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Resumo do Texto Retórica ARISTÓTELES. Retórica, Trad. de Manuel Alexandre Júnior, Paulo Farmhouse Alberto, e Abel do Nascimento Pena. São Paulo: Folha de São Paulo, 2015. (Coleção Folha. Grandes nomes do pensamento: v 1) Na retórica aristotélica nós encontramos o saber como teoria, o saber como arte e o saber como ciência; um saber teórico e um saber técnico, um saber artístico e um saber científico. No trânsito da antiga para a nova retórica, ela naturalmente transformou-se de arte da comunicação persuasiva em ciência hermenêutica da interpretação. O seu duplo valor como arte e ciência, como saber e modo de comunicar o saber, faz dela também um instrumento mediante o qual podemos inventar, reinventar e solidificar a nossa própria educação. O esforço transdisciplinar que hoje em dia se faz para melhor compreender o papel da retórica e da hermenêutica na crítica do texto filosófico e literário mostra-nos que estas são duas áreas do saber intrinsecamente ligadas à essência da praxis humana. Lisboa, 2004. MANUEL ALEXANDRE JÚNIOR INTRODUÇÃO 1. Origem da retórica e formação do sistema retórico · Sendo uma das disciplinas humanas mais antigas e mais verdadeiramente internacionais, a retórica, à semelhança da gramática, da lógica e da poética, não é uma ciência a priori. Como observa Edward Corbett, a Retórica de Aristóteles não é o produto da mera idealização de princípios nascidos com ele e por ele convencionados para persuadir e convencer outras pessoas. É, sim, o produto da experiência consumada de hábeis oradores, a elaboração resultante da análise das suas estratégias, a codificação de preceitos nascidos da experiência com o objetivo de ajudar outros a exercitarem-se corretamente nas técnicas de persuasão. · Desde Homero que a Grécia é eloquente e se preocupa com a arte de bem falar. Tanto a Ilíada como a Odisseia estão repletas de conselhos, assembleias, discursos; pois, falar bem era tão importante para o herói, para o rei, como combater bem. · Foi, porém, na Sicília que a retórica teve a sua origem como metalinguagem do discurso oratório. Por volta de 485 a. C., dois tiranos sicilianos, Gélon e Hierão, povoaram Siracusa e distribuíram terras pelos mercenários à custa de deportações, transferências de população e expropriações. Quando foram destronados por efeito de uma sublevação democrática, a reposição da ordem levou o povo à instauração de inúmeros processos que mobilizaram grandes júris populares e obrigaram os intervenientes a socorrerem-se das suas faculdades orais de comunicação. Tal necessidade rapidamente inspirou a criação de uma arte que pudesse ser ensinada nas escolas e habilitasse os cidadãos a defenderem as suas causas e lutarem pelos seus direitos. E foi assim que surgiram os primeiros professores da que mais tarde se viria a chamar retórica. · De todos os que seguiram a vertente retórica, o mais célebre, tanto pelos elogios dos seus admiradores como pelos ataques de Platão, foi Górgias. · Com Górgias valorizou-se na retórica uma nova perspectiva de natureza paradigmática, valorizaram-se o estilo e a composição que têm a ver com a elocutio. O seu principal contributo foi «ter submetido a prosa ao código retórico, propagando-a como discurso erudito, objeto estético, ‘linguagem soberana’, antepassado da ‘literatura’». Numa palavra, abriu a prosa à retórica e a retórica à estilística. Boa e elegante enunciação de pensamentos pela palavra Parte da retórica relativa à escolha das palavras e do estilo. "elocução", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/elocu%C3%A7%C3%A3o [consultado em 11-03-2020]. "elocução", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/elocu%C3%A7%C3%A3o [consultado em 11-03-2020]. 2. Natureza e finalidade da retórica Definir a retórica não é tarefa fácil. Pois, como se crê, nunca existiu um sistema uniforme de retórica clássica 14, embora se multipliquem os esforços de a apresentar como um sistema. A retórica foi sempre uma disciplina flexível, mais preocupada com a persuasão dos ouvintes do que com a produção de formas de discurso; isto é, mais preocupada com a função retórica do que com a configuração do próprio texto. Num aspecto, todas estas definições concordam: que a retórica e o estudo da retórica têm em vista a criação e a elaboração de discursos com fins persuasivos. Mas, embora idênticas no essencial, elas realçam quatro elementos retóricos importantes 19: 1) o seu estatuto metodológico; 2) o seu propósito; 3) o seu objeto; e 4) o seu conteúdo ético. Retórica é, pois, uma forma de comunicação, uma ciência que se ocupa dos princípios e das técnicas de comunicação. Não de toda a comunicação, obviamente, mas daquela que tem fins persuasivos. Não é, pois, fácil dar a retórica uma só definição. Quando os antigos dizem que a retórica é a arte de bem falar, fazem-no na consciência de que, para se falar bem é necessário pensar bem, e de que o pensar bem pressupõe, não só ter ideias e tê-las lógica e esteticamente arrumadas, mas também ter um estilo de vida, um viver em conformidade com o que se crê. Arte de bem dizer, arte de persuadir, arte moral, eis os elementos implícita ou explicitamente verificados em quase todas as definições de retórica. 3. Conflito entre a retórica e a filosofia Platão é considerado o maior escritor da prosa grega, mas, para ele, a retórica verdadeira, uma retórica digna dos próprios deuses, é necessariamente filosófica e psicagógica, tendo sempre em vista o estabelecimento e a afirmação da verdade. Esse foi, aliás, o grande conflito travado na Antiguidade: o conflito de competência entre filósofos e retóricos. A forma é inseparável do fundo. Há, efetivamente, uma retórica filosófica por oposição à puramente técnica dos sofistas; uma retórica que é o resultado combinado de natureza, conhecimento e prática. Pois, tanto para a descoberta da verdade pela via filosófica da dialética como para a exposição persuasiva dessa verdade pela via da retórica é necessária a mesma estrutura lógica [...]Argumento capcioso com que se pretende enganar ou fazer calar o adversário. "sofisma", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/sofisma [consultado em 12-03-2020]. Na sua expressão lógica, a verdadeira retórica define-se como articulação perfeita da mensagem nascida na mente, sendo de condenar e repudiar a sua transfiguração ou falsificação sofística que, como técnica de aparência, negligencia a verdade profunda das coisas e se contenta com a adesão do auditório a meras opiniões de circunstância ou conveniência. Quer isto dizer que ao interior do homem se opõe o exterior; uma imitação corruptível do modelo original nascido e conservado na mente, mas discurso mesmo assim útil e necessário como único intérprete de verbalização de que o homem dispõe, desde que consentâneo com a verdade e honestamente conformado ao pensamento na interpretação e na veiculação da mensagem. Ora esta mudança de sentido entre o valor da retórica em Platão e o valor da retórica em Aristóteles foi de algum modo assumida por C. Perelman. Simplesmente, ao reescrever Aristóteles ele abre caminho a uma nova retórica, fundindo por assim dizer a Retórica e os Tópicos. A um «tudo é filosófico» de Platão, Perelman contrapõe um «tudo é retórico», e insere a verbalização do próprio discurso filosófico no campo da retórica. Atualmente, em resultado de uma longa evolução, a retórica apresenta-se dividida em dois ramos: uma retórica da elocução, o estudo da produção literária; e uma retórica da argumentação, o estudo da palavra eficaz ou produção persuasiva. Estas duas retóricas intitulam-se «novas retóricas»: tanto a que se passou a divulgar com Chaïm Perelman, a partir da década de 1950, uma Nova Retórica ou teoria da argumentação inspirada na essência da retórica de Aristóteles. Paul Ricoeur sublinha o fenómeno nos seguintes termos: «a retórica de Aristóteles cobre três campos: uma teoriada argumentação, que constitui o eixo principal e que fornece ao mesmo tempo o nó da sua articulação com a lógica demonstrativa e com a filosofia (esta teoria da argumentação cobre só ela dois terços do tratado) — uma teoria da elocução —, e uma teoria da composição do discurso. Aristóteles elaborou uma poética, que não é técnica de ação, mas técnica de criação, a qual corresponde à tríade ‘poiesis-mimesis-catharsis’. Ora Aristóteles ocupa-se da metáfora nos dois tratados, mostrando que a mesma figura pertence aos dois domínios, ora exercendo uma ação retórica, ora desempenhando um papel na criação poética. Pois, como a seguir sustenta, as figuras deixam de ser meras figuras ornamentais e passam a ser usadas como figuras argumentativas, sempre que integradas numa retórica concebida como arte de persuadir e convencer. Caso contrário, elas transformam-se em meros ornamentos que apenas respeitam à forma do discurso, perdendo com isso a sua função dinâmica. 4. A Retórica de Aristóteles Aristóteles escreveu dois tratados distintos sobre a elaboração do discurso. A sua Retórica ocupa-se da arte da comunicação, do discurso feito em público com fins persuasivos. A Poética ocupa-se da arte da evocação imaginária, do discurso feito com fins essencialmente poéticos e literários. O que define a retórica aristotélica é precisamente a oposição entre estas duas τέχναɩ autónomas, entre estes dois sistemas tão claramente demarcados, um retórico e outro poético. A grande inovação de Aristóteles foi o lugar dado ao argumento lógico como elemento central na arte de persuasão. A sua Retórica é sobretudo uma retórica da prova, do raciocínio, do silogismo retórico; isto é, uma teoria da argumentação persuasiva. E uma das suas maiores qualidades reside no facto de ela ser uma técnica aplicável a qualquer assunto. Pois proporciona simultaneamente um método de trabalho e um sistema crítico de análise, utilizáveis não só na construção de um discurso, mas também na interpretação de qualquer forma de discursos. Entre os princípios que caracterizam esquema retórico de Aristóteles relevam-se os seguintes: 1. A distinção de duas categorias formais de persuasão: provas técnicas e não técnicas; 2. A identificação de três meios de prova, modos de apelo ou formas de persuasão: a lógica do assunto, o carácter do orador e a emoção dos ouvintes; 3. A distinção de três espécies de retórica: judicial, deliberativa e epidíctica; 4. A formalização de duas categorias de argumentos retóricos: o entimema, como prova dedutiva; o exemplo, usado na argumentação indutiva como forma de argumentação secundária; 5. A concepção e o uso de várias categorias de tópicos na construção dos argumentos: tópicos especificamente relacionados com cada género de discurso; tópicos geralmente aplicáveis a todos os géneros; e tópicos que proporcionam estratégias de argumentação, igualmente comuns a todos os géneros de discurso; 6. A concepção de normas básicas de estilo e composição, nomeadamente sobre a necessidade de clareza, a compreensão do efeito de diferentes tipos de linguagem e estrutura formal, e a explicitação do papel da metáfora; 7. A classificação e ordenação das várias partes do discurso. 5. Plano e conteúdo da Retórica LIVRO I — PROVAS OU MEIOS DE PERSUASÃO: PROVA LÓGICA 1.1-3 — RETÓRICA, DIALÉCTICA E SOFÍSTICA 1.1 — Definição A verdadeira retórica é uma forma de argumentação comparável à dialética 52. Ao refletir sobre a natureza da arte, e ao apresentar a retórica como arte genuína, Aristóteles está aqui a afirmar a sua racionalidade como forma de conhecimento prático e a identifica-la com a dialética. Os manuais existentes: Negligenciam a argumentação lógica, e ocupam-se apenas da oratória judicial, quando a deliberativa lhe é superior. Utilidade da retórica: A retórica é útil, pois sem ela a verdade pode ser derrotada num debate. Ela permite-nos debater ambos os lados de uma questão. Natureza das provas: Ao contrário da retórica dos sofistas, a verdadeira arte retórica funda-se em provas. Os dois modos de prova: Um, não técnico ou artístico e o outro, técnico ou artístico. 1.2 — Os três meios de persuasão Os meios artísticos de persuasão são três: os derivados do caráter do orador os derivados da emoção despertada pelo orador nos ouvintes e os derivados de argumentos verdadeiros ou prováveis. São estes três elementos de prova que juntamente contribuem para o raciocínio entimemático. As formas dos argumentos: Os argumentos lógicos tomam uma de duas formas: o entimema e o exemplo. É por meio deles que Aristóteles introduz a teoria da lógica na sua teoria retórica. Elementos de que derivam a matéria e a forma dos entimemas: Probabilidades e sinais. As probabilidades são premissas geralmente aceites, fundadas na experiência e no consenso. Os sinais são geralmente de dois tipos: uns apontam para uma conclusão necessária; outros são refutáveis. A matéria e a forma dos entimemas: Os tópicos. Sendo os entimemas os veículos por excelência da argumentação retórica, as suas premissas são materialmente constituídas por tópicos: os tópicos específicos, aplicáveis a cada um dos géneros particulares de discurso (judicial: justo/injusto; deliberativo: útil/inútil; epidíctico: belo/feio); e os tópicos comuns, aplicáveis indistintamente a qualquer um dos três géneros (possível/impossível; real/irreal; mais/menos). 1.3 — As três espécies de retórica, ou géneros de discurso Judicial ou forense, deliberativo ou político e demonstrativo ou epidíctico. LIVRO II — PROVAS OU MEIOS DE PERSUASÃO: EMOÇÃO E CARÁCTER 2.1-11 — EMOÇÃO 2.1 — O papel da emoção e o carácter Aristóteles mostra como os elementos de argumentação psicológica também se podem usar como parte integrante da argumentação entimemática. O sofista estimula as emoções para desviar os ouvintes da deliberação racional. O orador aristotélico controla as paixões pelo raciocínio que desenvolve com os seus ouvintes LIVRO III — ESTILO E COMPOSIÇÃO DO DISCURSO 6. A retórica peripatética Como observa Roland Barthes, «todos os elementos didáticos que alimentam os manuais clássicos vêm de Aristóteles» A obra de Aristóteles é fundamental para a consolidação histórica da retórica, não só porque define e aclara a sua função, mas também porque estabelece as categorias indispensáveis à constituição do sistema retórico.