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História da Educação, Idade Antiga História da Educação - Idade Antiga Complexo Educacional Campos Salles História da Educação, Idade Antiga INTRODUÇÃO .................................................................................................................................................................. 3 1. A EDUCAÇÃO GRÉCIA CLÁSSICA. ................................................................................................................... 4 1. 1 Sócrates e os sofistas ...................................................................................................................................... 6 1. 2 Platão ................................................................................................................................................................... 9 2. A EDUCAÇÃO NA ROMA ANTIGA. ...................................................................................................................11 2. 1 Cícero ...................................................................................................................................................................13 REFERÊNCIA ..................................................................................................................................................................15 História da Educação - Idade Antiga 3Complexo Educacional Campos Salles INTRODUÇÃO A história e suas contradições são quase que determinantes nas ideias e concepções de mundo e de homem nos diferentes tempos e contextos. Isso não é somente na filosofia, na educação, na matemática, na ciência..., mas em todo fazer e pensar humano. Certamente já percebeu aqui que estamos partindo de uma concepção dialética, histórico-social de homem. Assim, neste curso faremos uma recapitulação da divisão da história aceita pela academia, e com o passar de cada tópico, será possível verificar que na história está imbricado o desenvolvimento do pensamento pedagógico. Todavia, antes se faz necessário a compreensão da seguinte questão: porque e para que conhecer a história da educação quando não lecionarei sobre isso? Para que num curso de pós-graduação devo estudar sobre a história das ideias pedagógicas? Ora, o curso de pós-graduação forma professores e, mais do que decorar os acontecimentos histó- ricos e movimentos filosóficos, é fundamental que o professor saiba o como a escola, a educação e os processos de aprendizagem chegaram ao ponto em que estamos e quais os processos e ideais que atravessaram séculos que se transformaram ou que permaneceram. Além disso, o educador deve perceber sua ação como produto de um contexto histórico, social e cultural, mas também como produtora destas mesmas condições. Qual é o papel da escola? Qual o papel do educador? Quais as maneiras de melhor ensinar? Como ter sucesso na relação ensino-aprendizagem? Teriam estas questões uma resposta única e verdadeira? Ou seja, existe uma só resposta para cada uma destas questões (dentre outras diversas questões da educação)? Certamente o papel da es- cola no Brasil colônia não era o mesmo que atualmente, muito menos os discursos pela escola, quando a catequese dos índios para doutrina-los era a educação popular da época e hoje falamos em escola para todos e para construção da liberdade e cidadania. Da mesma forma, o professor jesuíta e seus métodos são bem diferentes dos docentes dos anos 2000. Portanto, é esta dimensão que a leitura e estudo da História da Educação procura dar aos estudan- tes do curso de pós-graduação. Falando, então, de História, para melhor compreensão desta disciplina segue uma pequena linha do tempo com os principais períodos da história. Lembrando que: a História (a história como um todo) está dividida em: História Antiga, 600 a.C. até 476 d.C.; História Medieval, 476 d.C. ao séc. XV; História Moderna, séc. XV ao séc. XIX; e História Contemporânea, séc. XIX até os dias de hoje. Vale ressaltar que as datas de início e término de cada período são aproximadas, já que não são unanimemente aceitas, mas existem diferentes teorias. Sempre que precisar, retome o quadro a seguir para lembrar o contexto dos autores e correntes que serão trabalhados. Vamos lá! História da Educação - Idade Antiga 4 Complexo Educacional Campos Salles 1. A EDUCAÇÃO GRÉCIA CLÁSSICA. Sob inspiração de Durkheim (1980), podemos entender a educação como a ação realizada pelos adultos sobre e com as crianças, com o objetivo de integrá-las à sua comunidade e lhes transmitir a sua cultura: conjunto de saberes necessários à existência dessa comunidade (GAUTHIER; TARDIF, 2010). A educação tem a idade da humanidade, tão velha quanto esta e tão jovem quanto cada humano que nasce e deve ser educado. É o processo que chamamos de hominização, acrescentando à natu- reza do ser humano, a cultura que o humaniza. A origem da educação é contemporânea do apare- cimento da vida em grupo, da linguagem, do trabalho, da arte, ou seja, do nascimento do ser social. Dessa forma, a educação não tem uma origem precisa: não foi inventada por ninguém, nenhum povo, nenhuma cultura particular, mas é inerente à experiência humana (GAUTHIER; TARDIF, 2010). Assim, poderíamos começar a falar da história da educação com as doutrinas presentes no taoísmo, no confucionismo, ou ainda com a educação egípcia ou a hebraica; como seria possível viajar bem antes destas culturas na história da humanidade. Porém, por uma necessidade de escolha de ponto de partida para dar conta da disciplina, começaremos pela Grécia Antiga. Foi por volta de 1200 e 800 a.C. que a sociedade grega entrou em crise e desmoronou diante de seus invasores. Essa sociedade arcaica era do tipo feudal governada por um rei (com dimensão religio- sa), formada por guerreiros (aristocracia) e camponeses que pagavam tributos aos nobres, como a maioria das sociedades fechadas da época. Tal sociedade desaparece por volta do século XII a. C. diante do assalto de povos guerreiros, e os gregos foram confrontados, pela primeira vez na história da humanidade até então, “com um tipo de funcionamento social que não repousava mais sobre a realeza, a religião e a tradição. Assim, eles deviam instalar novos mecanismos de poder” (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p.38). E é entre os séculos VII e IV a. C. que temos então o primeiro modelo de democracia, na qual os homens decidiam seu destino por meio da “livre discussão”. O poder se torna um exercício de ne- gociações abertas e a palavra, discussão e diálogo representam seus instrumentos na ágora (praça pública). Lembrando que tal democracia era reservada para a elite considerada cidadãos, cerca de um quinto da população em Atenas, por exemplo, pois, cerca de metade da população era de escravos (os gregos consideravam os outros povos inferiores e estes os substituíam no trabalho), outra parte era de estrangeiros, e subtrai-se do restante também as mulheres e crianças. Ou seja, somente gregos, filhos de gregos, homens e proprietários de terras (que em sua maioria não traba- lhavam e desprezavam o trabalho) eram considerados cidadãos livres. O aparecimento de uma sociedade aberta na Grécia foi condicionado por diversos fatores que foram modelando em profundidade a consciência do homem grego, dentre eles: a) o desenvolvimento do comércio, que proporcionou não só trocas de bens com outras civilizações do Mediterrâneo, mas intercâmbio de ideias e valores; b) expansão da civilização grega e conflitos e relações com outras grandes civilizações, como a persa; c) a exaltação das virtudes guerreiras e aristocráticas com uma concepção de vida que enfatiza a coragem, a competição e a emulação; o olimpismo: “forma de História da Educação - Idade Antiga 5Complexo Educacional Campos Salles debate oratório em praça pública, entre homens que se esforçam em impor os seus pontos de vista à multidão” (GAUTHIER; TARDIF,2010, p.39). d) o desenvolvimento (entre os séculos VIII e V a.C. de uma oposição entrephysis e nomos (natureza e cultura), discussões acerca de leis naturais versus convencionais, portanto, arbitrárias. Enquanto as situações de mudanças vividas para os demais povos antigos eram tidas como obras do destino ou dos deuses, os gregos haviam começado, 2500 anos antes, a compreender o que lhes acontecia sob a forma de um discurso racional (logos)! Assim, a valorização do pensamento racional, da palavra e do ser humano é que fundamenta as numerosas descobertas e transformações da sociedade antiga grega. As mudanças políticas e econômicas e as experiências do pluralismo e relativismo das relações com outros povos transitam também para um novo modelo de cultura: o racionalismo e o huma- nismo. Se o racionalismo “postula que o mundo é ordenado segundo regras que o ser humano pode apreender pela sua razão” (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p.42), o humanismo, por sua vez, “considera o ser humano como ‘ser aberto’, um ser cuja natureza não é definida antecipadamente e de uma vez por todas, um ser capaz de modificar-se, transformar-se, melhorar-se” (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p.42). Dessa forma, todo ser humano tem o direito de contestar as ideias de outro independente- mente da condição de força, riqueza ou poder social. Enfim, esse modelo de cultura também é um modelo de formação e de educação que se cristaliza principalmente no ensino da filosofia e nas escolas filosóficas da Antiguidade. São os filósofos que fundam as primeiras escolas de ensino em Atenas, escolas nas quais estudam pequenos grupos de discípulos. Essas escolas não se dirigem às crianças, mas aos adolescentes e adultos. (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p.43). Porém, não podemos esquecer as diferenças entre as duas principais cidades-Estado gregas: Espar- ta e Atenas. Enquanto a oratória e a educação para a razão e virtude eram cultivadas em Atenas, Esparta, como uma “cidade de guerreiros”, cultuavam a força, o corpo e os sentidos. Assim, a Grécia atingiu o ideal avançado da educação na Antiguidade: a paideia. [...] uma educação integral, que consistia na integração entre a cultura da sociedade e a criação individual de outra cultura numa influência recíproca. Os gregos criaram uma pedagogia da eficiência individual e, concomitantemente, da liberdade e da convivência social e política. Os gregos realizaram a síntese entre a educação e a cultura: deram enorme valor à arte, à literatura, às ciências e à filosofia. A educação do homem integral consistia na formação do corpo pela ginástica, na da mente pela filosofia e pelas ciências, e na da moral e dos sentimentos pela música e pelas artes. Nos poemas de Homero, a ‘bíblia do mundo heleno’, tudo se estudava: literatura, história, geografia, ciências, etc. Uma educação tão rica não podia escapar às divergências. Entre os espartanos predominava a ginástica e a educação moral, esta submetida ao poder do Estado; já os atenienses, embora dessem enorme valor ao esporte, insistiam mais na preparação teórica para o exercício da política (GADOTTI, 2011, 30). Os gregos conhecem concomitantemente a educação tradicional e uma educação nova. O método baseado na memorização e repetição, devido à tradição oral dos “primeiros educadores” (poetas História da Educação - Idade Antiga 6 Complexo Educacional Campos Salles cuja função era conservar a memória coletiva), fora questionado com tal crise da cultura e desen- volvimento da escrita, das ciências e da filosofia, bem como da democracia, porém esta só atingira aos adolescentes e adultos. Quanto às crianças, eram tratadas como adultos, não existindo um método específico para sua aprendizagem e quando não atingiam as expectativas do mestre, eram punidas com castigos físicos. Neste contexto, o pedagogo era um escravo cujo trabalho consistia em acompanhar a criança até o local de aprendizagem. Assim, a escola e aprendizado estavam divididos da seguinte forma: A escola primária destinava-se a ensinar os rudimentos: leitura do alfabeto, escrita e cômputo. Os estudos secundários compreendiam a educação física, a artística, os estudos literários e científicos. A educação física compreendia principalmente a corrida a pé, o salto em distância, o lançamento do disco e do dardo, a luta, o boxe, o pancrácio e a ginástica. A educação artística incluía o desenho, o domínio instrumental da lira, o canto e o coral, a música e a dança. Os estudos literários compreendiam o estudo das obras clássicas, principalmente de Homero, a filologia (leitura, recitação e interpretação do texto), a gramática e os exercícios práticos de redação. Os estudos científicos apresentavam a matemática, a geometria, a aritmética, a astronomia. No ensino superior prevalecia o estudo da retórica e da filosofia. A retórica estudava as leis do bem falar, baseadas numa tríplice operação: a) procurar o que se vai dizer ou escrever; b) pôr em certa ordem as ideias assim encontradas; c) procurar os termos mais apropriados para exprimir essas ideias. [...] O ideal da cultura aristocrática grega não incluía a formação para o trabalho: o espírito devia permanecer livre para criar (GADOTTI, 2011, p.31,32). Vale lembrar que todo este aparato educacional estava direcionado aos cidadãos livres: “A educa- ção ensinava uns poucos a governar” (GADOTTI, 2011, p.30). Essas foram algumas considerações para contextualizar nosso ponto de partida da história da edu- cação e do pensamento pedagógico. Para aprofundar seus conhecimentos acerca da formação do homem grego, indico uma leitura bastante densa, mas interessante aos educadores: JAEGER, Werner. Paidéia: A Formação do Homem Grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 1. 1 Sócrates e os sofistas Entre a educação tradicional e a chamada “nova” na Grécia Antiga, a crise cultural, educativa e po- lítica grega pode ser ilustrada na relação e contradição da figura do “pai da filosofia” – Sócrates - e os sofistas. Esta aula trará algumas ideias destes personagens da história ocidental. Os sofistas eram homens eruditos, cultos, promotores da cultura geral e arte do discurso, do saber falar e convencer, da retórica. Os mais conhecidos foram Protágoras, Górgias, Hípias, Pródico e An- tifonte, a maioria deles tinha em comum o fato de serem estrangeiros viajantes que ofereciam seus serviços aos alunos, que deveriam deixar suas famílias e pagar para fazer os cursos. Assim, são considerados por muitos autores como os primeiros professores, tendo em vista que com eles, os alunos se tornam “clientes”, e a educação deixa de ser um empreendimento familiar ou uma ativi- História da Educação - Idade Antiga 7Complexo Educacional Campos Salles dade regida pelo ambiente social cotidiano e passa a ser consciente de si mesma, organizada, com um objetivo e individual (GAUTHIER; TARDIF, 2010). Preparando seus alunos para a democracia instaurada na Grécia, buscam desenvolver a principal competência de um cidadão de fato: “ser capaz de expressar-se publicamente, com coerência, de modo a convencer os outros do valor das suas opiniões” (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p. 51). Assim, não estavam preocupados com a busca de uma “verdade” ou conhecimento mais específico ou pro- fundo, mas uma cultura geral: como pensar, como viver, como falar. Para eles, a verdade não era lógica ou matemática, mas poética, ela está no dizer bem a “verdade”[1]. “Concebem a linguagem não como um meio de conhecimento, mas como um meio de controle e de ação sobre outrem, uma ferramenta de persuasão” (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p. 50) Dessa forma, podemos perceber que a concepção de educação e ensinamentos sofísticos são pro- fundamente determinados pela política. Neste aspecto, os sofistas criticavam os costumes e as leis que consideravam não fundadas sobre a natureza, bem como a escravidão e as tradições aristo- cráticas. Em contrapartida, defendiama democracia, o progresso e a mobilidade social (GAUTHIER; TARDIF, 2010). Opondo-se ao relativismo sofista, para os quais a verdade e a virtude dependem diretamente das cir- cunstâncias, Sócrates buscava justamente a verdade e as virtudes (individuais ou sociais). Para ele, só age erradamente quem ignora (no sentido de desconhecer) a verdade, esta por si só, garante o bem. Sócrates (469-399 a. C.), nascido em Atenas, é considerado o pai da filosofia. Isso porque, enquanto os primeiros filósofos (os pré-socráticos) buscavam a origem do universo e da vida, ele foi quem direcionou a filosofia para o homem: “Conhece-te a ti mesmo”, pois só se voltando para seu interior o homem chega à sabedoria e se realiza como pessoa. Dando um novo rumo à filosofia. A preocu- pação de Sócrates era levar as pessoas, por meio do autoconhecimento, à sabedoria e, segundo ele, portanto necessariamente à prática do bem. Opõe-se assim à erudição dos sofistas, que se achavam grandes sábios, pois a busca pela verdade (não circunstancial) e o desenvolvimento moral do ser humano teriam para Sócrates mais valor do que a erudição e oratória. Neste sentido é considerado o homem mais sábio de sua época pelo oráculo de Delfos[2], justamente quando afirmava que “Só sei que nada sei”, ou seja, quanto mais descobrimos e conhecemos, mais percebemos o quão grande é nossa ignorância perante dezenas de novas possibilidades de conhecimento. Para Sócrates, a filosofia não ensina a verdade, mas ajuda o indivíduo a descobri- la sozinho. Não oferece soluções, mas um método para raciocinar a partir de si mesmo. A verdade é uma conquista pessoal e a educação é sempre autoeducação, um processo de amadurecimento interior que pode ser estimulado, mas não provocado, a partir do exterior (NICOLA, 2005, p.54). Dessa forma, para se chegar à verdade, tal educação só tem valor se for por intermédio do diálo- go. O saber não é despejado do mestre para o aluno, mas é um processo de formação interior, no História da Educação - Idade Antiga 8 Complexo Educacional Campos Salles qual, por meio dos questionamentos e discussão com o mestre, o aprendiz é chamado a assumir e legitimar o seu próprio pensamento, suas convicções e suas orientações de vida, com ajuda da sua razão (GAUTHIER; TARDIF, 2010). Sócrates chamou este processo de “autoeducação” de maiêutica. Em suposta homenagem a sua mãe, que era parteira, o método de investigação do filósofo significa literalmente “a arte da parteira ou a arte da obstetrícia”. A maiêutica consistia então em jamais fornecer soluções, limitando-se a levantar perguntas para que o interlocutor (aluno), oportunamente estimulado, descobrisse (ou parisse) a verdade dentro de si (NICOLA, 2005, p.53). Foi acusado de blasfemar contra os deuses da época e de corromper a juventude. Condenado à morte por cicuta, e mesmo tendo a possibilidade de fugir da prisão, permaneceu fiel a si e suas ideias. Tudo o que se sabe sobre Sócrates não foi ele quem escreveu, mas seus discípulos, dentre eles, Platão. Em “Apologia de Sócrates”, podemos ler sobre parte da trajetória e julgamento de Sócrates. Figura 1 – A morte de Sócrates (Jacques-Louis David,óleo sobre tela -1787). Fonte: https://www.metmuseum.org/collection/the-collection-online/search/436105, Domínio público, https://commons. wikimedia.org/w/index.php?curid=28552 Para ler alguns trechos de diálogos de Sócrates (e seu método: maiêutica) escritos por Platão, cli- que no link abaixo: Texto: Teeteto. [1] Devido a concepção de verdade sofistica de que o dizer e a oratória determinam a verdade, mui- tas vezes atualmente quando escutamos alguém falar muito bem, de forma bastante convincente, mas com conteúdos questionáveis, o chamamos de “sofista”. História da Educação - Idade Antiga 9Complexo Educacional Campos Salles [2] Oráculo de Delfos: Durante mais de 15 séculos, do nascimento ao fim da cultura grega antiga, o Oráculo de Delfos, ou templo de Apolo, serviu como local onde os peregrinos vindos das mais diversas latitudes do mundo helênico consultavam as pitonisas, as sacerdotisas oraculares, para saber qual o seu destino, da sua família ou da sua pátria. Delfos tornou-se um dos lugares sagrados mais venera- dos pelos gregos, sendo que suas previsões e predições tiveram enorme repercussão nos destinos de reis, de tiranos e de muita outra gente famosa daqueles tempos. (http://educaterra.terra.com.br) 1. 2 Platão Platão (427-347 a. C.) foi um dos mais célebres discípulos de Sócrates e, ao ver a condenação de seu mestre à morte por questões políticas, questiona a mensagem socrática e seu método educacional. Diante de uma situação política dominada pela violência e contradições, Platão vê na educação um meio de superar a crise política. Assim, para entender sua concepção educacional, há que se conhecer primeiramente algumas ideias políticas e epistemológicas do filósofo Platão. No plano político, Platão é, antes, um reacionário se comparado aos sofistas. Acredita nas leis naturais. Defende, como bom aristocrata, que alguns homens são superiores a outros por natureza. As hierarquias sociais refletem, para ele, divisões naturais entre os homens. [...] Segundo ele, uma sociedade cujos membros são educados pode dispensar as leis; a multiplicação das leis, que acarreta um aumento da vigilância e da coerção, expressa o fracasso da educação (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p. 53). A política depende necessariamente da educação em que a cidade justa deve pregar a renúncia do indivíduo em favor da comunidade, e ser governada por sábios filósofos. Com uma concepção oposta à da democracia, Platão entendia a educação como um instrumento (meio) de testar as aptidões dos alunos para que apenas os mais inclinados ao conhecimento recebessem a formação completa para ser governante, pois cada classe deve ter aptidões diferentes para a harmonia da pólis. Assim, em sua maior obra, A República, Platão propõe a sua concepção de educação que está diretamente ligada à sua concepção política. Porém, antes de falarmos sobre educação, a concepção de conhecimento platônica é bem peculiar e vale a pena mencionar. Para ele, existiriam dois mundos: aDoxa (opinião, coisas imperfeitas) e o Eidos (mundo das ideias perfeitas). Assim, quando vemos uma flor esta é somente uma repre- sentação imperfeita da ideia de flor que existe no mundo das Ideias. Quando falamos em justiça ou bem, são exemplos de ações ou pessoas justas ou boas, mas o que é Justiça? E Bem? Tais ideias perfeitas e universais estariam no Eidos. Nossa alma em algum momento já esteve no mundo das ideias, porém, ao “encarnar” em nosso corpo esqueceu todas as ideias e passou a viver no mundo da doxa (opiniões). Ele afirma que “O corpo é o cárcere da alma”, como uma prisão que o impede de conhecer a verdade e ideias perfeitas. Dessa forma, o aprendizado seria algo já presente em cada um de nós, que conforme estímulo e contemplação vamos rememorando o que outrora a alma já conhecia. “Saber é contemplar com os olhos do espírito as coisas que os olhos humanos são inca- pazes de ver” (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p. 54). História da Educação - Idade Antiga 10 Complexo Educacional Campos Salles “Conhecer é ‘relembrar-se’. É a célebre teoria da reminiscência” (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p. 55). Por meio da ideia de reminiscência, não se transmite conhecimento aos alunos, mas os levamos a procurar respostas eles mesmos às suas inquietações. Deveria se deixar os alunos, sobretudo as crianças, à vontade para se desenvolver livremente, pois a busca pela verdade é mais importante do que verdades absolutas e dogmáticas. Platão foi o primeiro: • a descrever um processo educacional também para crianças; • a defender que toda educação era de responsabilidade estatal; • a defender a mesma instrução para meninos e meninas; • a defender o acesso universal ao ensino.Para ele, o ser humano é composto por três partes: o ventre (paixões e necessidades primárias); o coração (coragem) e a razão (a alma inteligível). Da mesma forma a sociedade ideal seria dividida em três classes: operários e camponeses (ventre), os guardiões (coração) e os reis filósofos (razão), cada grupo desenvolvendo suas aptidões e características necessárias para o bem da comunidade (GAUTHIER; TARDIF, 2010). Dessa forma, a finalidade da educação era: Favorecer o triunfo do pensamento racional sobre as paixões, sobre o corpo. O que Platão propõe é uma pedagogia fundada sobre um longo processo de aprendizagem, compreendendo uma sequência de rupturas e de passagens entre diferentes graus do conhecimento. Esse processo começa na infância e prossegue até a idade adulta (por volta dos 45 anos). Platão é o primeiro pensador ocidental a conceber assim um processo global de formação comportando limiares diferentes segundo os indivíduos. Sua educação se baseia em uma ideologia ‘meritocrática’. Todas as crianças, sem distinção (ricas ou pobres, meninos ou meninas), são submetidas à mesma formação. Só no decorrer do longo processo de formação é que as crianças, progressivamente, diferenciam-se graças a seus méritos naturais, alguns tornando-se camponeses, outros guardiões, e uma minoria filósofos (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p. 55). A educação seria um processo de libertação do mundo sensorial em busca da Verdade do mundo das Ideias. Tal processo educacional é apresentado metaforicamente no célebre texto “Alegoria da caverna” ou “Mito da caverna”[1], no livro VII da República. Nele supõe-se que desde o nascimento todos os seres humanos estariam presos em uma caverna, acorrentados de frente para o fundo vendo desde seu nascimento somente sombras projetadas, devido a uma fogueira na entrada da caverna. Um dos prisioneiros consegue sair, e com muito sofrimento com a luz e diferenças do am- biente externo à caverna, começa a ver as coisas reais e não mais sombras. Mas, ao voltar à caverna para avisar aos demais... é tido como louco por todos! Na Revista Nova Escola, Edição Especial “Grandes Pensadores” (Julho de 2008), é possível observar uma descrição resumida sobre o processo educacional ideal proposto por Platão em cada fase. Vale a pena ler: História da Educação - Idade Antiga 11Complexo Educacional Campos Salles A formação dos cidadãos começaria entes mesmo do nascimento, pelo planejamento eugênico da procriação. As crianças deveriam ser tiradas dos pais e enviadas para o campo, uma vez que Platão considerava corruptora a influência dos mais velhos. Até os 10 anos, a educação seria predominantemente física e constituída de brincadeiras e esporte. A ideia era criar uma reserva de saúde para toda a vida. Em seguida, começaria a etapa da educação musical (abrangendo música e poesia), para se aprender harmonia e ritmo, saberes que criariam uma propensão à justiça, e para dar forma sincopada e atrativa a conteúdos de Matemática, História e Ciência. Depois dos 16 anos, à música se somariam os exercícios físicos, com o objetivo de equilibrar força muscular e aprimoramento do espírito. Aos 20 anos, os jovens seriam submetidos a um teste para saber que carreira deveriam abraçar. Os aprovados receberiam, então, mais dez anos de instrução e treinamento para o corpo, a mente e o caráter. No teste que se seguiria, os reprovados se encaminhariam para a carreira militar e os aprovados para a filosofia – neste caso, os objetivos dos estudos seriam pensar com clareza e governar com sabedoria. Aos 35 anos, terminaria a preparação dos reis-filósofos. Mas ainda estavam previstos mais 15 de vida em sociedade, testando os conhecimentos entre os homens comuns e trabalhando para se sustentar. Somente os que fossem bem- sucedidos se tornariam governantes ou “guardiões do Estado” (p.12,13). Então, gostou das ideias de Platão sobre a educação? Na sala você encontrará o texto (em forma de diálogo) integral da “Alegoria da caverna” e logo após, uma versão com o personagem Piteco, de Maurício de Souza, muito interessante! Existiram outros filósofos gregos que falaram sobre educação, dentre eles o discípulo de Platão: Aristóteles, defensor da instrução para o desenvolvimento da virtude. Porém as aulas se limitarão a um ou dois pensadores por período histórico. Assim se acharem necessário indicações de leituras paralelas basta entrar em contato com a professora. [1] A tradução do texto do livro VII da República pode ser encontrada como “alegoria da caverna” ou “mito da caverna”. Porém, quando falamos em mito estamos nos referindo a ideias anteriores e contrárias a concepção da filosofia (logos) que certamente ainda existiam no período em que viveu Platão, mas que eram recusadas por grande parte dos filósofos. Assim, o mais adequado seria chamar de “alegoria”, como uma metáfora da caverna para explicar determinada concepção de conhecimento e educação. 2. A EDUCAÇÃO NA ROMA ANTIGA. Pouco depois da morte de Alexandre, no século III a.C., a conquista romana se inicia (282 a 146 a. C.) e, em 146 a.C., a Grécia se torna uma província romana. Essa fase de expansão de Roma, dita período da República, já tinha começado antes (desde 509 a.C.), continuando até 27 a. C. [...] em todo o contorno da bacia mediterrânea. Depois, em 48 a. C., Júlio Cesar, general dos exércitos, que acaba de derrotar Vercingetórix na Gália, opõe-se a Pompeu [...] e o derrota em um combate em Farsália. César volta a Roma e se impõe como ditador. Posteriormente, é assassinado, e seu filho Augusto toma o poder e instala, em 27 a.C., o sistema imperial que durou séculos depois dele. É o nascimento de um novo império: o Império Romano. [...] o Império História da Educação - Idade Antiga 12 Complexo Educacional Campos Salles reagrupa mais de vinte povos com religiões, costumes e hábitos muito diferentes. Roma tem a ideia genial de oferecer aos povos conquistados a possibilidade de participar da sua grandeza, tornando-se cidadãos romanos. [...] A cidadania oferece-lhes a possibilidade de participar dos negócios do Estado. [...] Esses direitos têm como efeito fazer da cidadania romana um status desejável para os indivíduos dos povos conquistados e, assim, consolidar de modo extraordinário o modelo romano (GAUTHIER; TARDIF, 2010, p. 64,65). Depois de uma pequena introdução acerca da consolidação do Império Romano, vamos ao que mais nos interessa: e a educação? Talvez possamos mencionar dois momentos da cultura e educação romanas, o antes e o depois do contato com a grega. Por volta do século VI a. C. a educação na Roma Antiga é mais rudimentar, de camponeses, ligada à terra, à tradição e costumes ancestrais, ao bem público, à família ao gosto pelo trabalho intenso e frugalidade. Só se aprende o que é útil e necessário saber como proprietário de terras ou soldado-camponês. No século II a. C. é que uma literatura propriamente romana se de- senvolve e a retórica é considerada importante devido a sua eficiência política. Mas os aristocratas romanos logo percebem o quão vantajoso é conhecer a língua e cultura grega e nela se inspiram para um “novo” processo educacional. Recorrem, então, a mestres gregos para conferências e aos escravos gregos para ensinar suas crianças, sendo que alguns jovens romanos completam sua for- mação indo à Grécia (GAUTHIER; TARDIF, 2010). Os estudos passam a ser essencialmente baseados na humanitas (cultura geral que transcende os interesses locais e nacionais). A humanitas era dada na escola do “gramático”, seguindo as se- guintes fases: “ditado de um fragmento do texto, a título de exercício ortográfico; memorização do fragmento; tradução do verso em prosa e vice-versa; expressão de uma mesma ideia em diversas construções; análise das palavras e frases; composição literária” (GADOTTI, 2011, p. 42). Tais instruções eram restritas as elites romanase não aos numerosos escravos que havia. Sendo a sociedade dividida em: patrícios (grandes proprietários que monopolizavam o poder) e plebeus (pequenos proprietários, que apesar de livres – diferente dos escravos –, eram excluídos do poder). Foi através de suas conquistas no Império que impuseram o latim a diversas províncias e, posterior- mente com o cristianismo, universalizaram a sua humanitas. No auge do Império, existia um sistema de educação constituído por três graus clássicos de ensino: a. as escolas do ludi-magister, que ministravam a educação elementar; b. as escolas do gramático, que correspondiam ao que hoje se chama ensino secundário; c. os estabelecimentos de educação superior, que iniciavam com a retórica e, seguidos do ensino do Direito e da Filosofia, se constituíam numa espécie de universidade (as universidades só surgiram na Idade Média) (GADOTTI, 2011, p.43). Para os romanos, o homem ideal era o locuples, nobre que passava pelo programa que incluía a agricultura, a guerra e a política. Já os escravos aprendiam as artes e ofícios onde serviam. Segun- História da Educação - Idade Antiga 13Complexo Educacional Campos Salles do Gadotti (2001), a classe aristocrática foi cedendo lugar aos poucos para comerciantes, pequenos artesãos e burocratas. Assim, o Império necessitava de escolas que preparassem os administradores, já que os soldados se preparavam (ou morriam) nas batalhas e quartéis. O Estado, então, se ocupa diretamente com a educação, formando quadros inclusive para vigiar as escolas (por supervisores- -professores), cujo regimento se aproximava com o dos militares, numa educação utilitária e mili- tarista, organizada fundamentalmente pela disciplina e justiça. “educação para a pátria, paz só com vitórias e escravidão aos vencidos. [...] Todas as cidades e regiões conquistadas eram submetidas aos mesmos hábitos e costumes, à mesma administração, apesar de serem consideradas ‘aliadas de Roma’.” (GADOTTI, 2011, p. 44). Sobre os direitos e deveres, os romanos ensinavam: Direito do pai sobre os filhos (pater potestas); direito do marido sobre a esposa (manus); direito do senhor sobre os escravos (potestas dominica); direito de um homem livre sobre um outro que a lei lhe dava por contrato ou por condenação judiciária (manus capere); direito sobre a propriedade (dominium). Os deveres decorriam desses direitos (GADOTTI, 2011, p.44). Assim, no lar o pai impunha aos filhos as obrigações do clã, já na escola, era oferecida a educação para a pátria e castigos severos, em que os culpados eram açoitados com vara. Dentre os muitos teóricos da educação em Roma, temos: Catão (234 – 149 a. C.); Marco Terêncio Varrão (116 -27 a.C.); Marco Túlio Cícero (106 – 43 a.C.); Marco Fábio Quintiliano (por volta de 35 – depois de 96); Sêneca (por volta de 4 a.C. – 65); Plutarco (por volta de 46 – depois de 119). 2. 1 Cícero Marco Túlio Cícero (106-43 a. C.), orador e político romano, nasceu em Arpino, onde sua família ti- nha uma propriedade rural. Aos 10 anos foi enviado a Roma para completar sua educação. Aprofun- dou-se no conhecimento das leis e doutrinas filosóficas dentre outros estudos da literatura grega e latina. Sua obra compreende discursos, tratados filosóficos e retóricos e poemas. Cícero foi um dos idealizadores do Direito Romano e em 84 a. C. escreveu sua primeira obra: De inventione, com sua teoria sobre retórica. É considerado o maior dos pensadores romanos e o que mais influenciou os oradores modernos (GAUTHIER; TARDIF, 2010). Cícero considerava como ideal da educação a formação de um orador que reunisse as qualidades do dialético, do filósofo, do poeta, do jurista e do ator. Tal orador encontrava sustentação na huma- nitas, vinculada ao projeto político de Roma: reunir os diversos povos num grande Império (GADO- TTI, 2011). Esta aula compreenderá uma transcrição de trechos de sua obra “Dos deveres” (CÍCERO, Marco Tú- lio. Dos Deveres. São Paulo: Saraiva, 1965), trechos encontrados em GADOTTI (2011) e que permiti- rão em contato com a escrita do próprio filósofo, compreender sua concepção de educação que se adequa ao ideal político romano. História da Educação - Idade Antiga 14 Complexo Educacional Campos Salles “Nada em nossa vida escapa ao dever” Resolvi escrever agora para você, começando pelo que melhor convenha para sua idade e à minha paterna autoridade. Entre as coisas sérias e úteis tratadas pelos filósofos, não conheço nada mais extenso e cuidadoso do que as regras e preceitos que nos transmitiram a propósito de deveres. Negócios públicos ou privados, civis ou domésticos, ações particulares ou transações, nada em nossa vida escapa ao dever: observá-lo é honesto, negligenciá- los, desonra. A pesquisa do dever é assunto comum dos filósofos. Como chamar-se filósofo quem não sabe expor doutrina sobre os deveres do homem? Há sistemas que, definindo o bem e o mal, desnaturam completamente a ideia de dever. Quem considera o soberano bem, independente da virtude, e que o baseia no interesse e não na honestidade, quem fica de acordo consigo mesmo, se a bondade de sua natureza não triunfa sobre seus princípios, não saberá praticar quer a amizade, quer a justiça, quer a caridade. Que se separa de quem considera a dor maior o mal? Qual a temperança de quem considera a volúpia o bem supremo? Essas coisas são de tal clareza e não necessitam discussão, por isso não as tenho debatido. Para não se desmentirem, muitas doutrinas nada dizem sobre deveres e delas não se deve esperar preceitos sólidos, invariáveis, conforme a natureza; só valem as que veem na honestidade o único bem, ou como um bem preferível aos outros e procurado por si mesmo. [...] Neste estudo seguiremos, de preferência, os estoicos, mas sem servilismo, como é nosso costume; nós nos saciaremos em suas fontes, quando julgarmos apropriado, mas não abdicaremos de nosso ponto de vista, nosso juízo e nosso arbítrio. Desde que vamos tratar dos deveres do homem, definamos logo o que chamamos dever e admiro-me de Panetius não o ter feito. Quando se quer pôr ordem e método numa discussão, é preciso começar definindo a coisa de que se trata, para se ter dela uma ideia nítida e precisa. “Próprio do homem é a procura da verdade” A natureza pôs em todo o ser animado o instinto de conservação, para defender seu corpo e sua vida, para evitar o que prejudica, para procurar todo o necessário com que viver: o alimento, o abrigo e outras coisas desse gênero. Deu, a cada espécie, nos dois sexos, uma atração mútua que os leva à multiplicação, e certo cuidado de sua prole. Mas há diferença entre o homem e o animal; pois este obedece unicamente aos sentidos, só vive o presente, o que está diante dele e não tem qualquer sensação de passado e futuro. O homem, ao contrário, com a ajuda da razão, que é seu galardão, percebe as consequências, a origem, a marcha das coisas, compara-as umas com as outras, liga e reata o futuro ao passado; envolve, de um golpe de vista, todo o curso de sua vida, e faz provisão do necessário para iniciar uma profissão. É ainda recorrendo à razão que a natureza aproxima os homens, fazendo-os conversar e viver em comum. Inspirando-lhes particular ternura pelos filhos, História da Educação - Idade Antiga 15Complexo Educacional Campos Salles fazendo-os desejar reuniões e manter sociedade entre si: por esses motivos ela os anima a procurar todo o necessário para conservação e as comodidades da vida, não somente para si mesmos, como para sua mulher, seus filhos e todos aqueles que eles amam e devem proteger. Esses cuidados trazem o espírito desperto, tornando-os mais capazes de agir. Mas, o que é, sobretudo, próprio do homem, é a procura da verdade. Assim, logo que nos livrarmos de cuidados e negócios, desejamos ver, entender, aprender qualquer coisa; pensamos que o conhecimento dos segredosou das maravilhas da natureza é indispensável à felicidade, fazendo o homem bem-nascido não desejar obedecer a ninguém, senão àquele que o instrui, e o dirige, no interesse comum, de acordo com a justiça e as leis; daí nasce a grandeza da alma e o desprezo das coisas humanas. “O mérito da virtude está na ação” [...] Sustenta-nos ardente desejo de saber e de conhecer; encanta-nos ser eminente na ciência, ignorar, errar, enganar-se, iludir-se, nos parece desgraça e vergonha. Mas, nessa inclinação natural e honesta, é preciso evitar dois defeitos: um, dar por conhecidas as coisas desconhecidas, fazendo afirmação temerária; quem quiser evitar tal defeito – e nós todos devemos querer – dará ao exame de cada coisa o tempo e cuidados necessários. Outro defeito consiste em pôr muito ardor e muito estudo nas coisas obscuras, difíceis e desnecessárias. Esses dois defeitos, se evitados, só merecem louvores pela aplicação e pelo trabalho que consagramos às coisas honestas e, ao mesmo tempo, úteis. [...] O mérito da virtude está na ação; mas há frequentes que permitem voltar aos estudos ou, ainda, à atividade do espírito, que sempre nos impede, mesmo no trabalho, a mantê-los continuadamente. Ora, toda a atividade do espírito tem por objeto resoluções honestas a tomar sobre coisas que contribuem para a felicidade, ou às pesquisas científicas. Eis o que se deve observar na primeira fonte dos nossos deveres. (GADOTTI, 2011, p.45-47). O que achou do texto de Cícero? É possível perceber em suas nuances políticas e éticas algumas concepções de educação, pois esta deveria estar a serviço da formação dos sujeitos envolvidos neste processo de construção humana. REFERÊNCIA AQUINO, S. T. de Os pensadores: seleção de textos da Suma Teológica. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979. 410p. DURKHEIM, E. Educação e sociologia. São Paulo: Melhoramentos, 1955 apud GADOTTI, M.História das idéias pedagógicas. 5. ed. São Paulo: Ática, 1997. p.115 FEVBRE, L. & MARTIN, H.-J. O aparecimento do livro. São Paulo: Hucitec, 1992. p. 67-115. FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, História da Educação - Idade Antiga 16 Complexo Educacional Campos Salles 1996. GADOTTI, M. História das idéias pedagógicas. 5. ed. São Paulo: Ática, 1997. 319p. GARDNER, H. A Nova Ciência da Mente: Uma História da Revolução Cognitiva. São Paulo: EDUSP, 1995 ILLICH, I. Sociedade sem escolas. Petrópolis: Vozes, 1973 apud GADOTTI, M. 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