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NEUROCIÊNCIAS E BRINCADEIRAS: PRÁTICAS E REFLEXÕES NOS CMEIS DE CURITIBA CARVALHO, Tatielle Balbinot de – UFPR tatielle.b@gmail.com CASTAGNARO, Marina – UFPR ma.castagnaro@gmail.com DIAS DA COSTA, Sandra Regina – UFPR sanvieg@terra.com.br RIOS, Franciane Heiden – UFPR franciane_rios@hotmail.com Eixo Temático: Educação da Infância Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo O presente artigo contempla parte dos resultados obtidos com a participação das autoras no Programa Licenciar da Universidade Federal do Paraná - UFPR no projeto “O brincar na formação de professores da educação infantil: desenvolvendo as funções mentais superiores”, cujo objetivo geral é aprofundar o estudo em neurociência identificando sua relação com a cognição. Nesse sentido, procurou-se analisar as relações entre o brincar e o desenvolvimento das funções mentais superiores nas crianças de 0 a 5 anos frequentadoras do ensino público, especificamente os Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) do município de Curitiba. A metodologia consistiu no reconhecimento do campo de estudo a partir de observação das práticas lúdicas em três CMEIs, elaboração e aplicação de entrevistas semiestruturadas, análise e discussão das informações coletadas a partir do referencial teórico da formação social da mente - abordados neste trabalho - e por fim a devolutiva aos CMEIs. Com as observações iniciais, foi possível perceber as brincadeiras em sala como eventos espontâneos, não planejados e sem objetivos claros (para os educadores) de promover o desenvolvimento das funções mentais superiores. Compreende-se que a atuação nos CMEIs carece de referencial teórico que subsidie ações capazes de promover o desenvolvimento do potencial biológico que a criança apresenta nos primeiros anos de vida. O estudo evidenciou a importância da inclusão de conteúdos de neurociência na formação inicial de profissionais da educação; além disso, indica que para a superação dessa realidade, faz-se necessária a promoção de espaços de diálogo e formação continuada para os profissionais dos CMEIs privilegiando-se as brincadeiras como instrumento para o desenvolvimento infantil. Palavras-chave: Educação Infantil. Neurociência. Brincar. Funções Mentais Superiores. 10459 Introdução A Pedagogia constitui uma área de conhecimento que, permeada por diversas outras áreas, subsidia a formação do profissional da educação com vistas ao entendimento do aluno como um sujeito integral: social, histórico, psicológico e biológico. Essa concepção, no entanto, ao longo de todo o processo histórico passou por mudanças conceituais, refletindo nas várias esferas do trabalho docente, priorizando a concepção do sujeito em alguns aspectos, sublimando outros. Porém, no momento atual, torna-se primordial o resgate dessa concepção integral, na qual, todas as esferas constitutivas do individuo tem sua importância e devem ser consideradas para a reflexão da prática pedagógica dos educadores. A questão biológica é uma das áreas que, afetada por esse contexto histórico, teve sua importância, não negada, mas, coagida mediante a alteração das concepções de ensino, educação e indivíduo. Como reflexo, a formação profissional dirigida aos professores do Ensino Fundamental, bem como aos da Educação Infantil, pouco se aprofunda em temas como desenvolvimento humano e aspectos neurocientíficos do processo ensino e aprendizagem. Assim, entende-se que a neurociência traz importantes contribuições no conhecimento da atividade mental infantil, pois permite não apenas a percepção de problemas comportamentais e de aprendizagem que surgem durante o período de escolarização da criança, mas também o estabelecimento de práticas pedagógicas mais efetivas. Neste sentido, é essencial que os espaços de formação de educadores fomentem a apropriação de temas da neurociência buscando a compreensão e o reconhecimento da importância de um trabalho pedagógico capaz de relacionar o desenvolvimento das funções mentais superiores - tais como a atenção, memória e linguagem - com as atividades lúdicas traduzidas em brincadeiras. Embora o brincar ainda seja visto por nossa sociedade apenas como atividade prazerosa à criança, estudos comprovam a importância da brincadeira para o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos (PEREIRA, 2009; ANTUNHA, 2005; OLIVEIRA, 2000; BOMTEMPO, 2000; KISHIMOTO, 2006), pois, essa é capaz de promover o aprendizado e desenvolver as funções mentais superiores desses sujeitos, essenciais a todo o processo educativo formal. Subsidiado pelo Programa Licenciar vinculado à Universidade Federal do Paraná - UFPR, este artigo relata as experiências do Projeto intitulado: O Brincar na formação de 10460 professores da Educação Infantil: desenvolvendo as funções mentais superiores. Tal projeto, desenvolvido por alunas do curso de Pedagogia da UFPR, objetivou evidenciar a percepção dos educadores em relação a suas práticas pedagógicas e ao desenvolvimento das funções mentais superiores, tendo o brincar como momento lúdico e prática educativa privilegiada. Metodologia O percurso metodológico do trabalho incluiu observações do cotidiano de três CMEIs (Centro Municipal de Educação Infantil) da Prefeitura de Curitiba em turmas de berçário ao pré, a utilização de entrevistas semi-estruturadas com 24 profissionais da educação atuantes nessas unidades, a leitura de documentos da Secretaria Municipal de Educação que subsidiam a prática pedagógica na educação infantil e a análise qualitativa das informações coletadas para elaboração de atividades práticas traduzidas em brincadeiras que articulem teoria (neurociência) e prática pedagógica. Embora não tratado neste trabalho, cabe ressaltar que a título de devolutiva às unidades educacionais, o presente trabalho promoveu oficinas de formação continuada aos profissionais e material de apoio, entregue ao acervo das instituições participantes. Na primeira etapa de desenvolvimento do Projeto, a observação das atividades propostas pelos educadores possibilitou a aproximação com as práticas diárias desenvolvidas nos CMEI participantes, permitindo a nós, enquanto grupo de trabalho, articular a realidade desses sujeitos com a teoria estudada, tanto nas disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia, bem como, os materiais que estruturam a base teórica do trabalho. Na investigação utilizou-se a pesquisa etnográfica (ANDRÉ, 1995), pela aproximação e presença em sala de aula, visando relacionar os processos pedagógicos aos aspectos do contexto social e cultural em que a escola se insere, definindo o principal preceito da pesquisa qualitativa, que estabelece a observação, a descrição, a compreensão e o significado do fenômeno observado. Para André (1995), a pesquisa etnográfica “se caracteriza fundamentalmente por um contato direto do pesquisador com a situação pesquisada, permite reconstruir os processos e as relações que configuram a experiência escolar diária.” (ANDRÉ, 1995, p. 41). Assim, as hipóteses foram construídas a posteriore da observação, buscando estabelecer as relações causais para a explicação do evento, no nosso caso, o brincar e o desenvolvimento das funções mentais superiores. 10461 Em segundo momento, houve a realização de entrevistas semi-estruturadas a partir de um roteiro de perguntas previamente elaboradas com as impressões primeiras das observações, tornando possível traçar o perfil dos educadores e identificar as principais concepções que o profissional dos CMEIs tem sobre infância, educação infantil, desenvolvimento infantil, autonomia das crianças, afetividade, brincadeiras, planejamento e desenvolvimento das funções mentais superiores e perceber como a explicação verbal dessas categorias coletadacom a entrevista se articulam no desenvolvimento de sua prática pedagógica diária. Por fim, no terceiro momento desta pesquisa foi feita a análise e discussão dos resultados, bem como a elaboração de oficinas e material de apoio entregue aos CMEIs. Resultados e Discussão Na primeira etapa da pesquisa foram observadas todas as faixas etárias atendidas nas unidades colaboradoras, contando com turmas de: Berçário I (4 meses a 1 ano), Berçário II (1 ano a 1 ano e 8 meses), Maternal I (1 ano e 8 meses a 2 anos e 4 meses), Maternal II (2 a 3 anos), Maternal III (3 a 4 anos) e Pré (4 a 5 anos). Nesse momento, entender a rotina estabelecida pelos educadores se fez essencial para a compreensão do desenvolvimento das atividades lúdicas pedagógicas e sua relação com a intencionalidade educativa do profissional da educação. Em sequência, identificou-se o perfil dos educadores que, na maioria, possuem formação superior completa, ainda que em outras áreas que não da educação, ou magistério a nível médio; isto pode ser considerado um grande avanço para esse nível de ensino, já que somente a partir de 2000 passou-se a exigir a formação específica em magistério para atuação nesse cargo funcional, conforme texto do parecer 04/2000, intitulado: Diretrizes Operacionais para a Educação Infantil: “Os professores das instituições de educação infantil públicas ou privadas, deverão possuir, pelo menos, o diploma de curso normal de formação de professores de nível médio, conforme o Art. 62 da LDB/96 [...]” (2000, p. 9). Na entrevista, a primeira pergunta pretendia verificar o conceito que os educadores possuíam sobre infância. Alguns foram vagos ao dizer que a brincadeira desenvolve a criança, não entrando em detalhes. Já alguns outros relacionaram especificamente com o desenvolvimento do pensamento lógico-matemático, com a motricidade e com a sociabilidade. Entretanto, quanto à execução de atividades pedagógicas, lúdicas com as 10462 crianças, diversas dificuldades foram relatadas. A grande maioria tratou esse período do desenvolvimento humano como algo “rico”, “feliz”, mas, também, como um momento primordial para o desenvolvimento e para a aprendizagem das crianças, definindo-se, portanto, uma concepção moderna de infância conforme evidencia Kramer: O sentimento moderno de infância corresponde a duas atitudes contraditórias que caracterizam o comportamento dos adultos até os dias de hoje: uma considera a criança ingênua, inocente e graciosa e é traduzida pela “paparicação” dos adultos; e outra surge simultaneamente à primeira, mas se contrapõe a ela, tomando a criança como um ser imperfeito e incompleto, que necessita da “moralização” e da educação feita pelo adulto. (KRAMER, 1992, p.18) Em relação ao conceito de Educação Infantil, os educadores percebem o CMEI como um espaço privilegiado de desenvolvimento, como se pode inferir em algumas falas, dentre elas a (E18)1: “Bom... Educação Infantil é quando a criança vai para a instituição que além de receber cuidados é o momento onde ela participa de atividades para seu desenvolvimento... se desenvolve com as crianças e com os adultos” e (E17): “uma ferramenta que dispomos caminhos para o conhecimento”. É também perceptível que, para alguns educadores, a Educação Infantil é uma etapa da educação formal, tendo como função ensinar conteúdos sistematizados, cuidar e atuar como agente de socialização. Conforme afirmam os entrevistados nas respostas (E20): “É a etapa mais importante para a criança... formação de caráter [...]” e (E19): “É onde a criança começa a criar personalidade, virar gente [...]”. Em todas as entrevistas, a importância do CMEI no desenvolvimento infantil foi afirmada, tanto em relação à autonomia – aqui, definida como a capacidade das crianças em realizar atividades de vida diária de maneira independente do adulto, como: ir ao banheiro, alimentar-se - quanto à preparação das crianças para a sociedade, levando-os a relacionar a prática pedagógica à questão cultural, social e econômica das famílias e outros problemas da comunidade atendida pelo CMEI. Infere-se desta análise que o desenvolvimento dos indivíduos é visto pelos educadores e professores como acessória de sua condição socioeconômica, tendo o espaço escolar, como um ambiente privilegiado às relações negligenciadas em grande parte pela sociedade externa. Isso pode ser identificado em várias respostas ao questionamento sobre as contribuições do CMEI na promoção do 1 Optou-se por uso de siglas para preservar a identidade dos entrevistados. 10463 desenvolvimento, dentre elas (E6): “Tem um papel fundamental para o desenvolvimento. Convívio com outras crianças, trocas, conversam, pois não tem em casa muitas vezes. Troca de experiências, debates, questões de convívio na sociedade, certo e errado que não tem em casa” e (E2): “... as crianças entram sem nada, o CMEI ajuda no desenvolvimento, respeito, crescimento”. Um dos profissionais entrevistados demonstrou conhecimentos acerca da teoria elaborada por Vygotsky (1991), como a zona de desenvolvimento proximal, demonstrando a compreensão de desenvolvimento infantil como a capacidade da criança dar conta de praticar coisas básicas de seu dia-a-dia, dependendo do que já consegue fazer e do que consegue fazer com a ajuda de algum adulto. Com relação à afetividade no sentido de carinho, o fator da idade foi ressaltado em algumas entrevistas, relacionando os bebês com uma maior necessidade de afeto, e, também, a necessidade de afeto é justificada pela realidade social em que as crianças dali estão inseridas, como, por exemplo, quando questionados sobre a importância da afetividade no trabalho com as crianças. (E5): “É o mais essencial, a idade deles necessita [...] Ainda mais na comunidade carente” e (E2) e “Muito importante, ainda mais que essas crianças são muito carentes”. Embora em suas falas destaquem a importância da afetividade, durante as observações feitas em algumas turmas, percebeu-se certo distanciamento afetivo entre os educadores e as crianças. A compreensão do aluno como sujeito integral, ou seja, social, histórico, psicológico e biológico, assim como o entendimento de corpo e a mente como indissociáveis conferem subsídios para que o educador promova práticas pedagógicas norteadas à promoção do desenvolvimento o mais pleno possível do potencial biológico da criança, planejando momentos lúdicos com objetivos claros e específicos. Sob o ponto de vista biológico, é fundamental ressaltar que o entendimento do processo de aprendizagem não pode prescindir do estudo do sistema nervoso, uma vez que “o cérebro é o órgão privilegiado da aprendizagem. Conhecer sua estrutura e funcionamento é fundamental na compreensão das relações dinâmicas e complexas da aprendizagem.” (TABAQUIM, 2008, p. 93). Além disso, conforme postula Vigotski: “O cérebro não é apenas o órgão que conserva e reproduz nossa experiência anterior, mas também o que combina e reelabora, de forma criadora, elementos da experiência anterior, erigindo novas situações e novo comportamento.” (VIGOTSKI, 2009, p.14). 10464 Quando se compreende a dimensão do sistema nervoso considerando a “existência de 100 bilhões de neurônios, cada um deles podendo receber ate 10.000 sinapses” (ANTUNHA et al., 2006, p. 53) e que esta faixa etária da Educação Infantil é um momento privilegiado de formação de redes neurais e de grande plasticidade neuronal (FACCHINI, 2001) é preciso pensar em práticas que constituam estímulos para a formação de conexões sinápticas na criança desenvolvendo o sistema nervoso, pois “o cérebro se forma na relação da criança com o ambiente, e isso ocorre principalmente até os 10 anos de idade e de maneira mais acentuada até os 3 anos de idade.” (FORMIGAet al., 2002, p. 115). Nesse sentido, a brincadeira se constitui no instrumento de interação da criança com o mundo e, portanto, de promotora de seu desenvolvimento, pois como afirma Antunha: Desenvolvimento neuronal e comportamento lúdico mantêm fortes correlações, importantes a serem consideradas, desde a primeira infância. Todo nosso comportamento, desde as mais simples às mais complexas funções, depende do sistema nervoso, e a palavra sistema é fundamental para a compreensão dos mecanismos pelos quais sensação, percepção, memória, movimento e ação, linguagem, pensamento, emoção resultam da fina, adequada e harmônica integração de toda a rede neuronal. (ANTUNHA, 2006, p. 53). A resolução da excitação ou da inibição das sinapses2 é o grande desafio do professor. Pela brincadeira “é possível ‘visualizar’ de que maneira estão se organizando suas sinapses, uma vez que elas estão refletidas na harmonia e na melodia cinética, no ritmo e na criatividade do desempenho” (ANTUNHA, 2006, p. 57). Na brincadeira, na literatura, na relação professor-aluno e aluno-aluno muitas relações de aprendizado se estabelecem para além do previsto. É relevante considerar estes aspectos da neurociência, pois o professor ao entender que à medida que estas conexões se formam e se fortalecem o aluno terá mais oportunidade de transferir estas conexões para planos mais complexos da atividade acadêmica (ANTUNHA, 2006), além de que trabalhar de forma lúdica traz mais motivação, prazer, atenção e lembranças daquela atividade. “A modalidade lúdica simbólica expressa já um grande progresso na construção de estratégias mentais.” (OLIVEIRA, 2005, p. 140). No que se refere especificamente ao brincar, em sua grande maioria, os educadores reconhecem tal prática como meio facilitador para o aprendizado e desenvolvimento das crianças. Contudo, a dificuldade está em reconhecer de forma reflexiva seus aspectos, o que 2 “Sinapse ou ponto de junção entre dois neurônios.” (ANTUNHA, 2006, p. 53 – grifo meu). 10465 acaba interferindo em suas ações, muitas vezes, sem intencionalidades. Pois, como aponta Debortoli: As ações dos professores acabam recaindo em uma ideia de aprendizagens naturais- espontâneas. Como emergem tensões inevitavelmente, o lugar de professora acaba preenchido pelo que historicamente se veem obrigadas a fazer: conter e controlar corporalmente como sinônimo de organização, autoridade e competência pedagógica. (DEBORTOLI, 2009, p. 66) A brincadeira é importante na educação infantil, na medida em que, além de desenvolver a criança, não permite que haja uma precoce escolarização que impeça o lúdico de tomar espaço (IZA, MELLO, 2009, p. 285). Apesar dos entrevistados terem relatado a importância da brincadeira na Educação Infantil e a política dos CMEIS de não iniciar a alfabetização nessa etapa, vê-se uma contradição entre a preocupação de não inserir atividades demasiado formais a crianças dessa faixa etária e com a agitação corporal que essas crianças desempenham durante as atividades propostas. Para que o lúdico não esteja em detrimento em relação ao aprendizado geral, principalmente na Educação Infantil, é necessário compreender que: [...] a criança apreende o mundo por meio das mediações dos adultos, dos objetos e das outras crianças e, nesse processo, os movimentos que executa nas atividades são fundamentais para o seu desenvolvimento. Assim, é necessário que a professora [...] possibilite interações com outras crianças e esteja atenta aos movimentos, pois a criança adquire inúmeros conhecimentos explorando não apenas o próprio corpo, mas também o ambiente e os objetos que a cercam. (IZA, MELLO, 2009, p. 287) Foi curioso perceber, entretanto, que dois entrevistados referiram-se à dificuldade em deixar as crianças paradas como um obstáculo para programar atividades pedagógicas. A concepção que valoriza o movimento da criança é igualmente defendida por Vigotski. Nessa perspectiva, a atividade para este autor precede o conhecimento, ao passo que é através da interação com o meio que a criança poderá construir o aprendizado de que ela é protagonista. 10466 Já na primeira infância, identificamos nas crianças processos de criação que se expressam melhor em suas brincadeiras. [...] Todos conhecem o enorme papel da imitação nas brincadeiras das crianças. As brincadeiras infantis, frequentemente, são apenas um eco do que a criança viu e ouviu dos adultos. No entanto, esses elementos da experiência anterior nunca se reproduzem, na brincadeira, exatamente como ocorreram na realidade. A brincadeira da criança não é uma simples recordação do que vivenciou, mas uma reelaboração criativa de impressões vivenciadas. (VIGOTSKI, 2009, p. 17 ). Em uma das observações notou-se o interesse de algumas crianças por manipular objetos como copos de plástico e garrafas com tampas para “rosquear” em detrimento de brinquedos diversos como bolas, bonecos, peças de lego. Tentavam preencher estes objetos, descobrir a profundidade etc. Uma das educadoras comentou que traria mais destes objetos devido ao “estranho” interesse das crianças por eles. Vigotski afirma que: No brinquedo, no entanto, os objetos perdem sua força determinadora. A criança vê um objeto, mas age de maneira diferente em relação àquilo que vê. Assim é alcançada uma condição em que a criança começa a agir independentemente daquilo que vê (VYGOTSKY, 1991, p.110). A maturação das necessidades é um tópico predominante nessa discussão, pois é impossível ignorar que a criança satisfaz certas necessidades no brinquedo. Se não entendemos o caráter especial dessas necessidades, não podemos entender a singularidade do brinquedo como uma forma de atividade (Idem, p. 106). Nas entrevistas coletadas, poucos foram os profissionais que afirmaram conhecer o termo “funções mentais superiores”; quando o conheciam, dele não se recordavam. Um dos entrevistados disse estar associado às várias áreas do conhecimento, a entrevistada (E9) citou algo lido a respeito de um psiquiatra “... que falava sobre usar o lado esquerdo do cérebro para desenhar” e a entrevista (E1) compreende que “são conhecimentos técnicos. Exemplo, criança não se concentra. Não sei o que é, mas sei que tem algum problema”. Observou-se que apesar de ser visível a primazia de brincadeiras e jogos em relação a outras práticas educativas no espaço da Educação Infantil - momentos de cantigas de roda, em que as músicas combinavam o ritmo com movimentos corporais, tais como bater as mãos no joelho, mexer os dedos, abrir e fechar as mãos, esconder o rosto, balançar o corpo - a grande maioria dos educadores não associava as brincadeiras ao processo de ensino e aprendizagem, nem tampouco ao desenvolvimento das funções mentais superiores, reafirmando o ranço histórico da formação docente, na qual a prática estabelecida não é permeada pela fundamentação teórica. 10467 Muitos jogos infantis, conhecidos há gerações, podem ser instrumentos de auxílio ao desenvolvimento das funções mentais superiores. Os jogos sazonais são aqueles que são determinados pela época do ano, clima e outras condições físicas. Quando o dia era chuvoso, as crianças brincavam dentro de casa. Quando a terra estava seca, determinados jogos ao ar livre tomavam espaço no dia-a-dia das crianças. Além de propiciarem maior familiaridade das crianças à sua cultura, ao folclore de sua região, o prazer que estes jogos dão as crianças é visível. Segundo Antunha, contudo, sua finalidade deve ir além, pois os jogos sazonais contribuem para o desenvolvimento integral do sistema nervoso em seus aspectos psicomotores e também cognitivos: Essas atividades do jardim de infância ou da pré-escola devem ser interpretadas como “reptilianas”, fortalecedoras e propiciadorasda “prontidão”, do estar alerta, vigil e integrado neurossensorialmente e do ponto de vista neuropsicomotor para as “funções corticais superiores” e para toda gama de atividades simbólicas que será exigida em sua futura vida acadêmica, na leitura, na escrita, no cálculo. (ANTUNHA, 2006, p.65) Para o educador é fundamental a compreensão desse processo e dos estudos desenvolvidos nessa área, pois isto enriquecerá sua prática educativa e proporcionará um melhor aproveitamento do tempo escolar da criança “[...] a utilização de artefatos deve ser reconhecida como transformadora do funcionamento da mente, e não apenas como um meio de facilitar processos mentais já existentes” (FINO, 2001, p. 3). Em muitos [destes jogos] estão presentes a indução, a imitação, perspicácia, observação, memória, raciocínio. Aspectos verbais e não verbais, melódicos e harmônicos, automatismos, relaxamento, tempo e espaço [...]. O jogo de pião [...] exige e desenvolve uma fina coordenação motora ao enrolar o cordão ou ao atirar o pião ao solo. Pular corda, por sua vez, que vem sempre acompanhada de canções e ritmo, favorece o desbloqueio corporal e lingüístico. (ANTUNHA, 2005, p. 39). Posto em análise há uma demanda por parte dos educadores dos CMEIs observados – expressa nas entrevistas (E17): “[...] gostaria muito que houvesse uma dedicação maior pra educação infantil porque é pobre o material que nos é passado... eles costumam transmitir o que é utilizado nas escolas e no CMEI tem que ser diferente [...]” e (E18): “[...] [os] cursos das PMC [Prefeitura Municipal de Curitiba[ [...] geralmente [são] mais para o ensino fundamental [...]” – de referencial teórico que subsidie a prática educativa na educação 10468 infantil, inclusive em seus aspectos lúdicos. Os jogos sazonais estão presentes no cotidiano dos CMEIs, entretanto o desconhecimento dos efeitos que essas atividades têm sobre o desenvolvimento das diversas áreas do cérebro infantil acaba pormenorizando-os: Com o conhecimento adequado destes conceitos, poder-se-ia priorizar - através de um planejamento com maior sentido para os próprios educadores – o desenvolvimento integral da criança. Nas perguntas sobre planejamento todas as respostas nas entrevistas foram afirmativas quanto à existência desse instrumento, mas, pelo observado na prática o planejamento não é tão completo: não abrange todas as áreas a serem desenvolvidas no que tange às funções mentais superiores, e deixa lacunas que devem ser preenchidas de maneira inesperada no dia- a-dia. A faixa etária que é atendida pelos CMEIs demanda uma organização que atenda a uma rotina, não apenas com relação aos horários para chegar, comer e dormir, mas às atividades que são realizadas em sala. Contudo, percebeu-se as crianças em sala livres para pegar livros, brinquedos, brincar em grupos ou não, sem haver necessariamente um momento específico destinado a tais atividades. Evidenciou-se que isso leva as crianças a sentirem-se entediadas, fato que acaba colaborando para a ocorrência de acidentes ou as brigas entre elas. Quando o planejamento é pensado antes da ação, o profissional pode prever a ocorrência de tédio por parte dos alunos e direcioná-los à realização de outras atividades. Planejar todas as ações - sejam brincadeiras, contação de histórias, música ou qualquer outra atividade - é fundamental para dar um direcionamento específico á aprendizagem das crianças. No entanto, não se tornou hábito planejar abarcando todo o tempo de permanência diário da criança no CMEI, mas sim apenas as atividades que terão registro. Sem esse direcionamento não há como traçar objetivos e buscar atingi-los, correndo-se o risco de educar de forma espontânea: a criança se desenvolve, mas o estímulo não é pensado nem direcionado. A educação, desta forma, fica à mercê das circunstâncias. É preciso pensar a ação educativa antes de realizá-la, pois planejar, em sentido amplo, é um processo que: [...] visa a dar respostas a um problema, estabelecendo fins e meios que apontem para sua superação, de modo a atingir objetivos antes previstos, pensando e prevendo necessariamente o futuro", mas considerando as condições do presente, as experiências do passado, os aspectos contextuais e os pressupostos filosófico, cultural, econômico e político de quem planeja e com quem se planeja. (BAFFI apud PADILHA, p. 63, 2002). 10469 Sem planejamento, corre-se o risco de repetir determinadas práticas exaustivamente – especialmente aquelas que são mais fáceis de serem aplicadas pelo educador ou aquelas de que as crianças gostam mais – privilegiando uma área de conhecimento em detrimento de outras. Planejar as atividades de forma a abranger inclusive a aplicação dos conceitos da neurociência que, atrelados a momentos lúdicos do cotidiano dos CMEIs, podem ser capazes de propiciar desenvolvimento às mais diversas áreas cerebrais com o conhecimento prévio de seus efeitos possíveis. Desta forma, prioriza-se objetivos tangíveis na Educação Infantil, buscando seu contínuo aperfeiçoamento em prol da qualidade de ensino. Considerações Finais O trabalho desenvolvido nos CMEIs evidenciou lacunas na formação inicial e continuada dos educadores no que se refere à incorporação de conceitos das neurociências na prática pedagógica dos profissionais, mas não só em relação a isso; evidenciou-se também alguns equívocos em relação a algumas concepções como a visão romântica da infância, o viés assistencialista da educação infantil ou ainda a falta de clareza da dimensão cuidar/educar, o que representa, sem dúvida muitos desafios a serem superados. É evidente o movimento no sentido de viabilizar formação continuada aos educadores, contudo, nem sempre atinge a todos e, mais que isso, não há o compartilhamento e a reflexão sobre a prática desses educadores, condição essencial para construir a autonomia intelectual dos participantes e com isso conseguir as transformações desejadas na suas práticas pedagógicas. Em relação ao planejamento pode-se perceber que tal ação não significa pensar o tempo todo em ocupar as crianças ou em produzir registros, mas sim em estimulá-las com auxílio dos materiais em sala, de forma lúdica e com atividades pertinentes à idade do grupo, promovendo o desenvolvimento social, psicológico, motor, afetivo e cognitivo através de diferentes pequenas intervenções durante o horário que permanecem no CMEI. Assim, mais do que nunca, se evidencia o papel da Universidade em relação à comunidade, contribuindo para o diálogo entre teoria e prática de maneira que essa troca de saberes leve à reflexão de todos os envolvidos e chegando até as crianças de forma a promover o seu pleno desenvolvimento. 10470 Nesse sentido, o resultado desse estudo culminou com a realização de oficinas nos CMEIs e elaboração de um material de apoio para fazer parte do acervo de cada um das unidades como primeiro passo dessa trajetória. REFERÊNCIAS ANDRÉ, Marli E. D. A. Etnografia da prática escolar. Campinas, SP, Papirus, 1995. ANTUNHA, Elsa L. G. Brincadeiras infantis, funções cerebrais e alfabetização. In: BOMTEMPO, E.; ANTUNHA, E. L.; OLIVEIRA, V. B. (Orgs). Brincando na escola, no hospital... Rio de Janeiro, RJ, Wak Editora, 1ª ed, 2006. p. 51-73. ANTUNHA, Elsa L. G. ‘‘Jogos sazonais”- coadjuvantes do amadurecimento das funções cerebrais. In: OLIVEIRA, V. B. (Org.). 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