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1 
 
 
SUMÁRIO 
1. CULTURA E SOCIEDADE ...................................................................... 2 
2. O QUE É CULTURA? .............................................................................. 5 
3. AS DIVERSIDADES CULTURAIS ......................................................... 12 
4. A CONTINUIDADE E A MUDANÇA CULTURAL: HÁBITOS E 
COSTUMES .............................................................................................................. 15 
5. FATORES QUE INFLUENCIAM AS MUDANÇAS CULTURAIS ........... 19 
6. SOCIALIZAÇÃO: UMA APRENDIZAGEM PERMANENTE ................... 24 
7. O PAPEL SOCIALIZADOR DA FAMÍLIA ............................................... 26 
8. PARCERIA ENTRE FAMILIA E ESCOLA ............................................. 27 
9. O PAPEL SOCIALIZADOR DA ESCOLA .............................................. 30 
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 33 
LEITURA COMPLEMENTAR ......................................................................... 46 
 
 
 
 
 
2 
 
1. CULTURA E SOCIEDADE 
 
Fonte: www.marceloquirino.com 
 
Todos nós adquirimos nossas características humanas em um contexto 
sociocultural. Essa condição básica da vida humana levou o filósofo espanhol Ortega 
e Gasset a dizer: “Eu sou eu e a minha circunstância”. Isso significa que cada um de 
nós constrói sua identidade a partir do seu ambiente. “Quem sou eu? ” É a pergunta 
que mais cedo ou mais tarde todos nós fazemos. De maneira mais ou menos 
consciente nos interrogamos sobre nossa identidade pessoal e percebemos quanto 
os valores e os comportamentos das pessoas que nos rodeiam e que conhecemos 
mais de perto influenciam nossas ações e ideias. Aprendemos muito do que nos torna 
seres humanos em um ambiente cultural, aquele em que nascemos e nos 
desenvolvemos. 
Poucas pessoas percebem como a vida, e mesmo a personalidade de cada um 
de nós, é influenciada pela sociedade da qual somos parte. Nascer no Brasil e crescer 
como membro da sociedade brasileira constitui uma experiência de vida muito 
diferente da de crescer e ser educado na França, no Japão ou na Índia, por exemplo. 
E isso tem consequências fundamentais e diversas para o resto de nossas vidas. 
O estudo das sociedades humanas é importante não só para melhor 
conhecermos a nós mesmos, mas, também, para melhor compreendermos as 
pessoas que vivem em outros contextos socioculturais. Nunca como hoje, tantos 
aspectos da vida humana mudam tão rapidamente e para tantas pessoas ao redor do 
 
 
3 
 
planeta. E isso tem ocorrido em todas as áreas: nas artes, nas ciências, na religião, 
na moralidade, na educação, na política, na família e na economia. Todas são 
afetadas. Nessas circunstâncias, não é surpresa que tenha aumentado de maneira 
significativa o interesse pelo estudo das sociedades humanas, embora constituam um 
fenômeno dos mais complexos e as ciências sociais integrem um campo de pesquisa 
jovem em que predomina o debate e a controvérsia. 
A sociedade é uma forma de organização que se desenvolveu aos poucos, em 
correntes animais distintas e, em inúmeras vezes, independentemente uma das 
outras. A forma societal é encontrada não apenas entre os humanos, mas, também, 
entre muitas espécies de mamíferos, pássaros, peixes e mesmo entre insetos, 
facilitando, através da adaptação, a sobrevivência e a multiplicação. 
Estudos comparativos de sociedades animais desenvolvidos pela Biologia 
Evolutiva mostram que a individualidade tende a ser suprimida em sociedades de 
insetos, por exemplo, em que os mecanismos genéticos são responsáveis por regular 
a vida social do grupo (pense nas sociedades de abelhas e de formigas). O sociólogo 
Gerhard Lenski, em seu livro As Sociedades Humanas (em inglês, Human 
Societies) desenvolve uma análise que muito nos ajuda a compreender a importância 
da dimensão cultural para a nossa vida individual e a sobrevivência da espécie 
humana. 
 
 
Fonte: www.buscape.com.br 
 
 
4 
 
Na perspectiva do processo de evolução das espécies animais, Lenski assinala 
que de forma contrastante com outras espécies, “a individualidade é marcante nas 
sociedades dos mamíferos o que, por sua vez, significa que a unidade social, tão 
importante para a sobrevivência das espécies, depende em grande parte de 
comportamentos a serem aprendidos”. Dessa forma, quanto mais a individualidade 
ganha realce em uma espécie, maior é a importância dos processos de aprendizagem 
para a realização e desenvolvimento de cada membro assim como da espécie como 
um todo. O fato de que todas as espécies de macacos e primatas vivem em grupos 
sociais sugeriu uma questão aos pesquisadores da área: por que isso ocorre? Os 
estudos sobre comportamento de primatas permitiram concluir que a razão principal 
reside no aumento de oportunidades de aprendizagem que a organização em 
sociedade oferece. Foi observado que “o grupo é o lugar de conhecimento e 
experiência que ultrapassa em muito o do membro como indivíduo”. É no grupo que 
as experiências se tornam mais vantajosas e com benefício mútuo, recíproco. 
Entretanto, todos nós percebemos o quanto os humanos são diferentes na sua 
capacidade de aprendizagem. 
Sobre isto Lenski escreveu: “se comparamos os humanos, do ponto de vista 
físico, com outros antropoides, as diferenças são menores do que as que separam 
esses antropoides dos outros animais. Do ponto de vista comportamental, entretanto, 
ocorre o oposto. (...) O ser humano ultrapassou um ponto crítico no processo de 
evolução com apenas pequena mudança genética, abrindo o caminho para um 
extraordinário avanço comportamental. Esse curioso desenvolvimento está ligado à 
imensa capacidade para aprender que os humanos possuem. Isto tornou possível um 
modo original e próprio de adaptação ao ambiente que os cientistas sociais chamam 
de cultural. Essa é uma característica crucial da vida humana.” 
 
 
 
5 
 
 
Fonte: sociedadeestranha.blogspot.com.br 
2. O QUE É CULTURA? 
Uma pergunta retorna sempre e tem se mostrado de difícil resposta: o que 
constitui, então, a natureza humana? Gradualmente, observa Lenski, começamos a 
perceber de forma um pouco mais clara isso que chamamos de “natureza humana”. 
Com as descobertas relativamente recentes do DNA, RNA, do código genético e de 
todas as pesquisas biológicas atuais, é possível entender um pouco melhor o que 
influencia nossa maneira de ser e de agir. Dessa forma, “muitos cientistas sociais 
consideram que o termo natureza humana não se refere ao que é mais específico do 
comportamento humano – como as pessoas se vestem, como casam, o que comem, 
como enterram seus mortos, como praticam suas crenças. Esses são costumes 
socialmente determinados e que variam intensamente. ” Consequentemente, o termo 
natureza humana tende a ser utilizado mais em relação a tendências básicas 
enraizadas em nossa herança genética comum e que, portanto, independem do que 
é específico de cada sociedade e dos comportamentos que as pessoas aprendem no 
ambiente social em que vivem. 
Nessa perspectiva, o termo “natureza humana” estaria referenciado às 
“necessidades biológicas básicas do ser humano, à sua motivação geneticamente 
programada para satisfazê-las, à sua dependência, geneticamente baseada, de 
sistemas socioculturais e, também, ao seu potencial, geneticamente estabelecido para 
a construção cultural”. 
 
 
6 
 
 
 
Fonte: sociologiacta.blogspot.com.br 
 
Para acentuar a diferença que distingue os humanos do resto do mundo animal, 
os antropólogos buscaram vincular o termo cultura ao conceito de “símbolos”. 
Podemos garantir tudo que é fundamental em uma definição de cultura se a 
consideramos como “os sistemas de símbolos da humanidade e todos os aspectos da 
vida humana que deles dependem”. De um modo geral esse é o aspecto que mais 
nos distingue de todos os outrosseres vivos. Mas o que são “símbolos” e “sistemas 
de símbolos”? 
Lenski esclarece que todos os mamíferos são capazes de comunicar com 
outros de sua espécie e o fazem através de “sinais”. Só os humanos, no entanto, usam 
“símbolos” tanto quanto “sinais”. Símbolos e sinais são veículos de transmissão de 
informação. Mas há uma fundamental diferença: o significado de um sinal é 
amplamente determinado de forma genética, é uma resposta geneticamente 
determinada por um estímulo específico. Um exemplo clássico de um sinal é o grito 
de dor emitido por um animal ferido. Outro membro do grupo responde instintivamente 
a esse som ou pode aprender através da observação e experiência a associá-lo com 
os humores e ações dos demais membros de seu grupo. E, com isso, ele pode ajustar 
o seu comportamento. Os sinais são extremamente úteis para ordenar as relações 
sociais entre os membros de um grupo. 
 
 
 
7 
 
 
Fonte:pt.slideshare.net 
 
Os animais aprendem a associar experiências e por meio de sinais comunicam 
aos outros de sua espécie, informações essenciais – como uma ameaça de perigo – 
através de movimentos do corpo, secreções glandulares ou outros métodos e suas 
combinações. Em geral, no entanto, os sinais são muito limitados em seu poder de 
comunicação. Os símbolos, em contraste, como não são condicionados 
geneticamente, são flexíveis e podem ser modificados facilmente. Pense na história 
de qualquer linguagem. Símbolos linguísticos foram modificados ao longo dos tempos 
enquanto seus significados permaneceram os mesmos e vice-versa. Isso ocorre 
porque os significados dos símbolos são atribuídos pelos grupos sociais de maneira 
arbitrária, adotados pelos seus membros e, portanto, não estão submetidos a regras 
previamente definidas e podem modificar-se com o tempo e as circunstâncias. 
A invenção da escrita, por exemplo, significou uma revolução na história da 
humanidade porque possibilitou aos seres humanos acumular informação muito além 
das suas capacidades biológicas. E isso só foi possível através de um sistema de 
símbolos – as letras do alfabeto. Pela combinação e recombinação das letras somos 
capazes, indefinidamente, de formar palavras e frases, transmitindo informações de 
todos os tipos às gerações que se sucedem. E fazemos isso ultrapassando em muito 
nossa capacidade de memória individual e independentemente do contato pessoal. 
Considere, também, a grande transformação cultural que ocorre nos nossos dias com 
o uso ampliado da Internet. 
 
 
8 
 
 
 
Fonte: mixbee.com.br 
 
São criações humanas que ampliam e atribuem novas formas e características 
ao mundo em que vivemos. Podemos dizer, portanto, que os símbolos são veículos 
culturalmente determinados para a transmissão de informações de qualquer natureza. 
O antropólogo Clifford Geertz, em seu livro A Interpretação das Culturas, ao analisar 
a relação entre o desenvolvimento da cultura e a evolução da mente humana 
considera que foi no período pré-histórico da Era Glacial que foram forjadas quase 
todas as características da existência do ser humano que são mais impressivamente 
humanas. Em uma mesma época da história evolutiva desenvolveram-se de forma 
combinada e interativa a totalidade do sistema nervoso do cérebro humano, a 
estrutura social baseada no tabu do incesto e a capacidade de criar e usar símbolos. 
“O fato de que essas características distintivas de humanidade”, escreveu Geertz, 
“emergiram juntas e em interação complexa uma com a outra (...) é de excepcional 
importância na interpretação da mentalidade humana, porque sugere que o sistema 
nervoso humano não apenas torna o homem capaz de adquirir cultura mas demanda 
positivamente que ele assim o faça para que possa funcionar.” 
 
 
 
9 
 
 
Fonte: www.livrariacultura.com.br 
 
Hoje, as pesquisas da neurociência têm comprovado a importância das 
atividades de natureza cultural que, associadas às atividades físicas, são a melhor 
maneira de avançar em idade de forma saudável e com lucidez. Nas sociedades 
tecnologicamente avançadas dos nossos dias, o volume de informação transmitido de 
geração para geração tornou-se tão grande que nenhum membro individual consegue 
dominá-lo. Assim, diz Lenski, “se os indivíduos são os portadores da cultura, a cultura 
em sua totalidade é a propriedade de uma sociedade. Nesse sentido podemos dizer 
que os sistemas de símbolos têm uma função do ponto de vista cultural, semelhante 
ao do sistema genético. Ambos são mecanismos que facilitam a adaptação de 
populações ao seu ambiente, através da aquisição, de acúmulo, da transmissão e uso 
de informações relevantes”. 
Através da criação de sistemas de símbolos os seres humanos foram capazes 
de modificar seus comportamentos de maneira significativa, tornando sua adaptação 
ao ambiente cada vez mais eficiente e isso sem qualquer transformação orgânica 
importante. O antropólogo Clifford Geertz, sob a influência do grande cientista social 
Max Weber, acredita que “o ser humano é um animal envolvido em teias de 
significados que ele próprio teceu”. Cultura, para Geertz, são essas redes e sua 
análise deve ser um estudo interpretativo de seus significados. Para analisar e 
 
 
10 
 
conhecer uma cultura é preciso interpretar os sinais e símbolos que são utilizados nos 
processos de comunicação de um grupo social, de um povo ou de uma nação. 
O conceito de cultura está entre os mais usados na Sociologia e refere-se às 
formas de vida dos membros de uma sociedade ou de grupos dentro da sociedade, 
incluindo todas as formas de arte, com suas linguagens próprias (a literatura, a 
música, as artes plásticas, etc.), as várias formas de expressão que se manifestam no 
modo de vestir das pessoas, em seus costumes, em seus padrões de comportamento, 
os seus rituais religiosos, as suas ideias, crenças e princípios orientadores da vida 
(como as teorias científicas, as doutrinas religiosas e as ideologias). 
 
Fonte: psicologiaescolarcritica.wordpress.com 
 
O mundo da cultura é constituído de uma trama complexa dos elementos que 
contribuem para a organização da vida cotidiana, como os estilos de vida familiar e as 
atividades de lazer que caracterizam nosso ambiente de convivência, e dos 
mecanismos sociais desenvolvidos para a resolução dos problemas da vida coletiva, 
como as formas de organização da vida escolar, da política ou da produção da vida 
material. A cultura é um vasto campo que abrange tanto as ideias abstratas que 
traduzem a vida da imaginação e do pensamento, com suas linguagens próprias, 
quanto os arranjos sociais e os instrumentos que permitem e favorecem a cooperação 
entre as pessoas nas formas das organizações sociais, possibilitando melhorar nossa 
habilidade em alcançar o que precisamos e desejamos para nós mesmos. Dessa 
forma a noção de cultura envolve tanto aspectos “intangíveis” - como valores, crenças, 
ideias, teorias e normas sociais- quanto aspectos “tangíveis” – como objetos, produtos 
do trabalho, das artes, da ciência e da tecnologia. Os valores e as normas sociais 
 
 
11 
 
definem o que é considerado fundamental e desejável para a orientação da vida das 
pessoas em suas interações sociais. Os valores informam nossas crenças morais 
dando sentido e direção às nossas vidas, enquanto as normas são regras 
comportamentais que definem o que é esperado das ações individuais no contexto da 
convivência social. 
 As normas dizem o que devemos fazer ou é proibido fazer em situações 
específicas. Em alguma medida as normas sociais, escritas ou não na forma de leis, 
refletem os valores predominantes de uma cultura em uma determinada sociedade. 
Todos esses elementos, tangíveis e intangíveis, são constitutivos da cultura e são 
compartilhados pelos membros da sociedade, formando um contexto comum para os 
seus integrantes e dando sentido às suas vidas, ações e atividades. 
 
 
Fonte: www.tandemmadrid.com/br12 
 
3. AS DIVERSIDADES CULTURAIS 
 
Fonte: www.abrhbrasil.org.br 
 
É fácil percebermos, quando entramos em contato com aspectos da vida de 
outras sociedades, como seus ambientes culturais e os comportamentos de seus 
membros são diferentes dos nossos e, às vezes, de forma acentuada. Quando temos 
a oportunidade de conhecer e comparar diversas culturas, por leituras e estudos ou 
em viagens, adquirimos consciência da importância da dimensão cultural para as 
nossas vidas e para a vida coletiva em geral. Isso também ajuda a esclarecermos o 
conceito sociológico de cultura. Sociedades de tempos históricos diversos ou em 
espaços geográficos diferentes, desenvolveram modos de vida, valores e crenças que 
em muitos aspectos e, às vezes, de maneira bastante radical, diferem e divergem dos 
nossos. 
Ao comparar e comentar diferentes culturas deve-se prestar atenção para 
eventuais manifestações de “etnocentrismo”, a tendência que desenvolvemos em 
julgar elementos de outras culturas com base nos padrões da nossa cultura, o que 
torna difícil simpatizar com as ideias ou aceitar os comportamentos das pessoas de 
uma cultura diferente. Os problemas envolvidos nas comparações e avaliações 
culturais levantam uma questão que tem se tornado fonte de grande debate, 
transformando-se em foco de tensão no mundo da política global, especialmente para 
os que lidam na esfera internacional dos direitos humanos. Trata-se do significado e 
abrangência do relativismo cultural no mundo contemporâneo. 
 
 
13 
 
A questão é a seguinte: é possível avaliarmos os valores e normas de outra 
cultura? Baseados em que critérios podemos julgar outra forma de vida cultural como 
melhor ou inferior à nossa? Essa é uma questão polêmica que provoca grandes 
debates nas ciências sociais. O sociólogo Anthony Giddens pergunta: no Afeganistão, 
“as políticas do Talibã para as mulheres são aceitáveis no início do século XXI?” O 
relativismo cultural – “ou seja, suspender suas próprias crenças culturais 
profundamente sustentadas e examinar uma situação de acordo com os padrões de 
outra cultura – pode ser repleto de incerteza e desafio”. (...) “Questões preocupantes 
são levantadas. O relativismo cultural significa que todos os costumes e 
comportamentos são igualmente legítimos? Haveria padrões universais aos quais 
todos os humanos deveriam aderir?” Giddens acrescenta, “não há soluções simples 
para esse dilema e para dúzias de outros casos nos quais normas e valores culturais 
não coincidem.” ...E ensina uma lição básica para todo o estudante de Sociologia: “O 
papel do sociólogo é evitar “respostas automáticas” e examinar questões complexas 
cuidadosamente a partir de tantos ângulos diferentes quanto possível.” 
 
 
Fonte: www.isehf.edu.py 
Essas inúmeras questões são um alerta e devem intensificar nossa disposição 
para conhecer os diversos sistemas socioculturais para melhor compreender os 
mecanismos que facilitam assim como os que dificultam a convivência humana, 
necessariamente, de cunho social. De um lado a cooperação, a convivência mais 
equilibrada e harmoniosa, de outro, os antagonismos, os conflitos e as guerras. 
 
 
14 
 
Os processos da globalização econômica, da revolução na informática, da 
mídia, da superação das barreiras geográficas vem transformando o mundo em uma 
grande “aldeia global”. Em que medida esses fenômenos estão produzindo uma 
cultura universal, válida para todos os povos? Em que sentido podemos afirmar isso? 
Quais os possíveis danos para a vida das pessoas e para os diferentes grupos sociais 
com raízes histórico-culturais distintas? Como fenômeno humano as culturas dos 
povos são dinâmicas e sofrem mudanças. Os indivíduos agem e reagem às 
influências do ambiente em que vivem e às transformações de seu tempo. Os grupos 
sociais se mobilizam e movimentam-se no sentido de alterar as suas condições de 
vida. Continuidade e mudança são dimensões inerentes à vida das sociedades e das 
culturas. As mudanças podem ocorrer de forma mais lenta, como nos tempos mais 
antigos, como podem tornar-se rápidas e permanentes como tem ocorrido desde os 
tempos modernos. 
 
 
Fonte: cliquetando.xpg.uol.com.br 
 
É importante observar que “as culturas ultrapassam seus criadores”, como diz 
Lenski. Cada um de nós nasce em uma sociedade com uma cultura estabelecida e é 
somente através do domínio dessa cultura que somos capazes de satisfazer nossas 
necessidades e aspirações. Mas, no processo de dominar a cultura, a cultura tende a 
nos controlar e fazer de nós suas criaturas. Em um sentido, ela define mesmo nossos 
objetivos na vida e dá forma aos padrões de nossos pensamentos. Por isso 
encontramos dificuldade em desaprender o que aprendemos no passado. E isso é 
 
 
15 
 
especialmente marcante nas pessoas mais velhas. Por outro lado é sempre possível 
uma adaptação consciente e deliberada a um novo ambiente ou a uma mudança 
cultural. Isso implica que processos de mudança cultural ocorrem e podem até ser 
controlados e mesmo planejados. Esse tema, o da mudança cultural, é especialmente 
importante na medida em que envolve o debate em torno das questões que dizem 
respeito às transformações da sociedade. 
Em geral, novos elementos culturais são acrescentados em uma base de 
continuidade. Em certos momentos ocorre o abandono de componentes culturais que 
são substituídos por outros novos. Se nós pensarmos nos vários instrumentos de 
comunicação utilizados através dos séculos nós teremos uma boa amostra das 
significativas mudanças culturais e das consequências dessas mudanças para a vida 
das pessoas. Mas muitas mudanças envolvem, ao mesmo tempo, continuidade, como 
é o caso do alfabeto que usamos há mais de três mil séculos, assim como o conceito 
de justiça que perdura desde tempos ainda mais antigos. 
 
 
Fonte: gdeufal.blogspot.com.br 
4. A CONTINUIDADE E A MUDANÇA CULTURAL: HÁBITOS E COSTUMES 
Os aspectos relacionados à continuidade cultural manifestam-se em dois níveis 
na sociedade. No nível do comportamento individual, através dos hábitos e no nível 
do comportamento grupal, através dos costumes. Entretanto, em grande parte, os 
costumes dependem dos hábitos. Os hábitos são padrões contínuos de ação na vida 
dos indivíduos como respostas condicionadas para questões recorrentes em nossas 
 
 
16 
 
vidas. A maior parte de nossos hábitos aprendemos dos outros – como no treinamento 
da criança - e resultam de esforços deliberados para construir padrões de 
comportamento almejados. Os hábitos podem se resultantes de imitação consciente 
ou inconsciente. 
 
Como aprendemos a nos adaptarmos ao nosso ambiente social 
Pesquisas em Psicologia, desenvolvidas nos últimos anos, conseguiram 
mostrar como o ambiente em que vivemos pode dirigir comportamentos que 
praticamos de forma não-consciente através de um processo de dois estágios: (1) 
percebemos algo no ambiente de maneira espontânea, não-intencional, e então (2), 
automaticamente, desenvolvemos tendências comportamentais através do vínculo 
que se estabelece entre percepção e comportamento. O que essas pesquisas indicam 
é que há uma sequência automática entre o que se percebe no ambiente e o 
comportamento que se segue a essa percepção. E isso ocorre sem que uma escolha 
consciente desempenhe qualquer papel na produção de tal comportamento. 
 Alguns psicólogos pesquisadores afirmaram que esse mecanismo está por trás 
dos efeitos da mídia sobre o comportamento e sobre os efeitos modeladores, de uma 
maneira mais geral (como atitudes, expressões de vários tipos e estilos que viram 
“moda”). 
O vínculo entre percepção e comportamento tem importantes consequências 
para as interações sociais. Esse mecanismo automático gera o que chamamos de 
estereótipos, comportamentos que se reproduzem de maneira fixa, inalterável. Sob 
um aspecto mais negativo, na vida real da convivência social, os estereótipos são 
acionados por elementosaparentes como a cor da pele das pessoas, as 
características de gênero (feminino, masculino), e outros aspectos facilmente 
observáveis em membros do grupo, em outras palavras, pela presença real da pessoa 
sendo estereotipada. Os estereótipos, em seu lado negativo, são traduzidos em 
rótulos que costumamos aplicar às pessoas e que muito dificultam a convivência e os 
relacionamentos sociais. 
 
 
 
17 
 
 
Fonte: www.oficinadanet.com.br 
 
As análises e as conclusões dessas pesquisas apontam para o papel crucial 
das categorias mentais. Essas categorias, instrumentos de nossa mente para 
classificar e entender a realidade, desempenham um papel essencial para simplificar 
e compreender o ambiente rico de informação auxiliando-nos na tarefa de selecionar 
os dados relevantes para lidarmos com o mundo que nos cerca. Entretanto, os 
estereótipos são formas mal adaptadas de categorias porque seus conteúdos não 
correspondem ao que está realmente presente ou acontecendo no ambiente. Assim 
uma pessoa não pode ser categorizada pela cor da sua pele ou pelos seus gestos, 
uma vez que esses aspectos nada ou muito pouco dizem sobre o seu caráter ou a 
sua personalidade. Em conclusão podemos dizer que, embora os efeitos dos 
estereótipos automáticos sobre o comportamento podem causar problemas na 
interação social, o efeito mais natural da percepção sobre o comportamento seria mais 
positivo quando a atividade perceptual está baseada sobre o que de fato está 
acontecendo naquele momento. 
O claro vínculo entre nossa percepção e nosso comportamento existe, 
provavelmente, por uma boa razão, uma razão adaptativa, pois nos torna prontamente 
aptos a agir diante de situações recorrentes da vida cotidiana. Tais ações são 
apropriadas na ausência de orientações conscientes. 
As pesquisas também mostram que, ao mesmo tempo em que agimos sob o 
efeito da percepção sem a necessidade de uma escolha consciente, somos, também, 
participantes ativos no mundo e nossas ações são realizadas, com frequência, 
 
 
18 
 
orientadas por propósitos e objetivos que desejamos atingir. Muitas, talvez a maioria, 
de nossas respostas ao ambiente são julgamentos, decisões e comportamentos 
determinados não somente pela informação disponível em nosso ambientem mas, 
especialmente, pela consideração como tais informações se relacionam com o 
objetivo que estamos perseguindo naquela situação específica. 
As contribuições das pesquisas em Psicologia e na Neurociência tem ajudado 
os cientistas sociais à melhor compreender os mecanismos que contribuem para o 
desenvolvimento de certas características culturais dos grupos e de algumas 
importantes questões relacionadas com a interação e o funcionamento da vida social. 
Os costumes, hábitos compartilhados por um grupo social e por um povo, 
costumam durar ao longo do tempo. Mas não apenas hábitos compartilhados fazem 
os costumes. Outros padrões de ação duráveis e que funcionam de forma consciente 
para os membros de uma comunidade ou sociedade, também fazem parte dos 
costumes. Por exemplo: a resolução de problemas básicos que afetam o transito nas 
ruas e nas estradas (como o lado em que devemos transitar com os veículos), criou 
alguns costumes resultantes da necessidade de organização e segurança no tráfico e 
acabaram virando lei, tornando obrigatório para todos os motoristas agir da mesma 
maneira. Trata-se de normas que definem o comportamento correto em situações 
específicas no ambiente coletivo. 
Para Lenski, as práticas costumeiras dos grupos sociais permitem satisfazer 
necessidades básicas de uma maneira econômica – economia de tempo e de energia. 
Escreve ele: “Essa talvez seja a principal razão de nos apegarmos às práticas 
tradicionais de agir. Mudamos nossa maneira de agir, em geral, quando não temos 
nada a perder ou quando alguma coisa que valorizamos não está envolvida. Isso 
explicaria, talvez, a dificuldade de mudança de costumes para as gerações mais 
velhas.” 
A continuidade cultural também está relacionada à incapacidade das crianças 
de cuidarem de si próprias. Durante vários anos a criança é incapaz de satisfazer por 
si mesma as suas necessidades básicas. Para chegar à vida adulta ela precisa ser 
incorporada à cultura da sociedade em que nasceu para dominar os recursos 
necessários para dar conta dos problemas da existência humana. Até que a criança 
domine, por exemplo, os símbolos linguísticos de sua sociedade, aprenda as palavras 
com seus significados e possa se comunicar na linguagem comum, ela é amplamente 
 
 
19 
 
dependente dos outros. Ao dominar a linguagem ela adquiriu um recurso 
extraordinário para a sua sobrevivência. E isso é válido para todos os elementos 
básicos da cultura de seu grupo social. 
É bastante evidente que a continuidade sócio-cultural possibilita um grande 
benefício sem o que a vida humana seria impossível. O desenvolvimento de hábitos 
aumenta enormemente a eficiência das pessoas, na medida em que evita que 
precisemos repetidamente buscar soluções para os problemas mais simples e 
corriqueiros. Da mesma forma, as crianças não sobreviveriam se não encontrassem 
soluções prontas e ao seu alcance para os problemas da vida. Mais ainda, os homens 
não podem viver sozinhos, eles dependem da sociedade. Nenhum sistema social 
pode funcionar se as ações de seus membros não forem previsíveis. E a continuidade 
sócio- cultural é um requisito de previsibilidade dos padrões de comportamento no 
ambiente da vida coletiva. 
 
 
Fonte:comunicabrogui.blogspot.com.br 
5. FATORES QUE INFLUENCIAM AS MUDANÇAS CULTURAIS 
Por outro lado, a continuidade cultural tem seus custos. No campo da 
tecnologia, por exemplo, a inovação leva, em geral, a uma maior eficiência no uso da 
energia e do tempo humano, a uma melhoria no padrão de vida e amplia as 
possibilidades em diversas áreas. Da mesma forma podem ser grandes os benefícios 
com as mudanças no campo das organizações sociais. Nenhuma sociedade é perfeita 
ou adquiriu uma forma acabada e definitiva para a vida em comum. Especialmente no 
 
 
20 
 
mundo moderno e contemporâneo, após a Revolução Industrial e o desenvolvimento 
da ciência moderna, a mudança sócio-cultural tornou-se permanente e intensa. Nos 
dias de hoje, as sociedades que incluem um mais amplo componente de mudança, 
tendem a favorecer uma melhor qualidade de vida para uma parcela cada vez maior 
da sua população. 
 
 
Fonte: www.ovelhasvoadoras.com.br 
 
São vários os fatores que contribuem para a mudança e inovação em uma 
sociedade: fatores internos à própria sociedade ou fatores externos do ambiente que 
a cerca. Em nossos dias, tornou-se muito clara a extrema importância da relação entre 
a sociedade e o seu ambiente. O meio ambiente não é somente uma fonte crucial para 
o sustento da sociedade com suas características climáticas e geográficas em geral, 
suas riquezas naturais, suas fontes de energia, sua flora e fauna, tudo isso 
funcionando como um conjunto de condições em relação ao qual a sociedade deve 
se adaptar. Nesse processo, a sociedade pode interagir com o seu ambiente em 
diferentes formas e direções: seja contribuindo para melhorar ou para piorar e 
prejudicar suas condições de vida. As mudanças no ambiente acabam por forçar 
mudanças na sociedade. As sociedades, ao longo da história, tiveram necessidade 
de ajustar-se às mudanças no ambiente. Esse é um processo de adaptação 
inquestionável. 
O ambiente a que uma sociedade deve adaptar-se inclui, também, outras 
sociedades com as quais ela mantém contato. Uma mudança maior em uma costuma 
desencadear um processo em cadeia gerando consequências para as outras e 
 
 
21 
 
obrigando a ajustamentos e inovações. Mas há outras fontes de mudanças. A 
dinâmica das forças no interior das sociedades, que fazem parte da própria condição 
do ser humano, impede que a sociedade permaneça estável permanentemente. Em 
primeirolugar, na transmissão da herança cultural de uma geração para outra ocorrem 
alterações de vários tipos. 
Como vimos anteriormente, os indivíduos não são passivos na formação dos 
hábitos, na aprendizagem dos costumes e na recepção das informações ao longo de 
seu crescimento e desenvolvimento. Os seres humanos aparentemente, por sua 
própria natureza, são motivados a tentar novos padrões de ação. Muitas vezes, a 
motivação é a simples curiosidade que pode ser intensificada pelo mundo cultural. Ou, 
então, a motivação pode ser o simples auto- interesse material. Os homens buscam 
maximizar suas recompensas, isto é, ganhar mais e melhor como resultado de suas 
ações. Dessa forma, a experimentação e as inovações são inevitáveis. 
 
 
Fonte: rsurgente.wordpress.com 
 
O acaso ou as “chances” desempenham uma parte importante no processo da 
inovação e das descobertas, mas o conhecimento, a inteligência e a ação com 
propósito, que movem a disposição maior para a pesquisa, são essenciais. As novas 
descobertas e as inovações resultam da combinação de “chance”, conhecimento e 
persistência em uma ação com propósito. 
A quantidade de informação acumulada por um grupo social é, talvez, o fator 
mais importante para a capacidade de inovação e mudança positiva para a vida de 
seus membros. As invenções que constituem um dos processos básicos de inovação 
 
 
22 
 
são essencialmente recombinações de elementos existentes da cultura. Outro fator 
dos mais importantes no mundo atual é o contato com outras sociedades. Quanto 
maior for o relacionamento com outros povos e culturas maiores são as oportunidades 
para incorporar suas descobertas e inovações. É sempre possível incorporar a 
herança cultural de outras sociedades. 
É importante assinalar que esses fatores mencionados, que estimulam e 
promovem as mudanças e a inovação nas sociedades, são mutuamente 
interdependentes. Há outro aspecto na relação entre diferentes sociedades e culturas 
que devemos considerar. É um engano pensar que a paz entre nações seja um estado 
normal e que a hostilidade, o conflito e a guerra são condições anormais. Gostaríamos 
que fosse verdade, mas os registros históricos e a realidade de nosso tempo indicam 
que é diferente. 
São várias as razões para explicar porque as guerras e outros confrontos são 
tão comuns. A causa básica parece ser a mesma que motiva a competição no mundo 
biológico de maneira geral, isto é, a escassez de recursos. Tanto Malthus quanto 
Darwin reconheceram que uma oferta finita de recursos, independentemente de seu 
tamanho, nunca seria suficiente para uma população com uma infinita capacidade 
para o crescimento. 
 
 
Fonte: httprevistaepoca.globo.com 
 
A não ser que uma população, animal ou humana, controle seu crescimento, 
em algum momento ela esgotaria seus recursos. Isso ajuda a explicar as ações de 
invasão de territórios e apropriação de recursos de outros grupos sociais, ou povos 
 
 
23 
 
ou nações. Na medida em que esses recursos são essenciais, a sociedade atingida 
reage. O conflito, assim, torna-se inevitável. 
No caso dos humanos o problema tornou-se especialmente complicado pela 
existência da cultura. O problema da escassez torna-se mais agudo nas sociedades 
humanas porque a cultura multiplica enormemente nossos desejos e necessidades. 
Os desejos dos animais são limitados enquanto os dos seres humanos quanto mais 
os realizam mais, de um modo geral, desejam. O cientista social americano Thorstein 
Veblen viu isso com clareza. Em um livro publicado no final do século IXX ele 
desenvolveu a tese de que uma vez que uma sociedade é capaz de produzir mais do 
que o necessário para viver, seus membros lutam para adquirir bens e serviços não 
essenciais por causa de seu valor de prestigio. Um pouco antes, na metade do mesmo 
século, Karl Marx havia diagnosticado esse mesmo problema ao descrever as sempre 
novas necessidades criadas artificialmente pelo processo de desenvolvimento da 
sociedade moderna. Considerando que o prestígio é sempre, para as diferentes 
pessoas das diversas classes sociais, uma questão relativa (é uma medida da posição 
social de alguém em relação aos demais), é impossível satisfazer a demanda por bens 
e serviços gerada pela permanente busca de sempre mais prestígio. A escassez seria, 
portanto, inevitável não importando o quanto de tecnologia se desenvolva e em quanto 
se aumente a produção. 
Guerras podem destruir culturas e civilizações. E, com isso, acabam gerando 
grandes transformações sociais e culturais. Formas não militares de poder também 
acarretam destruição de culturas através de um processo de incorporação de 
sociedades culturalmente mais vulneráveis porque tecnologicamente menos 
desenvolvidas. É o caso de muitas sociedades, tribos e etnias antigas, que acabam 
abandonando sua cultura tradicional, minando sua autonomia como grupo social. Isso 
acontece especialmente com a cultura de sociedades menores e economicamente 
menos desenvolvidas quando entram em contato com sociedades maiores e 
economicamente mais fortes. Considerem como exemplo o que ocorreu, e continua 
ocorrendo, com as culturas indígenas e as de etnias africanas, tanto no Brasil como 
em outros países. 
 
 
24 
 
6. SOCIALIZAÇÃO: UMA APRENDIZAGEM PERMANENTE 
 
Fonte: colegiodotremembe.com.br 
 
O processo através do qual aprendemos a cultura da sociedade em que 
vivemos é o que chamamos de socialização. De um modo geral, os seres humanos 
são dotados de uma grande capacidade para aprender a agir de maneira socialmente 
responsável. A socialização é um processo sócio- psicológico bastante complexo que 
se inicia no momento do nascimento. O objetivo principal de tal processo é adaptar o 
indivíduo aos costumes, comportamentos e modos da cultura do seu ambiente social 
para que possa aprender a sobreviver por si mesmo e ser capaz de, gradativamente, 
controlar seu comportamento de acordo com as exigências da vida em sociedade. 
Ao aprender o significado que a Sociologia atribui ao processo de socialização 
e as maneiras como este processo se desenvolve, podemos ampliar nossa visão e 
conhecimento sobre os mecanismos que operam nas sociedades e que dizem 
respeito à vida cultural. Isso possibilita uma melhor compreensão do modo e estilos 
de vida da sociedade em que nascemos e no qual nossas identidades, pessoal e de 
grupo, se desenvolvem. 
Através do processo de socialização nos tornamos, gradualmente, pessoas 
autoconscientes e capazes de lidar de forma competente com o mundo a nossa volta. 
O estudo dos processos de socialização pode contribuir para uma melhor 
compreensão de fatores que influenciam na construção das identidades pessoais 
(auto- identidade) e das identidades dos grupos sociais a que pertencemos como a 
 
 
25 
 
família, o gênero, o grupo religioso, o grupo de convivência social, o profissional e 
outros. 
O processo de socialização é o principal mecanismo que uma sociedade possui 
para a transmissão da cultura através do tempo e das gerações. A socialização, além 
de estar diretamente relacionada com as identidades sociais, deve ser vista como um 
processo que dura a vida toda na medida em que as nossas ideias e o nosso 
comportamento são continuamente influenciados pelos relacionamentos sociais e 
pelo ambiente em que vivemos. É através da socialização que aprendemos e 
incorporamos os hábitos, os costumes, valores e normas da vida cultural de nossa 
sociedade. Desde o nascimento, através da infância e da adolescência e mesmo na 
vida adulta, estamos continuamente a aprender comportamentos e formas de interagir 
em diversos e novos ambientes a que somos expostos em nossa trajetória de vida. 
Nossa identidade se modifica ao atingirmos diferentes estágios de desenvolvimento e 
ao assumirmos papéis sociais diversos que se alternam e multiplicam ao longo da 
vida. 
 
 
Fonte: www.maezissima.com.br 
 
 
26 
 
7. O PAPELSOCIALIZADOR DA FAMÍLIA 
 
Fonte: http:todahelohim.com 
 
É importante reconhecer como desde o nascimento somos socializados na 
cultura de nossa família e como a infância é um período de intensa aprendizagem 
cultural. Aprendemos a falar com aqueles que cuidam de nós na primeira infância. 
Nesse primeiro período da vida é quando as crianças aprendem a língua e os padrões 
básicos de comportamento que formam a base para toda a socialização posterior. É 
de destaque a importância da família nessa fase primária da socialização. 
Os relatos dos estudos de casos de crianças que vivenciaram o isolamento 
social evidenciam o quanto essas crianças foram incapazes de adquirir as habilidades 
humanas básicas e tenderam a se parecer mais com os animais. É o caso de um 
menino encontrado em um bosque no sul da França, em 1800. “Ele estava sujo, nu, 
era incapaz de falar e não aprendera a usar o sanitário. (...) Nenhum pai ou mãe jamais 
o procurou. Tornou-se conhecido como o menino selvagem de Aveyron. Um exame 
médico completo não encontrou quaisquer anormalidades físicas ou mentais 
importantes. Por que, então, o menino parecia mais animal que humano?” (caso citado 
no livro, de vários autores, Sociologia – sua Bússola para um Novo Mundo, p. 106). 
São vários os casos semelhantes relatados na literatura de ciências sociais. O filme 
alemão O enigma de Kaspar Hause apresenta outro caso de isolamento social na 
infância e que acarretou sérios danos para o desenvolvimento pessoal de um ser 
humano, aparentemente, com capacidades normais. 
 
 
27 
 
Devemos, aqui, mencionar Freud como um dos principais estudiosos da 
formação da identidade pessoal (o self) que, há mais de cem anos, reconheceu na 
família o agente mais importante da socialização primária. Em nossos dias, questões 
importantes têm sido levantadas em relação à transformação das famílias nas últimas 
décadas e ao crescimento das taxas de divórcio. Tais transformações podem estar 
afetando o cuidado com as crianças e, portanto, a forma de sua socialização, sem 
ainda termos clareza sobre as suas consequências. 
 
8. PARCERIA ENTRE FAMILIA E ESCOLA 
 
Fonte: www.rccarqumariana.com.br 
 
A parceria família e escola deu certo e sempre dará, desde que haja realmente 
a parceria. A família é a base principal na formação e desenvolvimento da criança e 
do adolescente. A partir do nascimento, começam a receber a educação básica para 
viver em sociedade e exercer a sua cidadania, como: pedir licença, pedir desculpas, 
agradecer, obedecer, pedir por favor, dividir, compartilhar, respeitar-se, respeitar os 
pais, os colegas os mais velhos, aprende a se comportar adequadamente nos lugares, 
a esperar a sua vez. 
A escola por sua vez, dará continuidade a esse processo educativo vindo da 
família (a chamada educação de berço) e introduzirá a formação acadêmica 
 
 
28 
 
indispensável para a formação intelectual e profissional, além de caminhar lado a lado 
com a família, favorecendo e fortalecendo a formação de valores. 
O que vem acontecendo ultimamente é que as famílias muitas vezes, estão 
perdendo a noção da sua importância e estão deixando toda a responsabilidade de 
educar para a escola, sendo que a verdadeira educação se dá no seio da família, 
principalmente através dos exemplos vivenciados pelos pais e familiares próximos, 
exemplos estes responsáveis pela conduta das crianças, como por exemplo: De nada 
adiantaria falar para o filho não fumar, não falar palavrões, não falar da vida dos outros 
se eles próprios o fazem. 
Ao efetuar um pagamento e receber o troco errado para mais a seu favor e não 
devolver, burlar as leis de trânsito avançando sinais, enfim, serão esses exemplos que 
ficarão como verdades na cabecinha de nossos filhos, serão os que eles reproduzirão. 
A educação familiar é à base de todo cidadão, a escola sozinha não faz 
milagres, até porque ele permanece na escola apenas por quatro horas e as outras 
vinte horas do dia, são com a família. 
O que vemos hoje, por conta da correria atual, é que os pais estão delegando 
a outros essa tarefa tão importante que é EDUCAR, sendo esta tarefa de 
responsabilidade exclusiva dos pais e não de babás, tias, avós, sendo estas pessoas 
muito importantes, como apoio desse processo educativo quando seguem a mesma 
linha de educação. 
Os pais precisam entender que o filho será amanhã o que eles ‘pais’, fizerem 
hoje por seus filhos. Muitas vezes a escola é responsabilizada mas, não depende 
apenas dela a tarefa de educar. Para haver realmente parceria entre a família e a 
escola, é preciso que cada um saiba exatamente quais as suas atribuições, ou seja o 
que é responsabilidade da escola e o que é responsabilidade da família. 
Nesta parceria é importantíssimo que a família “vista a camisa” da escola 
escolhida para colocar seu filho e a partir daí caminhar juntos sem ter atitudes 
adversárias, como por exemplo: Quando o filho comenta em casa que o professor 
chamou sua atenção por causa de comportamento inadequado, a mãe 
precipitadamente diz que o professor que é enjoado, chato, não tem o que fazer.... 
com essa atitude estará motivando o filho a desrespeitar o professor, sendo que o 
ideal é se interar melhor sobre o acontecimento e fazer a intervenção correta, da 
mesma forma quando o filho não realiza uma atividade de casa por que esqueceu, ou 
 
 
29 
 
preferiu ficar na Internet, orkut, ou saiu com o colega, e ao ser cobrado pelo professor, 
a mãe ou o pai escreve um bilhete a pedido do filho, dando uma desculpa convincente 
como: ele (a) não estava passando bem, ou precisou sair com ele de última hora, 
enfim, abonando erradamente a falta, ou melhor, a irresponsabilidade do filho 
perdendo assim, a oportunidade de ensinar a responsabilidade, o compromisso, à 
verdade, valores fundamentais para a formação do seu caráter. 
Nessa parceria, ambos tem o mesmo objetivo que é EDUCAR a criança e o 
adolescente num todo. Muitas vezes na escola, ouvimos os pais preocupados e 
reclamando: “Eu não sei mais realizar essas tarefas, não me lembro mais desses 
conteúdos que estudei há tantos anos, como vou fazer para ensinar meu filho em 
casa? Como é que eu vou acompanhá-lo nos estudos?”. 
 
 
Fonte: familiaescolapedagogia.blogspot.com.br 
 
A escola não quer que a família ensine conteúdos, pois isso é pertinente à 
escola fazê-lo, o que ela precisa é que os pais acompanhem seus filhos no sentido de 
organizá-los quanto aos horários de estudo, descanso e lazer, sendo o hábito de 
estudo diário, fundamental para que ele possa realizar suas tarefas com 
responsabilidade e autonomia. Cabe a família, apenas cobrá-lo as responsabilidades 
e orientá-lo, no caso de dúvidas tirá-las com o professor na escola e também orientá-
lo quanto à importância da escola e dos estudos para sua vida no futuro. 
Outro aspecto muito importante é a vigilância dos materiais levados para a 
escola e trazidos para casa. Atualmente é grande o número de “sumiços” na escola, 
 
 
30 
 
porque não há controle dos pais no sentido de verificar e investigar o que seus filhos 
carregam em suas mochilas, levando a escola a utilizar o recurso de câmeras para 
fiscalizar os alunos, sendo esta uma instituição de ensino. 
É muito importante também, que a família valorize os trabalhos e os 
compromissos de seus filhos, sendo estes pertinentes a sua faixa etária e o seu nível 
de escolaridade, pois são nesses momentos que eles estarão desenvolvendo seus 
conceitos de responsabilidade, assiduidade, respeito, pontualidade. Se for banalizado 
seu compromisso, o que ficará registrado para ele é que não precisa ter importância 
e atenção com os mesmos. Como é que esse aluno se transformará num cidadão 
consciente e responsável com suas atribuições pessoais e profissionais? 
É preciso que a família ajude seu filho a se programar, tendo como prioridade 
sua responsabilidade com seus estudos, pois essa é a sua ocupaçãoatual enquanto 
criança e adolescente que é ser “estudante”, e precisa ser valorizada e motivada para 
que seja uma atividade prazerosa e com motivos de orgulho para seus pais e 
familiares. 
 
 
Fonte: felipevieira.com.br 
9. O PAPEL SOCIALIZADOR DA ESCOLA 
Outro agente fundamental na socialização é o sistema escolar. O papel 
socializador da educação escolar está relacionado com a formação intelectual e 
cultural das novas gerações no sentido de prepará-las para a vida social, seu 
desenvolvimento pessoal mais amplo e para o mundo do trabalho. 
 
 
31 
 
A educação escolar tem sido analisada criticamente por alguns estudiosos que 
identificam no sistema escolar uma organização devotada principalmente a reproduzir 
o sistema de valores e padrões de vida estabelecidos. Entretanto, podemos observar 
como são frequentes as situações de tensão e conflito no ambiente escolar, do nível 
fundamental até o nível superior, quando questionamentos e atividades críticas são 
desenvolvidas, tanto por estudantes como por professores, visando a superação das 
limitações identificadas no processo de socialização. A aprendizagem de hábitos, 
costumes e valores culturais é um processo de natureza complexa, como já foi 
mencionado anteriormente, na medida em que as influências culturais que recebemos 
e a que estamos submetidos em nosso ambiente são confrontadas com reações e 
orientações de caráter propriamente individual ou grupal e que podem ser mais ou 
menos conscientes. 
Não podemos desconsiderar que é através do processo de socialização que as 
sociedades se tornam um sistema viável, isto é, capaz de existir de forma previsível e 
de durar no tempo, e que as características de vida que são distintamente humanas 
só aparecem como resultado de nossa vida em comum, em associação com outros 
seres humanos. Podemos então dizer, como afirma o sociólogo Gerhard Lenski, que 
“o potencial genético que cada indivíduo possui só é realizado quando compartilhamos 
com os outros indivíduos na vida da sociedade”. 
 
 
Fonte: iderval.blogspot.com.br 
 
Ao sistema escolar é atribuída, pela sociedade, a tarefa de ensinar as novas 
gerações a aprender com os meios disponíveis o que as culturas acumularam de 
 
 
32 
 
fundamental através dos tempos – nas artes, nas ciências, desenvolvendo habilidades 
e proporcionando atividades que contribuam para a formação nos modos do bem viver 
com os outros. Esses são conteúdos, valores e costumes culturais que expressam as 
formas civilizadas da vida. 
Ao comentar agressões violentas e assassinatos descabidos ocorridos em 
principais cidades de nosso país, o sociólogo José de Souza Martins, em artigo 
publicado em jornal, escreveu que tais fatos “confirmam a deterioração dos valores 
sociais que, de algum modo, têm assegurado a ordem nesta nossa sociedade minada. 
Ordem superficial constantemente ameaçada, não só em relação à vida, mas também 
em relação a tudo que possa ser violado quando não há princípios sólidos regulando 
a conduta de cada um.” Esses assassinatos praticados por pessoas aparentemente 
“normais”, “dão bem as indicações de quanto todos nós estamos ameaçados”. E 
indica que talvez não se trate de casos que possam ser resolvidos com mais 
segurança, dizendo - “o que se precisa é de mais educação”. (publicado no jornal O 
Estado de São Paulo; 15/08/2010). 
Pesquisas em Psicologia e na Neurociência têm mostrado que a criança recém 
nascida carrega necessidades imperiosas e a determinação de satisfazê-las sem 
muita preocupação com as outras pessoas. Mas mostram, também, a existência da 
dependência de base genética de um sistema sociocultural, isto é, os seres humanos 
possuem um potencial genético para a construção de ambientes culturais o que os 
faz, ao mesmo tempo, seres individuais auto- interessados e seres sociais 
preocupados e identificados com os outros. Essa talvez seja a principal razão 
porque a vida das sociedades humanas seja feita de cooperação, solidariedade 
e harmonia, por um lado, e de conflitos, violência e guerras, por outro. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: www.rogeriocorreia.com.br 
 
 
33 
 
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VALLS, A. L. O que é ética. 9. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. 
LEITURA COMPLEMENTAR 
 
 
REFLEXÕES SOBRE A CULTURA E SUAS 
POSSÍVEIS INFLUÊNCIAS NA SOCIEDADE 
 
Fernanda Mosseline Josende Coan 
 
 
35 
 
 Mestre em Ciências Sociais (UNISINOS) 
Professora do Departamento de Ciências Contábeis, UNEMAT/Sinop 
 
RESUMO 
Este artigo é um intento de evidenciar a importância da cultura no cotidiano da 
vida das pessoas. Para argumentar sobre o tema, utilizar-se-á especialmente o 
pensamento de Daniel Bell (1992),em sua obra Las contradicciones culturales del 
capitalismo, por considerar a esfera cultural ligada às questões existenciais. Contudo, 
outros autores que legitimam formas de pensar diferentes e, não raro, contrastantes 
serão evidenciados, sendo que as divergências e os conflitos entre os teóricos serão 
úteis para engrandecer as discussões e possibilitar uma maior compreensão da 
realidade. No decorrer do processo investigativo, por meio da análise de alguns fatos 
ocorridos, foi possível verificar como a cultura influenciou e influencia a vida das 
pessoas, como proposto inicialmente. 
 Palavras-chave: Cultura. Sociedade. Cotidiano. 
 
 
INTRODUÇÃO 
A sociedade contemporânea tem buscado investigar sobre os modos de vida 
dos indivíduos na atualidade, sobre o grande “leque” de interesses e escolhas que 
estão à sua disposição. Ainda, sobre a imposição de regras de conduta que sofrem, 
que encorajam os indivíduos a se unirem em grupos, divididos entre os que querem 
expressar suas ideias, pelo desejo de se afirmar ou romper com algo já consagrado e 
aqueles que preferem não se manifestar. 
No entanto, não se tem, com a mesma intensidade, pesquisas sobre o que 
poderia ter levado a sociedade a se comportar dessa maneira. Dado o exposto, este 
artigo pretende trazer uma reflexão sobre a cultura e suas possíveis influências na 
sociedade. 
Primeiramente, serão apresentadas explanações sobre a sociedade, como 
meio onde as relações sociais acontecem. Ela será também estudada como 
influenciável pela cultura, a sociedade plural e a descrição dos sistemas que a 
compõem: o sistema econômico, político e o cultural (BELL, 1992). Em seguida, será 
pensada a cultura, sua significação e o que representa ela ser parte da sociedade. 
 
 
36 
 
Por fim, a transformação cultural da sociedade, quando serão trazidos à tona os fatos 
que ocasionaram mudanças radicais nos hábitos das pessoas e, por consequência, 
mudanças de sua própria cultura. 
 
SOCIEDADE 
SOCIEDADE “CAMPO DE INTER-RELAÇÕES” 
A sociedade é estudada por vários autores, porém sob aspectos diferentes. 
Durkheim (1914) por exemplo, a interpreta como um sistema formado. Para ele, viver 
em sociedade seria estar constantemente dominado por sua lógica. Entretanto 
Simmel (1896), um grande estudioso da vida social nas cidades, a vê como local onde 
vários indivíduos entram em ação recíproca. Portanto, para esse autor, a sociedade é 
o resultado da interação psíquica entre os indivíduos. 
É assim que vemos a sociedade ser estudada, sempre em meio à tensão que 
já se apresenta antiga dentro das ciências sociais. Contudo, Bell (1992) ao expor sua 
opinião, aproxima-se bem mais da de Simmel do que de Durhheim, pois eles procuram 
ver a sociedade não somente como algo formado, mas sim a estudam com ênfase 
nas escolhas dos indivíduos, os quais moldam as instituições. 
Assim, consideramos a sociedade um campo de múltiplas relações. Nela, o 
sujeito busca transformar-se em indivíduo e este em quantas mais coletividades 
estiver inserido mais individual ele será, o que permite afirmar que o indivíduo se torna 
cada vez mais único culturalmente, na medida em que ele se individualiza. 
 
 
 
 
SOCIEDADE PLURAL 
Na visão marxista, a sociedade era identificada por classes bem distintas: a 
classe dominante e a dominada. Os indivíduos eram reconhecidos por sua base de 
trabalho, ou seja, esse reconhecimento dependia do papel que cada um exercia no 
processo de produção. Com a dissolução da estrutura tradicional de classes sociais, 
os indivíduos passaram a ser identificados por seus gostos culturais e estilo de vida. 
O teórico Bell (1992) demonstrou essa mudança cultural. 
 
 
37 
 
Nos dias correntes, conforme a Agência Brasil, apresentam-se no Brasil as 
chamadas classes socioeconômicas. Enquadram-se nelas as classes baixa, média e 
alta, as quais são facilmente questionadas, pois, entre outras falhas, excluem os 
desempregados e, não obstante, sofrem distorções devido à grande desigualdade 
social, característica marcante da sociedade brasileira. 
Nos Estados Unidos, há, na atualidade, uma estrutura social composta por pelo 
menos cinco classes socioeconômicas, porém se pode verificar dezenas delas, as 
quais são selecionadas não só pela renda domiciliar, mas também pelos níveis de 
educação e ocupação. Todavia, as classes mais seguidamente destacadas são as 
classes baixa, trabalhadora, média, média-alta e alta. 
Nota-se, assim, a convergência entre Brasil e Estados Unidos, quando ambos 
possuem classes socioeconômicas. Apesar dessa convergência, nos dois países, 
essa forma de divisão de classes não marca a divisão dos indivíduos, afinal, há 
múltiplas formas de divisão para os grupos sociais. Pois, até mesmo as regras de 
conduta impostas pela sociedade, estariam estimulando a união de pessoas em 
grupos, seja pelo fato de querer fortalecê-las ou ir para o confronto a elas. Dessas 
diversas relações sociais possíveis, enumeram-se, como exemplos, as diferentes 
formas de movimentos sociais; os mobilizadores sociais, como os góticos, os 
pichadores, entre outros grupos, cujas identidades são próprias e passam a ser 
notados por suas diferenças, entre outros. 
Estabelece-se, desse modo, uma sociedade plural, a qual consiste numa 
divisão por grupos, conforme regras próprias por eles estabelecidas e estas 
independem, muitas vezes, da classe socioeconômica que o indivíduo ocupa. 
 
 
 
SETORES DA SOCIEDADE 
Bell (1992), ao analisar a sociedade norte-americana, apresenta-a composta 
por três setores ou esferas: a econômica, a política e a cultural. Salienta ele que hoje 
estas esferas não caminham em paralelo, ou seja, possuem andamentos diferentes, 
com regras também diferentes, mas que legitimam suas condutas. Por se 
apresentarem distintas, tem seus próprios métodos e propósitos e, por serem assim 
favorece a existência de uma sociedade estável, pois se uma das esferas se 
 
 
38 
 
apresenta faltosa, ainda assim a sociedade estará amparada pelas duas outras, mas, 
no caso de as três esferas apresentarem falhas, ter-se-á grande instabilidade na vida 
em sociedade. 
Para melhor apresentar essas esferas (BELL, 1992), cada uma delas será 
esmiuçada, de modo a destacar as suas principais características, as quais permitirão 
diferenciá-las. 
Na esfera econômica, ou técno-econômica, Bell (1992), refere-se à 
organização da produção e à repartição dos bens e serviços. Nesta esfera, o foco está 
direcionado ao grau de desenvolvimento técnico e econômico, e não ao 
desenvolvimento ético do ser humano. Dessa forma, sua estrutura de poder está 
fincada na tecnologia e na burocracia e sua estrutura social não é uma estrutura de 
pessoas, e sim de papéis, por isso a autoridade não depende do indivíduo, mas do 
cargo que ele ocupa. 
Seria necessário pensar que o capital humano faz parte deste crescimento 
econômico esperado pela esfera econômica, ou seja, neste processo em que se 
acumula capital, os indivíduos são essenciais, principalmente por sua moral e seu 
intelecto. 
Para Bell (1992), essa esfera está isolada e é linear, pois os princípios de 
utilidade e de eficácia fornecem as regras precisas e esclarecedoras no que se refere 
à inovação e à substituição. Contudo, nem sempre foi assim. Essa esfera no passado 
era unida à cultural, o que proporcionava certo equilíbrio, pois era possível se ver, 
como no caso do ascetismo protestante, a regulação da produção e da moral do 
quotidiano unidas. 
Hoje, porém, percebe-se que o sistema econômico abandona a sua moral e se 
agarra à ideia de livre mercado. Além disso, os empresários pós-modernos possuem 
como ideal a riqueza, consequência do fato de o capitalismo ter perdido sua 
legitimidade tradicional, a qual era fundada sobre um sistema moral de remuneração 
na santificação protestante do trabalho, substituído por um hedonismo que permite obemestar material e o luxo, mas que quer ignorar todas as consequências históricas 
(BELL, 1992). 
Na esfera política, tem-se o poder político e a justiça social, cujo intento é 
buscar a legitimidade dos governantes e a igualdade dos indivíduos perante a lei. A 
sociedade é representada pelos políticos que devem zelar por ela, e em contrapartida 
 
 
39 
 
os sujeitos que a compõem são atuantes na política, principalmente após a politização 
radical e a grande pluralização do sujeito e dos discursos. Conclui-se que a política 
tem como estrutura fundamental a representação e a participação, a primeira pelos 
políticos e a última se refere aos indivíduos que compõem a sociedade. 
Também referente a essa esfera, Laclau e Mouffe (1987) afirmam que a política 
está fora das instituições pelo fato de estarem dentro do sujeito, nas sociedades, nas 
relações de subordinação. Nesse sentido, as instituições somente administram a 
política através da sua capacidade de atender as demandas oriundas das 
manifestações feitas pelos sujeitos. Ou seja, o Estado é somente um administrador 
da demanda e o governo terá sucesso se tiver a capacidade de identificar e absorver 
esta demanda, normalmente trazida pelos movimentos sociais. 
A política hoje está tão diferente que Aronowitz (1992) discute sobre seu fim, 
mas não como extinção de suas práticas políticas, e sim da política formal. O autor 
faz algo similar ao que Touraine (data) faz ao afirmar o fim do social, ambos somente 
querem afirmar mudanças radicais ocorridas. 
Na esfera cultural, tem-se a dominação do simbólico. Bell (1992) aponta que 
esta esfera está ligada as questões existenciais dos seres humanos. Nela o indivíduo 
aparece independente e procurando afirmar sua identidade, ou seja, buscando a 
afirmação do “eu”. O princípio de mudança não consegue ser linear, pois as respostas 
podem sofrer mudanças por ser influenciadas pelas demais esferas da sociedade, ou 
por estarem em épocas diferentes. 
Nesta procura do “eu” é que o sujeito se perde, pois ele fica desprovido de 
qualquer convenção e livre da igreja, ele não tem temor e, além disso, procura se 
libertar das máscaras que a sociedade lhe impõe, determina. 
 
CULTURA 
 A CULTURA E SEUS ATRIBUTOS 
 A cultura tem como forte característica a liberdade, o que faz com que ela 
possa conviver com todos os estilos. Junto a esta diversidade de estilos, é possível 
identificar a persistente busca do indivíduo independente pela afirmação do “eu”, ou 
seja, pela busca da afirmação de sua identidade. Indo ao encontro novamente do 
pensamento de Bell (1992), que afirma estar a esfera cultural ligada à busca pela 
independência. 
 
 
40 
 
Porém, nem sempre foi assim, este comportamento considerado hedonista 
surgiu na década de 1950, anteriormente havia o ascetismo, visto como ideal para 
muitos autores, por encontrarem nele uma grande atuação da moral e da ética. A 
cultura asceta ainda era fortemente influenciada pela ética protestante que regulava o 
capitalismo de forma constante e firme. 
 
 TRANSFORMAÇÃO CULTURAL DA SOCIEDADE 
O sujeito sofre mudança cultural e, em consequência, sua realidade é mudada 
e, por fazer parte, de uma sociedade, ela também sofre alterações culturais. Para Bell 
(1992), esta transformação cultural da sociedade se deve, sobretudo, ao consumo de 
massa, cujo início se deu ainda na década de 1920, momento em que o consumo 
passou a não mais ser relacionado a classes, pois o acesso a ele se tornou mais livre 
e permissivo, o que deu início a uma cultura comum. 
Esta grande mudança cultural presentifica-se no novo modo de enxergar as 
coisas, pois aquilo que era anteriormente um luxo de uma dada classe social mais 
alta, hoje é visto como essencial, no que seriam todas as classes juntas. 
Contudo, esse processo de mudança foi regido pela revolução da tecnologia e 
pelas revoluções sociológicas. A revolução tecnológica foi marcada pela criação do 
carro, do cinema e do rádio, já a sociológica levada pela invenção da propaganda que 
estimula de forma sutil as “novas” necessidades, e do crédito. 
Todas estas novidades, sejam tecnológicas ou sociológicas, estimulam a 
mudança de hábitos e o que se viu foi a sociedade constantemente aceitar e se 
adaptar às transformações. Pois, conforme Heller (1998), no pós-modernismo surgiu 
a diversidade de gostos e a pluralização das necessidades. Além disso, Heller (1998) 
afirma que mesmo com esta diversidade, cada gosto encontra o que o satisfaça, ou 
seja, existem multiplicidade de opções à disposição do indivíduo, resta saber se o 
indivíduo está culturalmente estruturado para discernir o bem do mal, o bom do ruim, 
o verdadeiro do falso e assim por diante. 
Anteriormente a estas modificações, ao invés da prática do crédito, tinha-se a 
prática da poupança, considerada o núcleo da ética protestante. Teoria esta que foi 
corrompida pela ideia de que a melhor forma de poupar era por meio de investimentos, 
pois estes dariam maior retorno. Além disso, ainda nos anos de 1960, os bancos 
começaram a liberar crédito mais facilmente e os mais pobres, de certa forma, 
 
 
41 
 
conquistaram maior poder aquisitivo, o que lhes deu passaporte ao consumo livre e 
desenfreado, considerado “consumo de massa”. 
Na época da criação do cinematográfico, predominavam os filmes e era através 
deles que, especialmente, os jovens se espelhavam para agir em sociedade. Contudo, 
havia, em paralelo, a censura, o que, de certa forma, inibia transformações drásticas, 
mas não suficientes para impedir quaisquer mudanças. Com o passar do tempo, 
surgiram mais canais de televisão, e aconteceu o “abaixo a censura”, o que deixou o 
campo livre e desenfreado para as mudanças. Um exemplo são os programas de 
televisão, até há pouco tempo, no Brasil, víamos uma “massa” sendo influenciada e, 
por que não dizer, educada por apenas uma emissora de televisão, conhecida como 
Rede Globo. Contudo, hoje vemos uma maior diversidade de emissoras, que 
trouxeram com elas novas ideias, novos assuntos e novos ideais, fazendo surgir, 
assim, maior diversidade de pensamentos, exaurindo daí, maiores necessidades, 
maior movimento de informações. Como resultado, tem-se ainda mais opções de 
escolhas de modos e maneiras de se viver e de se comportar. 
Também as propagandas veiculadas pelas rádios, televisão, e mais 
recentemente pela internet, a partir do momento que viraram prática, despertou a 
sociedade para novas necessidades, os atores da sociedade passaram a interagir 
com informações, tornando-se mais flexíveis e se inseriram na globalização, o que 
ampliou o rol de escolhas. 
Contudo, diante de tantas mudanças, alguns indivíduos encontraram algumas 
resistências para garantir seus direitos à igualdade, o que ocasionou o surgimento de 
diversas lutas sociais, as quais, segundo Axel (2003, p.) seriam: 
 Aquela luta em que seus objetivos se deixam generalizar para além do 
horizonte das intenções individuais, chegando a um ponto em que eles podem se 
tornar a base de um movimento coletivo. (...) trata-se do processo prático no qual 
experiências individuais de desrespeito são interpretadas como experiências cruciais 
típicas de um grupo inteiro, de forma que elas podem influir, como motivos diretores 
da ação, na exigência coletiva por relações ampliadas de reconhecimento. 
 Ou seja, as lutas sociais estão fortemente relacionadas com a busca de 
reconhecimento, quando se utiliza de uma experiência de injustiça individual para 
buscar benefícios para uma coletividade. Esta busca se dá especialmente através dos 
movimentos sociais e a instituição que com maior frequência exerce esta injustiça 
 
 
42 
 
contra os indivíduos é o Estado que, para Foucault (2003) é uma estrutura detentora 
de poder, que coage o sujeito. Contudo, apesar de se saber que o poder está na 
relação social, só se toma consciência desta relação depoder quando há resistência, 
ou seja, quando há luta. E é diante desta luta que o sujeito se forma. Afirma Touraine 
(2006, p.): 
O sujeito se forma na vontade de escapar às forças, às regras, aos poderes 
que nos impedem de sermos nós mesmos, que procuram reduzir-nos ao estado de 
componente de seu sistema e de seu controle sobre a atividade, as intenções e as 
interações de todos. Estas lutas contra o que nos rouba o sentido de nossa existência 
são sempre lutas desiguais contra o poder, contra uma ordem. Não há sujeito senão 
rebelde, dividido entre raiva e esperança. 
O que há de mais moderno são as redes de relacionamento, chamadas, mais 
recentemente, de redes sociais. Assim, o indivíduo entra nestas redes em busca de 
afirmar sua opinião, ou para o fortalecimento de uma luta ou, ainda, simplesmente, 
em busca de uma companhia, de uma palavra que console. De qualquer forma, ao se 
relacionar com outro grupo, esse indivíduo assimilará novos conhecimentos, o que 
pode fazer com que sua cultura também seja alterada. 
Enfim, o indivíduo possui diferentes formas de liberdade: de expressão, de ação 
e de escolha. Aqui, no entanto, encontra-se um grande dilema: as pessoas já não 
sabem o que fazer ou até mesmo como agir diante de tanta liberdade, por esta razão 
acabam se perdendo na caminhada, seja através da busca às drogas, seja pela busca 
da religião, por exemplo. O que se pode afirmar é que ambas as atitudes expressam 
para este indivíduo um pedido de socorro diante de tantas dúvidas e conflitos 
interiores. 
Conforme o caminho escolhido pelo indivíduo, ele poderá encontrar-se em uma 
vida digna, ele poderá achar a tranquilidade que almeja, ou, ainda, poderá estar frente 
a uma situação que o levará ao abismo. Enfatiza-se que tal escolha dependerá de sua 
cultura, pois, de acordo com o nível cultural, será o nível de acesso a esses caminhos. 
É mais provável que um indivíduo criado em uma família religiosa, em precisando de 
apoio, ele tenderá a buscar na religião a ajuda necessária. Um sujeito com histórico 
familiar de violência poderá tender a ser também violento. 
Diante destas intermináveis mudanças trazidas para e pela sociedade, o sujeito 
se vê, muitas vezes, desnudo, sem ação, impotente, pois até mesmo a igreja, vista 
 
 
43 
 
como instituição detentora do poder de minimizar as aflições e os problemas 
humanos, hoje se mostra mais omissa. A sociedade evoluiu e nesse cenário a igreja 
ainda, apesar das mudanças, tem um papel importantíssimo. Todavia, se ela se 
apresentar de forma tradicional acabará por afastar muitos fiéis e se parecer 
paternalista deixará de ter a sua importância como formadora de indivíduos. Por isso, 
até mesmo a igreja deve considerar as mudanças culturais ocorridas. 
A necessidade de enfrentar a chamada multiculturação, ou inculturação, forma 
como as mudanças são tratadas pela igreja católica que tem, inclusive, buscado novas 
linguagens e modelagens mais compreensíveis para chamar de volta o sujeito à 
religião, tarefa importantíssima em um mundo onde os jovens vivem o cristianismo 
como forma de deísmo, pois há uma grande fragmentação do social e o 
permissivismo, gera o constante relaxo dos valores cristãos. Além disso, família e a 
escola hoje pedem socorro, como lidar com tamanha diversidade cultural? 
 
 CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Este estudo nasceu da necessidade de apresentar à sociedade atual a 
importância da cultura no cotidiano das pessoas e como ela influencia os sujeitos 
sociais e, ao mesmo tempo, é por eles influenciada. Atualmente, percebe-se uma vida 
sem limites, especialmente a vivida pela juventude, na qual o respeito à religião, por 
exemplo, decaiu muito e o “medo de nada” está em ascensão. 
Com a liberdade excessiva e o consumo desenfreado é frequente as pessoas 
perderem o referencial para agir. Apesar de a sociedade ter sua estrutura voltada aos 
indivíduos que a compõe, ela paga um preço muito alto por seus atos que ocorrem, 
muitas, vezes, de forma desmedida. 
A moral puritana de outrora quando os gastos pessoais eram limitados, foi 
substituída pelo impulso consumista desenfreado, isso porque o prazer é o estilo de 
vida desejado. Pode-se afirmar que os valores que sustentavam a sociedade, como 
os princípios morais e culturais, modificaram-se, o que fez com que ela passasse por 
fases bem específicas e marcadas por mudanças na cultura. 
O que já se vê é a perda da legitimidade da ética protestante do trabalho. Este 
passou a ser a fonte geradora de possibilidades para sanar a sede de riquezas 
materiais e de luxo. Não se tem mais a certeza de que através do trabalho existam 
normas e valores que inibam os atores na sociedade. Além disso, não há mais 
 
 
44 
 
vanguarda, porque ninguém está do lado da ordem ou da tradição. Na cultura 
contemporânea, somente há o desejo para o novo e o tédio ao antigo. 
Isso faz com que se assista a uma grande desordem, pois anteriormente, o 
indivíduo exercia papéis distintos na sociedade, além disso, está lhe dava o suporte 
necessário, como a religião, a família, a escola. Isto é, o papel dessas instituições era 
vital para manter a moral na sociedade. Ainda que existissem alterações culturais 
tamanhas, se houvesse mantido o respeito a essas instituições, possivelmente a 
sociedade não se apresentaria tão alienada. Com tudo a manutenção dessas 
instituições e dos bens culturais não são as principais preocupações atualmente, pois 
existem outras mais pontuais como a fome, por exemplo. 
Partindo desse princípio, esta análise buscou evidenciar que a cultura é de 
suma importância para o cotidiano dos indivíduos e influencia diretamente as 
mudanças sociais. Por isso, alguns acontecimentos que influenciaram essas 
mudanças regidas pela revolução da tecnologia e pelas revoluções sociológicas como 
a criação do carro, do cinema, do rádio, da televisão, e a invenção da propaganda e 
do crédito foram aqui mencionadas. 
 
 
 
 
45 
 
BIBLIOGRAFIA 
 
ARONOWITZ, Stanley. Pós-modernismo e política. In: Pós-modernismo e 
política. Rio de Janeiro: Rocco, 1992. 
BELL, Daniel. Las contradicciones culturales del capitalismo. Madri: 
Alianza, 1992. 
DURKHEIM, Émile. Pragmatismo e sociologia. Florianópolis, UFSC, 2004 
(orig. 1914). 
FOUCAULT, Michel. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: NAU, 
2003 
HELLER, Agnes. Existencialismo, alienação, pós-modernismo: movimentos 
culturais como veículos de mudança nos padrões do cotidiano. In: A condição 
Política pós-moderna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998. 
LACLAU, Ernesto, MOUFFE, Chantal. Hegemonia y radicalización de la 
democracia. In: Hegemonia y estratégia socialista. Hacia uma radicalizacíon de la 
democracia. Madri: Siglo XXI, 1987. 
SIMMEL, Georg. La ampliación de los grupos y la fomación de la individualidad. 
In: Sociologia: estúdios sobre las formas de socialización. Madrid, Alianza, 1986, 
(orig. 1896). 
 ________. Questões Fundamentais da sociedade: indivíduo e sociedade. 
São Paulo: Jorge Zahar, 2006. 
TOURAINE, Alain. O sujeito. In: Um novo paradigma para compreender o 
mundo de hoje. Petrópolis: Vozes, 2006. 
 
 
 
 
 
 
46 
 
 
LEITURA COMPLEMENTAR 
 
 
Transformações culturais na sociedade da informação 
 
Arruda, Byanka da SIlva1 
 
Resumo: As relações sociais do homem contemporâneo têm sofrido grandes 
transformações, sobretudo com o advento das novas tecnologias que assumem o 
papel principal na difusão da informação e na mudança de hábitos, comportamentos, 
valores e tradições culturais. Diante destes quadros, o artigo objetiva discutir 
criticamente as relações socioculturais do homem no ciberespaço e algumas de suas 
implicações. Apresenta etapas que perpassam por teorias fundamentais à 
compreensão do ciberespaço e as modificações culturais. Conclui-se que o processo 
comunicacional do futuro já chegou. Não é utópico,pois se apresenta frente aos olhos 
de todos. Explorar a vastidão de questões sobre as relações do homem com essas 
novas tecnologias é papel do conhecimento acadêmico. 
Palavras-chave: Cibercultura, Ciberespaço, Sociedade da informação, 
Convergência dos meios, Tecnologia. 
 
 
 
 
47 
 
Introdução 
 
O mundo mudou radicalmente com a inserção da tecnologia cibernética e das 
novas mídias no cotidiano das pessoas comuns, sobretudo no que concerne às 
questões culturais, sociais, econômicas e comportamentais. 
A informação, especialmente a imagética e visual, tornou-se soberana nos 
lares, nas ruas, nas empresas, etc. Em todo planeta a comunicação informacional é a 
mesma e mutável. Um excesso de bits que homogeneíza e massifica as diversidades 
culturais, transforma o mundo em uma aldeia global, na qual todos estão conectados 
e interligados o tempo inteiro, independentemente da distância. 
A cibercultura elimina espaços e aproxima pessoas na mesma proporção que 
as afasta. Assim, na sociedade da informação, as relações sociais tornaram-se 
fundamentalmente dúbias. A cibercultura proporciona realidades externas, como 
jogos e internet e oferta aos indivíduos o que os meios de comunicação de massa não 
conseguiram: participação efetiva no processo comunicacional, onde todos podem ser 
produtores de informação e emissores. Contudo, distancia os homens do contato 
humano real, alienando-os das próprias causas. 
Diante desta argumentação, o artigo busca salientar as questões socioculturais, 
especialmente, relacionadas às novas tecnologias e à cibercultura, mostrando 
vantagens e desvantagens do advento da tecnologia na vida do homem. 
Faz-se necessário, portanto, aprofundar os conhecimentos acerca das 
transformações culturais advindas da inserção e popularização das novas mídias, 
bem como suas implicações e mediações sociais, sobretudo para o estudante de 
comunicação social. É nesse sentido que o trabalho objetiva discutir as novas formas 
de relações pessoais que se dão através do ciberespaço, procurando salientar 
aspectos fundamentais que envolvem a dinâmica da cibercultura. 
É tarefa do estudante de comunicação social questionar as funções dos meios 
de comunicação e novas mídias e as formas como vêem modificando 
substancialmente comportamentos, hábitos e valores culturais através da informação. 
O artigo “As transformações culturais na sociedade da informação” foi 
construído através de embasamento teórico, visto que grande parte das discussões 
acerca das modificações sociais, culturais e comportamentais oriundas das novas 
 
 
48 
 
formas de conceber as relações pessoais na sociedade da informação são bastante 
recentes e raramente pragmáticas. 
Consultando artigos da internet, coletâneas e trabalhos expostos em congressos de 
comunicação social, o artigo adquiriu suporte e respaldo para discorrer sobre a 
temática proposta, apresentando argumentações, questionamentos e resultados. 
 
A convergência dos meios 
Fios, cabos, fibra, imagem, voz, som, dados, infovias – o ciberespaço não diz 
respeito somente ao computador ou a Internet. Agrega todos os meios informacionais 
e tecnológicos existentes, desde o rádio ao Ipod, dos games à geladeira, do televisor 
aos satélites, fundindose uns nos outros e sumindo, como o computador desaparece 
no celular, sem, contudo, estar mecanicamente ausente. A cibercultura, portanto, 
promove a convergência dos meios e das bases tecnológicas. 
A cibercultura não pode simplesmente ser considerada como resultado do 
impacto das redes telemáticas sobre a cultura. Mais precisamente, é a cultura 
contemporânea que se estabelece como uma cultura de redes, sendo a cibercultura 
fruto da sinergia entre sociabilidade contemporânea e as novas tecnologias de base 
micro-eletrônica. ( LEMOS, 2002, p. 111). 
Nesse sentido, reflexões de Takasahi ampliam compreensões sobre a dinâmica 
promovida pelas novas ferramentas tecnológicas na produção do ciberespaço 
comunicacional. 
Pela digitalização, a computação (a informática e sua aplicações) as 
comunicações (transmissão e recepção de dados, voz, imagens etc.) e os conteúdos 
( livros, filmes, pinturas, fotografias, música, etc.) aproximam-se vertiginosamente – o 
computador vira um aparelho de TV, a foto favorita sai do álbum para um disquete, e 
pelo telefone entra-se na internet. Um extenso leque de aplicações abrese com isso, 
função apenas da criatividade, curiosidade e capacidade de absorção do novo pelas 
pessoas. (TAKASAHI, 2002, p. 20). 
Fusões tecnológicas, convergências de aparelhos e meios, no entanto, 
possuem processo de operação desconhecida para a maioria dos usuários. Convive-
se com máquinas que anulam a habilidade do fotógrafo, tornando-o praticamente 
desnecessário. Celulares que comportam livros, música e vídeos. 
 
 
49 
 
Elevadores falantes. E espera-se desses mecanismos o melhor desempenho 
sem ter o mínimo conhecimento sobre o funcionamento dos meios e sem saber como 
operam. Confia-se cegamente nos ciborgues. 
A sociedade em rede passa a conceber o espaço cibernético como ferramenta 
central de comunicação, o que exige um repensar constante das relações sociais e 
dos sentimentos vividos entre as pessoas. 
 
Relações interpessoais no ciberespaço 
Vivencia-se hoje um processo de transformação extremamente veloz, virtual, 
fragmentado, informatizado e cibernético, resultado, sobretudo, da globalização e das 
novas tecnologias. A chamada sociedade do controle e da informação dita regras, 
modos, consumo, maneiras de se relacionar e interagir socialmente, modificando 
irreversivelmente a cultura global. 
A vida por procuração toma lugar da própria vida. As maiores festas, as mais 
poderosas emoções tornam-se virtuais. A comunicação direta entre os homens, o 
calor, a festa, o contato, o humor, o amor, a sedução, desaparece numa pseudo 
comunicação fria, eletrônica. (TOSCANI, 1996, p. 170). 
O ser humano passa a conceber as relações pessoais de forma distanciada e 
isolada. A comunicação, em suma, se dá através de computadores, celulares e 
tecnologias que permitem a aproximação e controle sobre tudo e todos. No entanto, 
as relações sociais nunca foram tão segregadas e fragmentadas. 
O homem contemporâneo percebe-se na dicotomia globalizante, que afasta e 
vigia, simultaneamente. “No ciberespaço podemos estar sós sem estarmos isolados”. 
(LEMOS, 2002 , p. 133). 
O ciberespaço condiciona a vida real e internaliza-a. Vive-se para estar na rede, 
para aparecer, para ser consumido como informação. “O ciberespaço faz com que 
qualquer um possa não só ser consumidor, mas também produtor de informação, 
emissor”. (LEMOS, 2002, p. 144). 
Qualquer movimento, acontecimento, ação, é passível de tramitar nas redes 
informacionais. Tudo é controlado. “É a fase do tudo em rede”. (LEMOS, 2002, p. 112). 
Os maiores exemplos da rígida vigilância cibernética são os sites de 
relacionamentos. Neles estão as vidas. Eles são as vidas. 
 
 
50 
 
Fotos, mensagens, seleção de amigos e endereço são opções das variadas 
ferramentas, como Orkut, MSN, Twitter e Face book. É vida na rede. E quanto mais 
redes sociais alguém estiver conectado, maiores são as chances de estar informado, 
atualizado. Como uma extensão das novas tecnologias. 
Assim, o particular e privado também se confundem no ciberespaço. Vida 
profissional, pessoal, social. Tudo está na rede o tempo todo e para o mundo inteiro. 
Exposições, finais de semanas, passeios banais são fotografados e 
imediatamente postos em redes. De acordo com André Lemos: 
Todos querem os quinze minutos de fama prometida. A vida comum 
transforma-se em algo espetacular, compartilhada por milhões de olhos potenciais. E 
não se trata de nenhum evento emocionante. Não há histórias, aventuras, enredos 
complexos ou desfechos maravilhosos. “Na realidade, nada acontece, a não ser avida 
banal, elevada ao estado de arte pura”. (LEMOS, 2002, p. 114). 
No espaço virtual consolida-se a comunicação que, assim como em 
comunidades primitivas ou pré-cibernéticas, tem por objetivo unir indivíduos que 
possuam os mesmo gostos, afinidades e interesses. A exemplo disto existem as 
comunidades no Orkut, cuja nomenclatura define exatamente este conceito: um lugar 
no ciberespaço destinado a pessoas com interesses comuns. 
A sociedade do consumo cibernético, tal como do mundo “real” é também 
descartável. A internet, com milhões de ofertas de entretenimento e diversão, 
proporciona informações predominantemente superficiais, pouco confiáveis, 
ideologicamente manipuladas. 
“No fundo, serviria apenas aos interesses da sociedade de consumo, 
caracterizando-se como uma falação constante e descartável, tal como se apresenta 
nas trocas de e-mails, nos chats e nas redes sociais como o Orkut e o Facebook”. 
(ALMEIDA, 2009). 2 
Outro aspecto vital da sociedade da informação é a velocidade, a agilidade 
como as situações se desenrolam. O homem resolve quase tudo com um clique, sem 
que haja a necessidade de locomoção. Os maiores problemas são solucionados 
através de uma ligação, grandes transações são feitas via telefone, pessoas de 
diferentes continentes se relacionam e interagem com bastante facilidade. Entretanto, 
o ciberespaço, da mesma forma que torna mais ágil a comunicação, fragiliza as 
 
2 Disponível: <http://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/viewFile/12972/8746 
 
 
51 
 
relações pessoais. O mundo está cada vez mais unido, mais próximo e as pessoas, 
cada vez mais afastadas. 
A cultura do ciberespaço é paradoxal em sua essência e transforma os 
indivíduos cultural e socialmente, pois é muito mais cômodo e viável fazer ligações do 
que visitar. Digitar, que conversar. Postar fotos do que descrever. Surge disto também 
o conceito de sociedade da acomodação. “[...] De fato, a racionalidade tecnológica 
causa a denominada mecânica do conformismo, que nega qualquer tipo de 
manifestação individual revolucionária dentro de uma sociedade totalmente planeja”. 
(GABRIEL, 2004). 3 
As tecnologias informacionais acostumam o homem pós-humano a viver 
conectado em redes, de tal forma que já se vive pensando no conteúdo a ser postado 
na internet. O ciberespaço substitui a relação direta e pessoal. Por exemplo: quando 
se viaja, já não é necessário esperar a volta para contar como foi. A rede cumpre este 
papel, de encurtar a distância entre transmissor e receptor, tão bem, que quando estão 
diante um do outro, não há mais assunto sobre a viagem. Todas as curiosidades foram 
saciadas por fotos, textos, mensagens. 
Uma característica básica dos produtos concebidos especificamente para os 
novos meios digitais é a substituição tradicional figura “narradora”, aquela figura que, 
nas formas narrativas anteriores (romance, filme), apresentavam aos leitores ou 
espectadores os acontecimentos da diegese, por novos agentes enunciadores. [...] A 
narrativa não pode ser mais definida a priori. Ela deve ao contrário aparecer com um 
campo de possibilidades governado por um programa [...]. (MACHADO, 2002, p. 91). 
Na cultura do ciberespaço competem todas as tecnologias, meios informação 
e comunicação e oferece, indubitavelmente, inúmeras vantagens ao homem, 
sobretudo, enquanto ferramentas que aprimorem as técnicas de trabalho e agilizem 
os processos comunicacionais. 
A internet, por sua vez, é um amplo meio de difusão de idéias, conhecimentos 
e interesses particulares ou coletivos. Desde chats, e-mails, blogs apresentam um 
leque de possibilidades infinitas que permitem o desenvolvimento do homem e o êxito 
de suas relações interpessoais, se utilizada de forma correta. 
Contudo, é uma possível ameaça às diversidades culturais e às tradições, uma 
vez que tende a homogeneizar e padronizar as relações pessoais entre os indivíduos; 
 
3 Disponível em: < http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5503 > 
 
 
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tenciona exterminar as particularidades de cada sociedade, bem como isolar e alienar 
o homem de sua realidade. 
Por conseguinte, a aldeia global constitui uma nova forma de manifestação 
cultural. Oriunda de diversas culturas, mescla vários elementos culturais e elimina os 
que vão de encontro aos interesses do mundo global hegemônico. 
 
“Provém de uma cultura, mas cria, ela própria, uma cultura, na medida em que encaixa 
no seu processo genético diferentes “estratos” culturais, mais ou menos acadêmicos, 
mais ou menos independentes, mais ou menos economicistas”. (BESSA, 2007).4 
 
Conclusões 
Ciberespaço, cibernética, ciborgues. Infovias, informação, informacional. 
Tecnologia, mídia, convergência. Sociedade da informação, sociedade em rede, 
sociedade pós-industrial. Muitos termos para designar o mesmo fenômeno: a 
cibercultura em toda sua expressão. 
Como principais características, a cibercultura favorece a fragmentação de 
identidades culturais e individuais; avança o processo de convergência dos meios e 
das novas tecnologias; modifica substancialmente comportamentos, tradições e 
influencia a economia global. Em suma, transforma a sociedade pós-industrial como 
um todo, em todos os âmbitos. 
Abstrai-se das recentes teorias acerca da era da globalização indícios que 
apontam para um novo momento histórico do homem em relação às máquinas, à 
ciência e às formas de se comunicar e transmitir conhecimento. 
Da mesma forma como foram importantes e determinantes as descobertas e 
transformações por quais passaram as sociedades anteriores em seus diferentes 
tempos históricos, é preciso atentar às mudanças que a sociedade da informação vem 
provocando na organização e dinâmica da vida humana. 
Neste novo tempo, tornou-se fato que o homem vem criando maneiras de 
interagir socialmente ao operar com as mediações socioculturais proporcionados 
pelas infovias. Cabe refletir e planejar caminhos para que o desenvolvimento e 
expansão destas novas ferramentas tecnológicas não transformem o ser humano, 
suas relações de sociabilidade e afetividades estranhas à sua realidade vivida. 
 
4 Disponível em: < http://www.e-profe.net/tecnologia/galaxia_internet.pdf> 
 
 
53 
 
 
BIBLIOGRAFIA 
 
ALMEIDA, Marco Antônio de. Mediações tecnosociais e mudanças culturais na 
Sociedade da Informação. Disponível: 
<http://seer.ufrgs.br/index.php/EmQuestao/article/viewFile/12972/8746 > Acesso: 27 
de agosto de 2010. 
BESSA, Fátima. Abordagem Crítica à Tecnologia Educativa. 
Disponível em: < http://www.e-profe.net/tecnologia/galaxia_internet.pdf> 
Acesso: 28 de agosto de 2010. 
Disponível em:< http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=5503 > Acesso: 
27 de agosto de 2010. 
GABRIEL, Ivana Mussi. Herbert Marcuse: reflexões sobre a sociedade tecnológica. 
LEMOS, André. Aspectos da cibercultura – Vida social nas redes telemáticas. 
In: PRADO, José Luiz Aidar (Org). Crítica das práticas midiáticas – da sociedade 
de massas às ciberculturas. São Paulo: Hacker Editores, 2002. 
MACHADO, Arlindo. O sujeito no ciberespaço. In PRADO, José Luiz Aidar 
(Org): Crítica das práticas midiáticas – da sociedade de massas às ciberculturas. 
São Paulo: Hacker Editores, 2002 
TAKASAHI, Todao. A sociedade da informação. In PERUZZO, Cicília, BRITTES, 
Juçara (Org): Sociedade da informação e novas mídias: participação ou exclusão? 
São Paulo, INTERCOM, 2002. 
TOSCANI, Oliviero. A publicidade é um cadáver que nos sorri. São Paulo: 
Ediouro, 1996.

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