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Introdução ao Direito AS ESCOLAS CIENTÍFICAS DO DIREITO 1 Sumário Introdução .................................................................................................................................... 2 Objetivos ....................................................................................................................................... 2 1. Correntes Jurídicas ................................................................................................................... 2 1.1. Escola do Direito Natural ................................................................................................... 3 1.2. Juspositivismo .................................................................................................................... 4 1.2.1. Escola Tradicional ou Exegética ..................................................................................... 5 1.2.2. Normativismo Jurídico .................................................................................................... 6 1.2.3. Escola Sociológica ........................................................................................................... 6 1.3. Escola Histórica do Direito ................................................................................................. 6 1.4. Teoria Tridimensional do Direito ....................................................................................... 7 Exercícios ...................................................................................................................................... 7 Gabarito ........................................................................................................................................ 8 Resumo ......................................................................................................................................... 8 2 Introdução Após o estudo da apostila sobre a origem histórica do Direito, iniciaremos o estudo das Escolas Científicas do Direito. Você já ouviu falar das Escolas Científicas do direito? Ou das correntes jurídicas? Nesta apostila, veremos as principais correntes jurídicas que formaram os pilares da interpretação jurídica e a concepção do que é o Direito hoje. Vamos iniciar nosso estudo pela Escola do Direito Natural, também conhecida como jusnaturalismo, tendo como ponto de partida as ditas regras originais ou naturais como o princípio da dignidade humana e o direito à vida. Logo após passaremos a estudar o Juspositivismo, e suas ramificações em Escola Tradicional ou Exegética, Normativismo Jurídico e a Escola Sociológica do Direito. A terceira corrente a ser estudada é a Escola Histórica do Direito, que trabalha a visão de que as normas jurídicas também têm origem no costume, devendo ser considerado como manifestação legítima de uma sociedade. Por fim veremos, de forma sucinta, a Teoria Tridimensional do Direito de Miguel Reale. Objetivos • Conhecer as principais escolas científicas (correntes) do Direito; • Compreender a importância destas correntes para a interpretação jurídica. 1. Correntes Jurídicas Conforme estudamos na apostila sobre as origens históricas do Direito e definição, o Direito é um fenômeno social que foi modelado de acordo com os eventos históricos da humanidade. A composição das regras de conduta absorveu características de diversos momentos históricos, com reconhecimento e obediência a diferentes premissas. Cada período da história explicou o Direito com base em seu argumento central. Inicialmente tivemos a força e a violência como base das normas de conduta, logo após o Direito passa por um período de forte influência da religiosidade, seguido por uma época de divinização da norma escrita e por fim, chegamos em um momento de reconhecimento dos direitos do homem. De acordo com Gusmão (2000), podemos compreender as correntes jurídicas como sendo os grandes caminhos percorridos pelo pensamento jurídico, reunindo muitos autores que contribuíram pela explicação de um determinado fenômeno jurídico. 3 Assim, a ciência do Direito se organiza em diferentes correntes jurídicas, que consideram os diferentes períodos históricos em que juristas buscaram compreender o fundamento universal do fenômeno jurídico. Tendo isso em mente, trabalharemos a Escola do Direito Natural, também conhecida como jusnaturalismo, logo em seguida veremos o Juspositivismo, com suas respectivas ramificações, a escola histórica do direito e por fim veremos a Teoria Tridimensional do Direito de Miguel Reale. 1.1. Escola do Direito Natural Esta corrente, também conhecida como Jusnaturalismo, tem como premissa os princípios anteriores à existência do homem. Seriam as regras originais, ditas como naturais, como o princípio da dignidade humana e o direito à vida. É uma corrente que considera a existência de uma lei natural, eterna e imutável, regras que decorrem da natureza, podendo ou não ter origem divina, mas com origem pretérita e independente do direito positivo, elaborado pelo ser humano. Esta escola possui três vertentes, construídas de acordo com diferentes estágios da história da humanidade: Teológica, Humana e Jusracionalista ou jusnaturalista racionalista. A vertente Teológica foi a primeira desenvolvida na Idade Antiga e Média, e relacionava o Direito natural à religião. A vontade divina seria a origem do Direito natural. É um período em que o jusnaturalismo embasava-se em leis emanadas de Deus. Já em um segundo momento, temos a vertente Humana, na qual o Direito natural passa a ter uma visão tomista, e passa a classificar em: normas eternas, naturais, humanas e divinas. As regras eternas seriam aquelas de caráter universal e atemporal. Já as regras naturais teriam origem na busca pela felicidade terrestre, enquanto as humanas teriam origem na razão. E, por fim, as normas divinas que seriam a criação de uma entidade divina. SAIBA MAIS! Você sabe o que é uma “visão tomista”? Esta expressão foi criada para se referir aos escritos do teólogo e filosofo São Tomás de Aquino (1225-1274), que se caracteriza pela busca de um equilíbrio entre o conhecimento metafísico e a racionalidade humana. 4 A última vertente busca racionalizar o Direito natural, tendo Hugo Grócio como principal autor das premissas e do conceito jusnaturalista. É o período chamado de jusracionalista ou jusnaturalista racionalista, no qual se trabalhou a aproximação entre o Direito natural e a razão. Neste terceiro período, os juristas procuram afastar o Direito natural da dependência divina. As leis naturais seriam fruto da própria razão, através de um trabalho de investigação dos preceitos que seriam válidos para todos e para sempre. A vertente do jusracionalismo busca tornar autônoma a existência das leis naturais, o que reflete na busca pela autonomia do Direito em relação às demais áreas de conhecimento. Hoje, o jusnaturalismo contemporâneo trabalha o Direito natural como fonte de princípios de justiça no plano histórico e social, sendo fonte primária para elaboração da legislação atual. São princípios que orientam o senso de justiça do Direito, reunindo conceitos fundamentais como o direito à vida, à liberdade, à igualdade e à civilidade. Quanto ao método de interpretação, o jusnaturalismo utiliza apenas o dedutivo, pois parte do princípio que as leis naturais são gerais e universais, sendoconsideradas paradigmas absolutos quando interpretadas frente a realidade. Assim, como características centrais, podemos dizer que o Direito natural reúne a atemporalidade e a imutabilidade, sendo criado e sistematizado pela razão. Esta corrente jurídica se opõe ao juspositivismo, que veremos a seguir, pois considera que o Direito pode emanar de fontes diversas do Estado. 1.2. Juspositivismo A segunda corrente dentro da ciência do Direito é a doutrina positivista de Auguste Comte, que tem como base negar todo e qualquer elemento que reúna abstrações do direito, da metafísica ou especulações. O Direito deve se concentrar apenas nas regras emanadas pelo Estado, considerando apenas a realidade e excluindo os juízos de valor. A denominação “Direito Positivo” foi estabelecida dentro da doutrina como oposição ao Direito Natural, sendo considerado positivo pois reúne apenas as regras reais, efetivas e vigentes em uma sociedade. São normas que podem ser mutáveis e refletem o poder do Estado no momento em que se encontra. Diferentemente do Direito Natural, o método de interpretação utilizado é apenas o indutivo, ou seja, a interpretação das normas deve considerar apenas os fatos da experiência. O Direito torna-se restrito às regras impostas pelo Estado. 5 SAIBA MAIS! Assim, considerando o Juspositivismo uma corrente jurídica que preza pelo apego às normas escritas. Veremos a seguir as principais ramificações presentes na história positivista do Direito. 1.2.1. Escola Tradicional ou Exegética Esta foi uma escola impulsionada pela edição do Código Francês de Napoleão no ano de 1804. Os juristas desta corrente passaram a dar grande valor ao texto que compunha o Código de Napoleão, que passou a ser considerado exemplo de completude legislativa, ou seja, texto de lei que não possuía lacunas a serem preenchidas pela interpretação. Assim, o método de interpretação é limitado ao texto legal escrito e em vigência. O jurista positivista deve aplicar as normas a partir de uma interpretação literal do texto legal, o que se denomina método de subsunção. Temos um período no qual a função do jurista se restringe a seguir com total rigor a norma jurídica. SAIBA MAIS! Vale ressaltar que, apesar de existirem duras críticas, a escola exegética procurou adaptar-se às mudanças da sociedade, passando a realizar uma Você sabia que o Juspositivismo foi o caminho utilizado por Adolf Hitler para justificar suas atrocidades durante a Segunda Grande Guerra? O Direito Positivo apenas garante a segurança e aplicação das normas escritas, excluindo os valores de justiça e de dignidade humana. A lei se torna válida pelo simples fato de ser vigente, desconsiderando qualquer significação social. Método de Subsunção Subsumir significa incluir algo em um elemento mais amplo. Para o direito o método de subsunção está relacionado ao trabalho de enquadrar um determinado caso concreto à norma legal abstrata. 6 interpretação histórica que buscava compreender as circunstâncias ambientais do legislador à época da regra criada. 1.2.2. Normativismo Jurídico Um segundo ramo do Juspositivismo reúne os estudos de Hans Kelsen que reduz o Direito a um elemento: a norma jurídica. Os seguidores da Teoria Pura do Direito buscam consolidar o Direito como ciência e, portanto, com objeto de investigação único e desvinculado de outras áreas. Assim, a realidade é dividida em dois aspectos: realidade fática (mundo do ser) e realidade formal (mundo do dever-ser). O Direito faria parte da realidade formal, definindo que uma norma jurídica só poderia ser criada a partir de norma anterior. Para Kelsen, toda regra deriva de uma Norma Fundamental que é válida em si mesma. O normativismo jurídico acaba por reduzir o Direito e o Estado à ideia de norma, tornando o Direito uma ciência autônoma, com objeto centrado na norma jurídica. Vale ressaltar que as críticas a esta limitação derivam desta união entre Direito e Estado, pois tende a permitir atos de injustiça pela indiferença a valores como moral e o ideal de justiça. 1.2.3. Escola Sociológica A Escola Sociológica tem sua origem nos estudos de Émile Durkheim, sociólogo do século XIX. Nesta corrente, o Direito passa a ser analisado como sendo um fato social que compõe um conjunto de fenômenos sociais. Esta vertente utiliza o fato social como elemento constitutivo do Direito, que passa a ser identificado não como lei ou jurisprudência, mas como fato social. E, assim, há uma separação entre Direito e Estado, e a lei passa a ter sua origem no costume para depois se tornar lei escrita. 1.3. Escola Histórica do Direito A terceira corrente jurídica teve sua origem no argumento historicista do Direito. De acordo com essa vertente, as normas jurídicas também têm origem no costume, mas deve ser considerado como manifestação legítima dos anseios do povo. Assim, o Direito seria fruto do desejo da sociedade em normatizar determinada conduta social. A Escola Histórica reúne um novo olhar sobre o Direito, opondo-se ao Jusnaturalismo e ao Juspositivismo ao defender a evolução histórica e a não 7 codificação das normas. Aqui, o Direito não poderia ser imutável nem sistematizado de forma escrita, pois conforme a sociedade evolui, o Direito deve evoluir também. Esta é uma corrente que preza pela flexibilidade do Direito Consuetudinário, tendo como base do método de interpretação a história da sociedade e as tradições populares. SAIBA MAIS! 1.4. Teoria Tridimensional do Direito Por fim, temos uma corrente que busca fugir da visão reducionista das demais. Esta corrente jurídica tem como base a teoria desenvolvida por Miguel Reale (1998), segundo a qual o Direito deve ser compreendido de forma integral, reunindo os aspectos de fato, valor e norma. Assim, a ciência jurídica deve ter como objeto a realidade histórico-cultural e a formal-normativa, permitindo abranger as três dimensões do Direito: Sociológica (fato), Moral (valor) e Abstrata (norma). Portanto, para esta corrente, o Direito deve ser considerado fruto da experiência humana e sua cultura, sendo organizada em prol do bem comum. Esta é uma corrente que não se opõe às demais vertentes apresentadas. É uma teoria que busca situar o Direito na história, compreendendo que não deve existir uma visão reducionista do Direito, pois tende a criar verdades parciais. Exercícios 1. Dentre as escolas científicas do Direito, qual apresenta como ideia central a visão do Direito como valor, fato e norma? 2. A corrente Juspositivista teve origem em um período de oposição ao Direito Natural. Qual a característica que marcou essa vertente? 3. O Direito Natural ainda é possível nos dias atuais? Direito Consuetudinário é o Direito com origem nos costumes de um povo. Reúne uma série regras que tiveram como bases práticas reiteradas e vistas como obrigatórias por determinado grupo. 8 Gabarito 1. A Teoria Tridimensional do Direito tem como princípio a ideia de tridimensionalidade da ciência jurídica (valor, fato e norma). Qualquer visão que não reúna estas três dimensões pode ser considerada parcial, podendo criar insegurança e injustiça. 2. A característica essencial do juspositivismo é a idolatria a norma escrita: os juristas passam a considerar qualquer regra fora do ordenamento escrito como inexistente. As interpretações deveriam ser realizadas de acordo com a lei e há uma ideia de completude dos códigos que não ofereceria lacunas à interpretação. 3. Sim, o DireitoNatural é considerado fonte primária de princípios de justiça no plano histórico e social. É a corrente jurídica responsável por manter o senso de justiça dentro do ordenamento jurídico, reunindo conceitos fundamentais como o Direito a vida, a liberdade, à igualdade e à civilidade. Resumo Nesta apostila estudamos as principais escolas científicas do Direito, cada uma com suas características e importância na constituição da Ciência Jurídica como conhecemos hoje. A Escola do Direito Natural entende a existência das normas como anterior à existência do ser humano. Assim, existiria uma lei natural e imutável a ser respeitada por todos. Dentre as vertentes derivadas desta escola, a Teológica compreende a origem do Direito como dívida, já a vertente Humana analisa o Direito com uma visão tomista, buscando um equilíbrio entre religião e razão. E, por fim, a vertente racionalista que busca aproximar o Direito Natural da razão. Na corrente juspositivista percebemos o Direito como um conjunto de regras emanadas pelo Estado. Temos então três correntes: exegética, normativista e sociológica. A escola Exegética traz uma visão de idolatria às leis escritas, desconsiderando qualquer outra fonte do Direito e cerceando a atividade interpretativa. Já o normativismo reduz a ciência jurídica à norma, sendo este objeto central de estudo. A terceira corrente, sociológica, entende o Direito como fato social, sendo esse originado da sociedade e se aproxima do historicismo. Na Escola Histórica temos uma crítica ao jusnaturalismo e ao juspositivismo. O Direito passa a ser interpretado à luz dos costumes e tradições do povo, pois estas 9 seriam as manifestações reais da sociedade. Há uma preocupação com a flexibilidade das regras e uma evolução constante em conjunto com a sociedade. A última corrente traz a Teoria Tridimensional do Direito, que busca excluir as visões reducionistas das demais escolas ao compreender o Direito como fato, valor e norma. 10 Referências bibliográficas Colunas. Conteúdo Jurídico. Disponível em: <http://www.conteudojuridico.com.br/artigo,conceito-de-justica- em-sao-tomas-de-aquino-uma-visao-filosofica-e-teologica,31014.html>. Acesso em: 02/02/2019 às 11h26min. DINIZ, Maria Helena. Compêndio de introdução ao estudo do direito. 12ª ed. São Paulo: Saraiva, 2000. GUSMÃO, Paulo Dourado. 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