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1 LAUDO PSICOLÓGICO1 SIDNEY SHINE Coube a mim a honra de participar do I Curso de Capacitação para Assistentes Sociais e Psicólogos que atuam junto às Varas de Família e Sucessões sob os auspícios da Coordenadoria da Família e Sucessões do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo ministrando a aula intitulada "Laudo Psicológico" do qual se origina este texto. Começo agradecendo a minha colega Assistente Social Maria Isabel Strong pelo convite a participar desta iniciativa da Coordenadoria da Família em idealizar, montar e patrocinar este ciclo de aulas. O reconhecimento da especificidade do trabalho do Psicólogo Judiciário nas lides de Vara de Família é uma realidade concretizada nesta instituição a partir da proposta deste curso. É com orgulho que posso afirmar que participei dos esforços de estudar, sistematizar e divulgar a especificidade de tal trabalho (PINTO & SHINE, 1993; SHINE, 1993; RAMOS & SHINE, 1994; SHINE, 2002; SHINE, 2004). O meu percurso profissional me orientou para o estudo do produto final do psicólogo em sua função pericial nas Varas de Família: o laudo psicológico enquanto produto de uma avaliação psicológica e prova técnica (laudo pericial) no procedimento legal (SHINE, 2009). Um primeiro assinalamento se justifica neste momento. De todos os trabalhos que o psicólogo pode desenvolver, a sua prática na instituição judiciária marca uma diferença pela necessidade de produção de um documento escrito sobre o atendimento prestado ao usuário/beneficiário/jurisdicionado. “Quod non est in actis non est in mundo” - O que não está nos autos não está no mundo2. 1 Es ta aula foi r ea l izada sob os auspíc ios da Coordenadoria da Família do Tribuna l de Just iça de São Paulo e Escola Paul i sta da Magis tratura no dia 12 dc agosto de 2014, contando com a par t icipação do Juiz de Direi to da 12ª Vara da Famíl ia do Foro Centra l de São Paulo, Dr . Ricardo Pere ira Júnior . 2 Este é um velho brocardo que vem do Dire i to Romano e que é adotado nos Judiciár ios de Es tados democrá ticos. “Mundo”, nesse axioma jur ídico, tem o sent ido de verdade rea l . Não é verdade se não está nos autos . In: h t tp: / /g1.globo. com/pol i t ica /mensalao/t raduz indo-julgamento/pla tb/2012/10/05/o- que-nao-esta-nos-autos-nao-esta-no-mundo/ Consul ta em 06.02.14. 2 Portanto, nada mais justo que dedicarmos uma aula específica sobre este tema. Antes de adentrar ao tema, há um aspecto que gostaria de ressaltar que é o fato desta atividade de Capacitação não ser compulsória. Ou seja, o psicólogo judiciário/servidor público escolheu participar e se mobilizou para estar presencialmente ou à distância para participar da aula porque assim o desejou. E nada mais justo e adequado para a formação de um psicólogo que o aspecto do desejo ser a medida certa de sua ação específica de investir em seu aprimoramento profissional. A aula neste formato não é uma atividade de trabalho obrigatória e compulsória, mas livre e opcional. Outro aspecto relevante é que a Capacitação não está sendo dada exclusivamente para os psicólogos da instituição. Ou seja, aquele psicólogo que se interesse pela matéria porque pretende ingressar na carreira futuramente ou já atua neste segmento jurídico na qualidade de Perito Particular ou mesmo Assistente Técnico pode encontrar no curso ferramentas de trabalho. E com quem melhor aprender senão com aqueles que fazem no dia-a-dia do seu cotidiano profissional aquilo que a cada aula buscam apresentar? Acho importante enfatizar que o conhecimento não foi feito para ser segregado e monopolizado, mas deve circular e ser posto a prova e testado na prática que é o que, em uma espiral ascendente, vai produzir seu próprio desenvolvimento. A minha fala/escrita é direcionada a todas estas pessoas. E agradeço a EPM e à Coordenadoria da Família por esta oportunidade. Para começar, vou revisitar um tema já trabalhado por mim e minha parceira Maria Isabel Strong, Assistente Social Judiciária, com quem escrevi "O laudo psicossocial e a interdisciplinaridade no Poder Judiciário" (SHINE & STRONG, 2005). Naquela oportunidade, estávamos interessados em analisar o produto da prática do assistente social e do psicólogo judiciário, resultante da atuação profissional conjunta, ou seja, o laudo psicossocial. Colocamo-nos a tarefa de responder se o laudo psicossocial seria um produto interdisciplinar, qual seria sua finalidade e utilidade na instituição judiciária. Não é o caso de retomar, aqui, a análise e as conclusões de tal trabalho ao 3 qual remetemos o leitor interessado. Faremos um recorte para retomarmos uma das hipóteses que levantamos para sua existência: a economia de tempo. Mas a tí tulo de hipóteses podemos nos perguntar: Será que tal demanda por um produto único do Setor Técnico (Serviço Socia l e Psicologia) não partir ia dos operadores do Direito, em especial , do Juiz a quem se dest ina o parecer f inal? Não estaria o Juiz procurando maximizar o seu tempo, reduzindo dois laudos em apenas um? Será que não é por conta de uma demanda inst itucional por eficiência que não se sacri f ica um trabalho aprofundado de ambas as áreas que redundaria em maior eficácia? (SHINE & STRONG, 2005) ECONOMIA DE QUÊ E PARA QUEM Reconheçamos que tanto para os operadores do Direito quanto para os profissionais da Psicologia quanto do Serviço Social pensarmos em maximizar nosso tempo sem prejudicarmos a qualidade é uma diretriz válida e pertinente. Portanto, este trabalho se orienta sobre tal diretriz por meio das sugestões e orientações que pretendemos oferecer: levar em conta a questão da economia de tempo seja para quem escreve o Laudo Psicológico (em particular, se bem que algumas orientações podem ser válidas para a confecção do Laudo Social) seja para quem o lê (o Juiz e também o demais operadores do Direito). Neste sentido, não vamos nos concentrar no processo em si de atendimento do usuário, ou seja, no manejo técnico das entrevistas e observações com ou sem aplicação de testes psicológicos. Isto que seria o processo de avaliação psicológica do qual o laudo psicológico é o seu resultado por escrito. Caso haja interesse do leitor, remeto-o ao trabalho anterior (SHINE, 2003). Vamos nos concentrar no resultado final na forma de um laudo psicológico, levando em conta que o objetivo do presente texto é servir como subsídio para os colegas psicólogos judiciários ou não (psicólogos clínicos, peritos particulares, psicólogos em desvio de função) para a confecção de seus próprios laudos com a maior economia de tempo e eficácia de sua intervenção possível. 4 Penso ser oportuno também explicar que utilizarei um modelo na prática de formação do psicólogo que se chama supervisão. De uma maneira ampla, podemos dizer que o conhecimento que o psicólogo adquire pode ser por meio do estudo teórico (aula), aplicação da teoria em um caso específico (supervisão) e desenvolvimento da capacidade perceptiva de si e do outro (terapia). Portanto, normalmente em uma aula de Psicologia o professor busca trazer referências bibliográficas e alinhavar seu pensamento apoiado em uma teoria respaldada nos autores reconhecidos nela. É o recurso usual para se atingir um número grande de pessoas ao mesmo tempo. A supervisão tem uma estrutura mais focal; geralmente é individual ou em grupo pequeno em que há a exposição de um caso prático em que e pelo qual a teoria (dada na aula) é testada, posta em prática para se conhecer mais tanto do caso (a pessoa atendida/analisada/periciada)quando das limitações e modificações necessárias da teoria em um processo de construção do conhecimento. Guardadas as proporções podemos dizer que é como uma "aula particular" em que o aluno não precisa se contentar com uma fala genérica, mas traz as suas dúvidas específicas para ser apreciado e debatido com o supervisor/professor. Outro tipo de aula particular é a terapia3. Só que o objeto da aula é a própria pessoa! A terapia seria a terceira forma de se aumentar o conhecimento psicológico, mas voltada ao próprio sujeito que precisa afinar o instrumento pelo qual conhece. É a aplicação da teoria sobre si mesmo; é o treino de se auto-aplicar o pensamento pelo qual vai buscar compreender o outro. Conhecer-se a si mesmo para conhecer melhor o outro. Portanto, irei explorar a questão do laudo psicológico não por meio de teorias e teóricos, mas por meio de exemplos práticos. E já que não é possível a audiência expor os seus caso, irei inverter a lógica e darei exemplos próprios para ilustrar e indicar as formas pelas quais fui resolvendo minhas dificuldades em escrever um laudo psicológico. Neste sentido, estou ousando dar uma supervisão neste formato de aula/artigo, mantendo o mais próximo possível o tom coloquial e direto que uma aula tem comparando-se com um artigo escrito. 3 Faço a ressa lva que existem enquadres de terapia que são grupais e não individuais. 5 DIRETRIZES BÁSICAS Após a Resolução do Conselho Federal de Psicologia n.º 07/2003 (CONSELHO FEDERAL de PSICOLOGIA, 2003) há uma uniformidade sobre o que se entende ser o resultado escrito de uma avaliação psicológica. A denominação oficial é "laudo psicológico" ou "relatório". Portanto, enquanto tal Resolução não for atualizada, o resultado por escrito de uma avaliação psicológica terá esta denominação com uma estrutura e uma exigência próprias devidamente especificadas na referida Resolução. O leitor psicólogo pode questionar: Mas fiz um atendimento rápido de uma pessoa (usuário) e o Juiz somente quer saber sobre o encaminhamento. É necessário escrever tudo aquilo que a Resolução diz ser necessário? Uma forma de responder a tal indagação seria formalista: - O que você escreveu ao Juiz é um documento dizendo sobre data e local de um atendimento a um sujeito específico? - Não, isto é uma declaração. - O que você escreveu ao Juiz é um atestado dizendo sobre a situação ou determinada condição do sujeito atendido para determinado fim especificado no documento (abono de falta, dispensa do trabalho etc.)? - Não, o Juiz não está solicitando um atestado sobre o sujeito. - Uma vez que você atendeu o usuário, não está sendo demandado a dar uma declaração nem um atestado e, o parecer, seria uma resposta a uma questão problema que não implica em um atendimento clínico, então, o que vc. precisa fazer é um laudo ou relatório. Um outro jeito de responder seria: Mas o que você quer dizer com "tudo aquilo"? Por que na verdade, simplificando, o que seria necessário constar no documento escrito é basicamente: 6 1. A quem é destinado. 2. Sobre quem se trata. 3. Quem o escreve. 4. Como obteve os dados sobre os quais escreve. 5. E qual é a resposta. Não parece um absurdo esperar que um documento com começo, meio e fim discrimine todas estas informações. Exemplifiquemos como tais itens poderiam ganhar visibilidade e proporcionar economia de tempo sem perder em eficácia. Eficácia, entendido aqui como conseguir passar a informação necessária ao leitor. 1. A QUEM É DESTINADO De todos os modelos dos quais tomei conhecimento, o mais comum e mais objetivo e claro é colocar o endereçamento do documento logo no início da página do laudo psicológico: EXCELENTÍSSIMO SR. DR. JUIZ DE DIREITO DA [ 2ª ] VARA DE FAMÍLIA E SUCESSÕES DO [FÓRUM CENTRAL JOÃO MENDES JR.] As letras garrafais não deixam dúvida de quem é o destinatário do laudo psicológico. 2. SOBRE QUEM SE TRATA 7 Uma vez que atendemos (clinicamente) os usuários do Poder Judiciário ao atendermos (a determinação) ao Juiz é preciso discriminar as pessoas4 que receberam nossa atenção clínica. Lembramos que o atendimento de casos de V. de Família tem um grupo como foco de nossa atenção: o grupo familiar. Portanto, quase sempre, atendemos, no mínimo, três pessoas: os dois adultos responsáveis que protagonizam o litígio e a criança sobre quem possuem o poder familiar. O sistema judiciário em Vara de Família nomeia os adultos como partes, tornando aquele que inicia a ação como o REQUERENTE e aquele que se opõe como REQUERIDO. Como todo processo judicial tem um número de referência, tal número identifica o caso particular no qual se trabalha. Este número é, por vezes, o mais importante para a sua localização no Cartório onde são guardados os autos do processo que logo nem terão existência física em função da previsão de que haja uma total informatização dos dados processuais. É comum em Vara de Família os profissionais se referirem "ao melhor interesse da criança" para justificar seus argumentos e ações. Muitos profissionais psis também aderem a tal discurso. E já que discriminamos QUEM da família são nossos usuários (ou seja, por nós atendidos) seria, no mínimo, coerente que discriminássemos a(s) criança(s) da família neste momento. Um dado acessório que costumo agregar é a data de nascimento (d.n.) do(s) filho(s). Isto dá uma visão 4 Esc lareço que uti l izo "usuário" de acordo com o documento do CREPOP: "Perante a indagação sobre quem ser ia o usuár io do tr abalho desenvolvido por ps icólogos que a tuam em Varas de Famíl ia, aponta- se que, como o trabalho é encaminhado ou desenvolvido no Poder Judiciár io, o usuár io é o jurisdicionado, ou se ja , aquele que está sendo atendido pelo Poder Judic iár io. No caso das Varas de Famíl ia , dentro desta forma de compreende r o te rmo, usuár ios dos serviços dos ps icólogos ser iam as famílias e seus membros , por tanto, são esses os c l ientes que devem te r o s igi lo resguardado. Entende-se que apenas no caso de o ps icólogo estar a tuando como assis tente técnico é que seu cl iente ser ia uma das partes envolvidas no processo, e não a famíl ia toda . Mesmo ass im, o prof iss ional não deve desprezar o dado de que es tá l idando com questão inscr i ta em uma dinâmica famil ia r" (Conselho Federa l de Psicologia Referências técnicas para a tuação do ps icólogo em Varas de Famíl ia. Brasí l ia: CFP, 2010. p . 23 e 24) . 8 imediata de que fase do desenvolvimento infantil ou do adolescente estaremos trabalhando. Vide exemplo abaixo. PROC. Nº 0051401-95.2011.8.26.0100 AÇÃO: Regulamentação de Visitas REQTE.: Evandro Hashimoto Foligno REQDO.: Adriana Ferreira da Silva FILHA: Linda Hashimoto Foligno (d.n. 23/01/2003) Ou PROC. Nº 0003270-26.2012.8.26.0100 AÇÃO: Guarda de Menor REQTE.: Paula Rodriguez de Palma REQDA.: Carmen Rodriguez MENOR: Kauê Rodriguez de Palma Cunha (d.n. 04/09/2002) 3. QUEM O ESCREVE Repare que os dados até agora dizem respeito aos dados de identificação básicos (a quem o documento se dirige, sobre quem é o referido documento e, quem o escreve). Há relatórios que deixam para a última página a identificação do seu Autor com assinatura e CRP. Eu prefiro me identificar na primeira página, pois se eu fosse o leitor não gostaria de folhear para frente para ver quem escreveu o documento para depois voltar para trás e continuar sua leitura. É uma preferênciae a Resolução não diz que uma forma é a certa sobre outra, contanto que o dado esteja lá. Os meus laudos se iniciam com a apresentação protocolar abaixo discriminada. 9 SIDNEY SHINE , psicólogo judiciário, matrícula nº 802.704-7, vem, mui respeitosamente, à presença de V. EXA. apresentar o laudo psicológico como determinado. 4. COMO OBTEVE OS DADOS SOBRE OS QUAIS ESCREVE Todo trabalho que se pretende científico necessita discriminar a forma como os elementos que subsidiaram o trabalho realizado (avaliação psicológica) se transformaram em dados. Veja que o psicólogo ao atender entra em contato com as pessoas e ouve, vê e sente diversas coisas. Mas nem tudo entra no laudo. Aliás o laudo seria "um livro" se colocássemos tudo que sabemos das pessoas. Um livro proibido, diga-se de passagem. É somente a partir de uma ferramenta de trabalho que estas "coisas" que formam a "realidade do outro enquanto fenômeno humano" se transmutam em dados de pesquisa. Perceba o leitor que utilizo pesquisa aqui como sinônimo de atendimento do psicólogo. Em outras palavras aquilo que o profissional faz, o que defini anteriormente como "avaliação psicológica". Atendimento psicológico - avaliação psicológica - pesquisa - perícia são termos equivalentes neste contexto que abordamos. E com quais ferramentas de trabalho fazemos esta coleta de dados? De que instrumentos lançamos mão? Toda esta parte vem encabeçado em uma seção do laudo psicológico que pode ter diferentes nomes. Alguns chamam de "Procedimentos". Outros chamam de "Metodologia". Eu utilizo "Método". Veja abaixo como discrimino "O Método". 1. Após a leitura crítica dos Autos, marquei uma Reunião Técnica com as Assistentes Técnicos indicadas. - FRANCISCA SOARES CARNEIRO, CRP 06/45265 do REQDO. 10 - ALESSANDRA SANTIAGO, CRP 06/59248 da REQDA. As entrevistas semi-dirigidas individuais foram realizadas com as partes e com outros membros da família, a saber: - SR. L. H. B. C., 30 a. , t io materno; - SR. E. R., 67 a., avô paterno; - SR. E. M. C., 56 a., avô materno; - SRA. N. B., 51 a., avó materna. Além das entrevistas individuais, realizei entrevistas conjuntas com: - SRA. M. T. M. R., 58 a., avó paterna e SRA. D. R. G., 40 a. , t ia paterna. A criança foi vista em observação conjunta com cada um dos pais. O referencial técnico é a Psicanálise da forma como apropriado e descrito em SHINE (2003)5. Este laudo psicológico foi redigido segundo os parâmetros da Resolução CFP N.º 07/2003. Descobri que uma das vantagens de escrever um livro é que você pode citá-lo e economizar tempo de explicar o que faço e o como. É claro que nem todos escreveram um livro e para isto é necessário um bom tempo. Considero colocar os elementos mínimos necessários para que o leitor consiga entender o que fiz e com quem. Particularmente, gosto de discriminar as datas das entrevistas que coloco na sequência como CRONOGRAMA. Por exemplo: CRONOGRAMA 5 SH IN E, S . A Esp ad a de Sa lomã o . A Ps i co lo gi a e a D i sp u ta de Gu ar da d e Fi lh os . Sã o P a u lo : C a s a do P s ic ó log o, 2 00 3 . 3 02p . 11 - 08/05/13 – Reunião Técnica com a Sra. IRANEIDE (Assistente Técnica). - 13/05/13 – 1ª entrevista individual com PAI. - 20/05/13 – 1ª entrevista individual com MÃE. - 28/05/13 – 2ª entrevista individual com PAI. - 03/06/13 - 2ª entrevista individual com MÃE. - 06/06/13 – 1ª entrevista conjunta com AVÔ e AVÓ PATERNOS. - 12/06/13 - 1ª entrevista conjunta com FILHO e FILHA. - 20/06/13 – Cancelado. - 28/06/13 – 1ª entrevista individual com FILHO. - 28/06/13 – 1ª entrevista conjunta com FILHO, FILHA e MÃE. - 10/07/13 – 1ª entrevista conjunta com FILHO, FILHA e PAI. - 15/07/13 – 1ª entrevista individual com TIA MATERNA. 5. E QUAL É A RESPOSTA O documento de referência do psicólogo para a redação do Laudo Psicológico, como já mencionado, é a Resolução n.º 07/2003. Neste documento temos: O relatório psicológico deve conter, no mínimo, 5 (cinco) itens: identif icação, descrição da demanda, procedimento, análise e conclusão. Como já tratamos da Identificação e do Procedimento, restam as outras três partes. A Resposta para o Juiz está sempre na Conclusão. Enquanto o nosso leitor privilegiado, ele quer saber o "final da estória" e "o que fazer" buscando no tópico que já indica (ou deveria) aquilo que deve estar contido nele. Ora, mas se é uma Resposta, antes de mais nada deveríamos nos perguntar: E qual é a pergunta? Afinal, o que é que o Juiz quer saber? Por que ele manda o caso para a Psicologia? Qual é a sua expectativa? 12 Portanto, para bem responder a este item, já que nós não podemos ir direto à Conclusão, temos que primeiro nos apropriarmos da pergunta ou do questionamento que nos é feito (sempre em termos alheios ao nosso campo) para daí experimentarmos uma resposta possível. Estamos falando, então, que até o momento não fizemos aquilo que se chamaria de "descrição da demanda", ou nos meus termos, qual é a pergunta? Qual é a pergunta que define o trabalho? É algo que quem fez ou faz carreira acadêmica fatalmente ouve de seu orientador: Mas qual é a pergunta do seu trabalho? O que ele busca responder? E me parece que o modelo da dissertação ou tese é um bom modelo para pensar o laudo porque afinal, ao se escrevê-lo estar-se-ia defendendo uma tese, uma explicação de um fenômeno psicológico. No nosso caso um fenômeno psicológico que virou foco de um processo jurídico. Penso que depois de identificar as pessoas principais do processo no qual estamos trabalhando, lá no início do laudo, seria interessante explicitar qual é o objetivo do laudo. Ou seja, qual é a demanda da Autoridade Judiciária e a que o laudo psicológico pretende responder. Exemplos abaixo: Exemplo 1 . O objetivo deste laudo é subsidiar V. EXA. em pleito no qual pai solicita VISITA ao casal de filhos: um menino de 7 anos e 11 meses e uma menina de 1 ano e 8 meses. Os filhos estão sob custódia da mãe que tem uma Medida Protetiva contra o ex-companheiro. Em especial este laudo focará duas preocupações centrais de V. EXA. (fl . 101), a saber: 1. É possível dizer se há risco à integridade física e psicológica dos filhos diante da presença do pai? 2. Há ocorrência de alienação parental por parte da mãe em relação ao pai? 13 Exemplo 2. O foco nesta perícia recaiu sobre a questão da guarda do filho de 4 anos e 11 meses e o esquema de VISITA pertinente. Exemplo 3 . O objetivo deste trabalho é subsidiar V. EXA. no julgamento do processo em tela. Por conta da mudança das condições de vida da mãe e REQUERENTE, guardiã da criança de 8 anos e 6 meses, focamos o trabalho na questão emergencial que ora se prefigura: a mudança iminente da mãe para Finlândia e autorização para levar consigo sua filha em contraposição ao pai e REQUERIDO que se opõe a tal mudança. Bem, agora que resolvemos a questão da pergunta podemos nos voltar à resposta que seria a Avaliação Psicológica propriamente dita, ou análise nos termos da Resolução. Ou segundo nossa lista, o quinto item que denominamos "Qual é a Resposta?" Como disse brincando uma colega, se a pergunta é "Qual é esta cor?" Não bastaria responder "branco". Mas justificar porque "branco" e não "verde", "cinza" ou outra cor. E também explicar o que é "branco". Tal como no Laudo Psicológico, abordar a Resposta neste artigo/aula é a parte mais difícil. Como exemplificar a análise que é sempre particular que possa ser aproveitávelpara o outro? A análise diz respeito à teoria e técnica utilizadas pelo psicólogo/pesquisador para obter os seus dados. Contudo, na hora do laudo, o que está em jogo é a habilidade do psicólogo/escritor em bem expor a sua argumentação como o próprio Documento de Referência da categoria diz: O psicólogo, ainda nesta parte , não deve fazer af irmações sem sustentação em fatos e/ou teorias , devendo ter l inguagem precisa, especialmente quando se referir a dados de natureza subjet iva, expressando-se de maneira clara e exata (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA , 2003). 14 O que em Psicologia não é de "natureza subjetiva"? A precisão a que se refere esta passagem somente pode ser alcançada se conseguirmos passar ao leitor a segurança de que o dado de "natureza subjetiva" revela mais da subjetividade de nossos usuários do que as preferências, valores, preconceitos e vieses de nós mesmos. Como fazer? Encontrei uma resposta que me satisfez e pelo qual conduzo a análise em meus laudos em uma indicação de Rovinski (2004, p. 117). A Autora discutindo em sua obra a questão da previsão de risco em uma perícia se refere a Melton e colaboradores (1997) que sugerem uma forma de integrar dois tipos de abordagens: a "atuarial" e a "anamnésica" . A abordagem anamnésica é familiar ao psicólogo que utiliza o método clínico. Trata-se de identificar traços, características e padrões no comportamento do sujeito avaliado. A abordagem atuarial "envolveria predições que explicitamente identificariam os critérios utilizados e a importância dada a cada um; a escolha de cada categoria seria dada por pesquisas empíricas que demonstrassem quais grupos específicos teriam maior risco ". Ora, esta proposta de integração me pareceu promissora, pois se o dado clínico e sua avaliação (que é sempre subjetiva) puder ser corroborada por dados estatísticos, quantitativos por meio de pesquisas empíricas poder-se-ia contornar a questão do subjetivismo sempre presente em uma avaliação psicológica. Como isto funcionaria na prática? Em primeiro lugar, é necessário estar atualizado com as pesquisas relevantes no meio. As pesquisas empíricas confiáveis podem fornecer dados numéricos pelos quais podemos aumentar a convergência de nossos achados e a credibilidade na comunicação. Por exemplo, em um caso recente que atuei uma mãe acusa o pai de ter abusado do filho de 04 anos de idade. Os meus dados clínicos não corroboravam a hipótese de abuso sexual. Em primeiro lugar, em minha casuística tenho mais casos em que a denúncia não se configura do que o inverso. Como este também era o caso, citei o dado estatístico de uma pesquisa que corrobora tal situação: 15 1. Segundo l i teratura disponível, os casos envolvendo abuso sexual de 9.000 famíl ias norte-americanas em disputa de guarda e/ou v is ita fo i de menos de 2%, ou seja, 169 casos. THOENNES, N.; TJADEN, P.G. The extent, nature, and val id i ty of sexual abuse al legat ions in custody/visi ta t ion disputes. In: Chi ld Abuse & Neglect, v. 14, p. 151-163, 1990. Em relação à suposta vítima contrapus os meus achados clínicos (ausência de hiperssexualização, não confirmação verbal do abuso, bom desenvolvimento emocional, cognitivo, social e acadêmico) com resultado de outra pesquisa: 2. No que tange às consequências do abuso sexual , veri f i cam-se reações de ansiedade, pensamentos invasivos, fuga e abandono do lar, problemas legais , tai s como, pequenos furtos; problemas de autoimagem como desvalorização e autoimagem pobre; e dúvidas quanto à orientação sexual (Holmes e S lap, 1998; Kristensen, 1996). Há divers idade de a lterações cognit ivas, emocionais e comportamentais decorrentes do abuso sexual (Borges e Dell ’Agl io, 2008) , entre elas estigmat ização; vergonha; revitimização ou abuso de pares; jogos sexuais envolvimento com brigas e agressividade; comportamentos infanti l i zados; enurese; desatenção; di f i culdades para dormir ; medos específ icos (de escuro, de f icar sozinho) ; aumento de peso; preocupação com limpeza (Kristensen, 1996); problemas sexuais , tais como hipersexualidade e comportamentos sexuais de risco; além de problemas de relacionamento . interpessoal . Além de transtornos disruptivos, foram identi f i cados em meninos vít ima de abuso sexual , quadros de estresse pós-traumático, somatização, paranoia, bul imia, depressão, suicídio, abuso de substância, personal idade antissocial e personalidade borderl ine (Holmes e S lap, 1998). HOHENDORFF, J .V. ; BARESCO, P.D.; HABIGZANG, L.F. ; KOLLER, S .H. Abuso sexual de meninos: uma revisão. In: HABIGZANG, L.F. ; KOLLER, S .H . V iolência contra cr ianças e adolescentes. Teoria , pesquisa e prát ica. Porto Alegre: Artes Médicas , 2012. pp. 107-122. Em relação à família que se apresentava com uma configuração até, então, "normal" contrapus a seguinte afirmação: 3. As famíl ias incestuosas apresentam relações interpessoa is ass imétr icas e hierárquicas, nas quais há uma desigualdade e/ou uma relação de 16 subordinação. KOLLE, 1999; KOLLER & DE ANTONI, 2004; GOLD, HYMAN & ANDRÉS-HYMAN, 2004 apud Habigzang & Kol ler (2011, p. 15) Para apoiar a tese de que o pai não é um abusador fui buscar um outro dado de pesquisa: 4. Blanchard (apud WILLIAMS, 20126, p. 12) aponta do is comportamentos al tamente associados aos sujeitos com prát icas pedofí l icas: aquisi ção de pornografia envolvendo cr ianças e conversas v i rtuais sexuais passando-se por cr ianças. Novamente, não encontramos ta is indíc ios por meio de nossa aval iação. Para propor uma explicação do porquê a mãe teria "visto" o abuso, sugeri que a mãe teria se equivocado e me apoiei em outro dado de pesquisa: 5. Faller e DeVoe (apud Schuman, 1999) encontraram 21% de falsas a legações de uma amostra de 215 casos com alegações de abuso no contexto do divórc io, dos quais class i f icou 16% (ou se ja , 34 casos) como de má- interpretação (misinterpret ions) e apenas 5% de alegações fa lsas intencionais (SHINE, 2003, p. 235 7) . Penso que o laudo psicológico ganhou em consistência e peso no sentido de respaldar as afirmações feitas. Ganhou peso também pelo número de páginas que foram necessárias para colocar todas as referências bibliográficas, mas em certos casos é melhor escrever mais no laudo do que ficar respondendo intermináveis quesitos complementares a posteriori. No fim, a extensão do laudo compensa a economia de tempo nos quesitos ou, o que é pior, no retorno por conta de uma avaliação inconclusiva. Sustento a posição também que ler pesquisas e se atualizar em nossa área, por mais trabalho que dê, além de necessária, tem a vantagem, na condução da avaliação psicológica e na escrita do laudo psicológico de se fazer acompanhar e dividir o peso deste trabalho com os vários autores e pesquisadores que convocamos para nos apoiar. 6 WILLIAMS, L.C.A. Pedof i l ia. Ident if icar e prevenir . São Paulo: Brasi l iense , 2012. 7 SHINE, S. Abuso sexual de c rianças. In: GROENINGA, G.C. ; PEREIRA, R.C. Direito de Famíl ia e Psicanálise: Rumo a uma Nova Epistemologia. Rio de Janeiro: Imago, 2003. pp. 229-251. 17 Obrigado e espero que tenha ajudado. São Paulo, 17 de março de 2014. Revisão final 07.07.14 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERRY, K. K. “The mental health specialist as child advocate in court”. In: TEXTOR, M.R. (ed.) The divorce and divorce therapy handbook. New Jersey: JasonAronson Inc., p. 135-147, 1989. CAMARGO, E. M. V.; ANDERSON, M. C. O estudo social na Vara da Infância e Juventude. In: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. MANUAL DO CURSO DE INICIAÇÃO FUNCIONAL PARA ASSISTENTES SOCIAIS E PSICÓLOGOS JUDICIÁRIOS. São Paulo, p. 69-84, 1993. COLMAN, S. A.; KADRI, A. E. Aspectos do atendimento ao adolescente que pratica delitos. In: TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. MANUAL DO CURSO DE INICIAÇÃO FUNCIONAL PARA ASSISTENTES SOCIAIS E PSICÓLOGOS JUDICIÁRIOS. São Paulo, p. 85-92, 1993. 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