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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ESCOLA DE ARTES, CIÊNCIAS E HUMANIDADES GRADUAÇÃO EM GESTÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS GUSTAVO BIANDI MORO – 102831162 LEONARDO TAVARES DE SOUSA – 10258174 MÁRCIO FONTES TEIXEIRA - 10258195 RESENHA DO TRECHO DA OBRA: “EICHMANN EM JERUSALÉM: UM RELATO SOBRE A BANALIDADE DO MAL” SÃO PAULO 2017 RESENHA: EICHMANN EM JERUSALÉM: UM RELATO SOBRE A BANALIDADE DO MAL Palavras-chave: Segunda Guerra Mundial; Holocausto; Adolf Eichmann; Banalidade do mal. Hanna Arendt foi uma cientista política de origem judia-alemã, nascida em 1906. Viveu na época das duas grandes guerras. No ano de 1933 migrou para a França, momento em que a perseguição aos judeus já se iniciara na Alemanha e em 1937 perdeu sua cidadania alemã, por ser claramente contra o regime. Em 1940, com a invasão da França pelos nazistas, ela foi levada à prisão pelo governo de coalizão no sul da França estabelecido em Vichy e conseguiu fugir meses depois migrando para os Estados Unidos da américa em 1941. Em 1950 recebeu a cidadania americana e desenvolveu importante trabalho acadêmico em várias importantes universidades americanas. Escreveu vários livros e dentre os mais importantes temos “As origens do totalitarismo” (1951), “A condição humana” (1958), “Eichmann em Jerusalém: Um estudo sobre a banalidade do mal” (1963), “Sobre a Revolução” (1963) e “Sobre a violência” (1969). Há uma aparente lógica interna nessas obras. Ela começa analisando os fenômenos totalitários na Europa, o nazismo e o stalinismo. Depois ela analisa a crise de valores éticos que levou a instauração desses movimentos. Com “Eichmann em Jerusalém”, ela parece ter encontrado uma resposta sobre o que levou os nazistas a fazer o que fizeram. Em “Sobre a revolução” ela trata sobre a revolução francesa e a revolução americana. E em “Sobre a violência”, ela trata sobre a relação da violência e poder, onde tenta desvincular a noção de violência como algo necessário para manutenção de poder. Hannah foi enviada como correspondente para cobrir o julgamento de Adolf Eichmann que aconteceria em Jerusalém em 1961 e escreve artigos bastante provocantes, que geraram muitas críticas por parte da comunidade judaica e até dos americanos da época. Esses mesmos artigos serviram de base para a obra “Eichmann em Jerusalém”. Adolf Eichmann foi um nazista, dentre tantos milhares que viveram no Terceiro Reich, sob o comando de Adolf Hitler que, de uma forma ou de outra, ajudaram nas atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. A “Solução Final” que culminou no holocausto, certamente não foi uma obra engenhosa de um homem só, muito menos de uma pessoa que ocupava não mais do que o terceiro escalão na hierarquia da organização nazista. Entretanto, Eichmann ficou conhecido após a guerra, notadamente durante os julgamentos de Nuremberg, quando foi apontado por diversos nazistas encarcerados como o responsável pelo feito. Foi preso e conseguiu fugir indo se refugiar na Argentina já em 1945. Eichmann conseguiu ficar escondido nos subúrbios de Buenos Aires, até que por sua característica de se gabar por seus feitos, acabou sendo localizado e identificado pelo Mossad (polícia secreta israelense), sendo sequestrado em 1960, levado para ser julgado em Jerusalém, Israel, onde fora condenado a morte pela forca. Hannah se surpreendeu com a “normalidade” do réu e procurou entender a personalidade daquele oficial nazista para entender o tipo de mentalidade que poderia contribuir para o surgimento de indivíduos como ele, o que foi fundamental para negar qualquer teoria explicativa baseada na ontologia ou patologia, como se todos os nazistas fossem monstros ou sociopatas e isso explicaria todo o mal que fizeram. Nesse sentido, ela demonstra o descompasso entre a personalidade comum do réu e as dimensões do mal por ele perpetrado. Tentou conciliar a chocante mediocridade do réu com seus atos abomináveis. E foi a partir dessa percepção que ela formula a sua concepção de “banalidade do mal”. Dentre vários pontos criticados em seus relatos, afirmou que Eichmann não teria sido o maligno organizador dos campos de concentração e de extermínio, não um monstro, mas sim um palhaço, pessoa comum, medíocre, um mero burocrata interessado em cumprir bem suas funções, sem questionar, sem capacidade de dialogar com o seu próprio eu interior. Criticou também a legitimidade do tribunal para julgar o caso, bem como, as intenções políticas por trás do mesmo; a participação colaborativa de líderes judeus no processo de deportação e ainda a passividade do povo judeu. Várias pessoas alegaram que estaria tentando defender Eichmann. A posição de Eichmann diante do julgamento era de “inocente no sentido da acusação”, pois, nunca matara nenhuma pessoa, seja judia ou não judia. Demonstrou-se ser um homem mediano, que foi incapaz de concluir o ensino básico, com dificuldades para pensar por conta própria, isso evidenciado pelo uso continuo de frases de efeitos e clichês e assustadoramente simples e normal. Fora avaliado por vários psicólogos que atestaram unanimemente sua normalidade, pois, não era tido como um psicopata, um sádico louco antissemita, como era o estereótipo dado aos nazistas. Ele mantinha relações próximas com os judeus, que inclusive lhe ajudaram a arrumar emprego na Áustria. Não era tido como um nazista fanático, mas ingressara na estrutura do partido. Não entrou por convicção nem jamais se deixou convencer por ele. Não conheceu o programa do partido, nem leu “Mein Kampf”. Era um jovem ambicioso, que teve dificuldades nos estudos e pouco sucesso profissional antes de entrar para a SS, onde tornou-se um burocrata que procurava fazer corretamente seu trabalho e ser reconhecido por isso, visando sua ascensão profissional. Segundo Hannah, Eichmann abdicou das características que definem o homem como a capacidade de pensar, consequentemente se tornou incapaz de fazer juízos morais, o que nos permite discernir sobre o certo e errado. Essa incapacidade de pensar permitiu que muitos homens comuns cometessem atos cruéis numa escala jamais vista. Hannah Arendt explica que para compreender Eichmann, é necessário entender três teorias: a “Teoria da Engrenagem”, onde ele era somente um dente de uma grande engrenagem e como tal, qualquer um poderia substituí-lo; a “Teoria da Culpa Coletiva”, onde todos são culpados. Eichmann era parte de um todo, que era a sociedade alemã, que também sabia do que estava ocorrendo. E onde todos são culpados, ninguém é culpado. A justiça é individual e não coletiva. Mas ele sabia que ao assinar os documentos, estava mandando os judeus para a morte; e por último, a “Teoria da Consciência” que pressupõe que ele não era capaz de dialogar consigo mesmo. Ele não ouvia sua voz interior, não refletia sobre o que se passava a sua volta nem sobre as consequências de seus atos. E essa incapacidade foi o que o levou ao tribunal onde estava sendo julgado. Hannah transformou o julgamento em um tratado de filosofia, foi capaz de conciliar a chocante mediocridade desse homem com a proporção do mal por ele cometido contra a humanidade. A manifestação do ato de pensar não é o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal. Daí surgem perguntas como “Por que os homens seguem tão cegamente ordens a ponto de fazer maldades, mesmo sabendo que elas são maldades? ”; “Por que nos envolvemos em ações impensadas de maldade? “. A “banalidade do mal” não se refere ao fato de que o holocausto foi banal ou que há um Eichmann em potencial dentro de nós, mas ao fato de que o oficial nazista acreditava estar apenas “fazendo seu trabalho”. O mal se torna banal quando as condições de pensamento se esvaziam. Eichmann não se sentia responsável, porque de acordo com ele, somente assinava documentos. Matar judeus no regime nazista, não eracrime. É preciso pensar por si mesmo. É preciso dialogar consigo mesmo. O mal se torna banal quando somos incapazes de pensar e refletir e acabamos por seguir regras prévias, clichês, frases prontas, padrões de comportamento e conduta social sem ao menos questionar o “por que estamos fazendo isso? ”. Banalizar é transformar “valores” caros em algo comum e sem importância. Escravizar, torturar e matar judeus se tornou algo corriqueiro durante o período nazista, comum, e como tal não havia motivos para se opor a isso. O mal não provém, necessariamente, do desejo de se fazer o mal, mas sim de falhas de pensamentos e julgamentos, de nossa falta de reflexão sobre a consequência de seus próprios atos. Sob regimes opressivos, essas falhas ou falta de capacidade de pensar e julgar das pessoas, a alienação política, pode levar a realização de coisas impensáveis por pessoas comuns, como ocorreu no regime nazista. Hannah Arendt, através da utilização do termo “a banalidade do mal” quer nos dizer que não devemos permitir jamais que o incomum se torne comum e por tornar-se corriqueiro, se torne banal. É preciso pensar por si mesmo. Pensar pode ser perigoso, mas não pensar é mais perigoso ainda. A “banalidade do mal” é a suspensão da capacidade de pensar. REFÊRENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. ANDRADE, Marcelo. A Banalidade do mal e as possibilidades da educação moral: contribuições arendtianas, 2009. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=s ci_arttext&pid=S1413-24782010000100008>. Acesso em: 22 de abril de 2017. BERLA, Gabriel. “O especialista”: Uma análise arendtiana do julgamento de Eichmann e de seu legado. Revista Liberdades, São Paulo, nº 4, p. 69-77, 2010. MIRANDA, Fernando. “O Sentido da Maldade na Obra de Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal de Hannah Arendt. Revista Virtual Direto Brasil, v. 6, nº 2, 2012.