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Resumo: Formação da classe operária e projetos de identidade Cláudio M. H. Batalha A formação da classe operária: um fenômeno econômico? A formação da classe operária é geralmente pensada como um fenômeno puramente econômico, após ao surgimento da indústria. Costuma-se colocar a origem da classe operária dentro do surto industrial da década de 1880. Este trabalho deixa de considerar que a existência de trabalhadores fabris, em si, não assegura a existência de uma classe. A formação da classe é portanto um processo mais ou menos demorado, à medida que ações coletivas tornam-se uma realidade. Sempre se pensou que a escravidão seria o impedimento para o surgimento de uma classe operária. Uma oposição entre trabalho livre e trabalho escravo está longe de ser verificada e também não considera o escravo como ser, sujeito dotado de qualquer autonomia, isso sacralizou uma divisão por períodos da nossa história do trabalho, analisada apenas em critérios econômicos. Não se consegue perceber a continuidade de um período para outro. Tanto num caso, como no outro o crescimento industrial da década de 1880, ou abolição da escravatura, mudariam completamente as condições de como os homens e mulheres seriam inseridos no trabalho fabril. Isso não quer dizer que mesmo trabalhando numa fábrica, os trabalhadores se percebiam como classe. A composição da classe operária A imagem que se tem da classe operária na primeira república, foi Branca, fabril e masculina. Definir como branca é ignorar todas as outras regiões do país. Fabril, nesse período a maioria das fábricas era de pequeno porte, com manufaturas e pequenas oficinas, com pequeno número de trabalhadores. 72% das empresas tinham menos de 40 operários. A ideia que diz respeito da prevalência do trabalho masculino, ignora que na indústria têxtil de vestuário as mulheres eram a grande maioria. Mesmo maioria, na indústria têxtil, poucas mulheres dirigiram organizações sindicais. Imigração e organização operária. Durante muito tempo se pensou que havia uma relação direta, entre a presença de imigrantes no sudoeste e no sul e a militância do movimento operário e a difusão de certas ideologias. Pesquisas mostraram que esses imigrantes provinham, na sua imensa maioria, do campo, sem nenhuma experiência e engajamento sindical ou político. Isso não quer dizer que não tenha vindo um ou outro, que se encaixe nesse perfil. Também fatores étnicos dificultaram a organização operária. Resta saber se era xenofobia pura, ou disputa dentro do movimento operário, ou pelo mercado de trabalho. O mito do emigrante militante não se sustenta diante das evidências. A própria opção pela imigração, para fugir da miséria, mostra a existência de uma crença na inpossibilidade de mudança através de ação sindical ou política. No Brasil os conflitos étnicos entre imigrantes também foi fator que dificultou a organização operária. Outro fator que dificultava o engajamento é a perspectiva de fazer América, enriquecer e voltar ao país de origem, o que poucos conseguiram. Os conflitos étnicos são frequentes e sempre entre setores organizados e não organizados, grevistas contra não grevistas trabalhadores organizados, contra recém-chegadas. São raros os conflitos entre dois lados organizados. Em certos setores predominam os grupos fechados de trabalhadores, onde é difícil de entrar, quase como as guildas da idade média, diferenciadas por etnias. O que mais tem mudado com as análises mais recentes é que muitas vezes a imigração continha em si mesmo elementos capaz de dificultar a organização operária. Dificuldade de comunicação, homens que prestavam serviço militar antes de imigrarem, principalmente entre italianos, dentre os quais não existia um sentimento de unidade por esta época, pelo contrário existe um grande preconceito entre os italianos do norte com os do sul. É necessário abandonar toda análise fundada em determinações estruturais, o que pode levar a considerar todo imigrante anarquista ou percebê-lo exclusivamente movido por interesse individual. A classe como manifestação histórica Os segmentos que se organizaram de maneira mais fácil, desde o século XIX, foram os trabalhadores qualificados, tipógrafos, alfaiates, sapateiros, pedreiros, marceneiros, padeiros. Esses trabalhadores não eram mais artesãos independentes, eram assalariados, submetidos a um patrão. Entretanto, são portadores de um saber e possuíam maior facilidade de colocação no mercado, o que facilitou a barganha. Contudo, a transformação nos meios de produção capitalista, ameaçava essa situação. A introdução de novas técnicas de produção e mecanização da mão de obra, cada vez mais barata, com a introdução do trabalho feminino, ameaçava o seu ofício. Sob a liderança de trabalhadores qualificados de ofício o movimento operário foi moldado, pelo discurso e pelas formas de organização desses trabalhadores. Em São Paulo os trabalhadores fabris tiveram pouco peso na condução do movimento operário, apesar de ser o que reunia o maior número de trabalhadores. A grande quantidade de organizações de ofício, dificultava a participação dos operários fabris. A exceção são os operários têxteis que se organizam nos primeiros anos do século XX. Se o movimento operário é moldado por trabalhadores de ofício, não se deve engrossar a teoria de que doutrinas, como o anarquismo, seriam características dos trabalhadores ainda não totalmente inseridas no trabalho industrial. Esse tipo de visão é marcado por um viés ideológico, que pressupõe que todo trabalhador industrializado deveria adotar o socialismo de cunho marxista. Tanto o anarquismo, como o socialismo, eram doutrinas presentes nesse movimento operário. O anarquismo teve a preferência, sobre o socialismo, pela estrutura do sistema eleitoral no Brasil, onde não se vislumbrava mudanças através do voto, porém esta explicação está longe de ser satisfatória. A organização dos trabalhadores qualificados, ou não, é um traço marcante do Brasil da primeira República. As organizações de trabalhadores cresceram em momentos favoráveis, como durante o movimento grevista de 1917. Nos momentos de mobilização como a greve de 1902, 1907,1917, 1913 é que esses movimentos reúnem mais gente. É nesse processo que a classe como uma realidade histórica aparece, à medida que os interesses coletivos sobrepõe aos interesses individuais e corporativos. Não no surgimento da indústria ou na abolição da escravatura, mas sim como um processo conflituoso, marcado por avanços e recuos, no fazer e desfazer da classe, que surge na organização da ação coletiva. Qual a República? O surgimento da república, trouxe uma grande esperança nos meios organizados do operariado. A expectativa inicial foi seguida de uma grande desilusão, quando a república mostra-se incapaz de atender aos anseios da classe operária. Essa desilusão proporcionou três tipos de resposta por parte do movimento. A primeira, foi a busca da obtenção de direitos sociais, sem questionar o sistema político sustentado pelo positivismo. A segunda, resposta foi a conquista de direitos, aliados direitos políticos visando a mudança do sistema pela participação no processo político eleitoral, posição dos socialistas. Surgiu a partir da década de 1980, sustenta que a revolução francesa deixou o processo incompleto e caberia ou socialistas levá-lo adiante. Finalmente a terceira, posição seria da negação política e institucional, priorizando ação direta como forma de pressão para obtenção de conquistas. Defendida por sindicalistas, revolucionários e anarquistas. A terceira proposta foi a bem mais aceita a partir de 1906. Vários congressos de operários pelo país aprovam esse tipo de luta, que reforça a postura anarquista dentro dos sindicatos. A luta por direitos sociais Como resposta a exclusão social e política, no início da república parte substancial dos setores organizados da classe operária priorizou a luta por direitos sociais, muitas vezes em prejuízo dos direitos políticos. Destaca-se as várias correntes dentro do movimento operário,umas mais voltadas ao positivismo e uma outra corrente sindicalista revolucionária. A igreja também através de seus círculos dos operários da união, tinha um posicionamento apenas de direitos sociais e não políticos. Dentro dessa perspectiva qualquer forma de mobilização era vista como prejudicial, para obtenção dos direitos pleiteados. Os integrantes do círculo, esperavam que os parlamentares tomassem uma atitude justa, diante das reivindicações apresentadas. Esta perspectiva descarta a luta política e o conflito. A característica desse grupo é mais de pressão moral do que como um sindicato. O fato de o círculo não ter tido sucesso, não deve servir de pretexto para sua desqualificação posterior. Outro grupo de sindicalistas mais radicais, conhecidos como anarco-sindicalistas, foram confundidos com anarquistas, porque os seus líderes em grande parte eram anarquistas, mas tinham uma corrente autônoma. Conservavam elementos do anarquismo, como a ação direta e o federalismo e também do marxismo, como a luta de classes. Recusavam a luta política, não por conformismo, mas por não ver nas práticas eleitorais a possibilidade de transformar a sociedade. A opção era pela ação direta, particularmente pelo movimento grevista, pelo qual o movimento revolucionário, pretendia alcançar a emancipação dos trabalhadores. A cidadania operária O termo cidadania foi muito vulgarizado. Entre as correntes políticas do movimento operário na primeira república. Os socialistas em particular, queriam não apenas a ampliação dos direitos sociais, mas também dos direitos políticos, através da extensão do direito de voto. Pode-se falar em luta pela cidadania, ainda que o termo não fosse usual no vocabulário da época. A saída encontrada, a exclusão na primeira república, foi o associativismo das classes trabalhadoras. Sociedades recreativas, mutualistas, culturais, educativas. Independente de seus objetivos, expressa a identidade da classe. O mundo associativo possibilita a participação política, porque não dependia das normas legais que regem a política tradicional, era governada por outras valores. A estrutura do sistema eleitoral era altamente propício a fraude, era raro, durante a primeira república, a eleição de candidatos operários. A característica do legislativo, que favorecia sempre a situação, tornava a eleição de eventuais operários mais uma propaganda, do que uma possibilidade de mudança. Defendia-se a participação no pleito eleitoral, mas a esperança de mudança era pouca. A grande pergunta, porque não houve um grande partido socialista operário no Brasil, como ouve no Chile e na Argentina? no Chile a imigração não teve um papel tão importante, o que dificulta uma comparação com o caso brasileiro, mas na Argentina a imigração teve um grande peso e também o aumento da participação, no processo eleitoral. Voto obrigatório a partir dos 18 anos, conduziu uma grande participação do operariado na vida política. No Brasil, não houve nenhuma reforma ao longo da primeira república que ampliasse a participação política e nenhuma campanha sistemática por parte da liderança do operariado, no sentido de alistamento eleitoral ou de naturalização dos operários estrangeiros, que visava a participação no processo eleitoral. No Brasil, como na Argentina a naturalização não atraiu imigrantes, pela perda de certas regalias que teriam na condição de cidadãos de países europeus e também expectativa de voltar à sua terra. A Clara percepção que o sistema eleitoral era fraudulento, tende a afastar a maioria dos eleitores potenciais. Atraia somente aqueles que eram beneficiados através das relações clientelistas. Outro aspecto era a maneira como se lidava com as classes subalternas, repressão, violência, prisão, desterro e deportação de estrangeiros. Todos esses fatores contribuíram para a falha da criação de um partido socialista, mas o mais peculiar foi o caráter geograficamente desconcentrado do movimento operário. Não se consegue uma coordenação nacional durante a primeira república. A atuação do movimento era mais na escala municipal, em poucos casos, estadual. Começou tardiamente nas capitais. O projeto de cidadania operária esbarrou na falta de organização adequada. A classe operária no Brasil, percorreu um longo caminho até eleição de um dos seus membros à presidência da república em 2002. Essa eleição não garantiu uma concepção operária do cidadão, mas nos deixa mais próximos daquilo que se almejava no manifesto de 1902.