Prévia do material em texto
MANUAL DE TECNICA PSICANALITICA Capitulo 11 - Transferências. Transferência de Impasse. Psicose de Transferência. Embora o fenômeno transferencial esteja virtualmente presente em todas as inter-relações humanas, o termo “transferência” deve ficar reservado unicamente para a relação presente no processo psicanalítico, o qual, juntamente com a “resistência” e a “interpretação”, constitui o tripé fundamental da prática da psicanálise, dando-lhe o selo de genuinidade psicanalítica, entre outras modalidades psicoterápicas. O conceito de transferência vem sofrendo sucessivas transformações e renovados questionamentos, como, por exemplo, se a figura do analista é uma mera pantalha para uma repetição de antigas relações objetais introjetadas ou se ele também se comporta como uma nova pessoa, real. Trata-se de um termo bastante conhecido e divulgado, que classicamente designa uma condição pela qual o analista percebe que o analisando demonstra, por meio dos inter-relacionamentos de sua vida cotidiana, a forma de como estão estruturadas as suas relações objetais internas. De modo geral, os analistas desvirtuam a extra transferência e apregoam que tais experiências emocionais só têm eficácia analítica se forem analisadas à luz da vivência do “aqui-agora-comigo” transferências. Acredito que esteja crescendo o número de psicanalistas, entre os quais me incluo, que, diante de determinadas circunstâncias da situação analítica – mais particularmente aquela na qual uma verdadeira transferência ainda deve ser paulatinamente construída –, também trabalham com naturalidade e profundidade os vínculos manifestos na extra transferência, tal como essa se apresenta na vida “lá fora”. Conforme o nome designa, trata-se de uma transferência que caracteriza os pacientes clinicamente psicóticos, sendo que, contrariamente à crença de Freud de que eles não seriam analisáveis, porquanto nunca desenvolveriam uma transferência (ele partia da idéia de que, nesses casos, toda libido estava investida auto-eroticamente), hoje é consensual que eles desenvolvem, sim, uma clara transferência, visto que, embora muitas vezes sejam inacessíveis à análise, muitas outras vezes esses pacientes possibilitam que se desenvolva um verdadeiro trabalho analítico. Esse conceito de “transferência psicótica” não deve ser confundido com o da transferência provinda da “parte psicótica da personalidade” (conforme Bion) e tampouco iguala-se com a conceituação de psicose de transferência, descrita por Rosenfeld (1978). Bion considera que a transferência que caracteriza os pacientes em nível psicótico (e um grau expressivo de pacientes histéricos, acrescento eu) apresenta três aspectos típicos, cujos nomes podese abreviar com a letra inicial “p”: é prematura (a transferência se instala logo no início da terapia analítica), pertinaz (se agarram ao analista de uma forma forte, tenaz) e perecível (nas primeiras decepções e desilusões, distanciamse e esfriam o vínculo com o terapeuta; a transferência perece e, não raramente, abandonam a análise). Consiste no fato, nada infreqüente nocurso das análises, de que, eventualmente, pacientes não-psicóticos ingressem em um estado transferencial de tamanho negativismo e distorção dos fatos reais, em relação ao analista, que chega a dar a impressão de uma situação psicótica, de fato. No entanto, a grande característica dessa psicose transferencial reside no fato de que fica restrita à situação da sessão analítica, finda a qual o analisando retoma a sua vida de forma completamente normal. Devido à sua importância clínica, essa forma de transferência será explicitada, de forma mais alongada, mais adiante neste capítulo.