação da República).
- Os números como nomes de rua talvez sejam o único caso em que
a nomeação da rua é uma enunciação primeira. No caso específico de
Cosmópolis é interessante ver que estas ruas estão em uma das fronteiras
do que o mapa especifica como espaço urbano. Assim o nome da rua
como número é o índice da fronteira entre o urbano e o não urbano. O
urbano é a perspectiva de que a rua passe a ter um nome e não só um
número que a localize. Fsta enunciação indica para uma enunciação fu-
tura que substituirá o número. O que em verdade é ainda uma relação
entre duas enunciações.
49
Em torno desta questão da inclusão de uma enunciação em outra há
um conjunto de observações também importantes:
a) Um aspecto interessante do funcionamento semântico-enunciativo é
que na cena enunciativa da nomeação das ruas um locutor-oficial está toma-
do por um memorável (enunciação de nomes de pessoas, datas, etc.) que se
repete em enunciações distintas. É como se houvesse um rol de nomes que
são reiterados em enunciações diversas, para cidades diversas. No caso do
Corpus de Cosmópolis podemos dar como exemplos: R. Dom Pedro I, R.
Duque de Caxias, R. Presidente Getúlio Vargas, R. Dr Rui Barbosa, R.
Anchieta, R. 7 de setembro, R. 15 de Novembro. Estes são nomes que apa-
recem como nomes de ruas de muitas e muitas cidades brasileiras.
Por outro lado pode-se observar que esta questão pode ser vista num
limite regional. Ruas como Coronel Silva Teles, Baronesa Geraldo de
Resende, têmnomes que tambémaparecem, porexemplo, na cidade de Cam-
pinas, município ao qual pertencia Cosmópolis antes de se tomar cidade.
b) Há também nomes de ruas que são relativos a questões específi-
cas de uma história local. No Caso de Cosmópolis, ruas comoAv. Ester,
Centenário do Dr Paulo de Almeida Nogueira, R. Artur Nogueira.
Esta história local pode se relacionar com a história de outras cida-
des da região. Há inclusive uma cidade com o nome Artur Nogueira.
c) Uma questão importante é que no nome próprio de pessoa, o
nome é uma especificação,parfiailaização, sobre o sobrenome (o nome
de família). Por exemplo em R. Antonio Carlos Nogueira, Antonio Carlos
especifica alguém dos Nogueira.
Mas quando Antonio Carlos Nogueira passa a ser o nome de uma
rua, em Cosmópolis, Antonio Carlos não é mais uma especificação de
um Nogueira. E uma nomeação de uma via urbana por Antonio Carlos
Nogueira como uma unidade a partir da unicidade do "Antonio Carlos"
dos "Nogueira". Antonio Carlos deixa de especificar tm Nogueira para
que Antonio Carlos Nogueira nomeie uma rua.
Ou seja, a enunciação que nomeia uma rua toma como unidade algo
que uma enunciação anterior construiu por cerlas relações específicas de
determinação.
d) Neste conjunto de relações de nomes, os nomes das Ruas, l, 2,
3,...,13 funcionam como a nomeação que não dá um nome. Que dá, so-
mente, uma localização, um endereço.
50 ,pur.or,oeo'ffiÇAo DA usP
O que significa este espaço aberto à nomeação (e seus sentidos)? E
um espaço em que o discurso jurídico-administrativo formula sua neces-
sidade de produzir endereços paralocalizar o cidadão.
Diria que este espaço aberto à nomeação significa o não-sentido, no uni-
verso das ruas. E deste modo coloca visível o frmcionamento de instrumento de
controle do urbano sobre o cidadão. Coloca visível esta futuridade instalada no
nome de rua enquanto lugar que identifica para depois e sempre os espaços e os
que o habitam. Tem-se aí um sentido de controle que faz parte do processo
de identidade social das pessoas, enquanto identificação com um endereço.
Neste texto, o mapa de Cosmópolis, os nomes números são o índice
do limite do urbano. Urbanizar é recortar um passado e assim nomear a
partir de pessoas, datas, etc, memoráveis.
Por outro lado o número como nome é a indicação do urbano como o
lugar do controle, do endereço: para estar na cidade, ser da cidade, é preciso
ter um endereço, mesmo que não se esteja na história (memorável) da cidade.
O urbano é assim o lugar da captura. E como se o urbano fosse o oposto da
cidadania (cidade). E isto indica como o recorte de um memorável, na nome-
ação dos espaços da cidade que aqui analisamos, é um modo de o urbano
encobrir o papel de controle do urbano sobre a cidade (cidadania)z1.
Reportando-nos mais uma vezaotrabalho de Bosredon sobre os nomes
de quadros, é interessante ver como os nomes de rua não apresentam o funci-
onamento dalegenda, como no caso dos nomes de quadros. Alguns casos
podem parpcer próximos deste funcionamento como rR. Centenário do Dr
Paulo de Àtnie¡da Nogueira ou R. das lttranjeiras, etc. E o que falta para
que isto seja uma legenda? O objeto nomeado não é tomado como um
objeto descritível. Estes nomes podem ser uma notícia, não uma legenda.
Tanto que mesmo que um nome se dê a partir de uma descrição, ao se tomar
nome da ruaé tomado como independente da descrição que o originou2s.
21. Em "No Limiar da Cidade" E. O¡landi analisa as diferenças e modos de relação entre o
urbano e a cidade, mostrando como o urbano ao sobredeterminar a cidade sobredetermina
o social fazendo o social significar pela urbanidade, pelo sentido diretivo de organização
urbana. Deixa-se assim de "levar em conta modos sociais de produção de sentidos próprios
da cidade" (O¡landi (2000), Rua, nimero especial).
28. Aqui se torna interessante, inclusive, fazer um estudo dos eventos que levaram ao nome da
rua e dos acontecimentos futuros que alteraram ou não tais fatos. Outlo aspecto seria
saber como as nomeações se deram em épocas diferentes, para ver se em algum momento
a nomeação se deu como uma descrição do espaço, a partir de categorias sociais, ou não.
E que depois passou-se para um outro processo de nomeação que esvazia as descrições de
seu funcionamento descritivo. E a tal ponto que a enunciação que nomeia a rua pode tomar
uma expressão de descrição para simplesmente referir, homenagear, uma categoria de
pessoas. OuÍo aspecto ainda seria ver como se relacionam o discursojurídico-administ¡a-tivo com o discu¡so do cotidiano que pode nomear as ruas de modo um pouco diferente.
9
ô
úì
t)
51
paborges
Caixa de texto
paborges
Caixa de texto
E a questão dos impedimentos? Por que um nome de rua não funci-
ona como legenda, por exemplo? Talvez o melhor a dizer não é que há
impedimentos, mas construções específicas próprias de cada caso. Há
uma relação particular entre a nomeação e o objeto nomeado que se apre-
senta por uma materialidade histórica e não física. Por isso é marcada
pela diferença da materialidade destes objetos: arte, no caso dos quadros;
espaço político-administrativo, no caso dos logradouros públicos;
subjetivação social dos indivíduos, no caso dos nomes de pessoas. Isso
leva a um aspecto importante no caso dos nomes de rua: o funcionamento
de localizador que tem. Funcionamento que os nomes como número reve-
lam. Ou seja, é um funcionamento que não se mostra como tal mas que
podemos apreender pela falha do sistema de nomeação no momento em
que ele ainda não nomeou. Isto nos obriga a perguntar sobre como a
enunciação que nomeia a rua acoberta este funcionamento localizador do
endereço quando a posição de sujeito é a jurídico-administrativa.
Para responder a esta questão vou analisar mais em detalhe a
temporalidade do acontecimento destas enunciações. Mais especificamen-
te, analisarei a multiplicidade do memorável do processo enunciativo dos
nomes de ruas, como esta multiplicidade caractetiza as enunciações que
nomeiam ruas. E é nesta medida que, énquanto nome, desfaz-se, por exem-
plo, uma descrição definida que esteja contida como enunciação na
enunciação que nomeia a rua, e o discurso jurídico-administrativo, que
localiza os lugares no urbano, desliza para a eficiência do não aparente.
4. O MEMORÁVEL NO ACONTECIMENTO DOS NOMES DE RUA
Vamos agora analisar um aspecto fundamental na configuração da
temporalidade do acontecimento.
Como já pudemos indicar, as enunciações que nomeiam ruas são
determinadas por uma história de nomes que se repetem para cidades
diversas, e esta história determina a constituição das designações das
ruas em Cosmópolis, como de resto, em geral, no Brasil2e. A questão, no
caso, é especificar o que o acontecimento recorta como memorável.
29. Um caso diferente e prototípico é o da cidade de Brasília, que merece um estudo especi-
al. Di¡ia que Brasília se dá como memo¡ável por sua diferença e enquanto capital do
País. Há também que se considerar como a rua não entra na constituição do endereço e
como o caráter indexador dos lugares procüa uma visibilidade imediata. Isto significa a
organização dos mecanismos de localização do Estado sobre o espaço e as pessoas e
instituições que o ocupam. Podendo significar, ao mesmo tempo, a facilidade de locali-
zação dos endereços por qualquer pessoa, minimamente iniciada na sistemática de no-
meação-indexação de lugares em Brasília.
52
a) Passado e Nacionalidade
No corpus em questão encontramos um conjunto de nomes (enun-
ciados) que enunciam o estar (ser) no Brasil. É o caso de R. Anchieta,
R. Duque de Caxias, R. Tiradentes, R. Dom Pedro I, R.7 de Setembro,
R. 15 de Novembro.
Neste caso o memorável (passado) do acontecimento é o do ser bra-
sileiro.Isto não se configura porque são nomes de personagens ou datas
da história do Brasil. Isto se configura não enquanto referência a fatos da
história, mas como enunciados que se dão em outros textos, em outras
cidades. Ou seja, estes e outros nomes como eles são nomes de ruas que
nomeiam ruas por todo o Brasil. Ou seja, a enunciação da nomeação de
ruas inclui, tal como vimos, ao falar do funcionamento semântico-
enunciativo, a enunciação de personagens e datas da história brasileira.
Inclui enunciações da nacionalidade que se caracaterizampor enuncia-
dos como estes.
Este memorâvel da nacionalidade inclui de um lado "os persona-
gens que fazem a história do Brasil" e de outro "as datas memoráveis
desta história". Por exemplo: R. Dom Pedro 1 é um enunciado de um
personagem de nossa história enquanto que R. 7 de Setembro éumenun-
ciado de uma data memorável. Neste caso, como em outros, os dois enun-
ciados, dispersos no Mapa, porque não têm contigüidade, são o relato da
Independência do Brasil.
Não,é porque algo aconteceu em 7 de setembro que 7 de setembro
pode ser nome de rua. Esta data toma-se nome de rua porque as enunciações
de umahistória enunciaram esta data como data da independência.
De modo semelhante R . Tiradentes é outro personagem da luta pela
independência, e assim é outro enunciado que, junto com R . Dom Pedro
I e R. 7 de setembro, significa a independência, e que, por outro lado,
com a R. 15 de Novembro, significa a República contra o Império e o
Rei. Ou seja, R. Ti,radentes é um enunciado afetado por dois recortes do
memorável no conjunto de nomes do corpus. Veja que se o corpus não
tivesse a R. 15 de Novembro, por exemplo, R. Tiradentes estaia signifi-
cando só a Independência, e na medida em que o corpus tema R. 15 de
Novembro, está significando também a República.
Ou seja, os nomes das ruas são a enunciação cifrada de narrativas
memoráveis, que se complelam, que se contradizem. Ou melhor, este mapa
é uma dispersão de narrativas cifradas.
Enunciar estas expressões para nomear é tomar-se na temporalidade
da nacionalidade. É enqnciar que a cidade tem nacionalidade brasileira,
pertence a esta nação, pela duração do presente do acontecimento, e pela
53
futuridade do acontecimento que abre assim o espaço de novas enunciações
(até mesmo outros nomes de rua).
b) A Origemcomo Memorável
Por outro lado podemos observar um outro tipo de enunciados
designativos (nomes de ruas). São nomes que recortam, como memorá-
vel, narrativas locais.
Tomemos para começar os seguintes nomes de ruas: R. 30 de No-
vembro e R. Dr Moacir Amaral. 30 de novembro enuncia a data de
emancipação político-administrativa de Cosmópolis em 1944 e Dr Moa-
cir Amaralenuncia o primeiro Prefeito da cidade. Há também a R. l' de
Janeiro, data da posse do primeiro prefeito, bem como, depois, do pri-
meiro prefeito eleito e primeira câmara de vereadores.
Assim os nomes destas ruas cifram anarrativa da constituição
de Cosmópolis como cidade, ou seja, como independente da cidade de
Campinas.
É interessante observar neste caso que esta enunciação da indepen-
dência local continua a produzir sentidos. Há ruas com nomes de outros
prefeitos da cidade como R. Célio Rodrigues Alves (terceiro prefeito) e rR.
José Calvo (quarto prefeito). Mas muitos prefeitos não tiveram seus nomes
apropriados em cenas enunciativas que constituíram nomes de ruas.
Isto mostra que não se trata simplesmente de ter tal ou tal função.
Trata-se de serpersonagemmemorável. Que alguma enunciação, como a
que dá nome a uma rua, recorte, como memorável, um personagem da
história (local) de sua origem.
Nesta mesma linha tem-se, por exemplo: R. Ewald Sillas Epprecht,
R. Emílio Epprecht, R. Gustavo Epprecht, R. Â,ngeto Capraro. Os no-
mes apropriados pelas enunciações que designaram tais ruas fazemparte
de um passado da fundação da cidade, ou seja, do povoado fundado no
final do século XIX. Epprecht e Capraro são nomes de famílias suíças
que emigrarampaÍa o Brasil para um núcleo de colonização que mais
tarde tornou-se Cosmópolis.
c)OPodereoMemorável
Uma outra história recortada como memorável no aconteciemnto
que nomeia ruas é a que está ligada às atividades econômicas. Este é o
caso de Av. Ester, R. Artur Nogueira, Av. Centenário do Dr Paulo de
Almeida Nogueira, R. Coronel Silva Teles.
Estes são nomes ligados à criação da Usina Ester. Av. Ester tem o nome
da Usina e os outros três nomes se enunciam contendo neles a enunciação dos
nomes de três dos paficipantes da reunião de acionistas que fundou a Usina
Ester. Esta usina tem imporlância capital na vida da cidade.
É interessante notar qrue aAv. Centenririo clo Dr. Paulo de Almeida
Nogueira é aavenida que leva à Usina Ester, ao passo que a Av. Ester é a
avenida central da cidade. Este tecido disperso de enunciados (nomes) enun-
cia, assim, no centro da cidade, e na relação dela com a usina, os persona-
gens que criam a indústria, até,hoje propriedade da família Nogueira.
Interessante para configurar o sentido destes nomes é ver que nos
nomes de rua de Cosmópolis não há nenhum que recorte como memorá-
vel a história da luta política dos trabalhadores e do Sindicato dos Traba-
lhadores na Indústria Açucareira da cidade. É o que poderíamos caracte-
rizar como o silenciamento (política do silêncio3o) da história do conflito
entre trabalhadores e indústria açucareira.
Este sindicato foi fundado a partir de um movimento de greve dos
trabalhadores da Usina Ester na décadade 40 do século XX. O funciona-
mento do sindicato foi autorizado por Getúlio Vargas em I94L Foi líder
da greve Egydio Rafacho, e LuizTenório Lima, sindicalista de São Pau-
lo, esteve em Cosmópolis e ajudou na fundação do sindicato.
Há que se ressaltar que este sindicato não foi só o primeiro sindicato
da cidade, mas também sua primeira entidade de classe.
No entanto, mesmo com a força de se estar diante de enunciados de
uma fundação, eles não se tornam nomes de ruas. Eles não entram nesta
dispersão de narrativas que o mapa de Cosmópolis nos conta. Toda a
história das enunciações de nomes de rua e do mapa em análise é a histó-
ria, também, desta exclusão.
Um aspecto a se ressaltar neste silêncio é que em Cosmópolis há a
R. dos Trabalhadores, cuja enunciação produz a ilusão da objetividade
da história que se representa como incluindo os excluídos (os trabalhado-
res e seus conflitos) embora haja uma narrativa, a de Rafacho e da funda-
ção do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Açucareira, não
enunciável neste mapa.
d) O Heroísmo e o Memorável
A narrativa da origem da cidade conta que seus primeiros persona-
gens são imigrantes europeus, suíços, depois alemães, italianos. O mapa
da cidade inclui como nomes de rua: R. João Antonio da Silva, R. Expe-
dicionário Angelo Salmistrano, R. Paulo Azevedo Filho, R. LuizMengue,
R. Reinaldo Baloni e R. dos Expedicionários.
30. VeraesterespeitoOrlandiligg2¡.Nestetextoaautoradesenvolveateoriaqueconsidera
que o silêncio é fundador do sentido.
54 55
Ou seja, quase todos os expedicionários da FEB de Cosmópolis
tiveram seus nomes apropriados como nomes de ruas. Além de uma das
ruas ser R. dos Expedicionários.
Os acontecimentos de nomeação e o mapa em eìtudo recortam
uma história (um passado) do heroísmo dos Cosmopolenses contra o
nazismo e fascismo (alemães, italianos). História que opera fortemente
na determinação dos enunciados de nomes de ruas. Este conjunto de
nomes não só cifram a narrativa da participação na guerra, mas
abrasileira alemães, italianos e demais europeus que constituíram a
origem da cidade. Lembre-se que Cosmópolis é o nome da cidade como
referência a esta diversidade de povos que a constituíram. (falarei
disso depois, ao analisar a constituição enunciativa do próprio nome
da cidade.)
Como se viu, os acontecimentos que constituem estes enunciados,
as enunciações destes enunciados, formulam a nacionalidade brasileira
da cidade. Formulam a cidadania brasileira de Cosmópolis.
Por outro lado estes acontecimentos formulam a especificidade da
cidade por sua origem, pelas posições de poder e pelo heroísmo local.
É interessante ressaltar, quanto à questão das relações de poder, o
fato de que o nome da rua que leva à Usina Ester é Centenório do Dr
Paulo de Almeida Nogueira. Não se trata simplesmente de ser o nome de
um Nogueira. O nome da rua é uma homenagem especial em relação às
outras nomeações. Este nome contém ao mesmo tempo umpersonagem e
uma data memorável: o seu nascimento. Assim esta rua é uma homena-
gem à Usina Ester. Homenagem com a qual a cidade entra na usina.
Entra, procura entrar, nos diversos sentidos de entrar. E que, em
contrapartida, a usina procura entrat na cidade.
5. MÚLTIPLAS TEMPORALIDADES
O que se pode ver é que a designação dos nomes de rua se constitui
pelo processo de suas nomeações, em que opera a relação de enunciações
contidas em outras enunciações. Por outro lado a consideração da rela-
ção integrativa, o nome num texto de que faz parte (o mapa da cidade),
mostra como as designações dos nomes das ruas está constituído, tam-
bém, pela relação destes nomes no mapa. O que se pode ver pela análise
do memorável recortado pela temporalidade do acontecimento em que se
enuncia o mapa. Ou seja, a análise da temporalidade do acontecimento
para descrever o memorável que o constitui traztantas outras enunciações
que estarão significando no acontecimento.
Deste modo pode-se ver como os nomes no mapa significam
temporalidades distintas (da nacionalidade, da origem, do heroísmo, do
poder) mesmo que, do ponto de vista do presente do acontecimento da
enunciação do mapa, estejamnuma convivência temporal.
A regulação desta temporalidade múltipla pelo presente do Locutor
produz o efeito de homogeneidade reguladora do administrativo. E este
se combina diretamente com o espaço de enunciação em que os aconteci-
mentos enunciativos constituem a designação, o espaço de enunciação
da Língua Nacional.
E as designações destes nomes são construídas por todas estas rela-
ções enunciativas como relações que as predicam. Ou seja, como rela-
ções que constituem permanentemente as designações.
ìi
56 57
Ctpirurc IV
NOMES DE RUA E O MAPA COMO TEXTO
Para melhor qualif,rcar a análise feita no capítulo anterior, que con-
siderou os nomes de rua num texto (o mapa), assim como para avançar
na reflexão sobre a relação da designação com o mapa como texto, va-
mos nos ocupar aqui de uma análise mais específica da textualidade do
mapa3r. O que nos permitirá agregar elementos que mostrem outros as-
pectos da constituição da designação.
Tomar um mapa como texto é considerá-lo como linguagem, senti-
do. Para fazermos esta caracterização somos movidos por uma afirma-
ção de Deleuze e Gtattari em Mille Plateaux: "A linguagem é um mapa e
não um decalque" (1980, p. 14). Esta afirmação, dados os nossos objeti-
vos, nos traz as perguntas que seguem. O que nos dizem estes dois auto-
res sobre oìqr/e é um mapa ao usá-lo para definir a linguagem? O que são
os nomes (linguagem) enquanto mapa (metáfora da linguagem)? O que
são os mapas enquanto linguagem?
1. O MAPA COMO TEXTO
Para darmos andamento a estas perguntas vamos, tal como suge-
rido no final do capítulo anterior, considerar aqui um mapa como texto
em um acontecimento de linguagem. Tal como dissemos no primeiro
capítulo, algo é acontecimento enquanto diferença na sua própria or-
dem. E o que caracteriza a diferença é que o acontecimento não é um
fato no tempo. Ou seja, não é um fato novo enquanto distinto de qual-
quer outro ocorrido antes no tempo. O que o caracteriza como diferen-
ça é que o acontecimento temporaliza. Ou seja, ele não está num pre-
31. Este capítulo é uma versão,modificada, em alguns pontos, de "Um Mapa e suas Ruas,',
apresentado no Encontro "Cidade Atravessada", Labeurb, Unicamp, 1999, e publicado
em Guimarães (2001).
59
sente de um antes e de um depois no tempo. Ele instala uma
temporalidade: essa a sua diferença. De um lado o acontecimento cons-
titui um prqsente e abre uma latência de futuro, sem a qual ele não é um
acontecimento de linguagem, sem a qual ele não significa, pois sem ela
nad.ahá aí de projeção de sentido. O acontecimento tem como seu um
depois incontornável e próprio do dizer. Por outro lado este presente e
futuro próprios do acontecimento funcionam por um memorável que os
faz significar
Voltemos à questão do mapa. Diria que um mapa, por mais que ele
se dê como descrição de um espaço, é antes uma indicação de acessos ao
mundo do que uma descrição.
IJm mapa, tomado como acontecimento, contém, então, uma latênciade futuro. Ou seja, o mapa não pode ser mapa, caminho para uma relação
com o mundo, sem esta futuridade.
Tomemos, para melhor expressar isso, o mapa da Cidade de
Cosmópolis no Estado de São Paulo, cidade vizinhade Campinas, com
o nome de suas ruas32. Pensemos em um mapa atualmente utilizado
pela prefeitura da cidade. Se ele se dá como mapa, como indicação de
caminhos para o mundo, é na medida em que apresenta, como díspares
do presente do sujeito da enunciaçáo do mapa, regimes de tempos
enunciativos que se conjugam no acontecimento. Há, de um lado, o
presente do acontecimento da enunciação do mapa e nele um futuro, um
sempre depois para o qual o mapa é indicação de caminhos para o
mundo. Ou seja, é uma indicação de como saber onde estão tais e tais
ruas, por exemplo. Em outras palavras, o sentido do mapa não se dá
como descrição de uma cidade, nem como narração de sua história, ele
se dá, diríamos, no sempre depois de seu presente, como instrução se-
mântica33. Portanto como algo que não indica diretamente o mundo, e
precisa ser compreendido em si mesmo para que possa funcionar. Se
não se coloca a questão da compreensão do mapa, não há como tomá-lo
como mapa. E ele deixa de ser o que é: ele não será sequer descrição.
Como descrição de uma cidade um mapa seria uma imitação gros-
seira. Como narração, contaria uma história de épocas diferentes como
sucessões que se projetaram em contigüidades progressivas, E só. Como
instrução, não sendo nenhuma coisa nem outra, ele é sentido que pode
nos dizer mais, tanto do retrato como da história da cidade, do que se
fosse diretamente descrição e narração.
32. No capítulo III analisamos como e o que desrgnam este nomes.
33. utilizo a noção de instrução semântica, já o disse antes, na pe¡spectiva em que é conside-
rada por Ducrot (1984).
2. rrMA rNTENÇÃO ETTMOLÓGrCA
Antes de olharmos mais de perto o mapa, voltemos nossa atenção
para o nome da cidade cujo mapa analisamos: Cosmópolis. A análise da
nomeação da cidade colocará em relação dois aspectos da constru ção da
designação do nome Cosmópolis: a nomeação da cidade por este nome e
a predicação que o conjunto dos nomes de rua da cidade faz sobre
"Cosmópolis" (o que se verá pela análise da textualidade do mapa).
Se pensamos aqui a enunciação que nomeou a cidade, podemos
ser levados a pensá-la como a ação pela qual uma intenção etimológica
procurou qualificar, ou descrever, a cidade ao nomeá-la. Se é uma des-
crição, podemos dizer que o nome procura representar seu aspecto
ecumênico, fraternal, universal. Estamos diante de uma transformação
de uma etimologia em predicação do objeto nomeado. Ou seja, estamos
diante de uma enunciação do étimo como expressão de uma intenção.
Mas, considerando a disparidade entre o presente do Locutor e a
temporalidade do acontecimento, se esta enunciação é a enunciação de um
étimo, ela é, fundamentalmente, uma enunciação j á sobre um esquecimento
do étimo. Ela enuncia o étimo a partir da lista dos radicais gregos de nossas
gramáticas e de nossos dicion¿írios, onde cosm(o) fdo grego cosmos, ou]
significa "murìdo", "universo" e poli[do grego polis, eos] significa "cida-
de". E isto coloca desde já que aquilo que se enuncia como uma intenção
não étanto esta intenção mas umaconstituição de sentido que ao temporaluar
o dizer (constituir sua temporalidade) produz não só este esquecimento
etimológico como ainda outros. E que outros esquecimentos há na nomea-
ção desta cidade? Ou seja, em que medida este nome não é uma descrição
da cidade, mas efetivamente uma enunciação de sentidos que têm uma
temporalidade própria que não é a do Locutor que enuncia? E não é tam-
bém o tempo cronológico no qual o dizer franscorreria?
Se nos ativéssemos à descrição intencional etimológica (ao presente
do Locutor), teríamos que buscar a descrição da situação particular na
qual se deu a nomeação. Alguns elementos dessa situação seriam: a) o
presente do eu que enuncia (nomeia); b) o passado da criação da cidade;
c) a cidade (este o objeto a ser designado) criada a partir de uma colônia
constituída pela Usina Ester (no então município de Campinas) para abri-
gar imigrantes que vieram para trabalhar as lavouras de cana; d) os imi-
grantes que vieram inicialmente e que participaram da fundação da cida-
de (os suíços, depois aler4ães e italianos).
Se estes são elementds da situação na qual a nomeação se deu, então
o nome cujo sentido seria "a cidade universo", enquantó uma descrição
60 6t
qualificadora do objeto, é, com efeito, só uma universalização de uma
parte dos povos do mundo. Por outro lado não é possível deixar de obser-
var que esta univers alização contida na intenção do ato de nomear, ao
nomear como forma de incluir todos os povos, ou de homenageá-los, é no
máximo uma homenagem à parte que veio para o povoado que se trans-
formou em cidade.
O nome como intenção de nomeaÍ aparece, deste modo, como uma
forma de significar os imigrantes como povos do mundo, e não como
colonos, ou ainda, como trabalhadores da Usina Ester. Reduzir esta no-
meação à sua intenção etimológica (ao presente do Locutor) não deixa
compreender arelação econômica dos habitantes da cidade com os pro-
prietários rurais e donos da indústria. A intenção etimológica não deixa
também compreender a sobredeterminação do rural sobre a cidade (o
urbano?) que está aí significando.
O nome interpretado nos limites da deontologia performafiva da
nomeação é, enquanto descrição, uma história edificante. O nome para
sempre, interpretado segundo a temporalidade que se instala com a no-
meação que abre todas as enunciações de nomes de rua, conta uma histó-
ria bem mais complexa, e não necess4riamente edificante.
Mas esta história quero contá-la por uma análise global do mapa de
Cosmópolis e, no seu interior, uma análise mais específica sobre a Rua
d o s Tr ab alh ado re s, j á, r eferida no c apítulo anterior.
3. OS NOMES DE RUAS COMO ENTTNCIADOS DE ESPAçO
Observando o mapa e Cosmópolis enquanto um todo, vemos que a
cidade está, praticamente inteira, limitada pela rodovia "General Milton
Tavares - SP 322". A cidade fica à direita da rodovia se a direção é Cam-
pinas/Limeira, por exemplo. Pode-se observar que o mapa inclui, neste
espaço, espaços vazios que são tratados como cidade: a linha do mapa que
estabelece o perímetro urbano inclui estes espaços vazios. Ao lado esquer-
do da Rodovia fica a Usina Ester (ver Figura I no final deste capítulo).
Mas a leitura do mapa nos leva a uma pequena parte da cidade à
esquerda da Rodovia. E neste caso só se considera o espaço à esquerda
da rodovia como incluído no limite urbano se está organizado em ruas.
Neste caso é cidade só o que é rua.
Os espaços vazios do lado direito da rodovia são considerados cida-
de, já que estão no perímetro urbano. E quando a cidade cresce e vai para
o outro lado da rodoviaé acidade se estendendo sobre o fora dela. Tanto
que o que está à esquerda da rodovia só é cidade enquanto já amrado. E
isto é de tal modo que falta no mapa uma projeção que permita pensar o
crescimento da cidade no lado esquerdo da rodovia. E neste espaço, no-
mear uma ruaétambémsignificá-la, muito especificamente, como cida-
de. A cidade de Cosmópolis é em princípio o que está de um lado da
rodovia. E deste modo ela é aquilo que não é a Usina Ester. E este é um
sentido que a história da relação entre uma e outra construiu.
4. OS NOMES DE RUA E O MAPA COMO TEXTO
Tomar o mapa enquanto uma unidade é tomar um texto cujos enun-
ciados são os nomes de rua. E o que significa este texto? Tomemos,
para buscar uma resposta, os nomes das ruas do Centro da cidade.
Vamos encontrar: Rua Max Hergest (que está no limite do centro com
um bairro), R. dos Expedicioncírios, R. Santa Gertrudes, R. Antonio
Carlos Noþueira, R. 7 de Setembro, R. Campinas, R. Duque de Caxias,
R. 7 de Abril, R. Ono Hebst, R. Francisco Cesário de Azevedo (qlue
está no limite com outro bairro),R. Presidente Getúlio Vargas, R.
Baroneza Geraldo de Rezende, Av. Ester (Avenida Central), R. Dr
Campos Sales, R. Ramos de Azevedo, Av. 9 de Julho (que está no limite
com outro bairro).
Podemos tomar também um bairro que apresenta nomes de rua com
número. Teremos as Ruas 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, B, 9, 10, Il, 12, 13. No Caso
deste Bairro (Zona Industrial I - Andorinhas) podemos observar que a
Rua 4 é continúação direta da Rua dos Sorocabanos, a Rua l3 continu-
açãodaJacinto Hackel FrenAun,aRua 12 continuiação daProfa. Jacyra
de O. Valente Matiolli. As ruas com os nomes são do Bairro vizinho,
Parque Residencial das Andorinhas.
O posto acima nos mostra um aspecto especial deste texto. De modo
geral as designações não são reescrituradas, por outros nomes, pela pró-
pria configuração de que um nome próprio é único relativamente ao "ob-
jeto" que designa. Mas este caso nos mostra que a reescrituração pode se
dar. Um enunciado (nome de rua) é reescrituado por outro enunciado
(outro nome de rua). Isto, no caso do mapa, mostra de modo muito im-
portante, sustentando nossa hipótese sobre o funcionamento dos nomes,
que o nome não é um selo para um objeto, mas é, de algum modo, a
construção de um objèto pelo que o nome designa. A construção de um
objeto deve ser aqui entendida como uma divisão do real pela linguagem
que a ele está exposta e que assim o indendifica simbolicamente.
E o que faz texto com estes enunciados (nomes de rua)? Não são
relações coesivas, nem de coerência. O que aqujfaz texto são narrativas
62 63
que só podem ser compreendidas se entendemos aquilo que significam as
nomeações que se retomam em cada designação de rua. Analisando estas
nomeações veremos que este texto se constitui de enunciações dispersas'
O Locutor que nomeia uma rua com um número ou com o nome de uma
data nacional como 7 de setembro não é o mesmo. E é um outro Locutor
que nomeia uma rua como Rua Presidente Getúlio Vargas, ou outro ain-
da que nomeia a avenida Central da Cidade como Av. Ester.
Pelo que vimos no Cap III, as enunciações no mapa de Rua 7 de
Setembro, Rua Duqae de Caxias, Rua Presidente Getúlio Vargas, Rua
Dr Campos Sales, ao significarem como instrução semântica, ou seja,
como indicação para acesso ao mundo, o fazempela constituição de me-
moráveis diferentes a) da nomeação destas ruas, b) da nomeação das
pessoas cujos nomes lhes são dados, c) da enunciação de datas históricas,
e d) também da nomeação de outras ruas em outras cidades com estes
nomes. O futuro que, nestas enunciações, habita o acontecimento (estes
nomes só se fazemnomes pela latência de futuro que trazem), só se apre-
senta como possibilidades de dizer e de sentido por aquilo que no aconte-
cimento se rememora, pelas próprias possibilidades que por isso se abrem
e que fazem textualidade. Assim estas enunciações de um locutor-oficial
enunciam (no caso dos dois priméiros nomes acima), pela inclusão da
enunciação de um locutor-cidadão, a nacionalidade, e (no caso dos dois
últimos nomes acima), pela inclusão da enunciação de um locutor-
brasieliro, o pertencimento à história brasileira. Sentidos que são parte
da designação destes nomes no mapa, que os apresenta como enunciados
de um texto.
Por outro lado as ruas Baroneza Geraldo de Rezende, Santa
Gertrudes, Antonio Carlos Nogueira, e aAv. Ester,também enunciadas
no mapa, incluemenunciações de outro lugar social. Todas as nomeações
de pessoas tomadas como memoráveis (pela rememoração no aconteci-
mento de nomear) estão ligadas às famfias que criaram a Usina Ester
(decisiva na vida do município do ponto de vista econômico) e propritárias
de fazendas das quais se separou uma gleba para um núcleo habitacional
no final do século XIX, e que resultou na criação da cidade. O lugar-
oficial que nomeou estas ruas inclui a enunciação de um locutor-
cosmopolense, então significado nas designações destes nomes.
Outro lugar nomeia as Ruas como 1,2,3,4,...,13. Neste caso, di-
ria, está-se no lugar de nomeação estritamente adminsitrativo. A nome-
ação se dá como se fosse a temporalização de um presente e um futuro
sem memória. Ou seja, como se enunciar pudesse serum acontecimen-
to sem história. Mas se estes enunciados no mapa trazem estas
64
enunciações que nomeiam as ruas como se fossem enunciações sem
memória, em verdade, por sua temporalização própria, rememoram algo
específico do discurso administrativo. O memorável aí presente é o da
necessidade de uma identificação de lugares no espaço como endereço,
ou seja, como lugares em que pessoas determinadas habitam, ou traba-
lham, etc. Está-se diante de uma temporalidade específica, a do
adminstrativo, que se mostra sempre como um dizer sem passado,
intemporal, o que é fundamento de seu sentido diretivo.
O que faz textutalidade no mapa são relações de enunciados, nomes
de rua, que se dão por regiões do memorável que a temporalidade própria
do acontecimento faz funcionar.
O mapa enquanto texto significa, então, e a continuidade desta
análise levarâ a aspectos muito interessantes sobre a cidade em ques-
tão, unia dispersão de lugares de locutor que nomeiam as ruas no de-
correr do tempo eváo, acada nova nomeação, mudando o sentido deste
texto. E exatamente porque o que faz o sentido do texto não é que ele
está no tempo, mas que ele é temporalizado pelo acontecimento, põe o
acontecimento na história.
Utilizando aqui o conceito de interdiscurso, da Análise de Discurso,
tal como proposto anteriormente, o acontecimento, e nele o seu passado
(o memorável) é determinado por posições de sujeito no interdiscuro3a.
Podemos dizer que estes lugares de enunciação (locutor-cidadão, locu-
tor-brasileirp, locutor-cosmopolense, locutor-administrador- poderíamos
também falar de um locutor-paulista, como no caso de Av. 9 de julho)
falam da posição de sujeito do poder econômico e do nacionalismo, cru-
zameîto que inclui (nomes dos proprietários da Usina Ester, por exem-
plo) e exclui (nomes de trabalhadores da Usina) nomeações para as ruas.
E o que veremos a seguir dá contornos mais claros a isso.
4. O MEMORÁVEL E O EXCLUÍDO
Este texto (o mapa) significava algo antes de se nomear uma rua
como Rua dos Trabalhadores e algo distinto depois de incluir esta
enunciação. No momento em que este nome é enunciado ele toma os
trabalhadores, enquanto conj unto, como memoráveis. Podemos dizer que
o locutor-oficial (locutor-administrador), ao nomear os trabalhadores como
conjunto, constitui uma temporalidade tal que nela não se rememoram
trabalhadores específicos que tenham tido participação na história do
movimento dos trabalha{ores. Ou seja, o acontecimento, ao constituir
34. No sentido que este termo tem para a análise de discu¡so. Ve¡ Orlandi (1992 e 1999).
65
como lugar social do dizer o locutor-administrador e não o locutor-
cosmopolense, retira do memorável a história dos trabalhadores de
Cosmópolis. Não há, em Cosmópolis, por exemplo, uma Rua Egydio
Rafacho,líder da greve dos trabalhadores da Usina Ester na década de
40, e que resultou nacriaçáo do Sindicato dos Trabalhadores da Indús-
tria Açucareira, primeiro sindicado e primeira entidade de Classe da Ci-
dade. Assim ao homenagear os trabalhadores como classe e
intemporalmente, excluem-se os trabalhadores da história da cidade. Eles
não se identificam como tal aí. Ou seja, enunciar a Rua dos Trabalhado-
res significa o silenciamento3s da história dos trabalhadores das lavouras
de cana de açúcar e da usina Ester, bem como sobre a história das lutas
pela constituição do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Açucareira
a que já nos referimos antes. Podemos aqui dizer que a temporalidade
desta enunci ação é,parte daquela que nomeou a Cidade como Cosmópolis.
A nomeação da Cidade, no que ela tem de intenção etimológica, recotlou
uma memória na qual os imigrantes não estão aí como trabalhadores,
mas como povos diferentes. A Rua dos Trabalhadores não signifìca os
trabalhadores, masuma classe vazia de história e portanto de corpos.
5. DTSPERSÃO rBXrUel- DO ÀißMopAv¡¡:o
Um outro aspecto deste texto é a descontinuidade na organização do
memorável. Não se está diante de uma organização temporal geológica, em
que cada camada remete a um tempo. Observe-se que, por exemplo, no
centro da cidadehâaRuados Expedicionários, cujanomeação se dá como
enunciação do heroísmo pelo próprio modo como o passado é aqui memo-
rável. Este memorável também vai se apresentar pelo nome da Rua Monte
Castelo e pelos das Ruas João Antonio da Silva, Expedicionário Angelo
Salmistrano, Paulo Azevedo Filho, Luiz Mengue e Reinaldo Baloni. A
Rua Monte Castelo percorre dois Bairros, Vila José Calil Aun e Vila Nova,
começando logo depois do centro. A Rua Expedicionário Angelo
Salmistrano está no Bairro Santana, que é um dos dois únicos bairros que
estão do lado esquerdo da Rodovia, e é aúltima rua da cidade neste lugar,
ou seja, é a fronteira do urbano com o rural. A Rua Paulo Azevedo Filho
está no Bairro Recando Nova Cosmópolis, bem distante do centro e do
lado oposto ao bair¡o Santana. As outras ruas, comnomes de expedicioná-
rios, acima citadas, aparecem em lugares diversos da cidade.
35. Sobre a noção de silenciamento, ou política do silêncio, ver Orlandi (1992).
36. Sobre a questão da dispersão do sujeito e do sentido no texto, ver, por exemplo, O¡landi e
Guimarães (1988).
66
Este texto significa, então, por temporalidades (e assim
rememorações) diferentes que nomeiam as ruas na cidade. E se aqui há
alguma sintaxe, é a combinatória de enunciações memoráveis que se dá
como forma de dizer quem faz a história da cidade. Não há no mapa
senão a combinatória do descontínuo e do disperso. Ou seja, este é um
texto que não tem um presente em que é enunciado, senão inúmeros pre-
sentes das enunciações que nomearam e que se mantêm (as enunciações e
seus presentes), que se repetem acadamapa, acadavez que se endereça
uma carta, etc.
Este texto signif,rca também, assim, arelação entre cada um dos pre-
sentes, e sua necessária futuridade, em que se nomearam as ruas pela cons-
tituição de um memorável que este acontecimento recorta enunciativamente.
E aofazer isso o presente se dá como tempo para sempre, para o futuro. É
assirri um presente que se dâpara o futuro enquanto presente.
Os nomes no Mapa, mesmo que apareçam aí como meras etiquetas
de espaços urbanos, são, enquanto nomes, o mapa (linguagem) que rela-
ciona esta cidade com sua história, sem a qual ela não é uma cidade. E
estes nomes, inclusive o nome da cidade, são, enquanto sentido (designa-
ção), o que produz incessantemente uma identificação dos espaços da
cidade e da cidade consigo mesma. E assimconstitui estes espaços como
espaços de identificação de sujeitos. Um Cosmopolense não é uma pes-
soa que {az,pafte da classe das pessoas nascidas, ou moradoras, em
Cosmópolis. Cosmopolense é o que é identificado por todo um processo
histórico, de que fazparte estaprâtica enunciativa de nomear lugares e,
lembremos, de nomear pessoas.
INDICEDEBAIRROS
0l -
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Jd Bela Vistâ lIl
Jd Bela Vista
Jd Bela Vista Cont¡nuação
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Vila José Kalil Aun
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V ila N o v a
Vila Vákula
Vila Guilherm ina
Vila Sâo P e dro
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Jd M argarida
Jd do Sol
Núcleo Vila Nova
Jd Nova Esperança
Jd Campos Salles
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Recanto Novo Costr ópolis
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42 Santanâ
43 Pq Real
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48 - Pq das Laranjeirâs
49 - Pq das Laranjeiras II
50 - Pq Dona Esther
5l - Jd Chico M ondes
52 Pq Independência
53 Jd das Paineiras
54 Pq dos Trabalhadores
55 - Andorinhas
56 - Jd Beto Spana
57 - Jd Eldorado
58 - Pq Rosamélia II
59 Res Mont Blanc
60 - Vilâ Germ ânô
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PAULINIA
CAMPIiAS
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NOMES DA CIDADE
/
Neste capítulo, diferentemente dos capítulos anteriores, faremos a
análisê do sentido de designações de nomes comuns. Ou seja, de pala-
vras cuja designação não é de objetos únicos. Para isso tomaremos
palavras relativas à cidade. Vamos nos ocupar do funcinamento semân-
tico de palavras como cidade, município, comarca. O estudo destes
funcionamentos de sentido levará, como se verâ, a outras palavras que
designam espaços da cidade.
Para estes percursos de análise, vamos tomar as palavras funcio-
nando em enunciações constituídas em textos da imprensa escrita de
grande circulação (revistas semanais brasileiras, do final de setembro
de 1997)., 
,
O que nos interess a é a aná,lise do que estas palavras designam en-
quanto unidades que funcionam em enunciados no acontecimento
enunciativo. Analisar a enunciação não é, de meu ponto de vista, tratar o
funcionamento semântico de uma expressão em um texto no momento e
lugar que este se deu. E analisar as cenas enunciativas nas quais inte-
gram-se estas expressões, que constituíram o sentido da expressão pelo
texto que aí se constrói.
Neste caso interessa-nos, de modo particular, observar como as re-
ferências constituídas no decorrer do texto constituem a designação de
uma palavra específica. Ou seja, mais uma vez, e agora pela análise da
relação designação e referência, arelação da linguagem com o mundo é
vista como construída pelo acontecimento.
A reescrituração referencial funciona no acontecimento como um
modo de predicar o nome, ou os nomes reescriturados. Ou seja, como
dissemos no primeiro capítulo, a reescrituração, ao mostrar-se como di-
zendo o mesmo, diz outra coisa, e esta outra coisa passa afazer parte da
designação do nome reescriturado.
69
1. I.IM ESPAÇO ENQUANTO CIDADE
Vou localizar minha atenção na designação da palavra cidade.
Deste modo vou observar as reescriturações, no sentido definido no
capítulo I, item 5, envolvendo cidade. Observarei como, num texto es-
pecífico, a palavra cidade funciona para referir algo, e como a
reescrituração de cidade faz funcionar outras palavras para a mesma
referência, de tal modo que estas outras palavras, por referirem algo
como o mesmo, constituem uma predicação de cidade e assim constitu-
em o que cidade designa. Ou seja, vou observar de modo não-segmental
o que tratei inicialmente como a relação integrativa pela qual se observa
o sentido das expressões lingüísticas.
Vou analisar o que cidade designa no texto "Terra Desaforada" pu-
blicado na secção C idade s da revista Vej a de pimeiro de outubr o de 1997 .
Tal como para as análises anteriores, procurarei ver o sentido de
cidade pela análise do acontecimento enunciativo e sua temporalidade,
observando no texto: a) sua inclusão na secção Cidades da revista; b) o
j ogo design ativ o pn afr átstico entre c id ad e, muni c íp i o, c o marc a (trata- se
de ver, no texto, a substituição de uma palavra por outra e analisar a
construção de uma temporalidade própria que assim se constitui); c) as
reescriturações de enunciados por outros no decorrer do texto, que movi-
mentam a construção das designações.
1.1. O Campo nas Cidades
A palavra cidade (no plural) aparece no início da matéria, aqui
utilizada como corpus, como título de uma seção (cidades), em que a
reportagem está. Todo o texto da matéria é assim um modo de reescriturar
o qli,e Cidades diz. E nesta medida amatériaé tomada por uma tipologia
da revista, pré-existente, e quedirige o processo de produzir as matérias.
Podemos dizer que, deste ponto de vista, há aqui um locutor-editor que
nomeia a seção e inclui nela a matéria. Nesta cena enunciativa, o texto
em questão se dá num acontecimento que recorta um memorável especí-
fico: o de que a revista tem um espaço dedicado à cidade, ou mais especi-
ficamente, às cidades. Ou seja, o que este acontecimento toma como seu
passado é que a revista fala sobre cidades, não que ela reflete sobre a
questão da cidade. Este acontecimento toma como seu passado um dizer
da revista que categoriza seus espaços, sendo que um deles é Cidades.
Deste modo, pode-se dizer que este memorável do acontecimento signifì-
ca a matéria "Terra Desaforada" pela atribuição de um pertencimento: o
que nela é dito, é dito a propósito de cidades. Enunciar este texto nesta
secção é designar o que aí se diz como algo qu'e é cidade. Ao mesmo
tempo, a constituição desta temporalidade do acontecimento orienta a
disposição e busca das matérias no interior da revista e estabelece uma
instrução, um caminho de interpretação.
E se a matéria é uma reescrituração de cidades, de algum modo ela
predica cidades. "Terra Dasaforada", enquanto matéria de um número
específico da revista, tem um locutor-jornalista como lugar social de sua
enunciação. A matéria trata da questão do julgamento de José Rainha por
acusação de ser o responsável pelas mortes de duas pessoas "provocadas
pela invasão de umafazenda em 1989"(p. 96,1c). Deste modo invasão
de umafazendaéparte do que reescritura cidades.Assim o que se signi-
fi.ca, enquanto presente do acontecimento, pela secção nomeada Cidades,
pelo locutor-editor, traz o sentido de algo que a cidade, enunciada numa
outra öena pelo locutor-jornalista, inclui como um externo qtue delafaz
parte, o rural ("invasão de uma fazenda").
Para avançar na análise tomemos a seqüência abaixo:
[1] "O júri de José Rainha Júnior condenou Pedro Canário.Na
semana passada, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo tomou a
decisão que pendia sobre a cidade desde junho..."(p. 96, la. col.,
griþ meu).
Temps flgui a referência a uma cidade por seu nome próprio Pedro
Canário, ou pelo sintagma a cidade, que o reescreve. Em [1], pelo pro-
cesso de reescrituração, funciona uma relação anafóricade substituição
qae faz Pedro Canário e a cidade se darem como paráfrases um do outro
(ou seja, tudo que se atribui no texto a Pedro Canário predica cidade e
vice-versa).
Vejamos, então, como se reescriturou no texto umpredicado de Pedro
Canário:
[2] "Pedro Canário progrediu.
Na beira da estrada, o comércio vende atépapelpara impressora
a laser e aluga em vídeo os últimos lançamentes do cinema (2a). A
economia ainda é agrícola. Há um boi e meio por habitante (2b). Mas
nem I07o dos canarenses vivem no campo (2c)" (p. 97 ,2c).
F,m[2] "na beira da estrada, o comércio vende até papel para im-
pressora a laser e alug4 em vídeo os últimos lançamentos do cinema"
(2a) e "a economia ainda é, agncola. Há um boi e meio por habitante"
t0 1l
(2b) reescrituram "Pedro Canário progrediu", e assim especificam o pro-
gresso. Dizem qual foi o seu progresso (um crescimento comercial que se
estende pela estrada numa economia agricola). Por outro lado, "Mas nem
l07o dos canarenses vivem no campo", reescritura "Pedro Canário pro-
grediu" para limitar o progresso, para negá-lo (operação feita pelo mas 
-
lembro aqui análise que fiz em Guimarães (1987)). Ou seja, "mas nem
I07o dos canarenses vivem no campo" (2c) reescritura, em verdade, uma
argumentação para argumentar no sentido oposto de (2a) e (2b). E assim
reescreve a argumentação que sustenta o progresso, para negá-lo.
Enquanto reescritura do progresso de Pedro Canário, o comércio
na estrada é o percurso pelo campo como metonímia de cidade: a
informática, a tecnologia, a mídia. O campo, o agrícola, é a cúação de
gado ("há um boi e meio por habitante" reescritura "a economi a ainda é,
agrícola"), que é parâmetro para medir a produção econômica em rela-
ção à população. Aqui a operação enunciativa do mas opóe campo e
Pedro Canário (cidade), ao mesmo tempo em que sustenta Pedro Caná-
rio como cidade que, enquanto tal, inclui tudo que está no campo, no qual
cidade também está pelo que a estrada significa. E na medida em que a
argumentação de mas nem I07o dos canarenses vivem no campo opóe
campo e cidade, o campo significa ä hmitaçao do progresso da cidade.
Por outro lado, esta descrição sobre o rural (o campo) éparte da cidade
enquanto parte de Pedro Canário (nome próprio da cidade).
No presente do acontecimento enunciativo que estamos analisando
o que é do campo (agrícola), que está na estrada, é, parte do que constitui
os sentidos de cidade. Esta pertença se constitui tanto pela inclusão do
texto na secção Cidades da revista (na cena do locutor-editor) quanto
pelas determinações que o texto (na cena do locutor-jornalista) constitui
para cidade e campo.
L.2. A Cidade e o Município
Esta inclusão do campo na designação de cidade tem um processo
um pouco mais complexo de constituição. Para observá-lo vou tomar
agora uma outra relação. A que se dá, pelo texto, entre cidade, municí-
pio, comarc¿. As reescriturações de cidade por município e comarca,
no processo de referência à cidade de Pedro Canário sobre a qual é a
reportagem, constróem outros aspectos da designação de cidade, e deste
modo constróem também a designação de município e comarca.
Embora se mostre como uma construção do presente do Locutor, a
designação de cidade é, de fato, uma configuração construída pelo acon-
tecimento. Para o que acabamos de dizer na seção anterior estamos como
72
que considerando que o sentido de cidade são as determinações que o
texto enquanto interioridade lhe confere. Considerando a questão da pa-
lavra cidadeJ como nome d4 secção da revista em que está a matéria,
temos que considerar que ela aí significa, também, e decisivamente, pelo
memorável desta cena enunciativa do locutor-editor que categoriza os
espaços da revista e que faz funcioanr tanto esta (cidade) quanto outras
designações. Note-se que a cena enunciativa do locutor-jornalista que
enuncia a repoftagem cita a enunciação do locutor-editor (que categoriza
os espaços da revista). Não como algo num tempo anterior, algo
empiricamente feito antes, mas como algo que se dá como umpassado no
acontecimento, junto com seu presente. Para avançar na reflexão procu-
raremos observar outros enunciados no texto e a constituição enunciativa
da designação.
A matéria da revista coloca no seu início. como sub-título:
f3f"Pedro Canário, famosa por condenar Rainha, perde a chance
de julgá-lo pela segundavez" (p. 96)
E logo no início do corpo do texto diz,talcomo colocado há pouco,
[4] "Na semana passada, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo
tomou a decisão que pendia sobre a cidade desde junho, quando
naqr¡ell comarca o militante do movimento dos Sem-Tera, MST,
foi sentenciado a26 anos e meio de prisão" (p. 96, lc)
Estamos aqui na cena enunciativa do locutor-jornalista, que cita a
cena do locutor-editor. Não se pode deixar de ver que, na medida em que
cita, o locutor-jornalista se apresenta como "sabendo" o que está fazen-
do. Mas se consideramos que o Locutor é afetado por uma posição de
sujeito, que neste caso é político-administrativa, vemos como o que o
Locutor mostra como uma citação é o contrário: o locutor-jornalista fala
no interior da cena do locutor-editor.
A interpretação do enunciado [4], emque cidade reescreve Pedro
Canário, predica de Pedro Canário, pela retomada anafórica
(reescrituração), como já vimos antes, que ela é uma cidade . Um pouco
mais à frente no texto Pedro Canário é referida de outro modo:
[5] "Encaixado na divisa com a Bahia, o município tem22.000
habitantes".
73
Enunciado cuja interpretação predica de Pedro Canário, por outra
reescrituração, que ele é um município.
Assim, pelo mecanismo de reescriturada formulação, Pedro Caná-
rio é a cidade famo,sr¿ e o município encaixado na divisa com a Bahia.
Como se pode parafrasear Pedro Canário é cidade por Pedro Canário é
município? Pelo funcionamento da língua no acontecimento. A formula-
ção enunciativa torna cidade sinônimo de municíplo porque a
reescrituração de cidade por município, na medida em que ambas
reescrituram Pedro Cancírio, se dá porque o presente do acontecimento
constrói esta equivalência, ao lado de memoráveis diferentes que a
enunciação de cidade e município recortam como passado. Assim o
rememorado que faz cidade significar "cidade" e município, "municí-
pio" é trabalhado, no acontecimento, por um presente que, pela
reescrituração, indistingue, em certa medida, cidade e município. Neste
ponto podemos compreender que há aqui uma indistinção contituída por
uma posição de sujeito no interdiscurso que estabelece uma dominância
do discurso do cotidiano sobre o discurso jurídico.
Servindo-me aqui de colocações de Eni Orlandi (I976),posso dizer
que se há uma identidade na paráfrase, há, também, uma diferen ça: tanto a
cidade quanto o município referem o qtue Pedro Cantirio refere. Mas se
esta afirmação se sustenta, ela se sustenta porque a diferença existe. Ou
seja, aquilo aque a cidade e o município referem é o mesmo na medida em
que referem a Pedro Canário. Mas, nesta mesma medida Pedro Canário
não refere a mesma coisa caso seja predicado (pela reescrituração) por
cidade ou por município. Neste sentido, todo conjunto das referências é
produzido pelo funcionamento enunciativo (o funcionamento da língua no
acontecimento) e não por uma relação palavra(com seu sentido)/coisa37.
Está em funcionamento, ao mesmo tempo, uma tripla polissemia: de
cidade de município e de Pedro Canário, o que leva também a afrrmar,
mais uma vez e por outra via, a não univocidade do nome próprio.
Além das seqüências já consideradas, observemos as legendas que
aparecem sob duas fotos de duas pessoas (Pedro Canário e José Rai-
nha), nap.97:
[6] ' Notoriedade incômoda: fundada por Pedro Canário (acima à
esq.), há cinquenta anos, ¿z cidade tornou-se internacionalmente co-
nhecida por causa do processo contra o líder dos sem-terra."
37. Esta posição se distancia, assim, daquelas que se dão na linha das formulações de Frege
( l 892).
14
Aqui a cidade anaforiza./substitui Pedro Canário, tal como em ou-
tra legenda à p. 100:
[7] "Nunes: em trinta anos, a cidade saiu do mato e entrou em
decadência."
É inþressante ver que em nenhum dos destaques produzidos pelas
legendas aparece a palavra município. Pode-se, então, dizer que a cidade
refere também a mesma extensão qlue o municípioreferc,na medida em
que o que se refere nos dois casos é também referido por Pedro Canário.
E por isso mesmo é preciso atentar para a diferença entre cidade e muni-
cípio que,como vimos, predica diferentemente (pela reescrituração) P edro
Canário. Mas vejamos uma outra sequência:
[8] "No inquérito, os lavradores entoam uma ladainha: haviam
caído na conversa de que 3 alqueires esperavam por cada sem-telra
em Pedro Canârio, numa fazenda previamente desapropriada pelo
Incra." (p. 98, 3c)
Aq:ui Numa fazenda retoma e especifica Pedro Canário. Ou seja,
Pedro Canário incltúfazenda, inclui tenas que estão remetidas ao Incra.
É a polissemia de Pedro Canário operando. Aqui Pedro Canário é o
municípiqog a cidade? De um certo modo as duas coisas: é a cidade que
inclui o c ampo e é o município. E a cidade enquanto município.
O município e a cidade referem "o mesmo" qlue Pedro Canário em
virtude da interpretação anafórica que se faz deste acontecimento
enunciativo. Interpretação que se dá não porque haja uma remissão me-
cânica/inquestionável interna de um termo a outro no fio do texto, mas
porque há um presente do acontecimento constituído pela dupla
reescrituração de Pedro Canário (por a cidade e por o município).
Não há, como uma abordagem estruturalista diria, hiperonímia en-
tre cidade e município, uma relação na língua. Há relações de sentido
constituídas pela relação integrativa das palavras no texto. Há sentidos
de palavras constituídos no acontecimento, por uma temporalidade que
não é a do Locutor. Podemos também observar como o dizer do locutor-
jornalista está dito no interior do dizer do locutor-editor, mas isto se dá
como homogêneo, como o dizer de um Locutor que enuncia da perspecti-
va de um enunciador-individual. O desconhecimento desta divisão do
Locutor no acontecimento (que é ora o editor ora o jornalista, que enun-
cia como se fosse ele mesmo, Locutor) é o desconhecimento de que este
t5
texto se constitui pelo cruzamento das posições de sujeito dos discursosjurídico e administrativo do Estado.
Para mostrar a consistência desta análise, retomemos uma seqüên-
cia já,,utllizada acima, acrescida de um enunciado:
[9] "Encaixado na divisa com a Bahia, o município tem2Z.000
habitantes. O MST prometia invadi-lo com 15.000 manifestantes
no dia do julgamento" (p. 962ac)
Neste caso "invadir o município" (o pronome o reescreve município
em "invadi-l o") é parâfr ase de "invad t a c idade" . Mas contraditoriamente
a cidade não referiria a mesrna extensão que municíplo: só enquanto inva-
são da cidade, como parte do município, a invasão seria uma invasão para
o julgamento, embora esta invasão seja uma invasão do município enquan-
to invasão de suas terras, referência ao MST. Invasão de terras que é,
enquanto tal, invasão da cidade para o julgamento. E neste sentido é tam-
bém invasão dacomarca,que marca aqui o jurídico no discurso jornalístico.
Do ponto de vista do que nos propusemos, a análise feita mostra
que, embora não se possa estabelecer uma relação de oposição bem defi-
nida entre o funcionamento designativo destas palavrai (cidade, municí-
plo, e mesmo comarca),pode-se ver como a designação de cidade é algo
instável configurado pela relação com a instabilidade designativa de mu-
nicípio e comarca. Por outro lado, como vimos no início, a instabilidade
da designação de cidade está em relação com a instabilidade designativa
de campo (rural). Assim cidade designa algo que é "urbano", mas que é
também o "urbano expandindo-se sobre o campo". E não há dúvida de
que esta expansão tem tudo a ver com a instabilidade designativa que
relaciona cidade, município e comarc(r,.
As referências vão construindo a designação, que é assim instável. E
o carâter desta construção da designação, pela reescrituração referencial,
mostra um aspecto predicativo nos nomes comuns. O nome comum refere
apartir de seu aspecto predicativo funcionando em expressões que deter-
minam aquilo que se predica. Ou seja, aquilo que se identifica como objeto
pela construção de sentido no acontecimento. E deste modo o próprio obje-
to referido a cada reescrituração, embora se dê como o mesmo, é sempre
um pouco outro. A relação de designação e referêncianão é, uma relação
entre uma palavra e um objeto ou conjunto de objetos de uma classe
estabelecida. E uma relação que produz identificações por um processo
infindável de redizer,próprio do texto. Mais uma vez afirma-se a impossi-
bilidade de uma análise composicional do sentido e da referência.
C¡piruro vt
A CIDADE E OS NOMES DE ESPAÇO
Nos acontecimentos enunciativos do nosso cotidiano, sabemos como
exprèssões do tipo
a) Gosta darta/ Foi posto na rua
significam o fora, na medida em que expressões do tipo
b) Ele é caseiro
significam o dentro. Assim poderíamos aqui tomar a cidade como um
espaço e¡n gue a casa designa o dentro, e a rua designa o fora, que são
tantos e outros espaços. E é sobre estas designações que procuraremos
falar agora. Para isso vou tomar textos de revistas semanais brasilei-
ras, tal como no capítculo anterior, publicadas também por volta do
final de setembro de 1997 .
Podemos tomar o aspecto da significação colocado acima pelo funcio-
namento de palavras como ruae casanas seqüências textuaisque seguem'
Numa matéria sobre a adesão dos paulistanos às caminhadas en-
contramos, como título e subtítulo de uma reportagem
TI]"A CIDADE ANDA A PASSOS LARGOS
Espalhados por ruas, parques e praças, mais e mais paulistanos
descobrem os prazeres e os benefícios da caminhada" (Veia São
Paulo, no 39, p. 14, de 30 de setembro de 1997)
Em [1] a cidade é reescriturada por mais e mais paulistanos, e
nesta medida é signiflCada por seus habitantes e assim pelas atividades
destes habitantes: "espalhados poÍ ruas, parques e praças..'descobrem
76 77
os prazeres e benefícios da caminhada". A expressão destas atividades é
reescriturada como segue, no corpo do texto:
12] "Pode ser em parques, praças, ciclovias, ruas, academias
de ginóstica ou mesmo dentro de casa".(idem)
Por esta última reescrituração predica-se cidade, através do que predica
mais e mais paulistanos, poÍ ruas, parques, praças..., casa, onde se dis-
tingue a casa ('þelo meno s dentro de cas{f,"), como o dentro, e tudo o mais
como o fora: ruas, parques, praças, ciclovias, academia de ginástica.
Toda esta rede de reescriturações constitui o espaço da cidade como
dividido entre a casa (o dentro) e a rua (o fora). Neste ponto é interes-
sante observar que a reescrituração de cidade por ruas, parque...ou
mesmo dentro de casa, articula os elementos da seqüência como uma
enumeração que apresenta uma não homogeneidade dos elementos da
enumeração. Isto é marcado por ou mesmo. Este operador apresenta
"ou mesmo dentro de casa" não só como um elemento da enumeração
mas toma a enumeração toda como argumento para algo como "toda a
cidade (seus habitantes) beneficia-se das caminhadas". E nesta argu-
mentação, na medida em que o deníro da casa é o argumento decisivo
para este envolvimento marcado por oumesmo, o dentro da casa é mos-
gar para tais atividades. Podemos dizer que o
(a rua) significam assim o pessoal (o íntimo) e
nte.
1. RUAS E CASAS
Para pensar um pouco mais sobre a designação de nomes do espaço
da cidade enquanto fora da casa, tomo nomes como arameda, rua, aveni-
da presentes em três enunciados tirados da revista veja sao paulo de 24
de setembro de 1997 . Neles o texto que se segue ao nome (próprio) de um
estabelecimento comercial (um restaurante) é uma reescrituiação desse
nome, predicando-o (mais à frente isto será melhor explicitado). Assim
rua, alameda, avenida ao referirem algo constituem o que designam por
aquilo que predicam sobre os restaurantes.
[3] "Miski
F-884-3193/7006, Alameda Joaquim Eugênio de Lima, 1690,
Jardim Paulista (78 lugares). llhlZ}h (sáb. aré 18h; dom. afé t7h.
fecha seg.). Cc: todos. T.: C, T, Tr e V. Estac. c/manobr.,, (p. 09)
[4] "Monte Líbano
F-229-44I3, Rua Cavalheiro Basíli Jafet, 38, 1o. andar, centro
(50lugares). 11h/15h30 (fecha sáb. e dom.). T: todos"(idem)
[5] "Churrasco's
F-53I-4I41, Avenida Roque Petrella, 265, Brooklin Paulista (250
lugares). I2h/0h (sex. e sáb. até th). Cc: V. Estac. c/manobr.(p. 15)
Nestas três seqüências encontramos três nomes que produzem uma
divisão da cidade: alameda, rua, avenida. Ou seja, o espaço da cidade,
ao lado de ser um espaço que se deve dividir é um espaço que ao se
dividir é significado de modos diferentes (a enumeração que reescreve
cidade em [1] e [2] também nos mostra isso). Neste sentido a Rua, en-
quanto designando o fora, o é enquanto designação do espaço público
divido e assim determinado por essas diferentes designações.
Se parássemos nos textos e em uma concepção referencial lógica ou
pragmática da linguagem diríamos simplesmente que os espaços da cida-
de são categoizados diferentemente e têm nomes segundo estas categori-
as. Deste modo os nomes classificariam os objetos, colocando-os em seu
conjunto. Uma concepção deste tipo diria que as palavras alameda, rua
avenida,e as sequências [3] a [5] são "referenciais". O queelas fazemé
indicar onde algo está, e rua, alameda, avenida são nomes de espaços
empirica¡nqnte diferentes na cidade. Estas seqüências seriam assim só
endereços na cidade. Elas diriam unicamente que algo está em tal rua, em
tal alameda, em tal avenida.
No entanto não é difícil encontrar nas cidades espaços nomeados
rua e alameda, por exemplo, que não tenham, do ponto de vista físico,
especial diferença. Em verdade o que difere uma "rua" de uma "alame-
da" é que estes dois espaços são diferentes porque designados diferente-
mente. Designação construída por uma história enunciativa que podemos
entrever pelaprópriapresença de alamedapara nomear um espaço num
bairro referido como Jardim Paulista, enquanto ruanomeia, nos exem-
plos acima, um espaço num bairro referido como centro. Uma observa-
ção do mapa de São Paulo nos dá conta, por outro lado, que estes espaços
nomeados jardins, nos quais as vias públicas são nomeadas alamedas,
estão ligados a uma história de distinção social, a favor dos jardins. Um
texto como os acima em que hâ alameda Joaquim Eugênio de Lima,
recorta um memorável específico, o da distinção social.
E se analisamos, as três seqüências em questão vemos em [3]
especificações como "(Sáb. até 18h;Dom. até I7h;fecha Seg.)", "Cc.
l8 t9
Todos" e "V.Estac. c/manobr." reescrituram "Alameda Joaquim Eugê-
nio de Lima", na medida em que tanto o nome da rua quando as
especificações acima, ao reescriturarem Miski, o predicam. Ou seja
"(Sáb. até 18h; Dom. até 17h; fecha Seg.)" e "Cc. Todos, V.Estac. c/
manobr." são especificações de "Alameda Joaquim Eugênio de Lima"
enquanto uma caracterização de Miski. E nesta medida esta
reescrituração de Alameda, pelas especificações acima, predica Ala-
meda, assim constituindo o que ela designa diferentemente de "Rua
Cavalheiro Baríli Jafet". Esta última é reescriturada, enquanto reescritura
"Monte Libano", por "Fecha Sáb e Dom.)", "T: todos". Não havendo
nenhuma referência a estacionamento e muito menos a manobrista. Além
do mais esta reescrituração estabelece uma oposição flagrante entre T
(Ticket restaurante) e Cc (Cartão de crédito), que aqui rememoram sen-
tidos opostos da divisão social.
Deste modo palavras como rua, alameda, avenida, não desig-
nam simplesmente um certo tipo de espaço da cidade, pelas diferen-
ças físicas que tais palavras descreveriam. O que elas designam é,
assim, algo contruído enunciativamente que em verdade constrói con-
tinuamente o objeto designado sob a aparência de ser uma palavra
para um objeto desde sempre. Assim estas nomeações constituem uma
identificação dos espaços designados. Ou seja, se os espaços de uma
cidade são chamados rue, somente, ou se são chamados rua (umcerto
número) e alameda (outro), tal como em [3] e [4], temos duas cidades
identificadas diferentemente. Ou seja, os nomes desses espaços não
são uma classificação objetiva dos espaços da cidade. Nomear de rua,
alameda, avenida, etc é constituir a identificação dos espaços com a
cidade e vice-versa.
Para continuar, tomemos uma outra seqüência, em que um novo
nome de espaço da cidade aparece. Tomemos uma sequência de uma
entrevista na Revista Isto E de 24 de setembro de 1997.
[6] "O Táxi amarelo estaciona n uma ruela de Botafogo, na zona
sul do Rio de Janeiro.
Ao referir um espaço por uma ruela,pode-se ver que o processo de
designação do espaço da cidade em [6] inclui um certo tipo de determina-
ção (produzida pelo sufixo), ou seja, a designação não é mera indicação.
Poder-se-ia dizer, então, que se trata de uma descrição do espaço. Mas
esta questão deve ser melhor analisada. Tomemos, da mesma entrevista,
a seqüência
[7] "As pernocas são fruto de muito desce-morro e sobe-mor-
ro(...) Hoje, os ônibus chegam no topo do morro e as mulatas não
carregam mais latas na cabeça, como eu fazia no morro da Água
Santa, na zona norte.
E inevitável que se considere aqui a polissemia da palavra morro,
na história de sua constituição. Ou seja, a palavra mono de designação
de acidente geográfico (desce-morro e sobe-morro) passa a designarre-
gião da cidade, espaço da cidade do Rio de Janeiro (opõe-se a bairro,
vila, jardim?). Deslize de sentido que se dá na medida em que uma dife-
rença social se cor¡elaciona com uma diferença de espaço, e este espaço
passa a significar umaparte da cidade enquanto determinada pela diferen-
ça social. Assim, se morro descreve, no caso, a geografta em que este
espaço se configura, significa um recorte social ligado à própria descrição
da entrevistada que dá conta de que os habitantes do morro levavam água
na cabeça para casa e que hoje o ônibus já chega no topo do morro, ou seja,
o morro já conseguiu receber um benefício próprio da vida urbana que ele
não tinha. Configura-se assim, pela metáfora e metonímia desta nomea-
ção, a necessidade de incluir na reflexão sobre estas designações, como
de resto em geral, a consideração da história enunciativa que constitui
tais designações, que não são meras indicações ou descrições de espaços.
A se considerar ainda que mulatas é um nome, enquanto
reescrituraçãç, para ezt de "como eu fazia..." na sequência [7]. Deste
modo esta enunciação recorta como memorável os sentidos de mulatas
(personagens da pobreza, sensualidade, etc, etc) como determinação de
morro (o espaço desses personagens).
Vemos, então, como, ao lado de rua, alameda, avenida,nomes como
ruela e morro, constituem por suas designações ouÍas identificações
(sociais) de espaços da cidade e assim da própria cidade. E assim consti-
tuem a própria designação de cidade, ou a designação de um nome de
uma cidade específica. Estes nomes têm entre si relações que se organi-
zam enunciativamente pelas diferentes reescriturações que os afetam, cada
um a seu modo.
Em um caso temos rua e casa como designações genéricas do
público e do privado, em outro temos uma distinção entre ruae alame-
da emqtJe rua é o comum e alameda é o distinto, em um terceiro caso,
temos ruela e morro desginando espaços dos pobres. E a designação
destas palavras, nos três casos considerados, não é comparável, direta-
mente, pois são construþões de textualidades diferentes. Pensar arela-
ção destes sentidos envolve considerar que são todos textos de grandes
80 81
revistas de circulação nacional publicados numa mesmaépoca- E nesta
medida podemos ver corno a construção das designações está afetada
por divisões diferentes do real, sob a aparência neutra da descrição. Ou
seja, designar e referir envolve um aspecto político do sentido tal como
o apresentamos no capítulo L
Mais uma vez estamos diante da instabilidade da designação. Insta-
bilidade que funciona sob o modo do estável, do permanente. Rua funci-
ona num enunciado para um texto como se estivesse marcada por uma
estabilidade própria de sua referencialidade. Mas, como vimos, o que
rua designaé, a cada momento algo diferente. O objeto designado é assim
uma construção da textualidade sobre a palavra. A instabilidade da de-
signação de rua é aqui constituída na relação com a instabilidade de
outras palavras que de algum modo reescrituram rua: alameda, avenida,
ciclovia, academias de ginástica de um lado e ruela, morro de outro.
Como dissemos as palavras da língua significam ao funcionaremno acon-
tecimento. E este funcionamento recorta politicamente o real.
Como se vê, todos estes nomes , rua, alameda, avenida, praça, par-
ques, ruela, morro, academia de ginástica, restaurante, casanão desig-
nam um objeto único, mas objetos gue mantêm com o nome uma relação
de constante instabilidade
2. OS NOMES DE LUGAR
Retornemos agora à questão dos nomes próprios que já nos ocupou
quando tratamos dos nomes próprios de pessoa e dos nomes de ruas.
Observemos agora os nomes próprios de estabelecimentos comerciais
(restaurantes) na cidade.
Para isso retornamos às sequências [3], [4] e [5]. Estas três seqüên-
cias apresentam um nome próprio e uma descrição que se mostra como
uma descrição do que o nome próprio refere. Tomando a questão do sen-
tido constituído pela relação integrativa no texto podemos ver aí outros
aspectos da constituição do sentido. Cada uma destas seqüências tem um
nome próprio que é reescriturado numa descrição que, em verdade, fun-
ciona metonimicamente .Epelacontigüidade que a descrição é descrição
do nome. E sendo descrição do nome faz este nome significar, significan-
do assim o que é sua referência. Vejamos como se constituem estas des-
crições. Elas incluem um endereço; a indicação de telefones; a indicação
de espaço{número de mesas, lugares); tempo de atendimento; aceitação
ou não de cartões de crédito; a aceilação ou não de Tickets restaurante;
existência de estacionamento, ou não, com manobrista, ou não. Assim
82
estas descrições dizem que X é igual a p+q+r... E ao dizerem esta identi-
dade desdobram um conjunto de predicados. Ou seja, esta descrição é
uma qualificação do nome próprio, é uma colocação em movimento do
sentido do nome próprio, por uma reescrituração. Cada um destes restau-
rantes são predicados por um certo grau de refinamento, de ,distinção".
Por exemplo: têm estacionamento e manobrista e aceitam cartões de cré-
dito e não Tickets, aceitam ambos, ou aceitam só Tickets e fecham aos
sábados e domingos (fechar aos sábados e domingos rememora o sentido
do restaurante que atende pessoas durante a jornada de trabalho). Lem-
bre-se que esta análise, mais uma vez, confirma o que dissemos sobre o
ql;re alameda designa relativamente a rua e avenida.
O modo de significar os espaços da cidade mostra que eles são
espaços políticos. O espaço que se dá como objetivo, por uma descri-
ção (rèferência), atende a objetividade estabilizada do discurso admi-
nistrativo, que nomeia oficialmente os espaços da cidade. E o discurso
da midia do lazer repercute esta estabilidade da divisão desigual do
social. Por outro lado, o discurso administrativo não se dá senão como
efeito da memória discursiva que designou no decorrer da história estes
espaços, enquanto divididos.
Os sentidos dos espaços da cidade são sentidos de uma divisão e
redivisão constante do social. Redivisão que se expande e se resignifica.
E isto é significado tanto pelos nomes comuns quanto pelos nomes pró-
prios, cor4o çrudemos ver neste capítulo. A significação desta redivisão
constante do social se faz pelo funcionamento da língua nos aconteci-
mentos de enunciação.
3. ESTRADAS E RUAS
Vou agora percorrer esta redivisão do real pelos sentidos, vindo de ou-
tro lugar. Tomo aqui o texto de uma outra repoftagem '?olêmica na Serra",
sobre a esffada velha São Paulo-Santos (Veja São Paulo, N 39, p. 10).
[11] "É um passeio fantástico", diz o publicitário Marcos Ta-
dett Aziz, que, apesar da proibição oficial, costuma percorrer a
rodovia de bicicleta. Para isso, precisa driblar a fiscalização: sai
de sua residência no bairro da Casa Verde às 5 da manhã de
sábado e..."(p.10).
Aqrli residência nò bairro da Casa Verde rememora um espaço da
cidade, significa assim no acontecimento a cidade. Tendo isto em consi-
83
deração, tomemos de saída uma metáfora de Estrada Velha constituída
pela retomada (reescrituração) "estrada-parque", na seqüência abaixo,
queé dada como transcrição de um dizer do presidente do movimento em
Defesa da Vida
fI2]" "elaprecisa de restauração, mas só para receber umnú-
mero limitado de carros e ser visitada como uma estrada-parque",
sugere".(p. 10)
Esta reescrituração metafórica da estrada enquanto estrada-par-
que é,no presente acontecimento, uma metonímia da cidade: significa a
cidade pela afirmação de um parque como espaço de lazer da cidade.
Esta metonímia se propaga por todo o texto. Retornemos à sequência
lIIl já colocada acima
fLll" "É um passeio fantástico" diz o publicit¿írio Marcos Tadeu
Aziz, qtl.e, apesar da proibição oficial, costuma percorer a rodovia
de bicicleta. Para isso, precisa driblar afrscalização: sai de sua resi-
dênciano bairro da CasaVerde às 5 da manhã de sábado e..."(p.10).
Aqui é um p as s e io fantá s t ic o predica e s t r ad a -p o rque, qrre as sim se
distingue de residência. Deste modo a "estrada-parque" é a extensão dos
sentidos da cidade (a residência) pelo campo (a rodovia que reescritura e
é reescriturado por estrada-parque) como olazer da cidade.
Se comparamos esta análise com a feita no capítulo anterior sobre a
designação de cidade na matéria "Tena Desaforada" vamos observar
que naquele caso a estrada é a cidade no campo pela metonímia de "o
comércio...impressora a laser...vídeo...cinema". Ou seja, a estrada é a
metáforadacidade no campo enquanto comércio. O campo é a extensão
econômica da cidade (ele dá até parãmetro para medir a população: nú-
mero de pessoas por cabeça de gado).
Os sentidos da cidade expandem-se, então, por caminhos diferen-
tes. No caso da matéria sobre a estrada da serra os sentidos de cidade
estão em expansão enquanto lazer, enquanto distinção/"qualificação".
No caso da matéria "Terra Desaforada", os sentidos de cidade expan-
dem-se enquanto economia, e a invasão dos sem-terra (do campo) na
cidade se dá como conflito quanto ao modo de produção e propriedade.
Mas se aqui o campo invade a cidade, esta expansão não ê a"urbaniza-
ção" porque, nos sentidos que aí se constituem, a cidadejá significa o
campo enquanto cidade pela metonímia do comércio na estrada e pela
metáfora da cidade por município. O campo é assim cidade. E é en-
quanto tal que o campo, os sem-terra, invade a cidade. A inclusão do
campo como cidade significa uma coisa em "Terra Desaforada" e outra
na matéria sobre a Estrada da serra. E a diferença mostra diferentes
identificações (políticas) do que cidade designa, num caso e noutro.
4. GRILEIROS E POSSEIROS
Tomemos ainda outro texto, com uma outra constituição de senti-
dos: "Pelo Confronto", incluído na seção "Reforma Agrâria,, daVeja de
24 de setembro de 1997 (p. 39). Esta matéria tem como sub-título ,.Mi-
nistro prega aliança da polícia com fazendeiros". vamos considerar ago-
ra a construção de diversas designações e ver como elas constituem seus
sentidos e assim o do texto.Tomemos duas seqüências textuais:
[13] "Na terça-feira passada, ao receber os secretários de segu-
rança pública no Palácio do Planalto, o presidente Femando Henrique
Cardoso fez um discurso contra a violência no campo no qual não
poupou os fazendeiros. O presidente alertou para o risco de propri-
etários rurais estarem se annando. "O Estado não existe para dar
segurança só para um lado", afirmou Fernando Henrique, querendo
dizer que apolícia deve fazer respeitar a lei, seja quem for que a
viole,þzendeiros ou sem-tena" (p.39 2c)
[14] "No mesmo dia, horas antes, o ministro da Justiça, kis
Rezende, responsável pela política de segurança do govemo federal,
encontrou-se com os mesmos secretiírios para dar outra visão do pro-
blema. "Polícia e fazendeiros têm de andar de mãos dadas para cum-
prir mandados judiciais", afirmou o ministro, referindo-se às opera-
ções policiais para retirar os sem-terra de fazendas ocupadas".
A primeira coisa a observar é que nestas seqüências não temos a
construção do sentido de cidade. Temos o sentido de campo (significado
pelo título da seção "Reforma Agrâna"), que vou considerar a partir da
designação de fazendeiro s.
Em [13] temos um movimento em quLe "os fazendeiros", da fala
do locutor-presidente, é reescriturado por "proprietários rurais", da
fala do locutor-jornalista, e assim faz significar o fazendeiro enquanto
proprietário. E ao consiruir a designação de fazendeiro como proprie-
tánio, a enunciação faz o confronto se significar como um confronto
84 85
contra a propriedade, confronto que, ao ser configurado aparece como
uma questão jurídico-policial, interpretada pela enunci ação da revista
que reescritura "O Estado não existe para dar segurança só para um
lado" (do presidente) por "querendo dizer qrte a polícia deve fazer res-
peitar a lei". Onde segurança é reescriturado por polícia (ou seja, a
designação de segurança é predicada por aquilo que polícia refere)
Além disso a revista, ao colocar a fala do Ministro da Justiça, dá
andamento a esta paráfrase jurídico-policial, tanto pela fala do ministro
que transcreve quanto pela reescritura de "cumprir mandados judiciais"
(do locutor-ministro) por "operações policiais" do locutor-jornalista'
Assim o campo é significado como o espaço desses conflitos. Pode-
ríamos assim dizer qlue cidade, se aqui fosse designada, significaria, en-
tão diferentemente de cidade em "Terra Desaforada", por exemplo, in-
clusive pela separação estanque que aqui há entre campo e cidade (que
sequer foi significada diretamente).
Tomemos, ainda, um outro texto e nele o conjunto de substituições
que tem a palavra grilagem, delI5l abaixo, do título da matériada secção
cidades, da revista Veja 40,p.76, de 1997 .Estamatéria é publicada uma
semana depois de "Terra Desafor4da", sobre o julgamento de José Rai-
nha e seus efeitos sobre Pedro Canârio, que analisamos antes.
[15] GrilagemChique
[16] Mansões e condomínios ocupam terras públicas
[ 17] Em boa parte das capitais brasileiras, as autoridades gover-
namentais estão às voltas com um tipo de invasão que nada tem a
ver com os sem-terra. São os invasores vip - tmbando de com-terra
que ocupa parques e outras áreas públicas com o objetivo de ampli-
ar suas posses,..."
[18] Os invasores tëmpreferênciapor iíreas tranqüilas e arborizadas.
Em Salvador, o Parque de Pituaçu, que tinha 660 hectares de Mata
Atlântica e lagoas, perdeu um terço de sua áreapara as ocupações.
[19] Em Porto Alegre, outra reserva de Mata Atlântica, o Par-
que Estadual Delta do Jacuí, abriga noventa mansões, 807o delas
sem escritura. "Perante ajustiça, os donos dessas casas sãoposseí-
ros", esclarece o promotor de justiça Ivan Milgaré, do Ministério
Público gaúcho.
[20] Em Salvador, 3.000 quilômetros quadrados de terras perten-
centes ao Governo municipal foram ocupados para construção de
mansões, garagens de ônibus e estacionamentos de Shopping centers38.
É interessante observar que, na chamada da matéria, no índice da
revista, o avanço da classe rica sobre terras públicas aparece como
grilagem que é aí qualificada por de rico. Jâ no título da matéria (em
[15]), na página 76, grilagem é qualificadapor chique. O deslizamento
de de rico (do índice) reescriturado por chique ( no título) e depois por
Vip em [17] inicia um processo de indiferenciação de responsabilidade
no que grilagem designa.
Continuando este processo, a grilagem do título será, na formula-
ção textual, reescrituradapor ocupar (em 16 e 18), por invasão (em 17 e
18) e por donos e posseiros (em 19).
Um aspecto que não se pode deixar de registrar é que a reescrituração
de grilagempor donos e posseiros, em 19, é,feitapela mediação de um
locutor-procurador (ministério público). E nesta ordem: primeiro o pro-
motor nomeia o grileiro de dono e depois reescritura g rileiro legalmente
como posseiro. Nesta passagem do texto, grilagem é, logo antes, para-
fraseado por abriga e em seguida,pela voz dajustiça,por donos epos-
seiros. E não há, por parte da enunciação do locutor-jornalista, uma
reescrituração de posseiros por grileiros, na continuação do texto.
Assim p conceito de posseiro, que reescreve grilagern, e assim
resignifica sua designação, abre o lugar para a inclusão da posição de
órgãos govemamentais que acabam por absorver a invasão pela retração
das áreas de preservação ambiental, como se vê em
[21] Diante do evidente ataque ao meio ambiente, a Coordenação de
Desenvolviemnto da Região Metropolitana de Salvador, Condet não
pensou em botar os invasores na Justiça. Preferiu simplesmente recuar
os limites do parque. "Se quiséssemos tirar as pessoas de lá, o Estado
teria de indenizá-las pelas benfeitorias - piscinas, quadras, churrasquei-
ras - , e isso ficaria muito c ato" , diz Sônia Fontes presidente da Conder.
Interessa aqui ver como a imprensa, no caso de "Pelo Confronto",pa-
rafraseia "o Estado não existe para dar segurança só para um lado" e "Polí-
ciaefazendeiros têmde andar de mãos dadas para cumprirmandados judici-
ais" do presidente e do minsitro por "operações policiais". Ao contrário,
86
38. Grifos meus
87
aqui, a imprensadiz grilagemedepois reescriturapot ocupal; invasão, eno
limite oposto,por posseiros e donos. Reescrituração esta legitimada por ser
a enunciação da posição de sujeito do discurso jurídico, pelavoz que sus-
tenta a palavra da lei (um locutor-procurador). Assim vemos como a cons-
tituição da designação de fazendeiro como proprietiário, na matéria "Pelo
Confronto", em [13] elI4l,faz um movimento diverso daquele que aqui se
faz aoreescriturar g rilagempor posseiro e dono. É assim que o problema
se formula como uma agressão ao meio ambiente e não à 'þropriedade" do
Estado, diferentemente do que se observou para [13] e [14].
Veja-se, ainda, como a presente matéria é concluída:
Í221Outro empresário, Luiz Eduardo Dutra Abichequer, dono
da fábrica de calçados Datelli, está sendo processado pelo Minsitério
Público por construir no parque uma marina para sessenta barcos,
que exigiu um aterro que afetou o leito do Rio Jacuí, o que pode
piorar os problemas de enchentes na região.
O que está em [16] e [20] aflrmando a ocupação de terras públicas,
se reescreve insistentemente (em I I 7, I 8, 19, 20, 2I, 22]) como agressão
ao meio ambiente, diluindo o gesto depnvatização do espaço público por
uma grilagem de ricos.
Esta matéria, tal como "Terra Desaforada", do número anterior da
revista, reescritura cidades, nome da secção da revista em que são
publicadas. E aofazer esta reescrituração constitui designações diferen-
tes para cidade.
Em "Terra Desaforada", uma expansão dos sentidos de cidade in-
vade o campo que se organiza pelos sentidos da cidade. Em "Grilagem
Chique" há uma expansão dos espaços privados de uma classe sobre os
espaços públicos, que neste caso são terras públicas, incluídas no urbano
pela destinação de preservar as condições ambientais. "Grilagem Chi-
que" resignifica e assim redivide os espaços da cidade pelo reconheci-
mento da "distinção" social. Podemos assim compreender que este pro-
cesso específico de designação está produzido a partir da posição de su-
jeito liberal, no interdiscurso.
A designaçã o de cidade desta matéria significa a expansão do pri-
vado sobre o público, e em alguma medida corresponde ao sentido da
organização urbana sobre o campo enquanto parque, na medida em
que, no último texto analisado, a grilagem é diluída pela reescrituração
textual.
5. A CIDADE E A RESIGNIFICAçÃO DOS ESPAçOS
Vê-se assim como aquilo que cidade designa é uma construção per-
manente dos acontecimentos de linguagem. A instabilidade do que cida-
de designa afeta as outras designações envolvidas e é por estas afetada.E
isto diz respeito tanto aos nomes comuns quanto aos nomes próprios
analisados no capítulo anterior e neste.
A análise feita nos dá alguns aspectos importantes. De um lado há a
expansão do sentido de cidade como espaço do jurídico-político. A desig-
nação da cidade, e seus sentidos, se sobrepõe, pela reescrituração
enunciativa, à do município e da comarca. Por outro lado os sentidos da
cidade passam a significar o campo, tanto pela metonímia do comércio,
quanto pela metáforadolazer. A cidade "invade" o campo como ativida-
de ecoàômica fundamental (o comércio, a mídia, a informática) ou como
lazer para os que se "distinguem", podendo agregar espaços públicos
como se fossem privados. Assim os sentidos do campo se organizam
como cidade, e a designação de campo é predicada pelo urbano. Tanto
que quando o campo significa o que lhe é próprio ele é significado como
negação do progresso da cidade.
O que se vê é como os movimentos designativos resignificam cons-
tantemente o real, que não estâaí como o empírico, mas como o identifi-
cado pelo sirnbólico, que inclui necessariamente o político.
88 89
coNCLusÃo
Feito este percurso podemos retomar certos aspectos gerais da re-
flexão que têm um impacto específico sobre o modo de pensar a relação
da linþuagem com o mundo. Se não se pode pensar a linguagem sem
considerar que ela fala de algo fora dela, não se pode também considerar
que as palavras significam aquilo que referem, e nem mesmo que a signi-
frcaçáo, o sentido seja um modo de apresentação do objeto.
O que umnome designa é construído simbolicamente. Esta constru-
ção se dá porque a linguagem funciona por estar exposta ao real enquan-
to constituído materialmente pela história. O que uma expressão designa
não é assimnemummodo de apresentação do objeto, nemuma significa-
çáo reduzida a um valor no interior de um sistema simbólico. Designar é
constituir pigpificação como uma apreensão do real, que significa na lin-
guagemna medida em que o dizer identifica este real para sujeitos.
Se tomamos os nomes próprios este processo de identificação da
designação é tambémumprocesso de subjetivação. Receberumnome é
um modo defazer o indivíduo se ver como alguém identificado consigo
mesmo na medida em que tem um nome. E neste caso é interessante ver
como aquilo que é designado é constituído pelo funcionamento da nome-
ação (pela qual se dá nome a uma pessoa) e da referência (pela qual se
pafücularìza algo numa enunciação específica). Deste modo aquele que
nomeia éparte do que identifica um sujeito. Identificação decisiva para
que o funcionamento do nome na enunciação refìra alguém. O nome se
refere exatamente porque sua designação identifica a pessoa enquanto
sujeito na sociedade. Ou seja, a referência, a particularização de alguém
que se faz por seu nome é possível porque o nome, no processo enunqiativo,
identifica alguém, por este nome.
Neste caso é interessante notar como as relações entre nomear e
designar de um lado e designar e referir de outro, mostram como a
deontologia enunciativa não é caracteizadapor um conjunto de atos que
97
7-
se diferenciam pelas diferentes ações que realizam, mas por um conjunto
de relações entre estes compromissos que o dizer constitui. E impossível
pensar o que faz um nome próprio de pessoa sem pensar o processo pelo
qual se dá um nome a alguém. Ou seja, tanto o que um nome designa,
quanto o que ele refere e como, está ligado a como um nome é dado a
alguém. Isto é tal que a capacidade referencial do nome está ligada a que
a homonímia dos nomes próprios é desfeita pela história enunciativa que
deu um nome a uma pessoa. Lembremos o que dissemos sobre, por exem-
plo, o fato de que Antonio Candido designa ou refere alguém enquanto
nome único, na medida em que designará uma pessoa ou outra, conside-
rando-se que uma ou outra foi nomeada por locutores diferentes. Uma é
o Antonio Candido nomeado inicialmente Antonio Candido de Mello e
Souza e outra é um Antonio Candido nomeado inicialmente Antonio
Candido X, por exemplo. A relação não é um nome/uma pessoa, é um
pai/um nome/uma pessoa, onde um pai estâ aqui para significar uma
nomeação feita do lugar social da paternidade.
Embora não seja idêntico o processo, ele é fundamentalmente seme-
lhante para o caso dos nomes de ruas. Estes nomes designam e referem
ruas, na medida em que as identificam num certo processo social e histó-
rico. E aqui o processo envolve urîa relação de sentido entre a identifica-
ção dos espaços pelos nomes e sua localizaçã,o, enquanto efeito
institucional e administrativo. O nome de rua trabalha assim a identifica-
ção do espaço para pessoas e a localização destas pelo Estado.
Uma pergunta caberia aqui: o que constitui a identificação? A no-
meação ou a designação? A designação, na medida em que é a designa-
ção da palavra que divide e redivide o real. Mas, no caso dos nomes
próprios, como vimos, a nomeação é parte do que constitui a designação
do nome e nesta medida participa desta identificação. Identificação que,
por outro lado, inclui as referências que se fazemcom o nome e suas
"reescrituraç õe s ". Ao mesmo tempo a particulari zaçã,o p ela referência é
resultado deste processo de identificação da designação. Ou seja, é por-
que identifica que o nome refere um ser único. E na medida em que refere
em enunciações diversas, e é também reescriturado por outras referênci-
as, este nome, o tempo todo, se resignifica. É isto que constitui o proces-
so fundamental da instabilidade da designação.
Se consideramos agora, no caso dos nomes próprios, arelação destas
análises com o espaço de enunciação em que se dão os acontecimentos
estudados, temos a considerar que quanto aos nomes de pessoa, o espaço
de enunciação é o que define o falante enquanto falante da Língua Nacio-
nal, da Língua do Estado. O locutor-pai pode afé "batizar' ' seu filho com
nomes de outras linguas, mas isto é regulado, no nosso caso, pela Língua
Portuguesa enquanto Língua oficial das relações no Estado Brasileiro. E
isto é parle da designação destes nomes e assim do processo de subjetivação
das pessoas nomeadas. Nesta medida a subjetivação é significada como
produzida pela relação com o Estado e o indivíduo é subjetivado enquan-
to cidadão. Na mesma medida, ao ser nomeado, o cidadão é nomeado
enquanto fal ante daLíngua Nacional que o nomeia. Nomear é assim inserir
alguém, como falante, num espaço de enunciação específico.
Algo assemelhado se dá com os nomes de rua, que também funcio-
nam neste mesmo espaço de enunciação. Isto, ao lado de significar as
cidades como brasileiras, como falantes da Língua Nacional, reforça a
relação entre nomear os espaços urbanos como parte do processo de iden-
tificação elocalização dos lugares do cidadão na cidade. Deste modo o
memoiável que em cada caso funciona numa nomeação de rua, como as
que aqui analisamos, articula-se com este espaço de enunciaçã,o.8 aLín-
gua do Estado funciona como o impedimento de nomeações "indesejadas"
ao poder do Estado. Isto não significa que o processo de nomeação não
reidenfique este espaço, embora isto seja difícil, a partir de rememorações
não adequadas à constituição do espaço enunciativo da Língua do Esta-
do. No corpus analisado não nos deparamos com algo deste tipo, ao con-
trârio. Lembremos aqui a ausência de nomes como o de Egídio Rafacho,
líder sindical, como nome de rua na cidade de Cosmópolis.
Se paps4mos aos nomes comuns, observamos que, segundo nosso
ponto de parlida e nossa análise, a divisão do real pelo simbólico consti-
tui o movimento próprio da designação. Ou seja, estamos também diante
de um processo de identificação do real pela linguagem, processo pelo
qual a linguagem se torna capaz de referir objetos particulares, por um
processo enunciativo muito específico que articula uma designação e um
acontecimento. Funcionamento muito próprio do que se chama, na tradi-
ção dos estudos dareferência, de descrições definidas. Neste caso é crucial
ver como as reescriturações de um nome por outros vai, ao referir como
o mesmo3e, refazendo insistentemente a designação do nome reescriturado.
Aqui, de um modo muito específico, a designação trabalha incessante-
mente a divisão e redivisão do real que o processo de reescrituração mo-
vimenta. Esta instabilidade é própria do político que afeta radicalmente a
língua. Lembremos aqui como, na matéria "Terra Desaforada" cidade
tem sua designação reconstituída na medida em que vai sendo reescriturada
por município e comarca, e na medida em que reescreve P edro Canário.
39. O que mostra uma certa iriadequação do nome descrições definidas para expressões
refe¡enciais como a casa da esquina
92 93
Ou ainda como grilagemtema designação refeita no desenrolar do texto
"Reforma Agránia" . Neste caso, por um processo de reescritura, no qual
grilagem é retomada por referências que vão de invasão a posseiros,
passando por dono, a designação de grilagem é a cada momento outra.
Por outro lado, podemos ver como cidade tem uma designação dife-
rente em cada uma das três matérias analisadas: "Terra.Desaforada",
"Cidade Anda a Passos Latgos" e "Grilagem Chique".
Em "Tena Desaforada", a designação de cidade se constrói na me-
dida em que é reescrituradapot municípios e comarcaeteescitttaPedro
canório. E nesta indistinção assim constituída a designação de cidade
significa a expansão do urbano sobre o campo pela metonímia do comér-
cio na estrada.
Em "A Cidade Anda a Passos Largos", pudemos ver como a de-
signação de cidade é um efeito da construção da designação de nomes
como, rua, parque, estrada-parque, praças, ciclovia, academia de gi-
nástica, casa.lsto divide a cidade entre um dentro (vida pessoal) e um
fora (espaço de sociabilidade), que é redividido por outras identificações
que o recortam.
Em "Grilagem Chique", na ryedida em que se constitui o sentido de
grilagem,que é apresentado como uma reescrituração de cidades (nome
da seção em que estâ a matéria), a designação de cidade é significada
pelae oexPansão
do pri significado
como rProPrietá-
rios ricos) de terras públicas.
É inþressante ver como este tipo de consideração do funcionamento
da designação, nomeação e referência, coloca absolutamente em cheque
qualquer tentativa de tratamento composicional do sentido. Esta impossi-
bilidade está ligada ao fato de que a relação integrativa de uma expressão
deve ser remetida à textualidade e não às relações imediatas e segmentais
num enunciado. E isto se liga diretamente ao carâter próprio do funcio-
namento político da linguagemno acontecimento da enunciação.
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96',.
Qrranto aos nomes
colt-tLilts, ao anal¡sar
palavras conlo cidade,
tl1ut1icípio, conlarca, rlta,
auenida , alanteda,
nlorro , grilagem,
estrada, parque esla
obra nlostra coÌno a
designaçao é Ltrna
construção das relaçóes
das palavras nas
enunciaçÕes, e ass¡t-ì'ì nos
textos, ent que
futrciorrarl.
Esta é unta obra que,
ao redefìnir o campo da
etlunciaçao e estudar
exPressoes decisivas
para o funcionamento
lingüístico, traz uma
contribuiçáo que
interessará r¡ao só aos
selxanticistas, mas
também aos analistas de
discurso, aos filósofos da
linguagem, aos
h i storiadores, geógrafos,
antropólogos e a todos
gue se interessam pelos
aspectos ligados à
questáo da relaçáo
da linguagem com aguilo
sobre gue
ela lala (e constrói).

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