Prévia do material em texto
PREFEITURA MUNICIPAL DE CURITIBA LUCIANO DUCCI Prefeito SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE CURITIBA ELIANE REGINA DA VEIGA CHOMATHAS Secretária Municipal da Saúde BEATRIZ BATTISTELLA NADAS Superintendente Executivo ANNA PAULA LACERDA PENTEADO Superintendente de Gestão RAQUEL FERRARO CUBAS Diretora do Centro de Informação em Saúde CRISTIANE MARIA LEAL VARDANA MARANGON Coordenadora do Programa Saúde da Criança Produção, distribuição e informações: SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE CURITIBA Centro de Informação em Saúde – CIS Coordenação do Programa Saúde da Criança Rua Francisco Torres, nº 830, 7º Andar CEP: 80.060-130 - Curitiba, Paraná, Brasil. Telefone: 0XX41-3350-9452 Fax: 0XX41-3350-9498 E-mail: saudedacrianca@sms.curitiba.pr.gov.br Proibida a reprodução sem autorização da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba. Curitiba, 2012 1 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Diretriz de Atenção à Saúde da Criança Curitibana SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE 2012 2 3 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Agradecemos aos médicos, enfermeiros, odon- tólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, farma- cêuticos, psicólogos, profissionais de Educação Física, agentes comunitários de saúde, técnicos e auxiliares que trabalham diariamente com a nossa população, enfrentando a dor social e o sofrimento humano. Agradecemos muito aos servidores da Prefei- tura Municipal de Curitiba que participaram na elaboração desta diretriz, trabalhando intensiva- mente para sua concretização. Às sociedades científicas, universidades, ins- tituições e profissionais de saúde, nosso reco- nhecimento por serem a verdadeira bússola que orienta o caminho certo da excelência. 4 5 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Está chegando às mãos de vocês um produto muito desejado por todos nós: a primeira versão da Diretriz de Atenção à Saúde da Criança, um minucioso documento para unificar a complexa abordagem dos nossos pequenos pacientes. Para chegarmos a ele, mais uma vez contamos com a parceria da Sociedade Paranaense de Pediatria. O objetivo comum é que, por meio desta Diretriz, cada um de vocês aí na ponta do atendimento primário – desde os profissionais com mais tempo de rede municipal de saúde até os que acabam de chegar – possa tornar mais eficientes a prevenção de agravos e o encaminhamento devido dos que se apresentarem. Em suma: a intenção é potencializar o esforço diário e integrado de médicos, enfermeiros, odontólogos, auxiliares, técnicos, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, profissionais de Educação Física, farmacêuticos e agentes comunitários – todos atores indispensáveis para o resultado esperado. O caminho para isso é o domínio de todo o conjunto de informações reveladas por crianças e cuidadores, direta ou indiretamente, e que podem repercutir no seu desenvolvimento desde o ventre materno. Conhecer o mais possível esses nossos pacientes e o entorno no qual estão inseridos é, então, um imperativo para que consigamos superar as condições de risco. Assim, em parceria com as famílias e demais agentes sociais, estaremos ampliando nosso papel de auxiliares do desenvolvimento pleno e integral desses novos cidadãos. Um grande abraço, Eliane Regina da Veiga Chomatas Secretária Municipal da Saúde de Curitiba 6 7 Diretriz De atenção à saúDe Da criança A cada ano Curitiba vê nascer 25 mil novos curiti- banos. Esse fato é suficiente para cada profissional de saúde refletir sobre a grande responsabilidade que é cuidar das crianças fazendo prevenção, diagnóstico, tratamento e encaminhamento. Para alcançar o objetivo do bom atendimento, surge esta diretriz com intuito de orientar e guiar o profissional de saúde naquilo que a criança necessita. “A Saúde é um direito de todos e um dever do Estado”. Sabe-se que a assistência deve ser universal, igualitá- ria e equitativa, mas há de se levar em conta as especifi- cidades de cada faixa etária e de cada paciente. E aí está o grande desafio: atender esses pequenos cidadãos. A criação deste material demonstra o interesse da Secretaria Municipal da Saúde em oferecer um aten- dimento mais humano e de melhor qualidade para as nossas crianças. Esta diretriz vem contribuir com a prevenção para reduzir a incidência de doenças, com o bom atendimento para reduzir o tempo de internação e consequentemente tranquilizar a família. A somatória do conhecimento dos profissionais de di- versas áreas de saúde resultou na riqueza desta diretriz, que virá contribuir para melhorar a qualidade de vida dos homens de amanhã. O reconhecimento da Sociedade Paranaense de Pediatria a todos que participaram da elaboração deste documento e um abraço aos que vão utilizar esses co- nhecimentos. Parabéns à Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba. Darci Vieira da Silva Bonetto Presidente da Sociedade Paranaense de Pediatria 8 9 Diretriz De atenção à saúDe Da criança As crianças necessitam um olhar atento e cuidadoso de nossa sociedade, que acompanhe as mudanças do mundo atual, garantindo a proteção e o cuidado neces- sários para o seu desenvolvimento. O controle social tem papel importante, compondo e somando esforços, auxiliando nesta conquista fundamental para alcançar- mos uma sociedade justa e saudável. A Comissão Municipal de Saúde da Criança para- beniza o excelente trabalho da Secretaria Municipal da Saúde com a construção da Diretriz de Atenção à Saúde da Criança Curitibana. Este documento vem nortear as ações dos profissionais da área de saúde, no que tan- ge a promoção, prevenção e assistência à saúde das crianças, melhorando e humanizando a qualidade dos atendimentos. Sandra Dolores de Paula Lima Presidente da Comissão da Criança e do Adolescente Conselho Municipal de Saúde 10 11 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Sumário 1. mETAS E oBJETiVoS ........................................................................................... 17 1.1 Metas ......................................................................................................................... 17 1.2 Objetivo geral .................................................................................................................... 17 1.3 Objetivos específicos ........................................................................................................ 17 2. SiSTEmA iNTEGrAÇÃo .................................................................................... 19 2.1 Critérios de agendamento ................................................................................................. 19 2.2 Busca ativa ........................................................................................................................ 19 3. CLASSiFiCAÇÃo Do riSCo .......................................................................... 21 3.1 Fatores de risco ao nascer ................................................................................................ 21 3.2 Fatores de risco evolutivo ................................................................................................. 22 4. orGANiZAÇÃo DA ATENÇÃo NA uNiDADE DE SAÚDE .... 25 4.1 Acolhimento ...................................................................................................................... 25 4.2 Cadastro da criança ......................................................................................................... 25 4.3 Responsabilidades da equipe de saúde .......................................................................... 25 4.3.1 Vigilância alimentar e nutricional e monitoramento do crescimento e desenvolvimento ...25 4.3.2 Imunização ..........................................................................................................26 4.3.3 Atenção às doenças prevalentes na infância ...................................................... 26 4.4 Atribuições dos profissionais de saúde ............................................................................. 26 4.4.1 Atribuições do Agente Comunitário de Saúde .................................................... 27 4.4.2 Atribuições do Auxiliar de Enfermagem .............................................................. 27 4.4.3 Atribuições do Enfermeiro ................................................................................... 28 4.4.4 Atribuições do Médico ......................................................................................... 29 4.4.5 Atribuições do Auxiliar de Saúde Bucal .............................................................. 29 4.4.6 Atribuições do Técnico de Saúde Bucal ............................................................. 30 4.4.7 Atribuições do Cirurgião Dentista ...................................................................... 30 4.4.8 Atribuições dos profissionais dos Núcleos de Apoio em Atenção Primária à Saúde (NAAPS) ......................................................................................................................... 31 4.4.9 Atribuições do Farmacêutico .............................................................................. 32 4.4.10 Atribuições do Fisioterapeuta .............................................................................. 32 4.4.11 Atribuições do Nutricionista ................................................................................ 33 4.4.12 Atribuições do Profissional de Educação Física ................................................. 33 4.4.13 Atribuições do Psicólogo ..................................................................................... 33 4.5 Fluxograma do primeiro atendimento da criança .............................................................. 34 4.6 Fluxograma de acordo com a situação de risco ................................................................ 35 5. oriENTAÇÕES PArA o ATENDimENTo ....................................... 39 5.1 Visita domiciliar ................................................................................................................. 39 5.2 A consulta da criança na unidade de saúde...................................................................... 39 5.2.1 Calendário de consultas ...................................................................................... 39 5.2.2 Atendimento da criança pelo enfermeiro na Unidade de Saúde ......................... 40 5.2.3 Sinais clínicos de alerta na saúde da criança ...................................................... 41 5.2.4 Atendimento da criança pelo médico na Unidade de Saúde .............................. 41 12 ASPECToS ESSENCiAiS DA SAÚDE iNFANTiL ..................................... 45 6. CrESCimENTo ............................................................................................................. 47 6.1 Crescimento esperado ...................................................................................................... 47 6.2 Evolução do peso .............................................................................................................. 47 6.3 Evolução do perímetro cefálico ......................................................................................... 48 6.4 Crescimento do recém-nascido de risco ........................................................................... 48 6.5 Avaliação do crescimento ................................................................................................. 49 6.5.1 Gráficos de crescimento ...................................................................................... 49 6.6 Identificação dos distúrbios de crescimento ...................................................................... 53 7. DESENVoLVimENTo ............................................................................................ 57 7.1 Critérios de risco para o desenvolvimento neuropsicomotor ............................................ 60 7.2 Sinais de alerta de disfunção neuromotora ....................................................................... 60 7.3 Sinais de alerta para distúrbios visuais ............................................................................. 61 7.4 Sinais de alerta para deficiência auditiva .......................................................................... 61 8. CuiDADoS NA SAÚDE DA CriANÇA ................................................ 65 8.1 Cuidados básicos .............................................................................................................. 65 8.2 Higiene física ..................................................................................................................... 65 8.3 Saúde bucal ...................................................................................................................... 66 8.3.1 Higienização bucal ............................................................................................... 66 8.3.2 Intercorrências na saúde bucal ............................................................................ 67 8.4 Saúde mental .................................................................................................................... 68 8.4.1 Orientações para mães/cuidadoras ..................................................................... 68 8.4.2 Sinais de alerta em saúde mental ....................................................................... 70 8.4.3 Critérios de encaminhamento .............................................................................. 71 8.5 Imunização ........................................................................................................................ 72 8.5.1 Imunização de prematuros e recém-nascidos de baixo peso ............................. 74 8.6 Prevenção de acidentes ................................................................................................... 75 8.6.1 Síndrome da morte súbita do lactente ................................................................. 76 9 TriAGEm AuDiTiVA NEoNATAL uNiVErSAL ........................ 79 9.1 Fatores de risco para deficiência auditiva ......................................................................... 79 9.2 Fluxos da Triagem Auditiva: .............................................................................................. 79 9.2.1 Bebês egressos de berçários sem fator de risco para perda auditiva ................. 80 9.2.2 Bebês egressos de berçários com fator de risco para perda auditiva ................. 80 9.2.3 Bebês com fator de risco, triagem negativa, mas com suspeita de deficiência auditiva durante o 1º ano de vida ........................................................................ 80 9.2.4 Bebês egressos de UTI Neonatal ........................................................................ 80 9.3 Atribuições das maternidades ........................................................................................... 80 9.4 Atribuições da Atenção Básica .......................................................................................... 81 9.5 Agendamento na Central de Marcação de Consultas Especializadas .............................. 81 9.6 Algoritmos da Triagem Auditiva ......................................................................................... 82 10 oriENTAÇÕES NuTriCioNAiS ............................................................... 87 10.1 Alimentação para crianças menores de dois anos ............................................................ 87 10.1.1 Aleitamentomaterno ............................................................................................ 87 10.1.2 Orientações para amamentação no seio materno ............................................... 87 13 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 10.1.3 Procedimentos para a ordenha do leite materno ............................................. 88 10.1.4 Armazenamento do leite retirado ..................................................................... 88 10.1.5 Problemas mais frequentes na amamentação no seio materno ...................... 88 10.1.6 Amamentação e medicação materna .............................................................. 89 10.1.7 Contra-indicações para o aleitamento materno ............................................... 91 10.1.8 Aleitamento artificial ......................................................................................... 92 10.1.9 Dez passos para uma alimentação saudável em crianças menores de dois anos ....93 10.1.10 Esquema alimentar para crianças menores de 2 anos em aleitamento materno.......97 10.1.11 Esquema alimentar para crianças menores de 2 anos em aleitamento artificial ........98 10.2 Alimentação para crianças maiores de 2 anos ................................................................ 99 10.2.1 Dez passos para uma alimentação saudável em crianças maiores de 2 anos ........100 10.3 Programas da área de alimentação e nutrição ............................................................... 102 iNTErCorrÊNCiAS NA SAÚDE iNFANTiL ............................................. 107 11. iNTErCorrÊNCiAS NA SAÚDE iNFANTiL ................................. 107 11.1 Icterícia Neonatal ............................................................................................................ 107 11.2 Refluxo Gastroesofágico e Doença do Refluxo Gastroesofágico ....................................111 11.3 Anemia ....................................................................................................................... 113 11.4 Doenças Respiratórias na Infância ................................................................................. 118 11.4.1 Abordagem da criança com doença respiratória ........................................... 118 11.4.2 Presença de sinais clínicos de gravidade ...................................................... 119 11.4.3 Fatores de risco para doenças respiratórias na infância ............................... 119 11.4.4 Infecções do Trato Respiratório Superior ....................................................... 120 11.4.5 Infecções do Trato Respiratório Inferior ......................................................... 128 11.4.6 Rinite .............................................................................................................. 133 11.4.7 Asma .............................................................................................................. 134 11.5 Diarreia Aguda e Desidratação ....................................................................................... 141 11.6 Parasitoses Intestinais .................................................................................................... 145 11.7 Desnutrição ..................................................................................................................... 146 11.8 Obesidade ....................................................................................................................... 149 11.9 Infecção do Trato Urinário ............................................................................................... 152 11.10 Crises Convulsivas e Epilepsia na Infância ..................................................................... 158 11.11 Meningites ....................................................................................................................... 164 11.11.1 Meningites bacterianas .................................................................................. 164 11.11.2 Meningites virais ............................................................................................ 169 11.11.3 Fluxograma para atendimento das Meningites ou Doença Meningocócica ... 171 11.12 Afecções da Pele ........................................................................................................... 172 11.12.1 Erupções eritematosas .................................................................................. 172 11.12.2 Erupções papulosas ....................................................................................... 175 11.12.3 Erupções nodulares ....................................................................................... 176 11.12.4 Erupções vesiculosas .................................................................................... 177 11.12.5 Infecções cutâneas por fungos ...................................................................... 179 11.12.6 Grupo dermatite/ eczema ............................................................................... 181 11.12.7 Dermatozoonoses .......................................................................................... 184 11.13 Sífilis Congênita ............................................................................................................. 185 11.14 Toxoplasmose Congênita ................................................................................................ 192 11.15 HIV e Transmissão Vertical ............................................................................................ 198 14 12 rEDE DE ProTEÇÃo À CriANÇA E Ao ADoLESCENTE Em SiTuAÇÃo DE riSCo PArA VioLÊNCiA ......................... 209 13 SiSTEmA DE iNFormAÇÃo GErENCiAL ................................. 213 14 ANEXoS ....................................................................................................................... 215 14.1 Gráfico do perímetro cefálico/ idade (masculino) - 0 a 3 anos ........................................ 216 14.2 Gráfico do perímetro cefálico/ idade (feminino) - 0 a 3 anos .......................................... 217 14.3 Gráfico do comprimento/ idade (masculino) - 0 a 2 anos ................................................ 218 14.4 Gráfico da comprimento/ idade (feminino) - 0 a 2 anos .................................................. 219 14.5 Gráfico de altura/ idade (masculino) - 2 a 5 anos ........................................................... 220 14.6 Gráfico de altura/ idade (feminino) - 2 a 5 anos .............................................................. 221 14.7 Gráfico de altura/ idade (masculino) - 5 a 10 anos ......................................................... 222 14.8 Gráfico de altura/ idade (feminino)- 5 a 10 anos ............................................................. 223 14.9 Gráfico de peso/ idade (masculino) - 0 a 2 anos ............................................................. 224 14.10 Gráfico de peso/ idade (feminino) - 0 a 2 anos ............................................................... 225 14.11 Gráfico de peso/ idade (masculino) - 2 a 5 anos ............................................................. 226 14.12 Gráfico de peso/ idade (feminino) - 2 a 5 anos ............................................................... 227 14.13 Gráfico de peso/ idade (masculino) - 5 a 10 anos ........................................................... 228 14.14 Gráfico de peso/ idade (feminino) - 5 a 10 anos ............................................................. 229 14.15 Gráfico de IMC/ idade (masculino) - 0 a 5 anos .............................................................. 230 14.16 Gráficode IMC/ idade (feminino) - 0 a 5 anos ................................................................ 231 14.17 Gráfico de IMC/ idade (masculino) - 5 a 10 anos ............................................................ 232 14.18 Gráfico de IMC/ idade (feminino) - 5 a 10 anos .............................................................. 233 14.19 Controle ambiental para crianças com alergia respiratória ............................................ 235 14.20 Exercícios físicos e respiratórios para crianças com asma ............................................ 236 14.21 Procedimentos na aplicação da penicilina benzatina ...................................................... 237 14.22 Conduta nos casos de anafilaxia e choque anafilático .................................................. 238 14.23 Orientações para o uso do inalador dosimetrado (IDM) ................................................ 239 14.24 Procedimentos para a coleta, processamento e envio de espécimes para o isolamento do vírus do sarampo............................................................................................................. 240 14.25 Interpretação dos resultados dos exames sorológicos para rubéola ............................. 241 14.26 Valores laboratoriais em pediatria ................................................................................... 242 14.27 Tabela de valores de pressão arterial para meninos ....................................................... 245 14.20 Tabela de valores de pressão arterial para meninas ...................................................... 246 15 Diretriz De atenção à saúDe Da criança iNTroDuÇÃo A compreensão da infância como período essencial para a construção humana não é fato novo. Philippe Arièes, ao desenhar o nascimento da concepção de infância evidenciou a concomitância, nos dias atuais, de violências e desafios que já deveriam fazer parte do passado e os avanços que se fazem necessários. Erich Fromm, em seu livro A Arte de Amar, nos traz sucintamente os elementos essenciais à promoção humana: o respeito, a atenção, o cuidado e a responsabilidade. Desde o início dos tempos até chegarmos aos primeiros higienistas e pediatras, que contribuíram de forma inestimável para a sobrevivência das crianças, possibilitando sua maior sobrevivência e consequente apego a elas, passando por Pestalozzi, Maria Montessori, Piaget, Vigotski ou Winicott, até hoje encontramos a necessidade de todo nosso empenho para suplantar as dificuldades de tempos desafiadores, mas também com a abertura de novos paradigmas para a concepção da vida. Nossa cultura é construída pelos sistemas de ideias, linguagens e comportamentos, e o tecido da vida é trançado por estes, alicerçado pelo que é tido como valor. É preciso o concurso do outro para se constituir. A Diretriz de Atenção à Saúde da Criança visa contribuir com as equipes de saúde, integrando todos os seus profissionais para um olhar voltado à promoção da saúde da criança, a prevenção de agravos e assistência adequados. É tarefa árdua, permeada de grandes desafios impostos pela cultura emergente da “criança terceirizada” dos dias atuais. Mas é também tarefa gratificante, pois a criança como ser espontâneo e verdadeiro, despida ainda do verniz da cultura, responde generosamente ao que ou a quem lhe traz o bem. Composta por três grandes eixos, esta diretriz traz como seu primeiro eixo a organização da atenção à saúde da criança, orientando as equipes para o foco principal, para que frente às inúmeras demandas da Unidade de Saúde, priorize o essencial, com o fortalecimento do vínculo, do compromisso e comprometimento na atenção à saúde das crianças. Além disso, reforça a importância da identificação precoce das situações de risco ao nascer e risco evolutivo, e dos sinais clínicos de alerta. O segundo eixo trabalha os aspectos essenciais à saúde infantil, norteando para as ações de promoção ao crescimento e desenvolvimento saudáveis. O terceiro eixo, auxilia os profissionais para a conduta na assistência aos principais agravos à saúde da criança. Por fim, a exposição dos indicadores de saúde infantil, a serem não apenas trabalhados, mas monitorados pelas equipes de saúde, apontando para a necessidade de avançarmos dos indicadores quantitativos para a construção de novos indicadores qualitativos para a saúde da criança. Esperamos sinceramente oferecer mais uma ferramenta a compor o trabalho diário das equipes. Longe de ousar responder a todas as necessidades na atenção à saúde da criança, esta ferramenta precisa do concurso de todos para revisarmos, revisitarmos nossas concepções e práticas, e avançarmos para um saber fazer melhor. Nossas crianças merecem. Cristiane Maria Leal Vardana Marangon. 16 17 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 1. mETAS E oBJETiVoS 1.1 mETAS • Manter a razão de mortalidade infantil abaixo de 10 mortes/1000 nascidos vivos no município. • Promover e assistir a saúde de 100% das crianças usuárias do Sistema Único de Saúde (SUS), na área de abrangência das Unidades Básicas de Saúde (UBS). 1.2 oBJETiVo GErAL Acolher todas as crianças de 0 a 10 anos residentes no município de Curitiba, priorizando a faixa etária de 0 a 24 meses, oferecendo atenção integral com monitoramento do risco ao nascer e evolutivo, acom- panhamento do processo de crescimento e desenvolvimento, assegurando um atendimento de excelência. 1.3 oBJETiVoS ESPECÍFiCoS • Acompanhar o crescimento e desenvolvimento das crianças usuárias do SUS residentes na área de abrangência das Unidades de Saúde. • Detectar e tratar precocemente os processos patológicos e/ou agravos, que venham a incidir nesta faixa etária, através de consultas de rotina e nas intercorrências, realizadas por profissional médico ou de enfermagem. • Monitorar a saúde das crianças residentes na área de abrangência, em especial daquelas que apre- sentam risco ao nascer ou risco evolutivo. • Desenvolver ações de promoção à saúde e prevenção de doenças e/ou agravos para as crianças residentes na área de abrangência das Unidades de Saúde. • Estimular o aleitamento materno exclusivo até 6 meses de idade e após os 6 meses, juntamente com a alimentação complementar, por 2 anos ou mais. • Vacinar todas as crianças de 0 a 10 anos da área de abrangência das Unidades de Saúde. • Realizar visita domiciliar para as crianças de risco e às faltosas ao programa de imunização. • Realizar busca ativa e agendar consulta médica ou de enfermagem para as crianças menores de um ano, após alta hospitalar. • Realizar busca ativa e agendar consulta médica ou de enfermagem para as crianças menores de um ano que tiveram consulta em Centro Municipal de Urgências Médicas. 18 19 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 2. SiSTEmA iNTEGrAÇÃo A conexão das Maternidades às Unidades de Saúde através do Sistema Integração tem por objetivo agilizar e garantir o agendamento “on-line” da consulta da mãe e seu filho. O Sistema Integração Maternidades/Unidades de Saúde facilita a captação precoce da puérpera e do recém-nascido pela equipe de saúde, permitindo que a maternidade agende a sua consulta na Unidade de Saúde e agilize o seu acolhimento. Ao chegar à Unidade de Saúde a mãe e o bebê devem ser atendidos, aproveitando a oportunidade para uma visão integrada deste binômio. O acolhimento da puérpera e de seu bebê é momento privilegiado para que se fortaleça o vínculo com a Unidade de Saúde, facilitando as ações de promoção da saúde e prevenção de agravos. O incentivo para a amamentação no seio materno, os cuidados de higiene, o estreitamento dos laços afetivos entre a mãe e seu filho e as intervenções que se façam necessárias requeremo olhar atento da equipe de saúde. É muito importante que a equipe de saúde priorize esta vinculação com o binômio mãe/ filho, garantindo um atendimento precoce e de qualidade. As Unidades de Saúde devem garantir agenda disponível para que as maternidades agendem a consulta para o binômio mãe/filho com o enfermeiro. Da mesma forma, deve-se garantir espaço na agenda para a consulta médica da criança e sua mãe. 2.1 CriTÉrioS DE AGENDAmENTo 1. Todas as mães cadastradas no Programa Mãe Curitibana, que tiveram alta da maternidade junto com o seu filho, deverão ter sua consulta agendada pela maternidade com o enfermeiro da Unidade de Saúde em que possui cadastro. Preferencialmente deverá ser agendada consulta com o enfermeiro cujo nome consta na Carteira da Gestante. Posteriormente, na Unidade de Saúde, a mãe e o bebê serão encaminhados à consulta médica. 2. Após o agendamento da consulta as mães receberão o comprovante de agendamento da consulta e deverão ser orientadas a comparecer à Unidade de Saúde, na data e horário agendados, levando o bebê, a Caderneta de Saúde da Criança Curitibana e a Certidão de Nascimento da criança. 3. As mães de crianças que permanecerem internadas na maternidade ou hospital, também deverão ter sua consulta agendada com o enfermeiro na Unidade de Saúde em que possui cadastro. As mesmas devem ser orientadas a comparecer à Unidade de Saúde na data e horário agendados, levando o comprovante de agendamento da consulta e a Certidão de Nascimento de seu filho, mesmo que ele não a acompanhe na consulta. Este procedimento permitirá que a Unidade de Saúde realize, além da consulta precoce da puérpera, o cadastro definitivo da criança e tenha ciência da criança de sua área de abrangência que necessita monitoramento e busca ativa. identificação da Agenda de Puérperas na unidade de Saúde Ao final do dia deverá ser acessada a agenda do enfermeiro para verificar se existem puérperas agendadas pelas maternidades para o dia seguinte. 2.2 BuSCA ATiVA • Se a puérpera e seu bebê não comparecerem à consulta agendada deverá ser realizada busca ativa através do agente comunitário de saúde. O agente deverá orientar a mãe para que compareça à Unidade de Saúde com seu bebê, portando a Certidão de Nascimento da criança e a Caderneta de 20 Saúde da Criança Curitibana. • A Unidade de Saúde deverá manter um controle das crianças que permaneceram internadas; o agen- te comunitário de saúde deverá realizar busca ativa e captar a criança precocemente após a alta, encaminhando-a à Unidade de Saúde para cadastro e consulta. • Mesmo a criança cuja família tem como opção outro serviço de saúde deve ser captada para vacinação e a família orientada quanto à importância do acompanhamento em seu primeiro ano de vida. 21 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 3. CLASSiFiCAÇÃo Do riSCo Os avanços tecnológicos têm propiciado maior assistência aos neonatos, promovendo a sobrevida cada vez maior de prematuros e bebês de baixo peso ao nascer. O período neonatal ainda é o mais sensível, exigindo maior empenho para que esta faixa etária seja cercada de cuidados especiais, priorizando o seu atendimento. A identificação, dentro do universo de crianças, de situações de maior risco para a morbimortalidade in- fantil propicia o enfrentamento do risco neste segmento. O estabelecimento da gestão da clínica avançando para a gestão de caso levou ao surgimento dos critérios de risco ao nascer, risco evolutivo e alto risco para o desenvolvimento neuropsicomotor. A priorização do atendimento à criança com fatores de risco deve ocorrer na Unidade de Saúde e tem início na captação precoce, visita domiciliar e contato com a família. A equipe de saúde deve orientar sobre os cuidados básicos com o bebê, aleitamento materno, calendário vacinal, entre outros, além de sensiblizar a família sobre a importância do acompanhamento do crescimento e desenvolvimento na Unidade de Saúde. As Unidades de Saúde recebem as Declarações de Nascido Vivo das crianças de sua área de abrangência sinalizadas para os fatores de risco encontrados. Esse é mais um instrumento que orienta as equipes de saúde para a necessidade de busca ativa destas crianças. 3.1 FATorES DE riSCo Ao NASCEr As ações de monitoramento desenvolvidas no município têm início no momento em que se estabelece contato com a mãe para o preenchimento da Declaração de Nascido Vivo (DNV), na maternidade. A De- claração de Nascido Vivo, documento base do Sistema de Informação de Nascidos Vivos (SINASC) que é preenchido nas maternidades para todos os recém-nascidos, fornece informações que permitem conhecer a situação do parto, do recém-nascido e da mãe. Através da análise dessas informações os recém-nascidos são classificados como risco ou não risco ao nascer, levando-se em conta critérios específicos, avaliando fatores de risco isolados e fatores de risco associados. As Declarações de Nascidos Vivos que apresentam algum fator de risco são sinalizadas e encaminhadas às Unidades de Saúde com as demais de sua área de abrangência. As crianças que apresentarem fatores de risco ao nascer e/ou risco evolutivo devem receber uma atenção priorizada por parte da equipe de saúde, com busca ativa e vigilância rigorosa em sua saúde. Fatores isolados: • Baixo peso (peso inferior a 2500 g). • Prematuridade (idade gestacional igual ou inferior a 36 semanas). • Más condições de nascimento (índice de Apgar no 5º minuto menor do que 7). • Menos do que 4 consultas de pré-natal. • Mãe adolescente com idade inferior a 16 anos. • Mãe usuária de álcool e/ou drogas (único critério não presente na Declaração do Nascido Vivo). Fatores associados: • Mãe adolescente com idade entre 16 e 19 anos. • Baixa escolaridade materna (mãe analfabeta ou com ensino fundamental incompleto). • História de três ou mais filhos nascidos vivos ou um filho nascido morto. Para considerar um recém-nascido como de risco é necessário a identificação de pelo menos um fator isolado ou dois fatores associados. 22 3.2 FATorES DE riSCo EVoLuTiVo A vigilância ao risco evolutivo surge da necessidade de identificar crianças vulneráveis à morbimortali- dade infantil no decorrer do primeiro ano de vida, que não apresentaram risco no momento do nascimento e contempla situações de risco biológico e social. O risco evolutivo deve ser avaliado em todos os atendimentos prestados na Unidade de Saúde, seja na primeira consulta ou nas consultas subsequentes, em vinda à Unidade de Saúde para vacinação ou visita domiciliar. Portanto, a classificação do risco apresenta mobilidade, podendo uma criança que anteriormente não apresentava risco passar a ser classificada como de risco, e uma criança que anteriormente era clas- sificada de risco, passar a não sê-lo. As crianças que apresentam fatores de risco evolutivo passam a ser acompanhadas de forma prioritária e com maior vigilância pela equipe de saúde, como ocorre para aquelas que apresentam risco ao nascer. • Malformações congênitas. • Internações ou infecções repetidas, com especial atenção à criança abaixo de 1 ano (identificadas pela Notificação de Alta Hospitalar, que deve desencadear visita domiciliar precoce). • Desnutrição instalada ou curva ponderoestatural estacionária ou em declínio. • Desenvolvimento psicomotor insatisfatório para idade. • Casos na família de tuberculose, HIV/ AIDS, desnutrição, drogadição. • Criança sob cuidados de pessoa não habilitada. • Sinais de violência contra a criança. • Gravidez indesejada ou depressão pós-parto. • Um dos pais com transtorno mental, neurológico ou portador de deficiência. • História de óbito de irmão menor de 5 anos por causas evitáveis. • Mãe adolescente sem apoio familiar. • Ausência da mãe por abandono ou morte. • Mãe usuária de álcool e/ou drogas. 23 Diretriz De atençãoà saúDe Da criança orGANiZAÇÃo DA ATENÇÃo NA uNiDADE DE SAÚDE 24 25 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 4. orGANiZAÇÃo DA ATENÇÃo NA uNiDADE DE SAÚDE 4.1 ACoLHimENTo A Unidade de Saúde é ponto de atenção estratégico e deve ser a porta de entrada da criança para o sistema de saúde. Entre suas atribuições estão: • Garantir o acesso e a vinculação, responsabilizando-se pelos problemas de saúde das crianças do seu território e o monitoramento dos mesmos. • Resolver de forma eficaz e humanizada os principais problemas de saúde das crianças, com os re- cursos existentes. Os profissionais de saúde devem atender a todas as crianças, oferecendo uma atenção oportuna, eficaz, segura e ética. A humanização no trato com a criança e sua família é fundamental para estabelecer o vínculo, através de uma relação cordial e de confiança. A equipe de saúde deve fortalecer a relação com as famílias e crianças através do respeito, disponibilidade e atenção para ouvir. É muito importante, no atendimento à criança, desenvolver o hábito de observar e manter uma atitude de empatia e de apoio à mãe diante das dificuldades encontradas. 4.2 CADASTro DA CriANÇA O cadastramento consiste na vinculação da criança e deve seguir os passos abaixo relacionados: 1. Preencher o cadastro da criança. 2. Incluir a criança no Programa de Saúde da Criança para monitoramento pela equipe de saúde - deve ser realizado pelo enfermeiro ou pelo médico. 3. Abrir o prontuário da criança na primeira consulta. 4. Verificar o recebimento da Caderneta de Saúde da Criança Curitibana fornecida na maternidade e realizar as orientações para o seu uso. 4.3 rESPoNSABiLiDADES DA EQuiPE DE SAÚDE A equipe deve organizar seu processo de trabalho, objetivando o monitoramento das crianças da área de abrangência da Unidade de Saúde, priorizando as de risco. 4.3.1 Vigilância alimentar e nutricional e monitoramento do crescimento e desenvolvimento • Acompanhamento e registro de todas as informações pertinentes ao crescimento e desenvolvimento em todas as consultas, nos sistemas existentes (prontuário eletrônico, gráficos das Cadernetas de Saúde da Criança, etc). • Acompanhamento e registro das informações sobre aleitamento materno e alimentação complementar nos sistemas existentes (prontuário eletrônico, campo “registros específicos”/“dieta”). 26 • Promoção da alimentação saudável. • Realização ou referência para exames laboratoriais, quando necessário. • Atenção aos problemas nutricionais mediante o desenvolvimento dos Programas de Suplementação Nutricional e de Atenção às Pessoas com Necessidades Especiais de Alimentação, dos Grupos de Reeducação Alimentar e monitoramento dos beneficiários de outros programas de complementação de renda e de alimentação. 4.3.2 imunização • Captação das crianças e realização do esquema vacinal básico de rotina. • Busca ativa de faltosos. • Realização de campanhas para imunização que estejam ocorrendo e/ou venham a ser necessárias. • Registro e acompanhamento dos sistemas de informação. 4.3.3 Atenção às doenças prevalentes na infância • Atendimento de situações de urgência/emergência. • Atenção às doenças respiratórias. • Atenção às doenças diarreicas. • Atenção às doenças infecto-contagiosas. • Atenção a outras doenças prevalentes na infância. • Atividades educativas de promoção da saúde e prevenção de doenças. • Realização ou referência para exames laboratoriais necessários. • Encaminhamento à referência hospitalar e ambulatorial especializada, quando necessário. 4.4 ATriBuiÇÕES DoS ProFiSSioNAiS DE SAÚDE A coordenação das atividades da equipe de saúde é da Autoridade Sanitária Local. Todos da equipe de saúde devem identificar situações de risco e o enfermeiro ou o médico devem garantir o monitoramento das crianças e assegurar o acompanhamento da criança de risco. Para tanto, deve-se orientar e supervisionar a equipe quanto: • Às técnicas de avaliação da criança, tais como: aferição de peso, altura, perímetro cefálico, tempera- tura, frequência cardíaca e frequência respiratória. • Às anotações e preenchimento do prontuário, gráficos, caderneta de saúde da criança e ficha de no- tificação obrigatória. • Ao agendamento dos encaminhamentos, quando necessário. • Às atividades de educação em saúde. • À visita domiciliar. • À gestão de caso da criança de risco. o compartilhamento da informação sobre situações de risco à criança é ferramenta imprescindível para estabelecer uma verdadeira rede, onde todos são corresponsáveis pelo bem-estar e segurança da criança. 27 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 4.4.1Atribuições do Agente Comunitário de Saúde • Atender de forma humanizada. • Cadastrar as crianças de sua microárea de atuação, atualizando e monitorando os dados mensalmen- te. • Identificar e encaminhar à Unidade de Saúde os recém-nascidos em situação de risco. • Identificar e discutir junto à equipe a priorização da atenção às crianças expostas a condições de risco biológico ou social. • Acompanhar mensalmente o desenvolvimento da criança, observando os dados registrados na cader- neta de saúde da criança e orientando os responsáveis a fazer a estimulação necessária. • Acompanhar as crianças em risco evolutivo. • Monitorar as crianças que estão com curva de crescimento abaixo do esperado e orientar os respon- sáveis a levar a criança à Unidade de Saúde para acompanhamento. • Acompanhar as crianças com carências nutricionais, conforme orientação da Unidade de Saúde. • Orientar as mães nos cuidados com o recém-nascido. • Orientar cuidados com amamentação, reforçando que deve ser exclusiva até os 6 meses, sem acres- centar água, chá, sucos e a importância do posicionamento correto da criança no berço, evitando a síndrome da morte súbita. • Orientar as famílias sobre como prevenir os acidentes na infância. • Estar atento às condições de vida de cada família, discutindo com esta as dificuldades relacionadas com cuidados de higiene das crianças e do ambiente. • Observar crianças com sintomas de doença respiratória aguda, quanto à evolução e possíveis com- plicações (evitando pneumonia e broncoaspiração) e encaminhando para atendimento na Unidade de Saúde. • Orientar as famílias que moram em condições precárias de higiene para os riscos de agravos e auxi- liar a comunidade orientando-a na prevenção de doenças. • Estar atento aos casos de diarreia e desidratação de sua área. • Orientar as famílias sobre o uso do soro reidratante oral ou o soro caseiro, conforme orientação da Unidade de Saúde. • Intensificar as visitas à família que tem alguma criança acometida por patologia como diarreia, pneu- monia, por exemplo, e orientar os responsáveis para que levem a criança à Unidade de Saúde se houver agravamento dos sinais clínicos. • Comunicar à equipe da Unidade de Saúde todos os casos de doenças infecciosas existentes na co- munidade. • Verificar a situação vacinal de todas as crianças sob sua responsabilidade, orientar as famílias sobre sua importância e realizar o encaminhamento das crianças com vacinas atrasadas à Unidade de Saúde. • Registrar corretamente os dados de acompanhamento na ficha C do Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). • Estar atento às situações de violência doméstica informando o enfermeiro supervisor da Unidade de Saúde para que tome as devidas providências. • Manter a equipe informada quanto a situações de abandono de tratamento ou condutas equivocadas por parte dos sujeitos responsáveis. • Participar em conjunto com a equipe de saúde das ações de prevenção e manutenção da saúde. 4.4.2 Atribuiçõesdo Auxiliar de Enfermagem • Atender de forma humanizada. • Utilizar linguagem acessível e de fácil compreensão para mãe, familiar ou cuidador. • Orientar sobre documentação necessária para cadastro. • Incluir a criança no cadastro familiar. 28 • Captar precocemente crianças recém-nascidas, garantindo a primeira consulta, vacinas, educação em saúde. • Realizar atendimento de enfermagem conforme preconizado. • Identificar sinais clínicos de alerta e fatores de risco, informando ao enfermeiro responsável pela Classificação de Risco. • Registrar e acompanhar a evolução do peso, altura, IMC e perímetro cefálico através de todos os gráficos de crescimento da Caderneta de Saúde da Criança Curitibana, bem como as informações sobre aleitamento materno e alimentação complementar no prontuário eletrônico. • Avaliar situação vacinal, realizar esquema vacinal básico preconizado e registrar as vacinas realizadas na Unidade de Saúde. • Orientar sobre a importância das vacinas. • Realizar busca ativa das crianças com esquema vacinal atrasado e que não compareceram ao programa. • Agendar atendimento de enfermagem, consulta de enfermagem e consulta médica, conforme preco- nizado e quando necessário. • Preencher a Caderneta de Saúde da Criança Curitibana com todos os dados coletados e orientar quanto à importância da conservação da caderneta de saúde. • Orientar sobre a importância do acompanhamento da criança e do comparecimento à Unidade de Saúde ou à consulta especializada, quando for o caso, na data e horário agendados. • Orientar a medicação prescrita. • Orientar a coleta de exames laboratoriais caso sejam solicitados. • Orientar quanto à importância do aleitamento materno, cuidados de higiene e alimentação, higiene do ambiente, situações de risco, importância do sono e repouso, uso de roupas adequadas à temperatu- ra, como evitar acidentes domésticos, importância do estímulo e demonstração de carinho. • Identificar situações de negligência ou de violência contra a criança e acionar o conselho tutelar. • Preencher a ficha de notificação em caso de doenças/agravos priorizados pela Vigilância Epidemio- lógica e Sanitária e da Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente em Situação de Risco para Violência. • Investigar a realização e resultado do teste do pezinho. • Realizar atividades educativas, individual, familiar e em grupo de promoção à saúde e prevenção de doenças. 4.4.3 Atribuições do Enfermeiro • Atender de forma humanizada. • Promover a captação precoce. • Inscrever a criança no Programa de Saúde da Criança. • Realizar consulta de enfermagem de forma sistematizada, contemplando anamnese, exame físico, avaliação de enfermagem, diagnóstico e intervenções de enfermagem. • Realizar a Classificação de Risco conforme o Protocolo de Manchester. • Realizar: - Vigilância nutricional: registrar e acompanhar a evolução do peso, altura, IMC e perímetro cefálico através de todos os gráficos de crescimento da Caderneta de Saúde da Criança, bem como as informações sobre aleitamento materno e alimentação complementar no prontuário eletrônico. - Verificação da situação vacinal. - Investigação e realização do teste do pezinho. - Atenção às doenças prevalentes na infância. - Monitoramento de intercorrências. - Investigação de riscos para acidentes domésticos e possibilidade de negligência à criança. - Notificação de situações de risco ou violência (Rede de Proteção). 29 Diretriz De atenção à saúDe Da criança - Acionamento do Conselho Tutelar. - Orientação sobre: crescimento, desenvolvimento, higiene, alimentação, imunização, eliminações, sono, ambiente, prevenção de acidentes, importância do acompanhamento, tratamento prescrito, coleta de exames, retornos, encaminhamentos. - Agendamento de retorno conforme preconizado. • Registrar todas as informações no prontuário eletrônico. • Programar monitoramento domiciliar de crianças de risco. • Programar e realizar ações educativas de promoção à saúde e prevenção de doenças. • Promover e organizar a busca ativa de faltosos. • Discutir com a equipe sobre condutas em situações de risco. • Capacitar e supervisionar os auxiliares de enfermagem e agentes comunitários de saúde. • Participar na elaboração de estratégias para o bom funcionamento do programa. • Avaliar relatórios da Unidade de Saúde em conjunto com a equipe. 4.4.4 Atribuições do médico • Participar da capacitação da equipe de saúde, das atividades educativas e da elaboração de estraté- gias para o melhor funcionamento da Unidade de Saúde. • Participar em conjunto com a equipe de saúde nas ações de promoção à saúde e prevenção de agravos. • Realizar a consulta médica, que deve englobar: - anamnese - exame físico - avaliação do risco - solicitação de exames complementares a critério clínico - diagnóstico - decisão terapêutica de acordo com a classificação do risco individual - orientações de higiene e nutricional - prescrição medicamentosa • Agendar o retorno do paciente. • Acompanhar a evolução da criança, principalmente nas situações de risco. • Encaminhar para as atividades educativas promovidas pela Unidade de Saúde. • Encaminhar para avaliações com especialistas ou ao serviço de emergência, quando necessário. • Encaminhar para discussão com a equipe as situações que necessitam priorização da atenção e acompanhamento rigoroso - gestão de caso - avaliando-as e desenvolvendo as intervenções neces- sárias. • Registrar todas as informações da consulta e orientação terapêutica no prontuário. • Avaliar os relatórios da Unidade de Saúde em conjunto com a equipe. • Atender consultas de urgência e emergência. • Participar das ações de vigilância epidemiológica. • Registrar e acompanhar a evolução do peso, altura, índice de massa corpórea e perímetro cefálico através de todos os gráficos de crescimento da Caderneta de Saúde da Criança, bem como as infor- mações sobre aleitamento materno e alimentação complementar no prontuário eletrônico. 4.4.5 Atribuições do Auxiliar de Saúde Bucal • Recepcionar e encaminhar os pacientes ao atendimento odontológico. • Auxiliar/instrumentar técnicos em higiene dental e cirurgiões dentistas em atendimento clínico indivi- dual. • Disponibilizar aos pacientes e responsáveis informações sobre dieta não cariogênica. • Orientar higiene bucal. 30 • Estimular hábitos de vida saudáveis na área de saúde bucal e outras. • Informar aos pacientes e responsáveis sobre hábitos bucais deletérios (mamadeira, chupeta, sucção digital e outros). • Reforçar e estimular a amamentação materna exclusiva até 06 meses de idade; desestimular o uso de mamadeiras. • Agendar consultas de acordo com os critérios de priorização do atendimento programado da unidade de saúde. • Dispensar soluções de fluoreto de sódio quando prescritas pelo cirurgião dentista. • Lançar informações no prontuário odontológico dentro da sua competência ou quando solicitado pelo cirurgião dentista. • Realizar controle de infecção na clínica odontológica. • Processar material odontológico de acordo com as normas atuais de desinfecção e esterilização. • Auxiliar atividades de promoção de saúde sob orientação de técnico de saúde bucal ou cirurgião dentista, que incluem a educação em saúde, higiene bucal supervisionada e fluorterapias. • Realizar busca ativa para crianças ou famílias de risco às doenças bucais. • Desenvolver e apoiar práticas de educação em saúde que auxiliem os indivíduos e comunidades na conquista da autonomia, estimulando práticas de autocuidado. • Defender a saúde dos usuários, especialmente no estabelecimento de ações conjuntas e políticas públicas, buscando a diminuição das iniquidades em saúde. 4.4.6 Atribuições do Técnico de Saúde Bucal • Realizar procedimentos individuais de acordocom sua competência, sob supervisão do cirurgião dentista. • Realizar procedimentos coletivos de acordo com sua competência. • Coordenar ações coletivas planejadas pela equipe de saúde bucal. • Realizar atividades de promoção de saúde, que incluem a educação em saúde, higiene bucal super- visionada e fluorterapias. • Orientar e apoiar auxiliares de saúde bucal no desenvolvimento de ações de promoção de saúde. • Lançar informações no prontuário odontológico dentro da sua competência ou quando solicitado pelo cirurgião dentista. • Captar e encaminhar os lactentes ao atendimento odontológico. • Fornecer orientações aos responsáveis pelo lactente sobre dieta não cariogênica. • Fornecer orientações aos responsáveis pelo lactente sobre os riscos dos hábitos de sucção não nu- tritivos (chupeta, dedo). • Realizar busca ativa para crianças ou famílias de risco às doenças bucais. • Reforçar e estimular a amamentação materna exclusiva até 6 meses de idade; desestimular o uso de mamadeiras. • Controlar faltosos classificados como de risco para doenças bucais. • Desenvolver e apoiar práticas de educação em saúde que auxiliem os indivíduos e comunidades na conquista da autonomia, estimulando práticas de autocuidado. • Defender a saúde dos usuários, especialmente no estabelecimento de ações conjuntas e políticas públicas, buscando a diminuição das iniquidades em saúde. 4.4.7 Atribuições do Cirurgião Dentista • Realizar diagnóstico de saúde bucal determinando o risco da criança frente às doenças bucais. • Priorizar as crianças de acordo com os critérios estabelecidos pelo Protocolo Integrado de Atenção à Saúde Bucal. • Planejar o tratamento odontológico individual dentro do contexto familiar para obtenção de uma melhor colaboração do paciente infantil. 31 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Realizar procedimentos odontológicos de acordo com as necessidades de cada criança. • Buscar a atenção da família para os cuidados com a criança visando a estabilização da doença e recuperação da saúde bucal. • Disponibilizar ao paciente e responsáveis informações suficientes para evitar o reaparecimento das doenças bucais preveníveis. • Prescrever fluorterapias quando necessário e em acordo com o Manual de Fluorterapia da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba. • Identificar situações de violência e negligência contra a criança e notificar a Rede de Proteção. • Identificar e preencher ficha de notificação de doenças/agravos priorizados pela Vigilância Epidemio- lógica e Sanitária. • Encaminhar pacientes com necessidade de tratamento especializado dentro dos critérios e fluxos da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba. • Realizar diagnóstico com finalidade de levantamento epidemiológico para fundamentar o planejamen- to das ações coletivas. • Planejar, em conjunto com a equipe de saúde, a atenção coletiva de sua área de abrangência. • Na ausência do técnico de saúde bucal, coordenar essas ações coletivas. • Estimular hábitos de vida saudáveis na área de saúde bucal e outras. • Informar aos pacientes e responsáveis sobre hábitos bucais deletérios ou não nutritivos (mamadeira, chupeta, sucção digital e outros). • Reforçar e estimular a amamentação materna exclusiva até 6 meses de idade; desestimular o uso de mamadeiras. • Lançar informações no prontuário odontológico dentro da sua competência. • Monitorar crianças de risco para doenças bucais ou que sejam integrantes de famílias priorizadas, agendando retorno para manutenções periódicas. • Capacitar e supervisionar auxiliares e técnicos de saúde bucal para a execução de ações individuais e coletivas visando promoção de saúde bucal. • Desenvolver e apoiar práticas de educação em saúde que auxiliem os indivíduos e comunidades na conquista da autonomia, estimulando práticas de autocuidado. • “Advogar” em favor da saúde dos usuários, especialmente no estabelecimento de ações conjuntas e políticas públicas, buscando a diminuição das iniquidades em saúde. 4.4.8 Atribuições dos profissionais dos Núcleos de Apoio em Atenção Primária à Saúde (NAAPS) A atuação conjunta dos profissionais dos Núcleos de Apoio em Atenção Primária à Saúde (NAAPS) com os demais membros das equipes de saúde contribuem significativamente nas ações de prevenção e pro- moção à saúde da criança. Em Curitiba, todas as Unidades Básicas de Saúde contam com a participação do farmacêutico, fisioterapeuta, psicólogo, nutricionista e profissional de Educação Física. Entre suas diversas ações estão: • Desenvolver ações que propiciem a melhoria da qualidade de vida das crianças, a redução dos agra- vos e danos decorrentes das doenças não transmissíveis. • Contribuir na formação de redes de suporte social e possibilitar a participação ativa das crianças na elaboração de diferentes projetos terapêuticos. • Veicular informações que visam a prevenção, a minimização dos riscos e a proteção à vulnerabilidade, buscando a produção do autocuidado nos usuários. • Articular ações, de forma integrada às equipes de atenção básica em saúde, sobre o conjunto de prioridades locais em saúde que incluam os diversos setores da administração pública. • Utilizar recursos da unidade em conformidade com o Núcleo de Apoio em Atenção Primária à Saúde (NAAPS), para enriquecimento das atividades de promoção da saúde. 32 • Propor e executar projetos inovadores que contribuam para o desenvolvimento dos usuários de acor- do com a proposta do NAAPS. • Estudar os processos de avaliação diagnóstica, garantindo a qualidade do atendimento e a efetivação do projeto do NAAPS, em conjunto com as autoridades sanitárias locais. • Participar de encontros, cursos, debates e trocas de experiências, visando o aprimoramento profissio- nal. • Elaborar, executar e avaliar projetos que resultem em ações efetivas na melhoria do processo promo- ção da saúde. • Supervisionar as ações de sua área de atuação, de forma compartilhada e participativa, as atividades desenvolvidas pelas equipes de atenção básica em saúde na comunidade. 4.4.9 Atribuições do Farmacêutico • Planejar e avaliar o suprimento de medicamentos do Programa Saúde da Criança na Unidade de Saúde. • Apoiar as atividades de educação em que envolvam a utilização de medicamentos do Programa. • Acompanhar e avaliar a utilização de medicamentos e insumos. • Realizar seguimento farmacoterapêutico dos usuários do Programa, individual ou coletivamente. • Apoiar os profissionais prescritores quanto a problemas relacionados a medicamentos – efetividade, segurança, interação medicamentosa, adesão ao plano terapêutico entre outros. • Promover o acesso e o uso racional de medicamentos junto à população e aos profissionais, por in- termédio de ações que organizem a prescrição, a dispensação e o uso. 4.4.10 Atribuições do Fisioterapeuta • Realizar consulta fisioterapêutica/atividade coletiva quando necessário e conforme descrito no Proto- colo de Fisioterapia, com o intuito de: - Identificar, avaliar, estimular e acompanhar bebês de risco para o desenvolvimento neuropsicomotor, casos diagnosticados de atraso no desenvolvimento neuropsicomotor e que estejam sob orientação e cuidados na Unidade de Saúde. - Orientar pais e/ou responsáveis e/ou cuidadores quanto aos estímulos necessários para um melhor desenvolvimento neuropsicomotor. - Encaminhar crianças com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor aos serviços de estimulação precoce das Escolas Municipais de Educação Especial ou outra referência, quando necessário. - Avaliar e orientar pais e/ou responsáveis pela criança, quanto aos exercícios respiratórios, limpeza de vias aéreas, cuidados ambientais e uso dos espaçadores nos casos de asma e bronquite. - Atuar na prevenção e tratamento das alterações posturais e musculoesqueléticas. - Orientar e executaratividades que estimulem o desenvolvimento da psicomotricidade para apro- priação da imagem e movimentos corporais. - Orientar individual e/ou coletivamente a reeducação postural. • Orientar equipe da Unidade de Saúde quanto aos fluxos específicos da fisioterapia. • Encaminhar os casos necessários para os serviços prestadores de órtese/prótese/reabilitação ou clínicas credenciadas. • Monitorar e ser referência aos serviços aos quais tenha encaminhado usuários. • Capacitar equipe de saúde e/ou participar de ações coletivas para orientações quanto aos cuidados sobre atividade física, cuidados ambientais e limpeza de vias aéreas superiores nos casos de alterações respiratórias ou para as devidas prevenções. • Apoiar a equipe de saúde nos grupos de lactentes quanto ao desenvolvimento neuropsicomotor e Shantala. • Apoiar as equipes de saúde nos casos específicos da área. 33 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 4.4.11 Atribuições do Nutricionista • Oferecer apoio técnico aos profissionais das Unidades de Saúde em relação às questões específicas da nutrição. • Orientar equipe da Unidade de Saúde quanto aos fluxos específicos da nutrição. • Capacitar a equipe de saúde em questões específicas da nutrição. • Participar de ações coletivas para orientações quanto aos cuidados com a alimentação. • Avaliar, acompanhar e encaminhar para médico especialista do programa (quando necessário), crianças do Programa de Atenção Nutricional a Pessoas com Necessidades Especiais de Alimen- tação. • Realizar as atividades da área de nutrição relacionadas aos Grupos de Reeducação Alimentar, desti- nados a pessoas com excesso de peso. • Realizar atendimento individualizado para crianças com diabete tipo 1. 4.4.12 Atribuições do Profissional de Educação Física • Desenvolver práticas corporais adequadas para a população infantil. • Incentivar a criação de espaços de inclusão social, com ações que ampliem o sentimento de perten- cimento social nas comunidades, através de práticas corporais, atividade física regular, esporte e lazer. • Proporcionar educação permanente em atividade física/práticas corporais e saúde juntamente com as equipes de atenção básica em saúde, sob a forma de coparticipação, acompanhamento supervisionado, discussão de caso e demais metodologias da aprendizagem em serviço, dentro de um processo de educação permanente, • Contribuir para a ampliação e a valorização da utilização dos espaços públicos de convivência como proposta de inclusão social e combate à violência. • Articular parcerias com outros setores da área adstrita, junto com as equipes de atenção básica em saúde e a população, visando o melhor uso dos espaços públicos existentes e a ampliação das áreas disponíveis para as práticas corporais. • Promover ações ligadas à atividade física junto aos demais equipamentos públicos presentes no ter- ritório - escolas, creches, etc. • Identificar profissionais e/ou membros da comunidade com potencial para o desenvolvimento do tra- balho em práticas corporais, em conjunto com as equipes de atenção básica em saúde. • Capacitar os profissionais, inclusive os agentes comunitários de saúde, para atuarem como facilitado- res/monitores no desenvolvimento de atividades físicas/práticas corporais das crianças. • Promover eventos que estimulem ações que valorizem atividades físicas e sua importância para a saúde da população. 4.4.13 Atribuições do Psicólogo • Dar suporte técnico em Saúde Mental às equipes responsáveis pelo desenvolvimento de ações bási- cas de saúde para essa população (apoio matricial). • Compartilhar situações que afetam a saúde mental da criança e sua família, quando possível, com a equipe de saúde local, sendo corresponsável, através de discussões conjuntas de caso, organizando intervenções conjuntas junto às famílias e comunidades em atendimentos conjuntos. • Buscar desenvolver a autonomia das equipes, aumentando, assim, o grau de responsabilização no cuidado às crianças. • Fazer articulações, ou seja, estimular e facilitar o contato direto entre a referência encarregada do caso e o especialista de apoio. • Capacitar as equipes das Unidades de Saúde (em termos de políticas de saúde mental e pedagógicas, voltadas às crianças). • Monitorar intervenções das Unidades de Saúde junto às crianças de promoção de saúde comunitária e de articulação intersetorial. 34 FLuXoGrAmA Do PrimEiro ATENDimENTo DA CriANÇA 35 Diretriz De atenção à saúDe Da criança FLuXoGrAmA Do ATENDimENTo DE ACorDo Com A SiTuAÇÃo DE riSCo 36 37 Diretriz De atenção à saúDe Da criança oriENTAÇÕES PArA o ATENDimENTo 38 39 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 5. oriENTAÇÕES PArA o ATENDimENTo 5.1 ViSiTA DomiCiLiAr A visita domiciliar deve ser realizada pela enfermagem e/ou agente comunitário de saúde nas seguintes situações: • Todos os recém-nascidos de risco ao nascer e, se possível, todos os recém-nascidos da área de abrangência da Unidade de Saúde, na 1ª semana após a alta hospitalar, até no máximo 10 dias de vida. • Crianças de risco que necessitam acompanhamento rigoroso, especialmente as menores de um ano após alta hospitalar e nos casos passíveis de vigilância epidemiológica. • Crianças menores de 1 ano que passaram por consulta no Centro Municipal de Urgências Médicas (CMUM). • Usuários faltosos: crianças que estão com o esquema vacinal atrasado ou que não compareceram a um atendimento agendado na Unidade de Saúde ou em centro de referência/especialidade. • Monitoramento das condições da criança. Objetivos: • Orientar sobre os cuidados básicos com a criança: higiene, amamentação e importância do calendário de imunização. • Estimular o aleitamento materno. • Orientar quanto à necessidade de levar a documentação para a realização de cadastro e acompanha- mento na Unidade de Saúde. • Observar presença de fatores risco ao nascer e/ou fatores de risco evolutivo. • Agendar consulta médica para a criança. 5.2 A CoNSuLTA DA CriANÇA NA uNiDADE DE SAÚDE 5.2.1 Calendário de consultas O cronograma de consultas prevê um acompanhamento obrigatório dos menores de 1 ano com maior frequência, a intervalos mais curtos, devido ao fato dessa faixa etária ser mais suscetível a intercorrências, com manifestações clínicas que podem se agravar rapidamente. De 1 a 3 anos, os intervalos para avaliação médica e de enfermagem tornam-se maiores, e após os 3 anos o espaçamento entre as consultas é progres- sivamente ampliado. Sempre que a criança vier à Unidade de Saúde para atendimento de intercorrência ou rotina devem ser observados todos os aspectos do seu crescimento e desenvolvimento, promovendo uma avaliação integral. A cada atendimento o retorno deve ser agendado. (ver tabela - de Calendário de consultas no 1º Ano de Vida página 40). • A primeira consulta da criança com o enfermeiro deve ocorrer assim que chegar à Unidade de Saúde, independente da situação de risco do recém-nascido. • A primeira consulta do recém-nascido de risco com o médico deve ocorrer o mais precoce possível, idealmente na primeira semana de vida não ultrapassando 48 horas após a consulta do enfermeiro. Em caso de presença de sinais clínicos de alerta, encaminhar imediatamente à consulta médica. • A consulta do recém-nascido não-risco com o médico deve ocorrer até 10 (dez) dias de vida. 40 Calendário de Consultas do 1º Ano de Vida Calendário de Consultas do 1º Ano de Vida M: Consulta médica E: Consulta de enfermagem AE: Atendimento do auxiliar de enfermagem Calendário de Consultas de 15 a 36 meses de vida Consultas médicas: semestrais Consultas de enfermagem: semestrais 5.2.2 Atendimento da criança pelo enfermeiro na unidade de Saúde • Anotar a idade da criança emmeses e dias. • Observar dados do período perinatal na Caderneta de Saúde da Criança Curitibana, com especial atenção aos resultados do teste do olhinho, da orelhinha e do coraçãozinho, para orientação adequada. • Pesquisar as intercorrências desde o último comparecimento. • Pesquisar a queixa principal. • Pesquisar a imunização, alimentação, sono, evacuações, micção, desenvolvimento neuropsicomotor e higiene. • Realizar o exame físico da criança, com especial atenção ao estado geral, nível de atividade, cor da pele, hidratação e padrão respiratório. • Verificar e anotar o peso, altura, perímetro cefálico, temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória e pressão arterial. • Encaminhar à consulta médica, se necessário (presença de risco ou sinais clínicos de alerta). • Proceder à imunização da criança conforme calendário vacinal preconizado, registrando as vacinas aplicadas no prontuário da criança e resgatando as vacinas aplicadas em outros serviços. • Preencher o prontuário, registrando todos os dados coletados na anamnese e exame físico, gráficos de crescimento ponderoestatural e de perímetro cefálico, desenvolvimento neuropsicomotor. Calendário de consultas de crianças de 3 a 9 anos 41 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Preencher a caderneta de saúde da criança com os dados coletados. • Orientar a mãe quanto aos cuidados necessários (importância das vacinas, alimentação adequada, cuidados de higiene e prevenção de acidentes, importância da caderneta de saúde da criança, etc.). • Agendar o próximo retorno, reforçando a importância do comparecimento. 5.2.3 Sinais clínicos de alerta à saúde da criança: • Aspecto toxêmico • Prostração acentuada; letargia ou coma • Irritabilidade ou agitação acentuada • Convulsão • Fontanela anterior abaulada • Sinais de irritação meníngea: rigidez de nuca, sinais de Kernig e Brudzinski • Lesões de pele: petéquias, púrpuras, sufusões hemorrágicas • Desidratação: boca seca, olhos encovados, choro sem lágrimas, turgor de pele diminuído, fontane- la anterior deprimida • Gemência • Batimento de aletas nasais • Estridor laríngeo • Cianose • Apneia • Taquipneia: - Abaixo de 2 meses: FR (frequência respiratória) > 60 rpm (respirações por minuto) - 2 meses a 12 meses: FR > 50 rpm - 1 ano a 5 anos: FR > 40 rpm • Bradipneia • Tiragem intercostal (principalmente subcostal) e retração supraesternal • Febre • Hipotermia: T ≤ 35,7º C • Icterícia (veja capítulo nesse protocolo) • Eritema periumbilical que se estende à pele • Secreção purulenta no umbigo • Desnutrição • Vômitos em grande quantidade • Emagrecimento acentuado • Edema em ambos os pés 5.2.4 Atendimento da criança pelo médico na unidade de Saúde Avaliar à primeira consulta: • Queixas referidas pela mãe e intercorrências. • Condições gestacionais e perinatais. • Presença de risco ao nascer e risco evolutivo; observar resultados dos testes do olhinho, da orelhinha e do coraçãozinho para encaminhamento adequado. • Alimentação: observar dificuldades na amamentação e necessidades de intervenção. • Diurese e hábito intestinal: presença de cólicas e dificuldades para evacuação. • Higiene física: banho diário, condições do coto umbilical, dermatites, piodermites, cuidados com os pertences da criança. • Higiene mental: condições emocionais e ambientais. • Situação vacinal. 42 • Exame físico: estado geral, ganho de peso, altura e perímetro cefálico, frequência cardíaca, frequên- cia respiratória, temperatura, pressão arterial (aferir quando necessário e a partir dos 3 anos de idade anualmente, de rotina); exame da cabeça, palpação das fontanelas e suturas, olhos, implantação das orelhas, otoscopia, exame da orofaringe, pescoço, tórax, abdome, genitália, membros, gânglios, pulsos e perfusão periférica; pesquisa dos sinais de Ortolani e Barlow (avaliar possível displasia congênita de quadril); pesquisa de reflexo luminoso e consensual e do reflexo palpebrococlear. • Desenvolvimento neuropsicomotor: presença de reflexos arcaicos e aquisições psicomotoras. Orientar: • Sobre a condição de saúde da criança, elucidando o diagnóstico à mãe ou responsável, em lingua- gem acessível e de fácil compreensão. • Sobre a importância do aleitamento materno exclusivo, imunização, cuidados com a higiene, sono e desenvolvimento normal da criança. • Para a identificação dos sinais de alerta e que na presença destes, a mãe ou responsável procure a Unidade de Saúde. • Sobre a importância do acompanhamento de puericultura no 1º ano de vida da criança, pela equipe da Unidade de Saúde. • Imunização com a vacina BCG. • Medidas preventivas e terapêuticas, quando necessário: - Prevenção de hipovitaminose A com uso de vitamina A (dose até 1 ano de idade): 1.250 UI/dia (máximo de 6.000 UI/dia). - Prevenção de raquitismo com o uso de vitamina D (dose até 2 anos de idade: 400 UI/dia – máx de 2.000 UI/dia); observar a concentração por gota ou ml da apresentação disponível na Unidade Básica de Saúde. - Prescrição de ferro profilático: Prematuros (< 37 semanas) ou com baixo peso ao nascer (< 2,5 kg): necessi- tam reposição de ferro - a partir do 30º dia de vida deverão receber 2 mg/kg/dia. Se estiverem recebendo leite de fórmula, este fornecerá pouco mais de 1 mg/kg/dia de ferro, portanto deverão receber pelo menos 1 mg/kg/dia adicionais em forma de ferro medicamentoso. A oferta de ferro deverá ser feita até 2 anos de idade. Lactentes em aleitamento materno exclusivo: a partir do 6º mês de vida, 3 a 5 mg de ferro elementar/kg/dia, até os 2 anos. Lactentes em aleitamento artificial sem enriquecimento com ferro: a partir do 4º mês, 3 a 5 mg de ferro elementar/kg/dia, até os 2 anos. • Referências e/ou especialidades, quando necessário. • Retorno semanal para controle de peso, quando necessário. • Estimulação adequada, quando necessária. • Cuidados na prevenção de acidentes. • Importância da construção do vínculo afetivo mãe/cuidador(a) com a criança. Registrar: • As informações obtidas na anamnese e exame físico, orientações e tratamento no prontuário da criança, caderneta de saúde da criança e outros sistemas padronizados. Em cada consulta: Avaliar: • Intercorrências • Alimentação • Diurese e hábito intestinal • Higiene física 43 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Higiene mental • Situação vacinal • Exame físico • Aquisições neuropsicomotoras • Uso da vitamina e/ou outras medidas terapêuticas instituídas anteriormente • Presença de risco evolutivo Orientar: • Medidas terapêuticas necessárias • Conduta alimentar • Cuidados de higiene • Imunização • Estimulação para o desenvolvimento neuropsicomotor • Prevenção de acidentes Registrar: • As informações obtidas na anamnese e exame físico, orientações e tratamento no prontuário da criança, caderneta de saúde da criança e outros sistemas padronizados. Dos 3 anos aos 6 anos e 11 meses de idade: Com a introdução precoce das crianças nas creches e centros de educação infantil, houve um incremento na socialização das crianças e considerável ganho para o seu desenvolvimento cognitivo, neuropsicomotor e afetivo. Por outro lado, o convívio próximo com outras crianças predispõe ao contágio de doenças próprias da infância, o que requer atenção para medidas de prevenção e assistência. A alta prevalência de doenças respiratórias nesta faixa etária ainda está presente e requer muita atenção e cuidado. De rotina, recomenda-se a primeira avaliação oftalmológica até 3 anos de idade. Orientar: • Medidas terapêuticas necessárias • Conduta alimentar • Cuidados de higiene • Imunização • Estimulação para o desenvolvimento psicomotor • Prevenção de acidentes Dos 7 anos aos 9 anos e 11 meses: Nesta faixa de idade amaturidade do sistema imunológico determina mudanças na saúde infantil tornando- se menos frequentes as intercorrências na saúde. As ações da equipe de saúde devem estar voltadas à promoção da saúde, entre elas a prevenção de acidentes, de dificuldades na aprendizagem e de problemas ortopédicos. Orientar os mesmos cuidados citados na faixa etária anterior. 44 45 Diretriz De atenção à saúDe Da criança ASPECToS ESSENCiAiS DA SAÚDE iNFANTiL 46 47 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 6. CrESCimENTo O crescimento ocorre por multiplicação e aumento do tamanho das células do organismo. É determinado por fatores genéticos, apoiados por fatores nutricionais e ambientais e modulados por fatores neuroendócrinos. A avaliação periódica do crescimento permite o acompanhamento do progresso individual da saúde de cada criança identificando aquelas de maior risco, sinalizando precocemente os agravos nutricionais que necessitarão intervenção. 6.1 CrESCimENTo ESPErADo Ao ANo IDADE 1º ano de vida 2º ano de vida 3º e 4º ano de vida Até o início da puberdade CRESCIMENTO 25 cm 15 cm no 1º semestre 10 cm no 2º semestre 10 a 12 cm 7 cm 4 a 6 cm Crescimento esperado ao ano Os períodos de crescimento mais intensos se dão nos dois primeiros anos de vida e na puberdade; nas fases pré-escolar e escolar o ritmo de crescimento habitualmente é menor. IDADE Nos primeiros dias (máximo 1 semana) Entre 10 a 14 dias 1º trimestre de vida 2º trimestre de vida 3º trimestre de vida 4º trimestre de vida Até 12 meses de vida PESO Perda de 5 a 10% do peso de nascimento O peso deve estar próximo ao peso de nascimento Ganho de 20 a 40 gramas/dia ≈ 700g/mês 600g/mês 500g/mês 400g/mês Triplica o peso de nascimento Evolução do peso 6.2 EVoLuÇÃo Do PESo 48 IDADE 1º trimestre de vida 2º trimestre de vida 3º trimestre de vida 2º ano de vida PERÍMETRO CEFÁLICO 2,0 cm/mês 1,0 cm/mês 0,5 cm/mês 0,3 cm/mês Evolução do perímetro cefálico Fonte: Caderno Temático da Criança – Prefeitura do Município de São Paulo – Secretaria Municipal de Saúde. 2003. Pág. 58. 6.3 EVoLuÇÃo Do PErÍmETro CEFáLiCo 6.4 CrESCimENTo Do rECÉm-NASCiDo DE riSCo Os prematuros ( idade gestacional abaixo de 37 semanas) deverão ter seus dados corrigidos de acordo com sua idade gestacional, usando-se como parâmetro para a idade corrigida 40 semanas. Idade corrigida (IC): é a idade pós-natal menos o número de semanas que faltaram para o nascimento a termo, considerando-se a idade de 40 semanas como padrão para o termo. Exemplo de recém-nascido que nasceu com idade gestacional de 32 semanas: IC = 40 – 32 = 8 semanas (≈ 2 meses) Deverão ser descontados 2 meses (8 semanas) na avaliação do crescimento da criança; ou seja, se a criança tem 3 meses de idade cronológica, avaliar seu crescimento como se tivesse 1 mês de idade. Prazos de utilização da idade corrigida: Perímetro cefálico: até 18 meses Peso: até 2 anos Estatura: até 3 anos e 6 meses PESO COMPRIMENTO PERÍMETRO CEFÁLICO 10 a 30 g/dia nas primeiras 20 semanas. 2,5 a 4,0 cm/mês. 1,1 cm/semana, na fase de crescimento rápido. Ganho no crescimento 49 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 6.5 AVALiAÇÃo Do CrESCimENTo As medidas antropométricas básicas são o peso, a altura (comprimento em crianças < 2 anos ou estatura em crianças ≥ 2 anos) e o perímetro cefálico. As medidas devem ser relacionadas com a idade, o sexo ou relacionadas entre si, construindo os índices antropométricos: peso para a idade, altura para a idade, índice de massa corporal para a idade e perímetro cefálico para a idade. • Peso/Idade: permite avaliar qualquer deterioração ou melhora do estado de saúde precocemente, auxiliando na avaliação de processos agudos e alterações importantes em curto período de evolução. • Altura/Idade: por ser cumulativo, progressivo e não sofrer regressões, permite avaliar o estado de saúde crônico; entretanto é relativamente lento e reflete transtornos de longa duração. • Índice de massa corporal/Idade: recentemente tem-se recomendado a utilização do Índice de Mas- sa Corporal (IMC = peso em kg/altura² em metros) para interpretar a relação peso/altura e permitir o diagnóstico de déficit (desnutrição aguda/magreza) ou o excesso (sobrepeso/obesidade) de peso relativamente à altura da criança. Em crianças o IMC varia com a idade e é melhor interpretado em gráficos, de modo semelhante ao peso/idade ou à altura/idade. Atualmente considera-se que o acom- panhamento da curva IMC/idade é uma das ferramentas essenciais na vigilância nutricional e da saúde infantil, especialmente em crianças com sobrepeso/obesidade. A variação do peso ocorre de maneira rápida em função das intercorrências clínicas, sendo por isso um bom indicador de saúde para doença aguda. Para situações crônicas a altura é mais fidedigna. Uma criança com a direção da curva de crescimento ponderal inadequada, mas com boa curva de crescimento estatural, demonstra que houve uma doença recente e de curta duração. Quando ambas as curvas de crescimento, ponderal e estatural, não estão adequadas, pode significar uma enfermidade grave e prolongada. • Perímetro cefálico/idade: é importante para avaliar o tamanho e crescimento do crânio e do cérebro, permitindo a identificação precoce de alterações de volume intracraniano; deve ser acompanhado pelo menos até os 36 meses, sendo que o período de maior crescimento pós-natal da cabeça e do cérebro se dá de 0 a 24 meses. Os parâmetros antropométricos podem ser usados como indicadores, com o estabelecimento de valores críticos (pontos de corte) que permitem situar a criança em uma faixa aceita como normal, de acordo com o padrão de referência de crescimento utilizado (OMS – Organização Mundial de Saúde – 2006 e 2007). 6.5.1 Gráficos de Crescimento Os gráficos permitem uma avaliação dinâmica do crescimento. A variação da normalidade pode ser expressa em escore z ou percentil. Os atuais gráficos apresentam-se utilizando escore Z, que possibilitam uma avaliação mais precisa do agravo nutricional, principalmente quando fora da faixa de normalidade. • Percentil: é a posição ocupada pelo indivíduo em relação ao padrão de referência adotado. Para obter o percentil, os valores da população de referência devem ser ordenados do maior para o menor; em seguida divididos em 100 partes iguais de modo que a posição ocupada por um indivíduo correspon- da a um percentil. O percentil 50 representa a mediana (metade da população está acima da mediana e metade está abaixo). Assim, o percentil 3 por exemplo, significa que 3% das crianças da mesma idade e sexo estão abaixo da medida encontrada, e 97% das crianças estão acima desta medida. • Escore Z : é um método estatístico e mostra a distância/diferença em desvios padrão do valor obser- vado (medida antropométrica da criança) em relação à média desta medida. Cada valor de escore Z tem um valor de percentil correspondente, conforme tabela a seguir: 50 Escore Z -3 -2 -1 0 +1 +2 +3 Percentil 0,1 2,3 15,9 50 84,1 97,7 99,9 Os gráficos utilizados na caderneta de saúde da criança, têm por função principal a conscientização dos pais quanto ao estado e evolução nutricional da criança. É necessário, portanto, que sejam explicados em linguagem acessível aos pais, quanto ao seu valor e à sua interpretação. Devem ser atualizados em todas as consultas da criança e o seu uso constantemente valorizado. Todas as curvas de crescimento devem ser correlacionadas com os dados clínicos característicos e estatura dos pais antes de se fornecer um diagnóstico final a respeito do estado nutricional da criança.A interpretação das curvas de crescimento nos gráficos pode alertar precocemente para a necessidade de ações corretivas que poderão prevenir a ocorrência de desnutrição ou obesidade. Interpretação das curvas de crescimento: Para avaliação do crescimento individual de uma criança devem ser considerados dois aspectos: 1. Na primeira medição, observar a posição da medida aferida (peso, altura, etc.), em relação aos pontos de corte superior e inferior; 2. Nas medições seguintes, observar a posição e também a direção do traçado, ou seja, a tendência da curva de crescimento (ascendente, horizontal ou descendente). BOM PERIGO GRANDE PERIGO ATENÇÃO AO IMC/IDADE Diferente dos índices de peso/idade, altura/idade e perímetro cefálico/idade, o índice IMC/idade não apresenta um padrão ascendente durante toda a infância. Existe uma fase inicial onde o IMC é ascendente até aproximadamente os 6 meses; entre 6 meses e 5 anos o IMC é normalmente decrescente, tornando-se ascendente novamente a partir dessa idade. Como acontece com os outros índices, deve-se anotar os valores de IMC a cada idade e o traçado deve acompanhar as linhas do gráfico, dentro de um canal de crescimento adequado para cada criança; mudanças de canal de crescimento podem indicar problema. Os limites estabelecidos ou pontos de corte são: 51 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Crianças de 0 a 9 anos e 11 meses: • Para a relação peso/idade: Pontos de corte Diagnóstico Nutricional < Escore-z -3 Muito baixo peso para a idade ≥ Escore-z -3 e < Escore-z -2 Baixo peso para a idade ≥ Escore-z -2 e ≤ Escore-z +2 Peso adequado para a idade (normal) > Escore-z +2 Peso elevado para a idade* * Este não é o índice antropométrico mais recomendado para a avaliação do excesso de peso entre crianças. Avalie esta situação pela interpretação do IMC/ idade. Pontos de corte Diagnóstico Nutricional < Escore-z -3 Muito baixa estatura para a idade ≥ Escore-z -3 e < Escore-z -2 Baixa estatura para a idade ≥ Escore-z -2 Estatura adequada para a idade * Uma criança classificada com estatura para idade acima do percentil 99,9 (Escore-z +3) é muito alta, mas raramente corresponde a um problema. Contudo, alguns casos correspondem a desordens endócrinas e tumores. Em caso de suspeitas dessas situações, a criança deve ser referenciada para um atendimento especializado. • Para a relação estatura/idade: Crianças de 0 a 4 anos e 11 meses: • Para a relação IMC/idade: Pontos de corte Diagnóstico Nutricional < Escore-z -3 Magreza acentuada ≥ Escore-z -3 e < Escore-z -2 Magreza ≥ Escore-z -2 e ≤ Escore-z +1 Eutrofia (normal) > Escore-z +1 e ≤ Escore-z +2 Risco de Sobrepeso > Escore-z +2 e ≤ Escore-z +3 Sobrepeso > Escore-z +3 Obesidade Padrão de Referência: OMS, 2007. Padrão de Referência: OMS, 2006 e 2007. Padrão de Referência: OMS, 2006 e 2007. 52 Crianças de 5 a 9 anos e 11 meses: • Para a relação IMC/idade: Pontos de corte Diagnóstico Nutricional < Escore-z -3 Magreza acentuada ≥ Escore-z -3 e < Escore-z -2 Magreza ≥ Escore-z -2 e ≤ Escore-z +1 Eutrofia (normal) > Escore-z +1 e ≤ Escore-z +2 Sobrepeso > Escore-z +2 e ≤ Escore-z +3 Obesidade > Escore-z +3 Obesidade Grave Padrão de Referência: OMS, 2007. Pontos de corte Diagnóstico Nutricional < Escore-z -2 PC abaixo do esperado ≥ Escore-z -2 e < Escore-z +2 Normal > Escore-z +2 PC acima do esperado • Para a relação perímetro cefálico / idade (0 a 36 meses): Em crianças que apresentam curvas de crescimento insatisfatórias deve ser investigado: • Nutrição: avaliar ingesta de nutrientes, rotina alimentar, número e qualidade de refeições ao dia. • Doenças subjacentes: pesquisar presença doenças infecciosas ou parasitárias crônicas, alergia à proteína do leite de vaca, doença celíaca, fibrose cística ou outras doenças disabsortivas, anemia, infecção urinária assintomática, doenças hepáticas, renais, metabólicas, neurológicas e genéticas. A investigação pode ser de relativa complexidade. Algumas crianças podem apresentar uma curva de ganho ponderoestatural inadequada coincidindo com o afastamento da mãe que retorna ao trabalho; este é um período crítico onde há inserção da criança na creche em período integral, às vezes com interrupção do aleitamento materno, transição da dieta, exposição da criança ao contágio de doenças infecciosas, principalmente de doenças respiratórias. Tantas mudanças na rotina da criança exigem um esforço de adaptação que demanda alterações no gasto energético, repercutindo no seu ganho ponderoestatural. O perfil genético também pode determinar alterações no comportamento da curva, onde após alguns meses a criança estabiliza, tornando-se novamente ascendente na sua evolução. Padrão de Referência: OMS, 2007. 53 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 6.6 iDENTiFiCAÇÃo DoS DiSTÚrBioS DE CrESCimENTo A utilização de gráficos de crescimento é o mais eficiente método de avaliação do crescimento da criança, sendo um instrumento valioso na identificação precoce dos distúrbios do crescimento. Estes gráficos permitem a avaliação dinâmica da estatura, o perímetro cefálico e o índice de massa corporal, com a visualização da evolução do crescimento pelo traçado obtido ao longo do tempo – talvez o indicador mais sensível da saúde global da criança. Várias doenças, incluindo todos os aparelhos e sistemas orgânicos (digestório, respiratório, neuroendócrino, cardíaco, renal) afetam o crescimento infantil, e muitas vezes uma curva de crescimento insatisfatória pode ser o primeiro sinal de sua presença. Dentre as doenças, duas relacionadas à nutrição (e nitidamente identificadas com o uso do gráfico de crescimento) são as mais prevalentes: a desnutrição e a obesidade (abordadas nos capítulos 11.7 e 11.8). Referências bibilográficas: 1. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Protocolos do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional – SISVAN na Assistência à Saúde. Série B. Textos Básicos de Saúde. Brasília – DF, 2008. 2. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Orientações para a Coleta e Anáslise de Dados Antropomátricos em Serviços de Saúde. Brasília - DF, 2011. 54 55 Diretriz De atenção à saúDe Da criança DESENVoLVimENTo 56 57 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 7. DESENVoLVimENTo Segundo Mussen et al (1995) o desenvolvimento compreende mudanças nas estruturas físicas e neu- rológicas, cognitivas e comportamentais que emergem de maneira ordenada e são relativamente duradouras; normalmente estas mudanças resultam em maneiras novas e aprimoradas de reagir e o comportamento se torna cada vez mais saudável, organizado, complexo, estável, competente ou eficiente. A criança passa por estágios no processo de desenvolvimento que é contínuo e segue em direção à maturidade, como o progresso do sustentar a cabeça ao andar, do balbucio à fala, do pensamento concreto ao abstrato. O desenvolvimento depende da maturação (mielinização) do sistema nervoso. A aprendizagem neuropsico- motora se estabelecerá principalmente ao longo da infância, podendo sofrer a influência de fatores nutricionais, genéticos e ambientais. Para uma melhor compreensão do desenvolvimento é necessário a abordagem dos aspectos que avaliam os padrões universais, as diferenças individuais e culturais. Um ambiente sócio-afetivo com estimulação adequada à criança é fundamental para o progresso psicomotor nos primeiros anos de vida. Os instrumentos com os quais a criança entra em contato devem ser adequados à sua faixa etária, podendo ser improvisados e variados às diferentes funções que possam exercer.Além disso, todos os processos de cognição perpassam pela estabilidade emocional que um ambiente seguro e estável pode proporcionar. A aquisição de habilidades possui variabilidade, devendo a avaliação global da criança sobrepor-se à avaliação de um único aspecto do seu desenvolvimento. Frente à detecção de dificuldade de aquisição de determinada habilidade, os pais ou cuidador(a) deverão ser orientado quanto à necessidade de estimulação; na persistência e evolução progressiva do déficit de desenvolvimento, a criança deverá ser encaminhada à referência de risco, quando necessário (vide critérios de risco para o desenvolvimento). Segundo Dargassies, cada etapa do desenvolvimento envolve determinadas aquisições, consideradas pontos fundamentais que devem servir de alerta para os profissionais de saúde. Do nascimento aos 3 anos de vida: Até o final do 3º mês de vida: • O bebê sorri, respondendo à conversa quando solicitado. • Consegue sustentar a cabeça. • Jogo das mãos: descobre suas mãos e começa a brincar com elas, gosta de levá-las à boca. • Fixa e acompanha com os olhos o objeto que lhe interessa. • Pode virar a cabeça para o lugar de onde vem o som. Dos 3 aos 6 meses: • Atividade dos membros superiores mostrando interesse por objetos: busca objetos estendendo as mãos e tenta segurá-los; leva-os à boca, passa-os de uma mão à outra. • Reforço do tônus muscular ao nível do tronco: vira-se sozinho, rola na cama; senta com apoio, pode se apoiar nos antebraços e mãos. • Hipotonia dos membros: seus braços e pernas tornam-se mais flexíveis; descobre seus pés, brinca com eles e leva-os à boca. • Acompanha com os olhos os objetos. • Localiza de onde vem o som: quando ouve uma voz procura-a com o olhar. Nesta fase, as crianças localizam sons somente no eixo horizontal. São incapazes de identificar se a origem do som está acima ou abaixo de sua cabeça. • A vocalização nos primeiros seis meses de idade não significa que a criança que a criança escuta. Este período assinala o início da fase cortical do desenvolvimento, ausência de memória dos reflexos primários, com mudança significativa do tônus muscular. A criança sente prazer em emitir e ouvir seu próprio som e pode ficar muito tempo neste exercício. 58 Dos 6 aos 9 meses: • Adquire a postura de sentar sem apoio. • Reações de equilíbrio de defesa: usa os braços e as mãos para se equilibrar. • Desde os 9 meses a preensão tipo pinça, “tesoura”: segura objetos com 3 dedos, usando o polegar; olha-os atentamente, passa um objeto de uma mão à outra. • Afetividade seletiva: expressa suas emoções, demonstrando se está alegre, zangado ou triste; brinca de esconde-achou. É o período em que o médico pode ter dificuldade em examinar a criança; reconhece o rosto da mãe entre os demais e pode reagir à sua ausência com angústia pela sua perda – “angústia do 8º mês” (Spitz); tem medo de “perder” a mãe; gosta de ficar com quem conhece e pode estranhar as pessoas. Dos 9 aos 12 meses: • Balbucia monossílabos e inibe-se com o “não”. • Posição ortostática: no início levanta-se e consegue ficar de pé com apoio; posteriormente, já fica em pé sozinho. • Pode engatinhar pela casa e tentar dar os primeiros passos. • Acompanha com os olhos objetos em qualquer postura. • Localiza de onde vem o som em qualquer direção. O quarto trimestre constitui um período decisivo; a partir daí a evolução do desenvolvimento neurológico poderá tomar um sentido para anormalização ou para a fixação dos sinais patológicos. idades críticas no 1º ano de vida: 3, 8 e 10 meses de vida. Dos 12 aos 36 meses As experiências sociais adquiridas, controle dos esfíncteres, andar e falar propiciam maior autonomia; estas aquisições porém também são áreas vulneráveis e podem regredir diante de uma problemática emo- cional mais intensa. De 1 ano a 1 ano e 5 meses: • Muito curioso, o bebê quer explorar tudo no ambiente, pegando, puxando, empurrando e jogando objetos; tenta subir nos sofás, camas e cadeiras. • Já pode andar sozinho e sobe escadas com ajuda. • Compreende bem o que lhe dizem, mas fala poucas palavras; repete sons de animais que conhece, comunica-se por gestos, mostra partes de seu corpo. • Continua a observar e sentir a qualidade das coisas: cor, forma, tamanho, textura, temperatura, peso, som, cheiro e sabor; tem maior controle das mãos e do corpo. Começa a aprender a usar mais a colher. • Começa a resistir a ordens simples. De 1 ano e 6 meses a 2 anos: • Pode começar a associar duas palavras, construindo frases simples, pedindo as coisas pelo seu nome. • Começa a compreender proibições simples. • Sobe e desce escadas em pé, com o auxílio de um adulto; sobe em bancos, cadeiras e sofás. • Já sabe levar a colher à boca, tomar no copo sozinho. • Quer afirmar sua independência - geralmente é “do contra”. 59 Diretriz De atenção à saúDe Da criança De 2 anos a 2 anos e 6 meses: • Domina melhor o seu corpo; é capaz de correr e subir escadas, segurando no corrimão, pula sozinho com os dois pés. • Leva a colher à boca, come sozinho. • Pergunta tudo e aprende muitas palavras, começa a juntá-las, construindo frases simples. • Sabe o seu nome, o de seus pais, irmãos, avós. • Sabe mostrar partes de seu corpo. • Aos poucos pode começar a controlar os esfíncteres anal e vesical, avisando antes de urinar e evacuar. De 2 anos e 6 meses a 3 anos: • Sabe subir e descer escadas sozinho, anda na ponta dos pés, salta pequenos obstáculos. • Movimenta bem seus braços, sabe pegar uma bola jogada para ele; começa a se vestir e calçar sozinho. • Fala muitas palavras, construindo frases maiores, entendendo e respondendo perguntas simples. • Tem maior capacidade de observação e atenção; utiliza mais seu pensamento para resolver problemas e desenvolve sua criatividade. • Começa a prever a consequência das coisas que faz. • Identifica em retratos pessoas da família e conhecidos, aprende a notar melhor a diferença entre as coisas. • Surgem novos sinais de independência, demonstra resistência a limites; ainda não domina suas emoções e pode apresentar crises de birra. • Identifica as cores principais: vermelho, azul, amarelo, verde. Dos 3 anos aos 7 anos: A vida social torna-se mais organizada e o jogo simbólico (brincar de bonecas, por exemplo) tem a fun- ção de aprender normas culturais, repetir a maternagem recebida, elaborar conflitos vivenciados ou realizar desejos insatisfeitos. De 3 a 5 anos: • Chuta uma bola, pedala triciclo. • Fala de forma clara e compreensível o que quer. • Sabe vestir e tirar sua roupa e calçados. • Compartilha as suas brincadeiras com outras crianças. • Brinca imitando seus pais e as situações do dia-a-dia. • Conta história simples e canta uma canção. • Pergunta por quê, quando. • Lava e enxuga as mãos. De 5 a 7 anos: • Controla totalmente os esfíncteres anal e vesical. • Toma banho e veste-se sozinha. • Canta, conta histórias. • Escreve seu nome, copia vogais. • Recorta e cola. • Copia vogais e é capaz de dar seu endereço. • Aprende a andar de bicicleta. Dos 7 anos aos 10 anos: • Lê e escreve. • Conhece as horas, sabe ler o relógio. • Tem interesse por grupos de amigos e situações independentes da família. • Podem aparecer as primeiras transformações do corpo, indicando que está na puberdade 60 7.1 CriTÉrioS DE riSCo PArA o DESENVoLVimENTo NEuroPSiComoTor Todo recém- nascido que pertença ao grupo de risco para o desenvolvimento neuropsicomotor deverá ser encaminhado a um dos centros de referência para o bebê de risco e vinculada a este, sem perder o vínculo com a Unidade de Saúde. O acompanhamento pelo centro de referência deve contemplar atendimento multidisciplinar especializado, com avaliação de Neuropediatria, Oftalmologia e avaliação auditiva. A identificaçãodos critérios relacionados abaixo indicam a necessidade de encaminhamento para os centros de referência: • Peso ao nascer inferior a 1500 g. • Índice de Apgar menor que 7 no 5º minuto de vida. • Criança egressa de UTI Neonatal. • Prematuridade – idade gestacional abaixo de 34 semanas. • Asfixia perinatal com manifestações clínicas e laboratoriais. • Convulsões neonatais. • Icterícia com níveis críticos com ou sem indicação de exossanguineotransfusão. • Insuficiência respiratória com necessidade de oxigenação por mais de 3 dias. • Infecções congênitas: toxoplasmose, sífilis, rubéola, citomegalovírus, herpes e HIV. • Infecções: sepse, meningite, enterocolite necrosante ou outras. • Policitemia ou anemia sintomáticas. • Síndromes genéticas com sinais neurológicos. • Alterações neurológicas no exame clínico. • Lesões que possam comprometer o desenvolvimento neuropsicomotor. • Hemorragia do sistema nervoso central – ecografia, tomografia axial computadorizada ou ressonância magnética patológica. Peso ao nascer menor ou igual a 1500g, Apgar no 5º minuto de vida menor que 7 e egressos de UTI Neonatal são fatores sinalizados na Declaração de Nascido Vivo, nas fichas de Notificação de Alta Hospitalar em Menores de Um Ano e nas consultas que a criança venha a fazer na Unidade Básica de Saúde. 7.2 SiNAiS DE ALErTA DE DiSFuNÇÃo NEuromoTorA • Olhar pouco expressivo, vago, pouco interesse pelo ambiente. • Comportamento estereotipado, carência de movimentos ou movimentação excessiva e desorganizada; ausência de evolução motora apesar de adequada estimulação psicoafetiva. • Não sustenta a cabeça, controle e alinhamento pobres da cabeça depois dos quatro meses de idade. • Ausência de sorriso social ou sorriso social pobre. • Irritabilidade ou choro extremos, não sorri aos três meses. • Hipotonia: dificuldade para se manter nas posturas, de acordo com sua faixa etária, não senta sem apoio aos 8 meses, “postura de sapo” dos membros inferiores. • Hipertonia: pernas ou braços rígidos pelo aumento do tônus, dificuldade de repousar o corpo sobre uma superfície de suporte ou pela pobreza/dificuldade de realizar movimentos ativos ou passivos; pés equinos, com dedos dos pés em garra, mãos persistentemente fechadas, rotação interna dos braços, tendência a entrecruzar os membros inferiores (postura das pernas em tesoura). • Extensão incompleta do quadril, com ângulo poplíteo permanecendo em 90º, mantém as pernas fle- xionadas. • Persistente elevação da cintura escapular, ombros para a frente ou retração escapular. 61 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Hiperextensão da cabeça e pescoço, no colo ou quando sentado tenta constantemente se jogar para trás. • Usa somente um lado do corpo ou apenas os braços para se arrastar. • Dificuldade de alimentação devido a sucção e deglutição deficientes, projeção da língua, reflexo de vômito exacerbado. 7.3 SiNAiS DE ALErTA PArA DiSTÚrBioS ViSuAiS • A criança pisca mais que o usual. • Apresenta lacrimejamento excessivo. • Esfrega os olhos frequentemente. • Apresenta estrabismo quando olha para objetos distantes. • Franze o rosto frequentemente ou inclina a cabeça para um lado. • Fecha ou cobre um olho persistentemente. • Segura os objetos muito próximos ao rosto. • Demonstra desconforto significativo à luz forte. • Tem as pálpebras avermelhadas ou as fecha. • Desenvolve frequentemente inflamações nas pálpebras. • Queixa-se de dor nos olhos. 7.4 SiNAiS DE ALErTA PArA DEFiCiÊNCiA AuDiTiVA 4 meses: Criança não acorda ou não se mexe em resposta à fala ou barulho, logo que começa a dormir em um quarto tranquilo. 4 a 5 meses: Criança não vira a cabeça ou os olhos para a fonte sonora lateral (não pode ser dada nenhuma pista visual). 6 meses: Criança não se vira propositadamente em direção à fonte sonora (sem pista visual). 8 meses: Não tenta imitar os sons feitos pelos pais*. 8 a 12 meses: Perda da variedade na melodia e sons durante a silabação. 12 meses: Sem entendimento aparente de frases simples (não pode envolver pistas visuais/gestuais ou experiências anteriores do que foi solicitado). 2 anos: Fala pouco ou fala ausente. 3 anos: Fala na maior parte ininteligível, muitas omissões de consoantes iniciais, criança não usa frases com 2 a 3 palavras e fala principalmente vogais. 5 anos: O final das palavras está sempre faltando. * Até aproximadamente os 6 meses uma criança surda emite os mesmos sons que uma criança normal, vocaliza livremente e aumentará sua emissão quando a mãe estiver presente. São respostas indicadoras de desenvolvimento social, não necessariamente de sua habilidade de ouvir. As alterações de linguagem começam a surgir por volta de 8 meses devido à ausência de resposta do aparelho auditivo. 62 Referência bibliográfica: 1. Mussen PH, Conger JJ, Kagan I Huston AC. Desenvolvimento e personalidade da criança. 3ª ed. Traduzido por Rosa MLGL. São Paulo: Herbera; 1995 63 Diretriz De atenção à saúDe Da criança CUIDADOS NA SAÚDE DA CRIANÇA 64 65 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 8. CUIDADOS NA SAÚDE DA CRIANÇA 8.1 CUIDADOS BÁSICOS A equipe de saúde deve desenvolver com os pais ou responsáveis ações de educação em saúde, voltadas para a promoção da saúde da criança. Estas atividades podem ser individuais ou em grupos, antes ou após o atendimento de enfermagem, consulta médica ou odontológica, ou mesmo em calendários específicos à necessidade da clientela e dis- ponibilidade da equipe. Temas a serem abordados: • Importância da afetividade. • Alimentação com ênfase ao aleitamento materno. • Imunização. • Estimulação para o desenvolvimento neuropsicomotor. • Higiene pessoal e ambiental. • Cuidados com a saúde bucal. • Prevenção de acidentes na infância. • Prevenção de doenças e maus tratos. O primeiro ano de vida é de grande importância e o mais sensível da vida do ser humano. Cada estágio da infância é um período precioso que exige atenção e cuidados específicos, para que o poten- cial de desenvolvimento possa ser atingido. As condições nutricionais, genéticas e ambientais poderão determinar o padrão de respostas da criança nos níveis neurológico, imunológico, endocrinológico e comportamental. A individualização do pequeno paciente, particularizando a sua realidade cultural e sócio-econômica deve estar sempre presente na atenção dispensada, promovendo efetivamente a sua saúde. 8.2 HIGIENE FÍSICA A higiene ganha relevância no enfrentamento e combate às doenças infecto-contagiosas e nunca deve ser esquecida como ponto importante a ser abordado pela equipe de saúde. O sistema imunológico ainda em formação predispõe a criança a infecções que poderiam ser evitadas com a simples lavagem das mãos antes do manuseio do bebê. A cultura familiar e da comunidade a que se pertence muitas vezes é um em- pecilho à mudança de hábitos; a educação pelo convencimento, conquistada pelo vínculo estabelecido entre o profissional de saúde e o(a) cuidador(a) será capaz de transformar hábitos nocivos em aprendizagem e mudanças de comportamento. Entre as orientações quanto à higiene, abordar: • Lavagem das mãos antes do manuseio da criança e de seus pertences. • Limpeza com água e sabão e enxague adequado dos pertences da criança, vestuário, fraldas, chupe- tas, mamadeiras (quando em uso), talheres, louças. • Limpeza adequada do ambiente. • Cuidados com o banho, com uso de sabonete neutro. • A contra-indicação do uso de talco. • Uso de pomada à base de óxido de zinco e vitamina A na prevenção de assaduras. 66 8.3 SAÚDE BUCAL Indicadores revelam que a saúde bucal das crianças de Curitiba apresenta-se acima da média nacional. Apesar disso precisamos consolidar o êxito na prevenção e tratamento de doença cárie. Ao mesmo tempo os índices de fluorosetambém merecem atenção, pois o uso da água fluoretada associado ao mau uso dos cremes dentais pelas crianças alertam para a necessidade de ações de educação em saúde na área da saúde bucal. Assim como os profissionais da odontologia devem ver o indivíduo como um todo, os profissionais mé- dicos e de enfermagem precisam dar o devido valor à saúde bucal dos seus pacientes. A boca faz parte de um organismo que por vezes tratamos de maneira segmentada, trazendo consequências nocivas à saúde. Um agravo de saúde nos dentes ou na boca traz repercussões gerais à saúde geral do indivíduo como qualquer outro órgão do organismo humano. Portanto, a prevenção e a promoção da saúde bucal de nossas crianças são fundamentais, e a participação das equipes médicas e de enfermagem pode garantir qualidade de vida de modo integral. Como são os médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem os primeiros a receber a gestante e o bebê nas Unidades de Saúde, eles poderão incluir no seu rol de procedimentos e orientações, considerações sobre saúde bucal. Esta ação pode ser feita por toda equipe de saúde, em conjunto ou não com a equipe de odontologia. A saúde bucal da mãe tem influência direta sobre a saúde bucal e geral do bebê. Até mesmo o parto prematuro e o baixo peso ao nascer são relacionados com doenças bucais da gestante. Por isto, o momento mais adequado para iniciar as orientações sobre saúde bucal é o mais precoce possível, como um dos temas de orientação às gestantes e, a seguir, na puericultura. As informações devem ser voltadas para o seu cuidado pessoal desde o início da gestação, reforçando as orientações sobre os cuidados com a saúde bucal do bebê já nos seus primeiros meses de vida, mesmo antes da erupção dos primeiros dentes. Este momento deve ocorrer independente da existência de alguma doença bucal. Mesmo que o bebê seja hígido a mãe deve receber as primeiras orientações. São muitos os aspectos da saúde bucal que são abordados nestes contatos com o bebê e a mãe. As principais orientações devem conter: • Hábitos de alimentação saudável que podem diminuir o risco à cárie e promover um correto desen- volvimento dos músculos, ossos, dentes e demais estruturas da face. • Estímulo à amamentação no seio para o correto desenvolvimento orofacial. • Desestímulo à amamentação com mamadeiras. • Desestímulo ao uso de chupetas. • Hábitos de higiene bucal que podem controlar a placa bacteriana evitando a cárie e outras doenças bucais. • Uso correto do flúor que é grande coadjuvante no combate à cárie, mas que em excesso pode provo- car a fluorose dentária. • A contaminação e a transmissibilidade da cárie dos familiares para o bebê, etc. Serão estas informações, oferecidas no momento certo, que nortearão uma saúde bucal adequada para o bebê, futura criança, adolescente e adulto. Importa salientar que os hábitos alimentares, de higiene e de saúde são incorporados pelo indivíduo mais facilmente até o terceiro ano de vida. 8.3.1 Higienização Bucal • Nos bebês deve ser realizada até mesmo antes da erupção do primeiro dente, com o auxílio de uma gaze ou tecido macio, embebido em água limpa. • Introduzir o uso da escova dental assim que o primeiro dente eruptar realizando a higiene bucal após as refeições, sendo a escovação da noite a mais importante e completa. A escova dental deve ser de cabeça pequena e de cerdas macias (não usar panos, gazes ou dedeiras a partir desta fase). 67 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • O uso de dentifrício deve ser controlado por um adulto. • Até os 4 anos de idade a quantidade utilizada não deve exceder 2 tufos de cerdas dentais da escova ou o equivalente a um grão de arroz, 1 vez por dia. Apenas uma das escovações do dia deve ser com dentifrício, exceto em casos específicos em que um cirurgião-dentista oriente de outra forma. • A partir dos 5 anos de idade pode-se utilizar a técnica transversal de colocação de dentifrício na escova que equivale à quantidade de um grão de ervilha. Estimular a criança a cuspir a espuma após as escovações. • A escovação deve contemplar cada face dos dentes, escovando dois dentes de cada vez permanecendo alguns segundos em cada face antes de mudar de posição. Lembrar que a escova limpa o lado de fora, o de dentro e onde mastiga. Os espaços entre os dentes só conseguem ser limpos pelo fio ou fita dental. • Deve-se usar fio ou fita dental na escovação da noite; na impossibilidade, orientar uso de linha de costura. • O adulto deve escovar os dentes da criança pelo menos uma vez ao dia, de preferência à noite, colo- cando-se atrás da criança; com uma das mãos afasta os lábios e bochechas da criança, e com a outra, escova os dentes. • É importante salientar que até os 6 anos de idade a criança não tem coordenação motora suficiente para realizar uma higiene bucal adequada sem o auxílio de um adulto. 8.3.2 Intercorrências na saúde bucal Entre as principais intercorrências na saúde bucal das crianças estão a cárie, a gengivite, o mau posiciona- mento dentário e traumas na boca com fraturas dentais. O manejo adequado e precoce destas intercorrências pode reduzir significativamente o comprometimento e a perda dentária. A causa mais comum de traumatismos dentofaciais são os acidentes em casa ou na escola, práticas espor- tivas e crises convulsivas. Se houver fratura ou avulsão do dente deve-se colocar o fragmento em recipiente com leite ou soro fisiológico, à temperatura ambiente; a criança e o fragmento devem ser encaminhados o mais rápido possível ao dentista. Há evidência de que atendimentos ao trauma dental em até uma hora têm maior chance de sucesso. Se houver história de choque violento, sem fratura aparente mas apenas mobilidade do dente, ainda assim a criança deve ser encaminhada ao dentista para afastar fratura de raiz dentária. Qualquer mancha branca observada nos dentes da criança merece atenção especial. Estas manchas podem ser provocadas por excesso de flúor nos primeiros anos de vida mas pode também ser um sinal de cárie aguda. As crianças com manchas dentais sempre devem ser encaminhadas para a equipe de saúde bucal. A falta da amamentação ao seio, o uso de chupetas e mamadeiras além de problemas respiratórios crônicos (rinites, adenóides, etc), são as principais causas dos problemas oclusais (dentes tortos). O manejo adequado destes problemas contribuirá significativamente para a saúde bucal da criança. O aspecto da gengiva da criança também merece atenção. Uma gengiva sadia deve ter cor rósea clara e textura de casca de laranja. Gengivas de cor vermelha escura, edemaciadas, com textura lisa e que sangram com facilidade provavelmente indicam uma gengivite. 68 8.4 SAÚDE MENTAL A regularidade nas ações desempenhadas com a criança proporcionarão segurança e conforto à mesma; dessa forma, o banho diário deve ocorrer preferencialmente em determinado horário, acompanhado de um diálogo mãe-filho, verbal ou não, assim como as trocas de fralda e a amamentação. Estes são momentos privilegiados de interação com a mãe (ou cuidador). A higiene mental, com a adequada estimulação, permeada pelos vínculos afetivos, familiais ou não, é primordial para o ótimo desenvolvimento e aquisição de padrões psíquicos, emocionais e comportamentais saudáveis. 8.4.1 Orientações para mães/cuidadores Do nascimento aos 3 meses: O bebê precisa sentir-se calmo e seguro depois do esforço do parto. Se puder, a mãe deve amamentá- lo na primeira hora de vida e falar com ele logo ao nascer. Nos primeiros dias ele aprende essencialmente pelo toque e pelos olhos; por isso, deve-se aconchegá-lo e conversar com ele olhando-o nos olhos. Não se deve permitir que fumem perto do bebê. Seu sono deve ser respeitado, colocando-o em lugares calmos e arejados da casa. Barulhos fortes e ruídos o assustam muito. Cantar e falar suavemente com o bebê lhe traz tranquilidadee estimula sua audição. O banho, as trocas de fralda e as mamadas são bons momentos para vivenciar a troca de carinho. Aconchego e leite materno são os melhores coisas para o bebê. O colo da mãe e o contato humano são muito importantes para o seu desenvolvimento e ele não ficará mal acostumado. Sentir-se protegido é fundamental para ele. É importante descobrir e aceitar seus horários e a quantidade de leite que o satisfaz. Nos primeiros meses o bebê pode acordar algumas vezes à noite para mamar, mesmo mamando bem durante o dia; posteriormente ele vai espaçar cada vez mais as mamadas noturnas. Nesse início pode haver cólicas e a mãe deve ser orientada a tirar suas dúvidas com a equipe de saúde. De 3 a 6 meses: O bebê deve ser ajudado a conhecer o mundo. A estimulação é tão necessária quanto os cuidados com a higiene e a alimentação. Deve-se ajudá-lo a ficar em posições diferentes, evitando deixá-lo sempre deitado, colocando-o de bruços quando acordado, sem forçá-lo demais, mostrando brinquedos coloridos. Para brincar, oferecer-lhe objetos grandes e leves, brinquedos macios, de diferentes texturas, de tecidos lisos e ásperos. Tiras de pano, fitas coloridas ou objetos brilhantes podem ser pendurados perto dele. Ele gosta muito de música e as cantigas de ninar são uma ótima maneira de acalmá-lo. Pode-se passear com ele e deixar que participe cada vez mais da vida da família. O bem-estar da criança é fundamental; por isso, nada de lugares barulhentos ou com muita gente. Mostrar alegria com os seus progressos faz com que a criança se sinta segura e amada, desenvolvendo-se melhor. De 6 a 9 meses: Colocá-lo sentado entre almofadas, pois ele ainda pode cair no início desse trimestre. Dar-lhe um espaço seguro para que possa se movimentar livremente, evitando deixá-lo muito tempo no mesmo lugar. Ao seu redor pode-se deixar brinquedos e objetos de cores, tamanhos, texturas e formas diferentes. Ele adora brincar com uma bola. Várias atividades podem ser desenvolvidas como conversar, mostrando cada coisa e falando a respeito dela, brincar de esconde-esconde, cantar, bater palmas. Não forçá-lo a ficar com estranhos, pois nessa fase o bebê pode apresentar a “reação de estranhamento”. A “angústia de separação” da mãe pode se fazer evidente, com grande dificuldade de afastamento dela; é uma fase passageira que costuma preocupar a mãe/cuidador(a). Assegurando à criança um ambiente afetivo, estável e seguro, ela vai se organizando emocionalmente e incorporando novas aprendizagens, superando as dificuldades. 69 Diretriz De atenção à saúDe Da criança De 9 a 12 meses: Pode-se ajudá-lo a ficar em pé, segurando suas mãos para que dê alguns passos. Incentivar sua curiosi- dade mostrando diferentes materiais, como caixas de papelão ou latas sem bordas cortantes para que possa fazer barulho; sentar à sua frente rolando uma bola em sua direção; mostrar como a luz acende, brincar de esconder um brinquedo com um pano. Colocar seus brinquedos sempre no mesmo lugar para que possa aprender onde pode ir buscá-los. Cantar fazendo gestos para que ele possa imitar, balançando a cabecinha, batendo palminhas. Mostrar as pessoas e os animais e dizer seus nomes. De 1 a 1 ano e 5 meses: É o período da explosão do movimento. A criança aprende por tentativas repetidas e a cada conquista quer aprender mais. Dar-lhe espaço livre para que possa andar e explorar o ambiente, mantendo-se perto para protegê-la e dar-lhe segurança, pois ainda pode cair muito. Deixar que brinque com coisas diferentes, quadradas, redondas, duras, moles, compridas, curtas, cubos, caixas de diversos tamanhos, vasilhas de plástico, latas. Amarrar um barbante em um brinquedo, caixa ou lata para que possa puxá-lo. Deixar usar a mão que prefere. Oferecer blocos de montar. Brincar de se esconder, chamando-a pelo nome até que o encontre. Evitar dizer muito “não”, oferecendo outra atividade quando insistir em contrariar. Experimentar dizer o que ela pode fazer, em vez do que não pode fazer. Falar com ela dando nome aos objetos e às pessoas. Dar-lhe atenção quando quiser se comunicar e manifestar seu afeto pois isto é muito importante para que a criança se sinta querida e segura. Não iniciar o aprendizado do controle de esfíncteres. Dar-lhe sempre exemplo das atitudes que se quer que ela faça; por exemplo: se não quiser que ela grite, falar baixo com ela. De 1 ano e 6 meses a 2 anos: Brincar, para a criança é coisa séria. Deixá-la brincar e descobrir o que é capaz de fazer sozinha. Valorizar o que ela faz. A criança aprende por imitação e o os que convivem com ela são o seu exemplo. Mostrar-lhe como guardar suas coisas no lugar certo. Quando não obedecer, explicar-lhe com paciência; se fizer manha ou birra, não ser agressivo ou violento. É preciso ser firme e afetuoso, dizendo o que pode ou não fazer, mas não mudar de opinião só para que ela pare de chorar. Não permitir situações de risco só para satisfazê-la. Não forçá-la a dividir suas coisas com outras crianças, pois está adquirindo noção do que é seu. De 2 anos a 2 anos e 6 meses: Mostrar e dizer à criança o que ela pode fazer. Como ainda não domina suas emoções, quando contrari- ada, grita e bate, mas passa facilmente do choro ao riso. Cantar e conversar muito com ela, ajudando-a a fazer o que ainda não sabe fazer sozinha. É possível fazer alguns brinquedos: bonecas de pano, carrinhos de lata, avião e barquinho de papel. Riscar no chão algumas linhas e um círculo para que ela possa caminhar sobre eles, treinando o equilíbrio. Dar-lhe lápis e papel para que possa rabiscar à vontade. Deixá-la amassar e rasgar papéis, folhear revistas. Contar-lhe histórias simples e curtas. Não brigar se ainda não controla o xixi e o cocô, pois não tem capacidade para isto. De 2 anos e 6 meses a 3 anos: Procurar aceitar a criança como ela é, quieta ou falante, tímida ou agitada. Estimular sua independência mas cuidar de sua segurança. Brincar de pular pequenos obstáculos, brincar de roda cantando cantigas, brincar de dançar. Oferecer-lhe giz de cêra grosso e folhas de papel. Valorizar sua produção de desenhos e pinturas. Mostrar-lhe figuras, revistas, contar histórias pequenas, descrever o que vê. Como gosta de imitar, dar-lhe materiais para dramatizar: bonecas, panelas, roupas, bolsas e outros objetos que lhe interessem. Prestar atenção ao que a criança fala. Ajudar a cuidar de plantas e animais a faz sentir-se útil. Se quiser que ela atenda sem problemas, procurar não interromper bruscamente o que ela está fazendo, avisando minutos 70 antes; assim será mais fácil para ela compreender e deixar a brincadeira. Se resistir ainda assim, procurar mostrar que nem sempre é possível fazer tudo que se quer, mas nunca bater na criança. A violência só vai ensiná-la a ser violenta também e que ao não ter o seu desejo satisfeito, as coisas deverão ser resolvidas com briga. Mostrar-lhe que é possível resolver as coisas com calma e serenidade. A criança quer saber tudo! Responder às suas perguntas e procurar ouvi-la. Isto é fundamental para que aprenda e se sinta alguém importante para o mundo. De 3 a 7 anos: O convívio com outras crianças é muito saudável. Deve-se respeitar suas preferências. Permitir à criança mostrar iniciativa, comunicar e explorar. Estimular a cooperar em pequenas tarefas; a participação em pequenas atividades domésticas auxilia no aprendizado e permite à criança descobrir o que é capaz de fazer. Reservar um horário do dia para conversar sobre suas atividades. Contar histórias e estimular o contato com livros. Nesta fase a criança se torna cada vez mais independente. A cultura familiar e dos ambientes que frequenta (creche, vizinhança) têm grande influência em seu comportamento. À medida que se desenvolve, a conquista da autonomia deve estar vinculada ao aprendizado das suas consequências; dar o limite necessário expli- cando que suasatitudes podem ter consequências. Isso permitirá o desenvolvimento da responsabilidade, que se tornará mais evidente na fase seguinte. Não esquecer de valorizar suas iniciativas e atitudes corretas e demonstrar o afeto pela criança. De 7 a 10 anos: Reforçar sua independência e responsabilidade de acordo com a idade. Insistir no cumprimento das regra e no cuidado com seus pertences. Estimular a leitura, a aprendizagem escolar, as atividades físicas. Participar das atividades escolares, acompanhando e orientando nas tarefas escolares Valorizar e encorajar suas conquistas. Sempre manifestar o seu afeto pela criança. 8.4.2 Sinais de alerta em saúde mental É importante que os profissionais da equipe de saúde estejam atentos para a detecção precoce de sinais e sintomas que evidenciem uma desordem de origem emocional ou física. A causa orgânica destes sintomas deve ser sempre afastada previamente. Os danos à saúde da criança decorrentes de situações ambientais instabilizantes (familiares ou do meio social) devem ser previstos e conduzidos com um atendimento hu- manizado e competente, encaminhando-os ao especialista sempre que necessário. A intervenção precoce pode mudar significativamente o prognóstico destas crianças, promovendo seu desenvolvimento saudável. De 0 a 2 anos: • Ausência do riso social • Alterações do sono • Distúrbios alimentares • Irritabilidade, choro persistente ou apatia extrema • Aversão ao contato físico • Ausência de comportamento de apego • Ausência de contato visual Pré-escolar: • Ansiedade • Comportamento agressivo • Medo excessivo • Atraso da fala 71 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Dificuldade no controle de esfíncteres (após 5 anos) • Enurese • Encoprese • Queixa de dor frequente • Dificuldade de concentração nas atividades propostas Escolar: • Recusa escolar • Dificuldade de concentração e/ou aprendizagem • Enurese • Encoprese • Queixa de dor frequente • Ansiedade • Comportamento agressivo • Medo excessivo Na presença de riscos – prevenção de danos! A atenção primária à saúde é um espaço privilegiado que deve ser aproveitado para a promoção da saúde infantil e prevenção de transtornos mentais. É importante sempre verificar fatores de risco, como as defi- ciências físicas, sensoriais e mentais; dificuldades escolares; situações de rejeição, negligência e abandono; situações de repressão excessiva e de violência psicológica; maus tratos; perda, rompimento ou ausência de vínculos familiares próximos; adoção; miséria e violência social. Quando as crianças vivenciam tais situações não quer dizer que precisem de atendimento especializado mas devem estar no radar tanto do sistema de saúde quanto de outros pontos de uma rede de cuidados, como educação, ação social e justiça. Também se considera prevenção o diagnóstico de transtornos já na fase inicial, que recebendo a devida atenção não irão causar incapacidades. 8.4.3 Critérios de encaminhamento Na presença de: • Ansiedade grave, depressão moderada ou grave, dificuldades de comportamento que interfiram nas relações entre os pares e com adultos, e/ou que causem importante dificuldade de aprendizagem escolar. • Abuso e dependência de substâncias. • Sintomas físicos recorrentes sem causa orgânica. • Psicose. • Transtornos invasivos do desenvolvimento: autismo, Síndrome de Rett, Síndrome de Asperger. • Agressividade moderada ou grave. • Fobias que afetem atividades cotidianas. • Agitação grave. Critérios de encaminhamento ao Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad) Centro Vida: • Crianças que fazem uso abusivo de álcool e substâncias. • Crianças que apresentam dependência física ou psíquica de álcool e substâncias. 72 Critérios de encaminhamento para os Centros de Atenção Psicossocial In- fantil (CAPSi): • Crianças com transtornos crônicos e incapacitantes, que necessitam de reabilitação psicossocial: ansiedade grave, depressão moderada e grave, transtornos de conduta, transtorno de hiperatividade grave, psicoses. • Crianças com transtornos invasivos do desenvolvimento: autismo e outros. • Crianças portadoras de transtorno mental que necessitam desenvolver autocuidado. 8.5 IMUNIZAÇÃO A vacinação das crianças é ação fundamental que deve ser priorizada pela equipe de saúde. A busca ativa aos faltosos deve ocorrer sempre que necessário. * Além das vacinas acima descritas, as crianças (a partir de 9 meses) e os adolescentes que viajam para áreas de risco para febre amarela, devem receber esta vacina, com reforço a cada 10 anos. (1) Vacina BCG: Administrar o mais precoce possível, preferencialmente após o nascimento. Nos pre- maturos com menos de 36 semanas administrar a vacina após completar 1 (um) mês de vida e atingir 2 Kg. Administrar uma dose em crianças menores de cinco anos de idade (4 anos 11meses e 29 dias) sem cicatriz vacinal. Contatos intradomicíliares de portadores de hanseníase menores de 1 (um) ano de idade, compro- vadamente vacinados, não necessitam da administração de outra dose de BCG. Contatos de portadores de hanseníase com mais de 1 (um) ano de idade, sem cicatriz - administrar uma dose. Contatos compro- vadamente vacinados com a primeira dose - administrar outra dose de BCG. Manter o intervalo mínimo de seis meses entre as doses da vacina. Contatos com duas doses não administrar nenhuma dose adicional. Na incerteza da existência de cicatriz vacinal ao exame dos contatos intradomiciliares de portadores de hanseníase, aplicar uma dose, independentemente da idade. Para criança HIV positiva a vacina deve ser administrada ao nascimento ou o mais precocemente possível. Para as crianças que chegam aos serviços ainda não vacinadas, a vacina está contraindicada na existência de sinais e sintomas de imunodeficiência, IDADE VACINAS Ao nascer BCG intradérmico1 + Hepatite B2 2 meses Pentavalente3 + VIP4 + VORH5 + Pneumo106 3 meses Meningo C Conjugada7 4 meses Pentavalente3 + VIP4 + VORH5 + Pneumo106 5 meses Meningo C Conjugada7 6 meses Pentavalente3 + VOP8 + Pneumo106 9 meses FA9 12 meses VTV10 (SCR) + Pneumo106 15 meses DTP (1º reforço) + VOP8 + Meningo C7 4 anos DTP (2º REFORçO) + VTV (REFORçO) 73 Diretriz De atenção à saúDe Da criança não se indica a revacinação de rotina. Para os portadores de HIV (positivo) a vacina está contraindicada em qualquer situação. Reação vacinal grave à BCG: • Encaminhar a criança a um dos centros de referência para atendimento de evento pós-vacina BCG; com o paciente, encaminhar a Ficha de Investigação de Eventos Pós-Vacinais (FIEAP-V) adequada- mente preenchida. • Notificar à Divisão de Imunobiológicos, por telefone ou fax. Centros de referência para atendimento de evento pós-vacina BCG: • US Mãe Curitibana • US Vila Hauer • US Vila Verde - CIC • Centro de Especialidades Bairro Novo • Centro de Especialidades Santa Felicidade (2) Vacina hepatite B (recombinante): Administrar preferencialmente nas primeiras 12 horas de nas- cimento ou na primeira visita ao serviço de saúde. Nos prematuros menores de 36 semanas de gestação ou em recém-nascidos a termo de baixo peso (menor de 2 Kg), seguir esquema de quatro doses: 0, 1, 2 e 6 meses de vida. Na prevenção da transmissão vertical em recém-nascidos (RN) de mães portadoras da hepatite B administrar a vacina e a imunoglobulina humana anti-hepatite B (HBIG), disponível nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais - CRIE, nas primeiras 12 horas ou no máximo até sete dias após o nascimento. A vacina e a HBIG administrar em locais anatômicos diferentes. A amamentação não traz riscos adicionais ao RN que tenha recebido a primeira dose da vacina e a imunoglobulina. (3) Vacina pentavalente difteria, tétano, pertussis, Haemophilus influenzae b e hepatite B: Admin- istrar aos 2, 4 e 6 meses de idade. Intervalo entre as dosesde 60 dias e mínimo de 30 dias. Diante de um caso suspeito de difteria, avaliar a situação vacinal dos comunicantes. Para os não vacinados menores de 1 ano iniciar esquema com DTP+ Hib + Hepatite B; não vacinados na faixa etária entre 1 a 6 anos, iniciar esquema com DTP. Para os comunicantes menores de 1 ano com vacinação incompleta, deve-se completar o esquema com DTP + Hib + Hepatite B; crianças na faixa etária de 1 a 6 anos com vacinação incompleta, completar esquema com DTP. Crianças comunicantes que tomaram a última dose há mais de cinco anos e que tenham 7 anos ou mais devem antecipar o reforço com dT. (4) Vacina poliomielite (VIP): administrar duas doses com intervalo de dois meses, iniciando aos dois meses de idade. (5) Vacina oral rotavírus humano G1P1 [8] (atenuada): Administrar duas doses seguindo rigorosamente os limites de faixa etária: • primeira dose: 1 mês e 15 dias a 3 meses e 7 dias. • segunda dose: 3 meses e 7 dias a 5 meses e 15 dias. O intervalo mínimo preconizado entre a primeira e a segunda dose é de 30 dias. Nenhuma criança poderá receber a segunda dose sem ter recebido a primeira. Se a criança regurgitar, cuspir ou vomitar após a vaci- nação, não repetir a dose. (6) Vacina pneumocócica 10 (conjugada): No primeiro semestre de vida, administrar 3 (três) doses, aos 2, 4 e 6 meses de idade. O intervalo entre as doses é de 60 dias e mínimo de 30 dias. Fazer um reforço, preferencialmente, entre 12 e 15 meses de idade, considerando o intervalo mínimo de seis meses após a 3ª dose. Crianças de 7-11 meses de idade: o esquema de vacinação consiste em duas doses com intervalo de 74 pelo menos 1 (um) mês entre as doses. O reforço é recomendado preferencialmente entre 12 e 15 meses, com intervalo de pelo menos 2 meses. (7) Vacina meningocócica C (conjugada): Administrar duas doses aos 3 e 5 meses de idade, com intervalo entre as doses de 60 dias e mínimo de 30 dias. O reforço é recomendado preferencialmente entre 12 e 15 meses de idade. (8) Vacina poliomielite 1, 2 e 3 (atenuada) - VOP: Administrar uma doses aos 6 meses, com um reforço aos 15 meses de idade. Considerar para o reforço o intervalo mínimo de 6 meses após a última dose. (9) Vacina febre amarela (atenuada): Administrar aos 9 (nove) meses de idade. Durante surtos, antecipar a idade para 6 (seis) meses. Indicada aos residentes ou viajantes para as seguintes áreas com recomendação da vacina: estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Distrito Federal e Minas Gerais, e alguns municípios dos estados do Piauí, Bahia, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Para informações sobre os municípios destes estados, buscar as Unidades de Saúde dos mesmos. No momento da vacinação considerar a situação epidemiológica da doença. Para os viajantes que se deslocarem para os países em situação epidemiológica de risco, buscar informações sobre administração da vacina nas embaixadas dos respectivos países a que se destinam ou na Secretaria de Vigilância em Saúde do Estado. Administrar a vacina 10 (dez) dias antes da data da viagem. Administrar reforço, a cada dez anos após a data da última dose. Curitiba não é considerada área endêmica. (10) Vacina sarampo, caxumba e rubéola: Administrar duas doses. A primeira dose aos 12 meses de idade e a segunda dose deve ser administrada aos 4 (quatro) anos de idade. Em situação de circulação viral, antecipar a administração de vacina para os 6 (seis) meses de idade, porém deve ser mantido o esquema vacinal de duas doses e a idade preconizada no calendário. Considerar o intervalo mínimo de 30 dias entre as doses. 8.5.1 Imunização de prematuros e recém-nascidos de baixo peso BCG: adiar a vacinação até a criança atingir 2000 gramas. Hepatite B: fazer 4 doses aos 0, 1, 2 e 6 meses. Iniciar o mais precocemente possível. Demais vacinas devem seguir o calendário normal. 8.5.2 Imunização de crianças em situação de contato com o HIV (vírus da imunodeficiência humana) - veja capítulo 11.15. (página 169) Campanhas Nacionais para Crianças: Outras vacinas, além das indicadas pelo Ministério da Saúde, podem ser recomendadas de acordo com a orientação do médico. IDADE VACINAS Menores de 5 anos Vacina oral de poliomielite De 6 meses a menores de 2 anos Vacina Influenza (gripe) 75 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 8.6 PREVENÇÃO DE ACIDENTES O último estudo divulgado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) afirma que as “causas externas” - violência e acidentes - constituem o segundo fator mais importante de mortalidade no Brasil, em geral. Mas na faixa etária que vai de cinco a 19 anos, já estão em primeiro lugar, segundo os números do Ministério da Saúde. A situação vem se agravando, inclusive entre as crianças menores, de um a quatro anos. Acidentes são evitáveis e não devem ser encarados como uma fatalidade. Os acidentes mais impor- tantes são com veículos motores, as quedas, as intoxicações, as queimaduras, aqueles que ocorrem com corrente elétrica e os afogamentos. Três fatores devem ser observados: a criança suscetível, o ambiente inseguro e o agente desencadeador. De 0 a 3 meses: Vestir o bebê com roupas macias e confortáveis, sem cordões no pescoço, pois eles podem sufocá-lo. Nunca dar remédios à criança sem antes consultar um médico. No carro o bebê deve ir sempre no banco de trás, na cadeirinha e preso com cinto de segurança adequado. De 3 a 6 meses: Nunca deixar o bebê mamando sozinho. Nunca deixar o bebê sozinho em casa, no carro, no banho, no trocador, em cama sem proteção ou sob cuidados de outra criança. Não mexer em líquidos ou alimentos quentes com o bebê no colo ou por perto. Não deixar que animais cheguem perto da criança. Para os brinque- dos, escolher materiais que não se soltem, rasguem, que não soltem tinta e que não possam ser engolidos. De 6 a 9 meses: Tirar as coisas perigosas e delicadas do seu alcance. Cuidado com objetos pequenos, que soltam partes, com bordas pontudas ou cortantes. De 9 a 12 meses: Manter os produtos de limpeza, material inflamável, inseticidas e remédios totalmente fora do alcance do bebê, guardando-os em um armário alto e fechado. Tirar de perto do bebê objetos que possam cair e quebrar, toalhas que ficam penduradas (ele pode puxá-las e cair algum objeto ou líquido quente sobre a criança). Manter sacos plásticos longe da criança – ela pode sufocar! Proteger as tomadas e fios elétricos, para evitar choques. O acesso da criança à cozinha deve ser proibido! Não usar andadores (voadores), pois não ajudam no desenvolvimento do bebê e podem causar acidentes graves. De 12 a 18 meses: Redobrar o cuidado com os produtos de limpeza, material inflamável, inseticidas e remédios. Esses produtos nunca devem ser guardados em garrafas de refrigerantes ou de outros alimentos. Manter a criança longe do fogo, do fogão, de líquidos quentes e do ferro elétrico. Cuidado com facas, tesouras e venenos. Para evitar tombos mais sérios não permitir que a criança tenha acesso sozinha a escadas e a desníveis; colocar cercas de proteção, se necessário. Bloquear o acesso a janelas, cuidado com cadeiras, bancos ou sofás próximos a elas. Usar grades ou telas de proteção nas janelas. Nunca deixar a criança sozinha perto de baldes com água, tanques cheios, poços, banheiras, privadas e piscinas, que devem ser sempre cobertos – ela pode se afogar! Manter a porta do banheiro sempre fechada. Não ter armas de fogo em casa! De 18 a 24 meses: Na rua, manter a criança sempre junto de um adulto, prevenindo atropelamentos. Estar atento às situações 76 de risco e não descuidar da criança, mantendo supervisão constante. De 2 a 3 anos: Todos os cuidados anteriores devem ser mantidos. Não deixar a criança brincar na rua, pois ela não entende o perigoe esquece das proibições. Há necessidade de supervisão constante. Cuidar para a criança não se aproximar de cães que estejam se alimentando ou cães estranhos. Daqui para frente a criança se tornará cada vez mais independente e por não ter noção do perigo está mais sujeita a riscos. De 3 a 5 anos: Facas, armas, produtos inflamáveis, remédios e venenos devem estar totalmente fora do alcance das crianças. Mesmo que saiba nadar, isso não garante que não vá se afogar; não é seguro deixá-la sozinha em piscinas, tanques, rios, lagos ou mar. Diga à criança para que se mantenha longe de animais estranhos ou que estejam se alimentando. Para atravessar a rua, deve estar de mão dada com um adulto. Nunca deixar a criança sozinha. Manter a criança sob olhar atento em supermercados, shoppings e outros locais públicos. De 5 a 7 anos: Dizer à criança para não seguir e não aceitar nada de estranhos. Manter vigilância, sabendo o que a criança está fazendo. No carro, colocá-la no banco de trás, com assento adequado e cinto de segurança. Cuidar quando estiver em piscina, tanque, rio ou mar. Manter venenos e armas de fogo fora do alcance. De 7 a 10 anos: Cuidar com atividades em água, trampolim (gosta de bancar o “valente”). Cuidado ao andar de bicicleta, moto; usar cinto de segurança, sempre no banco de trás do carro. Proteger a criança, mesmo que isso não lhe pareça necessário. 8.6.1 Síndrome da morte súbita do lactente Síndrome da Morte Súbita do Lactente é a morte de um bebê menor de 1 ano que ocorre de repente e de forma inesperada, sem causa aparente. A maioria dos casos de morte súbita ocorre em bebês menores de 4 meses, nos meses mais frios do ano e em bebês que dormem em decúbito ventral (abdome voltado para baixo). Há maior risco se a mãe foi tabagista durante a gestação e quando um dos pais é fumante. As pessoas que cuidam do bebê devem ser orientadas a ter certos cuidados para evitar a Síndrome da Morte Súbita do Lactente. ---- • Colocar o bebê para dormir em decúbito dorsal (posição supina ou com abdome para cima), durante as sestas e à noite. • Deitar o bebê sobre um colchão firme, evitando superfícies fofas, almofadas ou sofás. • Assegurar-se que nada cubra a cabeça ou a face do bebê enquanto dorme; nada deve cobrir a boca ou o nariz da criança. Deve-se cobrir o bebê do peito para baixo, com os braços da criança por cima das cobertas; as bordas das mesmas devem ser presas sob o colchão. • Evitar muito calor, com o uso excessivo de mantas ou cobertores. Em clima frio, é preferível agasalhar a criança com roupas do que aquecê-la com cobertas. • Não fumar perto da criança. • Evitar amamentar o bebê na cama. • Evitar que o bebê compartilhe a cama com outros irmãos ou com adultos. 77 Diretriz De atenção à saúDe Da criança TRIAGEM AUDITIVA NEONATAL UNIVERSAL 78 79 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 9. TRIAGEM AUDITIVA NEONATAL UNIVERSAL O desenvolvimento auditivo segue etapas graduais de complexidade, tendo início já na vida intrauterina. Para que uma criança adquira a linguagem e desenvolva sua fala, deve ser capaz de detectar sons, localizá- los, discriminá-los, memorizá-los, reconhecê-los e finalmente compreendê-los. Em caso de deficiência auditiva é necessário identificá-la no neonato, mesmo que em sua história não sejam encontrados indicadores de risco que potencializem a probabilidade desse agravo ter ocorrido (COMUSA, 2009). O objetivo da detecção precoce da deficiência auditiva e intervenção é maximizar a competência linguística e desenvolvimento da alfabetização para crianças surdas ou com deficiência auditiva; sem oportunidades adequadas estas crian- ças sofrerão atraso em relação aos seus pares quanto ao aprendizado da língua, comunicação, cognição, leitura e desenvolvimento sócio-emocional. Tais atrasos podem resultar em menores níveis de educação e emprego na vida adulta. Vários estudos apontam a prevalência das alterações auditivas, variando de 3:800 a 3:1000 nascimentos. A triagem auditiva neonatal é um procedimento simples, rápido e de baixo custo, que pode ser aplicado a um grande número de recém-nascidos, com o objetivo de identificar os indivíduos com maior probabilidade de terem algum distúrbio na função que está sendo testada. A triagem auditiva neonatal não tem função de diagnóstico, mas de identificação e encaminhamento dos neonatos para exames mais complexos, quando estes tiverem resultados considerados inadequados. 9.1 Fatores de risco para deficiência auditiva* • Peso ao nascimento inferior a 1.500 g • Asfixia neonatal grave: índice de Apgar de 0 a 4 no primeiro minuto e de 0 a 6 no quinto minuto • RN egresso de UTI Neonatal • Ventilação mecânica por cinco dias ou mais • Infecções congênitas: toxoplasmose, sífilis, rubéola, citomegalovírus, herpes e HIV • Anomalias craniofaciais: incluindo alterações morfológicas do pavilhão e conduto auditivo • Antecedentes familiares de deficiência auditiva neurossensorial • Consanguinidade materna • Criança pequena para a idade gestacional • Sinais ou outros achados associados a síndromes • Hiperbilirrubinemia a níveis excedendo a indicação para exsanguineotransfusão • Medicação ototóxica (aminoglicosídeos, associação com diuréticos, agentes quimioterápicos) • Meningite bacteriana • Hemorragia ventricular • Alcoolismo materno ou uso de drogas psicotrópicas na gestação • Traumatismo craniano * Critérios utilizados pela Prefeitura Municipal de São Paulo, com base na indicação do JCIH-2000, acrescidos por Azevedo, M.F., modificados pela SMS Curitiba – 2005. 9.2 Fluxos da Triagem Auditiva Para realização da Triagem Auditiva Neonatal serão adotados fluxos diferenciados, de acordo com a situação de risco: 80 9.2.1 Bebês egressos de berçários sem fator de risco para perda auditiva • Triagem por emissão otoacústica na própria maternidade, o mais próximo possível da alta (a partir de 36 horas). Bebês que falharem no teste terão novo exame agendado na própria maternidade prefe- rencialmente, antes de completarem 1 mês de vida. • Bebês que falharem nas duas testagens serão encaminhados para diagnóstico diferencial em um serviço de alta complexidade em saúde auditiva, tendo seu diagnóstico concluído no máximo até o terceiro mês de vida. • Crianças com deficiência auditiva confirmada deverão ter o tratamento iniciado antes do sexto mês de vida, em programa interdisciplinar. 9.2.2 Bebês egressos de berçários com fator de risco para perda auditiva • Triagem por emissão otoacústica na própria maternidade, o mais próximo possível da alta (a partir de 36 horas). Bebês que falharem no teste terão novo exame agendado na própria maternidade prefe- rencialmente antes de completarem 1 mês de vida. • Bebês que falharem nas duas testagens serão encaminhados para diagnóstico diferencial em um serviço de alta complexidade em saúde auditiva, tendo seu diagnóstico concluído no máximo até o terceiro mês de vida. • Crianças com deficiência auditiva confirmada deverão ter o tratamento iniciado antes do sexto mês de vida, em programa interdisciplinar. 9.2.3 Bebês com fator de risco, triagem negativa, mas com suspeita de deficiência auditiva durante o 1º ano de vida • Bebês com pelo menos um fator de risco para perda auditiva progressiva ou tardia que passarem na triagem serão acompanhados pela equipe da atenção básica de referência, com o objetivo de moni- torar o desenvolvimento da audição e linguagem. Caso seja identificada alguma alteração no desen- volvimento, estas crianças deverão ser avaliadas pelo médico da equipe da atenção básica. Em caso de suspeita de perda auditiva esta criança será encaminhada para um serviço de média complexida- de (avaliação clínica e exames complementares) ou para um serviço de alta complexidade em saúde auditiva, para diagnóstico diferencial e intervenção,se confirmado o diagnóstico de deficiência auditiva. 9.2.4 Bebês egressos de UTI Neonatal • Todo recém-nascido egresso de UTI deve ser testado por PEATE (Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico) para incluir as perdas neurais. O exame será realizado na própria maternidade, caso possua o equipamento e profissional habilitado para a sua realização. Maternidades que não possuam condições para realização do teste por potencial evocado deverão orientar a ida à Unidade de Saúde mais próxima de casa, para que esta realize o agendamento do exame em um serviço de alta complexidade. Em caso de falha na primeira testagem os bebês devem ser encaminhados para um serviço especializado para diagnóstico diferencial. Nesta avaliação é recomendada a avaliação completa dos dois ouvidos, mesmo que somente um tenha falhado no teste. 9.3 Atribuições das Maternidades • Oferta da triagem auditiva aos recém-nascidos antes da alta hospitalar (com 36 horas do nascimento ou mais), realizando entrevista com os pais explicando a importância da TANU e solicitando autoriza- 81 Diretriz De atenção à saúDe Da criança ção para realizá-la. • Solicitação de assinatura de termo de responsabilidade pela recusa da triagem auditiva. • Após autorização dos pais ou responsável, realização do teste de emissões otoacústicas com o bebê dormindo, após ter sido amamentado no dia da alta hospitalar. • Registro do resultado do teste no prontuário da mãe ou do bebê e na Caderneta de Saúde da Criança, bem como a presença de indicadores de risco e encaminhamentos. • Marcação de retorno e realização de reteste nas crianças que falharam na primeira testagem; • Registro do resultado do reteste na Caderneta de Saúde da Criança. • Orientação à família de que as informações contidas na caderneta deverão ser levadas à equipe da Unidade de Saúde a que pertence para acompanhamento do desenvolvimento auditivo, especialmen- te nos recém-nascidos com indicadores de risco para deficiência auditiva. • Orientações aos pais, cujos bebês falharam na triagem, visando reduzir sua ansiedade, explicando que o fato de falhar nas duas testagens não significa necessariamente perda auditiva, pois é comum a ocorrência de falsos positivos. Cabe ressaltar também que nos casos de perda auditiva o diagnós- tico e tratamento precoce proporcionarão à criança desenvolvimento social equivalente ao das crianças com função auditiva normal, da mesma faixa etária. • Recomenda-se a assinatura do termo de recebimento da entrega de resultados de exames e orienta- ções antes da liberação do bebê e família, tanto no caso de exames alterados, quanto normais. • Realização de busca ativa dos que faltarem no dia do retorno, por meio de contato telefônico ou tele- grama. No caso de não comparecimento comunicar à coordenação do programa caso o recém-nas- cido não compareça para a segunda testagem. • Comunicar à coordenação do programa todos os casos de recém-nascidos que falharam nas duas testagens. • Registro dos exames realizados no Sistema de Informações Ambulatoriais ou Hospitalares. 9.4 Atribuições da Atenção Básica • Busca ativa dos faltosos para a segunda testagem, quando a maternidade solicitar. • Agendamento de avaliação em serviço de saúde auditiva de alta complexidade para recém-nascidos egressos de UTI. • Agendamento dos recém-nascidos que falharam nas duas testagens, em serviço de saúde auditiva de alta complexidade. • Acompanhamento cuidadoso mensal dos recém-nascidos que passaram na triagem, porém possuem algum fator de risco para Deficiência Auditiva. 9.5 Agendamento na Central de Marcação de Consultas Especializadas a) Crianças faltosas no 2º teste notificadas pela maternidade após 1º mês de vida e/ou com sinais de possível Deficiência Auditiva durante seu 1º ano de vida : Agendamento: SADT: Emissões Otoacústicas b) Crianças com falha no 2º teste sinalizadas na Caderneta de Saúde da Criança, c) Crianças com triagem neonatal positiva e d) Crianças egressas de UTI Neonatal: Agendamento: Especialidade: Otorrinolaringologia Área de atuação: Deficiência Auditiva/Alto Risco 82 9.6 Algoritmos da Triagem Auditiva Neonatal TRIAGEM AUDITIVA DO RECéM-NASCIDO SEM FATOR DE RISCO DE PERDA AUDITIVA – SUS 83 Diretriz De atenção à saúDe Da criança TRIAGEM AUDITIVA DO RECéM-NASCIDO COM FATOR DE RISCO DE PERDA AUDITIVA 84 TRIAGEM AUDITIVA DO RECéM-NASCIDO EGRESSO DE UTI NEONATAL 85 Diretriz De atenção à saúDe Da criança ORIENTAÇõES NUTRICIONAIS 86 87 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 10. ORIENTAÇõES NUTRICIONAIS 10.1 ALIMENTAÇÃO PARA CRIANÇAS MENORES DE 2 ANOS 10.1.1 Aleitamento materno A Organização Mundial da Saúde preconiza o aleitamento materno exclusivo até o 6º mês de vida, devendo ser prolongado após a introdução da alimentação sólida até os 2 anos de idade ou mais. A atenção à nutriz deve levar em conta as transformações hormonais que repercutirão em seu estado emocional, sua condição sócio-cultural e fortalecer a crença em sua capacidade de suprir as necessidades do novo ser que dela depende, retirando dúvidas e vencendo preconceitos. A avaliação precoce da técnica de amamentação inclui a observação da pega da aréola (boca de peixinho), condição das mamas, dos mamilos, alternância de seios, sucção, reforçando os benefícios do aleitamento materno em relação ao aleitamento artificial, sem horários rígidos, sob livre demanda. No 1º mês de vida deve-se evitar passar de 3 horas sem amamentar, prevenindo a hipoglicemia. Deve-se ofertar um seio de cada vez, permitindo o esgotamento completo do mesmo. Alguns bebês podem querer mamar mais; neste caso, deve-se oferecer o outro seio também e na próxima mamada começar por aquele oferecido por último. O desmame deverá ocorrer em tempo oportuno, quando a criança tiver 2 anos ou mais, propiciando uma transição tranquila para uma nova etapa do desenvolvimento infantil. A sensibilidade e a segurança da mãe frente a este novo momento da criança permitirão que ele ocorra de forma natural. É totalmente contraindi- cada a adoção de medidas agressivas tais como afastamento da mãe, colocação de substâncias amargas no seio, palavras que produzam asco ou medo frente ao seio, etc. 10.1.2 Orientações para amamentação no seio materno A criança deve ser amamentada sempre que tiver fome e durante o tempo que quiser. A posição deve ser a mais cômoda para a mãe e o bebê; de preferência, a mãe deve estar com os pés apoiados. A criança deve abocanhar o mamilo e parte da aréola; para uma “pega” adequada é necessário que a aréola esteja macia e flexível, o que pode ser alcançado com ordenha manual. A borda do lábio inferior deve estar virada para fora e o queixo do bebê deve encostar no peito da mãe (boca de peixinho). O abdome do bebê deve encostar no abdome da mãe (barriga/barriga). A cabeça do bebê deve estar mais elevada em relação ao tórax a fim de evitar refluxo de leite para a tuba auditiva, prevenindo o aparecimento de otites. Deve-se evitar a posição dos dedos “em tesoura” sobre a mama, uma vez que pode obstruir a passagem do leite por compressão dos ductos lactíferos. Após a amamentação, colocar o bebê para arrotar, apoiando-o em pé sobre o peito ou o ombro; evitar deitá-lo logo após as mamadas a fim de evitar broncoaspiração. O bebê nunca deve ser deitado de barriga para baixo, prevenindo a morte súbita do lactente. A nutriz deve saber fazer a auto-ordenha. 88 10.1.3 Procedimentos para a ordenha do leite materno • Ferver frasco de vidro com tampa de plástico, sem rótulos ou papelão sob a tampa, durante 15 minu- tos após levantar fervura. • Procurar local tranquilo. • Prender os cabelos e/ou usar touca. • Lavar muito bem as mãos com água e sabão; a higiene das mamas no banho diário da mãe é sufi-ciente. • Acomodar-se em posição confortável, de preferência apoiando os pés. • Massagear a aréola com movimentos circulares, na transição entre a pele escura e a pele clara. • Apoiar a mama com a mão em concha ou em C, o polegar acima da aréola, o indicador abaixo desta. • Fazer leve pressão para trás e para frente, com movimentos de aperta e solta; desta maneira, o leite vai sair em gotas e logo em seguida em jatos. • Evitar falar durante a ordenha para evitar contaminação do leite ordenhado. 10.1.4 Armazenamento do leite retirado O leite ordenhado poderá ser armazenado em geladeira por 12 horas. Se o leite ordenhado for para o consumo do bebê da mãe ou para doação, poderá ser armazenado no congelador ou freezer por 10 dias; em caso de doação deverá ser encaminhado logo em seguida para o banco de leite. Os frascos deverão ser identificados e datados. Descongelando o leite materno: Deve-se separar o leite que tiver a data de coleta mais antiga e seguir os passos abaixo: 1) Descongelar o leite materno em banho-maria (não deixar a água ferver), procurando observar o descongelamento. Assim que restar uma pequena bola de leite congelado no frasco, começar a girar o frasco delicadamente para que o leite descongele uniformemente. 2) Separar a quantidade de leite que o bebê irá tomar e aquecer em banho-maria. Se o bebê não tomar todo o leite que foi aquecido, não utilizar novamente – jogar fora o que sobrou. 3) O restante do leite descongelado que não foi reaquecido tem validade de 12 horas e deve ficar arma- zenado dentro da geladeira (não colocar o leite materno na porta da geladeira). Após as 12 horas, se o leite não foi utilizado, deverá ser desprezado. 10.1.5 Problemas mais frequentes na amamentação no seio materno Fissura A fissura ocorre quando a pega do bebê não é adequada. Pode haver presença de sangramento, o que não impede a amamentação. Orientar: • Esgotar discretamente a regão da aréola pela auto-ordenha para diminuir o ingurgitamento quando necessário, propiciando uma pega adequada. • Passar o próprio leite sobre o mamilo e deixar secar. • Continuar amamentando, com atenção à pega adequada. • Orientar mamadas sob regime de livre demanda. • Iniciar a mamada pelo seio menos ferido. • Tranquilizar a mãe informando-a que eventual sangue deglutido pelo bebê não é nocivo à sua saúde. • Usar sutiã de alças largas para sustentação das mamas; evitar usar sutiãs com aberturas “próprias para amamentação”. 89 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Ingurgitamento mamário O ingurgitamento mamário impede o esgotamento adequado da mama, causando dor, sensação de mal- estar e febre; sem a intervenção adequada pode evoluir com infecção e formação de abscesso. Orientar: • Esgotamento adequado da mama – continuar oferecendo o seio. • Consulta médica para prescrição de antiinflamatório não hormonal, se necessário. • Nunca usar calor local com ducha ou compressa pois piora o ingurgitamento. LEmBRE-sE: A saída de pus junto com o leite não é impedimento para a amamentação. Pouca quantidade de leite “Meu leite está secando... é pouco... é fraco” – algumas mães podem apresentar menor quantidade de leite em função de stress, poucas horas de sono, ansiedade excessiva, alimentação inadequada. Orientar: • Tranquilizar a mãe. • Reafirmar que o seu leite não é fraco e é o mais adequado para o seu bebê. • Recomendar à mãe repouso entre as mamadas tanto quanto possível, ingestão de água suficiente para matar a sede (o excesso de água promove liberação do hormônio antidiurético que inibe a pro- lactina e, consequentemente, a produção de leite) e alimentação adequada. A mãe que amamenta precisa ser orientada a beber no mínimo um litro de água filtrada e fervida, além da sua ingestão ha- bitual diária, considerando que são necessários aproximadamente 900 ml de água para a produção do leite. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudavel - um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2010). • Observar e orientar a técnica correta de amamentação – atenção à pega adequada da aréola! • Acompanhar o ganho de peso da criança a cada três dias, se necessário, ou semanalmente. O ganho deve estar entre 18 a 40 g/dia. • Em caso de ganho de peso inadequado avaliar a técnica da amamentação, observar a mamada intei- ra, corrigir a mamada, solicitar retorno periódico para reavaliação, fazer a visita domiciliar para melhor controle. Se com toda atenção e orientação a criança não ganhar peso, orientar complemento duas vezes/dia, sempre após a oferta do seio materno. O complemento deve ser feito com o leite da mãe sempre que possível ou com fórmula infantil adequada para a idade, ofertado em colher pequena ou copinho. Quando há recuperação do ganho de peso deve-se efetuar a retirada do complemento a fim de que se mantenha o aleitamento materno exclusivo. 10.1.6 Amamentação e medicação materna Em geral, as mães que amamentam devem evitar o uso de qualquer medicamento. Se a utilização do medicamento pela mãe for imperativa, deve-se preferir uma droga já estudada, pouco excretada no leite materno e sem risco aparente para a criança. A segurança de alguns medicamentos ou drogas também de- pende da idade da criança; neonatos de termo e/ou prematuros têm uma capacidade diferente de absorver e excretar medicamentos quando comparados a bebês de idade maior e por isso são grupos de maior risco. O conhecimento dos fármacos compatíveis ou não com a amamentação no seio materno permite orien- tação adequada, evitando o desmame iatrogênico e efeitos adversos na criança. 90 medicamentos contraindicados durante a amamentação Nessa categoria estão as drogas que exigem a interrupção da amamentação, selecionadas com base nas evidências ou risco significativo de efeitos colaterais importantes no lactente. Há muitos medicamentos que necessitam de avaliação criteriosa durante a amamentação, dependendo da avaliação do risco/benefício. Quando utilizados, exigem monitorização clínica e/ou laboratorial do lactente, devendo ser utilizados durante o menor tempo e na menor dose possível. meios de contrastes radiológicos: I-123 sódio, I-125 fibrinogênio, I-131, I-131 iodometinorcolesterol, I-131 sódio, I-131 HSA, P-32 Na fosfato e Se-75 metionina. Fármacos que atuam no sistema nervoso central: Zonisamida, Bromocriptina, Selegilina, Doxepina, Brometos e Haloperidol. Analgésicos, antipiréticos, anti-inflamatórios não esteróides e fármacos para tratar gota: Antipirina e Sais de ouro. Anti-infecciosos: Linezolida e Ganciclovir. Fármacos cardiovasculares: Amiodarona. Fármacos hematológicos e produtos do sangue: Fenindiona. Hormônios e antagonistas: Androgênios; Contraceptivos: Etinilestradiol e Anticoncepcional hormonal combinado; Ocitócitos, ergóticos eprostaglandinas: Mifepristone ou RU 486 e Misoprostol; antagonistas hormonais: Bromocriptina, Cabergolina, Ciproterona, Leuprolida (leuprorrelina), Lisurida e Tamoxifen; hormônios: Clomifeno, Dietilestilbestrol, Estradiol e Hormônio luteinizante (alfalutropina). Antineoplásicos: Altetramina, Anastrozol, Asparaginase, Bevacizumab, Busulfan, Capecitabina, Carboplatina, Carmustina, Cetuximab, Ciclofosfamida, Cisplatina, Citarabina, Cladribina, Clorambucil, Dacarbazina, Dactinomicina, Daunorubicina, Docetaxel, Doxorubicina, Epirrubicina, Erlotinib, Etoposide, Exemestane, Fluoruracil, Gemcitabina, Ifosfamida, Imatinib, Letrosol, Lomustina, Melfalan, Mitomicina, Mitoxantrona, Oxaliplatina, Paclitaxel, Pentostatina, Procarbazina, Rituximab, Tamoxifeno, Temozolomida, Toremifeno, Vinblastina, Vincristina e Vinorelbina. Fármacos para pele e mucosas: Acitretina, Etretinato, Fluoruracila e Isotretinoína. Fármacos utilizados no tratamento da obesidade: Anfepramona.Fármacos para uso oftalmológico: Verteporfin. Fármacos usados no tratamento da dependência às drogas: Dissulfiram. Agentes ambientais: Chumbo. Fitoterápicos: Borage (Officinalis borage), Confrei (Symphytum officinale), Kava-kava (Piper methysticum), Cohosh azul (Caulophyllum thalictroides) e Kombucha (Kombucha Gyokuroen). Cosméticos: Formol. Demais: Sildenafil. Drogas de vício e abuso: anfetaminas, cocaína e crack, fenciclidina, heroína, inalantes, LSD, maconha e haxixe. Fonte: Amamentação e uso de medicamentos e outras substâncias, 2ª edição da publicação “Amamentação e uso de drogas”, Série A, Normas e Manuais Técnicos Brasília – DF, 2010. Modificado por Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba. Medicamentos contraindicados durante a amamentação 91 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 10.1.7 Contraindicações para o aleitamento materno O leite materno não deve ser recomendado nas seguintes situações: • Mães infectadas pelo HIV. • Mães infectadas pelo HTLV 1 e HTLV 2. • Uso de medicamentos incompatíveis com a amamentação. • Criança com galactosemia. • Mulheres com câncer de mama tratado ou em tratamento. Obs.: de acordo com o Ministério da Saúde a criança com fenilcetonúria pode receber leite materno, além da fórmula isenta de fenilalanina. O leite materno deve ser interrompido temporariamente nas seguintes situações: • Mulheres com distúrbios graves de consciência ou comportamento. • Mulheres com doença grave. • Infecção herpética (vesículas na pele da mama). • Varicela (mãe com varicela 5 dias antes do parto e 2 dias após o parto). • Doença de Chagas (fase aguda ou sangramento mamilar evidente). • Abscesso mamário (até que o abscesso tenha sido drenado e a antibioticoterapia iniciada). • Drogas de vício e abuso. Obs.: A Academia Americana de Pediatria (American Academy of Pediatrics, 2001) contraindica, durante o período da lactação, o uso das drogas de abuso, anfetaminas, cocaína, heroína, maconha e fenciclidina. A Organização Mundial da Saúde (World Health Organization, 2009) considera que o uso de anfetaminas, ecstasy, cocaína, maconha e opióides não é contraindicado durante a amamentação. Contudo, alerta que as mães que usam essas substâncias por períodos curtos devem considerar a possibilidade de evitar tem- porariamente a amamentação. Há carência de publicações com orientações sobre o tempo necessário de suspensão da amamentação após uso de drogas de abuso. Assim, recomenda-se que as nutrizes não uti- lizem tais substâncias. Se usadas, deve-se avaliar o risco da droga versus o benefício da amamentação para orientar sobre o desmame ou a manutenção da amamentação. Drogas consideradas lícitas, como o álcool e o tabaco, também devem ser evitadas durante a amamentação. Contudo, nutrizes tabagistas devem manter a amamentação, pois a suspensão da amamentação pode trazer riscos ainda maiores à saúde do lactente. Álcool (Etanol): uso criterioso durante a amamentação. A ingestão de doses iguais ou maiores que 0,3g/kg de peso podem reduzir a produção láctea. O álcool pode modificar o odor e o sabor do leite materno levando à recusa do mesmo pelo lactente. Anfetaminas: uso contraindicado durante a amamentação. Cocaína e Crack : uso contraindicado durante a amamentação. Fenciclidina: uso contraindicado durante a amamentação. Heroína: uso contraindicado durante a amamentação. Inalantes: uso contraindicado durante a amamentação. LSD: uso contraindicado durante a amamentação. Maconha e Haxixe: uso contraindicado durante a amamentação. Nicotina: uso criterioso durante a amamentação. A nicotina pode reduzir a produção láctea e alterar o sabor do leite. O uso de medicamentos (adesivo, goma de mascar e spray) contendo nicotina é com- patível com a amamentação. Drogas de vício e abuso 92 10.1.8 Aleitamento artificial Para os casos de crianças que não estejam mais sendo amamentadas ao peito e na impossibilidade de reversão dessa situação, as orientações a seguir permitirão aos profissionais de saúde atuar de maneira mais adequada. Essas orientações devem ser adotadas apenas excepcionalmente, quando esgotadas todas as possibilidade de relactação da mãe. “A amamentação deve ser protegida. Por isso, a orientação sobre preparo de leites artificiais nunca deve ser coletiva. Nos casos em que há necessidade de orientar sobre preparo de leites artificiais (por exemplo, mães HIV positivo) essa orientação deve ser feita de maneira individualizada e por profissional qualificado”. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudavel - um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2010). Vale lembrar que o aleitamento artificial: • Aumenta o risco de alergia alimentar. • Reduz a relação mãe-filho. • Perde-se a vantagem de proteção contra doenças que o leite materno oferece. • Aumenta o risco de diarréia, devido à dificuldade no preparo do leite e risco de contaminação. O leite de vaca integral fluido ou em pó não é recomendado para crianças menores de um ano. No caso do aleitamento artificial, deve-se preferencialmente utilizar fórmulas infantis (leites industrializados próprios para lactentes), que já são acrescidas de ferro, vitamina C e outros nutrientes na sua composição para melhor se adaptar às necessidades da criança de acordo com a idade. Elas apresentam diluições diferentes e variadas, devendo-se prestar atenção ao modo de preparo que consta na embalagem da lata. “Diante da impossibilidade do aleitamento materno, deve-se utilizar uma fórmula infantil que satisfaça as necessidades do lactente, conforme recomendado por sociedades científicas nacionais e internacion- ais (ESPGHAN, AAP e SBP). Antes do sexto mês de vida, deverá ser utilizada uma fórmula infantil para lactentes (primeiro semestre); a partir do sexto mês, recomenda-se uma fórmula de seguimento para lactentes (segundo semestre)”. Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento de Nutrologia. Manual de orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. 2ªed. 120 p. São Paulo. 2008). Preparo de fórmulas infantis: • Ferver a água durante 5 minutos e deixar amornar. • Medir em uma vasilha graduada a quantidade correta de água e após acrescentar as medidas de leite em pó recomendadas na embalagem. • Misturar bem até a completa dissolução da mistura. • Não guardar a colher medida do leite dentro da lata. A mamadeira além de proporcionar risco de contaminação, pode prejudicar a dentição e fazer com que a criança tenha mais dificuldade para falar. Portanto, deve-se oferecer o leite em copinho descartável ou colher e, a partir do 4º mês, em xícara, copo ou caneca. O leite deve ser preparado em horário próximo de oferecê-lo à criança, sobretudo se não existe refrigerador. Nunca se deve oferecer à criança sobras de leite da refeição anterior. Nunca dar leite com o bebê deitado, pois ele pode se afogar. Da quantidade de leite às mamadas: O volume a ser oferecido deverá atender à demanda da criança. Orientar a oferecer a alimentação láctea sem forçar e informar que quando a criança está satisfeita ela deixa sobra dos alimentos oferecidos na refeição. 93 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Da frequência das mamadas: O número de refeições lácteas por faixa etária no primeiro ano de vida deve atender à demanda da cri- ança, especialmente até os 4 meses, pois neste período o leite é o único alimento do bebê; a frequência de mamadas neste período pode variar de 4 a 8 vezes ao dia, dependendo de sua capacidade gástrica. Do final do 1º ano de vida até os 2 anos, dependendo da aceitação de outros alimentos, a criança poderá receber de 2 a 3 refeições lácteas por dia. Volume e número de refeições lácteas por faixa etária no primeiro ano de vida: Idade Volume/RefeiçãoNúmero de refeição/dia Do nascimento a 30 dias 60- 120 ml 6 a 8 30 a 60 dias 120 – 150 ml 6 a 8 2 a 3 meses 150 – 180 ml 5 a 6 3 a 4 meses 180 – 200 ml 4 a 5 > 4 meses 180 – 200 ml 2 a 3 10.1.9 Dez passos para uma alimentação saudável em crianças menores de 2 anos (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudavel - um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2010). Visam uma adequação das práticas alimentares nesta faixa etária, em que a nutrição exerce especial importân- cia, quando o crescimento é acelerado e acontecem aquisições importantes no processo de desenvolvimento: PASSO 1 Dar somente leite materno até os seis meses, sem oferecer água, chás ou qualquer outro alimento. O leite materno contém todos os nutrientes que a criança necessita até os 6 meses de idade, inclusive água, além de proteger contra infecções. A criança que recebe outros alimentos além do leite materno antes dos seis meses, principalmente através de mamadeira, incluindo água e chás, pode adoecer mais e ficar desnutrida. PASSO 2 Ao completar seis meses, introduzir de forma lenta e gradual outros alimentos, mantendo o leite materno até os dois anos de idade ou mais. A partir dos seis meses, as necessidades nutricionais da criança já não são mais atendidas só com o leite materno, embora este ainda continue sendo uma fonte importante de calorias e nutrientes. A partir dessa idade, o organismo da criança já está preparado para receber alimentos diferentes do leite materno, que são chamados de alimentos complementares. Mesmo recebendo outros alimentos, a criança deve continuar a mamar no peito até os dois anos ou mais, pois o leite materno continua alimentando a criança e protegendo-a contra doenças. Para crianças em aleitamento artificial estes alimentos devem começar a ser oferecidos a partir dos 4 meses. “A partir dos 4 meses, a orientação básica é iniciar logo a alimentação (não esperar que a criança entre no sexto mês) e ir substituindo a refeição láctea pura pela alimentação, de modo gradativo. Todas as demais 94 orientações dadas para as crianças menores de 4 meses também se aplicam a esse grupo de idade. Com a introdução da alimentação complementar, é importante que a criança receba água (tratada, filtrada e fervida) nos intervalos das refeições.” (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudavel - um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2010). Os alimentos devem ser introduzidos gradativamente, observando-se a tolerância da criança. O apoio dos profissionais de saúde é muito importante, orientando a oferta variada de alimentos. PASSO 3 Ao completar seis meses, dar alimentos complementares (cereais, tubérculos, carnes, leguminosas e frutas) três vezes ao dia, se a criança estiver em aleitamento materno. Após completar seis meses deve-se oferecer à criança três refeições por dia com alimentos comple- mentares. Essas refeições se constituem de duas papas de fruta e uma papa salgada. Ao completar sete meses, essas refeições constituem-se em duas papas de fruta e duas papas salgadas. Ao completar doze meses recomenda-se que a criança tenha três refeições (café da manhã, almoço e jantar) e dois lanches (frutas ou cereais). Se a criança não está mamando no peito, a oferta diária desses alimentos deve ser de quatro vezes, a partir dos quatro meses de vida (papa de fruta duas vezes ao dia e papa salgada também duas vezes ao dia), além de leite. Em qualquer dos casos anteriores deve-se iniciar com a papa de fruta (fruta amassada) de manhã e à tarde. É preciso ir experimentando uma fruta de cada vez, para que a criança se acostume com o novo sabor e passe a aceitá-la; após essa fase, sempre que possível deve-se oferecer à criança duas frutas diferentes por dia, selecionando as frutas da estação, para que ela possa receber todas as vitaminas e minerais necessárias para seu crescimento e desenvolvimento. Já a papa salgada deve conter um alimento do grupo dos cereais ou tubérculos, um dos legumes ou ver- duras, um do grupo dos alimentos de origem animal (boi, frango, peixe, miúdos, ovo) e um das leguminosas (feijão, soja, lentilha, ervilha seca, grão de bico). O ovo cozido (clara e gema) pode ser introduzido aos 6 meses de idade, mas seu uso deve ser avaliado pela equipe de saúde. Os alimentos devem ser cozidos em pouca água, sem tempero e oferecidos amassados com o garfo e, de preferência, não devem ser todos misturados no prato. A papa batida no liquidificador ou peneirada não estimula a mastigação e nem permite que a criança aprenda a conhecer os diferentes sabores. PASSO 4 A alimentação complementar deve ser oferecida de acordo com os horários de refeição da família, em intervalos regulares e de forma a respeitar o apetite da criança. Crianças amamentadas no peito em livre demanda desenvolvem muito cedo a capacidade de autocontrole sobre a ingestão de alimentos, aprendendo a distinguir as sensações de saciedade após as refeições e de fome após o jejum (período sem oferta de alimentos). Esquemas rígidos de alimentação interferem nesse processo de autocontrole pela criança. Este aprendizado precoce é fundamental na formação das diferenças nos estilos de controle de ingestão de alimentos nos primeiros anos de vida. O tamanho da refeição está relacionado positivamente com os intervalos entre as refeições (grandes refeições estão associadas a longos intervalos e vice-versa). É importante que as mães desenvolvam a sensibilidade para distinguir o desconforto do bebê por fome de outros tipos de desconforto, para que elas não insistam em oferecer alimentos à criança quando esta não tem fome. Não se deve oferecer prêmios ou aplicar castigos para conseguir que a criança coma o que os pais acham que seja o necessário para ela. 95 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Nos primeiros dias de oferta de alimentos complementares a mãe pode oferecer leite materno, caso a criança demonstre que não está saciada. PASSO 5 A alimentação complementar deve ser espessa desde o início e oferecida de colher; iniciar com a consistência pastosa (papas/purês) e, gradativamente, aumentar a consistência até chegar à ali- mentação da família. No início da alimentação complementar, os alimentos oferecidos à criança devem ser preparados especial- mente para ela, sob a forma de papas e purês. São os chamados alimentos de transição. A partir dos oito meses, podem ser oferecidos os mesmos alimentos preparados para a família, desde que amassados, desfiados, picados ou cortados em pedaços pequenos e que não tenham sido preparados com temperos picantes. Sucos, sopas e comidas ralas não fornecem energia e nutrientes em quantidades suficientes para a criança. A introdução dos alimentos complementares deve ser feita com colher ou copo no caso da oferta de líquidos. PASSO 6 Oferecer à criança diferentes alimentos ao dia. Uma alimentação variada é uma alimentação colorida. Desde cedo a criança deve acostumar-se a comer alimentos variados. Só uma alimentação variada evita a monotonia da dieta e garante a quantidade de vitaminas e minerais que a criança necessita, mantendo uma boa saúde e crescimento adequado. A formação dos hábitos alimentares é muito impor- tante e começa muito cedo. É comum a criança aceitar novos alimentos apenas após algumas tentativas e não nas primeiras. O que pode parecer rejeição aos novos alimentos é resultado do processo natural da criança em conhecer novos sabores e texturas e da própria evolução da maturação dos reflexos da criança. Os alimentos devem ser oferecidos separadamente, para que a criança aprenda a identificar as suas cores e sabores. Colocar as porções decada alimento no prato, sem misturá-las. “Sempre que possível deve-se oferecer carne nas refeições da criança e no mínimo uma vez na se- mana vísceras ou miúdos, que são boas fontes de ferro e portanto ajudam a prevenir a anemia”. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudavel - um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2010). Existem outros alimentos que também possuem ferro como: feijão, soja, grão de bico, lentilha, ervilha seca, escarola, almeirão, couve, brócolis, radite, chicória e que devem ser oferecidos à criança, entretanto como são de origem vegetal precisam da vitamina C para que seu ferro seja melhor absor- vido. Sendo assim, junto ou após a refeição deve-se oferecer à criança alimentos fontes de vitamina C (laranja, limão, goiaba, morango, abacaxi, ponkan). As verduras e legumes ricos em vitamina A também são importantes para a criança, como abóbora e cenoura. Idealmente a carne deve estar presente nas papas por ser a melhor fonte de ferro e zinco, sendo reco- mendado 50g/dia (duas refeições). Outros alimentos possuem ferro, porém com menor biodisponibilidade. PASSO 7 Estimular o consumo diário de frutas, verduras e legumes nas refeições. As crianças devem acostumar-se a comer frutas, verduras e legumes desde cedo, pois esses alimentos são importantes fontes de vitaminas, minerais e fibras. As frutas devem ser oferecidas in natura, amassadas, ao invés de sucos. O consumo de suco de fruta natural deve ser limitado e pode ser oferecido, em pequena quantidade, após as refeições principais. Se a criança recusar determinado alimento, deve-se oferecê-lo novamente em outras refeições. Em média 96 são necessárias de oito a dez tentativas para que o alimento seja aceito pela criança. Quando ela já aceitou bem um alimento, ele pode ser misturado com outro. No primeiro ano de vida, os alimentos não devem ser muito misturados, para que a criança aprenda a conhecer novos sabores e texturas dos alimentos. Sendo assim, quando se oferecer mais de uma fruta ou legume por refeição, eles devem ser amassados e colocados no prato em porções separadas. As refeições, almoço e jantar, não devem ser substituídas por refeições lácteas ou lanches. A criança deve receber uma preparação mais elaborada, por exemplo: papa salgada ou comida de panela. PASSO 8 Evitar açúcar, café, enlatados, frituras, refrigerantes, balas, salgadinhos e outras guloseimas, nos primeiros anos de vida. Usar sal com moderação. Antes dos dois anos de vida não é recomendado o oferecimento de açúcar à criança e o uso de sal deve ser moderado e restrito àquele adicionado às papas salgadas. As frituras são desnecessárias e devem ser evitadas antes de dois anos de vida. A fonte de lipídeo (gordura) para a criança já está presente naturalmente, no leite, nas fontes protéicas e no óleo vegetal. (BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudavel - um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2010). Alimentos que não devem ser oferecidos para crianças pequenas: • Refrigerantes e sucos artificiais. • Produtos industrializados (ex: macarrão instantâneo) e com conservantes. • Produtos com corantes artificiais. • Produtos embutidos (salsicha, linguiça, salame e mortadela) e enlatados (milho verde, ervilha, pepino azedo, palmito, azeitona, picles). • Açúcar, bolos, biscoitos recheados, gelatinas e guloseimas em geral. • Balas de qualquer tipo, pirulito, pipoca, amendoim e outros alimentos pequenos e duros podem pro- vocar acidente grave por engasgamento – podendo inclusive levar à morte. • Chocolates e achocolatados. • Requeijão, queijos gordurosos, queijinhos petit suisse e iogurtes industrializados. • Qualquer tipo de fritura (doce ou salgada). • Maionese, catchup, mostarda, pimenta e outros condimentos similares. • Salgadinhos de pacote em geral. • Comidas muito condimentadas (com excesso de tempero). • Café preto, chá mate e bebidas alcoólicas. • Alimentos muito doces ou muito salgados. Até o primeiro ano de vida, é totalmente contraindicado o uso de mel devido ao risco de intoxicação alimentar (botulismo). O consumo de alimentos não nutritivos (refrigerantes, salgadinhos, açúcar, frituras e outras guloseimas, gelatinas, sucos em pó) está associado à presença de anemia, ao desenvolvimento de excesso de peso e alergias alimentares. PASSO 9 Cuidar da higiene no preparo e manuseio dos alimentos; garantir o seu armazenamento e con- servação adequados. Para uma alimentação saudável, deve-se usar alimentos frescos, maduros e em bom estado de con- servação. Os alimentos oferecidos às crianças devem ser preparados pouco antes do consumo; nunca oferecer sobras de uma refeição. As frutas devem ser lavadas em água corrente, antes de serem descascadas, mesmo aquelas que não sejam consumidas com casca. Para evitar a contaminação dos alimentos e a transmissão de doenças, a pessoa responsável pelo preparo das refeições deve lavar bem as mãos em água corrente e com sabão e os alimentos que serão consumidos, assim como os utensílios onde serão preparados e servidos. Os alimentos devem ser guardados em recipientes limpos e secos, em local fresco e protegidos do contato de moscas ou outros insetos, animais e poeira. Sobras de alimentos da refeição anterior não devem 97 Diretriz De atenção à saúDe Da criança ser oferecidas à criança novamente. Se a família não tiver refrigerador ou este não apresentar condições de temperatura adequada, deve-se orientar que os alimentos da criança sejam preparados próximos ao horário de cada refeição. Oferecer água (tratada, filtrada e fervida) para a criança beber. O mesmo cuidado deve ser observado em relação à água usada para preparar os alimentos. PASSO 10 Estimular a criança doente e convalescente a se alimentar, oferecendo sua alimentação habitual e seus alimentos preferidos, respeitando a sua aceitação. As crianças doentes, em geral, têm menos apetite. Por isso, devem ser estimuladas a se alimentar, sem, no entanto, serem forçadas a comer. Para garantir uma melhor nutrição e hidratação da criança doente, aconselha-se oferecer os alimentos de sua preferência, sob a forma que a criança melhor aceite, e aumentar a oferta de líquidos, principalmente em casos de febre ou diarréia. Para a criança com pouco apetite, oferecer um volume menor de alimentos por refeição e aumentar a frequência de oferta de re- feições ao dia. Para que a criança doente alimente-se melhor, é importante sentar-se ao lado dela na hora da refeição e ser mais flexível com horários e regras. No período de convalescença, o apetite da criança encontra-se aumentado. Por isso, recomenda-se aumentar a oferta de alimentos nesse período, acrescentando pelo menos mais uma refeição nas 24 horas. Enquanto a criança come com sua própria colher, a pessoa responsável pela sua alimentação deve ir oferecendo-lhe alimentos com o uso de outra. Se a criança estiver sendo amamentada exclusivamente no peito, deve-se aumentar a frequência da oferta várias vezes ao dia. O leite materno é com frequência o alimento que a criança doente aceita melhor. Muitas vezes a criança doente cansa-se mais e precisa mamar mais vezes. Já para as crianças que estão recebendo a alimentação da família, deve- se utilizar as preparações em forma de purê ou mais pastosas nas refeições, que são de mais fácil aceitação para a criança. 10.1.10 Esquema alimentar para crianças menores de 2 anos em aleita- mento materno Período Menores de 6 meses Ao completar 6 meses Ao completar 7 meses Ao completar 12 meses Pela manhã Leite materno sob livre demanda Leite materno Leite materno Leite materno e fruta ou cereal Intervalo Papa defruta Papa de fruta Fruta No almoço Papa salgada Papa salgada* Refeição básica da família Meio da tarde Papa de fruta Papa de fruta Fruta ou pão simples ou cereal Final da tarde Leite materno Papa salgada* Refeição básica da família À noite Leite materno Leite materno Leite materno * A partir dos 8 meses, a criança já pode receber a refeição da família. O leite materno deve ser oferecido em livre demanda, porém o intervalo entre a mamada que antecede as principais refeições deve ser espaçado, respeitando assim os sinais de fome e saciedade da criança. 98 10.1.11 Esquema alimentar para crianças menores de 2 anos em aleita- mento artificial Período Menores de 4 meses de 4 a 8 meses após 8 meses após 12 meses Pela manhã Leite* Leite* Leite* Leite* e fruta ou cereal Intervalo Leite* Papa de fruta Fruta Fruta No almoço Leite* Papa salgada Papa salgada ou refeição da família Refeição básica da família Meio da tarde Leite* Papa de fruta Fruta Fruta ou pão simples ou cereal Final da tarde Leite* Papa salgada Papa salgada ou refeição da família Refeição básica da família À noite Leite* Leite* Leite* *: Preferencialmente, fórmula infantil até um ano de idade. No bebê prematuro há necessidade de considerar a idade corrigida para introdução da alimentação sólida, principalmente para aqueles menores que 30 semanas de idade gestacional. Como preparar a papa: A papa salgada deve, preferencialmente, conter um alimento do grupo dos cereais ou tubérculos, um alimento do grupo dos legumes ou das verduras, um alimento do grupo dos alimentos de origem animal (boi, frango, peixe, miúdos, ovo) e um alimento do grupo das leguminosas. Deve-se variar os alimentos de cada grupo a serem oferecidos para a criança para a alimentação ficar equilibrada. Grupos de alimentos da papa: Cereais: arroz, macarrão, farinhas de milho, de mandioca, pães, etc. Tubérculos: batata, mandioca, batata salsa e inhame. Carnes: de boi, de frango, de peixe sem espinhas ou vísceras (de boi e de frango). Ovo inteiro e cozido pode ser introduzido aos 6 meses. Legumes: cenoura, beterraba, abobrinha, abóbo- ra, pepino, cebola, chuchu. Verduras: acelga, agrião, aipo, alface, almeirão, brócolis, chicória, couve, couve-flor, escarola, espi- nafre, mostarda, repolho, rúcula, salsa e salsão. Leguminosas: feijão, lentilha, ervilha seca, soja e grão de bico. sugestões para as diferentes combinações de papas salgadas: • Batata + couve + carne moída • Arroz + lentilha + cenoura + carne bovina 99 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Polenta mole + folhas verdes + feijão • Macarrão + abobrinha + ovo • Polenta mole + repolho + frango desfiado • Mandioca + cenoura + carne moída • Arroz + espinafre + feijão + fígado bovino Observações: Nenhuma fruta é contraindicada na alimentação da criança. Alimentos que podem fazer parte da alimentação das crianças: biscoitos sem recheio e bolos simples, sem recheio e sem cobertura (ex: bolos de fubá, de cenoura, de banana, de abacaxi, de maçã, de beter- raba); iogurte natural ou coalhada caseira (quando a criança não mama mais no peito); salada de frutas ou salada de vegetais com frutas (ex: repolho com maçã, alface com manga, chuchu com ponkan, beterraba com laranja, cenoura com abacate). Dar sempre preferência para alimentos na sua forma mais natural possível. O quadro abaixo apresenta uma referência das quantidades adequadas de alimentos, de acordo com a idade da criança. Contudo, é necessário reforçar que algumas crianças aceitarão volumes maiores ou menores por refeição, sendo importante observar e respeitar os sinais de fome e saciedade da criança. Idade textura quantidade A partir de 6 meses Alimentos bem amassados Iniciar com 2 a 3 colheres de sopa e aumentar a quantidade conforme aceitação A partir dos 7 meses Alimentos bem amassados 2/3 de uma xícara ou tigela de 250 ml 9 a 11 meses Alimentos bem cortados ou levemente amassados 3/4 de uma xícara ou tigela de 250 ml 12 a 24 meses Alimentos bem cortados ou levemente amassados Uma xícara ou tigela de 250 ml 10.2 ALIMENTAÇÃO PARA CRIANÇAS MAIORES DE 2 ANOS A partir dessa idade a criança já come a mesma comida da família, entretanto a mesma não deve apre- sentar temperos e condimentos fortes como pimenta, mostarda, catchup, molho inglês, molho de soja tipo Shoyo®, tabletes de caldos de carne, galinha ou de outros sabores e temperos prontos. Nessa idade há diminuição da velocidade de crescimento da criança, consequentemente seu apetite reduz e pode variar de um dia para outro; nessa fase os hábitos alimentares estão em formação, portanto é importante estimular na criança o consumo de alimentos saudáveis. O intervalo de 2 a 3 horas, entre as refeições, vai garantir que a criança consuma as quantidades de alimentos adequadas. Deve-se introduzir alimentos e preparações gradualmente, respeitando-se os interesses da criança (quando a criança experimenta e aceita o alimento, existe grande chance de incluí-lo em seus hábitos alimentares), o que exige uma maior paciência por parte dos responsáveis. É importante variar sempre os alimentos para que a criança tenha uma alimentação equilibrada; a apresentação da refeição deve ser atrativa, colorida. A criança não deve ter uma relação confusa com a alimentação. Prêmios com doces podem fazer a cri- 100 ança pensar que são alimentos mais valiosos e desejáveis do que as frutas, verduras e legumes. O castigo imposto à criança poderá criar ansiedade e sofrimento toda vez que for o horário de comer. Esses tipos de atitudes podem prejudicar a formação de hábitos alimentares saudáveis. Com a independência adquirida nesta faixa etária, pode ocorrer a omissão do café da manhã, bem como a diminuição de ingestão de leite nesse período, comprometendo o suprimento de cálcio, necessário à formação da massa óssea. Próximo à puberdade, os meninos e as meninas apresentam um desvio para cima da curva normal de peso devido ao processo de repleção energética que antecede o estirão pubertário. Essa repleção faz parte de um processo e se não for excessivo, não existe necessidade de intervenção. 10.2.1 Dez passos para uma alimentação saudável em crianças maiores de 2 anos (BRASIL. Ministério da Saúde. Dez passos para uma alimentação saudável para crianças maiores de 2 anos. Brasília. DF. 2007. Adaptado pela Coordenação de Alimentação e Nutrição da Secretaria Municipal da Saúde de Curitiba). PASSO 1 Procurar oferecer alimentos de diferentes grupos, distribuindo-os em pelo menos três refeições e dois lanches por dia. Evitar pular as refeições. Ensinar a criança a comer devagar, mastigando bem os alimentos, assim ela aprenderá a apreciar a refeição consumindo apenas o suficiente para satisfazer suas necessidades nutri- cionais. Essa é uma forma de prevenir a obesidade na infância, na adolescência e na vida adulta. Procurar ofertar alimentos saudáveis e de diferentes grupos – ler sempre os rótulos dos alimentos. PASSO 2 Incluir diariamente alimentos como cereais (arroz, milho), tubérculos (batatas), raízes (mandioca), pães e massas, distribuindo esses alimentos nas refeições e lanches da criança ao longo do dia. Preferir ofertá-los sempre na sua forma integral ou mais natural possível. Ex: pão integral, arroz integral, batata ou mandioca cozida ou na forma de purê. PASSO 3 Procurar oferecer diariamente legumes e verduras como parte das refeições da criança. As frutas podem ser distribuídas nas refeições, sobremesas e lanches. Esses alimentos são ricos em vitaminas, minerais e fibras, importantes para a proteção da saúde e di- minuem os riscos de ocorrência de várias doenças. Estimular o seu consumo não esquecendo de colocá-los na mesa. Colocar em todas as refeições um prato com frutas, verduras e legumes; aos poucos todos irãocriar o hábito de comer estes alimentos. Preferir os produtos de época; são mais baratos e nutritivos. PASSO 4 Oferecer feijão com arroz todos os dias, ou no mínimo cinco vezes por semana. É uma combinação completa de proteínas e muito bom para a saúde. O feijão é uma boa fonte de ferro e auxilia na prevenção da anemia. Para melhorar a absorção do ferro é importante consumir alimentos como 101 Diretriz De atenção à saúDe Da criança limão, laranja, goiaba, morango, abacaxi e ponkan que são fontes de vitamina C. Para variar, pode-se subs- tituir o feijão por lentilha, grão de bico, ervilha seca ou soja. PASSO 5 Oferecer diariamente leite e derivados, como queijo e iogurte, nos lanches, e carnes, aves, peixes ou ovos na refeição principal da criança. Leite e derivados são as principais fontes de cálcio na alimentação. Evitar os queijos amarelos. Não sub- stituir o leite e os derivados por refrigerantes ou sucos artificiais, pois podem interferir na ingestão adequada diária de cálcio pela criança. As carnes, aves, peixes ou ovos contribuem para a saúde e para o crescimento saudável. Retirar a gordura das carnes e a pele do frango antes de prepará-los. Evitar o consumo de salsicha, linguiça, salame, mortadela e preparações fritas ou à milanesa (carne ou outro alimento passado no ovo e na farinha, e depois colocado para fritar). PASSO 6 Alimentos gordurosos e frituras devem ser evitados; dar preferência a alimentos assados, grelha- dos ou cozidos ao invés de fritos. Evitar oferecer manteiga e banha de porco. Preferir o azeite de oliva, óleo de canola, de girassol, de milho ou de soja, mas não em excesso. Uma lata de óleo por mês é suficiente para uma família de quatro pessoas. Na hora das compras preferir as margarinas que não tenham gorduras trans ou gordura hidrogenada como ingredientes. Ler sempre os rótulos dos alimentos! PASSO 7 Evitar oferecer refrigerantes e sucos industrializados, balas, bombons, biscoitos doces e recheados, salgadinhos e outras guloseimas no dia a dia. Oferecer esses alimentos no máximo duas vezes por semana em pequena quantidade. O excesso no con- sumo desses alimentos contribui para o aumento do peso, das cáries dentárias e também de outras doenças. PASSO 8 Diminuir a quantidade de sal na comida. Moderar o uso de sal. O sal em excesso pode contribuir para o aumento da pressão (hipertensão). Evitar temperos prontos, salgadinhos de pacote, alimentos enlatados, carnes salgadas e embutidos como mortadela, salame, linguiça, etc. Todos eles contêm muito sal. Para temperar preferir cebola, alho, cheiro verde, ervas frescas e secas ou suco de frutas como limão ou laranja. Valorizar e ensinar a criança a gostar do sabor natural dos alimentos. Não levar o saleiro para a mesa, substituindo-o por um frasco com temperos naturais e pedaços de limão. PASSO 9 Estimular a criança a beber bastante água durante o dia, de preferência nos intervalos das refeições, para manter a hidratação e a saúde do corpo. Oferecer de seis a oito copos de água por dia. Incentivar a criança a tomar água nos intervalos das re- 102 feições. É muito importante para o bom funcionamento do organismo. O intestino funciona melhor e o corpo se mantém hidratado. PASSO 10 Incentivar a criança a ser ativa e evitar que ela passe muitas horas assistindo TV, jogando vide- ogame ou brincando no computador. Incentivar para que a criança faça trinta minutos de atividade como caminhada, andar de bicicleta, passear com o cachorro, jogar bola, brincar de amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, correr, dançar, pular corda ou fazer algum tipo de esporte. Manter o peso dentro dos limites saudáveis para a idade. Acompanhar o gráfico de crescimento na Caderneta de Saúde da Criança. 10.3 PROGRAMAS RELACIONADOS À ÁREA DE ALIMENTAÇÃO E NUTRIÇÃO Programa de Suplementação Nutricional Programa municipal, destinado à atenção de crianças menores de 6 meses nascidas de mães HIV+, mediante o fornecimento de fórmula infantil. Como caso especial, existe a possibilidade de inclusão no programa de crianças menores de 6 meses não nascidas de mães HIV +, após esgotadas todas as tentativas de recebimento de leite materno. A quantidade de latas de fórmula infantil à base de leite de vaca para crianças menores de 6 meses a ser liberada mensalmente por criança é variável, levando-se em consideração a idade da criança. O acompanhamento da criança é mensal. Mensalmente é fornecido um cartão branco, específico do programa, que dá direito à retirada de fórmula infantil nos Armazéns da Família da Secretaria Municipal de Abastecimento. Programa de Atenção Nutricional às Pessoas com Necessidades Especiais de Alimentação (PAN) Programa municipal que tem como objetivo avaliação, orientação e monitoramento nutricional de pessoas com as seguintes necessidades especiais de alimentação: • Crianças menores de 2 anos com suspeita ou diagnóstico de alergia ou intolerância alimentar. • Pessoas com desnutrição secundária (ex.: câncer, encefalopatia crônica, hepatopatia, nefropatia, etc). • Pessoas com doenças que comprometem o funcionamento normal do trato gastrointestinal (má ab- sorção e/ou uso de sondas enterais). O programa inclui avaliação e acompanhamento pelos profissionais das Unidades de Saúde e dos Núcleos de Apoio em Atenção Primária à Saúde (NAAPS). O nutricionista orienta a dieta específica para cada caso, adequada aos hábitos alimentares e quadro clínico da pessoa, sempre procurando trabalhar com correções de hábitos, orientações e receitas à base de alimentos convencionais, de custo acessível. Além disso, nos casos de crianças com suspeita ou diagnóstico confirmado de alergia ou intolerância ali- mentar, o nutricionista pode realizar o encaminhamento ao gastropediatra do PAN que acompanhará a criança, orientando a necessidade de dietas de exclusão, fórmulas infantis especias e testes de desencadeamento. Para encaminhar usuários ao PAN, o médico da Unidade de Saúde deve preencher a Ficha de Solicitação de Avaliação Alimentar e Nutricional disponível nas Unidades de Saúde e encaminhá-la ao nutricionista responsável. 103 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Casos de crianças atendidas por especialistas do SUS nos serviços de referência para alergia ou intole- rância alimentar não necessitam ser encaminhados ao gastropediatra do PAN. Programa Leite das Crianças Programa estadual, destinado as crianças entre 6 e 36 meses, de baixa renda. O acompanhamento nas Unidades de Saúde deve ser mensal e aos 36 meses de idade, se a criança encontra-se em risco nutricional, pode-se solicitar permanência da mesma no programa por mais seis meses, mediante um atestado que pode ser emitido pelo médico, enfermeiro(a) ou nutricionista. O cadastramento no Programa Leite das Crianças acontece nas Escolas Estaduais. Programa Bolsa Família Programa federal, destinado a famílias de baixa renda. Cabe à Secretaria Municipal da Saúde ofertar as ações de pré-natal, vacinação, acompanhamento do crescimento e desenvolvimento da criança, Vigilância Alimentar e Nutricional – SISVAN, além das atividades educativas em saúde, alimentação e nutrição. Referências bibilográficas: 1. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Protocolos do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional – SISVAN na Assistência à Saúde. Série B. Textos Básicos de Saúde. Brasília – DF, 2008. 2. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, Saúde da Criança: Nutrição Infantil, Aleitamento Materno e Alimentação Complementar. Brasília – DF, 2009. 3. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção à Saúde. Dez passos para uma alimentação saudável – Guia alimentar para crianças menoresde 2 anos – Um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2010. 4. CURITIBA, SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE. Alimentação infantil: cartilha de orientação aos pais – 2a edição. Curitiba – PR, 2011. 5. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento de Nutrologia. Manual de Orientação para a alimentação do lactente, do pré-escolar, do escolar, do adolescente e na escola. 2ªed. 120 p. São Paulo. 2008. 6. ANCONA LOPES, FÁBIO & BRASIL, ANNE LISE DIAS. Nutrição e dietética em clínica pediátrica. São Paulo:Editora Atheneu, 2003. p.368 7. WEFFORT, VIRGÍNIA RESENDE SILVA & LAMOUNIER, JOEL ALVES. Nutrição em Pediatria da neonatologia à adolescência. Barueri, SP:Manole, 2009. p 659. 8. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Dez passos para uma alimentação saudável para crianças maiores de 2 anos. Brasília – DF, 2007. 104 105 Diretriz De atenção à saúDe Da criança INTERCORRÊNCIAs NA sAÚDE INFANTIL 106 107 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 11 INTERCORRÊNCIAs NA sAÚDE INFANTIL 11.1 ICTERÍCIA NEONATAL A icterícia neonatal ocorre em mais de 50% dos recém-nascidos a termo (RNT) e em mais de 70% dos recém-nascidos pré-termo (RNPT). Nos últimos dez anos a conduta terapêutica tem como fundamento da- dos epidemiológicos e muitas mudanças ocorreram visando reduzir as reinternações por hiperbilirrubinemia significativa e eliminar a ocorrência de encefalopatia bilirrubínica. A icterícia clínica é detectada quando a bilirrubina sérica aproxima-se de 5 a 7 mg/dl e surge primeiro na face, especialmente no nariz. À medida que ela aumenta, progride para o tronco e para as extremidades. A cor amarela da pele é mais facilmente observada no local da compressão digital do que na pele circundante. A avaliação clínica do nível da hiperbilirrubinemia, feita por Kramer (Tabela 1), estabelece zonas dérmicas de progressão da icterícia e seus respectivos valores, porém é importante lembrar que a estimativa visual dos níveis de bilirrubina total (BT) por meio do grau da intensidade da icterícia é subjetiva e pode levar a erros, principalmente, em crianças pardas ou negras. Tabela 1 Correlação dos níveis de bilirrubina com as zonas de Kramer Zonas de Kramer Nível de BT (mg/dl) 1 - Cabeça e pescoço 5,9 0,3 mg/dl 2 - Tórax, acima do umbigo 8,9 1,7 mg/dl 3 - Hipogástrio e coxas 11,8 1,8 mg/dl 4 - Joelhos até tornozelos e cotovelos até punhos 15,0 1,7 mg/dl 5 - Mãos e pés, incluindo palmas e plantas > 15,0 mg/dl Tendo em vista que a hiperbilirrubinemia acentuada é um dos problemas mais frequentes no atendimento do RN nos primeiros dias de vida, a recomendação atual é incluir a monitorização clínica rotineira da icterícia a cada verificação dos dados vitais em todos os RN internados no Alojamento Conjunto (de 8/8 ou de 12/12 horas). Além disso, em face da dificuldade de predizer com segurança a intensidade da icterícia exclusivamente pela avaliação clínica, é recomendado dosar o nível de bilirrubina sérica ou bilirrubina transcutânea em todos os RN ictéricos antes da alta hospitalar. 11.1.1 EXAMEs DE INVEsTIGAÇÃO DA ICTERÍCIA NEONATAL: • Grupo sanguíneo ABO • Fator Rh • Teste de Coombs direto 1 2 3 4 108 • Dosagem da bilirrubina total e frações • Hemograma com contagem de reticulócitos e pesquisa de esferócitos De acordo com o resultado obtido e as horas de vida do RN no momento da coleta do exame se estabelece a probabilidade do risco subsequente da bilirrubina exceder o 95º percentil (zona de alto risco no nomograma de Bhutani – Figura 1), ou seja, do RN desenvolver hiperbilirrubinema acentuada. Figura 1. Níveis de BT em percentis de acordo com o tempo de vida e grau de risco para o RN - Nomograma de Bhutani (para RN saudáveis, com idade gestacional ≥ 35 semanas ou > 2,0 kg de peso ao nascimento). Fonte: Pediatrics, 114(1): 297-316, 2004 (Academia Americana de Pediatria). 11.1.2 FATOREs DE RIsCO PARA ICTERÍCIA GRAVE: • BT na zona de alto risco na ocasião da alta hospitalar (Figura 1) • Instabilidade térmica • Acidose • Asfixia • Doença hemolítica • Sepse • Hipoproteinemia (albumina sérica < 3 g/dl) 11.1.3 sINAIs DE ALERTA: • Icterícia nas primeiras 24 horas de vida (icterícia precoce) • Velocidade de aumento da BI maior do que 5 mg/dl/dia • Icterícia além da 1ª semana de vida no RNT e além da 2ª semana de vida no RNPT • O aumento da bilirrubina direta (BD maior do que 1,5 a 2,0 mg/dl) sugere a colestase neonatal, cujas causas mais comuns são a atresia das vias biliares e a hepatite neonatal. 109 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 11.1.4 QUANDO INVEsTIGAR COLEsTAsE NEONATAL: • Na icterícia prolongada (mais de 15 dias). • Aspecto das fezes (amarelo-pálidas ou branco-acinzentadas). • Urina escura que mancha a fralda. • Hepatomegalia, esplenomegalia. • História familiar. 11.1.5 EFEITOs ADVERsOs DA ICTERÍCIA NEONATAL: • O aumento da bilirrubina indireta (BI) pode levar à encefalopatia bilirrubínica (kernicterus) que ocorre devido à impregnação por bilirrubina indireta (BI) em áreas cerebrais como gânglios da base, hipo- campo e núcleos bulbares. A possibilidade dessa complicação ocorrer é pequena quando o valor de BI é menor do que 20 mg/dl nos recém-nascidos de termo (RNT) com doença hemolítica e menor do que 15 mg/dl nos recém-nascidos prematuros (RNPT). • O kernicterus apresenta-se em três fases clínicas: a 1ª fase caracteriza-se por hipotonia, letargia, sucção débil, choro agudo, vômitos e convulsões. A 2ª fase caracteriza-se por espasticidade, respira- ção irregular, irritabilidade, rigidez muscular, opistótono e hiperpirexia, e a 3ª fase por seqüelas neu- rológicas e displasia do esmalte dentário. 11.1.6 ICTERÍCIA FIsIOLÓGICA O aparecimento da icterícia costuma ocorrer após as primeiras 24 horas de vida. O recém-nascido apresenta-se ativo, saudável, com boa sucção, ganho de peso adequado e habitualmente não ultrapassa a zona intermediária de risco, exceto se houver comorbidades associadas, tais como infecção, perda de peso importante, dificuldade no estabelecimento do aleitamento materno e deficiência de G6PD. 11.1.7 ICTERÍCIA DO ALEITAMENTO MATERNO A icterícia em recém-nascidos amamentados ao seio ocorre de duas formas diferentes: a) “Clássica” ou do leite materno: Bebês assintomáticos, com bom ganho ponderal e que não apresentavam icterícia ou apresentavam icterícia leve durante a hospitalização. Após a alta, os recém-nascidos evoluem com icterícia na 2ª semana de vida (hiperbilirrubinemia indireta prolongada). Ocorre em menos de 1% dos RN amamentados ao seio. Em geral, a icterícia persiste durante a 2ª e 3ª semanas de vida, atingindo um nível máximo de 10 a 30 mg/ dl. Se o aleitamento for mantido, os níveis permanecem elevados e, então, começam a diminuir lentamente, chegando aos níveis normais em 3 a 12 semanas. Quando se interrompe a amamentação ao seio observa-se uma diminuição dos níveis de bilirrubina total em cerca de 48 horas. Em geral, não há indicação de suspensão do leite materno, mesmo temporariamente. Estima-se que os recém-nascidos que recebem leite materno tenham uma chance 3 vezes maior de desenvolver icterícia moderada e 6 vezes maior de desenvolver icterícia acentuada do que os recém-nascidos que recebem fórmulas lácteas. b) Icterícia associada ao aleitamento materno: A hiperbilirrubinema ocorre mais precocemente, em torno de 2 a 4 dias de vida ou, mais tardiamente, em torno de 4 a 7 dias de vida e deve-se à falta de oferta de leite adequada do que a um fator do próprio leite materno (geralmente acompanhada de perda de peso ou desidratação, com ou sem hipernatremia). A hiper- 110 bilirrubinemia leve a moderada, em geral, é auto-limitada e pode não necessitar de tratamento algum, apenas o aumento da ingestãode leite. É uma das causas de reinternamento e uma das preocupações mundiais como causa de kernicterus, especialmente em situações de mãe primigesta, alta precoce da maternidade (antes de 48 horas de vida) e com aleitamento materno ainda não bem estabelecido. 11.1.8 TRATAMENTO: A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Academia Americana de Pediatria para a indicação de fototerapia de alta irradiância segue critérios de acordo com características do RN, tempo de vida e nível sérico de BT (Figura 2). Figura 2. Níveis de BT e indicação de fototerapia de acordo com fatores de risco e tempo de vida em RN com idade gestacional > ou = 35 semanas Fonte: Pediatrics, 114(1):297-316, 2004 (Academia Americana de Pediatria). O follow-up do RN seguirá o seguinte cronograma: se a alta do RN ocorrer com menos de 24 horas de vida, o primeiro retorno deverá ser com 72 horas de vida; se a alta ocorrer entre 24 e 47,9 horas a 1ª consulta deverá ocorrer quando o RN tiver 96 horas de vida (4 dias) e, se a alta ocorrer entre 48 e 72 horas de vida a recomendação é realizar a 1ª consulta com 120 horas de vida (5 dias). 11.1.9 CRITÉRIOs DE ENCAMINHAMENTO IMEDIATO PARA sERVIÇO DE REFERÊNCIA: • Icterícia nas primeiras 24 horas de vida. • Icterícia com os sinais de alerta presentes. • Teste de Coombs direto positivo (icterícia hemolítica). Follow-up mais precoce ou mais frequente deve ser garantido para aqueles RNs que tem fatores de risco para icterícia grave! Lembrar que a colestase neonatal é sempre uma emergência! 111 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Referências Bibliográficas: 1. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS PRACTICE GUIDELINES. Subcommittee on Hyperbilirubinemia. Management of Hyperbilirubinemia in the Newborn Infant 35 or More Weeks of Gestation. Pediatrics, 114 (1), p. 297-316, 2004. 2. BHUTANI, V. K.; JOHNSON, L.; SIVIERI, E. M. Predictive ability of a predischarge hour-specific serum bilirubin for subsequent significant hyperbilirubinemia in healthy term and near-ttterm newborns. Pediatrics; 103:6-14, 1999. 3. CLOHERTY, J. P. e MARTIN, C. R. Hiperbilirrubinemia Neonatal. In: CLOHERTY, J. P.; EICHENWALD, E. C.; STARK, A. R. Manual de Neonatologia, p. 158-189, Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2005 4. KRAMER, L. I. Advancement of dermal icterus in the jaundice newborn. American Journal of Diseases of Children; 118 (3), p. 454-58, 1969. 5. GALLACCI, C. B. Diagnóstico e Conduta na Icterícia Neonatal. In: RODRIGUES, F. P. M. E MAGALHÃES, M. Normas e Con- dutas em Neonatologia, p. 225-231, São Paulo: Atheneu, 2008. 11.2 REFLUXO GAsTROEsOFÁGICO E DOENÇA DO REFLUXO GAsTROEsOFÁGICO 11.2.1 REFLUXO GAsTROEsOFÁGICO (RGE) Fenômeno fisiológico que consiste em ocorrência de refluxo do conteúdo gástrico para o esôfago. Ocorre em todas as idades: lactentes prematuros, lactentes de termo, crianças, adolescentes, adultos jovens, idosos. Até 50% por cento dos lactentes saudáveis regurgitam o conteúdo gástrico várias vezes ao dia, podendo gerar ansiedade nos pais. Este fenômeno denomina-se Regurgitação Funcional do Lactente. QUADRO CLÍNICO: O início das regurgitações pode ocorrer desde os primeiros dias de vida e, independente do número de episódios por dia, o lactente não apresenta sintomas sugestivos de Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE): trata-se do bebê ‘regurgitador feliz’ (do inglês, ‘happy spitter’), que cresce e ganha peso normalmente. O refluxo vai se tornando cada vez mais intenso até 3 ou 4 meses de vida. Em algum momento após os 4 meses começa a regredir espontaneamente, até que chegue a ter regurgitações ocasionais (poucas vezes por semana), em geral entre os 5 e 9 meses de idade. O uso de medicamentos não altera a evolução do quadro. CONDUTA: 1) Tranquilizar a família, esclarecer que o fenômeno é fisiológico e vigiar a evolução nos meses seguin- tes. É fundamental fortalecer a relação entre o médico e a família. Em alguns casos a família não to- lera uma conduta passiva e expectante do médico, pois espera a realização de exames complemen- tares, dietas ou medicamentos, que na maioria das vezes são desnecessários nestes casos. São desnecessários os exames (seriografia de esôfago, estômago e duodeno; cintilografia para RGE; ultrassonografia abdominal para RGE; endoscopia digestiva e biópsias; pH-metria e impedan- ciometria de esôfago). 2) Não há indicação de realizar proclive para reduzir os vômitos e a posição de sono mais adequada é a supina, para reduzir o risco de morte súbita em lactentes menores de 12 meses. 3) O aleitamento materno deve ser preservado sempre que possível. Não há indicação de fórmulas infantis AR (anti-regurgitação). 4) É contraindicada a prescrição de medicamentos procinéticos (bromoprida, metoclopramida e dompe- ridona) e inibidores de ácido (antiácidos, ranitidina ou omeprazol). 112 11.2.2 DOENÇA DO REFLUXO GAsTROEsOFÁGICO (DRGE) O termo DRGE refere-se à situação em que há complicações decorrentes dos episódios de RGE. Sua prevalência é incerta, uma vez que as manifestações variam de acordo com a faixa etária e de acordo com os métodos diagnósticos utilizados para sua identificação. É importante realizar o diag- nóstico diferencial com outras enfermidades que podem manifestar-se com sintomas semelhantes incluindo a alergia à proteína do leite de vaca em lactentes e a esofagite eosinofílica em crianças maiores e adolescentes. QUADRO CLÍNICO: As manifestações clínicas dependem da faixa etária e dos órgãos envolvidos. • Manifestações Esofágicas: choro e irritabilidade em lactentes, odinofagia, disfagia, hemorra- gia digestiva alta, anemia, baixo ganho ponderal. É importante lembrar que a irritabilidade e choro em lactentes sem outros sinais de complicação raramente são causados por esofagite de refluxo. • Manifestações Supra-Esofágicas: episódios de aparente risco de vida (apparent life-threatening events – ALTE)*, asma, tosse crônica, pneumonias de repetição, crises de laringite, rouquidão ou pi- garro, otite média de repetição. É necessário cuidado quanto à presunção diagnóstica de que estes sintomas ocorrem por DRGE, pois a associação entre DRGE e manifestações respiratórias pode ser bidirecional. O tratamento das causas mais comuns (doenças respiratórias primárias) deve ser consi- derado antes da investigação de DRGE. * ALTE: ocorrência no lactente de apneia, cianose, palidez súbita, hipotonia ou hipertonia (devem ser investigadas causas respiratórias, neurológicas e/ou cardiológicas). CONDIÇÕES DE RISCO PARA APRESENTAR DRGE: São as condições clínicas que favorecem a ocorrência de RGE grave e consequentemente esofagite e/ ou broncoaspiração: A- encefalopatia crônica (paralisia cerebral; doenças neurodegenerativas). B- doenças com dispnéia crônica significativa (fibrose cística, asma grave, broncodisplasia pulmonar, bronquiolite obliterante, etc.). C- nascidos com atresia de esôfago ou portadores de defeitos graves de motilidade esofágica (estenose de esôfago, esofagite cáustica ou eosinofílica). EXAMES COMPLEMENTARES MAIS INDICADOS, EM ALGUNS CASOS: a) Seriografia de esôfago, estômago e duodeno (SEED): este exame deve ser realizado quando há sintomas ou sinais que façam suspeitar de defeitos anatômicos do trato digestivo alto: disfagia e dis- túrbios de deglutição; anel vascular; artéria subclávia direita anômala; acalásia; estenose de esôfago; fístula traqueoesofágica; hérnia hiatal; estenose hipertrófica de piloro; má rotação intestinal. Erros comuns em relação ao exame SEED: - solicitar o exame para ver se tem RGE (o RGE fisiológico obrigatoriamente aparece em todas as pessoas); - repetir o exame para ver se o RGE já desapareceu (sempre o RGE irá aparecer novamente, pois ele é fisiológico); - valorizar o achado radiológico sugestivo de esofagite, uma vez que a esofagite somente pode ser diagnosticadaatravés de Endoscopia Digestiva Alta. 113 Diretriz De atenção à saúDe Da criança b) Endoscopia digestiva alta e biópsia de esôfago. Atualmente, não há indicação para a utilização da ultrassonografia abdominal na investigação de DRGE em crianças. TRATAMENTO, CONFORME O CASO E A FAIXA ETÁRIA: a) Evitar consumo de refeições volumosas ou muito gordurosas, fármacos e drogas que possam interfe- rir na função do esfíncter inferior do esôfago (aminofilina, cafeína, álcool e tabaco). Não deitar após refeições. b) Proclive em 30º tem pouca utilidade em crianças pequenas. c) Manter o aleitamento materno exclusivo, de acordo com as diretrizes de alimentação do lactente. d) Fórmulas infantis espessadas ou anti-regurgitação: não são benéficas para a DRGE. e) Inibidores de secreção ácida gástrica: estes medicamentos são usados para tratar esofagite de reflu- xo. Os inibidores de bombas de prótons (IBP) são mais eficazes que os antagonistas de receptores de H2 (ranitidina). Não se recomenda a utilização prolongada destes medicamentos sem confirmação diagnóstica. Não há evidências que apoiem o uso empírico de inibidores de ácido em lactentes com irritabilidade. - Inibidor de bomba de próton – omeprazol: 1-3 mg/Kg/dia, uma dose diária matinal (em jejum), mais indicado em crianças grandes e de indicação rara em recém-nascidos e lactentes. Não se recomenda a utilização de cápsula aberta ou formulações líquidas manipuladas. f) Medicação pró-cinética: estudos randomizados e metanálises publicadas na última década têm de- monstrado que não há evidências suficientes para se recomendar o uso rotineiro dos procinéticos disponíveis atualmente (bromoprida, metoclopramida e domperidona) para o tratamento da DRGE. Referências Bibliográficas: 1. NELSON S.P., et al. Prevalence of symptoms of GE reflux during infancy. Arch Pediatr Adolesc Med 1997;151:569 -72 2. SALVATORE S., VANDENPLAS Y. Gastroesophageal Reflux and Cow Milk Allergy: Is There a Link? Pediatrics 2002;110;972-984 3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. A Utilização da Ultrassonografia Abdominal para o Diagnóstico da Doença do Refluxo Gastroesofágico em Pediatria - Recomendação do Departamento Científico de Gastroenterologia da Sociedade Brasileira de Pediatria. Disponível em http://www.sbp.com.br/sbpciencia/show_item2.cfm?id_categoria=7&id_detalhe=1100&tipo=D 4. VANDENPLAS Y., RUDOLPH C.D., DI LORENZO C., HASSALL E., et al. Joint Recommendations of the North American Society of Pediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition (NASPGHAN) and the European Society of Pediatric Gastroenterology, Hepatol- ogy and Nutrition (ESPGHAN). Pediatric Gastroesophageal Reflux Clinical Practice Guidelines. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2009; 49:498-547. Disponível em http://espghan.med.up.pt/joomla/pdf_files/Pediatric_Gastroesophageal_Reflux_Clinical.99778.pdf 11.3 ANEMIA A Organização Mundial da Saúde (OMS) define anemia nutricional como a condição na qual o conteúdo de hemoglobina do sangue está abaixo dos valores considerados normais para a idade, o sexo, o estado fisiológico e a altitude, como consequência da deficiência de nutrientes, independente da causa da deficiência. 11.3.1 CAUsAs: A anemia pode ocorrer por : 1. Falta de produção de hemácias. 1.1.1. Falta de tecido eritropoético. 114 1.1.2. Invasão da medula óssea por células malignas. 1.1.3. Deficiência de elementos essenciais à formação da hemácia: ferro, folatos, vitamina B12, vitamina B6, vitamina C. 2. Excesso de destruição de hemácias (hemólise). 2.1.1. Por agressão à hemácia. 2.1.2. Defeitos da hemácia. 3. Perdas hemorrágicas. As anemias nutricionais resultam da carência simples ou combinada de nutrientes como o ferro, o ácido fólico e a vitamina B12. Outros tipos mais raros podem ser causados pela deficiência de piridoxina, riboflavina e proteína. Apesar de muitos nutrientes e cofatores estarem envolvidos na manutenção da síntese normal de hemoglobina, a deficiência de ferro é a causa mais comum de anemia carencial no mundo, constituindo a carência nutricional de maior abrangência, afetando principalmente crianças e gestantes dos países em desenvolvimento. 11.3.2 ABORDAGEM DA CRIANÇA COM sUsPEITA DE ANEMIA Anamnese: Investigar: • queixas inespecíficas como fraqueza, diminuição do apetite, alterações do humor e do sono e distúr- bio de atenção; • história gestacional e obstétrica: prematuridade, baixo peso ao nascer, gemelaridade, sangramento perinatal, etc.; • alimentação: aleitamento materno ou artificial, qualidade e quantidade de outros alimentos ofertados à criança. Quando há perversão alimentar (“pica”), ficar atento para a possibilidade de enteroparasi- tose concomitante; • uso de medicamentos como corticosteróides, ácido acetilsalicílico e outros anti-inflamatórios não hormonais, antiácidos e bloqueadores da secreção do suco gástrico, metotrexate, trimetoprima, sul- fassalazina, pirimetamina, anticonvulsivantes. • causas de perda sanguínea crônica: refluxo gastroesofágico, enteroparasitose, gastrite por H. pylori, entre outras. Exame físico: Observar: • Palidez. • Irritabilidade. • Mudança no canal de crescimento. • Cor e textura da pele e cabelos. • Aspecto das unhas. • Presença de petéquias. • Icterícia. • Glossite. • Alterações da freqüência cardíaca, pressão arterial, aparecimento de sopro cardíaco e/ou sinais de insuficiência cardíaca. • Hepatomegalia ou esplenomegalia. 11.3.3 EXAMEs COMPLEMENTAREs: O diagnóstico da anemia é realizado analisando-se os valores da hemoglobina e do hematócrito. 115 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Hemograma: - Número de eritrócitos: inferior a 3,9 milhões/ml. - Hematócrito: menor que 33% - Hemoglobina: Fonte: Organização Mundial da Saúde. - Volume corpuscular médio (VCM) - permite avaliar as causas: - Variação do volume eritrocitário (RDW): 11,5 a 14,5% . Aumento do RDW: anemia ferropriva . Normal: talassemias • Taxa de reticulócitos: - Prematuros: 7% - Outras faixas etárias: 2% - Anemias carenciais: < 0,5% • Eletroforese da hemoglobina - está indicada nas seguintes situações: - se anemia microcítica e RDW normal - possível hemoglobinopatia C ou talassemia; - em pessoas com história, exame físico e antecedentes familiares sugestivos de hemoglobinopatias; - em anemia normocítica com reticulocitose ou alterações no esfregaço de sangue periférico (células falcizadas, em alvo, eliptócitos, estomatócitos e acentuação do pontilhado basofílico). LEMBRE-SE! • Teste de Coombs direto: para diagnóstico de anemia hemolítica auto-imune. • Dosagem de ferro sérico e ferritina: devem ser feitos quando a terapêutica com ferro e dieta não forem eficazes. idade valor hemoglobina Crianças < 5 anos Hb < 11,0 g/dl Crianças entre 5 e 11 anos Hb < 11,5 g/dl Crianças entre 12 e 14 anos Hb < 12,0 g/dl VCM Tipo Causas Entre 75 e 100 micra3 Normocítica processos infecciosos ou inflamatórios crônicos, hemoglobinopatias, anemias hemolíticas, falência medular. Menor que 75 micra3 Microcítica anemia ferropriva, talassemias e hemoglobinopatia C. Maior que 100 micra3 Macrocítica ocorrem na falência medular, diminuição da eritropoeti- na e/ou alteração do processo de maturação nuclear e deficiência de B12 e ácido fólico. Eletroforese de hemoglobina não diagnostica beta-talassemia; o diagnóstico desta é feito pela elevação de hemoglobina A2. 116 11.3.4 TRATAMENTO: Anemia microcítica: 1) Repor o ferro elementar: 4 a 6 mg/kg/dia (máximo de 200mg/dia), dividido em 2 a 3 tomadas, 30 mi- nutos antes das refeições (a absorção é melhor com o estômago vazio), durante 1 a 2 meses; após a normalização da hemoglobina e VCM, repor o ferro por mais 2 meses para estoque (total de 3 a 4 meses de tratamento). 2) Reorientar a alimentação: alguns cuidados podem ser tomados nas recomendaçõesdietéticas infantis e resultarão em grande melhoria na biodisponibilidade de ferro: • Sempre que possível, deve-se oferecer nas refeições carne vermelha, aves e peixes, e no mínimo uma vez por semana vísceras ou miúdos que contêm ferro de alto aproveitamento biológico. • O feijão e outras leguminosas (soja, grão de bico, lentilha, ervilha seca), além dos vegetais folhosos verde-escuros, são importantes fontes de ferro não heme; portanto, deve-se incentivar seu consumo. Entretanto, para facilitar a absorção do ferro não heme necessita-se a utilização concomitante de alimentos que contenham agentes facilitadores, como carnes em geral (fontes de ferro heme) e ali- mentos ricos em vitamina C, como frutas (morango, laranja, limão, abacaxi, goiaba, acerola, ponkan, melão) e hortaliças (brócolis, couve, tomate, pimentão, couve-flor). As frutas e os sucos devem ser oferecidos após o término da refeição salgada para não interferir no consumo dos outros alimentos. • Deve-se evitar o consumo de leite e seus derivados (iogurte, coalhada, sobremesas com leite), chás (preto e mate), café ou refrigerantes junto às refeições principais (almoço e jantar), pois podem redu- zir a absorção de ferro dos alimentos. • A prescrição de alimentos enriquecidos com ferro (fórmulas infantis quando a criança não está em aleitamento materno, entre outros) deve ser recomendada, sempre que possível. 3) Prescrever albendazol (em crianças acima de 2 anos ou mais), se houver enteroparasitose. 4) Agendar retornos mensais para reavaliação. 5) Solicitar novo hemograma com reticulócitos após 2 meses de tratamento. Observar a evolução: • Sem persistência de anemia microcítica: orientar alimentação adequada e acompanhar clinicamente na rotina. • Com persistência de anemia microcítica: avaliar o ferro sérico, a dosagem de ferritina e saturação de transferrina. Confirmada a carência de ferro, deve-se manter o sulfato ferroso e investigar presença de sangue oculto nas fezes. Este sangramento pode ter como causa verminoses, pólipos ou divertí- culos intestinais e alergias alimentares, entre elas a alergia à proteína do leite de vaca. Se o ferro sérico, a dosagem de ferritina e a saturação de transferrina forem normais, solicitar a eletroforese de hemoglobina com dosagem de HbA2 para excluir diagnóstico de beta-talassemia minor (HbA2 > 3,5%). Nos pacientes com beta-talassemia minor (Hb entre 10 e 11,5g/dl) e intermédia (Hb entre 8 e 10g/dl) deve-se fazer reposição de ferro somente se ferro sérico e ferritina diminuídos. 6) Encaminhar para referência se: • RDW e eletroforese de hemoglobina normais . • RDW elevado, eletroforese de hemoglobina normal e certeza de adesão ao tratamento. • Eletroforese alterada mas não sugestiva de talassemia. Nestes casos deve-se investigar intoxicação por chumbo, outras síndromes talassêmicas, perdas sanguíneas ocultas e processos inflamatórios crônicos. Anemia normocítica: Em bebês nascidos a termo e adequados para a idade gestacional observa-se a chamada “anemia fisi- ológica do lactente” entre 7 e 12 semanas de vida, onde há redução transitória dos níveis de hemoglobina, com resolução espontânea (ocorre devido à substituição da Hb fetal pelas Hb A1 e A2). 1) Investigar as seguintes situações: processos infecciosos ou inflamatórios crônicos, hemoglobinopatias, anemias hemolíticas, falência medular. 117 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 2) Se anemia leve: após 1 mês, repetir hemograma; se persistir a anemia, encaminhar para o especia- lista; se não persistir a anemia, esta era secundária a processo infeccioso ou inflamatório. Anemia macrocítica: 1) Investigar deficiência de vitamina B12 e ácido fólico 2) Encaminhar para especialista. 11.3.5 sINAIs DE ALERTA PARA ENCAMINHAR PARA O EsPECIALIsTA: • Leucopenia/plaquetopenia/linfocitose/atipia linfocitária/presença de blastos. • Persistência de anemia microcítica após tratamento devidamente efetuado. • Suspeita de síndrome hemolítica, lactentes com história de hemólise recorrente ou icterícia prolonga- da sem incompatibilidade sanguínea materno-fetal. 11.3.6 PROFILAXIA DE ANEMIAs CARENCIAIs: Entre as ações que competem à equipe de saúde que efetivamente podem prevenir a anemia estão: 1) Garantir o vínculo do paciente com a equipe de saúde. 2) Realizar a anamnese e exame físico . 3) Orientar e acompanhar se a alimentação está adequada. 4) Realizar um pré-natal adequado, de maneira a prevenir recém-nascidos de baixo peso e/ou prematu- ros. 5) Promover, proteger e apoiar a manutenção do aleitamento materno exclusivo até o 6º mês de vida. É indiscutível que o leite materno, apesar de sua baixa quantidade de ferro, previne a anemia nos seis primeiros meses de vida da criança, pois a biodisponibilidade permite a absorção de 50% do ferro presente, enquanto que a absorção do ferro do leite de vaca, que tem quantidades semelhantes, é de apenas 10%. 6) Prescrever ferro profilático nas seguintes situações: - Prematuros (< 37 semanas) ou com baixo peso ao nascer (< 2,5 kg): necessitam reposição de ferro, a partir do 30º dia de vida deverão receber 2 mg/kg/dia. Se estiverem recebendo leite de fórmula, este fornecerá pouco mais de 1 mg/kg/dia de ferro, portanto deverão receber pelo menos 1 mg/kg/ dia adicionais em forma de ferro medicamentoso. A oferta de ferro deverá ser feita até 2 anos de idade. - Lactentes que permanecem em aleitamento materno exclusivo a partir do 6º mês de vida: 1 a 2 mg de ferro elementar/kg/dia, até os 18 meses. - Lactentes em aleitamento artificial sem enriquecimento com ferro: a partir do 4º mês, 1 a 2 mg de ferro elementar/kg/dia, até os 18 meses. Dose de Sulfato Ferroso em gotas (apresentação: 25 mg de ferro elementar por ml): - 2 mg/kg/dia ~ 3 gotas/ kg/dia - 1-2 mg/kg/dia ~ 2 gotas/ kg/dia Obs.: Em dezembro de 2002, por meio da RDC 344, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), todas as farinhas de milho e trigo comercializadas no país devem estar fortificadas com ferro (30% RDA, 4,2 mg/100 g produto) e ácido fólico (70% RDA, 150 µg por 100 g produto). A fortificação com ferro dessas farinhas visa reduzir a anemia ferropriva em pré-escolares e escolares brasileiros. 118 Referências bibliográficas: 1. BRAGA, J. A. P., LOGGETTO, S. R. Diagnóstico Diferencial das Anemias. In Tratado de Pediatria. 2. ed. Seção 21. Sociedade Brasileira de Pediatria. Barueri, SP. 2010. 2. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento de Nutrologia. Anemia ferropriva em lactentes: revisão com foco em prevenção. Abril/2012. http://www.sbp.com.br/show_item2.cfm?id_categoria=24&id_detalhe=4146&tipo_detalhe=s. Acesso em 13/07/2012. 3. SILVA, DANIELLE G., PRIORE, SILVIA E., FRANCESCHINI, SYLVIA DO C.C. Risk factors for anemia in infants assisted by public health services: the impotance of feeding practices and iron supplementation. Jornal de Pediatria – Vol. 83, Nº 2. Socie- dade Brasileira de Pediatria. 2007. 4. LIMA, A. C. V. M. S., LIMA, M. C., GUERRA, M. Q. F., ROMANI, S. A. M., EICKMANN, H. S., LIRA, P. I. C. Impacto do tratamento semanal com sulfato ferroso sobre o nível de hemoglobina, morbidade e estado nutricional de lactentes anêmicos. http://www. jped.com.br/conteudo/06-82-06-452/port_print.htm. Acesso em 02/01/2007. 11.4 DOENÇAs REsPIRATÓRIAs NA INFÂNCIA* * Atualização do Programa Crescendo com Saúde. Infecções e Alergias Respiratórias na Infância. SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE DE CURITIBA. 2001. Mundialmente considerado como um dos principais problemas da saúde infantil, as afecções respiratórias, princi- palmente as infecções respiratórias agudas, são responsáveis por uma alta morbidade em crianças em todo o mundo. Inúmeros fatores mencionados na literatura justificam a alta frequência das doenças do aparelho res- piratório na infância, como fatores ambientais relacionados à poluição, à situaçãoeconômica, ao estado nutricional e até mesmo a outros aspectos sociais e culturais. Por outro lado, os crescentes avanços na área da investigação e terapêutica, permitem intervenções eficazes, baseadas em informações epidemiológicas, superando as dificuldades existentes em relação ao diagnóstico etiológico. 11.4.1 ABORDAGEM DA CRIANÇA COM DOENÇA REsPIRATÓRIA: Anamnese: • Idade da criança: toda criança com idade abaixo de 2 meses com sinais e sintomas respiratórios deve ser avaliada pelo médico. Acima de 2 meses, a priorização da consulta médica será estabelecida de acordo com a gravidade dos sinais e sintomas. • Início e evolução dos sintomas • Tosse • Chiado no peito • Dispneia • Febre • Aceitação via oral • Vômitos e/ou diarreia - a desidratação agrava o estado da criança • Convulsões • Uso de medicação: qual, se houve melhora ou não • História pregressa: recorrência de pneumonias, sibilância • História familiar Exame físico: Observar: • Frequência respiratória (FR): deve ser avaliada com a criança tranquila, se possível dormindo, duran- te 1 minuto, por duas vezes. 119 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Abaixo de 2 meses: FR > 60 rpm 2 meses a 11 meses: FR > 50 rpm sugestivo de PNEUMOPATIA 1 ano a 5 anos: FR > 40 rpm Obs.: a taquipneia pode estar presente em outra condições clínicas, como por exemplo: febre, distúrbio hidro-eletrolítico. • Tiragem intercostal (TIC), principalmente tiragem subcostal (TSC): a TIC é o parâmetro para classificar a PNEUMONIA como GRAVE e sua presença determina a priorização no atendimento médico. 11.4.2 PREsENÇA DE sINAIs CLÍNICOs DE GRAVIDADE: • Prostração ou agitação acentuadas • Irritabilidade (a criança pode estar em hipóxia) • Palidez/cianose • Gemência • Batimento de asas nasais • Saturação de O2 abaixo de 92% • Vômitos ou dificuldade para ingerir líquidos • Desidratação • Desnutrição proteico-calórica • Hipotermia • Ausência de resposta ao tratamento ambulatorial • Recorrência de pneumonia 11.4.3 FATOREs DE RIsCO PARA DOENÇAs REsPIRATÓRIAs NA INFÂNCIA: A ocorrência das doenças respiratórias está relacionada à presença de fatores de risco referentes à criança, ao agente etiológico e ao meio ambiente. Fatores como a desnutrição, baixo peso ao nascer, desmame precoce, poluição intra ou extradomiciliar, aglomerações na residência, baixas coberturas de vacinação e atendimento contribuem para a maior incidência de infecções e alergias respiratórias na infância. É importante avaliar o conjunto de fatores envolvidos para se efetivar a conduta apropriada. Fatores relacionados à criança: • Idade • Sexo • Baixo peso ao nascer • Desnutrição / Anemia, carência de vitaminas A e D • Desmame precoce / esquema alimentar • História imunológica • Atopia • Imunodeficiências • Doenças cardiopulmonares crônicas • Malformações congênitas Fatores relacionados ao agente etiológico: • Multiplicidade de agentes virais • Infecção viral predispondo à complicação bacteriana • Desequilíbrio da flora habitual 120 • Vários agentes produzindo manifestações clínicas semelhantes Fatores ambientais: • Exposição a outras crianças da família, creche/escola e/ou aglomerações • Habitação: ventilação, umidade, insolação • Tabagismo secundário ou passivo • Sazonalidade • Poluição intra e extradomiciliar 11.4.4 INFECÇÕEs DO TRATO REsPIRATÓRIO sUPERIOR 11.4.4.1 RINOFARINGITE VIRAL ETIOLOGIA: Os mais frequentes são os Rinovírus (causam mais da metade dos casos), Vírus Sincicial Respirató- rio (VSR), Parainfluenza; com menor frequência aparecem os Coronavirus, Adenovirus, Influenza, Enterovirus e Rotavirus (sua incidência vem aumentando nos últimos anos). QUADRO CLÍNICO: Espirros, coriza, obstrução nasal, dificuldade para sugar nos lactentes (pela obstrução nasal e otalgia), dor de garganta, tosse, febre, cefaleia, mialgia, astenia nos três primeiros dias. Obs: em crianças abaixo de 2 meses, o resfriado comum pode se apresentar com febre alta e sinais de toxemia, a tosse e a rinorreia podem persistir por até 2 semanas. Esta criança deve ser reavaliada diariamente até melhora dos sintomas. TRATAMENTO: apenas sintomático. 1) Para febre e dor: antitérmico e analgésico. 2) Para obstrução nasal: soro fisiológico 0,9% em cada narina, várias vezes ao dia, principalmente antes das mamadas; limpeza frequente. 3) Para tosse: ingestão de líquidos. 4) Orientação à mãe: manter o aleitamento materno, retorno em caso de piora. 11.4.4.2 INFLUENZA A (H1N1) A Influenza A (H1N1), é uma doença respiratória contagiosa que leva a um quadro de infecção respiratória aguda. O contágio se dá, principalmente, por meio de tosse, espirros ou de secreções respiratórias de pessoas infectadas. QUADRO CLÍNICO: os pacientes suspeitos de síndrome gripal devem passar por consulta médica para avaliação. Caracteriza-se como caso provável: SINAIS DE GRAVIDADE: Casos graves: presença de alteração da consciência, dispneia, taquipneia, saturação de O2 < 92%, esforço respiratório, cianose, vômitos incoercíveis, toxemia, desidratação. SUSPEITA DE SÍNDROME GRIPAL: Febre > 38°C de início agudo + sintomas respiratórios (tosse e/ou dor de garganta), sem diagnóstico de outra patologia (tonsitite, sinusite, etc.). 121 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Grupos de risco: menores de 2 anos e portadores de doença crônica (cardiopatas, pneumopatas, ne- fropatas, imunodeficientes, etc). TRATAMENTO: • Deve ser iniciado nas primeiras 48 horas do início dos sintomas, se possível. • Os casos considerados GRAVES devem ser encaminhados para internamento e o restante dos casos devem ser acompanhados diariamente pelo médico assistente. • O período de afastamento/isolamento após o início dos sintomas é de 7 dias para adultos e 14 dias para crianças ou, se for possível reavaliação, pode- se liberar após mais de 24 horas afebril. • Medicação: fosfato de oseltamivir (Tamiflu). O médico deve preencher receita simples para o paciente. Apresentação: para crianças menores de um ano: cápsulas de 12, 20 e 25 mg; para demais crianças e adultos: cápsulas de 30, 45 e 75 mg. A medicação está disponível nos Centros Municipais de Urgên- cias Médicas (CMUM). Doses do fosfato de oseltamivir: Para crianças menores de 1 ano a dose será de acordo com a idade, conforme tabela abaixo: Para crianças maiores de 1 ano, calcular a dose de acordo com o peso da criança: Recomendações para administração da medicação: Na indisponibilidade de apresentações pediátricas conforme tabela acima, utilizar a cápsula de 75 mg e proceder do seguinte modo: 1) Utilizar como dosador uma seringa de 10 ml; 2) logo antes da administração oral, a cápsula de 75 mg deve ser aberta em um recipiente limpo (xícara). Com a seringa acrescentar 7,5 ml de água fervida e fria ou filtrada, adoçar com açúcar e misturar bem. Obtém-se uma diluição de 10 mg de oseltamivir por ml; 3) aspirar com a seringa somente o volume adequado conforme a posologia descrita na prescrição médica e aplicar na boca, desprezando o volume excessivo; 4) de acordo com essas diluições a dosagem a ser administrada será conforme tabela abaixo: Idade da criança Dose oseltamivir Frequencia da administração < 3 meses 12 mg Duas vezes ao dia, por 5 dias. Prescrição muito criteriosa nesta idade!!! 3 - 5 meses 20 mg duas vezes ao dia, por 5 dias. 6 -11 meses 25 mg duas vezes ao dia, por 5 dias. Idade da criança Dose oseltamivir Frequencia da administração 10 a 14 Kg 30 mg duas vezes ao dia, por 5 dias. 15 a 23 Kg 45 mg duas vezes ao dia, por 5 dias. 23 a 40 Kg 60 mg duas vezes ao dia, por 5 dias. ≥ 40 Kg 75 mg duas vezes ao dia, por 5 dias. 122 Informações sobre o fosfato de oseltamivir: • Não é esperado que ele possa alterar o efeito de nenhum outro medicamento.• É recomendado tomá-lo com alimentação para diminuir a chance de náuseas ou vômitos. • Pode também ser tomado com bebidas não alcoólicas ou água. • Seu sabor amargo pode ser disfarçado com alimento ou com uma bebida doce logo após. • Se alguma dose for esquecida, recomendar que o paciente tome-a assim que lembrar. • Os eventos adversos como náuseas, vômitos e dor de estômago ocorrem principalmente após a 1ª dose e, em geral, cessam com a continuação do tratamento. • Para os pacientes que vomitam até uma hora após a ingestão pode ser administrada uma dose adicional. PREVENÇÃO: Orientar os pacientes: • Lavar as mãos frequentemente com água e sabão, especialmente depois de tossir ou espirrar. • Ao tossir ou espirrar, cobrir o nariz e a boca com um lenço, preferencialmente descartável. • Evitar o contato direto com pessoas doentes. • Evitar tocar olhos, nariz ou boca sem, antes, lavar as mãos. • Usar medicamentos somente com orientação médica. • Evitar aglomerações de pessoas, principalmente em ambientes fechados. • Abrir as janelas e deixar o ar entrar, em casa, no trabalho, nos ônibus. • Não compartilhar copos, talheres, toalhas e objetos pessoais, para evitar a disseminação do vírus. • Orientar cuidados, avaliação de sinais de alerta, isolamento e monitoramento do paciente durante os próximos dias, disponibilizando reavaliação quando necessário. 11.4.4.3 FARINGOTONsILITE VIRAL PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 1 a 3 dias. IDADE: principalmente abaixo de 3 anos. QUADRO CLÍNICO: início insidioso; febre variável, pouca dor, bom estado geral. Pode haver coriza, tosse, rouquidão, conjuntivite, diarréia. Exame da orofaringe: hiperemia, úlceras, vesículas raramente com pontos de pus, adenomegalia cervical posterior. Lembrar que o vírus Epstein Barr pode apresentar-se com pontos ou placas brancas, confundindo o diagnóstico com a faringotonsilite bacteriana. TRATAMENTO: 1) Antitérmico/analgésico. Obs.: o uso de anti-inflamatórios não hormonais, pastilhas e soluções antissépticas bucais não têm indicação. Evitar o uso de antibióticos, principalmente em crianças menores de 2 anos de idade. Dose desejada Volume a ser administrado da diluição de cápsula de 75 mg em 7,5 ml de água 12 mg 1,2 ml 20 mg 2 ml 25 mg 2,5 ml 30 mg 3 ml 45 mg 4,5 ml 60 mg 6 ml 123 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 11.4.4.4 FARINGOTONsILITE EsTREPTOCÓCICA A faringite ou tonsilite estreptocócica é a infecção bacteriana mais frequente em crianças em idade escolar, causa significativa de doença e ausência à escola. Entre as sequelas não supurativas da infecção estrep- tocócica do grupo A, estão a febre reumática aguda e a glomerulonefrite pós-estreptocócica. Os estreptococos do grupo A se disseminam pelo contato direto de pessoa para pessoa, principalmente na escola e em casa, por meio de gotículas respiratórias infectadas. Na maioria dos casos, a criança traz para casa os estreptococos contraídos na escola. PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 12 horas a 2 dias. PERÍODO DE CONTÁGIO: até 4 semanas. Se a criança doente for tratada, o risco de contágio fica re- duzido a 2 dias após o início do tratamento antibiótico. IDADE: geralmente acima de 3 anos. QUADRO CLÍNICO: os sintomas mais comuns incluem dor de garganta (geralmente de início súbito), dor à deglutição e febre alta. Cefaleia, dor abdominal, náuseas e vômitos podem ocorrer. Sinais clínicos que sugerem infecção estreptocócica são inicialmente hiperemia tonsilofaringeana com ou sem exsudato e lin- fadenite cervical anterior dolorosa. Outros achados incluem petéquias no pálato e/ou nos pilares tonsilianos anteriores, edema de úvula com hiperemia, erosões com crostas nas fossas nasais e rash escarlatiniforme. DIAGNÓSTICO: o diagnóstico de certeza da infecção estreptocócica do grupo A só é feito com isolamento em cultura do microorganismo. A coleta e transporte desse material deverão ser orientados pela equipe da Vigilância Epidemiológica dos Distritos Sanitários. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL DAS FARINGITES: * Manifestação característica de faringite estreptocócica. # Manifestação não característica de faringite estreptocócica. + Língua em framboesa, rash cutâneo em face, tórax, axilas, ombros e superfície interna dos membros. Sinais e sintomas usualmente não associados com infecção estreptocócica: coriza, rouquidão, tosse, diarreia, conjuntivite, estomatite anterior e lesões ulcerativas. Características clínicas Faringite estreptocócica Faringite viral Idade Acima de 3 anos Todas as idades Tipo de início Súbito* Gradual Sinais e sintomas iniciais Garganta irritada com dor à deglutição Garganta levemente irritada Febre Alta (> 38º C) Baixa ou ausente Aspecto da garganta *Hiperemia, edema e exsudato (pontos amarelos) na faringe *Aumento das tonsilas com exsudato *Hiperemia, edema e petéquias no pálato mole Hiperemia, raramente com exsudato (vírus Coxsackie e Epstein Barr). Vesículas. Outros sinais *Linfadenomegalia cervical anterior dolorosa. *Erosões com crostas nas fossas nasais *Escarlatina+ # Tosse # Rouquidão # Coriza aquosa # Conjuntivite # Diarreia (etiologia viral) 124 O início agudo do quadro com algumas das manifestações características frequentes da faringite estrep- tocócica (*) e nenhuma das não características (#) facilita o diagnóstico de faringite ou tonsilite estreptocócica. TRATAMENTO: 1) Antitérmico-analgésico. 2) Antibiótico: Penicilina benzatina: até 25kg: 600.000 UI, IM profundo, dose única; acima de 25kg: 1.200.000 UI, IM profundo, dose única. Nos casos de alergia à penicilina: Eritromicina: 30 a 50 mg/kg/dia de 6/6h (máximo de 1g/dia), VO, por 10 dias. A penicilina é o agente antimicrobiano de escolha para tratamento da infecção estreptocócica, exceto em indivíduos com história de alergia à penicilina. A erradicação do estreptococo requer níveis séricos eficazes de antibióticos por 10 dias. O diagnóstico precoce e tratamento podem reduzir o período de contágio e morbidade, permitindo ao paciente retornar à sua atividade normal mais rapidamente. 11.4.4.5 DIFTERIA PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 2 a 5 dias. IDADE: 1 a 5 anos. QUADRO CLÍNICO: início insidioso; febre baixa, pouca dor, toxemia, sem história vacinal. Exame da orofaringe: hiperemia, placas acinzentadas em orofaringe, sangramento, adenomegalia importante, dissociação entre frequência cardíaca e temperatura (temperatura aumentada e frequência cardíaca baixa). CONDUTA: 1) HOSPITALIZAÇÃO. 2) Preenchimento da ficha de notificação epidemiológica dos casos suspeitos. 3) Coleta de material das membranas para exame bacteriológico (a ser realizada no hospital). 11.4.4.6 ABsCEssO PERITONsILAR QUADRO CLÍNICO: febre, odinofagia, hipersalivação, trismo, abaulamento e/ou assimetria nas lojas tonsilares. CONDUTA: 1) HOSPITALIZAÇÃO. 11.4.4.7 EPIGLOTITE IDADE: 3 a 8 anos. QUADRO CLÍNICO: início abrupto, de 4 a 12 horas, com progressão rápida e curso grave. Febre alta (acima de 39ºC), toxemia, ansiedade, prostração, palidez, posição ereta, queixo para cima, pescoço estendido, língua protrusa, salivação, voz abafada, tosse rara, com gasping, disfagia, insuficiência respiratória frequente. Ao exame de orofaringe é preciso muito cuidado devido ao risco de parada respiratória. Com o advento da vacinação contra o Haemophylus influenzae diminuiu muito a sua incidência. CAUSA MAIS FREQUENTE: H. influenzae. TRATAMENTO: requer vigilância médica rigorosa – HOSPITALIZAÇÃO IMEDATA! Conduta na Unidade de Saúde até a remoção hospitalar: 1) Oxigênio. 125 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 2) Dexametasona: 0,15mg/kg/dose, IM ou VO Sempre utilizar antes da adrenalina. 3) Inalação com: adrenalina: 1 a 3 ml, diluídos em 2 ml de SF 0,9% - em 15 minutos. Frequentemente será necessária a repetição dentro de 1 a 2 horas. Não altera a duraçãoda doença, mas pode evitar procedimentos invasivos. Ao usar adrenalina a criança deverá permanecer pelo menos 2 horas em observação. 11.4.4.8 LARINGITE EsPAsMÓDICA IDADE: 3 meses a 3 anos. QUADRO CLÍNICO: início súbito, geralmente à noite com progressão rápida. Sintomas de curta duração e tendência à recorrência. Febre e toxemia ausentes, ansiedade, prostração e disfagia, voz frequentemente rouca, afonia, tosse canina, raros sinais e sintomas de insuficiência respiratória, estridor inspiratório. CAUSAS PROVÁVEIS: alergia, hiperreatividade brônquica e refluxo gastroesofágico. TRATAMENTO: 1) Tranquilizar a criança e manuseá-la o menos possível. 2) Não explorar a orofaringe se a criança não colabora, pois pode piorar. 3) Se a laringite é leve, tranquilizar a família e explicar o quadro. 4) LARINGITE LEVE: dexametasona: 0,15 mg/kg, VO ou IM, dose única OU prednisolona,1 mg/Kg/dia, VO, se necessário. LARINGITE MODERADA: dexametasona: 0,15 mg/kg, VO ou IM, dose única OU prednisolona, 1 mg/Kg/dia, VO. LARINGITE GRAVE: dexametasona: 0,15 mg/kg, VO ou IM, dose única OU prednisolona, 1 mg/Kg/dia, VO + inalação: adrenalina: 1 a 3 ml + S.F. O, 9%: 2ml, com fluxos baixos de O2 (4 a 6 L/min.). A melhora com adrenalina é rápida mas em duas horas pode retornar ao quadro original; nunca ad- ministrá-la sem associar à dexametasona. Ao usar adrenalina a criança deverá permanecer pelo menos 2 horas em observação. O nível de consciência alterado ou a cianose indicam a necessidade de hospitalização imediata. 5) Não há indicação de antibioticoterapia. 11.4.4.9 LARINGITE VIRAL IDADE: 3 meses a 3 anos. QUADRO CLÍNICO: início insidioso, de 12 a 48h, progressão lenta e curso benigno. Febre moderada (37 a 38,5ºC), voz frequentemente rouca, tosse rouca, estridor, ausência de disfagia, raros os sinais e sintomas de insuficiência respiratória. Normalmente ocorre no outono e inverno. CAUSA MAIS FREQUENTE: Vírus Parainfluenza 1 2 e 3, Infuenza A e B, Adenovirus e Vírus Sincicial Respiratório. TRATAMENTO: como da laringite espasmódica. 126 Nas crianças maiores de 2 anos em bom estado geral, sem sinais de gravidade ou bacteremia, pode-se fazer o tratamento sintomático para febre e dor, aguardar 24 a 48 horas do início dos sintomas para reavaliação e então, se necessário, iniciar antibioticoterapia. Fonte: Maite Callen Blecua M, Cortés Rico O.El Pediatrade Atención Primaria y la Laringitis Aguda – Crup. Protocolos del GVR (publicación P-GVR-5) [consulta em 05/07/12]. Disponível em : www.aepap.org/gvr/protocolos.htm 11.4.4.10 OTITE MÉDIA AGUDA (OMA) QUADRO CLÍNICO: é um processo inflamatório/infeccioso do ouvido médio, geralmente precedido por (IVAS), com sinais e sintomas de doença aguda local ou sistêmica (febre, otalgia, otorreia); pode se associar a irritabilidade, dificuldade para sugar, comprometimento do estado geral. Pode haver vômitos, diarreia e meningismo. Otoscopia: abaulamento, hiperemia difusa e intensa, e perda da translucidez com opacificação da mem- brana timpânica. TRATAMENTO: 127 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 1) Para dor: analgésico; calor local – compressas quentes e secas; posição semi-sentada. 2) Para obstrução nasal: SF 0,9%; limpeza frequente das narinas; aumentar a ingestão de líquidos. 3) Antibiótico: 1ª escolha: amoxicilina: 50 mg/kg/dia,VO, de 8/8h, por 7 a 10 dias. Deve apresentar sinais de melho- ra em 48h. Retorno em 5 dias. 2ª escolha: amoxicilina: 90 mg/kg/dia,VO, de 12/12 h ou mudar para amoxicilina com ácido clavulâ- nico: 90 mg/Kg/dia, VO, de 8/8 h, por 10 dias. Se suspeita de H. influenzae (tímpano com aspecto mais opaco e amarelado e menos avermelhado) deve-se utilizar amoxicilina com ácido clavulânico: 50 mg/kg/dia. Se houver nova recorrência, utilizar a amoxicilina com ácido clavulânico: 90 mg/kg/dia, VO, de 12/12 h, por 7 a 10 dias. 4) Para otorreia: limpar o ouvido com gaze limpa e usar gotas otológicas com antibiótico (ciprofloxacino — não disponível na Farmácia Curitibana). 11.4.4.11 OTITE MÉDIA COM EFUsÃO (OME) QUADRO CLÍNICO: caracteriza-se pela presença de secreção no ouvido médio, na ausência de sinais e sintomas de infecção aguda. Não existe dor. A hipoacusia é o principal sintoma e pode ser suspeitada por mau rendimento escolar, desatenção e hábito de ouvir televisão ou som muito alto. Otoscopia: a membrana timpânica encontra-se íntegra e/ou opacificada, podendo haver retração e au- mento da vascularização; o líquido presente pode ser seroso, mucoso ou purulento. TRATAMENTO: a resolução do quadro, na maioria das vezes, é espontânea. É importante lembrar que, após um episódio de OMA ou OME, as crianças podem persistir com secreção no ouvido por até 3 meses, a despeito do tratamento apropriado. As recorrências são frequentes, portanto é necessário fazer um seguimento cuidadoso nos próximos 3 meses. Recomenda-se que o seguimento destas crianças seja a cada 4 semanas, até que se resolva a efusão no ouvido médio, com normalização da otoscopia; se isto não ocorrer dentro de 3 meses, encaminhar ao especialista. Deve-se investigar e tratar fatores predisponentes (rinite, aleitamento com a criança deitada, por ex.). 11.4.4.12 OTITE MÉDIA sUPURATIVA (OMs) QUADRO CLÍNICO: supuração visível no ouvido, com ausência de sinais e sintomas de infecção aguda, ausência de febre ou piora aguda da otorreia. Otoscopia: otorreia TRATAMENTO: 1) Limpar, com frequência, o ouvido com gaze limpa. 2) Não há necessidade de antibiótico VO, somente gotas de ciprofloxacino 3) Se houver sinais de agudização, usar antibiótico: 1ª escolha: amoxicilina: 50 mg/kg/dia,VO, de 8/8h, por 7 a 10 dias. Deve apresentar sinais de melho- ra em 48h. Retorno em 5 dias. 2ª escolha: amoxicilina: 90 mg/kg/dia,VO, de 12/12 h ou mudar para amoxicilina com ácido clavulâ- nico: 90 mg/Kg/dia, VO, de 8/8 h, por 10 dias. Se suspeita de H. influenzae (tímpano com aspecto mais opaco e amarelado e menos avermelhado): amoxicilina com ácido clavulânico: 50 mg/kg/dia de amoxicilina,VO, de 8/8h, por 7 a 10 dias. Se houver nova recorrência, utilizar a amoxicilina com ácido clavulânico: 90 mg/kg/dia, VO, de 12/12 h por 7 a 10 dias . 4) Retorno em 2 semanas. 5) Caso não melhore, encaminhar ao otorrinolaringologista. 128 11.4.4.13 MAsTOIDITE QUADRO CLÍNICO: Otalgia, edema, abaulamento retroauricular, eritema do pavilhão auricular. Tumefação dolorosa ao tato atrás da orelha. TRATAMENTO: 1) Analgésico, se necessário. 2) REFERIR URGENTEMENTE AO HOSPITAL. 11.4.4.14 RINOssINUsITE “Os seios maxilares e etmoidais estão presentes desde o nascimento, porém raramente os lactentes são acometidos pela enfermidade. Os seios frontais estão presentes desde o 4º ano de vida, mas dificilmente se infectam antes do 6º ano. O esfenoidal só tem significado clínico como local de supuração após o 3º ano de vida” (Sociedade Brasileira de Pediatria, 2000). QUADRO CLÍNICO: • Tosse e/ou rinorreia e/ou secreção retrofaríngea que persiste por mais de 2 semanas, sem melhora; tosse noturna, com drenagem pós-nasal. • Quadro gripal mais prolongado, com acometimento do estado geral. • Criança que “vive resfriada” ou tem rinite alérgica. • Tonsilites de repetição ou laringite crônica. • Piora da asma. • Em crianças maiores e adolescentes: pode se apresentar com rinorreia purulenta, cefaleia, dor facial, tosse, com ou sem febre. • Em crianças menores: rinorreia persistente (mucosa ou purulenta), tosse, edema periorbitário. DIAGNÓSTICO: é essencialmente clínico. TRATAMENTO: 1) Instilar SF 0,9% nas narinas pelo menos 4 vezes ao dia. 2) Aumentar a ingestão de líquidos. 3) Vapor úmido. 4) Analgésico e antitérmico. 5) Antibiótico: 1ª escolha: amoxicilina: 50mg/Kg/dia, VO, de 8/8h; após a melhora dos sintomas, manter o antibióti- co por mais 7 dias (duração média de 14 dias);2ª escolha: se não houver melhora, amoxicilina: 90 mg/kg/dia, VO, de 12/12h ou amoxicilina com ácido clavulânico: 90 mg/Kg/dia, VO, de 12/12h, por 7 dias após o desaparecimento dos sintomas. 6) Nos casos crônicos, recorrentes ou que não melhoram: encaminhamento ao especialista. 11.4.5 INFECÇÕEs DO TRATO REsPIRATÓRIO INFERIOR A infecção respiratória inicial, na maioria das vezes, é de etiologia viral, estabelecendo condições favoráveis para invasão bacteriana, pelo comprometimento dos mecanismos de defesa das vias respiratórias da criança. A tabela abaixo relaciona a idade da criança ao provável agente etiológico: 129 Diretriz De atenção à saúDe Da criança IDADE AGENTE ETIOLÓGICO Até 2 meses Streptococcus do tipo B Gram-negativos: • Escherichia coli • Klebsiella sp • Proteus Vírus Sincicial Respiratório Citomegalovírus Herpes simples 2 a 6 meses Chlamydia trachomatis (Pneumonias afebris ou atípicas) Vírus Sincicial Respiratório Streptococcus pneumoniae Staphylococcus aureus 6 meses a 5 anos Streptococcus pneumoniae Haemophilus influenzae Staphylococcus aureus Vírus Sincicial Respiratório Maiores de 5 anos Streptococcus pneumoniae Mycoplasma sp Chlamydia sp streptococcus pneumoniae • Características clínicas: responsável por 25% das pneumonias bacterianas. Geralmente ocorre nos meses de inverno. Início súbito com febre alta, calafrios, tosse, toxemia. Lactentes: início súbito com febre, esforço respiratório e, com menor frequência, convulsão febril. • Evolução: resolução rápida com antibioticoterapia. Geralmente tem bom prognóstico, sem sequelas. • Complicações: a mais comum é o derrame pleural. Secreção Inapropriada do Hormônio Antidiurético (SIHAD), empiema (20%) e abscesso (raro) também podem aparecer. Haemophilus influenzae • Características clínicas: geralmente abaixo dos 2 anos de idade, nos meses de inverno, com sintomas de infecções de vias aéreas superiores (IVAS), febre e com tosse. Comprometimento do estado geral; no pe- ríodo neonatal, semelhante ao estreptococo do grupo B. Crianças maiores: semelhante ao S. pneumoniae. • Evolução: bom prognóstico se não há envolvimento de outro órgão. • Complicações: derrame pleural (49%), pericardite (4%), epiglotite (6%), meningite (18%), pneumotó- rax (11%) e raramente pneumatoceles. staphylococcus aureus • Características clínicas: Pneumonia primária: 25% das pneumonias bacterianas. Geralmente abaixo de 1 ano de idade. Febre alta, esforço respiratório, 50% com sintomas de IVAS. Pico de incidência: inverno. Pneumonia secundária: Geralmente acima de 3 anos. Febre, toxemia, raramente com sintomas de IVAS. • Complicações: empiema (70%), pneumotórax (30%), pneumatoceles (23%), ocasionalmente absces- sos (6,3%). Chlamydia • Características clínicas: Idade: usualmente 3-12 semanas. Afebril, taquipneia persistente e tosse em salvas, otite, conjuntivite, sibilância, ocasionalmente apneia. 130 • Evolução: geralmente bom prognóstico. • Complicações: hiperresponsividade brônquica pode estar presente. Mycoplasma • Características clínicas: Idade: Mais comum de 5 anos até adulto jovem. Lactentes: tosse, taquipneia, retração e sibilância; quadro leve, mas protraído de febre e tosse. Hospitalização raramente é necessária. • Complicações: hiper-responsividade brônquica pode estar presente. streptococcus grupo B • Características clínicas: Lactentes abaixo de 2 meses de idade: semelhante à síndrome do distress respiratório (SDR). Crian- ças maiores: pode associar-se à meningite. • Complicações: elevada mortalidade; apneia, hipotensão. A faixa etária da criança é determinante para a prevalência de certas doenças, auxiliando no diagnóstico e tratamento. CRIANÇA ABAIXO DE 2 MESES: TRAQUEOBRONQUITE AGUDA ETIOLOGIA: viral. QUADRO CLÍNICO: de infecção de vias aéreas superiores (IVAS), tosse seca ou produtiva. Ausculta: roncos, estertores, raros sibilos. TRATAMENTO: suportivo; evitar exposição a irritantes. EVOLUÇÃO: resolução em 3 semanas. COMPLICAÇÕES: dano à via aérea, podendo levar à infecção bacteriana secundária, que deverá ser manejada conforme o protocolo de pneumonia. BRONQUIOLITE ETIOLOGIA: viral (VSR , Parainfluenza, Adenovírus, outros). QUADRO CLÍNICO: taquipneia, retração, sibilância, FR > 50 - 60 rpm. Ausculta: murmúrio vesicular simétrico, roncos, estertores de finas bolhas, sibilos. Abaixo de 2 meses o paciente pode apresentar apenas apneia. TRATAMENTO: suportivo na presença de sintomas leves. INTERNAMENTO se houver insuficiência respiratória. PNEUMONIA ETIOLOGIA: viral ou bacteriana QUADRO CLÍNICO: tosse, taquidispneia, tiragem intercostal (TIC) ou tiragem subcostal (TSC), batimento de asa de nariz e gemência. Ausculta: murmúrio vesicular diminuído com estertores crepitantes localizados ou difusos. TRATAMENTO: INTERNAMENTO. CRIANÇAS DE 2 MESES A 5 ANOS: 131 Diretriz De atenção à saúDe Da criança TRAQUEOBRONQUITE AGUDA ETIOLOGIA: < 2 anos: Adenovírus; 2-5 anos: VSR, Parainfluenza 3. QUADRO CLÍNICO: de infecção de vias aéreas superiores (3-4 dias), tosse seca ou produtiva. Ausculta: roncos, com ou sem sibilos. TRATAMENTO: sintomático. COMPLICAÇÕES: se não melhorar em uma semana, suspeitar de infecção bacteriana secundária, po- dendo ser necessário o uso de antimicrobiano, conforme protocolo de pneumonia. BRONQUIOLITE ETIOLOGIA: viral (Vírus Sincicial Respiratório, Parainfluenza, Adenovírus, outros). QUADRO CLÍNICO: taquipneia, retração, sibilância, FR > 50 - 60 rpm. Ausculta: MV simétrico, roncos, estertores de finas bolhas, sibilos. TRATAMENTO: suportivo na presença de sintomas leves. INTERNAMENTO se houver insuficiência respiratória! PNEUMONIA VIRAL ETIOLOGIA: VSR, Parainfluenza, Influenza, Adenovírus. QUADRO CLÍNICO: de IVAS, febre, tosse seca, esforço respiratório. Exame físico: estertores, com ou sem sibilos, MV diminuído, TIC, TSC e retração supra-esternal. TRATAMENTO: suportivo. COMPLICAÇÕES: na maioria das vezes os sintomas são leves e de resolução sem complicações, no entanto há necessidade de monitoramento. PNEUMONIA BACTERIANA ETIOLOGIA: S. pneumoniae, H. influenzae, M. catarrhalis. QUADRO CLÍNICO: dependem da idade, etiologia e gravidade, podendo incluir febre elevada, tosse produtiva, taquidispnéia (FR > 40 rpm), dor torácica, prostração. Ausculta: estertores de médias, finas bolhas ou crepitantes, respiração soprosa e MV assimétrico. TRATAMENTO: antibiótico: 1ª escolha: penicilina procaína: 50.000 UI/kg/dia, IM, 2 vezes ao dia, por 7 a 10 dias (dose máxima: 400.000 UI/dose). 2ª escolha: amoxicilina: 30 a 50mg/kg/dia, VO, de 8/8h, por 7 a 10 dias. Se não melhorar em 48h: amoxicilina ou amoxicilina com ácido clavulânico: 90mg/kg/dia, VO, de 8/8h, por 10 dias. CRIANÇAS ACIMA DE 5 ANOS: PNEUMONIA BACTERIANA ETIOLOGIA: S. pneumoniae QUADRO CLÍNICO: febre elevada, tosse produtiva, taquidispnéia (FR > 40rpm), dor torácica, prostração. Ausculta: estertores de médias, finas bolhas ou crepitantes, respiração soprosa e MV assimétrico. TRATAMENTO: antibiótico: 1ª escolha: penicilina procaína: 50.000 UI/kg/dia, de 12/12horas, IM profundo, por 7 a 10 dias. 2ª escolha: amoxicilina: 30 a 50mg/kg/dia, VO, de 8/8h h, por 7 a 10 dias. 132 Se não melhorar em 48h: amoxicilina ou amoxicilina com ácido clavulânico: 90mg/Kg/dia, VO, de 8/8 horas, por 10 dias. Medidas complementares: 1) Pode ser necessário o uso de broncodilatadores inalatórios no caso de broncoespasmo associado. 2) Orientar a mãe para: • Manter o aporte alimentar e hídrico. • Manter vias respiratórias altas limpas. • Reconhecer sinais de agravamento para retornar com urgência. 3) Retorno obrigatório em 48h para reavaliação médica: • Verificar se está fazendo uso adequado do antibiótico para pneumonia.• Observar a evolução, através dos sinais de piora, melhora ou inalteração do quadro clínico. EVOLUÇÃO: Se piora: Sinais e sintomas: dificuldade de ingestão de líquidos e/ou alimentos, tiragem, taquidispneia, cianose, gemência, prostração; Conduta: refererir URGENTE ao hospital; Se inalterado: Conduta: mudar a antibioticoterapia para amoxicilina com ácido clavulânico por 10 dias. Se melhora: Sinais e sintomas: normalização da frequência respiratória, afebril, aceitação alimentar. Conduta: terminar os dias de antibioticoterapia. INDICAÇÕES PARA INTERNAÇÃO: Indicações Relativas: • Idade < 6 meses (principalmente < 2 meses) • Prematuridade ou baixo peso ao nascer • Falha da terapêutica ambulatorial • Comorbidades: anemia, cardiopatia, desnutrição grave, entre outras • Problema social Indicações Absolutas: • Tiragem subcostal • Sinais de hipoxemia (oximetria de pulso menor que 92%) • Recusa em ingerir líquidos ou desidratação • Convulsões, apneias • Crianças menores de 2 meses Obs.: A criança a ser referida ao hospital deve ser transportada atendendo a condições mínimas de suporte básico para o paciente. Suspeitar de Pneumonia Atípica por Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia trachomatis e Chlamydia pneumoniae quando o início da doença for gradual, com sintomas de IVAS, tosse paroxística e evolução arrastada, ou crianças acima de 5 anos e adolescentes que não melhoram com a antibioticoterapia preconizada. Nestes casos, o tratamento preconizado é a eritromicina: 50 a 70 mg/Kg/dia, VO, de 6/6h, por 10 dias. 133 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 11.4.6 RINITE ALÉRGICA Rinite alérgica é a forma mais comum de doença atópica, com prevalência estimada em 30%. A carac- terística fundamental da rinite alérgica é o desencadeamento de sintomas após exposição a aeroalérgenos, entre os quais os provenientes de ácaros, epitélio de animais, baratas, pólens e fungos. Pode se manifestar precocemente na infância, porém é mais comum em crianças após os 4 anos de idade, que já foram expostas aos alérgenos e foram sensibilizadas. QUADRO CLÍNICO: • Início dos sintomas entre 4 a 6 anos de idade. • História de atopia pessoal ou familiar. • Sintomas de obstrução e congestão nasal, associados a prurido nasal e ocular, espirros em salvas, rinorreia aquosa, frequentemente após contato com alérgenos e/ou irritantes. • Episódios recorrentes. • Ao exame físico: olheiras pela estase venosa, linha de Dennie-Morgan (pregas em pálpebras inferiores secundárias ao edema), prega no dorso nasal e hiperemia conjuntival. • Rinoscopia anterior: cornetos nasais congestos, edemaciados e mucosa de coloração pálida e acin- zentada. O diagnóstico é clínico, baseado nos dados da anamnese, exame físico e antecedentes positivos para atopia na criança e familiares de primeiro grau. MANEJO DA RINITE ALÉRGICA: 1) Controle ambiental: diminuição da exposição aos alérgenos e irritantes mais frequentes, conforme orientação do anexo 14.10. 2) Medicação: será utilizada dependendo da classificação. A rinite alérgica se classifica em Intermitente ou Persistente, de acordo com a duração dos sintomas, e em Leve ou Moderada/ Grave, de acordo com a gravidade dos sintomas. Classificação sintomas Tratamento Intermitente leve Sintomas por menos de 4 dias na semana ou em menos de 4 semanas, que não atrapalhem o sono nem as atividades diárias. Intermitente moderada/grave Sintomas por menos de 4 dias na semana ou em menos de 4 semanas, que atrapalhem o sono e as atividades diárias. Dexclorfeniramina: 0,15 mg/kg/dia, dividido em duas doses e/ou beclometasona nasal: 50 mcg/dose ou budesonida: 32 mcg/dose,1 a 2 vezes/dia. Persistente leve Sintomas por mais de 4 dias na semana e em mais de 4 se- manas, que não atrapalhem o sono nem as atividades diárias. Dexclorfeniramina: 0,15 mg/kg/dia, dividido em duas doses e/ou beclometasona nasal: 50 mcg/ dose ou budesonida: 32 mcg/dose, 1 a 2 vezes/dia. 134 Persistente moderada/grave Sintomas por mais de 4 dias na semana e em mais de 4 sema- nas, que atrapalhem o sono e as atividades diárias. Dexclorfeniramina: 0,15 mg/kg/dia, dividido em duas doses e beclometasona nasal: 50 mcg/dose ou budesonida: 32 mcg/dose, 2 a 4 vezes/dia. Se crise muito grave: prednisona ou prednisolona oral 1mg/kg/dia, 3 a 5 dias. Fonte: ARIA (Allergic Rhinitis and its impact on Asthma), 2008. Update. Modificado por SMS Curitiba. 3) Soro fisiológico para limpeza nasal 4) Reavaliar após 4 semanas e adequar medicação. Considerações quanto ao uso do corticóide nasal: • O uso do corticóide nasal deve ser feito com cautela, lembrando dos seus possíveis efeitos cola- terais como candidíase, catarata, glaucoma, epistaxe, retardo do crescimento, etc. Seu uso correto diminui de forma importante esses efeitos: nunca direcionar o jato para o septo nasal. • O corticóide tópico nasal disponível na Farmácia Curitibana é o dipropionato de beclometasona, liberado pelo Food and Drug Administration (FDA) apenas para pacientes acima de 6 anos de idade. • Período de tratamento: quatro semanas; após, reavaliar os sintomas. Reduzir a dose se houver melhora clínica ou suspender tratamento se assintomático. Reiniciar o tratamento se recorrência de sintomas. 11.4.7 AsMA A asma é uma doença crônica das vias aéreas, caracterizada por obstrução parcial ou totalmente re- versível, inflamação e hiper-responsividade a diferentes estímulos apresentando-se com graus variados de gravidade e frequência de sintomas. As crianças asmáticas geralmente têm história de sibilância recorrente na infância. Exacerbações podem ser associadas a infecções virais e exposição a alérgenos ou a irritantes (poluentes). Entre os lactentes, muitas vezes o diagnóstico preciso de asma não é fácil de ser realizado, pois várias doenças apresentam manifestações clínicas semelhantes. Segundo as IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma, a criança que apresente três ou mais episódios de sibilância e/ou dispneia, ou com dermatite atópica associada no primeiro ano de vida, deve ser considerada de alto risco para o diagnós- tico de asma e se beneficia muito com o tratamento medicamentoso. Deve-se levar em conta também os critérios propostos por Castro e Rodrigues, conforme quadro abaixo. Considerar tratamento se 2 critérios maiores ou 1 maior e 2 menores. Fonte: Castro-Rodrigues JA et al. AJRCCM 2000. Critérios maiores Critérios menores Pais e irmãos com asma e alergias Eosinofilia Eczema < 1 ano Sensibilização a alimentos Sensibilização a alérgenos > 3 episódios de sibilância Internamento por asma 135 Diretriz De atenção à saúDe Da criança QUADRO CLÍNICO: A apresentação clínica da asma depende da gravidade da doença, da frequência dos sintomas e da sua presença no período intercrítico. Os sintomas de sibilância, tosse e dispneia ocorrem predominantemente à noite, na vigência de in- fecções de vias aéreas, exercícios físicos e alterações súbitas de temperatura ambiente ou ao contato com substâncias inaladas alergênicas ou irritantes das vias aéreas, como fumaça de cigarro e poluentes. Características sugestivas de asma em crianças: • Tosse noturna • Tosse, cansaço e/ou chiado após exercícios • Tosse ao rir ou chorar • Sibilância recorrente • Boa resposta a broncodilatadores • História pessoal ou familiar de atopia CLASSIFICAÇÃO DA CRISE AGUDA DE ASMA: A avaliação clínica por escore permite caracterizar a crise em leve, moderada ou grave, de acordo com os seguintes parâmetros clínicos: A presença de vários parâmetros, mas não necessariamente todos, indica a classificação geral da crise. Fonte: IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma – Jornal Brasileiro de Pneumologia v. 32, Supl. 7. 2006. Modificado por SMS Curitiba. sinais Muito graveGrave Moderada/grave GERAIS Cianose, sudorese, exaustão Sem alterações Sem alterações ESTADO MENTAL Agitação, confusão, sonolência Normal Normal DISPNÉIA Grave Moderada Ausente/leve FALA Frases curtas/monossi- lábicas. Lactentes: maior dificul- dade alimentar Frases incompletas/ parciais. Lactentes: choro curto, dificul- dade alimentar Frases completas USO DE MUSCULATURA ACESSÓRIA Retrações acentuadas ou em declínio (exaustão) Retrações subcostais e/ou esternais acen- tuadas Retração intercostal leve ou ausente SIBILOS Ausentes com MV localizados ou difusos Localizados ou difusos Ausentes com MV normal/ localizados ou difusos FREQUÊNCIA RESPIRATÓRIA Aumentada Aumentada Normal ou aumentada FREQUÊNCIA CARDÍACA > 140 ou bradicardia > 110 ≤ 110 136 Valores de referência: TRATAMENTO INICIAL DA CRISE AGUDA: “Na crise aguda pode-se utilizar 4 a 8 jatos do broncodilatador a cada 20 minutos, 3 vezes; após estabi- lização, fazer 2 a 4 jatos a cada 4-6h. Para crianças menores, usar espaçador com máscara.” (Fonte: National Heart, Lung and Blood Institute, 2007.) Reavaliar continuamente e adequar o número de jatos de acordo com a resposta clínica e presença ou não de efeitos colaterais. Crise Leve: 1) β2 (salbutamol) spray Crise Moderada / Grave: 1) β2 (salbutamol) spray E 2) Avaliar necessidade de oxigênio suplementar + corticóide oral: Prednisolona: 1 a 2 mg/kg/dose, VO, dose única OU se vômitos: dexametasona: 0,15 a 0,3 mg/kg, IM, dose única. Regra geral: abaixo de 20 kg = 2 mg; acima de 20 kg = 4 mg. Reavaliação em 1 hora: Se melhora: espaçar β2 inalatório até possibilidade de alta. Tratamento domiciliar com β2 spray com espaçador e máscara, de 6/6 horas, por 5 a 7 dias. Se a resposta for incompleta: administrar corticóide oral ou injetável (se ainda não foi feito), manter β2 inalatório de 20 em 20 minutos com reavaliações frequentes e considerar internação. Se má resposta: encaminhar para internação. Indicações para o uso de corticóide antes de usar o β2 inalatório: • Crise aguda grave • Crise anterior recente com uso de corticóide sistêmico • Atendimento anterior há menos de 24 horas Idade Frequência respiratória < 2 MESES < 60/min rpm/min 2 A 11 MESES < 50/min rpm/min 1 A 5 ANOS < 40/min rpm/min 6 A 8 ANOS < 30/min rpm/min > 8 ANOS 20/min rpm/min Idade Frequência cardíaca < 12 MESES < 160/min bpm/min 1 A 2 ANOS < 120/min bpm/min 2 A 8 ANOS < 110/min bpm/min > 8 ANOS < 100/min bpm/min 137 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Internação anterior por crise nos últimos 12 meses • Em uso contínuo de medicação broncodilatadora Havendo resposta ao tratamento inicial da crise, as crianças que necessitaram de corticóide deverão receber tratamento domiciliar com prednisolona: 1 mg/kg/dia, VO, dose única, por 5 dias, além do broncodilatador. CLASSIFICAÇÃO E TRATAMENTO DA ASMA CRÔNICA: Na criança abaixo de 3 anos: tratar as crises de sibilância. Na ocorrência de crises repetidas com sin- tomas persistentes no período intercrítico, deve-se avaliar início de tratamento profilático e encaminhar ao especialista. Na criança acima de 3 anos: o tratamento a longo prazo da asma tem como objetivos: • Controlar sintomas. • Prevenir exacerbações. • Manter provas de função pulmonar o mais próximo da normalidade. • Evitar efeitos colaterais dos medicamentos utilizados para seu controle. • Prevenir o desenvolvimento de obstrução irreversível das vias aéreas. • Reduzir a mortalidade por asma. Para o sucesso do tratamento, deve-se enfocar três pontos igualmente importantes: 1) Eliminação dos fatores desencadeantes e agravantes, evitando: • alérgenos (ácaros do pó domiciliar, mofo, animais domésticos, pólen). • fumaça de cigarro (ativa e passiva). Orientações mais detalhadas sobre o controle ambiental estão disponíveis no anexo 14.10. 2) Programa de exercícios físicos e respiratórios orientados pelo fisioterapeuta. Estimular a prática de exercícios e, se necessário, ajustar o tratamento para permitir esta prática. veja anexo 14.11. 3) Farmacoterapia. Princípios do tratamento: 1) Educar o paciente para que tenha um envolvimento no manejo da asma. 2) Avaliar e monitorar a gravidade da asma de acordo com os critériosclínicos. 3) Evitar ou controlar desencadeantes de asma. 4) Estabelecer planos de medicações para o manejo crônico. 5) Oferecer condições de seguimento regular. Os esquemas de tratamento para o manejo da asma fundamentam-se na classificação de gravidade da doença fora da crise. CLASSIFICAÇÃO DA GRAVIDADE DA ASMA: Intermitente Persistente leve moderada grave Sintomas Raros Semanais Diários Diários ou contínuos Despertares noturnos Raros Mensais Semanais Quase diários Necessidade de β-2 para alívio Rara Eventual Diária Diária Limitação de atividades Nenhuma Presente nas exacerbações Presente nas exacerbações Contínua Exacerbações Raras Afeta atividades e o sono Afeta atividades e o sono Frequentes 138 Classificar o paciente sempre pela manifestação de maior gravidade. *Pacientes com asma intermitente, mas com exacerbações graves, devem ser classificados como tendo asma persistente moderada. Fonte: IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma – Jornal Brasileiro de Pneumologia v. 32, Supl. 7. 2006. Modificado por SMS. TRATAMENTO DE MANUTENÇÃO INICIAL BASEADO NA GRAVIDADE: CI*: corticosteróide inalatório Fonte: IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma – Jornal Brasileiro de Pneumologia, v. 32, Supl. 7. 2006. Adaptado - SMS Curitiba. Dose dos corticosteróides inalatórios em crianças Fonte: IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma – Jornal Brasileiro de Pneumologia v. 32, Supl. 7. 2006. Adaptado - SMS Curitiba. *: A apresentação disponível na Farmácia Curitibana é de 250 mcg/jato. SEGUIMENTO DA CRIANÇA COM ASMA: No início o tratamento deve ser reavaliado mensalmente e após, a cada 3 meses, sendo reajustado de acordo com o controle da asma. Em caso de falha terapêutica, rever: aderência ao tratamento, técnica para administração do aerossol e verificar se as medidas de controle ambiental estão sendo executadas. Adaptado da revisão do Global Iniciative for Asthma, 2006. Modificado por SMS Curitiba. Gravidadae Alívio Primeira escolha Uso de corticíde oral Intermitente β-2 de curta duração Sem necessidade de medicamentos de manutenção Persistente leve β-2 de curta duração CI* dose baixa Corticosteróide oral nas exacerbações Persistente moderada β-2 de curta duração CI* dose moderada a alta Corticosteróide oral nas exacerbações Persistente grave β-2 de curta duração CI* dose alta Cursos de corticóide oral a critério do médico, na menor dose para se atingir o controle Fármaco Dose baixa (mcg) Dose média (MCG) Dose alta (MCG) BECLOMETASONA* 100 – 400 400– 800 > 800 Parâmetro Controlado Parcialmente controlado Não controlado Sintomas diurnos Nenhum ou mínimo 2 ou mais / semana 3 ou mais parâmetros presentes em qualquer semana Despertares noturnos Nenhum Pelo menos 1 Necessidade de medicamentos de resgate Nenhuma 2 ou mais / semana Limitação de atividades Nenhuma Presente em qualquer momento Exacerbação Nenhuma 1 ou mais / ano 1 em qualquer semana 139 Diretriz De atenção à saúDe Da criança O estado de controle no acompanhamento do paciente com asma determina a escolha e a dose dos medicamentos a serem prescritos: 1) Se durante a reavaliação o paciente não se encontra controlado: deve ser promovido o incremento do esquema terapêutico. 2) Se o controle estiver mantido por pelo menos 3 meses: o paciente deve ter as doses reduzidas em níveis suficientes para manter o controle da doença. 3) Se a asma estiver parcialmente controlada: o incremento da medicação ou não deveser decidido de acordo com cada caso. Em todos os casos, antes de alterar a medicação, avaliar SEMPRE a adesão e uso correto do tratamento. Corticóide em asma Por via sistêmica, oral ou parenteral, o corticóide constitui a medicação de resgate para alívio das crises agudas ou como terapia suplementar em pacientes com asma persistente. O tratamento por períodos prolongados pela via sistêmica é limitado pelos efeitos secundários que incluem supressão adrenal, alterações cutâneas, ósseas e do tecido conjuntivo e interferência no crescimento das crianças. No caso de administração prolongada de corticóide sistêmico deve-se buscar a menor dose eficaz, além do uso em dias alternados para minimizar os efeitos colaterais. Por via inalatória, são os agentes de escolha como tratamento de manutenção para todos os asmáticos, exceto para aqueles com formas episódicas da doença. QUANDO ENCAMINHAR PARA O ESPECIALISTA CLÍNICO: • Dúvida sobre o diagnóstico e manejo. • Necessidade de avaliação da função respiratória. • Pacientes que frequentemente necessitam de corticóide oral para controle dos sintomas. • Crises com risco de vida ou asma classificada como grave. • Chio de peito persistente no lactente. • Pacientes cuja asma é de difícil controle: - Asma instável. - Sintomas contínuos a despeito de altas doses de corticóides inaladas. - Pacientes com problemas de aderência ao tratamento e problemas psicológicos. - Pacientes cuja asma esteja interferindo nas atividades diárias. - Pacientes que frequentemente necessitam de internamento. Referências bibliográficas: 1. CURITIBA, SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE. Programa Crescendo com Saúde. Infecções e Alergias respiratórias na Infância. 2001. 2. IV Diretrizes Brasileiras para o Manejo da Asma – Jornal Brasileiro de Pneumologia, v. 32, Supl. 7. 2006. 3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Tratado de Pediatria. 2ª Ed. Barueri, São Paulo: Manole, 2010. 4. ASSOCIACIÓN ESPAÑOLA DE PEDIATRIA DE ATÉNCION PRIMARIA. El Pediatra de Atención Primaria y la Laringitis Aguda – Crup. Protocolos del GVR (P-GVR-5).Disponível em: <http.//www.aepap.org.gvr/protocolos.htm.>. Acesso em: 13/07/2012. 140 11.4.7.7 FLUXOGRAMA DA CRIsE AGUDA DE AsMA * Sempre que o corticóide foi usado durante a crise, o paciente deve recebê-lo na alta. ** As doses do salbutamol podem ser aumentadas se não houverem efeitos colaterais ou condições clínicas que contra-indiquem este aumento. 141 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 11.5 DOENÇA DIARREICA AGUDA E DEsIDRATAÇÃO A doença diarreica aguda é uma síndrome causada por vários agentes, entre eles bactérias, vírus ou parasitas, de curso autolimitado, com duração máxima de 14 dias. Caracteriza-se pela perda excessiva de água e eletrólitos pelas fezes e/ou vômitos, que se manifesta clinicamente com aumento do número de evacuações e/ou diminuição da consistência das fezes. Apesar de ser uma doença potencialmente prevenível por medidas simples como o aleitamento materno, cuidados de higiene, alimentos do desmame não contaminados e saneamento básico, entre outros, e de tratamento também simples - apenas nutrição e hidratação adequadas, ainda é uma das principais causas de morbimortalidade infantil, especialmente nos locais de maior pobreza onde a diarreia e a desnutrição são concomitantes. Além disso, a abordagem incorreta com jejum, uso de antibióticos sem critério e alimentos inadequados podem favorecer o prolongamento da diarreia por mais de 14 dias, caracterizando a síndrome da diarreia persistente, de muito maior gravidade. 11.5.1 ABORDAGEM DA CRIANÇA COM DIARREIA AGUDA: Anamnese e exame físico: • Investigar início da diarreia, características das fezes, presença de muco, pus ou sangue, frequência das evacuações, presença de outros sinais e sintomas, como febre, náuseas, vômitos, coriza, espirros, tosse. • Investigar a presença de outras doenças associadas, como infecções de vias aéreas, infecção uriná- ria, anemia. • Exame físico completo, com especial atenção ao nível de atividade, hidratação, frequência e padrão respiratório. • Aproveitar a ocasião para explicar à mãe como reconhecer os sinais precoces de desidratação. • Pesar e medir a criança despida. • Realizar processo de educação em saúde, enfatizando para a família o que causa a diarreia, como evitá-la e como tratá-la. Avaliação: 1. A criança está com diarreia aguda? 2. Está desidratada? Se sim, qual a intensidade dessa desidratação? 3. Se desidratada, tolera hidratação por via oral? 4. Qual o nível de hidratação da criança? 142 Avaliação do estado de hidratação 1. Observar: Estado geral Bem alerta Irritado, intranquilo * Comatoso, hipotônico Olhos Normais Fundos Muito fundos Lágrimas Presentes Ausentes Ausentes Boca e língua Úmidas Secas Muito secas Sede Bebe normalmente Sedento, bebe rápido e com avidez * Bebe mal ou não é capaz de beber 2. Explorar: Sinal da prega Desaparece rapidamente Desaparece lentamente Desaparece muito lentamente (mais de 2 segundos) Pulso Cheio Rápido, débil * Muito débil ou ausente Enchimento capilar (1) Normal (até 3 segundos) Lento (de 3 a 5 segundos) * Muito lento (acima de 5 segundos) 3. Decidir: Classifique o nível de desidratação Hidratado Desidratado (se tem dois ou mais sinais) Muito desidratado (se tem dois ou mais sinais, incluindo pelo menos um marcado com *) 4. Tratar: - PLANO A PLANO B PLANO C Fonte: Manual Integrado de Vigilância Epidemiológica da Cólera, Brasília, 2008. * Prova de enchimento capilar: o examinador comprime, com a própria mão, a mão fechada da criança, durante 15 segundos. O examinador retira sua mão e observa o tempo para a volta da coloração normal da palma da mão da criança. 11.5.2 MANEJO DO QUADRO DIARREICO AGUDO: Utilizar a solução de reidratação oral preconizada pela Organização Mundial de Saúde e fornecida, no Brasil, pelo Ministério da Saúde, ou então a reidratação venosa, dependendo do esquema terapêutico. PLANO A - CRIANÇA sEM sINAIs DE DEsIDRATAÇÃO Em cerca de 80 a 90% dos casos a criança com diarreia aguda não apresenta sinais evidentes de de- sidratação. Nestes casos o tratamento é preventivo da desidratação e consiste em: 1) Orientar a família sobre a evolução esperada da doença, seus riscos eventuais e a conduta a seguir. 2) Recomendar uma ingestão maior de líquidos, principalmente água, cereais cozidos, sopas e sucos. Ter cuidado com os chás, pois frequentemente as mães usam alto teor de açúcar na sua preparação, tornando- -os soluções hipertônicas, favorecendo a diarreia por mecanismo osmótico e com risco de contaminação. 3) Manter a alimentação habitual, corrigindo eventuais erros alimentares. 4) Ensinar à família como reconhecer os sinais de desidratação e procurar um serviço de saúde imediatamente. Recomendar que caso haja piora da diarreia ou apareçam sinais de desidratação inicie a administração de sais de reidratação oral (SRO). É necessário que toda criança com diarreia, mesmo não estando desidratada, seja avaliada, que a mãe ou cuidador receba envelopes dos sais de reidratação oral e tenha orientações de como usá-los. 5) A família deve ser orientada para oferecer líquidos sempre que a criança evacuar; o volume a ser ofertado deve ser adequado à idade da criança: • Menores de 2 anos: 50ml • Maiores de 2 anos: 100 a 200 ml 143 Diretriz De atenção à saúDe Da criança PLANO B - CRIANÇA COM sINAIs DE DEsIDRATAÇÃO MODERADA (sEM RIsCO IMEDIATO DE CHOQUE) A reidratação oral com os sais de reidratação oral (Terapia de Reidratação Oral - TRO) é o tratamento de escolha para estas crianças. Não devem ser usados refrigerantes, chás, outros líquidos ou alimentos, até o desaparecimento dos sinais de desidratação, com exceção dos lactentes alimentados ao seio, que deverão continuar a receber estealimento junto com a TRO. Esta fase de reidratação deverá ser realizada na Unidade de Saúde e a criança só será liberada para o domicílio após o desaparecimento dos sinais de desidratação. Quando se alcança sucesso na reidratação (o que ocorre em cerca de 80 a 85% das vezes), a criança se hidrata em cerca de 4 a 5 horas. Algumas orientações devem ser observadas: 1) A quantidade de SRO a ser ingerida dependerá da aceitação da criança; o volume deverá ser de 50 a 100 ml/kg em 4 horas, respeitando-se a capacidade gástrica da criança de 20 a 30 ml/kg/hora, com intervalos de ingestão de cerca de 10 a 15 minutos. 2) Se a criança vomitar, o volume administrado deve ser reduzido e a frequência de administração au- mentada. 3) Os sinais de desidratação desaparecem progressivamente e as crianças devem ser reavaliadas a cada 30 minutos. 4) Ao desaparecerem os sinais de desidratação, iniciar a alimentação naquelas crianças que não fazem uso do leite humano. 5) A família deve ser orientada para oferecer líquidos sempre que a criança evacuar; o volume a ser ofertado deve ser adequado à idade da criança: 6) Menores de 2 anos: 50ml 7) Maiores de 2 anos: 100 a 200 ml 8) O aleitamento ao seio deve ser mantido (inclusive durante a reidratação) e estimulado, com medidas de apoio à mãe lactante. 9) Para as crianças que recebem outros alimentos que não o leite humano, enfatizar a importância de maior aporte calórico durante o período de convalescença, para acelerar a recuperação nutricional. 10) A criança deve ser reavaliada na Unidade de Saúde após 24 horas da alta. 11) A família deve ser orientada para sinais que indiquem piora do quadro clínico: sede intensa, vômitos, piora da diarreia, irritabilidade ou prostração ou diminuição da diurese. Nestes casos, orientar para oferecer soro oral à criança e procurar imediatamente a Unidade de Saúde. Algumas situações que indicam o fracasso da terapia de reidratação oral: • Perda de peso após as primeiras duas horas de uso adequado de SRO. • Vômitos persistentes (4 ou mais vezes em uma hora) depois de iniciada a TRO. • Distensão abdominal acentuada, que sugere a presença de íleo paralítico (o que revela a necessida- de de, nas reavaliações periódicas da criança durante o processo de TRO, fazer exame físico com- pleto da criança). • Alteração no estado de consciência da criança. • No caso de fracasso da TRO, pode-se tentar a reidratação por sonda nasogástrica de forma cuidado- sa pois nem sempre é possível reidratar por esta via. Nestes casos está indicada a internação da criança para tentativa de reidratação venosa, utilizando-se o plano C. PLANO C - CRIANÇA COM sINAIs DE DEsIDRATAÇÃO GRAVE É conduta a ser realizada em ambiente hospitalar. Até o início da reidratação endovenosa, deverá ser oferecida à criança a TRO, na tentativa de diminuir o risco de choque hipovolêmico. Esta é uma situação de grande gravidade, não se podendo perder tempo. O plano C tem duas fases, a de expansão (fase rápida) e a de manutenção e reposição (realizadas em conjunto). 144 1) Fase de expansão - Na fase rápida usa-se solução hidrossalina com partes iguais de soro glicosado a 5% (SG 5%) e soro fisiológico (SF 0,9%), 50 a 100 ml/kg para infusão em 2 horas. Se após 2 horas desta infu- são ainda houver sinais de desidratação, infundir de 25 a 50 ml/kg nas próximas 2 horas. Esta fase rápida dura em torno de 4 horas; ao longo deste período a criança deve ser avaliada a cada 30 minutos. 2) Fase de manutenção e reposição - É quando se procura compensar as perdas anormais decor- rentes da diarreia e/ou vômitos que eventualmente persistem após a reidratação da criança (repo- sição) e se fornece a quantidade de líquidos e eletrólitos necessários para cobrir as perdas normais (pela respiração, pele, urina e fezes) do metabolismo da criança. O volume a ser administrado nesta fase é o resultante da soma dos volumes de manutenção e de reposição. Raramente há in- dicação da criança continuar a receber líquidos por via venosa; após reidratar, habitualmente, ela passa a tolerar alimentos e líquidos por via oral. Portanto, após o término da fase de expansão da reidratação venosa, testar a aceitação oral da criança, antes de prescrever soro venoso de manu- tenção e reposição. Fase de Manutenção - necessidade hídrica de 24 horas O volume administrado é calculado inicialmente em 50 ml/kg/dia de uma solução 1: 1 de SF 0,9% e SG 5%. Este volume deve ser reavaliado, periodicamente, de acordo com a intensidade das perdas e do estado de hidratação da criança. Deve-se lembrar que uma criança em reidratação venosa é considerada de risco, devendo ser reavaliada frequentemente. A melhor maneira para que isso ocorra é a prescrição de volumes de soro por período máximo de 4 horas. ALIMENTAÇÃO É tão importante quanto a hidratação na abordagem da diarreia. O aleitamento materno, se usado, deve ser mantido e incentivado, mesmo durante a reidratação. Para as outras crianças, assim que estiverem hidratadas, fornecer alimentação habitual, inclusive leite de vaca não diluído. . Se possível, fazer suplementação de uma refeição a mais por dia para compensar as perdas nutricionais causadas pela diarreia, de acordo com a aceitação da criança. Essa suplementação alimentar deverá ser mantida até a recuperação nutricional destas crianças. MEDICAMENTOs Habitualmente o tratamento da diarreia aguda restringe-se à hidratação e nutrição da criança. Em algumas situações (cerca de 10 a 20% dos casos) pode haver necessidade de uso de medicamentos (o que é exceção). Medicamentos como antiespamódicos e adstringentes não devem ser utilizados. Também não se deve utilizar antibióticos em pacientes que não tenham evidências de infecção por agente invasivo (sangue nas fezes). 11.5.3 MEDIDAs PREVENTIVAs: As medidas para prevenção da diarreia aguda visam três aspectos principais: • Administração oral, em duas doses, da vacina contra o rotavírus. • Reduzir a transmissão dos agentes patogênicos, diminuindo o número de episódios de diarréia. • Promover o bom estado nutricional da criança, diminuindo as complicações e mortalidade por diarreia. Principais medidas de prevenção: - Promover a prática do aleitamento materno, indiscutivelmente o melhor alimento para o lactente. Este alimento deve, idealmente, ser o único alimento nos primeiros seis meses de vida. Peso da criança Volume de líquido (de uma solução SG 4:1 SF) Até 10 kg 100 ml/kg de 10 a 20 kg 1000 ml + 50 ml para cada kg de peso acima de 10 kg Acima de 20 kg 1500 ml + 20 ml para cada kg de peso acima de 20 kg 145 Diretriz De atenção à saúDe Da criança - Introduzir práticas adequadas do desmame, que deve, idealmente, ser iniciado aos seis meses de vida, utilizando alimentos de boa qualidade nutritiva, culturalmente aceitos e preparados com boa higiene. - Seguir o esquema básico de vacinação preconizado pelo Ministério da Saúde. - Incentivar o saneamento básico. A disponibilidade de água em quantidade suficiente nos domicílios é a medida mais eficaz no controle das diarreias infecciosas. - A educação em saúde da comunidade. 11.5.4 sHIGELOsE Doença aguda diarreica caracterizada quadro de intensidade variável, podendo se apresentar por diarreia aquosa que pode ser acentuada, acompanhada de dor abdominal. A cólica geralmente é difusa, precedendo a diarreia; após 1 a 3 dias as fezes se tornam mucossanguinolentas, mais frequentes e em menor volume, a febre diminui, com urgência fecal e tenesmo. Além da febre alta pode haver anorexia, náusea, vômito, cefa- léia, calafrios, convulsão e sinais meníngeos. Ao exame físico pode ser observada hipertermia, desidratação, hipotensão, dor à palpação abdominal e aumento de ruídos hidroaéreos. Nos quadros leves ou moderados pode se apresentar apenas com fezes aquosas, sem disenteria. CAUSA: bactérias gram-negativas do gênero Shigella.TRATAMENTO: hidratação e demais medidas conforme orientação anterior. Nos casos graves o tratamento com antibiótico deve ser feito sem comprovação da coprocultura e antibiograma: • Ceftriaxona: 50 a 100mg/kg, dose única diária, IM, por 2 a 5 dias Referências bibliográficas: 1. SOPERJ. Manual de Infectologia Pediátrica, 2001. 2. SILVA, G.ª e MOTTA, M. e F. Tratamento Medicamentos das Helmentíases Intestinais – SBP – Documento Científico. Dez.2000. 3. Parasitoses Intestinais – Black Book, 2002.2a Edição. 4. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Doenças Infecciosas e Parasitárias. Guia de Bolso. 7ª Edição Revista. Série B. Textos Básicos de Saúde. Brasília, DF. 2008. 5. WHO. Guidelines for the control of shigellosis, including epidemics due to Shigella dysenteriae type 1. Geneva, Switzerland. 2005. 6. http://whqlibdoc.who.int/publications/2005/9241592330_eng.pdf 11.6 PARAsITOsEs INTEsTINAIs Importante problema de saúde pública, as parasitoses estão associadas a padrões socioculturais, hábitos de higiene e condições ambientais adversas onde a falta de saneamento básico e condições de moradia propiciam o seu desenvolvimento. Em Curitiba as parasitoses intestinais predominantes são causadas por Giardia lamblia, Ascaris lumbricoides, Entamoeba coli, Endolimax nana, Enterobius vermicularis, Trichocephalus trichiurus. 11.6.1 QUADRO CLÍNICO: As manifestações clínicas ocorrem em grau variado, dependendo do estado nutricional, grau de infestação e situação imunológica do hospedeiro. Na criança hígida as parasitoses podem apresentar-se com poucos sintomas ou totalmente assintomáticas. Entre os sinais e sintomas mais comuns estão: • Diarreia • Dor abdominal • Náuseas e vômitos • Eliminação de parasitas • Prurido anal e vulvar 146 • Desnutrição e perda de peso • Prolapso retal • Presença de sangue nas fezes • Anemia • Hepatomegalia e/ou esplenomegalia • Eosinofilia 11.6.2 COMPLICAÇÕEs: A possibilidade de complicações causadas pelas helmintíases deve ser lembrada, principalmente em pacientes imunodeprimidos. A migração de Ascaris lumbricoides pelo trato gastrintestinal para outros órgãos pode ser desencadeada na vigência de febre, alimentos picantes, determinadas drogas e anestesia. Vermes adultos podem migrar para o fígado com obstrução do ducto hepático, formação de abscesso ou granuloma no próprio aparelho digestivo, invaginação intestinal ou mesmo oclusão. Em crianças pequenas podem ocorrer casos de colite necrosante, apendicite, peritonite e perfuração intestinal. Também pode ocorrer a migração para a árvore respiratória (síndrome de Loeffler) e tuba auditiva. A Taenia solium pode levar à neurocisticercose. 11.6.3 TRATAMENTO: O tratamento pode ser iniciado mesmo sem a confirmação do exame de fezes, sempre que houver sinais e sintomas sugestivos de parasitose intestinal. Em casos de poliparasitismo deve-se iniciar o tratamento de vermes que têm possibilidade de migrar pelo aparelho digestivo, como Ascaris lumbricoides e Strongyloides stercoralis • Ascaridíse, enterobíase ou oxiuríase, ancilostomíase e tricocefalíase: Albendazol 400 mg, VO, dose única. • Toxocaríase: Albendazol 400 mg, 2 vezes ao dia, VO, durante 3 a 5 dias. • Estrongiloidíase e teníase: Albendazol 400 mg, 1 vez ao dia, VO, durante 3 dias. • Giardíase: Metronidazol 15 mg/kg/dia, VO, de 8/8 horas, por 5 a 10 dias (máximo de 750 mg/dose). • Amebíase: Metronidazol 35 a 50 mg/kg/dia, VO, de 8/8 ou 12/12 horas, por 7 a 10 dias (máximo de 750 mg/dose). Referências bibliográficas: 1. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Vigilância em Saúde. Plano Nacional de Vigilância e Controle de Enteropara- sitoses. Brasília, DF. 2005. 2. WHO. Strategy Development and Monitoring for Parasitic Diseases and Vector Control (PVC). Prevention Control and Eradi- cation (CPE). Communicable Diseases (CDS). Report of the WHO informal consultation on the use of praziquantel during pregnancy/lactation and albendazole/mebendazole in children under 24months. Geneva, Switzerland. 2002. 3. CURITIBA, SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE. Memento Terapêutico da Farmácia Curitibana. Curitiba, PR. 2006. 11.7 DEsNUTRIÇÃO A desnutrição energético-proteica é uma síndrome associada a uma série de doenças, cada uma delas com causa específica relacionada com um ou mais nutrientes (por exemplo, proteínas, calorias, vitaminas e minerais). Caracteriza-se pela existência de um desequilíbrio entre o fornecimento de nutrientes (macro e micro) por um lado e, por outro, aumento da demanda corporal para assegurar o crescimento e a saúde. 147 Diretriz De atenção à saúDe Da criança A associação entre as duas causas mais frequentes da desnutrição - a ingestão alimentar deficiente e as doenças infecciosas - tende a criar um círculo vicioso: a criança não se alimenta de forma a ter suas neces- sidades supridas e as defesas de seu organismo ficam enfraquecidas; as doenças infecciosas ocorrem mais vezes, por mais tempo e de forma mais grave; elas aceleram o consumo a perda de nutrientes e provocam falta de apetite; a criança doente não se alimenta como deveria e o ciclo continua. 11.7.1 CLAssIFICAÇÃO ETIOLÓGICA: • Primária: é decorrente de ingestão alimentar insuficiente ou inadequada. • Secundária: é resultante de outras patologias não nutricionais que provocam déficits de nutrientes por diminuição da absorção, aumento do consumo ou aumento da perda levando à debilidade por desnu- trição, tais como enteropatias, doenças respiratórias, nefropatias crônicas, AIDS, neoplasias, etc. 11.7.2 ABORDAGEM DA CRIANÇA COM DEsNUTRIÇÃO: Anamnese: avaliar relato de má situação sócio-econômica e cultural com consequente oferta inadequada de alimentos e/ou intolerância alimentar (eliminações anormais, como vômitos e fezes líquidas recorrentes); saneamento deficiente e moradia em locais de risco; atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, inade- quadas condições psicossocioculturais dos pais, baixo peso ao nascer, desmame precoce, infecções de repetição e internamentos. Inquérito alimentar: conforme a situação é importante registrar a ingestão no dia ou a frequência na se- mana, dos principais alimentos: leite, ovo, carne, peixe, frutas, verduras e legumes. com o tipo e frequência da oferta de alimentos. Exame físico: observar as condições tróficas da pele, cabelos, subcutâneo, musculatura, psiquismo, tamanho do fígado, presença de edema. Dados antropométricos: avaliar peso, estatura, índice de massa corporal e perímetro cefálico. Alterações laboratoriais: são inespecíficas e só ocorrem nos graus mais avançados de desnutrição. Podem ser úteis: hemograma, eletroforese de proteínas, colesterol, triglicerídeos, parasitológico de fezes e parcial de urina. Os profissionais de saúde devem sistematicamente atualizar e interpretar o traçado das curvas de cres- cimento presentes na Caderneta de Saúde, com uma avaliação inicial e uma avaliação dinâmica ao longo do tempo do crescimento da criança, instrumento importante para o diagnóstico precoce da desnutrição (curvas de peso/idade, altura/idade, perímetro cefálico/idade e, mais recentemente, IMC - Índice de Massa Corporal/idade). A avaliação do crescimento da criança não é completa sem a correta utilização dos gráficos de crescimentos e avaliação do traçado das curvas. 11.7.3 FORMAs CLÍNICAs: • Kwashiorkor: edema, lesões de pele e cabelo, hepatomegalia, tecido celular subcutâneo presente, intolerância alimentar (vômitos e diarréia), infecções de repetição, atraso no desenvolvimento neuropsico- motor, e hipoalbuminemia,. Ocorre mais após o primeiro ano. • Marasmo: desaparecimento do tecido celular subcutâneo, sem lesões na pele e cabelo, sem edema e com albumina normal. Geralmente ocorre no primeiro ano. • Kwashiorkor/Marasmo: mistura dos dois tipos anteriores.148 Para formas graves de déficit de peso (muito baixo peso), deve-se ficar atento aos sinais de kwashio- rkor e marasmo, atraso do desenvolvimento neuropsicomotor e curva do perímetro cefálico, diminuição da imunidade e intolerância alimentar para melhor encaminhamento. Em crianças, a desnutrição é sinônimo de crescimento deficiente. As crianças desnutridas são mais baixas e/ou pesam menos do que deveriam para a sua idade com velocidade de ganho ponderal e estatural inadequados. Sendo assim, além do acompanhamento do peso é importante o acompanhamento da curva de altura/idade e IMC/idade da criança. 11.7.4 PREVENÇÃO: • Garantir a amamentação ao seio. • Apoiar a mãe para manter a lactação por 1 a 2 anos e orientar como introduzir novos alimentos em tempo e forma adequados. • Acompanhar atentamente as curvas de peso, estatura e IMC. • Fortalecer o vínculo mãe/filho e mãe/profissionais da equipe de saúde. 11.7.5 RECOMENDAÇÕEs: • Manter o aleitamento materno pelo menos por 1 ano. • Deve-se oferecer volumes menores mas aumentar a frequência das refeições ao dia. A criança em risco nutricional precisa consumir alimentos saudáveis 6 vezes por dia - café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar e lanche da noite, ou a cada duas horas. Caso ela frequente creche precisará jantar em casa novamente e receber um copo de leite antes de dormir. • Deve-se utilizar alimentos que fazem parte do hábito da família (arroz, feijão, batata cozida, ovo, frango ensopado, fígado, peixe, macarrão, mandioca cozida, frutas, verduras, legumes e outros). • Acrescentar uma colher de sobremesa de óleo para as crianças menores de um ano e para maiores de um ano uma colher de sopa, sobre a refeição no almoço e no jantar, o que permite o aumento do aporte energético oferecido à criança. • É de grande ajuda que as crianças desnutridas tenham um período de descanso, pois o sono garante o ótimo aproveitamento dos alimentos. • É fundamental que a criança desnutrida seja acompanhada por um adulto durante os momentos de alimentação, pois muitas vezes ela tem mais dificuldades para comer e às vezes até para mastigar. Não basta então ter o alimento, é preciso que ela o consuma em quantidade suficiente e seja estimu- lada a comer de tudo. • Os cuidados com a alimentação também devem levar em consideração que essas crianças podem apresentar outros problemas, como anemia, alergias ou intolerâncias alimentares. • A alimentação deve conter quantidades adequadas de vitaminas e minerais. Recomenda-se que a criança desnutrida receba, com receita médica, a suplementação em forma de medicamentos de vi- taminas e minerais, especialmente ferro, vitaminas A e D. • Para a alimentação de crianças desnutridas deve-se evitar sopas, pois em geral essas preparações nutrem menos do que uma refeição de alimentos sólidos, como a composta de arroz, feijão, ovo, carne, legumes, verduras e frutas. • Oferecer duas frutas ao dia. • É preciso ensinar a mãe a cuidar da alimentação das crianças enquanto estão doentes. O aleitamen- to materno ou as refeições não devem ser interrompidos mesmo durante a diarreia ou o episódio de febre da criança. Quando a criança melhora e o apetite aumenta, os pais devem aproveitar para re- forçar a alimentação. Não esquecer que no início do aumento da aceitação alimentar pode haver aumento transitório das evacuações sem que isto signifique piora do quadro. 149 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Nos casos das crianças febris e/ou com diarreia, a oferta de líquidos e água deve ser aumentada. Esses líquidos devem ser oferecidos no intervalo das refeições e, de preferência, em xícaras ou copos. O uso de mamadeira aumenta o risco de infecções e diarreia. 11.8 OBEsIDADE Nas últimas décadas, houve uma mudança muito intensa no estilo de vida da população. O avanço tec- nológico permitiu uma disseminação da presença das máquinas no nosso cotidiano, cada vez mais eficientes, principalmente com incorporação da eletrônica, causando uma grande diminuição do gasto diário de energia no trabalho. Houve crescimento do sedentarismo. A automação de aparelhos com a evolução da informatização trouxe grandes facilidades para a vida moderna. Os entretenimentos mudaram, as atividades físicas como jogar bola, subir em árvores, correr na rua, etc. deixaram de ser frequentes devido ao fascínio pelos aparelhos eletrônicos. Concomitantemente houve aumento da oferta de alimentos, tanto na quantidade como na diversidade e forte direcionamento para uma maior ingestão de açúcares e gorduras, em apresentações alimentares de elevada densidade calórica. Esta combinação de diminuição de gasto energético associado ao aumento da ingestão de calorias, potencializado com aumento do uso de certos medicamentos como os glicocorticóides e antihistamínicos, diminuição gradativa do espaço urbano livre e aumento do confinamento pela insegurança pública são fatores importantes para explicar o aumento epidêmico da obesidade no mundo. Dados mais recentes da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009 apontam que na Região Sul do Brasil, em crianças de 5 a 9 anos o excesso de peso (IMC/idade > +1 z-escore) atinge 36,3% dos meninos e 35,5% das meninas e a obesidade (IMC/idade > +2 z-escores) 16,7% e 16,2% dos meninos e meninas, respectivamente. Para a mesma faixa de idade de 5 a 9 anos, dados dos SISVAN-Curitiba, que monitora os atendimentos nas Unidades Básicas de Saúde de Curitiba, apontam que a taxa de obesidade cresceu de 7,3% em 2003 para 14,2% no primeiro semestre de 2011 (15,6% para os meninos e 12,8% para as meninas). 11.8.1 ABORDAGEM DA CRIANÇA COM sOBREPEsO/OBEsIDADE: Anamnese: avaliar mudanças na dinâmica familiar, local de moradia, tratamentos medicamentosos an- teriores, problemas de saúde associados, história de obesidade na família. Inquérito alimentar: avaliar a ingestão no dia, bem como o tipo e frequência da oferta de alimentos saudáveis e guloseimas. Exame físico: avaliar fácies, distribuição da gordura corporal, pressão arterial, acanthosis nigricans, desvios de membros inferiores, circunferência abdominal. Dados antropométricos: a obesidade infantil pode ser diagnosticada precocemente acompanhando- se as curvas de peso/idade e mais apropriadamente as curvas de IMC/idade, que estão disponíveis na Caderneta de Saúde da Criança Curitibana. A avaliação da relação peso/altura algumas vezes pode nos enganar: - Crianças com musculatura pouco desenvolvida devido à vida sedentária, podem ser obesas, com IMC abaixo do escore Z +2. Os casos graves requerem, além de readequação nutricional em volumes pequenos e mais frequentes, 6 refeições em média ao dia, hidratação, tratamento de infecções concorrentes, correção de anemia, reposição de vitaminas e oligoelementos. Alguns pacientes necessitarão internamento. Após a alta, as consultas deverão ser frequentes até que haja a recuperação nutricional. 150 - Crianças atléticas, com grande desenvolvimento de massa muscular, podem ter IMC maior que o escore Z +2 e não serem obesas. - Crianças com excesso de peso, que passam a realizar atividade física, podem diminuir a obesidade sem perder peso, devido à troca proporcional do tecido adiposo por tecido muscular. Exames laboratoriais: hemograma, glicemia, insulina, colesterol total, HDL, LDL, triglicerídeos. TSH, T4 livre e cortisol deverão ser avaliados quando a estatura da criança não estiver acima dos percentis dos pais. 11.8.2 FATOREs DE RIsCO PARA OBEsIDADE: • Pais obesos. • Assistir televisão e/ou usar computador por mais de 2 horas por dia. • Ingestão frequente de alimentos ricos em gordura e açúcar. • Ausência de prática esportiva regular. • Comer assistindo televisão ou usando computador. • Alimentação pobre em verduras, legumes e frutas. • Acreditar que comer bastante é comer bem. •Usar a comida como recompensa a comportamentos desejados. 11.8.3 O PAPEL DA EQUIPE DE sAÚDE NA IDENTIFICAÇÃO E PREVENÇÃO DA OBEsIDADE: 1) Identificar as crianças com excesso de peso. 2) Estimular o aleitamento materno; a amamentação é a primeira medida contra a obesidade infantil. A composição do leite materno permite à criança controlar naturalmente seu apetite. Além do mais, a composição corporal da criança amamentada no seio diminui os riscos de ela se tornar obesa. 3) Orientar a criança e os pais, focando em atividades saudáveis e não somente em restrições. 4) Realizar educação alimentar, estimulando a ingestão de alimentos ricos em fibras alimentares (verdu- ras, legumes, frutas e cereais integrais) e mais água, evitando-se os refrigerantes, reduzindo as gor- duras e alimentos ricos em açúcares. 5) Estimular a prática regular de esportes e diminuir as atividades sedentárias. 6) Estimular a criança comer em porções menores (usar garfo menor), mastigar mais vezes (20 vezes antes de engolir), usar pratos menores. Servir inicialmente somente a salada e após ingeri-la, servir o restante da refeição. 7) Orientar a família para não ter estoque de guloseima em domicílio; permitir sua ingesta apenas em situações especiais. 11.8.4 TRATAMENTO DA OBEsIDADE: O tratamento da obesidade inicia-se com a avaliação do indivíduo, considerando os seus aspectos físicos e mentais. A família deve ser envolvida, estimulada, orientada e cobrada na conscientização dos riscos e consequên- cias. As atitudes devem ser de apoio e exemplo para as mudanças necessárias. A escola deve ser despertada para a sua missão e responsabilidade de orientar e educar. A reeducação alimentar e promoção do aumento das atividades físicas devem ser trabalhados de forma intensa. A sociedade deve incorporar e estimular novos hábitos e costumes que fortaleçam padrões comporta- mentais mais saudáveis. 151 Diretriz De atenção à saúDe Da criança O foco inicial das atuações começa com a identificação e tratamento da criança obesa. Progressivamente as atitudes devem incluir procedimentos de prevenção da obesidade, associado a recursos que promovam, de forma orientadora e positiva, uma saúde ampla e estável. A estratégia de abordagem precisa ser planejada com procedimentos que incluam estímulos diferentes, como características complementares, de forma sequencial, separadas em uma programação de curto, médio e longo prazo. Recomendações para o manejo da obesidade: • Explicar aos pais e à criança (quando possível) que o excesso de gordura corporal traz consequências desfavoráveis para a saúde. • Priorizar a educação para um estilo de vida saudável, com mais atividade física, associado a uma educação alimentar e não somente buscar uma perda de peso focado em “dietas”. • Explicar que o equilíbrio entre a energia que é consumida através dos alimentos e o gasto energético através da atividade física, é que determina a manutenção do peso ideal, da saúde e do bem estar. • As refeições devem, preferencialmente, ser feitas em família, como evento salutar. Realizar as refeições sem pressa e sem fatores que desviem a atenção, como a televisão. • Evitar usar os alimentos como recompensa ou como compensação. As sobremesas não são prêmios. Evitar induzir uma valorização dos doces sobre os demais alimentos. • Seguir os 10 passos para alimentação saudável para crianças menores e maiores de 2 anos de idade. • Enfatizar a necessidade de fazer 3 refeições e 2 lanches por dia, sem pular nenhuma, especialmente o café da manhã. Evitar que a criança fique com muita fome entre as refeições. • Nenhum alimento deve ser proibido. No caso dos alimentos muito ricos em calorias, deve-se estipular a porção a ser oferecida. Diminuir pouco a pouco a quantidade de alimentos. Exemplo: se a criança come 2 pãezinhos no café da manhã, troque para um e meio e, devagar, chegue a um. • Orientar sobre as vantagens para a saúde de consumir frutas, legumes e verduras. Estimular a inges- tão de água ao invés de refrigerantes. Beber água é a melhor forma de ingerir líquido. • Preferir alimentos assados, grelhados, refogados ou cozidos no lugar de alimentos fritos ou à milanesa. • Diminuir a quantidade de alimentos gordurosos e frituras. Evitar o uso de gorduras saturadas (gordu- ra da carne vermelha, pele do frango, fígado de boi ou de frango, mortadela, salame, manteiga, frituras, creme de leite) e de gorduras trans (biscoitos recheados, amanteigados, folhados, empadas, sonhos, chineques). Ler o rótulo dos alimentos. Evitar o consumo de salgadinhos tipo “chips”, que além de conter quantidade elevada de gordura, apresentam alto teor de sódio, que aumenta a pressão arterial. • Deve-se habituar a criança a não consumir doces, balas, pirulitos e refrigerantes. Deve-se estimulá-la a conhecer o sabor dos alimentos e líquidos, sem adição de açúcar, como frutas, sucos e chás. Os adoçantes como ciclamato, sacarina e o aspartame não devem ser utilizados indiscriminadamente na alimentação infantil, pois não se sabe ao certo quais são os seus efeitos a longo prazo. • Evitar o consumo de alimentos diet e light pelas crianças, a melhor opção é educar as crianças a terem hábitos alimentares saudáveis aprendendo desde cedo a praticarem escolhas alimentares mais adequadas. • Os alimentos light apresentam redução de calorias, açúcares e gorduras. Se forem utilizados em ex- cesso também vão engordar, além disso os alimentos doces denominados light possuem, na sua maioria, ciclamato, sacarina ou aspartame, portanto deve-se cuidar com o seu consumo. Já os alimen- tos diet apresentam a sua composição tradicional modificada para substituir ou alterar algum nutrien- te e não necessariamente apresentam redução calórica. • Incentivar a prática de atividade física como caminhadas, esportes, andar de bicicleta. A frequência recomendada é de 4 a 6 vezes por semana. • Estimular o envolvimento dos pais, da família e dos professores nas intervenções. Lembre que os jovens tendem a seguir o comportamento dos adultos, portanto toda a família deve envolver-se com as práticas saudáveis. • Acompanhar o estado nutricional da criança através dos gráficos da Caderneta de Saúde da Criança. 152 LEMBRE-SE! • Os casos de sobrepeso devem ser encaminhados para atendimento nos Grupos de Reeducação Alimentar pela equipe multiprofissional dos Núcleos de Apoio em Atenção Primária à Saúde (NAAPS). • Para os casos de obesidade, a Secretaria Municipal da Saúde mantém parceria com os Cursos de Nutrição de instituições de ensino superior, onde é realizado acompanhamento pelas Clínicas de Nutrição dessas instituições, com orientações realizadas por equipe multiprofissional. Referências bibliográficas: 1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Nutrologia. Avaliação Nutricional da criança e do Adolescente: Manual de Orientação. Rio de Janeiro. 2009. 2. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Cadernos de Atenção Básica, Saúde da Criança: Nutrição Infantil, Aleitamento Materno e Alimentação Complementar. Brasília – DF, 2009. 3. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção à Saúde. Dez passos para uma alimentação saudável – Guia alimentar para crianças menores de 2 anos – Um guia para o profissional da saúde na atenção básica. Brasília – DF, 2010. 4. CURITIBA, SECRETARIA MUNICIPAL DA SAÚDE. Alimentação infantil: cartilha de orientação aos pais – 2a edição. Curitiba – PR, 2011. 5. BRASIL, MINISTÉRIO DA SAÚDE. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção à Saúde. Orientações para a Coleta e Análise de Dados Antropométricos em Serviços de Saúde. Brasília – DF, 2011. 11.9 INFECÇÃO DE TRATO URINÁRIO (ITU) Caracteriza-se pelo conjunto de alterações patológicas que ocorrem no trato urinário em consequênciada invasão e multiplicação de microrganismos patogênicos, desde o parênquima renal e vias excretoras até a uretra. É uma das infecções bacterianas mais comuns na infância, especialmente em lactentes, nos primeiros meses de vida. 11.9.1 CLAssIFICAÇÃO DE ACORDO COM A LOCALIZAÇÃO: Cistite: proliferação bacteriana limitada à bexiga; em geral sem febre; pode apresentar dor hipogástrica, disúria, polaciúria, urgência miccional e enurese. Pielonefrite Aguda: infecção do parênquima renal. Sintomas: febre, comprometimento do estado geral, disúria, dor lombar ou em flanco e vômitos. Às vezes a criança é assintomática ou tem sintomas inespecíficos, principalmente os recém-nascidos e lactentes. ETIOLOGIA: • Escherichia coli: é o principal agente e está presente em 80 a 90% dos casos. • Proteus: mais frequente em meninos acima de 1 ano de idade, associado à presença de fimose e contaminação pelo esmegma. • Klebsiella e Enterobacter: alterações anatômicas podem propiciar seu desenvolvimento. • Staphylococcus saprophyticus: 25% dos casos em meninas acima de 10 anos. • Candida sp: é o fungo mais frequente, ocorre em pacientes imunodeprimidos, com alteração anatô- mica, em uso de catéter prolongado, diabéticos. • Chlamydia trachomatis: a partir da puberdade. • Vírus: menos frequente, pode ocorrer em vigência de outras infecções virais. 153 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 11.9.2 QUADRO CLÍNICO A presença de bactérias nas vias urinárias vai determinar, de acordo com a faixa etária, diferentes mani- festações clínicas; à medida que a idade avança a tendência é que a sintomatologia se torne mais localizada. • Recém-nascido: quadro clínico inespecífico; palidez, pele acinzentada, hipotermia (às vezes hiper- termia), perda de peso, apatia, prostração, sucção débil, irritabilidade, distensão abdominal, vômitos e íleo adinâmico. Acomete principalmente o sexo masculino (onde predominam as anomalias do trato urinário), com sinais de infecção generalizada, comprometimento do estado geral, podendo evoluir com manifestações do sistema nervoso central, cianose e icterícia. • Lactente: sintomas inespecíficos como febre isolada, anorexia, perda de peso ou parada do ganho pôndero-estatural, vômitos, diarreia, dor abdominal, hipoatividade, irritabilidade e retenço urinária. • Pré-escolar e escolar: disúria, polaciúria (aumento da frequência miccional), urgência miccional, desconforto suprapúbico e enurese. A hematúria está presente em 20 a 25% dos casos de cistite aguda. Febre alta, dor lombar e prostração sugerem pielonefrite aguda. Na idade pré-escolar, acomete principalmente as meninas. 11.9.3 ABORDAGEM DA CRIANÇA COM sUsPEITA DE INFECÇÃO URINÁRIA Anamnese: a coleta dos dados na anamnese deve ser a mais completa possível, com atenção à idade da criança, o início do quadro, sinais e sintomas associados, tempo de evolução e uso de fármacos (espe- cialmente antibióticos). Investigar: • Presença de febre. • Sintomas urinários: disúria, ardência miccional, polaciúria, nictúria, urgência miccional, retenção uri- nária, incontinência urinária. • Sintomas associados: anorexia, vômitos, diarreia, dor abdominal, perda de peso, etc. • Hábito miccional: frequência, periodicidade e volume das micções e perdas involuntárias de urina, em crianças com controle esfincteriano parcial ou total. Na criança pequena, pode ser observada urgência miccional, sem que isto implique na presença de infecção urinária, uma vez que as características comportamentais e imaturidade do controle da micção podem estar presentes, sem significado pato- lógico. • Hábito intestinal/prurido anal (verminose). • Ingestão de líquidos e alimentos. • Doenças anteriores, principalmente outros episódios de infecção de trato urinário. Exame físico: deve ser completo, como já descrito anteriormente. • Inspeção da genitália e atenção para a presença de vulvovaginite, malformações, fimose ou balano- postite. • Exame da coluna vertebral, especialmente a coluna lombo-sacra. • Palpação e percussão das lojas renais e verificação da presença de sinal de Giordano (dor à per- cussão das lojas renais). Exames laboratoriais: 1) Parcial de urina com bacterioscopia: leucocitúria em 90% dos casos; hematúria pouco frequente, em geral microscópica; proteinúria discreta. A leucocitúria não é suficiente para caracterizar ITU, sendo necessária a presença de bacteriúria. 2) Urocultura com antibiograma: confirma a infecção de trato urinário. Cuidados na coleta da urina: 154 • No lactente utiliza-se o saco coletor estéril, que deve ser trocado a cada 30-40 minutos, precedido de antissepsia do períneo. • Na criança que já controla a micção deve-se coletar o jato intermediário de urina, após antissepsia perineal, em frasco estéril. • Evitar sondagem vesical. Pacientes já com sonda vesical: coletar urina após troca do catéter, com técnica asséptica. • Não colher de sonda de demora ou da bolsa coletora. • Enviar a amostra de urina ao laboratório em caixa térmica, o mais rápido possível. Avaliação da urocultura: Saco coletor estéril ou jato intermediário: Sondagem vesical: 11.9.5 TRATAMENTO: O estado geral da criança, a intensidade dos sintomas e a presença de febre deverão nortear a instituição do tratamento antes do resultado da urocultura ou não. Recém-nascidos e crianças com mau estado geral (sepsis, náuseas, vômitos) devem receber medicação parenteral e hospitalização. O tratamento deve incluir orientações para: 1) Ingestão adequada de líquidos, para garantir bom fluxo urinário. 2) Tratamento da obstipação intestinal, com uso de alimentos ricos em fibras. 3) Tratamento da oxiuríase. 4) Higienização da genitália pós-defecação, especialmente em meninas. 5) Micções frequentes, a cada 3-4 horas, nas crianças com controle esfincteriano, para completo esva- ziamento vesical. 6) Evitar o uso de roupas íntimas com tecido sintético (lycra, nylon, espuma) e banhos de imersão nas meninas. 7) Antibiótico: Cefalexina: 50-100 mg/kg/dia, VO, de 6/6 horas. O tratamento deve ser prescrito por 10 dias, com controle de urocultura 2 a 5 dias após o término do tratamento. A antibioticoterapia empíri- ca deve ser iniciada logo após a coleta adequada do parcial de urina e da urocultura. 8) Agendar retorno médico em 48-72 horas após o início do tratamento, para avaliação da efetivi- dade do tratamento. É imprescindível a higiene adequada do períneo, com água e sabão neutro e enxágue rig- oroso; a presença de detergente pode negativar a cultura. Contagem de colônias Interpretação de resultados < 10.000 col/mL contaminação entre 10.000 e 100.000 col/mL duvidoso – suspeita de infecção > 100.000 col/mL infecção Contagem de colônias Interpretação de resultados ≥ 100 bactérias/ml infecção 155 Diretriz De atenção à saúDe Da criança LEMBRE-SE! Sempre que possível usar antibiótico por via oral. • Em caso de presença ainda de infecção urinária, deve-se aventar a possibilidade de falha terapêu- tica ou reinfecção; vale lembrar que a maioria das infecções ocorrem por E. coli, que possui diferen- tes cepas, e que a infecção de trato urinário pode estar sendo provocada por outra cepa, diferente do episódio anterior. Se o paciente estiver em uso de medicação profilática, a urocultura pode ser feita na vigência da mesma. • Outros antibióticos como, por exemplo, nitrofurantoína e ácido nalidíxico também podem ser utiliza- dos como opções terapêuticas 11.9.6 INDICAÇÕEs PARA INTERNAÇÃO HOsPITALAR: • ITU em recém-nascidos e lactentes menores de 3 meses • Presença de septicemia • Pielonefrite aguda • Pacientes com anomalias do trato urinário severas • Íleo adinâmico • Náuseas e vômitos persistentes, com incapacidade para ingerir líquidos • Dor abdominal severa • Convulsões febris • Condição sócio-econômica desfavorável • A criança que necessita medicação parenteralpode iniciar seu uso ainda na US, enquanto aguarda internação. Atualmente está disponível na Farmácia Curitibana: - Gentamicina: 5-7,5 mg/kg/dia, IM ou EV, de 12/12 horas 11.9.7 CRITÉRIOs PARA INVEsTIGAÇÃO E ENCAMINHAMENTO À NEFROLOGIA PEDIÁTRICA: • Toda infecção de trato urinário, em crianças abaixo de 5 anos, comprovada por cultura. • Presença concomitante de distúrbios miccionais: polaciúria, urgência miccional, retenção urinária, incontinência urinária, enurese. Investigação: Os exames de urina (Parcial de urina e uroculturas) devem ser realizados periodicamente, de maneira indi- vidualizada, podendo ser mensal ou com espaçamento maior. É importante que ambos sejam feitos na mesma coleta, pois auxilia na interpretação, evitando-se diagnósticos incorretos. Na maioria dos casos de infecção urinária, tanto o parcial quanto a urocultura estão alterados, encontrando-se poucas exceções. Por exemplo: - parcial de urina alterado e urocultura negativa - pode ocorrer em caso de coleta de exame em vigência de antibioticoterapia, inibindo o crescimento da bactéria, ou nos casos de ITU viral, que são mais raros; ou - parcial de urina normal com urocultura positiva - pode ocorrer em razão de contaminação da amostra. • Orientar a família quanto aos sinais de infecção para que possa reconhecer a sua presença e procurar assistência médica o mais rápido possível para coleta dos exames e tratamento adequado. • Solicitar inicialmente ultrassonografia do aparelho urinário e, se necessário, uretrocistografia miccional (esta nunca deve ser realizada em vigência de infecção de trato urinário). 156 11.9.8 INFECÇÃO DE TRATO URINÁRIO DE REPETIÇÃO: • Dois ou mais episódios em 6 meses. • A presença de infecção de trato urinário de repetição requer medicação profilática, de acordo com a presença ou ausência de anomalia do trato urinário. CONDUTA: 1) Individualizar cada caso com atenção à clínica, intervalo e número de episódios. 2) Iniciar profilaxia após o 3º episódio em 6 meses. 3) O fármaco profilático deve ser ministrado em dose única, à noite; se houver falha terapêutica, fracionar em duas vezes ao dia, durante 3 a 6 meses. Usar antibiótico: Cefalexina: 10 mg/kg. 4) Orientar para comparecimento à Unidade de Saúde quando a criança se tornar sintomática; colher urina para cultura e iniciar tratamento. 5) Orientar esvaziamento vesical adequado. LEMBRE-SE! • Se houver recidiva sintomática, o tratamento deve ser feito por 10 dias, e a profilaxia durante 6 a 9 meses. • Os controles laboratoriais podem ser feitos com o uso do fármaco profilático. • Bacteriúria assintomática é frequente em meninas, não sendo indicado tratamento. • Fita urinária não diagnostica infecção urinária. Toda criança com suspeita de infecção de trato urinário ao exame rápido deve comprovar a mesma através de coleta de parcial de urina, bacterioscopia e urocultura. • Crianças (geralmente meninas) com urocultura positiva, sem grande resíduo vesical, não têm neces- sidade de quimioprofilaxia e devem ser tratadas apenas quando se tornam sintomáticas, com acom- panhamento pelo nefropediatra. • Toda criança com ITU de repetição comprovada através da coleta adequada da urina, com anomalia ou não do trato urinário, deve ser avaliada pelo nefropediatra e retornar ao médico da Unidade de Saúde. Dependendo do caso, o nefropediatra encaminhará ao urologista pediátrico. 11.9.9 FÁRMACOs PARA O TRATAMENTO DA INFECÇÃO DE TRATO URINÁRIO Tratamento por via oral DROGA DOSE CONTRAINDICAÇÕES Cefalexina(1) 30 a 50 g/kg/dia, de 6/6 h Alteração da flora intestinal; alta resistência aos uropatógenos; alergia a penicilinas. Nitrofurantoína 5 a 7 mg/kg/dia, de 6/6 ou 8/8 h < 6 meses de vida; deficiência de G6PD; hipersensibi- lidade; insuficiência renal Ácido Nalidíxico 50 mg/kg/dia, de 6/6 ou 8/8 h < 6 meses de vida; hipersensibilidade; insuficiência renal. Em lactentes pode simular quadro de hipertensão endocra- niana, com aparecimento de irritabilidade, vômitos, etc. Sulfametoxazol + Trimetoprim 40 mg SMX/8 mg TMT/ kg/dia, de 12 em 12 h < 2 meses de vida; deficiência de G6PD; porfiria; anemia megaloblástica. Cefaclor 20 a 40 mg/kg/dia, 8/8 h Repercussão na flora intestinal; alergia a penicilinas. Axetil-cefuroxima 20 a 30 mg/kg/dia, 12 em 12 h Repercussão na flora intestinal; alergia a penicilinas. (1): fármaco disponível nas Unidades de Saúde Obs.: a maioria dos antibióticos requer ajuste de dose para insuficiência renal. 157 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Tratamento por via parenteral DROGA DOSE CONTRAINDICAÇÕES Amicacina 15 mg/kg/dia, 12/12 ou 24/24 h. Hipersensibilidade Gentamicina 5 a 7,5 mg/kg/dia, 8/8 h. RN pré-termo: 2,5 mg/kg/dia, 12/12h ou 24/24 h Hipersensibilidade Ampicilina 50 a 100 mg/kg/dia, 6/6 h Hipersensibilidade Cefazolina 100 mg/kg/dia, 8/8 h Hipersensibilidade Ceftriaxona 50 a 100 mg/kg/dia, 12/12 ou 24/24 h Hipersensibilidade * Obs.: a maioria dos antibióticos requer ajuste de dose para insuficiência renal. Drogas usadas paraprofilaxia da ITU DROGA DOSE CONTRAINDICAÇÕES Nitrofurantoína 2 mg/kg/dia, dose única à noite < 6 meses de vida; deficiência de G6PD; hipersensibilidade; insuficiência renal Ácido Nalidíxico 20 mg/kg/dia, dose única à noite < 6 meses de vida; hipersensibi-lidade; insuficiência renal Sulfametoxazol + Trimetoprim 10 a 20 mg SMX + 2 a 4 mg TMT/kg/dia, dose única à noite. < 2 meses de vida; deficiên- cia de G6PD; porfiria; anemia megaloblástica. Cefalexina 10 a 15 mg/kg/dia, dose única à noite. Utilizado principalmente em crianças até 3 meses de vida, onde o uso de outras drogas é limitado. Alteração da flora intestinal; alta resistência aos uropatógenos; alergia a penicilinas. Referências bibliográficas: 1. PFEFERMAN, H.; NESTOR, S.. Abordagem diagnóstica e terapêutica na Infecção do trato urinário – ITU. Ita Revista da As- sociação Médica Brasileira, 49(1): 109-16. 2003. 2. ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA E CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Infecções do Trato Urinário: Diagnóstico. Sociedade Brasileira de Infectologia e Sociedade Brasileira de Urologia, in Projeto Diretrizes. 4 de junho de 2004. 3. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Infecção do Trato Urinário in Tratado de Pediatria. Secção 17. p. 1317-26. 2ª edição. Barueri, SP: Manole, 2010. 4. ABRAHAMSSON, K.; HANSSON, S.; LARSSON, P.; JODAL, U.. Antibiotic treatment for five days is effective in children with acute cystitis. Acta Paediatrica v. 91(1), p. 55-58, 2002. 5. BAERHEIM, A.. Empirical treatment of uncomplicated cystitis. British Medical Journal v. 323(7323), p. 1197-198, 2001. 6. BAILEY, R. R.. Urinary tract infection. In: WEATHERALL, D.J., LEDINGHAM, J.G.G., WARRELL, D.A. et al (Eds.) Oxford Textbook of Medicine. 3ed. Oxford: Oxford University Press, 1996. Session. 20.8.1. 7. BAILEY, R. R.; ROLLESTON, G. L.. Vesicoureteric reflux and reflux nephropathy: the Christchurch contribution. New Zealand Medical Journal. v. 110(1048), p. 266-269, 1997. 158 11.10 CRIsEs CONVULsIVAs E EPILEPsIA NA INFÂNCIA Crises convulsivas são caracterizadas por um fenômeno clínico paroxístico que decorre de uma descarga neuronal anormal, excessiva e síncrona. Podem ser difusas, generalizadas ou localizadas. Acarretam dis- função transitória das atividades cerebrais cuja exteriorização ocorre com fenômenos psíquicos, motores, sensoriais e sensitivos, com abalos motores, posturas anormais, perda de consciência, atonia muscular, isolados ou associados. Ocorrem em até 6% das crianças, sendo 0,1 a 3,5% das crises afebris, e de 1 a 15% de crises febris. Epilepsia é a recorrência habitual de convulsões espontâneas, na ausência de condição tóxico-metabólica ou febril. As crises comiciais se manifestam por: • Alterações motoras: movimentos tônicos, clônicos, tônico-clônicos, mioclônicos,atônicos e ausências. • Alterações do comportamento: agressividade, delírio. • Alterações da consciência: comprometimento ou perda . • Alterações da sensibilidade: parestesias. • Distúrbios autonômicos: palidez, cianose, salivação, alterações do ritmo cardíaco. Não se considera epilepsia se: • As crises são provocadas por hipoglicemia, hipocalcemia, febre, traumatismo cranioencefálico, meningite. • Se não houve repetição das crises. • Se as crises ocorreram somente na vigência de uma doença ou distúrbio metabólico e desaparecerem após a sua eliminação. 11.10.1 CLAssIFICAÇÃO DAs CRIsEs CONVULsIVAs DE ACORDO COM A ILAE (INTERNATIONAL LEAGUE AGAINsT EPILEPsY), 2010: I – Parciais A. Simples – sem alterações de consciência a) Com sintomas somatosensoriais b) Com sinais motores c) Com sinais ou sintomas autonômicos d) Com sintomas psíquicos ou experienciais B. Complexas – com alterações de consciência C. Com generalização secundária II- Generalizadas A. Ausências B. Mioclônicas C. Atônicas D. Tônicas E. Tônico-clônicas 11.10.2 ETIOLOGIA: Secundária ou sintomática- sequela de uma lesão cerebral anterior, geralmente há foco iriritativo ao EEG. Primária, essencial ou idiopática- causa não definida, geralmente são idade-dependentes e com predis- posição familiar. 159 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Criptogênica: a etiologia está oculta apenas porque os exames atualmente disponíveis não foram sufi- cientemente elucidativos. 11.10.3 ABORDAGEM DA CRIANÇA COM CRIsE CONVULsIVA: Anamnese: a história cuidadosa e detalhada pode ser obtida através do próprio paciente ou dos que assistiram a crise. Deve-se observar: • os fenômenos pré-ictais, ictais e pós-ictais. • a presença de sensações subjetivas como dor abdominal, cefaléia, mal estar, movimentos involuntários, parestesias. • fatores desencadeantes: traumas, privação do sono, suspensão abrupta de medicamentos. • fenômenos motores: tipo de movimento ou postura anormal, atonia, afasia, movimentos tônicos, tôni- co-clônicos, clonias, segmentos do corpo envolvidos, movimentos oculares anormais, automatismos orais. • a frequência e duraçãoda crise. • nível de consciência: alteração mental, confusão ou mesmo perda total de consciência, presença de deterioração intelectual e/ou distúrbios de comportamento. • alterações sensoriais: auditivas ou visuais; sensitivas: parestesias. • fenômenos autonômicos: alterações esfincterianas, salivação, cianose. • manifestações pós-ictais: sonolência, confusão mental, paralisias tipo de Todd, cefaléia, fadiga e afasia. • antecedentes familiares, gestacionais e obstétricos: sofrimento perinatal, prematuridade, ameaça de abortamento. • desenvolvimento neuropsicomotor. • história mórbida pregressa:possíveis condições etiológicas, trauma, internamentos, meningite, desi- dratação grave, hipoglicemia severa. • antecedentes epidemiológicos. • distinguir de outras condições que se confundem com convulsões (perda de fôlego, bacteremia, mo- vimentos extrapiramidais e síncopes). Exame físico geral: observar estigmas genéticos, lesões cutâneas, manchas hipocrômicas, manchas café- com-leite (neurofibromatose), adenomas sebáceos (esclerose múltipla), angioma plano facial (Sturge-Weber). Exame neurológico: detectar deficiências neurológicas focais ou generalizadas e sinais de hipertensão intracraniana. Exames laboratoriais: hemograma, glicemia, eletrólitos (eventualmente calcemia, Mg , Na, K e fosfato sé- rico), gasometria e líquor poderão ser realizados em situações emergenciais ou de acordo com o quadro clínico. Nas epilepsias de difícil controle a pesquisa ampliada para erros inatos do metabolismo deve ser solicitada. EEG: deve ser realizado se possível logo depois da convulsão, em todas as crianças. No período inter- crítico, no entanto, pode estar normal; realizado em vigília após a primeira crise pode estar normal em até 40% dos casos. Outros exames: Videomonitorização eletroencefalográfica: em caso de suspeita de pseudocrises e na investigação das epilepsias refratárias com objetivo de tratamento cirúrgico. Líquor: em estados infecciosos, alterações de comportamento nos pródromos da crise ou região endêmica para cisticercose. 160 Tomografia: indicado se deficiência neurológica focal; convulsões focais; EEG com ondas lentas; piora ou modificação do padrão das crises convulsivas; casos suspeitos de citomegalovÍrus, esclerose tuberosa, síndrome de Sturge-Weber ou cisticercose. Ressonância magnética: indicado nas convulsões parciais complexas, deficiências neurológicas focais, convulsões complexas que estão piorando a despeito de tratamento adequado. 11.10.4 DIAGNÓsTICO DIFERENCIAL: Cerca de 20 a 30% dos pacientes encaminhados à neuropediatria com suspeita de epilepsia, na realidade não são epilépticos. Isto está relacionado a vários fatores como: história clínica inadequada ou incompleta, principalmnente pelas dificuldades de informações prestadas pelos familiares do paciente, supervalorização de uma história familiar de epilepsia ou de anormalidades eletroencefalográficas, insuficiente conhecimento médico sobre epilepsia, a existência de inúmeras síndromes clínicas que se confundem com epilepsia. • Refluxo gastro-esofágico:pode causar um transtorno paroxístico não epiléptico, relativamente comum. • Crises de perda de fôlego: comum em pediatria, ocorre em crianças entre 6 meses a 4 anos, são autolimitadas, desaparecendo até a idade pré-escolar e escolar. O seu início é dramático com parada da respiração, perda da consciência com cianose ou palidez, causam extrema ansiedade aos pais. Geralmente são desencadeadas por um estímulo doloroso, susto, queda, frustração ou contrariedade. Estas crises não duram mais que alguns segundos, são seguidas de uma postura tônica ou um opis- tótono com apnéia, por vezes até com liberação de esfíncteres. Os exames complementares pouco contribuem e o EEG é normal. O prognóstico é favorável. Muitas vezes essas crianças são medicadas com anticonvulsivantes sem evidência de melhora. • Síncope: queda lenta ou súbita ao solo, com sensação de mal estar, desequilíbrio, palidez, bradicardia, pulsos impalpáveis; ocorre geralmente na puberdade ou adolescência, quando o paciente está de pé ou sentado. O paciente logo volta ao estado normal, sem confusão mental. O prognóstico é favorável, desaparecendo com a idade. Se houver dúvidas, realizar uma avaliação cardiológica. • Vertigem benigna da infância: são crises súbitas, rápidas, desencadeadas sem um fator conhecido, geral- mente ocorrem entre 1 e 3 anos. A criança tem sensação de tontura, de rotação ou sensação de desmaio, podendo ficar desequilibrada, procurando apoio nos pais. A consciência não está comprometida. Palidez e vômitos podem ocorrer; a frequência varia de um a quatro episódios ao mês. O EEG e a TAC são normais. • Distúrbios do sono: terrores noturnos, sonambulismo, pesadelos, bruxismo, e o jactatio capitis noturnus podem ser confundidos com crises epiléticas. • Enxaqueca: na enxaqueca confusional a criança apresenta um estado confusional com alteração do humor, apatia, ataxias, vertigem, desorientação, alteralção da memória. Geralmente há fenômenos visuais associados às cefaléias recorrentes e a história familiar é típica desta manifestação. • Tiques: são movimentos arrítmicos envolvendo vários músculos, geralmente os faciais, que se exa- cerbam por estresse emocional. • Movimentos extra-piramidais: são caracterizados por posturas anormais, torções cervicais, com desvios oculares, geralmente produzidos por ingestão acidental de antieméticos como metoclopramida ou de neurolépticos como o haloperidol, em crianças pré-escolares. 161 Diretriz De atenção à saúDe Da criança • Síndrome do descontrole episódico: são ataques recorrentes de raiva incontrolável, geralmente com mínima provocaçãoe completamente fora do caráter do indivíduo. Inicia-se explosivamente com violência física, atividade de chutar, arranhar, agarrar, bater e morder. Em meninas geralmente é verbal, com linguagem obscena ou profana. Estes transtornos podem ser confundidos com crises parciais complexas. • Pseudocrises: ocorrem muitas vezes em pacientes epilépticos controlados que simulam crises, no sentido de obter algum ganho secundário. Ocorrem geralmente na presença de pessoas. O diagnós- tico nem sempre é fácil. Muitas vezes necessita ajuda psicológica para tratamento. 11.10.5 CRIsEs CONVULsIVAs NEONATAIs São diferentes das verificadas em crianças maiores, devido à falta de mielinização, a incompleta arborização das ramificações axonais e dendríticas, refletindo numa imaturidade anatômica, bioquímica e fisiológica do cérebro em desenvolvimento. Caracterizam-se por, crises com movimentos repetitivos, anormalidades da postura ou do comportamento. CAUSAS: • Hipóxia-isquemia • Trauma físico • Tóxico-metabólica • Erros Inatos do Metabolismo • Infecções sistêmicas ou do sistema nervoso central • Hemorragia intracraniana 11.10.6 CONVULsÃO FEBRIL BENIGNA Evento que ocorre entre 3 meses e 5 anos de idade, associando-se com febre, sem evidência de infecção intracraniana ou outra causa aguda.Predomínio no sexo masculino. Geralmente são crises generalizadas (75%) com duração de até 3 minutos. Podem repetir-se, principalmente se aparecem antes de 1 ano de idade. COMO DIFERENCIAR DE OUTRAS CRISES: a) Idade: entre 1 mês e 5 anos (90% entre os 9 e 18 meses). b) Desenvolvimento neurológico normal. c) Duração da febre: menor que 24 horas. d) Aumento súbito da temperatura. e) Tipo de crise: a maioria simples e generalizada. f) Recuperação total após curto período de sonolência. TRATAMENTO: Na crise: • Midazolam IM: 0,1 a 0,2 mg/kg/dose (máximo de 5 mg/dose), IM, EV ou VR (máximo de 5 mg/dose), OU • Diazepam: 0,2 a 0,5 mg/kg, EV ou via retal muito lento (dose máxima: em < 5 anos: 5 mg; em > 5 anos: 10 mg). 162 Nas orientações: 1) Tranquilizar os pais, pois se trata de crises convulsivas benignas. Fazer a abordagem da febre sempre com presteza. 2) Na recidiva encaminhar para a Neurologia. 3) O tratamento profilático pode ser feito, porém os efeitos secundários dos medicamentos são mais graves do que a recorrência de uma convulsão febril que é benigna. O tratamento medicamentoso das crises epilépticas é sempre emergencial e visa controlar a crise; o tratamento profilático visa suprimir as crises epilépticas recorrentes, mantendo uma concentração efetiva o mais constante possível da droga utilizada e com o mínimo de efeitos colaterais. Deve-se iniciar com doses menores e ir aumentando gradativamente, até se obter o controle das crises. Deve-se utilizar a monoterapia sempre que possível; nos casos mais difíceis pode-se associar uma ou duas drogas. A retirada da medicação relaciona-se com o diagnóstico, principalmente o sindrômico, onde procura-se avaliar o fator prognóstico. Em geral, o tratamento estende-se por 2 a 3 anos, retirando-se num período entre 3 a 6 meses. O risco de recor- rência situa-se em média de 25%. Nas epilepsias benignas o prazo é menor, enquanto que nas epilepsias sintomáticas associadas a lesões estruturais o prazo de tratamento é sempre maior. 11.10.7 EsTADO DE MAL EPILÉPTICO O Estado de Mal Epiléptico (EME) é uma emergência médica relativamente comum em pediatria. A definição correntemente aceita do Estado de Mal Epiléptico (EME) compreende uma crise epiléptica prolongada ou crises recorrentes sem recuperação completa da consciência por 30 minutos ou mais. O processo fisiopatológico do início e do fim de uma crise ainda não é totalmente conhecido, aceita- se que deva ocorrer um desequilíbrio entre a liberação dos neurotransmissores excitatórios e dos inibitórios, levando a impulsos neuronais anormais. Ao considerar que a partir de 5 minutos ou mais de crise os mecanismos inibitórios parecem perder sua eficácia, o tempo para identificar uma crise como um EME poderia ser reduzido a crises de 5 a 10 minutos de duração, como já proposto por vários autores, tornando-se o tratamento mais precoce e eficaz. As consequências de um EME prolongado incluem problemas metabólicos (hipóxia, acidose), cardiorrespiratórios (taquicardia, hiperten- são, arritmias, obstrução de vias aéreas) ou neurológicos (aumento da pressão intracraniana, morte neuronal). O EME em pediatria é portanto um evento de risco, tanto de óbito como de sequelas neurológicas, e somente o reconhecimento precoce desta entidade permite um tratamento urgente, o que é essencial para a diminuição da sua morbidade e mortalidade. TRATAMENTO DA CRISE CONVULSIVA E DO ESTADO DE MAL EPILÉPTICO: O tratamento do EME deve ser sempre considerado uma emergência, principalmente para o EME con- vulsivo, generalizado ou secundariamente generalizado. A estabilização do paciente é a prioridade como em qualquer outra emergência médica pediátrica. O paciente deve ser posicionado em decúbito lateral, evitando-se assim a aspiração de vômito e de secreções. Os sinais vitais e a temperatura devem ser monitorizados frequentemente e as vias aéreas mantidas desobs- truídas, de modo a garantir uma ventilação adequada, com oferta de oxigênio inalatório por máscara que pode ser o suficiente para evitar hipóxia e agravamento da situação. Verificados os passos iniciais e a crise prolongando-se desde o início por 5 a 10 minutos segue-se o atendimento na Unidade de Saúde pelo médico que atende ao paciente: 1) Manter o paciente em decúbito lateral. 2) Desobstruir vias aéreas. 3) Usar O2 inalatório. 163 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 4) Monitorar dados vitais (frequência respiratória e cardíaca, pressão arterial e temperatura). 5) Administrar: - Midazolam: 0,1 a 0,2 mg/kg/dose (máximo de 5 mg/dose), IM, EV ou VR, OU - Diazepam: 0,2 a 0,5 mg/Kg/dose (0,1 mL/kg/dose), IV (máximo de 10 mg), lentamente* (máximo 1 mg/kg/min), ou 0,5 mg/kg, via retal; utilizar sonda nasogástrica via retal e administrar a medicação sem diluição, seguida da administração de água destilada. *Cuidar com a possibilidade de apneia. Se a crise persistir por mais de 10 minutos: 6) Tentar transferir o paciente o mais rápido possível para atendimento hospitalar. 7) Administrar: - Diazepam: 0,3 mg/kg, EV, e iniciar infusão lentamente de - Fenitoína: Dose de ataque: 15 a 20 mg/Kg/dose, EV, diluído em 15 a 30 ml de soro fisiológico 0,9%, em 0,5 a 1 mg/ Kg/min (administrar em 20 – 30 min.). Atentar para a velocidade de infusão (possibilidade de arritmias e hipotensão). Dose de manutenção: 4 a 7,5 mg/kg/dia, de 12/12 horas, em velocidade de 1 mg/kg/min; dose máxima: 50 mg/min. Se persistir a crise: 8) Administrar: - Fenobarbital: Dose de ataque: 15 a 20 mg/Kg/dose, EV, diluído em SF 0,9%, em infusão lenta, em 15 a 20 minutos. Dose de manutenção: 3 a 5 mg/Kg/dia, de 12/12 horas; administrar 12 horas após a dose de ataque (dose máxima de 20 mg). LEMBRE-SE! Referências bibliográficas: 1. APPLETON R.; CHOONARA I.; MARTLAND T.; PHILLIPS B.; SCOTT R.; WHITEHOUSE W.. The treatment of convulsive status epilepticus in children. The Status Epilepticus Working Party, Members of the Status Epilepticus Working Party. Arch Dis Child v. 83(5), p.415-9, 2000. 2. CAMPOS. M. R. Crisis febriles. Asociación Española de Pediatría. Protocolos 2008. www.aeped.es/protocolos/. Acesso em 17/07/2012. 3. CASELLA E. B.; MANGIA C. M. F.. Abordagem da crise convulsiva aguda e estado de mal epiléptico em crianças. Jornal de Pediatria. v. 75 (2), p. 197-206, 1999. 4. GUERREIRO M. M.. Tratamento das crises febris. Jornal de Pediatria. v. 78(1), p. 9- 13, 2002. 5. KLIEMANN, F. A. D.; MONTE, T. L. Antiepilépticos. In: FUCHS, F. D.; WANNMACHER, L.; FERREIRA, M. B. C. Farmacologia Clínica: Fundamentosda Terapêutica Racional. 3. ed. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro, 2004. Cap. 43, p.536-53 6. LOWENSTEIN D. H.; ALLDREDGE B. K. It’s time to revise the definition of status epilepticus. Epilepsia, v. 40(1), p. 120-7, 1999. 7. STAFSTROM C. E.. The pathophysiology of Epileptic Seizures: A Primer For Pediatricians. Pediatr Re., v.19(10), p.342-5, 1998. 8. TERNDRUP T. E.. Clinical issues in acute childhood seizure management in the emergency department. J Child Neurol, v.13(1), p.:7-10, 1998. O Estado de Mal Epiléptico em pediatria é um evento de risco, tanto de óbito como de sequelas neurológicas e somente seu reconhecimento e tratamento precoces permitem a prevenção destes agravos. 164 11.11 MENINGITEs 11.11.1 MENINGITEs BACTERIANAs ETIOPATOGENIA: Vários agentes etiológicos como bactérias, vírus, parasitas e fungos podem causar meningites. Vale destacar as três bactérias responsáveis por mais de 90% das meningites bacterianas com agente etiológico definido: Neisseria meningitidis (meningococo), Haemophilus influenzae tipo b (Hib) e Streptococcus pneu- moniae (pneumococo). A etiologia bacteriana pode ser presumida de acordo com a faixa etária e a provável via de entrada do agente infeccioso, conforme consta na tabela a seguir: ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS: A Doença Meningocócica é causada pela Neisseria meningitidis (meningococo), de ocorrência mundial, com variações sazonais e potencial epidêmico significativo. Afeta principalmente crianças e adultos jovens e a transmissão ocorre pela tosse e/ou espirro, através de secreções expelidas pelo trato respiratório. Em Curitiba o coeficiente médio de incidência nos últimos anos tem sido de aproximadamente 5,4/100.000 ha- bitantes. O maior risco de adoecimento ocorre em crianças menores de 4 anos de idade (50% dos casos). O Streptococcus pneumoniae (pneumococo) é um importante patógeno das infecções respiratórias ad- quiridas na comunidade e continua sendo causa de morbimortalidade alta em todas as idades, notadamente nas crianças menores de 2 anos e pacientes portadores de doenças crônico-degenerativas. As taxas de colonização variam entre diferentes populações e faixas etárias e a letalidade da meningite pneumocócica permanece em torno de 29%. DIAGNÓSTICO CLÍNICO: As meningites bacterianas podem ser de difícil diagnóstico, principalmente em crianças menores, quando os sinais e sintomas são inespecíficos. Em geral, o quadro clínico caracteriza-se por febre alta, cefaleia e rigidez de nuca, sintomas mais comuns em crianças maiores e adultos. Os sintomas podem se desenvolver em dois dias ou evoluir em poucas horas. Destacam-se também vômitos, recusa alimentar, sonolência, ir- ritabilidade e convulsões, principalmente em recém-nascidos e lactentes. A meningite bacteriana instala-se de forma progressiva, caracterizando-se por: Idade Agentes etiológicos recém-nascidos até 3 meses No período neonatal são mais freqüentes Escherichia coli (região perineal materna) e Streptococcus agalactiae (canal de parto), seguidos por Listeria monocytogenes, Klebsiella sp e Streptococcus pneumoniae. dos 4 meses até 3 anos Neisseria meningitidis e Streptococcus pneumoniae. dos 3 aos 10 anos Predomina Neisseria meningitidis (meningococo), ressaltando-se que em períodos endêmicos cerca de 15 a 20% da população alberga este agente. Também importante a ocorrência de menin- gites bacterianas por Streptococcus pneumoniae (pneumococo). após os 10 anos e na idade adulta Predomina Streptococcus pneumoniae (pneumococo). Outros agentes: Neisseria meningitidis e Listeria monocytogenes. 165 Diretriz De atenção à saúDe Da criança a) síndrome meningorradicular: por irritação das raízes no espaço subaracnoideo, há contratura da musculatura cervical posterior e da musculatura dorsal, resultando em rigidez de nuca. b) síndrome infecciosa aguda: febre alta, toxemia, prostração. c) síndrome de hipertensão intracraniana: cefaleia holocraniana, vômitos em jato, edema de papila. Os pacientes com doença meningocócica invasiva podem ser classificados em três grupos: a) pacientes com meningite; b) pacientes com meningite e meningococcemia; c) pacientes com meningococcemia sem meningite (sepsis meningocócica fulminante). As diferenças entre a meningite e a sepsis meningocócica fulminante são bastante evidentes clinicamente. Sinais clássicos de meningococcemia pura ou septicemia meningocócica ocorrem em 40% dos casos de doença invasiva. Esta forma de apresentação inicia-se subitamente, com febre, mal-estar generalizado, fraqueza, hipotensão e um “rash” petequial ou purpúrico, sem sinais de meningite. O curso clínico, dentro do quadro séptico, é seguido por instabilidade hemodinâmica, hipotensão e falência de múltiplos órgãos levando, geralmente, ao choque e óbito. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL: O líquor é fundamental para o diagnóstico das meningites bacterianas. Em geral, revela-se hipertenso, com aspecto turvo ou francamente purulento. A cultura bacteriológica ainda é o exame laboratorial padrão-ouro, permitindo o isolamento do agente infeccioso, sua identificação e a realização dos testes de sensibilidade antimicrobiana. O isolamento bacteriano é fundamental para investigação de surtos e para a tomada de decisões em relação à quimioprofilaxia e/ou imunoprofilaxia. CONDUTA: • Estabelecido o diagnóstico de meningite bacteriana, a antibioticoterapia deve ser iniciada e o interna- mento indicado. Caso haja demora na punção lombar ou se esta for contraindicada, deve-se realizar a terapêutica empírica. • Convém destacar as medidas de suporte para a correção dos distúrbios hidroeletrolíticos e acidobá- sicos, que incluem o controle da pressão arterial, diurese, frequência cardíaca, pressão venosa central (PVC), aspiração de secreções, desobstrução de vias aéreas superiores, uso de sonda nasogástrica (SNG) e oxigenioterapia. 1) Iniciar administração de antibiótico: • Penicilina Cristalina – 500.000 UI/Kg/dia de 4/4h ou 6/6 h*. *Penicilina cristalina – frasco-ampola 5.000.000 UI – dilua 1 frasco para 10 ml de água destilada (desta forma cada ml conterá 500.000 UI). Retire o volume necessário para a dose prescrita e redilua para 50 ml SF 0,9% ou SG 5%; correr em 30 minutos a 30 gotas por minuto. Após a diluição, a medicação deve ser obrigatoriamente utilizada em até 6 horas. OU • < 2 meses: cefalosporina 3ª geração: cefotaxima 150 mg/kg/dia, EV de 6/6 horas, OU ceftriaxona 100mg/kg/dia, EV de 12/12 horas (preferencialmente para maiores de 1 mês de idade). • 2 meses em diante: Ceftriaxona: 100mg/kg/dia até 4g/dia, EV de 12/12 horas, ou de 24/24 horas. 166 2) Em crianças ≥ 6 semanas de vida recomenda-se o uso de dexametasona: 0,4 mg/kg/dose, EV, de 12/12 horas (ou 0,15 mg/kg/dose, EV de 6/ 6 horas), administrando-se a primeira dose 15 a 30 minutos antes do início da antibioticoterapia e mantendo a corticoterapia por 48 horas (Fonte: Clinical Infection Diseases, 2004, 39:1267). 3) Encaminhamento para internação. 11.11.2 CAsOs sUsPEITOs DE MENINGOCOCCEMIA: • Quadro súbito (menos de doze horas) • Febre elevada Na evolução pode surgir: • Instabilidade hemodinâmica com diminuição da perfusão, pulsos finos, taquicardia, hipofonese de bulhas e até evolução para choque séptico. • Alteração do nível de consciência com sonolência, hipoatividade e até evolução para coma. Obs.: Podem não haver sinais meníngeos clássicos. CONDUTA: 1) Implantar precauções com gotículas: • manter o paciente em ambiente privativo; • usar máscara sempre que se aproximar a uma distância menor que 1 metro; • o paciente deverá usar máscara ao ser transportado. 2) Implantar precauções de contato: • usar luvas 3) Estabelecer acesso venoso periférico para imediata expansão de volume com SF 0,9%, na dose de 20ml/Kcal (anexo 1 - página 167) a cada 20 minutos, por 1 hora.4) Antes da administração de antibiótico: • Coletar sangue em um recipiente para hemocultura (ver orientação da Técnica para Coleta - página 167) • Coletar sangue para prova de aglutinação do látex: sangue total em um tubo para sorologia/soroa- glutinação (tubo com ou sem gel, tampa vermelha/vinho); esta amostra de sangue deve ser mantida sob refrigeração. 5) Iniciar administração de antibiótico: • Penicilina Cristalina*: 500.000 UI/Kg/dia de 4/4 horas ou de 6/6 horas. * Penicilina cristalina – frasco-ampola 5.000.000 UI: diluir 1 frasco para 10 ml de água destilada (desta forma cada ml conterá 500.000 UI). Retirar o volume necessário para a dose prescrita e rediluir para 50 ml SF 0,9% ou SG 5%; correr em 30 minutos a 30 gotas/minuto. ATENÇÃO! Retirar toda a roupa da criança e examinar toda a pele à procura de lesões petequiais, purpúricas ou sufusões hemorrágicas de disseminação rápida que se iniciam frequentemente em nuca e pescoço evoluindo para tronco e extremidades. 167 Diretriz De atenção à saúDe Da criança OBS.: Após a diluição, a medicação deve ser obrigatoriamente utilizada em até 6 horas. OU • Ceftriaxona: 100 mg/kg/dia, EV de 12/12 horas. 6) Se o caso evoluir para choque, iniciar Hidrocortisona: dose de ataque: 10mg/Kg em bolo, EV, e após, 100mg/m2/dia, de 6/6 horas, EV, até sair do choque — máximo de 6 doses. (Jornal de Pediatria. 83 (5) Supl.p. 160. 2007). 7) Encaminhamento urgente para os hospitais de referência! 8) Em casos de permanência por mais de uma hora na Unidade de Saúde: de acordo com os dados vitais do paciente (PA, pulso, perfusão), manter expansão com SF 0,9%, na dose de 20ml/Kcal, até 6 horas (é importante que seja feita avaliação intensiva das condições do paciente, para evitar hiperidratação). ANEXO 1 - TABELA COM MÉTODO SIMPLIFICADO DE CORRELAÇÃO ENTRE PESO EM QUILOS E VOLUME A INFUNDIR, RESPEITANDO A DOSE DE 20ML/KCAL: TÉCNICA PARA COLETA E TRANSPORTE DE HEMOCULTURA PARA O SISTEMA AUTOMATIZADO BACT/ALERT A) Armazenamento dos frascos: conservar os frascos à temperatura ambiente e ao abrigo da luz. B) Coleta: Peso em kg Volume de sF 0,9% em ml 3 60 4 80 5 100 6 120 7 140 8 160 9 180 10 200 11-15 250 16-20 300 21-30 350 31-40 400 41-50 450 51-60 500 61-70 550 168 • Identificar o frasco, usando a seguinte padronização: - Identificar o frasco de cultura apropriado com os dados do paciente. - Manter o frasco à temperatura ambiente. - Não colocar qualquer adesivo (etiquetas, fita adesiva, esparadrapo, etc) sobre o código de barras, bem como evitar qualquer procedimento que venha a danificá-lo. • Coletar o sangue, usando a seguinte técnica: - Fazer assepsia rigorosa do local da punção com algodão embebido em álcool a 70% em um único sentido, durante um minuto. - Remover a tampa plástica do frasco de cultura e fazer assepsia da tampa de borracha com algodão ou gaze embebido em álcool a 70%, friccionando por um minuto; - Coletar no máximo 4ml de sangue no frasco para hemocultura infantil ou 10 ml para frasco de adulto; - Inocular o sangue coletado no frasco apropriado e homogeneizar delicadamente, - Deixar o frasco inoculado à temperatura ambiente, até ser enviado ao LACEN. NÃO INCUBAR. NÃO GUARDAR EM GELADEIRA. C) Transporte: • Deixar o frasco à temperatura ambiente após a semeadura e enviar ao LACEN, em caixa de isopor sem gelo, no máximo em 24horas após a coleta. • Durante a semana enviar ao Laboratório Municipal no fluxo normal de exames. Nos finais de semana o transporte será feito pelo plantão da epidemiologia. QUIMIOPROFILAXIA: Principais indicações da quimioprofilaxia na doença meningocócica: • comunicantes domiciliares; • convívio no mesmo alojamento em instituições fechadas (comer e dormir no mesmo local); • pessoas com relação íntima e prolongada (troca de secreção); • comunicantes de creche e pré- escola (< 7 anos). Quimioprofilaxia na doença meningocócica - duração de dois dias: A droga de escolha para a quimioprofilaxia dos contatos é a rifampicina: • Menores de 1 mês: 5mg/kg/dose a cada 12 horas; • Crianças (1 mês a 12 anos): 10mg/kg/dose (máx.300mg) a cada 12 horas; • Adultos: 300mg a cada 12 horas. Principais indicações da quimioprofilaxia na meningite por Haemophilus influenzae tipo b (Hib) • comunicantes domiciliares somente quando, além do caso índice, houver crianças menores de 5 anos residentes no domicílio; • em creches e pré-escolas, apenas a partir do segundo caso confirmado, quando houver comunicantes próximos menores de 5 anos. Antes de ser retirado do isolamento, o paciente que fez uso de penicilina cristalina deverá, a fim de erradicar o meningococo da orofaringe, receber rifampicina: 10mg/kg/dose, de 12/12h, por dois dias. 169 Diretriz De atenção à saúDe Da criança Quimioprofilaxia na doença invasiva por Hib - dose única diária com duração de quatro dias: A droga de escolha para a quimioprofilaxia dos contatos é a rifampicina: • Menores de 1 mês: 10 mg/kg/dia. • Crianças (1 mês a 12 anos): 20 mg/kg/dia (máx. 600 mg); • Adultos: 600mg/dia. 11.11.3 MENINGITEs VIRAIs A meningite viral é considerada uma complicação de uma infecção viral sistêmica, especialmente as enteroviroses transmitidas pelo contato com as fezes ou secreção respiratória de um doente. Indivíduos de todas as idades são suscetíveis, porém a faixa etária de maior risco é a de menores de 5 anos. O grupo dos Enterovirus é responsável por cerca de 85% de todos os casos de meningite viral, os lactentes são os mais suscetíveis e a reinfecção pode ocorrer por cepas diferentes. Entre eles estão os Echovirus (3, 4e, 6, 9, 11, 21, 30 e 75), os Poliovirus e os vírus Coxsackievirus grupos A e B. Em seguida, com frequência relativa de 7%, está o vírus da caxumba. Os herpes vírus (HSV 1 e HSV 2) são responsáveis por 0,5 a 3% dos casos de meningite viral aguda. Outros agentes virais são os arbovírus e os vírus da varicela e sarampo. O contágio geralmente é feito diretamente de pessoa a pessoa ou por contato com objetos contaminados (mais raramente). É necessário ter contato direto com as secreções do paciente ou um contato íntimo (residir na mesma casa, ser colega de alojamento, namorado, etc). No caso dos enterovírus, a contaminação fecal-oral é a predominante. Em relação aos arbovírus, a contaminação é feita através de vetores (mosquitos ou carrapatos). PERÍODO DE INCUBAÇÃO E TRANSMISSIBILIDADE: Para a maioria das meningites a incubação varia de 2 a 10 dias, com média de 3 a 4 dias, havendo risco de transmissão enquanto existir a presença do agente infeccioso viável nas secreções respiratórias ou gastrointestinais. QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO: O quadro clínico é bastante característico, incluindo febre, cefaleia holocraniana, rigidez de nuca e fo- tofobia. Ao exame físico chama a atenção o bom estado geral da criança, apesar da presença de sinais de irritação meníngea. Quando se trata de Enterovirus é importante destacar que os sinais e sintomas inespecíficos que mais antecedem e/ou acompanham o quadro da meningite são: manifestações gastrointestinais (vômitos, anorexia e diarréia), respiratórias (tosse, faringite) e ainda mialgia e erupção cutânea. Se a meningite for acompanhada de processo inflamatório do parênquima cerebral (encefalite), sinais e sintomas de localização e alterações de comportamento devem ser prontamente identificados, pois a abord- agem diagnóstica e terapêutica é diferenciada nesses casos, sendo geralmente mais abrangente e agressiva, com métodos propedêuticos e farmacoterápicos específicos. O exame do líquor é de fundamental importância para o diagnóstico das meningites virais, com pleocitose (10 a 500 células/mm3) e predomínio de linfomononucleares. Contudo, no início da infecção, pode-se encontrar acelularidade ou predomínio de polimorfonucleares, queapós 12 a 24 horas dão lugar ao padrão típico de celularidade das patologias virais. A glicorraquia geralmente encontra-se em níveis normais ou levemente reduzidos e a proteinorraquia pode estar normal ou ligeiramente aumentada. TRATAMENTO: Após a avaliação médica e análise preliminar dos exames laboratoriais do paciente, caso seja confirmada meningite, o paciente ficará internado para evitar a desidratação, diminuir a cefaleia e melhorar as condições gerais. Por ser uma doença de evolução geralmente benigna e autolimitada, o tratamento da meningite viral é basicamente sintomático e o internamento dura de 1 a 3 dias. 170 Se o paciente estiver sonolento ou confuso ou com dificuldade de deglutição, deverá ser mantida sonda nasogástrica para hidratação adequada e evitar broncoaspiração. A recuperação total do paciente se dá comumente uma a duas semanas após a instalação do quadro. Porém, em alguns raros casos, sintomas são referidos até um mês após o início da meningite, cedendo posteriormente. PROFILAXIA: Não existem vacinas para a prevenção das meningites por Enterovirus. Para evitar o contágio, deve-se manter os ambientes sempre bem arejados e orientar as medidas de higiene, como lavar as mãos após ir ao banheiro, antes das refeições e depois de trocar as fraldas do bebê. 11.11.4 NOTIFICAÇÃO: Todos os tipos de meningite são de notificação obrigatória (conforme portaria 2.325/GM - 08/12/2003). O serviço de saúde que presta o primeiro atendimento ao caso suspeito é o responsável pela notificação e pelo preenchimento da Ficha de Notificação de casos suspeitos de meningite. A notificação deve ser feita para a Vigilância Epidemiológica do Distrito Sanitário da Secretaria Municipal de Saúde ou para o seu plantão, seja através de telefone, fax, e-mail, etc. A Vigilância Epidemiológica acompanhará a investigação até o encer- ramento dos casos. Para fins de vigilância, considera-se surto em uma comunidade aberta (bairro, município e outros) a ocorrência do dobro do número de casos esperados de meningite de provável etiologia viral por 3 semanas sucessivas. Em comunidades institucionais (escola, creche, acampamento, alojamento) considera- se surto a ocorrência de dois ou mais casos suspeitos de meningite viral num intervalo de até 3 semanas. Em surtos de meningites pelo vírus da caxumba, faz-se busca ativa dos casos e o bloqueio da transmissão por meio da imunização (vacina tríplice viral). Referências bibliográficas: 1. BASHIR, H. E.; LAUNDY, M.; BOOY, R.. Diagnosis and treatment of bacterial meningitis. Arch Dis Child. v. 88, p. 615-20, 2003. 2. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Control and prevention of meningococcal disease: recommenda- tions of the Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP). MMWR Morb Mortal Wkly, v. 49, p.110, 2000. 3. CINQUE P.; BOSSOLASCO S.; LUNDKVIST A.. Molecular analysis of cerebrospinal fluid in viral diseases of the central nervous system. J Clin Virol. v. 26(1), p.1-28, 2003. 4. DUPUIS C.; DESPERT V.; VIGNERON P.. Herpetic meningitis in the child. Arch Pediatr. v. 9(11), p. 1153-155, 2002. 5. FOCACCIA, R.. Meningites bacterianas - etioepidemiologia e meningites agudas. In: VERONESI R, FOCACCIA R.. Tratado de Infectologia, 2 ed., v. 1, Atheneu , São Paulo, 2002. Cap. 66.1, p. 827-43. 6. Fonte: www.aids.gov.br, Portaria 151/ SVS. 7. GONZALES N.; TYLER K. L.; GILDEN D. H.. Recurrent dermatomal vesicular skin lesions: a clue to diagnosis of herpes simplex virus 2 meningitis. ARCH NEUROL v. 60(6), p.868-69, 2003. 8. HUKKANEN V.; VUORINEN T.. Herpesviruses and enteroviruses in infections of the central nervous system: a study using time-resolved fluorometry PCR. J Clin Virol. v. 25(0), p.87-94, 2002. 9. LEPOW, M. L.; PERKINS, B. A.; HUGHES, P. A.; et al. Meningococcal vaccines. In: PLOTKIN, S. A.; ORENSTEIN, W. A., Vac- cines. 3ed. Philadelphia: W. B. Saunders Company, 1999, Cap. 19, p. 711-27 10. NOWAK D. A.; BOEHMER R.; FUCHS H. H.; A retrospective clinical, laboratory and outcome analysis in 43 cases of acute aseptic meningitis. Eur J Neurol v. 10(3), p.271-80, 2003. 11. ROMERO J. R.; NEWLAND J. G.. Viral meningitis and encephalitis: traditional and emerging viral agents. Semin Pediatr Infect Dis.v. 14(2), p.72-82, 2003. 12. SÃO PAULO (SP). Secretaria do Estado da Saúde. Centro de Vigilância Epidemiológica. Meningites virais. Rev. Saúde Pública v. 40(4), p. 748-50, 2006. 13. SCOTT, R. C.; SURTEES, R. A. H., NEVILLE, B. G. R.. Status epilepticus: pathophysiology, epidemiology, and outcomes. Arch Dis Child v.79(1), p. 73-77, 1998. 14. TUNKEL, A. R.; HARTMAN, B. J.; KAPLAN, S. L; et al. Practice Guidelines for the Management of Bacterial Meningitis. Clin Infect Dis. v. 39, p.1267-84, 2004 15. VERSTREPEN W. A.; BRUYNSEELS P.; MERTENS A. H.. Evaluation of a rapid real-time RT-PCR assay for detection of enterovirus RNA in cerebrospinal fluid specimens. J Clin Virol. v. 25(0), p.39-43, 2002. 16. ZANELLA, R. C.; CASAGRANDE, S. T.; BRANDILEONE, M. C. C. et al.. Characterization of Haemophilus influenzae Isolated from Invasive Disease in Brazil from 1990 to 1999. Microbial Drug Resistance, v. 8(1), p.67-71, 2002. 17. YOUNG T. E.; MANGUM O. B.; Neofax guia de medicações usadas em recém-nascidos. 19ed. Atheneu: São Paulo, 2006. 432 p. 171 Diretriz De atenção à saúDe Da criança 11.11.5 FLUXOGRAMA PARA ATENDIMENTO DAs MENINGITEs OU DOENÇA MENINGOCÓCCICA 172 11.12 AFECÇÕEs DA PELE Nas afecções de pele é importante identificar o tipo de lesão, suas características, localização, distribuição, sinais e sintomas associados, bem como a faixa etária. A visualização cuidadosa de toda superfície corporal pode rapidamente fornecer subsídios auxiliando o diagnóstico, levando à conduta adequada. O exame objetivo deve abranger todo o tegumento, as mucosas, os anexos cutâneos (pele e unhas), além da palpação para determinar os tipos de lesões. Deve-se sempre determinar a lesão elementar para facilitar o diagnóstico da dermatose. 11.12.1 ERUPÇÕEs ERITEMATOsAs EsCARLATINA QUADRO CLÍNICO: início súbito com febre alta, cefaleia, mal-estar e anorexia; após 1 a 2 dias surge exantema maculopapular confluente e áspero (aspecto de lixa) no tronco, enantema com mucosa oral hiperemiada, língua no início esbranquiçada (“morango branco”) e, depois, vermelho rutilante (“morango vermelho” ou “língua em framboesa”), faringite e palidez perioral. Após 4 a 5 dias o exantema esmaece e inicia-se descamação furfurácea no tronco e lamelar nas mãos. CAUSA: estreptococo beta-hemolítico do grupo A de Lancefield. PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 2 a 5 dias. TRANSMISSÃO: secreções respiratórias. PERÍODO DE CONTÁGIO: até 24 horas após o início da antibioticoterapia. FAIXA ETÁRIA: pré-escolar e escolar, sendo raro no lactente. TRATAMENTO: 1) Penicilina G benzatina: até 27 kg: 300.000 a 600.000UI, IM, em dose única (50.000 UI/kg); 27 kg: 900.000 a 1.200.000 UI, IM, em dose única ou penicilina e derivados via oral. Para os casos de alergia a penicilina: eritromicina: 30 a 50 mg/kg/dia, VO, de 6/6h, por 10 dias. 2) Uso de hidratantes na fase final do exantema, quando a pele torna-se áspera e descamativa. sARAMPO QUADRO CLÍNICO: início com febre, tosse, cefaleia, mal-estar, prostração intensa durante três a quatro dias. Após, surge exantema acompanhado de espirros, tosse seca persistente, coriza abundante, hialina no início, tornando-se purulenta nos dias subsequentes; há congestão ocular com hiperemia, lacrimejamento e fotofobia acentuada com edema bipalpebral nos casos mais graves. O enantema é a primeira manifestação, com orofaringe hiperemiada e manchas branco-azuladas, pequenas, de 1 mm de diâmetro na região oposta aos malares (manchas de Koplik); estas manchas ocorrem 1 a 2 dias antes do exantema e desaparecem 2 a 3 dias depois. O exantema eritematoso maculopapular pode confluirem determinadas áreas, inicia-se atrás do pavilhão auricular, disseminando-se rapidamente para pescoço, face, tronco e membros. Nesta fase intensifica-se a sintomatologia, ou seja, prostração acentuada, febre alta, fotofobia, rinorréia e tosse intensa. A presença do quadro clínico, independentemente da situação vacinal, define o diagnóstico. 173 Diretriz De atenção à saúDe Da criança CAUSA: Mixovírus. PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 8 a 12 dias. TRANSMISSÃO: secreção ocular e das vias respiratórias, por contato direto ou gotículas de saliva. PERÍODO DE CONTÁGIO: 4 a 6 dias antes dos pródromos até 5 dias após o aparecimento do exantema. FAIXA ETÁRIA: pré-escolar, escolar. COMPLICAÇÕES: otite média aguda, traqueobronquite, pneumonia, diarreia, encefalite. VACINA: aos 12 meses, com reforço entre 4 a 6 anos. OBS: Valorizar a epidemiologia de sarampo na suspeita de outras doenças exantemáticas, como: rubéola, dengue, parvovírus B19, e outras, com clínica semelhante. TRATAMENTO: 1) Sintomático; repouso relativo, de acordo com a disposição da criança. 2) Antitérmico, quando necessário. QUANDO ENCAMINHAR: suspeita de complicações graves, pacientes com imunossupressão. BLOQUEIO VACINAL: dentro de no máximo 72 horas após a exposição, para criança com idade superior a 6 meses em diante, limitada aos contatos com o caso suspeito. REAÇÃO VACINAL: • Febre alta do 5º ao 12º dias após a vacinação com duração de 2 a 5 dias. • Cefaleia ocasional, irritabilidade, conjuntivite ou manifestações catarrais entre o 5º a 12º dias após a vacinação • Exantema do 7º ao 10º dia com duração de 2 a 4 dias. • IgM reagente nas coleta do 8º ao 56º dia após a vacina. Lembrete: a notificação do sarampo é obrigatória e imediata e deve ser feita aos respectivos Distritos Sanitários e destes ao Centro de Epidemiologia para o desencadeamento imediato de ações de in- vestigação, bloqueio vacinal e coleta sorológica. Procedimentos laboratoriais: veja anexo 14.15 (pág. 240). RUBÉOLA QUADRO CLÍNICO: exantema maculopapular eritematoso generalizado mais suave do que o do sarampo, de início na face com disseminação craniocaudal, linfadenopatia generalizada (comumente suboccipital, retroauricular e cervical), acompanhados de febre de baixa intensidade. Eventualmente pode ocorrer artralgia transitória e poliartrite. É uma doença exantemática aguda de alta contagiosidade, em geral de curso benigno. Sua importância epidemiológica está relacionada ao risco de aborto, natimortos e malformações congênitas quando ocorre durante a gestação. O quadro clínico independente da idade e situação vacinal define o diagnóstico. CAUSA: togavírus específico. 174 PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 14 a 21 dias. TRANSMISSÃO: gotículas respiratórias. É importante investigar contatos com gestantes principalmente no primeiro trimestre de gestação pelo que pode ocasionar ao feto. PERÍODO DE CONTÁGIO: 5 a 7 dias antes do início do exantema até 5 a 7 dias após o término do exan- tema. As crianças com infecção congênita são consideradas infectantes (urina e secreções nasofaríngeas) até um ano de idade. FAIXA ETÁRIA: escolar, adulto. TRATAMENTO: sintomático, se necessário. Lembre-se: Notificação obrigatória na suspeita da doença e coleta de sorologia para confirmação diagnóstica. Procedimentos laboratoriais: veja anexo 14.16. (pág. 241) EXANTEMA sÚBITO QUADRO CLÍNICO: febre alta durante 3 a 7 dias, seguida por exantema maculopapular eritematoso tênue que dura horas a dias. Frequentemente acompanha-se de linfadenopatia cervical e occipital, sintomas respiratórios ou gastrointestinais. Pode ocorrer convulsão febril e ocasionalmente abaulamento de fontanela e encefalopatia. CAUSA: Herpesvirus tipo 6. PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 9 a 10 dias. TRANSMISSÃO: gotículas respiratórias. PERÍODO DE CONTÁGIO: durante todo o tempo de viremia, principalmente, enquanto houver febre. FAIXA ETÁRIA: lactente. TRATAMENTO: sintomático, se necessário. ERITEMA INFECCIOsO QUADRO CLÍNICO: febre de baixa intensidade. Eritema acentuado nas regiões malares (sinal da bofe- tada), posteriormente, aparecimento de exantema de aspecto rendilhado, localizado principalmente no tronco, membros e nádegas. O exantema pode variar de intensidade e apresentar recorrência durante semanas. Em alguns casos pode haver associação de alterações hematológicas. CAUSA: Parvovirus B19. PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 4 a 14 dias. 175 Diretriz De atenção à saúDe Da criança TRANSMISSÃO: gotículas respiratórias. Baixa contagiosidade. PERÍODO DE CONTÁGIO: maior contagiosidade antes do aparecimento do exantema. FAIXA ETÁRIA: 5 a 15 anos. TRATAMENTO: sintomático. sÍNDROME DA PELE EsCALDADA QUADRO CLÍNICO: eritrodermia generalizada seguida de descolamento da pele em lamelas. Inicia-se com febre, irritabilidade e de eritema nas pregas e na região periorificial (rágades) e evolui com eritema extenso e descolamento epidérmico em 24 a 48 horas. CAUSA: toxina do Staphyloccocus aureus. INCIDÊNCIA: principalmente abaixo dos 2 anos e até 5 anos. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: Stevens-Johnson, necrólise epidérmica tóxica, reações a drogas, outras eritrodermias. TRANSMISSÃO: geralmente infecção ocular (conjuntivite), de pele ou do trato respiratório alto. FAIXA ETÁRIA: neonato, lactente e pré-escolar. TRATAMENTO: 1) Do foco inicial com penicilina, eritromicina ou cefalosporina via oral. 2) Para tratamento da erupção cutânea: compressas com chá de camomila ou soro fisiológico nos quadros leves. 3) Casos graves: internação e tratamento em UTI 11.12.2 ERUPÇÕEs PAPULOsAs EsTRÓFULO QUADRO CLÍNICO: pápulas eritematosas com vesícula no centro (seropápulas), pruriginosas, dispostas aos pares ou linearmente nas áreas expostas e de extremidades (mosquitos, pernilongos) ou cobertas (pulgas, ácaros). Ocorre principalmente nos períodos de primavera e verão. CAUSA: hipersensibilidade às picadas de insetos. FAIXA ETÁRIA: pré-escolar, escolar (de 2 a 7 anos). DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: varicela, escabiose, mastocitose. TRATAMENTO: 1) Orientação: uso de mosquiteiros e telas para evitar a exposição aos insetos. 2) Anti-histamínico oral nas reações intensas, loções antipruriginosas à base de calamina e corticóides tópicos. 176 MOLUsCO CONTAGIOsO QUADRO CLÍNICO: pápulas (em cabeça de alfinete) cor da pele, brilhantes, isoladas ou múltiplas, algu- mas com umbilicação central. FAIXA ETÁRIA: pré-escolar e escolar. TRATAMENTO: encaminhar à dermatologia pediátrica para curetagem após anestesia tópica. TUNGÍAsE (BICHO DE PÉ) QUADRO CLÍNICO: pápula amarela com ponto central escuro, pruriginosa, localizada principalmente nos pés. CAUSA: Tunga penetrans. TRATAMENTO: extração do saco e do parasita com agulha esterilizada, descolando-os, evitando seu rompimento. 11.12.3 ERUPÇÕEs NODULAREs FURÚNCULO QUADRO CLÍNICO: tumor, rubor e dor com necrose central (”carnegão ou carnicão”) central, localizado nas regiões pilosas. CAUSA: Staphylococcus aureus. FAIXA ETÁRIA: escolar, adolescente. TRATAMENTO: 1) Compressas quentes (orientar para cuidar e não queimar a criança) no local, 3 vezes ao dia. 2) Higiene da pele ao redor com álcool 70%, 2 vezes ao dia por 1 semana. 3) Antibiótico tópico. 4) Drenagem quando houver ponto de flutuação – NÃO ESPREMER ou drenar enquanto o tumor estiver de consistência firme! 5) Na furunculose de repetição: fazer erradicação do estafilococo pela embrocação nasal com antibiótico tópico, na criança e nos contatos, durante 5 dias/ duas vezes ao dia. HANsENÍAsE QUADRO CLÍNICO: manchas e placas hipocrômicas, eritematosas, ou acastanhadas, nódulos com alteração da sensibilidade, anestésicas ou não. FAIXA ETÁRIA: pré-escolar, escolar e adolescente. DIAGNÓSTICO: Histórico familiar, presença de infiltração (orelhas, face), madarose, espessamento177 Diretriz De atenção à saúDe Da criança neural e, principalmente, alteração da sensibilidade térmica local (teste com tubos com água quente e fria). Prova da unha (com a unha ou objeto rombo fazer uma linha passando dentro e fora da mancha) ou teste da histamina (puntura dentro e fora da lesão com solução de histamina) – na lesão a tríplice reação de Lewis é negativa, ou seja, surge pápula, edema, mas não o eritema reflexo ao redor devido à lesão dos ramúsculos nervosos. Confirmação por biópsia. O manejo da hanseníse deve seguir as orientações do Protocolo de Atenção à Hanseníase em Curitiba. MIÍAsE - BERNE QUADRO CLÍNICO: nódulo, semelhante ao furúnculo, porém sem sinais inflamatórios, com orifício central e dor em ferroada, com saída de líquido límpido ou da própria larva, pelo orifício central. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: furúnculo. CAUSA: larvas de moscas. TRATAMENTO: oclusão da lesão com esparadrapo ou com vaselina em camada espessa, durante 24 horas. A larva sem suprimento de oxigênio, geralmente, morre, sendo fácil a sua extração com pinça. NÃO espremer a lesão; quando necessário, a remoção deve ser cirúrgica. 11.12.4 ERUPÇÕEs VEsICULOsAs MILIÁRIA (BROTOEJA) / sUDÂMINA QUADRO CLÍNICO: vesícula (miliária cristalina), com eritema (miliária rubra) com pústula (miliária pus- tulosa). CAUSA: calor excessivo, sudorese, maceração da pele e retenção do suor no poro da glândula sudorípara. FAIXA ETÁRIA: lactente. TRATAMENTO: 1) Manter local arejado, roupas leves. 2) Evitar exposição exagerada ao sol e exercícios físicos em excesso. 3) Banho com camomila, aveia ou maisena. IMPETIGO EsTREPTOCÓCICO QUADRO CLÍNICO: vesículas ou bolhas com conteúdo turvo, que se rompem facilmente, drenando líquido seropurulento e formando crosta amarelada (melicérica), localizadas em qualquer área do corpo e principalmente periorificial, nos pré-escolares e escolares. CAUSA: estreptococo beta-hemolítico do grupo A de Lancefield. FAIXA ETÁRIA: lactente, pré-escolar e escolar. TRATAMENTO: 178 1) Higiene local com sabonetes antissépticos. 2) Rompimento das bolhas e remoção das crostas. 3) Manter unhas curtas. 4) Penicilina G benzatina: até 27 kg: 300.000 a 600.000UI, IM, em dose única (50.000 UI/kg); acima de 27 kg: 900.000 a 1.200.000 UI, IM, em dose única. 5) Penicilina ou derivados via oral ou, nos casos de alergia a penicilina: eritromicina: 30 a 50 mg/kg/dia, VO, de 6/6h, por 10 dias. IMPETIGO EsTAFILOCÓCICO QUADRO CLÍNICO: pústulas de tamanhos variados que se rompem, deixando base eritematosa cruenta, úmida, semelhante a lesão de queimadura de cigarro. CAUSA: Staphylococcus aureus. FAIXA ETÁRIA: lactente, pré-escolar e escolar. TRATAMENTO: limpeza local com sabonete antisséptico e antibiótico ou quimioterápico tópico 2 vezes ao dia, durante 1 semana. Cefalexina ou derivados de penicilina nos casos mais extensos. VARICELA QUADRO CLÍNICO: quadro polimorfo, com lesões em diversos estágios, máculas, vesículas, pústulas e crostas, e febre. Distribuição centrípeta (cabeça, tórax e abdome). CAUSA: Herpesvirus varicella. PERÍODO DE INCUBAÇÃO: 14 a 16 dias. PERÍODO DE CONTÁGIO: do início da sintomatologia até todas as lesões em forma de crostas. FAIXA ETÁRIA: pré-escolar e escolar. TRATAMENTO: 1) Higiene corporal. 2) Manter unhas curtas. 3) Antitérmico, se necessário. 4) Anti-histamínico, quando o prurido for intenso. 5) Antibiótico sistêmico, quando houver infecção bacteriana secundária. DOENÇA BOCA, PÉ, MÃO QUADRO CLÍNICO: lesões eritematosas exulceradas na cavidade oral semelhante a “aftas” e pápulas eritematosas nas mãos e nos pés que evoluem com vesículas esbranquiçadas alongadas em formato de “grão de arroz”. Podem ser precedidos de sintomas respiratórios de vias aéreas superiores e febre e as lesões tem duração aproximada de 15 dias. Possibilidade de contagio via feco-oral. TRATAMENTO: sintomático. 179 Diretriz De atenção à saúDe Da criança HERPEs sIMPLEs QUADRO CLÍNICO: grupo de vesículas sobre base eritematosa, localizadas frequentemente nos lábios, podendo ocorrer em outras áreas do corpo (no pré-escolar é comum a localização malar); pode ser des- encadeado por exposição solar, trauma local ou baixa de imunidade (infecções sistêmicas, uso de imunos- supressores). FAIXA ETÁRIA: escolar e adolescente. TRATAMENTO: 1) Proteção solar, limpeza local. 2) Quando for de repetição encaminhar à dermapediatria. HERPEs ZOsTER QUADRO CLÍNICO: grupo de vesículas localizadas no trajeto de um nervo, geralmente as raízes dorsais, causadas pelo Vírus Varicella-Zoster, em criança que já tenha tido varicela (ou ter sido vacinada). Geralmente a criança, ao contrário do adulto, não tem pródromo doloroso nem nevralgia pós-herpética. A erupção é relativamente benigna. FAIXA ETÁRIA: escolar e adolescente. TRATAMENTO: 1) Cuidados locais para evitar infecção secundária, anti-histamínico, quando houver prurido e antibiótico sistêmico se infecção secundária. 2) Analgésico. 3) Se a erupção for extensa, ou houver necrose ou sintomas sistêmicos: internamento e aciclovir. 4) Encaminhar à dermatopediatria. 11.12.5 INFECÇÕEs CUTANEAs POR FUNGOs TINEA CORPORIs (IMPINGEM) QUADRO CLÍNICO: lesão em placa vésico-escamosa eritematosa, circinada, em anel, finamente descamativa, com centro claro. CAUSA: fungos dermatófitos (Mycrosporum canis, comum nos cães e gatos). FAIXA ETÁRIA: pré-escolar e escolar. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: eczemas e dermatite seborréica. TRATAMENTO: 1) Miconazol tópico aplicado uma vez ao dia durante 30 dias. 2) Tratamento dos animais contactantes. 180 TINEA CRURAL QUADRO CLÍNICO: placa escamosa com limites nítidos, pruriginosa às vezes vesiculosa na virilha. CAUSA: fungos dermatófitos (Trychophyton). FAIXA ETÁRIA: escolar e adolescente. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: eritrasma (infecção por Corynebacterium), dermatite de contato, dermatite seborréica ou intertrigo por Candida sp. TRATAMENTO: 1) Miconazol tópico uma vez ao dia durante 30 dias. 2) Uso de roupas leves, evitar as sintéticas. TINEA PEDIs – (PÉ-DE-ATLETA, FRIEIRA) QUADRO CLÍNICO: placa eritematosa ou lesão macerada, branca e descamativa nos espaços interdigitais (mais comum no 4º espaço), pruriginosa, bem delimitada nos pés, podendo ocorrer vesiculação no dorso do pé e na região plantar. CAUSA: fungos dermatófitos antropofilicos. FAIXA ETÁRIA: adolescente. Não é comum na criança imunocompetente antes dos 10 anos. Pode ocorrer com maior freqüência nos portadores de síndrome de Down e nos pacientes diabéticos. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: dermatite de contato e atópica, disidrose, intertrigo, eritrasma. TRATAMENTO: 1) Miconazol tópico uma vez ao dia durante 30 dias. Para evitar recidivas: 2) Talco antifúngico nos calçados. 3) Manter a região arejada 4) Usar meias de algodão. 5) Evitar tênis ou calçados sintéticos, plásticos ou de borracha. 6) Expor a pele ao sol. TINEA CAPITIs QUADRO CLÍNICO: área circunscrita de alopécia, cinzenta ou eritematosa, seca ou exsudativa, com descamação e cabelos curtos, quebrados logo após a emergência dos folículos pilosos (tonsurados) e facilmente destacáveis. CAUSA: fungos dermatófitos (Mycrosporum canis.) FAIXA ETÁRIA: pré-escolar e escolar. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: dermatite seborréica, psoríase, alopécia areata, eczemas. 181 Diretriz De atenção à saúDe Da criança TRATAMENTO: 1) Encaminhar à dermatopediatria O tratamento é sistêmico com griseofulvina oral 20 a 25 mg/kg/dia por 8 semanas. PERLECHE (BOQUEIRA) QUADRO CLÍNICO: fissuras, úmidas ou não, nas comissuras labiais. CAUSA: Candida sp. FAIXA ETÁRIA: pré-escolar e escolar. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL: intertrigo (assadura), que pode se infectar secundariamente por bactérias ou fungos (estafilococo, estreptococo ou Candida sp).