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GUIA DO TUTOR
Volume 1
Língua Portuguesa
3ª série do Ensino Médio
Entre Jovens 3ª série do Ensino Médio: guia do tutor língua portuguesa.
– São Paulo: Instituto Unibanco/CAEd, 2013.
212 p.; Vol I
Coordenação do material
Juliana Irani do Amaral
Pesquisa e conteúdo
CAEd – Centro de Políticas Públicas e Avaliação 
da Educação
Consultoria responsável
CAEd – Centro de Políticas Públicas e Avaliação 
da Educação
Agradecimentos especiais
Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, 
Secretarias de Estado de Educação do Rio de Janeiro, 
São Paulo, Espírito Santo e Minas Gerais e escolas 
parceiras que contribuíram para a testagem e validação 
da Metodologia Entre Jovens.
Realização
Instituto Unibanco
Presidência
Pedro Moreira Salles
Vice-Presidência
Pedro Sampaio Malan
Conselho
Antonio Matias
Cláudio de Moura Castro
Cláudio Luiz da Silva Haddad
Marcos de Barros Lisboa
Ricardo Paes de Barros
Tomas Tomislav Antonin Zinner
Thomaz Souto Corrêa Netto
Wanda Engel
Diretoria Executiva
Fernando Marsella Chacon Ruiz
Gabriel Amado de Moura
Jânio Gomes
José Castro Araujo Rudge
Leila Cristiane B. B. de Melo
Luis Antônio Rodrigues
Marcelo Luis Orticelli
Superintendência Executiva
Ricardo Henriques
Gerência de Implementação de Projetos
Tiago Borba
Gerência de Desenvolvimento e Conteúdo
Marta Grosbaum
Gerência de Gestão do Conhecimento
Mirela de Carvalho
Gerência de Administração e Finanças
Fábio Santiago
Assessoria de Assuntos Estratégicos
Christina Fontainha
Assessoria de Comunicação
Marina Rosenfeld
Assessoria de Voluntariado
Fabiana Mussato
SUMÁRIO
Apresentação
A LEITURA NA ESCOLA: por uma concepção de texto e leitor
OFICINA 1
O TEXTO ARGUMENTATIVO: um diálogo sobre o valor do conhecimento 
e da leitura
OFICINA 2
O TEXTO ARGUMENTATIVO: analisando a estrutura de argumentações
OFICINA 3
A NARRATIVA LITERÁRIA: contos brasileiros
OFICINA 4
A NARRATIVA LITERÁRIA: o conto contemporâneo
OFICINA 5
LENDO POEMAS E FALANDO DE POESIA
OFICINA 6
A POESIA MODERNISTA
OFICINA 7
O TEXTO EXPOSITIVO: divulgando a ciência
OFICINA 8
A CRÔNICA: um olhar sobre o cotidiano
MATRIZ DE REFERÊNCIA DE LÍNGUA PORTUGUESA DO SAEB PARA 
A 3ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO
9
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43
67
91
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143
163
185
207
APRESENTAÇÃO
Caro tutor, 
Este caderno pretende auxiliá-lo na tarefa de conduzir oficinas de Língua Portuguesa, como 
atividade de tutoria a alunos da terceira série do Ensino Médio da rede pública de ensino. 
São oito oficinas que têm a leitura como sua principal atividade. Acreditamos que a leitura 
deve estar no centro da atividade escolar. São muitos os dados – de avaliações externas e 
pesquisas – que nos mostram a ainda baixa proficiência em leitura de nossos jovens, não 
obstante os muitos anos de permanência na escola. A dificuldade de interpretar os textos que 
circulam na sociedade e na escola ajuda a explicar a própria resistência à leitura que nossos 
alunos costumam tão frequentemente manifestar. Esse quadro tem, sem dúvida, reflexos no 
seu desempenho escolar.
Nas oficinas propostas, portanto, sua tarefa principal será “ensinar a ler”. O que significa, para 
nós, ensinar a ler? Significa desenvolver habilidades e estratégias de leitura, significa ensinar os 
alunos a agirem como agem leitores mais experientes, mais proficientes. Trabalhar com textos 
é a melhor forma de ensinar Língua Portuguesa. Conforme você verá, muitos conhecimentos 
sobre a nossa língua serão trabalhados nas oficinas. Também a partir da leitura de textos, os 
alunos serão convidados a conhecer nossa literatura, do passado e do presente. É ainda a 
atividade de leitura que permitirá aos alunos refletir sobre como se organizam vários gêneros 
textuais, e essa reflexão é fundamental para realizar outra importante tarefa das oficinas: a de 
ensinar a escrever textos. 
As oficinas foram organizadas a partir de uma tipologia de textos: argumentativos, narrativos, 
expositivos, instrucionais, poéticos. Nosso material de leitura traz textos de opinião, editoriais 
de jornais, crônicas, notícias, reportagens, textos publicitários, contos, poemas etc. Procuramos 
incluir uma variedade de textos por acreditarmos também que há estratégias específicas para 
abordarmos gêneros específicos. Na medida do possível, procuramos organizar as oficinas 
fazendo dialogar textos sobre um mesmo tema. Essa é uma forma de construir espaços nos 
quais a leitura esteja no centro de um diálogo sobre questões importantes para nós e para 
nossa sociedade.
Para a leitura dos textos, elaboramos um conjunto de “atividades de leitura”, cuja finalidade é 
ajudá-lo a mediar o contato do aluno com os textos, apontando para as pistas relevantes que 
guiam a construção de sentidos que é a leitura. Acreditamos que esse exercício de diálogo 
atento com o texto, inicialmente conduzido por um mediador mais experiente, possa oferecer 
aos nossos leitores em formação instrumentos para que se tornem leitores mais atentos, 
estratégicos e autônomos.
Para ajudar a organizar seu trabalho, cada unidade subdivide-se nas seguintes seções:
1. Objetivos da oficina – em que se listam os objetivos do trabalho naquela 
oficina.
2. Textos para leitura – onde são apresentadas “breves leituras” dos textos 
selecionados, com indicação de aspectos relevantes de sua organização 
estrutural e dos recursos linguístico-discursivos utilizados.
3. Roteiro para o trabalho nas oficinas – onde se descreve, passo a 
passo, a dinâmica da oficina.
4. Atividades de leitura (comentadas) – onde se apresentam as atividades 
de leitura a serem feitas pelos alunos, preferencialmente por escrito, 
com a mediação do tutor. São questões de leitura que visam “modelar” 
estratégias de leitor proficiente. Nessa seção, abaixo de cada atividade, 
são apresentadas “possibilidades de respostas”. Incluímos também, a 
cada questão, os respectivos “descritores”1.Devem ser observados, ainda, 
os comentários relativos ao propósito das questões propostas.
Gostaríamos de esclarecer, no entanto, que:
•	 As “leituras” dos textos, apresentadas na seção 2, são apenas uma das 
leituras possíveis para o texto proposto. Conforme veremos adiante, 
ao discutirmos a concepção de texto e leitor que fundamenta este 
material, um texto pode ser lido de formas diferentes. Nosso propósito, 
ao apresentar uma leitura comentada, fundamenta-se, basicamente, na 
necessidade de apontarmos, nos textos em questão, aspectos relevantes 
de sua macro e microestrutura, de modo a possibilitar o estudo do gênero 
e o desenvolvimento das habilidades a ele relativas.
•	 Os roteiros apresentados são também sugestões que procuram dinamizar 
o trabalho, propondo atividades em grupo ou individuais, leitura silenciosa 
ou em voz alta etc. O tutor deve considerar o andamento das oficinas ao 
seguir o roteiro. No entanto, nosso propósito de desenvolver habilidades 
de leitura não pode prescindir do contato pessoal, individual do aluno 
com o texto, contato que deve ser mediado pelo tutor.
•	 As atividades de leitura – seção 4 – incluem, no caderno do tutor, 
“possibilidades de respostas”. Insistimos em uma concepção de leitura que 
considera a atuação subjetiva do aluno leitor, que deve apresentar 
“suas respostas” e fundamentá-las. Desse modo, o tutor, diante das 
variedades de leituras que possam surgir, deve estar atento à forma como 
os alunos dialogam com o texto, procurando reconhecer as pistas que 
eles consideraram ou mesmo as que deixaram de considerar. Em resumo, 
as respostas às atividades de leituraapresentadas neste caderno não são 
as únicas autorizáveis.
Para realizarmos um bom trabalho, é importante considerarmos, ainda, as orientações que se 
seguem a cada atividade de leitura. A indicação dos descritores aponta para as habilidades de 
leitura em foco em cada uma das questões. Essa informação é complementada por comentários 
que pretendem explicitar o propósito das atividades de leitura, bem como mostrar como essas 
1 Descritores da Matriz de Referência de Língua Portuguesa do Saeb 2001 para o 3º ano do Ensino Médio (em anexo)
atividades estão relacionadas numa sequência que pretende “guiar” o leitor no seu exercício 
de identificar as pistas de leitura relevantes. Muitas questões, por exemplo, chamam a atenção 
para o título dos textos, propõem a relação do título com outra informação textual. Outras 
apontam para escolhas lexicais e gramaticais discursivamente relevantes etc. 
Em algumas oficinas, propomos atividades de produção de textos após as atividades de 
leitura. Escrever é uma atividade que demanda um tempo maior. Sugerimos que o tutor oriente 
a escrita dos alunos, a partir das sugestões apresentadas no guia, e que eles desenvolvam 
seus textos como atividade de casa, caso não haja tempo para fazê-lo durante a oficina. De 
qualquer forma, é imprescindível que o tutor dedique algum tempo à correção/comentários 
dos textos com os alunos, o que poderá ser feito durante as oficinas, enquanto o grupo realiza 
suas tarefas. 
Por fim, este caderno traz também um texto que apresenta a concepção de texto e leitor que 
fundamenta essa prática e discute o papel do professor no ensino da leitura. Trata-se de uma 
leitura essencial para que você, tutor, possa compreender a importância de seu papel como 
mediador nas atividades de leitura propostas nas oficinas.
Acreditamos que, nessas oficinas de leitura, os alunos possam, com a sua ajuda, aprender 
a ler de forma mais competente. Acreditamos também que esse aprendizado possa, pelo 
enfrentamento das dificuldades, revelar aos jovens o prazer de ler. 
Bom trabalho!
Este texto pretende discutir o aprendizado da leitura na escola, assumindo uma concepção 
de texto e leitor que sustente a prática de leitura que propomos para a formação de jovens 
leitores, estudantes de nossas escolas públicas de ensino básico.
A experiência nos tem mostrado que a distância entre o jovem e a leitura pode ser diminuída 
se a atividade de ler deixar de ser tão trabalhosa – o que requer aprendizado sistemático – 
e for reconhecida pelos alunos, com a ajuda da escola, como uma atividade necessária nas 
complexas sociedades letradas que construímos. Por outro lado, a leitura pode tornar-se, além 
de uma atividade reconhecidamente necessária, uma atividade divertida, prazerosa. Acreditamos 
que a escola ensina a gostar de ler quando se compromete em fazer de seus alunos leitores 
mais competentes e, ao mesmo tempo, cria espaços de diálogo com textos que oportunizem 
experiências de reflexão e cidadania, contextualizando as práticas de leitura.
Para que esse projeto de formação de leitores se consolide é necessário que a leitura esteja 
no centro da prática escolar, constituindo-se mesmo no eixo que poderá promover o diálogo 
tão necessário entre as disciplinas curriculares (Kleiman & Moraes 1999). Particularmente, nas 
aulas de Língua Portuguesa, o olhar do “especialista”, ou seja, do professor de linguagem, deve 
organizar e promover práticas de leitura que permitam desenvolver nos leitores em formação 
“habilidades de leitor proficiente”. (Kato 1985; Kleiman 1989). A aquisição de habilidades 
para abordar os mais diferentes gêneros de texto, por outro lado, requer sistematicidade na 
organização do planejamento da disciplina, e o professor tem um papel central na formação 
do leitor, particularmente na tarefa de mediar as atividades de leitura formulando questões que 
“guiem” os leitores nesse percurso de aprendizagem. 
Um projeto dessa natureza prevê a adoção de novas categorias para a organização de um 
programa sistemático da disciplina Língua Portuguesa que, acreditamos, seja eficiente para a 
constituição de leitores competentes: um programa que considere, inicialmente, uma tipologia 
de textos e alcance, ao fim, o estudo dos recursos linguístico-discursivos mais diretamente 
associados a cada um dos diferentes gêneros elencados. 
Um bom programa poderia organizar-se, por exemplo, a partir dos seguintes tipos de textos: 
narrar, relatar, instruir, expor, argumentar. Dessas seis categorias derivam subcategorias de 
gêneros: editoriais, cartas de leitor, textos de opinião, ensaios, que compõem a categoria 
“argumentar”; contos, crônicas, romances, novelas, que compõem a categoria “narrar”; 
notícias, reportagens, biografias, que compõem a categoria “relatar” etc.2 
2 A categorização que propomos distingue os gêneros do “narrar” como aqueles pertencentes ao universo da ficção, da história 
“inventada”, e os do “relatar” como gêneros relativos ao fato ocorrido, “real”. Essa diferenciação tem se mostrado eficiente para os 
propósitos didáticos de ensino da leitura a partir de uma tipologia de textos. Para uma introdução à teoria dos gêneros, sugerimos 
MEURER, BONINI & MOTTA-ROTH 2005).
A LEITURA NA ESCOLA
por uma concepção de texto e leitor
Esse tipo de programa, conforme podemos observar, possibilita alterar a organização curricular 
por conteúdos e coloca o estudo da teoria, da metalinguagem – que por muito tempo ocupou 
posição central no ensino de linguagem – em posição de menor evidência, reconhecendo nesse 
estudo uma função secundária na tarefa de construção de usuários eficientes da língua. 
O projeto de transformar nossos programas de Língua Portuguesa em programas ocupados 
essencialmente com o ensino da leitura nos parece duplamente eficiente: ler e aprender a ler na 
escola é um projeto que pode fazer sentido para os jovens, que costumam queixar-se, bastante 
lucidamente, da falta de sentido da escola. E, o mais importante, responde a uma urgência 
num país que precisa ampliar o acesso à leitura e melhorar seus índices de proficiência.
Qualquer projeto que pretenda formar leitores hábeis e autônomos exige sistematicidade e uma 
formação especializada para a leitura e para o ensino de leitura. Nesse sentido, recuperamos 
brevemente, na seção seguinte, algumas contribuições teóricas que acreditamos já bastante 
conhecidas pelos professores que atuam na escola básica e por estudiosos interessados na 
leitura e no ensino da leitura. São teorias que contribuíram para embasar muitos dos textos 
oficiais que nos servem como parâmetros para a organização de nossos programas de ensino de 
Língua Portuguesa e que têm aqui a função de fundamentar a prática de leitura que propomos. 
Contribuições teóricas: 
por uma concepção de texto e leitor
São premissas fundamentais do trabalho com leitura que propomos: I) a leitura é uma 
construção subjetiva de sujeitos leitores que atuam sobre o texto a partir de um conjunto de 
conhecimentos acumulados; II) o significado, portanto, não está no texto, o texto nos oferece 
um conjunto de pistas que guiam o leitor na tarefa de construção de sentido que é a leitura; 
III) além de atividade cognitiva, a leitura é também empreendimento interativo mediado pelo 
texto, que permite o diálogo com um interlocutor ausente.
A adesão a essas postulações teóricas tem implicações óbvias para o trabalho do professor. A 
primeira delas diz respeito a uma prática ainda corrente que cerceia os processos de leitura 
em sala de aula ao impor como correta ou mais autorizável a leitura do professor ou do livro 
didático. Essa prática aponta para uma concepção de leitura radicalmente diversa da que aqui 
assumimos. Os livros didáticos costumam indicar, nos manuais do professor, a “resposta certa” 
nas atividades de leitura e, em muitos casos, as respostas do livro didático são apontadas 
como a únicaleitura possível. O resultado mais prejudicial disso é que, ao assumir esse tipo 
de procedimento, o professor estará inibindo o exercício de interação dos alunos com o texto, 
exercício que, envolvendo “acertos” e “erros”, deve constituir o centro do trabalho do professor 
de linguagem. 
O ensino da leitura prevê o exercício cotidiano daquilo que faz um leitor proficiente quando lê: o 
exercício de levantar hipóteses e checá-las, o exercício de confirmar ou descartar hipóteses iniciais, o 
de retornar a partes dos textos ou mesmo relê-lo para refinar a compreensão, o exercício de inferir 
o significado de termos desconhecidos em atenção ao contexto local, o exercício de selecionar 
as pistas relevantes que podem melhor guiar os leitores na tarefa de construir sentido. Toda essa 
fecunda atividade costuma ser anulada nas aulas de leitura que sobrepõem as “leituras autorizadas” 
àquelas que nossos alunos nos oferecem a partir de seus conhecimentos e experiências ou mesmo 
de suas possibilidades de interação com os textos que lhes apresentamos. 
Não estamos assumindo com isso que toda leitura produzida na sala de aula seja autorizável 
e deva ser acatada sem questionamentos pelo professor. Há certamente leituras que os textos 
não autorizam, ou seja, aquelas que não encontram fundamentação suficiente nas pistas 
textuais. Um rico exercício de leitura, a propósito, é justamente o de solicitar que os alunos 
fundamentem as leituras feitas. Em alguns casos, o resultado desse exercício será o descarte, 
pelo aluno, de sua construção inicial. Em outros casos, porém, o professor poderá perceber 
uma possibilidade de leitura ainda não cogitada por ele, professor, ou mesmo uma contribuição 
coerente com o processo de maturação de determinado leitor ainda em formação3. 
Essa compreensão da leitura como empreendimento cognitivo e interacional que estamos 
assumindo tem, ainda, implicações relativas ao arranjo do espaço interativo onde se produzirão 
as leituras que pretendem formar leitores. A sala de aula deverá constituir-se num espaço 
de interação em que os textos circulem e sejam objeto de leitura compartilhada. Os alunos 
partilham suas leituras entre si e com o professor. Este, no entanto, tem um papel definido no 
processo: o de mediar os processos de construção de sentido, de modo a “guiar” o leitor em 
formação em seu percurso de aprendiz. Através de exercícios sistemáticos (como o de localizar 
informações, o de levantar hipóteses e confirmá-las, o de produzir inferências, o de relacionar 
informações etc), o professor vai modelando estratégias metacognitivas de abordagem do 
texto (Kleiman 1993), ou seja, vai possibilitando que o jovem leitor aprenda a proceder como 
os leitores mais experientes.
Nessa atividade de interação do aluno com o texto, o professor deve atuar, acima de tudo, 
fazendo perguntas, de modo que os alunos recuperem pistas relevantes, questionem-se sobre 
avaliações ou hipóteses equivocadas, corrijam rumos. É bastante comum que nós, professores, 
diante das dificuldades de nossos alunos, leiamos para eles, oferecendo as respostas, o que deve 
ser evitado. Aprender a ler exigirá exercício, envolverá trabalho. Daí a importância da leitura 
silenciosa, do contato solitário do aluno com o texto, que, em seu esforço de compreensão, 
deverá, por sua vez, ser estimulado a fazer perguntas. Por outro lado, em alguns casos, a 
leitura em voz alta pelo professor pode ter o seu lugar. Uma formação para o ensino de leitura 
é fundamental para que o profissional possa tomar decisões a respeito dessas e de outras 
estratégias pedagógicas. 
É importante que o professor esteja atento também a uma prática bastante comum em aulas 
de leitura como as que aqui estamos propondo. O professor deve cuidar para que suas aulas de 
leitura não se transformem em debates que abandonam o texto e passam a discutir os temas 
em questão sem dar atenção à “voz” do autor. O aluno deve interagir autonomamente com os 
textos que lê, o que implica, exatamente, uma “escuta” atenta que leve em conta as sinalizações 
várias que o texto oferece para que possamos depreender sua intenção comunicativa e com 
ele dialogar.
Acreditamos que é esse exercício cotidiano, focado no desenvolvimento de habilidades de 
leitura, que garantirá a formação de leitores competentes, proficientes. Acreditamos também 
que esse trabalho é resultado de um trabalho sistemático que considere as particularidades de 
determinados tipos e gêneros de textos. 
3 A sala de aula pode, dessa forma, constituir-se num espaço privilegiado de investigação, de pesquisa, que permite ao professor 
refletir sobre suas práticas e sobre os processos de aprendizagem da linguagem.
Referências bibliográficas
MEURER, J. L.; BONINI, A. & MOTTA-ROTH, D. Gêneros – teorias, métodos e debates. São 
Paulo: parábola Editorial, 2005.
KLEIMAN, A. B. & MORAES, S.E. Leitura e Interdisciplinaridade: tecendo redes nos projetos da 
escola. Campinas, SP: Mercado das Letras, 1999.
KLEIMAN, A. B. Leitura: Ensino e Pesquisa. São Paulo: Pontes, 1989.
KLEIMAN, A. B. Oficina de leitura: teoria e prática. Campinas, SP: Pontes, 1993.
KOCH, I. V & ELIAS, V. M. Ler e compreender – os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2006. 
KOCH, I. V. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto
O TEXTO ARGUMENTATIVO
um diálogo sobre o valor do conhecimento e 
da leitura
OFICINA 1
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1. OBJETIVOS
1. Motivar os alunos para as oficinas do projeto.
2. Promover uma discussão sobre o valor do conhecimento e da leitura.
3. Desenvolver a habilidade de ler argumentações.
4. Introduzir o estudo sistemático da argumentação, trabalhando as noções 
de tese e argumento.
2. TEXTOS PROPOSTOS PARA LEITURA
Texto I – “Ensinando a voar” – Gilberto Dimenstein
O texto de Gilberto Dimenstein reúne dois relatos de vida, conta as histórias de Expedito 
Resende, um cientista brasileiro hoje reconhecido por suas invenções, e de seu pai José Parente, 
“inventor do inventor.” Os relatos ocupam as quatro primeiras partes do texto e, na última, 
o autor constrói uma breve argumentação, tomando os relatos como evidências de sua tese 
(ou de suas teses): “Envolvimento na educação dos filhos, culto ao empreendedorismo e 
reverência ao aprendizado são formas para se evitar a marginalidade”; “Nosso problema não é 
de maioridade penal, mas de menoridade dos adultos”. 
O texto pode ser lido a partir de diferentes enfoques: como um relato que evidencia a importância 
da família na educação dos filhos; como um relato que ilustra que, com esforço, podemos 
alterar os rumos de nossa vida etc. No entanto, há pistas que nos permitem identificar um tema 
como sendo bastante central: recorrem no texto proposições sobre o “valor do conhecimento”. 
Consideremos algumas: “o gosto pelo conhecimento é a maior herança que posso deixar”; “a 
maior riqueza está dentro da cabeça”; “ficou arraigada em todos nós aquela reverência pelo 
saber”; “Voltou para o Ceará, fascinado pelo encanto dos experimentos químicos.” Observe-
se que a primeira afirmação ganha, inclusive, destaque em negrito no texto. O apreço, a 
“reverência” pelo saber mudou a vida de José Parente e de seu filho Expedito e, por outro 
lado, o conhecimento produzido por Expedito irá promover mudanças positivas no mundo. 
É interessante observar a importância do personagem do pai, “o grande inventor”, já que ele 
“ajudou a inventar o inventor”. 
Outro dado importante a ser observado é a afirmação do último período: “Nosso problema 
não é de maioridade penal, mas de menoridade dos adultos”. Na época, estava em debate, no 
Brasil, o tema da redução da maioridade penal. Essas pistas nos permitem dizer que o texto 
pretende também argumentar sobre esse tema.
Por fim, queremos destacar o belo título desse texto. Ambíguo, o títulopode ser lido como 
uma metáfora sobre o valor do conhecimento. De um lado, faz referência à tecnologia 
inventada por Expedito Resende, o combustível para avião, que nos “ensina a voar” utilizando 
energia limpa; por outro lado, constrói uma representação do conhecimento como algo que 
nos liberta, “nos ensina a voar”. 
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Texto II – “Alegres e ignorantes” – Lya Luft
O texto de Lya Luft é um texto argumentativo, ou seja, um texto escrito para defender 
um ponto de vista, emitir uma opinião. O título “Alegres e ignorantes”, bem como a 
afirmação entre aspas e em destaque, aponta para seu tema central: a autora discute o valor 
da informação e também a desinformação da “elite pensante” brasileira. 
Lya Luft inicia seu texto fazendo o elogio do “humor”. No primeiro parágrafo e em parte do 
segundo, a autora aborda esse tópico, apresentando-se, inclusive, como alguém que “não 
esquece a importância do bom humor”. A esse respeito expressa, então, um ponto de vista: 
“Bom humor zero. Desperdício de vida: acredito que, junto com o dinheiro, sexo e amor, é a 
alegria que move o mundo para o lado positivo.”
No entanto, segundo sua argumentação, ser alegre não pode significar ser alienado. Segundo 
a autora, não podemos nos fechar em “nosso pequeno círculo pessoal”, esquecendo de 
participar com consciência da vida social e política do país. Sua tese central está, portanto, 
expressa em: “Estar informado e atento é o melhor jeito de ajudar a construir a sociedade que 
queremos, ainda que sem ações espetaculares”. 
A autora posiciona-se, ainda, a respeito de nossas “elites pensantes”, afirmando que os 
que sabem ler e têm oportunidade de acesso à informação não a valorizam, tampouco se 
preocupam em participar da vida política e social, condição para construirmos a “sociedade 
que queremos”.
Para cada uma das postulações assumidas, a autora apresenta argumentos. Ao citar dados de 
pesquisa, por exemplo, a autora sustenta a afirmação de que nossa elite pensante é bastante 
ignorante. Outro argumento para sustentar a mesma tese: a maioria (e a autora se inclui nesse 
grupo) não sabe dizer o nome de nossos representantes políticos.
Devemos observar, ainda, que, no último parágrafo do texto, a autora retoma, resume seu 
posicionamento, remetendo ao título: afirma a importância da alegria e condena “o risinho 
tolo da burrice e da desinformação”.
Texto III – “Mentes do Futuro” – Gilberto Dimenstein
“Mentes do futuro” é também um texto argumentativo que defende, principalmente, a 
seguinte tese: “Em meio ao turbilhão de dados fragmentados e desconexos, a habilidade de 
seleção será cada vez mais demandada.” O título, bem como o destaque que essa afirmação 
ganha no texto, aponta para a centralidade dessa tese. 
A argumentação tem início com um relato: a história de Marcelo Masagão é um exemplo 
da habilidade de seleção e síntese de que fala o autor. Portanto, esse relato serve como um 
argumento exemplificativo que irá sustentar a tese principal defendida no texto. Outra 
estratégia argumentativa é a referência ao trabalho de Howard Gardner. Ao mencionar 
a teoria da “mente sintetizafora” do psicólogo e pesquisador de Harvard, o autor também 
valida seu posicionamento a respeito do tipo de habilidade cognitiva que as sociedades de 
informação tendem a valorizar. Ele utiliza aqui um argumento de autoridade, ao citar um 
especialista e estudioso do assunto tratado.
A diagramação do texto sinaliza a abordagem de diferentes tópicos que se relacionam nessa 
argumentação: a história de Marcelo Masagão; a teoria das inteligências múltiplas; a importância 
da habilidade de síntese; a escola e a habilidade de selecionar e sintetizar informações. Na 
última parte do texto o autor discute o papel da escola no enfrentamento dessa nova realidade: 
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“Em geral, as crianças e os jovens não são treinados, na escola, a selecionar, mas a acumular 
informações de diferentes matérias...”. Esse outro posicionamento do autor é também 
confirmado por um argumento: “Está aí uma das razões por que foi muito mais fácil para 
Masagão fazer sucesso na vida do que na escola.”. 
3. ROTEIRO PARA O TRABALHO NAS OFICINAS
1. Atividade oral – conversa com o grupo a partir da leitura do texto I – 
Nessa primeira oficina, propomos que o tutor convide os alunos para 
uma conversa sobre o valor do conhecimento e da leitura. É 
importante que os alunos pensem sobre isso e se sintam motivados ao 
trabalho a ser desenvolvido nas oficinas. Reunidos em círculo, o tutor 
deve iniciar as atividades com o guia “Entre Jovens” lendo com os alunos 
o texto “Ensinando a voar”. O tutor pode, inicialmente, pedir que os 
alunos se manifestem sobre o texto. A partir daí, deve mediar a leitura, 
possibilitando que o diálogo com o texto se aprofunde. Uma forma de 
mediar esse diálogo é propor algumas perguntas, como: I) por que o 
texto tem esse título?; II) por que José Parente é chamado de “o inventor 
do inventor”?; III) como você entende a expressão “é uma criação muito 
mais que biológica”?; IV) na sua opinião, o texto dá mais destaque ao pai 
ou ao filho?; V) você conhece histórias como a de José Parente?; VI) por 
que o conhecimento pode ser uma experiência de liberdade? Etc.
2. Leitura do texto II – Os alunos devem ler o texto II e resolver as atividades 
de leitura. Antes de iniciar essa atividade, o tutor deve checar que tipo 
de conhecimento os alunos têm sobre argumentações. A partir desse 
conhecimento, o tutor deve encaminhar a atividade, que pode ser feita 
individualmente ou em grupo, sempre com a mediação do tutor, que 
deve estar disponível para atender às dúvidas dos alunos.
3. Correção das atividades relativas à leitura do texto II
4. Leitura do texto III – Os alunos podem fazer as atividades de leitura 
juntamente com o tutor, que deve estar atento às dúvidas que possam 
surgir a respeito do conteúdo em estudo: a argumentação. É importante 
também que, nessa primeira oficina, o tutor utilize o momento de retomar 
as atividades de leitura para colocar o tema da leitura e do conhecimento 
em foco. Todos os textos da oficina propiciam isso.
5. Atividade escrita – Os alunos deverão produzir um pequeno texto argumentativo 
que apresente seu posicionamento e a justificativa ou argumento sustentador 
desse posicionamento. Uma forma de ajudar os alunos nessa atividade é 
organizar com eles um esquema dessa argumentação.
4. TEXTOS E ATIVIDADES DE LEITURA
O texto que você vai ler conta a história de dois brasileiros: pai e filho. Vale a pena conhecer essas 
histórias, que falam de “superação”. Leia atentamente o texto, observe as pistas que indicam 
onde foi publicado e quem é seu autor. Sinalize nele os trechos que chamarem a sua atenção 
ou as dúvidas que surgirem. Depois de lê-lo, você vai conversar sobre ele com seu grupo.
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TEXTO I
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Ensinando a voar
Repetia, como se fosse mantra: “o gosto pelo conhecimento é a melhor herança 
que posso deixar”
O CEARENSE Expedito Resende, 66, conseguiu atrair a atenção mundial ao inventar um combustível para avião 
feito à base de óleo de babaçu, atualmente 
em testes avançados nos laboratórios da 
Boeing, acompanhados pela Nasa, a agência 
espacial dos Estados Unidos. Mudar o jeito 
como os aviões voam, usando o chamado 
“bioquerosene”, não seria sua mais importante 
descoberta. 
Professor de engenharia química da 
Universidade Federal do Ceará, Expedito criou, 
nos anos 70, o biodiesel. Usando plantas 
comuns no Nordeste, viu que o combustível 
servia, sem nenhum problema, nos motores 
como substituto do petróleo. Mas,na época, 
não havia tanta consciência ecológica, o preço 
do petróleo ainda não estava nas alturas 
e não se sabia como dar escala comercial à 
sua invenção. Em 1991, alemães e austríacos 
resolveram usar a descoberta para produzir 
energia limpa. 
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Nos últimos tempos, Expedito vem 
ganhando prêmios internacionais e ajudando 
a implantar centenas de usinas de biodiesel. 
Isso significa a perspectiva de criação de 
empregos, especialmente no Nordeste, e de 
um recurso contra o aquecimento global. 
Por trás dessa tecnologia há uma história 
não menos interessante sobre quem ajudou a 
inventar esse inventor. Chama-se José Parente, 
pai de Expedito – é uma criação muito mais 
do que biológica. 

José Parente tinha 12 anos quando 
deixou um povoado nas proximidades de 
Sobral (CE), onde vivia, e mudou-se para 
Fortaleza. Era o caçula entre seus 28 irmãos, 
sustentados pelo pai agricultor. Fez o trajeto 
a pé, sozinho, alimentando-se com o que 
encontrava no caminho. Tinha dois projetos: 
obter um emprego e entrar numa escola.
Matriculou-se para o período noturno 
de uma escola, mas, com o excesso de 
trabalho, acabou desistindo. Tentou por várias 
maneiras continuar estudando. Pediu ajuda a 
seu patrão e ouviu a seguinte frase: “Menino 
pobre não precisa de escola”.
Praticando, José Parente aprendeu 
as artes do comércio. Adulto, tornou-se 
empresário, casou, teve nove filhos, todos 
entraram na faculdade. Repetia algumas 
frases como se fossem mantras: “o gosto pelo 
conhecimento é a melhor herança que posso 
deixar” ou “a maior riqueza está dentro da 
cabeça”.

Nas conversas familiares, sempre 
vinham as histórias do menino de 12 anos, 
caminhando sozinho pelas estradas de terra, 
a frustração pela impossibilidade de estudar 
compensada pelas habilidades autodidatas. Já 
empresário próspero (depois teve um banco), 
José Parente tratou de ajudar aquela escola 
em que tentou, mas não conseguir estudar.
Expedito cresceu ouvindo esses casos. 
“Ficou arraigada em todos nós aquela 
reverência pelo saber”, conta Expedito. Essa 
reverência estava por trás de sua decisão de 
sair de casa para estudar, como tinha feito seu 
pai. “Só que, desta vez, sem desconforto”, 
diz ele. Mudou-se para o Rio, onde se formou 
em engenharia química e, depois, aprimorou-
se nos Estados Unidos e na Europa. Voltou 
para o Ceará, fascinado pelo encanto dos 
experimentos químicos. Uma de suas criações 
foi a “vaca mecânica” para a produção de leite 
de soja, disseminada em centenas de cidades 
brasileiras.

Testou motores com álcool, mas 
preferiu investigar melhor o poder de plantas 
como o babaçu. Em 1984, um Bandeirante, 
da Embraer, voou de São José dos Campos até 
Brasília, movido a bioquerosene, desenvolvido 
por Expedito – apesar do sucesso do voo, o 
projeto foi arquivado pelos militares.
Foram necessários mais 20 anos para 
que levassem a sério sua experiência, agora 
em apreciação pelos americanos – certamente 
seria impossível se o inventor não tivesse com 
um de seus professores um menino de 12 
anos, andando a pé pelo interior do Nordeste, 
com o sonho de aprender.

PS – O caso de José Parente mostra os 
caminhos para se evitar a marginalidade, 
gerando inventores e não criminosos – 
envolvimento familiar na vida dos filhos, 
culto ao empreendedorismo e reverência 
ao aprendizado. Nosso problema não é de 
maioridade penal, mas a de menoridade dos 
adultos.
FOLHA DE SÃO PAULO, 25 fev 2007. Cotidiano.
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Vamos ler agora um outro texto argumentativo. Observe sempre, antes de iniciar sua 
leitura, as várias informações que acompanham o texto: quem o escreveu, onde e quando 
foi publicado. Preste atenção também naquilo que está em destaque: título, frases, imagens. 
Isso pode tornar sua leitura mais eficiente. 
TEXTO II
Lya Luft
Alegres e ignorantes
“Estar informado e atento é o melhor jeito de ajudar a construir
a sociedade que queremos, ainda que sem ações espetaculares”.
Ilustração Atômica Studio
Há fases em que, inquieta, eu talvez aponte mais o lado preocupante da vida. Mas jamais 
esqueço a importância do bom humor, que na verdade me caracteriza no cotidiano, mais do 
que a melancolia. Meu amado amigo Erico Verissimo certa vez me disse: “Há momentos em 
que o humor é até mais importante do que o amor”. Eu era muito jovem, na hora não entendi 
direito, mas a vida me ensinou: nem o amor resiste à eterna insatisfação, à tromba assumida, 
às reclamações constantes, à insatisfação sem tréguas. Bom humor zero. Desperdício de vida: 
acredito que, junto com dinheiro, sexo e amor, é a alegria que move o mundo para o lado 
positivo. Ódio, indignação fácil, rancores e inveja – e nossa natureza predadora – promovem 
mediocridade e atos cruéis.
Quando, seja na vida pessoal, seja como cidadãos ou habitantes deste planeta, a descrença 
e o desalento rosnam como animais no escuro no meio do mato, uma faísca de bom humor 
clareia a paisagem. Mas há coisas que nem todo o bom humor do mundo resolveria num riso 
forçado. Como senti ao ler, numa dessas pesquisas entre esclarecedoras e assustadoras (quando 
vêm de fonte confiável), que mais de 30% da nossa chamada elite é de uma desinformação 
avassaladora. Aqui o termo “elite” não tem a ver com aristocracia, roupa de grife, apartamento 
em Paris ou décima recostura do rosto, mas com a gente pensante. A que usa a cabeça para 
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algo além de separar orelhas. Pois, segundo a pesquisa, entre nós a imensa maioria dos ditos 
pensantes não consegue dizer o nome de um só ministro desta nossa República. Senadores, 
nem falar.
A turma que completa o 2º grau, que faz faculdade, que tem salário razoável, conta no banco, 
deveria ser a informada. Essa que não precisa comprar carro em noventa meses e deixar de 
pagar depois de quatro. A elite que consegue viajar conhece até algo do mundo, e poderia 
ter uma pequena biblioteca em casa. Em geral, não tem. Com sorte, lê jornal, assiste a boas 
entrevistas e noticiosos daqui e de fora, enfim, é gente do seu tempo. Para isso não se precisa 
de muita grana, acreditem. Mesmo assim, essa elite é pouco interessada numa realidade que 
afinal é dela.
Resolvi testar a mim mesma: nomes de ministros atuais desta nossa República. Cheguei a meia 
dúzia. São quase quarenta. Então começo a bater no peito, em público, aliás. Num país onde 
mais da metade dos habitantes são analfabetos, pois os que assinam o nome não conseguem 
ler o que estão assinando, ou vivem como analfabetos, pois não leem nem o jornal largado 
na praça, os que sabem ler deveriam ser duplamente ativos, informados e participantes. Não 
somos. Nossos meninos raramente sabem o título de seus livros escolares ou o nome dos 
professores (sabem o dos jogadores de futebol, dos cantores de bandas, das atrizezinhas 
semieróticas). Agimos como se nada fora do nosso pequeno círculo pessoal nos atingisse.
Além das desgraças longe e perto, vindas da natureza ou do homem, estamos num ano 
eleitoral. Inaugurado o circo de manobras, mentiras e traições escrachadas ou subliminares 
que conhecemos. Precisamos de claridade nas ideias, coragem nos desafios, informação e 
vontade, e do alimento dos afetos bons. Num livro interessante (não importa o assunto) alguém 
verbaliza velhas coisas que a gente só adivinhava; um filme pode nos lembrar a generosidade 
humana; uma conversa pode nos tirar escamas dos olhos. Estar informado e atento é o melhor 
jeito de ajudar a construir a sociedade que queremos, ainda que sem ações espetaculares. Mas, 
se somos desinformados, somos vulneráveis; se continuarmos alienados, bancaremos os tolos; 
sendo fúteis, cavamos a própria cova; alegrementeignorantes, podemos estar assinando nossa 
sentença de atraso, vestindo a mordaça, assumindo a camisa de força que, informados, não 
aceitaríamos.
Alegria, espírito aberto, curiosidade, coisas boas desta vida, todos as merecemos. Mas me 
poupem do risinho tolo da burrice ou da desinformação: o vazio por trás dele não promete 
nada de bom.
Lya Luft é escritora
VEJA, 3 Março, 2010.
ATIVIDADES DE LEITURA 
O texto que você leu é um texto de opinião, uma ARGUMENTAÇÃO. Antes de iniciar as 
atividades de leitura, considere, atentamente, o quadro abaixo: 
O componente mais importante de uma argumentação é a sua TESE. A tese de 
um texto argumentativo é o ponto de vista ou posicionamento assumido pelo 
autor a respeito do tema em discussão. 
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1. No texto “Alegres e ignorantes”, Lya Luft posiciona-se a respeito de vários temas. 
Grife no texto as teses ou pontos de vista da autora: 
1.1 Sobre o humor. 
“Bom humor zero. Desperdício de vida: acredito que, junto com o dinheiro, sexo e 
amor, é a alegria que move o mundo para o lado positivo.”
D7
1.2. Sobre a “elite pensante” brasileira.
“(...) Os que sabem ler deveriam ser duplamente ativos, informados e participantes. 
Não somos”.
D7
1.3. Sobre a importância de nos mantermos informados:
“Estar informado e atento é o melhor jeito de ajudar a construir a sociedade que 
queremos, ainda que sem ações espetaculares”
D7
A questão (1) requer que os alunos reconheçam, no texto, afirmações 
que correspondam a posicionamentos assumidos pela autora em 
relação a três importantes tópicos do texto. Depois de reconhecer 
esses posicionamentos, os alunos devem ser estimulados a discuti-
los, concordando ou discordando deles. Esse exercício é importante 
para a descoberta de que a leitura é uma atividade que nos permite 
esse diálogo sobre temas da vida e problemas do mundo. 
2. Leia com atenção: 
Textos escritos para defender uma opinião sobre determinado tema são textos 
argumentativos. Uma boa argumentação deve utilizar argumentos que 
confirmem suas teses. 
Que argumentos a autora utiliza para cada uma das opiniões defendidas? Grife 
esses argumentos no texto: 
2.1. “(...) Os que sabem ler deveriam ser duplamente ativos, informados e 
participantes. Não somos.”
“(...) mais de 30% da nossa chamada elite é de uma desinformação avassaladora. 
(...) Segundo a pesquisa, entre nós, a imensa maioria dos ditos pensantes, não 
consegue dizer o nome de um só ministro dessa nossa república. Senadores, nem 
falar.”
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“Resolvi testar a mim mesma: nomes de ministros atuais dessa nossa República. 
Cheguei a meia dúzia (...) Então começo a bater no peito, em público, aliás.”
“Nossos meninos raramente sabem o título de seus livros escolares (...) sabem o 
dos jogadores de futebol, dos cantores de banda, das atrizezinhas semieróticas.”
D8
2.2. “Estar informado e atento é o melhor jeito de ajudar a construir a sociedade 
que queremos, ainda que sem ações espetaculares”
“Precisamos de claridade nas ideias, coragem nos desafios, informação e vontade...”
“Se somos desinformados, somos vulneráveis; se continuarmos alienados, 
bancaremos os tolos; sendo fúteis, cavamos a própria cova...”
D8
A questão 3 auxilia os alunos no reconhecimento dos argumentos 
que sustentam as opiniões da autora. O fato de não sabermos o 
nome de nossos representantes políticos (e a autora se reconhece 
parte da “elite desinformada”), a afirmação de que os jovens 
interessam-se mais por diversão que pelo conhecimento ou pela 
escola, são argumentos que sustentam a opinião exposta em 3.1. 
Para defender a importância de estar informado (3.2), a autora 
reforça a importância da informação, afirmando que estar informado 
nos permite ter ideias mais claras sobre os fatos da vida. Por outro 
lado, estar desinformado nos torna seres alienados, vulneráveis, 
tolos, fúteis. Insistimos que o tutor discuta cada uma dessas ideias 
com os alunos. É importante que os alunos reflitam sobre elas e se 
posicionem, dialogando com o texto. 
3. Os títulos dos textos são uma pista muito importante sobre o seu conteúdo, 
e costumam indicar o seu tema central. Comente o título do texto: “Alegres e 
ignorantes”. 
No início do texto a autora fala da importância do humor e da alegria: “é a alegria 
que move o mundo para o lado positivo”. No entanto, segundo sua argumentação, 
ser alegre não pode significar ser alienado. A autora defende a ideia de que não 
podemos nos fechar em “nosso pequeno círculo pessoal”, esquecendo de participar 
com consciência da vida social e política do país. Por isso defende a importância de 
estarmos bem informados.
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4. Quem são os alegres e ignorantes de que fala a autora?
Eles fazem parte, principalmente, da chamada “elite pensante”, que a autora define 
como aqueles que têm oportunidade de estudar, têm um bom salário, podem 
viajar, têm acesso à leitura e, portanto, à informação, mas não se interessam pela 
discussão dos problemas da realidade.
D4
5. Por que a autora afirma que “os que sabem ler deveriam ser duplamente ativos, 
informados e participantes.”?
Porque vivemos num país onde muitos são “analfabetos”, ou seja, não conseguem 
ler um jornal, e isso limita sua participação na vida social e política. Quem sabe ler, 
portanto, tem uma responsabilidade dupla.
D4
6. Qual seria o objetivo principal do texto?
O texto de Lya Luft pretende discutir, principalmente, a importância de nos 
mantermos informados. Além do título, outra pista relevante que nos permite 
reconhecer esse tema é a informação em destaque à esquerda do texto: “Estar 
informado e atento é o melhor jeito de ajudar a construir a sociedade que queremos, 
ainda que sem ações espetaculares”.
D12
7. Considere a ilustração que acompanha o texto. Como você a interpreta?
Os olhos fechados podem indicar a ignorância e a alienação daqueles que, embora 
tendo condições, não procuram estar informados. O texto também fala do “risinho 
tolo da burrice e da desinformação”.
D5
As questões de 3 a 7 chamam a atenção para sinalizações importantes 
em um texto como o título e ilustrações que possam acompanhá-
lo. Títulos são pistas que apontam, frequentemente, para o tema 
central dos textos e ajudam a construir hipóteses sobre o seu 
objetivo comunicativo.
8. Releia:
“Mas, se somos desinformados, somos vulneráveis; se continuarmos alienados, 
bancaremos os tolos; sendo fúteis, cavamos a própria cova; alegremente 
ignorantes, podemos estar assinando nossa sentença de atraso, vestindo a 
mordaça, assumindo a camisa de força que, informados, não aceitaríamos”.
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8.1. Explique a afirmação: “se somos desinformados, somos vulneráveis”. Considere 
o verbete abaixo para construir sua resposta.
vulnerável 
[Do lat. vulnerabile.] 
Adjetivo de dois gêneros. 
1.Que pode ser vulnerado: 
“Perdidos e sós no grande descampado, sentem-se desamparados e 
vulneráveis como crianças.” (Miguel Torga, Portugal, pp. 114-115.) 
2.Diz-se do lado fraco de um assunto ou de uma questão, ou do ponto pelo 
qual alguém pode ser atacado ou ferido. [Pl.: vulneráveis. Cf. vulneráveis, do v. 
vulnerar.]
Dicionário Aurélio versão digital
Vulnerável pode significar frágil. A autora afirma que a desinformação nos 
torna frágeis, ou seja, uma pessoa desinformada pode ser facilmente enganada, 
ludibriada.
D3
8.2. Explique também: “se continuarmos alienados, bancaremos os tolos”. 
Considere o verbete abaixo para construir sua resposta.
alienar 
[Do lat. alienare.] 
Verbo transitivodireto. 
1.Transferir para outrem o domínio de; tornar alheio; alhear: 
O testamento proibia alienar os bens herdados. 
2.Desviar, afastar; alhear. 
3.Indispor, malquistar: 
Evita alienar o ânimo do velho amigo. 
4.Alucinar, perturbar; alhear: 
O grande desgosto alienou-lhe o juízo. 
Verbo transitivo direto e indireto. 
5.Desviar, apartar: 
Alienou de mim a boa vontade que o ministro demonstrara. 
Verbo pronominal. 
6.Afastar-se, distanciar-se. 
7.Tornar-se alienado; manter-se alheio aos acontecimentos. 
Dicionário Aurélio versão digital
O melhor sentido para a palavra alienado no texto está exposto em 7: tornar-
se alienado é manter-se alheio aos acontecimentos. A alienação causada pela 
desinformação, segundo a autora, nos faz tolos, bobos, facilmente manipuláveis. 
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8.3. No fragmento de texto em destaque na questão 8, grifamos algumas 
expressões metafóricas que a autora utiliza para argumentar sobre a importância 
de sermos informados. Explique o significado dessas expressões.
Pelas expressões utilizadas, podemos dizer que a informação e o conhecimento 
nos libertam. A ignorância é representada como uma mordaça e uma camisa de 
força, expressões que sugerem que a ignorância nos aprisiona.
D18
Na questão 8 sugerimos que o tutor aprofunde com os alunos o 
significado do fragmento em destaque. Para tanto, os alunos devem 
reconhecer o sentido de algumas palavras utilizadas no texto e tentar 
explicar, através de paráfrases, as afirmações da autora. Essa é 
uma boa oportunidade para conhecerem e aprenderem a ler um 
verbete de dicionário. O tutor deve orientar, portanto, a leitura 
desse gênero, observando que há significados mais apropriados 
que outros para as palavras, dependendo do contexto em que foram 
utilizadas.
Em 8.3 chamamos a atenção para uma bela metáfora do texto. 
As expressões “vestir a mordaça/ assumir a camisa de força da 
ignorância” nos levam a construir a seguinte representação da 
ignorância: Ignorância é prisão. Ao contrário disso, “conhecimento 
é liberdade”. Além de discutir a importância das metáforas como 
recursos de expressão (tópico que será abordado em outras oficinas) 
o tutor pode discutir com os alunos a ideia de que conhecimento 
é liberdade. Merece também destaque no texto a formulação 
“precisamos de claridade nas ideias”. Essa expressão metafórica 
constrói outra bela representação do conhecimento: “conhecimento/
informação é luz”. O contrário, a ignorância, é escuridão. 
Leia agora o último texto desta oficina. Observe que ele foi escrito pelo mesmo autor do texto 
I e publicado também no jornal Folha de São Paulo. Gilberto Dimenstein costuma discutir, em 
sua coluna, temas relativos ao conhecimento, à juventude e à educação.
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TEXTO III
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Mentes do futuro
COMEÇA NA PRÓXIMA 
segunda-feira, em 
São Paulo, o festival 
internacional de filmes 
com apenas um minuto 
de duração, reunindo 
80 países – esse tipo de 
mostra ocorre anualmente em 40 nações, 
circula em escala planetária e atrai o patrocínio 
de empresas multinacionais. Pouca gente sabe 
que esse festival é uma invenção brasileira e 
ninguém imagina que seu inventor era visto, 
por muito tempo, como um fracasso, um caso 
irrecuperável. 
Marcelo Masagão estava desempregado, em 
1991, quando conseguiu passar filmes de um 
minuto num teatro da PUC, em SP; no ano 
seguinte, iria para o MIS (Museu da Imagem e 
do Som). Um italiano viu aquela experiência e 
a levou para a Europa, de onde se disseminou. 
Como era excessivamente bagunceiro, foi 
expulso – ou, como se diz, convidado a 
se retirar – das escolas em que estudou. 
“Nunca tive uma turma 
de formatura”, lembra. 
Não conseguiu ficar nem 
mesmo no Colégio Equipe, 
uma ilha de liberalidade 
paulistana. Na faculdade, 
cursou psicologia, mas, 
após sete anos, não tinha 
completado 40% dos 
créditos. 
Só resolveu mesmo se 
esforçar na oitava série 
porque seu pai o chamou 
de “burro e vagabundo”. 
Tirou notas altas, a maioria 
dez, nas matérias. Mas no 
final se desentendeu com 
um professor e, mais 
uma vez, recebeu o 
convite para se retirar.
Como ele conseguiu 
montar um projeto 
bem-sucedido? A 
resposta possivelmente 
está nos estudos sobre as diversas formas de 
inteligência desenvolvidos em Harvard – é 
uma das questões essenciais para os alunos 
que, nesta semana, voltam para seus colégios 
e universidades. 

Disseminador da ideia de que existem 
inteligências múltiplas (a escola só focaria 
numa delas), o psicólogo Howard Gardner 
afirma que um dos atributos fundamentais 
para prosperar profissionalmente é a “mente 
sintetizadora”. Com o excesso atordoante de 
informação, graças em boa parte à abundância 
de fontes na internet, passa a valer mais quem 
sabe extrair o que é essencial – ou seja, quem 
sabe selecionar e apontar um caminho. 
Em meio ao turbilhão de 
dados fragmentados e 
desconexos, a habilidade 
da seleção será cada vez 
mais demandada
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O primeiro filme de Masagão era um esforço 
de resumir e encadear em 70 minutos toda 
a história do século 20 – e sem nenhuma 
fala, apenas com imagens. Depois de tanto 
tempo de dispersão, acabou encontrando a 
síntese de seu futuro na busca de gente que 
procura uma síntese em apenas um minuto, 
transformada também num projeto de 
internet, e não apenas nos festivais. 
Agora, ele criou a modalidade de obra em dez 
segundos, batizada de “nanofilme”. 

Em meio ao turbilhão de dados fragmentados 
e desconexos, a habilidade da seleção será 
cada vez mais demandada – o que vai abater 
parte do encanto da produção coletiva de 
conhecimento (o jornalismo colaborativo, por 
exemplo), na qual muitos sentem autoridade 
para falar de qualquer assunto. Afinal, a 
síntese depende de um longo processo de 
avaliação do que é essencial. 
Mais uma vez, o Festival do Minuto serve como 
exemplo. Tecnicamente, qualquer um hoje 
pode se sentir um cineasta. Basta um celular. 
São enviados para lá milhares de filmes, sem 
qualquer esforço de produção. O ex-vice-
presidente dos Estados Unidos, Al Gore, 
tentou fazer uma emissora de TV, via internet, 
para a qual qualquer um pudesse mandar 
sua matéria. Viram-se obrigados a mudar 
o formato. Um claro sinal dessa tendência 
apareceu no projeto “Círculo de Leitores”, 
desenvolvido pela Folha, em que, durante 
oito meses, o jornal ouviu seus assinantes 
em São Paulo, Rio e Brasília. Eles querem 
uma publicação com os seguintes atributos: 
analítico, sintético, prático e interpretativo. 
Em síntese: querem ter ajuda para selecionar 
o que importa para suas vidas. 

É fácil entender as razões dessa demanda; 
difícil é enfrentá-las. Como reduzir tantas 
coisas, muitas delas complexas, em tão 
poucos minutos de leitura diária? Como 
captar a atenção de um público cada vez 
mais hiperativo? Não é um problema, óbvio, 
apenas dos meios de comunicação. É um 
desafio que envolve toda a rede de produção 
e disseminação do conhecimento. 
Em geral, as crianças e os jovens não são 
treinados, nas escolas, a selecionar, mas a 
acumular informações de diferentes matérias, 
sem muita conexão com a realidade, 
avaliadas em provas – e depois, rapidamente, 
esquecidas. Os estudantes voltam, nesta 
semana, às aulas e vão encontrar um sistema 
curricular que, na maioria dos casos, está 
fracassado, determinado não por pedagogos, 
mas pelo mercado de trabalho. Está aí uma 
das razões por que foi muito mais fácil para 
Marcelo Masagão fazer sucesso na vida do 
que na escola. Só não sabia que iriavirar uma 
espécie de professor na arte de sintetizar. 

PS – Coloquei em meu site (www.dimenstein.
com.br) um texto para quem quiser conhecer 
melhor as ideias de Howard Gardner, 
professor da escola de Educação em Harvard. 
Também coloquei uma seleção dos filmes de 
um minuto que serão exibidos, nesta semana, 
no festival em São Paulo. 
gdimen@uol.com.br
FOLHA DE SÃO PAULO, 3 março 2009. Cotidiano.
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ATIVIDADES DE LEITURA
1. Explique o título do texto.
O título faz referência a um tipo de habilidade cognitiva que é e será bastante 
valorizada nas sociedades modernas: a habilidade de selecionar e sintetizar 
informações. 
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2. O texto de Gilberto Dimenstein é um texto argumentativo. Explique por quê.
O autor escreve o texto para defender algumas opiniões. Por exemplo: “Em meio 
ao turbilhão de dados fragmentados e desconexos, a habilidade de seleção será 
cada vez mais demandada.”; “Em geral, as crianças e os jovens não são treinados, 
na escola, a selecionar, mas a acumular informações de diferentes matérias...”
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3. A frase em destaque pode ser considerada a tese principal do texto de Gilberto 
Dimenstein. Releia:
“Em meio ao turbilhão de dados fragmentados e desconexos, a habilidade de 
seleção será cada vez mais demandada.”
3.1. Como você compreende essa afirmação?
As tecnologias modernas, principalmente o computador, a internet, nos permitem 
acesso a um turbilhão de informações, por isso a habilidade de selecionar essas 
informações e construir conhecimento a partir delas será cada vez mais importante. 
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3.2. Relacione a imagem que acompanha o texto à tese em destaque acima.
A imagem ilustra o processo de seleção e escolha de que o texto fala. As folhas 
que caem abundantemente seriam as inúmeras informações que nos chegam, o 
homem escolhe, seleciona algumas delas. 
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3.3. Que argumentos são utilizados, no texto, para sustentar a tese do autor?
O principal argumento é a história de Marcelo Masagão, criador do “festival do 
minuto’, que faz sucesso no mundo inteiro. Sua capacidade de produzir filmes 
curtíssimos é um exemplo da habilidade de seleção e síntese de que fala o texto. 
Ele seria uma “mente do futuro”. O texto utiliza também um argumento de 
autoridade, ao citar a pesquisa do psicólogo Howard Gardner. 
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As questões de 1 a 3 recuperam conhecimentos básicos e importantes 
para a leitura de argumentações: a noção de tese e argumento. 
Além disso, exercitam a atenção para as pistas textuais indicadoras 
do tema de um texto: título, imagem, destaques. Ao corrigir 
a atividade 3 o tutor deve dar destaque às várias estratégias que 
podem ser usadas na construção do argumento de um texto, como: 
a apresentação de exemplos, a citação de discursos de autoridade, 
a utilização de dados empíricos (dados estatísticos e de pesquisa).
4. Observe a diagramação do texto: ele está dividido em partes. Procure explicar 
essa divisão.
Podemos dizer que, em cada uma dessas partes, o texto aborda um tópico, e esses 
tópicos se relacionam em torno do tema central. Os tópicos abordados são: a 
história de Marcelo Masagão; a teoria das inteligências múltiplas; a importância da 
habilidade de síntese; a escola e a habilidade de selecionar e sintetizar informações.
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5. Além da tese principal do texto, o autor apresenta também sua opinião 
sobre como a escola lida com a habilidade de selecionar e sintetizar a 
informação. 
5.1. Identifique no texto o posicionamento do autor a respeito desse assunto.
“Em geral, as crianças e os jovens não são treinados, na escola, a selecionar, mas a 
acumular informações de diferentes matérias...”
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5.2. Que argumento o autor usa para confirmá-la?
A afirmação de que Marcelo Masagão, embora tenha feito muito sucesso na vida, 
não o fez na escola, pelo contrário, foi expulso de várias delas. 
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5.3. Você concorda com esse posicionamento? Justifique sua resposta.
Resposta pessoal.
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A questão 4 auxilia o aluno na análise da organização estrutural 
da argumentação. Essa é uma atividade importante para a formação 
do leitor, pois desenvolve a habilidade de identificar tópicos (de 
parágrafos ou de partes de um texto) discursivos e de estabelecer 
relações entre tópicos. Na questão 5, chamamos a atenção para 
a quarta parte do texto em que se discute o papel da escola no 
desenvolvimento da habilidade de selecionar e sintetizar, tópico 
central do texto. Também aí está implicada a habilidade de relacionar 
tese e argumento.
VAMOS ESCREVER
Depois de ler textos que falam sobre o valor do conhecimento, da informação e da leitura, 
escreva um texto curto sobre o tema “Juventude e Conhecimento”. As perguntas abaixo devem 
ajudar você a escrever seu texto, que deve apresentar seu ponto de vista e a sustentação 
desse ponto de vista. 
Pense, então, nessas questões:
O jovem tem interesse pelo conhecimento? Onde ele o busca? Ele valoriza o conhecimento 
escolar? A escola contribui para que o jovem aprenda a valorizar o conhecimento? O que 
motiva o jovem a querer aprender algo? O que poderia ser feito na escola para que o jovem se 
sentisse motivado a aprender?
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Estamos propondo que o aluno escreva um pequeno texto (de 10 
a 15 linhas) sobre o tema “Conhecimento, juventude e escola”. 
Para tanto, propomos algumas perguntas, que não devem 
ser respondidas uma a uma. Elas podem servir para ajudar a 
selecionar os tópicos que deverão compor o texto. Selecionados 
os tópicos, os alunos devem desenvolvê-los. O tutor deve orientar 
os alunos, auxiliando-o a construir um pequeno esquema de sua 
argumentação. Esse esquema deve conter o posicionamento e a 
sustentação desse posicionamento. É importante também que o 
aluno conclua seu texto, o que pode ser feito encaminhando-se 
uma solução para o problema em discussão.
Por exemplo: 
POSICIONAMENTO/TESE
•	Os jovens gostam da escola, mas, para a 
maioria, ela é mais um lugar onde se pode 
fazer amigos e conviver do que um espaço 
para o aprendizado. O jovem não se interessa 
pelo conhecimento escolar. 
ARGUMENTO
•	Muitos conversam durante as aulas, distraem-se 
com seus aparelhos eletrônicos. Outros fazem 
bagunça, atrapalhando os interessados em 
aprender. 
CONCLUSÃO
•	A escola precisaria mudar seus métodos para 
que os jovens se interessassem mais pelo 
conhecimento. 
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Anotações
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O TEXTO ARGUMENTATIVO
analisando a estrutura de argumentações
OFICINA 2
Begma Tavares Barbosa
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1. OBJETIVOS
1. Apresentar os componentes da macroestrutura da argumentação.
2. Desenvolver habilidades de: ler argumentações; analisar a estrutura de 
argumentações; escrever textos argumentativos.
2. TEXTOS PROPOSTOS PARA LEITURA
Texto I – Inteligência artificial – editorial da Folha de São Paulo.
Nesse texto argumentativo retoma-se uma questão “muito antiga” e polêmica. A questão-
problema que gera a argumentação está explícita no início do texto: “Poderá um dia a máquina 
pensar melhor e de forma mais inteligente que um ser humano?”. O posicionamento assumido 
pelo editorial anuncia-se em seguida: “Qualquer resposta definitiva para esta questão parece 
precipitada...”.
O autor do editorial, antes de apresentar seus argumentos, expõe dois outros posicionamentos, 
que se opõem. São possibilidades diferentes de responder à mesma pergunta:alguns acreditam 
que a máquina jamais superará seu criador, outros acreditam que essa realidade é apenas uma 
questão de tempo. Para cada uma dessas hipóteses, apresentam-se argumentos.
A argumentação do editorial é desenvolvida a partir do quarto parágrafo e se constitui em 
uma contra-argumentação, pois, ao mesmo tempo em que defende seu posicionamento, o 
autor contesta as hipóteses apresentadas anteriormente. No último parágrafo, o autor conclui 
o texto afirmando ser esta uma discussão muito antiga. Essa afirmação pode ser considerada 
como um reforço da tese apresentada que considera precipitada “qualquer resposta definitiva 
para a questão”.
É importante lembrar que, sendo um editorial, a tese desse texto argumentativo corresponde 
ao posicionamento do jornal onde foi publicado, e não de seu autor. 
Texto II – 40 anos de internet – Marcelo Gleiser 
O texto assinado por Marcelo Gleiser foi publicado em sua coluna semanal – dedicada à 
discussão de temas da ciência – no Jornal Folha de São Paulo. Trata-se de um texto de opinião 
que busca responder a uma pergunta central, em destaque no texto: “Será que a tecnologia 
está redefinindo quem somos?”. A tecnologia em foco no texto é a internet. Esse tópico 
central pode ser depreendido se considerarmos o conteúdo dos três primeiros parágrafos, o 
título do texto e seu parágrafo final conclusivo, onde o autor responde à pergunta colocada 
a partir de uma formulação hipotética: “A internet talvez represente uma nova fronteira, a 
da integração coletiva da humanidade a um nível sem precedentes. Se não no mundo real, ao 
menos no virtual.”.
Os dois primeiros parágrafos têm conteúdo expositivo e apresentam o fato que motiva a 
discussão do texto: os 40 anos da internet. O autor apresenta um posicionamento inicial – “Não 
há dúvida de que a internet está transformando o mundo, de que vivemos em meio a uma 
revolução” – para, a partir dele, encaminhar uma discussão mais específica: “A questão, ou 
uma delas, é que tipo de revolução é essa”. O autor aborda, então, alguns tópicos relacionados 
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ao tema central do texto, como: o impacto da tecnologia na vida humana, a relação do jovem 
com a internet. Nesse percurso, apresenta alguns posicionamentos, por exemplo: afirma que os 
instrumentos tecnológicos modificam nossa visão de mundo; afirma que um grande diferencial 
da internet é seu potencial de abertura aos jovens e que estes têm na internet um espaço de 
“privacidade” antes não experimentado. 
Considerando a macroestrutura dessa argumentação, chama a atenção a recorrência de 
perguntas. Essas perguntas têm, no texto, a função de apontar para questões que mobilizam o 
debate sobre a relação do homem com a tecnologia, particularmente, sobre as possibilidades 
de a tecnologia “redefinir” a vida humana. A complexidade das questões envolvidas nessa 
argumentação explica o posicionamento cauteloso do autor. Ao formular sua resposta à questão 
central, no último parágrafo do texto, ele se vale de recursos – como o advérbio “talvez” e a 
forma verbal de presente do subjuntivo – para apresentar uma hipótese que aponta para uma 
grande possibilidade da tecnologia da internet: a de “integração coletiva da humanidade a um 
nível sem precedentes”. Observe, no entanto, que, em seguida, esse posicionamento merece 
uma ressalva: essa possibilidade pode se dar apenas no mundo virtual. 
Texto III – Propaganda da Microsoft
O texto tem como objetivo comunicativo vender um produto da Microsoft: o Office 2003, 
uma espécie de “gerenciador” mais eficiente na distribuição da informação. Como toda boa 
propaganda, o texto em questão se vale de um forte argumento para vender o produto: 
aqueles que não atualizaram seu programa são como dinossauros, seres pré-históricos (“Essa 
era já era”). O homem-dinossauro, imagem central do texto propaganda, ainda não substituiu 
o programa antigo pelo Office 2003, por isso cometeu um erro em seu trabalho. Ele deveria ter 
trocado o Office 2000 pelo 2003; dessa forma, estaria adaptado à “nova era”, à modernidade.
Podemos conduzir a leitura dessa propaganda, chamando a atenção para as pistas verbais e 
não verbais. A imagem do homem-dinossauro trabalhando em seu escritório é a sinalização 
mais relevante. A essa imagem relaciona-se diretamente o texto verbal “Xiiiiiiiiiiii!!!!!!! Acabei 
de enviar o e-mail pra todo mundo. E agora?”, texto que corresponderia ao que o homem diz 
a si mesmo. Essa relação permite que se leia o gesto de “mão na boca” como significando um 
“susto” ou o reconhecimento de um erro cometido.
Outro texto importante é “ESSA ERA JÁ ERA”, texto verbal que será melhor interpretado se 
relacionado ao quadro situado abaixo e à direita, em que se apresenta melhor ao interlocutor/
consumidor o produto que está sendo oferecido. O diálogo entre os dois pequenos dinossauros 
indica que o produto que “já era”, o Office 2000, deve ser imediatamente substituído pelo 
2003. Dessa forma, os dinossauros se “atualizarão”.
3. ROTEIRO PARA O TRABALHO NA OFICINA
1. Leitura e resolução das atividades relativas ao texto I – Os alunos podem 
fazê-lo em dupla ou individualmente. É possível que eles tenham dúvidas, 
pois as atividades introduzem conceitos que podem ser novos para os 
alunos. O tutor deve auxiliá-los, respondendo às dúvidas que forem 
surgindo no decorrer da oficina.
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2. Correção das atividades relativas ao texto I – O tutor deve aproveitar 
esse momento para consolidar o conhecimento sobre argumentações 
trabalhado nas oficinas. Se necessário, faça anotações no quadro, de 
modo a ajudar os alunos a organizarem as informações.
3. Leitura e resolução das atividades relativas ao texto II – A leitura de mais um 
texto argumentativo servirá para os alunos ampliarem seus conhecimentos 
sobre os componentes de uma argumentação e sobre como elas se 
organizam. O tutor pode escolher a melhor forma de fazer isso.
4. Leitura e resolução das atividades relativas ao texto III – O tutor pode fazer 
essa atividade com todo o grupo, oralmente. Em seguida, os alunos farão 
suas anotações no caderno.
5. Atividade escrita – Depois de analisarem a estrutura de argumentações, 
os alunos devem escrever um texto argumentativo. Aprender a planejar o 
texto é uma atividade importante, por isso o tutor deve auxiliar os alunos 
a construírem seus esquemas durante a oficina, e eles podem terminar 
seus textos em casa. 
4. TEXTOS E ATIVIDADES DE LEITURA
As tecnologias criadas pelo homem têm um poder enorme nos tempos modernos. O homem 
quer inventar máquinas cada vez mais “inteligentes”. O editorial abaixo discute essa questão. 
Leia-o atentamente. Antes, porém, saiba o que é um EDITORIAL.
EDITORIAL 
[Do ingl. editorial.] 
Adjetivo de dois gêneros. 
1.Relativo a editor ou editora. ~ V. encadernação —, matéria — e produção —. 
Substantivo masculino. 
2.Jorn. Artigo que exprime a opinião do órgão, em geral escrito pelo redator-
chefe, e publicado com destaque; artigo de fundo. 
Substantivo feminino. 
3.Lus. Casa editora (q. v.).
DICIONÁRIO DIGITAL AURÉLIO
O tutor deve auxiliar os alunos na leitura do verbete, esclarecendo 
uma questão importante: sendo o texto um editorial, ele irá 
apresentar uma argumentação, mas, nesse caso, a tese apresentada 
corresponde ao ponto de vista defendido pelo Jornal Folha de São 
Paulo, e não à opinião do autor do texto. 
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TEXTO I
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Poderá um dia a máquina pensar melhor e de forma mais inteligente que um ser humano? 
Qualquer resposta definitiva para esta questão parece precipitada, mas os cientistas estão de 
fato empenhados na buscade um computador capaz de pensar e evoluir mais do que um ser 
humano. 
Para alguns, trata-se de uma tarefa impossível. A máquina jamais poderá superar seu 
criador. Estes aplaudem estrondosamente a recente vitória do enxadrista Garry Gasparov 
contra o computador Deep Blue, uma máquina inteligente construída pela IBM, a um custo de 
US$ 2,5 milhões, com o propósito único de jogar xadrez. O Deep Blue é capaz de analisar 200 
milhões de lances por segundo; Gasparov, um ou dois.
Para outros, desenvolver as máquinas mais inteligentes que o homem é apenas uma 
questão de tempo. O cérebro humano não seria ele próprio mais do que uma máquina 
biológica, cujo mecanismo carbônico poderia ser transposto para o silício.
A primeira posição parece um pouco ingênua e é certamente alimentada por uma visão 
catastrofista do criador que perde o controle sobre a criatura, como o Frankenstein de Mary 
Shellley...
É igualmente precipitado afirmar que, algum dia, a humanidade estará construindo 
androides mais inteligentes que o homem. Nesse domínio, o bom senso recomenda que não 
se negue “a priori” o conceito de inteligência (ele próprio tão fluido) a computadores, nem que 
se considere a existência de androides hiperinteligentes como algo inelutável. 
A discussão toda, no fundo, é muito antiga. Trata-se de saber se o homem é uma 
máquina biológica cuja inteligência seria o produto de estímulos eletroquímicos ou se existe 
um algo mais que os velhos filósofos gregos batizaram de alma.
(Editorial da Folha de São Paulo – 24-03-96)
ATIVIDADES DE LEITURA
1. Que tema o texto discute?
O texto discute uma questão antiga: a “inteligência” das máquinas e a possibilidade 
de elas superarem seu criador. 
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2. O texto começa com uma pergunta. Qual seria a função dessa pergunta?
A pergunta expõe a questão que o texto pretende discutir. É, portanto, a “questão-
problema” que gera a argumentação.
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3. Releia atentamente o segundo e terceiro parágrafos. 
O texto expõe aí uma polêmica, ou seja, diferentes posicionamentos a 
respeito do tema em discussão. Esses posicionamentos não correspondem à 
opinião defendida pelo editorial. Vamos, então, chamá-los de HIPÓTESES. À 
opinião defendida pelo editorial chamaremos TESE.
3.1. Grife, no segundo e terceiro parágrafos, as hipóteses defendidas por outros 
argumentadores.
Hipótese 1- Para alguns, trata-se de uma tarefa impossível. A máquina jamais 
poderá superar seu criador.
Hipótese 2- Para outros, desenvolver as máquinas mais inteligentes que o homem 
é apenas uma questão de tempo.
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3.2. Cada uma dessas hipóteses é sustentada por argumentos. Grife no texto 
esses argumentos.
Argumento para a Hipótese 1 - Estes aplaudem estrondosamente a recente vitória 
do enxadrista Garry Gasparov contra o computador Deep Blue, uma máquina 
inteligente construída pela IBM, a um custo de US$ 2,5 milhões, com o propósito 
único de jogar xadrez. O Deep Blue é capaz de analisar 200 milhões de lances por 
segundo; Kasparov, um ou dois.
Argumento para a Hipótese 2 - O cérebro humano não seria ele próprio mais do 
que uma máquina biológica, cujo mecanismo carbônico poderia ser transposto 
para o silício.
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4. Releia agora o quarto e o quinto parágrafos do texto. Depois de apresentar 
dois diferentes posicionamentos a respeito do tema em discussão, apresenta-se a 
tese do editorial.
4.1. Que posicionamento é assumido pelo jornal?
O posicionamento do editorial é anunciado no primeiro parágrafo do texto: 
“Qualquer resposta definitiva para esta questão parece precipitada, mas os 
cientistas estão de fato empenhados na busca de um computador capaz de pensar 
e evoluir mais do que um ser humano”. Embora o texto não negue a existência de 
máquinas “inteligentes” (“o bom senso recomenda que não se negue “a priori” o 
conceito de inteligência (...) a computadores”), ele considera precipitado afirmar 
que a máquina vai superar seu criador: “É igualmente precipitado afirmar que, 
algum dia, a humanidade estará construindo androides mais inteligentes que o 
homem”.
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Sendo esse um debate polêmico, o autor constrói sua argumentação 
de forma ponderada. Por isso, também, contesta posicionamentos 
extremos, contra-argumentando às teses apresentadas no 
segundo e terceiro parágrafos. 
4.2. Ao posicionar-se no debate, o autor contesta as opiniões de outros 
argumentadores. Preencha o quadro abaixo, considerando sua resposta à questão 
3 e 4:
HIPÓTESES DE 
OUTROS
ARGUMENTO PARA AS 
HIPÓTESE 1 E 2 
CONTRA 
ARGUMENTAÇÃO DO
EDITORIAL 
1.
Para alguns, trata-
se de uma tarefa 
impossível. A 
máquina jamais 
poderá superar seu 
criador
Estes aplaudem 
estrondosamente a recente 
vitória do enxadrista 
Garry Gasparov contra o 
computador Deep Blue 
(...). O Deep Blue é capaz 
de analisar 200 milhões 
de lances por segundo; 
Kasparov, um ou dois.
A primeira posição parece 
um pouco ingênua e é 
certamente alimentada por 
uma visão catastrofista do 
criador que perde o controle 
sobre a criatura, como 
o Frankenstein de Mary 
Shellley...
2.
Para outros, 
desenvolver as 
máquinas mais 
inteligentes que o 
homem é apenas 
uma questão de 
tempo.
O cérebro humano não seria 
ele próprio mais do que 
uma máquina biológica, 
cujo mecanismo carbônico 
poderia ser transposto para 
o silício.
É igualmente precipitado 
afirmar que, algum dia, 
a humanidade estará 
construindo androides mais 
inteligentes que o homem.
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4.3. No último parágrafo, o autor conclui o seu texto. Como ele o faz?
Na conclusão, o autor lembra que essa é uma discussão muito antiga, o que reforça 
seu posicionamento de que as posições extremas devam ser evitadas. 
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As questões de 1 a 4 propõem a identificação dos componentes da 
macroestrutura da argumentação lida, que se organiza da seguinte 
forma:
PERGUNTA/PROBLEMA
A pergunta inicial coloca o problema que está em discussão. 
Podemos, então, dizer que todo texto argumentativo é a resposta 
a uma questão-problema posta ao debate em torno de um tema 
relevante. Na maior parte das vezes essa pergunta está implícita, e 
identificá-la ajuda a compor o esquema argumentativo de um texto, 
permitindo encontrar mais facilmente sua tese e argumentos. No 
texto lido, a questão problema que mobiliza o debate está explícita. 
HIPÓTESES
Chamamos hipóteses às possíveis respostas que se apresentam à 
pergunta colocada. No texto lido, o autor expõe duas hipóteses, 
duas diferentes respostas para a mesma pergunta, dois diferentes 
posicionamentos ante o problema apresentado.
TESE
A tese de um texto é a resposta que seu autor assume como mais 
adequada, é o posicionamento ou ponto de vista assumido pelo 
autor. No caso do texto lido, não se apresenta uma resposta definitiva 
para a questão discutida. O autor assume que “qualquer resposta 
definitiva seria precipitada”. 
ARGUMENTO
Argumento é tudo aquilo que, num texto argumentativo, sustenta 
a tese defendida. Argumentamos através de postulações que 
explicam nossos posicionamentos bem como através de recursos 
vários como: citações, dados estatísticos, exemplos, relatos etc. 
No texto lido, os argumentos apresentados para defender a tese 
são contra-argumentos, o autor argumenta contestando os outros 
posicionamentos apresentados, o que caracteriza esse texto como 
uma contra-argumentação.
CONCLUSÃO
Exposta a tese e os argumentos em um texto argumentativo, a 
conclusão encerra o discurso. Muitas vezes, esse “encerramento” 
se faz retomando-se o que é central no texto, sua tese. Também é 
muito comum que as conclusões encaminhem uma solução para o 
problema posto emdiscussão.
Ao corrigir as atividades com os alunos, o tutor deve deixar claras 
essas noções, podendo, inclusive, anotá-las no quadro. 
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5. Observe agora como o autor organiza os parágrafos de seu texto. Preencha o 
quadro abaixo indicando os tópicos de cada parágrafo.
PARÁGRAFOS TÓPICOS
1.
Pergunta- problema: A máquina poderá superar seu criador? + 
Tese do autor: Qualquer resposta a essa pergunta parece precipitada.
2.
Hipótese 1: A máquina não superará seu criador + Argumento: 
Gasparov vence o computador numa partida de xadrez
3.
Hipótese 2: Com o tempo, as máquinas serão mais inteligentes 
que o homem + Argumento: O cérebro humano é uma espécie de 
máquina biológica
4.
Contestação da hipótese 1: A primeira posição parece ingênua 
e catastrofista.
5.
Contestação da hipótese 2: É precipitado afirmar que 
construiremos andróides mais inteligentes que o homem.
6.
Conclusão - Reafirmação da tese: Sendo a discussão muito 
antiga, qualquer resposta definitiva parece precipitada.
6. O texto lido apresenta marcadores que sinalizam o que será apresentado em 
cada parágrafo. Ao mesmo tempo, essas sinalizações articulam os parágrafos do 
texto, garantindo a coesão textual. Observe a expressão em negrito na frase em 
destaque. Ela indica que o autor irá apresentar, nesse parágrafo, uma hipótese, 
a opinião de um grupo de pessoas.
Para alguns, trata-se de uma tarefa impossível. A máquina jamais poderá superar 
seu criador.
Grife, no texto, outros marcadores discursivos que fazem a coesão textual, 
articulando os parágrafos do texto. Explique a sua função.
Para outros – expressão que articula o terceiro parágrafo ao segundo, indicando que 
o autor irá apresentar uma outra hipótese, diferente da apresentada anteriormente.
A primeira posição – expressão a partir da qual o autor retoma o conteúdo do 
segundo parágrafo, para contestá-lo.
É igualmente precipitado afirmar – expressão a partir da qual o autor retoma o 
conteúdo do terceiro parágrafo, para também contestá-lo.
A discussão toda – expressão a partir da qual o autor retoma todo o texto, para 
concluí-lo.
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As questões 5 e 6 também permitem refletir sobre a organização 
estrutural da argumentação. É um exercício dos mais importantes 
para aprender a ler e a escrever textos argumentativos. Em (5) 
chamamos a atenção para os critérios utilizados para a organização 
dos parágrafos e dos tópicos textuais. Em (6), apontamos para 
os marcadores discursivos que anunciam tópicos e articulam 
esses parágrafos. O tutor deve mostrar aos alunos a importância 
desses recursos, utilizados, ora para retomar informações (coesão 
referencial), ora para fazer avançar o texto, criando elos sequenciais 
(coesão sequencial). 
7. Textos que discutem temas polêmicos costumam apresentar posicionamentos 
bastante ponderados, ou seja, seus autores evitam apresentar, de forma radical, 
suas opiniões. Que recursos, nas frases abaixo, demonstram que os argumentadores 
são ponderados ao apresentar suas opiniões? 
a- “A primeira posição parece um pouco ingênua.”
b- “O cérebro humano não seria ele próprio mais do que uma máquina biológica.”
O verbo “parecer” e o tempo verbal futuro do pretérito (“seria”) são escolhas feitas 
para atenuar os posicionamentos assumidos. 
D18 – D19
A questão 7 chama a atenção para recursos que permitem atenuar 
nossas afirmações. São recursos frequentemente utilizados quando, 
por exemplo, temos dúvida a respeito do assunto tratado ou mesmo 
quando não queremos nos “comprometer” definitivamente com o 
que está sendo dito.
Vamos ler agora um outro texto argumentativo sobre o mesmo tema: a relação do homem com 
a tecnologia. As atividades de leitura do texto ajudarão você a consolidar os conhecimentos 
sobre o texto argumentativo. Ao mesmo tempo, você terá oportunidade de refletir sobre um 
tema interessante. 
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TEXTO II
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40 anos de internet 
Faz 40 anos que os computadores de Leonard 
Kleinrock, da Universidade da Califórnia em Los 
Angeles, e de Douglas Engelbart, do Instituto 
de Pesquisas na Universidade de Stanford, 
foram conectados por 
uma “linha especial” da 
Arpanet, um sistema 
de apenas quatro 
computadores que faziam 
parte de um projeto do 
Departamento de Defesa 
dos EUA.
Com o passar dos anos, o sistema exclusivo 
de tráfego de informação evoluiu, saiu dos 
laboratórios de cientistas para o público e 
hoje é conhecido como internet.
Não há dúvida de que a internet está 
transformando o mundo, de que vivemos 
em meio a uma revolução. A questão, ou 
uma delas, é que tipo de revolução é essa: 
será que a internet pode ser comparada, por 
exemplo, ao telefone ou ao carro, ou mesmo 
à imprensa de tipo móvel, que revolucionou 
o livro? Ou será que ela pertence a outra 
classe de tecnologia, que não só transforma 
a sociedade mas que vai além, redefinindo 
quem somos?
A questão é complicada, difícil até de ser 
formulada. O telefone e o carro transformaram 
o modo como as pessoas se comunicavam, 
iam ao trabalho, viajavam, viam o mundo. 
Como toda tecnologia que se torna de uso 
público, primeiro começaram pequenos, 
com alcance limitado: eram poucas as linhas 
telefônicas e as estradas.
Aos poucos, as coisas foram crescendo e, em 
meados do século 20, telefones e estradas 
estavam pelo mundo todo. Uma diferença bem 
importante é que a internet, por ser acessível 
por computadores, é bem mais aberta aos 
jovens. Telefones celulares também; os jovens 
têm a sua privacidade, o seu espaço virtual 
separado do dos pais e irmãos. A comunicação 
é tão fácil e rápida que chega a tornar o 
contato direto, em carne 
e osso, desnecessário.
Talvez seja uma 
preocupação dos meus 
leitores mais velhos, 
que, como eu, nutriam 
as amizades no campo 
real e não por meio de 
sites como Facebook e Twitter, mas será que 
a internet nos fará desaprender como nos 
relacionar diretamente com outros seres 
humanos?
Deixando esse tipo de preocupação de lado, 
se olharmos para a história da civilização, 
veremos que podemos contá-la como uma 
história da tecnologia. À medida que novas 
tecnologias foram sendo desenvolvidas, 
do controle do fogo e da rotação de terra 
na agricultura até a roda, o arado e os 
transistores e semicondutores usados em 
aparelhos eletrônicos, nossa história foi, 
em grande parte, determinada pelas nossas 
máquinas. Valores e interesses mudam, e 
visões de mundo se transformam de acordo 
com nossos instrumentos.
O Homo habilis, nosso ancestral que usou 
ferramentas pela primeira vez, evoluiu rumo 
ao Homo sapiens e, agora, este se transforma 
no Homo conectus. Será que nossos avanços 
tecnológicos são, hoje, a principal mola da 
nossa evolução como espécie? Nesse caso, 
será que a tecnologia está redefinindo o que 
significa ser humano?
Descontando uma grande devastação 
biológica, como uma epidemia de proporções 
globais ou um cataclismo climático ou 
Será que a 
tecnologia está 
redefinindo quem 
somos?
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ecológico, somos donos da nossa evolução: 
nossa transformação como espécie ocorre 
muito menos devido a mutações aleatórias e 
ao processo de seleção natural do que, por 
exemplo, devido a um maior intercâmbio 
racial, à melhor alimentação e aos avanços 
da medicina, à integração de tecnologias 
diversas com o corpo (marca-passos, órgãos 
e membros artificiais) e com a mente (drogas 
que mudam nossas emoções, implantes nos 
olhos e ouvidos, chips no cérebro).
A internet talvez representeuma nova fronteira, 
a da integração coletiva da humanidade a um 
nível sem precedentes. Se não no mundo real, 
ao menos no virtual.
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MARCELO GLEISER é professor de física teórica no 
Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro 
“A Harmonia do Mundo”
FOLHA DE SÃO PAULO, 3 de nov 2009. MAIS!
ATIVIDADES DE LEITURA
1. Qual é o tema do texto?
A internet e os impactos dessa tecnologia na vida humana.
D6
2. No texto, há uma série de perguntas. Grife-as. Qual é a função dessas 
perguntas?
As perguntas do texto apresentam as questões-problema que o autor quer discutir. 
D19 
É importante que o aluno avalie as pistas textuais para a identificação 
do tema do texto: nos 40 anos da internet, o autor pretende discutir 
o impacto dessa tecnologia na vida do homem, ou mesmo as 
possibilidades que as tecnologias teriam de redefinir a vida humana. 
O tema da internet nos parece central, veja que o texto se conclui 
abordando as possibilidades da internet. É importante também 
chamar a atenção dos alunos para a função das perguntas nesse 
texto argumentativo. Observe-se que uma delas merece destaque, 
sinalizando que a argumentação parece mais focada nas perguntas 
do que propriamente na construção de uma resposta definitiva a elas. 
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3. Considere a opinião do autor a respeito do impacto da tecnologia na vida 
humana: 
“Valores e interesses mudam, e visões de mundo se transformam de acordo com 
nossos instrumentos.”
Encontre, no texto, um argumento que sustenta essa opinião.
“O telefone e o carro transformaram o modo como as pessoas se comunicavam 
(...)viam o mundo.”
“Se olharmos para a história da civilização, veremos que podemos contá-la como 
uma história da tecnologia”.
D8
4. No texto o autor discute também a relação do jovem com a internet.
4.1. Que opinião ele defende a esse respeito? 
Que a internet é uma tecnologia que tem forte impacto na vida dos jovens. Ele 
afirma também que essa tecnologia, assim como o celular, garante “privacidade” 
aos jovens, ou seja, eles ganham um novo espaço de comunicação, fora do controle 
da família. 
D7
4.2. Ao discutir o tema Juventude e Internet, o autor apresenta um novo 
“problema”. Qual? 
O autor menciona a adesão de grande parte da juventude a tecnologias como 
Facebook e Twitter. Esse problema o leva a acrescentar uma nova pergunta ao 
debate: “será que a internet nos fará desaprender como nos relacionar diretamente 
com outros seres humanos?” 
D1
5. Releia: 
“Será que nossos avanços tecnológicos são, hoje, a principal mola da nossa 
evolução como espécie? Nesse caso, será que a tecnologia está redefinindo o 
que significa ser humano?”
Observe que, no final do 7º parágrafo, o autor retoma a pergunta já colocada no 
final do 3º parágrafo. 
5.1. Levante hipóteses sobre por que isso acontece.
Essa parece ser a questão central que o autor pretende discutir no texto, por isso 
ele a repete e a destaca. 
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5.2. Ele responde a essa pergunta? 
Sim, o autor apresenta uma resposta para essa pergunta no último parágrafo do 
texto: “A internet talvez represente uma nova fronteira, a da integração coletiva 
da humanidade a um nível sem precedentes. Se não no mundo real, ao menos no 
virtual.” 
D1
As questões 3 e 4 chamam a atenção para posicionamentos assumidos 
pelo autor a respeito de diferentes tópicos (em negrito nas questões) 
abordados no texto. A questão 5 chama a atenção para aquele que 
nos parece ser o tópico mais central do texto: as possibilidades de as 
tecnologias (particularmente a internet) “redefinirem quem somos”? 
Essa pergunta central é respondida no último parágrafo. Observe, 
no entanto, que o posicionamento do autor é formulado como uma 
hipótese. Como afirma o autor no início de sua argumentação, 
as questões postas ao debate são “complicadas”, por isso não há 
respostas definitivas. O tutor deve chamar a atenção dos alunos para 
a natureza hipotética da formulação do autor, apontando para o 
uso do presente do subjuntivo (represente), bem como para o 
advérbio “talvez”, escolhas discursivas importantes no texto. 
TEXTO III
Dando continuidade às nossas discussões a respeito da relação do homem com a tecnologia, 
propomos a leitura do texto publicitário abaixo. Considere, ao ler esse texto, as várias pistas 
textuais: imagem, texto verbal, destaques. 
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ATIVIDADES DE LEITURA
1. Qual seria o objetivo do texto?
Vender um novo produto da Microsoft: o Office 2003.
D12
2. O texto publicitário é um tipo de texto argumentativo, pois apresenta 
argumentos para convencer seus leitores a comprar um produto ou mesmo uma 
“ideia”. Qual é o argumento do texto publicitário que você leu? 
O texto argumenta através da imagem do “homem-dinossauro”. Por não ter 
atualizado seu programa, ele executou mal uma tarefa. A frase “Essa era já era” 
reforça esse argumento, ao afirmar que tecnologias ultrapassadas devem ser 
substituídas por outras mais modernas, ou seja, o homem dinossauro deve trocar 
o Office 2000 pelo 2003.
D8
VAMOS ESCREVER
Escreva um texto argumentativo sobre o tema “Juventude e Tecnologia”. Pense nas questões 
colocadas pelo autor e em outras, como: como o jovem se relaciona com a tecnologia? Você 
concorda com a afirmação de que o jovem é muito dependente dela? Que aspectos positivos 
você apontaria na internet como tecnologia para juventude? Que aspectos negativos apontaria? 
Que outra tecnologia, além da internet, o jovem valoriza? Por quê? Etc.
Mais uma vez o tutor deve orientar os alunos a organizar o esquema de seu texto antes de 
escrevê-lo. Sugestões:
Esquema I: O jovem e a internet.
Parágrafo 1 – Introdução – O interesse crescente do jovem pela internet.
Parágrafo 2 – Aspectos positivos dessa tecnologia.
Parágrafo 3 – Aspectos negativos dessa tecnologia.
Parágrafo 4 – Como os jovens podem fazer bom uso da tecnologia?
Esquema II: Tecnologias preferidas pelo jovem
Parágrafo 1 – Quais são: internet, celular, Ipod...?
Parágrafo 2 – Por que essas tecnologias atraem os jovens? 
Parágrafo 3 – Os jovens fazem bom uso da tecnologia? Como poderiam fazê-lo?
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Esquema III: Juventude e inclusão digital
Parágrafo 1 – A importância da tecnologia da internet como meio de informação e conhecimento.
Parágrafo 2 – Muitos jovens não têm acesso ou ainda não conhecem as possibilidades da 
internet como tecnologia da informação.
Parágrafo 3 – Como resolver o problema da exclusão digital no Brasil?
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Anotações
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A NARRATIVA LITERÁRIA
contos brasileiros
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Begma Tavares Barbosa
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1. OBJETIVOS
1. Desenvolver habilidades de leitura de narrativas.
2. Conhecer a estrutura de narrativas.
3. Refletir sobre as estratégias da narrativa literária: organização estrutural; 
foco narrativo; apresentação e composição dos personagens; discurso 
direto, indireto e indireto livre.
4. Comparar contos brasileiros de épocas e autores distintos, para refletir 
sobre diferentes formas de estruturação de narrativas e suas implicações.
2. TEXTOS PROPOSTOS PARA LEITURA 
Texto I – A carteira – Machado de Assis
O conto “A carteira” é um conto instigante porque foi escrito de modo acriar suspense. 
Honório, o protagonista do conto, é um homem endividado, que encontra uma carteira que 
pode significar uma boa “oportunidade” de sair do apuro em que se encontra. Note-se que 
o conto se inicia pela “complicação” ou “conflito” da narrativa: “DE REPENTE, Honório olhou 
para o chão e viu uma carteira.”. O que fará com ela? Vai abri-la? Haverá dinheiro ali? Honório 
vai devolvê-la? A história se desenrola aos poucos e nos surpreende quando descobrimos que 
a carteira, coincidentemente, pertence a um frequentador assíduo da casa, amigo de Honório 
e de sua mulher Amélia. Há, naquela carteira, uma boa quantia em dinheiro, que Honório 
resolve devolver a Gustavo. Mais surpreendente ainda é o desfecho do conto, que revela o 
romance entre Gustavo e D. Amélia, romance que Honório teria descoberto se mexesse na 
carteira: teria encontrado ali um bilhete de amor. 
O que faz Machado para criar o suspense? Interrompe a ação inicial – Honório apanha a 
carteira – passando a orientar o leitor sobre quem é o personagem principal. Ficamos sabendo 
que Honório é um advogado, que é casado, que sua mulher gasta muito dinheiro, que tem 
uma filha, que está seriamente endividado e que sua dívida é urgente e que por isso anda tão 
preocupado, embora esconda de todos suas preocupações. O quarto parágrafo do texto é um 
ótimo exemplo de como se dá a interrupção da ação narrativa: “Para avaliar a oportunidade 
desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e 
tantos mil-réis...”. Portanto, a forma como essa narrativa é estruturada garante o suspense. O 
conto tem início com o elemento complicador da narrativa – Honório encontra uma carteira 
e a apanha – e essa ação é interrompida por um longo trecho de orientação.
O que são trechos de orientação em uma narrativa? São fragmentos que, substancialmente, 
ocupam-se da composição do cenário da narrativa e da apresentação de seus personagens. 
Esses fragmentos costumam reunir importantes informações que orientam os leitores sobre 
quando e onde acontecem os fatos narrados e sobre quem são os personagens envolvidos na 
trama, antes que os leitores mergulhem nela tomando conhecimento do conflito da narrativa. 
Os trechos de orientação respondem, portanto, a perguntas sobre o quando, onde, quem e 
como de uma história. Observe como exemplo no conto lido este trecho que orienta o leitor 
sobre como se sentia e agia Honório: “Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como 
se nadasse em um mar de prosperidades.”
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É importante observarmos que trechos de orientação narrativa são, normalmente, construídos 
com o pretérito imperfeito do verbo (contava, fingia). Já os trechos focados na ação 
narrativa são marcados pelo pretérito perfeito. Observe: “Honório teve tentações de fechar 
os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. 
Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a guardá-la.”
Observe, ainda, o trecho abaixo, que corresponde ao momento de retorno à ação narrativa: 
“Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, mas voltou sem ousar pedir 
nada. Ao enfiar pela Rua da Assembléia é que viu a carteira no chão, apanhou-a, meteu no 
bolso, e foi andando.” Os verbos no pretérito imperfeito (eram, tinha) sinalizam um trecho de 
orientação narrativa. Os verbos no pretérito perfeito indicam um retorno à ação da narrativa: 
voltamos ao momento do conto em que Honório encontra a carteira, voltamos ao conflito da 
narrativa, que vai , finalmente, desenrolar-se: Honório hesita em abrir a carteira, sua consciência 
lhe diz que não deve fazê-lo, depois resolve abri-la, vê que ali há dinheiro para cobrir toda 
sua dívida, investiga se há ali pistas do dono da carteira, descobre que pertence a seu amigo 
Gustavo e resolve devolvê-la.
Honório vence a tentação de ficar com um dinheiro que não era dele, motivado também pela 
fidelidade a um amigo, atitude que contrasta com o desfecho do conto, que nos revela a 
infidelidade do outro. 
Texto II – Conto de Verão no 2: Bandeira Branca – Luís Fernando Veríssimo
Com o humor característico de seus contos e crônicas, Luís Fernando Veríssimo escreve “Conto 
de verão no 2: Bandeira Branca”, uma história envolvente e rica em estratégias narrativas. 
O conto narra a paixão romântica de Píndaro por Janice. A série de encontros entre os dois 
personagens acontece sempre, como sugere o título, em bailes de carnaval. Os personagens se 
conhecem ainda crianças, quando brincam juntos inocentemente no baile infantil de um clube, 
passando a encontrar-se, quase anualmente, durante a infância, adolescência e juventude, 
quanto Janice visita a cidade , em época de carnaval. 
Esse amor da infância e da adolescência marca definitivamente a vida de Píndaro, o que não 
acontece com Janice. A narrativa recobre um longo período da vida das personagens, que 
se desencontram na juventude e voltam a se encontrar, casualmente, quando já adultos. O 
desfecho do conto narra esse reencontro. Num belo fragmento de prosa, temos a captação do 
que pensam e do que sentem os personagens. Na cena, Píndaro e Janice olham-se em silêncio: 
ele, tentado a revelar um sentimento que marcou toda a sua vida; ela, tentando lembrar-se do 
nome dele. Trata-se, portanto, de uma história de amor sem final feliz, contada com o humor 
próprio da prosa de Veríssimo. 
Vale ressaltar uma das muitas estratégias narrativas que fazem desse conto um belo exemplar 
do gênero na literatura brasileira: a escolha das fantasias de carnaval. Também com humor as 
fantasias são escolhidas de modo a sinalizar as diferentes fases da vida dos protagonistas. Além 
disso, a simples escolha da fantasia de carnaval cria no leitor, a certa altura do conto, a falsa 
expectativa de que a história desse amor de carnaval pode vir a ter um final feliz: “No baile 
do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez a fantasia dos dois combinaram. Toureiro 
e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não estavam 
olhando. Até na boca.” Mas isso não acontece. E aí temos mais uma sinalização relevante 
no conto, que pode passar despercebida: no início da narrativa, temos uma informação que 
pode ser tomada como uma antecipação de seu desfecho: “Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de 
culturas muito diferentes, não podia dar certo.”
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3. ROTEIRO PARA O TRABALHO NAS OFICINAS
1. Leitura do texto “A carteira” – silenciosa ou feita em voz alta pelo tutor.
2. Discussão do conto com o grupo – antes de iniciar as atividades de leitura 
o tutor pode motivar uma conversa sobre o conto: os alunos gostaram 
do texto; o que têm a dizer sobre a história, sobre seus personagens? Etc.
3. Resolução das atividades de leitura propostas, individualmente ou em 
duplas e sob orientação do tutor. 
4. Correção/comentários das atividades de leitura.
 No momento de correção e comentários, É MUITO IMPORTANTE o 
tutor trabalhar os “conteúdos” envolvidos nas atividades de leitura, 
como: I) estrutura da narrativa (orientação, complicação e desfecho); 
tempos verbais na narrativa (pretérito perfeito e imperfeito); foco 
narrativo (narrador em primeira pessoa, narrador em terceira pessoa, 
narrador observador, narrador onisciente, narrador intruso); tipos de 
personagem (personagem principal e secundário).
5. Leitura do texto de Luís Fernando Veríssimo, resolução e correção das 
atividades de leitura.
6. Comparação entre textos – tendo em vista nosso objetivo de estudar a 
estrutura de narrativas, o tutor deve conduzir essa atividade de modo que 
os alunos observem as diferentes estratégias utilizadas pelos escritores na 
composição das histórias contadas. 
4. TEXTOS E ATIVIDADESDE LEITURA
O texto que você vai ler foi escrito por Machado de Assis (1839-1908), 
considerado por muitos o maior escritor da literatura brasileira. Grande 
parte da obra desse escritor se caracteriza por uma visão bastante crítica 
do ser humano, da sociedade e de suas instituições. Machado foi também 
um investigador bastante competente da alma humana. Autodidata, foi o 
fundador da Academia Brasileira de Letras. Conheça um pouco mais desse 
grande escritor que faz a literatura brasileira ser reconhecida em todo o mundo.
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TEXTO I
A CARTEIRA 
Machado de Assis
…DE REPENTE, Honório olhou para o chão e viu uma carteira. Abaixar-se, apanhá-la e 
guardá-la foi obra de alguns instantes. Ninguém o viu, salvo um homem que estava à porta de 
uma loja, e que, sem o conhecer, lhe disse rindo:
— Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.
— É verdade, concordou Honório envergonhado.
Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de pagar 
amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo recheado. A 
dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as 
quantias são grandes ou pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores. 
Gastos de família excessivos, a princípio por servir a parentes, e depois por agradar à mulher, 
que vivia aborrecida da solidão; baile daqui, jantar dali, chapéus, leques, tanta cousa mais, que 
não havia remédio senão ir descontando o futuro. Endividou-se. Começou pelas contas de lojas 
e armazéns; passou aos empréstimos, duzentos a um, trezentos a outro, quinhentos a outro, 
e tudo a crescer, e os bailes a darem-se, e os jantares a comerem-se, um turbilhão perpétuo, 
uma voragem.
— Tu agora vais bem, não? dizia-lhe ultimamente o Gustavo C…, advogado e familiar 
da casa.
— Agora vou, mentiu o Honório.
A verdade é que ia mal. Poucas causas, de pequena monta, e constituintes remissos; 
por desgraça perdera ultimamente um processo, em que fundara grandes esperanças. Não só 
recebeu pouco, mas até parece que ele lhe tirou alguma cousa à reputação jurídica; em todo 
caso, andavam mofinas nos jornais. D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, 
bons ou maus negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse 
em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa dele, dizia 
uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois ia ouvir os trechos de música 
alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao piano, e que o Gustavo escutava com indizível 
prazer, ou jogavam cartas, ou simplesmente falavam de política.
Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha, criança de quatro anos, e 
viu-lhe os olhos molhados; ficou espantada, e perguntou-lhe o que era.
— Nada, nada.
Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas as esperanças 
voltavam com facilidade. A ideia de que os dias melhores tinham de vir dava-lhe conforto para 
a luta. Estava com trinta e quatro anos; era o princípio da carreira: todos os princípios são 
difíceis. E toca a trabalhar, a esperar, a gastar, pedir fiado ou emprestado, para pagar mal, e a 
más horas.
A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de carros. 
Nunca demorou tanto a conta, nem ela cresceu tanto, como agora; e, a rigor, o credor não lhe 
punha a faca aos peitos; mas disse-lhe hoje uma palavra azeda, com um gesto mau, e Honório 
quer pagar-lhe hoje mesmo. Eram cinco horas da tarde. Tinha-se lembrado de ir a um agiota, 
mas voltou sem ousar pedir nada. Ao enfiar pela Rua da Assembleia é que viu a carteira no 
chão, apanhou-a, meteu no bolso, e foi andando.
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Durante os primeiros minutos, Honório não pensou nada; foi andando, andando, 
andando, até o Largo da Carioca. No Largo parou alguns instantes, — enfiou depois pela Rua 
da Carioca, mas voltou logo, e entrou na Rua Uruguaiana. Sem saber como, achou-se daí a 
pouco no Largo de S. Francisco de Paula; e ainda, sem saber como, entrou em um Café. Pediu 
alguma cousa e encostou-se à parede, olhando para fora. Tinha medo de abrir a carteira; 
podia não achar nada, apenas papéis e sem valor para ele. Ao mesmo tempo, e esta era a 
causa principal das reflexões, a consciência perguntava-lhe se podia utilizar-se do dinheiro 
que achasse. Não lhe perguntava com o ar de quem não sabe, mas antes com uma expressão 
irônica e de censura.
Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida?
Eis o ponto. A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a carteira à 
polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer isto, vinham os apuros da ocasião, 
e puxavam por ele, e convidavam-no a ir pagar a cocheira. Chegavam mesmo a dizer-lhe que, 
se fosse ele que a tivesse perdido, ninguém iria entregar-lha; insinuação que lhe deu ânimo.
Tudo isso antes de abrir a carteira. Tirou-a do bolso, finalmente, mas com medo, quase às 
escondidas; abriu-a, e ficou trêmulo. Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas 
notas de duzentos mil-réis, algumas de cinquenta e vinte; calculou uns setecentos mil réis ou 
mais; quando menos, seiscentos. Era a dívida paga; eram menos algumas despesas urgentes.
Honório teve tentações de fechar os olhos, correr à cocheira, pagar, e, depois de paga a 
dívida, adeus; reconciliar-se-ia consigo. Fechou a carteira, e com medo de a perder, tornou a 
guardá-la.
Mas daí a pouco tirou-a outra vez, e abriu-a, com vontade de contar o dinheiro. Contar 
para quê? Era dele? Afinal venceu-se e contou: eram setecentos e trinta mil-réis. Honório Teve 
um calafrio. Ninguém viu, ninguém soube; podia ser um lance da fortuna, a sua boa sorte, um 
anjo… Honório teve pena de não crer nos anjos…
Mas por que não havia de crer neles? E voltava ao dinheiro, olhava, passava-o pelas 
mãos; depois, resolvia o contrário, não usar do achado, restituí-lo. Restituí-lo a quem? Tratou 
de ver se havia na carteira algum sinal.
“Se houver um nome, uma indicação qualquer, não posso utilizar-me do dinheiro,” 
pensou ele.
Esquadrinhou os bolsos da carteira. Achou cartas, que não abriu, bilhetinhos dobrados, 
que não leu, e por fim um cartão de visita; leu o nome; era do Gustavo. Mas então, a carteira?… 
Examinou-a por fora, e pareceu-lhe efetivamente do amigo. Voltou ao interior; achou mais 
dous cartões, mais três, mais cinco. Não havia duvidar; era dele.
A descoberta entristeceu-o. Não podia ficar com o dinheiro, sem praticar um ato ilícito, 
e, naquele caso, doloroso ao seu coração porque era em dano de um amigo. Todo o castelo 
levantado esboroou-se como se fosse de cartas. Bebeu a última gota de café, sem reparar que 
estava frio. Saiu, e só então reparou que era quase noite. Caminhou para casa. Parece que a 
necessidade ainda lhe deu uns dous empurrões, mas ele resistiu.
“Paciência, disse ele consigo; verei amanhã o que posso fazer.”
Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado. E a própria D. Amélia 
o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo se lhe faltava alguma cousa.
— Nada.
— Nada?
— Por quê?
— Mete a mão no bolso; não te falta nada?
— Falta-me a carteira, disse o Gustavo sem meter a mão no bolso.
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Sabes se alguém a achou?
— Achei-a eu, disse Honório entregando-lha.
Gustavo pegou dela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. Esse olhar 
foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta com a necessidade, era um 
triste prêmio. Sorriu amargamente; e, como o outro lhe perguntasse onde a achara, deu-lhe 
as explicações precisas.— Mas conheceste-a?
— Não; achei os teus bilhetes de visita.
Honório deu duas voltas, e foi mudar de toilette para o jantar.
Então Gustavo sacou novamente a carteira, abriu-a, foi a um dos bolsos, tirou um dos 
bilhetinhos, que o outro não quis abrir nem ler, e estendeu-o a D. Amélia, que, ansiosa e 
trêmula, rasgou-o em trinta mil pedaços: era um bilhetinho de amor.
ATIVIDADES DE LEITURA
Agora que você já leu o conto de Machado de Assis, procure responder as questões abaixo:
1. Quem são os personagens do conto de Machado de Assis. Quem é o 
personagem protagonista? Descreva resumidamente esse personagem, 
destacando informações que são importantes para a compreensão da história.
Honório, D. Amélia e Gustavo são os três personagens do conto. Formam um 
triângulo amoroso. Honório é o personagem principal, um advogado, casado e 
que está seriamente endividado.
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2. Leia com atenção a informação abaixo: 
Toda narrativa se organiza em torno de um conflito. O conflito (ou complicação) 
de uma narrativa é seu elemento de tensão, capaz de prender a atenção do 
leitor. Ao ponto máximo de tensão de uma narrativa chamamos de clímax. O 
desfecho de uma narrativa corresponde à resolução de seu conflito.
Responda:
2.1. Qual é o conflito ou o elemento complicador dessa narrativa?
O fato de Honório ter encontrado uma carteira num momento em que precisava 
de dinheiro para saldar uma dívida. Esse fato mobiliza a atenção do leitor que 
segue acompanhando a história até seu desfecho.
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2.2. Indique, no texto, o clímax da narrativa, ou seja, seu ponto máximo de tensão. 
O trecho em que Honório procura na carteira indícios de seu dono para resolver 
se fica ou não com ela. A partir daí encaminha-se o desfecho surpreendente do 
conto. 
2.3. Releia o último parágrafo do texto. Como você compreende o desfecho 
dessa história de Machado de Assis?
Honório resolve devolver a carteira ao descobrir que pertence a seu amigo Gustavo. 
Ao entregá-la, Gustavo parece assustar-se ao pensar na possibilidade de o amigo 
ter lido os bilhetes de amor que lá estavam e que denunciavam seu romance com 
D. Amélia. Mas Honório não chegou a ler os bilhetes e a traição dos amantes não 
é descoberta.
D10
3. Leia atentamente:
Na maioria das vezes, as narrativas incluem trechos de “orientação”. São 
partes da narrativa que orientam o leitor indicando, por exemplo: onde e 
quando acontecem os fatos narrados, quem são e como são os personagens 
envolvidos na história. 
Grife, no texto, trechos de orientação narrativa.
“Para avaliar a oportunidade desta carteira, é preciso saber que Honório tem de 
pagar amanhã uma dívida, quatrocentos e tantos mil-réis, e a carteira trazia o bojo 
recheado.”
“Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse em um mar 
de prosperidades.”
D10
4. Releia o trecho abaixo: 
“D. Amélia não sabia nada; ele não contava nada à mulher, bons ou maus 
negócios. Não contava nada a ninguém. Fingia-se tão alegre como se nadasse 
em um mar de prosperidades. Quando o Gustavo, que ia todas as noites à casa 
dele, dizia uma ou duas pilhérias, ele respondia com três e quatro; e depois 
ia ouvir os trechos de música alemã, que D. Amélia tocava muito bem ao 
piano, e que o Gustavo escutava com indizível prazer, ou jogavam cartas, ou 
simplesmente falavam de política.”
Que tempo verbal predomina nesse trecho? Dê exemplos e comente o uso desse 
tempo verbal na narrativa.
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Predomina o pretérito imperfeito: sabia, contava, fingia, ia, dizia, respondia, 
escutava, jogavam, falavam. Esse tempo verbal predomina em orientações de 
narrativa, como o trecho acima, em que se informa ao leitor sobre a situação de 
Honório e se descreve uma cena do cotidiano dos três amigos.
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5. Leia atentamente:
O NARRADOR é um elemento essencial em uma narrativa. O narrador, na maioria 
das vezes, não é o AUTOR. Podemos dizer que o narrador é uma ESTRATÉGIA 
que o autor escolheu para contar sua história. Ele é ponto de vista a partir do 
qual a história será contada.
Considerando a definição acima, que tipo de narrador observamos no conto de 
Machado de Assis?
O conto tem um foco narrativo em terceira pessoa, ou seja, o narrador não participa 
da história narrada. É um narrador onisciente, que sabe tudo sobre a história, 
sendo capaz de mergulhar no interior dos personagens e saber o que pensam e 
sentem. Ex: “Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria. Mas 
as esperanças voltavam com facilidade. A ideia de que os dias melhores tinham de 
vir dava-lhe conforto para a luta.”
Trata-se ainda de um narrador intruso, ou seja, que não se limita a contar a 
história, ele se “intromete”, fazendo comentários ou julgamentos a respeito dos 
personagens ou de situações vividas. Ex: “A dívida não parece grande para um 
homem da posição de Honório, que advoga; mas todas as quantias são grandes ou 
pequenas, segundo as circunstâncias, e as dele não podiam ser piores.”
D10
As questões de 1 a 5 pretendem aperfeiçoar a habilidade de ler 
narrativas, ao considerar elementos/estratégias fundamentais em 
sua construção, como:
I) composição de personagens: personagens principais e 
secundários (QUESTÃO 1);
II) estrutura da narrativa: orientação, complicação, climax e 
desfecho (QUESTÕES 2 E 3);
III) tempos verbais na narrativa: pretérito perfeito e imperfeito 
(QUESTÃO 4);
IV) foco narrativo: narrador em primeira pessoa, narrador em 
terceira pessoa, narrador observador, narrador onisciente, 
narrador intruso (QUESTÃO 5)
É importante que o tutor trabalhe com os alunos todos esses 
conteúdos, esclarecendo suas dúvidas. São conhecimentos sobre a 
narrativa que ajudam a tornar os alunos leitores mais atentos às 
estratégias de narrar, o que possibilita ampliar sua competência de 
leitura. 
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QUESTÕES OBJETIVAS
Resolva agora as questões objetivas abaixo:
1. O conflito da narrativa que você leu tem início em:
a) “…DE REPENTE, Honório olhou para o chão e viu uma carteira.” (X)
b) “A dívida não parece grande para um homem da posição de Honório, que 
advoga...”
c) “...D. Amélia tocava muito bem ao piano, e o Gustavo escutava com indizível 
prazer...”
d) “A dívida urgente de hoje são uns malditos quatrocentos e tantos mil-réis de 
carros...”
e) “Podia lançar mão do dinheiro, e ir pagar com ele a dívida?”
D10
2. A alternativa que contém um comentário do narrador é: 
a) “Olhe, se não dá por ela; perdia-a de uma vez.”
b) “Um dia, a mulher foi achá-lo dando muitos beijos à filha...”
c) “Compreende-se que era o medo do futuro e o horror da miséria.” (X)
d) “Durante os primeiros minutos, Honório não pensou em nada...”
e) “Tinha dinheiro, muito dinheiro; não contou, mas viu duas notas de duzentos 
mil réis...”
D14
3. 
“A consciência acabou por lhe dizer que não podia, que devia levar a 
carteira à polícia, ou anunciá-la; mas tão depressa acabava de lhe dizer 
isto, vinham os apuros da ocasião, e puxavam por ele, e convidavam-no a 
ir pagar a cocheira.”
A palavra “apuros”, no fragmento acima, significa:
a) sacrifícios.
b) apertos. (X)
c) incômodos.
d) deveres.
e) amigos.
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4. 
“Chegando a casa, já ali achou o Gustavo, um pouco preocupado. E a 
própria D. Amélia o parecia também. Entrou rindo, e perguntou ao amigo 
se lhe faltava alguma cousa...”
O pronome grifado tem como referente:
a) D. Amélia.
b) Gustavo. (X)
c) Honório.
d) A expressão “alguma coisa”.
e) A expressão “a casa”.
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5. 
“Gustavo pegoudela precipitadamente, e olhou desconfiado para o amigo. 
Esse olhar foi para Honório como um golpe de estilete; depois de tanta luta 
com a necessidade, era um triste prêmio....”
O fragmento acima permite concluir que:
a) Gustavo desconfiou de que Honório pudesse ter mexido no dinheiro.
b) Honório sentiu no olhar do amigo que ele, Gustavo, desconfiou de sua 
honestidade. (X)
c) Honório descobriu a traição do amigo.
d) Honório não quis revelar que descobrira a traição do amigo.
e) A traição da esposa foi uma grande dor para Honório.
D4
Vamos conhecer agora outro grande autor da literatura brasileira, muito conhecido por suas 
crônicas, publicadas em jornais de grande circulação, é também autor de romances e belos 
contos, como o que você vai ler abaixo. 
Luis Fernando Verissimo (Porto Alegre, 26 de setembro de 1936) é um 
escritor brasileiro. Mais conhecido por suas crônicas e textos de humor, 
publicados diariamente em vários jornais brasileiros, Verissimo é também 
cartunista e tradutor, além de roteirista de televisão, autor de teatro e 
romancista. É ainda músico, tendo tocado saxofone em alguns conjuntos. 
Com mais de 60 títulos publicados, é um dos mais populares escritores 
brasileiros contemporâneos. É filho do também escritor Érico Veríssimo.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Luis_Fernando_Verissimo
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TEXTO II
Conto de Verão No 2: Bandeira Branca
Luís Fernando Veríssimo
Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar certo. Mas 
tinham só quatro anos e se entenderam. No mundo dos quatro anos todos se entendem, 
de um jeito ou de outro. Em vez de dançarem, pularem e entrarem no cordão, resistiram a 
todos os apelos desesperados das mães e ficaram sentados no chão, fazendo um montinho 
de confete, serpentina e poeira, até serem arrastados para casa, sob ameaças de jamais serem 
levados a outro baile de Carnaval. 
Encontraram-se de novo no baile infantil do clube, no ano seguinte. Ele com o mesmo 
tirolês, agora apertado nos fundilhos, ela de egípcia. Tentaram recomeçar o montinho, mas 
dessa vez as mães reagiram e os dois foram obrigados a dançar, pular e entrar no cordão, sob 
ameaça de levarem uns tapas. Passaram o tempo todo de mãos dadas.
Só no terceiro Carnaval se falaram.
— Como é teu nome?
— Janice. E o teu?
— Píndaro.
— O quê?!
— Píndaro.
— Que nome!
Ele de legionário romano, ela de índia americana.
***
Só no sétimo baile (pirata, chinesa) desvendaram o mistério de só se encontrarem no 
Carnaval e nunca se encontrarem no clube, no resto do ano. Ela morava no interior, vinha 
visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.
 — Ah.
 Foi o ano em que ele preferiu ficar com a sua turma tentando encher a boca das meninas 
de confete, e ela ficou na mesa, brigando com a mãe, se recusando a brincar, o queixo enterrado 
na gola alta do vestido de imperadora. Mas quase no fim do baile, na hora do Bandeira Branca, 
ele veio e a puxou pelo braço, e os dois foram para o meio do salão, abraçados. E, quando se 
despediram, ela o beijou na face, disse “Até o Carnaval que vem” e saiu correndo.
No baile do ano em que fizeram 13 anos, pela primeira vez a fantasia dos dois combinaram. 
Toureiro e bailarina espanhola. Formavam um casal! Beijaram-se muito, quando as mães não 
estavam olhando. Até na boca. Na hora da despedida, ele pediu:
— Me dá alguma coisa.
— O quê?
— Qualquer coisa.
— O leque.
O leque da bailarina. Ela diria para a mãe que o tinha perdido no salão.
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No ano seguinte, ela não apareceu no baile. Ele ficou o tempo todo à procura, um 
havaiano desconsolado. Não sabia nem como perguntar por ela. Não conhecia a tal tia. Passara 
um ano inteiro pensando nela, às vezes tirando o leque do seu esconderijo para cheirá-lo, 
antegozando o momento de encontrá-la outra vez no baile. E ela não apareceu. Marcelão, o 
mau elemento da sua turma, tinha levado gim para misturar com o guaraná. Ele bebeu demais. 
Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava sendo lavado. 
O que acontecera?
— Você vomitou a alma — disse a mãe.
Era exatamente como se sentia. Como alguém que vomitara a alma e nunca a teria de 
volta. Nunca. Nem o leque tinha mais o cheiro dela.
Mas, no ano seguinte, ele foi ao baile dos adultos no clube — e lá estava ela! Quinze 
anos. Uma moça. Peitos, tudo. Uma fantasia indefinida.
— Sei lá. Bávara tropical — disse ela, rindo.
Estava diferente. Não era só o corpo. Menos tímida, o riso mais alto. Contou que faltara 
no ano anterior porque a avó morrera, logo no Carnaval.
— E aquela bailarina espanhola?
— Nem me fala. E o toureiro?
— Aposentado.
A fantasia dele era de nada. Camisa florida, bermuda, finalmente um brasileiro. Ela 
estava com um grupo. Primos, amigos dos primos. Todos vagamente bávaros. Quando ela o 
apresentou ao grupo, alguém disse “Píndaro?!” e todos caíram na risada. Ele viu que ela estava 
rindo também. Deu uma desculpa e afastou-se. Foi procurar o Marcelão. O Marcelão anunciara 
que levaria várias garrafas presas nas pernas, escondidas sob as calças da fantasia de sultão. 
O Marcelão tinha o que ele precisava para encher o buraco deixado pela alma. Quinze anos, 
pensou ele, e já estou perdendo todas as ilusões da vida, começando pelo Carnaval. Não devo 
chegar aos 30, pelo menos não inteiro. Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, 
bebendo o guaraná clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão 
de primos e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até 
criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro. Pensou em dizer 
alguma coisa, mas só o que lhe ocorreu dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico” e 
desistiu. Mas, quando a banda começou a tocar Bandeira Branca e ele se dirigiu para a saída, 
tonto e amargurado, sentiu que alguém o pegava pela mão, virou-se e era ela. Era ela, meu 
Deus, puxando-o para o salão. Ela enlaçando-o com os dois braços para dançarem assim, ela 
dizendo “não vale, você cresceu mais do que eu” e encostando a cabeça no seu ombro. Ela 
encostando a cabeça no seu ombro.
***
Encontraram-se de novo 15 anos depois. Aliás, neste Carnaval. Por acaso, num aeroporto. 
Ela desembarcando, a caminho do interior, para visitar a mãe. Ele embarcando para encontrar 
os filhos no Rio. Ela disse “quase não reconheci você sem fantasias”. Ele custou a reconhecê-
la. Ela estava gorda, nunca a reconheceria, muito menos de bailarina espanhola. A última 
coisa que ele lhe dissera fora “preciso te dizer uma coisa”, e ela dissera “no Carnaval que vem, 
no Carnaval que vem” e no Carnaval seguinte ela não aparecera, ela nunca mais aparecera. 
Explicou que o pai tinha sido transferido para outro estado, sabe como é, Banco do Brasil, e 
como ela não tinha o endereço dele, como não sabia nem o sobrenome dele e, mesmo, não 
teria onde tomar nota na fantasia de falsa bávara…
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— O que você ia me dizer, no outro Carnaval? — perguntou ela.
— Esqueci — mentiu ele.
Trocaram informações. Os dois casaram, mas ele já se separou. Os filhos dele moram no 
Rio, com a mãe. Ela, o marido e a filha moram em Curitiba, o marido também é do Banco do 
Brasil… E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento mais feliz 
da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que todo o resto da minha 
vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: como é mesmo o nome dele? Péricles. 
Será Péricles? Ele: digo ou não digo que não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho 
o leque? Ela: Petrarco. Pôncio. Ptolomeu…
 
ATIVIDADE DELEITURA
1. Procure resumir, em poucas palavras, a narrativa de Veríssimo. 
O conto narra a paixão romântica de Píndaro por Janice. Píndaro e Janice se 
conhecem e se encontram somente no Carnaval. Esse amor da infância e da 
adolescência marca definitivamente a vida de Píndaro, o que não acontece com 
Janice. 
2. Explique o título do conto.
“Bandeira Branca” é um clássico do carnaval, uma marchinha romântica que fala da 
dor da saudade, tema do conto. É um conto de verão porque os fatos marcantes da 
infância e adolescência do protagonista acontecem no verão, durante o carnaval. 
D4
3. O conto de Veríssimo está organizado em 4 partes. Cada parte corresponde 
a fases da vida dos personagens. Preencha o quadro abaixo, considerando essa 
correspondência e indicando as pistas textuais que a confirmam.
FASES DA VIDA PISTAS TEXTUAIS
Parte 1 infância
tinham quatro anos; brincavam no baile 
infantil; suas fantasias eram infantis e 
escolhidas pelas mães
Parte 2 adolescência tinham 13 anos; ela já contestava a mãe
Parte 3 juventude
tinham 15 anos – o corpo dela mudara – 
ambos “debocham” das fantasias infantis 
da adolescência – brincam o carnaval sem as 
fantasias de antes.
Parte 4 vida adulta
encontram-se 15 anos depois: ele, divorciado; 
ela, casada
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4. As fantasias de carnaval usadas pelos personagens são pistas muito importantes 
na narrativa. Observe: 
ELE ELA
tirolês odalisca.
legionário romano índia americana
pirata chinesa
toureiro bailarina espanhola
a fantasia dele era de nada fantasia indefinida
O que elas poderiam indicar?
Além de apontarem para diferentes fases da vida, as fantasias dos dois reafirmam a 
“diferença de culturas” de que fala o narrador no início do texto. Somente quando, 
na juventude, os personagens se aproximam, dançam juntos, beijam-se e “formam 
um casal”, suas fantasias “combinam” (toureiro/bailarina espanhola).
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5. Releia o fragmento abaixo, em que se expõe o que os personagens estão 
pensando: 
“E a todas essas ele pensando: digo ou não digo que aquele foi o momento 
mais feliz da minha vida, Bandeira Branca, a cabeça dela no meu ombro, e que 
todo o resto da minha vida será apenas o resto da minha vida? E ela pensando: 
como é mesmo o nome dele? Péricles. Será Péricles? Ele: digo ou não digo que 
não cheguei mesmo inteiro aos 30, e que ainda tenho o leque? Ela: Petrarco. 
Pôncio. Ptolomeu”
O que o fragmento revela a respeito dos sentimentos dos personagens?
O romantismo de Píndaro, personagem marcado por uma paixão da adolescência, 
por um amor de carnaval, contrasta com a revelação de que Janice nem sequer se 
lembra do seu nome.
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6. No início da narrativa, temos o seguinte comentário do narrador: 
“Ele: tirolês. Ela: odalisca. Eram de culturas muito diferentes, não podia dar 
certo.”
Considerando o desfecho da história, como você interpreta esse comentário?
No início do conto temos uma pista de que os dois personagens são diferentes. 
Hipótese que pode ser confirmada ao longo do texto. Essa informação inicial pode 
ser tomada como um anúncio do desfecho do conto. Píndaro é um rapaz romântico 
e leva para toda a vida a paixão da adolescência. Isso não acontece com Janice.
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As questões de 1 a 6 recuperam elementos da estrutura da 
narrativa, permitindo refletir sobre como ela se organiza. Apontam 
também para uma estratégia importante do conto de Veríssimo: as 
fantasias de carnaval como pistas significativas para a compreensão 
da história.
7. Leia atentamente:
Observe:
DISCURSO DIRETO DISCURSO INDIRETO
DISCURSO INDIRETO 
LIVRE
Enquanto dançavam ,ele 
lhe perguntou:
- Você tem namorado?
Enquanto dançavam, 
ele lhe perguntou se ela 
tinha namorado.
Dançavam juntinhos. 
Será que ela tem 
namorado?
O discurso indireto livre é um recurso que faz surgir, na fala do narrador, 
elementos típicos da fala do personagem. É um recurso muito interessante 
para o registro do pensamento do personagem. Encontre no texto exemplos de 
discurso indireto livre.
“Ela morava no interior, vinha visitar uma tia no Carnaval, a tia é que era sócia.
— Ah.”
“Teve que ser carregado para casa. Acordou na sua cama sem lençol, que estava 
sendo lavado. O que acontecera?”
— Você vomitou a alma – disse a mãe.
“Passou todo o baile encostado numa coluna adornada, bebendo o guaraná 
clandestino do Marcelão, vendo ela passar abraçada com uma sucessão de primos 
e amigos de primos, principalmente um halterofilista, certamente burro, talvez até 
criminoso, que reduzira sua fantasia a um par de calças curtas de couro.”
D19
Nos exemplos 1, a fala “Ah”, de Píndaro, indica que ele responde 
à explicação de Janice, mesclada, como discurso indireto, à fala 
do narrador. O mesmo acontece no exemplo 2: a mãe responde à 
pergunta de Píndaro, embutida na fala do narrador. No exemplo 3, 
a avaliação que se faz do “halterofilista” é, certamente, feita pelo 
personagem Píndaro, e não pelo narrador.
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8. Compare o conto de Veríssimo ao conto de Machado de Assis. O que caracteriza 
a linguagem de Veríssimo nesse conto? 
O conto de Veríssimo se caracteriza pela concisão da linguagem, num registro, por 
vezes, “telegráfico”: “Ele: tirolês. Ela: odalisca.” (Ele estava fantasiado de tirolês, 
ela, de odalisca.); “Só no sétimo baile (pirata, chinesa).” (Ele vestiu-se de pirata e 
ela de chinesa.). Isso faz a narrativa ficar mais ágil, ao contrário da de Machado de 
Assis.
É importante que o tutor, ao comentar as atividades de leitura com 
os alunos, observe que, enquanto Veríssimo constrói uma narrativa 
ágil, Machado faz sua narrativa mais lenta, ao deter-se num longo 
trecho de orientação com o objetivo de criar o suspense. Machado 
narra algumas horas da vida do personagem protagonista. Veríssimo 
resume quase toda vida de Píndaro e Janice em poucas páginas. O 
texto de Machado é mais descritivo, como costumam ser os contos 
“realistas” do século XIX. O texto de Veríssimo, como muitos contos 
contemporâneos, é “econômico” nas descrições.
9. O humor é um característica marcante da prosa do escritor Luís Fernando 
Veríssimo. Você reconhece o humor nesse conto? 
O nome do protagonista, Píndaro, é engraçado. 
O extravagante de algumas fantasias, de culturas muito diferentes das nossas e 
que pouco conhecemos (tirolês, bávara tropical). 
A crítica às mães, no início do conto, para quem brincar o carnaval é desfilar as 
fantasias escolhidas por elas, é feita com humor sutil.
A afirmação seguinte é marcada pelo humor: “Pensou em dizer alguma coisa, mas 
só o que lhe ocorreu dizer foi “pelo menos o meu tirolês era autêntico”. Nesse 
trecho Píndaro, bêbado enciumado, compara-se com o halterofilista, sugerindo 
que seu corpo malhado não é “autêntico”.
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Anotações
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A NARRATIVA LITERÁRIA
o conto contemporâneo
OFICINA 4
Begma Tavares Barbosa
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1. OBJETIVOS
1. Desenvolver habilidades de leitura de narrativas.
2. Analisar a composição estrutural de narrativas.
3. Refletir sobre as estratégias da narrativa literária: organização estrutural, 
foco narrativo; apresentação e composição dos personagens.
4. Conhecer o conto contemporâneo em autores como Dalton Trevisan e 
Rubem Fonseca. 
5. Refletir sobre a literatura como forma de questionamento da realidade 
social. 
2. TEXTOS PROPOSTOS PARA LEITURA 
Texto I – Uma vela para Dario – DaltonTrevisan
O conto de Dalton Trevisan é uma narrativa curta, ágil e enxuta, focada na ação. Tem início 
com o elemento complicador, antecedido por brevíssima descrição do protagonista: “Dario 
vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo...”. Em seguida, inicia-se a complicação: “e, 
assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede da casa”. A 
mudança do tempo verbal do pretérito imperfeito (vinha) para o perfeito (dobrou, diminuiu) é 
uma pista que sinaliza o início do conflito da narrativa. 
A partir daí, as ações transcorrem rapidamente e o leitor vai acompanhando o drama de 
Dario, que morre na calçada de uma cidade sem nome, sem que lhe prestem socorro. Os 
personagens são também anônimos. Alguns observam a cena com fria curiosidade (“Cada 
pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés”). Outros se aproveitam da situação e furtam 
objetos de Dario (“Dario conduzido de volta e recostado à parede não tinha os sapatos nem 
o alfinete de pérola na gravata”). Outros lhe negam ajuda (“Já no carro a metade do corpo, 
protestou o motorista: quem pagaria a corrida?”). Alguns poucos conseguem comover-se com 
seu drama (“Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça”), como 
o menino que acende uma vela junto ao corpo. O conto tem um desfecho triste, com Dario 
morto sob a chuva à espera do rabecão.
Texto II – De frente pro crime – letra de música de João Bosco e Aldir Blanc.
Como no conto de Dalton Trevisan temos, nessa letra poética de João Bosco e Aldir Blanc, a 
imagem forte de um corpo estendido no chão, o rosto provavelmente já coberto por um jornal, 
como sugerem os versos: “Tá lá o corpo estendido no chão/ Em vez de um rosto uma foto de 
um gol”. A cena se passa em uma rua movimentada, onde a vida prossegue indiferente ao 
drama exposto a todos: “Veio camelô vender anel, cordão perfume barato/ E baiana pra fazer 
pastel e um bom churrasco de gato”. Tem-se, também aqui, a curiosidade das pessoas: “O bar 
mais perto depressa lotou/Malandro junto com trabalhador”. No entanto, cada um ocupa-se 
de sua vida – “Sem pressa foi cada um pro seu lado/Pensando numa mulher ou num time” – 
sem importar-se com o outro que acaba por significar um incômodo: “Em vez de reza uma 
praga de alguém”.
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Texto III – Relato de Ocorrência – Rubem Fonseca
Relato de Ocorrência é um conto cujo título remete a um outro gênero textual: o boletim de 
ocorrência ou BO. Logo no início, a descrição do acidente com vítimas fatais impacta o leitor 
pela forma objetiva e imparcial como é feita, assemelhando-se a textos de BOs. Estamos, no 
entanto, lendo um conto da literatura brasileira que, como muitos outros de Ruben Fonseca, 
aborda o tema da violência. 
Nesse conto, uma primeira cena violenta – o acidente com vítimas fatais provocado pela vaca 
que atravessa a ponte – dá lugar a outra cena também violenta: a disputa entre moradores 
das cercanias pela carne do animal morto no asfalto. As vítimas fatais do acidente passam, 
portanto, a compor o cenário de um novo drama. O protagonista desse novo drama é Elias 
Gentil, casado com Lucília, grávida e frágil. O leitor é posto diante da cena (narrada no presente) 
em que Elias “não consegue tirar os olhos da vaca” e manda a mulher pegar uma faca em casa. 
A sequência de acontecimentos exibe Elias encarando e dirigindo-se agressivamente aos 
vizinhos que se aproximam com a mesma intenção que ele: todos querem a carne do animal. 
Essa necessidade transforma-os em competidores, rivais. No conto, a personagem de Elias 
vai se animalizando: Elias, como um bicho, defende seu alimento, seu pedaço de carne, 
que a mulher lhe servirá, mais tarde, com batatas fritas. Podemos dizer que a miséria e a 
privação aparecem aqui como uma espécie de justificativa para o comportamento violento do 
personagem protagonista, que em certo ponto da narrativa afirma: “A situação não anda nada 
boa (...) Se eu pudesse eu também era rico.”
Caminhando para o seu desfecho, a narrativa apresenta uma outra cena importante: os vizinhos 
em disputa unem-se para impedir que o açougueiro João Leitão também se aproxime da vaca. 
Todos gritam que ele “não pode”, unindo-se, nesse momento, contra o açougueiro. O que 
justificaria esse impedimento? Mais uma vez a necessidade: o açougueiro não precisaria da 
carne, e é essa necessidade que justifica a atitude dos personagens do conto.
No desfecho da narrativa, temos a cena em que Elias Gentil sorri para a mulher à espera de 
seu bife com batata frita e a forte imagem final do conto: uma poça de sangue sobre a ponte.
3. ROTEIRO PARA O TRABALHO NA OFICINA
1. Leitura do conto de Dalton Trevisan – para a leitura do conto, sugerimos 
o vídeo Causos da Literatura, um curta-conto que narra o texto 
“Uma vela para Dario” (Acesse o vídeo em http://www.youtube.com/
watch?v=1qrh5qpaj2o).
2. Atividades de leitura – os alunos podem discutir o texto em pequenos 
grupos, fazendo as atividades de leitura.
3. Correção / Comentários do TEXTO I – Retomar as questões de leitura, 
esclarecendo as dúvidas dos alunos e, ao mesmo tempo, motivando-os a 
discutirem o conto, seu conteúdo, a reflexão que propõe. 
4. Música “De frente pro crime” – Escutar com os alunos a música “De frente 
pro crime”, de João Bosco e Aldir Blanc, para, em seguida, propor que 
comparem esse texto ao texto de Dalton Trevisan.
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5. Texto “Relato de ocorrência” de Rubem Fonseca – os alunos podem 
trabalhar em duplas ou individualmente na resolução das atividades de 
leitura.
6. Correção/comentário das atividades de leitura do TEXTO III.
7. O conto contemporâneo – o tutor deve, nesse momento, apresentar aos 
alunos informações sobre a literatura dos autores lidos. Dalton Trevisan e 
Rubem Fonseca abordam com muita frequência em seus contos o tema 
da violência nas grandes cidades. A discussão de alguns temas e mesmo a 
forma concisa de sua prosa aproxima esses dois representantes do conto 
contemporâneo brasileiro.
4. TEXTOS E ATIVIDADES DE LEITURA
TEXTO I
Vamos conhecer um grande contista da literatura brasileira. Sua obra se caracteriza pela 
linguagem concisa, objetiva. O texto abaixo foi escrito por Dalton Trevisan, escritor curitibano, 
nascido em 1925. Leia-o atentamente.
Uma Vela para Dario
Dalton Trevisan
Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, 
diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-
se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a 
boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia 
sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. 
O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o 
paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e 
bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os 
moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de 
pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando 
ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-
chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou 
para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a 
corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – 
não tinha os sapatos nem o alfinetede pérola na gravata.
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Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a 
farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma 
peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo 
e bebendo, gozavam as delícias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da 
peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados – com vários objetos – de 
seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de 
nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a 
rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram 
no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo – os bolsos vazios. Restava a 
aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida 
com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.
A última boca repetiu – Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario 
levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam 
vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas 
mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. 
Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela 
alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. 
Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do 
rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado 
até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair. 
ATIVIDADES DE LEITURA
1. De que trata o texto de Dalton Trevisan? O que o título do texto nos sugere? 
O texto narra a história de Dario, um homem, um desconhecido, que morre sem 
socorro na calçada de uma cidade. A indiferença das pessoas à situação de Dario 
é uma forma de condenar a violência que marca as relações. Poucos transeuntes 
se comovem com o drama de Dario, como o menino que lhe oferece uma vela, 
quando ele já está morto.
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2. Recupere alguns elementos dessa narrativa:
2.1. Onde ocorrem os fatos narrados?
Numa cidade indefinida, talvez numa cidade grande.
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2.2. Quando ocorrem? 
Não há indicação precisa de tempo.
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2.3. Quem é Dario? Descreva esse personagem.
Dario, o protagonista da narrativa, é um desconhecido, que pode ser um homem 
mais velho: levava um cachimbo, usava chapéu, paletó. 
D4
2.4. Quem são os demais personagens da narrativa?
São todos personagens desconhecidos e anônimos: “o senhor gordo, de branco”; 
“o rapaz de bigode”; “a velhinha de cabeça grisalha”; “um terceiro”; “um senhor 
piedoso” etc. 
D4
2.5. Como agem esses personagens que assistem ao drama de Dario?
Alguns poucos personagens se solidarizam, tentam ajudar e se comovem. A 
maioria, no entanto, assiste fria e cruelmente à morte de Dario: há os indiferentes, 
que olham a cena com curiosidade; outros se aproveitam da situação e furtam 
objetos de Dario; outros lhe negam socorro, como o motorista do táxi, e ainda há 
aqueles que o pisoteiam, apressados e indiferentes ao seu drama.
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A questão 2 remete a elementos de orientação da narrativa – onde, 
quando, quem, como. É importante observar que as informações 
relativas a esses elementos são vagas, imprecisas. Chama a atenção, 
sobretudo, a forma como os personagens são referenciados: eles não 
têm nome. Esses personagens “anônimos”, desconhecidos, podem 
indicar a solidão do homem moderno, incapaz de se solidarizar com 
o outro. A cidade também anônima do conto poderia representar 
nossa modernidade apressada, fria e violenta. É importante que, ao 
comentar as respostas dos alunos, o tutor estimule-os a voltar ao 
texto buscando as pistas que indicam a indiferença, o oportunismo 
e a omissão dos transeuntes à situação dramática vivida por Dario. 
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3. Quando tem início o conflito da narrativa? 
Logo no início do conto. Podemos dizer que o conto tem início com o elemento 
complicador. Um homem vem andando pela rua, sente-se mal e cai na calçada. Esse 
conflito, ou problema, mobiliza todos os fatos da narrativa. A partir dele cria-se a 
tensão narrativa. Há apenas uma pequena descrição de Dario (“vinha apressado, 
guarda-chuva no braço esquerdo”), antes que o leitor mergulhe na trama pela 
introdução do conflito.
D10
Nesse ponto, o tutor deve chamar a atenção dos alunos para a forma 
como se estrutura a narrativa de Dalton Trevisan, um texto curto, 
conciso, “enxuto”, que se inicia com a complicação e segue focado 
na ação da narrativa, com poucas informações que orientem o 
leitor. Proponha que os alunos comparem essa estrutura àquela do 
conto de Machado de Assis, com um longo trecho de orientação 
interrompendo a ação narrativa do conto. 
4. Qual é o foco narrativo do conto lido?
O conto é narrado em primeira pessoa. Um narrador observador conta, de forma 
bastante objetiva, a história de Dario.
D10
A objetividade com que o drama de Dario é narrado é uma estratégia 
narrativa que causa impacto no leitor, fazendo-o pensar na frieza e 
na indiferença das pessoas em relação ao sofrimento do outro. A 
objetividade da narrativa deve ser observada também na concisão da 
linguagem. O texto tem frases curtas e linguagem bastante sintética, 
o que se pode observar, inclusive, em apagamentos de palavras como 
em: “(Um) Enxame de moscas lhe cobriu o rosto...“. Esses “cortes“, 
que fazem o texto mais ágil e enxuto podem ser observados em 
muitas estruturas: “Já no carro a metade do corpo, protestou o 
motorista: quem pagaria a conta?”
TEXTOS EM DIÁLOGO
Você vai ler agora a letra de uma música de dois grandes compositores brasileiros: João Bosco 
e Aldir Blanc. A cena desenhada nessa letra de música é bastante semelhante àquela descrita 
no conto “Uma vela para Dario”. Procure descobrir as semelhanças entre os dois textos. Faça 
anotações no seu caderno. 
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TEXTO II
De frente pro crime
Tá lá o corpo estendido no chão
Em vez de um rosto uma foto de um gol
Em vez de reza uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém
O bar mais perto depressa lotou
Malandro junto com trabalhador
Um homem subiu na mesa do bar
E fez discurso para vereador
Veio camelô vender anel, cordão perfume barato
E baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato
Quatro horas da manhã baixou o santo na porta bandeira
E a moçada resolveu parar e então...
 
Ta lá o corpo estendido no chão
Em vez de rosto uma foto de um gol
Em vez de reza uma praga de alguém
E um silêncio servindo de amém
 
Sem pressa foi cada um pro seu lado
Pensando numa mulher ou num time
Olhei o corpo no chão e fechei 
Minha janela de frente pro crime
 
Veio camelô vender anel, cordão perfume barato
E baiana pra fazer pastel e um bom churrasco de gato
Quatro horas da manhã baixou o santo na porta-bandeira
E a moçada resolveu parar e então...
 
Tá lá o corpo estendido no chão
 
Os alunos devem ser auxiliadosa perceber as semelhanças entre os 
dois textos, atividade que pode ser feita com todo o grupo após 
escutar a música. 
TEXTO III
Rubem Fonseca é um outro grande autor da literatura contemporânea. Escritor de romances e 
contos, sua prosa é escrita em linguagem bastante concisa. O texto abaixo é um bom exemplo 
de sua literatura.
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RELATO DE OCORRÊNCIA
Na madrugada do dia 13 de maio, uma vaca marrom caminha na ponte do rio Coroado, 
no quilômetro 53, em direção ao Rio de Janeiro.
Um ônibus de passageiros da empresa Única Auto Ônibus, chapa RF 80-07-83 e JR 81-
12-27, trafega na ponte do rio Coroado em direção a São Paulo.
Quando vê a vaca, o motorista Plínio Sérgio tenta se desviar. Bate na vaca, bate no muro 
da ponte, o ônibus se precipita no rio.
Em cima da ponte a vaca está morta.
Debaixo da ponte estão mortos: uma mulher vestida de calça comprida e blusa amarela, 
de vinte anos presumíveis e que nunca será identificada; Ovídia Monteiro, de trinta e quatro 
anos; Manuel dos Santos Pinhal, português, de trinta e cinco anos, que usava uma carteira de 
sócio do Sindicato de Empregados em Fábricas de Bebidas; o menino Reinaldo de um ano, filho 
de Manuel; Eduardo Varela, casado, quarenta e três anos.
O desastre foi presenciado por Elias Gentil dos Santos e sua mulher Lucília, residentes 
nas cercanias. Elias manda a mulher apanhar um facão em casa. Um facão?, pergunta Lucília. 
Um facão depressa, sua besta, diz Elias. Ele está preocupado. Ah! percebe Lucília. Lucília corre.
Surge Marcílio da Conceição. Elias olha com ódio para ele. Aparece também Ivonildo 
Moura Júnior. E aquela besta não traz o facão!, pensa Elias. Ele está com raiva de todo mundo, 
suas mãos tremem. Elias cospe no chão várias vezes, com força, até que a sua boca seca.
Bom dia, seu Elias, diz Marcílio. Bom dia, diz Elias entre dentes, olhando pros lados.Esse 
mulato!, pensa Elias.
Que coisa, diz Ivolnildo, depois de se debruçar na amurada da ponte e olhar os bombeiros 
e os policiais embaixo. Em cima da ponte, além do motorista de um carro da Polícia Rodoviária, 
estão apenas Elias, Marcílio e Ivonildo..
A situação não anda boa não, diz Elias olhando para a vaca. Ele não consegue tirar os 
olhos da vaca.
É verdade, diz Marcílio.
Os três olham para a vaca.
Ao longe vê-se o vulto de Lucília, correndo.
Elias recomeçou a cuspir. Se eu pudesse eu também era rico, diz Elias. Marcílio e Ivonildo 
balançam a cabeça, olham para a vaca e para Lucília, que se aproxima correndo. Lucília 
também não gosta de ver os dois homens. Bom dia, dona Lucília, diz Marcílio. Lucília responde 
balançando a cabeça. Demorei muito?, pergunta, sem fôlego, ao marido.
Elias segura o facão na mão, como se fosse um punhal; olha com ódio para Marcílio e 
Ivolnildo. Cospe no chão. Corre para cima da vaca.
No lombo é onde fica o filé, diz Lucília. Elias corta a vaca.
Marcílio se aproxima. O senhor depois me empresta a sua faca, seu Elias?, pergunta 
Marcílio. Não, responde Elias.
Marcílio se afasta, andando apressadamente. Ivonildo corre em grande velocidade. 
Eles vão apanhar facas, diz Elias com raiva, aquele mulato, aquele corno. Suas mãos, sua 
camisa e sua calça estão cheias de sangue. Você devia ter trazido uma bolsa, uma saca, duas 
sacas, imbecil. Vai buscar duas sacas, ordena Elias. 
Lucília corre.
Elias já cortou dois pedaços grandes de carne quando surgem, correndo, Marcílio e 
sua mulher Dalva, Ivolnildo e sua sogra Aurélia e Erandir Medrado com seu irmão Valfrido 
Medrado. Todos carregam facas e facões. Atiram-se sobre a vaca. 
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Lucília chega correndo. Ela mal pode falar. Está grávida de oito meses, sofre de verminose 
e sua casa fica no alto de um morro. A ponte no alto de outro morro. Lucília trouxe uma 
segunda faca com ela. Lucília corta a vaca.
Alguém me empresta a faca senão eu apreendo tudo, diz o motorista do carro da polícia. 
Os irmãos Medrado, que trouxeram vários facões, emprestam um ao motorista.
Com uma serra, um facão e uma machadinha aparece João Leitão, o açougueiro, 
acompanhado de dois ajudantes.
O senhor não pode, grita Elias.
João Leitão se ajoelha perto da vaca.
Não pode, diz Elias dando um empurrão em João. João cai sentado.
Não pode, gritam os irmãos Medrado.
Não pode, gritam todos, com exceção do motorista da polícia.
João se afasta; a dez metros de distância, para; com os seus ajudantes, fica observando.
A vaca está semidescarnada. Não foi fácil cortar o rabo. A cabeça e as patas ninguém 
conseguiu cortar. As tripas ninguém quis.
Elias encheu as duas sacas. Os outros homens usam as camisas como se fossem sacos..
Quem primeiro se retira é Elias com a mulher. Faz um bifão pra mim, diz ele sorrindo 
para Lucília. Vou pedir umas batatas a dona Dalva, vou fazer também umas batatas fritas para 
você, responde Lucília.
Os despojos da vaca estão estendidos numa poça de sangue. João chama com um 
assobio os seus dois auxiliares. Um deles traz um carrinho de mão. Os restos da vaca são 
colocados no carro. Na ponte fica apenas a poça de sangue.
ATIVIDADES DE LEITURA
1. O título do conto de Ruben Fonseca remete a um outro tipo de texto: a 
ocorrência policial ou Boletim de ocorrência. Que elementos do texto confirmam 
isso?
As informações precisas e objetivas contidas nos cinco primeiros parágrafos, que 
indicam dia e local do acidente que será relatado, quem são os envolvidos no 
acidente, quantos e quem são os mortos. 
D4
2. Releia os cinco primeiros parágrafos do conto e identifique:
2.1. Um trecho de orientação narrativa. (Grife no texto e, a seguir, explique sua 
resposta).
Os dois primeiros parágrafos, onde se orienta o leitor sobre o dia e local do fato 
narrado. Descreve-se o cenário da narrativa.
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2.2. Qual é o conflito ou elemento complicador da narrativa?
O acidente entre um ônibus de passageiros e uma vaca que atravessa o asfalto. Esse 
acidente provoca a morte de várias pessoas e a disputa entre alguns moradores das 
cercanias.
D10
3. A narrativa tem início com um acidente grave com vítimas fatais. Observe, no 
entanto, que esse drama inicial deixa de ocupar o primeiro plano da narrativa. 
3.1. Que outro drama passa a ocupar o primeiro plano da narrativa?
O acidente com o ônibus provoca a morte de várias pessoas. No entanto, esses 
“personagens” saem da cena focal e passam a compor o cenário de um novo 
drama: a disputa entre alguns moradores das cercanias pela carne da vaca também 
morta no acidente.
D10
3.2. Quem são os personagens desse drama?
São vizinhos, moradores de um bairro próximo ao local do acidente. Há pistas que 
indicam que se conhecem, pois se cumprimentam pelo nome.
D4-D10
3.3. Como eles se relacionam na cena descrita?
A cena os descreve como rivais, pessoas em disputa, sobretudo pela atitude de 
Elias Gentil, protagonista do conto, que se apresenta agressivo e violento, tanto na 
relação com os vizinhos como com sua mulher Lucília.
D1
 
4. No conto, um personagem se destaca: Elias Gentil dos Santos.
4.1. Como se descreve, no conto, seu estado emocional? Que gesto, repetido pelo 
personagem, ajuda a descrever esse estado?
Elias cospe no chão várias vezes. Esse gesto demonstra que ele está nervoso, tenso, 
parecendo sentir-se ameaçado. Talvez por isso torne-se agressivo e violento.
D4
4.2. Há ironia na escolha do nome desse personagem? Explique sua resposta.
Certamente. Elias Gentil apresenta-se na cena como um homem agressivo e 
individualista, inclusive com sua mulher grávida.
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5. Na oficinaanterior vimos que o pretérito (ou passado) é o tempo verbal que 
predomina em narrativas. Que tempo verbal predomina no conto lido? Analise 
essa escolha do autor.
O conto é narrado no presente. O presente do verbo é frequentemente usado em 
narrativas com o objetivo de aproximar a cena do leitor. 
D19
Releia: 
A situação não anda boa não, diz Elias olhando para a vaca. Ele não consegue 
tirar os olhos da vaca.
É verdade, diz Marcílio.
Os três olham para a vaca.
Ao longe vê-se o vulto de Lucília, correndo.
Elias recomeçou a cuspir. Se eu pudesse eu também era rico,
6. Como você interpreta a afirmação de Elias: “A situação não anda nada boa (...) 
se eu pudesse eu também era rico.” ?
A afirmação de Elias pode ser tomada como uma espécie de justificativa para 
suas ações. Nesse sentido, a violência da miséria e da fome “justifica” as reações 
violentas desse personagem, seu ódio, sua agressividade. 
Releia também:
Elias segura o facão na mão, como se fosse um punhal; olha com ódio para 
Marcílio e Ivolnildo.
7. Que expectativa essa informação do narrador poderia criar nos leitores?
Sobretudo a palavra “punhal” sugere que Elias está “armado” e pode usar essa 
arma contra um de seus vizinhos para defender seu pedaço de carne. 
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8. Compare e comente os dois fragmentos abaixo, que apresentam Elias na relação 
com sua mulher Lucília:
Elias manda a mulher apanhar um facão em casa. Um facão?, perguntou Lucília. 
Um facão depressa, sua besta, diz Elias.
Faz um bifão pra mim, diz ele sorrindo para Lucília.
No primeiro fragmento, Elias é um personagem agressivo, violento. No segundo, 
esse mesmo personagem aparece sorrindo. Essa transformação sofrida pelo 
personagem nos permite interpretar sua agressividade como consequência de 
condições que o oprimem. Elias pode não ser um homem agressivo, mas torna-se 
agressivo em situações nas quais precisa defender-se.
9. Releia a cena em que aparece o personagem João Leitão, o açougueiro. Por que 
todos o impedem de se aproximar, “com exceção do motorista da polícia”?. Que 
conflito se instaura nesse momento?
Nesse ponto da narrativa, os vizinhos em disputam “unem-se” contra o açougueiro. 
Podemos dizer que o açougueiro “não seria um deles”, ou seja, não tem as mesmas 
necessidades que eles. É essa necessidade que justifica a atitude dos personagens, 
inclusive de Gentil, que, antes, não reconhece o “direito” de seus vizinhos.
10. A narrativa literária de Rubem Fonseca, com muita frequência, aborda o tema 
da violência. Na sua opinião, como esse tema é abordado no conto “Relato de 
ocorrência”?
O acidente de trânsito com vítimas fatais, narrado inicialmente no conto, é uma 
cena violenta. Mas, em primeiro plano, está a violência da miséria, da fome que 
faz com que vizinhos tornem-se inimigos em disputa por um pedaço da carne do 
animal morto sobre a ponte. Podemos dizer que a descrição dessa disputa, no 
texto, chega a animalizar os seres humanos nela envolvidos.
D6
11. Estabeleça aproximações entre essa narrativa de Ruben Fonseca e o conto 
“Uma vela para Dario”, de Dalton Trevisan.
Ambos os contos têm como tema a violência marcando as relações entre os 
humanos, que se defendem uns dos outros e parecem cada vez mais incapazes de 
se solidarizar. 
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As questões de 1 a 4 propõem que os alunos analisem como a 
narrativa se estrutura e como são desenhados seus personagens e 
o drama que enfrentam (observem-se os negritos nas questões). 
É importante que o tutor recupere, nesse momento, as noções e 
os conceitos relativos ao estudo da narrativa já apresentados. São 
conhecimentos importantes que permitem ler mais verticalmente 
narrativas literárias, possibilitando a análise de suas estratégias. A 
partir dessa análise, as questões seguintes propõem que os alunos 
construam suas hipóteses de leitura e interpretem o texto a partir da 
retomada de fragmentos da narrativa, sinalizações relevantes para 
a construção de sentido do texto. A última questão pede que se 
comparem os autores lidos – Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. O 
tutor deve complementar essa atividade conversando com os alunos 
sobre a literatura desses dois autores, sobretudo sobre essa literatura 
que toma a violência como tema. A forma como esses autores 
nos expõem a crua realidade de violência, sobretudo nas grandes 
cidades brasileiras – a partir de histórias narradas de forma objetiva e 
imparcial – são uma forma de nos despertar, às vezes violentamente, 
para uma realidade que, muitas vezes, não queremos ver. 
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OFICINA 5
LENDO POEMAS
E FALANDO DE POESIA
OFICINA 5
Marilda Clareth Bispo de Oliveira
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1. OBJETIVOS
1. Desenvolver habilidades de leitura de poesias.
2. Conhecer recursos de expressão e de produção de sentidos da linguagem 
poética: metáfora, imagens, comparação.
3. Apresentar e discutir os seguintes conceitos: poesia, poeta, invenção, 
criação literária, estética.
2. TEXTOS PROPOSTOS PARA LEITURA 
Texto I – Mundo pequeno – Manoel de Barros
O poema de Manoel de Barros discute o fazer poético, o trabalho do poeta com a linguagem. 
Este poema é muito interessante tanto pelo conteúdo quanto pela forma e pelas estratégias 
usadas pelo poeta. É uma narrativa em primeira pessoa em que o narrador Manoel, um poeta 
adolescente que se inicia no processo de ler/escrever poesias, narra a sua história, suas primeiras 
reflexões sobre a forma de compor textos literários, a partir de um ponto de vista subjetivo. Por 
isso, a escolha de um narrador personagem de primeira pessoa. A personagem pensa que o 
seu gosto é um tanto esquisito, pois o seu prazer de ler/escrever não nasce da beleza, mas da 
“doença” das palavras. Incomodado, conversa com o seu preceptor, Padre Ezequiel, expondo 
a sua dificuldade: Pensa que é um sujeito “escaleno”. 
O padre lhe diz que é muito saudável fazer defeitos na frase e faz um “limpamento” nos receios 
do adolescente. Mostra-lhe que ele tem “um certo gosto por nadas”, o gosto por sair do que 
já está predeterminado, que talvez o acompanhará pelo resto da vida, principalmente porque 
esta é uma característica de quem é “bugre”, descendente de índios. Bugre, segundo o padre, 
não anda em estradas, só escolhe desvios, por ser o lugar onde a surpresa e os frutos maduros 
são encontrados. O padre tranquiliza Manoel, mostrando-lhe a importância da doença das 
palavras , dos desvios, supostos erros de idioma. O padre só faz uma advertência que é “saber 
errar bem o idioma”. Revela para o adolescente que errar, criar a linguagem literária implica 
saber, conhecimento. Deve-se ter um domínio do idioma e das estratégias de criar, inventar 
a linguagem. Diante do que diz o padre, o adolescente escritor reconhece que teve a sua 
primeira aula de agramática. O Padre Ezequiel foi o seu primeiro professor de agramática.
A narrativa foi uma estratégia discursiva importante para a construção de sentidos. De uma 
forma suave, o autor apresentou e discutiu temas fundamentais para a leitura de poesias e 
para o estudo de textos literários. Um dos caminhos para ler este poema é reconhecer a sua 
estrutura. Logo no início, encontramos a complicação: Descobri aos 13 anos que tinha um 
gosto esquisito: gostar da doença, defeitos das palavras.
O problema provocou, no adolescente, um certo estranhamento de si mesmo. A complicação 
se desenvolve a partir do momento em que o receio de ser diferente dos outros leitores faz 
com que o adolescente busque ajuda. O padre desfaz os receios, explica o que acontece. Nesse 
ponto, parece que a narrativa se encaminha para a resolução, mas aparece um novo elemento: 
o conselho que padre Ezequiel dá: “Há que apenas saber errar bem o seu idioma”. Há nesse 
conselho do padre uma contradição (“errar bem”), que o adolescente compreende muito bem 
ao concluir que o padre Ezequiel fora o seu primeiro professor de agramática. A avaliação do 
narrador personagem pressupõe que o conflito foi resolvido e o escritor aprendeu a valorizar o 
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seu prazer pela “doença das palavras”. O estudo da narrativa literária foi muito bem trabalhado 
em oficina anterior e pode ser retomado para contribuir para a compreensão do poema lido.
É importante observar que são abordados, no poema, temas importantes como a linguagem, o 
processo de construção da linguagem poética, a noção de acerto e de erro. O autor desmistifica 
uma concepção da linguagem que defende a correção linguística, a partir da imposição de 
normas gramaticais, sem reconhecer as possibilidades de mudanças – sintáticas, semânticas, 
morfológicas – possibilitadas pela criatividade dos usuários da língua. 
Através da oposição beleza/doença, o poeta suscita reflexões. No poema, a “beleza das 
frases” estaria relacionada ao rigor formal e semântico. A doença, ao contrário, significa os 
desvios da linguagem ou a presença de construções linguísticas diferentes do uso comum, 
não determinadas por regras gramaticais. Fazer defeitos nas frases pode significar também 
produzir significados inesperados.
É importante observar que o autor discute em um texto tão simples temas importantíssimos 
para a formação dos leitores, como o processo de invenção e de criação da linguagem poética 
que ultrapassa os limites das regras usuais. Para ele, a beleza não estaria relacionada à correção 
gramatical, à ausência de erros, à expressão de significados autorizados pelo dicionário, mas 
à capacidade de criar, inventar. A leitura do poema implica dar-se conta de que o poeta 
apresenta um conceito de linguagem que valoriza a participação do leitor/escritor como um 
sujeito que constrói sentidos e formas de expressão para falar o que pretende. A criatividade 
ou a capacidade de inventar é uma competência tanto do leitor quanto do poeta. 
Texto II – Uma didática da invenção – Manoel de Barros
O poema II da 1ª parte de “O Livro das Ignorãças”, UMA DIDÁTICA DA INVENÇÃO, do 
poeta Manoel de Barros discute o fazer poético. Propõe “Desinventar objetos”. O que seria 
desinventar? A resposta aparece no exemplo que o poeta apresenta, no mesmo verso: “O 
pente, por exemplo.” Como desinventar o pente? A resposta encontra-se no próximo verso 
que diz que a desinvenção seria um ato de dar “outra função” para o pente. Isso significa 
desfazer um sentido comum, de conhecimento geral. Seria aguçar o olhar para ver o pente a 
partir de outra perspectiva. “Não pentear” seria a primeira função que desfaz o que já faz parte 
do esquema de mundo automatizado.
Mas não para aí o processo de desinvenção. O poeta propõe continuar a tarefa de desinventar, 
buscando novas funções “até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma 
gravanha.”. Atentem para a expressão “até que”. Revela a continuidade do processo de criação 
em que se engaja o poeta. Um processo que transforma o olhar do poeta e também o do leitor. 
A mudança de função do pente é um meio através do qual o poeta/leitor abandona o esquema 
já determinado e permite que o objeto do olhar, o pente, ”fique à disposição de ser begônia”. 
De objeto inanimado o pente se transforma até ganhar a condição de ser flor. Há um espaço 
de transformação e de mudança de ponto de vista entre “ser pente”, “não pentear” e “ser 
begônia/flor”. A transformação do objeto passa pela ação do sujeito poeta e/ou leitor, que é 
capaz de “desinventar”.
Na última estrofe, o poeta avança na explicação do processo de criação poética, apresentando 
uma técnica: usar algumas palavras que ainda não tenham idioma. Explica-se, assim, o uso 
da palavra “gravanha” no poema, pouco conhecida por ser um termo próprio da região do 
cerrado. O contato com essa palavra, que pode não estar dicionarizada, mergulha o leitor 
num universo de sentido que não faz parte de seu cotidiano. A surpresa em ver/pensar que o 
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pente deve ser gravanha cria um espaço de reflexão, de significação inusitada. Por outro lado, 
o idioma se enriquece ao incorporar este termo a partir do qual se irradia umnovo significado 
para pente.
O texto de Manoel de Barros nos permite uma reflexão profunda sobre uma das funções da 
linguagem simbólica, em especial da linguagem literária ou poética: aprender a ler e a transferir 
significado. “Dar outra função a um objeto”, “desinventar” um objeto implica ter a capacidade 
de olhar as coisas de outro ângulo, ter a capacidade de raciocinar e mudar o ponto de vista 
a partir do qual interpretamos a realidade. Nesse sentido, a leitura de literatura pode assumir 
uma dimensão importante no processo de humanização de leitores e escritores.
Poema III – Estética – Solano Trindade
O poema “Estética”, de Solano Trindade, discute também o fazer poético. A “estética”, ou 
forma de compor poemas é o tema do texto. O poeta se propõe a dizer como ele constrói o 
poema. A primeira regra é: “Não disciplinarei as minhas emoções estéticas”. Posicionando-se 
contra a forma tradicional de compor poesias, o poeta define que a liberdade de expressão 
de emoções deve ser uma das diretrizes do processo de composição da poesia. A busca de 
liberdade, seja na definição do tema, seja na linguagem poética emergem neste poema.
As emoções estéticas são comparadas ao desejo de viver que ficam “à vontade”, livres de 
imposições. Interessante observar que o poeta faz uma distinção entre desejo de viver e vida. O 
desejo de viver está sob o domínio do sujeito lírico, enquanto que a vida depende de limitações 
externas. O poeta pode ter controle de seu desejo de viver, mas a vida tem controle sobre o 
poeta. Assim as emoções e o desejo de viver seguem o curso que o poeta determinar. O sujeito 
lírico pode submeter ou deixar livres o desejo de viver e o as emoções estéticas. Neste caso o 
poeta assume o seu papel como sujeito, como criador de suas emoções e do desejo de viver. 
O mesmo não acontece com a vida que é a disciplinadora e sempre está submetendo o poeta 
ao rigor de suas leis.
É importante ainda notar que o poeta reconhece que há limites tanto ao seu desejo de viver 
quanto à expressão das emoções estéticas. O sujeito lírico reconhece que “embora seja grande 
o espaço de criação, alguns limites são criados”. Pode-se ler aqui uma referência a escolas 
ou estéticas literárias que assumem determinadas regras de expressão e de composição do 
poema. São limites, uma vez que não há escolas sem regras, sem princípios. A Escola Literária 
Modernista, a que pertence Solano Lopes, assume a regra da liberdade, posicionando-se contra 
as regras das escolas tradicionais. “Basta somente /que eu sofra a disciplina da vida”, nestes 
versos, a vida disciplinadora impõe regras ou limites ao poeta. E não há como escapar disto, 
“mas a estética/deve ser liberta”. Revela-se, nesses versos, o poder do sujeito que inventa, cria, 
constrói o seu fazer poético. Preso ou limitado pela vida o poeta escolhe, toma a decisão de 
deixar a estética sempre liberta.
Texto IV – Eu gosto de ler gostando – Solano Trindade
O poema “Eu gosto de ler gostando” tematiza o prazer de ler poesias. O título é repetido no 
primeiro verso das duas estrofes. Revela que o sujeito lírico quer mencionar que o prazer (de 
ler) nasce do gostar, é uma tarefa centrada no gostar. Em seguida, explica-se o que significa o 
“gostar gostando”.
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A primeira estrofe menciona o ato de gozar, sentir prazer, através do contacto com a poesia: 
“gozando a poesia”. Intimidade é uma das condições para ter o prazer de sentir/gozar a poesia. 
A intimidade com a poesia, igual a que se tem com a mulher amada, evidencia-se quando 
o poeta, através de comparações, descreve a mulher e a poesia “como uma boa camarada/ 
dessas que beijam a gente /gostando de ser beijada”. Observa-se que a poesia, como a mulher, 
deve participar do processo de leitura. A poesia deve ser boa camarada, beijar o leitor. Assim, 
pode-se pressupor que os verdadeiros leitores têm familiaridade com a poesia, são capazes de 
descobri-la e se relacionar com ela, tornam-se “amantes”. 
Na segunda estrofe, entra em cena o poema, que se transfigura em “boca de mulher pura/
simples boa libertada/boca de mulher que pensa....”. O adjetivo “pura” pode remeter o leitor 
para ideia da poesia como um ato de expressão livre de regras que maculam a linguagem, 
as emoções estéticas. “Pura” pode ser associado a “não disciplina das emoções estéticas”, 
como foi visto no poema anterior. “Simples, boa, libertada” pode referir-se tanto à ausência 
de regras impostas, quanto às emoções ou temas emergentes no cotidiano. “Boca de mulher 
que pensa” se relaciona à poesia como um processo que nasce de um fazer criativo, baseado 
na capacidade de pensar para subverter a ordem preestabelecida. Reforça a ideia de liberdade 
e nos lembra a proposta da Estética Modernista.
Os últimos versos retomam a imagem da poesia como um sujeito que age ou interage com o 
leitor. Parece que a poesia gosta de leitores competentes e se mostra ou se revela no momento 
em que é buscada, é tratada com gosto, com desejo, com prazer.
Poema V – Convite – José Paulo Paes
O poema “Convite” de Paulo Paes apresenta como tema a leitura de poesia. O poeta inicia 
o poema afirmando que “poesia é brincar com palavras”. A metáfora “ler poesias é brincar” 
aparece como a base desse enunciado. O leitor e o escritor aparecem como crianças ou pessoas 
dispostas a brincar. A ideia comumente difundida de que ler poesia é uma tarefa difícil se 
desfaz. Ler é brincar com palavras como se brinca com bola, papagaio, pião. Quem nunca 
brincou com estes brinquedos? A comparação feita desmistifica a ideia de dificuldade de ler 
poesia. Portanto, o primeiro convite feito ao leitor é para olhar a poesia a partir de outra 
concepção: poesia é brincar.
Na estrofe a seguir, o leitor encontra uma ressalva: “só que bola, papagaio, pião de tanto 
brincar se gastam”. O leitor deve ver a fragilidade das brincadeiras comuns com objetos que 
se gastam. A poesia ganha outra dimensão: não se gasta. Na terceira estrofe, as palavras 
aparecem como objeto da poesia, objetos que não se acabam. Ao contrário, “quanto mais se 
brinca com elas, mais novas ficam”. Isso significa que as palavras têm o poder de se renovarem 
à medida que são usadas. Para esclarecer ou reforçar a imagem da mudança, o autor usa a 
imagem da água, a imagem do rio para mostrar a fluidez, as mundanças: “Como a água do 
rio que é água sempre nova”. O poema e a água se identificam para refletir a mudança, a 
renovação constante. O rio é o mesmo, mas as suas águas mudam. Ainda para reforçar a ideia 
da mudança, o autor usa a comparação da mudança da palavra como um novo dia. Invenção 
e processo de criação de surgimento do novo se interrelacionam. O novo nasce da capacidade 
de brincar, isto é, sair do espaço do que é sério para subverter as leis, criar as brincadeiras como 
o espaço do surgimento do novo.
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3. ROTEIRO PARA O TRABALHO NAS OFICINAS
1. Conversa com os alunos sobre POESIA – O tutor pode propor algumas 
perguntas, como: vocês gostam de ler poesia?; por que gostam?; por 
que não gostam?; o que já leram?; que poetas da literatura brasileira 
conhecem?; pra que serve a poesia, a literatura, a arte? São questões 
que podem antecipar discussões que a oficina propõe e ajudar o tutor 
a melhor organizar a dinâmica da oficina, pois estará conhecendo seus 
leitores. 
2. Leitura dos poemas I e II, de Manoel de Barros – A interpretação dos textos 
pode ser feita oralmente, com a mediação do tutor, ou alunos podem ler 
e resolver em pequenos grupos as atividades de leitura, enquanto o tutor 
observa e atende os alunos nas suas dúvidas e questionamentos.
3. Correção/Comentários das atividades propostas – deve-se aproveitar esse 
momento para algumas discussões motivadas pelos textos, como: oprocesso de criação do texto poético; o trabalho que o artista realiza com 
a linguagem e seu efeito na fruição do texto; as concepções de “belo”, 
“certo” ou “errado” em linguagem e em literatura; a leitura de poesia e 
literatura como experiência que nos permite olhar para a realidade com 
outros olhos, sob outro ponto de vista etc. 
4. Leitura dos poemas III e IV, de Solano Trindade – os alunos devem ter um 
tempo para trabalhar os textos e podem fazê-lo individualmente ou em 
grupo. 
5. Correção/Comentários das atividades propostas – ao retomar as atividades, 
questões sobre a poesia/literatura devem ser retomadas ou colocadas. 
Os poemas de Solano Trindade permitem uma boa discussão sobre a 
poesia moderna e contemporânea, particularmente sobre a linguagem 
da poesia. O tutor deve estar atento para desmistificar uma concepção 
da linguagem que defende a correção linguística, a partir, unicamente da 
adequação à norma gramatical. É uma boa oportunidade para introduzir 
as discussões sobre o tema promovidas pelos modernistas de 22. 
6. Leitura do texto V, de José Paulo Paes – o tutor pode realizar as atividades 
oralmente, com todo o grupo, consolidando conhecimentos trabalhados 
durante a oficina, como as diferentes metáforas, presentes nos textos, 
para falar da poesia, tanto para a experiência de ler quanto de escrever 
poemas.
7. Leituras complementares – na sessão “textos em diálogo” inserimos 
outros poemas de temática metalinguística. São leituras complementares 
que poderão ser feitas, caso haja tempo, na oficina. 
8. Sugerimos ao tutor, ainda, que crie oportunidades, durante o trabalho da 
oficina, de leitura dos textos em voz alta. Promover uma leitura bem feita, 
rítmica, melódica ajuda a atrair a atenção dos leitores para o poema. 
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4. TEXTOS E ATIVIDADES DE LEITURA
Nesta oficina você vai ler vários poemas que falam da própria poesia. O primeiro foi escrito por 
Manoel de Barros, um escritor contemporâneo.
Manoel de Barros, poeta, advogado, fazendeiro em Cuiabá, nasceu em 
1916. Escreveu seu primeiro poema aos 19 anos, mas se revelou como 
poeta aos 13 anos. Desde a década de 1930 foram vários livros publicados. 
Sua poesia tem como temática o pantanal, representado através de sua 
natureza e o cotidiano marcado pelas experiências pantaneiras. 
Manoel de Barros inventa e transforma a linguagem, a realidade, a vida, os sentimentos. 
Publicou, dentre outros, os livros: Poemas sem pecado (1937), O Livro das Ignorãnças(1993), 
Cantigas por um passarinho à toa (2003).
Texto I
Mundo Pequeno
Manoel de Barros
Parte VI 
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas 
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas. 
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito. 
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno. 
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse. 
Ele fez um limpamento em meus receios. 
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, 
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas... 
E se riu. 
Você não é de bugre? - ele continuou. 
Que sim, eu respondi. 
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas - 
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros. 
Há que apenas saber errar bem o seu idioma. 
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de 
agramática.
Conheça o significado de algumas palavras:
Preceptor- educador, instrutor, encarregado da educação de alguém.
Bugre- indivíduo rude, incivilizado, indígena, criado nos matos.
Ariticuns – árvore frutífera de 6 a 8 metros de altura que dá frutos comestíveis, espécie 
muito comum no cerrado.
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ATIVIDADES DE LEITURA
1. Quais são os personagens do texto?
Manoel, o adolescente de 13 anos e o Padre Ezequiel.
D1
2. O texto que você acabou de ler narra uma história sobre:
a) Um menino doente que precisava da ajuda de um padre.
b) Um padre muito severo que via só o defeito do menino.
c) O medo de não poder ver a beleza das frases no texto.
d) O prazer da leitura, a partir da invenção da linguagem. (X)
e) A importância da leitura de textos poéticos.
D6
3. No enunciado “Eu pensava que fosse um sujeito escaleno”, a palavra em 
destaque por ser substituída sem perda de sentido por:
a) desobediente
b) teimoso
c) coerente
d) inconstante
e) diferente (X)
D3
4. O que o adolescente de 13 anos descobriu sobre si mesmo? Explique sua 
resposta
O adolescente descobriu que gostava da “doença das palavras”. A palavra “doença” 
se opõe a beleza. No texto, “doença” significa um uso diferente da linguagem: 
formas de organizar a frase; uso de palavras com sentido diferente do habitual; 
uso de construções que não obedeçam à norma gramatical etc.
D1-D3
5. “Ele fez um limpamento em meus receios”. Esse verso indica que Pe Ezequiel: 
a) Explicou ideias que não estavam justificadas para o adolescente. (X)
b) Confirmou os receios de Manoel, o leitor adolescente.
c) Entendeu que o adolescente ainda deveria aprender muito.
d) Sugeriu que o adolescente estudasse mais a gramática.
e) Orientou Manoel, explicando o que é um desvio de linguagem.
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6. Como o Padre Ezequiel fez o “limpamento” dos receios de Manoel? Escreva um 
argumento usado pelo padre.
Defendeu a opinião de que não havia nada errado com Manoel. Ao contrário, ele 
era uma pessoa muito saudável. Para argumentar a favor de seu ponto de vista, o 
Padre disse que o modo de ler/escrever de Manoel era uma questão de estilo, uma 
característica que o acompanharia por toda a vida. Acrescentou que esta era uma 
característica que fazia parte da natureza de quem, como Manoel, é de bugre, que 
se expressa na escolha de andar em desvios e não em estradas. 
D8
7. Com base na leitura do texto, podemos dizer que Manoel é apresentado como 
leitor e também como escritor. Transcreva do texto versos que confirmam isso.
Os fragmentos “que me dava prazer nas leituras” e “gostar de fazer defeitos na 
frase”, indicam que Manoel era, ao mesmo tempo, um leitor que preferia ler textos 
construídos a partir de uma linguagem “não-padrão”, “doente” e um escritor que 
deformava as frases, isto é, subvertia a regra gramatical, sintática, semântica, 
morfológica.
D4
8. Padre Ezequiel é o preceptor, isto é, o instrutor, o educador, o conselheiro de 
Manoel. Transcreva o fragmento do texto que expressa o conselho que o padre dá 
a Manoel. Justifique também a preocupação do padre em dar este conselho.
O padre Ezequiel pede a Manoel para “saber errar bem o idioma.” Isso significa que, 
para criar, “errar o idioma” é preciso saber, conhecer o que se está fazendo, ter um 
propósito e encontrar formas apropriadas para alcançar o objetivo pretendido. Não 
é dizer qualquer coisa. O processo de criação exige trabalho e muito conhecimento 
da linguagem e rigor na determinação do sentido que ser quer construir.
D8
9. “Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de agramática.” 
Nesse enunciado, há uma situação que provoca surpresa. Identifique-a e explique 
a afirmação feita por Manoel.
A situação surpreendente é a que apresenta o padre como professor de agramática. 
Normalmente, encontramos um professor que ensina gramática. O padre foi um 
professor de agramática porque ensinou a Manoel que a criatividade da linguagem 
rompe com os limites da gramática e que o escritor usa os recursos gramaticais 
para ver ou descobrir desvios da linguagem que contribuem para a elaboração da 
linguagem poética.
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As questões acima auxiliam o processo de construção de sentidos 
chamando a atenção para elementos da história narrada no poema: 
quem são os personagens; qual é o conflito vivido pelo adolescente/
leitor/poeta; como esse conflito se resolve. Uma importante habilidade 
de leitura envolvida nessas atividades é a de interpretar metáforas. No 
poema há duas expressões metafóricas centrais: “gostar da doença 
das palavras” e “fez um limpamento em meus receios”. 
É importante discutir com os alunos que o prazer de ler pode estar 
relacionado à identificação do processo de invenção da linguagem. 
O processo criativo é fonte de prazer e, ao mesmo tempo, é uma 
condição para que a literatura assuma o status de arte. No texto 
lido, as palavras de uso comum assumem sentidos novos: a palavra 
“doença”, por exemplo, ganha um sentido diferente, estranho, e essa 
significação implica a utilização de vários processos de construção 
semântica, como a metáfora, a oposição beleza/doença, que não é 
uma oposição esperada (doença/saúde). 
A metáfora do receio como um objeto que precisa ser limpo 
permite-nos pensar que os receios do leitor/escritor fundavam-se em 
conceitos associados a uma visão da língua como uma estrutura 
fixa, imutável. Limpar, tirar a sujeira ou o preconceito que limita o 
processo de construção, é uma tarefa que pode ser entendida como 
um mecanismo de organização das ideias a partir de um novo ponto 
de vista. O texto traz esta inovação quando afirma que Manoel não 
tem nenhuma doença, mas uma forma diferente de lidar com as 
palavras. A advertência para que Manoel saiba errar bem mostra 
que o fazer literário demanda saber e arte. As questões orientam e 
contribuem para que discussões sobre esse tema sejam propostas 
para facilitar ao leitor sua participação no processo de construção de 
sentidos de textos literários.
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Vamos ler mais um poema do poeta Manoel de Barros.
Texto II
UMA DIDÁTICA DA INVENÇÃO
II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo. 
Dar ao pente funções de não pentear. Até que 
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou 
uma gravanha. 
 
Usar algumas palavras que ainda não tenham 
idioma. 
Conheça o significado da palavra: 
Gravanha - folha seca de pinheiro
1. Considerando a leitura do poema, a palavra desinventar significa:
a) Criar um novo objeto.
b) Reinventar um novo objeto.
c) Dar uma nova função para um objeto. (X)
d) Destruir totalmente o objeto velho.
e) Criar um novo nome para o objeto.
D3
2. Leia os versos do poema transcritos abaixo
“Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear.”
O poeta usa a estratégia de exemplificar. Atribua uma intenção ao uso deste 
recurso discursivo. 
O exemplo foi usado para explicar o sentido de desinventar, para garantir a 
interação entre leitor e autor do texto. Sem o exemplo, o leitor poderia dar um 
sentido que não seria o que pretendia o autor. Assim, o autor deixa pistas para 
o leitor construir uma interpretação que seja autorizada pelo texto. Desinventar, 
neste poema, significa tirar a função comum e dar novas funções para o pente.
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3. O pente, de acordo com a leitura do poema, deverá assumir novas funções, um 
novo estado de ser. Transcreva do poema o verso que confirma isto.
“Até que /ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou/ uma gravanha.” Os versos 
mostram que o pente deixará a função de pentear para se transformar em flor, 
begônia, ou então em gravanha, folha seca.
D1
4. No verso “Dar ao pente funções de não pentear”, o verbo em destaque dar é 
uma pista linguística que nos permite identificar a metáfora : 
a) do poeta como um criador, um inventor. (X)
b) do pente como um simples objeto.
c) do poeta como um repetidor incansável
d) do pente como uma pessoa maleável
e) do poema como objeto imutável.
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5. O que significa estar à disposição de ser begônia ou gravanha?
Significa que o pente perde a sua condição de ser um objeto imutável para estar 
em processo de mudança. Assume uma condição de ser isto ou aquilo, isto é, 
begônia ou gravanha. O imprevisível, o surpreendente caracteriza o processo de 
construção da poesia, a invenção ou criatividade do poeta.
D4
6. O poema que você está lendo é a parte II do poema intitulado “UMA DIDÁTICA 
DA INVENÇÃO”. Veja o que o dicionário nos informa sobre o sentido da palavra 
Didática:
Didática: [Fem. substantivado de didático.] S. f. 1. A técnica de dirigir e orientar 
a aprendizagem; técnica de ensino. 2. O estudo dessa técnica.
Considerando o sentido da palavra didática, explique o título do poema. 
Didática, no título, significa técnica de ensinar. No poema ensina-se a técnica da 
invenção, da criação de um poema, que, na verdade, implica “desinventar”. 
D3
7. Que técnicas o poeta utiliza para “ensinar a invenção”? 
A primeira orientação é desinventar, isto é, dar uma função para o pente que 
seja diferente daquela que ele sempre tem. A segunda orientação é usar palavras 
novas, palavras inventadas que ainda não foram dicionarizadas. “Desinventar”, por 
exemplo, é um neologismo, uma palavra nova que ainda não aparece no dicionário.
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Tutor/a, as questões propostas orientam a leitura do poema. As três 
primeiras trabalham com o sentido da palavra “desinventar” para 
que o leitor possa compreender, com base no texto, o que o autor 
pretende dizer a respeito do processo de criação poética. As outras 
questões orientam o leitor a atribuir sentidos a determinadas palavras 
ou expressões, a perceber e ser capaz de visualizar imagens que 
contribuem para a construção da coerência do poema, a interpretar 
metáforas como “Poesia é desinvenção”. A metáfora é um recurso 
cognitivo que contribui para a construção de sentidos e de expressão 
figurativa da linguagem. É um recurso do pensamento e não, 
essencialmente, um recurso da linguagem poética. Não deve ser vista 
como um mero adorno ou enfeite para embelezamento do poema. 
A linguagem cotidiana é rica em expressões metafóricas. Saber lidar 
com a metáfora é uma das possibilidades de desenvolver estratégias 
de leitura. Nas atividades, as questões relacionadas à metáfora 
consideram esse ponto de vista. E passo a passo desenvolvemos este 
raciocínio.
Vamos conhecer agora outro poeta da literatura brasileira, Solano Trindade. Escolhemos, desse 
autor, dois textos que também tratam do fazer-poético.
Solano Trindade (1908 -1973) é grande um poeta brasileiro que 
nasceu em Pernambuco. Pobre, filho de sapateiro, foi conhecido, 
nos meios intelectuais, como o Grande Poeta Negro brasileiro. Sua 
grande preocupação era criar centros culturais para promover, divulgar 
o trabalho de artistas negros. Poeta do povo, tinha uma profunda 
consciência dos problemas sociais, das dificuldades vividas pelos
descendentes afrobrasileiros. Poeta, cineasta, pintor, teatrólogo, ator, estudioso da cultura 
popular e da cultura negra, o seu trabalho foi reconhecido internacionalmente. Elogiado 
por intelectuais importantes, como Darcy Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade, Solano 
Trindade não só fazia poesias, mas participava de várias atividades ligadas à arte, à cultura, 
aos movimentos de conscientização do negro. Publicou: Poemas Negros (1936), Poemas de 
uma vida simples (1944),Seis tempos de poesia (1958) e Cantares ao meu povo (1961).
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Texto III 
Estética
Solano Trindade
Não disciplinarei
As minhas emoções estéticas
Deixá-las-ei à vontade
Como o meu desejo de viver...
É grande o espaço
Embora secriem limites...
Basta somente
Que eu sofra a disciplina da vida
Mas a estética
Deve ser sempre liberta
ATIVIDADES DE LEITURA
Antes de iniciar as atividades de leitura, considere o verbete transcrito abaixo: 
Estética [Fem. substantivado do adj. estético.] S. f. 
1. Estudo das condições e dos efeitos da criação artística.
2. Tradicionalmente, estudo racional do belo, quer quanto à possibilidade da sua conceituação, 
quer quanto à diversidade de emoções e sentimentos que ele suscita no homem.
3. Caráter estético; beleza: a estética de um monumento, de um gesto.
4. Beleza física; plástica: Ia à praia para apreciar a estética das garotas.
1. O que o poeta se propõe, na primeira estrofe?
O poeta se propõe a não limitar a sua sensibilidade poética, submetendo-a a regras 
impostas por uma determinada escola ou estética literária. As emoções estéticas 
devem estar livres, surgirem espontaneamente, de acordo com o que se sente ou 
o que se deseja expressar. A liberdade de escrever/compor poemas é a proposta 
do poeta.
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2. Releia: 
“É grande o espaço/ Embora se criem limites...”
2.1. A oração “embora se criem limites” pode ser reescrita de todas as formas 
abaixo, EXCETO: 
a) Mesmo que se criem limites...
b) Apesar de se criarem limites...
c) Já que se criam imites... (X)
d) Apesar de limites serem criados...
e) Mesmo que sejam criados limites...
2.2. A conjunção embora estabelece relação semântica de:
a) Causa 
b) Concessão (X)
c) Tempo
d) Lugar
e) Consequência
D 15
3. No poema, o poeta reconhece que há: 
a) liberdade e limitação tanto na forma de expressão poética quanto no desejo de 
viver. (X)
b) restrições em seu desejo de viver e liberdade total em seu processo de escrever 
poesias.
c) diferença entre a liberdade presente em seu desejo de viver e a liberdade em sua 
vida. 
d) muitas semelhanças entre as limitações existentes em sua estética e em sua 
própria vida.
e) uma diferença muito grande entre as suas emoções estéticas e o seu desejo de 
viver.
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4. No poema, o poeta se apresenta em duas situações discursivas diferentes. Em 
um momento ele assume uma atitude de comando, de controle sobre suas ações. 
Em outra situação, o poeta se vê limitado ou submetido a regras ou imposições. 
Transcreva os versos que mostram esta mudança de atitude comunicativa do 
sujeito lírico. 
Na primeira estrofe, o poeta assume o papel de sujeito de suas ações. Ele diz: “Eu 
não disciplinarei...deixá-las-ei”. Depois, na última estrofe, no verso, “deixa que eu 
sofra a disciplina da vida”, o poeta perde o controle da situação, sofre as limitações 
da disciplina da vida. 
D1
5. Considerando o uso do verbo disciplinar, podemos dizer que este item 
linguístico deflagra todas as seguintes metáforas apresentadas nas opções abaixo, 
exceto:
a) O poeta é o libertador da poesia.
b) Viver é sofrer punições.
c) A vida é o juiz do poeta. 
d) A vida é o professor do poeta.
e) O poeta é o repressor da poesia. (X)
D4
As questões de 1 a 5 procuram auxiliar os alunos na leitura do 
texto, chamando sua atenção para partes do poema e para recursos 
linguísticos que o estruturam. A questão 5 trata da identificação 
de metáforas que podem ser depreendidas se considerarmos a 
expressão metafórica “Não disciplinarei minhas emoções estéticas”. 
Essa expressão permite reconhecer uma série de representações 
sobre poesia e vida. 
6. Leia a informação abaixo.
O Modernismo brasileiro, para alguns autores, pode ser dividido em duas fases: 
O período de combate (1922 - 1930) e o período de “construção” (1930 - 1945). 
A primeira fase é marcada pela difusão de novas ideias, pela crítica à literatura 
tradicional. A segunda fase é marcada pela consolidação da renovação proposta 
tanto na linguagem quanto na técnica para criar formas de representação da 
vida. A busca de liberdade de pensar e de se expressar sentimentos, a partir de 
uma linguagem simples, a valorização do popular eram objetivos da escola/
estética modernista.
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De acordo com as informações que você leu podemos afirmar que:
a) O poema de Solano Trindade se enquadra na Estética Modernista, já que defende 
a liberdade de suas emoções estéticas. (X)
b) A crítica à literatura tradicional não aparece no poema de Solano Trindade, pois 
ele não participa da Estética Modernista.
c) A renovação da linguagem e da forma de expressão das emoções estéticas não 
são propósitos do poeta Solano Trindade.
d) O autor Solano Trindade pertence ao movimento Modernista, mas ele não 
valoriza a liberdade de expressão poética.
e) A poesia de Solano Trindade pertence à Estética Modernista, pois busca o rigor 
formal, o rigor da expressão de emoções.
Tutor/a, a questão acima envolve o conceito de estética literária e 
estética modernista. Esse pode ser um bom momento para que se 
discuta com os alunos a questão das Escolas/Estéticas Literárias. Essa 
discussão, no entanto, não deve nos levar a um estudo classificatório 
de autores e obras. Ela só fará sentido se possibilitar aos alunos um 
aprofundamento de sua atividade interpretativa, na medida em que 
permite uma leitura mais situada. Ao situarmos, por exemplo, a obra 
de Solano Trindade no contexto do modernismo de 22, permitimos, 
inclusive, que seu texto dialogue com outros textos que, à época, 
buscaram promover uma importante ruptura com nossa tradição 
literária. Por outro lado, o fato de o poeta propor a liberdade de 
expressão não significa que ele não aceite um conjunto de regras 
para compor o seu texto poético. Segundo Tringali (2004), “a ordem 
de abolir as regras já enuncia uma regra.” O fazer poético, a arte 
verbal depende de alguns procedimentos que determinam a forma 
de expressão, a elaboração da linguagem literária. 
É importante destacar que as estéticas literárias se inserem em um 
contexto histórico cultural e se organizam a partir de um conjunto de 
normas ou princípios. Pode-se mencionar, sem muito detalhamento, 
as Escolas Literárias brasileiras (Barroco, Arcadismo, Romantismo, 
Realismo...), o período de cada uma, num exercício que permita 
reconhecer tendências estéticas, de modo a facilitar ao aluno que 
ele organize seu conhecimento sobre a literatura brasileira. 
Você vai ler, agora, outro poema de Solano Trindade, o Poeta do Povo.
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TEXTO IV
Eu gosto de ler gostando
Eu gosto de ler gostando,
Gozando a poesia,
Como se ela fosse
Uma boa camarada,
Dessas que beijam a gente
Gostando de ser beijada.
Eu gosto de ler gostando
Gozando assim o poema,
Como se ele fosse
Boca de mulher pura
Simples boa libertada
Boca de mulher que pensa...
Dessas que a gente gosta
Gostando de ser gostada
1. O tema do poema é:
a) O fazer poético.
b) O prazer de fazer poesia.
c) A arte de compor poemas.
d) O prazer da criação estética.
e) O prazer de ler poesias. (X)
D6
2. Neste poema encontramos todas as metáforas apresentadas nos itens abaixo, 
exceto:
a) A poesia é uma mulher livre.
b) Ler poemas é vivenciar um prazer.
c) Ler poesias é beijar e ser beijado.
d) A poesia é uma boca de mulher. 
e) A leitura de poesias é uma viagem. (X)
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3. Nos dois primeiros versos do poema, o poeta “joga” com duas palavras, dois 
verbos: gostar e gozar. Que efeitos essas escolhas produzem?
Com esse jogo de palavras o poeta compara o ato de ler ao ato de amar fisicamente 
umamulher. O prazer de ler é representado metaforicamente como o prazer do 
amor.
D18
4. Retire do poema versos em que “a poesia é mulher”.
“Uma boa camarada/ dessas que beijam a gente/ gostando de ser beijada.”; “boca 
de mulher pura”; “boca de mulher que pensa”.
D1
5. Como o poeta caracteriza essa mulher? Resuma com suas palavras essa 
caracterização.
A mulher do poema gosta de ser amada (“dessas que beijam a gente/gostando de 
ser beijada”); é uma mulher pura e livre para o amor (“simples boa libertada”); é 
uma mulher inteligente (“mulher que pensa”).
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6. O que seria um poema com as características de mulher que você listou acima?
O adjetivo “pura” pode remeter à ideia da poesia como um ato de expressão livre de 
regras que maculam a linguagem, as emoções estéticas. “Pura” pode ser associado 
à “não disciplina das emoções estéticas”. “Simples, boa, libertada” pode referir-se 
tanto à ausência de regras impostas, quanto às emoções ou temas emergentes no 
cotidiano. “Boca de mulher que pensa” se relaciona à poesia como um processo 
que nasce de um fazer criativo, baseado na capacidade de pensar para subverter 
a ordem preestabelecida.
D18
Chamamos novamente a atenção do tutor para a relevância de se 
trabalhar com os alunos a identificação de metáforas, comparações, 
imagens poéticas que ajudam a construir sentido do texto. Nesse 
poema de Solano Trindade, a poesia é representada como mulher; a 
leitura do poema, como o prazer de amar. 
Conheça um outro grande poeta brasileiro: José Paulo Paes.
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José Paulo Paes (1926-1998) nasceu em Taquiritinga, São Paulo. Formou-se em Química 
Industrial, em Curitiba, Paraná. Publicou seu primeiro livro de poesia, O Aluno, em 
1947. Escreveu em jornais, revistas e se destacou como tradutor de obras de autores 
importantes. A poesia de Paulo Paes é de tendência contemporânea. Sabe inventar, 
fazer da linguagem um recurso valioso para a construção de sentidos e de formas de 
expressão bastante inovadoras.
Texto V
Convite
Poesia 
é brincar com palavras 
como se brinca 
com bola, papagaio, pião.
Só que 
bola, papagaio, pião 
de tanto brincar 
se gastam.
As palavras não: 
quanto mais se brinca 
com elas 
mais novas ficam.
Como a água do rio 
que é água sempre nova. 
Como cada dia 
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
1. No poema de Solano Trindade, lido anteriormente, encontramos algumas 
metáforas para definir “poesia”: “Ler é amar”; “Ler é gozar”. Que metáfora está 
presente no texto de José Paulo Paes? 
“Poesia é brincar”. 
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2. O que significa “brincar com as palavras”?
Brincar significa jogar, isto é, dar novas formas e novos sentidos às palavras. 
Usar uma palavra para inventar outra, para criar novas construções semânticas, 
sintáticas e morfológicas. A rima, o ritmo, a inversão, a metáfora são recursos ou 
“brincadeiras” importantes no processo de criação poética. 
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O tutor deve ajudar os alunos a descobrirem os jogos de palavras 
presentes no poema “Convite” como as rimas elaboradas a partir da 
repetição de palavras (pião, dia), que contribuem para a criação de 
um ritmo que traduz o movimento de brincar. Observe-se a inversão, 
na 2ª estrofe, que, desfeita, ficaria assim: “Só que bola, papagaio, 
pião se gastam de tanto brincar”. A inversão realça um belo jogo 
sonoro, a rima “brincam/pião”. O poeta também rima “não/ficam”. 
Observe também o uso de aliterações, a repetição de fonemas como 
o p (papagaio/pião). Os jogos sonoros são formas de brincar com 
palavras.
3. A única metáfora poética que NÃO contribui para organizar o sentido do poema 
Convite de Paulo Paes é: 
a) A leitura de poesia é um jogo, um prazer.
b) Ler poesias é brincar com significados. 
c) Brincar com palavras é inventar sentidos.
d) Ler poesia é jogar com as palavras.
e) O poeta é um carcereiro de palavras. (X)
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4. Releia os versos abaixo:
“Só que 
bola, papagaio, pião 
de tanto brincar 
se gastam.
A expressão em destaque, só que, determina a seguinte relação semântica:
a) Negação 
b) Tempo
c) Lugar
d) Ressalva (X)
e) Justificativa
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5. Entre a segunda e a terceira estrofe identificamos uma relação de:
a) Oposição (X)
b) Causa
c) Consequência
d) Condição
e) Conformidade
D15
6. Depois de comparar poesia e brincadeira infantil, o poeta aponta uma 
diferença entre ambas. Como você entende essa diferenciação? 
Brincar com palavra é um jogo interminável que está sempre se renovando, 
modificando-se. O sentido das palavras pode ser inventado, criado à medida em 
que se brinca, lê ou se escreve poesias. Já o pião, a bola, o papagaio são objetos 
que não se renovam durante a brincadeira. Eles se gastam, acabam-se com o 
tempo, seja porque eles ficam velhos, estragados ou porque não mais provocam 
o interesse do jogador. Há também a ideia de que estes brinquedos passam a não 
servir mais quando as pessoas ficam adultas.
D4
7. Qual é a ideia defendida pelo poeta sobre a leitura de poesias.
O poeta defende a opinião de que a ler poesias é muito fácil, é uma brincadeira 
interminável.
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8. Escreva pelo menos um argumento usado pelo autor para defender a opinião 
apresentada no poema.
Um argumento é mostrar que brincar com palavras é mais divertido que brincar 
com pião, bola, papagaio. Um outro argumento é dizer que o prazer de ler/brincar 
com as palavras se relaciona ao processo de criação poética. O poeta exemplifica 
isso ao associar a brincadeira, a leitura ou o fazer literário, a um rio cujas águas 
estão sempre se renovando. A ideia da fluidez, do movimento da água é um bom 
argumento para revelar a importância de criar, inventar no processo literário. 
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9. Encontre duas imagens criadas pelo poeta para justificar também a opinião 
defendida.
A imagem das águas de um rio que flui e a do amanhecer.
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Algumas ideias sobre poesia que o tutor deve levar à discussão 
com os alunos: o poder de renovação da palavra; a permanência 
da arte e da literatura. O poeta também discute a crença de que ler 
poesia e literatura é difícil. Ao contrário, pode ser um jogo divertido, 
uma experiência lúdica e de descobertas inúmeras. Ao trabalhar as 
questões é importante que o tutor busque ouvir os alunos, estimule-
os a produzirem suas leituras e interfira, caso necessário, chamando 
atenção para pistas textuais que os levem a construir leituras cada vez 
mais “verticais” do texto. Fazer comentários pertinentes, com base 
nas informações do poema, é uma forma de interagir e aprofundar 
o nível de leitura dos alunos.
TEXTOS EM DIÁLOGO
Leia os textos a seguir e encontre semelhanças entre eles e os poemas trabalhados nesta oficina. 
Considere, portanto, o que você leu, estudou, conheceu nesta oficina
Texto I
“ Poesia é voar fora da asa.”
 (Manuel de Barros)
Texto II
Explicação da poesia sem ninguém pedir
(Adélia Prado)
Um trem de ferro é uma coisa mecânica,
Mas atravessou a noite, a madrugada, o dia,
Atravessou minha vida,
Virou só sentimento.
Texto III
Senhora Gramática
Solano Trindade
Senhora gramática
Perdoai os meus pecados gramaticais.
Se não perdoardes
Senhora
Eu errarei mais.
 
Os alunos devem ser auxiliados a perceber as semelhanças entre os 
textos, considerando o que foi discutido em todas as atividades de 
leitura. 
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Anotações
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A POESIA MODERNISTA
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Begma Tavares Barbosa
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1. OBJETIVOS
1. Desenvolver habilidades de leitura de poemas.
2. Conhecer poetas da literatura brasileira: Castro Alves, Manuel Bandeira, 
Oswald de Andrade.
3. Conhecer o Modernismo Brasileiro, a partir da leitura de paródias que 
exemplificam a ruptura promovida por esse movimento artístico.
2. TEXTOS PROPOSTOS PARA LEITURA
Texto I – O Adeus de Teresa – Castro Alves
O poema de Castro Alves tem estrutura narrativa (obsevem-se os marcadores de tempo que 
organizam seus episódios). O eu-poético narra sua história de amor, sua paixão por Teresa, 
uma mulher que o arrebata logo no primeiro encontro. As estrofes de um único verso podem 
ser consideradas uma espécie de refrão e descrevem o estado da mulher a cada vez que o 
amante lhe diz “adeus”. No entanto, o título do poema, bastante significativo, sinaliza que o 
“adeus definitivo” é o “Adeus de Teresa”. O desfecho da narrativa (penúltima estrofe) revela 
que Teresa tem outro, o que põe fim a essa história de amor. 
O poema de Castro Alves é um bom exemplo do modelo de amor cultuado largamente pelo 
Romantismo, estética literária do século XIX. A beleza incomparável do ser amado, o amor 
eterno, o amor como experiência de dor e sofrimento são alguns dos ingredientes do discurso 
amoroso romântico, discurso que será questionado pelos poetas do Modernismo, em textos 
que dialogam com a literatura do passado em divertidas paródias.
Texto II – Teresa – Manuel Bandeira
O texto de Manuel Bandeira é um exemplo de uma paródia modernista, um discurso de ruptura, 
que ironiza o discurso amoroso romântico. O diálogo entre os textos pode ser percebido por 
algumas pistas: o título (a mulher é também “Teresa”); o primeiro verso; a estrutura do poema, 
que também narra encontros sucessivos com a mulher. O tom de paródia pode ser percebido 
logo no primeiro verso, em que Bandeira inverte a sintaxe e substitui um verbo, tornando a 
linguagem mais coloquial, bem ao gosto dos modernistas (“A vez primeira que eu fitei Teresa” 
por “A primeira vez que vi Teresa”. Outro traço de paródia é a descrição de Teresa como uma 
mulher nada atraente à primeira vista, uma mulher que tem “pernas estúpidas” e “cara que 
parece uma perna”.
O poema rompe com o discurso romântico ao narrar um amor que não acontece “à primeira 
vista”, mas que acontece. A metáfora da última estrofe – “Os céus se misturaram com a terra/ 
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas” – poderia indicar que o eu-
poético apaixonou-se por Teresa, mulher que chamou sua atenção de muitas formas: observe 
que, na segundo estrofe, os “olhos velhos” de Teresa chamam a atenção do eu-poético.
Esse diálogo sobre o amor que se pode perceber entre os dois poemas revela-se ainda mais se 
considerarmos o contexto de produção do texto de Bandeira: trata-se de um belo exemplar da 
poesia da primeira fase do Modernismo Brasileiro, um momento de revisão da nossa tradição 
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literária que incluiu questionamentos múltiplos: o poema de Bandeira, por exemplo, rompe 
com uma “ideia” de amor e com um modelo de linguagem. 
Textos III e IV – Poema de J. M. de Macedo e “Tradução”, de Manuel Bandeira
O texto III foi escrito por Joaquim Manuel de Macedo, importante escritor do Romantismo 
Brasileiro. Nele, o eu-poético, dirige-se a uma mulher e a aconselha a não amar, sob a justificativa 
de que os homens não mercem confiança, são capazes de fingir e trair. 
O texto IV é um poema de Manuel Bandeira que dialoga claramente com o anterior, propondo 
uma tradução do poema brasileiro escrito numa modalidade linguística própria de Portugal. 
Bandeira rompe com essa linguagem, substituindo o pronome de segunda pessoa utilizado 
no português de Portugal pelo tratamento “você” , preferido no Brasil. O rebuscamento de 
linguagem que se pode observar no poema de Macedo é também substituído pelo registro 
informal e pela incorporação da fala à linguagem escrita, como é próprio dos artistas que 
fizeram a “revolução modernista”. 
Texto V – Epitáfio – Oswald de Andrade
Em Epitáfio, o eu-poético apresenta-se como alguém que amou muito e amou muitas mulheres 
(“Eu sou urna redond’ilha/ Das mulheres que beijei”). Nos versos “Por falecer do oh! Amor/ 
Das mulheres de minh’ilha”, o poeta modernista “provoca” os poetas românticos, ao fazer 
referência ao tema da “Morte por amor”. Enquanto os poetas românticos associavam o amor 
com a dor, o poeta modernista prefere associá-lo ao humor, à alegria. Tendo vivido o amor, 
tendo amado muitas mulheres, sua vida valeu a pena, por isso sua caveira rirá.
Consideremos um recurso formal importante na composição do texto: o poema foi escrito em 
redondilha, versos de cinco sílabas poéticas, um ritmo da tradição medieval. O poeta brinca 
com as palavras fazendo recorrer no texto imagens circulares (“eu sou redondo”; “sou uma 
redondilha das mulheres que beijei”; “as mulheres de minha ilha”). Trata-se de uma composição 
bastante lúdica, como muitas outras desse autor e de alguns de seus contemporâneos. 
Texto V – Poética – Manuel Bandeira
Poética é um texto metalinguístico: poesia falando de poesia. Manuel Bandeira, cuja poesia é 
bastante representativa da primeira poesia modernista, compõe um poema em que declara 
sua adesão a uma “nova poética”: uma poética arrebatadora, libertária e inovadora. “Poética” 
pode ser lido também como um poema de crítica a duas estéticas de nossa tradição literária. 
De um lado a crítica ao “lirismo namorador” e “doentio” dos românticos; de outro, a poesia 
“purista”, “objetiva” e cheia de “formalismos” dos parnasianos. 
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3. ROTEIRO PARA O TRABALHO NAS OFICINAS
1. Conversa informal com os alunos sobre o que sabem ou já estudaram a 
respeito do tema da oficina. Essa conversa inicial pode ajudar a organizar 
a dinâmica de trabalho. 
2. Leitura dos textos I, II, III e IV e resolução das atividades de leitura – a 
tarefa pode ser feita em duplas.
3. Correção / Comentário das atividades de leitura – Ao retomar as atividades 
de leitura com os alunos, o tutor deve auxiliá-los a organizarem seu 
conhecimento sobre a poesia modernista e também sobre o Modernismo. 
Caso seja possível, sugerimos que os alunos assistam ao vídeo indicado a 
seguir ou a outro que seja esclarecedor e motive o interesse dos jovens: 
http://www.youtube.com/watch?v=q2RiBip7ur4&feature=related.
4. Atividade oral – o tutor deve ler com os alunos o poema de Oswald de 
Andrade, ajudando-os a perceber de que modo esse poema dialoga com 
o discurso amoroso romântico. A atividade que pode ser difícil para os 
alunos, por isso sugerimos que eles a realizem junto com o tutor, que 
deve mediar a leitura do texto, fazendo perguntas, motivando a interação 
com o texto. 
5. Leitura do texto VI e resolução das atividades de leitura. 
6. Correção das atividades com os alunos e sistematização dos conhecimentos 
sobre o Modernismo discutidos na oficina. 
4.TEXTOS E ATIVIDADES DE LEITURA
A literatura sempre falou do Amor, em prosa e em poesia. Os poemas que você vai ler falam 
de Amor e foram escritos por dois grandes poetas brasileiros: o primeiro, por Castro Alves; o 
segundo, por Manuel Bandeira. Leia os textos atentamente e observe como eles “dialogam” 
entre si. Antes, porém, saiba quem foi Castro Alves.
Castro Alves é um dos nossos mais importantes poetas do século XIX. 
Nasceu em Salvador, em 14 de março de 1847. Morreu bastante jovem, aos 
24 anos, já tendo produzido uma obra grandiosa. É conhecido como Poeta 
dos Escravos, pois suas poesias mais conhecidas procuraram combater a 
escravidão, e por essa causa ele lutou muito.Sobre essa temática, são muito conhecidos os poemas “Vozes D’África” e “Navio Negreiro”. 
Escreveu também lindos poemas de amor, marcados por lirismo e por muita sensualidade. 
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TEXTO I
O “adeus” de Teresa 
Castro Alves
A vez primeira que eu fitei Teresa, 
Como as plantas que arrasta a correnteza, 
A valsa nos levou nos giros seus 
E amamos juntos E depois na sala 
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala 
 
E ela, corando, murmurou-me: “adeus.” 
 
Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . . 
E da alcova saía um cavaleiro 
Inda beijando uma mulher sem véus 
Era eu. Era a pálida Teresa! 
“Adeus” lhe disse conservando-a presa 
 
E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!” 
 
Passaram tempos sec’los de delírio 
Prazeres divinais gozos do Empíreo 
... Mas um dia volvi aos lares meus. 
Partindo eu disse - “Voltarei! descansa!. . . “ 
Ela, chorando mais que uma criança, 
 
Ela em soluços murmurou-me: “adeus!” 
 
Quando voltei era o palácio em festa! 
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra 
Preenchiam de amor o azul dos céus. 
Entrei! Ela me olhou branca surpresa! 
Foi a última vez que eu vi Teresa! 
 
E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”
 
TEXTO II
Manuel Bandeira nasceu em Recife, em 19 de abril de 1886 e morreu aos 82 
anos. Foi poeta, crítico literário, tradutor e professor de literatura. Produziu 
vasta obra poética. Juntamente com Mário e Oswald de Andrade participou da 
Semana de Arte Moderna, evento realizado no Teatro Municipal de São Paulo, 
em fevereiro de 1922, que “inaugura” o Modernismo Brasileiro, movimento
que impulsinona a construção de uma literatura brasileira mais autônoma em relação aos 
padrões europeus, que nos serviam de modelo naquela época.
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Teresa 
Manuel Bandeira 
A primeira vez que vi Teresa 
Achei que ela tinha pernas estúpidas 
Achei também que a cara parecia uma perna 
 
Quando vi Teresa de novo 
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo 
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse) 
 
Da terceira vez não vi mais nada 
Os céus se misturaram com a terra 
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
Conheça o significado de algumas palavras:
Reposteiro - cortina pendente nas portas interiores da casa.
Alcova - quarto de dormir; quarto de mulher, dormitório de casal.
Arquejar - respirar com dificuldade, ofegar, ansiar.
Referência: Dicionário Aurélio- versão digital.
ATIVIDADES DE LEITURA
Para melhor compreender os poemas, resolva as questões abaixo. 
1. O poema de Castro Alves tem estrutura narrativa, ou seja, ele narra 
acontecimentos que envolvem Teresa e seu amante. 
1.1. Gripe, no poema, as expressões de tempo que organizam os episódios da 
história contada. 
A vez primeira; e depois; uma noite; passaram tempos; mas um dia volvi; partindo 
eu disse; quando voltei; foi a última vez. 
D15
1.2. Que momentos ou fases da vida dos amantes o texto destaca? 
•	 O momento em que se conheceram (“A vez primeira que fitei 
Teresa...”).
•	 O tempo em que se amaram (“Uma noite entreabriu-se um 
reposteiro...”; “Passaram tempos... séc’los de delírio...).
•	 Os vários momentos de despedida, em que o amante ia embora (“E 
depois na sala “adeus” eu disse-lhe...”; ““Adeus” lhe disse”; “Mas 
um dia volvi aos lares meus...”)
•	 O último encontro (“Quando voltei...”; “Foi a última vez...”)
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1.3. Explique o título do poema.
O título do poema é significativo, pois quem sempre diz “adeus” é o amante, e 
Teresa sofre com as despedidas. Mas o adeus definitivo é o de Teresa. 
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1.4. Como você compreende o desfecho da narrativa?
A penúltima estrofe (“Quando voltei... era o palácio em festa!...”) sugere que 
Tereza tem outro, isso coloca um “ponto final” na relação dos amantes.
D4
1.5. Releia as estrofes abaixo, que são uma espécie de “refrão”, no poema: 
E ela, corando, murmurou-me: “adeus.” 
E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”
Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”
E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”
O que indicam as pequenas modificações feitas nesse refrão?
Os versos descrevem as reações de Teresa a cada despedida, recompondo diferentes 
momentos de sua relação. Podemos reconhecer uma Teresa inicialmente tímida, 
envergonhada; uma Teresa apaixonada; uma mulher que sofre por amor; e, por 
fim, uma mulher que se emociona ao rever o amante.
D4
As questões acima exploram elementos da narrativa, estratégia 
utilizada na composição do poema de Castro Alves, chamando a 
atenção para pistas que ajudam a construir a compreensão global do 
texto, como: os marcadores de tempo que organizam os episódios 
da história contada; o título; as modificações feitas na estrofe que se 
destaca e que se caracteriza como um refrão. 
2. Releia, agora, o poema de Manuel Bandeira. 
2.1. Construa sua interpretação dos versos abaixo:
a) “Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo”
Os versos poderiam estar descrevendo Teresa como uma mulher madura, 
experiente, ou como uma mulher sofrida, ou mesmo como uma mulher com um 
rosto “envelhecido”. 
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b) “Os céus se misturaram com a terra/ E o espírito de Deus voltou a se mover 
sobre a face das águas.”
Os versos poderiam representar o estado de paixão, ou de envolvimento amoroso, 
que produz vida, alegria. 
D3
A questão 2 implica a interpretação de expressões metafóricas 
importantes para a construção de sentido do poema. Essas expressões 
podem ser lidas de formas diferentes. É importante que os alunos 
construam suas hipóteses de leitura e as fundamentem. 
3. Compare o poema de Bandeira ao poema de Castro Alves.
3.1. Que semelhanças há entre eles?
Em ambos, o eu-poético masculino fala de uma mulher de nome Teresa. Os dois 
poemas são narrativos, narram episódios envolvendo um homem e uma mulher. 
Ambos contam uma história de amor.
D20
3.2. Em que os textos diferem?
A Teresa de Manuel Bandeira não parece ser uma bela mulher como a de Castro 
Alves, por quem o eu-poético se apaixona “à primeira vista”, como acontece no 
primeiro poema. Ao contrário, a Teresa do poema de Manuel Bandeira tem pernas 
e cara “estúpida”, já que esta “parece uma perna”.
D20
4. O texto de Manuel Bandeira pode ser considerado uma paródia do texto de 
Castro Alves. Explique por quê.
paródia 
[Do gr. parodía, ‘canto ao lado de outro’, pelo lat. parodia.] 
Substantivo feminino. 
1.Imitação cômica de uma composição literária. 
Fonte: Dicionário Aurélio – versão digital
O poema de Bandeira “ironiza” o discurso romântico presente no poema de 
Castro Alves. Neste poema uma bela mulher arrebata o amor do homem já no 
primeiro encontro. Essa forma romântica de ver e viver o amor motiva o poeta 
do modernismo a apresentar uma história de amor diferente. O amor do poema 
de Bandeira não é um amor “à primeira vista”, mas é um amor que acontece. A 
metáfora da última estrofe - Os céus se misturaram com a terra/ E o espírito de 
Deus voltou a se mover sobre a face das águas – poderia indicar que o eu-poético 
apaixonou-se por Teresa, mulher que chamou sua atenção de muitas formas. 
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Ao comparar os textos, os alunos devem reconhecer, inicialmente, 
aproximações (3.1), para, em seguida, apontar para diferenças (3.2) 
que ajudam a reconhecer o texto de Manuel Bandeira como uma 
paródia. Essa atividade implica reconhecer os recursos de humorpresentes no poema, como aqueles utilizados na descrição da 
mulher.
Leia agora dois outros poemas de amor. Um deles é também de Manuel Bandeira. Mais uma 
vez esse autor dialoga com outro escritor romântico: Joaquim Manuel de Macedo.
TEXTO III 
Joaquim M. de Macedo
“Mulher, irmã, escuta-me: não ames
Quando a teus pés um homem terno e curvo
Jurar amor, chorar pranto de sangue,
Não creias não, mulher, ele te engana!
As lágrimas são galas da mentira.
E o juramento manto da perfídia.”
TEXTO IV
Tradução
 Manuel Bandeira
Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA.
Conheça o significado de algumas palavras
Gala- traje de gala; pompa; ornamentação ou enfeites ricos, preciosos.
Perfídia- deslealdade, traição.
Referência: Dicionário Aurélio- versão digital.
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ATIVIDADES DE LEITURA
1. Qual é o tema do texto de Joaquim Manuel de Macedo?
O texto fala da falsidade dos homens. É um conselho dirigido a uma mulher para 
que não ame e não acredite nos homens, pois eles enganam.
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2. Explique o sentido das expressões metafóricas abaixo:
“As lágrimas são galas da mentira./ E o juramento manto da perfídia.”
As lágrimas podem ser falsas e estar apenas encobrindo (“enfeitando”) a mentira. 
Da mesma forma, o juramento de amor pode esconder (manto) a traição.
D3
3. Leia agora o texto de Manuel Bandeira. Considere, atentamente, o diálogo ente 
o texto de Bandeira e o de Macedo.
3.1. Explique o título do texto de Bandeira. 
Manuel Bandeira “traduz” o texto de Joaquim Manuel de Macedo. O texto de 
Macedo é escrito numa modalidade bastante formal da língua, mais portuguesa 
que brasileira. Manuel Bandeira traduz o “conselho” usando uma linguagem mais 
coloquial e, portanto, mais compreensível para a maioria das pessoas. 
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3.2. O texto de Bandeira pode ser considerado uma paródia?
Sim, o texto se vale do humor para contestar a linguagem dos escritores do século 
XIX. 
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As atividades de leitura acima foram propostas com os seguintes 
objetivos: i) desenvolver habilidades de leitura de poemas; ii) conhecer 
grandes escritores e poetas brasileiros; iii) conhecer o Modernismo, 
destacando sua importância como movimento de ruptura com a 
nossa tradição literária. As paródias foram muito utilizadas pelos 
modernistas brasileiros como forma de questionar nossa produção 
literária do passado e, desse modo, promover mudanças na arte e 
na literatura. Manuel Bandeira é um dos escritores mais importantes 
da 1ª fase do Modernismo brasileiro. Juntamente com Oswald de 
Andrade, Mário de Andrade e outros artistas, Bandeira contribuiu 
para que a literatura brasileira ganhasse mais autonomia e refletisse 
a nossa cultura. São contribuições importantes desses primeiros 
modernistas: a busca por uma linguagem própria, com experiências 
de inovação inusitadas; a valorização do verso livre e da linguagem 
coloquial; o nacionalismo crítico; a valorização da fala brasileira etc. 
A partir da leitura das paródias é que o tutor vai aprofundar com os 
alunos conhecimentos sobre esse importante movimento artístico 
brasileiro. Para saber mais sobre o Modernismo, você pode consultar 
os sites:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Modernismo_no_Brasil
http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=literatura/
docs/semana
Você vai conhecer agora outro grande autor do Modernismo Brasileiro: o poeta Oswald de 
Andrade. 
Oswald de Andrade nasceu em São Paulo, em 11 de janeiro de 1890. Seu 
espírito combativo e irreverente fez dele um dos escritores mais importantes 
do Modernismo e da Literatura brasileira. Juntamente com Mário de Andrade 
e Manuel Bandeira, Oswald representa o Modernismo de 22. Escreveu o 
“Manifesto Antropofágico”, em que propôs que o Brasil “devorasse” a 
cultura estrangeira e criasse uma cultura revolucionária própria. Morreu aos 
64 anos.
EPITÁFIO
Oswald de Andrade
Eu sou redondo, redondo 
Redondo, redondo eu sei 
Eu sou urna redond’ilha 
Das mulheres que beijei
 
Por falecer do oh! amor 
Das mulheres de minh’ilha 
Minha caveira rirá ah! ah! ah! 
Pensando na redondilha
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ATIVIDADE DE LEITURA
Considerando seu conhecimento sobre o Modernismo Brasileiro, apresente sua leitura do texto 
acima: por que ele tem esse título?; onde se pode notar o humor nesse poema?; que imagem 
recorre nos versos? 
Considere o verbete abaixo para construir sua resposta
epitáfio 
[Do gr. epitáphion, pelo lat. epitaphiu.] 
Substantivo masculino. 
1.Inscrição tumular. 
2.P. ext. Lápide ou tabuleta com epitáfio (1). 
3.Elogio fúnebre. 
4.Arte Poét. Espécie de poesia satírica (em geral uma quadra) feita sobre um vivo como se 
se tratasse de um morto.
Dicionário Aurélio – Versão Digital
Você vai ler agora um último texto do poeta Manuel Bandeira. 
TEXTO VI
Poética
 Manuel Bandeira 
Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de 
apreço ao Sr. diretor. 
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um 
vocábulo. 
Abaixo os puristas 
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 
Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja 
fora de si mesmo 
De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante 
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes 
maneiras de agradar às mulheres, etc 
Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbedos 
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos 
O lirismo dos clowns de Shakespeare 
 
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
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Conheça o significado de algumas palavras: 
Lirismo- poesia lírica
Vernáculo- linguagem pura, correta, isenta de estrangeirismos
Barbarismos- erro de pronúncia, grafia, forma gramatical ou significação
Pungente- comovente
Clown- palhaço
Referência: Dicionário Aurélio- versão digital.
1. Qual é o tema do texto de Manuel Bandeira?
A própria poesia. O poeta rejeita um tipo de poesia, para, em seguida, falar do tipo 
de poesia que ele quer e admira.
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2. Que tipo de poeta e de poesia o autor critica?
O autor critica a poesia bem comportada do passado, a poesia dos puristas, aquela 
que se preocupa em utilizar uma linguagem sempre requintada e “correta”. O 
poeta também condena a poesia sentimental dos românticos e, ao mesmo tempo, 
a poesia que não comove. 
D4
3. Que tipo de poesia o poeta valoriza?
Nos quatro últimos versos o autor declara sua adesão a uma poesia libertária, 
alegre, marcada pelo humor, uma poesia comovente e inovadora.
D4
Cabe ao tutor auxiliar os alunos na leitura desse poema, que 
exemplifica bem a ruptura que o Modernismo quis promover com a 
literatura do passado. O poeta é duro na sua crítica à poesia brasileira 
do passado: “Estou farto...”. Há sinalizações no texto que nos 
permitem dizer que o poeta nega valores das estéticas romântica e 
parnasiana. O discurso sentimental dos românticos é contestado em 
versos como: “Estou farto do lirismo namorador”. A poesia castiça 
dos parnasianos é mencionada em: “Estou farto do lirismo que pára 
e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de umvocábulo.” 
A crítica à poesia da “objetividade” parnasiana também pode ser 
reconhecida em “de resto não é lirismo/ será contabilidade tabela 
de co-senos...”. É importante chamar a atenção dos alunos também 
para forma do texto de Bandeira, escrito em versos livres, alguns 
muito longos, outros, de uma só palavra. Bandeira rompe com a 
métrica regular, propõe uma poética nova. Sem necessidade de um 
estudo aprofundado das estéticas literárias, o tutor pode trabalhar 
noções básicas que ajudem a compreender a discussão proposta.
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Anotações
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OFICINA 7
O TEXTO EXPOSITIVO
divulgando a ciência
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Begma Tavares Barbosa
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1. OBJETIVOS
1. Desenvolver estratégias de leitura de textos expositivos. 
2. Familiarizar-se com a estrutura e as estratégias discursivas de textos 
expositivos.
3. Estimular a leitura de textos de divulgação científica.
2. TEXTOS PROPOSTOS PARA LEITURA
TEXTO I
O texto I é a introdução de uma reportagem sobre células-tronco. Foi publicado numa edição 
da Revista Veja – Veja Especial – de 2002. Seu conteúdo expositivo define célula-tronco, fala de 
seu potencial na cura de doenças, apresenta a polêmica envolvendo o uso das células-tronco 
embrionárias e descreve os procedimentos utilizados em tratamentos médicos. Tudo isso de 
forma bastante sucinta. É um texto interessante pela forma como se introduz um tema da 
ciência: a partir da narrativa mítica do poeta grego Hesíodo. 
A narrativa de Hesíodo ilustra bem nosso enfrentamento com a morte e o envelhecimento. 
Eos deseja que seu amado tenha a vida eterna e tem seu pedido atendido. Porém, esquece-
se de pedir a Zeus que ele permaneça jovem. Titon torna-se imortal, mas vive acorrentado à 
velhice. O mito de Hesíodo é utilizado para introduzir o tema da reportagem: as possibilidades 
que a ciência apresenta, a partir da utilização de células-tronco, para o enfrentamento do 
envelhecimento. 
Duas estratégias discursivas chamam a atenção nesse texto. Em primeiro lugar, destacam-se 
várias expressões metafóricas que representam o trabalho da ciência como uma “luta”, uma 
batalha contra o envelhecimento: domar as adversidades; enfrentar doenças; as armas que 
a ciência está desenvolvendo etc. 
Outra estratégia interessante do texto é a referência ao livro “Como e por que envelhecemos?”, 
particularmente a afirmação de que “o envelhecimento é um produto da civilização”. 
Aparentemente contraditória, a afirmação do médico americano assinala o potencial da ciência 
em prolongar a vida. Nesse percurso, a pesquisa com células-tronco é mais um passo da nossa 
civilização que, dotada de tecnologias cada vez mais sofisticadas, pode agora vencer novas 
batalhas contra o envelhecimento que, felizmente, ela criou. 
Considerando a estrutura desse texto, vimos que ele tem início com uma narrativa breve, 
inclui uma argumentação e tem, em sua parte final, conteúdo expositivo. Ao propormos que 
seja tomado como texto, principalmente, expositivo, estamos considerando como seu objetivo 
central o de “fazer saber” o que é célula-tronco e apresentar o potencial das pesquisas atuais 
na luta contra o envelhecimento. 
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TEXTO II
O TEXTO II foi retirado da Folha Online (Jornal Folha de São Paulo em versão digital) e aborda 
o mesmo tema do texto anterior, com foco na polêmica que envolve o uso de células-tronco 
embrionárias. Observe que o título - Entenda o que são células-tronco embrionárias – 
indica o tema e o objetivo do texto. Trata-se de um texto que pretende, principalmente, “fazer 
saber”. 
Seu conteúdo está organizado em três partes. Na primeira, define-se “célula-tronco 
embrionária”, mencionando-se, brevemente, sua importância, a polêmica que envolve sua 
utilização em pesquisa e o modo de utilização desse tipo de célula. Os títulos das outras duas 
partes são importantes por indicarem, de forma eficiente, os tópicos abordados. Na segunda 
parte, apresentam-se duas alternativas à utilização de células-tronco embrionárias, dada a 
polêmica que envolve a manipulação de embriões humanos: a utilização de células humanas 
adultas da pele para criar células-tronco embrionárias “induzidas”; a utilização de células-
tronco adultas derivadas de tecidos do organismo, como a medula óssea e cordão umbilical.
O título “debate ético”, que introduz a terceira parte, faz referência à polêmica que envolve a 
utilização de células-tronco embrionárias. Nessa última parte do texto, apresenta-se uma nova 
experiência científica que pode por fim a essa polêmica. O autor, no entanto, parece questionar 
as possibilidades reais da nova experiência.
3. ROTEIRO PARA O TRABALHO NAS OFICINAS
1. Atividade oral – conversa com o grupo para mobilizar o conhecimento 
prévio acerca do assunto de que os textos tratarão: a pesquisa com 
células-tronco.
2. Leitura dos textos e resolução das atividades de leitura – o tutor pode 
escolher a melhor forma de organizar a oficina. Caso queira, pode retomar 
as atividades relativas ao texto I e corrigi-las com os alunos antes de passar 
ao texto II. Ou sugerir que a turma trabalhe os dois textos para que as 
atividades sejam corrigidas e comentadas depois. Da mesma forma, as 
atividades podem ser feitas em pequenos grupos ou individualmente. O 
importante é que os alunos façam seus exercícios de leitura e exponham 
suas dúvidas para que o tutor melhor os oriente em suas estratégias de 
construção de sentido dos textos.
3. Atividade escrita – o tutor deve orientar os alunos na elaboração do 
esquema do texto. Se forem escrevê-lo durante a oficina, o tutor deve 
orientá-los, sobretudo na construção da coesão do texto, como, por 
exemplo, na utilização de marcadores que explicitem as relações entre 
parágrafos, períodos e orações no texto. 
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4. TEXTOS E ATIVIDADES DE LEITURA
O texto que você vai ler foi retirado da Revista Veja Especial, edição de novembro de 2002.
TEXTO I
Os novos horizontes da ciência
O que está em pesquisa nos laboratórios mais modernos do mundo para vencer as 
doenças associadas ao envelhecimento
No clássico Teogonia, escrito 700 anos antes do nascimento de Cristo, o poeta grego Hesíodo 
conta a seguinte história: Eos, a deusa da alvorada, pede que Zeus conceda a vida eterna a 
Títon, príncipe de Tróia e seu grande amor. Seu desejo é atendido. Ela não se lembra, porém, 
de pedir que ele também permaneça jovem para sempre. O tempo passa. Carcomido pela 
velhice, sem conseguir mais mexer as mãos e os pés, Títon quer morrer. Clama por isso. Mas se 
tornou imortal, está acorrentado à velhice. Quando entra em total estado de decrepitude, Eos, 
compadecida, o transforma em gafanhoto, o mais musical dos insetos, para ouvir eternamente 
a voz de seu amado. 
O mito transmitido por Hesíodo construiu-se a partir de duas dificuldades que, aos povos 
antigos, pareciam ser tão intransponíveis quanto voar – a de uma pessoa viver por décadas a 
fio e a de um velho manter a força dos verdes anos. Desde então, é uma obviedade ululante, 
vários obstáculos foram superados nos dois aspectos. No entanto, para a realização do sonho 
de uma juventude que ultrapasse os limites biológicos, a ciência ainda tem de percorrer um 
árduo caminho. Não foi decifrado, por exemplo, o processo de envelhecimento em toda a sua 
complexidade. E esse ponto é fundamental para que se consiga detê-lo. 
É curioso notar que essas questões não fazem parte da ordem natural das coisas. No livro 
Como e Por que Envelhecemos, o médico americano Leonard Hayflick, professorde anatomia 
da Universidade da Califórnia, observa que o envelhecimento é um produto da civilização. “A 
natureza planejou as coisas de modo que morrêssemos antes de envelhecer. O envelhecimento 
é um fenômeno que a natureza nunca pretendeu que experimentássemos”, escreve Hayflick. 
Ele explica que a degeneração do corpo humano começa entre 25 e 30 anos. Isso porque, nessa 
época da vida, homens e mulheres já teriam cumprido a sua única função: a de gerar uma 
prole, garantindo, assim, a continuidade da espécie. Morrer cedo, portanto, está inscrito na 
lógica dos genes – contra a qual, felizmente, nos opomos. Graças às conquistas da civilização, 
o homem aprendeu a domar as adversidades que encurtavam demais a sua expectativa de 
vida. Em contrapartida, viu-se obrigado a enfrentar doenças associadas ao envelhecimento 
(caso do câncer e dos distúrbios cardíacos). Veja a seguir quais são as armas que a ciência está 
desenvolvendo para ganhar essa batalha. 
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CÉLULAS-TRONCO 
Uma das grandes esperanças da medicina são as células-tronco. Sem função específica, elas podem 
se transformar em qualquer um dos mais de 200 tipos de células diferentes que compõem o corpo 
humano. Dada essa versatilidade, vêm sendo testadas na regeneração de tecidos e órgãos lesados 
de pessoas doentes. Entre elas, vítimas de diabetes, mal de Alzheimer, mal de Parkinson, distúrbios 
cardiovasculares e vários tipos de câncer. Experiências de sucesso já foram feitas com portadores de 
leucemia e determinados problemas cardíacos. A melhor fonte de células-tronco são os embriões 
com até uma semana de gestação – quando eles não passam, do ponto de vista da ciência, de um 
amontoado de células sem função específica. Os estudos com células-tronco começaram em 1998. 
Desde então, avançaram em ritmo espantoso. Hoje já se sabe que é possível encontrar células-tronco 
no sangue do cordão umbilical de um bebê recém-nascido e no organismo de um adulto, ainda 
que em quantidades inferiores e com uma capacidade de multiplicação inferior à das encontradas 
em embriões. A descoberta resolve dois problemas. O primeiro é técnico: com uma célula-tronco 
própria, o paciente se livra do risco de rejeição. O segundo, ético-religioso: a Igreja Católica e governos 
comprometidos com fundamentalistas cristãos, como o dos Estados Unidos, condenam a utilização de 
embriões humanos para experimentos científicos. O uso das células-tronco em tratamentos médicos é 
relativamente simples. Em laboratório, os cientistas induzem essas células a se especializar em células 
do tecido ou órgão a ser regenerado. Em seguida, injetam as células-tronco modificadas no doente e 
esperam que elas se reproduzam. Atualmente, é possível transformar células-tronco em cerca de 150 
tipos de células especializadas.
VEJA ESPECIAL, novembro 2002.
ATIVIDADES DE LEITURA
1. O objetivo do texto lido é:
a) argumentar que o envelhecimento é um produto da civilização.
b) argumentar que as pessoas hoje não querem envelhecer.
c) discutir a importância do mito de Hesíodo.
d) apresentar as possibilidades da pesquisa com células-tronco. (X)
e) argumentar sobre os riscos de se utilizar células-tronco.
D12
2. Qual é o tema do texto lido?
A utilização da pesquisa com célula-tronco no combate às doenças associadas ao 
envelhecimento.
D6
3. Leia atentamente: 
Mito – narrativa na qual aparecem seres e acontecimentos imaginários, que 
simbolizam forças da natureza, aspectos da vida humana, etc. 
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3.1. Que “aspectos da vida humana” o mito de Hesíodo discute?
Nosso desejo de viver por muitos anos e o desafio de enfrentar o envelhecimento.
D1
3.2. Qual é a função dessa narrativa no texto?
A narrativa introduz o texto que vai tratar exatamente do tema do envelhecimento, 
abordando as possibilidades que a ciência nos apresenta hoje para enfrentar essa 
realidade humana.
D4
4. Releia:
“Desde então, é uma obviedade ululante, vários obstáculos foram superados 
nos dois aspectos. No entanto, para a realização do sonho de uma juventude 
que ultrapasse os limites biológicos, a ciência ainda tem de percorrer um árduo 
caminho.”
O conector grifado no texto estabelece com o período anterior uma relação de:
a) finalidade.
b) consequência.
c) causa.
d) condição.
e) oposição. (X)
D15
5. Releia:
“No livro Como e Por que Envelhecemos, o médico americano Leonard Hayflick 
(...) observa que o envelhecimento é um produto da civilização.”
5.1. A frase que melhor explica a afirmação do médico americano é: 
a) O ser humano desejou envelhecer.
b) O ser humano sempre lutou contra o envelhecimento. 
c) O ser humano quer vencer a morte e o envelhecimento.
c) Os avanços da ciência possibilitaram ao ser humano envelhecer. (X)
d) Os avanços da ciência conseguiram vencer o envelhecimento.
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5.2. A afirmação do médico americano é sustentada por um argumento. Reconheça 
esse argumento no texto. 
O médico explica que a degeneração do ser humano começa entre os 25 e 30 
anos. Segundo sua teoria, o ser humano está geneticamente programado para 
morrer antes de envelhecer, logo que cumprir sua função de gerar uma prole. Hoje 
envelhecemos porque construímos conhecimentos que nos permitem viver por 
muito mais tempo. 
D8
6. O texto fala da “luta contra o envelhecimento”. Temos aqui uma METÁFORA. 
Grife, no texto, as expressões metafóricas que remetem a essa metáfora. 
•	 “O que está em pesquisa nos laboratórios mais modernos para 
vencer as doenças associadas ao envelhecimento”.
•	 “O homem aprendeu a domar as adversidades que encurtavam 
demais a sua expectativa de vida.”
•	 “... viu-se obrigado a enfrentar doenças associadas ao 
envelhecimento.”
•	 “Veja quais são as armas que a ciência está desenvolvendo para 
enfrentar essa batalha.”
D18
Na questão 6 chamamos a atenção para uma metáfora do texto: 
a metáfora da luta, da guerra contra o envelhecimento. Estamos 
chamando de METÁFORA a essa representação presente no texto: o 
trabalho da ciência representado como uma luta e o envelhecimento 
como alguém contra quem lutamos. Por outro lado, estamos 
chamando de expressões metafóricas às expressões linguísticas 
que deflagram essa representação, a metáfora da luta, da guerra. Nas 
oficinas sobre poesia, procuramos exercitar bastante a interpretação 
de metáforas chamando a atenção para expressões metafóricas 
inúmeras. É importante observar que as metáforas não estão 
presentes apenas nos poemas, na literatura. A metáfora, conforme 
discutimos, é um recurso poderoso de expressão e de representação 
da experiência.
Releia agora a segunda parte do texto, de conteúdo expositivo, que reúne diversas informações 
sobre “célula-tronco”. Responda:
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7. O que é célula-tronco?
São células que não têm função específica, por isso podem se transformar em 
qualquer célula do corpo humano. 
D1
8. Que doenças estão sendo combatidas com o uso de células-tronco?
Diabetes, Mal de Alzheimer, mal de Parkinson, distúrbios cardiovasculares, câncer, 
leucemia.
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9. O que é célula-tronco embrionária?
Retiradas do embrião, com até uma semana de gestação, são um tipo de célula-
tronco que tem um potencial maior de cura.
D1
10. Que polêmica envolve o uso de célula-tronco embrionária?
Uma polêmica ético-religiosa envolvendo ciência e religião. Religiões cristãs e 
alguns governos condenam a utilização de células de embriões em experimentos 
científicos. 
D1
11. Onde se encontram células-tronco?
No organismode um adulto e também no cordão umbilical de um bebê.
D1
12. Como as células-tronco são utilizadas em tratamentos médicos?
Os cientistas, em laboratório, “transformam” as células-tronco em células específicas 
do tecido a ser regenerado. Em seguida, injetam as células modificadas no paciente 
para que elas se reproduzam.
D1
É importante chamar a atenção dos alunos, ao corrigir as atividades 
para os tópicos que organizam o texto expositivo (cada questão 
acima trata de um tópico). 
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13. Releia atentamente o trecho abaixo, retirado do texto lido:
“A melhor fonte de células-tronco são os embriões com até uma semana de 
gestação – quando eles não passam, do ponto de vista da ciência, de um 
amontoado de células sem função específica.”
Leia, também, o fragmento de uma entrevista concedida por Dom Geraldo Majella, 
presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), à Revista Época, 
publicada em janeiro de 2005. 
ÉPOCA - O senhor acha que está (a utilização de células-tronco) mais 
para um negócio?
DOM GERALDO - No horizonte da fé cristã, que compreende o ser humano 
como criatura, imagem e semelhança de Deus criador, há uma dignidade 
inviolável. Pensar que um embrião possa ser destruído, manipulado, tratado 
como um objeto para aproveitar o poder especial de suas células não é muito 
diferente de comercializar crianças com a finalidade de utilizar seus órgãos, 
transplantando-os em indivíduos doentes. A pesquisa com células-tronco pode 
perfeitamente progredir usando as de organismos adultos e as de placenta e do 
cordão umbilical. Não é verdade que a pesquisa científica é impedida quando 
não se lança mão das células retiradas de embriões humanos.
Compare os textos acima e exponha a diferença entre os posicionamentos 
manifestados:
O texto da Revista Veja expõe a visão da ciência, que afirma a relevância da utilização 
da célula embrionária e entende que o embrião, com até uma semana de gestação, 
é “um amontoado de células sem função específica”. A Revista Época expõe a 
opinião da igreja, contrária à utilização das células embrionárias pela ciência, sob a 
alegação de que embrião é vida. O arcebispo compara a manipulação do embrião 
pela ciência à comercialização de órgãos. 
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TEXTO II
Vamos ler agora um texto que aprofunda a discussão anterior, abordando especificamente a 
utilização de células-tronco embrionárias pela ciência.
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04/03/2008 - 19h20 
Entenda o que são células-tronco 
embrionárias 
As células-tronco embrionárias são consideradas esperança de cura para algumas das doenças 
mais mortais. Elas podem se converter em praticamente todos os tecidos do corpo humano. 
Entretanto, o método de sua obtenção é polêmico, já que a maioria das técnicas implementadas 
nessa área exige a destruição do embrião. 
A forma mais comum de obtenção destas células ainda é por meio de embriões congelados. 
Nesta técnica, óvulos fertilizados em clínicas de reprodução assistida se desenvolvem até o 
estágio conhecido como blastocisto. Após chegar a este estágio, o embrião é destruído e as 
células-tronco são removidas. 
(...)
Alternativas 
Uma nova técnica anunciada no ano passado utiliza células humanas adultas da pele para 
criar células-tronco embrionárias “induzidas”. A técnica, que ainda está em fase experimental, 
consiste em fazer com que as células da pele “voltem no tempo” e passem a agir como se 
fossem as versáteis células-tronco embrionárias, conseguindo posteriormente se diferenciar em 
outros tecidos do corpo. 
Uma alternativa à utilização das células embrionárias é a utilização de células-tronco adultas 
derivadas de tecidos do organismo, como a medula óssea e cordão umbilical. Estas, no 
entanto, têm capacidade limitada de diferenciação. Células adultas já são usadas em terapia 
experimental atualmente, no tratamento de algumas doenças como leucemias, mal de Chagas, 
diabetes e anemia falciforme. 
Debate ético 
Recentemente, cientistas norte-americanos anunciaram uma descoberta que, caso confirmada, 
pode pôr fim à polêmica envolvendo a utilização de células de embriões. Os pesquisadores 
afirmam ter conseguido produzir células-tronco embrionárias sem a necessidade de destruir o 
embrião. 
O novo método consiste em retirar uma única célula do embrião seguindo um procedimento 
utilizado em clínicas de fertilização in vitro para fazer diagnósticos de defeitos genéticos. A 
retirada é feita ainda nos estágios iniciais do embrião, quando ele é formado por poucas 
células. De acordo com os pesquisadores, o método em geral não prejudica o embrião, que é 
congelado e supostamente pode ser utilizado em um futuro processo de fertilização. 
É preciso ressaltar, entretanto, que a mesma empresa havia divulgado o mesmo feito em agosto 
de 2006, na conceituada revista “Nature”. Porém, no mesmo ano os cientistas publicaram uma 
“correção” do artigo na revista, afirmando que os embriões utilizados na pesquisa foram, sim, 
destruídos. 
Com Folha de S.Paulo 
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ATIVIDADES DE LEITURA
1. O objetivo do texto é:
a) expor informações sobre células-tronco embrionárias. (X)
b) defender a utilização terapêutica de células-tronco embrionárias.
c) polemizar em torno da utilização, em pesquisa, de células-tronco embrionárias.
d) defender alternativas à utilização de células-tronco embrionárias.
e) defender a tese de que o embrião é uma vida.
D12
2. Segundo o texto, por que as células-tronco embrionárias são tão importantes 
para a ciência?
Porque elas têm maior versatilidade, podem se transformar em praticamente todos 
os tecidos do corpo humano, ajudando a curar as doenças mais mortais.
D1
3. Por que a utilização de células-tronco embrionárias é polêmica?
As células-tronco embrionárias são retiradas, principalmente, de embriões 
congelados em clínicas de reprodução assistida. Sua retirada implica a destruição 
e o descarte do embrião. Essa técnica é condenada por aqueles que argumentam 
que há vida na fase embrionária.
D4
4. Diante da polêmica que envolve o uso de células-tronco embrionárias, a ciência 
vem buscando alternativas. Que alternativas o texto apresenta à utilização desse 
tipo de célula?
•	 A utilização de células humanas adultas da pele para criar células-
tronco embrionárias “induzidas”.
•	 A utilização de células-tronco adultas derivadas de tecidos do 
organismo, como a medula óssea e cordão umbilical.
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5. Releia:
Uma alternativa à utilização das células embrionárias é a utilização de células-
tronco adultas derivadas de tecidos do organismo, como a medula óssea e 
cordão umbilical. Estas, no entanto, têm capacidade limitada de diferenciação. 
O pronome grifado refere-se, no texto, à expressão:
a) células-tronco;
b) células-tronco embrionárias;
c) tecidos do organismo;
d) células-tronco da medula e do cordão umbilical; (X)
e) doenças.
D2
6. Considere o verbete abaixo:
ética 
[Do lat. ethica < gr. ethiké.] 
Substantivo feminino. 
1.Filos. Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana 
suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja 
relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. [Cf. bem (1) e 
moral (1).]
Dicionário Aurélio – Versão digital
Explique o título da terceira parte do texto, considerando o sentido de “ética”.
O título faz referência à polêmica que envolve o uso de células-tronco retiradas do 
embrião. Esse seria um debate ético porque envolve um julgamento a respeito do 
direito à vida, na medida em que muitosargumentam que o embrião é vida. 
D3
7. Qual é o tema da terceira parte do texto?
A descoberta mais recente que pode por fim à polêmica em torno da utilização de 
células-tronco embrionárias no tratamento terapêutico e experimentos científicos.
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8. Releia:
Recentemente, cientistas norte-americanos anunciaram uma descoberta que, 
caso confirmada, pode pôr fim à polêmica envolvendo a utilização de células 
de embriões.
O conector grifado expressa ideia de:
a) afirmação;
b) condição; (X)
c) finalidade;
d) consequência;
e) oposição.
D15
9. Releia atentamente o último parágrafo do texto: 
É preciso ressaltar, entretanto, que a mesma empresa havia divulgado o mesmo 
feito em agosto de 2006, na conceituada revista “Nature”. Porém, no mesmo 
ano os cientistas publicaram uma “correção” do artigo na revista, afirmando 
que os embriões utilizados na pesquisa foram, sim, destruídos. 
9.1. Qual é o conector responsável por articular esse parágrafo com o anterior?
A conjunção “entretanto”.
D15
9.2. Considerando o valor semântico desse conector, explique a relação de sentido 
presente entre os dois parágrafos.
A conjunção “entretanto” tem valor semântico de oposição, ressalva, contraposição. 
O último parágrafo se “opõe” ao anterior na medida em que apresenta uma 
informação que pode contradizer a afirmação feita no parágrafo anterior. 
D15
10. Considere ainda a seguinte afirmação:
De acordo com os pesquisadores, o método em geral não prejudica o embrião, 
que é congelado e supostamente pode ser utilizado em um futuro processo 
de fertilização.
O que a palavra grifada poderia nos dizer a respeito do posicionamento do autor 
do texto?
Que ele tem dúvidas a respeito da afirmação feita pelos pesquisadores. 
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VAMOS ESCREVER
Você leu dois textos sobre o potencial das células-tronco de curar doenças para as quais a 
ciência ainda não via solução definitiva. No Brasil, houve muita polêmica até que se aprovasse 
a lei regulamentando a utilização dessas células pela ciência, particularmente a utilização 
das células-tronco embrionárias. Depois de muita discussão, veja como ficou a lei brasileira a 
respeito desse tópico:
Leis nacionais
O que dizem as leis de alguns países sobre a clonagem de células tronco.
Brasil – permite a utilização de células-tronco produzidas a partir de embriões humanos para 
fins de pesquisa e terapia, desde que sejam embriões inviáveis ou estejam congelados há mais 
de três anos. Em todos os casos, é necessário o consentimento dos pais. A comercialização 
do material biológico é crime. Em 29 de maio de 2008 o Supremo Tribunal Federal confirmou 
que a lei em questão é constitucional, ratificando assim o posicionamento normativo dessa 
nação.
Fonte: http://pt.wikipedia.org
Você vai agora escrever um texto expositivo-argumentativo sobre o tema. Sugerimos que 
você organize seu texto seguindo o esquema abaixo:
•	 Parágrafo 1 – contrua um parágrafo introdutório de conteúdo 
expositivo, oferecendo informações gerais ao leitor sobre “células-
tronco”: I) o que são células-tronco?; II) que doenças poderiam ser 
combatidas com sua utilização? III) onde podem ser encontradas?; 
IV) como são utilizadas em tratamentos médicos?
•	 Parágrafo 2 – no segundo parágrafo apresente a polêmica 
envolvendo as células-tronco embrionárias: I) o que são as células-
tronco embrionárias?; II) por que elas são tão importantes para a 
ciência?; III) por que sua utilização é polêmica?
•	 Parágrafo 3 – no terceiro parágrafo, posicione-se a respeito da 
utilização das células embrionárias, concluindo seu texto. Você 
pode citar a lei brasileira. Pode também valer-se de alguns dos 
argumentos expostos no quadro abaixo. 
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VALE USAR EMBRIÕES?
Sou a favor. O embrião é uma vida em 
potencial e sua utilização fará parte de um 
projeto maior, que é o de salvar vidas.
Enquanto a ciência não avançar na discussão 
do que seja a vida, a ciência deveria 
investir no emprego das células-tronco 
adultas, deixando para mais tarde o uso 
das embrionárias, quando a nossa visão do 
embrião for mais abrangente.
Acho legítimo usar embriões de clínicas de 
fertilização para curar pessoas com doenças 
letais. Melhor do que jogar no lixo os 
embriões não utilizados é aproveitar suas 
células para curar doenças graves.”
Considero que usar células-tronco 
embrionárias é um atentado contra a vida. 
Quem defende isso argumenta que vão usar 
um embrião que iria para o lixo. Mas jogar 
vidas no lixo é antiético e criminoso.
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Anotações
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OFICINA 8
A CRÔNICA
 um olhar sobre o cotidiano
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Lúcia Helena Furtado Moura
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1. OBJETIVOS
1. Conhecer as características de uma crônica.
2. Refletir sobre as estratégias empregadas para a produção de uma crônica.
3. Analisar a linguagem característica de uma crônica.
4. Comparar crônicas brasileiras de autores distintos, com estilos diferentes, 
para refletir sobre a estruturação das diferentes crônicas.
2. TEXTOS PROPOSTOS PARA LEITURA
TEXTO I – A última crônica – Fernando Sabino
Fernando Sabino, além de cronista de jornal, foi um dos prosadores melhor dotados do 
Neomodernismo, com destaques artísticos na ficção, tanto de romance como novela e conto. 
Ele lançou um novo estilo de fazer crônicas. Todos conhecem e distinguem seu modo de escrever 
baseado quase sempre no conflito das situações, no desencontro dos mundos. Sua imaginação 
tem sempre recursos para dividir as situações em planos e dar-lhes novas significações. Os fatos 
lhe servem para uma atividade visivelmente lúdica: o velho jogo de armar e desarmar. O que 
um menino faz com seus brinquedos, Fernando Sabino realiza com os valores do cotidiano.
Em 1965, ele escreveu a crônica que gostaria que fosse a sua última e a denominou “A Última 
Crônica”. O texto apresenta uma verdadeira compilação teórica dos elementos constitutivos 
do gênero crônica. Ele se utiliza, no primeiro parágrafo, da metalinguagem, ao mencionar 
que está adiando o momento da escrita. A seguir enumera algumas características da crônica, 
tais como: busca do pitoresco, do irrisório no cotidiano de cada um, captação de aspecto 
humano na vida diária; vislumbre do circunstancial, do episódico, do acidental; o escritor como 
espectador, captando a essência de um fato, com um olhar fora de si.
Na Última Crônica o autor está na Gávea e, percorrendo as ruas a caminho de casa, busca 
fatos irrisórios, pitorescos, enfim, o assunto para sua “Última Crônica”. Não sabia ainda o que 
buscava, sabia apenas que a inspiração faltava, quando, lançando o último olhar para fora de 
si, presencia fato merecedor para seu texto: a comemoração singela do aniversário de uma 
criança.
Os pais, um casal simples, que tem “a compostura da humildade, na contenção de gestos 
e palavras”, não se abala pela dificuldade financeira e sem perder a estima comemora de 
maneira simples o aniversário da filha. As velas tiradas do bolso e a fatia de bolo trazida pelo 
garçom transformam-se na trilha sonora de um tímido e discreto entoar de “Parabéns a você”. 
O que mais impressionou o autor foi a reação do homem ao sentir-se observado, pois assim 
quereria que fosse sua Última Crônica, pura como aquele sorriso.
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TEXTO II – Ser cronista – Clarice Lispector
Clarice Lispector, ao escrever em uma coluna no Jornal do Brasil, entre os anos de 1967 e 1973, 
fazia constantemente indagações sobre o que seria escrever crônica: “Crônica é um relato? É 
uma conversa? É um estado de espírito”?
Será que Clarice, como escritora e jornalista, não sabia mesmo nada sobre esse gênero textual? 
Em “Ser Cronista” (1968), como em outras crônicas, Clarice faz, na própria crônica, elucubrações 
sobre o que seria escrever esse gênero textual. No texto ela se questiona por várias vezes se está 
cumprindo bem o seu ofício. Poderíamos assim chamar esses textos de metacrônica, posto 
que a autora refletia e meditava sobre o ato de escrever crônica nas próprias crônicas. 
Então, através da exposição de fragmentos de alguns textos publicados por ela em uma coluna 
semanal do Jornal do Brasil e dos textos reunidos no livro “Descoberta do Mundo”, Clarice 
Lispector nos mostra que, apesar de não possuir um desejo de revelar sua intimidade para os 
leitores do jornal, ela não conseguiu deixar de fazê-lo.
A partir desta ambiguidade, comprendeu-se que Clarice Lispector escreveu em suas crônicas 
aquilo que se pode considerar como autobiografia, deixando clara a sua intenção de se revelar, 
mas, ao mesmo tempo, não permitindo que assim o compreendessem. E para amenizar seu 
medo, ela se consola com Fernando Pessoa: “Falar é o modo mais simples de nos tornarmos 
desconhecidos”.
3. ROTEIRO PARA O TRABALHO NAS OFICINAS
1- Leitura do texto “A Última Crônica”, de Fernando Sabino – silenciosa ou 
em voz alta pelo tutor.
2- Breve discussão da crônica com o grupo – antes de iniciar as atividades 
de leitura, o tutor pode motivar uma conversa sobre a crônica lida: os 
alunos gostaram do texto?; o que têm a dizer sobre ele?; como avaliam a 
linguagem utilizada?; conhecem outros cronistas? etc.
3- Resolução das atividades de leitura propostas, individualmente ou em 
duplas e sob a orientação do tutor.
4- Correção/comentários das atividades de leitura - é importante que, nesta 
etapa do trabalho, o tutor retome os objetivos da oficina, relacionados 
ao gênero crônica: o que é, as características, linguagem, estratégias de 
redação.
5- Leitura do texto “Ser Cronista”, de Clarice Lispector, resolução e correção 
das atividades de leitura.
6- Comparação entre textos – tendo em vista o objetivo de conhecer o 
gênero textual crônica, o tutor deve conduzir a atividade de modo que os 
alunos observem os recursos utilizados pelos seus escritores para redigir 
uma crônica.
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4. TEXTOS E ATIVIDADES DE LEITURA
Os dois textos que você vai ler são de escritores brasileiros que se destacaram como cronistas. 
São ambos modernistas e se tornaram especialistas na redação de crônica de jornal. São 
escritores que colaboraram para elevação da crônica a gênero literário, ao lado de outros 
nomes como Paulo Mendes Campos, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade. São 
eles: Fernando Sabino e Clarice Lispector.
TEXTO I
A Última Crônica
 Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. 
Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de 
estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no 
cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo 
humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao 
episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras 
de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção 
do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso 
do poeta se repete na lembrança: “Assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e 
estou sem assunto. Lanço então um último olhar para fora de mim, onde vivem os assuntos 
que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas 
de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de 
gestos e palavras, torna-se mais evidente pela presença de uma negrinha de seus três anos, 
laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal 
ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três 
seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da 
sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do 
bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço 
de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se 
aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se 
afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade 
de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do 
balcão apanha a porção de bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-
escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que 
o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e 
filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto 
e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha 
aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
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São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia de 
bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um 
gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as 
chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, 
a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você...” Depois a mãe 
recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas 
mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a 
fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai no colo. O pai corre os olhos pelo 
botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo 
de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, 
ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
ATIVIDADES DE LEITURA
Agora que você leu a crônica de Fernando Sabino, procure responder as questões abaixo:
1. Leia com atenção a informação abaixo:
A crônica não é um gênero maior, já escreveu Antônio Cândido. Graças a 
Deus, completa o crítico, porque sendo assim ela fica perto de nós (...) Na sua 
despretensão, ela humaniza, e esta humanização lhe permite, como compensação 
sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e 
um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada 
embora discreta candidata à perfeição. 
Responda:
1.1. Relacione o conteúdo da frase: “... na sua despretensão, a crônica humaniza”, 
com o assunto da “Última Crônica”, de FernandoSabino.
O cronista valoriza o sentimento, a pureza do ser humano, enfatizados na 
simplicidade da cena do aniversário da menina no botequim, em detrimento da 
sofisticação material das coisas. No final, o que há de bom no ser humano surge, 
representado pela pureza do sorriso do pai.
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1.2. Discuta a forma empregada pelo cronista para redigir a “Última Crônica”.
Para estruturar a crônica, Fernando Sabino, no primeiro parágrafo, se coloca como 
cronista falando sobre o que ele está sentindo diante da necessidade de escrever, 
ou seja ele dirige-se a si mesmo, na sua introspecção. Nos parágrafos seguintes ele 
sai de si mesmo e busca uma cena externa que poderá inspirá-lo.
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2. Leia com atenção as informações contidas no quadro abaixo:
ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DA CRÔNICA
Temas ligados ao cotidiano
Linguagem despojada e coloquial
Conteúdo subjetivo e pessoal
Extensão limitada
Identifique essas características no texto de Fernando Sabino, exemplificando-as.
•	 Crônica de extensão limitada – por ser escrita de forma resumida, 
usando não muitas palavras, mas aquelas que são significativas e 
expressam a simplicidade que o cronista quer. 
•	 O autor aborda conteúdo subjetivo e pessoal, à medida que explica 
as sensações que lhe provocam uma cena de aniversário atípica (no 
4º parágrafo: “Ninguém mais os observa além de mim”.)
•	 O cronista observa, em um bar, uma família de negros – um casal e 
sua filhinha – a comemorar o aniversário da menina. Assim, é uma 
cena do cotidiano que lhe dá inspiração.
•	 A linguagem pode ser caracterizada como formal, mas relaxada, 
pois o vocabulário é simples, as informações são claras e o cronista 
expressa também com muita clareza as suas impressões sobre 
aquela cena.
3. Leia atentamente as palavras grifadas:
“...uma negrinha de seus três anos...” “... toda arrumadinha no vestido pobre, 
mal ousa balançar as perninhas”. “... a menininha repousa o queixo no mármore” 
“A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a 
comê-lo”.
Qual é o recurso linguístico empregado pelo autor no fragmento acima? Com 
que intenção ele o utiliza?
Em todo o texto são usadas palavras com o sufixo –inho, indicador de grau 
diminutivo, quase todos para caracterizar a menina. Neste caso, indicam a intenção 
do autor de expressar a afetividade, característica da pureza dos sentimentos da 
menininha e daquelas pessoas ao se colocarem na cena e no mundo, como seres 
humanos.
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4. O autor afirma: “Ninguém mais os observa além de mim” (4º parágrafo). Explicite 
a razão (motivo) que levaria o cronista a fazer este comentário.
O autor afirma não haver ninguém, além dele, a observar o trio. Esse comentário 
é uma indicação do olhar diferenciado do cronista, sujeito capaz de observar 
detidamente uma cena cotidiana e retirar dela algo geral, profundo e belo.
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5. Leia: “Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome...” (2º 
parágrafo). Explique o significado do algo mais a que se refere o cronista.
Os pais consideram aquele momento extremamente importante, a despeito da 
simplicidade da cerimônia. Assim, não é a abundância material que se destaca no 
trio, mas a grandeza de seus sentimentos: a mãe acaricia a filha e o pai observa 
o ambiente que os circunda, orgulhoso por poder proporcionar este momento 
de felicidade à menina. Tudo culmina com o sorriso do pai diante da celebração: 
“...ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba 
sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso”.
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6. O autor presencia fato merecedor para sua última crônica e comenta: “lanço então 
um último olhar para fora de mim onde vivem os assuntos que merecem uma crônica”. 
(1º parágrafo). Resuma, em poucas palavras, o fato que originou a crônica.
O cronista observa, em um bar, uma família de negros – um casal e sua filhinha – 
a comemorar o aniversário da menina. A estranheza começa pelo local incomum. 
Um botequim não é o ambiente tradicional para este tipo de festa, que comumente 
acontece nas casas das pessoas ou em locais alugados com essa finalidade. Há sempre 
muita comida, bebida, brincadeiras, presente e algazarra. No caso deste texto, pelo 
contrário, os três estão sozinhos – apenas o núcleo da família -, meio deslocados e 
constrangidos. Devido a seus parcos recursos, podem apenas comprar um pequeno 
pedaço de bolo e um refrigerante, as velas foram trazidas na bolsa da mãe. O cronista 
observa a cena e tenta retirar dela algo diferenciado, profundo e humano.
7 – Leia com atenção a informação abaixo:
O texto metalinguístico é o que trata da própria linguagem. Quando 
consultamos um dicionário ou uma gramática temos o uso da linguagem para 
explicar o significado das palavras ou fornecer conceitos linguísticos. 
Podemos considerar “A Última Crônica” um texto metalinguístico? Justifique 
sua resposta empregando passagens da crônica.
Já no início do texto, o cronista fala que está adiando o momento de escrever e a 
perspectiva o assusta. Em todo o primeiro parágrafo ele continua argumentando 
sobre o ato de escrever uma crônica, quais são os assuntos de uma crônica e 
como ele gostaria que fosse a sua última. Ou seja, ele está escrevendo sobre o que 
representa o ato de escrever, está fazendo metalinguagem.
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QUESTÕES OBJETIVAS
Resolva agora as questões objetivas abaixo:
1. “Lanço então um último olhar para fora de mim, onde vivem os assuntos que 
merecem uma crônica” (1º parágrafo). 
A afirmação acima indica que o autor:
a) busca inspiração no seu cotidiano. (X)
b) escreve somente sobre fatos incomuns.
c) escreve apenas sobre grandes temas.
d) pretende detalhar as cenas que observa. 
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2. “A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse 
a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se 
afasta pra atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da 
naturalidade de sua presença”.
Os pronomes em negrito referem-se respectivamente a:
a) garçom – homem – mãe – mulher
b) mãe – garçom – homem – mulher (X)
c) mulher – homem – garçom – mãe
d) mãe – homem – garçom – mulher
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3. Releia:
“Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito, mais um ano nesta busca do 
pitoresco ou do irrisório, no cotidiano de cada um...”
A alternativa em que há, respectivamente, o sinônimo das palavras em negrito:
a) original – irrelevante (X)
b) divertido – especial
c) diferente – grandioso
d) dinâmico – exuberante
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Agora você vai ler a crônica de Clarice Lispector
TEXTO II
Ser cronista
Sei que não sou, mas tenho meditado ligeiramente no assunto. Na verdade, eu deveria 
conversar a respeito com Rubem Braga, que foi o inventor da crônica. Mas quero ver se consigo 
tatear sozinha no assunto e ver se chego a entender. 
Crônica é um relato? É uma conversa? É o resumo de um estado de espírito? Não sei, 
pois antes de começar a escrever para o Jornal do Brasil, eu só tinha escrito romances e contos. 
Quando combinei com o jornal escrever aqui aos sábados, logo em seguida morri de medo. 
Um amigo que tem voz forte, convincente e carinhosa, praticamente intimou-me a não ter 
medo. Disse: escreva qualquer coisa que lhe passe pela cabeça, mesmo tolice, porque coisas 
sérias você já escreveu, e todos os seus leitores hão de entender que sua crônica semanal é um 
modo honesto de ganhar dinheiro. No entanto, por uma questão de honestidade para com 
o jornal, que é bom, eu não quis

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