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UNESA – DIREITO CIVIL I – 2019.II – PROFESSORA: CINTIA SOUZA – TURMA 3024
 DEFEITOS DO NEGÓCIO JURÍDICO – VÍCIOS DE CONSENTIMENTO – PARTE II
3)COAÇÃO – É o fator externo apto a influenciar a vítima no sentido de realizar, efetivamente, o negócio que a sua vontade ( interna e livre) não deseja. 
Entende-se por coação “...uma pressão física ou moral exercida sobre o negociante, visando obrigá-lo a assumir uma obrigação que não lhe interessa. Aquele que exerce a coação é denominado coator e o que a sofre, coato, coagido ou paciente.” ( Manual de Direito Civil: volume único / Flávio Tartuce. – 8.ed.rev.,atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2018, pág. 281). 
	A coação traduz violência. Consiste em toda ameaça ou pressão exercida sobre um indivíduo para forçá-lo, contra sua vontade, a praticar um ato ou realizar um negócio. 
	Para se caracterizar a coação, exigem-se os seguintes requisitos: violência psicológica, declaração de vontade viciada, receio sério e fundado de grave dano à pessoa, à família ( ou pessoa próxima) ou aos bens do paciente. 
	Há duas espécies de coação: 
1ª) Coação física ( coação absoluta ou vis absoluta) – é exercida mediante o emprego da força física. Age diretamente sobre o corpo da vítima. Inocorre qualquer manifestação de vontade do coato, pois se trata de violência física que não concede escolha ao coagido. Nessa hipótese, o negócio será inexistente para parte da doutrina. Para outra parcela, será causa de nulidade absoluta, em decorrência de o objeto ser indeterminado ( art. 166, II, CC), diante de uma vontade que não existe.
Ex.: A mão de uma senhora idosa é tomada por um lutador de boxe para que ela assine um contrato que ela não quer assinar. 
2ª) Coação moral ( coação relativa ou vis compulsiva) – ocorre quando o coator faz uma grave ameaça à vítima, deixando-lhe a opção de praticar o ato exigido ou correr o risco de sofrer as consequências da ameaça por ele feita. É hipótese de coação psicológica e configura o defeito da invalidade, gerando a anulabilidade do negócio jurídico. 
Ex.: O agente aceita vender sua casa por um preço muito abaixo do mercado sob a ameaça de serem revelados segredos de sua vida pessoal, como ter uma amante. 
3ª) Coação por terceiro – Art. 154 do CC - Só acarreta a anulabilidade se o negociante beneficiado dela conhecia ou devia ter conhecimento, respondendo ambos perante o prejudicado por perdas e danos. Todavia, o negócio subsistirá se o negociante beneficiado pela coação dela não tiver ou não devesse ter conhecimento da coação, regra em conformidade com a conservação dos negócios jurídicos. Responderá o autor da coação por todas as perdas e danos causados ao coagido. 
Art. 154. Vicia o negócio jurídico a coação exercida por terceiro, se dela tivesse ou devesse ter conhecimento a parte a que aproveite, e esta responderá solidariamente com aquele por perdas e danos.
Exemplo extraído da obra de Flávio Tartuce: “Imagine-se o caso em que alguém celebra um casamento sob pressão de ameaça do irmão da noiva. Se a noiva tiver ou devesse ter conhecimento dessa coação, o negócio é anulável, respondendo ambos, irmão e irmã, solidariamente. Por outro lado, diante da boa-fé da noiva que não sabia da coação, o casamento é conservado, respondendo o cunhado perante o noivo por eventuais perdas e danos decorrentes de seu ato. Logicamente, os danos devem ser provados, interpretação sistemática do artigo 186 do CC/02.”
REQUISITOS: 
1º) Deve ser a causa determinante do negócio, ou seja, deve haver o nexo causal entre a coação e o ato extorquido e, por isso, o negócio só foi realizado por causa da coação. 
2º) Deve ser grave, ou seja, deve incutir na vítima um fundado temor. Deve ser a ameaça de um dano sério a ser imposto à vítima ou a terceiro a quem se vincule afetivamente. Para isso, levam-se em conta as condições pessoais da vítima quando se aprecia a gravidade da ameaça. Cabe análise in concreto das circunstâncias que circundam o negócio, principalmente as características da pessoa coagida. 
Ex.: Ver TJRS, Apelação Cível 583443-30.2010.8.21.7000, Esteio, 9ª Câmara Cível, Rel. Des. Iris Helena Medeiros Nogueira, j. 26.01.11, DJERS 11.03.2001) – O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul entendeu pela existência de coação moral exercida por igreja evangélica com o intuito de que uma fiel com sérios problemas psicológicos realizasse doações de valores consideráveis à instituição. 
3º) Não se considera coação o simples TEMOR REVERENCIAL ( art. 153, 2ª parte do CC). 
-TEMOR REVERENCIAL – É o respeito à autoridade instituída, que pode ser familiar, militar, profissional, eclesiástica e etc. A menos que , junto com o temor, venha uma ameaça ou intimidação, não caracteriza coação. 
	Assim, o mero temor reverencial ou o receio de desagradar pessoa querida ou a quem se deve obediência não constitui coação.
Ex.: Casar-se com alguém com medo de desapontar seu irmão, grande amigo. O casamento é válido.
3º) Deve ser injusta, contrária ao Direito. Desconsidera-se como coação a ameaça do exercício normal de um direito ( art. 153, 1ª parte do CC) .
-EXERCÍCIO NORMAL DE UM DIREITO - Ex.: Se a lei reconhece o legítimo e regular exercício de um direito, não se poderá considerar abusiva a ameaça do seu exercício. 
O locatário, tornando-se inadimplente, não poderá afirmar que foi coagido pelo fato de o locador adverti-lo de que , caso não pague os aluguéis, recorrerá à Justiça. 
Súmula 359 do STJ - Cabe ao órgão mantenedor do cadastro de proteção ao crédito a notificação do devedor antes de proceder à inscrição.
4º) A ameaça deve ser de causar dano atual ou iminente.
Obs.: No dolo, a parte é enganada, ao passo que na coação a vítima é ameaçada. 
IMPORTANTE: 
Art. 178, CC. É de quatro anos o prazo de decadência para pleitear-se a anulação do negócio jurídico, contado:
I - no caso de coação, do dia em que ela cessar;
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
4) ESTADO DE PERIGO – O agente, diante de situação de perigo conhecida pela outra parte, emite declaração de vontade para salvaguardar direito seu, ou de pessoa próxima, assumindo obrigação excessivamente onerosa. Há uma especial hipótese de inexigibilidade de conduta diversa, ante a iminência de dano por que passa o agente, a quem não resta outra alternativa senão praticar o ato. 
O estado de perigo é configurado quando alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume a obrigação excessivamente onerosa. 
	Tratando-se de pessoa não pertencente à família do declarante, o juiz decidirá segundo as circunstâncias.
	Segundo Flávio Tartuce, “ no estado de perigo, o negociante temeroso de grave dano ou prejuízo acaba celebrando o negócio, mediante uma prestação exorbitante, presente a onerosidade excessiva ( elemento objetivo). Para que tal vício esteja presente, é necessário que a outra parte tenha conhecimento da situação de risco que atinge o primeiro, elemento subjetivo que diferencia o estado de perigo da coação propriamente dita e da lesão.
 (...) ESTADO DE PERIGO = Situação de perigo conhecido da outra parte ( elemento subjetivo) + onerosidade excessiva ( elemento objetivo) “ ( Manual de Direito Civil: volume único / Flávio Tartuce. – 8.ed.rev.,atual. e ampl. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÈTODO, 2018, pág. 284-285). 
Art. 156. Configura-se o estado de perigo quando alguém, premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa de sua família, de grave dano conhecido pela outra parte, assume obrigação excessivamente onerosa.
Parágrafo único. Tratando-se de pessoa não pertencente à família do declarante, o juiz decidirá segundo as circunstâncias.
EFEITOS – Considera-se anulável o negócio realizado em estado de perigo. 
IMPORTANTE: 
1)Art. 178. É de quatro anos o prazo de decadência para pleitear-se a anulação do negócio jurídico, contado:
II - no de erro, dolo, fraude contra credores, estado de perigo ou lesão, do dia em que se realizou o negócio jurídico;2)ENUNCIADO 148 DA III JORNADA DE DIREITO CIVIL - Ao "estado de perigo" (art. 156) aplica-se, por analogia, o disposto no § 2º do art. 157. 
Obs.: É a revisão do contrato que será utilizada pelo juiz para afastar a anulação do negócio e sua extinção. 
Art. 157, § 2o Não se decretará a anulação do negócio, se for oferecido suplemento suficiente, ou se a parte favorecida concordar com a redução do proveito.
EXEMPLOS: 1) O doente que, por conta de sua doença e para tentar salvar-se , aceita pagar honorários excessivos ao médico.
3) EXEMPLO CITADO POR LEONI LOPES DE OLIVEIRA – Prática do cheque-caução, exigido muitas vezes quando da internação de consumidores em hospitais, ou seja, são os casos dos vultosos depósitos em dinheiro ou prestação de garantia exigidos por instituições hospitalares e clínicas em geral, a título de caução, pra que o paciente possa ser atendido em situação emergencial. 
3)Existe certa similitude entre estado de perigo e a coação moral. Em ambos os vícios de consentimento, o agente não manifesta sua vontade livremente. Todavia, vale frisar que, na coação ( moral), a ameaça ou violência advém de pessoa interessada na prática do ato ( um dos negociantes ou terceiro), ao passo que, no estado de perigo, a ameaça provém de mera circunstância fática, que exerce contundente influência sobre a vontade do agente que declarará a vontade. 
	Assim, segundo Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona : “No estado de perigo, diferentemente da coação, o beneficiário não empregou violência psicológica ou ameaça para que o declarante assumisse obrigação excessivamente onerosa. O perigo de não salvar-se, não causado pelo favorecido, embora de seu conhecimento, é que determinou a celebração do negócio prejudicial.” 
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
5) LESÃO – O CC/16 não cuidava deste defeito. É causa de invalidade do negócio jurídico que traduz o prejuízo resultante da enorme desproporção existente entre as prestações do próprio negócio, em virtude do abuso da necessidade ou da inexperiência de uma das partes – Art. 157 do CC. 
Prejuízo resultante da desproporção existente entre as prestações de um determinado negócio jurídico, em face do abuso da inexperiência, necessidade econômica ou leviandade de um dos declarantes.
	Assim, a lesão é vício do negócio jurídico que se caracteriza pela obtenção de um lucro exagerado por se valer uma das partes da inexperiência ou necessidade econômica da outra. 
	Não raro, a lesão acaba por traduzir o abuso do poder econômico de uma das partes em detrimento da outra, que se caracteriza como hipossuficiente na relação jurídica. 
	Segundo Cristiano Chaves e Nelson Rosenvald, “ (...) leva à conclusão de que se configura a lesão quando alguém obtém lucro exagerado, desproporcional, aproveitando-se da falta de malícia (inexperiência) ou da situação de necessidade do outro contratante. Prende-se, por conseguinte, à ideia de justiça contratual. (...)”
	A partir dessas ideias, é fácil perceber a lesão como o prejuízo sofrido por uma das partes na conclusão do negócio, decorrente da desproporção existente entre as prestações dos contraentes, sendo que um dos negociantes, valendo-se da premente necessidade ( conhecida ou não) ou da inexperiência do outro, obtém lucro exorbitante ou desproporcional ao proveito resultante da prestação”. (FARIAS, Cristiano Chaves de e ROSENVALD, Nelson. Curso de Direito Civil. Vol. 1. Parte Geral e LINDB. 11ª ed. revista, ampliada e atualizada. Editora Juspodivm, 2013, pág. 664 e 665) 
Art. 157. Ocorre a lesão quando uma pessoa, sob premente necessidade, ou por inexperiência, se obriga a prestação manifestamente desproporcional ao valor da prestação oposta.
Ex.: Uma pessoa, na iminência de ser despejada do imóvel em que reside, necessitando achar outro lugar para abrigar sua família, aceita pagar valor exorbitante a título de aluguel em outro imóvel. 
Obs.: Lesão difere de estado de perigo, embora ambas sejam causas de invalidade do negócio jurídico, traduzindo uma situação de desequilíbrio congênito entre as prestações. Contudo, o estado de perigo decorre de uma situação de perigo de dano ( saúde, integridade física e etc.), ao passo que, na lesão, não há risco direto, mas sim uma necessidade econômica ou inexperiência da outra parte. 
REQUISITOS: 
*SUBJETIVO ou IMATERIAL ou ANÍMICO: Inexperiência para o negócio, premente necessidade econômica ou a leviandade ( da parte lesada). 
*OBJETIVO ou MATERIAL: manifesta desproporção entre as prestações. 
IMPORTANTE: 
*A lesão é vício concomitante à formação do negócio, pois, caso seja superveniente à celebração do contrato, estaremos diante da teria da imprevisão ( que pressupõe negócio válido, que tem seu equilíbrio rompido pela superveniência de circunstância imprevista e imprevisível. 
§ 1o Aprecia-se a desproporção das prestações segundo os valores vigentes ao tempo em que foi celebrado o negócio jurídico.
* A disciplina do vício da lesão ( aplicável para as relações contratuais em geral), não exige o dolo de aproveitamento para ser configurada ( intenção de obter vantagem exagerada às expensas de outrem). 
III Jornada de Direito Civil - Enunciado 150 - A lesão de que trata o art. 157 do Código Civil não exige dolo de aproveitamento.
EFEITO: Art. 171. Além dos casos expressamente declarados na lei, é anulável o negócio jurídico:
II - por vício resultante de erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão ou fraude contra credores.
Obs.: Art. 157, § 2o Não se decretará a anulação do negócio, se for oferecido suplemento suficiente, ou se a parte favorecida concordar com a redução do proveito.
	Não há óbices para que as partes ratifiquem o negócio jurídico anulável, permitindo o juiz não anular nas hipóteses previstas no parágrafo 2º do art. 157 do CC. Esta solução procura conservar o negócio, evitando o enriquecimento ilícito ou sem causa. 
III Jornada de Direito Civil - Enunciado 149 - Em atenção ao princípio da conservação dos contratos, a verificação da lesão deverá conduzir, sempre que possível, à revisão judicial do negócio jurídico e não à sua anulação, sendo dever do magistrado incitar os contratantes a seguir as regras do art. 157, § 2º, do Código Civil de 2002.
IV Jornada de Direito Civil - Enunciado 290 - A lesão acarretará a anulação do negócio jurídico quando verificada, na formação deste, a desproporção manifesta entre as prestações assumidas pelas partes, não se presumindo a premente necessidade ou a inexperiência do lesado.
IV Jornada de Direito Civil - Enunciado 291 - Nas hipóteses de lesão previstas no art. 157 do Código Civil, pode o lesionado optar por não pleitear a anulação do negócio jurídico, deduzindo, desde logo, pretensão com vista à revisão judicial do negócio por meio da redução do proveito do lesionador ou do complemento do preço.
IMPORTANTE: A lesão não se confunde com o estado de perigo. Segundo Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona, “ O estado de perigo traduz uma situação em que o declarante, premido da necessidade de salvar-se, ou a pessoa próxima, realiza o negócio jurídico, assumindo prestações excessivamente onerosas. Busca evitar, pois, a concretização de um perigo de dano físico ou pessoal. Tal não ocorre na lesão, em que o contraente, por razões essencialmente econômicas ou por sua evidente inexperiência ( ou leviandade), é levado, inevitavelmente, a contratar, prejudicando-se.” 
BIBLIOGRAFIA: 1) Manual de Direito Civil; volume único/ Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho. – São Paulo: Saraiva, 2017
Manual de Direito Civil: volume único / Flávio Tartuce – Editora Método – 2018
Código Civil para Concursos – Cristiano Chaves de Farias e outros – Editora Juspodivm - 2018

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