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Núcleo de Educação a Distância
R. Maria Matos, nº 345 - Loja 05
Centro, Cel. Fabriciano - MG, 35170-111
www.graduacao.faculdadeunica.com.br | 0800 724 2300
GRUPO PROMINAS DE EDUCAÇÃO.
Material Didático: Ayeska Machado
Processo Criativo: Pedro Henrique Coelho Fernandes
Diagramação: Ayrton Nicolas Bardales Neves
PRESIDENTE: Valdir Valério, Diretor Executivo: Dr. Willian Ferreira, Gerente Geral: Riane Lopes, 
Gerente de Expansão: Ribana Reis, Gerente Comercial e Marketing: João Victor Nogueira
O Grupo Educacional Prominas é uma referência no cenário educacional e com ações voltadas para 
a formação de profi ssionais capazes de se destacar no mercado de trabalho.
O Grupo Prominas investe em tecnologia, inovação e conhecimento. Tudo isso é responsável por 
fomentar a expansão e consolidar a responsabilidade de promover a aprendizagem.
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Prezado(a) Pós-Graduando(a),
Seja muito bem-vindo(a) ao nosso Grupo Educacional!
Inicialmente, gostaríamos de agradecê-lo(a) pela confi ança 
em nós depositada. Temos a convicção absoluta que você não irá se 
decepcionar pela sua escolha, pois nos comprometemos a superar as 
suas expectativas.
A educação deve ser sempre o pilar para consolidação de uma 
nação soberana, democrática, crítica, refl exiva, acolhedora e integra-
dora. Além disso, a educação é a maneira mais nobre de promover a 
ascensão social e econômica da população de um país.
Durante o seu curso de graduação você teve a oportunida-
de de conhecer e estudar uma grande diversidade de conteúdos.
Foi um momento de consolidação e amadurecimento de suas escolhas
pessoais e profi ssionais.
Agora, na Pós-Graduação, as expectativas e objetivos são
outros. É o momento de você complementar a sua formação acadêmi-
ca, se atualizar, incorporar novas competências e técnicas, desenvolver 
um novo perfi l profi ssional, objetivando o aprimoramento para sua atua-
ção no concorrido mercado do trabalho. E, certamente, será um passo
importante para quem deseja ingressar como docente no ensino supe-
rior e se qualifi car ainda mais para o magistério nos demais níveis de
ensino.
E o propósito do nosso Grupo Educacional é ajudá-lo(a)
nessa jornada! Conte conosco, pois nós acreditamos em seu potencial.
Vamos juntos nessa maravilhosa viagem que é a construção de novos 
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Um abraço,
Grupo Prominas - Educação e Tecnologia
Olá, acadêmico(a) do ensino a distância do Grupo Prominas! .
É um prazer tê-lo em nossa instituição! Saiba que sua escolha 
é sinal de prestígio e consideração. Quero lhe parabenizar pela dispo-
sição ao aprendizado e autodesenvolvimento. No ensino a distância é 
você quem administra o tempo de estudo. Por isso, ele exige perseve-
rança, disciplina e organização. 
Este material, bem como as outras ferramentas do curso (como 
as aulas em vídeo, atividades, fóruns, etc.), foi projetado visando a sua 
preparação nessa jornada rumo ao sucesso profi ssional. Todo conteúdo 
foi elaborado para auxiliá-lo nessa tarefa, proporcionado um estudo de 
qualidade e com foco nas exigências do mercado de trabalho.
Estude bastante e um grande abraço!
Professor: Willians Alexandre Buesso da Silva
O texto abaixo das tags são informações de apoio para você ao 
longo dos seus estudos. Cada conteúdo é preprarado focando em téc-
nicas de aprendizagem que contribuem no seu processo de busca pela
conhecimento.
Cada uma dessas tags, é focada especifi cadamente em partes 
importantes dos materiais aqui apresentados. Lembre-se que, cada in-
formação obtida atráves do seu curso, será o ponto de partida rumo ao 
seu sucesso profi sisional.
Esta unidade pretende examinar a relação de proximidade en-
tre a História e a Antropologia, ancoradas pelo elo pautado no conceito 
de cultura. Para tal monta, apresentamos as discussões iniciais da in-
terdisciplinaridade entre as duas áreas e quais seus objetivos enquanto 
produção de conhecimento científi co. Ao longo dos capítulos, tratare-
mos sobre antropólogos que se dispuseram a pensar sobre a ques-
tão da historicidade dentro da Antropologia, desde o início de formação 
desta disciplina aos seus desdobramentos na Antropologia moderna, 
assim como, reconhecer os historiadores que se apropriaram do olhar 
antropológico para ampliar a noção de cultura presente em suas obras. 
A relação entre ambas proporcionou o amadurecimento entre as duas 
áreas, principalmente no desafi o de se desenvolver uma Antropologia 
não anacrônica, e uma História não etnocêntrica.
Antropologia; História; Conceito de Cultura.
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CAPÍTULO 01
PRIMEIROS CONTATOS ENTRE HISTÓRIA E ANTROPOLOGIA
Apresentação do módulo ______________________________________ 10
CAPÍTULO 02
DIÁLOGOS ENTRE ANTROPOLOGIA E HISTÓRIA
CAPÍTULO 03
DIÁLOGOS ENTRE A HISTÓRIA E A ANTROPOLOGIA
Emmaneul Le Roy Ladurie e a História Etnográfi ca _______________
Robert Darnton e a Antropologia Interpretativa _________________
47
50
Considerações Finais __________________________________________ 61
Recapitulando _________________________________________________ 62
Caminhos Distintos e Destinos Semelhantes ____________________ 57
Michel de Certeau e a Vida Cotidiana ___________________________ 54
História e Antropologia _________________________________________
Primeiros Contatos ____________________________________________
12
14
Recapitulando _________________________________________________ 26
A Nova História Cultural e a Antropologia Histórica ______________ 18
Lévi-Strauss e a História Dentro do Estruturalismo ______________
Debates e Embates da Antropologia com a História _____________
32
30
Recapitulando _________________________________________________ 43
Geertz e a “Descrição Densa” __________________________________ 37
Marshall Sahlins: Entre a Estrutura e o Evento ___________________ 35
Fechando Unidade ____________________________________________ 67
Referências ____________________________________________________ 70
Pierre Bourdieu: O Campo e o Hábitus __________________________ 39
Os historiadores e a Antropologia ______________________________ 47
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A proposta deste módulo é apresentar o debate entre a História 
e a Antropologia e as contribuições que cada uma ofereceu ao longo de 
suas trajetórias enquanto produção de conhecimento científi co citando 
como exemplos autores e obras que fi zeram parte deste diálogo.
No primeiro capítulo abordaremos alguns dos principais as-
pectos deste diálogo, tendo em vista a questão da interdisciplinaridade 
como um movimento histórico que buscou romper barreiras da fragmen-
tação do conhecimento científi co. Sendo assim, este diálogo entre as 
duas disciplinas é parte desta junção entre duas áreas muito vizinhas, 
que se desenvolveram separadamente e, em até determinados momen-
tos, negaram suas proximidades em seus princípios.
Alguns conceitos-chave são apresentados logo de início como 
parte das apropriações feitas da História sobre a Antropologia. A con-
cepção do que faz cada área também é abordada a fi m de relatar de que 
maneira uma está próxima a outra enquanto ciência.
Entre os conceitos elencados, o de cultura é o elo de maior 
destaque entre as duas áreas. Neste sentido, os subitens seguem de 
acordo com as escolas dentroda História que adotaram este conceito e 
de que maneira essa adoção infl uenciou esses escritos.
Podemos considerar a Escola dos Annales como uma das pri-
meiras a trabalhar com a proposta interdisciplinar em suas pesquisas e 
obtenção de dados sobre um determinado objeto ao relacionar as dife-
rentes áreas das chamadas Ciências Sociais em seu bojo. No entanto, 
a aplicação do olhar antropológico sobre a História teve maior impacto 
sobre a História Cultural a partir da década de 1970 e 1980, também 
chamado o período de Nova História Cultural.
É possível observar que, para a Antropologia, a presença da 
historicidade tem a ver com o processo de reconhecer as diferentes 
temporalidades de uma determinada cultura, este exercício passou des-
de a ideia de progresso pela escola Evolucionista até às transformações 
que esta temporalidade pode afetar nas estruturas. 
Sendo assim, apresentaremos, no segundo capítulo, perspec-
tivas dentro da Antropologia que trabalharam com esta ideia. Lévi-S-
trauss foi um ícone na defesa da diversidade de noções temporais sobre 
a questão histórica dentro da Antropologia, o qual se preocupou menos 
com a visão de progresso do tempo histórico e mais com a forma como 
são compreendidas as temporalidades de diferentes etnias.
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Em conjunto ao estruturalismo, Marshall Sahlins acrescentou 
críticas à questão dos eventos e mudanças que ocasionam transfor-
mações nas estruturas. O autor colocou o desafi o de perceber como a 
História e a Vida Social são feitas de ações humanas, as quais tendem 
a manter uma determinada cultura, assim como transformá-la.
O capítulo também trata sobre as contribuições de Cliff ord 
Geertz à História a partir de sua metodologia da “descrição densa”, mui-
to apropriada dentro da Nova História Cultural, o qual fez com que a 
noção de “interpretatividade” fosse incorporada à própria visão histórica 
sobre fatos e conjunturas.
Por último, trataremos das contribuições de Pierre Bourdieu, 
fi lósofo francês que deixou obras importantes e signifi cativas tanto para 
a Antropologia como para a História. Seus principais conceitos, como 
de campo e de hábitus são caros às duas áreas do conhecimento das 
ciências sociais, assim como, para autores que os utilizaram dentro da 
pesquisa historiográfi ca.
No terceiro capítulo, trataremos de alguns dos historiadores 
que se alçaram a trabalhar com o olhar antropológico dentro de suas 
metodologias e pesquisas históricas. Entre eles, o primeiro a ser apre-
sentado foi Emmanuel Le Roy Ladurie, francês que apresentou o tra-
balho do historiador muito próximo ao trabalho do etnógrafo em campo 
ao se debruçar sobre inquéritos da Inquisição dos séculos XIII e XIV 
na França, entre os autores, este é um dos únicos que foi associado à 
antropologia funcionalista de Malinowski.
Destacamos Robert Darnton, autor esclarecidamente infl uente 
com seu ex-colega de trabalho Cliff ord Geertz e a metodologia da “des-
crição densa”, sua produção científi ca teve bastante impacto por que-
brar com a visão economicista e demográfi ca sobre a História, amplian-
do as possibilidades de análise até então circunscritas ao materialismo 
histórico e dialético presente da própria História Cultural.
Michel De Certeau também ousou inovar ao adotar conceitos 
antropológicos de Tim Ingold, assim como, dar uma nova importância a 
fatores antes desconsiderados como fontes históricas, entre eles, a vida 
ordinária de pessoas de camadas populares e a vida cotidiana, como 
base para entender um determinado contexto social para além das for-
mas homogêneas de interpretação do comportamento humano.
Por último, faremos um balanço da relação entre essas duas 
áreas vizinhas e as possibilidades de diálogo entre elas.
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PRIMEIROS CONTATOS 
ENTRE HISTÓRIA &
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HISTÓRIA E ANTROPOLOGIA
A interdisciplinaridade representa uma tendência nas ciências 
hoje em dia e explica algumas fragilidades deixadas no início do século 
XX e questionadas até os dias de hoje. Em “A interdisciplinaridade como 
um movimento articulador no processo ensino-aprendizagem” (2008), o 
autor Juares da Silva Thiesen retrata a interdisciplinaridade dentro da 
área da Educação, mas que nos serve aqui para fazer um paralelo ao 
conhecimento antropológico e histórico:
O movimento histórico que vem marcando a presençado enfoque interdisci-
plinar na educação constituium dos pressupostos diretamente relacionados a 
umcontexto mais amplo e também muito complexo demudanças que abran-
ge não só a área da educação mastambém outros setores da vida social 
como a economia,a política e a tecnologia. Trata-se de uma grande mudan-
çaparadigmática que está em pleno curso. (THIESEN, 2008, p. 545)
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Esse movimento está relacionado com a grande fragmentação 
que as ciências, de um modo geral, sofreram desde o fi nal do século 
XIX até a primeira metade do século XX. Os diálogos interdisciplinares 
buscam resgatar aquilo que um dia foram as ciências, áreas que pos-
suíam vínculos diretos umas com as outras, de uma forma universal e 
versátil, e não universalizante.
Em “Lógica das diferenças e política das semelhanças: da lite-
ratura que parece história ou antropologia, e vice-versa” (1993), Walter 
Mignolo retrata a relação próxima entre as áreas da Literatura, da Histó-
ria e da Antropologia, a partir da ideia de que as diferenças e semelhan-
ças entre essas disciplinas estão muito mais voltadas para os objetivos 
que guiam os projetos de pesquisas e as análises feitas a partir de suas 
metodologias do que, de fato, uma essência natural que as distanciam.
Este fato requer observar que as ciências humanas nasceram 
de propósitos em comum, tanto a interdisciplinaridade quanto a proxi-
midade aceita entre as diferentes disciplinas, representa a necessidade 
de entendê-las a partir de aspectos em comum.
Neste capítulo iremos trabalhar com algumas abordagens re-
ferentes às duas áreas e o início deste diálogo. É preciso salientar que 
tanto a História quanto a Antropologia não pretendiam atuar como uma 
produção literária, essa crítica havia sido feita já por Cliff ord Geertz e 
acentuada por Robert Darnton, porém, não anula a própria literatura 
como uma fonte em comum entre ambas.
Aqui, iremos concentrar as principais questões que são rele-
vantes para os dois campos de conhecimento científi co, sendo primor-
dial reconhecer alguns conceitos iniciais como:
Cultura, como um conceito relativo às práticas e saberes so-
ciais de um determinado grupo, que possui demandas de acordo com 
as necessidades da vida social dos membros desta coletividade;
Etnicidade, como um conceito relacionado à etnia, representa 
o conjunto de características de um determinado coletivo em comum 
que os diferenciam de outros grupos.
Alteridade, como o exercício de reconhecer o lugar do outro e 
ao mesmo tempo se reconhecer na relação com este outro1; 
1 Veremos adiante que o exercício de alteridade não exclui a perspectiva de quem se 
propõe refl etir sobre o outro, ou seja, há limites reconhecidos – principalmente na teoria antropoló-
gica – neste exercício que não permitem se colocar integralmente dentro de outra etnia alheia à do 
observador, serve no entanto, como objetivo de refl exão.
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Relativismo, como proposta metodológica em que as culturas 
e seus costumes não são comparados a partir de um único referencial, 
e sim, de acordo com os valores que esta cultura possui;
Identidade,como representante do conjunto de características 
que identifi cam um determinado grupo ou pessoa;
Diferença, como características que diferenciam as peculiari-
dades de uma determinada sociedade, cultura e seu contexto histórico;
Etnocentrismo, como o reconhecimento de uma prática pauta-
da na negligência das diferenças culturas, assim como a eleição de uma 
única etnia como referência de valores e progresso.
Nos próximos capítulos iremos, de fato, apresentar autores 
que passaram pelo percurso de uma disciplina à outra, seja da História 
a caminho da Antropologia ou vice-versa.
PRIMEIROS CONTATOS
A aproximação entre as duas áreas de conhecimento, a Histó-
ria e a Antropologia, intermediadas pelo conceito de cultura, se deu a 
partir da abertura que cada uma sofreu para novas fontes de pesquisa. 
A relação entre ambas passa pela noção de temporalidades. 
Não nos cabe aqui fazer um retrospecto desde o início da His-
tória até as mudanças que ocorreram a favor de uma nova visão que 
abrangesse o pensamento antropológico, mas sim, ter como ponto de 
partida a infl uência do Positivismo, de um modo geral, como teoria in-
fl uente no tempo histórico e como ele deixou de fazer parte das con-
cepções historiográfi cas para dar espaço a outras visões científi cas do 
fazer do historiador e do antropólogo.
Antes de traçar este caminho, iremos conceituar o papel das 
duas áreas de conhecimento a partir do artigo “História e Antropologia: 
Relações Teórico-Metodológicas”, de Irineia Santos (2010). Segundo a 
autora, a História pode ser defi nida como:
[...] a ciência que estuda as transformações na sociedade humana no tem-
po e no espaço. Sua preocupação é descrever, analisar e interpretar essas 
transformações numa relação dialética entre passado e presente. É ciência
porque se esforça para que o conhecimento produzido tenha “validade em si 
mesmo” e não seja simplesmente “senso comum” ou meras opiniões erudi-
tas. Para isso, desenvolve um ferramental metodológico que sistematiza os 
passos para a pesquisa, sem amarrar o processo. (2010, p.3)
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Enquanto ferramenta metodológica podemos compreender a 
forma como as fontes são analisadas e em qual caminho se dirige a es-
crita na História. É a partir da discussão desse ferramental que podemos 
compreender a aproximação entre as duas áreas de conhecimento.
Quanto à Antropologia, podemos considerá-la como a prática 
de lidar e interpretar diferenças culturais a partir de um método, seja ele 
comparativo, histórico, estatístico ou etnográfi co, assim como o uso de 
técnicas para chegar a seus dados, como a observação participante, as 
entrevistas e questionários.
Podemos notar que o método histórico aparece como uma das 
possibilidades de ferramenta da Antropologia. Não por acaso esse mé-
todo se apropriou da História como forma de perceber diferenças cul-
turais, mas teve seus limites de acordo com as escolas de pensamento 
antropológico.
Até o fi nal do século XIX, a produção histórica pautava-se nas 
fontes de pesquisas ofi ciais, principalmente documentos institucionais 
que identifi cavam a veracidade dos fatos. A atenção também era volta-
da para as grandes batalhas e heróis dos fatos históricos.
A narrativa, muito voltada para uma ideia positivista da histó-
ria foi construída de maneira linear, com os acontecimentos históricos 
sendo trabalhados a partir da ideia de causa e efeito, sem espaço para 
outras temporalidades dos sujeitos históricos que não aqueles que re-
presentavam os protagonistas e seus grandes feitos.
Por outro lado, a antropologia também, infl uenciada pelo cien-
tifi cismo no fi nal do século XIX, estava voltada para os métodos rígidos 
da ciência para obtenção de dados sobre as diferenças culturais. Ainda 
no início do século XX, trabalhos como o de Malinowski (1884-1942), 
Evans-Pritchard(1902-1973) e Radcliff e-Brown (1881-1955) tinham cla-
ramente uma visão histórica pautada na ideia de sucessão de fatos de 
maneira linear, sem utilizar recortes sobre os acontecimentos. 
A preocupação da Antropologia, no período, fazia cindir a rela-
ção dialógica entre tempo e cultura, muito marcada pela dicotomia entre 
a linearidade do tempo e a busca por estruturas que se mantivessem ao 
longo do tempo, e de certa forma, identifi cavam o funcionamento das 
sociedades distantes da Europa.
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O estrutural-funcionalismo de Radcliff e-Brown foi uma das teo-
rias contemporâneas ao estruturalismo de Claude Levi-Strauss. Contu-
do, a proposta teórica de Levi-Strauss passaria ao longo do tempo por 
mudanças signifi cativas ao rever sua noção de tempo histórico.
Veremos ao longo deste debate que o termo “cultura”, aparece 
como interesse de pesquisas de ambos os lados, mas voltados para 
seus objetivos particulares, sem compartilhar um mesmo referencial 
teórico até o início do século XX.
Alguns trabalhos pioneiros na História como as obras de Karl 
Lamprecht(1856-1915) e Frederick Turner (1861-1932) foram pioneiros 
na aproximação entre a História e a Antropologia, mais especifi camen-
te, ao conceito de cultura. Contudo, podemos defi nir como um marco 
introdutório de novas abordagens nesta área do conhecimento as mu-
danças provocadas pela abordagem histórica da chamada Escola dos 
Annales, surgida na França durante a década de 1930.
No período, Marc Bloch (1886-1944) e LucienFebvre (1878-
1956) fundaram uma revista aberta a publicações com novas formas 
de abordagem histórica sobre diferentes e inusitados temas. Entre as 
propostas iniciais das pesquisas publicadas no periódico estaria a in-
terdisciplinaridade, pautados na ideia de que a História tinha como ne-
cessidade de renovação tratar sobre diversos aspectos que compõe 
um mesmo tema e a sociedade de um modo geral.De certo modo, se-
ria inviável se limitar apenas aos registros ofi ciais como fonte histórica, 
sendo assim, necessário o diálogo com as demais áreas das Ciências 
Sociais. 
Em “História e Antropologia. Possíveis diálogos”, Marcos Fe-
lipe Vicente retrata o que os autores desta escola chamavam de uma 
“história total”:
A interdisciplinaridade proposta por Bloch e Febvre na revista Annales d’His-
toireEconomique et Sociale tinha por objetivo realizar uma história total. Essa 
história deveria ser capaz de revelar não apensar a sucessão de eventos 
relacionados ao Estado, mas, principalmente, os aspectos econômicos e so-
ciais daquela sociedade, bem como suas estruturas mentais e formas de ma-
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nifestação cultural. Para essa análise total da História, o historiador deveria 
dialogar com outras ciências sociais, a fi m de adquirir um aporte teórico para 
a realização de suas análises.(2009, p.29)
Neste momento, podemos perceber que há um deslocamento 
de interesses que perpassam não só pela própria História, como pela 
Literatura, Geografi a, Economia, Arqueologia, para tratar interesses vol-
tados à cultura em especial, como um elemento fundamental para o 
entendimento de uma sociedade como um todo complexo.
Uma das consequências das propostas – principalmente for-
muladas por Fernand Braudel (1902-1985) -, foi o alargamento da noção 
da duração de tempo. Uma nova divisão entre curta, média e longa du-
ração foi além da visão única dos acontecimentos históricos encarados 
apenas como fatos sucessivos. A curta duração remete ao eventos, que 
de certa forma são passageiros na História, eles ocasionam mudanças 
mas cessam em um breve período de tempo, seus efeitos serão senti-
dos a médio e longo prazo.A média duração se refere a um conjunto de 
valores que perduram por um determinado período, como a moda, mas 
tendem a sofrer mutações conforme novos eventos ocorrem.
Já a longa duração se aproximava da ideia histórica do estru-
turalismo, pois reconhecefatores que resistiram ao tempo mesmo com 
eventos que sucederam transformações. É na longa duração que en-
contramos também estruturas cognitivas de pensamento, também cha-
madas de mentalidades, elas identifi cam os valores morais e sociais de 
uma determinada época que perdurou ao longo do tempo.
Além do alargamento das temporalidades, a mudança de foco 
para outras fontes históricas abriu o leque de possibilidades na pes-
quisa histórica. Como já citado, a literatura ganhou bastante destaque 
como uma fonte rica de conhecimento sobre o pensamento de uma 
sociedade e sua época.
Inclui-se nesta revisão das fontes históricas a utilização de 
documentos de cartórios, como registros de nascimento, certidão de 
casamento e óbito,fontes arqueológicas e cartas. Mais do que retratar 
uma época, essa pluralidade de fontes forneceu a possibilidade de re-
conhecer os vestígios sociais de um período e ampliar a compreensão 
de detalhes que estão muitas vezes guardados nas entrelinhas das fon-
tes escritas.
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O OLHAR ANTROPOLÓGICO E A HISTÓRIA CULTURAL
A Escola dos Annales abriu espaço para novas fontes de pes-
quisa em História, em decorrência deste amadurecimento, a Antropo-
logia como uma das áreas de interesses em comum com o historiador, 
também passou por transformações signifi cativas na segunda metade 
do século XX, a ponto de permitir-se também trabalhar com novas for-
mas de temporalidades.
A Escola dos Annales representa um movimento dentro de 
outro maior que se caracterizou como História Cultural, que dialogou 
bastante com a Antropologia, e durou desde o fi nal do século XIX até 
a década de 1980, quando passou por uma grande renovação. Essa 
escola foi formada em ordem por Jacob Buckhard(1818-1897), Johan 
Huizinga (1872-1945), Eric Hobsbawn (1917-2012), Edward Thompson 
(1924-1993), Lynn Hunt (1943- ) e Jacques Le Goff (1924-2014). 
Segundo Peter Burke, em “O que é História Cultural?” (2005), 
a inovação da desta escola não estaria tanto na metodologia aplicada, 
e sim, nos novos temas que se ampliaram na pesquisa dentro da His-
tória. Neste ponto, há um dialogo maior com outras áreas, entre elas a 
Antropologia. 
Uma das maiores contribuições que a Antropologia ofereceu às 
ciências sociais como um todo foi a possibilidade de reconhecer o ponto 
de vista nativo, a fala do outro se colocar no lugar de outra cultura para 
tentar entendê-lo. Este exercício, apesar de reconhecido seus limites, 
possibilitou pensar a História repleta de uma complexidade de detalhes 
a partir de uma visão total da realidade, assim como, perceber o outro e 
sua visão de mundo em outras temporalidades. 
A partir deste reconhecimento, é possível entendermos que a 
própria historiografi a2 passou por revisões também sobre o lugar da fala 
do historiador e sobre o objeto de pesquisa estudado. Muito dessa refl e-
xão se deve aos trabalhos do fi lósofo Paul Ricoeur (1913-2005) sobre a 
hermenêutica3 e a interpretação da História dando um signifi cado mais 
complexo à noção de pessoa e sujeitos históricos.
Não por acaso, o mesmo autor foi infl uente na metodologia de 
trabalho do antropólogo Cliff ord Geertz (1926-2006) ao adotar a pers-
pectiva interpretativa dentro da Antropologia. Geertz, autor que iremos 
dedicar um subitem sobre sua contribuições teóricas, é um dos autores 
que concatenou em sua obra discussões que transitassem ao mesmo 
tempo a Antropologia, A História e a noção de cultura. 
2 Historiografi a representa tanto a forma como é escrita a História, como também o estudo 
sobre os processos de produção da História. Poderíamos afi rmar que se trata de uma Ciência da 
História.
3 Hermenêutica se refere à área da Filosofi a que procura entender a interpretação como 
uma metodologia de pesquisa.
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Para o autor, é signifi cativo o ponto de vista do nativo, mas 
impossível de se colocar totalmente no lugar do outro, devido a diferen-
ças de valores morais, sociais. Todavia, é imprescindível em sua visão 
antropológica a tarefa de levantar informações e descrições o bastan-
te para que os elementos simbólicos de uma sociedade, seus hábitos 
e instituições estejam claros o bastante para que sejam interpretados 
à luz da realidade do objeto de pesquisa em questão. O grande risco 
que o pesquisador pode correr ao falar sobre passado e presente, no 
entanto, está no determinismo histórico, em que o passado recai sobre 
o presente e todas as explicações e interpretações sobre fenômenos e 
eventos são justifi cados pelo tempo passado.
Por este motivo, a interpretação, tanto sobre o presente quanto 
sobre o passado, passa pelo estranhamento de valores culturais entre 
épocas diferentes. Uma visão anacrônica da realidade, ou seja, um ro-
mantismo com o passado ou uma desatenção com práticas e hábitos do 
presente tendem a condenar tanto o trabalho de pesquisa do historiador 
como do antropólogo.
Além do determinismo histórico, outras formas de determinis-
mos tendem a condenar o trabalho de qualquer profi ssional dentro das 
ciências sociais. O determinismo se caracteriza pelo diagnóstico preci-
pitado, em que as conclusões são tomadas sem que as várias facetas 
de um mesmo problema ou situação sejam analisadas.
O termo cultura e culturas tanto na História quanto na Antro-
pologia se diferem e produziram mudanças de perspectivas teóricas. 
O primeiro entende a cultura como única e dotada de uma essência 
universal, enquanto o segundo termo reconhece a pluralidade de co-
nhecimentos, saberes e simbologias locais de uma etnia.
A NOVA HISTÓRIA CULTURAL E A ANTROPOLOGIA HISTÓRICA
A partir dos anos de 1980, um movimento conhecido como cul-
tural turn (giro cultural) expandiu o conceito de cultura como perspectiva 
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teórica em diversas áreas da pesquisa histórica, o episódio foi mais uma 
aproximação entre História e Antropologia e as demais ciências sociais.
Em “A escrita da História: dos positivismos aos pós-modernis-
mos” (2010), o autor James Aurrel, pesquisador sobre a produção histó-
rica, relata infl uências desse movimento:
No fi nal dos anos oitenta, as novas tendências relacionadas com a história 
cultural começaram a prevalecer sobre o resto. Num diagnóstico feito nos 
anos noventa, o historiador Patrick Joyce afi rmava que na Inglaterra, ‘se an-
tes éramos todos historiadores sociais, agora todos começamos a ser his-
toriadores culturais’. A história cultural parece ser, de fato, a nova fonte de 
atração da atividade acadêmica, especialmente nos países anglo-saxões e 
nos que recebem a sua infl uência. Nos Estados Unidos essa tendência cos-
tuma estar associada a um viés marcadamente intelectualista; na Alemanha, 
refl ete-se numa signifi cativa revitalização dos postulados de Max Weber. 
(AURREL, 2010, p.175)
O cultural turn deu força para a chamada Nova História Cultural, 
movimento que ecoou nos Estados Unidos, França e Inglaterra sobre 
novas produções temáticas. Podemos considerar que a Nova História 
Cultural foi refl exo de iniciativas que tiveram destaque durante a Escola 
dos Annales, mas os temas que encontramos em sua produção vão 
além de seus primeiros lampejos enquanto prática na década de 1950.
Como citado no subitem anterior, a infl uência da Antropologia 
trouxe a refl exão sobre a narrativa e o lugar da fala do objeto estudado 
e do historiador. Geertz, como um dos antropólogos de incentivo a este 
diálogo, foi inspiração para os trabalhos do historiador Robert Darnton 
(1939- ). 
Um dos trabalhos mais celebres de Darnton traduz os anseios 
desta escola de pensamento histórico. “O grande massacre de gatos” 
(1986), retrata a formação das classes baixas a partir de um evento em 
uma tipografi a francesa em 1730, em que aprendizes torturam e exter-
minam gatos querondavam o estabelecimento à noite perturbando o 
sono de todos.
No contexto, os trabalhadores,mau pagos, conviviam com as 
desigualdades e condições precárias de moradia e trabalho. O massa-
cre dos gatos envolve também os animais de estimação dos patrões 
burgueses da tipografi a. Aparentemente, sob um olhar marxista, pode-
ríamos considerar esta atitude um refl exo da luta de classes, mas a obra 
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do autor retrata de forma icônica o interesse da Nova História Cultural.
As explicações sobre a sociedade pautada na classe dominan-
te, aquela que determina as ideias vigentes de uma época e domina 
os meios de produção, encobriu o entendimento dos fenômenos e fa-
tos sociais a partir da classe baixa. Darnton, além de expor sobre esta 
condição, também remete ao folclore e à cultura popular as explicações 
sobre a realidade e espírito da época estudada.
O massacre de gatos vai além da luta de classes entre os 
aprendizes da tipografi a e seus patrões, o autor retoma valores da Ida-
de Média e do Renascimento para falar das crenças que delegavam aos 
gatos poderes misteriosos, como algo satânico. 
Além deste trabalho, o autor refl ete sobre sua narrativa, como 
meio de esclarecer este movimento de giro cultural e a infl uência de 
outras áreas das ciências sociais:
O método antropológico da História tem um rigor próprio, mesmo quando 
possa parecer, a um cientista social tarimbado, suspeitosamente próximo da 
literatura. Começa com a premissa de que a expressão individual ocorre den-
tro de um idioma geral, de que aprendemos a classifi car as sensações e a 
entender as coisas pensando dentro de uma estrutura favorecida por nossa 
cultura. Ao historiador, portanto, deveria ser possível descobrir a dimensão 
social do pensamento e extrair a signifi cação de documentos, passando do 
texto ao contexto e voltando ao primeiro, até abrir caminho através de um 
universo mental estranho. (DARNTON, 1986, p.XVII)
O trecho extraído da introdução da obra relata como os sujei-
tos históricos não vivem presos à condição histórica que o historiador 
prevê. Uma das críticas à visão materialista da História, provinda do 
marxismo, é que os trabalhadores – como esboçado nesta obra -, não 
acordam, vivem e dormem pensando na luta de classes. Por mais de-
sigual que seja as condições materiais de vida desses trabalhadores, o 
imaginário, o folclórico e o simbólico também estruturam essa vivência.
É neste sentido que algumas produções intelectuais neste pe-
ríodo se voltaram para a cultura popular. O determinismo demográfi co 
e econômico cedeu espaço aos atos, rituais, simbolismos e expressões 
da época para entender uma determinada realidade. Retrataremos al-
guns dos temas canônicos na História que passaram por revisões no 
período após o cultural turn.
O uso das imagens na historiografi a até as décadas de 1950 
e 1960 eram associadas a uma identifi cação real de uma sociedade e 
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sua época. A ideia de verossimilhança, ou seja, algo muito próximo à 
realidade que está representada na imagem, encobriu por muito tempo 
a possibilidade de desmitifi car ilustrações clássicas. A imagem, assim 
como o texto, é fruto de uma construção social, e passa pelos valores 
de quem a produz, o que fez com que a imagem passasse a ser fonte de 
interpretações sobre a representação de uma realidade, e não a cópia 
fi el sobre os fatos.
Assim como as imagens, a arte como um todo passou a ser 
pesquisada não só do ponto de vista de quem a produz, como também, 
a partir daqueles que recebem a produção artística.
O vestido rosa (Albertie-Marguerite Carré, later Madame 
Ferdinand-Henri Himmes, 1854–1935)
Berthe Morisot (French, Bourges 1841–1895 Paris)
Uma das grandes contribuições da Nova História Cultural so-
bre as discussões sobre sexualidade e gênero foi abrir espaço para o 
entendimento do sujeito histórico feminino e de seu cotidiano. 
Não é uma novidade exclusiva desta escola o debate sobre 
gênero na História, mas o período das décadas de 1980 e 1990 marca-
ram novos territórios sobre a perspectiva de gênero e sua interpretação 
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histórica consequentemente, o feminismo passou a ser abordado como 
uma linha de pensamento que reconheceu em diversas esferas as rela-
ções de poder estabelecidas entre homens e mulheres.
No Brasil, este movimento teve seus impactos sobre as repre-
sentações do papel feminino durante e após o fi m da escravidão. Ape-
sar de não se inserirem dentro da escola específi ca da Nova História 
Cultural, refl etem de maneira signifi cativa as ideias aqui expostas sobre 
este tipo de produção acadêmica.
Em “A Nova História no Brasil: Um estudo das apropriações 
teóricas e metodológicas no livro Festas e Utopias no Brasil Colonial de 
Mary Del Priore” (2017), o autor Thiago Granja Balieiro, faz um levan-
tamento sobre a infl uência da Nova História Cultural a partir da obra de 
Mary Del Priore, uma das principais historiadoras no Brasil com ênfase 
sobre a mulher como sujeito histórico na sociedade brasileira.
O autor retrata que a adesão aos textos da Nova História Cul-
tural no Brasil estão relacionados com o contexto dos anos de 1980 em 
que o país passava:
Os anos 80 são considerados anos de grande mudança no modo de fazer 
história no Brasil. As mudanças na organização da pós-graduação realizadas 
na década anterior deram grande impulso aos programas de pós em Histó-
ria de inúmeras universidades, sela pela consolidação dos mais tradicionais, 
sela pela ampliação de vagas e bolsas de estudos [...]. (BALIEIRO, 2017, p. 
73) 
Além dessas mudanças, o período político foi de grande in-
fl uência para a produção acadêmica. A década de 1970 foi intensamen-
te marcada pela produção historiográfi ca no Brasil de maneira engajada 
contra a Ditadura Militar (1964-1985), sendo assim, a perspectiva mar-
xista era predominante nas abordagens históricas, o que levou, com o 
tempo, a um esgotamento de temas e perspectivas apenas voltadas 
para o materialismo histórico e dialético quanto aos fatos históricos.
A mudança ocorreu na década de 1980 com uma abertura po-
lítica viável a publicações de livros com temas diversos, essa mudança 
também foi acompanhada da produção editorial de obras relacionadas 
à Nova História Cultural francesa, ou seja, a indústria cultural fomentou 
a leitura e referências de novos autores e temas dentro da própria His-
tória. 
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A partir dessa nova era acadêmica da historiografi a brasileira, 
houve um processo de desengajamento intelectual no sentido de que 
temas que não possuíam como objeto de pesquisa e metodologia po-
lítica relacionadas à teoria marxista passaram a ganhar novo espaço. 
Com esta abertura, os métodos da Nova História Cultural também pas-
sam a adentrar mais o terreno da produção acadêmica brasileira.
As mudanças provocadas foram acompanhadas de novas pu-
blicações de periódicos, livros, coleções, teses, dissertações, textos in-
dividuais temáticos dentro da História, assim como, novas traduções de 
autores até então encobertos pelo engajamento acadêmico marxista. 
Outro acompanhamento importante foram as criações de pro-
gramas de pós-graduação que se voltaram para temáticas relativas à 
Nova História Cultural, como a história das representações, sobre ima-
ginários coletivos, a vida material, entre outros, e foram desenvolvidos 
principalmente em universidades no estado de São Paulo.
Como exemplo deste momento de inspiração e guinada na 
historiografi a brasileira, as obras de Maria Odila Leite da Silva Dias, 
“Quotidiano e Poder em São Paulo no século XIX” (1984), e de Marina 
Maluf, “Ruídos da Memória” (1995), debateram sobre o lugar damulher 
na sociedade brasileira entre o fi nal do século XIX e início do século XX.
As duas obras esclarecem sobre o valor fundamental da res-
ponsabilidade feminina em administrar empreitadas de trabalho, assim 
como as diferenças entre mulheres de classes sociais distintas, e a for-
ma como a escravidão como um sistema político, econômico e social, 
norteou essas relações principalmente sobre a ótica dos problemas do 
patriarcalismo.
Em “Mulheres sem História” (1983), Maria Odila retrata como 
os próprios documentos ofi ciais devem ser reconsiderados de acordo 
com a época que foram produzidos, pois são carregados de valores 
morais pertinentes ao período, reconhecimento este que identifi cava as 
relações de poder na sociedade brasileira:
Processos administrativos, judiciais ou da polícia vem sobrecarregados de 
juízos de valor e de referências genéricas: ‘mulher vagabunda’, ‘desordei-
ras’, ‘turbulentas’, ‘depravadas’; de ‘má fama’, ‘cometeu ruindades’, ‘foi falsa’, 
‘prendeu-se por acusação de andar amancebada’[...] (DIAS, 1983, p.39)
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Aqui, podemos observar que a historiografi a brasileira tinha se 
fi xado até então no papel masculino na sociedade escravocrata e, pos-
teriormente, sobre o período republicano. Com todos esses detalhes, 
podemos observar que a História se tornou mais ampla e possível de 
ser refl etida por diversos ângulos a partir do conceito de cultura, muito 
caro também à Antropologia.
A Antropologia Histórica representa uma mescla desses esfor-
ços, ela está no bojo dessas ações ao propor uma “história dos hábitos” 
(VICENTE, 2009, p.34), em que os hábitos corporais, alimentares, afe-
tivos, entre outros, são estudados de acordo com os valores que são 
atribuídos a eles pela sociedade.
A Antropologia História acabou se ramifi cando como uma área 
que pesquisa temas que não foram muito explorados por historiadores 
e que são caros à Antropologia. Sendo assim, ela não possui, enquanto 
teoria, uma renovação metodológica, e se manifesta mais como uma 
forma de interpretar dados do que uma escola de pensamento.
Nos próximos capítulos iremos trabalhar com autores da Antro-
pologia e da História que dialogaramentre as fronteiras das duas áreas 
de conhecimento intermediadas pelo conceito de cultura como um elo 
em comum.
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QUESTÕES DE CONCURSO
QUESTÃO 1
Ano: 2018 Banca: CESPEÓrgão: IPHANProva: Técnico Nível: Mé-
dio e Superior
Acerca de diferentes abordagens historiográfi cas contemporâ-
neas, julgue o item que se segue. 
A micro-história defi ne-se, em geral, pelo foco em experiências 
e(ou) personagens do passado marcados por características ex-
traordinárias e, sobretudo, exóticas. 
a) Certo
b) Errado 
QUESTÃO 2
Ano: 2018 Banca: CESPEÓrgão: IPHANProva: Técnico Nível: Mé-
dio e Superior
Acerca de diferentes abordagens historiográfi cas contemporâ-
neas, julgue o item que se segue. 
Os primeiros praticantes da micro-história tinham o propósito me-
todológico de operacionalizar uma abordagem qualitativa de cultu-
ras e experiências ligadas a classes sociais subalternas. 
a) Certo
b) Errado
QUESTÃO 3
Ano: 2018 Banca: CESPEÓrgão: IPHANProva: Técnico Nível: Mé-
dio e Superior
Texto associado 
Tendo o texto precedente como referência inicial, julgue o item se-
guinte, relativos à relação entre tempo e história.
Introduzida por Braudel, a categoria da longa duração adaptou e 
temporalizou a noção de estrutura proveniente da linguística e da 
antropologia e simbolizou uma defesa da importância da história 
diante dos avanços cognitivos e institucionais de outras ciências 
sociais na França de meados do século XX. 
a) Certo
b) Errado 
QUESTÃO 4
Ano: 2018 Banca: FCCÓrgão: TRT - 15ª Região (SP)Prova: FCC - 
2018 - TRT - 15ª Região (SP) - Analista Judiciário - História
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No processo de afi rmação da História como disciplina científi ca, 
no século XIX, 
a) aceitava-se como “verdade sobre o passado” as memórias comunitá-
rias orais que eram transcritas pelos historiadores e transformadas em 
documentos ofi ciais de Arquivo de historiadores.
b) predominava o documento escrito de caráter ofi cial como forma de 
conhecer os fatos ocorridos, em detrimento das formas de narrativa oral 
e comunitária sobre o passado.
c) considerava-se a memória como uma ciência auxiliar da história cien-
tífi ca, à medida em que ajudava a elucidar o conteúdo dos documentos 
escritos, prática que deu origem à Paleografi a.
d) valorizava-se a memória comunitária como base alternativa à história 
ofi cial dos Estados-Nação que surgiram no século XIX.
e) defendia-se que história e memória tinham uma relação de completu-
de, sendo a memória oral e coletiva utilizada para preencher as lacunas 
narrativas do discurso científi co da história.
QUESTÃO 5
Ano: 2018 Banca: FCCÓrgão: TRT - 2ª REGIÃO (SP)Prova: FCC - 
2018 - TRT - 2ª REGIÃO (SP) - Analista Judiciário - História
Em Apologia da história, depois de afi rmar que o modelo das ciên-
cias da natureza não se aplica à história, Marc Bloch discorre so-
bre a especifi cidade da ciência dos homens no tempo e defende a 
ideia de que cabe ao historiador:
a) render-se à evidência dos documentos, submetendo-os às críticas 
interna e externa.
b) descrever, o mais fi elmente possível, os acontecimentos do passado.
c) formular perguntas aos documentos e forçá-los a dar respostas.
d) isolar o tempo presente de seu universo de preocupações e referên-
cias.
e) eximir-se de interpretar os vestígios do passado, evitando toda e 
qualquer subjetividade.
QUESTÃO 6
Ano: 2016 Banca: NC-UFPRÓrgão: Prefeitura de Curitiba - PRPro-
va: NC-UFPR - 2016 - Prefeitura de Curitiba - PR - Docência I
No caso de imagens, como no caso de textos, o historiador ne-
cessita ler nas entrelinhas, observando os detalhes pequenos mas 
signifi cativos – incluindo ausências signifi cativas –, usando-os 
como pistas para informações que os produtores de imagens não 
sabiam que eles sabiam, ou para suposições que eles não estavam 
conscientes de possuir.
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(BURKE, Peter. Testemunha ocular: História e imagem. Bauru: 
EDUSC, 2004. p. 237) 
De acordo com o autor, em termos historiográfi cos, as imagens 
devem ser tratadas como 
a) documentos que traduzem o passado de forma objetiva.
b) recursos que complementam o conteúdo obtido através de textos. 
c) fontes indiciais que operam no campo das representações. 
d) registros precários que tendem a distorcer a realidade. 
QUESTÃO INÉDITA
Podemos considerar que a aproximação entre a História e a Antropolo-
gia foi:
a) benéfi ca para os dois lados, pois a produção de editoras passou a 
vender mais.
b) benéfi ca para os dois lados, pois antropólogos passaram a trabalhar 
como historiadores e vice-versa.
c) benéfi ca para os dois lados, pois ambas conseguiram se apropriar de 
ferramentas teóricas que as levaram a um amadurecimento intelectual.
d) prejudicial às duas áreas, já que o campo de atuação de ambas é 
limitado.
e) prejudicial à Antropologia, já que o historiador passou a fazer o tra-
balho específi co do antropólogo também ao se apropriar da etnografi a.
QUESTÃO DISSERTATIVA
A prática do racismo no Brasil está atrelada à formação da sociedade 
brasileira pautada em seu processo de colonização. A mão de obra es-
crava foi por séculos a principal fonte de trabalho da produção monocul-
tura de matéria prima de exportação. Com tantos anos de enraizamento 
no Brasil, o problema da escravidão foi empurrado para o século XX, 
décadas após o fi m da abolição da escravatura como um problema es-
trutural sem solução a ser resolvido pelas instituições públicas e gover-
namentais. Paralelo a este problema, a “teoria do branqueamento” da 
população,desenvolvida no fi nal do século XIX, foi um dos principais 
articuladores para esconder a prática do racismo e tratar esta doutrina 
a partir de argumentos científi cos e respaldados pela ideia da miscige-
nação entre as raças.
A partir deste contexto, explique de que maneira a História e a Antro-
pologia podem auxiliar nas relações entre passado e presente sobre a 
sociedade brasileira com relação ao racismo e às práticas derivadas do 
período escravista.
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NA MÍDIA
Interdisciplinaridade: um avanço na educação
Há três anos, um apagão obrigou a população a racionar energia e o 
Brasil a buscar alternativas. A crise, mostrada à exaustão nos noticiá-
rios, passou a ser o centro das discussões nas salas de aula. Seis pro-
fessoras do Colégio Santa Maria, de São Paulo, foram além e se reu-
niram em torno de um projeto interdisciplinar. Desde então, os alunos 
estudam fontes alternativas de energia, produzem aquecedores solares 
e ensinam a população a utilizá-los. O sucesso do projeto se explica 
principalmente porque os conteúdos de Ciências, Matemática, Geogra-
fi a, Língua Portuguesa, História e Ensino Religioso foram colocados a 
serviço da resolução de um problema real, de forma integrada.
Fonte: 
https://novaescola.org.br/conteudo/249/interdisciplinaridade-
um-avanco-na-educacao
NA PRÁTICA
Vimos acima no item “Na Mídia” como a interdisciplinaridade tende, 
cada vez mais, a dar espaço para resoluções de problemas que antes 
eram ancorados em áreas específi cas de campo de conhecimento A 
ou B. Essa tendência tem ocupado tanto a quebra de fronteiras entre 
as ciências como um todo como as humanas, biológicas e exatas, e 
também, entre si mesma, como no caso da História e da Antropologia, 
estimulado pelo debate entre as ciências humanas.
A quebra da rigidez entre uma área e outra tem proporcionado deba-
tes que amadureceram pesquisas e resultados para o conhecimento 
científi co, neste sentido, podemos citar que a produção intelectual de 
um historiador ou de um antropólogo está próximo do desafi o de saber 
lidar com outras áreas que aparentemente podem ilustrar obstáculos, 
mas que em seu bojo representam novas possibilidades de abordagem 
sobre um mesmo objeto em comum entre áreas diferentes.
Neste capítulo trabalhamos sobre os diferentes contatos entre as duas 
áreas do conhecimento. Analisando a atuação dos profi ssionais tanto 
da História quanto da Antropologia, podemos concluir que ambos estão 
no caminho de tentar entender um contexto social, conjuntura ou práti-
cas sociais a partir do conceito de cultura.
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DEBATES E EMBATES DA ANTROPOLOGIA COM A HISTÓRIA
Antes mesmo de apresentarmos os autores que dialogaram 
com bastante ênfase sobre a relação entre a Antropologia e a História, 
gostaríamos de relembrar algumas questões de trajetória entre as duas 
disciplinas e que repercutiram sobre os caminhos que cada uma tomou.
As diferenças entre a visão do tempo diacrônico e sincrônico 
na Antropologia fez com que as escolas de pensamento antropológico 
se contrapusessem teoricamente quanto à abordagem histórica. A pri-
meira escola, como o Evolucionismo, implantou de maneira crucial e 
condenatória a partir do método comparativo a visão histórica com base 
no progresso. 
Posteriormente, as críticas feitas a essa escola, com os teó-
ricos do Difusionismo, utilizaram dos argumentos históricos para de-
fender a ideia de que uma cultural possui suas origens a partir de um 
ponto em comum com outras, sendo assim, uma história da conjuntura 
ajudaria a explicar como culturas possuem suas diferenças e ao mesmo 
tempo, semelhanças o bastante para as colocarem em um mesmo pa-
tamar de respeito. No entanto, os argumentos não foram o sufi cientes 
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DIÁLOGOS ENTRE
ANTROPOLOGIA & HISTÓRIA
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para desgarrar a teoria difusionista da noção etnocêntrica europeia das 
análises antropológicas.
Diante desses impasses com a temporalidade histórica, o Fun-
cionalismo e o Estrutural-funcionalismo rompeu com a visão evolucionis-
ta e difusionista do tempo, mas sem se debruçar ou mesmo se apropriar 
do ferramental metodológico que a história já havia desenvolvido até 
então. Podemos supor que, na década de 1930, a Escola dos Annales 
já começava a dar suas contribuições para uma História interdisciplinar, 
com questões importantes que envolviam principalmente a noção de 
cultura em suas publicações no periódico lançado por seus autores.
No entanto, o diálogo entre as duas disciplinas, até a década 
de 1950, sempre foi limitado, pois a própria trajetória das duas áreas 
foi marcada por confl itos de interesses tanto sobre a noção de tempo 
por parte da Antropologia, como sobre a noção de cultura, por parte 
da História. Caso fossemos acrescentar um item a mais no título desta 
unidade, acrescentaríamos “tempo”, pois ele foi determinante para as 
pesquisas das duas áreas, assim como o conceito de cultura. 
Da mesma maneira, podemos considerar que a História tam-
bém teve seus problemas relacionados às noções de cultura e socie-
dade, a aproximação com a Antropologia foi justamente para tentar re-
solver este embate. Não por acaso, a macro-história chegou aos seus 
limites por não dar conta de determinadas realidades históricas tratando 
apenas a vida dos grandes e heróis e ilustres batalhas. 
No entanto, não podemos considerar como automática a rela-
ção entre uma e outra, esse dialogo também foi marcado por confl itos 
de interesses, como veremos adiante, nem todo historiador se apro-
priou da antropologia ou de uma só antropologia para desenvolver sua 
produção cultural. 
Assim como os campos científi cos e os paradigmas apresen-
tados por Thomas Khun, em “A estrutura das revoluções científi cas” 
(2011), cada campo científi co possui seus paradigmas, e quebrá-los 
signifi ca também abdicar de cargos, produção científi ca pautada em um 
método esgotado e mudanças metodológicas, portanto, a interdiscipli-
naridade, por mais que bem vinda às duas áreas, sempre sofreu para 
reconhecer espaço no outro lado do campo científi co com quem dialo-
ga. Talvez hoje em dia este dialogo esteja um pouco mais fl exível, mas 
ainda assim, historiadores atuam no campo da História e antropólogos 
atuam no campo da Antropologia.
Adiante, iremos apresentar autores que se aventuraram a dis-
correr sobre este debate tão produtivo dentro das ciências humanas, 
debate este que se encontra até hoje produzindo importantes questões 
históricas e antropológicas.
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LÉVI-STRAUSS E A HISTÓRIA DENTRO DO ESTRUTURALISMO
Lévi-Strauss (1908-2009), um dos grandes proponentes do 
estruturalismo dentro da Antropologia, exerceu alguns diálogos com a 
História que renderam diversas interpretações. A partir do artigo “Lévi-
-Strauss e os sentidos da História” (1999) de Márcio Goldman, iremos 
apresentar este debate e a contribuição do antropólogo para se pensar 
uma perspectiva antropológica sobre a História sem o olhar enviesado 
do etnocentrismo.
Os principais textos de Lévi-Strauss que fi zeram esse diálogo 
são “História e Etnologia” (1949), “Raça e História” (1952), “As descon-
tinuidades culturais e o desenvolvimento econômico” (1960), além de 
alguns capítulos de “O pensamento selvagem” (1962), “Voltas ao pas-
sado” (1998), fora aqueles textos em que o autor se refere à História in-
diretamente, sendo um interesse constante em suas análises e debates 
interdisciplinares.
Apesar de esclarecido seu ponto de vista quanto à relaçãoen-
tre História, Antropologia e a produção cultural de etnias, sua produção 
a cerca do tema caiu em interpretações confusas, levando seus concei-
tos ao contrário do que o autor propunha, o próprio etnocentrismo. O 
maior exemplo deste percalço é a distinção entre sociedades “quentes” 
e “frias”.
Entende-se por sociedades “quentes” aquelas que impulsio-
nam a História como um fator paralelo às estruturas sociais, ou seja, ela 
é viva e possível de ser percebida. Ao contrário, as sociedades “frias” 
são aquelas que a História acaba aparecendo como determinada pelas 
estruturas sociais. A interpretação que caiu em senso comum acadêmi-
co sobre esta teoria é de que em sua visão, há sociedades com e sem 
história.
Interpretar sociedades com ou sem História, na verdade, é um 
convite a entender a cultura como a escola evolucionista de Antropo-
logia tinha como proposta. Seria possível então conceber sociedades 
com desenvolvimento histórico e outras sem eles. No entanto, Lévi-S-
trauss estava lidando com um período em que a História aparecia como 
um fator imperativo sobre o entendimento de qualquer sociedade, esta 
visão histórica se arrastou desde o fi nal do século XIX até a primeira 
metade do século XX.
Neste sentido, o uso evolucionista do começo do século XX se 
trata mais de um aparato ideológico para afi rmar posições do que uma 
nova epistemologia para tratar fenômenos históricos. A obra que Lévi-
-Strauss caminha na contramão dessa proposta, assim como também, 
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propõe uma nova visão história para além das escolas culturalistas dos 
Estados Unidos, e o funcionalismo britânico, como cita Marcio Goldman:
[...] as críticas funcionalista e culturalista ao evolucionismo (e ao privilégio 
da história, consequentemente) são sobretudo de ordem “metodológica”. Ou 
seja, estão exclusivamente preocupadas com a quase impossibilidade de 
obter dados históricos confi áveis acerca das sociedades que, em geral, os 
antropólogos estuda. Ora, a crítica levistraussiana é muito mais ambiciosa. 
Partindo, certamente, das difi culdades encontradas pelo conhecimento his-
tórico em face das sociedades ditas primitivas, Lévi-Strauss não apenas diri-
ge um ataque verdadeiramente epistemológico ao evolucionismo social (em 
“História e Etnologia”, “Raça e História” e outros textos) como elabora uma 
crítica mais profunda ao imperialismo da história em geral – crítica que se 
encontra sobretudo nos dois últimos capítulos de O pensamento selvagem. 
(GOLDMAN, 1999, p.227)
A esse imperialismo histórico, Lévi-Strauss concebe na década 
de 1960, três propostas diferentes sobre o que é a história: 
a historicidade, aquela em que as sociedades agem sem saber 
ao certo qual o destino que irão tomar, pois representa uma 
época e os sujeitos pertencem como uma condição temporal;
a história dos historiadores, formulada e interpretada segundo 
seus valores e paradigmas;
a fi losofi a da história, que busca repensar suas próprias 
concepções.
Lévi-Strauss deixa claro que até a década de 1960, a História 
possuía uma forma de conceber a sociedade e seus fenômenos sociais 
de maneira tão rígida como qualquer outra ciência a fi m de produzir 
resultados. 
Aqui podemos perceber que havia um distanciamento até en-
tão entre historiadores e antropólogos, e a afi rmação da responsabilida-
de em especial de entender a diversidade cultural e, consequentemen-
te, perceber inúmeras temporalidades, resguardadas a Antropologia.
A contribuição de Lévi-Strauss abriu novas perspectivas para 
se pensar a História a partir da diversidade. Podemos entender diver-
sidade como o conjunto de características culturais de uma sociedade 
que possui explicações acerca de sua própria história.
É a partir desta afi rmativa que a ideia de sociedades “quentes” 
e “frias” se distinguem do modo como entendem suas temporalidades. 
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O fato de haver uma sociedade que não pense sobre sua própria tem-
poralidade não é defendida pelo antropólogo como uma banalidade – se 
é que de fato existem sociedades que não pensam sobre sua própria 
temporalidade -, mas de que nem sempre o tempo cronológico europeu-
-norte-americano dará conta de responder a todos os tipos de noção 
histórica.
Outro ponto importante de inovação da teoria de Lévi-Strauss 
entre a Antropologia e a História é a ideia de história “cumulativa” e 
história “estacionária”, as quais complementam adiante as ideias de so-
ciedades “quentes” e “frias”.
A proposição do autor que podemos encontrar sociedades com 
uma história cumulativa, ou seja, que possuem uma produção técnica e 
cultural que melhor dinamizam as suas relações sociais, como exemplo, 
sociedades que viviam na América antes da chegada do colonizador 
europeu e possuíam técnicas de sobrevivência hoje reconhecidas como 
avançadas.
Isso requer entender que desenvolvimento técnico nunca foi 
algo exclusivo a etnias originárias no berço do Mar Mediterrâneo (Euro-
pa, Norte da África e Oriente Médio).
O texto “Raça e História” de Lévi-Strauss foi um importante 
marco na quebra da ideia de sociedades avançadas e atrasadas. O pro-
gresso existe em diferentes graus de acordo com os interesses de uma 
sociedade, as quais muitas vezes estão relacionadas a valores subje-
tivos. Da mesma forma, pensar o progresso associado a raça também 
foi por muito tempo justifi cativa para teorias racistas da própria história, 
o que o autor procurou combater com o conceito de diversidade para 
entender a temporalidade de outras culturas.
A proposta do estruturalismo, no entanto, sempre levou em 
consideração de que maneira forças e instituições maiores que o indiví-
duo desse signifi cado para sua vida social, assim como para a História. 
Contudo, é preciso salientar que a visão de Lévi-Strauss não condenou 
particularidades, assim como fi zeram os estudos comparativos evolu-
cionistas no começo do século XX.
A própria ideia de história “estacionária” parece remeter à velha 
ideia de sociedades atrasadas em uma leitura desatenta, no entanto, o 
autor deixa em aberto mais uma vez a possibilidade de haver etnias que 
trabalhem dessa maneira de acordo com sua temporalidade.
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Podemos perceber, na aproximação que Lévi-Strauss faz entre 
História e Antropologia, uma abertura para encarar sociedades diferen-
tes da ocidental como dotadas de uma noção própria de temporalidade. 
A concepção de História, para além da ideia simples de sucessão e 
acontecimentos, depende muito de como a própria sociedade se en-
tende.
A proposta do antropólogo quebra com o progresso histórico 
ao perceber, por exemplo, que em sociedades “quentes” e com histó-
ria “cumulativa”, é muito mais comum encontrar guerras, disputadas e 
desigualdades do que em sociedades julgadas como “frias” e “estacio-
nárias”. Ou seja, a noção de história vinda do mundo ocidental e encon-
trada em outras sociedades com ideia semelhante, não garantem que o 
progresso estava atrelado ao seu desenvolvimento.
A História aparece não como uma temporalidade perdida e sol-
ta no universo social, mas dependente do entendimento da concepção 
de cultura que a fundamenta, caso contrário, corremos o risco de nos 
apoiarmos sobre uma visão etnocêntrica dos fatos.
MARSHALL SAHLINS: ENTRE A ESTRUTURA E O EVENTO
O antropólogo Marshall Sahlins (1930- ) possui suas bases 
teóricas associadas ao estruturalismo, mas podemos afi rmar que ele 
não está relacionado a uma única linha de pensamento antropológica. 
Se Lévi-Strauss pensou sociedades “quentes” e “frias”, “cumulativas” 
e “estacionárias”, Sahlins indagou sobre a noção de movimento dentro 
das estruturas sociais e de que modo as próprias estruturas também 
trabalham produzindo e dando novos signifi cados a símbolos.
São diversas as obras em que oantropólogo refl ete sobre a 
História e o impacto de eventos em mudanças estruturais. Entre elas, 
podemos citar “Cultura e Razão Prática” (1976) e “Ilhas de História” 
(1985), e “História e Cultura. Apologia a Tucídides” (2004)
Os principais interesses de debate teórico proposto pelo autor 
eram o estruturalismo francês, representado pela linguística de Fernand 
de Saussure (1857-1913), e infl uente na obra de Lévi-Strauss, e com a 
Escola dos Annales. A ambas teorias o autor propôs uma melhor acep-
ção dos eventos no estruturalismo e uma visão mais antropológica na 
História, devido às generalizações da noção temporal da longa duração 
na compreensão sobre os fatos históricos.
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Apesar de ter demonstrado a diversidade na compreensão do 
tempo histórico proposto por Lévi-Strauss, pouco apareceu em sua obra 
como as estruturas são modifi cadas ao longo do tempo. Dessa manei-
ra, a concepção que se cria sobre o tempo é de que as estruturas são 
imutáveis.
Apropriando-se do conceito marxista de práxis, que compreen-
de a ação humana em sociedade, Marshall Sahlins propôs o conceito 
de “mitopráxis”, que traduz a ideia de que os mitos explicam uma deter-
minada realidade como um sistema universal presente em diversas so-
ciedades, sendo assim, representa um fator estruturante para entender 
diversas culturas. 
Contudo, o entendimento da realidade pelo conceito do autor 
não pode congelar a sociedade, pois esta mesma sociedade não está 
isenta da ação humana, da práxis, sendo assim, a própria história é 
representada pela ação humana e tende a dar novos signifi cados aos 
símbolos e às estruturas de uma determinada sociedade. Os mitos ex-
plicam a ação humana sobre a realidade, assim como, são responsá-
veis também por mudanças e transformações.
Para compreender esse processo de dar novos signifi cados, é 
preciso entender que a reprodução das estruturas passa pelos valores 
culturais pertencentes a uma dada sociedade, e sendo assim, tendem a 
sofrer transformações.
Um dos exemplos clássicos da mitopráxis proposta por Sahlins 
está em “Ilhas de História” (1985) ao retratar a visita do capitão inglês 
James Cook ao Havaí entre 1778-1779. O encontro do capitão inglês 
com os colonos havaianos provocou um choque cultural mas, ao mes-
mo, tempo resultados que não seriam esperados pela tripulação de 
Cook.
Em um primeiro momento, o navegante havia sido identifi cado 
como Lonos, Deus responsável pela fertilidade e representante das fes-
tividades anuais de Makahiki. Esta associação com sua imagem rendeu 
prestígios, que até certo ponto, foram desfrutados pelo capitão e seus 
encarregados. Contudo, a própria mitologia havaiana considerava Lono 
como uma entidade a ser morta, pois também representa o usurpador 
do reino, e assim se deu o desfecho da relação entre havaianos e o 
capitão Cook.
O que Sahlins propõe, e provoca ao mesmo tempo, é que o 
contato real que havaianos tiveram com seu próprio mito é fruto da res-
signifi cação em contato com a realidade. Uma divindade presente não 
coibiu o ato de concluir a própria mitologia havaiana, assim como, a re-
lação imaginada entre chefe e pessoas comuns caiu por terra ao supor 
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que este Deus deveria morrer.
O que podemos perceber no trabalho de Marshall Sahlins é 
uma preocupação em não associar a Antropologia – representada pelo 
estruturalismo – à História diretamente, sem reconhecer o caráter mu-
tável que as culturas possuem, sendo elas mesmas responsáveis por 
mudanças que atingem as estruturas.
Neste sentido, podemos observar que, mais do que uma con-
tribuição entre as duas áreas do conhecimento, há debates ainda por 
serem percorridos, os quais não foram esgotados o sufi ciente enquanto 
pesquisas.
Saiba Mais
Arte: o artista John Cleverley (1712-1777) pintou diversas 
obras do universo das navegações, entre elas, uma tela que 
retrata a morte do capitão Cook, reconhecido como um 
importante fato histórico.
GEERTZ E A “DESCRIÇÃO DENSA”
Como apontado no primeiro capítulo desta unidade, Cliff ord 
Geertz (1926-2006) é um dos autores que mais compartilhou conceitos 
com a chamada Nova História Cultural. A chamada “descrição densa” 
é o que o coloca em devida importância ao tratar sobre problemas his-
tóricos.
‘A “descrição densa” está relacionada ao conceito de cultura 
que o antropólogo defende. No caso, ele se baseou na concepção de 
Max Weber (1864-1920) para falar sobre cultura:
Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias 
de signifi cados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas 
teias e a sua análise; portanto, não como uma ciência experimental em bus-
ca de leis, mas como uma ciência interpretativa, à procura do signifi cado. É 
justamente uma explicação que eu procuro, ao construir expressões sociais 
enigmáticas na sua superfície. (GEERTZ, 2002, p.4)
Caso fossemos detalhar o que representa a cultura enquanto 
conceito segundo a Antropologia, encontraríamos diversas defi nições. 
Como apresentado em “Cultura: A visão dos antropólogos” (2002), de 
Adam Kuper, há diferentes visões sobre este conceito, e sua defi nição 
depende a escola antropológica a que está inserido. O que aproveita-
mos aqui sobre esta diversidade de conceitos é que após o cultural turn
na década e 1980, não foi mais possível entender a cultura como um 
conceito unido e universal para todas as etnias.
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Como esboçado na citação acima, “teias de signifi cado” simbo-
lizam o termo cultura para Geertz e demonstram o quão diverso pode 
ser este conceito em cada contexto estudado. O entendimento de uma 
sociedade exige compreender as relações de signifi cados que os ele-
mentos simbólicos possuem entre si e qual os valores atribuídos a eles 
pelos próprios nativos.
Quantomaior o número de detalhes sobre os diversos aspec-
tos que formam essa “teia de signifi cados”, mais próximo de uma “des-
crição densa” sobre uma sociedade estaremos, e consequentemente, 
sobre as possibilidades de seu entendimento.
A mera descrição do antropólogo também não garante a inter-
pretação sobre valores culturais locais. Essa foi uma das críticas feitas 
à escola culturalista de Franz Boas (1858-1942) e suas pesquisas no 
início do século XX. É preciso diferenciar entre simples gestos e a sua 
interpretação à luz das intenções e ações de cada indivíduo por trás 
desses gestos, fato este que defi ne o que é a Antropologia Interpreta-
tiva.
O trabalho de Geertz abriu espaço para estudos de detalhes 
antes considerados apenas como abstratos ou desprezíveis. Em um 
dos trechos de sua obra o autor cita um exemplo simples, como o de 
uma piscadela, que pode representar diversos signifi cados dependendo 
do contexto em que está inserido:
O problema metodológico que a natureza microscópica da etnografi a apre-
senta é tanto real como crítica. Mas ele não será resolvido observando uma 
localidade remota como o mundo numa chávena ou como o equivalente so-
ciólogo de uma câmara de nuvens. Deverá ser solucionado - ou tentar sê-lo 
de qualquer maneira – através da compreensão de que as ações sociais são 
comentários a respeito de mais do que elas mesmas; de que, de onde vem 
uma interpretação não determina para onde ela poderá ser impelida a ir. 
Fatos pequenos podem relacionar-se a grandes temas, as piscadelas à epis-
temologia, ou incursões aos carneiros à revolução, por que eles são levados 
a isso.” (2002, p.16-17) 
Foi a partir desta contribuição à Antropologia que se desen-
volveu a ideia de microhistória, que reduz as análises a uma escala 
menor sendo possível a percepção dos indivíduos e suas ações. Essa 
apropriação da microanálise na História se deu em um momento na dé-
cada de 1980, em que as macroanálises dominavam a historiografia e 
o modo de expressar conteúdos simbólicos de uma determinada época 
e sociedade.
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As grandes análises de caráter generalizante tendiam a focar 
seus estudos sobre as relações de poder e grandes movimentos histó-
ricos, fechando-se, assim, ao tempo da longa duração. As grandes con-
junturas eram utilizadas como explicação de todo um contexto social, e 
detalhes eram engolidos como pormenores não infl uentes na História.
A narrativa apresentada por Paul Ricoeur utilizada por Geertz, 
e apropriada por historiadores como Carlo Ginzburg, em “O queijo e os 
vermes” (1976), deixa claro que o percurso metodológico tomado pelo 
pesquisador possa por decisões particulares e subjetivas, sendo assim, 
a objetividade científi ca e ortodoxa da História do século XIX até a me-
tade do século XX não representa o ideal de apoio para os resultados 
de pesquisa da microhistória. 
Da mesma forma, tanto a microhistória quanto a microanálise 
da Antropologia Interpretativa sofreram críticas. Entre as críticas, duas 
chamam a atenção: a primeira é de que há sobreposições exageradas 
sobre a importância dada aos detalhes microanalíticos em detrimento 
aos dados das macroanálises, o local se torna mais importante que o 
geral neste sentido, o que pode gerar um desequilíbrio entre as partes; 
em segundo lugar, a exaltação de métodos diretos de fonte de pesqui-
sa, como forma de desqualifi car fontes indiretas.
Todavia, apesar das críticas, podemos concluir que o contato 
entre a Antropologia Interpretativa e a microhistória fez amadurecer os 
dois campos de conhecimento. Foi a partir deste contato que temas 
antes desprezados pela macrohistória passaram a fazer mais sentido 
para outros historiadores.
PIERRE BOURDIEU: O CAMPO E O HÁBITUS
Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um fi lósofo que, apesar de ser 
associado com a Sociologia, deu importantes contribuições à Antropo-
logia, assim como teve seus conceitos apropriados por historiadores 
também.
Tratando-se de contribuições e apropriações entre diferentes 
áreas do conhecimento, autores que produziram para as Ciências Sociais 
podem ser utilizados de diferentes maneiras tanto pela Antropologia, Socio-
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logia, Ciência Política, assim como pelas demais Ciências Humanas.
Em “História Cultural e Sociologia: contribuições de Bourdieu 
para uma ciência da obra cultural” (2011), o autor Claércio Ivan Sch-
neider analisa de que maneira os conceitos de Bourdieu foram caros 
à História Cultural a partir da obra do autor “As regras da arte” (1996). 
Nessa obra, o autor estabeleceu novos parâmetros de análise sobre a 
produção cultural e artística dentro da literatura, que servem também 
para as interpretações históricas no trabalho do historiador.
São alguns dos aspectos importantes levantados sobre a aná-
lise de obras culturais dentro da literatura:
[...] entender as regras que regem escritores e instituições literárias; atentar 
ao trabalho de produção, edição e distribuição da arte e do “artista”; estudar a 
gênese social do campo literário e jornalístico (crença que o sustenta; jogo de 
linguagem; interesses materiais e simbólicos); analisar a obra literária como 
um signo intencional habitado e regulado pelas regras de seu campo; e, por 
fi m, perceber os princípios de visão e de divisão dos problemas que eles se 
colocam, e das soluções que lhes dão os autores. 
(SCHNEIDER, 2011, p.6-7)
Esses são exemplos de como uma produção cultural é traba-
lhada. No caso de “As regras da arte”, Bourdieu enfatiza sobre a pro-
dução literária e como entender uma obra dentro de seu contexto. Dois 
conceitos são primordiais na teoria social de Bourdieu:
Campo, como uma estrutura de relações em que os 
personagens sociais ocupam espaços e defendem suas 
posições sociais;
Hábitus, como o comportamento aceito e criado dentro do c
ampo de acordo com os lavores que são defendidos nele.
Mais adiante iremos voltar a estes conceitos a partir do texto 
de Schneider, mas podemos reconhecer que estes são conceitos impor-
tantes para compreender também uma determinada cultural. O uso dos 
termos “código” se refere às características identitária de determinado 
campo e como de certa forma ele estipula os hábitus aceitos socialmen-
te.
A partir da literatura, Bourdieu buscou estabelecer parâmetros 
para compreender as normas de funcionamento de um grupo de escri-
tores relacionados a um contexto. A produção literária não está asso-
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ciada simplesmente ao ato de escrever, ela envolve jogos de posições 
e reconhecimentos estabelecidos dentro de si como uma lógica de fun-
cionamento.
Mais uma vez, o termo “estrutura” é utilizado por um cientista 
social e fi lósofo, mas novamente esta estrutura não possui os mesmo 
signifi cado que a Antropologia estruturalista ou mesmo a crítica feita 
por Marshall Sahlins sobre a relação entre estrutura e evento. A bus-
ca pelas regras que representam o funcionamento de um meio social 
para Bourdieu é o que identifi ca sua ideia de estrutura, entender essas 
regras resume entender o campo e como os hábitus estão associados 
a ele. No caso da literatura, é preciso compreender a análise sobre o 
campo literário, sua estrutura de funcionamento interno e a origem dos 
hábitus, como comportamentos derivados dos códigos estabelecidos 
dentro deste campo.
A partir do conhecimento dessas três operações, é possível 
reconhecer o contexto histórico da estrutura em questão, a qual envolve 
as posições que ocupam os personagens históricos e a concorrência 
que disputam entre si. Dentro desta lógica, podemos observar que para 
Bourdieu, o campo não é neutro, ele é permeado por disputas de poder 
que originam cargos e posições sociais. Associado à literatura, a pro-
dução de uma obra cultural está relacionada com a posição do escritor 
nas relações de poder dentro deste campo, como também, à maneira 
como os personagens agem com seus objetivos. Podemos perceber 
que Bourdieu trouxe um conceito diferente dentro da Antropologia ao 
tratar a organização social a partir do campo e do hábitus, pois esses 
dois elementos foram associados em outras escolas de pensamento an-
tropológico como instituições, comportamentos ou fenômenos sociais.
Outra questão importante é sobre a maneira como o autor re-
conhece esses campos. Como citamos no início deste módulo, a inter-
disciplinaridade foi e continua sendo um movimento histórico voltado 
para a quebra da fragmentação do conhecimento científi co cindidos em 
áreas específi cas, sendo assim, os conceitos que emergiram e foram 
apropriados entre a Antropologia e a História foram resultados de apro-
ximações e superações de fronteiras.
No caso de Bourdieu, ele aposta o reconhecimento de um 
campo justamente no recrudescimento das fronteiras, das disputas por 
mantê-las, e o que fazem delas possuírem uma lógica própria de auto-
-afi rmação interna. Para o historiador – reconhece o autor -, a ideia de 
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campo pode auxiliar a perceber a cultura de uma determinada época 
e sociedade. A partir da análise das estruturas e lógicas que regem o 
campo é possível compreender as posições e relações de poder assim 
como tornar evidente como a dominação simbólica dos indivíduos pos-
suem um impacto social.
Sendo assim, Schneider cita que:
O campo é aqui entendido como o locus em que se trava uma luta concorren-
cial entre os atores, no qual estes interagem em campos que se inter-relacio-
nam, porém em torno de interesses específi cos que caracterizam a área em 
questão. A estruturação do campo, conforme Bourdieu, é defi nida segundo 
as relações objetivas presentes em determinada estrutura, e sua reprodução 
é uma das questõesvitais dentre as que estão em jogo na concorrência que 
se desenvolve dentro desse campo. (SCHNEIDER, 2011, p.11)
Em conjunto com o campo, as atitudes que são tomadas de 
acordo com sua lógica de funcionamento são atribuídas ao 
hábitus. Sobre o hábitus, Schneider esclareceu:
O habitus, presente em um determinado meio, produz práticas que só podem 
ser explicadas segundo a conjuntura, a qual é resultante e percebida por 
aqueles que compartilham o código. Com efeito, o habitus pode ser conside-
rado como um sistema subjetivo de estruturas interiorizadas, comuns a todos 
os membros de seu grupo e que constituem a condição de toda a percepção 
do mundo. O habitus, afi rma Bourdieu, é ao mesmo tempo um sistema de es-
quemas de produção de práticas e um sistema de esquemas de percepção e 
apreciação das práticas, ou seja, o habitus produz práticas e representações 
que estão disponíveis para a classifi cação dos agentes no campo de poder. 
(SCHNEIDER, 2011, p.11)
Vimos, a partir de Bourdieu, que o historiador pode ir além da 
análise sobre um único objeto de pesquisa enquanto fonte de dados, 
como exemplo, a obra que deriva de uma produção cultural. Neste 
sentido, é preciso reconhecer o campo ao qual está inserida esta obra 
como parte do processo de concepção intelectual desta obra. Desta 
forma, podemos afi rmar que o conceito de campo e hábitus na teoria 
de Bourdieu é de extrema importância na associação entre Ciências 
Sociais e a História para entender fatores estruturais que circundam um 
objeto de pesquisa.
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QUESTÕES DE CONCURSO
QUESTÃO 1
Ano: 2012 Banca: CETAP Órgão: FUNPAPA Prova: Antropólogo
Nível: Superior
Em seus escritos sobre os mitos, Claude Lévi-Strauss dividiu as 
sociedades humanas em “sociedades frias” e “sociedades quen-
tes” para compreender as estruturas mentais inconscientes bási-
cas. A alternativa CORRETA que explica tal divisão é: 
a) As sociedades frias estão mais distantes do estado de natureza, en-
quanto as sociedades quentes estão mais próximas.
b) As sociedades distinguem se em quentes e frias de acordo com o seu 
contingente populacional.
c) As sociedades quentes podem ser exemplifi cadas pelas sociedades 
complexas.
d) As sociedades frias têm ênfase no progresso e na constante transfor-
mação tecnológica.
e) As sociedades quentes são mais resistentes às mudanças culturais.
QUESTÃO 2
Ano: 2016 Banca: ABARETE Órgão: Prefeitura municipal de São 
Gabriel da Cachoeira Prova: Antropólogo Nível: Superior
Com relação da diversidade cultural da humanidade, julgue a des-
crição abaixo: 
“Considerando a extrema diversidade cultural da humanidade, Po-
de-se compreender cada grupo humano, seus valores defi nidos, 
suas exclusivas normas de conduta e suas próprias reações psico-
lógicas aos fenômenos do cotidiano; e também suas convenções 
relativas ao bem e mal, ao moral e imoral, ao belo e feio, ao certo e 
errado, ao justo e injusto”. (MARCONI, 2006). 
A respeito da afi rmação acima é correto afi rmar que: 
a) refuta a ideia de que todo sistema cultural vive em constante proces-
so de mudança 
b) nega uma visão objetiva das culturas ao ignorar suas características 
específi cas. 
c) aceita o universalismo como base de formação das diversas culturas 
humanas. 
d) valoriza a relatividade cultural como princípio de observação antro-
pológica. 
e) envolve principalmente o conceito de grupo étnico e as questões de 
raça. 
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QUESTÃO 3
Ano: 2016 Banca: ABARETE Órgão: Prefeitura municipal de São 
Gabriel da Cachoeira Prova: Antropólogo Nível: Superior
Sobre a relação entre Antropologia, memória e História, analise a 
afi rmativa a seguir. 
As refl exões sobre o trabalho etnográfi co com narrativas popula-
res constituem-se no próprio método da História 
Antropológica. 
Assinale:
a) Certo
b) Errado
QUESTÃO 4
Ano: 2016 Banca: ABARETE Órgão: Prefeitura municipal de São 
Gabriel da Cachoeira Prova: Antropólogo Nível: Superior
Sobre a relação entre Antropologia, memória e História, analise a afi r-
mativa a seguir. 
Uma questão tradicionalmente demarcada nas ciências sociais faz refe-
rência ao estatuto de objeto antropológico conferido à memória. 
Assinale:
a) Certo
b) Errado
QUESTÃO 5
Ano: 2016 Banca: ABARETE Órgão: Prefeitura municipal de São 
Gabriel da Cachoeira Prova: Antropólogo Nível: Superior
Sobre a relação entre Antropologia, memória e História, analise a 
afi rmativa a seguir. 
Na Antropologia Histórica, temas como individuo, coletividade, in-
venção e esquecimento embasam as teorias da memória social. 
Assinale:
a) Certo
b) Errado
QUESTÃO 6
Ano: 2006 Banca: UNAMA Órgão: SECULT (PA) Prova: Técnico em 
Gestão Cultural Nível: Superior
Uma das referências mais constantes na bibliografi a antropológi-
ca atual é Cliff ord Geertz.Antropólogo americano, enquadrado por 
alguns como um antiteórico, que propõe a busca derelações sis-
temáticas entre fenômenos diversos e não identidades substanti-
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vas entre fenômenossimilares. Criador da teoria interpretativista, 
sugere que:
a) ao estudar um grupo social deve-se manter uma postura etnocêntri-
ca.
b) estudar a cultura é examiná-la em momento único na história, ou 
como algo existente fora da
história.
c) estudar a cultura de um dado contexto social é estudar o signifi cado 
dos símbolos partilhados
pelos seus integrantes.
d) o estudo de grupos sociais deve ser desenvolvido de modo sincrôni-
co.
QUESTÃO INÉDITA
A noção de sociedades “quentes” e “frias” representam, na teoria de 
Lévi-Strauss, respectivamente:
a) sociedades que estão situadas entre os trópicos, e aquelas que estão 
situadas próximos dos pólos norte e sul.
b) sociedades que se apropriaram do fogo, e aquelas que não utilizam 
o fogo em seu cotidiano.
c) sociedades que acumulam conhecimento histórico, e aquelas que 
não são cumulativas.
d) sociedades que possuem história, e aquelas que não possuem his-
tória.
e) sociedades que se preocupam de maneira vívida com a sua história, 
aquelas que não tratam a história como um fator determinante sobre 
suas estruturas.
QUESTÃO DISSERTATIVA
A aproximação entre a Antropologia e a História se deu de maneiras 
distintas. Podemos citar que a História se aproximou de alguns concei-
tos antropológicos, como o conceito de cultura, identidade, etnicidade, 
etnocentrismo, entre outros, e o uso que foram feitos desses conceitos 
esteve relacionado com o alargamento da interpretação da vida social 
dos sujeitos históricos. Já no caso da Antropologia, a apropriação da 
teoria histórica aconteceu a partir da refl exão em seu bojo sobre a no-
ção de temporalidade em seu bojo. 
Levando em consideração estes aspectos, cite as principais refl exões 
antropológicas quanto a noção de tempo histórico presente nesta uni-
dade a partir de Lévi-Strauss e de Marshall Sahlins. 
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NA MÍDIA
A diversidade cultural em Lévi-Strauss
No texto “Raça e História”, escrito para a UNESCO, Lévi-Strauss dirige 
seu pensamento à diversidade cultural, elaborando sua teoria a partir 
de uma crítica ao evolucionismo. Para o autor, o evolucionismo ocorre 
porque o Ocidente vê a si mesmo como fi nalidade do desenvolvimento 
humano. Isso gera o etnocentrismo, ou seja, o Ocidente vê e analisa 
as outras culturas a partir de suas próprias categorias. É necessário 
que haja um esforço de relativização para não julgar as outras culturas 
através de nossa própria cultura. É preciso vê-las sem os pressupostos 
da nossa.
Fonte:https://brasilescola.uol.com.br/fi losofi a/a-diversidade-cultural-le-
vi-strauss.htm
NA PRÁTICA
A partir da notícia sobre Lévi-Strauss podemos reconhecer a devida im-
portância dada a sua obra e, consequentemente, a contribuiçãode mui-
to valor de sua teoria antropológica para a História, de maneira geral. 
Foi a partir de Lévi-Strauss que a ideia de diversidade de concepções 
culturais e temporais sobre diferentes etnias apareceram com a devida 
importância para a produção intelectual dentro das ciências humanas.
Sendo assim, podemos considerar que a partir do momento em que o 
trabalho do antropólogo entrou em contato com questões da História, a 
noção de temporalidade passou a ganhar um peso importante. Vimos 
que este contato, desde a escola de pensamento antropológico evo-
lucionista, foi marcado por uma única maneira de interpretar o tempo 
histórico, mas ao longo do século XX, essa questão se desenvolveu até 
obter o reconhecimento de que dentro da Antropologia, se faz neces-
sário refl etir sobre qual a temporalidade está sendo aplicada sobre os 
sujeitos.
A prática do trabalho do antropólogo ganhou maior policiamento com o 
respeito a noção de temporalidade histórica baseado no contato com as 
pesquisas historiográfi cas, desta maneira, podemos concluir que ape-
nas afi rmar um norte para o caminho que uma sociedade segue em sua 
trajetória não explica de que maneira ela concebe sua temporalidade.
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OS HISTORIADORES E A ANTROPOLOGIA
Aqui iremos apresentar alguns dos historiadores que tiveram 
contato direto com a Antropologia em suas pesquisas e o seu resultado. 
É importante observar que há níveis diferentes de interação entre es-
ses estudiosos das duas áreas, nem todos historiadores se apropriaram 
dos mesmos referenciais teóricos da Antropologia. Sendo assim, cabe 
ressaltar que, aqui, apresentaremos três abordagens com intenções di-
ferentes quanto à forma como aproximaram as duas áreas do conheci-
mento, desde autores clássicos, até autores da modernidade.
EMMANUEL LE ROY LADURIEE A HISTÓRIA ETNOGRÁFICA
Emmanuel Le Roy Ladurie (1929- ) é um historiador francês 
que foi aluno de Fernand Braudel (1902-1985), e assim como seu pro-
fessor, se tornou líder da Escola dos Annales.Posteriormente, na déca-
da de 1970, passou a fazer parte da Nova História Cultural francesa, 
investigando de forma minuciosa detalhes da história francesa em con-
junto com pesquisa antropológicas.
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DIÁLOGOS ENTRE A 
HISTÓRIA & A ANTROPOLOGIA
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Uma de suas principais obras: Mountaillou - Povoado Occitâ-
nico de 1294 a 1324 (1997), retrata o histórico e contexto social sobre 
Mauntaillou, uma aldeia situada no sudoeste da França, a qual passou 
em 1320 por uma rigorosa perseguição a hereges, encabeçada pela 
Inquisição. Nesta busca por pecadores, fi caram dezenas de confi ssões 
analisadas pelo autor que, se apropriou desta fonte para tratar sobre 
a vida rotineira e simples daqueles que viveram há mais de 600 anos 
atrás.
Em um primeiro momento, o autor – herdeiro da Escola dos An-
nales -, procurou alinhar sua pesquisa à prática da interdisciplinaridade. 
A busca por uma história completa trouxe abordagens sobre a forma de 
alimentação das pessoas, o trabalho, a demografi a, o território ocupado 
na região, a economia, entre outros aspectos. 
Dessa maneira, ele procura analisar a aldeia em questão a 
partir de um olhar próximo das ciências sociais, principalmente sobre a 
forma como funcionam as relações de poder, os confl itos sociais exis-
tentes no local e o regramento para o trabalho com a terra. Já na se-
gunda parte da obra, o autor se aproxima mais do trabalho etnográfi co 
ao colocar em foco o conceito de cultura para a análise da sociedade 
estudada. 
Entre os temas apresentados, podemos elencar:
A questão da família e a organização da casa como um 
ambiente privado;
As relações conjugais e de parentesco;
As crenças e superstições;
Os ritos de proteção da casa;
Os arranjos familiares e a relação com a vizinhança.
Os itens mencionados são temas clássicos dentro da Antropo-
logia e auxiliam a compreender as instituições básicas de uma socie-
dade.
Dentro do contexto de produção intelectual do autor, que pas-
sou a produzir uma história mais voltada para os detalhes e caracterís-
ticas socioculturais com relação ao objeto de pesquisa estudado, pode-
mos observar que de um modo geral, historiadores se apropriaram da 
Antropologia de diversas ramifi cações, como a Antropologia econômica, 
jurídica, política, social e cultural, mas teve como principal abordagem 
as duas últimas mencionadas.
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Tratando-se de uma questão metodológica, a obra abordada 
aqui Montaillou serve de exemplo para esta associação. Ao analisar os 
registros do inquérito coletivo levantados entre 1318 e 1325, o autor se 
debruçou sobre o material assim como um antropólogo observa uma 
cultura participando de seus rituais.
A invasão da vida íntima dos moradores da aldeia promovi-
da pelo tribunal da Santa Inquisição perseguiu camponeses, pastores, 
artesãos e comerciantes das mais variadas espécies de mercadorias 
em busca de indícios de heresias com relação aos valores da Igreja 
Católica.
A uma visão desatenta sobre os fatos, os inquéritos apenas 
relariam a crueldade e frieza da Igreja Católica, porém, o que Le Roy 
Ladurie faz é tratar esses registros como fonte de entendimento sobre 
aspectos da sociedade em questão, como a vida familiar, material e a 
cultura camponesa.
As análises de Le Roy Ladurie se aproximam do recorte tem-
poral utilizado pela escola de pensamento antropológica funcionalista, 
principalmente pautada nas obras de Malinowski. A sociedade da aldeia 
Montaillou está para o autor como uma etnia está para um antropólogo.
O modo de vida desta sociedade é levantado como uma forma 
de compreender os valores e funcionamentos de instituições dentro do 
contexto estudado, a lógica social desta aldeia é ressaltada no lugar de 
lógicas universais. Sendo assim, podemos também observar a preo-
cupação do autor em se apropriar do “método monográfi co”, também 
muito utilizado dentro da Antropologia, em que um objeto de pesquisa é 
esgotado sobre diversos ângulos quanto ao seus detalhes.
O método monográfi co contempla diversas áreas de produção 
do conhecimento francês, sendo um dos conceitos estipulados pela his-
toriografi a francesa, a chamada “monografi a de aldeia”. Em “História e 
Antropologia no campo da Nova História” (2007), o autor Antonio Paulo 
Benatte esclarece sobre essa metodologia dentro dos estudos históri-
cos na França:
A monografi a de aldeia, ademais, assemelha-se a um gênero de história re-
gional e local que deve mais à geografi a humana da escola de Vilda de La 
Blache que à petithistoire dos eruditos de província. Em outro momento e 
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lugar, Le Roy defi niu a monografi a aldeã como um gênero científi co mais 
amplo e consolidado [...]. Na micro-história à francesa observa-se, portanto, 
uma confl uência de duas tradições bastante distintas, uma geográfi ca e outra 
antropológica: por um lado, a tradição da monografi a regional inaugurada 
pelas pesquisas de geografi a humana, e que tanta infl uência tiveram sobre 
os historiadores dos Annales desde os anos 1930 (história social, econômi-
ca e demográfi ca); e, por outro lado, o princípio antropológico, desde Franz 
Boas, do inquérito pormenorizado em terreno circunscrito. A essa restrição 
espacial, soma-se uma restrição temporal tomada, paradoxalmente, da his-
toriografi a a mas convencional: o corte cronológico curto da narrativa episó-
dica, embora permaneça, como pando de fundo, o tempo estrutural da longa 
duração braudelinana. (BENATTE, 2007,p.5)
Diante desses aspectos, podemos considerar o trabalho do au-
tor em Montaillou muito próximo à Antropologia histórica, pois procurou 
retratar hábitos e práticas de maneira retrospectiva, por meio da pre-
sença constante e repetitiva desses comportamentos presentes na al-
deia, de maneira que essas práticas e hábitos fossem observados pelo 
pesquisador como se objeto de pesquisa estudado estivesse agindo no 
passado de maneira inconsciente, praticando a “historicidade” elencada 
por Lévi-Strauss.
Outro aspecto relevante na obra do autor é a forma como narra 
os detalhes sobre a aldeia estudada. Não há uma referência direta so-
bre a infl uência de Cliff ord Geertz em sua produção textual e a narrativa, 
mas a busca do autor em expressar uma realidade como muito próxima 
e distinta aos dias de hoje é traduzida pelo esforço em não verbalizar as 
frases no tempo passado. Os protagonistas dessa história aparecem de 
maneira vívida, mesmo tendo vivido há mais de 600 anos atrás.
Esse esforço também é derivado do objetivo do autor e dos 
seus procedimentos adotados que foram dando corpo à chamada “mi-
cro-história”, em que os detalhes desmitifi cam as grandes narrativas, 
assim como, reduzem o distanciamento tão profundo entre persistên-
cias e superações no tempo histórico. 
ROBERT DARNTON E A ANTROPOLOGIA INTERPRETATIVA
Robert Darnton (1939- ), é um dos autores já mencionados no 
primeiro capítulo desta unidade. A importância de seu vínculo com a An-
tropologia e o conceito de cultura é tanta que aqui detalharemos demais 
aspectos de sua produção acadêmica.
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O autor graduou-se na Universidade de Harvard na década de 
1960 e concluiu o doutorado pela Universidade de Oxford em 1964. Sua 
passagens como jornalista do New York Times antes de atuar como pro-
fessor o infl uenciou em seu estilo de escrita e na forma como coordena 
a investigação histórica em suas pesquisas.
Entre 1968 e 1972 trabalhou como professor na Universidade 
de Princeton, e de 1985 voltou à mesma cidade para trabalhar como 
professor e diretor da biblioteca locam em Harvard, onde trabalhava até 
os dias de hoje.
Foi a partir do contato com a historiografi a francesa, principal-
mente o estudo do século XVIII francês como objeto de pesquisa, que 
o autor passou a desenvolver a ideia de “história das mentalidades” nos 
Estados Unidos, em Princeton, na década de 1970, onde não havia ain-
da estudos nesta perspectiva.
Há uma diferença entre o estudo das mentalidades de maneira 
sequencial, ou seja, um conjunto de série de fatores que se repetem em 
uma determinada época, e, o estado das mentalidades como subsídio 
para entender um determinado contexto cultural, preocupação maior de 
Darnton. Foi devido a esta disciplina que o historiador teve contato com 
Cliff ord Geertz, o qual também lecionava na Universidade de Princeton.
Durante a entrevista concedida a José Murilo de Carvalho, que 
também é historiador, Darnton comenta a afi rmação de que Geertz teria 
reconhecido em seu seminário uma perspectiva antropológica de lidar 
com a História:
Cliff e eu nos encontramos em Princeton no início da década de 1970.
Ele me perguntou sobre um seminário que eu dava sobre a “histó-
ria dasmentalidades”, tema que então era muito novo. Quando lhe 
expliquei comoessa variedade de história tinha surgindo na França, 
ele respondeu: “issoparece antropologia”. Uma coisa levou à outra 
e, em 1976, ele dava o semináriocomigo. Tornou-se um seminário 
em História e Antropologia, otipo de antropologia que Cliff desenvol-
veu juntamente com Victor Turner,Mary Douglas, Marshall Sahlins e 
outros. As origens dessa antropologiarecuam até Max Weber e ao 
estudo de visões de mundo e sistemas simbólicosque caracteriza-
ram a primeira geração de antropólogos norte-americanos,sobretudo 
aqueles que estudaram os nativos norte-americanos, comoRuth Be-
nedict e ClydeCluckhohn. Mas ela tem também afi nidades como tipo 
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de história cultural escrita por Burckhardt, Huizinga e Febvre. A apro-
ximaçãoentre História e Antropologia se deu facilmente, não apenas 
nonível da teoria mas, sobretudo, em estudos monográfi cos de temas 
comofeitiçaria e ritos de passagem. Para mim, o seminário signifi cou 
um cursointensivo de Antropologia. The greatcat massacre traz, de 
fato, a marca dessaexperiência. Mas não é um livro especifi camen-
te “geertziano”. Inspira-seno trabalho de muitos antropólogos, numa 
tentativa de escrever histórianuma veia etnográfi ca.” (2002,p.389)
O resultado deste contato foi apresentado em outro seminário, 
em 1976 com o título de “História e Antropologia”. Este trabalho em con-
junto marcou fortemente a presença do pensamento antropológico na 
obra de Darnton, o qual considerava este pensamento muito próximo do 
fazer do historiador, pois de certa maneira, ambas as áreas procuram 
interpretar culturas.
A apropriação do pensamento antropológico por Darnton esta 
diretamente ligada a escola de pensamento antropológico interpreta-
tiva proposta além de Geertz, por Victor Turner, Edith Turner e Mary 
Douglas. Além da Antropologia Interpretativa/Simbólica, Darnton tam-
bém recebeu grande infl uência do fi lósofo e sociólogo Frances Pierre 
Bourdieu, que, apesar de não ter adotado seus conceitos em sua obra, 
foi importante em seu exercício de refl exão.
Em “O grande massacre de gatos”, sua obra já comentada 
aqui, o autor apresenta a proposta de uma História Etnográfi ca, em que 
a busca por compreender como pessoas fora do alto escalão social 
entendiam o mundo ajudam mais a entender um contexto do que privi-
legiar a visão de nomes importantes e de classes altas.
Sendo assim, sua abordagem não distancia o fato cultural dos 
demais marcadores sociais. Na apresentação de trabalho “Cultura e 
Historiografi a: uma análise da trajetória de Robert Darnton a partir do 
seu lugar e de suas práticas” (2018) o autor Lucas BagioFurtoso cita:
Considerando que a cultura não pode ser separada estatisticamente dos ou-
tros níveis de experiência (social, econômico, político, etc.), ele se opõe a 
uma relação estrutural de causadalidade entre a cultura e os outros níves 
estabelecendo assim sua crítica à história serialnível francesa. Para ele, exis-
tem certos elementos que não podem ser contados, eles precisam ser lidos. 
O historiador precisa buscar no texto, com suas características particulares, 
as bases de sua argumentação, e não (apenas) em uma serialização de da-
dos estatísticos. Classifi cando a história como uma ciência interpretativa, ao 
lado da antropologia, ele busca unir a contribuição dos estudos seriais a uma 
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interpretação dos sistemas de símbolos e signifi cados em que os indivíduos 
de uma determinada época estão inseridos (FURTOSO, 2018, p.5-6)
Neste ponto podemos entender que o autor entende por cultu-
ra e qual o trabalho do historiador. A ideia de “documento opaco” (FUR-
TOSO, 2018, p.6) remete a ideia de uma fonte que não se apresenta ao 
historiador de maneira transparente, é necessário interpretar quais sig-
nifi cados estão por trás deste documento. A análise de Darnton expres-
sa a busca do entendimento decontextos a partir da junção de aspectos 
micro sociais e macro sociais. O texto como fonte pode revelar detalhes 
de uma época, mas só em conjunto com a realidade econômica e social 
é que se torna possível fazer uma “história social das ideias”.
Ao longo desta unidade retratamos como o determinismo eco-
nômico e demográfi co foi descartado desde a Escola dos Annales. No 
entanto, é importante frisar que a economia, assim como a demografi a, 
continua a ser importante para as analises sobre uma sociedade. 
Nesta busca pelo entendimento do texto e do contexto, Darn-
ton também se aproxima do pensamento antropológicopor se preocu-
par não só com o anacronismo da narrativa, como também, de não cair 
na armadilha de escrever uma história etnocêntrica sobre os fatos.
Outra vertente de infl uência antropológica em sua obra está na 
ideia de “padrões culturais” de Ruth Benedict e Margaret Mead. Apesar 
do risco do essencialismo de uma cultura, o autor procurava em sua 
análise modelos que dessem conta de dar signifi cado para comporta-
mentos de uma época.
Apesar do interesse de Robert Darnton em trabalhar com mo-
delos e padrões culturais, suas escolhas se diferem das análises es-
truturalistas por não considerar a cultura tão estática. Os modelos de-
monstram mais valor no desvio à regra do que na homogeneização dos 
comportamentos.
Mesmo tendo se aproximado da ideia interpretativa da História 
e sua narrativa, o historiador se distanciou da ideia de história enquanto 
processo de produção semelhante à fi cção. Entre as décadas de 1960 
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e 1980, essa aproximação foi muito comum no meio acadêmico, mas 
criticada por diversos autores.
Por este motivo, Darnton privilegiava o trabalho do historiador 
direto com as fontes e o respeito pela sua percepção sobre os dados 
colhidos para sua escrita. O trabalho empírico e o ato de frequentar os 
arquivos que possibilitam conhecer o passado sempre foram valoriza-
dos pelo autor.
Esta pode ser uma crítica presente tanto na História como na 
Antropologia, pois o risco de excesso de subjetividade pode condenar 
a narrativa a um texto literário ou fi ccional, sem as ambições científi cas 
que essas duas áreas do conhecimento primeiro propõem.
Assim como os demais autores da História Cultural, a neces-
sidade de dialogar com outras áreas das ciências sociais é o que deu 
sustentação para os argumentos do autor. É marca desta escola de 
pensamento histórico e do estudo das mentalidades a busca pela inter-
disciplinaridade.
Portanto, podemos ver na obra de Robert Darnton uma apro-
priação muito produtiva da Antropologia pela História por meio do con-
ceito de cultura. A leitura da obra “O grande massacre de gatos” sugere 
um texto sobre o passado, no entanto, confunde-se o trabalho do histo-
riador com o do antropólogo em sua narrativa.
MICHEL DE CERTEAU E A VIDA COTIDIANA
Michel De Certeau (1925-1986) foi um historiador francês que 
dialogou com diversas áreas das ciências sociais. Sua carreira acadê-
mica não foi unicamente voltada à História, sua primeira graduação na 
década de 1940 em Paris, na França, foi voltada para estudos clássicos 
e fi losofi a.
Após ter-se graduado, estudou em um seminário em Lyon, na 
década de 1950. Durante o seminário oferecido em uma ordem jesuí-
tica, possuía a intenção de viajar em missões jesuíticas. Somente na 
década de 1960 é que conclui seu doutorado pela Sorbonne, dentro da 
área da Teologia. Nas décadas seguintes lecionou em diversas univer-
sidades pela Europa e América do Norte.
Sua obra, de um modo geral, dialogou com áreas como a Fe-
nomenologia e a Psicanálise e, aqui com maior interesse para nós, a 
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Antropologia. Uma de suas principais obras, “A invenção do cotidiano”, 
(1980), é referência no estudo sobre o cotidiano a partir do viés cultural. 
O texto é marcado por conceitos como “tática”, “estratégias” e “práti-
cas”, que retratam inovações no modo de analisar a realidade.
É interessante notar que se a obra de Darnton tem um apelo 
“interpretativo” sobre a realidade, podemos fazer uma analogia com o 
trabalho de Certeau como uma “leitura” da realidade, um tipo de análise 
muito infl uenciado pela fi losofi a da linguagem de Wittgenstein (1889-
1951).
Pelo grande leque de possibilidades que o método de Certeau 
possibilitou, sua obra é muito reconhecida nos estudos culturais, no en-
tanto, frisada apenas sobre temas do século XX como o cotidiano, e 
negligenciado sobre outros que eram de seu interesse devido a sua 
trajetória intelectual, como a Teologia.
No artigo “Relembrar Michel de Certeau” (2018), de Fernanda 
Arêas Peixoto, a autora relembra a década de 1980 a partir do levanta-
mento bibliográfi co que a antropóloga SherryOrtner faz em “Teoria na 
Antropologia desde os anos 60” (1986), no qual o termo “prática” entre 
em voga para destacar diferentes teorias e métodos.
Apesar de não constar o nome de Michel de Certeau, Peixoto 
retoma a importância do autor dentro deste contexto, pois esta noção 
compreende a forma como ele expressava sua metodologia de trabalho 
em “A invenção do cotidiano”. A prática de Certeau representa a cria-
tividade dos sujeitos históricos em agir, fazer seu cotidiano com origi-
nalidade carregada de técnica e habilidade, o que consequentemente 
pressupõe que essas práticas são estratégicas.
Esse tipo de análise revela a importância daquilo que foi ne-
gligenciado pelas grandes narrativas como indiferente. O cotidiano é 
um exemplo desta fonte histórica deixada de lado, pois é neste tempo 
que os sujeitos expressam sua criatividade para a manutenção da vida 
diária.
O termo “prática” também se refere a uma produção autêntica, 
em que a ideia de heterogêneo é mais plausível ao entendimento do 
comportamento dos sujeitos do que a reprodução inconsciente de pa-
drões, normas e valores culturais. Sendo assim, ação e discurso estão 
diretamente ligados, pronunciar uma palavra representa um ato cons-
ciente de acordo com uma maneira de agir. Essa afi rmativa serve de 
base para entender que as fontes históricas podem revelar inúmeros 
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detalhes quando a palavra é levada com este peso, muito infl uente pela 
fi losofi a da linguagem.
Ao longo da obra “A invenção do cotidiano” é possível perceber 
diversas construções que fogem do determinismo econômico e demo-
gráfi co. O consumo, por exemplo, não é interpretado apenas como a 
ação dos sujeitos históricos dentro de um incentivo social ao “consu-
mismo”, pelo contrário, na vida cotidiana os sujeitos históricos possuem 
táticas e estratégias de sobrevivência que vão além da simples manu-
tenção da vida humana. Como cita o autor, a autenticidade e a origina-
lidade da prática humana está repleta de signifi cados:
O ‘próprio’ é uma vitória do lugar sobre o tempo. Ao contrário, pelo fato de seu 
não-lugar, a tática depende do tempo, vigiando para ‘captar no voo’ possibi-
lidades de ganho. O que ela ganha, não o guarda. Tem constantemente que 
jogar com os acontecimentos para os transformar em ‘ocasiões’. Sem cessar, 
o fraco deve tirar partido de forças que lhe são estranhas. Ele o consegue 
em momentos oportunos onde combina elementos heterogêneos (assim, no 
supermercado, a dona-de-casa, em face de dados heterogêneos e móveis, 
como as provisões no freezer, os gostos, apetites e disposições de ânimo 
de seus familiares, os produtos mais baratos e suas possíveis combinações 
com o que ela já tem em casa etc.), mas a sua síntese intelectual tem por 
forma não um discurso, mas a própria decisão, ato e maneira de aproveitar a 
‘ocasião’ (CERTEAU, 2007, p. 47).
Sendo assim, podemos ver um caminho na historiografi a que 
passou a tirar cada vez mais do anonimato tanto as pessoas simples 
como também situações e contextos antes desconsiderados como fonte 
histórica. Neste sentido, Fernanda Arêas Peixoto cita:
Michel de Certeau, propenso à interpretação das práticas ordinárias (a lei-
tura, a cozinha, a arte da conversação, as caminhadas, as práticas e eco-
nomias escriturarias), não se detém nos espaços e mecanismos estatais, 
econômicos e científi cos – ainda que sejam estes os terrenos nos quais as 
táticas operam, já que se imiscuem nos “lugares próprios” defi nidos pelas 
instituições e pelas racionalizações estratégicas. Por essa razão é que Cer-
teau considera o ato de agir, em sua mobilidade tática, como eminentemente 
transgressore político. (PEIXOTO, p.101, 2018)
Assim como Darnton, ambos saem do interesse sobre o alto 
escalão da sociedade e vão para as suas bases, para as classes baixas, 
para entender a cultura e fazer análise sobre a realidade4. No entanto, 
4 Aqui é preciso salientar que o interesse pelas classes baixas – que possui o signifi cado 
de classes populares -, não foi uma novidade da Nova História Cultural e nem dos dois autores. O 
termo “classe proletária” ou “classe trabalhadora” já era utilizado desde o século XIX por Karl Marx 
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é preciso deixar claro que ambos não são associados a mesma linha 
de pensamento e caminhos diferentes para chegar a essas conclusões.
Caminhos que se diferem e podem proporcionar resultados diferentes. 
A grande difi culdade em encontrar na “prática” dos sujeitos históricos 
resquícios de dados para uma leitura social exige o esforço além de 
conceitos pré-moldados sobre os sujeitos.
Seu diálogo com a Antropologia se deu pela afi nidade com a 
análise do antropólogo Tim Ingold (1948- ) sobre sua “noção de pes-
soa”. Em “A teoria da pessoa em Tim Ingold. Mudança ou continuidade 
das representações ocidentais e nos conceitos antropológicos?” (2011), 
a autora Regina Coeli Machado e Silva retrata este conceito do antropó-
logo como uma não dicotomia entre pensamento e corpo, muito próximo 
da ideia de ligação entre “prática” e “discurso” em Certeau.
Outra afi nidade em questão é a importância dada ao valor que 
há no processo intermediário entre o conceito sobre algo e seu produto, 
por exemplo:
[...] objetos, produtos e obras dão lugar a processos de feitura e composição 
(e, no caso do Ingold, ao trato com os materiais). Lugares, por sua vez, são 
substituídos por itinerários e refl exões nômades, que se fazem no ato de 
caminhar. O deslocamento e a viagem convergem-se, assim, em paradig-
mas, orientando as análises que, longe de centrarem-se nos atores e seus 
papéis, caros ao interacionismo, visam os esquemas de interação [...](PEI-
XOTO,p.102, 2018).
Podemos concluir que seu trabalho, que permeou diferentes 
áreas das ciências sociais, caminhou entre a História, a Antropologia, 
e a apropriação do conceito de cultura, tendo claramente o interesse 
na “prática do fazer” e não dos produtos fi nais da cultura. A criatividade 
com que o autor desenvolveu sua metodologia foi também estampada 
no modo como compreendeu a ação prática dos sujeitos em contextos e 
lugares comuns, sempre dotados de originalidade, estratégias e táticas.
CAMINHOS DISTINTOS E DESTINOS SEMELHANTES
Vimos neste capítulo e no anterior como o encontro entre a 
para falar sobre as classes menos favorecidas. A obra “A formação da classe operária inglesa” 
(1963,1968,1980) de Edward Thompson (1924-1993) pertence à História Cultural, o autor trata 
sobre a classe operária por um viés marxista, mas que começa a abranger características culturais 
na vida dos sujeitos. Certeau e Darnton estão em outro caminho quando tratam sobre as classes 
baixas, tratam sobre aspectos negligenciados antes na história ao invés de condicionar a vida dos 
sujeitos apenas à causa e consequências econômicas.
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Antropologia e a História foi intermediada pelo conceito de cultura, sem 
este intermédio não haveria como situar limites próximos entre as duas 
áreas do conhecimento. Ao longo desta unidade não vimos apenas a 
história da histografi a geral, mas pudemos perceber o quanto o avanço 
no século XX, trouxe mudanças signifi cativas na área e que comple-
mentaram estudos na Antropologia.
A História deixou de trabalhar com as grandes narrativas para 
explicar um contexto, o foco saiu dos grandes eventos e se deslocou 
para os bastidores sociais desses acontecimentos. Os sujeitos históri-
cos também se ampliaram, outras condições sociais foram reconheci-
das como importante fonte de pesquisa histórica.
A Escola dos Annales trouxe a noção de curta, média e lon-
ga duração, mas Certeau foi além ao revelar a importância do cotidia-
no para entender a cultura de um período onde há “desvios”, ou seja, 
onde os comportamentos fogem do padrão e demonstram a criatividade 
dos sujeitos em lidar com as situações e adversidades de seu tempo. 
Darnton ajudou a ampliar sua temporalidade ao propor uma “História 
etnográfi ca”, em que os micro detalhes fossem possíveis de serem re-
velados e contribuírem para a análise de um contexto. 
Podemos citar que a Escola dos Annales deu um passo à frente 
na ampliação das possibilidades cronológicas de se entender o tempo, 
mas foram as inovações nos estudos culturais na década de 1980 que 
deram um salto qualitativo para perceber mais de perto a temporalidade 
dos sujeitos.A Antropologia teve papel decisivo nesta guinada, principal-
mente com as obras de Cliff ord Geertz e Marshall Sahlins nos estudos 
culturais, contudo, talvez sua principal contribuição tenha fi cado a cargo 
da desconstrução do etnocentrismo, liderada por Lévi-Strauss.
A preocupação em produzir um conhecimento que não repro-
duza o etnocentrismo em seu bojo deixou de ser uma preocupação úni-
ca de antropólogos, esta responsabilidade auxiliou não só a História, 
como diversas áreas das ciências humanas, a reconhecerem os limites 
de um trabalho que privilegia os valores sociais e culturais de uma so-
ciedade em detrimento de outras.
Um dos desafi os ainda presentes entre as duas áreas de co-
nhecimento está em superar os dualismos, como as noções de:
Estrutura x evento;
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História estática x dinâmica;
Sincronia x diacronia;
Recorte histórico x objeto estudado através do tempo;
Sociedades estacionárias x sociedades cumulativas;
Lógico x cronológico;
Sociedades frias x sociedades quentes.
Neste sentido, o conceito de cultura pode auxiliar a História, 
assim como o conceito de historicidade pode avançar na noção de tem-
poralidade dentro da Antropologia. Vimos que este caminho nunca foi 
de diálogo recíproco, e que apenas na segunda metade do século XX 
este espaço foi sendo aberto.
É preciso deixar claro que cada escola de pensamento antro-
pológico teve seu vínculo com a História de acordo com seus interes-
ses, mesmo a escola Evolucionista, com sua noção de progresso, fez 
uso da História a sua maneira. Logo após, com teóricos estudados no 
segundo e terceiro capítulo desta unidade, não houve uma única apro-
priação entre teorias antropológicas por parte de historiadores, assim 
como a aproximação de uma única noção de temporalidade por parte 
de antropólogos.
O vínculo entre uma e outra nos faz refl etir sobre quais as in-
tenções por trás de cada aproximação, e de que forma este dialogo 
está relacionado com os objetivos das pesquisas abordadas. Podemos 
perceber que para a História Cultural a aproximação com o conceito 
de cultura incorporado da Antropologia foi útil para um alargamento da 
noção de sujeitos históricos, a qual antes estava vinculada apenas aos 
grandes protagonistas. Já a Antropologia demonstrou como a noção 
de temporalidade não poderia ser excluída como forma de resolver o 
impasse entre a diacronia e a sincronia.
Há uma diversidade de concepções de História e de Antropo-
logia, resta saber qual está sendo utilizada neste dialogo de interdis-
ciplinaridade entre ambos os lados. A partir dos dois últimos capítulos 
tivemos uma abordagem geral sobre algumas escolas e suas intenções 
por trás dessa aproximação e os dados de pesquisa que resultaram 
deste contato.
O trabalho do pesquisador em relacionar as duas disciplinas 
supõe o desafi o de saber como lidar – teoricamente – com as duas 
perspectivas em uma mesma pesquisa científi ca, aqui apontamos al-
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guns caminhos possíveis paraesta questão. Quais seriam os ganhos 
de uma pesquisa histórica e antropológica?
A partir dos exemplos apresentados, podemos afi rmar que 
as pesquisas histórica e antropológica possibilitam uma relação mais 
ampla entre diferentes visões de mundo dos sujeitos estudados, assim 
como o respeito aos valores integrados ao seu contexto e época. Esta 
abordagem passou a dar mais credibilidade ao cotidiano e a vida roti-
neira como fonte de pesquisa, como a ampliação das possibilidades de 
reconhecimento do fator cultura em diversos aspectos sociais. O que 
antes era considerado extremamente subjetivo, como a afetividade, o 
lado emocional, o inconsciente, o imaginário coletivo, passou a ser en-
carado como um elemento social a mais para entender contextos socio-
culturais.
Este contato entre as duas áreas decorreu, acima de tudo, do 
esforço de pesquisadores de traduzir os anseios de cada área para as 
necessidades de sua disciplina, não sendo extraídos sem os devidos 
cuidados para que os conceitos fossem operados de maneira orgânica. 
Esta possibilidade não estaria à disposição das duas áreas caso não 
houvesse uma afi nidade teórica tão próxima enquanto áreas vizinhas 
do conhecimento científi co. 
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Apresentamos, até aqui, o vínculo que se estabeleceu, no sé-
culo XX e XXI, entre duas áreas do conhecimento muito próximas, a 
História e a Antropologia.A partir deste vínculo, podemos concluir que se 
estabeleceu uma relação muito positiva para ambos os lados. Os con-
ceitos antropológicos apropriados pela História, como etnicidade, iden-
tidade, alteridade, ponto de vista nativo, entre outros, foram importantes 
para se fazer uma análise da vida social de um determinado contexto 
sem que caísse em uma interpretação dos fatos a partir unicamente da 
visão do Historiador e seus valores morais.
Da mesma maneira, talvez a questão da temporalidade tenha 
sido a questão mais importante adotada pela Antropologia e vinda da 
História. O alargamento do tempo histórico proporcionado pela Escola 
dos Annales e posteriormente pela Nova História Cultural foi impactante 
e decisiva sobre a abordagem histórica dentro da Antropologia também.
Antes destas transformações, como salientamos no início de 
cada capítulo, a ausência do diálogo entre essas duas áreas corrobo-
rou para a presença do anacronismo dentro da Antropologia e do etno-
centrismo dentro da História. Podemos concluir que este debate trouxe 
transformações, justamente porque ambas as áreas do conhecimento 
na ausência de uma no campo da outra – em muitos casos até a própria 
negligência - fez com que aspectos já desenvolvidos por uma não fos-
se considerados como obstáculos superados pela outra até então.Este 
caminho de aproximações tende a se ampliar cada vez mais, a Antro-
pologia Histórica e a História Etnográfi ca são resultados deste contato.
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QUESTÕES DE CONCURSO
QUESTÃO 1
Ano: 2010 Banca: CESGRANRIOÓrgão: IBGEProva: CESGRANRIO 
- 2010 - IBGE - Analista de Planejamento - Historia
A micro-história italiana não foi rigorosamente defi nida por 
meio de textos teóricos. É a pesquisa empírica que per-
mite, caso a caso, identifi car princípios de base, por meio 
dos quais os micro-historiadores podem se reconhecer. 
Considerando que tais princípios existem, a micro-história NÃO é 
caracterizada por: 
a) propor a redução da escala de análise, por meio da qual é possível 
recuperar diferentes pontos de vista, valorizando a experiência dos indi-
víduos e suas relações.
b) atribuir grande importância à forma da escrita da história, pois é por 
meio dela que o historiador pode reconstituir a atmosfera de um dado 
universo social e expor os procedimentos utilizados nessa reconstitui-
ção.
c) demandar que os historiadores evitem utilizar pressupostos externos 
ao mundo que estudam, de modo a recuperar o ponto de vista dos ato-
res diretamente envolvidos com o problema investigado.
d) ter relação com a tradição de estudos os quais apresentam o traba-
lho do historiador como um refl exo objetivo da realidade, reconstituída 
por meio de suas estruturas sociais, atribuindo importância a classes e 
grupos politicamente organizados.
e) redimensionar o valor das biografi as e seus respectivos usos para 
a escrita da história, valendo-se de novos enfoques para as relações 
entre indivíduos e sociedade e destacando a possibilidade de recuperar 
as trajetórias de sujeitos comuns.
QUESTÃO 2
Ano: 2010 Banca: CESGRANRIOÓrgão: IBGEProva: CESGRANRIO 
- 2010 - IBGE - Analista de Planejamento - Historia
As verdades da história são sempre parciais, e a história é um co-
nhecimento fundado tanto na objetividade quanto na imparcialida-
de. 
PORQUE
Os objetos da história são construídos por um investigador que 
está pessoal e subjetivamente implicado em sua investigação, as-
sociada, assim, a um ponto de vista que é, em si mesmo, histórico.
Analisando as afi rmações acima, conclui-se que: 
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a) as duas afi rmativas são verdadeiras, e a segunda justifi ca a primeira.
b) as duas afi rmativas são verdadeiras, e a segunda não justifi ca a pri-
meira.
c) a primeira afi rmativa é verdadeira, e a segunda é falsa.
d) a primeira afi rmativa é falsa, e a segunda é verdadeira.
e) as duas afi rmativas são falsas.
QUESTÃO 3
Ano: 2006 Banca: NCE Órgão: Eletrobras Prova: Técnico de meio 
ambiente Nível: Superior
São realidades físicas ou sensoriais dotadas de valoresespecífi cos 
e permitem ao ser humano transmitir seusconhecimentos apren-
didos e acumulados por gerações,resguardando aqueles valores 
tidos como essenciais em seucontexto cultural e social. São rein-
terpretados, disputados e negociados continuamente. O texto re-
fere-se aos:
a) ritos;
b) objetos;
c) padrões sociais;
d) atos sociais;
e) símbolos.
QUESTÃO 4
Ano: 2018 Banca: FAUFSP Órgão: UNIFESP Prova: Antropólogo
Nível: Superior
 “[...] O caso é que, entre o que Ryle chama de ‘descriçãosuper-
fi cial’ do que o ensaiador (imitador, piscador, aquele quetem o ti-
que nervoso...) está fazendo (contraindo rapidamentesua pálpebra 
direita) e a ‘descrição densa’ do que ele estáfazendo (‘praticando a 
farsa de um amigo imitando umapiscadela para levar um inocente 
a pensar que existe umaconspiração em andamento’) está o objeto 
da etnografi a.”
(GEERTZ, Cliff ord. “Uma descrição densa: por uma teoria interpre-
tativa da cultura”. Ainterpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC 
Editora, 1989, p. 5)
Ao defi nir a “descrição densa” como método etnográfi coessencial 
para uma antropologia ou teoria interpretativa dacultura, Cliff ord 
Geertz postula que:
I. Fazer etnografi a é ler e interpretar uma espécie demanuscrito 
estranho, desbotado, cheio de elipses eincoerências, que o an-
tropólogo obtém ao conversarcom informantes, observar rituais e 
anotar o quevivencia, ou seja, ao fazer trabalho de campo.
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II. Cabe ao antropólogo fazer uma interpretação deinterpretações 
nativas e não buscar uma verdadeimanente ou transcendente.
III. O objetivo da etnografi a e da antropologiainterpretativa é tirar 
grandes conclusões a partir defatos pequenos, mas densamente 
entrelaçados.
Assinale:
a) se apenas a afi rmativa I estiver correta.
b) se apenas as afi rmativas I e II estiverem corretas.
c) se apenas as afi rmativas I e III estiverem corretas.
d) se apenas as afi rmativas II e III estiverem corretas.
e) se todas as afi rmativas estiverem corretas.
QUESTÃO 5
Ano: 2016 Banca: ABARETE Órgão: Prefeitura municipal de São 
Gabriel da Cachoeira Prova: Antropólogo Nível: Superior
Sobre uma antropologia pós-moderna ou crítica, iniciada nos anos 
de 1980, analise a afi rmativa a seguir. 
Percebe a cultura como um processo pluralque não oferece com-
preensão única ou linear. 
Assinale:
a) Certo
b) Errado
QUESTÃO INÉDITA
Emmanuel Le Roy Ladurie foi um dos historiadores herdeiros da 
Escola dos Annales a incorporar o pensamento antropológico em 
sua pesquisa. O autor se referia a uma História Etnográfi ca ao falar 
sobre o exercício de reconhecer questões sociais e culturais sobre 
as fontes documentais. Em sua visão:
a) o historiador está para as fontes assim como o antropólogo está para 
a etnografi a.
b) o historiador está para a etnia assim como o antropólogo está para 
as fontes.
c) o historiador está para as fontes assim como o antropólogo está para 
os documentos.
d) o historiador está para o anacronismo assim como o antropólogo está 
para o etnocentrismo.
e) o historiador está para o passado assim como o antropólogo está 
para o futuro.
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QUESTÃO DISSERTATIVA
A História parece ter sido a mais benefi ciada na relação com a Antropo-
logia, pois os conceitos que foram apropriados de sua parte ampliaram 
as possibilidades de reconhecer detalhes na vida dos sujeitos históri-
cos. Podemos citar que a Antropologia ao entrar em contato com as 
refl exões das temporalidades históricas passou a fazer uma auto-crítica 
existencial, em que o tempo histórico não poderia ser encarado mais 
como mera sucessão de fatos.
No caso da História, seu amadurecimento foi no sentido de estender as 
possibilidades de interpretações dos fatos e conjunturas históricas prin-
cipalmente sobre os detalhes que norteiam a vida rotineira dos sujeitos 
históricos.
Cite quais foram as principais apropriações feitas pelos historiadores 
presentes neste terceiro capítulo com relação ao pensamento antropo-
lógico.
NA MÍDIA
Michel de Certeau era um pensador “incômodo” e contestador. En-
trevista especial com Elisabeth Roudinesco
Um pensador interessado pela vida cotidiana, pelos movimentos de re-
volta, mas também pela mística e pela psicanálise. Assim era Michel 
de Certeau, jesuíta que lecionou inicialmente em Vincennes e depois 
na École Pratique desHautesÉtudes - EHESS. Primeiramente mais 
reconhecido entre os historiadores, o jesuíta francês se aproximou das 
ideias marxistas e dos movimentos de contestação, observa a psicana-
lista Elisabeth Roudinesco na entrevista que concedeu, por telefone, 
à IHU On-Line. “Certeau foi uma fi gura da contestação muito próxima 
de Michel Foucault. Foi nesse tempo que ele começou a trabalhar na 
noção do cotidiano”, afi rma.
Fonte: 
http://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/567338-michel-
de-certeau-era-um-pensador-incomodo-e-contestador-entrevista-
especial-com-elisabeth-roudinesco
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NA PRÁTICA
Os três capítulos dessa unidade revelaram a quebra de fronteiras en-
tre a Antropologia e a História como uma relação de amadurecimento 
entre as duas áreas. Sem este contato, a Antropologia estaria fadada a 
trabalhar com uma noção histórica baseada em uma temporalidade limi-
tada, assim como, as análises culturais praticadas pela História, sempre 
voltadas para as determinantes econômicas e demográfi cas que muitas 
vezes engoliam detalhes da vida em um grau mais simples possível.
 Esta última unidade demonstrou como inventividade trouxe ou-
tros avanços para as duas áreas do conhecimento, em especial, na 
área da História ao se apropriar de conceitos antropológicos. No en-
tanto, nada substitui a criatividade e espírito pesquisador dos autores 
apresentados neste capítulo. Desta maneira, podemos afi rmar que a 
simples conexão entre as duas áreas no trabalho do historiador e do 
antropólogo não resultam automaticamente em uma extraordinária pro-
dução intelectual, esta produção deriva do esforço inventivo de cada 
autor e o poder de síntese sobre a ciências humanas como um todo.
 A produção intelectual dentro das ciências sociais e ciências hu-
manas de um modo geral tem cada vez mais trabalhado com dois dire-
cionamentos importantes dentro da pesquisa acadêmica: situar o objeto 
de pesquisa dentro de um contexto social e histórico, e, ao mesmo tem-
po, não fi ndar as explicações sobre seus signifi cados na sobreposição 
dos aspectos macro sobre os aspectos micro.
 Portanto, podemos concluir que esta unidade apresentou de que 
maneira o trabalho do historiador e do antropólogo está pautado no de-
safi o de relacionar contextos com detalhes sobre um determinado obje-
to de pesquisa, e para este fi m, os métodos e técnicas das duas áreas 
são satisfatórios para alcançar esses resultados.
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GABARITOS
CAPÍTULO 01
QUESTÕES DE CONCURSOS
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QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO 
DE RESPOSTA
A partir da História e da Antropologia podemos fazer um levantamento 
da história do racismo não só no Brasil, mas de uma maneira geral, de 
que forma ele se instituiu como uma prática relacionada ao pensamento 
colonial, entre as metrópoles européias e as colônias espalhadas pela 
América, África, Ásia e Oceania.
Por parte da História, podemos elencar o levantamento do contexto his-
tórico geral do século XIX, os valores vigentes na época principalmente 
com relação à formação da ciência como um campo de argumentação 
sobre diversos fatores sobre as relações sociais, como o “darwinismo 
social”, e o crescente imperialismo de potências mundiais em busca de 
territórios a fi m de extração de matéria prima e mercado consumidor.
Por parte da Antropologia, podemos considerar que as práticas da es-
cravidão – principalmente no Brasil -, deixaram marcas nos valores cul-
turais de nossa sociedade. Algumas questões como o comportamento 
relacionado a negros e brancos, as chacotas e os preconceitos, estão 
vinculados a uma cultura formada dentro das relações hierárquicas da 
escravidão
TREINO INÉDITO
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CAPÍTULO 02
QUESTÕES DE CONCURSOS
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QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO 
DE RESPOSTA
 A partir da refl exão sobre o tempo histórico dentro da Antropo-
logia, esta disciplina passou a reconhecer uma variedade de questões 
pertinentes a este tema. Sobre a obra dos dois autores podemos citar 
os seguintes aspectos:
Em Lévi-Strauss, a noção de tempo histórico passou a ser encarado a 
partir da diversidade cultural que cada etnia possui ao retratar sua pró-
pria história, sendo assim, as estruturas são determinantes na vida dos 
sujeitos de uma comunidade/grupo, mas se faz necessário reconhecer 
os valores que são atribuídos a estes signifi cados;
Marshall Sahlins expôs a necessidade de se reconhecer as continuida-
des e transformações dentro das estruturas a partir do evento, sendo 
assim, os sujeitos vivem determinada cultura mas, ao mesmo tempo, 
interferem sobre ela.
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CAPÍTULO 03
QUESTÕES DE CONCURSOS
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QUESTÃO DISSERTATIVA – DISSERTANDO A UNIDADE – PADRÃO 
DE RESPOSTA
Podemos citar que cada historiador pertencente a Nova História Cultu-
ral se dedicou a uma determinada área do pensamento antropológico 
de acordo com seus interesses e objetivos de pesquisa. Sendo assim:
Emmanuel Le Roy Ladurie encontrou no trabalho etnográfi co dos fun-
cionalistas uma possibilidade de associar a pesquisa do historiador so-
bre registros documentais semelhante ao trabalho do antropólogo du-
rante uma etnografi a com uma etnia/grupo;
Robert Darnton viu na proximidade com Cliff ord Geertz a possibilida-
de de adotar a “descrição densa” em sua metodologia para encontrar 
detalhes sobre a vida dos sujeitos históricos antes encobertas pelos 
determinismos econômicos e demográficos;
Michel De Certeau se apropriou dos conceitos de pessoa de Tim Ingold, 
mas acima de tudo, tratou o “cotidiano” como uma base de fonte histó-
rica para se pensar um determinado contexto social, sua análise está 
diretamente relacionada com a microhistória.
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