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Módulo 5 sobre a Daseinsanalyse de Ludwig Binswanger; apresenta biografia, influências (Bleuler, Jung, Freud, Husserl, Heidegger), conceitos-chave (ser-no-mundo, sonho como modo de existir, idion/koinon), crítica ao naturalismo da psiquiatria e exercícios práticos e de múltipla escolha.

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Módulo 5: A Daseinsanalyse de Ludwig Binswanger
 
Bibliografia básica: DASTUR, F. & CABESTAN, P. (2015) “A obra fundadora de Ludwig Binswanger (1881-1966)”, cap. II.A, pg.64-101
 Ludwig Binswanger (1881 – 1966) é da terceira geração de psiquiatras em sua família responsáveis pelo sanatório de Bellevue. Após formar-se em medicina, faz residência psiquiátrica na clínica de Burghözli, chefiada por Eugen Bleuler (que cunha a esquizofrenia), sob supervisão de Carl Jung. 
A psiquiatria dessa época era ou organicista, ou psicanalítica (Freud). Em Burghözli, a psicanálise florecia, sendo Bleuler um importante disseminador das ideias de Freud e Jung, então, importante entusiasta. Durante a residência Binswanger aprofunda seus estudos na psicanálise, o que o leva a iniciar correspondência com Freud que perdura até falecimento deste. Mas o interesse pela psicanálise e a proximidade com seu fundador não impedem que Binswanger, desde cedo, questione o naturalismo da psicanálise. Encontra fundamentação para sua crítica primeiro na fenomenologia de Husserl e sua concepção de consciência intencional e, em seguida, na descrição da existência empreendida por Heidegger em Ser e tempo. Daí a ser o primeiro a desenvolver uma Daseinsanalyse voltada para o sofrimento existencial (não “psíquico”) manifesto na psicopatologia.
Da analítica existencial, Binswanger recolhe a noção de ser-no-mundo, a fim de buscar uma compreensão dos modos de ser psicopatológico como modificação nessa estrutura. Ou seja, na experiência psicopatológica, mundo estrutura-se diferentemente que na experiência saudável. 
O início da influência de Heidegger em sua obra se faz notar a partir de 1930, quando publica o artigo Sonho e Existência. Esse artigo, cuja tradução para o francês foi prefaciada por Michel Foucault, encontra-se traduzido para o português1. Nele, Binswanger discute a experiência onírica, tema tão caro à psicanálise, contrapondo à hipótese freudiana genética e simbólica a ideia de que o sonhar é um modo de existir. Cabe ao investigador fenomenólogo compreender a experiência manifesta no sonho e, principalmente, o “espaço afinado” que nele se apresenta. Isto é, o sonho revela o mundo espacial e temporal peculiar ao sonhador. Como afirmam DASTUR & CABESTAN (2015, p.72), “É o tema que o Dasein se dá no sonho que é importante, não o que ele simboliza, e é, então o conteúdo desse drama, dessa ação que é o sonho, que constitui seu elemento decisivo.” O sonho não é produzido por uma subjetividade, como propunha Freud, mas um acontecimento, uma visitação; “vem a mim um sonho”. 
Do filósofo pré-socrático Heráclito Binswanger retoma a oposição entre mundo privado (idion) e mundo comum (koinon). Em vigília, a existência compartilha com os demais um mesmo mundo (koinon), ao passo que dormindo, está solitário (idios). Essa oposição se articula à compreensão de Binswanger da experiência psicopatológica como envolvimento com o mundo próprio em detrimento da experiência compartilhada. 
Ao contato cotidiano com o sofrimento psicopatológico, Binswanger acrescenta uma preocupação epistemológica e metodológica com a psiquiatria, que deveria, na sua concepção, fundamentar-se numa visão clara e correta sobre a existência, que o discurso científico não é capaz de fornecer. 
2) Lembre de um sonho seu, transcreva-o e analise-o de acordo com a proposta de Binswanger. Ou seja, preste atenção ao que se manifesta, à tonalidade afetiva do mundo manifesto e à ação desempenhada no sonho.
3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:
Explicam DASTUR & CABESTAN (2015):
Ludwig Binswanger foi o primeiro entre os psiquiatras a se interessar pela fenomenologia. É na crítica ao psicologismo à qual se dedica Husserl no primeiro tomo de suas Investigações Lógicas, publicadas em 1900, e em sua definição da consciência em termos de intencionalidade e de sentido, que ele encontrou pela primeira vez os motivos de se opor ao naturalismo e ao biologismo de Freud. (p.64)
Sobre esse contexto de surgimento da Daseinsanalyse de Binswanger está correto afirmar:
I – De Husserl, Binswanger recolhe a noção de que consciência e objeto são um todo indivisível, ou seja, a existência e seu mundo formam uma totalidade indissociável.
II – Binswanger critica a falta de fundamentação epistemológica da psiquiatria de sua época, que se apoiava na biologia e/ou na psicanálise.
III – Binswanger visa complementar a psicanálise freudiana com aquilo que ela carece: a descrição da corporeidade da existência.
Estão corretas:
A) I, somente.
B) II, somente.
C) III, somente.
D) I e II, somente.
E) II e III, somente.
Se você leu atentamente o texto indicado e a apresentação neste módulo pôde identificar que a afirmação I apresenta corretamente a influência da fenomenologia de Husserl de Binswanger. Husserl apresenta a consciência como intencional, isto é, os atos de consciência são sempre referidos e complementados pelo objeto intencional que os completa e realiza. As bases epistemológicas da psiquiatria da época cindem sujeito e objeto, de modo a procurar a causa da experiência psicopatológica na natureza (biologismo) ou no psiquismo (psicologismo). É disso que trata a afirmação II, que está, portanto, correta. A afirmação III está incorreta, pois a Daseinsanalyse de Binswanger não assume como objetivo a complementação da psicanálise freudiana. Seu objetivo é, outrossim, fornecer bases epistemológicas sólidas para a psiquiatria, que ele ele encontra nas fenomenologias de Husserl e Heidegger.
 A primeira fase daseinsanalítica da psiquiatria de Binswanger apoia-se na analítica existencial de Ser e tempo, de Heidegger, conforme discutido acima. O primeiro marco desse trabalho é o artigo “Sonho e Existência”, que discute os fenômenos de ascensão e queda como modos de a existência especializar-se. 
 Em 1942 o psiquiatra publica sua principal obra, Formas fundamentais e conhecimento do Dasein, na qual enuncia sua “visão de homem”. Recorre à analítica existencial de Heidegger, mas substitui o cuidado como essência do Dasein pela relação dual Eu-Tu (descrita por Martin Buber).1 Elabora, assim, uma fenomenologia do amor, que, a seu ver, é o fundamento do ser si-mesmo do Dasein. Explicam Dastur & Cabestan (2015):
Encontram-se repetidas vezes alusões a essa diferença fundamental de ponto de vista, sendo o ponto de partida da análise existencial de Heidegger a Jemeingkeit, a qualidade do que é sempre a cada vez meu, ao passo qie o da antropologia biswangueriana é a Ursrigkeit, a nostridade. (p.80)
 Em razão dessa diferença, o pensamento de Binswanger distancia-se de Heidegger e retorna à fenomenologia de Husserl, mais precisamente à questão da consciência interna do tempo.
 A análise fenomenológica da consciência do tempo empreendida por Husserl mostra que tempo não é algo objetivo, cronológico, externo à consciência. A consciência do tempo diz respeito à articulação a cada momento do que já foi objeto da consciência (e permanece como retido – “retenção”) e o que é antecipado (“protenção”). Dito em termos menos precisos, passado e futuro estão presentes a cada momento. Binswanger retoma essa análise husserliana para considerar modificações estruturais na consciência de tempo na psicopatologia. Por exemplo, no melancólico o futuro é vivenciado como já vivido; “a proteção está infiltrada de momentos retentivos.” (DASTUR & CABESTAN, 2015, p.92). No maníaco, retenções e protenções cedem lugar ao instante atual, de modo a vivenciar somente o presente, a momentaneidade. No esquizofrênico, a estrutura temporal esfalece-se, aniquilando a experiência vivida. 
Binswanger é fenomenológico na concepção de realidade que subjaz às análises da psicopatologia. Para ele, “o mundo real reside apenas na pressuposição constantemente prescrita de que a experiência continuará constantemente a se desenrolar segundo o mesmo estilo constitutivo.” (BINSWANGER, 1993, apud DASTUR & CABESTAN, 2015, p.90) Ou seja, mundo é uma trama de sentido que tende a permanecera mesma. Mas, na experiência psicopatológica, esse apoio se perde. 
 
3) Acompanhe o seguinte exemplo de exercício:
João é estagiário num hospital psiquiátrico e participa do acolhimento de uma paciente que acaba de ser internada, Ana. Ela está muito abatida e visivelmente muito triste. João pergunta a respeito dela, que lhe responde que a tristeza que está sentindo nunca cessará. “Eu tinha que feito as pazes com minha mãe antes de ela morrer”, diz, “agora ela nunca vai me perdoar. Nem eu vou me perdoar.” Ao longo da anamnese que segue João descobre que a mãe de Ana morreu há 8 anos.
Recorrendo ao pensamento de Binswanger para compreender o sofrimento dessa paciente, João identifica que:
A) Trata-se de um caso de psicopatologia, pois o sofrimento de Ana está desproporcional ao fato que o causa.
B) Trata-se de um caso de psicopatologia, pois Ana está sofrendo por algo que aconteceu há muito tempo.
C) É necessário identificar a culpa inconsciente que causa esta tristeza por meio do método livre associativo.
D) Para a fenomenologia, não existe melancolia, nem melancólicos.
E) O futuro de Ana está tingido por uma vivência passada. 
Se você estudou a bibliografia indicada e leu o texto acima, terá identificado que as análises de Binswanger buscam descrever a experiência temporal psicopatológica. É um modo de temporalizar-se que configura a experiência psicopatológica. No caso acima, o futuro de Ana é vivenciado como já determinado que seu sentimento não mudará, pois ela sente que nunca se perdoará. Trata-se de um modo de constituição temporal da realidade que antecipa o futuro com vivências passadas. A alternativa que exprime essa compreensão é a E. 
Exercício 1:
Analise as duas afirmações abaixo e indique a alternativa correta.
I. A nostridade constitui uma unidade originária que possibilita todo si mesmo e toda ipseidade. 
II. Binswanger compartilha com Freud o entendimento de que a libido é o fundamento do amor e, portanto, da nostridade. 
A)
As duas asserções são verdadeiras e a segunda é uma justificativa correta da primeira.
B)
As duas asserções são verdadeiras e a segunda é uma justificativa correta da primeira.
C)
A primeira asserção é uma proposição verdadeira e a segunda uma proposição falsa.
D)
A primeira asserção é uma proposição falsa e a segunda uma proposição verdadeira.
E)
Tanto a primeira como a segunda são proposições falsas.
Exercício 2:
O psiquiatra Binswanger recorre às fenomenologias de Husserl e Heidegger para “corrigir” a falta de bases epistemológicas da psiquiatria de sua época. Uma das características principais de sua Daseinsanalyse é:
A)
A compreensão de que a existência global do paciente está comprometida na assim chamada psicopatologia.
B)
Análises fenomenológicas precisas dos sintomas que se instalam no Dasein.
C)
Descrição fenomenológica detalhada das causas psicológicas antecedentes aos transtornos psicopatológicos manifestos (sintomas).
D)
Divisão fenomenologicamente fundada entre “psicoses existenciais” e “psicoses orgânicas”.
E)
Aplicação das ideias de Husserl e Heidegger na psicoterapia, a fim de promover a eliminação da sintomatologia mais eficientemente.
Exercício 3:
Ana foi internada por seu marido ontem na clínica psiquiátrica Santa Maria, onde você é psicólogo. Desde que chegou, Ana está sentada encolhida no canto do quarto que lhe foi destinado. Segundo o marido, ela estava assim em casa também. Está escondida por sob seus braços, mas de vez em quando “arrisca” olhar ao redor; quando seu olhar se cruza com o de qualquer pessoa, esconde-se novamente. Para compreender a experiência de Ana à luz da Daseinsanalyse de Binswanger é mister:
I – Considerar a espacialização de Ana, isto é, como seu mundo se lhe abre espacialmente. Seu recuo ao canto é indicativo dessa espacialidade.
II – Considerar a afinação (tonalidade afetiva) de seu mundo. Sua “fuga” das trocas de olhares é indicativo disso.
III – Considerar como Ana se relaciona com os outros. Como ela está encolhida no canto, ela não está se relacionando. 
Estão corretas somente:
A)
I e II.
B)
II e III.
C)
I e III.
D)
I.
E)
II. 
Exercício 4:
Segundo DASTUR & CABESTAN (2015), 
É na crítica ao psicologismo à qual se dedica Husserl no primeiro tomo de suas Investigações Lógicas, publicadas em 1900, e em sua definição da consciência em termos de intencionalidade e de sentido, que ele encontrou pela primeira vez os motivos de se opor ao naturalismo e ao biologismo de Freud.” (p.64)
Verifica-se a intencionalidade na Daseinsanalyse de Binswanger nas seguintes concepções:
I – Binswanger assume a existência como ser-no-mundo, isto é, existência e mundo como uma unidade indissociável.
II – Nas análises fenomenológicas de Binswanger, buscam os símbolos e significados ocultos por trás dos fenômenos patológicos manifestos.
III – Nas análises do mundo do melancólico, do maníaco, etc., pois objeto (mundo) e consciência (existência) se constituem concomitantemente. 
Estão corretas somente:
A)
I e II.
B)
II e III.
C)
I e III.
D)
I.
E)
II. 
Exercício 5:
Jaime procura terapia e é recebido por um daseinsanalista. O paciente conta:
Desde que minha esposa me largou, nunca mais consegui ser feliz. Nem no trabalho, que eu gostava tanto, me realizo mais. Eu trabalhava bastante e estava indo bem; tinha sido promovido a gerente de negócios em todo o estado. Com isso tive um ótimo aumento, de modo que ia conseguir quitar o financiamento de nossa casa. Mas aí, de repente, ela aparece e diz que sou um acomodado, que não faço nada para nós dois, que só penso em trabalhar. E me larga. Meus amigos tentam me levar para happy hours, mas nunca mais conseguirei me relacionar com ninguém. Sinto saudades da minha esposa. 
Compreendendo a narrativa de Jaime à luz da fenomenologia-existencial (Binswanger) está correto afirmar:
 
I – Jaime está passando por um episódio depressivo. A falta de prazer no trabalho é sintoma de sua depressão, motivada pelo abandono da esposa.
II – As frases “nunca mais consegui ser feliz” e “nem sei mais como chegar numa mulher” são reveladores da infiltração de momentos retentivos na protenções, isto é, de uma experiência de um futuro já acontecido. 
III – Quando deixa-o, a esposa de Jaime produz um abala em seu cotidiano, rompendo com o nexo que reunia os acontecimentos, abalando a pressuposição de que tudo continuará sendo como sempre foi (base da experiência da realidade, segundo Binswanger)
Estão corretas somente:
A)
I e II.
B)
II e III.
C)
I e III.
D)
I.
E)
II. 
Exercício 6:
A psiquiatra italiana Maria Teresa Ferla defende como especificidade de uma psiquiatria humana que:
É possível conduzir uma terapia adequada somente se nascer, entre quem cuida e quem é cuidado, entre quem assiste e quem é assistido, uma relação nutrida pela confiança e humildade, escuta e diálogo, mesmo quando no silêncio. Se quem cuida tem a percepção de que no transtorno-loucura existem significados e valores a serem reconhecidos, respeitados e acolhidos, então quem é cuidado pode ter esperança enquanto espera a cura. (FERLA, O homem da morte impossível e outras histórias, Belo Horizonte: ArteSã, 2011. Pg. 17)
Nessa afirmação da psiquiatra está contida a proposta de L. Binswanger na psiquiatria, que recorre às fenomenologias de Husserl e Heidegger para compreender o sofrimento humano chamado de psicopatologia. São características dessa abordagem:
I – Parte-se da compreensão da existência do paciente como Dasein e/ou consciência intencional, o que significa que homem e mundo são indissociáveis e que a patologia é modo de ser no mundo.
II – Busca a compreensão da constituição do mundo do paciente.
III – Busca identificar as causas da psicopatologia, buscando na história vivida da existência os episódios que levaram ao estado atual.
Estão corretas somente:
A)
I e II.
B)
II e III.
C)
I e III.
D)
I.
E)
II.
Exercício 7:
Ana busca psicoterapia por indicação de seu psiquiatra. Esforça-se para comparecer à sessão, poissente “um peso enorme puxando seu corpo para o chão”, segundo ela. Repete algumas vezes nesse primeiro encontro: “não consigo me erguer. Minhas pernas estão pesadas, minha cabeça. Estou lutando para não permanecer no chão. Minha vida está afundando.”
Essas palavras de Ana são interpretadas pelo psicoterapeuta fenomenológico-existencial que a atende à luz das considerações de Binswanger. Portanto,
I – Ele interpreta a fala de Ana como uma metáfora para seu sofrimento.
II – Ele interpreta que ela não está realmente com o corpo pesado. Isso é sintoma da psicopatologia, que deve ser descoberta e tratada pelo psiquiatra.
III – Ele interpreta a fala de Ana como descritiva de sua experiência vivida. Ela está sendo puxada para baixo, sua vida afundando.
Estão corretas somente:
A)
I e II.
B)
II e III.
C)
I e III.
D)
I.
E)
III.
Exercício 8:
Wellington foi encaminhado ao psicólogo após atendimento no pronto socorro geral. Procurou o hospital com queixa de que seu coração estava muito apertado, seu braço esquerdo formigando e certo de que estava prestes a ter um ataque cardíaco. Os exames no hospital revelaram funcionamento cardíaco normal e sugeriram que ele procurasse um psicólogo para lidar com “seu stress”.
O psicólogo que o recebe é fenomenológico-existencial e entende sua queixa à luz das ideias de L. Binswanger. Isso significa que:
I – Ouve o aperto no coração de Wellington como indicativo de uma modificação no seu espaço afinado.
II – Reconhece que a queixa de Wellington não se refere ao corpo-organismo e, sim, ao seu ser-no-mundo.
III – Entende que o coração é o símbolo para o afeto, de modo que seu “corpo fala” que ele não está bem afetivamente.
Módulo 6: A Daseinsanalyse de Medard Boss
Apresentação da Daseinsanalyse desenvolvida por Medard Boss
Medard Boss (1903 – 1990) é o psiquiatra suíço que realizará mais plenamente a interlocução entre a analítica existencial (ontológica) de Heidegger e a prática clínica. Ele se forma médico em Zurique e logo inicia análise didática com Freud (1925) para se tornar psiquiatra psicanalista. Faz residência na clínica de Bulghözli, chefiada então por Eugen Bleuler (que conceitua a esquizofrenia, cunhando esse termo), na mesma época em que Carl Jung trabalha lá. É nessa clínica que ele entra em contato com o pensamento de Binswanger, que vai ao encontro de sua própria sensação de que as ciências do homem erram ao pressupor uma cisão entre existência e mundo (sujeito e objeto). Como já visto, isso era para Binswanger “o verdadeiro câncer da ciência”.
A II Guerra é ocasião para Boss ler Ser e tempo, de Heidegger, e iniciar troca de correspondências que levará a uma amizade pessoal. As cartas, assim como protocolos dos encontros realizados na casa de Boss em Zollikon foram publicados sob o título Seminários de Zollikon (Petrópolis: Vozes, 2009) e fornecem ao estudioso da psicologia fenomenológico-existencial referências muito importantes. Segundo Boss, Heidegger viu no contato com o psiquiatra a possibilidade de que a fenomenologia da condição humana pudesse contribuir para as formas de cuidado com a existência
Apoiando-se na ontologia fundamental de Ser e tempo, Boss assume como tarefa entender o que e como acontece a relação psicoterapêutica sem recorrer a hipótese. Ou seja, assume da fenomenologia a suspensão (epoché) como passo necessário para que os fenômenos se mostrem tal como são. Como Boss é psiquiatra e psicanalista, ele suspende os pressupostos médicos e psicanalíticos a fim de conhecer a relação que se estabelece entre médico/psicanalista e paciente. É disso que tratam suas principais obras, como Psicanálise e Daseinsanalyse (1957), Fundamentos Existenciais da Medicina e da Psicologia (1971): uma refundação na fenomenologia existencial dos fenômenos clínicos e dos modos de ser-sadio e adoecer da existência.
 3. Acompanhe o exercício abaixo:
A fenomenologia-existencial inicia-se em 1927, com a publicação de Ser e Tempo. Surge como filosofia, mas tem enorme repercussão nas ciências humanas, tornando-se fundamento para a compreensão dos fenômenos humanos. Na psicologia, essa influência se verifica em:
a) A ênfase na descrição da vivência do outro.
b) Uma nova formulação de aparelho psíquico.
c) Um novo método de mensuração do comportamento humano.
d) Um método de explicação da relação da consciência com o inconsciente.
e) O aperfeiçoamento do método científico-natural de pesquisa na psicologia.
Se você leu atentamente os textos e compreendeu a contribuição da obra de Heidegger para a psicologia, pôde reconhecer a alternativa A como correta. A alternativa B propõe que a fenomenologia-existencial realiza uma nova formulação do aparelho psíquico. Isso está incorreto, pois esta abordagem compreende os fenômenos psicológicos à luz do conceito de existência como ser-no-mundo. O mesmo vale para a afirmação D, pois a compreensão da existência como ser-no-mundo torna desnecessários os conceitos de consciente e inconsciente teorizados por Freud. A afirmação C está incorreta, pois considera a mensuração dos comportamentos como influenciada pela fenomenologia. A idéia da mensuração como garantia da certeza do conhecimento está presente nas ciências naturais, de modo que há psicologias que mensuram o comportamento. Por esse mesmo motivo, a afirmação E está incorreta.
 A descrição fenomenológica da existência como ser-no-mundo possível é o fundamento da psicologia fenomenológico-existencial (Daseinsanalyse). O psicólogo que fundamenta o seu trabalho nesta abordagem está interessado em compreender junto ao(s) outro(s) como é seu mundo e como se lança nesse que é o seu mundo, resgatando sua condição ontológica de ser-possível. Assim, Boss recorre a processos psicoterapêuticos próprios e de supervisionandos para pesquisar o que acontece na relação entre terapeuta e paciente costumeiramente chamado de “cura”. Esse termo tem forte viés médico e significa, nesse contexto, remissão de sintomas. Na Daseinsanalyse, “cura” significa o resgate da liberdade para dispor de si, podendo aceitar e recusar solicitações dos entes que vêm ao encontro. Ou seja, os modos de ser-doente são momentos de restrição na vida da existência, nos quais se encontra impedida de assumir possibilidades existenciais.
Exemplos disso são os chamados sintomas histéricos tão discutidos pela psicanálise. Enquanto a teoria de Freud os explica como resultantes do acúmulo de energia sexual e consequente descarga, a fenomenologia existencial não pode recorrer a uma explicação que hipotetize o funcionamento psíquico como um aparelho hidráulico. Assim, pergunta quais são os modos de ser, as possibilidades existenciais que se realizam e como se realizam nesses chamados sintomas histéricos. Uma mulher que, andando na rua, vê um homem a quem se sente atraída e suas pernas se paralisam é alguém que sente, ao mesmo tempo, atração e repulsa, isto é, motivação para aproximar-se e distanciar-se. A paralisaria é o modo como realiza esses movimentos opostos simultaneamente. Incapaz de assumir seu desejo, pois em seu mundo o que é do âmbito do sensual e do sexual é vivido como pecaminoso, não deixa essas possibilidades existenciais serem.
Vale lembrar que os sintomas não são interpretados como entidades diferentes que se instalam no paciente. São modos de ser, isto é, modos de realizar possibilidades existenciais, com a especificidade de que tais possibilidades não são abertamente assumidas como próprias.
Para tecer suas análises, Boss recorre à descrição fenomenológica da existência realizada em Ser e tempo por Heidegger, que apresenta os existenciais, ou seja, a constituição ontológica da existência. Os existenciais indicam modos de a existência acontecer, sendo que se dão no mundo, à luz de possibilidades concretas. Em outras palavras, Heidegger descreve a existência como ser-no-mundo, ser-com-outros, finitude, espacialidade, temporalidade, etc., conforme já visto no livro de SAPIENZA (2015). Como cada existência é com outros, como especializa-se, como são seus mundos varia paracada um.
Com análises assim, Boss cuida para que a experiência do paciente possa se manifestar sem o recurso a teorias hipotéticas, cumprindo, assim, o imperativo fenomenológico de voltar às coisas mesmas.
3. Acompanhe o exercício abaixo:
 Leia o trecho abaixo, extraído do livro Psychoanalysis and Daseinsanalysis, de Medard Boss.
Há boas razões para supor que a ‘análise do dasein’ de Martin Heidegger é mais apropriada para uma compreensão do homem do que os conceitos que as ciências naturais introduziram na medicina e na psicoterapia. [...] Se o pensamento daseinsanalítico de fato se aproximar mais da realidade humana do que o pensamento científico natural, poderemos encontrar algo que até hoje não encontramos na teoria sobre a psicoterapia: uma compreensão do que estamos realmente fazendo (e por que estamos o fazendo dessa maneira) quando tratamos um paciente psicanaliticamente, estando tal compreensão baseada em intuições sobre a essência do ser humano. (Boss, p.29)
A compreensão de homem “mais apropriada” à qual Boss faz menção é a descrita por Heidegger através dos “existenciais”. Os “existenciais” são:
a) os aspectos co-originários do ser-aí, tais como ser-no-mundo, ser-com-os-outros, cuidado, abertura, clareira, ser-para-a-morte. São determinações ontológicas.
b) os momentos em que o ser-aí se sente angustiado por saber que vai morrer,
c) as situações em que o ser-aí descobre sua finitude, o que o leva a tomar decisões.
d) os aspectos concretos que determinam cada situação fáctica do ser-aí.
e) os momentos em que o dasein se apercebe de si mesmo como abertura para a significância.
 Se você leu atentamente os textos, pôde compreender o que são os existenciais descritos por Heidegger e como aparecem na psicologia fenomenológico-existencial. São os aspectos constitutivos co-originários da existência. Identificou, portanto, a alternativa A como a correta. A afirmação B associa os existenciais com momentos de angústia e a C, com momentos de possível singularização do ser-aí. Estão incorretas. A alternativa D identifica os existenciais a ‘aspectos concretos’, como se fossem exteriores ao ser-no-mundo, determinando-o. A alternativa E também está incorreta, pois associa os existenciais a ‘momentos’.
Exercício 1:
Édson, comerciante de 49 anos, procurou psicoterapia no começo do ano. Logo no início da primeira sessão conta que tem dúvidas quanto a permanecer casado. Considera que se casou jovem, quando não tinha tanta experiência, e que se pudesse voltar no tempo teria esperado mais para tomar essa decisão. Está casado há 30 anos e tem 3 filhos (João, 27, Édson Jr., 24 e Juliana, 16). Perdeu o emprego há 10 anos e começou um negócio própria de venda de cosméticos, mas desde então vivencia dificuldades financeiras. Conta que a esposa, que ”tem um salário muito bom”, ajuda nas finanças. Sente que ela o cobra e critica constantemente. Não fez a faculdade de administração que queria ter feito, o que contribui para a sua sensação de ser um fracassado. Conta que quando fica em casa é desleixado, às vezes nem faz a barba. Conversa muito pouco com sua esposa e quando faz, frequentemente acabam discutindo. Conta que não têm relações sexuais há muitos anos.
Conta que antes de se casar saía com muitas mulheres. Essa atitude não mudou desde que casou, pois frequentemente sai com mulheres sem que sua esposa saiba. Às vezes os relacionamentos extraconjugais ficam mais sérios, como o que vivencia atualmente. Está se relacionando com Joana há 2 anos. Sente-se cobrado por Joana, que mais uma vez ameaçou terminar o relacionamento com ele caso ele não se divorcie para ficar ela. Nos últimos meses, não sente “tanto tesão por ela”, explicando que “não tem suportado ficar deitado junto com ela por muito tempo. Temos discutido muito.” Está muito aflito neste momento também porque sua filha descobriu o caso com Joana. Édson está confiante de que sua filha não contará nada à mãe, mas sabe que ela não concorda com a situação, pois ela deixou de falar com o pai desde que descobriu. Conta por fim que procurou a terapia, pois já teve que ir ao hospital duas vezes por fortes dores no peito e sensação de que ia morrer, mas chegando lá os médicos não diagnosticaram nenhum problema cardíaco e recomendaram a visita a um psiquiatra.
Não sabe o que fazer e se sente impotente par agir. Veio pedir ajuda ao psicólogo para tomar uma decisão. Considera-se numa situação difícil, pois não quer magoar ninguém. Descreve-se como doente.
Sendo daseinsanalítico, o psicólogo que atende Édson: 
I – ouve a fala dele como reveladora de sua realidade. Conhecer Édson significa compreender seu modo de ser-no-mundo, isto é, sua situação enquanto modo como está sendo possível existir neste momento.
II – para conhecer Édson, precisará conhecer as pessoas de sua convivência, assim desvelar mais claramente os fenômenos referentes à vida conjugal. Para isso o psicólogo precisa convidar a esposa dele para pelo menos uma sessão. 
III –entende que Édson está distante de si mesmo, pois se enxerga a partir das relações que vivencia. Seu bem-estar está condicionado aos relacionamentos. Para a daseinsanalyse, o dasein é singular e precisa cuidar de sua existência a partir de si mesmo, tornando-se independente. 
IV –ouve as falas de Édson sobre sua esposa, sua amante e sua filha como descritivas de seus modos de ser-com-os-outros. A existência é sua situação, é suas relações. Nestas relações Édson é ser-no-mundo-com-os-outros e esses outros desvelam-se para ele tal como ele os descreve.
Estão corretas:
A)
II e III, apenas.
B)
I, II e III, apenas.
C)
I, II, III e IV.
D)
I, II e IV, apenas.
E)
I e IV, apenas.
Exercício 2:
Segundo a daseinsanalista Ida Cardinalli, “O método fenomenológico heideggeriano exige o passo de volta para trás do fenômeno, no sentido vulgar, para o âmbito em que o fenômeno é, antes, aquilo que se oculta” (Daseinsanalyse e Esquizofrenia, 2004, p. 62). Assim a autora retoma a idéia de fenômeno, que constitui a busca metodológica da fenomenologia. Podemos dizer que, no contexto daseinsanalítico, a definição de fenômeno indica:
I – Explicitar os fundamentos do modo de ser do Homem.
II – Não ver o Homem como objeto da Natureza, possível de estudo e mensuração igual aos demais objetos da Natureza.
III – O método não pode visar determinação causal, mensurabilidade, objetificação.
IV – Deve ser precisa e conseguir determinar suas conclusões baseadas em uma estrutura teórica bem definida.
V – Conseguir qualificar e classificar os fenômenos estudados, sem deixar a subjetividade alheia atrapalhar.
Estão corretas apenas:
A)
I, II, e III.
B)
I, III e IV.
C)
I, II, III e IV.
D)
II, IV e V.
E)
II, III e V.
Exercício 3:
A daseinsanalista Cardinalli afirma que “a compreensão do homem, em cada caso particular, também precisa estar orientada pela explicitação do existir como Dasein, para superar a concepção de homem presente nas diversas teorias das Ciências Humanas” ((Daseinsanalyse e Esquizofrenia, 2004, p. 75). Isso significa dizer que: 
A)
Os fenômenos humanos devem ser compreendidos a partir do modo pelo qual correspondemos a algo, ou seja, a partir do modo como nossa relação com o mundo é definida.
B)
Os fenômenos humanos só devem ser compreendidos em particular, como algo interior e subjetivo ao indivíduo. 
C)
A existência humana é independente do modo como estabelecemos nossa relação com o mundo.
D)
Ao se orientar pela explicitação do existir como Dasein, a fenomenologia visa propor um ideal de saúde psicológica a ser atingido pelos pacientes.
E)
Para constituir-se como mais uma teoria científica humana, a fenomenologia precisa orientar-se pela explicação do existir humano como Dasein.
Exercício 4:
Evangelista (2015) apresenta a Daseinsanalyse de Medard Boss e suas contribuições para uma prática clínica fundamentada no pensamento heideggeriano. Para Boss, a psicopatologia daseinsanalítica não se baseia nos manuais de psiquiatria e ganha nova dimensão, quando pautada no existir humano comoDasein.
Considere as afirmações abaixo e indique a alternativa correta:
I – A descrição do fenômeno patológico supõe o esclarecimento entre a realidade e a experiência do paciente, que não se adequa à realidade vivida pelo paciente sadio.
II – Os sintomas corporais patológicos e os chamados psíquicos são sempre privações e podem ser compreendidos como reduções de possibilidades de compreensão do mundo e de si mesmo.
III – A Daseinsanalyse se ocupa com trazer à luz o que se mostra do próprio fenômeno e tornar visível o fenômeno patológico. 
Estão corretas somente:
A)
I.
B)
II e III.
C)
I e II.
D)
I e III.
E)
III.
Exercício 5:
O psicopatologista francês Tatossian fundamenta suas pesquisas e sua prática clínica na fenomenologia existencial, dialogando constantemente com a Daseinsanalyse de Boss e Binswanger. Para ele, no contexto fenomenológico-existencial, a psicopatologia adquire nova significação. Ele afirma:
A especificidade psicopatológica não é fornecida pelas modificações de comportamento, mas pelas modificações do vivido que compreendem as diversas formas de delírio, o distúrbio do humor melancólico ou maníaco e uma grande parte dos distúrbios da percepção e do pensamento da psicopatologia clássica. Mas essas modificações do vivido que se apresentam na pessoa global, e não são redutíveis aos distúrbios das funções parciais do psiquismo, estão escondidas sob o que se mostra imediatamente ao psiquiatra e não podem ser apreendidas, a não ser indiretamente, pela observação psiquiátrica, em que os dados resultam do comportamento material. Essas são as modificações do vivido, que se pode chamar, por exemplo, de ‘estruturas’, para distingui-los dos sintomas, que são as modificações do comportamento que carregam todo o peso da especificidade psiquiátrica. (2006, p.41)
Considerando que Tatossian se aproxima da Daseinsanalyse, é correto afirmar:
A)O psicopatologista observa os comportamentos tidos como psicopatológicos, a fim de reuni-los como ‘síndromes’. As psicopatologias (depressão, esquizofrenia, etc.) são conjuntos de sintomas. É fenomenologia pois observa estritamente o que se mostra, (o comportamento observável). 
B)As ‘modificações do vivido’ de que fala Tatossian são modificações no psiquismo do sujeito, portanto, interiores. O sentido das ações do paciente permanece oculto, sendo que a fenomenologia é o desvelamento das causas ocultas dessas ações.
C)
Ao afirmar que as modificações do vivido “estão escondidas sob o que se mostra imediatamente ao psiquiatra e não podem ser apreendidas, a não ser indiretamente” Tatossian está afirmando que existem motivações inconscientes que precisam descobertas pela fenomenologia.
D)
Para a fenomenologia o delírio, os distúrbios do humor e os da percepção e do pensamento devem ser pensados como modos possíveis de ser e estar no mundo com os outros.
E)
A fenomenologia busca as estruturas existenciais da psicopatologia. Assim, busca-se fenomenologicamente no enfermo qual é a estrutura que está se manifestando nele: uma “estrutura psicótica”, “estrutura maníaca”, etc.
Exercício 6:
Segundo Evangelista (2015), nos Seminários de Zollikon Heidegger apresenta aos médicos psiquiatras convidados de Medard Boss indicações para a elaboração de uma nova ciência do homem que leve em conta a condição humana, chamada por ele de Dasein (ser-aí). Em relação à nova ciência do homem, está correto afirmar que: 
I – é necessário ter uma explicação clara dos modos de ser do homem; 
II – os conceitos que se referem aos modos de ser do homem são investigados a partir da abstração do contexto social em que a existência acontece; 
III – após encontrar uma pluralidade de significados para o fenômeno estudado, faz-se necessário a escolha de apenas uma definição/conceito;
IV - o homem não deve ser representado como objeto da natureza.
Estão corretas somente:
A)
I, III e IV.
B)
I e II.
C)
III e IV.
D)
II e III.
E)
I e IV
Exercício 7:
Juarez (66 anos, aposentado) é trazido à psicoterapia por sua filha. Na entrevista inicial, ele entra sozinho e explica que caiu no banheiro e quebrou o fêmur há 3 meses. Fez cirurgia, inserindo uma prótese de quadril. Desde então, sua mobilidade restringiu-se. Frequentava um clube perto de sua casa, onde encontrava velhos amigos para jogar dominó e conversar, mas não consegue mais caminhar até lá. Diz: “fiquei dependente da boa vontade de meus filhos, mas não quero atrapalhar a vida deles.” Não vê motivo para ir ao psicólogo, pois “meu problema é ortopédico”. 
Medard Boss, fundador da Daseinsanalyse, “critica a medicina científico-natural por não compreender o sentido do adoecer humano, focalizando apenas os mecanismos que explicam o processo biológico. Critica-a também por cindir a existência humana em aspectos biológicos e psicológicos, relegando os psicológicos a outro profissional.” (EVANGELISTA, 2015, p.147-8)
Considere as afirmações abaixo a respeito da Daseinsanalyse de Medard Boss e indique a alternativa correta.
I – Para a compreensão existencial (daseinsanalítica) do sofrimento de Juarez, o psicólogo deve considerar quais as possibilidades de ser no mundo que estão atualmente restritas. Como ele informa dificuldades para encontrar amigos, a fratura no fêmur é “fratura” desse modo de ser.
II – Por enquanto, Juarez não demanda para psicoterapia, pois o motivo do seu sofrimento já é conhecido e explicável fisiologicamente: quebrou o fêmur e, de fato, a recuperação da mobilidade leva tempo e depende de fisioterapia.
III – Com dificuldades para encontrar seus amigos no clube, Juarez está com esse modo de ser-com-outros restrito. 
Estão corretas somente:
A)
I e III.
B)
II e III.
C)
I e II.
D)
I.
E)
I, II e III.
Exercício 8:
Evangelista (2015) apresenta a Daseinsanalyse de Medard Boss como uma nova ciência da saúde humana, que conjuga aspectos da Psicanálise de Freud com a filosofia de Martin Heidegger. Por meio dessa articulação, Boss entra na discussão da “Psicossomática”, disciplina que explica a relação entre o “psíquico” e o “somático”. Considerando essa disciplina é correto afirmar:
I – Quanto à Psicanálise e Freud, Boss é crítico somente da Metapsicologia, isto é, o modelo hipotético que explica o funcionamento mental. A prática investigativa de sentido formulada por Freud – a psicoterapia – é seguida por ele, mas fundamentada na fenomenologia existencial de Heidegger.
II – Boss é crítico da Psicossomática psicanalítica, pois, para a Daseinsanalyse, as causas dos sintomas psicossomáticos devem ser buscadas nos sentimentos de culpa e angústia do Dasein.
III – Na Daseinsanalyse, o termo “Psico-Somática” é inadequado, pois a existência é um todo não divisível em psique e corpo.
IV – A Daseinsanalyse não compreende as histerias de conversão como manifestação corpórea de mecanismos psíquicos. Tratam-se, outrossim, de modos de realizar, sem assumi-las clara e abertamente, determinadas possibilidades existenciais.
Estão corretas somente:
A)
I, II e III.
B)
I, III e IV.
C)
III e IV.
D)
I e II.
E)
I, II, III e IV.
Módulo 7: Compreensão e Ação clínica na perspectiva fenomenológico-existencial
 Do ponto de vista dos procedimentos, a psicoterapia daseinsanalítica acontece como aquela que a inspirou, a psicanalítica. Medard Boss defende o uso do divã, a análise de sonhos, a relação terapêutica como foco do processo. (Evangelista, 2015) Mas a fundamentação é outra. A Daseinsanalyse assume que terapeuta e paciente são existências e que o paciente, que procura o psicólogo, encontra-se restrito na liberdade para assumir certas possibilidades existenciais. Tais restrições manifestam-se como modos de ser que incomodam o paciente, pois ele não se reconhece neles. Ademais, considera-os “sintomas”, “problemas”, “desajustamentos” e espera que o psicólogo possa os eliminar, restaurando os modos de ser anteriores ao surgimento dos mesmos.
No modelo científico-natural, causal, de pensamento, caberia ao psicólogo investigar a etiologia dos incômodos para, de posse das causas,planejar e implementar uma intervenção. Esse é o modo de proceder da Era da Técnica, que visa a produção no menor tempo possível. Uma psicoterapia que correspondesse a esse modo de ser produziria efeitos planejados pelo terapeuta, isto é, conduziria o paciente ao modo de ser concebido pelo psicólogo como o melhor para ele. O paciente, por sua vez, coloca-se passivo nesse processo, no sentido de que recebe orientações e, enfim, o tratamento. Pompeia & Sapienza explicam que, numa época em que toda experiência é controlada, o que o paciente espera é conseguir controlar, dominar, o sofrimento que o está controlando e dominando. (Pompeia & Sapienza, 2011)
Não é esse objetivo do processo psicoterapêutico. A ação do psicólogo deve ser pensada como ação clínica. Ação clínica aproxima-se do sentido etimológico de técnica (tekhné), que significa o deixar vir à luz algo que permanecia oculto. Ou seja, a ação clínica não conta antecipadamente com resultados, pois o futuro não pode ser controlado pela existência. A ação clínica como tekhné propicia o surgimento de algo que pode ou não vir a acontecer, cria um terreno fértil em que pode ou não vir à luz novo modo de ser da existência. Que modos podem vir à luz? Cada existência precisa ouvir-se, aproximar-se do que o incomoda, ao invés de tentar eliminá-lo a todo custo, dominando-o. Pompeia & Sapienza (2011) jogam com o sentido etiológico de “dominar”, que é o termo em latim domus, que significa casa. Ao invés de dominar o que aflige, o convite da terapia daseinsanalítica é aproximar-se, deixar-se sentir em casa, com o o que aflige, a fim de escutar seu sentido e, quiçá, experimentar novos modos de ser mais livres. Isso ocorre por meio da compreensão.
Aproximando-se do mundo do paciente, este e o psicoterapeuta buscam compreender o sentido do que se passa consigo. Essa compreensão já é a ação clínica, pois é a experiência de aproximar-se de si e deixar o sentido, que permanece oculto, aparecer.
Atividades recomendadas
3. Acompanhe o exercício abaixo:
Ana é encaminhada à psicoterapia após passar por um clínico geral, que hipotetiza que suas queixas somáticas são de fundo “emocional”. Ela queixa-se de dores no abdome e afirma ter certeza de que um tumor aí cresce, mas os exames clínicos nada revelam.
O psicoterapeuta que a atende é daseinsanalista. Sendo assim, sobre esse processo psicoterapêutico está correto afirmar que:
I – O sentido do processo é libertação, no sentido do verbo grego analysein, que significa desamarrar, destecer tramas, soltar. A principal meta da terapia de Ana, como de todo paciente, é reconduzi-la à capacidade de amar e confiar.
II – O processo terapêutico é conduzido por livre associação, o que significa pedir que Ana fale livremente sobre seus sentimentos de culpa e angústia. Estes temas existenciais são o foco da Daseinsanalyse.
III – A situação terapêutica (terapia individual) é de encontro de dois Dasein (ser-aí), estabelecendo um aí compartilhado de um ser-aí (Ana) com outro (terapeuta), onde Ana e os entes de seu mundo podem vir à luz.
IV – As intervenções do terapeuta são ação clínica, ou seja, objetivam que o paciente confronte seus medos e angústias.
Estão corretas somente:
A) I, II e III.
B) II, III e IV.
C) III e IV.
D) I e III.
E) I, II, III e IV.
Se você leu atentamente os textos indicados e a apresentação acima terá identificado que a afirmação I está correta, pois o sentido da psicoterapia daseinsanalítica é resgate da liberdade. Cabe ao psicoterapeuta atitude de ação clínica, que significa estar com o paciente de modo a desobstruir a compreensão do que se passa consigo, propiciando aproximação do sentido do existir. A afirmação II está incorreta, pois a Daseinsanalyse não indica focos temáticos do processo psicoterapêutico. A afirmação III está correta, pois, segundo Jardim (2015), terapeuta e paciente compartilham um “aí”, uma clareira de mundo em que os entes dos mundos do paciente podem vir à luz e serem indagados quanto aos seus significados. A afirmação IV está incorreta, pois ação clínica significa agir abrindo possibilidades, não produzindo efeitos de antemão determinados. Portanto, a alternativa correta é D.
Ação e compreensão na clínica fenomenológico-existencial
 
A partir da caracterização de psicoterapia acima, a concepção de fenomenologia enquanto um arcabouço teórico não se sustenta e esta passa a ser entendida como uma postura do terapeuta que favorece ao paciente revelar-se como fenômeno.
A postura do terapeuta exige, portanto, a escuta atenta e um demorar-se nas situações relatadas, visando explicitar os sentidos vividos pelo paciente nas descrições de suas experiências.
A compreensão, na analítica do dasein, é um aspecto fundamental da condição de estar lançado do homem implicando na condição de ser-no-mundo. O ser-aí habita o mundo faticamente em sua abertura constitutiva. Assim, a ação clínica enquanto disponibilidade para a compreensão do existir se configura como oportunidade para explicitação dos sentidos.
Paciente e terapeuta, no processo de psicoterapia, cohabitam um "aí" (abertra de mundo) no do qual os modos concretos de ser do paciente se mostram e podem ter seus sentidos des-velados. As tonalidades afetivas que tingem cada experiência podem ser reconhecidas e o paciente pode se ver responsável pelas escolhas que faz.
Desse modo a ação clínica em uma perspectiva fenomenológico-existencial não está ocupada em resolver problemas, retirar sintomas ou adequar o paciente a referências alheias, mas sim, está comprometida em oferecer uma experiência de retomada do próprio acontecer histórico; do já vivido, do atual e do porvir, recolocando o existir do paciente no processo de ser.
A psicóloga Carmem Barreto, estudiosa da ação clínica na perspectiva fenomenológica existencial, define-a assim:
Assim, a atitude clínica mostra-se intimamente associada à própria atitude fenomenológica de suspensão das objetivações da existência e abertura à experiência de si e do outro como ser-no-mundo-com, como cuidado ontológico, condição de possibilidade para o acontecimento de uma transformação não produzida tecnicamente, mas emergente em forma de reflexão sobre o sentido. Esse novo “olhar”, essa quebra do habitual, pode ter início a partir dos estranhamentos ecoantes nas brechas de nossa existência superficial via “acontecimentos” que, ao provocarem ruptura e transição, destroçam e fundam horizontes de mundo, se e quando cedemos ao apelo dos traços fundantes e constitutivos (ontológicos) do nosso ser si-mesmo próprio e singular. Tal rompimento possibilita mudança e transformação ao abrir a crise que dissolve e leva o “aí” a constituir-se outro. (SÁ & BARRETO, 2011, p.393)
3. Acompanhe o exercício abaixo:
Fernanda procura atendimento psicológico porque tem estado intranquila e confusa desde que seu marido faleceu, há 6 meses, em acidente automobilístico. Diz-se muito só e abandonada, e que suas relações de amizade e parentesco têm se deteriorado. Comenta que todos a vêem de modo diferente agora – viúva jovem (30 anos) -, tendo surgido preocupações e interesses novos em relação a ela. Fala de sua solidão, sobre o sentimento de abandono e apesar de saber racionalmente que seu marido não a abandonou, esse sentimento a confunde. Comenta em seguida que o convívio com a família (a dela e a do marido) não tem sido algo que a ajude porque ambas têm a preocupação de que ela imponha respeito, tome cuidado com as amizades, não se aproxime de outros homens para respeitar a memória de seu marido, o que a faz sentir-se envolvida por uma atmosfera de controle. Por outro lado, vê-se como jovem, não quer fechar novas possibilidades para si e para seu filho de três anos, na vida que têm pela frente. Por outro lado, tem sido cortejada por homens que há pouco eram apenas seus amigos e vive essa mudança repentina com dificuldade. Não estando mais segura dessas amizades, nem pode avaliar com clareza as intenções das pessoas que se oferecem para apoiá-la. Comenta que o resultado tem sido o recuo, e percebeclaramente que isso só tem agravado ainda mais seu mal-estar. Fica um pouco em silêncio, chora discretamente...em seguida fala que é bom poder falar com liberdade sobre tudo isso.
O psicólogo que atende Fernanda é fenomenológico-existencial (daseinsanalista). Considere as afirmações abaixo e indique as que correspondem ao modo de conceber o sofrimento psicológico e a atitude do psicólogo (ação clínica) nesta abordagem.
I - Nesse caso, o psicólogo deverá direcionar as reflexões para o luto que a moça está vivendo. Antes de pensar em qualquer outra possibilidade, ela deverá se conscientizar sobre a importância de viver o luto da perda de seu marido.
II - Percebendo que Fernanda está falando de uma experiência muito forte para ela, o psicólogo poderá fazer algumas perguntas para que ela detalhe as experiências que narra.
III - O psicólogo acolhe Fernanda em sua dor e pode sugerir que ela oriente as pessoas de sua família e a do marido a procurarem um processo psicoterápico, para que possam compreender que ela é ainda muito nova e precisa vivenciar novas experiências.
IV - O psicólogo poderá comentar que percebeu o quanto está sendo importante para ela fazer tais comentários e que a procura de atendimento está sendo a tentativa de abrir uma nova porta, alternativa à postura de recuo que vem tomando.
V - O psicólogo analisará a situação global e aconselhará Fernanda a dar início ao processo com ele e procurar terapia para o filho.
Estão corretas apenas as afirmações:
A) II e IV.
B) I e II.
C) I, II e V.
D) I, II, III e IV.
E) II, IV e V.
Se você leu atentamente a situação clínica acima e a bibliografia indicada, pode identificar que as afirmações I, III e V apresentam condutas não compatíveis com o manejo clínico apresentado por JARDIM (2013), chamado de ação clínica. As demais afirmações apresentam corretamente as condutas de um psicólogo daseinsanalista, que está comprometido com o desvelamento de sentidos e a busca por possibilidades mais autênticas de existir do paciente por meio de ações clínicas. Portanto, a alternativa correta é A;
Exercício 1:
Eduardo procura um psicólogo, afirmando que está infeliz no trabalho e no casamento. Quando o psicólogo pede para ele detalhar seu sofrimento, Eduardo não expõe nada muito claro. Não encontra nada específico que sinta que lhe faz mal no trabalho nem no casamento. Dá-se conta, enquanto fala, que não entende por que se sente infeliz, embora sinta-se assim. Ele opta por iniciar um processo psicoterapêutico. O psicólogo que o atende é fenomenológico-existencial (daseinsanalítico), fundamentando sua atitude de acordo com as descrições de Jardim (2015) em Ação e Compreensão na clínica fenomenológico-existencial.Sobre o processo psicoterapêutico neste contexto está correto afirmar:
I – A ação clínica do psicólogo daseinsanalítico tem como sentido a identificação dos modos de ser da esposa de Eduardo que contribuem para que ele esteja tão infeliz com ela.
II – O daseinsanalista terá como fio-condutor de seus esforços compreender os modos de ser de Eduardo no mundo e assim desvelar para ele a origem das suas dificuldades de relacionamento.
III – O daseinsanalista cultivará uma relação com Eduardo na qual ele possa se aprofundar nos temas trazidos, articulando diferentes dimensões existenciais.
IV – O daseinsanalista se comunicará com uma linguagem poiética, que significa que recorrerá a músicas, poemas e outros recursos expressivos para compreender com ele sua experiência.
V – O objetivo da psicoterapia daseinsanalítica de Eduardo é propiciar ao paciente uma atitude de responsabilidade com a própria vida.
Estão corretas:
A)
I, II e IV, apenas.
B)
II, III e IV, apenas.
C)
II, III, IV e V, apenas.
D)
 III e V, apenas.
E)
II, IV e V, apenas.
Exercício 2:
Alvina perdeu seu filho a dez anos. Ele era usuário de drogas, vindo a falecer, segundo ela, em decorrência do uso de crack. Na sessão ela relata que ele a fez sofrer muito, passando noites desaparecido. Mas quando o reencontrava, não conseguia brigar com ele por causa de “amor de mãe”. Chora muito dizendo que não sabe em que errou. Faz acompanhamento com psiquiatras a bastante tempo, sendo medicada com antidepressivos, mas isso não faz com que suma sua vontade de “ir ficar com ele”. Diz que nunca pensou em se matar, pois é religiosa, mas sente muitas saudades de seu filho e quer voltar a cuidar dele. Também relata sofrer com dores de cabeça fortes e dores na coluna, que a impedem de trabalhar. Vive de aposentadoria por invalidez. Pede que o psicólogo a ajude a não se sentir mais assim, pois não suporta mais tanto sofrimento.
Considerando esse relato, indique a alternativa incorreta sobre compreensão fenomenológico-existencial do sofrimento psicológico de Alvina.
A)
Alvina está restrita quanto às possibilidades de compreender o sentido que sua relação com seu filho teve e tem em sua vida.
B)
Os sentimentos de tristeza, dores e vontade de morrer manifestam a importância do filho para ela.
C)
Alvina busca a eliminação desses fenômenos, sendo o morrer a forma mais radical de fechamento para as possibilidades.
D)
Alvina lança-se em direção ao seu futuro antecipando a permanência de seu sofrimento, não vislumbrado outra possibilidade senão a morte.
E)
Alvina repete comportamentos que a tornam pouco eficaz nos relacionamentos sociais. A ausência de uma rede de apoio e de estímulos positivos gera empobrecimento de sua existência.
Exercício 3:
João Augusto Pompeia recorre ao conceito de Heidegger de Era da Técnica para se referir à nossa contemporaneidade. Considere as afirmações abaixo sobre Mundo da Era da Técnica e assinale a alternativa correta:
I – No mundo da técnica, um mundo que quem manda é quem controla as situações é necessário controlar a si mesmo, é necessário ter autodomínio, controlar inclusive o corpo (emagrecer, vontades, desejos, impulsos, dores, emoções, fantasias, etc.), e o psicólogo fenomenológico-existencial (daseinsanalítico) tenta fugir dessa necessidade.
II – Mesmo no mundo da técnica o psicólogo fenomenológico-existencial (daseinsanalítico) entende que o ser-aí é chamado a ser o poder ser que ele é, que ele não se limita a corresponder às solicitações feitas pela técnica e, portanto esse poder-ser abre-se para muito além disso.
III – Que o psicólogo fenomenológico-existencial (daseinsanalítico) entende que para dominar as emoções e os comportamentos é necessário ouvir o que eles estão dizendo, é olhar para o que está aparecendo e com isso abandonar um jeito conhecido de ser para vir-a-ser de outro jeito ou aprender a ficar com o jeito velho de ser enquanto o novo jeito não chegar.
IV – Que o psicólogo fenomenológico-existencial (daseinsanalítico) acredita que o modo de ser temporal do Dasein é sempre calculado, medido, quantificado. Que tempo perdido para ele é prejuízo e que o Dasein por ser um ser-aí vive preso no tempo linear (relógio, calendário, etc...).
Estão corretas somente as afirmações:
A)
II, III e IV.
B)
I, II e III.
C)
I, II e IV.
D)
I e II.
E)
I, III e IV.
Exercício 4:
BARRETO & MORATO (2010) pensam a ação clínica do psicólogo fundamentadas na psicologia fenomenológico-existencial, de acordo com a concepção de Jardim (2015). Afirmam elas:
“Esse novo olhar, ao desalojar o homem da sua habitual relação com o mundo e a consciência, abre um espaço que só aparece quando o habitual é desconstruído e o homem(Dasein) se descobre entregue à tarefa inexorável de “ter-que-ser”. Essa quebra do habitual pode vir a acontecer quando o homem começa a ceder ao apelo dos traços fundantes e constitutivos (ontológicos) do nosso modo de ser.” (p.50).Este trecho nos apresenta uma reflexão sobreo novo olhar que surge a partir da ação clínica na Fenomenologia. Considere as afirmações abaixo a respeito de ação clínica e indique a alternativa correta.
I – A ação clínica pode ser pensada como um espaço que abre para novas formas de existir.
II – A ação clínica busca reestabelecer o equilíbrio do existir diário que havia antes da crise.
III– Espaço de reflexão de quebra do estabelecido
IV – Trata-se de um espaço onde se pode perceber os erros e acertos da vida.
V – Espaço de acolhimento da constituição originária do homem.
Estão corretas somente as afirmações:
A)
I, III e V.
B)
I, III e IV.
C)
II, IV e V.
D)
I e III.
E)
III, IV, e V.
Exercício 5:
Segundo JARDIM (2015),
Por um lado, na familiaridade da queda (Verfallen) o fazer repetitivo é constitutivo e indispensável para o existir, tornando desnecessário que as atitudes sejam pensadas e percebidas a todo o momento; por outro, essa mesma repetição pode se tornar um aprisionamento quando restringe a possibilidade de surgimento de um novo modo de ser, isto é, de uma ação propriamente dita que abra outros caminhos para lidar com os questionamentos próprios de cada um. (p.69-70)
Na terapia daseinsanalítica isso implica em:
I – O terapeuta deve retirar o paciente da familiaridade da queda.
II – Não se pode falar de ‘neurose’ na Daseinsanalyse, mas, sim, de modos repetitivos de ser. Assim o Dasein pode ter uma estrutura repetitiva, isto é, uma essência que tende a repetir. Cabe ao terapeuta descrever essa estrutura e o paciente assumi-la como sua.
III – O sofrimento existencial está relacionado a uma queda no fazer repetitivo que fecha para novos modos de ser.
IV – O sentido da ação clínica é resgatar a condição de agente, isto é, iniciante na própria vida, recuperando a liberdade para projetar-se adiante.
Estão corretas somente:
A)
I, II e III.
B)
II, III e IV.
C)
III e IV.
D)
I e III.
E)
I e II.
Exercício 6:
Ao refletir a respeito da ação clínica como modo específico de agir do psicólogo fenomenológico-existencial, BARRETO E MORATO (2009) afirmam que: “Cada ser humano é único e singular; exige do profissional de Psicologia abertura ao inusitado, à reinvenção da sua forma de trabalhar, à revisitação da teoria psicológica e da concepção de subjetividade que sustenta sua proposta de intervenção clínica.” (p.50).
[Referência bibliográfica: BARRETO, C. & MORATO, H. T. P. “A ação clínica e a perspectiva fenomenológica existencial” In: MORATO, H. T. P. et al. Aconselhamento Psicológico numa perspectiva fenomenológica existencial, p.41 – 51.]
Sobre a ação clínica como modo de agir do psicólogo fenomenológico-existencial está correto afirmar:
A)
Escutar, intervir e interpretar o fenômeno que ali se apresenta considerando a singularidade de cada paciente.
B)
Deixar que as coisas apareçam com seus significados, reuni-los e permitir que sentidos se articulem, auxiliando o paciente a projetar a responsabilidade de seu sofrimento no outro.
C)
Possibilitar que o ato terapêutico se manifeste em um ato criativo numa busca a dois, numa procura paciente de descrever, compreender e analisar a realidade como vem ao encontro do paciente.
D)
Buscar compreender a angústia do paciente, facilitando a superação da insegurança que existe nele e que o impede de realizar-se em todas suas potencialidades.
E)
Compreender o paciente, a partir do mundo próprio dele, a fim de explicitar as normas, valores que sua existência se apoia e, a partir dessa compreensão, oferecer caminhos para que ele possa seguir em direção à solução de uma situação difícil.
Exercício 7:
POMPÉIA (2012) afirma:
“A existência é acompanhada por transformações constantes, muitas das quais nós mal percebemos, porque vêm aos poucos; outras são repentinas, inesperadas. Tudo em nós é sujeito a mudanças: nosso corpo, nossas relações com os outros, nossas condições de vida em geral. São mudanças que tanto podem ser aquelas que representam um desenvolvimento, quanto aquelas que significam perda. Poder sofrer perdas pertence à condição da existência, que se caracteriza pela fragilidade, pelo poder ser atingida por acontecimentos de todos os tipos.” (p. 93).
Sobre as alterações que afetam diretamente o corpo, como por exemplo, amputações, perda de funções, de habilidades, entre outras, analise as afirmações abaixo e indique a alternativa correta:
I – Uma perspectiva fenomenológico-existencial compreende que alterações drásticas no corpo de uma pessoa implicam em alterações drásticas em seu modo de ser-no-mundo. 
II – Uma perspectiva fenomenológico-existencial compreende que a amputação de uma perna, por exemplo, implicará em mudanças nas relações da pessoa consigo mesma, com os outros e com as coisas. Isso porque, certas mudanças corporais podem inviabilizar ou restringir a execução de algumas atitudes que dizem respeito à realização daquilo que faz parte do caminho da pessoa em direção ao que dá sentido à sua vida. 
III – Uma perspectiva fenomenológico-existencial compreende que perdas de funções corporais podem afetar a existência de uma pessoa, pois, por serem corpo e psique dois opostos que se encontram em intrínseca relação, a alteração em um interfere diretamente no funcionamento do outro. 
Estão corretas somente:
A)
I e II.
B)
I e III.
C)
II e III.
D)
II.
E)
III.
Exercício 8:
Segundo Jardim (2015), “[...] é o sentido que pode se revelar no aí compartilhado da terapia para o terapeuta e para o paciente, com base no qual se articula o modo de ser deste último. [...] O sentido desvela as próprias relações de mundo do paciente e como ele as compreende” (p.56).Com base nos fundamentos da prática da Daseinsanalyse, está correto afirmar que:
I – O desvelamento e a compreensão dos modos de ser do paciente são um convite para a possibilidade de ele se aproximar de si mesmo.
II – O terapeuta caminha lado a lado com o paciente. No entanto, não cabe ao primeiro decidir em nome do paciente.
III – O desvelamento do sentido permite que o terapeuta se atente para indicar outro sentido a seguir, corrigindo o que não está bem.
Estão corretas somente:
A)
I.
B)
II e III.
C)
I e II.
D)
I e III.
E)
II.
Módulo 8: Processos psicoterapêuticos daseinsanalíticos
Aspectos da psicoterapia fenomenológico-existencial
A psicóloga Ana Maria Feijoo (2011) delimita pontos fundamentais para uma psicologia fenomenológico-existencial. A condição existenciária descrita por Heidegger em Ser e tempo e a concepção da “realidade” como desvelamento (aletheia) são o núcleo desta psicoterapia.
O existenciário ser-para-a-morte indica a radical finitude da existência, ou seja, que está singular e insubstituivelmente entregue à tarefa de ser (ou seja, “realizar sua existência”) e que seu desdobrar-se é temporal. Por mais que cotidianamente submeta a tutela da existência ao “a gente”, tal submissão nunca é total; é, outrossim, ilusória, pois a tutela da existência cabe unicamente a cada um.
Sendo fenomenológica, a psicologia clínica na perspectiva fenomenológico-existencial compromete-se com o exercício hermenêutico nos atendimentos psicológicos, buscando o desvelamento dos sentidos das vivências ônticas do paciente/cliente. Ou seja, não há um modelo psicológico, nem ideal de saúde ou doença ‘psicológica’, pois cada existência é sua própria medida. Este compromisso da clínica fenomenológico-existencial considera que as experiências de sofrimentos são articuladas com a restrição do poder-ser do homem, portanto a realização da existência é aproximar-se do seu ser-próprio. Assim, a prática clínica nesta abordagem está comprometida com a desconstrução das identificações restritivas. Essa desconstrução não é apenas teórico-cognitiva, pois, para que possa se dar, exige uma tonalidade afetiva que rompa as determinações (‘identidades’) cotidianas: angústia (dissolução dos nexos significativos) ou tédio (falta de sentido).
A compreensão é entendida enquanto ação na clínica fenomenológica, pois compreender possibilita esclarecer o modo de ser-no-mundo dos pacientes. O esclarecimento contribui para que o paciente possa se tornar responsável por suas escolhas, ou seja, assumindo sua condição de poder-ser.
A psicoterapia fenomenológico-existencial não está comprometida em tratar, adequar ou fazer com que o paciente se adapte ao mundo, mas, sim, oferecer espaço para que o cuidado pela própria existência possa ser assumidopelo paciente. Por esse motivo, Pompeia & Sapienza (2013) a definem como “procura, via poiesis, pela verdade que liberta para a dedicação ao sentido.” (p.169)
 Poiesis é o termo grego, origem da palavra poesia. Significa pro-dução, isto é, realização de algo que antes não existia, condução de algo possível ao aberto do mundo. Poiesis está associado a techné, que é a ação que propicia o surgimento de algo. Poiesis é uma modalidade de discurso: a fala poiética. Nesse modo de discurso, algo se apresenta e pode ser abarcado, compreendido, compartilhado. O discurso poiético está no polo oposto do discurso lógico, persuasivo. Para compreendermos ‘liberdade’, precisamos desdobrá-la em ‘liberdade de...’ e ‘liberdade para...’ O senso comum entende liberdade como ausência de solicitações (liberdade de...). Em geral, quando alguém procura terapia está querendo se livrar de algo que oprime e restringe. Mas a terapia age na direção da liberdade para ouvir, compreender e poder (obedecer, de ob-audire) lidar com as solicitações do existir.
Na concepção latina, verdade vem do étimo veritas, que significa a correspondência entre a ideia (conceito) e o objeto. Ao longo da história filosófica ocidental, a correspondência é garantida pelo método, que deve seguir as regras lógicas de demonstração. Assim, a verdade (veritas) é demonstrável. Mas, veritas é a tradução latina para o termo grego aletheia, que significa des-velamento, des-ocultação. Heidegger (1927/1998) resgata o sentido original de verdade como o mostrar-se algo. Esta verdade (aletheia) é reconhecida, compreendida, pois se refere ao como algo se mostra para mim.
Sentido é aquilo que na “hora em que falta, todos nós sabemos de que se trata.” (Pompeia, 2010, p.164) Sendo fundamentalmente possibilidade, o ser-no-mundo só existe enquanto encontra a significância das coisas, dos outros e de si mesmo, à luz dos projetos nos quais está lançado. É a dedicação ao projeto de sentido (que Pompeia chama de ‘sonhos’) que está comprometida quando a existência está restrita. Por isso, a psicoterapia daseinsanalítica visa resgatar a possibilidade de escutar o que o existir solicita (sentido) para poder ser.
4. Acompanhe o exercício abaixo:
Pompeia & Sapienza (2013) definem a psicoterapia daseinsanalítica da seguinte forma:
 Terapia é a procura, via poiesis, pela verdade que liberta para a dedicação ao sentido. (p.169)
Considere as afirmações abaixo sobre os significados desses conceitos e indique a alternativa correta:
I – Pro-cura significa que a psicoterapia age na direção da cura, isto é, da libertação daquilo que gera sofrimento.
II – Poiesis é a raiz etimológica de Poesia, que significa que o psicólogo fenomenológico existencial precisa recorrer a estudos literários (principalmente poesias, que sintetizam experiências) para dialogar com o paciente.
III – Na psicoterapia fenomenológica existencial a verdade que se busca é a aletheia, que significa o recordar algo que se mostra para mim e, nesses mostrar-se, faz sentido.
IV – Sentido significa ‘significação’ e ‘direção’. Assim, é o fundamento do projetar-se do ser-aí ao futuro possível, isto é, nas possibilidades existenciais porvindouras.
V – A vida sem sentido é uma vida vazia. A psicoterapia daseinsanalítica possibilita a busca pelo sentido singular da existência do paciente.
Estão corretas apenas as afirmações:
A) I, II e III.
B) II, III e IV.
C) II, IV e V.
D) I, III e V.
E) II, IV e V.
Se você leu atentamente o texto acima e a bibliografia indicada, pode identificar que as afirmações I e II apresentam definições erradas dos conceitos usados por Pompeia (2010) para caracterizar a psicoterapia daseinsanalítica. Pro-cura significa estar a favor da condição essencial do Dasein, que é ser cuidado. Poiesis significa pro-dução, permitindo que emerja algo que antes era uma possibilidade. As demais afirmações apresentam corretamente os conceitos que definem a psicoterapia daseinsnalítica. Portanto, a alternativa correta é C. 
Psicoterapia infantil fenomenológica existencial
Bibliografia básica: FEIJOÓ, A. M. “3.1. Considerações acerca da criança e a clínica psicológica infantil.” A Existência para além do Sujeito, pp. 90 – 107
 Para compreender o atendimento psicoterapêutico fenomenológico-existencial com crianças é necessário que deixemos de lado as “teorias tradicionais acerca do desenvolvimento, da personalidade, da aprendizagem da criança,” (Feijoo, pp. 91) que postulam a chegada de um bebê ao mundo como um ser autocentrado e/ou encapsulado. Ou seja, é necessário realizar uma epoché de pressupostos já presentes no nosso entendimento científico e/ou do senso comum.
Para a fenomenologia-existencial o ser-aí da criança já se constitui como um Dasein. O nascimento biológico do ser humano delimita a inauguração da existência e, portanto, da condição de estar lançado no mundo. Assim, o ser-aí da criança é entendido enquanto um ente com caráter indeterminado, lançado no mundo tendo de ser.
Para aprofundar a compreensão do ser-aí da criança é necessário retomar a noção de intencionalidade proposta por Husserl. Nela a consciência é considerada em sua imanência, ou seja, se realiza enquanto uma ação de dirigir-se a... e constitui a cooriginalidade de homem e mundo. Todo ato é tido como intencional, incluindo os atos de sugar, chorar e dormir do bebê que podem ser, equivocadamente, entendidos enquanto reflexos. Com isso, afastamo-nos das determinações biológicas ou sociais e aproximamo-nos da ideia que o mundo oferece possibilidades para a criança ser do seu modo. O ser-aí do bebê é marcado pela quietude, calor, alimentação e estado de sono. Porém, o ato de assustar-se com algum barulho já evidencia a articulação do bebê com o espaço, pois é um modo de responder ao que lhe solicita na abertura de mundo que ela é. O sentido desse gesto acontece no ser-no-mundo-com-outros, tal como descrito por Critelli em Historiobiografia (2012)
Por fim, temos que considerar que a responsabilidade e liberdade são dimensões constitutivas do ser-aí para a psicologia fenomenológico-existencial, porém, na vida das crianças, tais dimensões estão sob tutela temporária dos adultos responsáveis por elas. Esta peculiaridade do modo de ser da criança estabelece objetivos claros para o atendimento psicológico infantil, pois a psicoterapia, neste contexto, deve oferecer espaço para que a criança possa preencher com seus significados e experimentar na sessão sua responsabilidade para ser, sendo acompanhada no desenrolar do processo. Desse modo, a criança pode experimentar as dimensões ontológicas e cuidar de si. Neste sentido, o atendimento psicológico infantil não deve ser confundido com psicodiagnóstico ou trabalho pedagógico como reforço escolar. O psicólogo não deve ocupar o lugar dos pais ou da escola que assumem a tutela temporária das responsabilidades da criança, pois esta ainda não pode assumi-las por completo.
3. Acompanhe o exercício abaixo
Marília chega ao consultório, por pedido da escola, em busca de atendimento psicológico para seu filho de 8 anos com a seguinte fala: "A escola reclama que o meu filho não consegue se concentrar nas tarefas da escola, não consegue ficar sentado na sala de aula e atrapalha os coleguinhas. Disseram que ele sofre de TDAH. Em casa ele também é muito levado, bagunceiro e tem o sono muito agitado. Não sei mais o que fazer, estou desesperada, já tentei de tudo, por isso eu vim aqui. Para a senhora me falar o que devo fazer.”
Diante desse relato, há diferentes possibilidades de conduta do psicólogo. Escolha a(s) fala(s) que se refere(m) a uma postura de um psicólogo de orientação Fenomenológico-Existencial.
I – "Este tipo de manifestação aponta para o como o seu filho lida com o desejo do outro. Então, é importante considerarmos as relações estabelecidas entre as pessoas que compõem a família.”
II – "Hoje em dia é muito comum crianças sofrerem de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Mas a senhora não precisa se preocupar, pois existem diversos estudos que comprovamo alto índice de sucesso para tratamentos desses casos.”
III – “Marília, para eu compreender o que se passa com o seu filho, não adianta eu me debruçar em um diagnóstico fechado, mas preciso que você me descreva detalhadamente como seu filho é para podermos nos aproximar do sentido que essa patologia tem na vida dele.”
IV – “Marília, estou percebendo a sua aflição e gostaria que você me contasse um pouco mais sobre como se sente, pode ser? Depois marcamos uma sessão para seu filho.”
Estão corretas somente as falas:
A) I.
B) I e IV.
C) III.
D) II, III e IV E) IV.
Se você leu os textos e compreendeu o manejo clínico nesta abordagem com crianças, foi capaz de identificar que as falas I, II e III estão incorretas. A primeira fala está comprometida a encontrar a causa da doença e não a compreender como os sintomas são vivenciados pelo filho de Marília. A segunda fala busca tranquilizar Marília, oferecendo uma solução, com alto índice de sucesso, para a situação. A terceira convida Marília a falar sobre seu filho para que o psicólogo possa compreendê-lo. Porém, a revelação dos sentidos vividos só pode se dar por ele mesmo. A alternativa correta, portanto, é E, pois o psicólogo oferece escuta e acolhimento à mãe e se disponibiliza a encontrar com seu filho.
Exercício 1:
A Psicoterapia de orientação fenomenológica propõe para o terapeuta um modo próprio, uma postura no encontro com o cliente que configura um fazer terapêutico peculiar. Assinale a alternativa correta no que se refere à abordagem fenomenológica em psicoterapia:
I. O terapeuta inicia a sessão levando consigo um arcabouço teórico explicativo, uma teoria de psicologia que, de antemão, lhe oferece respostas para os fenômenos.
II. Trabalhar com a orientação fenomenológica implica em ir direto ao fenômeno, buscar o significado único que se apresenta naquele caso em particular, que pode inclusive contrariar as teorias propostas pela Psicologia.
III. O terapeuta não ignora as teorias, pelo contrário, somente reconhecendo-as é capaz de manter o pensamento aberto diante do fenômeno. O referencial básico do pensar fenomenológico está ancorado nos pressupostos de Heidegger acerca do existente.
A)
Apenas I é verdadeira.
B)
Apenas III é verdadeira.
C)
I, II são verdadeiras.
D)
II e III são verdadeiras.
E)
Apenas II é falsa.
Exercício 2:
Você é contratado como psicólogo na Casa Hope, instituição filantrópica que dá apoio a crianças e adolescentes de baixa renda portadores de câncer. O diretor que te contratou explicou que te dá liberdade para cuidar das várias demandas que aparecem nesse lugar. Logo no seu primeiro dia de trabalho uma mãe o procura. Você nem tem uma sala ainda e a informação que recebeu é que os profissionais dessa instituição não costumam ter salas próprias. A mãe traz seu filho para cadastro e está desesperada, pois ele acaba de receber diagnóstico de um câncer na medula. Como você trabalha fundamentado na abordagem fenomenológico-existencial, são atitudes possíveis nessa situação:
I – Receber a mãe e conversar com ela sobre seu sofrimento, buscando esclarecer o que o motiva e que recursos ela tem para lidar com esta situação. Você estará realizando um plantão psicológico.
II – Explicar a ela que como você está chegando ainda não tem um consultório, de modo que não pode realizar uma sessão de plantão psicológico nem psicoterapia, pois ambos precisam de um setting delimitado e privacidade.
III – Agendar com ela uma triagem para avaliar o grau de urgência do sofrimento relatado, a fim de confirmar a necessidade de encaminhá-la ao plantão psicológico.
IV – Buscar uma compreensão com ela a respeito de como está recebendo essa notícia e de como isso esgarça a malha de seu senso comum.
V – Acolhê-la e explicar que ela não pode se desesperar, pois isso passará insegurança ao seu filho, que é quem está verdadeiramente sofrendo.
Estão corretas apenas as afirmativas:
A)
II, III e IV.
B)
I e IV.
C)
I, III e V.
D)
III, IV e V.
E)
II e V.
Exercício 3:
Ana é encaminhada ao psicólogo por um psiquiatra. Está com 17 anos. Recentemente teve uma “crise psicótica”, segundo informa. Tinha ido ao shopping para conhecer pessoalmente um rapaz com quem se comunicava pela internet e de quem estava gostando. Sentia que finalmente iria dar seu primeiro beijo. Combinaram às 15:00. Ela chegou às 14:00, sozinha, e ficou o aguardando na praça de alimentação, no 4º andar. Foi uma sugestão dele que ela aceitou, embora sempre se sinta muito mal em ambientes com muita gente e muito barulho. Às 15:45 ele ainda não tinha chegado. “Eu fiquei desesperada, saí chorando da praça da alimentação. Nem lembro o que aconteceu, sei só que de repente tinha um segurança me segurando e dizendo para eu me acalmar e me distanciar do vão central. Fiquei muito nervosa com aquele homem me agarrando, gritei, chutei.” Mais adiante na sessão diz: “Não sou louca. Não sei o que está acontecendo comigo. Não consigo parar de tentar lembrar do que aconteceu. Que vergonha! Que vergonha! Todo mundo estava me olhando como se eu fosse louca! Não consigo tirar isso da minha cabeça... o dia todo lembro e me sinto muito mal... não consigo fazer nada.”
O psicólogo que a recebe é daseinsanalista. Baseando-se nessa abordagem, considere as compreensões e atitudes do psicólogo nesta abordagem abaixo e indique a alternativa que apresenta as corretas.
I – O episódio que Ana relata não está claro nem para ela, nem para o psicólogo. O psicólogo precisa ajudar Ana a entender o que aconteceu. Quando tiver consciência do ocorrido, deixará de ficar atormentada pelo episódio.
II – O psicólogo compreende do relato de Ana que o motivo de todo o seu sofrimento foi a ausência do rapaz que ela encontraria.
III – Ana está num momento de grande restrição existencial, sentindo-se angustiada e culpada. Essa situação é sua demanda psicológica, que precisa ser acolhida pelo psicólogo.
IV – O sentido de uma psicoterapia neste momento é acompanhar Ana na busca de uma compreensão de seu modo de ser-no-mundo, cultivando a abertura para novas formas de existir.
V – O sentido da ação clínica psicológica na daseinsanalyse é ajudar Ana a não pensar no que aconteceu no shopping. O motivo de seu sofrimento atual é a ocorrência de pensamentos obsessivos.
Estão CORRETAS somente:
A)
I, II e V.
B)
III, IV e V.
C)
II, III e V.
D)
I, III e IV.
E)
III e IV.
Exercício 4:
Eduardo procura um psicólogo, afirmando que esta infeliz no trabalho e no casamento. Quando o psicólogo pede para ele detalhar seu sofrimento, Eduardo não expõe nada muito claro. Não encontra nada específico que sinta que lhe faz mal no trabalho nem no casamento. Dá-se conta, enquanto fala, que não entende por que se sente infeliz, embora sinta-se assim. Ele opta por iniciar um processo psicoterapêutico. O psicólogo que o atende é fenomenológico-existencial (daseinsanalítico), fundamentando sua atitude de acordo com as descrições de Pompéia (2004) em “Uma caracterização da Psicoterapia”. Sobre o processo psicoterapêutico neste contexto está correto afirmar:
I – A ação clínica do psicólogo daseinsanalítico tem como sentido a identificação dos modos de ser da esposa de Eduardo que contribuem para que ele esteja tão infeliz com ela. O psicólogo desvelará para ele suas dificuldades de relacionamento e novas formas de ser-com, tornando-o menos conflituoso e infeliz.
II – O daseinsanalista terá como fio-condutor de seus esforços para compreender os modos de ser de Eduardo a pergunta: “que sonhos de Eduardo terão morrido?”
III – O daseinsanalista cultivará uma relação com Eduardo na qual o que já lhe foi caro (querido, do coração), mas que perdeu esse vínculo e tornou-se desgastado, possa ser relembrado.
IV – O daseinsanalista se comunicará com uma linguagem poietica, que significa que recorrerá a músicas, poemas e outros recursos expressivos para compreender com ele sua experiência.
V – O objetivo da psicoterapia daseinsanalítica de Eduardo é recuperar sua liberdade para sonhar, atualmente perdida.
Está CORRETO apenaso que se afirma em:
A)
II, III, II e V
B)
II, III e V.
C)
I, II, III e IV.
D)
I, III, IV e V.
E)
I e IV.
Exercício 5:
Jaime procura terapia e é recebido por um daseinsanalista. O paciente conta:
Desde que minha esposa me largou, nunca mais consegui ser feliz. Nem no trabalho, que eu gostava tanto, me realizo mais. Eu trabalhava bastante e estava indo bem; tinha sido promovido a gerente de negócios em todo o estado. Com isso tive um ótimo aumento, de modo que ia conseguir quitar o financiamento de nossa casa. Mas aí, de repente, ela aparece e diz que sou um acomodado, que não faço nada para nós dois, que só penso em trabalhar. E me larga. Meus amigos tentam me levar para happy hours, mas nem sei mais como chegar numa mulher. Sinto saudades da minha esposa.
Compreendendo a narrativa de Jaime à luz da fenomenologia-existencial está correto afirmar:
I – Jaime está passando por um episódio depressivo. A falta de prazer no trabalho é sintoma de sua depressão, motivada pelo abandono da esposa.
II – As frases “nunca mais consegui ser feliz” e “nem sei mais como chegar numa mulher” são ouvidas pelo terapeuta como experiências associadas à restrição do poder-ser de Jaime.
III – Quando deixa-o, a esposa de Jaime produz um abalo em seu cotidiano, gerando perplexidade e paralisando-o. A única saída para Jaime é se reconciliar com sua esposa para poder recuperar o sentido de sua vida.
IV – Ao procurar psicoterapia, Jaime está sinalizando que está questionando-se e marcado por um sofrimento. A terapia oferece a ele o colocar-se diante de sua existência, desafiando-o a ser ele mesmo e partindo em busca de possíveis sentidos dentro do incompreendido.
Estão corretas somente as afirmações:
A)
I, II e III.
B)
II e IV.
C)
I e IV.
D)
II e III.
E)IV.
Exercício 6:
No livro A existência para além do sujeito, Feijoo (2011) relata a interpretação fenomenológico-existencial do comportamento de Ântonio, menino de sete anos trazido à psicoterapia por indicação de um psiquiatra que diagnosticara cleptomania. O modo de lidar com os fenômenos clínicos nessa situação é característico do processo psicoterapêutico nessa abordagem, que pode ser descrito como:
I – Deve-se suspender diagnósticos e quaisquer outras interpretações prévias a fim de que a criança possa se mostrar por si mesma.
II – A pergunta que norteia a escuta e a observação do psicólogo é “por que a criança age assim?”, buscando desvelar as causas de seu comportamento.
III – Os sintomas ‘psicológicos’ da criança são sempre manifestações de problemas dos pais. A criança absorve e revela os conflitos parentais. Assim, na perspectiva fenomenológico-existencial é essencial que os pais também façam psicoterapia.
IV – No processo psicoterapêutico fenomenológico-existencial é mister alternar sessões com os pais com sessões e sessões com a criança a fim de desvelar o diagnóstico correto.
Estão corretas somente:
 A)
 I e II.
B)
 II e III.
C)
 III e IV.
D)
 I, II e III.
E) I.
Exercício 7:
Em artigo sobre psicoterapia fenomenológico-existencial infantil, Feijoo (2011, p.189) afirma: 
"Em síntese, a clínica psicológica infantil com fundamentos existenciais requer primeiramente uma postura fenomenológica [...] Em segundo lugar, cabe dizer que liberdade e responsabilidade na perspectiva existencial dizem respeito ao caráter de indeterminação da existência e ao fato de que, qualquer que seja a etapa da vida, cada um tem de cuidar de sua existência. [...] E, por fim, para pensar em uma clínica fenomenológico-existencial infantil, é preciso partir da ideia de que desde o início a criança é este ente que, por se constituir pela indeterminação, exposto, jogado, lançado para fora dele, livre de determinações, é marcada pelo caráter de poder ser e ter de ser." (FEIJOO, Ana Maria Lopez Calvo de. A clínica psicológica infantil em uma perspectiva existencial. Rev. abordagem gestalt. [online]. 2011, vol.17, n.2, pp. 185-192. ISSN 1809-6867. 
Considerando a fenomenologia existencial como fundamento de psicoterapia infantil está correto afirmar:
I – A postura fenomenológica indicada pela autora exige a suspensão de concepções apriorísticas sobre o desenvolvimento infantil. Assim, o psicoterapeuta daseinsanalítico não pode comparar o comportamento da criança observado em sessão clínica com o ‘esperado’ para essa fase do desenvolvimento.
II – Os comportamentos da criança em sessão devem ser compreendidos à luz de seu sentido, isto é, quais são os nexos significativos e as motivações do comportamento.
III –Sendo toda criança indeterminada, torna-se necessário que o psicoterapeuta prepare atividades, jogos e situações para propor a ela a fim de explorar como lida com responsabilidade e liberdade existenciais.
Estão corretas somente:
A)
I e II.
B)
 II e III.
C)
 I.
D)
 I e III.
E)
 I, II e III.

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