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Teorias do Discurso Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Dr.ª Silvia Albert Prof.ª Dr.ª Ana Lúcia Tinoco Cabral Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Silvia Albert A Análise do Discurso de Linha Francesa: Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau • Pêcheux e o Surgimento da Escola Francesa de Análise do Discurso; • A Análise Semiolinguística de Patrick Charaudeau; • A Análise do Discurso de Dominique Maingueneau. · Conhecer os precursores da análise de discurso de linha francesa e suas perspectivas teórico-metodológicas: Pêcheux, Charaudeau e Maingueneau; · Conhecer os principais conceitos decorrentes de seus estudos: formação discursiva, enunciado; contexto; encenação discursiva; saber partilhado entre sujeitos; noção de contrato e noção de es- tratégia; sujeito comunicante e sujeito interpretante. OBJETIVO DE APRENDIZADO A Análise do Discurso de Linha Francesa: Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE A Análise do Discurso de Linha Francesa: Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau Pêcheux e o Surgimento da Escola Francesa de Análise do Discurso A corrente francesa conhecida como Escola Francesa de Análise do Discurso tem sua origem nos trabalhos de Michel Pêcheux, para quem a linguagem se mate- rializa na ideologia, a qual se manifesta, por sua vez, na linguagem. Do ponto de vista dos estudos de Pêcheux e seus seguidores, o discurso constitui “um efeito de sentidos dentro da relação ente linguagem e ideologia” (SANTOS, 2013, p. 209). O principal objetivo das pesquisas de Pêcheux é explicar “os mecanismos da determinação histórica dos processos de significação” (SANTOS, 2013, p. 209). O objetivo de Pêcheux foi elaborar uma teoria do funcionamento da ideologia. Para ele, a ideologia podia ser compreendida por duas vertentes: o processo produtivo e as relações de produção. O processo produtivo tem um caráter empí- rico, enquanto as relações de produção são de caráter especulativo. Encontra-se nessas duas questões ligadas à ideologia as primeiras ideias relacionadas ao que se tornaria a Análise do Discurso Francesa. Por isso, vamos conhecer um pouco mais sobre essas duas vertentes ou face- tas da ideologia, segundo Pêcheux: • A primeira faceta diz respeito ao processo de produção – a ideologia constitui um processo de recombinação de conceitos operatórios; estes serão separados de suas sequências operatórias e serão reorganizados para com- por um discurso original. • A segunda faceta diz respeito às relações sociais de produção - a ideolo- gia constitui o mecanismo necessário para que se produza e se mantenham as diferenças, também necessárias, ao funcionamento das relações sociais de produção em sociedades de classes. Nesse contexto, o foco encontra-se na diferença “fundamental”: trabalhador e não trabalhador. Para Pêcheux, as relações sociais de produção são descritas como leis imanen- tes a uma determinada formação social; tais relações determinam os discursos. Sendo assim, para esse autor, a produção e distribuição dos significados não per- tencem ao sujeito. Como resultado, o homem é visto por Pêcheux como um animal ecológico que organiza seu meio atribuindo-lhe etiquetas. Por isso, a ideologia tem uma função semântica. Podemos dizer que, para Pêcheux, é a ideologia que atribui sentidos ao mundo. Pêcheux postula que a ideologia tem também uma função sintática, na me- dida em que ela designa a relação entre os significantes. A linguagem torna-se, assim, uma ferramenta manipulada pelo sujeito para exercer sua liberdade atra- vés de seu uso. 8 9 Importante! A partir das propostas de Pêcheux, a linguagem deixou de ser concebida apenas como um sistema de regras formais e passou a ser entendida, em sua prática, como trabalho de um sujeito inserido em um mundo social e ideológico. Importante! Pêcheux considera que o sujeito do discurso não se pertence. O que o constitui é o esquecimento do que o determina. Um conceito chave para essa perspectiva teórico-metodológica é o conceito de formação discursiva (FD), conceito que ele toma emprestado de Michel Foucault (2004). Em Foucault, a formação discursiva diz respeito ao fato de que um grupo de enunciados tem relação com um sistema de regras comuns, histo- ricamente determinadas. Pêcheux dá um novo significado à expressão cunhada por Foucault, trazendo-a para o campo da análise do discurso. Podemos então definir formação discursiva (FD) como sendo “a relação de enunciados com regularidades em relação à linguagem mobilizados em assuntos e posições ideológicas na produção de dizer” (BRASIL, 2011, p. 173). Na análise de discurso, o sujeito é resultado da relação entre história e ideolo- gia. Ele se constitui na relação com o outro e, por isso, não é a origem do sentido. Dessa forma, conforme ensina Brasil (2011), o sujeito está “condenado a signifi- car e é atravessado pela incompletude” (BRASIL, 2011, p. 17). A análise de discurso, dessa perspectiva teórica, preocupa-se em compreender como os processos discursivos são constituídos, isto é, como as formações discursi- vas se constituem. Assista ao vídeo, conheça um pouco mais sobre Pêcheux e retome as principais ideias deste autor. Disponível em: https://youtu.be/NOT4JJVogoQ.Ex pl or A Análise Semiolinguística de Patrick Charaudeau Patrick Charaudeau postula, dentro da análise do discurso de linha francesa, a semiolinguística. Charaudeau considera “o ato de linguagem como produzido por um emissor determinado, em um dado contexto sócio-histórico (CHARAUDEAU, 2016, p. 17). Com base nessa citação, podemos compreender que esse autor entende o texto como resultado de um ato de linguagem, que leva em conta as circunstâncias em que são produzidos os discursos. Isso quer dizer que a análise semiolinguística leva em conta tanto a linguagem como o contexto psicossocial que possibilitam o surgimento dos enunciados tal como eles acontecem. 9 UNIDADE A Análise do Discurso de Linha Francesa:Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau Para esse estudioso, “o processo de comunicação não é resultado de uma úni- ca intencionalidade, já que é preciso levar em consideração não somente o que poderiam ser as intenções declaradas do emissor, mas também o que diz o ato de linguagem da relação particular que une o emissor e o receptor” (CHARAUDEAU, 2016, p. 17). Três questões a considerar dessa perspectiva teórico-metodológica : 1. O ato de linguagem não esgota sua significação de forma explícita; um ato de linguagem pode suscitar diferentes leituras. 2. O emissor é diferente do receptor; este pode construir um sentido diferente do previsto pelo emissor; 3. Os seres têm uma competência para representar o mundo que vai além do ex- plícito linguístico; os seres atribuem sentido ao mundo como uma totalidade que inclui o contexto sócio-histórico e as relações entre emissor e receptor. Vale lembrar ainda, que dessa perspectiva, as circunstâncias do discurso têm a ver com o saber partilhado entre os sujeitos envolvidos no discurso e com a for- ma como eles selecionam a linguagem para conferir um sentido a seus discursos, adaptando-os às práticas sociais e comunicativas. Charaudeau ensina que “a linguagem é produzida de tal forma que acaba sendo marcada pelo selo da discordância e da concordância. Discordância que institui o sujeito falante como sujeito individual; concordância que o institui como sujeito coletivo” (CHARAUDEAU, 2016, p. 20). A Semiolinguística considera o lado coletivo do sujeito falante, que é condicio- nado pela práticas sócio-discursivas. Conforme explica Machado (1992), “a importância do produtor empírico dos enun- ciados não é propositalmente posta de lado (...) nem tampouco é ofuscada por outros elementos (...) tanto o produtor empírico do enunciado como o sujeito efetivo deste fazem parte das preocupações da Semiolinguística” (MACHADO, 1992, p.27). Isso quer dizer que a preocupação recai tanto sobre “o que fala o texto” quan- to sobre “a maneira pela qual o texto fala”. Assim, para realizar uma Análise de Discurso como propõe Charaudeau, é preciso examinar as condições de produ- ção e de existência dos enunciados e os efeitos de sentido também extralinguís- ticos que se busca com o emprego da linguagem. Importante! A análise semiolinguística trabalha com o linguístico e com o extralinguístico. Importante! 10 11 Veja o que explica Machado (1992, p.27) a respeito da teoria de Charaudeau: “o sentido discursivo só é encontrado na reunião/observação de dois espaços, o externo e o interno”. O que realmente isso quer dizer? Vamos entender melhor? O espaço externo é formado pelos elementos da situação de comunicação, que dizem respeito aos elementos psicossociais que conduzem os indivíduos his- tóricos a se comunicarem de determinada forma, estabelecendo “contratos de palavra” para fins comunicativos. É o espaço do fazer. O espaço externo es- tabelece dois sujeitos: um sujeito comunicante e um sujeito interpretante. Machado (1992) cita como exemplos de sujeitos comunicante e interpretante: o es- critor e seus leitores; o conferencista e seu público; o cliente e o vendedor de uma loja. O espaço interno diz respeito aos elementos relacionados à própria linguagem, é o espaço linguístico, ou seja, “o mundo criado pelo uso da linguagem” (MACHADO, 1992, p.27). É o espaço do dizer. No espaço interno circulam dois atores da comu- nicação, ou dois sujeitos: um sujeito enunciador e um sujeito destinatário. Machado (1992) cita como exemplos de sujeitos enunciador e destinatário: o narrador de um conto e seu leitor virtual, o locutor do jornal televisivo e o ouvinte virtual. Para Charaudeau (2016), a finalidade de um ato de linguagem não se encontra apenas na sua configuração verbal, ela deve ser procurada no jogo que determina- do sujeito estabelece entre tal configuração verbal e o seu sentido implícito. Esse jogo depende da relação que os protagonistas do discurso têm entre si e da relação que eles têm com as circunstâncias que os reúnem. Para Charaudeau, todo ato de linguagem tem um caráter intencional. Ele nunca é aleatório, pois ele é produzido com a finalidade de atingir o outro, o sujeito interpretante, a fim de fazê-lo identificar-se com o destinatário ideal do sujeito comunicante. O sujeito comunicante organiza o seu discurso conforme suas possibilidades sociolinguísticas. Isso quer dizer que o ato de linguagem é condicionado tanto pelas competências individuais do produtor como pelas imposições de ordem psicosso- cial que circundam o produtor. Dois conceitos são importantes da Semiolinguística: a noção de contrato e a noção de estratégia. Sendo assim, para que seja bem-sucedido em seu discurso, o sujeito comunicante fará uso de contratos e de estratégias. A noção de contrato, segundo Charaudeau (2016), “pressupõe que os indi- víduos pertencentes a um mesmo corpo de práticas sociais estejam suscetíveis de chegar a um acordo sobre a representações linguageiras dessas práticas so- ciais”. Nesse contexto, o ato de linguagem é compreendido como uma “propo- sição que o EU faz ao TU e da qual ele espera uma contrapartida de conivência” (CHARAUDEAU, 2016, p.56). 11 UNIDADE A Análise do Discurso de Linha Francesa: Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau Vejamos um exemplo citado por Charaudeau: Uma pessoa entre em um bar, senta-se e pede ao garçom: “Uma caipi- rinha, por favor”. De acordo com Charaudeau, é a existência de um “implícito codificado” que faz com que o garçom traga para a pessoa uma bebida e não uma pessoa do sexo feminino vinda da roça. Existe, segundo o autor, “um contrato que coloca as duas partes (cliente e garçom) num mesmo terreno de conivência discursiva e que lhes permite produzir/interpretar caipirinha como bebida” (CHARAUDEAU, 2016, p. 60). Nessa expectativa discursiva, o coletivo está em questão. A noção de estratégia tem a ver com o fato de que “o sujeito comunicante con- cebe, organiza e encena suas intenções de forma a produzir determinados efeitos de persuasão ou de sedução sobre o sujeito interpretante” (CHARAUDEAU, 2016, p. 56). O objetivo é levar o sujeito interpretante a se identificar com o destinatário ideal. É importante deixar claro que a estratégia ocorre mesmo que não seja de modo consciente. Charaudeau (2016) lembra que o discurso político utiliza constantemente estratégias e contrato, no jogo polêmico, para convencer e seduzir o outro. E o trabalho do sujeito interpretante é exatamente explicitar esse contrato e essas estratégias e assim atribuir sentidos ao que ouve e lê. A análise semiolinguística procura dar conta dos possíveis pontos de vista interpretativos tanto do sujeito comunicante quanto do sujeito interpretante. A análise deve ainda dar conta dos processos de produção e de interpretação, procurando extrair constantes e variáveis. Os pontos de vista interpretativos são representações linguageiras das experiências dos indivíduos que pertencem aos grupos correspondentes a determinadas práticas sociais. Esses indivíduos são sujeitos individuais e coletivos, conforme vimos aqui. É importante lembrar que essas representações não são construídas aleato- riamente. Elas são organizadas por meio de elementos de língua, semânticos e formais, os quais são, de acordo com Charaudeau (2016), compostos de várias ordens de organização, ou modos de organização do discurso. São eles: enuncia- tivo, descritivo, narrativo, argumentativo. Cada um desses modos possui uma função de base e um princípio de organização. A função de base diz respeito à finalidade discursiva do projeto de dizer do produtor. Cada um desses modos implica uma organização do mundo referencial, que diz respeito a uma lógica de construção desse mundo, e uma organização de sua encenação. O modo enunciativo tem uma função particular naorganização do discurso. Ele dá conta da posição do locutor em relação ao interlocutor, a si mesmo e aos outros. O modo enunciativo intervém na encenação de cada um dos três outros modos de organização. De acordo com Charaudeau (2016), o modo enunciativo comanda os demais. 12 13 Tabela 1 – Modos de organização do discurso Modo de organização Função de base Princípio de organização Enunciativo · Relação de influência (EU > TU); · Ponto de vista do sujeito (EU > ELE); · Retomada do que já foi dito (ELE). · Posição em relação ao interlocutor; · Posição em relação ao mundo; · Posição em relação a outros discursos. Descritivo · Identificar e qualificar seres de maneira objetiva/subjetiva. · Organização da construção descritiva (Nomear – Localizar – Qualificar); · Encenação descritiva. Narrativo · Construir a sucessão das ações de uma história no tempo, com a finalidade de fazer um relato. · Organização da lógica narrativa (actantes e processo); · Encenação Narrativa. Argumentativo · Expor e provar causalidades numa visada racionalizante para influenciar o interlocutor. · Organização da lógica argumentativa; · Encenação argumentativa. Fonte: CHARAUDEAU, 2016, p.75 Um conceito importante na Semiolinguística é a noção de encenação discur- siva. Vejamos o que diz o próprio Charaudeau a sobre esse conceito: O locutor, mais ou menos consciente das restrições e da margem de manobra proposta pela Situação de comunicação, utiliza categorias de língua ordenadas nos Modos de organização do discurso para produzir sentido, através da configuração de um Texto. Para o locutor, falar é, pois, uma questão de estratégia, como se ele perguntasse: ‘como é que eu vou / devo falar (ou escrever), levando em conta o que percebo do interlocutor, o que imagino que ele percebe e espera de mim, do saber que eu ele temos em comum, e dos papéis que eu e ele devemos desempenhar’. Devemos considerar então, com Charaudeau (2016), que organizamos nossos discursos em função da nossa própria identidade, da imagem que temos do nosso interlocutor e do que já foi dito. Assista à entrevista e aprenda com o próprio Patrick Charaudeau sobre o significado de “cenografia” na sua teoria de análise do discurso. Disponível em: https://youtu.be/ow8zFSqZX1E. Ex pl or A Análise do Discurso de Dominique Maingueneau Conforme explica Maingueneau, o ponto de vista da análise do discurso por ele adotado não “apreende nem a organização textual em si mesma, nem a situação de comunicação, mas procura associá-las intimamente” (MAINGUENEAU, 2000, p.12). Os textos para Maingueneau devem ser estudados: 13 UNIDADE A Análise do Discurso de Linha Francesa: Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau como uma atividade enunciativa ligada a um gênero do discurso: o lugar social do qual ele emerge, o canal por onde passa (oral, escrito, televisi- vo...), o tipo de difusão que implica, etc., não são dissociáveis do modo como o texto se organiza. O analista do discurso pode tomar como base de trabalho um gênero de discurso (uma consulta médica, uma aula de língua, um debate político na televisão...), ou um setor do espaço social (um serviço de hospital, um café, um estúdio de televisão...), ou ainda um campo discursivo (político, científico...); mas ele só parte de um gênero para situá-lo em seus lugares, e só delimita um lugar para exami- nar que gênero(s) de discurso lhe é(são) associado(s). (MAINGUENEAU, 2000, p.12) Dois conceitos chave na análise de discurso, de acordo com Maigueneau (2000), são, respectivamente, os conceitos de enunciado e de contexto. Para esse linguista, “compreender um enunciado (...) é mobilizar saberes mui- to diversos, fazer hipóteses, raciocinar, construindo um contexto que não é um dado preestabelecido e estável” (MAINGUENEAU, 2000, p.20). Por isso, o sen- tido do enunciado não se estabelece fora do contexto, nem pode ser fixo, inde- pendente da situação em que ele se insere. Para Maigueneau, “fora de contexto, não podemos falar realmente do sentido de um enunciado” (MAINGUENEAU, 2000, p.20). Tomemos como exemplo: – Fogo! Sem conhecimento do contexto de emprego desse enunciado, não podemos estabelecer o seu sentido, que pode variar. Vejamos algumas possibilidades. Imagine que você está assistindo a um campeonato de tiro. Que sentido toma o enunciado: – Fogo! Proferido pelo juiz da competição. Nesse contexto, o enunciado expressa a autorização para os concorrentes atirarem. As pessoas da plateia, que assistem ao campeonato, permanecerão em seus lugares, prestando atenção ao campeonato. Agora imagine o enunciado: – Fogo! Proferido por alguma pessoa no meio de uma sala de espetáculo. Será um alerta de que está ocorrendo ou se iniciando um incêndio. Provavelmente, toda a plateia vai se apressar para sair do ambiente. Agora imagine dois estudantes discutindo sobre a prova de Linguística. Um pergunta ao outro o que achou da prova e o outro responde: – Fogo! 14 15 Certamente, o estudante não está relatando que houve um incêndio durante a prova, mas que a prova estava difícil. Fogo nesse contexto é uma espécie de gíria, que foi bastante usada, mas talvez atualmente seja desconhecida para várias gera- ções. Costumava-se dizer de alguém que tinha um temperamento difícil: ─ Nossa! Essa professora é fogo! (o que significaria: ser difícil, exigente etc.) Outro conceito central nos ensinamentos de Maingueneau é o conceito de discurso. Vamos ver a seguir oito principais ideias de Maingueneau em torno do conceito de discurso. 1. O discurso é uma organização situada para além da frase (MAINGUENEAU, 2000, p. 52). O que Maingueneau quer dizer é que o discurso mobiliza estruturas de ou- tra ordem, diferente das estruturas da frase e não que o discurso tenha de ser necessariamente mais extenso do que uma frase. Uma placa em uma biblioteca : • SILÊNCIO! Figura 1 Fonte: iStock/Getty Images A placa é composta de uma só palavra e, mesmo assim é um discurso, pois funciona como uma advertência aos usuários da biblioteca, mostrando que na- quele lugar deve-se fazer silêncio, o que mostra que aí está embutida também uma ordem. Todas essas informações vão além da frase silêncio e a elas chama- mos de discurso. Ficou mais fácil compreender? Vamos ver outro exemplo? O provérbio “Em casa de ferreiro o espeto é de pau”, é constituído por uma frase apenas, e é um discurso. Para entendê-lo é necessário fazer algu- mas inferências e contar com uma boa dose de conhecimentos prévios: saber que os provérbios são ditos populares, cristalizados pelo uso da língua e em geral representam uma sabedoria popular, ou seja, são baseados em expe- riências vividas e são passados de geração em geração, além de fazer parte de determinada cultura. Além disso, para entender esse provérbio é preciso saber o que faz o ferreiro, para dar sentido à afirmação “o espeto é de pau”. 15 UNIDADE A Análise do Discurso de Linha Francesa: Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau Maingueneau (2000, p.52) ensina que os discursos “estão submetidos a regras de organização vigentes em um grupo social determinado. Veja como falamos que os provérbios circulam/pertencem a determinada cultura e a uma dada esfera social etc. É nesse sentido que o discurso está sujeito a regras dife- rentes das regras que regem a construção das frases. 2. O discurso é orientado (MAINGUENEAU, 2000, p. 52). Maigueneau ensina que o discurso se desenvolve no tempo, de maneira linear. Além disso, ele é construído visando a determinado fim, ele tem uma função e é dirigido a algum lugar. O discurso é construído, também, a partir de uma tomada de posição assumida pelo locutor, ele traz, então, o ponto de vista de um locutor. 3. O discurso é uma forma de ação (MAINGUENEAU,2000, p. 53). Falar constitui uma forma de agir sobre o outro. Essa ideia foi posta pelos filósofos Austin e Searle na década de 1960 do século XX. A ideia defendida por esses filósofos é de que “toda enunciação constitui um ato (prometer, sugerir, afirmar, interrogar, etc.) que visa modificar uma situ- ação” (MAINGUENEAU, 2000, p.53). É nesse sentido que dizemos que falar é agir. 4. O discurso é interativo (MAINGUENEAU, 2000, p. 53). Toda atividade verbal implica uma troca de propósitos, uma interação en- tre dois parceiros do jogo discursivo, do qual participam Eu-Você. Esses dois parceiros estão em constante troca, e também troca de papéis: ora um é o locutor, e o outro o interlocutor; depois o segundo assume o papel de locutor e o primeiro de interlocutor. Como lembra Maingueneau, as conversas orais são a maior prova do caráter interativo do discurso, mas não apenas elas, pois mesmo no discurso escrito, mais solitário, o produtor sempre tem em mente um leitor, um interlocutor, portanto, a quem se dirige e com quem compartilha conhecimentos. 5. O discurso é contextualizado (MAINGUENEAU, 2000, p. 54). Segundo Maingueneau, só existe discurso contextualizado. O contexto, para este autor, não é um cenário ou uma moldura para o discurso, na verdade o contexto é decisivo para o discurso, porque só se pode atribuir sentido ao discurso se considerarmos o contexto. Vimos anteriormente com o enunciado “Fogo!” como o contexto é constitutivo do sentido do discurso. Maingueneau ensina também que “o discurso contribui para definir seu contexto, podendo modificá-lo no curso da enunciação” (MAINGUENEAU, 2000, p.54-55). 16 17 6. O discurso é assumido por um sujeito (MAINGUENEAU, 2000, p. 55). De acordo com Maingueneau (2000, p.55), “o discurso só é discurso en- quanto remete a um sujeito, um EU, que se coloca como fonte de referên- cias pessoais, temporais, espaciais.” Esse sujeito assume um posicionamento sobre o conteúdo do que diz e diante do seu interlocutor. 7. O discurso é regido por normas (MAINGUENEAU, 2000, p. 55). O discurso, sendo uma atividade verbal, é regido por normas, ou seja, há regras que constrangem o discurso. Assim, por exemplo, uma ordem segue algumas normas: no contexto em que a ordem é proferida, é preciso que a pessoa que expresse a ordem tenha o poder que ordenar e que a pessoa a quem a ordem se dirija esteja numa posição hierarquicamente inferior à do locutor da ordem. 8. O discurso é considerado no bojo de um interdiscurso (MAINGUENEAU, 2000, p. 55). Maigueneau (2000, p.55) ensina: “O discurso só adquire sentido no inte- rior de um universo de outros discursos”. Isso quer dizer que, para interpretar um discurso, precisamos relacioná-lo a outros discursos com os quais ele dialoga de alguma forma. Assista ao vídeo, retome os conceitos de discurso com o professor Dominique Maingueneau e refl ita com ele sobre as implicações para o ensino. Disponível em: https://youtu.be/_VrkkZ_WiE8. Ex pl or 17 UNIDADE A Análise do Discurso de Linha Francesa: Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura A análise de discurso em suas diferentes tradições intelectuais: o Brasil Leia este texto da professora Eni Orlandi e aprenda mais sobre a Análise do discurso na visão de Pêcheux. https://goo.gl/D5qM2u Uma análise semiolingüística do texto e do discurso Leia o seguinte artigo que apresenta aspectos da metodológicos da análise semiolin- guística de Patrick Charaudeau. https://goo.gl/iqa57b Gênese dos discursos Leia a resenha da obra de Maingueneau “Gênese dos discursos”. https://goo.gl/66erVA O que pesquisam os analistas do discurso? Leia este texto e aprenda com o professor Dominique Maingueneau o que pesquisam os analistas do discurso. https://goo.gl/81HiGq Michel Pêcheux e a análise de discurso Leia esse texto sobre Pêcheux, de Eni Orlandi, bom para consulta. https://goo.gl/o2KJvp 18 19 Referências BRASIL, L. L. Michel Pêcheux e a teoria da análise de discurso: desdobramentos importantes para a compreensão de uma tipologia discursiva. In: Linguagem Estu- dos e Pesquisa, vol. 5, n. 1, p. 171 –m182, jan/jun 2011. UFG Campus Catalão. Disponível em: <https://www.revistas.ufg.br/lep/article/viewFile/32465/17293>. CHARAUDEAU, P. Linguagem e discurso modos de organização. São Paulo: Contexto, 2016. FOUCAULT, M. Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense, 2004. MACHADO, I. L. A Semiolinguística de Patrick Charaudeau: uma interessante opção de análise discursiva. In: Contexto, n. 1 – 2, 1992, p. 26-31. Disponível em: <http://periodicos.ufes.br/contexto/article/view/7041/5176>. Acesso em: 31/07/2018. SANTOS, S. S. B. Pêcheux. In: OLIVEIRA, Luciano A. (org.) Estudos do Dis- curso perspectivas teóricas. São Paulo, Parábola, 2013, p. 209 – 233. SILVA, J. O. Da. Charaudeau. In: OLIVEIRA, Luciano A. (org.) Estudos do Dis- curso perspectivas teóricas. São Paulo, Parábola, 2013, p. 235 – 260. SOARES, A. F.; Sella, A. F.; Costa-Hübes, T. Maingueneau. In: OLIVEIRA, Luciano A. (org.) Estudos do Discurso perspectivas teóricas. São Paulo, Parábola, 2013, p. 261 – 279. 19 UNIDADE A Análise do Discurso de Linha Francesa: Pêcheux, Maingueneau, Charaudeau 20