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MATERIAL DIDÁTICO HISTÓRIA DO PENSAMENTO ANTROPOLÓGICO CREDENCIADA JUNTO AO MEC PELA PORTARIA Nº 1.282 DO DIA 26/10/2010 0800 283 8380 www.ucamprominas.com.br Impressão e Editoração SUMÁRIO UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO ............................................................................... 03 UNIDADE 2 – ORIGEM E EVOLUÇÃO DO SER HUMANO ................................ 05 2.1 Processo biológico ......................................................................................... 06 2.2 Processo cultural ............................................................................................. 10 2.3 Família e graus de parentesco ........................................................................ 15 2.4 Organização econômica .................................................................................. 16 2.5 Organização política ........................................................................................ 18 2.6 Religião e mitos ............................................................................................... 26 2.7 As artes ........................................................................................................... 28 UNIDADE 3 – TEORIAS ANTROPOLÓGICAS .................................................... 33 3.1 Evolucionismo ................................................................................................. 33 3.2 A Escola americana ........................................................................................ 37 3.3 Difusionismo .................................................................................................... 37 3.4 A Escola francesa ........................................................................................... 39 3.5 Funcionalismo ................................................................................................. 40 3.6 Estruturalismo antropológico ........................................................................... 41 3.7 Dinamismo ...................................................................................................... 43 3.8 Neoevolucionismo ........................................................................................... 44 3.9 Ecologismo cultural ......................................................................................... 44 3.10 Estruturalismo marxista ................................................................................. 44 3.11 Neodifusionismo ............................................................................................ 44 UNIDADE 4 – ANTROPOLOGIA JURÍDICA ........................................................ 46 UNIDADE 5 – ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA .................................................... 53 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 59 3 UNIDADE 1 – INTRODUÇÃO Origem e evolução do ser humano, passando por seus processos biológico, cultural, familiar, organização econômica e política, religião, mitos, arte são elementos essenciais para conhecermos o ser humano e a nós mesmos e esse trabalho também é realizado pelo Antropólogo. Nessa linha de pensamento e fazendo uma relação com a educação, uma vez que você poderá atuar nesse campo, devemos entender que a tarefa da Antropologia é o questionamento acerca do homem, do lugar que o mesmo ocupa no universo e de sua função como fazedor da história e criador de culturas, portanto, “refletir sobre o que é a educação é refletir sobre o próprio homem” (FREIRE, 1997). Desde os tempos mais remotos, quando o homem se espantou com a natureza e com tudo o que nela existia, incluindo a si próprio, este nunca mais deixou de ser estudado, admirado e ainda hoje incognoscível. Quem primeiro se inclinou a estudar o homem foi Sócrates, filósofo grego do final do século V e IV a.C., que dizia “Conhece-te a ti mesmo”. Enquanto as maneiras de ser ou de agir de certos homens forem problema para outros homens, haverá lugar para uma reflexão sobre essas diferenças que, de forma sempre renovada, continuará a ser o domínio da Antropologia (LEVI-STRAUSS, 2000). Segundo Pacheco e Fonseca (2009), a história da Antropologia está indissociavelmente ligada à busca pelo conhecimento de nossa origem, isto é, das formas mais simples de organização social e de mentalidade até as formas mais complexas das nossas sociedades. No século XIX, a Etnologia se aderiu à teoria do monogenismo, enquanto a Antropologia Física defendia o poligenismo. Foi nesse período que surgiram duas linhas de pensamento teórico entre os etnólogos acerca da origem do ser humano: o evolucionismo e o difusionismo, mas existem outras, como também veremos ao longo do módulo. Pois bem, estes serão os temas da vez: componentes que envolvem o ser humano, teorias antropológicas; e ao final, algumas pinceladas de Antropologia Jurídica e Teológica para completaram o módulo. 4 Ressaltamos em primeiro lugar que embora a escrita acadêmica tenha como premissa ser científica, baseada em normas e padrões da academia, fugiremos um pouco às regras para nos aproximarmos de vocês e para que os temas abordados cheguem de maneira clara e objetiva, mas não menos científicos. Em segundo lugar, deixamos claro que este módulo é uma compilação das ideias de vários autores, incluindo aqueles que consideramos clássicos, não se tratando, portanto, de uma redação original e tendo em vista o caráter didático da obra, não serão expressas opiniões pessoais. Ao final do módulo, além da lista de referências básicas, encontram-se muitas outras que foram ora utilizadas, ora somente consultadas e que podem servir para sanar lacunas que por ventura surgirem ao longo dos estudos. 5 UNIDADE 2 – ORIGEM E EVOLUÇÃO DO SER HUMANO Há muitos anos os estudiosos do assunto têm querido saber o que é o homem, qual a sua origem e desenvolvimento. Somente após a descoberta dos fósseis humanoides, pôde-se aceitar a ideia do fenômeno. Embora pormenores sejam desconhecidos nesse longo período (mais de 5 milhões de anos), não se pode mais duvidar de que o homem tenha evoluído de alguma forma inferior de vida (MARCONI; PRESOTTO, 2014). A evidência da evolução humana consiste não só no registro dos fósseis, mas também dos utensílios e outros artefatos de grande durabilidade, como a pedra. Os estudos dos fósseis humanos, realizados pelos paleontólogos humanos ou antropopaleontólogos, indicam: a) As transformações anatômicas e suas consequências fisiológicas, ocorridas no corpo, a partir dos primatas superiores. b) Evolução dos seres humanos pré-históricos em determinado período. Enfim, a Paleontologia Humana e a Arqueologia, juntas, estudam a evolução da humanidade, tentando compreendê-la melhor, embora o conjunto de dados fósseis ainda seja insuficiente. Pois bem, nesta primeira unidade, veremos um pouco dos processos e da organização social do homem para a posteriori entendermos a evolução e, porque não dizer, revolução das teorias que dão suporte ao trabalho do antropólogo. 6 2.1 Processo biológico Tendo como objetivo o estudo da humanidade, um dos campos de pesquisa da Antropologia é a evolução da humanidade, ou seja, ela busca verificar como o ser humano foi crescendo e se aprimorando não só fisicamente, mas também, e, sobretudo, culturalmente. O estudo científico desse fato é de suma importância, uma vez que nos ajuda a perceber não só as formas de evolução da humanidade, mas também a valorizar o momento em que nos encontramos. Por outro lado, o estudo da evolução contribui para que saibamos relativizar a nossa cultura, dando-nos conta de que ela é apenas um estágio nesse processo evolutivo. Depois de nós, certamente virão outrasculturas que poderão alcançar formas evolutivas bem mais sofisticadas do que a nossa (OLIVEIRA, 2011). No estudo da evolução humana, considera-se o ser humano antes de tudo como “uma espécie do reino animal” (LABURTHE; WARNIER, 2003, p. 45) que foi passando da sua condição de antropoide (10 a 12 milhões de anos atrás), para a condição de hominída (a partir de nove milhões de anos atrás). Portanto, de uma condição de puro primata para a condição de ser com características sociais e pensantes (MARCONI; PRESOTTO, 2014). De acordo com boa parte dos antropólogos, os dois tipos de evolução (biológica e cultural) se deram numa interação permanente. A partir da evolução biológica tornou possível a evolução social, mas essa contribuiu para o aprimoramento daquela (LABURTHE; WARNIER, 2003). Assim sendo, Oliveira (2011) explica que a distinção que faz a seguir serve apenas a um objetivo metodológico, visando a melhor compreensão dos dois aspectos. A evolução biológica é estudada pela Antropologia Física. Por isso aqui não iremos nos deter em detalhes. Apenas pretendemos oferecer alguns elementos que nos permitam compreender depois a evolução cultural, uma vez que ambas estão intimamente relacionadas. De fato, para conhecer o ser humano na sua totalidade, é preciso também conhecer “as diferentes fases pelas quais a humanidade passou, desde o Homo primitivo até o homem atual, isto é, moderno” (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 7 O estudo da evolução biológica do ser humano se concentra essencialmente na análise dos fósseis, tentando perceber as transformações anatômicas e fisiológicas pelas quais ele passou, a partir da sua condição de primata superior. A Paleontologia e a Arqueologia fazem esse estudo considerando as eras e os períodos geológicos, uma vez que a evolução humana tem tudo a ver com isso. Os paleontólogos e os arqueólogos já dispõem de material que datam de cerca de 70 milhões de anos atrás, quando se deu a passagem dos antropoides para os hominídeos. Mas a etapa mais importante é a do período conhecido como Pleistoceno (entre dois milhões a 10 mil anos atrás), pois foi neste período que o ser humano sofreu as suas maiores alterações (MARCONI; PRESOTTO, 2014). O período Pleistoceno foi marcado por um clima bastante instável, com fases de muitas chuvas e outras de muita seca. Houve avanços e recuos das geleiras. Tudo isso interferiu na vida animal e vegetal, forçando migrações ou causando a extinção de muitas espécies. Como já dito por Oliveira (2011), as transformações evolutivas do ser humano podem ser registradas através dos fósseis descobertos. Embora em quantidade pequenas, esses fósseis foram encontrados tanto na Ásia como na África. No continente americano, os achados são da fase final do Pleistoceno. Os achados arqueológicos permitem o reconhecimento de quatro fases evolutivas do ser humano a partir de seus ancestrais pré-humanos, ou como dito por Marconi e Presotto (2014), fases estruturais básicas: 1. Pré-hominida, do Australopithecus. 2. Homo erectus, do Pitecanthropus. 3. Homo sapiens, do Neanderthal. 4. Homo sapiens sapiens, do Cro-Magnon. Os cientistas, de um modo geral, reconhecem apenas um nosso ancestral da fase pré-homínida (até um milhão de anos atrás): o Homo australopithecus (austral, sul; pithecus, macaco), ou homem-macaco, macaco-homem ou quase homem. Ele, entre outras características, era bípede e habitava em lugares mais abertos, especialmente às margens dos lagos. Era de baixa estatura, com caixa craniana pequena, tendo os dentes molares bastante desenvolvidos. Não existem registros de que entre as diversas espécies existisse alguma forma de contato. 8 O homo erectus, segundo os cientistas, viveu no Pleistoceno Médio, ou seja, entre um milhão e 100 mil anos atrás. Ele teria evoluído a partir do australopithecus africano e se espalhado por outros lugares do planeta, tendo sido encontrados vestígios dele na ilha asiática de Java e em Pequim. Entre as suas principais características estão: cérebro grande (900 a 1200 cm3), bípede, altura em torno de 1,60m, redução dos molares, caninos menores e diversas modificações na face. Foi constatada uma modificação da pélvis, indicando que ele fazia caminhadas mais longas. Usava artefatos de pedra e armas, praticava a caça, inclusive de animais de grande porte, valendo-se para tanto de tochas de fogo e de armadilhas. Ele foi extinto no Pleistoceno Superior. De acordo com os antropólogos, o homo sapiens primitivo, também conhecido como pré-sapiens teria surgido por volta de 500 mil anos atrás, portanto, no período do Pleistoceno Superior e desaparecido a cerca de 70 a 40 mil anos. O mais conhecido representante do homo sapiens é o homo sapiens de Neanderthal que teria surgido há cerca de 150 mil anos atrás. O primeiro fóssil dessa espécie foi encontrado na Alemanha, em 1856, mas existem indícios de que ele viveu também na Ásia e na África. Suas principais características físicas: era pequeno (cerca de 1,55 a 1,60m), bípede e curvo e, comparando-se com os seres humanos atuais, tinha os membros superiores bem menores (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 9 Tinha cérebro bem mais volumoso do que os humanos atuais (cerca de 1.540 cm3), sendo que o do homem era maior do que o da mulher (1.300 cm3). Os cientistas divergem quanto ao fim do homo sapiens. Alguns acreditam que ele teria sido expulso para o sul da Europa pelo homo sapiens sapiens. Outros levantam a hipótese de que teria se misturado com estes últimos, dando origem aos descendentes diretos dos europeus. Tal miscigenação teria sido confirmada pela descoberta de um fóssil de criança, de cerca de 25 mil anos, perto de onde hoje é a cidade de Leira, em Portugal (OLIVEIRA, 2011). Mas, de acordo com Marconi; Presotto (2014), o motivo do desaparecimento do Homem de Neanderthal, por volta de 30 mil anos atrás, é ainda hoje inexplicado. Dois fatos podem ter ocorrido: ou aconteceu a miscigenação ou simplesmente os neanderthalenses desapareceram dado o clima instável da época. Os registros de fósseis desse período e a utilização de exames de DNA têm reforçado a teoria da origem africana do homem de Neanderthal, o qual “desenvolveu-se em uma única localidade no deserto do Saara, África, de 100 mil a 200 mil anos atrás e emigrou mais recentemente, substituindo populações existentes de humanos antigos de todo o Universo” (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Por fim, o último grupo de ancestrais humanos seria o homo sapiens sapiens que teria vivido entre 35 a 10 mil anos atrás, embora alguns cientistas, como é o caso do antropólogo Jospe Gilbert Clols, cheguem a afirmar que ele surgiu há 200 mil anos (MARCONI; PRESOTTO, 2014, p. 68). Ele viveu na Europa, na Ásia e na África e, mais tarde, teria chegado à América. Inicialmente, compreendia duas raças das quais, mais tarde, surgiram os três grupos raciais: brancos, negros e amarelos (asiáticos). Esse grupo humano, em relação aos demais, já utilizava uma tecnologia avançada e uma cultura considerada bastante desenvolvida. Exemplo disso são as pinturas nas paredes das cavernas, os murais de baixo relevo, gravuras, esculturas e modelagens deste período encontradas pelos arqueólogos. Hoje existe um certo consenso entre os estudiosos, corroborado pelos exames de DNA, de que o ser humano teria surgido na África e depois se espalhado pelos outros continentes. Isso levanta a pergunta sobre o surgimento das diferentes 10 raças humanas. Embora ainda não exista um consenso sobre a definição de raça, os antropólogos concordam num ponto: o ser humano pertence a um mesmo gênero (homo) e a uma mesma espécie (sapiens). Acredita-se que houve um tronco comum, mas não se sabe dizer quando foi que começou a diversificação (MARCONI; PRESOTTO, 2014; OLIVEIRA, 2011). As dificuldades em definir o conceito de raça estão ligadas a trêsfatores: à relatividade do tempo; à questão das grandes diferenças físicas; e, à distribuição espacial dos seres humanos. Houve, a partir de 1758, com o naturalista sueco Linneu, o primeiro a fazer esse trabalho, várias tentativas de definição e de classificação de raças. De um modo geral, os antropólogos aceitam a definição de raça dada por Vallois: “Agrupamentos naturais de homens, que apresentam um conjunto de caracteres físicos hereditários comuns, quaisquer que sejam suas línguas, costumes e nacionalidade” (VALLOIS apud MARCONI; PRESOTTO, 2014). Quanto à classificação há também uma comum aceitação de que as principais raças são: caucasoide ou branca; negroide ou africana e mongoloide ou asiática. Há divergências quanto à questão das etnias ou sub-raças. Não há concordância acerca da primeira raça. Alguns estudiosos acreditam que seja a africana, outros afirmam ser a branca. Quanto à diferenciação das raças, afirma-se que ela se deve a uma série de fatores. Conforme Oliveira (2011), entre esses fatores estariam a seleção natural, a mutação (alteração no gene), isolamento de grupos, pendor genético (sobrevivência, difusão e combinação de genes mutantes), hibridação (união de indivíduos de genes diferentes), seleção sexual (escolha do cônjuge) e seleção social (regulamentação dos cruzamentos). 2.2 Processo cultural Discutir a evolução cultural passa necessariamente pelas observações de DaMatta (1987), mas lembrando de antemão que em Antropologia sempre há o risco de “buscar a generalidade para realizar generalizações de cunho formalista”. 11 DaMatta critica o hábito de certos antropólogos que consiste em separar os fatos de seus contextos. Por essa razão, ele levanta uma certa suspeita em relação ao evolucionismo antropológico, o qual trabalha muito com ideias gerais. Entre essas ideias gerais ele destaca quatro: a comparação dos costumes das sociedades humanas; a afirmação de que os costumes têm uma origem e um fim; o princípio de que as sociedades se desenvolvem irreversivelmente de modo linear; e, a definição das diferenças entre os seres humanos a partir das características anteriores. Ao trabalhar com ideias genéricas, a Antropologia termina por dar respaldo a um tipo de progresso que é “sintoma de uma sociedade muito confiante nas suas possibilidades e na sua superioridade” (DAMATTA, 1987, p. 93). Com isso, acredita DaMatta (apud OLIVEIRA, 2011) que os antropólogos assumem o lugar daquelas culturas que estão estudando, não permitindo que elas mesmas falem. Esse modo de estudar as culturas, colocando-se acima delas, teve como resultado a destruição do planeta, hoje tão visível. Isso porque, o progresso que construímos está profundamente relacionado ao determinismo tanto temporal como histórico que concebe a evolução da humanidade de forma unilinear, perdendo de vista a multiplicidade de realidades e toda a riqueza das diferenças. DaMatta questiona também o método funcionalista usado na Antropologia a partir das obras de Malinowski e Radcliffe-Brown. Tal método, usado inicialmente como reação ao evolucionismo, relaciona o presente com o futuro, explicando um pelo outro. Afirma que numa sociedade ou sistema nada acontece por acaso e nada está definitivamente errado ou deslocado. O que existe hoje é apenas sobra ou sobrevivência do passado. Embora tivesse o mérito de mostrar que a pesquisa antropológica tem um duplo movimento, o funcionalismo desenvolve uma visão parcial das culturas, uma vez que tende a interpretar os fatos do passado projetando sobre eles as concepções e valores do presente. 12 Feitas essas observações iniciais, podemos agora tentar descrever alguns elementos da evolução cultural do ser humano. Vimos inicialmente que esse tipo de evolução está associado àquela psicobiológica. Por evolução cultural, entendemos o fato de que o ser humano foi “capaz de produzir, ou seja, capaz de criar e acumular experiências e principalmente de transmiti-las socialmente” (MARCONI; PRESOTTO 2014, p. 77). Por essa razão, a cultura é considerada, enquanto desenvolvimento de padrões, comportamentos, hábitos e costumes, a principal característica do ser humano. Em Marconi e Presotto (2014) e em vários livros de história, encontramos uma boa descrição dos achados arqueológicos que atestam a evolução cultural do homem. Por esses achados, os artefatos encontrados, pode-se avaliar tal processo evolutivo cultural. Esse segue basicamente os mesmos estágios da evolução biológica. Pode-se afirmar que os registros de cultura começam com o homem de Neanderthal que tinha características sociais significativas. Vivia em cavernas, usava o fogo com a finalidade de se aquecer e iluminar e talvez também para cozinhar. Sobrevivia da caça e da coleta, aperfeiçoando as técnicas para isso, passando a usar, além da pedra lascada, também ossos, madeira, conchas, dentes e chifres. Inventou instrumentos como o machado, a faca, a raspadeira, as pontas de lança, o martelo, cinzéis, lâminas e cabos de madeira. Ele foi o primeiro a utilizar instrumentos musicais feitos de ossos e a usar o breu retirado de árvores como cola. 13 No homem de Neanderthal foram encontrados vestígios de religiosidade, uma vez que construía sepulturas nas quais enterrava seus mortos com os seus pertences, levando-nos a crer que ele acreditava na existência da alma e do espírito. Foram encontradas evidências de que ele já praticava a magia e cultuava o urso. A maioria dos antropólogos acredita que o homem de Neanderthal alcançou um nível complexo de cultura, existindo sinais de vida grupal e de espírito de cooperação. Apoiava os mais fracos, possuía uma linguagem, embora com um número limitado de sons. Conhecia plantas medicinais. O período em que ele viveu era marcado por mudanças climáticas rápidas o que exigia uma série de adaptações. De um modo geral, os antropólogos dividem o estudo da evolução cultural em quatro períodos: culturas do Paleolítico, culturas do Mesolítico, culturas do Neolítico e culturas recentes (MARCONI; PRESOTTO, 2014). As culturas do Paleolítico compreendem aquelas do período que vai de 500 mil a 10 mil anos atrás. Elas se caracterizam pela presença do ser humano predador ou caçador de alimentos. O homem e a mulher desse período desenvolveram um modo sistemático de coletar alimentação que consistia basicamente em vegetais e pequenos animais selvagens. Neste período se dá a primeira grande revolução no setor da economia e da indústria. O ser humano cria seus próprios recursos, os quais consistem em técnicas diferentes para coletar alimentos, usando instrumentos produzidos a partir da pedra, da madeira, de ossos e conchas. Este tipo de evolução não aconteceu de forma 14 idêntica em todos os lugares e períodos. De fato, os antropólogos dividem esse período em três etapas: Paleolítico Inferior (de 500 mil a 150 mil anos atrás); Paleolítico Médio (150 mil a 40 mil anos); e, Paleolítico Superior (40 mil a 12 mil anos atrás). As culturas mesolíticas são aquelas do período que vai de 12 mil a 10 mil a.C.; de acordo com os antropólogos, trata-se de um período breve que marca a passagem do ser humano predador para produtor de alimentos. Neste período são desenvolvidas técnicas mais sofisticadas e se dão invenções significativas como o arco, a flecha, a roda, as agulhas, os arpões, os trançados, a enxada, os pilões, a canoa e a rede. Iniciam-se as aglomerações humanas, especialmente em torno dos locais de pesca, favorecendo assim um certo sedentarismo. Em virtude disso, surgem as habitações, que inicialmente eram palafitas construídas sobre os lagos e com a finalidade de oferecer abrigo contra as intempéries do tempo e do clima. O Neolítico começa por volta de 10 mil a.C. e se estende até 4.500 anos a.C., neste período se dão transformações significativas.O ser humano começa a se fixar na terra e, além da coleta de vegetais, passa a domesticar e criar animais (cabras e ovelhas) para a sua alimentação. Neste período nasce e se consolida a agricultura que era formada basicamente do cultivo de trigo e cevada. Os humanos inventam os silos para armazenar alimentos. Os instrumentos de caça e pesca e os agrários são aperfeiçoados pela técnica do polimento e revestidos de estética. Entre 7.000 e 8.000 a.C. surge a cerâmica. No Neolítico se consolidam as aldeias sedentárias que mais tarde serão transformadas em vilas, cidades e centros comerciais. Tudo isso contribuiu para mudanças significativas no modo de pensar e de agir do ser humano, uma vez que ele tinha garantido a sua autossuficiência. Desenvolve-se neste período, o culto à fecundidade, e a mulher passa a ter status na sociedade. O sedentarismo e a facilidade dos meios de sobrevivência permitiram um aumento da população e a formação de grandes aglomerados urbanos. A partir desse período têm início as culturas recentes, das quais temos vestígios mais abundantes que nos permitem conhecê-las melhor (OLIVEIRA, 2011). 15 2.3 Família e graus de parentesco Em todas as sociedades humanas e praticamente desde a pré-história, encontra-se uma forma qualquer de família. Sua posição, dentro do sistema mais amplo de parentesco, pode oscilar muito, desde um lugar central e dominante (sociedade ocidental) até uma situação de reduzida importância (povos ágrafos), que dão maior destaque ao grupo de parentesco, mais amplo do que a unidade representada por marido, mulher e filhos (MARCONI; PRESOTTO, 2014). O sistema de parentesco é um dos sistemas universais da cultura e o seu estudo, a partir do final do século, tornou-se o centro de preocupações da Antropologia, quando esta começou a ser encarada cientificamente. Mesmo nas comunidades humanas de terminologia simples, as categorias básicas da relação biológica são importantes meios para o reconhecimento e a ordenação das relações sociais. As genealogias oferecem algumas categorias que permitem distinguir as relações existentes entre uma pessoa e o grupo a que ela pertence. Talvez este seja o tópico mais estudado pela Antropologia, por oferecer aspectos mais regulares e recorrentes, permitindo a construção, o teste de generalizações e o entendimento da estrutura social de sociedades tribais. Os antropólogos, já no século XIX, estudando as mais variadas populações, descobriram diferentes maneiras de classificar os parentes, havendo, no sistema de parentesco, complexas posições de relações. Edward Tylor (s.d. et al. apud MARCONI; PRESOTTO, 2014) foi um dos primeiros a perceber algumas dessas relações, às quais denominou “adesões”. Morgan, por sua vez, enfatizou a validade científica do estudo dos sistemas de parentesco. Concentrou-se nos estudos evolutivos do parentesco e tentou demonstrar que os diferentes costumes, relacionados ao casamento, é que determinavam os vários sistemas de parentes. Morgan não só deu grande importância à terminologia do parentesco como deixou bases sólidas sobre a mesma, através de suas próprias observações e de um conjunto de questionários. Rivers foi outro nome importante no campo do sistema de parentesco. Aperfeiçoou a metodologia etnográfica, coletou genealogias de parentesco e gráficos e elaborou os sistemas ideais reunidos por Morgan. Demonstrou a existência de costumes que se valiam de outras terminologias. 16 Além desses, Murdock, Kroeber, Lowie, Lévi-Strauss, Radcliffe-Brown, Malinowski e outros se dedicaram ao estudo desse assunto. O sistema de parentesco, segundo Murdock, refere-se a um sistema estrutural de relações, no qual os indivíduos encontram-se unidos entre si por um complexo interligado de laços ramificados. Para Rivers, sistema de parentesco consiste no “reconhecimento social de laços biológicos” (MAIR, 1972, p. 72). As relações de parentesco consistem em “funções interagentes, atribuídas, segundo o costume, por um povo, aos diferentes status de relacionamento”, afirmam Hoebel e Frost (1981, p. 237). As culturas, em geral, possuem uma terminologia própria que indica as diversas relações de parentesco. A compreensão da maioria das sociedades, passadas ou presentes, requer o conhecimento do sistema de parentesco pelo antropólogo. Ele é importante porque: a) Fornece um modo de transmitir status e propriedades de uma geração a outra. b) Estabelece e mantém grupos sociais efetivos. A análise de parentesco permite ao antropólogo o estabelecimento de correlações entre os sistemas de parentesco e outras formas de comportamento como: religiosa, política, educacional, econômica, entre outras. Família e Estado (associações), matrimônio e parentesco (instituições) formam um todo mais complexo, a organização. Esta, por sua vez, consiste na soma dos padrões pelos quais os indivíduos e grupos se organizam e se relacionam uns com os outros, na sociedade humana (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 2.4 Organização econômica A organização econômica é um ramo da Antropologia que trata do funcionamento e evolução dos sistemas econômicos das sociedades primitivas e rurais. Refere-se ao modo como os indivíduos conseguem, utilizam e administram seus bens e recursos. 17 A organização econômica faz parte da organização social e encontra-se em todas as sociedades, mesmo entre as mais simples. Todavia, os aspectos da produção e consumo variam muito de cultura para cultura, no tempo e no espaço. Segundo Hoebel e Frost (1981, p. 261), a organização econômica é tratada “como um liame entre a base material da cultura e a estrutura social, porque ela se ocupa, de um lado, com os produtos da tecnologia e, de outro, com sua distribuição diferencial através da estrutura social”. Em princípio, procurava-se explicar as diferenças entre os sistemas econômicos pela evolução social, ou seja, através de diferentes níveis de estágios da cultura. Morgan foi o primeiro a tratar sistematicamente os dados, registrados pelos cronistas, sobre a atividade econômica das culturas primitivas. Marconi e Presotto (2014) lembram que segundo sua teoria evolucionista, a vida econômica teria passado por três estágios: a) Bandos de coletores e caçadores: propriedade comum. b) Aldeias fixas, com agricultura e pastoreio: propriedades familiares ou clãs. c) Unidade política com tecnologia avançada: propriedades privadas ou estatais. Todavia, essa colocação não foi mais aceita por duas razões: 1. As informações coletadas posteriormente, por um grande número de pesquisadores de campo, sobre economias primitivas e rurais – Boas, Malinowski, Firth e outros revelaram uma enorme variedade de sistemas econômicos, não podendo, portanto, ser enquadradas nos referidos estágios. As informações mudaram qualitativa e quantitativamente a explicação evolucionista. 2. A ideia de estágios de evolução não explica o atual processo de mudança econômica. Até hoje, o campo da Antropologia Econômica tem consistido na descrição e interpretação das pequenas sociedades. Mais recentemente, está voltando-se para o estudo das mudanças econômicas e sociais, preocupando-se com as relações entre Economia e sociedade em geral. 18 Os antropólogos estudam os sistemas econômicos das sociedades primitivas ou ágrafas, preocupando-se com quem faz e por que faz. Interessam-se em saber: como essas sociedades conseguem sua subsistência; quais as fontes de seus alimentos; como o trabalho é organizado; como são distribuídos os bens e serviços; quais os bens mais apreciados; qual o calendário das atividades sazonais; qual o tempo dedicado aos diferentes tipos de trabalho. Guarde... Raymond Firth, o principal estudioso da Economia nas pequenas sociedades, definiu-a como “aquela ampla esfera da atividade humana que diz respeito aos recursos,suas limitações e usos, e à organização pela qual eles são colocados de maneira racional, em relação com as necessidades humanas” (MAIR, 1972, p. 157). Todas as sociedades, por menores que sejam, produzem, trocam e consomem bens, embora muitas delas não façam previsões para o futuro. Três fatores podem ser apontados como fontes de subsistência para qual- quer sociedade: o meio ambiente, a população e a cultura. A economia depende do grau de conhecimento tecnológico, que pode limitar a capacidade de produção, mas todas as sociedades desenvolvem, pelo menos, as técnicas mínimas necessárias a sua sobrevivência (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 2.5 Organização política A organização política de um povo abrange o conjunto de instituições através das quais se mantêm a ordem, o bem-estar e a integridade do grupo, sua defesa e proteção. Essas instituições regulam e controlam a vida da sociedade, garantindo a seus membros: 19 direitos individuais – ao mesmo tempo em que exige o cumprimento de suas obrigações; organização do governo local – aldeia, cidade e outras; sistema de governo – tribal, nacional, estatal; defesa e proteção – contra inimigos externos, por meio da organização militar. Hoebel e Frost (1981, p. 321) definem organização política como “aquela parte da cultura que funciona explicitamente para dirigir as atividades dos membros da sociedade em direção às metas da comunidade”, entendida esta como a depositária dos valores e ideias comuns a um grupo humano, que encontra correspondência na sociedade mais ampla. Nadel vê no político uma organização para a paz interna e a guerra externa. A organização política é um aspecto da cultura encontrado em todos os grupos humanos, simples ou complexos. A condição necessária para a sua existência é a formação de grupos e subgrupos, cujas relações requerem controle social. Parentesco, sexo, religião e associações outras que servem de base para a segmentação das sociedades. A característica essencial da organização política é o exercício do poder. Outros aspectos têm igual importância: participação, lealdade, tradições e símbolos comuns, governo e sistema de relações externas. Três elementos são considerados básicos na constituição do aspecto político das sociedades ágrafas: o parentesco, a religião e a economia. a) Parentesco A descendência, as regras de residência, os arranjos matrimoniais, os clãs, as linhagens, enfim, as relações de parentesco que unem as famílias formam um conjunto significativo e atuante no controle político. Quanto mais acentuados são os laços de parentesco mais se estreitam os laços políticos, fortalecidos sempre pela atuação da religião. As sociedades simples fundamentam-se quase exclusivamente no parentesco. 20 b) Religião A religião exprime-se através das crenças, da Mitologia e determina a visão de mundo das sociedades. Tem função política ou é o instrumento do político que regula as relações sociais. Torna-se necessário o conhecimento dos diferentes tipos de manifestação religiosa em face da inter-relação entre o político, o religioso e o social. c) Economia Indivíduos e grupos participam das múltiplas formas de produção que as sociedades apresentam, desde a coleta e a caça rudimentares, praticadas pelos aborígenes australianos, passando pela agricultura e criação intensivas até as complexas economias de Estado dos Incas e Astecas. Através dessas formas, organizam-se o trabalho, a produção e a distribuição dos recursos existentes (terra, água e outros bens). Esses elementos propiciam prestígio, poder e status que resultam em desigualdades no interior das sociedades, dando origem ao Estado. Quanto à natureza da Organização Política, ela surge em qualquer sociedade segmentada em subgrupos, sendo um sistema que regula as relações entre os grupos e seus membros, que compartilham padrões e ideias em comum. Toda sociedade territorial participa de um sentimento de união, gerando interesses comuns entre os quais estão os interesses políticos. Os conceitos de Estado e de Governo são considerados básicos na análise da organização política, mesmo que passemos rapidamente por eles. a) Estado Costuma-se defini-lo como a nação politicamente organizada. Copans (1971, p. 27) afirma que o Estado é uma forma não primitiva de governo, um meio de governar sociedades, devendo ser compreendido em termos de território, população e governo. O território e a população são anteriores ao Estado, e o governo é o próprio Estado. a.1) Território: uma unidade territorial corresponde a uma unidade política. São áreas definidas, menores ou maiores, ocupadas respectivamente por pequenos agrupamentos (bandos ou hordas) ou por organizações maiores (tribos, confederações, impérios), ligados por padrões e ideias comuns. 21 a.2) População: grupos de indivíduos ligados por uma cultura comum. As populações formam sociedades, portadoras de interesses individuais e grupais. a.3) Governo: consiste no instrumento executivo da organização política. Representa a autoridade que controla os membros da sociedade, através de normas preestabelecidas e dentro de um território definido. Ele se concretiza por meio de órgãos, nos quais pessoas especializadas exercem funções ligadas ao poder e se preocupam em executá-las, valendo-se da força e de poderes coercitivos. Segundo alguns autores, o Estado é um elemento universal da organização social humana. Krader (1970, p. 27) defende a ideia de que o governo é universal, enquanto outros aspectos da cultura, como o Estado, não o são. Consiste, pois, em uma instituição de governo, mas não a única instituição política existente para governar sociedades. Nem todos os grupos humanos possuem um Estado político. Segundo Copans (1971, p. 8), “ele tem um papel que é uniforme em toda parte: controlar e dirigir as vidas das pessoas sob seu império, por meio de poder social centralizado nas mãos de uns poucos”. Para Lowie (s.d apud MARCONI; PRESOTTO, 2014), o Estado existe potencialmente em todas as sociedades, concretizando-se em algumas delas. Em outras, encontra-se em forma incipiente. Sua presença indica ter a sociedade atingido certa complexidade. A perspectiva histórica demonstra que os Estados, mesmo assumindo formas diferentes, apresentam uma base comum: território definido, população estável, grupos diferenciados, instituições governamentais, entre outras. A partir dessa base comum, o Estado acha-se em condições de cumprir seus objetivos: dirigir e assegurar as vidas dos cidadãos; controlar as relações entre os diversos Estados; garantir o bem-estar dos membros da sociedade. Na história da humanidade surgiram diferentes tipos de Estados (alguns já desapareceram e a maioria transformou-se em Estados modernos): cidades-Estado; Estados imperiais e teocráticos; tribos-Estado; Estados tribais consanguíneos; Estados nacionais; e numerosas outras formas estatais. O Estado Nacional, característico das sociedades modernas, originou-se na Europa e desenvolveu-se na América, Ásia e África, sendo, hoje, uma forma 22 dominante de Estado, adaptando-se às diferentes ideologias (democracia, socialismo, comunismo). b) Governo Entende-se por Governo a autoridade individual ou grupal que controla determinado território e que exerce poder sobre ele. Pode também ser definido como a administração oficial dos negócios públicos, regidos por pessoas especializadas, com delegações de poderes. Em todas as sociedades, o governo atua por meio de arranjos políticos e processos legais e judiciais. Ao analisar os níveis de desenvolvimento sociocultural, os antropólogos distinguem os seguintes tipos: i) Bandos ou Hordas: o bando patrilocal, a mais simples e rudimentar forma de estrutura social, encontra-se em todas as partes da Terra. Os bandos constituídos por poucas famílias nucleares aparentadas(100 pessoas no máximo) são nômades, com economia de subsistência: coleta, caça e pesca. “Não existe lá vida política separada, nem governo ou sistema legal acima da modesta autoridade informal dos chefes de família e dos líderes efêmeros”, afirma Service (1970, p. 120); e conclui: a família e o bando são a única organização econômica, política e religiosa e suas relações não são formalizadas, são apenas familiares. Exemplos: os Esquimós do Alasca; os Pigmeus da África. ii) Tribos e Nações: o nível tribal de organização sociocultural das tribos e nações é mais complexo do que o do bando, do qual conservam ainda algumas características. São “organizações segmentares”, marcadamente familiares, igualitárias, com laços baseados no parentesco. Nesse nível surgem instituições propriamente tribais que levam à integração das partes num todo cultural mais amplo e controlam as relações entre os vários grupos – etários, religiosos, econômicos, entre outros. Entre esses outros grupos menores, como linhagens, anciãos, homens, mulheres, entre outros, estabelece-se uma hierarquização não institucionalizada (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 23 Exemplos: os Tiv da Nigéria, estudados por Balandier; a tribo ou “nação” Tupi-guarani, da costa brasileira, do século XVI. Nação é um povo fixado em determinada área geográfica possuindo certa organização, sentimentos de união, identidade de língua, etnia, religião, entre outras. A formação de nações encontra-se com mais frequência no âmbito das sociedades civilizadas. iii) Chefaturas: consistem em um tipo de organização política, mas ainda não estatal, embora tenham já certa autonomia em nível político e condições de passarem a Estado. Colocam-se entre os bandos e tribos e o Estado. Em vários aspectos da cultura – economia, arte, religião, política – contrastam com as tribos. Politicamente, constituem-se em um regime governativo, primitivo, ainda baseado no sistema de parentesco, mas este assume importância secundária. Têm, entretanto, um território mais definido e uma autoridade legitimada. As sociedades de chefaturas acham-se segmentadas em grupos distintos, baseados em critérios socioeconômicos e religiosos. Por exemplo: nobres, escravos, homens livres. São sociedades não mais igualitárias; não têm propriamente um governo, mas possuem autoridade centralizada. Não há propriedade privada, nem mercado, nem classes socioeconômicas definidas. Faltam-lhes uma hierarquia propriamente política e uma administração específica. O que caracteriza fundamentalmente as chefaturas é a acentuada desigualdade entre os grupos, na sociedade. No alto da pirâmide social encontra-se o chefe; abaixo dele, sucessivamente, as demais pessoas, com grande rivalidade de status. As chefaturas encontram-se em muitas localidades da Terra. Exemplos: as civilizações arcaicas do Peru; os Ashanti da África. iv) Estados: nas sociedades organizadas em Estado persistem muitas características das chefaturas, mas o que as distingue é uma nova forma de integração socioeconômica, que envolve a burocracia e a força legitimada. Elas têm uma existência legal, que interfere e regula as relações entre indivíduos e grupos (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 24 Ainda nos falta discorrer sobre os tipos de organização política, principalmente em se analisando que há um consenso entre os antropólogos em considerar o comportamento político presente em todas as sociedades. Costumam fazer a distinção entre sociedades sem Estado e sociedades organizadas em Estado. Inúmeras são as formas reguladoras da sociedade, e a tipologia, aqui relacionada, baseia-se na apresentada por Hoebel e Frost (1981, p. 323 ss). c) Sociedades sem Estado Mesmo os grupos humanos mais simples e isolados possuem alguma forma de governo. Por isso, o mundo primitivo oferece exemplos de diferentes e numerosos tipos. Nas sociedades sem Estado, o governo é informal, sem autoridade centralizada, na qual as funções políticas são exercidas por subgrupos, não havendo propriamente um chefe. ORGANIZAÇÃO INDIFERENCIADA: nesse tipo de organização, as relações sociais acham-se intimamente ligadas ao parentesco e são comumente encontradas nas hordas e bandos. Entre estes, a família, geralmente, é patriarcal, a descendência, patrilinear e o governo, gerontocrático (de homens idosos). Exemplos: os Esquimós do Alasca; os Bosquímanos do Sul da África. LINHAGEM SEGMENTÁRIA: nesse sistema de organização política, atribui- se o poder de decisão às linhagens, ou seja, aos grupos de parentesco que se consideram descendentes de um ancestral comum. As tribos dividem-se em segmentos e esses, em linhagens. São formações sociais baseadas também no parentesco. Exemplo: os Nuer do Sudão, segundo Evans- Pritchard, vivem em uma “anarquia organizada”, sem instituições legais e os valores políticos são relativos. ORGANIZAÇÃO EM GRUPOS DE IDADE: sistema político pouco difundido, sendo o grupo de idade a base da organização e cujos chefes têm a direção dos assuntos de governo e a responsabilidade da integração política. Exemplo: os Nyakyusa. CONSELHOS DE ALDEIAS E ASSOCIAÇÕES: tipo de organização política em que a autoridade emana dos conselhos das aldeias que constituem o 25 próprio governo tribal. Exemplos: os Pueblos dos Estados Unidos; os Ibos da África. ALDEIAS COM CHEFES: o papel do chefe ou líder ganha grande projeção nesse tipo de organização política, na qual o parentesco tem importância secundária. O indivíduo, investido de autoridade política, goza da confiança e recebe o apoio dos grupos vizinhos, responsabilizando-se pela união e pelo controle do seu grupo local. Suas qualidades pessoais permitem-lhe exercer essa liderança. Exemplo: os Shoshones dos Estados Unidos. CONSELHOS: acham-se presentes em todas as sociedades e compõem-se de um conjunto de conselheiros, geralmente homens adultos. Quando formado de homens idosos, chama-se gerontocracia. O conselho tem caráter democrático e é integrado pelos chefes dos bandos que participam das decisões. Exemplos: os Aborígenes australianos; os Astecas. ASSOCIAÇÕES: são grupos não políticos, extraestatais, que colaboram na determinação e na execução das normas políticas. Exemplos: grupos de homens, sociedades secretas (África, Melanésia), sociedades militares (índios das Planícies, Estados Unidos), conselhos tribais, castas (índia) e outros (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Shoshone dos Estados Unidos 26 Aborígene australiano 2.6 Religião e mitos A religião é um aspecto universal da cultura e, juntamente com a magia, tem despertado o interesse de vários cientistas, desde o século passado. Todas as populações estudadas pelos antropólogos demonstraram possuir um conjunto de crenças em poderes sobrenaturais de alguma espécie. As sociedades, frequentemente, desenvolvem normas de comportamento com a finalidade de se precaver contra o inesperado, o imprevisível, o desconhecido, e de estabelecer certo controle sobre as relações entre o homem e o mundo que o cerca. As normas religiosas de comportamento baseiam-se nas incertezas da vida e variam muito de uma sociedade para outra. Entretanto, tornam-se mais evidentes nos momentos de crise, ou seja, nascimento, adolescência, casamento, enfermidade, fome, morte, entre outros. Por meio de cultos e rituais, públicos ou privados, os homens tentam conquistar ou dominar, pela oração, oferendas, sacrifícios, cantos, danças, entre outros, a área de seu universo não submetida à tecnologia. Os registros arqueológicos mais antigos sobre religião datam do Paleolítico Superior, com o homem de Neandertal, que enterrava seus mortos com oferendas, demonstrando assim uma crença em algo sobrenatural. 27 A primeira e mais curta definição de religião foi dada por Edward Tylor: “a crença em seres espirituais” (s.d apud MAIR, 1972,p. 201). Marconi e Presotto (2014) citam vários estudiosos e alguns de seus pensamentos e achados sobre religião e mitos. Vejamos: Frazer, Durkheim, Marett, Hubert, Mauss, Spencer, Lowie, Malinowski, Radcliffe-Brown, Lévi-Strauss, Evans-Pritchard e outros realizaram estudos analíticos e comparativos sobre religião. Os dados acumulados sobre as crenças e práticas são inúmeros e os enfoques, variados. Uns preocupando-se com o sobrenatural, com os sistemas de relação e ação, com a função e origem da religião; outros, dando maior importância ora às crenças, ora às práticas. Para alguns, existe diferença entre religião e magia; para outros, os comportamentos são mágico- religiosos, ou seja, ligam a magia à religião. Beals e Hoijer (1969) conceituam a religião como a “crença em seres sobrenaturais cujas ações relativas ao homem podem ser influenciadas e até dirigidas”. Hoebel e Frost (1981) consideram a religião como a “crença em seres sobrenaturais e os consequentes modo e comportamento, em virtude dessa crença”. As crenças em poderes sobrenaturais ou misteriosos estão sempre associadas a sentimentos de respeito e veneração, expressos em atividades públicas ou não. Para Evans-Pritchard (1978), os fatos da religião primitiva devem ser explicados não em si mesmos, mas em relação com outros fatores, ou seja, com “aqueles que com ela formam um sistema de ideias e práticas e outros fenômenos sociais que se associam”. Não é, portanto, um fato isolado dentro da cultura. Liga-se à organização social, política, econômica, atividades de lazer, estéticas, entre outras. Os antropólogos, em geral, concordam que a religião é formada por um sistema de crenças e práticas e que todas as sociedades possuem a sua “visão do universo”. São dois os elementos constitutivos da religião: crença e ritual. Somente a crença não basta para formar uma religião, deve estar associada à prática. 28 a) CRENÇA OU FÉ: consiste em um sentimento de respeito, submissão, reverência, confiança e até de medo em relação ao sobrenatural, ao desconhecido. Não supõe compreensão. Pode-se dizer que é o desejo de aceitar qualquer coisa, provocada por algo misterioso, mas sem demonstração ou prova tangível. Seria a aceitação voluntária de uma ordem de coisas que não pode ser provada pela lógica ou pelos sentidos. O indivíduo reconhece e aceita a superioridade do sobrenatural. As crenças religiosas implicam a existência de algo superior, sobre-humano. São importantes tanto pelo seu conteúdo emocional quanto pelo intelectual. b) RITUAL OU PRÁTICA: trata-se da manifestação dos sentimentos por um ou vários indivíduos, em qualquer meio, através da ação. Embora de caráter religioso ou mágico, não é tão persistente quanto o culto. Consiste em um tipo de atividade padronizada, em que todos agem mais ou menos do mesmo modo, e que se volta para um ou vários deuses, para seres espirituais ou forças sobrenaturais, com uma finalidade qualquer. O ritual apresenta um comportamento tradicional e revela, implícita ou explicitamente, crenças, ideias, atitudes e sentimentos das pessoas que o praticam. Em todas as sociedades ágrafas ou de tecnologia simples, há sempre um conjunto de crenças relacionadas com diferentes práticas rituais que varia de uma cultura para outra. Uma cerimônia religiosa pode abranger, ao mesmo tempo, vários rituais, relacionados entre si (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Exemplos: festa de Iemanjá (oferendas, cantos, danças, entre outros); rito dos Toda (índia) baseado no leite. 2.7 As artes A arte é uma das características universais da cultura. Acha-se presente em todos os agrupamentos humanos, mesmo os mais simples e isolados. Em todas as épocas e em todos os tempos, o homem empenhou-se na busca da beleza, usando sua imaginação criadora na expectativa de satisfazer a sua necessidade de expressão estética. As atividades artísticas distinguem-se dos demais aspectos da cultura pelo seu componente estético, que proporciona satisfação e prazer não só ao artista produtor da obra de arte, mas também aos que a observam e apreciam. Nas 29 inúmeras e variadas expressões artísticas elaboradas através dos tempos, acham- se objetivadas todas as emoções humanas: alegrias, tristezas, aspirações, ideais, angústias e frustrações. A universalidade e a Antiguidade da arte despertaram entre os antropólogos o interesse em relacionar Arte e Antropologia. Sua preocupação volta-se particularmente para as relações existentes entre a arte e os demais aspectos da cultura e da sociedade, para o condicionamento e controle dos impulsos e atividades estéticas. Só no século XX começaram a apresentar o resultado dos seus estudos nesse campo, em trabalhos mais consistentes e menos descritivos. A obra clássica, que praticamente inaugura essa fase, é a de Franz Boas, intitulada Arte primitiva, publicada em 1927, cujas considerações e discussões vieram imprimir ao tema novas abordagens e novo tratamento (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Mas qual a definição de arte? 30 Poderia ser: toda manifestação do impulso criador da beleza e do prazer é esteticamente válida e merece ser chamada de arte. Darcy Ribeiro (1980, p. 257) considera “arte ou atividade artística todo produto de uma preocupação estética, de uma vontade de beleza, quando resulta numa obra de alta perfeição técnica”. Toda obra de arte pode ser observada e estudada sob duplo aspecto: a) Descritivo: quando considerada em relação a determinado tempo e espaço, identificada e caracterizada em seus antecedentes e de acordo com as influências internas e externas que a produziram. b) Simbólico: quando, ao se projetar no tempo, adquire sentido. A obra artística reflete sempre a realidade no momento em que é criada, mas o seu sentido nem sempre permanece o mesmo: acha-se sempre enriquecida, ganhando nova dimensão quando submetida a outros observadores. A arte geralmente representa simbolismo. Ao contrário dos animais, que são incapazes de simbolizar, os homens conferem significados e sentidos às palavras e aos fenômenos do cotidiano. São sempre culturalmente determinados e fazem parte do mundo das ideias, as quais levam o homem a simbolizar, ou seja, a adotar valores e sistemas de símbolos, usados para a aquisição e transmissão de conhecimentos. Entre esses sistemas, os símbolos linguísticos são os mais importantes, vindo a seguir as artes. O comportamento simbólico, característico de cada grupo humano, é aprendido e transmitido de tal forma que as experiências de apenas um membro podem servir à sociedade como um todo. Coletivamente, cada nova geração aprende os símbolos que regem sua sociedade, assimilando os modos de comportamento orientadores de sua conduta. Da mesma forma que a linguagem, as expressões artísticas fazem parte de um sistema simbólico, específico para cada cultura em particular. Símbolos, abstrações e ideias juntam-se no sentido de, através da obra de arte, expressar o conteúdo da própria cultura. Nas sociedades simples, a arte consiste em um instrumento de comunicação social, muito mais do que nas sociedades complexas. 31 O artista, ao compor suas criações, desenvolve um estilo altamente formalizado, usando valores culturalmente determinados. Sua obra tem uma função social específica dentro de sua cultura, com a finalidade de legitimar o comportamento moral e a conduta adequada. A função primordial de um produto artístico primitivo é a de comunicar simbolicamente os valores que regem sua cultura. Entre os povos ágrafos, a arte relaciona-se intimamente com a religião, com a política, com a visão do universo, com o mundo de representação e com as demais instituições culturais, servindo aos interesses individuais e sociais dos grupos humanos (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Exemplo: o desenho ou a pintura de um animal, na parede de uma caverna, tem significadoque transcende a forma apresentada, isto é, simboliza algum acontecimento mítico ou ritual, sendo seu conteúdo social e religioso. A arte destina-se a transmitir uma mensagem simbólica. A forma utilizada é sempre convencionada, ou seja, o artista criador subordina-se às exigências de sua própria cultura, cumprindo uma função social determinada. Por isso, a forma – contorno, cor, textura, entre outras – é menos importante que o conteúdo simbólico implícito em todas as produções artísticas. 32 Nas sociedades pré-letradas, a sobrecarga simbólica da arte é muito maior do que nas sociedades modernas, o que reforça os valores culturais e a coesão social. Sendo um dos aspectos da cultura, a arte deve ser estudada e compreendida em termos de sua posição no contexto cultural global. Isso é válido tanto para a arte primitiva quanto para as artes das modernas civilizações (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 33 UNIDADE 3 – TEORIAS ANTROPOLÓGICAS Além do caráter global da Antropologia, para melhor compreender o seu campo de estudo, é relevante reconhecer que existem várias correntes teóricas. Lembrando que foi no século XVIII que surgiu o projeto de fundar uma ciência do homem, ou seja, aparece o primeiro esboço daquilo que se tornará uma Antropologia Social e Cultural (ASSIS; KÜMPEL, 2011). Esse projeto antropológico supõe: a) A construção de certo número de conceitos: em especial o conceito de homem, não apenas como sujeito, mas também como objeto do saber. b) A constituição de um saber pela observação: é essencial observar, mas, além disso, é preciso que a observação seja esclarecida. c) O rompimento com o cogito cartesiano: fato que implica estabelecer o princípio da identificação com o outro e o da recusa de identificação consigo mesmo. d) A adoção de um método de observação e análise: adota-se o método indutivo, que consiste na observação dos fatos para extrair deles princípios gerais. Vários teóricos concorreram na elaboração desse projeto, mas foi Rousseau quem traçou, em seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, o programa que se tornará o da Antropologia Clássica (LAPLATINE, 2006, p. 55-6). Vejamos um pouco das teorias! 3.1 Evolucionismo O evolucionismo foi influenciado pela teoria da seleção natural de Charles Darwin que consistia na tentativa de explicar a diversidade de espécies de seres vivos através da evolução. No entanto, a teoria de evolução empregada pelos etnólogos deve mais a outro autor, o sociólogo e filósofo Herbert Spencer, cujo conceito de evolução difere em importantes aspectos daquela desenvolvida por Darwin. Mesmo assim, posteriormente, a abordagem spenceriana ficou conhecido como ‘darwinismo social’. 34 Os etnólogos evolucionistas consideravam a sociedade europeia da época como o apogeu do processo evolucionário. Portanto, este pensamento estava inserido em uma visão etnocêntrica que coloca a organização sócio-político- econômica europeia como grau máximo de civilização. Entretanto, mesmo considerando esse pressuposto, a Antropologia Cultural da época não se tornou uma pseudociência racista. A tese evolucionista apoiava o princípio da unidade psíquica da humanidade de Adolf Bastian, e defendia a existência de apenas uma espécie humana idêntica inicial (monogenismo), que se desenvolve tanto em suas formas tecnoeconômicas como nos seus aspectos sociais e culturais. A evolução ocorre em ritmos desiguais, de acordo com as populações e localizações geográficas, passando pelas mesmas etapas, para alcançar o nível final de “civilização”. Assim, a proposição básica era de que o desenvolvimento humano seguiu estágios. Em cada etapa a experiência humana acumulava, levando a formação cultural cada vez mais avançada. Esta ideia – de que a experiência humana acumula – foi inspirada no raciocínio empírico de John Locke e outros filósofos do ‘empirismo’ do Séc. XVIII. Dois argumentos davam suporte ao evolucionismo: movimento unilinear e o determinismo tecnológico ou social. Segundo a tese evolucionista, haveria um caminho só a ser trilhado por todas as sociedades, numa trajetória vista como obrigatória, seguindo uma única linha ascendente, de estágios mais simples aos mais complexos (do mais selvagem ao mais civilizado). Esse determinismo social e cultural defende que o indivíduo é determinado pelo meio sociocultural, portanto, define o estágio de maior evolução de uma sociedade, pelo grau de complexidade de sua tecnologia; já o determinismo biológico defende que a Biologia é que determina o indivíduo, implicitamente os sujeitos de pele mais alva seriam os mais evoluídos. Os evolucionistas culturais clássicos não pregaram esta postura abertamente, sendo os antropólogos físicos e os biólogos do Sec. XIX, os maiores defensores desse ‘racismo científico’. Os tópicos de interesse dessa corrente teórica eram basicamente casamento, família e organização sócio-política; religião, magia e outros sistemas ideológicos; relação indivíduo-sociedade. 35 Interessavam-se, portanto, no estudo das tecnologias, ideias e formas de organização social. O método científico usado na Antropologia (Etnologia) é a comparação de dados, retirados das sociedades e contextos sociais, classificados de acordo com o tipo (religioso, de parentesco, entre outros), determinado pelo pesquisador. Os dados coletados lhe serviriam para comparar as sociedades entre si, fixando-as num estágio específico, inscrevendo estas experiências numa abordagem linear, diacrônica, de modo a que todo costume representasse uma etapa numa escala evolutiva. Não se pode generalizar e atribuir as características acima a todos os autores que foram adeptos a essa corrente. Apesar da maioria dos pensadores evolucionistas terem trabalhado em gabinetes, um dos mais conhecidos: Lewis H. Morgan realizou pesquisas com algumas tribos dos Estados Unidos. Morgan compreendeu que grande parte da complexidade da cultura nativa americana em pouco tempo seria destruída como consequência do fluxo de europeus, por isso considerava tarefa crucial documentar a cultura tradicional e a vida social desses nativos. Outros pensadores importantes para o evolucionismo cultural são: Edward Burnett Tylor, considerado o pai do conceito moderno de cultura; John Lubbock, primeiro a rejeitar a cronologia bíblica que dizia que o mundo teria uns meros 6 mil anos: introduziu os termos paleolítico e neolítico, Velha e Nova Idades da pedra, hoje reconhecidas como períodos-chave do passado pré-histórico. A partir do estudo desses pesquisadores, podemos perceber a relação existente entre Arqueologia e Etnologia que resultou na quebra do historicismo universal (PACHECO; FONSECA, 2009). Guarde... Principais representantes: Edward B. Tylor (1832-1917), Lewis H. Morgan (1818-1881) e James Frazer (1854-1941). Alguns postulados e comentários: 36 Por volta de 1830, alguns postulados e comentários sobre o evolucionismo antropológico surgiram na Europa. Eram algumas teorias, desvinculadas de condicionamentos míticos ou religiosos, que tentavam explicar semelhanças e diferenças entre fenômenos socioculturais. O fio condutor foi o conceito de evolução, cuja ideia central era de que seria possível ordenar em série as formas de vida natural de tal modo que se infere intuitivamente ou passar de uma forma de vida a outra. Podemos dizer que foi a partir deste ponto que a Antropologia Científica deu seus passos iniciais, começando com o evolucionismo, portanto, a primeira das escolas antropológicas. Alguns traços importantes dessa corrente foram: 1. Naturalismo anticriacionista. 2. Progresso indefinido. 3. Seleção natural. 4. A linha de evolução parte do simples e chega ao complexo; do homogêneo ao heterogêneo. 5. Utiliza o método comparativo. A cultura humana é o produto de uma evoluçãonatural, sujeita às leis que regem as faculdades mentais do animal humano em seu estado social. Dessa forma, a evolução da cultura poderia ser objeto de estudo científico e tal foi seu objetivo. A metodologia de trabalho voltou-se para a classificação e comparação de achados antropológicos. Com efeito, Morgan foi um pioneiro na realização de trabalhos quantitativos de campo na Etnologia, centrando seu interesse na evolução social da família, desde os casais circunstanciais até a monogamia, considerada própria da civilização. Morgan estabelecia três etapas sucessivas e graduais: 1. Selvagismo: que por sua vez se dividia em inferior-médio (identificado pela pesca e o domínio do fogo) e superior (com domínio de armas como o arco e a flecha). 2. Barbárie: no nível inferior somente com o domínio da cerâmica e a domesticação; no nível médio com a conquista da agricultura e o ferro no nível superior. 37 3. Civilização: etapa correspondente aos povos que desenvolveram o alfabeto fonético e que possuíam registros literários. Assim, Taylor defendia que existiam diferentes tipos de famílias que evoluíam até chegar à família patriarcal em suas formas poligâmica e monogâmica. 3.2 A Escola americana Franz Boas (1858-1881) foi o principal representante da Escola americana, marcando linhas básicas de orientação que anteciparam o funcionalismo. A ideia central era considerar a cultura como uma totalidade, um conjunto de elementos integrados. A metodologia buscava provas concretas do contato cultural e a comparação de traços que existem contextualmente. Por outro lado, enfatizava evitar a limitação de apenas semelhanças para buscar também as diferenças. Boas “emprestou” de Wissler, a noção de área cultural, conceito que descreve um núcleo de influência, isto é uma zona ampla de onde se observa como um traço cultural deixa seu rastro em diferentes culturas, incorporando assim elementos psicológicos universais da cultura. 3.3 Difusionismo O termo difusionismo (do inglês diffusionism) foi empregado pela primeira vez em 1930 para: designar a corrente antropológica que procurava explicar o desenvolvimento cultural através do processo de difusão de elementos culturais de uma cultura para outra, enfatizando a relativa raridade de novas invenções e a importância dos constantes empréstimos culturais na história da humanidade (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Para os adeptos dessa corrente de pensamento, as semelhanças e diferenças culturais resultaram mais da presença ou ausência dos processos de difusão do que das invenções isoladas de diferentes culturas. Segundo os difusionistas, “o homem originário teria vivido em pequenos grupos que isolados, com o tempo criaram ciclos culturais bem caracterizados, resultantes do confronto de diferentes grupos com diferentes meios”. A partir das ideias difusionistas nasceram as primeiras teorias sobre o contato e a troca cultural entre sociedades diferentes. 38 A Antropologia Difusionista veio em resposta ao evolucionismo e foi sua contemporânea. Foi caracterizada pela antiunilinearidade, ou seja, não admitia a reta constante e ascendente cultural defendida pelos evolucionistas. Portanto, a cultura para o difusionismo era um mosaico de traços advindos de outras culturas precursoras com várias origens e histórias. Privilegiava o entendimento da natureza da cultura, em termos de origem e extensão, de uma sociedade a outra. Para os difusionistas, o empréstimo cultural seria um mecanismo fundamental de evolução cultural. O difusionismo acreditava que as diferenças e semelhanças culturais eram consequência da tendência humana para imitar e a absorver traços culturais, como se a humanidade possuísse uma “unidade psíquica”, tal como defendia Bastian. Dentro do difusionismo existiam duas correntes principais: uma britânica e outra alemã. Na escola Alemã, conduzida por Wilhelm Schmidt e Fritz Graebner, acreditava-se que os traços culturais difundiam-se em círculos para outras regiões e pessoas através de áreas culturais variadas. Esses círculos culturais eram chamados de ‘Kulturkreise’. A escola alemã foi a principal especialização, uma vez que o evolucionismo foi questionado por Herder, que foi inspirado pela unidade psíquica proposta por A. Bastian, trazendo a questão da singularidade e da geografia da herança cultural de cada povo. Na versão britânica do difusionismo existia apenas um centro cultural primordial (difusão heliocêntrica, alusão ao Deus Sol egípcio) que era o Egito Antigo, do qual todos os traços culturais derivaram. Os principais adeptos dessa teoria inglesa foram G. Elliot Smith e William J. Perry. O difusionismo tem respaldo científico, a partir do momento que suas inferências são baseadas em achados arqueológicos e pesquisas etnográficas (PACHECO; FONSECA, 2009). Guarde... Principais representantes: Graebner (1877-1942), Smith (1864-1922), Rivers(1864-1922). O difusionismo é conceitualmente uma reação às ideias evolucionistas de unilateralidade, isto é, ao evolucionismo universal de acordo as leis determinadas. 39 Assim, os estudos desta escola se concentraram nas semelhanças de objetos pertencentes a diferentes culturas, bem como especulações sobre a difusão destes objetos entre culturas. Assim, um objeto foi inventado uma só vez em uma sociedade em particular e a partir dali se expandia através de diferentes povos. Ao contrário do evolucionismo que postula um desenvolvimento paralelo entre civilizações, o difusionismo enfatiza o contato cultural e o intercâmbio, de tal maneira que o progresso cultural mesmo é compreendido como uma consequência do intercâmbio. Dessa forma, ao se produzir um contato entre duas culturas, estabelece-se um intercâmbio de traços associados que foram tomados na qualidade de “empréstimo”, mas que passam a formar parte da cultura. Esse empréstimo cultural é a transposição de elementos culturais através de um processo seletivo em que os traços que mais se adaptam à cultura são assimilados de tal modo que se transformam, incluindo em sua função. São considerados aportes do difusionismo a importância outorgada à inter- relação entre os fenômenos culturais, a notável acumulação de informação etnográfica e a insistência nos trabalhos de campo (pesquisas de campo) (BRITO, 2007). 3.4 A Escola francesa A Escola francesa tem como principais representantes: Émile Durkheim (1858-1917), Marcel Mauss (1852-1950), Levy-Brhul (1857-1939), Ch. A. van Gennep (1873-1957). Durkheim, fundador da escola sociológica francesa, assinalou de forma precisa a interdependência de todos os fenômenos sociais, assim, qualquer fato seria estudado tendo em conta os demais através de uma visão totalizante. Com efeito, esta linha é um claro precedente do funcionalismo. Marcel Mauss por sua vez, defendeu que nenhuma disciplina humana poderia construir conceitos ou classificações para interpretá-los isoladamente, a consequência direta desta ideia seria a rejeição ao método comparativo (BRITO, 2007). 40 3.5 Funcionalismo Na década de 30, a Antropologia Teórica foi contemplada com nova orientação, o Funcionalismo, cujos pressupostos básicos imprimiram diferente forma explicativa dos fenômenos culturais. Não representava o desprezo nem mesmo a negação das orientações que o antecederam, mas sim nova abordagem que teve o mérito de inovar no campo da interpretação antropológica. Os mentores dessa escola, ao proceder ao estudo da cultura, passaram a preocupar-se não mais com suas origens ou sua história, mas com a lógica do sistema focalizado, ou seja, defendiam a visão sincrônica, procurando conhecer a realidade cultural em dado momento e a visão sistêmica, relacionando a sociedade a um organismo, a uma unidade complexa, a um todo organizado. Pode-se afirmar que os pioneiros da análise funcional em seus postuladosmais gerais desenvolveram seus trabalhos no campo da Sociologia. Entre eles, os nomes de Herbert Spencer e Emile Durkheim são reconhecidos pelos próprios antropólogos sociais que adotaram a orientação, repensando-a dentro do campo antropológico (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Principais representantes: Bronislaw Malinowski (1884-1943), Radcliffe- Brown (1881-1955). Malinowski defendia que as instituições desempenham funções específicas e, assim, contribuem para sustentar a ordem social. O Funcionalismo enfatizava a interconexão orgânica de todas as partes de uma cultura pondo em primeiro plano a ideia de totalidade. Dessa maneira, postulava uma universidade funcional que se opõe ao difusionismo. Análise funcional é uma explicação de fatos antropológicos em todos os níveis de desenvolvimento, de acordo com o papel que jogam dentro do sistema total da cultura, de modo que estão inter-relacionados com o interior do sistema e pela forma que o sistema se vincula ao meio físico. O conceito de função, de acordo com Malinowski se refere ao papel que joga um aspecto em relação ao resto da cultura e em última instância, orientado sempre a satisfação das necessidades humanas, isto é, a sobrevivência (BRITO, 2007). 41 Será um passo adiante na linha de trabalho de Radcliffe-Brown, que encampou o conceito de estrutura social. Com efeito, para este autor não há função sem estrutura. Por estrutura se entende uma série de relações unificadas, na qual a continuidade se conservaria através de um processo vital composto pelas atividades das unidades constitutivas. Sabe-se que existem requisitos prévios e uma série de condições necessárias para a sobrevivência de uma sociedade ou a manutenção de uma estrutura. Assim, de acordo com a teoria Funcionalista, certas formas culturais ou sociais são indispensáveis para que algumas funções possam desempenhar-se. As consequências do modelo teórico formulado pelos teóricos do funcionalismo se manifestam na prioridade outorgada à análise sincrônica e histórica, à noção integrada da sociedade com certa tendência a concebê-la como um complexo sistema fechado, bem como o abandono àquilo que as correntes teóricas anteriores consideravam como a origem da cultura. O funcionalismo constituiu-se numa reação positiva às teorias Evolucionistas e Difusionistas, principalmente em relação ao conceito de sobrevivências. Valorizou a pesquisa de campo que aproxima o observador dos grupos nativos, que passam agora a ser o centro de referência, reconhecidos como portadores de padrões próprios e respeitáveis dentro da lógica do sistema que desenvolvem. O funcionalismo realizou verdadeira revolução dentro das ciências do comportamento, dando novas perspectivas à teoria antropológica (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 3.6 Estruturalismo antropológico Entre as orientações teóricas da Antropologia, a escola estruturalista é a mais recente, não tendo sido ainda suplantada por outra. Desenvolveu-se paralelamente ao funcionalismo e teve seu apogeu nas décadas de 40 e 50. Adotou posições próprias, sempre de natureza subjetiva. Considerada como uma superteoria, nem por isso deixa de ter os seus pontos vulneráveis que suscitam críticas e questionamentos (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Mello (1982, p. 262), em suas considerações sobre essa corrente do pensamento, afirma: 42 [...] julgamos o estruturalismo como uma espécie de refinamento do funcionalismo. Ao menos, é forçoso reconhecer que esta escola não se opõe ao funcionalismo. De certo modo, podemos afirmar que existem muito mais pontos de convergência entre elas do que de discordância. Acresce a isso que também Radcliffe-Brown utilizou largamente o termo estrutura, mas de forma diferente da empregada por Lévi-Strauss. Estruturalismo e funcionalismo são duas orientações diferentes e individualizadas por suas características e pressupostos básicos próprios. Entretanto, em alguns pontos são concordantes: 1. Visão sincrônica da cultura. 2. Visão sistêmica e globalizante do fenômeno cultural. 3. Adoção do termo estrutura. 4. Influência da Escola francesa. Principais representantes: Levi-Strauss, Needham, Douglas, Turner e Dumont. Segundo Brito (2007), o estruturalismo busca superar algumas deficiências observadas em outras teorias e tem a pretensão de alcançar uma explicação da lógica das organizações sociais em sua dimensão sincrônica, sem deixar de lado a dimensão diacrônica. A metodologia do estruturalismo se deve particularmente à Linguística, e desenvolve a noção de estrutura. O aporte teórico de Levi-Strauss enfatiza a estrutura mental que subjaz as instituições. Nesta linha de pensamento, os fatos sociais poderiam ser compreendidos como processos de comunicação definidos por regras, algumas delas conscientes (ainda que apenas superficialmente já que podem estar ocultando aspectos da realidade) e outras em nível profundo do inconsciente. A análise estrutural não é uma esquematização superficial, mas a compreensão profunda da realidade objetiva e supõe compreender a atividade inconsciente, observando cada instituição ou cada fenômeno social em suas diferentes manifestações para descobrir as regras ocultas. Nesta linha interpretativa, uma estrutura se basta em si mesma e não necessita nada mais para ser captada. 43 As críticas mais frequentes ao estruturalismo antropológico se concentram no uso seletivo das fontes etnográficas secundárias e que na maioria das vezes, a teoria é forçada e não se ajusta à realidade empírica. São postulados básicos do funcionalismo: 1. Visão sincrônica e sistêmica da cultura. 2. Visão globalizante do fenômeno cultural (o conhecimento do todo leva à compreensão das partes). 3. Adoção das noções de estrutura social e relações sociais. 4. Utilização de modelos na análise cultural. 5. Unidade de análise: estruturas mentais inconscientes. 6. Compreensão ampla da realidade cultural (MARCONI; PRESOTTO, 2014). 3.7 Dinamismo Principais representantes: Gluckman e Leach. Tanto o funcionalismo quanto o estruturalismo são teorias que representam visões estáticas da sociedade e consideram que se algo é necessário para que funcione ou é básico em sua estrutura institucional ou mental, esse algo deve ser bastante estável, ou a sociedade em questão não existiria. Entre as críticas mais frequentes a estas concepções, considera-se que a mudança é uma evidência, sendo que marginalizar sua influência supõe uma análise limitada da realidade. A partir dos anos de 1950 surgiram estudos que tentaram analisar as mudanças e suas consequências. O dinamismo é, pois, um fenômeno interno de toda sociedade, além de ser um elemento fundamental em sua coesão. Nesta linha de pensamento, Gluckman desenvolveu a noção de “conflito” para descrever as tensões no seio de uma sociedade. Leach, defendeu a noção de “ciclos” para descrever os desenvolvimentos periódicos e de mudanças (BRITO, 2007). 44 3.8 Neoevolucionismo Principais representantes: White, Steward e Childe. A diferença do evolucionismo do século XIX, que tomava como princípio central o desenvolvimento progressivo e a mudança no sentido unilinear que se tornava complexa e se aperfeiçoava através do tempo, o neoevolucionismo da metade do século XX tentava explicar o desenvolvimento da cultura em função da energia disponível pelo indivíduo, isto é, considerando a evolução com o aumento progressivo das técnicas para sua obtenção (BRITO, 2007). 3.9 Ecologismo cultural Principais representantes: Fried, Harris e Sahlins. Ainda dentro do marco do neoevolucionismo, Steward assinala a importância das relações entre o meio e a sociedade, especialmente as condições em que se desenvolve a produção. Esta vertente dará lugar à corrente do ecologismo cultural (BRITO, 2007). 3.10 Estruturalismo marxista Godelier é o principal representantedo estruturalismo marxista. Na década de 1960, o estruturalismo marxista tentará explicar o pensamento selvagem a partir da dialética e da luta pelos meios de produção, destacando a importância da infraestrutura econômica para a compreensão das superestruturas sociais, materiais e simbólicas. Assim, os tópicos mais frequentes dos trabalhos de Godelier foram a economia, o fetichismo e a religião (BRITO, 2007). 3.11 Neodifusionismo Na década de 1970, Wallesrtein, se tornou representante de uma reação contra o neoevolucionismo. O ponto central do neodifusionismo é o de considerar a história escrita como fonte indispensável para os estudos antropológicos e também a ponderação das enormes e extensas repercussões de fatos econômicos em sociedades remotas. A ideia de Wallesrtein era ressaltar que a interdependência entre economia e sociedade surge do fato que são as mesmas pessoas que atuam 45 nas diferentes esferas, isto é, no âmbito familiar ou nos aspectos político, religioso e econômico (BRITO, 2007). 46 UNIDADE 4 – ANTROPOLOGIA JURÍDICA Segundo explicações de Assis e Kümpel (2011), alguns problemas surgidos na pré-história da Antropologia e seus desdobramentos na sociedade contemporânea demonstram que o estudo do Direito não pode restringir-se apenas ao aspecto dogmático, que implica meras sistematizações e classificações de normas jurídicas emanadas do Estado. O mundo jurídico é mais articulado e complexo do que aparece nesse tipo de estudo. A ciência do Direito, como diz Tércio Sampaio Ferraz Jr. (1995, p. 92), envolve sempre um problema de decisão de conflitos sociais, motivo pelo qual tem por objeto central o próprio ser humano que, por seu comportamento, entra em conflito e cria normas para decidi-lo. O ser humano é, pois, o centro articulador não apenas do pensamento antropológico, mas também do pensamento jurídico. Daí que as conexões do Direito com a Antropologia são evidentes, visto que o ser humano constitui objeto central dessas duas áreas do conhecimento, motivo pelo qual temas como igualdade e diferença são, ao mesmo tempo, jurídicos e antropológicos. Além disso, o direito constitui um dos aspectos da cultura, e esta constitui objeto específico da Antropologia Cultural. A Antropologia, tal como o direito, também se interessa pelos conflitos sociais, principalmente no que diz respeito à intervenção normativa na decisão jurídica desses conflitos, bem como pelo desdobramento da ordem jurídica diante das transformações culturais, sociais, políticas e econômicas. Marconi e Presotto (2014) citam três grandes escolas de Antropologia Legal (jurídica) que foram criadas no século XIX e ainda existem: a britânica, a holandesa e a americana, sendo a primeira a mais conhecida. As características da britânica são: 1. Basicamente mercantil – os britânicos visavam garantir seus monopólios comerciais e conservar abertos os meios de transporte de suas mercadorias, em vez de conquistas de terras e de povos. 47 2. Dominação indireta: a) construção de portos fortificados que pudessem ser controlados como centros de comércio e base naval; b) criação de Estados-clientes, que pudessem governar cordialmente a baixo custo; 3. Utilização do Direito Consuetudinário da estrutura imperial. Mudança no direito consuetudinário, entretanto, torna-se muito difícil, pois trata-se da cultura legal de um povo. O que poderia ser imoral para um povo, pode ser legal para outro. Exemplo: o “sati” – costume de cremar a viúva, viva, na pira de seu falecido marido, comum entre hindus do norte da índia. O “lobola” ou “bogadi”, referente ao pagamento de gado, pelo noivo, à família da futura esposa, entre tribos africanas e outras. Os holandeses também fundaram escolas de Antropologia Jurídica visando governar melhor seu império colonial. Seu objetivo era o de compreender as leis consuetudinárias, entre elas o Adat. As origens da Escola americana de Antropologia Jurídica são mais complexas, por ter sido o país sempre imperialista. Os antropólogos estudaram a Nação Cheyenne, quando desenvolveram uma metodologia para a pesquisa, o Estudo de Caso. Na realidade, os americanos também praticavam a dominação indireta em suas conquistas nas ilhas Filipinas. Seu primeiro grande estudo diz respeito ao povo Ifugao. Nos últimos anos, a Antropologia Jurídica se converteu em um campo de especialização importante na Antropologia mexicana e latino-americana. Muitos desses estudos abordam a problemática do direito em sociedades coloniais, pós- coloniais e ágrafas. A Antropologia Jurídica tem se voltado para o estudo da organização social, das regras, das sanções, do controle social, dos costumes no casamento, dos comportamentos, entre outros. Pesquisam a violência familiar, policial, entre outras. O campo da pesquisa, para o antropólogo ou estudioso da ciência jurídica, é o do direito comparado, cujas principais escolas encontram-se na França e no México. 48 O Brasil oferece ao antropólogo jurídico um imenso laboratório de pesquisas em todas as áreas do direito, para isso, utilizam métodos e técnicas específicas (MARCONI; PRESOTTO, 2014). Para Rouland (2003, p. 405), a Antropologia Jurídica demonstra sua utilidade quando permite descobrir (e entender) o direito que se encontra encoberto pelos códigos. Essa utilidade também se evidencia quando prepara e alerta a sociedade para aceitar as evoluções jurídicas que estão em curso e que apontam para um direito mais maleável, punições flexíveis, transações ou mediações em vez de julgamentos, regras que mais formam modelos do que prescrevem ordens. Tudo isso, segundo ele, pode ser aceito mais naturalmente quando as pessoas tomam conhecimento de que há muito tempo ou que em algumas sociedades, homens e mulheres, aos quais chamamos primitivos, já reconheceram esses procedimentos, ou os empregam ainda. Assim, a Antropologia Jurídica dedica-se ao estudo do Direito das sociedades “simples”, das instituições do Direito da sociedade contemporânea, do Direito Comparado e do pluralismo jurídico (SOUZA et al., 2014). Shirley (1987, p. 14) divide o estudo da Antropologia Jurídica em três tipos: a Antropologia Legal – é o trabalho clássico do antropólogo legal [...], o estudo da ordem social, de regras e sanções em sociedades ‘simples’, ‘direito primitivo’ na terminologia mais antiga; a Antropologia Jurídica – é o emprego de métodos antropológicos de pesquisa, observação participante e comparação com modernas instituições de Direito. Trabalhos nesta linha têm sido feitos na polícia, na magistratura e até em prisões; o Direito Comparado – é o estudo e comparação de diferentes sistemas jurídicos, simples e complexos, em que a colaboração do antropólogo é imprescindível para auxiliar nesta espécie de trabalho, pelo alcance de seu conhecimento multicultural e de sua consciência de muitos tipos diferentes de instituições jurídicas que não as das sociedades modernas ocidentais. 49 Inicialmente, é importante esclarecer que para se pensar em Antropologia Jurídica temos que desvincular o Direito do Estado e da escrita, ou seja, desmitificar o monismo jurídico, representado pelo Direito Ocidental como um paradigma incontestável, assegurado por um aparato estatal e apresentado por uma codificação escrita. Isto não significa que o Direito estatal positivado não seja considerado Direito para a Antropologia, mas é apenas mais uma forma de Direito (SOUZA et al., 2014). O monismo jurídico foi instituído na sociedade ocidental por volta dos séculos XVII e XVIII, sob a influência do absolutismo monárquico e da burguesia revolucionária, havendo um processo de racionalização do poder e de centralização burocrática. Após a revolução Francesa são incorporados “os múltiplos sistemas normativos sob a base da igualdade de todos perante o Direito nacionaluno e comum”. Assim, eliminou-se a “estrutura política corporativa” e minimizaram-se “as experiências de pluralismo legal e processual” (WOLKMER, 2006, p. 638). O Direito Ocidental é dotado de um sistema de representações específicas em que “as diferenças são negadas em nome da justiça e da igualdade, a unidade tende a confundir-se com a uniformidade” (ROULAND, 2003, p.83). Na realidade, todos os indivíduos agem de acordo com a comunidade a que pertencem. Inicialmente a família, depois a rede de amizades e a esfera profissional. Cada qual tem suas regras próprias de moral, de polidez e de condutas que são cobradas independentemente da interferência de Direito oficial (ROULAND, 2003, p. 83-88). Pelo estudo do Direito de outras sociedades, a Antropologia Jurídica nos permite compreender melhor o sistema jurídico da nossa própria sociedade. Inicia-se com as microanálises de grupos específicos, depois, “no plano global, as diferenças entre as diversas tradições culturais retomam toda a sua força: um chinês, um europeu e um iraniano não fazem a mesma ideia de Direito”. Com relação a esta questão, os empresários têm utilizado os trabalhos dos antropólogos para entenderem esta diversidade no momento de estabelecerem relações comerciais internacionais (ROULAND, 2003, p.89). O objeto de estudo da Antropologia Jurídica clássica é o Direito das sociedades “simples”, sem escrita e sem Estado – ou distante dele. Embora muitos 50 autores relacionem o Direito apenas com o Estado, a Antropologia moderna provou que existe Direito em sociedades sem Estado (SOUZA et al., 2014). De acordo com Krotz (2002, p 24-5 apud MARCONI; PRESOTTO, 2014), a Antropologia Jurídica trata de explicar fenômenos através de estudos mediante a procura de estruturas subjacentes ao observável e ao explícito. Na medida em que logra, o estudo científico-social do 'jurídico', sobrepassa os limites do fenômeno legal propriamente dito e contribui para o conhecimento da sociedade estudada em seu conjunto. O primeiro problema a ser definido na pesquisa é o que pode ser considerado lei, direito e sistema jurídico. Lei é uma regra de direito ditada pela autoridade estatal e tornada obrigatória para manter a ordem e o progresso da comunidade. A Lei se encontra em todas as partes onde há sociedade, mas as normas legais diferem de acordo com as diferentes sociedades. As normas são preceitos existentes em uma sociedade e dizem respeito a certo grau de obrigatoriedade para seus membros, portanto, certo conhecimento geral. O sistema de regras fundamenta um certo consenso. De outro modo, não seriam regras, “mas ordens terminantes, obrigações sem ambiguidade e sem espaço de interpretação, sem possibilidade de desvio ou delito” (KROTZ, 2002, p. 33 MARCONI; PRESOTTO, 2014). O sistema de regras reflete as características socioeconômicas e políticas fundamentais da realidade sócio-histórica. Ao mesmo tempo, expressa os valores fundamentais aceitos consensualmente pela respectiva sociedade. Essa expressão só se torna clara a partir do estudo do sistema como um todo, ou seja, o conjunto de proibições, prescrições, permissões, isenções, requisitos, limites e tipos da consideração de circunstâncias especiais e da instituição elaborada. Assim, a Antropologia Jurídica pode ser entendida de duas maneiras: 1. Trata-se de um ramo da Antropologia que aborda um campo ou uma esfera social de um algum modo distinto de outros campos ou esferas sociais. 51 2. Refere-se a uma perspectiva específica elaborada para a captação da realidade social, dando conta da vida e das características de uma determinada sociedade. Nas sociedades ágrafas, os sistemas de regras diferem dos das sociedades com algum desenvolvimento industrial e informativo. A Antropologia põe em evidência a multiplicidade de práticas e ideias jurídicas, condutas e normas legais na sociedade que estuda. Esses sistemas jurídicos encontram-se à margem da legislação estatal. Não há dúvidas que a Antropologia é uma ciência interpretativa em busca de significações, assim, a pesquisa e a análise dos dados coletados permitem decifrar as estruturas de significação da coletividade que as compartilha. Para Krotz (2002, p. 37 apud MARCONI; PRESOTTO, 2014), aqui se trata de uma aproximação ao estudo dos fenômenos jurídicos, e não se limita ao registro de ações e coleta de expressões verbais, mas se interessa também pelo mundo das ideias, dos estereótipos, das expectativas, das emoções e das valorizações conscientes e comunicáveis encontradas entre os integrantes da pesquisa. Qualquer sistema normativo, criado pelo homem, permite saber como os membros de um grupo são introduzidos no mundo dos direitos e deveres, faculdades e obrigações. Desse modo, os processos de enculturação jurídica fazem parte do estudo sócio-científico do direito, incluindo a transmissão de normas e de justificações. Um dos campos de estudo da Antropologia Jurídica é o dos direitos humanos. Direito legalmente reclamado como o de direitos morais, que todavia não se encontram nas regras legalmente obrigatórias. O código dos Direitos Humanos reflete uma certa visão ideal do ser humano e da sociedade. Enfim, Antropologia Jurídica é a investigação dos mecanismos de regras executáveis da sociabilidade humana por meio de métodos que empreguem teorias antropológicas, usem a interdisciplinaridade e perspectiva holística típica da Antropologia, compreendam o universal pelo particular – preferencialmente por extensivo trabalho de campo. Por ter tanto o direito positivo, costumes, doutrina, operações e relações jurídicas sob o mesmo plano, a Antropologia Jurídica não distingue entre o dever-ser 52 e o ser. Nessa disciplina, tanto o abstrato e o concreto são manifestações da cultura, portanto, sujeito aos mesmos métodos e teorias de análise (ALVES, 2012). 53 UNIDADE 5 – ANTROPOLOGIA TEOLÓGICA Vimos que Antropologia é a ciência que se preocupa, que estuda o ser humano em maior profundidade e também a humanidade de maneira totalizante. Entretanto, como nos afirma Berti (2010), a Antropologia bíblica difere-se da Antropologia científica em fundamento, abordagem e propósito: fundamento – encontra-se exclusivamente na Revelação Especial de Deus ao homem; abordagem: feita a partir da visão bíblica do homem, e não, como propõe a Antropologia Científica, do homem pelo homem; propósito – demonstrar a postura privilegiada do homem em relação às demais criaturas, bem como sua atual deficiência moral diante de Deus. A Antropologia (anthropos = homem, ser humano; Logos = estudo, tratado) surgiu com o filósofo grego Heródoto, no século V a.C. Por ser o primeiro, pelo que se sabe, a tratar sistematicamente do tema, é considerado o pai da Antropologia. Ao longo da história, porém, esta ciência passou por grandes mudanças, gerando várias correntes. Destacamos três delas: a) A Antropologia Filosófica pagã, mas aberta ao transcendente. Os filósofos antigos buscavam a autonomia da razão, mas não desprezavam ou negavam a possibilidade da existência de divindades e até as levavam em conta, chegando até mesmo à divinização do cosmos. b) A Antropologia Teológica (de índole judaico-cristã). É a que estuda o ser humano (Anthropos) tendo como referência fundamental Deus (Theos). Passou-se da centralização no cosmo divinizado (fase pagã) para Deus, quando o cristianismo suplantou a visão grega da realidade e colocou tudo o que existe na relação com o Deus revelado (fase cristã). A Antropologia teológica trabalha sobre a profundidade do ser: origem e fim, riquezas e limites, aspirações e linguagem, comportamentos, mas à luz da revelação divina. Visa-se chegar a algo fundamental: o ser humano é capaz de Deus, de acolhê-lo, conviver com ele, em comunhão e parceria com ele (cf. Catecismo da Igreja Católica – nºs 27-73).54 Há um pressuposto para esta vertente da Antropologia: Deus não é uma fantasia ou um agregado mental na vida humana. Ele integra a própria estrutura humana e lhe confere a vocação transcendente, que impulsiona o ser humano a ir além de si, a aspirar ao infinito, a reconhecer suas limitações (fraqueza, enfermidade, erros, morte, pecado), que o desafiam a respeito do sentido da vida, do sofrimento, da morte e da pós-morte. Deus lhe dá ao ser humano a capacidade de reconhecer o valor de tudo o que existe e de transcender à realidade do aqui- agora, por um valor maior e mais plenificador. É exatamente esta busca do transcendente que ele humaniza de modo maravilhoso a si mesmo como ser humano (o humanum), isto é, quanto mais ele se insere em Deus e no Projeto dele, mais encontra a felicidade. E é esta extraordinária capacidade que o faz, também, humanizar tudo no cosmos, estudá-lo, manipulá-lo e canalizar todas as suas riquezas em vista da felicidade, um desejo insaciável que faz parte de seu ser como gente. Aos poucos apareceram dois princípios estruturais na Antropologia Teológica: o arquitetônico e o hermenêutico. O arquitetônico como eixo do ordenamento de todos os eventos da história da salvação em função de um Plano que Deus tem para a história do cosmos, da terra e da humanidade: é o Plano Salvífico. O hermenêutico como portador da verdade primária sob cuja luz a Teologia procura compreender e interpretar e interligar os aspectos da história da salvação. Todos os grandes pensadores do cristianismo colaboraram com o desenvolvimento da Antropologia Teológica, vista no seu todo. c) A Antropologia Filosófica Secularista realiza a mudança da centralização em Deus para a centralização no homem, mas sem Deus. Este passo ocorreu na época moderna em consequência da secularização e do ateísmo, este último desenvolvido no seio da filosofia europeia e, especialmente, pelo comunismo. Para os filósofos secularistas, mas esta vertente tem seus inícios já no Renascimento (século XVI), Deus desaparece de cena e cede lugar ao homem. O espírito humano abre-se a um novo modo de ver e agir. Dá-se um violento contraste com o modo precedente de entender todas as coisas e acontecimentos, que tinha Deus como centro de tudo e de todo interesse humano, e passa a assumir o homem como 55 centro de tudo. Acontece, portanto, a passagem do teocentrismo para o antropocentrismo. Os mais importantes filósofos dessa virada histórica do modo de pensar o sentido e a razão de ser do ser humano são Descartes, Hume, Espinosa, Hobbes, Kant. Mas é Immanuel Kant, sem dúvida, quem atinge o ápice do pensamento independente da referência a Deus, à religião, ao afirmar que o homem não é mais simplesmente o ponto de partida, mas também o ponto de chegada da reflexão filosófica e de toda a história. É ele que abre as possibilidades para que dali em diante muitos filósofos deem continuidade, aprofundem e motivem levar à prática o secularismo ateu (NERY, 2014). A Antropologia Teológica ocupa-se unicamente com o que a Bíblia diz a respeito do homem e da relação em que ele está e deve estar com Deus (BERKHOF, 2001, p. 167) A Antropologia Bíblica confina-se à Palavra de Deus e a corroboração que a experiência humana pode dar testemunho que confirma a verdade revelada (CHAFER, 2003 p. 535). A Antropologia Bíblica e Teológica Cristã, em sua complexa e maravilhosa união entre básâr, nephesh e ruach, integra obrigatoriamente nossa vida e missão de discípulos missionários de Jesus Cristo. O Concílio Vaticano II, especialmente mediante a Gaudim et Spes revoluciona a Igreja Católica quanto ao modo de lidar com a concreticidade do ser humano como pessoa e como cultura, construtor da mundo justo e solidário e como história. Mais que teoria, que tem em si seu valor, o que interessa para os cristãos é a questão da práxis, com o objetivo de superar o fosso entre fé-vida, fé-cultura que predominou por tanto tempo em nosso modo de ver, interpretar e viver a fé cristã, fosso que também acontece em relação ao nosso modo de vivê-la pessoal, comunitária e socialmente (NERY, 2014). A segunda Conferência Episcopal dos Bispos de América Latina, em Medellín, deu um passo gigantesco ao aplicar em nosso continente os ensinamentos da Bíblia e da Gaudium et Spes, mormente, pela ousada Eclesiologia inspirada na Comunidade Eclesial de Base, pela profética maneira de fazer e operacionalizar Teologia a partir da incipiente mas esperançosa ‘Teologia da Libertação’, pela 56 encarnação e inculturação da fé na situação real do povo e pela opção preferencial pelos pobres. Medellín, no capítulo sobre catequese, diz que as situações verdadeiramente humanas fazem parte do conteúdo da catequese (cf. Medellin, 8). E o Documento da CNBB Catequese Renovada, Orientações e Conteúdo assume esta orientação de Medellín e propõe a prática libertadora a partir do princípio metodológico da interação fé-vida (CR 112-113; 116-117) A catequese dispõe, neste momento da história, das melhores orientações da Igreja e da experiência da base para realmente se renovar. E tanto o Diretório Geral da Catequese, o Diretório Nacional de Catequese como o Documento de Aparecida e o Estudo da CNBB Iniciação à Vida Cristã estão aí à disposição para que demos continuidade ao processo renovador e libertador que vem marcando a história da nossa Igreja em nosso continente, mormente no Brasil. Os desafios hoje de um mundo cada vez mais plural e de verdadeira e ampla mudança civilizacional estão a exigir de nós esta coerência profética e martirial da conversão, da fundamentação e da práxis em vista da salvação plena do ser humano, tanto em sua realidade humana aqui na terra como para a vida eterna feliz no seio da Santíssima Trindade (NERY, 2014). Vimos acima palavras defensoras dos crentes católicos e cristãos, e alguns podem estar se perguntando, o porquê de tanta ênfase na Antropologia Teológica. Acreditamos que vale a pena conhecer todas as definições e usos das ciências e cada um tirar suas próprias conclusões. De fato a Antropologia Teológica formula a pergunta: “o que significa ser humano, à luz da revelação cristã? Ser humano significa ser encarnado, ser social e linguístico, ser ao mesmo tempo pecador e agraciado, e ser sexual, entre muitas dimensões da nossa existência” (ROSS, 2008). Como nos lembra o Pe. Kolling, Antropologia, como ciência, existe há poucos séculos, mas, como inquietação que desperta estudos e observações do agir humano, já é milenar. Ao lado de muitas outras ciências que se ocupam com o estudo do complexo sistema da vida humana, a Antropologia apresenta uma peculiaridade: quer estudar o ser humano no seu “todo”, isto é, estudar o que os humanos produzem na sua globalidade, ou seja, tudo o que envolve a cultura humana. 57 Sabemos que, ao lado de tantos outros seres humanos, captamos e produzimos cultura, arte, pensamento, poesia, folclore, ciência, tradições, leis e tantas outras coisas, mas somos, simultaneamente, afetados por estas variadas produções humanas. Podemos, pois, definir a multiplicidade de inventos, criações e descobertas, ao lado de todos os avanços da humanidade, como equivalentes ou como expressão do que chamamos de cultura. Portanto, estudar Antropologia significa ocupar-se com a procura do entendimento de povos, de grupos humanos específicos, mas, também da humanidade como um “todo”. Tal estudo pode ser feito sobre aspectos biológicos, físicos, sociais, culturais e até filosóficos, quando estes procuram entender racionalmente os seres humanos, tanto pelo que são, quanto pelo que fazem. A relação da Antropologia Cultural com a Teologia está em que cultura afeta a religião e, simultaneamente, concepções teológico-religiosas afetam dimensões da cultura. Entretanto, quando nos referimos à cultura, encontramos certa dificuldade,porque esta pode ser estudada sob muitas subáreas do conhecimento antropológico. Apesar desta reciprocidade entre Antropologia e Teologia, elas não se ocupam exatamente da mesma coisa, porque as duas áreas nos remetem ao entendimento dos seres humanos. Se a Antropologia estuda a religião como um dos importantes componentes da cultura, a Religião Cristã, por exemplo, parte de um dado de fé, isto é, parte da revelação de Deus, através de Jesus Cristo. Enfim: Na Religião ocorre um evidente risco de se exercer uma violência em nome do sagrado, quando se quer sustentar uma linguagem hierofânica1 para toda a multiplicidade de diferenças culturais. Ao se prender excessivamente a certas epistemologias ou tradições filosóficas interesseiras e, ao declará-las perenes, pode distanciar-se profundamente do que mais interessa aos seres humanos que é a plenitude da sua existência. Em outras palavras, a Religião pode transformar-se numa grande fonte colonizadora de mentes e de intelectos a partir de preceitos espirituais que facilmente fogem dos mais profundos anseios humanos. 1 Manifestação do sagrado – Ferreira (2006). 58 A Antropologia, por sua vez, ao lidar com dados revelados e não manipuláveis para comprovações científicas, pode, também, restringir o profundo senso religioso da humanidade a meras manifestações culturais, criadas e divulgadas a partir de certas pretensões de quadros sociais (KOLLING, 2013). Reflitam! 59 REFERÊNCIAS REFERÊNCIAS BÁSICAS ASSIS, Olney Queiroz; KÜMPEL, Vitor Frederico. Manual de Antropologia jurídica. São Paulo: Saraiva, 2011. MARCONI, Marina de Andrade; PRESOTTO, Zélia Maria Neves. Antropologia. Uma introdução, São Paulo: Atlas, 2014. REFERÊNCIAS COMPLEMENTARES ALVES, Leonardo Marcondes. Antropologia jurídica: uma definição clássica (2012). 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