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SUMÁRIO
1 A CHEGADA DOS EUROPEUS AO CONTINENTE QUE HOJE
CHAMAMOS DE AMÉRICA ........................................................................................ 3
2 ETNOCENTRISMO E O ABANDONO SALUTAR DO BRASIL ENTRE 1500
E 1530 7
2.1 O “Achamento” ..................................................................................... 7
2.2 Etnocentrismo ...................................................................................... 8
2.3 Os Tupiniquins ................................................................................... 10
3 O "ABANDONO SALUTAR" DE 1500 A 1530 COM POUCAS VIAGENS
EXPLORATÓRIAS .................................................................................................... 11
3.1 Primeiras Expedições ......................................................................... 11
4 O BRASIL NOS QUADROS DO SISTEMA COLONIAL MERCANTILISTA
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5 REFORMAS POMBALINAS ..................................................................... 18
6 CONTESTAÇÕES AO SISTEMA COLONIAL .......................................... 20
7 A EXPANSÃO COLONIZADORA E A FIXAÇÃO DOS LIMITES .............. 25
8 A FIXAÇÃO DAS FRONTEIRAS .............................................................. 29
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 32
9 LEITURA COMPLEMENTAR .................................................................... 35
10 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................ 40
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1 A CHEGADA DOS EUROPEUS AO CONTINENTE QUE HOJE CHAMAMOS DE
AMÉRICA
A região da cidade de Jerusalém, na Palestina, onde atualmente fica o Estado
de Israel é sagrada para os fiéis das três mais importantes religiões (ditas)
monoteístas do mundo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Desde épocas muito
remotas, judeus, cristãos e muçulmanos fazem peregrinações a Jerusalém para
venerar os Lugares Santos de suas respectivas fés.
Na Idade Média – e ainda hoje, em certa medida – os cristãos em geral
acreditavam que os lugares onde os santos viveram, os objetos por eles usados e o
que restava de seus corpos (as chamadas “Relíquias”) possuíam poderes milagrosos,
como a cura de enfermos e a salvação para os pecadores. Havia vários lugares de
veneração espalhadas por todo o mundo cristão, mas a Terra Santa, onde Jesus
viveu, pregou e foi supliciado, era considerado o mais sagrado de todos.
Para os judeus, Jerusalém é a principal cidade de sua antiga pátria e ali se
encontram vários locais sagrados, principalmente o “Muro das Lamentações”, ruínas
do Templo de Salomão destruído pelos romanos no primeiro século de nossa era.
Para os cristãos, é reverenciada por ter sido o local no qual Jesus de Nazaré viveu
durante os três últimos anos de sua vida, pregou, fez discípulos e foi crucificado. Para
os muçulmanos, Jerusalém é uma Cidade Santa porque foi dali, da “Cúpula do
Rochedo”, situada no coração de Jerusalém – reza a Tradição que ainda é possível
ver a marca do casco do cavalo alado que o levou – que Maomé subiu ao céu.
Apesar da grande distância da Europa Ocidental, muitos peregrinos faziam uma
longa e arriscada jornada para chegar a Jerusalém. Alguns iam primeiro para Roma
e, em seguida, partiam de algum porto italiano para Constantinopla, capital do Império
Romano do Oriente ou Império Bizantino e, de lá, para a Palestina. As pessoas mais
pobres percorriam todo o trajeto a pé.
Os Europeus dependiam visceralmente das especiarias encontradas nas Índias
(nome dado vagamente a toda a região sudeste do continente asiático). Em particular
nos períodos mais quentes do ano as especiarias ou temperos (cravo, canela, noz
moscada, pimenta...) eram fundamentais para a conservação e aprimoramento do
sabor dos alimentos. A mesma rota usada pelos Peregrinos era também a rota dos
mercadores (hoje eufemisticamente conhecidos como comerciantes) que iam da
Palestina às Índias por terra e lá, trocavam produtos europeus pelas especiarias. Não
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raro, simplesmente saqueavam vilarejos hindus de suas riquezas e as vendiam na
Europa com lucro de 100%, independente da desgraça causada no local do saqueio.
Fonte: encrypted-tbn0.gstatic.com
Após longo período de cerco, em 1453 as poderosas muralhas de
Constantinopla caíram sob o poder dos canhões de Maomé III. A “Queda de
Constantinopla” e sua ocupação pelos turcos otomanos (muçulmanos) marca o fim do
Império Romano do Oriente. Muitos sábios migraram de Constantinopla para Roma,
Veneza e Gênova, na península Itálica e ajudaram, com seus aportes, a incrementar
o Renascimento Europeu.
Com as rotas terrestres para as Índias completamente bloqueadas pois os
inimigos mortais dos Europeus Ocidentais ocupavam toda a Palestina e até
Constantinopla (hoje Istambul, na atual Turquia), além disso as disputas entre
Católicos e Protestantes no Segundo Cisma do Cristianismo tornava a Europa Central
uma área consideravelmente perigosa para os mercadores católicos da Península
Ibérica. Era necessário encontrar um "Caminho Marítimo" para "as Índias".
As viagens navais daqueles tempos podem ser comparadas – grosso modo –
às viagens espaciais da era moderna. Inicialmente, somente Portugueses e
Espanhóis dispunham dos conhecimentos técnicos necessários à construção de
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grandes embarcações e, com o auxílio de instrumentos aprendidos com os
muçulmanos (como o astrolábio, por exemplo, instrumento fundamental ao fiel
muçulmano para localizar a direção da cidade de Meca para suas preces diárias
mesmo em dias nublados ou durante a noite) podiam navegar e orientar-se pelas
estrelas, mesmo à noite.
Fonte: www.amorlegal.com
Após a Unificação do Reino de Espanha com o casamento de Fernando de
Aragão com Isabel de Castela que possibilitou a união de forças necessárias à
retomada de Granada, ao sul da Espanha (os muçulmanos ocuparam toda a
Península Ibérica por cerca de 700 anos, daí muito de sua influência aparece na
cultura daqueles povos e dos latino-americanos, nós, que descendemos deles) um
navegador genovês (nascido em Gênova, na Península Itálica) chamado Cristóvão
Colombo conseguiu os recursos necessários a subvencionar sua ambiciosa viagem
de circunavegação – dar uma volta à Terra, que, já se sabia, era redonda – e chegar
“ao Levante, viajando na direção do Sol Poente”. Só não contava mesmo encontrar
um continente inteiro no meio do caminho - sorte dele, aliás, que não contava com
suprimentos, equipamentos e tripulação suficientemente motivada e crédula para
chegar tão longe quanto a China, na hipótese de o Continente que hoje chamamos de
América não existisse...
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Fonte: www.rededecursos.com
No entretempo os Portugueses chegavam às Índias circunavegando o
Continente Africano em viagens, para a época, cheias de perigos e aventuras.
Após muitos contratempos Colombo chega às ilhas do Caribe e imagina haver
chegado às ilhas de “Cipango” – nome pelo qual o Japão era conhecido – e, como
Marco Polo 300 anos antes, embora viajando na direção contrária, chegar até o
“Império Katai” – como era conhecida a China. Índios do Caribe faziam referência a
um "Grande Reino" no Continente (referiam-se à Confederação Azteca) que Colombo
interpretou como sendo o famoso "Império Catai" encontrado por Marco Polo 250 anos
antes. Toma posse de todas as terras encontradas em nome dos reis Cristãos de
Aragão e Castela – independentemente de serem terras habitadas por outros seres
humanos, que receberam o nome de “índios” pois que se imaginava estar chegando
às Índias. Colombo morreu acreditando haver descoberto uma rota marítima para as
Índias, navegando em linha reta na direção do Sol Poente. Naquela época, era
totalmente desconhecida a existência de um Continente inteiro e habitado por
milhares de Nações de Seres Humanos diferentesno caminho entre a Europa e a
Ásia. Este continente recebeu o nome de “América” pois foi o florentino (nascido em
Florença, na Península Itálica) Américo Vespúcio, que navegou, estudando todo o
litoral destas terras recém encontradas, o descobridor de que se tratava de um “Mundo
Novo” – Mundus Novus é o título do Trabalho em que registra oficialmente, pela
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primeira vez na história do Ocidente, que havia um continente inteiro entre a Europa
e a Ásia, continente que, como se disse, em sua homenagem leva o nome de
“América”.
2 ETNOCENTRISMO E O ABANDONO SALUTAR DO BRASIL ENTRE 1500 E
1530
O interesse pelo Oriente – a armada de Pedro Álvares Cabral, em verdade,
dirigia-se às “Índias” mas, seja acaso, tormentas, calmarias ou por propósito (o mais
provável) chegou ao Brasil em 1500. Apesar de ter tomado posse da terra em nome
do rei de Portugal, o principal interesse da monarquia, enfatize-se estava voltado para
o Oriente, onde estavam as tão cobiçadas especiarias.
2.1 O “Achamento”
A Carta de Pero Vaz de Caminha fala em “achamento” destas terras, não fala
em “descobrimento” ou “casualidade”. Tudo indica que, realmente, procuravam
alguma terra, e a acabaram “achando”... O relato abaixo permite-nos uma ideia de
como aconteceu este “achamento” segundo relatos de marujos da esquadra cabralina.
Na terça-feira à tarde, foram os grandes emaranhados de “ervas compridas a
que os mareantes dão o nome de rabo-de-asno”. Surgiram flutuando ao lado das naus
e sumiram no horizonte. Na quarta-feira pela manhã, o vôo dos fura-buchos – uma
espécie de gaivota – rompeu o silêncio dos mares e dos céus, reafirmando a certeza
de que a terra se encontrava próxima. Ao entardecer, silhuetados contra o fulgor do
crepúsculo, delinearam-se os contornos arredondados de “um grande monte”,
cercado por terras planas, vestidas de um arvoredo denso e majestoso.
Era 22 de abril ale 1500. Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro Álvares
Cabral vislumbrava terra – mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto.
Nos nove dias seguintes, nas enseadas generosas rio sul da Bahia, os 13 navios da
maior amada já enviada às índias pela rota descoberta por Vasco da Gama
permaneceriam reconhecendo a nova terra e seus habitantes.
O primeiro contato, amistoso como os demais, deu-se já no dia seguinte,
quinta-feira, 23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano das Índias e companheiro
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de Gama, foi a terra, em um batel, e deparou com 18 homens “pardos, nus, com arcos
e setas nas mãos”. Coelho deu-lhes um gorro vermelho, uma carapuça de linho e um
sombreiro preto. Em troca, recebeu um cocar de plumas e um colar de contas brancas.
O Brasil, batizado Ilha de Vera Cruz, entrava, naquele instante, no curso da História.
O descobrimento oficial do país está registrado com minúcia. Poucas são as
nações que possuem uma “certidão de nascimento” tão precisa e fluente quanto a
carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, dom Manuel, relatando o
“achamento” da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de
rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário
para chegar à Índia. Teria sido o descobrimento do Brasil um mero acaso?
É provável que a questão jamais venha a ser esclarecida. No entanto, a
assinaturas do Tratado de Tordesilhas, que, seis anos antes, dera si Portugal a posse
das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de 2.000 quilômetros) a oeste de
Cabo Verde explique a naturalidade com que a nova terra foi avistada, o conhecimento
preciso das correntes e das rotas, as condições climáticas durante a viagem e a alta
probabilidade de que o país já tivesse sido avistado anteriormente parecem ser a
garantia de que o desembarque, naquela manhã de abril de 1500, foi mera
formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse de uma terra que os
portugueses já conheciam, embora superficialmente. Uma terra pela qual ainda
demorariam cerca de meio século para se interessarem de fato.
2.2 Etnocentrismo
Todas as culturas e civilizações humanas partilham algumas coisas em
comum; por exemplo, tanto Esquimós, quanto Bosquímanos, Tupinambás, Astecas,
Zulus, Mongóis, Japoneses e Europeus consideram a própria cultura ou civilização
superior a todas as demais. Para os Ibéricos (Portugueses e Espanhóis) cristãos, com
seu elã vital de "propagar o cristianismo católico" iam além e consideravam sua cultura
ou civilização "a única válida" a exemplo dos estadunidenses hoje em dia, no século
XXI.
Aquela visão tacanha não permitiu ver a tremenda diversidade cultural entre as
mais distintas civilizações e povos diferentes que aqui viviam: Tupinambás, Carijós,
Tupiniquins, Ianomamis, Guaranis... Todos eram "índios sem cultura, sem rei nem lei"
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e tinham de receber a cultura e a religião ibéricas - a alternativa era a morte ("Ficar
entre a cruz e a espada" tem precisamente este significado, por sinal).
Fonte: www.historiaviva.com
Apenas a título de ilustração ou curiosidade, todas as civilizações humanas têm
a sua própria forma fazer sacrifícios humanos. Hoje em dia, nos EUA, a moda é julgar
formalmente e, o considerado "culpado" de algo como "crime hediondo" é sacrificado
através do uso da Cadeira Elétrica, da Forca ou da Injeção Letal. Na Península Ibérica
ao tempo da conquista colonial do Brasil eram também muito comuns os sacrifícios
humanos. A Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, nome eufemístico da Santa
Inquisição, julgava - aplicando violentos métodos de tortura física e psicológica,
extraindo confissões as mais diversas - e, ao término dos trabalhos, "abandonava ao
braço secular" o corpo da vítima a ser sacrificada indicando como deveria ser. Um
método muito popular de Sacrifício Humano na Península Ibérica ao tempo da
conquista colonial era a fogueira. A vítima era queimada numa fogueira, em geral
ainda em vida (como ocorreu com Giordano Bruno, por exemplo); em alguns casos
eram garroteados - mortos por enforcamento através de um garrote em torno da
garganta - e, a seguir, incinerados para delírio da plateia. Também no continente que
hoje chamamos América, nos tempos da conquista colonial, se praticava o sacrifício
humano: inimigos derrotados eram mortos e sua carne, devorada pelos vencedores -
um ritual nem tão raro nem tão comum quanto os Sacrifícios Humanos perpetrados
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na Europa cristã, naturalmente. Mas uns não consideravam aos outros como
praticando esse tipo de coisa...
Agora, imagine que você desse de presente para um grupo de índios da
Amazônia (onde não há eletricidade, água encanada, saneamento básico ou mesmo
respeito por parte da FUNAI - Funerária Nacional de Índios) um computador de último
tipo, capaz de pegar o sinal da Internet por satélite e funcionar a bateria. Diante de tal
peça, os Ianomami, respeitosos, o enfeitariam com penas, colocariam outros adereços
comuns e deixariam o computador em exibição, todo enfeitado, a quem desejasse
olhar. Estranho? E nós que pegamos seus instrumentos de trabalho - como arco-e-
flexa, por exemplo - e penduramos como enfeite em nossas paredes? Qual a grande
diferença?
Enfim, em última instância, no mundo humano e sendo o ser humano como é,
vence sempre quem dispõe de maior poderio bélico, não aquele povo que manifesta
um tipo superior de moralidade. Assim, hoje já não há quase nada de cultura nativa
neste país. Os "índios" foram convertidos ou assassinados.
2.3 Os Tupiniquins
Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contato
com cerca de 500 nativos.
Eram, se saberia depois, tupiniquins – uma das tribos do grupo tupi-guarani
que, no início do século 16, ocupava quase todo o litoral do Brasil. Os tupis-guaranis
tinham chegado à região numa série de migrações de fundo religioso (em busca da
“Terra sem Males”, no começo da Era Cristã). Os tupiniquinsviriam no sul da Bahia e
nas cercanias de Santos e Bertioga, em São Paulo. Eram uns 85 mil. Por volta de
1530, uniram-se aos portugueses na guerra contra os tupinambás-tamoios, aliados
dos franceses. Foi uma aliança inútil: em 1570 já estavam praticamente extintos,
massacrados por Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil.
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3 O "ABANDONO SALUTAR" DE 1500 A 1530 COM POUCAS VIAGENS
EXPLORATÓRIAS
Fonte: www.colegioweb.com.
3.1 Primeiras Expedições
O Brasil, ao contrário do Oriente, não possuía, em princípio, nenhum atrativo
do ponto de vista comercial. Ao longo do período pré-colonial foram, entretanto,
enviadas várias expedições a nosso pais.
Primeiras expedições – Entre 1501 e 1502, Portugal enviou a primeira
expedição com a finalidade de explorar e reconhecer o litoral brasileiro. Essa
expedição, da qual se desconhece o nome do comandante, foi responsável pelo
batismo de inúmeros lugares: cabo de S. Tomé, cabo Frio, São Vicente, etc. Com
certeza, nessa expedição viajou o florentino Américo Vespúcio, que, posteriormente,
em carta ao governante de Florença, Lourenço de Médici, irá declarar que não
encontrou aqui nada de aproveitável. Apesar disso, constata a existência do pau-
brasil, madeira tintorial conhecida dos europeus desde a Idade Média, que até então
era importada do Oriente.
O pau-brasil – As primeiras atividades econômicas concentraram-se, pois, na
extração daquela madeira, segundo o regime de estanco, isto é, sua exploração
estava sob-regime de monopólio régio. Como era costume, o rei colocou em
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concorrência o contrato de sua exploração, que foi arrematada por um consórcio de
mercadores de Lisboa chefiado pelo cristão novo Fernão de Noronha, em 1502.
No ano seguinte (1503) Fernão de Noronha montou uma expedição pata a
extração do pau-brasil e fez o primeiro carregamento do produto.
No Brasil, foram estabelecidas então as feitorias, que eram lugares fortificados
e funcionavam, ao mesmo tempo, como depósito de madeira. O pau-brasil era
explorado através do escambo, no qual os indígenas forneciam a mão de obra para
corte e transporte da madeira em troca de objetos de pouco valor para os portugueses.
Brasil 1570. Padres solicitam às Autoridades portuguesas - a Metrópole do
Brasil na época - que enviem órfãs para se casar com os rudes trabalhadores que
aqui moravam pois estavam obcecados - como usualmente os padres sempre são -
com a sexualidade dos trabalhadores que, além de os afastar da missa, produzia uma
indesejável quantidade de mestiços e a prioridade então era o "branqueamento da
pele".
O filme DESMUNDO revela de maneira realista o choque cultural entre
meninas profundamente religiosas e seus maridos, brutais, acostumados com a
dureza do trabalho e a lidar com o trabalho escravo. A maioria "amolece" a esposa
como um domador de cavalos. Algumas se suicidam tentando voltar - a nado - a
Portugal, algumas enlouquecem. A maioria, como desde sempre em terra brasilis, "se
acomoda" à situação. Alain Fresnot explorou este tema brilhantemente no filme
"Desmundo".
4 O BRASIL NOS QUADROS DO SISTEMA COLONIAL MERCANTILISTA
O sistema colonial é o conjunto de relações entre as metrópoles e suas
respectivas colônias em uma determinada época histórica. O sistema colonial que nos
interessa abrangeu o período entre o século XVI e o século XVII, ou seja, faz parte do
Antigo Regime da época moderna e é conhecido como antigo sistema colonial.
Segundo o seu modelo teórico típico, a colônia deveria ser um local de
consumo (mercado) para os produtos metropolitanos, de fornecimento de artigos para
a metrópole e de ocupação para os trabalhadores da metrópole. Em outras palavras,
dentro da lógica do “Sistema Colonial Mercantilista” tradicional, a colônia existia para
desenvolver a metrópole, principalmente através do acúmulo de riquezas, seja através
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do extrativismo ou de práticas agrícolas mais ou menos sofisticadas. Uma Colônia de
Exploração, como foi o caso do Brasil para Portugal, tem basicamente três
características, conhecidas pelo termo técnico de “plantation”:
Latifúndio: as terras são distribuídas em grandes propriedades rurais
Monocultura voltada ao mercado exterior: há um “produto-rei” em torno
do qual toda a produção da colônia se concentra (no caso brasileiro, ora
é o açúcar, ora a borracha, ora o café...) para a exportação e
enriquecimento da metrópole, em detrimento da produção para o
consumo ou o mercado interno.
Mão de obra escrava: o negro africano era trazido sobre o mar entre
cadeias e, além de ser mercadoria cara, era uma mercadoria que
gerava riqueza com o seu trabalho.
Fonte: www.estudokids.com
O sentido da colonização – A atividade colonizadora europeia aparece como
desdobramento da expansão puramente comercial. Passou-se da circulação
(comércio) para a produção, No caso português, esse movimento realizou-se
através da agricultura tropical. Os dois tipos de atividade, circulação e
produção, coexistiram. Isso significa que a economia colonial ficou atrelada ao
comércio europeu. Segundo Caio Prado Jr., o sentido da colonização era
explícito: "fornecer produtos tropicais e minerais para o mercado externo".
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Assim, o antigo sistema colonial apareceu como elemento da expansão
mercantil da Europa, regulado pelos Interesses da burguesia comercial. A
consequência lógica, segundo Fernando A. Novais, foi à colônia transformar-se em
instrumento de poder da metrópole, o fio condutor, a prática mercantilista, visara
essencialmente o poder do próprio Estado.
As razões da colonização – A centralização do poder foi condição para os
países saírem em busca de novos mercados, organizando-se, assim, as bases
do absolutismo e do capitalismo comercial. Com isso, surgiram rivalidades
entre os países. Portugal e Espanha ficaram ameaçados pelo crescimento de
outras potências. Acordos anteriores, como o Tratado de Tordesilhas (1494)
entre Portugal e a Espanha, começaram a ser questionados pelos países em
expansão.
A descoberta de ouro e prata no México e no Peru funcionou como estímulo ao
início da colonização portuguesa. Outro fator que obrigou Portugal a investir na
América foi a crise do comércio indiano. A frágil burguesia lusitana dependia cada vez
mais da distribuição dos produtos orientais feita pelos comerciantes flamengos
(Flandres), que impunham os preços e acumulavam os lucros.
Capitanias hereditárias – Em 1532, quando se encontrava em São Vicente,
Martim Afonso recebeu uma carta do rei anunciando o povoamento do Brasil
através da criação das capitanias hereditárias. Esse sistema já havia sido
utilizado com êxito nas possessões portuguesas das ilhas do Atlântico
(Madeira, Cabo Verde, São Tomé e Açores).
O Brasil foi dividido em 14 capitanias hereditárias, 15 lotes (São Vicente estava
dividida em 2 lotes) e 12 donatários (Pero Lopes de Sousa era donatário de 3
capitanias: Itamaracá, Santo Amaro e Santana). Porém, a primeira doação ocorreu
apenas em 1534.
Entre os donatários não figurava nenhum nome da alta nobreza ou do grande
comércio de Portugal, o que mostrava que a empresa não tinha suficiente atrativo
econômico. Somente a pequena nobreza, cuja fortuna se devia ao Oriente, aqui
aportou, arriscando seus recursos. Traziam nas mãos dois documentos reais: a carta
de doação e os forais. No primeiro o rei declarava a doação e tudo o que ela implicava.
O segundo era uma espécie de código tributário que estabelecia os impostos.
Nesses dois documentos o rei praticamente abria mão de sua soberania e
conferia aos donatários poderes amplíssimos. E tinha de ser assim, pois aos
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donatários cabia a responsabilidade de povoar e desenvolver a terra à própria custa.
O regime de capitanias hereditárias desse modo, transferia para a iniciativa privada a
tarefa de colonizar o Brasil. Entretanto,devido ao tamanho da obrigação e à falta de
recursos, a maioria fracassou. Sem contar aqueles que preferiram não arriscar a sua
fortuna e jamais chegaram a tomar posse de sua capitania. No final, das catorze
capitanias, apenas Pernambuco teve êxito, além do sucesso temporário de São
Vicente. Quanto às demais capitanias, malograram e alguns dos donatários não só
perderam seus bens como também a própria vida.
Estava claro que o povoamento e colonização através da iniciativa particular
era inviável. Não só devido à hostilidade dos índios, mas também pela distância em
relação à metrópole, e sobretudo, pelo elevado investimento requerido.
Governo geral (1549) – Em 1548, diante do fracasso das capitanias, a Coroa
portuguesa decidiu tomar medidas concretas para viabilizar a colonização.
Naquele ano foi criado o governo-geral com base num instrumento jurídico
denominado Regimento de 1548 ou Regimento de Tomé de Sousa. O objetivo
da criação do governo-geral era o de centralizar política e administrativamente
a colônia, mas sem abolir o regime das capitanias.
No regimento o rei declarava que o governo-geral tinha como função coordenar
a colonização fortalecendo as capitanias contra as ações adversas, destacando-se
particularmente a luta contra os tupinambás.
A compra da capitania da Bahia pelo rei, transformando-a numa capitania real
é sede do governo-geral foi o primeiro passo para a transformação sucessiva das
demais capitanias hereditárias em capitanias reais, Por fim, no século XVIII, durante
o reinado de D. José I (1750 - 1777) é do seu ministro marquês de Pombal, as
capitanias hereditárias foram extintas
Com a criação do governo-geral, estabeleceram-se também cargos de
assessoria: ouvidor-mor (justiça), provedor-mor (fazenda) e capitão-mor (defesa).
Cada um desses cargos possuía, ademais, um regimento próprio e, no campo restrito
de sua competência era a autoridade máxima da colônia. Assim, com a criação do
governo-geral, desfazia-se juridicamente a supremacia do donatário.
Tomé de Sousa (1549-1553) – O primeiro governador-geral foi Tomé de Sousa.
Com ele vieram todos os funcionários necessários à administração e também
os primeiros jesuítas chefiados por Manuel da Nóbrega. Começava, então, a
obra evangelizadora dos indígenas e, em 1551, criava-se em Salvador o
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primeiro bispado no Brasil, sendo o primeiro bispo D. Pero Fernandes Sardinha.
Com o segundo governador viria ainda outro contingente de jesuítas, entre
eles, José de Anchieta.
Apesar de representar diretamente a Coroa, algumas capitanias relutaram em
acatar a autoridade do governador-geral tais como as de Porto Seguro, Espírito Santo,
Ilhéus, São Vicente e Pernambuco. Esta última, de Duarte Coelho, foi a que mais se
ressentiu da intromissão do governo-geral. Recusando a autoridade do governador-
geral o donatário de Pernambuco apelou para o rei, que o favoreceu reafirmando a
sua autonomia.
Consolidação do governo-geral – Duarte da Costa (1553 – 1558), que viera em
substituição a Tomé de Sousa, enfrentou várias crises e sua estada no Brasil foi
bastante conturbada. Desentendeu-se com o bispo D. Pero Fernandes Sardinha e
teve de enfrentar os primeiros conflitos entre colonos e jesuítas acerca da escravidão
indígena. Além disso, foi durante o seu governo que a França começou a tentativa de
implantação da França Antártica no Rio de Janeiro.
Esses problemas foram solucionados pelo terceiro governador-geral, Mem de
Sá (1558-1572). Com ele, finalmente, se consolidou o governo-geral e os franceses
foram expulsos.
Predomínio dos poderes locais – Todavia, apesar da tendência centralizadora
do governo-geral, a centralização jamais foi completa na colônia. Vários
obstáculos podem ser mencionados. O primeiro deles estava na própria
característica econômica da colônia. A sua economia era de exportação,
voltada para o mercado externo. O comércio entre as capitanias era
praticamente nulo. Além disso, as vias de comunicação inter-regionais eram
inexistentes ou muito precárias.
Daí a predominância dos poderes locais representados pelos grandes
proprietários. Até meados do século XVII, as câmaras municipais eram ocupadas e
dominadas por esses grandes proprietários, que se autodenominavam "homens
bons".
Evolução administrativa até 1580 – D. Luís Fernandes de Vasconcelos,
nomeado sucessor de Mem de Sá foi atacado por piratas franceses que impediram a
sua chegada ao Brasil.
Nessa época, a preocupação com a conquista do Norte fez com que o rei de
Portugal, D. Sebastião (1557 - 1578), dividisse, em 1572, o Brasil em dois governos.
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O norte ficou com D. Luís de Brito e Almeida e o sul com Antônio Salema tendo como
capitais, respectivamente, a Bahia e o Rio de Janeiro
Em virtude do tamanho do Brasil, almejava-se com essa divisão maior
eficiência administrativa. Entretanto, como esse objetivo não fora alcançado, a
administração foi reunificada em 1578. O novo governador nomeado, Lourenço da
Veiga, governou de 1578 a 1580. Nesta última data, Portugal foi anexado pela
Espanha, dando origem à União Ibérica, que perdurou de 1580 a 1640.
A crise do Antigo Regime – O declínio da mineração no Brasil coincide, no plano
internacional, com a crise do Antigo Regime. Fazendo um balanço de toda a
exploração colonial do Brasil, chegamos à melancólica conclusão de que
Portugal não foi o principal beneficiário da exploração colonial.
Os benefícios da colonização haviam se transferido para outros centros
europeus em ascensão: França e, em especial, Inglaterra. De fato, o século XVIII teve
a Inglaterra como centro da política internacional e pivô das mudanças estruturais que
começavam a afetar profundamente o Antigo Regime. Como nação vitoriosa na esfera
econômica, a Inglaterra estava prestes a desencadear a Revolução Industrial,
convertendo-se na mais avançada nação burguesa do planeta.
A visível transformação econômica foi acompanhada, na segunda metade do
século XVIII, por uma ebulição no nível das ideias. Surgiu o Iluminismo e, com essa
filosofia, uma nova visão do homem e do mundo. Por trás de todo esse movimento,
encontrava-se a burguesia, comandando a crítica ao Antigo Regime e, portanto, à
nobreza e ao absolutismo.
Mas os filósofos iluministas, como Voltaire e Diderot, seduziram os monarcas
absolutistas da Prússia, Áustria, Rússia, Portugal e Espanha. Sem abrir mão do
absolutismo, esses monarcas realizaram algumas das reformas recomendadas pelos
iluministas, que vieram reforçar o seu poder, uma vez que a modernização
empreendida aliviou as tensões sociais. Por se manterem absolutistas e optarem por
reformas modernizadoras, aqueles monarcas ficaram conhecidos como déspotas
esclarecidos. Esse foi um fenômeno típico da segunda metade do século XVIII.
D. José I (1750-1777) e seu ministro, o marquês de Pombal, foram os
representantes do despotismo esclarecido em Portugal.
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5 REFORMAS POMBALINAS
Fonte: www.google.com
As reformas pombalinas – No reinado de D. José I, o ministro Sebastião José
de Carvalho, marquês de Pombal, com sua forte personalidade, caracterizou o
período, denominado em virtude disso "pombalino”.
O período pombalino coincidiu com a época da decadência da mineração, e
todo o esforço político do ministro de D. José I concentrou-se na tentativa de
modernização do reino. Mas essa modernização, como era típico dos déspotas
esclarecidos, foi imposta de cima para baixo.
Considerando as suas realizações em conjunto, conclui-se que a política de
Pombal tinha em vista, de um lado, o fortalecimento do Estado e, de outro, a
autonomia econômica de Portugal.
No primeiro caso, Pombal tratou de diminuir a influência da nobreza e
sobretudo dos jesuítas, os quais expulsou de Portugal e de todos os seus domínios
em 1759.
Quanto à autonomia econômica, o seu objetivo era o de tirar o país da órbitainglesa, na qual ingressara a partir de meados do século XVII.
Desde o fim da União Ibérica em 1640, o Brasil era a mais valiosa possessão
portuguesa. Com a descoberta e a exploração do ouro em Minas, o Brasil ocupou o
lugar indiscutível de retaguarda econômica da metrópole. Porém, no tempo de
Pombal, a mineração encontrava-se em franca decadência. A sua preocupação foi
então a de reorganizar a administração colonial, fortalecer os laços do exclusivo
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metropolitano, a fim de garantir o máximo de transferência da riqueza brasileira para
Portugal.
Em sua política colonial, Pombal tratou de centralizar a administração para
maior controle metropolitano. Nesse terreno, o ministro tomou duas medidas
importantes. A primeira foi a extinção do regime de capitanias hereditárias e, portanto,
o fim do poder dos donatários. A segunda foi a reunificação administrativa.
Com essa reunificação ficava abolida a antiga divisão administrativa
estabelecida em 1621, quando então o Brasil ficou dividido em dois Estados: o Estado
do Maranhão e o do Brasil, cada qual com um governador próprio. O primeiro abrangia
Pará, Maranhão e Ceará e o segundo, os demais territórios ao sul. A capital do Estado
do Maranhão era São Luís e a do Estado do Brasil era a Bahia.
Pombal reunificou a administração, transferindo, ao mesmo tempo, a capital
para o Rio de Janeiro, em 1763, o que mostrou a sua preocupação em manter a
cabeça administrativa bem próxima da economia mineira.
Mas a sua política não estava concentrada apenas em Minas. Ela abrangia
também a economia açucareis do nordeste e a exploração das "drogas do sertão" da
região amazônica.
Em relação a Minas, com a finalidade de assegurar os rendimentos da Coroa,
Pombal tomou a iniciativa de converter a exploração diamantífera em monopólio real,
com o Regimento da Real Extração e, em relação ao ouro, ele estabeleceu um regime
de taxação que combinava a Casa de Fundição e o sistema de fintas com cotas de
100 arrobas, complementado pela derrama.
Para atuar no nordeste e na região amazônica, Pombal criou a Companhia
Geral do Comércio do Grão Pará e Maranhão (1755) e a Companhia Geral do
Comércio de Pernambuco e Paraíba (1759).
Assim, o quadro geral da administração colonial caracterizou-se, no final do
século XVIII, pela crescente racionalização da atividade econômica, tendo por objetivo
a transferência do máximo de riqueza do Brasil para Portugal. Paralelamente a essa
racionalização, aumentava também o grau de opressão colonial. Essa tendência
continuou com D. Maria I, que sucedeu a D. José I. No seu reinado, através do Alvará
de 1785, proibiu-se a atividade manufatureira no Brasil.
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6 CONTESTAÇÕES AO SISTEMA COLONIAL
Fonte: www.youtube.com
Contradições do sistema colonial – O sistema colonial possuía dois eixos
contraditórios. De um lado, senhores e escravos; de outro, colônia e metrópole.
No Brasil, esse sistema ganhou a forma típica de escravismo colonial, e esse
caráter simultaneamente escravista e colonial não foi desfeito ao mesmo tempo.
Primeiro, romperam-se os laços coloniais e, muito mais tarde, aboliu-se a escravidão.
Alguns historiadores, em data mais recente, afirmaram que o escravismo, e não
o caráter colonial, vem a ser o traço definidor mais importante da sociedade. Por isso
não dão muita importância à independência do Brasil. Para eles, o fato decisivo é a
abolição da escravidão, em 1888. E um exagero: a superação da ordem colonial (o
processo de independência) foi um fenômeno de grande importância e não tem
sentido minimizá-lo em favor de outro, que foi a abolição da escravatura.
De fato, nas inúmeras rebeliões ocorridas antes da independência, raras foram
as que colocaram em xeque o escravismo. A maioria contestava diretamente o regime
colonial a que o Brasil estava submetido, e muitas pessoas arriscaram a própria vida
para aboli-lo. E isso tem a sua importância histórica. Ninguém estava lutando contra
uma ficção, mas contra algo muito real: a opressão e exploração coloniais.
No entanto, aqueles historiadores não deixam de ter razão. Se prestarmos
atenção apenas à luta pela emancipação, deixamos de lado as camadas populares e
os escravos, pois a obra emancipadora foi, no Brasil, produto das elites. Não se deve
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esquecer que os de baixo estavam tão insatisfeitos com o regime colonial quanto com
a dominação dos senhores de escravos.
Tendo em vista, portanto, essa dupla contradição do sistema colonial,
examinemos o processo emancipacionista.
A primeira constatação importante é a de que o rompimento dos laços coloniais
decorreu do próprio funcionamento do sistema: para explorar a colônia é preciso,
antes de tudo, desenvolvê-la. Porém, à medida que a colônia se desenvolve,
engendra interesses próprios que passam a divergir dos da metrópole. Esse é o
momento em que os próprios colonos tomam consciência da exploração e de si
próprios como colonos. Por isso mesmo, serão os integrantes da camada dominante
os primeiros a alcançarem de forma aguda essa consciência e, em regra, serão eles
os dirigentes desse movimento de emancipação.
Isso não impediu, todavia, que as contradições sociais internas da colônia se
aguçassem paralelamente à luta contra a metrópole, de modo que a ruptura dos laços
coloniais poderia ser acompanhada, ao menos como possibilidade, de uma convulsão
social.
Examinando em conjunto o processo emancipacionista da América, verifica-se
que, em geral, a independência não se fez acompanhar de uma revolução social. A
única exceção foi o Haiti, colônia francesa que, em 1792, libertou-se da metrópole
através de uma vasta rebelião escrava, extinguindo, ao mesmo tempo, a escravidão.
Nos demais países, a independência não alterou em nada a estrutura social, que, no
caso brasileiro, era escravista. Porém, isso não significa que a possibilidade de uma
revolução social não esteve presente, de modo quase permanente, nas revoltas
anticolonialistas.
O sentido das rebeliões coloniais – As primeiras rebeliões anticolonialistas
surgiram nos fins do século XVII e início do seguinte e foram resultado direto
da nova política colonial adotada por Portugal depois da Restauração (1640).
Nesse contexto, as contradições entre metrópole e colônia se manifestaram de
diversas maneiras: de um lado, como protesto ao regime comercial
monopolista, como na Revolta de Beckman (1684), no Maranhão; de outro,
como uma guerra entre senhores e escravos fugitivos, como em Palmares
(1694), em Alagoas; mas também como conflito entre senhores de engenho e
mercadores, como na Guerra dos Mascates (1709-1711), em Pernambuco; e,
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enfim, como reação à opressão fiscal, exemplificada pela Revolta de Vila Rica
(1720), em Minas.
Todas essas rebeliões tiveram por base a contradição metrópole-colônia e, no
caso de Palmares, senhores escravos. Entretanto, cada rebelião possuía o seu
caráter específico e apresentou grande complexidade.
Porém, as rebeliões coloniais até o início do século XVIII não chegaram a
propor claramente a emancipação política como solução. Elas só terão esse caráter
com a Inconfidência Mineira (1789) e a Conjuração Baiana ou dos Alfaiates (1798).
As primeiras manifestações anticolonialistas. Nos primeiros tempos da
colonização, a contradição entre metrópole e colônia era latente e existia apenas em
potencial. Na realidade, a colônia era vista como um prolongamento da metrópole, e
os interesses não eram, de início, conflitantes. Na fase da montagem da economia
colonial inexistia, na prática, divergências entre colonos e o Estado metropolitano.
Porém, à medida que o processo colonizador avançou e se consolidou, os interesses
tornaram-se conflitantes.
Ora, isso é perfeitamente compreensível, pois a metrópole não tem o que
explorar se a riqueza não for produzida. Uma vez produzida, a luta pela sua posse é
desencadeada.Na segunda metade do século XVII, com a Restauração (1640) e a expulsão
dos holandeses (1654), a divergência de interesses entre colônia e metrópole tornou-
se evidente. A opressão colonial começou a ser sentida com a criação das
Companhias de Comércio, às quais a metrópole concedeu monopólio do comércio
colonial. A própria administração portuguesa ganhou um novo contorno com a criação
do Conselho Ultramarino.
Assim, à medida que o Estado português torna-se clara e conscientemente
colonialista, no Brasil desenvolve-se uma consciência anticolonialista.
Revolta de Beckman (1684) – Em meados do século XVII, o Maranhão estava
com problemas devido à dificuldade de escoar a sua produção e de obter
gêneros metropolitanos e, sobretudo, escravos.
A criação da Companhia do Comércio do Estado do Maranhão em 1682, que
tinha por objetivo precisamente resolver tais problemas, veio agravar ainda mais a
situação. Em princípio, essa companhia deveria não apenas adquirir a produção
açucareis como também fornecer gêneros metropolitanos e escravos. Porém, visto
que a ela fora concedido o monopólio tanto da venda de escravos e produtos
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metropolitanos, como da compra do açúcar, os colonos ficaram sujeitos aos preços
arbitrariamente estabelecidos pela companhia, o que já era motivo de insatisfação.
Essa insatisfação converteu-se em aberta rebelião porque, além disso, a companhia
não cumpriu o seu compromisso de abastecer adequadamente o Maranhão com bens
metropolitanos e escravos.
A revolta eclodiu em 1684 liderada por Manuel Beckman, um abastado senhor
de engenho. Os revoltosos propunham a abolição do monopólio da companhia e uma
relação comercial mais justa. Em sinal de protesto, o governo local foi deposto, os
armazéns da companhia saqueados e os jesuítas, velhos inimigos dos colonos por
impedirem a escravização do índio, foram expulsos.
Sob a direção de Manuel Beckman foi composto um governo provisório, e seu
irmão, Tomás Beckman, foi enviado a Lisboa para apresentar as reivindicações dos
revoltosos. Estas não foram atendidas e Tomás Beckman foi preso e recambiado para
o Brasil, na frota em que veio o novo governador, Gomes Freire de Andrade. Este
desembarcou no Maranhão, onde foi recebido com obediência, e, em seguida,
reconduziu as autoridades depostas. Manuel Beckman fugiu e quando planejava
libertar o irmão do cárcere foi traído por um afilhado. Beckman foi preso e executado.
Apesar do fracasso, esse foi o primeiro movimento anticolonial organizado,
embora não tivesse ocorrido aos dirigentes do movimento a independência da colônia
em relação a Portugal, ou seja, a condição colonial não foi questionada.
Quilombo dos Palmares (1630-1694) – No Brasil, a exploração colonial
resumia-se, em última análise, na exploração do trabalho escravo pelo senhor.
Devido ao caráter colonial dessa exploração, é verdade que o próprio senhor
não ficava com todo o produto do trabalho escravo. Boa parte da riqueza ia
para o Estado na forma de impostos e, também, para os cofres dos
comerciantes portugueses. Daí a razão da revolta dos senhores contra o
sistema colonial e as autoridades que o representavam. Mas não apenas a
camada dominante que se rebelava. Também os escravos elaboraram meios
de resistir contra o seu opressor imediato, isto é, o senhor.
A resistência dos escravos assumiu formas muito variadas: fuga, suicídio,
assassinato, passividade no trabalho, etc. Em qualquer uma dessas formas, o escravo
negava a sua condição e se contrapunha ao funcionamento do sistema como um todo.
A fuga, entretanto, foi a mais significativa forma de resistência e rebeldia. Não
pela fuga em si, mas pelas suas consequências: os fugitivos se reuniam e se
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organizavam em núcleos fortificados no sertão, desafiando as autoridades coloniais.
Observemos que, no combate à rebeldia escrava, aliavam-se senhores e autoridades
coloniais.
Esses núcleos eram formados por pequenas unidades, os mocambos (reunião
de casas), que, no conjunto, formavam os quilombos. Cada mocambo possuía um
chefe, que, por sua vez, obedecia ao chefe do quilombo, denominado zumbi. Os
moradores dos quilombos eram conhecidos como quilombolas. Eles se dedicavam ao
trabalho agrícola e chegavam a estabelecer relações comerciais com os povoados
vizinhos.
Palmares foi o maior quilombo formado no Brasil. Localizava-se no estado atual
de Alagoas e deve o seu nome à grande quantidade de palmeiras existentes na região.
Sua origem situa-se no início do século XVII, mas foi a partir de 1630, quando
a conquista holandesa desorganizou os engenhos, que a fuga maciça de escravos
tornou Palmares um quilombo de grandes proporções. Em 1675, a sua população foi
avaliada em 20 ou 30 mil habitantes.
Com a expulsão dos holandeses em 1654 e a escassez de mão de obra aliada
ao fato de Palmares funcionar como polo de atração para outros escravos,
estimulando a sua fuga, as autoridades coloniais, apoiadas pelos senhores, decidiram
pela sua destruição. Várias expedições foram feitas contra ele, mas nenhuma delas
teve sucesso. Foram contratados então os serviços de um veterano bandeirante,
Domingos Jorge Velho. Apoiado por abundante material bélico e homens, o
bandeirante contratado conseguiu finalmente destruir Palmares em 1694. Todavia, o
chefe do quilombo, Zumbi, não foi capturado na ocasião. Somente um ano depois foi
encontrado e executado.
Guerra dos Mascates (1709-1711) – A Guerra dos Mascates ocorreu em
Pernambuco e, aparentemente, foi um conflito entre senhores de engenho de
Olinda e comerciantes do Recife. Estes últimos, denominados "mascates",
eram, em sua maioria, portugueses.
Antes da ocupação holandesa, Recife era um povoado sem maior expressão.
O principal núcleo urbano era Olinda, ao qual Recife encontrava-se subordinado.
Porém, depois da expulsão dos holandeses, Recife tornou-se um centro
comercial, graças ao seu porto excelente, e recebeu um grande afluxo de
comerciantes portugueses.
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Olinda era uma cidade tradicionalmente dominada pelos senhores de engenho.
O desenvolvimento de Recife, cidade controlada pelos comerciantes, testemunhava o
crescimento do comércio, cuja importância sobrepujou a atividade produtiva
agroindustrial açucareis, à qual se dedicavam os senhores de engenho olindenses.
O orgulho desses senhores havia sido abalado seriamente desde que a
concorrência antilhana havia colocado em crise a produção açucareis do nordeste.
Mas ainda eram poderosos, visto que controlavam a Câmara Municipal de Olinda.
À medida que Recife cresceu em importância, os mercadores começaram a
reivindicar a sua autonomia político-administrativa, procurando libertar-se de Olinda e
da autoridade de sua Câmara Municipal. A reivindicação dos recifenses foi
parcialmente atendida em 1703, com a conquista do direito de representação na
Câmara de Olinda. Entretanto, o forte controle exercido pelos senhores sobre a
Câmara tornou esse direito, na prática, letra morta.
A grande vitória dos recifenses ocorreu com a criação de sua Câmara Municipal
em 1709, que libertava, definitivamente, os comerciantes da autoridade política
olindense. Inconformados, os senhores de engenho de Olinda, utilizando vários
pretextos (a demarcação dos limites entre os dois municípios, por exemplo), re-
solveram fazer uso da força para sabotar as pretensões dos recifenses. Depois de
muita luta, que contou com a intervenção das autoridades coloniais, finalmente em
1711 o fato se consumou: Recife foi equiparada a Olinda. Assim terminou a Guerra
dos Mascates.
Com a vitória dos comerciantes, essa guerra apenas reafirmava o predomínio
do capital mercantil (comércio) sobre a produção colonial. E isso já era fato, uma vez
que os senhores de engenho eram frequentemente devedores dos mascates.
Portanto, a equiparação política das duas cidades tinha fortes razões econômicase
obedecia à lógica do sistema colonial.
7 A EXPANSÃO COLONIZADORA E A FIXAÇÃO DOS LIMITES
Tratados luso-espanhóis – Portugal e a Espanha, os pioneiros da expansão
ultramarina, a fim de garantir a possessão dos territórios descobertos recorreram à
autoridade do papa para legitimá-los. Assim, no Ocidente foi estabelecido inicialmente
a Bula Inter-Coetera (1493), um meridiano que passava a 100 léguas a oeste de Cabo
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Verde dividindo domínios portugueses e espanhóis. O meridiano da Bula Inter-
Coetera não permitia a inclusão do Brasil como domínio português. No ano seguinte,
uma nova divisão foi negociada, dando origem ao Tratado de Tordesilhas (1494), que
estipulou um meridiano a 370 léguas a oeste de Cabo Verde, ampliando o domínio
português, incluindo desta vez parte do que seria mais tarde o Brasil.
Não tardou que a emergência de novas potências europeias (Holanda, França,
Inglaterra) viesse a contestar a partilha do mundo pelas nações ibéricas. Assim, a
alteração do quadro internacional no início do século XVI forçou Portugal e a Espanha
a adotarem uma atitude mais efetiva em relação à América. A colonização, como
vimos, viabilizou a posse efetiva.
Fonte: rafatrotamundos.wordpress.com
A ocupação do litoral: a expansão oficial – Mesmo depois de decidida a ocupação
efetiva do Brasil pela colonização, o litoral não deixou de ser constantemente
ameaçado, principalmente pelos franceses. A dificuldade em desalojá-los foi devida,
em grande parte, à sua aliança com os tupinambás, inimigos mortais dos tupiniquins,
aliados dos portugueses. Por isso, a conquista do litoral deveu-se à conjugação de
ações militares e religiosas. Através das primeiras repelia-se o rival e, em seguida,
fundava-se um forte para guarnecer a região. Depois eram enviadas missões
religiosas a fim de pacificar os indígenas. Porém, quando estes se mostravam
excessivamente rebeldes, utilizava-se a força pura e simples para reduzi-los à
submissão.
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À medida que a colonização avançava, os franceses foram sendo repelidos
para o norte, onde procuravam ainda extrair o pau-brasil. Assim, sucessivamente
foram sendo conquistados Sergipe Del Rei, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará,
Maranhão e, finalmente, o Grão Pará, cuja conquista completa dar-se-ia somente em
meados do século XVII. Antes, porém, de serem repelidos para o Pará, os franceses
tentaram ainda fundar no Maranhão a França Equinocial, em 1612, erguendo o forte
de São Luís, num derradeiro esforço para preservar uma colônia no Brasil. Depois da
conquista do Pará, os franceses finalmente iriam se estabelecer nas Guianas, onde
não foram mais molestados.
No sul, Portugal fundou em 1680 a Colônia do Sacramento, na margem
esquerda do rio da Prata, para se contrapor a Buenos Aires do outro lado do estuário
do rio. Nessa área, aliás, iria se desenrolar um intenso conflito entre portugueses e
espanhóis, além da intervenção de outras potências, como França e Inglaterra, em
virtude da posição estratégica do rio dá Prata, cuja livre navegação era defendida por
várias nações.
Povoamento do Brasil até meados do século XVII – A colonização do Brasil,
que teve como fundamento a agroindústria açucareira, possibilitou a ocupação
efetiva do litoral. Durante muito tempo, segundo a expressão famosa de frei
Vicente do Salvador, que viveu no século XVII, os colonos limitavam-se a
"andar arranhando as terras ao longo do mar como caranguejos".
A interiorização da colonização, entretanto, iniciou-se com o desenvolvimento
da pecuária nordestina, que foi gradualmente se afastando do litoral açucareiro que
lhe dera origem. Seus focos de irradiação foram Bahia e Pernambuco. Seguindo as
margens dos rios, o gado iria possibilitar o povoamento do sertão de Pernambuco,
Bahia, Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba e Maranhão.
Outro importante fator de ocupação do interior foi o bandeirismo, o responsável
pela incorporação da maior parcela territorial pertencente à Espanha ao domínio
português. O bandeirismo foi um fenômeno tipicamente paulista.
A capitania de São Vicente, apesar do relativo sucesso no começo da
colonização, terminou por mergulhar num estado de profunda pobreza por causa de
sua posição excêntrica em relação ao polo dinâmico do nordeste. A falta de contato
com a metrópole estimulou os vicentinos a entrarem para o interior depois de subir a
serra do Mar e atingir o planalto de Piratininga. A princípio, tratava-se de encontrar o
ouro ou a prata. É a fase do bandeirismo do ouro de lavagem. No início do século
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XVII, os holandeses ocuparam o nordeste e estenderam o seu domínio sobre a África
portuguesa, desencadeando uma crise de mão de obra na parte portuguesa do Brasil.
Os engenhos da Bahia passaram a ter dificuldades de reposição de seu estoque de
escravos. Para atender a essa procura, os bandeirantes voltaram-se para a captura
de índios, dando origem ao bandeirismo de preação. Essa fase culminou com os
ataques às missões jesuíticas espanholas do Tape, Itatim e Guairá. Nessas missões
(aldeamento de índios para a catequese), havia um número considerável de índios
guaranis. Esses aldeamentos foram estabelecidos com o consentimento do rei
espanhol, que via neles uma forma de preservar o domínio territorial sulino que lhe
pertencia por força do Tratado de Tordesilhas. Contudo, a reunião dos índios nessas
reduções atraiu os bandeirantes, que, num único ataque, conseguiam mão de obra
abundante e já disciplinada pelos jesuítas.
O bandeirismo de preação entrou em declínio tão logo os holandeses foram
expulsos e as posições portuguesas na África recuperadas, regularizando o
abastecimento de escravos. A partir disso, o bandeirismo tornou a se redefinir.
De fato, na segunda metade do século XVII, ao mesmo tempo em que
aumentavam a exploração e a opressão coloniais, ficava evidente a divergência de
interesses entre metrópole e colônia. Na colônia aumentou a tensão entre escravos e
grandes proprietários. Na época da conquista holandesa, ocorreram fugas em massa
de escravos, que formaram o mais famoso quilombo, o de Palmares, em Alagoas. Da
mesma forma, os indígenas oprimidos organizaram no Rio Grande do Norte a
Confederação dos Cariris. Para destruir esses focos de rebelião, os grandes
proprietários do nordeste recorreram a esses rústicos bandeirantes que agora
passaram a ser utilizados como força repressora. Teve início aí o sertanismo de
contrato, a última forma e fase do bandeirismo. Para destruir a resistência do
Quilombo dos Palmares e da Confederação dos Cariris foram contratados os serviços
de Domingos Jorge Velho.
A mineração e o povoamento do Brasil central – Com a mineração deu-se o
passo decisivo na ocupação do interior. Com a descoberta de ouro nas Gerais, o
centro dinâmico da economia deslocou-se do litoral nordestino para. o centro-sul do
Brasil. Além de propiciar a formação de um mercado interno, o polo minerador serviu
de elemento articulador da economia colonial, através da pecuária nordestina e sulina.
Esta última, ao se desenvolver e se articular com os centros mineiros, criou condições
para a efetiva ocupação do Rio Grande do Sul.
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A colonização do extremo norte; o vale amazônico – A colonização da
Amazônia - que hoje corresponde aos estados do Amazonas e do Pará - foi
estimulada pelas preocupações de garantir a posse e o acesso ao rio
Amazonas e impedir a presença de rivais de outros países. A base de ocupação
se deu através do extrativismo vegetal e do apresamento indígena.
O extrativismo vegetal consistiu na exploração das chamadas "drogas do
sertão”: cacau, guaraná, borracha, urucu, salsaparrilha, castanha-do-pará, gergelim,
noz de pixurim, baunilha, coco, etc. Por isso, a escravidão tinha ali um terreno
desfavorável, pois a exploração da Amazônia dependia do bom conhecimento da
região.Daí a importância dos índios locais que serviam de guias. A forma
predominante que caracterizou a integração da Amazônia ao conjunto da economia
colonial foi o estabelecimento das missões jesuíticas, que chegaram a aldear perto de
50 mil índios.
8 A FIXAÇÃO DAS FRONTEIRAS
Fonte: www.google.com.
Os tratados de limites – Nos fins do século XVIII, o atual território brasileiro
estava praticamente formado. Para isso contribuíram a pecuária, o bandeirismo, a
mineração e as missões jesuíticas no vale amazônico.
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Os limites no extremo norte foram discutidos com os franceses, que haviam se
fixado nas Guianas, e no extremo sul, com os espanhóis. A essa altura, estava claro
que o meridiano de Tordesilhas já não podia ser tomado como referência para
delimitar os domínios portugueses e espanhóis.
No século XVIII e no princípio do XIX, vários tratados foram assinados pelos
portugueses para definir os limites.
O primeiro tratado de limites ocorre com o Primeiro Tratado de Utrecht (1713).
Por esse tratado a França reconheceu o direito exclusivo de Portugal navegar no rio
Amazonas, em troca do reconhecimento português da posse da Guiana pelos
franceses. Pelo Segundo Tratado de Utrecht (1715), a Espanha reconheceu a
possessão da Colônia do Sacramento (fundada em 1680) por Portugal, mas não de
forma definitiva. Outros tratados foram assinados entre Portugal e Espanha para a
fixação dos limites no extremo sul.
Em 1750, a questão começou a ser rediscutida, resultando no Tratado de Madri
(1750). Segundo esse novo tratado, ficou estabelecido o princípio do uti possidetis,
isto é, Portugal e a Espanha estabeleceram como critério a ocupação efetiva. Assim,
territórios ocupa dos por portugueses foram reconhecidos pela. Espanha como
portugueses, e reciprocamente. Com esse tratado foram formalmente invalidados os
limites estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas. A Espanha, a fim m de assegurar
a navegação exclusiva no rio da Prata, trocou a Colônia do Sacramento pelos Sete
Povos das Missões (referência às sete missões jesuíticas espanholas que
correspondiam, grosso modo, ao atual está do Rio Grande do Sul).
Entretanto, o acordo estabelecido pelo Trata do de Madri não foi cumprido,
devido à recusa dos jesuítas espanhóis em entregarem os Sete Povos das Missões
aos portugueses. Instigados pelos jesuítas, os indígenas moveram uma guerra contra
os novos ocupantes, as Guerras Guaraníticas, que se prolongaram até 1767.
Por essa razão, o ministro português, marquês de Pombal, decidiu anular essa
cláusula do Tratado de Madri e se negou a entregar a Colônia do Sacramento, levando
os países ibéricos a anularem o tratado anterior, o que se deu com o Tratado do Pardo
(1761).
As negociações continuaram com o Tratado de Santo Ildefonso (1777), com
Portugal renunciando à região dos Sete Povos e ao Sacramento, em troca da ilha de
Santa Catarina, então pertencente à Espanha. A situação só iria se definir, finalmente,
em 1801, com o Tratado de Badajós, depois da destruição dos Sete Povos pelos
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gaúchos. Retornando aos termos do Tratado de Madri, Portugal reconheceu a posse
do Sacramento e ficou com os Sete Povos.
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35
9 LEITURA COMPLEMENTAR
Nome autor: Margarida Maria de Carvalho I; Pedro Paulo A. Funari II
Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
90742007000100002
Data: 06/05/2016
As pesquisas de História Antiga, no Brasil, remontam aos inícios da disciplina,
no âmbito universitário. Eurípides Simões de Paula, um dos primeiros historiadores
universitários – grande propugnador da disciplina histórica, na recém-criada
Universidade de São Paulo –, fundou a cadeira de História Antiga, tendo sido o
primeiro catedrático. Sua tese de doutoramento já se destacava pela ambição de
inserir-se no âmbito internacional e, ao mesmo tempo, por estudar a periferia, algo
particularmente inovador.
Contudo, por muitas décadas, a História Antiga manteve-se como
especialidade pouco difundida nos cursos de História, que se multiplicaram
exponencialmente a partir da década de 1940. Seria apenas nas últimas décadas do
século XX que a História Antiga começaria a expandir-se, primeiro nas universidades
mais antigas ecentrais, para, aos poucos, atingir as instituições mais novas e mais
distantes. Tal fato será verificado quando apresentarmos os autores dos artigos e
resenhas desse dossiê.
Dessa forma, revela-se na década de 1970, quanto à expansão da disciplina
no território nacional, uma produção marcada pela repressão da ditadura militar. A
História Antiga será vista, no setor universitário, como controle ideológico e, assim,
será identificada com a chamada Direita política do país. Nos currículos de História
das grandes universidades brasileiras haverá o predomínio da História Antiga adotada
de maneira factual, bastante positivista, fator esse que irá ao encontro dos objetivos
da censura.
Os espaços das reflexões sociopolíticas, tão características e inerentes aos
cursos de História, serão preenchidos por uma Antiguidade maniqueísta, olhada como
algo curioso e não como um convite à análise dos processos históricos. Essa mácula,
quase indelével, ficará durante muito tempo nos registros dos historiadores brasileiros
especialistas em História do Brasil, da América, História Moderna e Contemporânea,
os quais não medirão esforços para combater tais estudos sobre História Antiga,
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apesar do empenho, após a abertura política ocorrida na década de 1980, da maioria
dos antiquistas brasileiros em desconfigurar essa imagem distorcida ao acompanhar
o novo resplendor da historiografia marxista.
A partir de então, a produção de pesquisadores em Antiguidade não cessará
em acompanhar os avanços da historiografia. Detentores do conhecimento das
denominadas línguas mortas: aramaico, sânscrito, grego e latim e, fundamentalmente,
de línguas estrangeiras como espanhol, inglês, francês, italiano e alemão, os
estudiosos na área da Antiguidade terão acesso a tais avanços, como, por exemplo,
à imprescindível contribuição analítica do historiador americano Moses Finley, atuante
na Grã-Bretanha, que revolucionou a estrutura da análise da História Antiga ao criticar
o modelo marxista com suas sínteses totalizadoras transplantadas pelas revoluções,
elucidando a eficácia do conceito de ordem e status de inspiração weberiana em
detrimento do emprego do conceito de classe social no que se refere à interpretação
do que seriam os grupos sociais na antiguidade clássica.
Os historiadores antiquistas nacionais acompanharão, muito atentos, os
desdobramentos dessa interpretação, concordando ou não com essa premissa, mas
não deixando de respeitar a obra de Finley, cujo aparato bibliográfico nos inspira até
os dias atuais. As críticas às abordagens normativas inspiradas em Weber, a partir da
década de 1990, só podem ser compreendidas pela absorção das propostas da
Escola de Cambridge no país3.
Os conflitos sociais ocorridos na Antiguidade serão analisados sob prismas
mais arrojados, e com o conhecimento da Nouvelle Histoire novos temas serão
pesquisados em nossa área. A partir de meados da década de 1990, com o advento
da História Cultural expandindo-se em nível nacional, houve uma multiplicação de
Dissertações e Teses influenciadas pelo conceito de representação, o qual, mais
tarde, no clarão do século XXI, será articulado à análise do discurso.
O respeito pelo trato documental, sua datação e autoria, críticas internas e
externas dos discursos, sua linguagem metafórica, enfim, a desconstrução do
discurso serão albergados à luz das tropas de reconhecimento da pós-modernidade.
Sempre aliados ao conhecimento documental e historiográfico, os investigadores
antiquistas escolherão seus métodos, técnicas e teorias de abordagem, associando
tais interpretações à análise iconográfica e à cultura material.
Essa expansão no Brasil deu-se, portanto, em um contexto de renovação da
historiografia em geral, e, conseqüentemente, sobre a Antigüidade, em particular. A
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Historiografia passou a interagir cada vez mais intensamente com as outras Ciências
Humanas e Sociais, em busca de interpretações que superassem as aporias teóricas
e práticas do estudo das sociedades no presente e no passado. A multiplicação dos
movimentos sociais e a explosão de conflitos e de identidades, com mais força desde
a década de 1960, levaria a crítica aos modelos normativos. A historiografia sobre o
mundo antigo não deixaria de inserir-se nessa renovação, com a multiplicação de
estudos e abordagens contextuais e antinormativas. As leituras modernas da
Antigüidade foram incorporadas à lide quotidiana da disciplina. A pesquisa de História
Antiga no Brasil insere-se neste contexto. Cada vez mais atenta à sua inserção nas
discussões internacionais, não hesita, também, em mostrar como as especificidades
brasileiras podem ser usadas, de maneira produtiva e fertilizadora, para contribuir com
os debates nos ambientes hegemônicos. Deve-se também destacar a interação da
História Antiga com o estudo da História de outros períodos e épocas. Foi com o
sentido de esclarecer tais considerações que organizamos esse dossiê.
Este volume, entretanto, não pretendeu abranger a imensa variedade da
produção nacional: isso superaria, em muito, o espaço disponível. Preferimos
apresentar uma amostra dessa mesma variedade, sabedores de que outras tantas
iniciativas têm contribuído e continuarão a contribuir para a complexa tarefa de difundir
a História Antiga produzida no Brasil. Assim, nesse empreendimento, destacam-se
somente nove autores de artigos e três autores de resenhas de livros recentemente
publicados em nosso país.
Abrindo o leque de discursos investigativos aqui apresentado, em sua
totalidade por professores de História Antiga, temos o trabalho de Ana Teresa
Marques Gonçalves – do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás
(UFG) – intitulado Septímio Severo e a Consecratio de Pertinax: Rituais de Morte e
Poder, no qual a autora analisa a cerimônia de deificação do Imperador Pertinax
ocorrida após a sua morte (século III d.C.). O texto de Andréa L.D.C. Rossi – do
Departamento de História da Unesp/Assis e partícipe do Núcleo de Estudos Antigos e
Medievais das Unesp – Assis/Franca – leva-nos ao conhecimento de Mitologia:
Abordagem Metodológica para o Historiador da Antiguidade Clássica, onde a
historiadora propõe uma aplicação da análise da semiótica na interpretação da obra
de Dion Chrisóstomo, mais conhecido como Dion de Prusa, filósofo bitiniano que viveu
entre 40 e 115 d.C. Com Fábio Faversani – do Departamento de História da
Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) –, percorremos o caminho para a
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compreensão de O Estado Imperial e os Pequenos Impérios, onde o autor focaliza o
tema na obra de Sêneca, filósofo estóico do período neroniano. Ao nos debruçarmos
sobre o texto de Fábio Vergara Cerqueira – do Departamento de História da
Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) –, passamos a conhecer melhor A Imagem
Pública do Músico e da Música na Antiguidade Clássica: Desprezo ou Admiração?, no
qual o autor analisa as representações que definem o músico no imaginário social das
sociedades grega e romana antigas. Já Gilvan Ventura da Silva – do Departamento
de História da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), uma das poucas
referências do Brasil em estudos específicos sobre os séculos IV e V d.C., disserta a
respeito de Ascetismo, Gênero e Poder no Baixo Império Romano: Paládio de
Helenópolis e o Status das devotas cristãs. Através da obra História Lausíaca de
Paládio, o investigador interpreta o papel das ascetas no movimento monástico
dominado pelos homens. O historiador Glaydson José da Silva – pesquisador do
Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp – apresenta um trabalho que trata da
interface História Contemporânea/História Antiga quando, em O Mundo Antigo visto
por Lentes Contemporâneas: as extremas direitas na França nas décadas de 80 e 90,
ou da instrumentalidade da antiguidade, o autor interpreta os usos do passado pelas
extremas direitasfrancesas como formas de se compreender a contemporaneidade;
linha de pesquisa que vem tomando vulto desde meados da década de 1990 e se
fortalecendo cada vez mais atualmente.
Dando seqüência ao dossiê, temos o artigo de Ivan Esperança Rocha – do
Departamento de História da Unesp/Assis e Coordenador do Núcleo de Estudos
Antigos e Medievais das Unesp Assis/Franca –, cujo título,Imagem do Judaísmo:
Aspecto do Aniconismo Identitário, refuta que as formas visuais vêm ganhando um
espaço significativo nos estudos da Antiguidade, pois a historiografia tem considerado
sua capacidade de representar os imaginários sociais e de evidenciar as mentalidades
coletivas. Com Norberto Luiz Guarinello – do Departamento de História da USP –
adquirimos conhecimento com Violência como Espetáculo: o pão, o sangue e o circo.
Nesse trabalho, de uma forma bastante dinâmica, Guarinello constrói um diálogo
constante entre a violência da contemporaneidade e a noção da mesma na
Antiguidade. Finalmente, o último artigo, de Renata Senna Garrafoni – do
Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR) –, Os Bandidos
entre os romanos: Leituras Eruditas e Percepções Populares, esclarece como a elite
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romana visualizava os bandidos antigos na literatura satírica e que, por meio de
estudos epigrafemos, pode-se analisar a imagem do roubo na cultura popular.
Na seção final do volume, encontram-se as resenhas de livros de autores do
país, publicados nos últimos dois anos. Cláudio Umpierre Carlan– Doutorando do
Programa de Pós-Graduação em História da Unicamp e pesquisador do Núcleo de
Estudos Estratégicos – resenha o livro da historiadora Lourdes M. G. Conde Feitosa,
Amor e Sexualidade: o masculino e o feminino em grafites de Pompéia. Fábio Duarte
Joly – professor do Departamento de História da Universidade Federal do Recôncavo
Baiano (UFRB) – tece comentários críticos sobre o livro da autora Marilena
Vizentin, Imagens do Poder em Sêneca: estudos sobre o De Clementia, e Maria
Aparecida de Oliveira Silva – Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História
Social do Departamento de História da USP – redigiu a súmula crítica do livro de
Renata Senna Garrafoni, Gladiadores na Roma Antiga: dos Combates às Paixões
Cotidianas. Todas essas resenhas são um convite instigante aos leitores do mundo
acadêmico ou para todos aqueles que gostam e valorizam a História Antiga.
Enfim, a riqueza dos artigos e das obras resenhadas confirmam nossas alusões
anteriormente expostas acerca dos avanços historiográficos realizados pela produção
nacional, demonstrando que a História Antiga está mais viva do que nunca. Nesse
sentido, a residual obtusidade daqueles que insistem em não valorizar as pesquisas
dessa área, certamente, será questionada, uma vez mais, com o trabalho profícuo
aqui desenvolvido.
Agradecimentos
Agradecemos aos editores da História/Unesp, Prof. Dr. Carlos Alberto Sampaio
Barbosa e Profa. Dra. Tânia da Costa Garcia, e à sua comissão editorial pelo espaço
concedido à publicação desse dossiê. A todos os autores do volume, assim como
mencionamos o apoio institucional do CNPq, do Núcleo de Estudos Estratégicos
(NEE/Unicamp), Departamento de História da Unicamp e Departamento de História
da Unesp/Franca, assim como ao Núcleo de Estudos Antigos e Medievais das Unesp
Assis/Franca. À Helena Amália Papa – mestranda em História Antiga do Programa de
Pós-graduação em História da Unesp/Franca, pelo apoio à organização desse dossiê.
A responsabilidade das ideias aqui apresentadas é da ordem exclusiva dos autores
desta apresentação.
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10 LEITURA COMPLEMENTAR
A DINÂMICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL
Resistência, tráfico negreiro e alforrias, séculos XVII a XIX
RESUMO
O artigo examina as relações entre o tráfico negreiro transatlântico para o
Brasil, os padrões de alforria e a criação de oportunidades para a resistência escrava
coletiva (formação de quilombos e revoltas em larga escala), do final do século XVII à
primeira metade do século XIX. Valendo-se das proposições teóricas de Patterson e
Kopytoff, sugere uma interpretação para o sentido sistêmico do escravismo brasileiro
na longa duração, sem dissociar a condição escrava da condição liberta, nem o tráfico
das manumissões.
Palavras-chave: escravidão; história do Brasil; tráfico negreiro; alforrias;
resistência escrava.
SUMMARY
The article examines the relationships between the transatlantic slave trade for
Brazil, manumissions patterns and the creation of opportunities for collective slave
resistance (formation of maroons communities and large revolts), from the end of the
XVIIth century to the first half of the XIXth century. Based on the theoretical
propositions of Patterson and Kopytoff, it suggests an interpretation for the Brazilian
slave system in the long duration without dissociating the slave condition from the
freedman one and the slave trade from the manumissions.
Keywords: slavery; Brazilian history; transatlantic slave trade; manumissions;
slave resistance.
O ENIGMA DE PALMARES
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A Guerra dos Palmares foi um dos episódios de resistência escrava mais
notáveis na história da escravidão do Novo Mundo. Ainda que as estimativas das
fontes coevas e dos historiadores sobre o número total de habitantes divirjam bastante
— de um mínimo de 6 mil a um máximo de 30 mil pessoas , não há como negar que
as comunidades palmarinas, dada a extensão territorial e a quantidade de escravos
fugitivos que acolheram, tornaram-se o maior quilombo na história da América
portuguesa. Suas origens datam do início do século XVII, mas sua formação como
grande núcleo quilombola se deu apenas no contexto da invasão holandesa de
Pernambuco, quando diversos escravos se aproveitaram das desordens militares e
fugiram para o sul da capitania. As comunidades rebeldes que então se organizaram
resistiram a diversas incursões da Companhia das Índias Ocidentais e, após a
expulsão dos holandeses, a ataques das tropas luso-brasileiras.
Nas décadas de 1670 e 1680, os africanos, crioulos e descendentes alojados
em Palmares eram vistos pelas autoridades metropolitanas como "holandeses de
outra cor", por conta da ameaça que representavam à ordem colonial portuguesa na
América. Sua derrota pela força das armas só ocorreu em meados da década
seguinte, após um conflito secular com dois dos maiores poderes coloniais europeus
do mundo moderno. Antes da revolução escrava de São Domingos (1791-1804) e das
grandes revoltas abolicionistas do Caribe inglês no primeiro terço do século XIX, o
episódio de Palmares só teve equivalente na I Guerra Maroon da Jamaica (1655-
1739) e na Guerra dos Saramaca no Suriname (1685-1762). Nesses dois casos,
entretanto, os quilombolas conseguiram vencer as tropas repressoras, forçando
autoridades e senhores a reconhecerem a liberdade dos grupos revoltosos2.
A história da derrota do grande quilombo palmarino deu origem a um enigma
que há certo tempo chama a atenção dos especialistas em escravidão brasileira: por
que não houve outros Palmares na história do Brasil? O ponto é importante, pois a
atividade quilombola se ampliou no século XVIII, com o aumento do volume do tráfico
negreiro transatlântico e a formação dos núcleos mineratórios no interior do território,
assumindo diferentes modalidades de norte a sul da América portuguesa. Afora as
numerosas comunidades quilombolas, de dimensões e duração variáveis, o Brasil viu
aparecer no início do século XIX outra forma de resistência escrava coletiva, presente
no Caribe inglês havia bom tempo: o ciclo de revoltas africanas que agitou o
Recôncavo Baiano entre 1807 e 1835.
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A resposta que os historiadores forneceram ao enigma aponta para a mudança
na legislação escravista portuguesa. Após Palmares, dizem eles, houve uma
progressiva especificação das funções do capitão-do-mato — responsável legalnas
diferentes localidades da América portuguesa pela captura de escravos fugitivos — e
delimitação, nas letras da lei, do que seria uma comunidade quilombola. A
institucionalização da figura do capitão-do-mato e a definição de quilombo como
qualquer ajuntamento composto de alguns poucos escravos fugitivos teriam tolhido,
já no nascedouro, a formação de comunidades rebeldes com as proporções de
Palmares. Creio, no entanto, ser possível avançar outra explicação, que — sem negar
a fornecida pelos historiadores que trataram do assunto — recorre à configuração que
o escravismo brasileiro adquiriu a partir do final do século XVII.
O objetivo deste ensaio é justamente entender por que não houve outros
Palmares na história do Brasil. Para tanto, concentrarei minha atenção nas relações
entre tráfico negreiro transatlântico, alforrias e criação de oportunidades para a
resistência escrava coletiva (como a formação de quilombos e as revoltas em larga
escala), do final do século XVII à primeira metade do século XIX. A idéia é de que
eventos como Palmares, a Guerra Maroon jamaicana ou a campanha dos Saramaca
estiveram diretamente ligados à configuração de determinado tipo de sistema
escravista, que denominarei "escravismo de plantation". Nesse sistema, a produção
econômica se concentrava em um único produto e o quadro social era marcado por
desbalanço demográfico entre brancos livres e escravos negros, amplo predomínio
de africanos nas escravarias, poucas oportunidades para a obtenção de alforria e altas
taxas de absenteísmo senhorial.
Um sistema escravista dessa natureza, típico das colônias caribenhas inglesas
e francesas do século XVIII, e cujas características básicas tiveram desenvolvimento
apenas parcial na América portuguesa da primeira metade do século XVII, não mais
encontrou espaço nos dois séculos subseqüentes da história do Brasil. Com a
mineração, essa mudança de fundo no caráter do escravismo brasileiro apenas se
acentuou. A instituição se difundiu social e espacialmente, com a disseminação da
posse de escravos pelo tecido social e a criação de hierarquias étnicas e culturais
bastante complexas. Antigas áreas de plantation, como a Zona da Mata
pernambucana e o Recôncavo Baiano, mesmo mantendo a produção escravista
açucareira, verificaram igualmente essas transformações.
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A partir de fim do século XVII, o sistema escravista brasileiro passou a escorar-
se em uma estreita articulação entre tráfico transatlântico de escravos bastante
volumoso e número constante de alforrias. Nessa equação, era possível aumentar a
intensidade do tráfico, com a introdução de grandes quantidades de africanos
escravizados, sem colocar em risco a ordem social escravista. Logo após a derrota
de Palmares, reduziram-se substancialmente as oportunidades de sucesso para as
revoltas escravas e os grandes quilombos no Brasil. Não por acaso, com exceção de
uma breve ocasião na década de 1670, ainda no curso da Guerra dos Palmares, as
autoridades coloniais portuguesas e os representantes imperiais brasileiros sempre
se recusaram a negociar com revoltosos e quilombolas. Essa posição política, que
traduzia o quadro das relações de força entre senhores e escravos no Brasil, teve
como contraponto a atitude de ingleses e holandeses, forçados a reconhecer em
tratados de paz as conquistas que Maroon e Saramaca obtiveram em campo de
batalha.
É importante salientar que faz pelo menos três décadas os historiadores têm
anotado a relação estreita que houve na história do Brasil entre o volume do tráfico
negreiro transatlântico e as altas taxas de alforrias. O que falta, acredito, é fornecer
um enquadramento teórico mais substantivo para essa articulação, relacionando-a ao
limitado campo de possibilidades de sucesso para a resistência escrava coletiva no
Brasil.
Valendo-me dos estudos disponíveis, procurarei ler os resultados à luz das
proposições teóricas de Orlando Patterson e Igor Kopytoff, que não secionam a
experiência do escravo da experiência do forro; ambos encaram a escravização, a
situação de escravidão e a manumissão como partes de um mesmo processo
institucional. De acordo com a sugestiva formulação de Kopytoff,
a escravidão não deve ser definida como um status, mas sim como um
processo de transformação de status que pode prolongar-se uma vida inteira e
inclusive estender-se para as gerações seguintes. O escravo começa como um
estrangeiro [outsider] social e passa por um processo para se tornar um
membro [insider]. Um indivíduo, despido de sua identidade social prévia, é colocado
à margem de um novo grupo social que lhe dá uma nova identidade social. A
estraneidade[outsidedness], então, é sociológica e não étnica7.
Com base nessa proposição, tentarei sugerir um esquema interpretativo para o
sentido sistêmico do escravismo brasileiro na longa duração, sem dissociar a condição
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escrava da condição liberta e o tráfico negreiro das alforrias. Como em todo ensaio,
há sempre o risco derivado do alto grau de generalização, afora o fato de esse sentido
sistêmico não ter sido de todo claro aos contemporâneos. A tomada de consciência
do processo institucional do escravismo brasileiro ocorreu apenas no início do século
XIX, mais especificamente no contexto da independência, tanto pelos viajantes
estrangeiros que então percorriam o território brasileiro como, sobretudo, pelos
construtores do Império do Brasil. Tal é meu ponto de chegada. Noutros termos,
pretendo demonstrar que a percepção da experiência histórica colonial, que
combinava tráfico negreiro e alforrias, teve papel importante para definir o porvir da
escravidão nos quadros do Estado nacional brasileiro.
ESCRAVISMO DE PLANTATION
Nos séculos que se seguiram ao colapso do Império romano, a escravidão não
desapareceu por completo na Europa ocidental e mediterrânea. No entanto, no
decorrer da Baixa Idade Média, a escravidão como sistema de trabalho deixou de
existir no Ocidente europeu, excetuando-se os países do Mediterrâneo, isto é, das
penínsulas Ibérica e Itálica. Mesmo aí, ela foi, nos séculos XIV e XV, tão-somente uma
instituição urbana, com importância limitada no conjunto da economia; o emprego em
larga escala de cativos na produção agrícola havia se tornado residual nestas últimas
regiões. A recriação do escravismo, com o emprego massivo de escravos nas tarefas
agrícolas, seria realizada por portugueses e espanhóis só após a segunda metade do
século XV, com a introdução da produção açucareira nas ilhas atlânticas orientais
(Canárias, Madeira, São Tomé), e, no século XVI, com a colonização da América.
Baseada na experiência acumulada com o fabrico do produto nas ilhas da
Madeira e de São Tomé, a Coroa portuguesa procurou estimular a construção de
unidades açucareiras no Brasil desde a década de 1530. Mas, até os anos 1570, os
colonos encontraram grandes dificuldades para fundar em bases sólidas uma rede de
engenhos no litoral, como problemas com o recrutamento da mão-de-obra e falta de
capitais para financiar a montagem dos engenhos. Ao serem superadas tais
dificuldades, com atrelamento da produção brasileira aos centros mercantis do Norte
da Europa e articulação do tráfico de escravos entre África e Brasil, tornou-se viável o
arranque definitivo da indústria de açúcar escravista da América portuguesa, o que
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ocorreu entre 1580 e 1620, quando o crescimento acelerado da produção brasileira
ultrapassou todas as outras regiões abastecedoras do mercado europeu.
Cabem aqui algumas palavras sobre o papel que o tráfico transatlântico de
africanos desempenhou no deslanche da produção açucareira brasileira. A mão-de-
obra empregada na montagem dos engenhos de açúcar no Brasil foi
predominantemente indígena. Uma parte dos índios (recrutados em aldeamentos
jesuíticos no litoral) trabalhava sob regime de assalariamento, mas a maioria era
submetidaà escravidão. Os primeiros escravos africanos começaram a ser
importados em meados do século XVI; seu emprego nos engenhos brasileiros,
contudo, ocorria basicamente nas atividades especializadas. Por esse motivo, eram
bem mais caros que os indígenas: um escravo africano custava, na segunda metade
do século XVI, cerca de três vezes mais que um escravo índio. Após 1560, com a
ocorrência de várias epidemias no litoral brasileiro (como sarampo e varíola), os
escravos índios passaram a morrer em proporções alarmantes, o que exigia reposição
constante da força de trabalho nos engenhos. Na década seguinte, em resposta à
pressão dos jesuítas, a Coroa portuguesa promulgou leis que coibiam de forma parcial
a escravização de índios. Ao mesmo tempo, os portugueses aprimoravam o
funcionamento do tráfico negreiro transatlântico, sobretudo após a conquista definitiva
de Angola em fins do século XVI. Os números do tráfico bem o demonstram: entre
1576 e 1600, desembarcaram em portos brasileiros cerca de 40 mil africanos
escravizados; no quarto de século seguinte (1601-1625), esse volume mais que
triplicou, passando para cerca de 150 mil os africanos aportados como escravos na
América portuguesa, a maior parte deles destinada a trabalhos em canaviais e
engenhos de açúcar.
O sucesso da produção escravista de açúcar da América portuguesa logo atraiu
a atenção dos demais poderes coloniais europeus. Já em fim do século XVI, era
crescente o envolvimento de negociantes ingleses e holandeses no comércio
açucareiro entre Brasil e Europa. As invasões holandesas da Bahia (1624) e
Pernambuco (1630) foram em grande parte motivadas pelo dinamismo da economia
açucareira dessas capitanias. Os membros e acionistas da Companhia das Índias
Ocidentais holandesa (WIC), contudo, na época em que comandaram a invasão das
regiões produtoras de açúcar no Brasil, desconheciam por completo os segredos da
produção do artigo, que se resumiam basicamente a três aspectos: as técnicas de
processamento da cana-de-açúcar, as técnicas de administração dos escravos e a
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organização do tráfico negreiro transatlântico. Cedo os invasores perceberam a
estreita relação geoeconômica que havia entre a África e as regiões de plantation
escravista na América. De nada valeriam as possessões brasileiras se não se
conquistassem os pontos que forneciam escravos do outro lado do Atlântico. Por esse
motivo, sob o comando de Maurício de Nassau, a WIC promoveu em 1638 a conquista
do entreposto português de São Jorge da Mina e em 1641 a invasão de Angola.
O domínio holandês em Pernambuco durou pouco. Em 1645, eclodiu a revolta
dos colonos luso-brasileiros, que levaria à expulsão definitiva dos holandeses da
América portuguesa em 1654; antes disso, em 1648, os colonos luso-brasileiros do
Rio de Janeiro se responsabilizaram diretamente pela expulsão dos holandeses de
Angola. Com o fracasso da experiência brasileira e angolana, a WIC deixou de
priorizar a produção de açúcar e passou a direcionar-se para a compra do produto
obtido em regiões que não estavam sob seu comando direto. Nesse sentido, os
comerciantes holandeses procuraram estimular os colonos ingleses e franceses do
Caribe a produzir açúcar. Ainda durante a ocupação do Brasil, na segunda metade da
década de 1640, os mercadores holandeses transmitiram as técnicas dos engenhos
brasileiros aos colonos ingleses de Barbados e aos franceses da Martinica e
Guadalupe, além de abastecê-los com escravos trazidos dos entrepostos da WIC no
golfo da Guiné. A partir da década de 1660, a produção de açúcar com mão-de-obra
escrava nas ilhas inglesas e francesas verificou crescimento notável, além de os
mercadores desses dois países passarem a envolver-se diretamente no tráfico
negreiro transatlântico. No começo do século XVIII, a paisagem física e humana do
Caribe havia se modificado completamente: as ilhas converteram-se em imensos
canaviais e a população tornou-se esmagadoramente negra, quase toda ela
escravizada.
No curso das guerras contra os holandeses no Atlântico Sul, o abastecimento
de escravos aos engenhos brasileiros diminuiu de forma sensível. Se, entre 1601 e
1625, haviam sido introduzidos cerca de 150 mil africanos escravizados na América
portuguesa, no quarto de século seguinte esse volume se reduziu para apenas 50 mil.
De todo modo, a invasão holandesa de Pernambuco e os conflitos que se seguiram
contra os colonos luso-brasileiros abriram boas oportunidades de resistência aos
escravos que haviam desembarcado em grande número no primeiro quarto do século
XVII. Não por acaso, o aporte cultural decisivo para a configuração política do reino
"neoafricano" de Palmares foi fornecido pelos grupos humanos originários do Centro-
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Sul da África, exatamente a zona em que os traficantes portugueses mais operaram
a partir de fim do século XVI.
A dimensão e a força do quilombo de Palmares se explicam não apenas pela
conjuntura do conflito imperial entre portugueses e holandeses, mas pela própria
demografia da região das plantations açucareiras pernambucanas. Qualquer assertiva
categórica sobre a composição da população colonial antes do século XVIII é
perigosa, mas creio que não há riscos em afirmar que quando os holandeses
invadiram a capitania de Pernambuco, os escravos negros predominavam em termos
numéricos sobre a população branca — e mesmo sobre os indígenas "domesticados".
Pode-se afirmar também, com base nos poucos dados disponíveis, que a população
negra livre era relativamente diminuta. Tratava-se, enfim, de um quadro demográfico
bastante propício à eclosão de movimentos coletivos de resistência escrava, como a
experiência posterior do Caribe inglês bem o demonstraria.
Após a expulsão dos holandeses, as tropas luso-brasileiras se encarregaram
do combate sem trégua aos palmarinos. O grande problema a ser enfrentado pelos
colonos, no entanto, encontrava-se na esfera econômica. A rápida montagem do
complexo açucareiro escravista nas Antilhas a partir da década de 1650 logo trouxe
forte impacto negativo para a economia açucareira na América portuguesa. O
crescimento das produções inglesa e francesa no Caribe derrubou o preço do açúcar
nos mercados europeus, ao mesmo tempo que a demanda por trabalhadores negros
nas plantations antilhanas aumentou os preços dos escravos no litoral africano. Além
disso, os senhores de engenho luso-brasileiros tiveram que enfrentar outros dois
problemas. Em primeiro lugar, devido às políticas mercantilistas adotadas pela
Inglaterra e pela França na segunda metade do século XVII, que procuravam estimular
a produção antilhana garantindo-lhe proteções monopolistas, o açúcar brasileiro foi
praticamente excluído desses dois mercados europeus. Em segundo lugar, entre 1640
e 1668, Portugal travou uma dura guerra contra a Espanha em prol da independência,
no exato momento em que o "Império da Pimenta" oriental entrava em colapso. Na
segunda metade do século XVII, as possessões do Novo Mundo se tornaram o
sustentáculo econômico de Portugal. Uma tributação pesada sobre o açúcar brasileiro
foi criada então para dar conta dos gastos com a diplomacia e a defesa do Reino.
Tais atribulações não impediram a sobrevivência da economia açucareira na
América portuguesa. Em que pesem a desorganização trazida pelas guerras do
Atlântico Sul entre as décadas de 1620 e 1650, a elevada taxação pós-1650, a
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concorrência antilhana e a restrição do acesso a certos mercados europeus, os
senhores de engenho luso-brasileiros conseguiram manter a produção de açúcar em
patamares estáveis. Para tanto, foi vital a consolidação do sistema atlântico bipolar
unindo a África aos portos brasileiros, assegurada pela reconquista de Angola em
1648. Na segunda metade do século XVII, foram introduzidos cerca de 360 mil
africanos escravizados no Brasil. Tal sistema, ao garantir um fluxo contínuo deescravos a baixo custo para os engenhos brasileiros, viabilizou a atividade econômica
açucareira da Colônia em uma conjuntura internacional bastante adversa.
Algumas evidências sugerem que, naquele período conturbado da economia
açucareira, as alforrias ganharam impulso. É certo que a manumissão de escravos se
fez presente na Colônia desde os primeiros anos. No entanto, a existência de
documentação seriada da prática apenas na segunda metade do século XVII talvez
indique que ela tenha se disseminado só após essa época. Na historiografia da
escravidão brasileira, um dos primeiros estudos feitos sobre o tema tratou exatamente
da Bahia — ao lado de Pernambuco, o centro da economia açucareira colonial —
entre 1684 e 1745. O pesquisador Stuart Schwartz registrou e analisou uma série de
práticas relacionadas à manumissão, as quais depois se repetiriam em diferentes
tempos e espaços na América portuguesa e no Império do Brasil. Dentre as mais de
mil cartas de alforrias examinadas pelo autor, houve uma proporção constante de
duas mulheres libertadas para cada homem. Dado o amplo predomínio numérico de
homens no tráfico transatlântico e na própria composição das escravarias, escreve
Schwartz, "as mulheres obtinham liberdade numa proporção muito maior do que as
expectativas estatísticas". Igualmente privilegiados do ponto de vista estatístico foram
os escravos nascidos no Brasil, isto é, os crioulos e, sobretudo, os pardos: este grupo
constituiu 69% do universo das alforrias, contra apenas 31% de africanos libertados.
Houve, por fim, grande proporção de crianças e adolescentes menores de 14 anos
entre os alforriados. A tendência predominante de alforriar mulheres escravas em
idade fértil, conclui Schwartz, comprometeu as possibilidades de reprodução
demográfica auto-sustentável da escravidão brasileira, o que acabou por acentuar o
papel estrutural do tráfico negreiro transatlântico para repor a força de trabalho
escrava
MINERAÇÃO
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Esse padrão demográfico se consolidou com as descobertas auríferas na
virada do século XVII para o XVIII, ampliando-se geograficamente. A atração que a
possibilidade de enriquecimento rápido exerceu sobre a população metropolitana e
colonial foi imensa, levando grandes contingentes humanos a se transferirem para a
nova região das minas. Esse afluxo constituiu, nos termos de uma especialista, "a
primeira grande migração maciça na história demográfica brasileira" Afora o
deslocamento interno na Colônia, as minas atraíram para o Brasil um quantidade
ainda maior de imigrantes portugueses, calculada em cerca de 400 mil indivíduos
durante todo o século XVIII. A grande onda migratória para a região, contudo, foi
compulsória. O volume do tráfico transatlântico de escravos para a América
portuguesa, que já era o maior do Novo Mundo, duplicou na primeira metade do
Setecentos. Entre 1701 e 1720, desembarcaram nos portos brasileiros cerca de 292
mil africanos escravizados, em sua maioria destinados às minas de ouro. Entre 1720
e 1741, novo aumento: 312,4 mil indivíduos. Nas duas décadas seguintes, o tráfico
atingiu seu pico máximo: 354 mil africanos escravizados foram introduzidos na
América portuguesa entre 1741 e 1760.
O enorme avanço territorial e demográfico da colonização portuguesa na
América ocorrido no século XVIII se fez acompanhar por um aumento correspondente
das tensões econômicas, sociais e políticas. No caso específico de Minas Gerais,
capitania criada em 1720, o processo tumultuário de ocupação de seu território se
traduziu no aguçamento dos conflitos: carência alimentar, que provocou fomes
terríveis nos primeiros anos e a que se sucederam ações especulativas no
abastecimento de gêneros de primeira necessidade para a região; embates entre os
primeiros descobridores-povoadores (paulistas) e os adventícios, tanto da Colônia
como do Reino, que explodiram na Guerra dos Emboabas; esforços da Coroa para
impor seu poder na região, com a criação de vilas e a instalação de um aparato
burocrático, acompanhados em contrapartida por resistência aguda dos colonos a tal
política de normatização. Para nossos fins, no entanto, interessa ressaltar outro tipo
de conflito social, expresso nas fugas, na formação de quilombos e em planos mais
amplos de levante escravo.
Com efeito, diversos autores apontam que, dadas as condições particulares da
atividade mineratória, os escravos tiveram aí maiores oportunidades para exercer sua
autonomia e resistir ao controle senhorial. A dispersão espacial das lavras auríferas,
a possibilidade de os trabalhadores se apropriarem de parte dos resultados da
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extração ou o próprio controle que detinham sobre o processo de trabalho (como no
caso notório dos pretos-minas, reputados como grande mineradores no período)
ampliaram sobremaneira a autonomia escrava. Por essas razões, os senhores
recorreram com freqüência a meios não coercitivos para garantir a regularidade da
extração, o que, por sua vez, facilitou o acúmulo de numerário e a compra da alforria
pelos cativos.
A existência de canais para o exercício da autonomia escrava não significou
tão somente acomodação com os poderes senhoriais, mas também maiores
possibilidades para a resistência. Quanto ao último ponto, os historiadores registram
a presença de um grande número de quilombos em Minas Gerais, os quais, repetidas
vezes, mantiveram intensas trocas econômicas com a sociedade que os circundava.
João José Reis indica que essa multiplicação da atividade quilombola pode ter sido
decorrência da própria sanha repressora da metrópole, pois a "definição mesquinha"
de quilombo
Como o ajuntamento de cinco ou mais negros fugidos arranchados em sítios
despovoados [...], concebida para melhor controlar as fugas, terminou por agigantar o
fenômeno aos olhos de seus contemporâneos e de estudiosos posteriores.
Correta ou não a avaliação, o certo é que, dentre a miríade de pequenos
ajuntamentos de fugitivos, houve pelo menos dois grandes quilombos em Minas
Gerais, cuja população atingiu a casa do milhar: o Quilombo do Ambrósio, derrotado
em 1746, e o Quilombo Grande, vencido em 1759. Afora esses dois exemplos, os
pesquisadores identificaram ainda três planos de levante escravos (1711, 1719 e
1756), todos desbaratados antes que eclodissem.
A questão formulada no início do ensaio volta aqui: diante desse quadro social
explosivo, com amplo predomínio numérico da população negra sobre a população
branca, por que não houve nada similar a Palmares em Minas Gerais? A pergunta é
ainda mais intrigante se lembrarmos que o exemplo dos palmarinos rondou a cabeça
das autoridades públicas mineiras por toda a primeira metade do século XVIII. As
advertências feitas em 1718 pelo conde de Assumar ao rei d. João V são famosas:
segundo o governador da então capitania de São Paulo e Minas do Ouro, o combate
aos quilombolas era assunto de fundamental relevância, pois dele poderia "depender
a conservação ou ruína deste país [...] porque vejo mui inclinada a negraria deste
governo a termos aqui algo semelhante aos Palmares de Pernambuco".
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Como já vimos, a resposta corrente é de que uma dura legislação repressiva,
somada à institucionalização da figura do capitão-do-mato, impediu a eclosão de
novos Palmares na América portuguesa. Alguns historiadores, no entanto,
apresentam explicação alternativa. Donald Ramos, por exemplo, sugere que a própria
proliferação de pequenas comunidades fugitivas em Minas Gerais serviu para
esvaziar o poder de contestação ao sistema escravista. O comércio ativo que muitos
desses pequenos quilombos estabeleceram com a sociedade mineratória indicaria
que eles representaram antes uma "válvula de escape" do que uma oposição frontal
ao sistema escravista. O que mais nos interessa na argumentação de Ramos,
contudo, é sua lembrança de que as alforrias desempenharam papel análogo comoesteio da ordem social escravista.
De fato, a prática da manumissão encontrou enorme difusão na América
portuguesa a partir do século XVIII. Não por acaso, uma parcela substantiva dos
estudos sobre o assunto tratam de Minas Gerais nesse período. Diante da
impossibilidade de passar em revista todos os trabalhos disponíveis ou mesmo os
mais relevantes, o sumário dos resultados apresentado recentemente por John
Russell-Wood é bastante útil. Dois pontos particularizaram a experiência mineira no
conjunto da América portuguesa: em primeiro lugar, a tendência a libertar-se mais no
período de apogeu (primeira metade do século XVIII) do que no período de retração
da atividade aurífera; em segundo lugar, a presença mais freqüente da coartação
como mecanismo de libertação dos escravos, isto é, do pagamento da carta de alforria
pelo escravo em parcelas periódicas. Em tudo o mais que diz respeito à prática da
manumissão, resume Russell-Wood, os estudos sobre as minas setecentistas
Concordam que as mulheres eram preferidas aos homens, os mulatos aos
negros, os nascidos no Brasil aos nascidos na África, os escravos urbanos aos das
regiões rurais e que muitos senhores preferiam alforriar bebês em vez de adultos.
As alforrias em Minas Gerais, enfim, em linhas gerais reiteraram o modelo que
Stuart Schwartz encontrou para a Bahia já em fim do século XVII. Esse padrão
obedeceu a uma norma básica: quanto mais afastados da experiência do tráfico
negreiro transatlântico, maiores seriam as possibilidades de os escravos e as
escravas ganharem alforria; o homem africano, predominante nos tumbeiros,
dificilmente a obteria, mas seus descendentes, em uma ou mais gerações, sim.
O SISTEMA BRASILEIRO
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No fim do século XVIII e início do XIX, a América portuguesa contava com uma
configuração demográfica ímpar no quadro das sociedades coloniais do Novo Mundo.
Para compreendê-la devidamente, vale dar uma olhada a vôo de pássaro nas demais
colônias européias de então.
As diversas ilhas açucareiras do Caribe inglês e francês, em que pesem as
variações, apresentaram durante todo o século XVIII desbalanço enorme entre a
quantidade de brancos e escravos negros. O predomínio numérico dos últimos foi
esmagador, mesmo em colônias com maior número relativo de colonos de origem
européia. Esse foi o caso de Barbados, que, durante o Setecentos, teve sempre cerca
de quatro escravos negros para cada branco. Já em colônias como São Domingos,
às vésperas da revolução a proporção era de quinze escravos para cada branco.
Tampouco o número de negros e mulatos livres chegou a equipar-se com o de
escravos. Em São Domingos, esses grupos — que seriam decisivos para o início da
revolução que acabou por levar ao término da escravidão e do domínio francês — não
somavam mais do que 30 mil indivíduos, número equivalente ao da população branca.
Na Jamaica, a proporção era ainda menor.
As colônias do Sul da América inglesa continental e, posteriomente, os estados
do Sul da República norte-americana, constituíram a outra sociedade escravista do
Novo Mundo que teve caráter birracial. Se lá a quantidade de negros e mulatos livres
era tão reduzida em termos relativos como no Caribe inglês e francês, havia porém
equilíbrio demográfico entre a comunidade branca e a comunidade negra escravizada.
Por fim, a América espanhola exibia a maior variedade demográfica entre as
colônias européias, contando no entanto com o aporte decisivo, nas colônias
continentais, do elemento indígena. A concentração da escravidão negra em cidades
ou enclaves (como a região de Caracas, a região de Chocó, a costa de Lima) não
permite caracterizar a sociedade colonial espanhola como genuinamente escravista.
A América portuguesa, pelo contrário, constituía uma sociedade desse tipo,
mas algo distinta do que se observava no Caribe inglês e francês e no Sul dos Estados
Unidos. O que a diferenciava era justamente uma considerável população livre negra
ou mestiça descendente de africanos, a qual vivia lado a lado com uma quantidade
substantiva de brancos, e uma maioria escravizada, composta em sua maioria de
africanos e um número menor de crioulos e pardos nascidos na América. Em que
pesem as variações de capitania a capitania (no extremo norte e no extremo sul, por
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exemplo, havia predomínio indígena) e as imprecisões dos dados demográficos
disponíveis, a população colonial brasileira no início do século XIX guardava as
seguintes proporções: 28% de brancos, 27,8% de negros e mulatos livres, 38,5% de
negros e mulatos escravizados, 5,7% de índios.
A gênese dessa grande população livre negra e mulata se deu,
fundamentalmente, pela dinâmica do tráfico transatlântico de escravos acoplada à
dinâmica da alforria. A escravização dos africanos, seu transporte para o Brasil, as
atividades que aqui desempenharam como escravos (em geral, nas tarefas rurais e
urbanas que não exigiam qualificação), a recomposição dos laços familiares e
culturais, a produção de descendentes, que, em uma ou mais geração, certamente
obteriam a liberdade via manumissão: todos esses movimentos e outros mais podem
ser tidos como parte de um processo institucional em larga escala de transformação
de status, tal como propuseram Patterson e Kopytoff.
Luiz Felipe de Alencastro percebeu com rara felicidade esse movimento na
conclusão de seu O trato dos viventes, ao examinar o que denomina de a "invenção
do mulato". Segundo ele, as práticas de favorecimento dos mulatos na América
portuguesa podem ser observadas em medidas como: emprego mais freqüente desse
grupo em trabalhos qualificados, uso militar em tropas auxiliares, e sobretudo,
privilegiamento no ato da manumissão. A esse quadro, Alencastro contrapõe a
situação na África portuguesa, onde os mulatos foram desde cedo equiparados aos
negros. Em seus termos,
Houve no Brasil um processo específico que transformou a miscigenação —
simples resultado demográfico de uma relação de dominação e de exploração — na
mestiçagem, processo social complexo dando lugar a uma sociedade plurirracial. O
fato de esse processo ter se estratificado e, eventualmente, ter sido ideologizado, e
até sensualizado, não se resolve na ocultação de sua violência intrínseca, parte
consubstancial da sociedade brasileira: em última instância, há mulatos no Brasil e
não há mulatos em Angola porque aqui havia a opressão sistêmica do escravismo
colonial, e lá não.
Resumindo: para garantir a reprodução da sociedade escravista brasileira no
tempo, fundada na introdução incessante de estrangeiros, era fundamental criar
mecanismos de segurança que pudessem evitar um quadro social tenso como o do
Caribe inglês e francês ou mesmo o de Pernambuco no século XVII. A libertação
gradativa dos descendentes dos africanos escravizados — não mais estrangeiros,
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mas sim brasileiros — constituiu o principal desses meios. A prova definitiva da
validade dessa equação é a associação de negros e mulatos libertos e livres com o
sistema escravista: o grande anseio econômico e social desses grupos era
exatamente a aquisição de escravos, ou seja, tornar-se senhor.
Diversos trabalhos recentes documentam a prática bastante comum de negros
e mulatos livres, libertos e mesmos escravos serem donos de escravos. Por conta da
dinâmica do tráfico para o Brasil, o mais volumoso na história do comércio negreiro
transatlântico, o africano escravizado era uma mercadoria socialmente barata. Foi isso
que permitiu odisseminar da escravidão pelo tecido social brasileiro, marcando a
particularidade desse sistema escravista. Essa mecânica, por sua vez, teve peso
decisivo para a configuração econômica igualmente ímpar da América portuguesa.
Como há muito é consenso na historiografia brasileira, a partir do século XVIII,
com o impacto da mineração, houve grande diversificação na economia colonial.
Antes de mais nada, peloaparecimento de uma produção ativa voltada ao
abastecimento do mercado interno, como a pecuária no Rio Grande do Sul e no vale
do São Francisco, ou a produção de mantimentos na própria capitania de Minas, em
São Paulo e no Rio de Janeiro. O surgimento de vários núcleos urbanos em Minas
Gerais, e mesmo o crescimento de antigas cidades como Rio de Janeiro e Salvador,
também ativaram a economia interna. A produção de tabaco, no Recôncavo Baiano,
foi outra atividade que recebeu impulso, pois se tratava de uma mercadoria central
para a aquisição de cativos na Costa da Mina, especialmente valorizados nas zonas
mineradoras. E, por último, não se pode esquecer que os enclaves de plantations
açucareiras no Recôncavo Baiano, na Zona da Mata pernambucana e em Campos
dos Goitacazes mantiveram sua vitalidade ao longo do século, a despeito da
competição antilhana, que havia excluído seus produtores dos mercados inglês e
francês.
O que importa para esta análise é o fato de todas essas atividades — rurais e
urbanas — terem se baseado na escravidão, com uma estrutura de posse dos
escravos que os distribuía por diferentes faixas de riqueza, sem concentrá-los apenas
nas mãos dos senhores mais capitalizados ou mesmo dos proprietários brancos. A
América portuguesa, portanto, combinava com essas diferentes operações
econômicas o leque das formas de exploração do trabalho escravo presentes no Novo
Mundo: a mineração e a escravidão urbana da América espanhola, as plantations
escravistas do Caribe, a produção de mantimentos da região de Chesapeake.
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Poder-se-ia argumentar que era igualmente essa a configuração econômica da
América espanhola, que tinha na região de Caracas, por exemplo, um escravismo de
plantation. Há que se lembrar, contudo, três diferenças básicas entre uma e outra. Em
primeiro lugar, o peso econômico decisivo da população indígena nas áreas centrais
da América espanhola, contraposto à generalização do trabalho escravo na América
portuguesa. Em segundo lugar, a ausência de integração econômica entre as colônias
da América espanhola: a despeito da profunda cisão entre o vale Amazônico e o
restante da Colônia, a mineração permitiu, na América portuguesa, uma integração
econômica nada desprezível — ante os meios de transporte do período , do Rio
Grande do Sul a Pernambuco. Terceiro, e mais importante, para a reprodução
ampliada da economia, o tráfico negreiro transatlântico teve papel crucial na América
portuguesa. Há, neste ponto, uma distinção substantiva em relação às colônias
inglesas e francesas: lá, o tráfico negreiro sempre foi controlado a partir das
respectivas metrópoles; na América portuguesa, pelo contrário, desde o século XVII,
o tráfico foi gerido diretamente a partir dos portos brasileiros, isto é, os grandes
traficantes que garantiam a reprodução do sistema escravista estavam sediados em
Recife, Salvador e Rio de Janeiro, e não em Lisboa.
A crise da mineração e a expansão da agro exportação escravista na passagem
do século XVIII para o XIX — com o surgimento de novas áreas produtoras, como
Maranhão (com o algodão) e o oeste de São Paulo (com o açúcar) — e a recuperação
de antigas áreas produtoras, como Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, não
romperam com o sentido sistêmico que o escravismo brasileiro adquirira no século
precedente. Muito pelo contrário, pois foi exatamente aquela configuração social e
econômica que forneceu as bases para a pronta resposta dos produtores escravistas
da América portuguesa às novas condições favoráveis do mercado mundial.
Para os fins deste ensaio, interessa examinar o caso da resposta dos baianos,
de grande relevo para a linha central de sua argumentação. A revolução escrava de
São Domingos na década de 1790 trouxe modificações profundas nos quadros da
produção de açúcar nas Américas. Antes dessa data, a colônia francesa respondia
por cerca de 30% da produção mundial total de açúcar e era a maior produtora mundial
de café. Com o levante dos escravos, a partir de 1791, a produção açucareira e
cafeeira de São Domingos entrou em colapso, abrindo enormes possibilidades para a
produção desses gêneros em outras colônias nas Américas, a que se deve somar o
aumento da demanda por gêneros tropicais nos países em processo de
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industrialização. Em vista dessa nova conjuntura, o tráfico negreiro transatlântico para
a Bahia se acelerou para atender à demanda do setor açucareiro por novos
trabalhadores. A reativação da agroexportação no Recôncavo Baiano se fez
acompanhar pela ampliação do cultivo de mantimentos nas paróquias que não eram
adequadas ao plantio da cana e que também empregavam em larga escala a mão-
de-obra escrava. A própria cidade de Salvador viu sua população ampliar, com o
consequente aumento no número de cativos.
Desde fim do século XVII, a zona de eleição do tráfico transatlântico de
escravos para Bahia era a Costa da Mina, ainda que parte dos traficantes operasse
também em Angola. Na virada do século XVIII para o XIX, aumentou muito a oferta
de cativos na Costa da Mina aos comerciantes baianos, por duas razões: primeiro, os
traficantes ingleses e franceses deixaram de operar na área, devido ao fim do tráfico
para suas colônias; segundo, as guerras intestinas na região, derivadas da jihad
promovida por Usman dan Fodio, produziram grande quantidade de cativos, dos quais
parte substancial foi direcionada à Bahia.
Esses grupos egressos da Costa da Mina, sob diferentes identidades (Nagô,
Hauçá, Jeje, Tapa), promoveram o maior ciclo de revoltas escravas africanas de que
se tem notícia na história do Brasil. O caráter de resistência sistêmica à escravidão só
teve equivalente, antes, na Guerra dos Palmares e, depois, no movimento
abolicionista da década de 1880. Com efeito, entre 1807 e 1835, a Bahia viveu um
período de rebeliões contínuas dos escravos africanos, cujo ápice foi a Revolta dos
Malês, "levante de escravos urbanos mais sério ocorrido nas Américas".
No que resultou todo esse movimento de resistência? O ciclo de revoltas
africanas que a Bahia vivenciou entre 1807 e 1835 não teve nenhum efeito cumulativo
para colocar em xeque a ordem escravista brasileira; ao contrário, portanto, do ciclo
de levantes escravos ocorrido no mesmo período no Caribe inglês. O contexto
atlântico mais amplo ajuda a compreender a dimensão real dos levantes baianos. As
revoltas de 1816 (Barbados), 1823 (Demerara) e 1831 (Jamaica) foram decisivas para
impulsionar a campanha contra a escravidão negra no Império inglês. Por sua vez, a
resistência escrava na década de 1880, fundamental para o processo de abolição do
cativeiro no Império do Brasil, não se valeu da experiência histórica da onda de
levantes africanos que a Bahia vivenciou entre 1807 e 1835. Em uma frase: essas
revoltas, apesar de sérias e violentas, não abalaram a ordem escravista brasileira.
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A chave para compreender esse fracasso reside exatamente nas clivagens que
separavam de forma radical os africanos escravizados de seus descendentes —
negros e mulatos — nascidos no Brasil. Não houve participação destes últimos grupos
nos levantes comandados pelos africanos escravizados na Bahia. Muito pelo
contrário, como esclarece João José Reis:
mulatos, cabras e crioulos forneciam o grosso dos homens empregados no
controle e repressão aos africanos. Eram eles que faziam o trabalho sujo dos
brancos de manter a ordem nas fontes, praças e ruas de Salvador, invadir e
destruir terreiros religiosos nos subúrbios, perseguir escravos fugitivos
através da província e debelar rebeliões escravas onde quer que
aparecessem.
O comprometimento social dos crioulos e mulatos — sobretudo quando livres
e libertos — com a instituição da escravidão, e não apenas o comprometimento dos
senhores brancos, foi o elemento decisivo que garantiu a segurança do sistema
escravista brasileiro.
IDEOLOGIA E ESTADO NACIONALA blindagem criada por tal configuração sistêmica impediu não só a repetição
de Palmares, mas, acima de tudo, qualquer chance de uma revolução escrava como
a de São Domingos vir a ocorrer no Brasil. No século XIX, já no período do Estado
nacional, esse quadro social escravista interno altamente estável permitiu a expansão
inaudita do tráfico negreiro transatlântico — nas letras da lei, proibido desde 1831 —
e do próprio escravismo brasileiro. No período de quarenta anos compreendido entre
a vinda da família real para o Brasil (1808) e o fim definitivo do tráfico, em 1850, foi
introduzido mais de 1,4 milhão de cativos no Império, ou seja, cerca de 40% de todos
os africanos desembarcados como escravos em três séculos da história do Brasil.
Nesse sentido, as mudanças que se operaram no escravismo brasileiro oitocentista,
em especial o incrível arranque da cafeicultura no vale do Paraíba, que rapidamente
converteu o Brasil no maior produtor mundial do artigo, contou com práticas
arraigadas de longa duração, que possibilitavam introduzir enormes massas de
estrangeiros escravizados sem colocar em risco a segurança interna dessa
sociedade.
No século XIX, a maior ameaça ao escravismo brasileiro veio de fora, ou seja,
da pressão antiescravista inglesa. Não por acaso, a resposta ideológica que os
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senhores e políticos brasileiros deram à ação diplomática e militar inglesa recorreu,
entre outros pontos, à própria lógica de funcionamento sistêmico da escravidão
brasileira. Ao fazê-lo, inverteram a visão ideológica que foi predominante na Colônia.
Com efeito, salvo um ou outro caso, as autoridades metropolitanas sediadas na
América portuguesa sempre entenderam que o setor de homens negros e mulatos
livres representava mais risco do que segurança à ordem colonial. Em outras palavras,
a maioria dos dirigentes metropolitanos não tinha consciência do processo
institucional do escravismo brasileiro.
Essa visão começou a modificar-se no início do século XIX, de início pela pena
dos viajantes europeus que então passaram a percorrer ou morar no Brasil. O inglês
Henry Koster, por exemplo, senhor de escravos em Pernambuco na segunda década
do Oitocentos, não deixou de observar a facilidade com que escravos crioulos e
mulatos obtinham a alforria no Brasil, contrastando-a com as dificuldades encontradas
pelos escravos do Caribe inglês. Reside aí, nos relatos de viajantes europeus, a
origem da imagem da escravidão brasileira — e mesmo ibérica — como mais
"benigna" do que a escravidão anglo-saxônica.
Rapidamente o tema foi instrumentalizado pelos construtores do Estado
nacional brasileiro. A visão de que os libertos e seus descendentes eram aliados, e
não inimigos dos senhores de escravos brasileiros, apareceu em 1822, nos debates
das Cortes de Lisboa, quando se definiu o caminho da independência do Brasil.
Naquela ocasião, ao discutir com parlamentares portugueses os critérios de cidadania
e participação política a serem adotados pela futura Constituição, o deputado pelo Rio
de Janeiro Custódio Gonçalves Ledo afirmou:
Não há razão alguma para privar os libertos deste direito [de voto]. Há muitos
libertos no Brasil, que hoje interessam muito à sociedade, e têm grandes ramos de
indústria; muitos têm famílias; por isso seria a maior injustiça privar estes cidadãos de
poderem votar, e até poderia dizer que é agravar muito o mal da escravidão.
A definição de cidadania defendida por Custódio Ledo em Portugal cristalizou-
se na Constituição Política do Império do Brasil. Conforme o artigo 6, parágrafo 1 da
Constituição de 1824, os libertos, desde que nascidos no Brasil, eram considerados
cidadãos brasileiros. Portanto, apenas os libertos africanos eram excluídos do corpo
social da nação. Essa norma constitucional, por sua vez, franqueava aos
libertos brasileiros a participação no processo eleitoral: de acordo com os artigos 90 a
95, desde que possuíssem renda líquida anual de cem mil-réis, esses ex-escravos
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poderiam votar nas eleições primárias, que escolhiam os membros dos colégios
eleitorais provinciais, mas não poderiam participar destes últimos; já os ingênuos, isto
é, os filhos dos libertos (tanto dos africanos como dos brasileiros), poderiam
igualmente votar e ser votados nos colégios eleitorais provinciais, desde que
cumprissem os critérios censitários.
Tratava-se, enfim, de uma definição de cidadania bastante inclusiva. O
parágrafo constitucional acabou virando peça da propaganda de defesa do tráfico
negreiro transatlântico para o Brasil, no contexto do acirramento das pressões
inglesas. Em 1838, José Carneiro da Silva, futuro visconde de Araruama, destacado
político conservador, defendeu a anulação da lei de 1831 e a legalização do tráfico
negreiro com base justamente na experiência histórica do escravismo brasileiro:
Tenho visto escravos senhores de escravos, com plantações, criações de gado
vacum e cavalar, e finalmente com um pecúlio vasto e rendoso. Tenho visto muitos
escravos libertarem-se, tornarem-se grandes proprietários, serem soldados,
chegarem a oficiais de patente, e servirem outros empregos públicos que são tão úteis
ao Estado.
Quantos e quantos oficiais de ofícios e mesmo de outras ordens mais
superiores que, noutro tempo, foram escravos e hoje vivem com suas famílias,
cooperando para o bem do Estado nas obras e empregos em que são ocupados,
aumentando a população e o esplendor da nação, que os tem naturalizado!
No século XX, essa experiência se tornou tema caro à historiografia. Basta
lembrar as teses de Gilberto Freyre e Frank Tannenbaum sobre o caráter
supostamente benigno da escravidão brasileira, que logo se converteram em ideologia
da democracia racial. Não cabe aqui jogar mais terra sobre esse caixão. O que não
se pode nunca esquecer, entretanto, é que toda essa equação deitou raízes na maior
migração compulsória do mundo moderno — um verdadeiro crime contra a
humanidade, apesar das reticências atuais de países como Portugal, Inglaterra e
Holanda em classificá-la como tal.
BIBLIOGRAFIA
Texto originalmente apresentado ao I Encontro entre Historiadores Colombianos e
Brasileiros, promovido pelo Ibraco em Bogotá, Colômbia, em agosto de 2005.
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Sobre Palmares, ver, de Décio Freitas: Palmares, a guerra dos escravos. Rio de
Janeiro: Graal, 1990 (1a ed. 1971) e República de Palmares. Pesquisa e comentários
em documentos históricos do século XVII. Maceió: Editora da Ufal, 2004.
Sobre a resistência escrava no Caribe inglês e francês e no Suriname, ver Patterson,
Orlando. "Slavery and slave revolts: a socio-historical analysis of the First Maroon War,
1655-1740".Social and Economic Studies, vol. 19, no 3, set. 1970;
Craton, Michael. Testing the chains. Resistance to slavery in the British West Indies.
Ithaca: Cornell University Press, 1982;
Price, Richard. First-Time. The historical vision of an Afro-American people. Baltimore:
The Johns Hopkins University Press, 1983;
Dubois, Laurent. Avengers of the New World. The story of the Haitian revolution.
Cambridge, MA: Belknap Press, 2004.
Sobre a atividade quilombola em Minas Gerais, ver Guimarães, Carlos Magno. Uma
negação da ordem escravista. Quilombos em Minas Gerais no século XVIII. São
Paulo: Ícone, 1988.
Sobre o ciclo de revoltas na Bahia, ver Reis, João José. Rebelião escrava no brasil. A
história do levante dos malês em 1835. Ed. revista. São Paulo: Companhia das Letras,
2003.
Essa é a explicação proposta por Stuart Schwartz, que encontrou largo
desenvolvimento no trabalho de Silvia Lara. Ver, respectivamente desses dois
historiadores, os ensaios "Repensando Palmares: resistência escrava na Colônia".
In: Escravos, roceiros e rebeldes. Bauru: Edusc, 2001, e "Do singular ao plural:
Palmares, capitães-do-mato e o governo dos escravos". In: Reis, João José & Gomes,
Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade porum fio. História dos quilombos no Brasil. São
Paulo: Companhia das Letras, 1996.
A ideia que subjaz a essa diferenciação deriva em parte da proposta de Robin
Blackburn para a contraposição entre "escravidão barroca" e "escravidão moderna".
Ver The making of New World slavery. From the Baroque to the Modern, 1492-1800.
Londres: Verso, 1997. Blackburn, no entanto, não levou em devida conta a inserção
das regiões de "escravismo barroco" na modernidade, dentro da lógica do mercado
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mundial. Ver, a respeito, as críticas pertinentes de Stuart Schwartz em "Review of
the Making of New World Slavery: From the Baroque to the Modern, 1492-1800, by
Robin Blackburn". In: William and Mary Quarterly, série 3, vol. LV, no 3, jul. 1998.
Ver, a respeito, os seguintes trabalhos: Schwartz, Stuart. "Alforria na Bahia, 1684-
1745". In: Escravos, roceiros e rebeldes, pp. 165-212; Slenes, Robert. The
demography and economics of Brazilian slavery: 1850-1888. Tese de doutorado em
História. Stanford: Stanford University, 1976; Alencastro, Luiz Felipe de. "La traite
négrière et l'unité nationale brésilienne". Revue Française d'Histoire d'Outre-Mer, nos
244-245, 1979; Eisenberg, Peter. "Ficando livre: as alforrias em Campinas no século
XIX". In: Homens esquecidos. Escravos e trabalhadores livres no Brasil, séculos XVIII
e XIX. Campinas: Editora da Unicamp, 1989; Karash, Mary. A vida dos escravos no
Rio de Janeiro, 1808-1850. São Paulo: Companhia das Letras, 2000; Mattos, Hebe
Maria. "A escravidão moderna nos quadros do Império português: o Antigo Regime
em perspectiva atlântica". In: Bicalho, M. F.; Gouvêa, M. de F. & Fragoso, João
(orgs.) Antigo Regime nos Trópicos. A dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-
XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001; Florentino, Manolo. "De escravos,
forros e fujões no Rio de Janeiro Imperial". Revista USP. Dossiê Brasil Imperial, no
58, jul.-ago. 2003.
Kopytoff, Igor. "Slavery". Annual Review of Anthropology, vol.11, 1982, pp. 221-
22. Ver também Patterson, Orlando. Slavery and social death. A comparative study.
Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1982.
Cf. Miller, Joseph C. "O Atlântico escravista: açúcar, escravos e engenhos". Afro-Ásia,
nos 19-20, 1997.
Cf. Schwartz, Stuart. Segredos internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial,
1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, pp. 22-73; Alencastro, Luiz
Felipe de. O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e
XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 69. Todos os dados sobre o tráfico
transatlântico de africanos para o Brasil doravante citados foram retirados dessa fonte.
Cf. Alencastro, O trato dos viventes, pp.188-246; Marquese, Rafael de
Bivar. Administração & escravidão. Idéias sobre a gestão da agricultura escravista
brasileira. São Paulo: Hucitec, 1999, pp. 42-49; Puntoni, Pedro. A mísera sorte. A
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escravidão africana no Brasil holandês e as guerras do tráfico no Atlântico Sul, 1621-
1648. São Paulo: Hucitec, 1999
Cf. Emmer, P. C. "The Dutch and the making of the second atlantic system". In: Solow,
B. (org.). Slavery and the rise of the Atlantic System. Cambridge: Cambridge University
Press, 1991.
Cf. Schwartz, "Repensando Palmares", pp. 244-55.
Cf. Schwartz, "Alforria na Bahia, 1684-1745", pp. 165-212.
Marcílio, Maria Luiza. "A população do Brasil colonial". In: Bethell, Leslie
(org.). História da América Latina. Vol. 2: América Latina Colonial. São Paulo:
Edusp/Funag, 1999, p. 321.
Para uma visão de conjunto, ver o trabalho de síntese de Souza, Laura de Mello &
Bicalho, Maria Fernanda. 1680-1720. O império deste mundo. São Paulo: Companhia
das Letras, 2000.
Dentre esses estudos, veja-se com proveito Vallejos, Julio Pinto. "Slave control and
slave resistance in colonial Minas Gerais, 1700-1750". Journal of Latin American
Studies, vol.17, no 1, maio 1985.
Reis, João José. "Quilombos e revoltas escravas no Brasil". Revista USP. Dossiê
Povo Negro — 300 anos. no 28, dez. 1995-fev. 1996, p.18.
Apud Lara, Silvia. "Do singular ao plural: Palmares, capitães-do-mato e o governo dos
escravos", p. 90.
Cf. Ramos, Donald. "O quilombo e o sistema escravista em Minas Gerais do século
XVIII". In: Reis, João José & Gomes, Flávio dos Santos (orgs.). Liberdade por um fio.
História dos quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
Russell-Wood, A. J. R. Escravos e libertos no Brasil colonial. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2005, p. 315.
Cf. Watts, David. Las Indias Occidentales. Modalidades de desarrollo, cultura y
cambio medioambiental desde 1492. Madri: Alianza Editoral, 1992, pp. 355-70.
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Sobre a escravidão na América inglesa continental e na América espanhola, ver
Blackburn, The making of New World slavery, pp. 457-508.
Cf. Marcílio, "A população do Brasil colonial". Alencastro, O trato dos viventes, p. 353.
Cf. Florentino, Manolo. Em costas negras. Uma história do tráfico atlântico de
escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 1995.
Cf. Barickman, B. J. Um contraponto baiano. Açúcar, fumo, mandioca e escravidão no
Recôncavo, 1780-1860. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
Reis, João José. Rebelião escrava no Brasil, p. 9. Reis, op cit., p. 322.
Cf. Needell, Jeffrey. "The abolition of the Brazilian slave trade in 1850: historiography,
slave agency and statesmanship". Journal of Latin American Studies, vol. 33, no 4,
nov. 2001.
Para esta visão ideológica, ver os trabalhos de Sousa, Laura de
Mello. Desclassificados do ouro. A pobreza mineira no século XVIII. Rio de Janeiro:
Graal, 1983, e Lara, Silvia H. Fragmentos setecentistas. Escravidão, cultura e poder
na América portuguesa. Tese de livre-docência. Campinas: IFCH/ Unicamp, 2004.
Cf. Koster, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Recife: Fundação Joaquim
Nabuco/Editora Massangana, 2002, capítulos XVIII e XIX, 2 vols. (1a ed. 1816).
Apud Berbel, Márcia Regina & Marquese, Rafael de Bivar. "A escravidão nas
experiências constitucionais ibéricas, 1810-1824". Texto apresentado ao Seminário
Internacional Brasil, de um Império a Outro (1750-1850) Departamento de História,
USP, set. 2005). Disponível em www.estadonacional.usp.br.
Cf. Marquese, Rafael de Bivar & Parron, Tâmis Peixoto. "Azeredo Coutinho, Visconde
de Araruama e aMemória sobre o comércio dos escravos de 1838". Revista de
História, vol.152, 1o semestre 2005, p. 122.