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Unidade II
Unidade II
5 A RELIGIÃO NO MUNDO ROMANO
A religiosidade na Roma antiga se expressava pelo politeísmo. O povo romano era sincrético e, assim, 
deuses de outras culturas foram assimilados por ele durante a expansão política e territorial, especialmente, 
nos períodos monárquico e republicano. Ao conquistar um povo, os romanos incorporavam parte de sua 
cultura, incluindo seus deuses, como ocorreu com os gregos, os egípcios, os celtas e os germânicos.
A religião romana era bastante influenciada pela etrusca, a qual reverenciava os antepassados 
– especialmente na figura do pater familias, responsável pelo culto aos deuses Lares (os deuses das 
casas) – e acreditava na possibilidade de prever o futuro, com práticas de adivinhação e interpretação 
dos fenômenos naturais. Os romanos também se apropriaram das tradições gregas, incorporando seus 
vários deuses. Dos egípcios, passaram a cultuar Ísis e Osíris. Sabemos disso por meio de vestígios materiais 
da presença de templos dedicados a eles no território romano.
Uma prática religiosa muito comum na Roma antiga era o culto aos deuses protetores do lar e da 
família em santuários domésticos. Templos para o culto público aos deuses também foram erguidos em 
diversas províncias romanas.
Os rituais religiosos romanos eram controlados pelos governantes. O culto a uma religião diferente 
à do império era proibido e condenado. Os cristãos, por exemplo, foram perseguidos e assassinados. 
Por esse motivo, para realizar seus cultos, muitos deles se encontravam nas catacumbas romanas.
Vários imperadores exigiram um culto pessoal, como se fossem deuses, prática iniciada no governo 
do imperador Júlio César. No entanto, no século IV, com o significativo crescimento do cristianismo, 
este passou a ser considerado religião oficial do Império Romano e, assim, o politeísmo foi aos poucos 
sendo abandonado.
5.1 A convivência com os deuses
Cinco séculos antes de Cristo, as lições de Sócrates e Platão ensinavam que o mundo temporal 
sensível é apenas sombra do mundo real, em que se encontram os ideais supremos (bem, verdade, 
beleza). Eles alertavam os gregos para uma realidade que transcendia o mundo visível e passageiro, e 
diziam que a verdade não era material nem temporal, mas espiritual e eterna. Essa busca pela verdade 
não se relacionava com os deuses pessoais da mitologia grega. Eram dois sistemas que competiam para 
alcançar o sagrado.
Os gregos contribuíram para a destruição das religiões antigas, pois a disciplina intelectual levou 
muitos a abandonar a religião em favor da filosofia. No entanto, a filosofia falhou em dar conta das 
77
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
aspirações espirituais da população, fracassou como alternativa religiosa. Com o tempo, passou a haver 
a necessidade de retornar às questões espirituais da vida. Assim, o grego comum ou se tornava cético, 
ou se voltava para os antigos cultos.
O cristianismo, por sua vez, ofereceu àqueles que aceitavam o pensamento de Sócrates e Platão a 
possibilidade de uma revelação histórica da beleza, da verdade e do bem na figura de um Deus-homem, 
Cristo. Enquanto nas propostas filosóficas Deus era concebido como um ser inalcançável, totalmente 
impessoal; no cristianismo, a divindade revelada em Jesus era um Deus de amor, pessoal, que se importava 
com o ser humano e se compadecia dele como um pai que deseja o bem ao filho.
 Lembrete
No desenvolvimento do cristianismo, dois grandes modelos de 
pensamento da filosofia grega foram reinterpretados: o platonismo por 
Agostinho, e o aristotelismo por Tomás de Aquino.
Outra diferença relacionava-se com a visão do pecado: os gregos o enxergavam como algo contratual 
e mecânico; os cristãos, como uma questão pessoal, que afrontava a Deus e prejudicava os homens.
Roma, berço do cristianismo, desenvolveu um sentido bem específico de unidade e de solidariedade 
em forma de organização política, em especial quanto à lei romana, outorgada a todos do império e 
originada da antiga lei consuetudinária monárquica. Essa lei foi codificada (Lei das 12 Tábuas), fazendo 
parte da educação de toda criança romana. Ela incorporava ainda algumas leis das nações que estavam 
sob o domínio de Roma, por meio do praetor peregrinus, que “era encarregado da tarefa de tratar com 
as cortes nas quais estrangeiros estivessem sendo julgados, e também se tornou realidade para todos os 
sistemas jurídicos desses estrangeiros” (CAIRNS, 1995, p. 30).
Assim, a Lei das 12 Tábuas, baseada nos costumes de Roma, foi robustecida por leis de outras nações. 
Os romanos que se especializavam em filosofia do direito defendiam que as semelhanças surgiam tendo 
em vista o “conceito grego de uma lei universal, cujos princípios foram escritos na natureza do homem” 
(DALAL, 2016, p. 65) e descobertos em decorrência de um processo racional.
Outro meio de contribuir com a unidade das leis foi contemplar os não romanos com a concessão 
de cidadania romana, prática iniciada antes do nascimento de Cristo e encerrada pelo imperador Marco 
Aurélio Antonino, conhecido como Caracala. Este “concedeu cidadania romana a todos os cidadãos 
nascidos livres” (DALAL, 2016, p. 66). Na prática, isso foi o mesmo que conferir a todos os homens a 
possibilidade de serem cidadãos de um único reino e se submeterem a um mesmo sistema jurídico.
Um dos destaques da lei romana era a exaltação da dignidade do indivíduo, com o direito de receber 
justiça e cidadania romana, unindo homens de diferentes raças numa única organização política. 
Esse cenário acabou favorecendo a aceitação do que era pregado pelos cristãos, em especial no que se 
referia à mensagem de unidade da humanidade e à questão do pecado e de sua solução. Certamente, 
isso teria sido mais difícil na época em que o mundo era dividido em tribos ou cidades-Estado.
78
Unidade II
Como os soldados romanos conseguiram manter a paz nas estradas da África, da Ásia e da Europa, 
iniciada com a expulsão dos piratas do Mediterrâneo, a movimentação dos primeiros cristãos foi 
facilitada, e assim eles viajavam para pregar sua fé. Ademais, o sistema de estradas criado pelos romanos 
ligava Roma a todas as regiões do império, alcançando locais muito distantes.
 Saiba mais
Sobre o cotidiano do Império Romano, leia:
COTRIM, I. S. Representações da vida cotidiana no Império romano: 
cultura, sexo e religião em Pompeia (século I d.C.). In: SEMANA DE HISTÓRIA 
UFES, 11., 2017, Vitória. Anais […]. Vitória: Ufes, 2017. Disponível em: http://
www.periodicos.ufes.br/semanadehistoria/article/view/23097/15668. 
Acesso em: 6 jan. 2020.
Depois de Constantino (272-337) se tornar imperador e adotar o cristianismo como religião oficial 
do império, o exército desempenhou um papel significativo na divulgação da fé cristã. Os romanos 
tinham como prática utilizar os habitantes das províncias na guarnição, a fim de suprir as deficiências 
de contingente. Com isso, os incorporados aprendiam a cultura romana e propagavam suas ideias. 
Muitos se converteram ao cristianismo, levando a fé cristã às cidades em que viviam.
As conquistas romanas colaboraram para esse processo. Os povos subjugados se sentiam abandonados 
por seus deuses, que não conseguiram protegê-los dos romanos, ficando insatisfeitos com as religiões 
que professavam. Roma também oferecia uma ampla variedade de deuses, os quais conviveram com a 
divindade cristã por aproximadamente três séculos.
As religiões de mistérios eram um dos maiores adversários do cristianismo. Chamavam-se assim 
porque a participação nelas era reservada apenas aos iniciados e porque pareciam oferecer muito mais 
do que um meio de auxílio emocional e espiritual. Entre elas, estava o culto a Cibele, a grande mãe-terra, 
levado da Frígia para Roma. Cibele era conhecida como a deusa da fertilidade e tinha ritos específicos, 
como a morte e a ressurreição de seu consorte. O culto a Ísis, que vinha do Egito, era análogo ao de 
Cibele, enfatizando a morte e a ressurreição. O mitraísmo, trazido da Pérsia, também gozava de boa 
reputaçãoentre os soldados romanos. Burkert (1991, p. 20) afirma:
As chamadas religiões de mistérios ficaram conhecidas como uma alteração 
básica na postura propriamente religiosa, transcendendo a perspectiva 
realista e pragmática da religião romana e possuindo uma espiritualidade 
mais elevada. Eram também consideradas religiões de salvação.
O culto a Cibele tinha por rito o sacrifício de um touro, momento em que os devotos se banhavam 
no sangue do animal. O mitraísmo, por outro lado, promovia refeições sacrificiais.
79
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Para os apologistas e os heresiarcas cristãos, a questão se colocava num 
outro plano, pois aos múltiplos deuses do paganismo eles opunham o deus 
único da religião revelada. Era-lhes necessário, portanto, demonstrar, por 
um lado, a origem sobrenatural do cristianismo – e, por consequência, sua 
superioridade – e, por outro lado, explicar a origem dos deuses pagãos, 
sobretudo a idolatria do mundo pré-cristão. Também precisavam explicar 
as semelhanças entre as religiões dos mistérios e o cristianismo. Foram 
sustentadas várias teses: 1) os demônios, nascidos do comércio dos anjos 
caídos com as filhas dos homens, tinham arrastado os povos para a idolatria; 
2) o plágio: os anjos maus, conhecendo as profecias, estabeleceram 
semelhanças entre as religiões pagãs e o judaísmo e o cristianismo, a fim de 
perturbarem os crentes; os filósofos do paganismo haviam inspirado suas 
doutrinas em Moisés e nos profetas; 3) a razão humana pode elevar-se por 
si mesma ao conhecimento da verdade, portanto o mundo pagão podia ter 
um conhecimento natural de Deus (ELIADE, 1992, p. 7-8). 
Se por um lado o cenário político de Roma era propício à expansão do cristianismo, por outro o 
ambiente intelectual era todo influenciado pela cultura grega. Mesmo que os romanos fossem exímios 
construtores de estradas, pontes e prédios, foram os gregos que erigiram os grandiosos edifícios da 
mente, construindo a cultura intelectual do império em substituição à cultura rural da antiga república.
Quando o Império Romano nasceu, o grego era a língua universal. Só depois o latim se tornou 
universal no mundo medieval erudito, assim como o inglês no mundo contemporâneo. Contudo, é 
importante frisar que não se tratava mais do grego clássico, mas do coiné, um dialeto falado pelo homem 
comum, utilizado pelos cristãos para escrever o Novo Testamento e pelos judeus para a Septuaginta.
 Observação
Coiné era a língua grega comum falada e escrita nos tempos do Novo 
Testamento, nos países da parte oriental do Mediterrâneo.
O grego coiné foi difundido desde os tempos de Alexandre, o Grande, por soldados e comerciantes 
do mundo helenístico, entre 338 e 146 a.C. Foi por intermédio dele, e não do grego clássico, que os 
cristãos tiveram a chance de se relacionar com povos do mundo antigo. Cairns (1995, p. 32) diz:
Adolf Deissman (1866-1973) descobriu, no fim do século passado, que o 
grego do Novo Testamento era o mesmo utilizado pelo homem comum do 
primeiro século nos relatos deixados em papiros sobre seus negócios e em 
documentos fundamentais de sua vida diária.
Eruditos como James Hope Moulton e George Milligan construíram a base científica para a descoberta 
de Deissman, ao estudarem comparativamente o vocabulário dos papiros e o do Novo Testamento. 
Essa descoberta deu origem a inúmeras traduções modernas. Se o evangelho foi escrito na língua do 
80
Unidade II
povo comum à época de sua produção, raciocinaram os tradutores modernos, deveria ser vertido para a 
língua do homem comum de nossos dias.
Quando do nascimento de Cristo, muitos gregos e romanos já tinham abdicado do politeísmo para 
assumir as filosofias epicurista e estoica, bem como as religiões de mistérios, e isso fortaleceu o desejo 
dos seres humanos por uma relação mais íntima com um Deus que satisfizesse corações sedentos por 
uma religião que abrangesse uma espiritualidade maior.
Desse modo, os sistemas religiosos romano e grego contribuíram para o crescimento do 
cristianismo: o primeiro, por abandonar as religiões politeístas; o segundo, por demonstrar a 
incapacidade da racionalidade filosófica em alcançar Deus. Em certo sentido, as religiões de mistérios 
também colaboraram, porque traziam os termos pecado e perdão, fazendo com que as pessoas do 
Império Romano se dispusessem a prestar atenção numa religião que oferecia uma melhor perspectiva 
espiritual para a vida.
Lembramos que os primeiros cristãos europeus eram judeus. González (1995a, p. 15) afirma:
Portanto, a Igreja nunca foi uma comunidade desprovida de contato com o 
mundo exterior. Os primeiros cristãos eram judeus do século primeiro, e foi como 
judeus do século primeiro que escutaram e receberam o evangelho. Depois, a 
nova fé foi se propagando, tanto entre os judeus que viviam fora da Palestina 
como entre os gentios que viviam no Império Romano e ainda fora dele.
Diferentemente dos gregos, os judeus não tentavam encontrar Deus por intermédio da racionalidade, 
pois já pressupunham a existência dele. Obedeciam a Abraão e aos profetas, e aguardavam o Messias 
(o Salvador). O judaísmo é o berço do cristianismo. Os judeus se diferenciavam da maioria das religiões 
pagãs especialmente pelo monoteísmo explícito. Os judeus, depois de Moisés, nunca mais caíram no 
pecado da idolatria. Apegaram-se de forma definitiva ao Deus de Israel, condenando constantemente 
os deuses dos pagãos através de seus profetas, que se referiam a eles como falsos deuses.
O Messias que eles aguardavam era o único que poderia estabelecer a justiça na terra. Essa esperança 
messiânica era proclamada pelos judeus no mundo romano. De acordo com o Novo Testamento, os discípulos 
de Cristo também esperavam por esse reino sobre a terra, mas aguardavam uma segunda vinda de Jesus.
A ideologia monoteísta defendida pelos judeus cristãos trouxe alguns problemas para a população. 
Eles eram contra o helenismo, que mesclava as culturas das nações subjugadas e pretendia equiparar 
os deuses de diversos povos. Os judeus viam nele uma séria ameaça à fé no Deus único de Israel. 
Desde a conquista de Alexandre, o Grande, até a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., houve um 
longo conflito, na tentativa de que os judeus trocassem o monoteísmo pelo politeísmo. Sobre essa 
hostilidade, González (1995a, p. 16-17) escreve:
O ponto culminante dessa luta foi a rebelião dos macabeus. Primeiro o 
sacerdote Matatias e depois seus três filhos – Jônatan, Judas e Simeão – se 
rebelaram contra o helenismo dos selêucidas, que pretendia impor deuses 
81
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
pagãos entre os judeus. O movimento teve algum êxito. Mas já João Hircano, 
o filho de Simeão Macabeu, começou a se amoldar aos costumes dos povos 
circunvizinhos e a favorecer as tendências helenistas. Quando alguns dos 
judeus mais restritos se opuseram a essa política, desatou-se a perseguição. 
Por fim, no ano de 63 a.C., o romano Pompeu conquistou o país e depôs o 
último dos macabeus, Aristóbulo II.
Os romanos eram tolerantes em relação aos costumes e à religião das nações conquistadas, inclusive 
ofertando aos macabeus certa medida de autoridade, permitindo que seu líder usasse o título de sumo 
sacerdote e etnarca. No entanto, o foco do monoteísmo judeu causou alguns problemas: a insistência 
em render culto somente a Deus levou a rebeliões ante a menor ameaça a sua fé.
 Lembrete
O cristianismo, religião monoteísta, deve seu crescimento aos sistemas 
romano e grego: o primeiro enfraqueceu as religiões politeístas, e o segundo 
demonstrou a incapacidade da razão de alcançar a Deus.
Herodes, ao tentar introduzir o politeísmo no país, passou a construir templos em honra a Roma e 
a Augusto em Samaria e Cesareia. Ao colocar uma águia de ouro na entrada do Templo, os judeus se 
opuseram ferozmente, fazendo Herodes recorrer à violência, medida também adotada por seus sucessores.
Essa postura dos judeus se justificava pela defesa dos valores éticos e pelo elevado padrão de 
comportamento apresentado nos dez mandamentos,uma vez que esbarravam nos demais sistemas 
éticos e práticas corruptas da época. Como vimos, para os judeus, o pecado não era uma espécie de 
fracasso, mas uma violação dos mandamentos divinos, marcada por um coração impuro e por atos 
pecaminosos. A perspectiva moral e espiritual registrada no Antigo Testamento colaborou para que a 
doutrina da redenção resolvesse o problema do pecado através de um Deus que se compadecia de seu 
povo, e não por meio de sistemas racionalistas éticos ou de religiões de mistério.
O Antigo Testamento se impõe com a vinda do cristianismo, em especial quando Jesus e seus 
apóstolos o mencionam, reverenciando-o como a palavra de Deus legada ao ser humano. Os gentios 
que o leram se habituaram à fé judaica, e muitos adeptos judeus se converteram ao cristianismo devido 
ao livro sagrado e à nova Igreja, vistos como literatura viva.
As sinagogas judaicas foram essenciais para o início e o desenvolvimento do cristianismo antigo, pois 
desde o cativeiro babilônico tinham se tornado parte da vida dos judeus, como espaços que substituíam 
o Templo de Jerusalém. As sinagogas passaram a ser a “casa de pregação do cristianismo primitivo” 
(CAIRNS, 1995, p. 36). Nelas, muitos gentios e judeus se familiarizaram com um jeito súpero de viver, 
e é provável que a forma de governança e justiça praticada na Igreja primitiva tenha sido herdada dos 
costumes judaicos nas sinagogas.
82
Unidade II
 Observação
Qualquer comunidade habitada por pelo menos dez judeus adultos 
deve ter um local designado onde possam se reunir para a prece. Esse local 
é a sinagoga.
Todos esses elementos evidenciam que houve benefício ao cristianismo por diversos fatores: a época 
em que surgiu, o período de sua formação e a região em que se desenvolveu. O centro cultural era Roma, 
que dominava o mundo mediterrâneo. A língua comum (o grego coiné) permitiu que a mensagem fosse 
levada para a maioria das regiões do Império e de volta à Palestina, o local de nascimento da nova 
religião. A Palestina estava bem situada: era “um importante cruzamento, que ligava os continentes da 
Ásia e da África à Europa por via terrestre, e muitas das batalhas importantes da história antiga foram 
travadas por causa da posse dessa estratégica região” (CAIRNS, 1995, p. 36). Sem dúvida, as condições 
para a divulgação das ideias cristãs através do mundo mediterrâneo foram muito favoráveis até o 
terceiro século de sua existência.
O cristianismo se fundamenta sobre a própria história temporal e, de forma indissolúvel, sobre a 
vida e a morte de Cristo. Para entender um pouco de sua história, é necessário ler o livro que os cristãos 
dizem ser a revelação de Deus a seu povo, a Bíblia.
A história da Igreja é contada em Atos dos Apóstolos. Inicialmente, apresenta-se uma Igreja 
forte em Jerusalém, que aos poucos chegou até a capital do império. Ainda que haja poucos dados 
sobre aquela que seria a primeira Igreja, sabe-se que essa comunidade teve algumas dificuldades, em 
especial quanto ao povo que não era judeu e que ia às reuniões. Houve problemas com a arrecadação 
de contribuições, como o caso de Safira e Ananias, os quais, ao mentir sobre o valor de venda de 
uma propriedade, caíram mortos. Os helenistas também reclamavam, pois suas viúvas estavam sendo 
esquecidas na distribuição diária de esmolas. Como resultado dessa desavença, houve o primeiro 
processo de eleição para cargos administrativos na Igreja cristã, embora apenas alguns fossem 
responsáveis por divulgar a fé.
Os judeus que abraçaram o cristianismo não pensavam que faziam parte de uma nova religião, 
mas que continuavam judeus, pois sua fé consistia na realização da promessa messiânica tão 
aguardada pelos hebreus e que havia se cumprido com Jesus Cristo. Por essa razão, os cristãos da 
Igreja de Jerusalém continuavam frequentando o culto no Templo e guardando o sábado, mesmo que 
perseguidos pelos judeus.
A perseguição feita ao apóstolo Paulo e aos demais cristãos ocorreu porque pregavam que em Jesus 
se cumpriram todas as promessas feitas a Israel. Para celebrar esse fato, eles repartiam o pão, momento 
em que comemoravam a ressurreição e o início de uma nova era. Sobre esse rito, registrou-se o seguinte: 
“E, perseverando unânimes todos os dias no Templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com 
alegria e singeleza de coração” (BÍBLIA…, [s.d.], Atos 2,46).
83
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Na prática do jejum, os primeiros cristãos seguiram o mesmo modelo dos judeus. Os mais regrados 
o faziam duas vezes por semana, diferindo apenas em relação aos dias escolhidos: “Enquanto os judeus 
jejuavam segundas e quintas, os cristãos jejuavam quartas e sextas, provavelmente em memória da 
traição de Judas e da crucificação de Jesus” (GONZÁLEZ, 1995a, p. 35).
 Observação
O jejum, prática comum em determinadas religiões, consiste em alguém 
se abster de alimentos e/ou água, podendo ser total ou parcial.
Inicialmente, a liderança da Igreja primitiva coube aos 12 apóstolos que acompanharam Jesus em 
seu ministério, mas não apenas a eles. Tiago, irmão de Jesus, gozou de muita autoridade após se reunir 
ao grupo. Com isso, surgiu a tradição que atribui a Tiago o título de bispo de Jerusalém, sendo ele o 
primeiro chefe dessa Igreja.
No que se refere ao crescimento e ao desenvolvimento da primeira Igreja, Branco (2014, p. 20) destaca:
Judeus de todas as partes do mundo mediterrâneo estavam presentes em 
Jerusalém para ver a Festa do Pentecostes por ocasião da fundação da 
Igreja. […] A manifestação sobrenatural do poder divino no falar línguas, 
claramente relacionada à origem da Igreja, e a vinda do Espírito Santo 
levaram os judeus presentes a declarar a maravilha das obras de Deus em 
sua própria língua.
O apóstolo Pedro aproveitou a oportunidade para proferir o primeiro sermão já pregado, bem como 
para proclamar a messianidade de Cristo e a graça salvadora. Três mil pessoas aceitaram sua palavra 
e foram batizadas. Foi dessa maneira que a entidade espiritual, a Igreja invisível, o corpo do Cristo 
ressuscitado, começou a existir. O crescimento foi rápido. Logo o número chegou aos 5 mil. Muitos eram 
judeus helenistas da dispersão (a diáspora) que estavam em Jerusalém para celebrar as grandes festas 
da Páscoa e do Pentecostes. Nem mesmo os sacerdotes judeus ficaram imunes ao contágio da nova fé. 
Vários se tornaram membros da Igreja primitiva em Jerusalém.
Os judeus não ficaram muito contentes com esse rápido crescimento, pois suas autoridades 
acreditavam que o cristianismo representava uma intimidação. Por isso, tanto os intérpretes da lei 
quanto os sacerdotes se uniram para fazer oposição à nova fé. A princípio, o órgão político-eclesiástico 
que originou a perseguição foi o Sinédrio, que obteve dos romanos permissão para supervisionar a 
vida religiosa e civil do Estado. Por duas vezes, os apóstolos João e Pedro foram proibidos de pregar 
a mensagem da fé, mas nenhum dos dois obedeceu a essa ordem. Depois, a perseguição tomou um 
cunho mais político, e Herodes matou Tiago e prendeu Pedro. Estevão foi acusado injustamente de 
blasfêmia contra Moisés, inclusive com falsas testemunhas, tornando-se o primeiro mártir da Igreja 
cristã. Ao comparecer ao Sinédrio, denunciou os líderes judeus por não aceitarem Cristo como seu 
Messias, sendo executado por apedrejamento devido a tal afirmação.
84
Unidade II
 Observação
O Sinédrio era a corte suprema da lei judaica, com a missão de 
administrar justiça, interpretando e aplicando a Torá, tanto oral como 
escrita. Era a representação do povo judeu perante a autoridade romana.
O cristianismo primitivo proporcionou uma grande mudança social em determinadas regiões. 
A Igreja de Jerusalém insistiu na igualdade espiritual dos sexos e valorizou a importância da mulher na 
Igreja. Um grupo de homens criado para se dedicar ao trabalho social foi outro destaque, com um forte 
apelo para a caridade. Isso mostra que a divulgação da fé, que no início ficou a cargo dos apóstolos, não 
descuidava da parte social.Em seguida, outros ofícios foram criados para cuidar da Igreja, a qual 
não parava de crescer. Presbíteros e diáconos ficaram responsáveis pela parte administrativa, formação 
essa que até hoje se faz presente na Igreja Católica.
5.2 Elementos do cristianismo
Em termos técnicos, o cristianismo é uma religião monoteísta que há cerca de 2 mil anos derivou 
do judaísmo na região do Oriente Médio. Sua figura central é Jesus Cristo, que se acredita ser o filho de 
Deus, a encarnação humana da própria divindade. Trata-se da maior religião do planeta (reunindo cerca 
de 30% da população terrestre) e da mais influente no mundo ocidental.
Muitas doutrinas cristãs diferenciadas entre si surgiram desde as primitivas comunidades cristãs. 
O aparecimento dessas comunidades deu-se em plena expansão do Império Romano.
Como o imperador romano era também a figura religiosa máxima do Império, quaisquer seitas eram 
prejudiciais a seu poder absoluto. Com isso, as comunidades cristãs desse período foram perseguidas. 
No entanto, mais tarde, o Império Romano adotaria as crenças cristãs como sua religião oficial, ocorrendo 
assim a fundação da Igreja de Roma. A partir dela, originaram-se as diversas doutrinas cristãs.
Como visto, a nova religião cristã surgiu na Palestina, região que tinha muita ligação comercial 
e cultural com o Egito. O faraó da época era ptolomaico, ou seja, descendia de uma cultura grega 
helenista. Quando Jesus nasceu, Seth não era mais considerado membro da família de Ísis, Osíris e Hórus.
A proeminência de Hórus estava bem estabelecida, e a filosofia da mãe protetora (Ísis) e de seu 
filho gerado por magia (Hórus) era o ideal teológico aceito. Na narrativa de sua infância, Jesus lembra 
mais Hórus do que Osíris. Jesus tinha uma grande mãe, que também havia sido impregnada de maneira 
divina, e que depois ficou conhecida como divina entre as mulheres e como virgem mãe.
Embora em Osíris possamos reconhecer Jesus em sua maior essência espiritual depois de adulto, as 
fugas do menino Jesus nos braços de Maria, em razão das ameaças de Herodes, assemelham-se às do 
pequeno Hórus nos braços de Ísis, o qual o usurpador do trono do Egito (Seth) queria matar porque ele 
(Hórus) estava destinado a ser o rei legítimo. Para os seguidores de Jesus, ele também estava destinado a ser 
85
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
o rei dos judeus, o Messias, o libertador de seu povo da tirania estrangeira e de todo o sofrimento terrestre. 
Mas isso só podia acontecer se Herodes morresse. As aspirações seculares ou políticas não beneficiaram 
Jesus, e ele acabou sendo apenas o rei espiritual de uma divisão dos judeus. Só mais tarde se tornou o 
eterno rei espiritual para milhões dos que ainda são considerados gentios pelos judeus (SAMBU, 2007).
Hórus e Osíris também formavam uma pessoa. Ao examinar os aspectos mitológicos e simbólicos 
dos principais atores da narrativa de Osíris, verificamos os paralelos com a narrativa cristã. Essa entidade 
composta, Osíris-Hórus, é o arquétipo do evangelho de Jesus. Esse argumento se sustenta pelo fato de 
que, quando os gregos adotaram Osíris como um de seus deuses, chamaram-no Dionísio, literalmente “o 
filho de Deus” em grego. Esse é o título que mais tarde será atribuído a Jesus (SAMBU, 2007).
Maria, mãe de Jesus, atraiu os primeiros convertidos egípcios ao cristianismo por causa de sua semelhança 
com a Ísis adulta. O amor e a devoção das duas grandes mães a um filho perseguido que mais tarde se 
torna grande são semelhantes. Como Maria e o menino Jesus, muito frequentemente Ísis era representada 
em esculturas amamentando seu filho, Hórus. Outros deuses, como Tot, às vezes são mostrados oferecendo 
presentes a Ísis enquanto ela se encontra na postura de mãe e filho. A imagem popular de mãe e filho, 
difundida por antigos artistas egípcios, retratava a mãe como criadora, e era natural apresentá-la em sua 
postura ideal, segurando o filho, porque isso simbolizava todo o seu poder de criação (SAMBU, 2007).
O cristianismo primitivo era controlado no Egito por sacerdotes gnósticos egípcios, que estavam 
abandonando a fé em Ísis sem se separar completamente dela e de sua sagrada família. A coisa mais 
importante sobre os pregadores gnósticos dessa época é que eles acharam fácil e apropriado criar alegorias, 
isto é, inventar, adotar, adaptar e contar histórias que se adequassem a determinada moral em determinado 
momento, considerando o nível de educação do público. Para aqueles teólogos, a historicidade do evento 
não importava. O valor exegético da narrativa superava todas as outras considerações. A extensão da 
influência desses sacerdotes e de seus escribas sobre a escrita do Novo Testamento pode ser medida 
quando se estudam os atributos alegóricos. Abaixo de uma imagem da sagrada família de Ísis, Hórus e 
Osíris, podemos ler que eles compõem a trindade divina do pai, da mãe e do filho (SAMBU, 2007).
Essa história é puramente alegórica e simbólica. Não se pode comprovar nada a respeito da existência 
terrena desses deuses. Osíris foi o maior deus do Egito, filho do fogo celestial. Ísis é a virgem mãe, a 
personificação da natureza. Ela é descrita como a mulher vestida com o sol da terra do Egito. Hórus foi o filho 
que sucedeu Osíris na linha dos soberanos divinos do Egito. Ele é chamado de amado do céu e amado do sol. 
Hórus também é a substância de seu pai, isto é, relacionado à morte e ao tempo. O mundo é julgado por ele.
Ísis era especialmente popular em seu aspecto de mãe com o bebê Hórus. Tanto ela quanto Hórus 
eram retratados com pele negra, característica dos etíopes. Juntos, Ísis e Hórus formam a primeira 
e original madona negra. Os afrescos romanos quase sempre mostram os sacerdotes de Ísis como 
etíopes. As legiões romanas levaram sua imagem e seu culto para os confins da Europa selvagem. 
Quando o cristianismo finalmente penetrou nessas regiões, onde quer que uma imagem de Ísis segurando 
o pequeno Hórus fosse encontrada, ela era transformada na madona negra com seu filho. Por mais de 
um milênio e meio, essas madonas negras foram colocadas em santuários sagrados da Europa católica 
e, até hoje, milhões de europeus se inclinam para adorar uma deusa africana e seu filho (SAMBU, 2007). 
Nesse sentido, não podemos esquecer que a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, é negra.
86
Unidade II
A leitura do que os antigos egípcios escreveram sobre Osíris, centenas de anos antes de Jesus nascer, faz 
lembrar capítulos do Novo Testamento. Os estudiosos reconhecem, por exemplo, o paralelismo fenomenológico 
entre a ressurreição de Jesus Cristo e a ressurreição de Osíris. Além disso, quando Jesus nasceu, o povo do 
Império Romano, do qual a Palestina fazia parte, celebrava a miraculosa ressurreição corporal de Osíris. 
O paralelismo entre esses episódios de ressurreição não termina no momento do reaparecimento físico. Cristo, 
como Osíris, não retoma sua vida terrena depois da ressureição; ambos sobem ao céu (SAMBU, 2007).
Osíris era denominado o salvador da humanidade e tinha um lugar especial na vida e nas esperanças 
das pessoas comuns como nenhum outro deus. Mas um dia apareceu o sucesso da globalização do ministério 
de Jesus. Osíris era o deus salvador original, concepção da qual provinha o termo técnico dos teólogos 
soteriologia, que significa “salvação”. Osíris deu a seus devotos a esperança de uma vida eternamente feliz em 
outro mundo, governado por um rei justo e bom. Quando Rá reinou sem a ajuda de Osíris, ele proibiu a entrada 
de pessoas comuns no céu. Somente quem era da linha de descendência de Rá, e por isso espiritualmente 
dependente do faraó, considerado uma forma humana de Rá, tinha garantida a entrada no céu.
No entanto, o caráter humano, o sofrimento e a morte de Osíris mudaram tudo isso, trazendo um 
sentido de identificação e pertencimento mais próximo das massas. O movimento que adotou Osíris 
como deus foi em sua época uma revolução social e espiritual, pois finalmente as massas podiam se 
encontrar com a linhagem real nasala de julgamento de Osíris como iguais. O destino de Osíris estava 
aberto a todos os indivíduos, através da confissão e do julgamento. Eles tinham de se provar moralmente 
aceitáveis para ter acesso ao céu. Essa igualdade de direitos perante o criador foi o cerne para o sucesso 
do culto de Osíris, algo que ainda hoje é um pilar e um grande diferencial de seu sucessor, o cristianismo.
Outras semelhanças entre Osíris, Hórus e Jesus podem ser mostradas por meio do calendário. 
Os antigos egípcios contavam 360 dias para o ano e mais cinco dias adicionais, que representavam 
o aniversário de alguns deuses egípcios. Os cinco dias adicionais efetivamente transformaram o ano 
em 365 dias. O primeiro dos deuses a nascer durante os cinco dias foi Osíris, o segundo foi Hórus, o 
terceiro foi Seth, o quarto foi Ísis e o quinto foi Néftis. O ano novo egípcio começava no dia seguinte 
ao aniversário de Néftis. Os egípcios comemoravam quatro dos cinco dias adicionais. O terceiro dia, que 
coincidia com 28 de dezembro, era o dia em que Seth, o deus do mal, nasceu. Era considerado um dia 
ruim, e não se fazia nenhum negócio nele.
Quando o cristianismo chegou e Jesus assumiu plenamente os atributos de Osíris e Hórus, foi natural 
que a figura de Seth se transformasse no rei Herodes, o rei dos judeus. Seth, quando foi rei do Egito, 
caçou e tentou matar o bebê Hórus, depois de matar Osíris, pai de Hórus. Assumindo as propriedades 
temperamentais de ciúme assassino, o rei Herodes, da alegoria cristã, procura matar Jesus ordenando 
a morte de todos os meninos bebês. Portanto, Herodes e o assassinato de crianças estão associados a 
28 de dezembro, o chamado Dia dos Santos Inocentes. Tudo isso confirma a extensão da influência da 
religião do Egito sobre o início do cristianismo (SAMBU, 2007).
Outro fato importante é que o dia do Natal cristão, 25 de dezembro no calendário gregoriano 
ocidental, cai exatamente no último dia do antigo ano egípcio. Este também é o dia aproximado do 
solstício de inverno, que foi igualmente reconhecido como sagrado na Europa pagã. É o dia em que, no 
hemisfério norte, o sol atinge seu ponto mais baixo e está acima do horizonte sul durante o período 
87
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
mais curto do ano. Além de ser o dia mais curto, ele acontece entre as duas noites mais longas do ano. 
No hemisfério norte, o sol nasce e se põe no ponto mais ao sul, e tem a elevação mais baixa ao meio-dia, 
em comparação com sua elevação ao meio-dia nos outros dias.
O dia do solstício de inverno é o que tem menos luz solar. Ao mesmo tempo, marca o fim da 
descida do sol no céu do hemisfério norte e o começo de sua ascendência, até atingir o solstício 
de verão, seis meses depois. Segundo relatos romanos, os anglo-saxões e os alemães festejavam 
nesse dia o Dia da Criança. Mais tarde, os romanos decidiram comemorar no dia 25 de dezembro 
o aniversário do sol invicto. Isso aconteceu antes de o Império Romano se tornar cristão, ou seja, a 
escolha não foi influenciada pelo cristianismo. Tecnicamente o solstício de inverno natural cai entre 
os dias 20 e 21 de dezembro. Mas naquela época, para o olho humano, a determinação do sol era clara 
no dia 25 de dezembro, que por essa razão foi escolhido como dia da celebração. Posteriormente os 
romanos usaram esse dia para marcar o início das celebrações da Saturnália, uma época de intensa 
folia (SAMBU, 2007).
 Observação
A Saturnália era um festival da Roma antiga, em honra a Saturno, que 
ocorria em 24 de dezembro, quando o sol voltava a subir na linha do horizonte.
A fixação do Dia do Sol e, em seguida, do Natal no dia 25 de dezembro se deve muito à influência 
egípcia, porque o aniversário do deus Osíris cai nesse dia. Uma vez que o registro da observância da 
data pelos egípcios é muito mais antigo, restam poucas dúvidas sobre qual deles foi o antecedente e, 
portanto, o protótipo. O antigo aniversário egípcio em 25 de dezembro foi reconhecido por Roma como 
o dia do nascimento de Jesus no ano de 336 (SAMBU, 2007).
É fácil lembrar a proposta de monoteísmo de Aquenáton, com seu deus sol, quando vemos a posição 
do sol determinar a nova data de aniversário de Jesus Cristo. Mas há vários “filhos do sol”, que também 
tiveram seu aniversário marcado para essa data. Como nota Sambu (2007, p. 424), “todos os deuses 
pagãos foram identificados com o sol, que foi considerado o grande pai, o gerador de toda a vida, 
enquanto a deusa era a terra ou matéria, a fonte passiva de geração”.
O antigo dia do Natal era 6 de janeiro, celebrado no passado pelos cristãos de Jerusalém, enquanto 
os primeiros cristãos do Egito celebravam a data como o dia do batismo de Cristo. Agora todos os 
cristãos comemoram esse dia como o Dia da Epifania. Na Igreja Católica do Oriente, a Igreja Ortodoxa, 
o dia marca o batismo de Jesus. Na Igreja Católica Romana, é chamado Dia de Reis e lembra a visita 
dos reis magos. Curiosamente, a data de 6 de janeiro também coincide com o dia de limpar as casas, 
costume dos anglo-saxões desde os tempos pagãos (SAMBU, 2007).
É interessante perceber que o cristianismo foi coletando reminiscências de diversas crenças dos povos 
conquistados por Roma e, assim, construindo novos símbolos. Uma das questões mais complicadas é a da 
trindade, discussão que foi tão importante entre os primeiros cristãos que acabou suscitando o primeiro 
concílio de bispos, justamente para decidir sobre o assunto. Todas as principais divindades egípcias antigas 
88
Unidade II
integravam uma trindade. A mais antigas delas era a ligação de Ptah, Amon e Rá. Os três eram deuses que 
construíam. Cada um a seu modo construiu o mundo, o que levou os egípcios a reverenciar essas entidades 
como três aspectos do mesmo deus. Ísis também formou uma trindade divina com Osíris e Hórus.
Alguns estudiosos da filosofia da religião dizem que a ideia da santíssima trindade do Novo Testamento, 
implícita em Mateus 28,19 e mais aceita no Concílio de Niceia, representa uma transição do aspecto 
trinitário da antiga teologia egípcia. Osíris era o Pai. Hórus era o filho. Ísis não se tornou Maria devido 
ao machismo exacerbado da época; tornou-se antes o Espírito Santo, que traz a luz e a paz. No Antigo 
Testamento não há nenhuma menção de que Deus divida seu espaço ou seu poder. Cabe lembrar, porém, 
que grande parte do desenvolvimento do primeiro cristianismo aconteceu no Egito, e que eram os padres 
egípcios que estavam utilizando analogias de crenças anteriores para converter as pessoas à religião.
O berço da religião cristã era um Egito que estava sofrendo grandes mudanças socioculturais, 
abandonando o helenismo desenvolvido desde a conquista de Alexandre, o Grande, quando os faraós 
passaram a ser os descendentes de Ptolomeu, general grego que ficou no controle do Egito. Cleópatra 
era dessa família e, nesse sentido, sua cultura era grega, e não egípcia. Quando o cristianismo estava 
nascendo, o Egito estava sendo incorporado pelo Império Romano. Tal subjugação não fez muita diferença 
culturalmente falando, porque vários soldados romanos e mesmo administradores tinham adotado a 
forma egípcia de religião, sendo, naquelas regiões do Império, culturalmente egípcios. Por isso, podemos 
afirmar que, fora de Roma e de Israel, os primeiros padres cristãos eram em sua maioria homens que 
estavam se convertendo da religião de Ísis para o cristianismo. Os antigos teólogos cristianizados de 
Ísis, cuja maioria era formada por nativos, mestiços egípcios e gregos egípcios, continuaram exercendo 
influência cultural sobre a nascente religião cristã (SAMBU, 2007).
Um dos primeiros padres da Igreja foi Tertuliano (Quintus Septimius Florens Tertullianus), a quem se atribui 
a adaptação do conceito egípcio de trindade como doutrina cristã. Ele era cidadão de Cartago, no norte da 
África, e foi o primeiro escritor de língua latina a exercer uma influência considerável no desenvolvimento 
da doutrina cristã. Mas qual o motivo de se insistir numa trindade numa religião monoteísta?
Figura 4 – Tertuliano(c. 160-240)
89
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
As religiões egípcias constituíam trindades porque sabiam que o deus superior era inacessível aos 
mortais. Desse modo, o acesso ao deus superior era mediado pelo espírito do bem e pelo espírito do 
mal, que serviam de mensageiros para as súplicas dos fiéis. Com o tempo, as trindades na religião 
egípcia criaram um lugar separado para o espírito do mal, representado por Seth, aquilo que poderíamos 
chamar inferno. Isso abriu espaço para as trindades que ligam as divindades do bem, no intuito de 
proteger melhor as pessoas.
É interessante a ideia de santíssima trindade, que originalmente devia incluir Maria, Jesus e Deus. 
O motivo óbvio é que Deus gerou seu filho no ventre de Maria, consagrando-a. A trindade final, porém, 
acabou substituindo Maria pelo Espírito Santo. Com isso, temos representações na forma de imagens e 
ídolos tanto de Jesus quanto do Espírito Santo, festejamos as duas entidades e fazemos nossos pedidos 
aos dois. Mantivemos o Deus cristão sem nenhuma aparência imediata, próximo da ideia de demiurgo 
de Platão. Como sabemos hoje, isso foi decidido num concílio, uma assembleia religiosa; a decisão não 
foi exclusivamente racional, mas fruto de batalhas de teses e ideias defendidas por oradores vigorosos.
Outra questão é a ideia de Diabo. Segundo Sambu (2007), a palavra Satanás pode não ser de 
origem semítica. No leste da África, conta-se a história de um rei que deu seetan a seus soldados 
como proteção, para enfeitiçar, cegar ou enganar o inimigo na guerra. Na tradição judaica, ele está 
presente como o tentador, o caluniador, o inimigo, o mentiroso e o anjo decaído. Todos esses títulos 
o apresentam como aquele que tem o poder da morte, governa com mentiras e enganação, acusa a 
humanidade diante de Deus e se opõe ao propósito de Deus no mundo, mesmo que permaneça em 
último caso obediente a Deus.
Na tradição judaico-cristã, Satanás sempre está próximo, tendo papel primordial na necessidade de 
atuação de Deus. Ele é o inimigo mencionado nas orações. Se Satanás deixasse de fazer parte da vida 
religiosa, toda a organização religiosa poderia simplesmente diminuir de tamanho, pois não haveria 
sentido em arregimentar mais pessoas para deter os avanços de Satanás na vida humana. Por causa 
de sua presença penetrante, manifesta como o mal inevitável que alcança todos os lugares, Satanás 
estimula o desenvolvimento das estruturas religiosas dedicadas à defesa dos fiéis. Nesse sentido, o 
judaísmo e o cristianismo, em suas práticas cotidianas, ainda são religiões dualistas, que lidam o tempo 
todo com a dicotomia entre o bem e o mal. Isso existe nas antigas religiões animistas da África, assim 
como em todas as religiões do mundo antigo.
Não é coincidência que o conceito de Satanás na Bíblia esteja cristalizado no relato das 
atribulações de Jó, residente de Uz, região onde o dualismo era a norma teológica. Em Jó 1 e 2, 
vemos Deus ser convencido, num diálogo com Satanás, a punir Jó severamente, embora saiba que 
este não mereça tal punição. O livro de Jó retrata Satanás como um visitante frequente de Deus, 
em busca de conselho, ainda que só faça isso com o intuito de causar sofrimento. Satanás também 
é descrito, no mesmo livro, como o instrumento de punição de Deus.
Embora os cristãos confessem prontamente a crença na trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, 
a quantidade de vezes que se menciona Satanás como causa do mal no mundo parece sugerir que há um 
reconhecimento não oficial da presença dele nessa equação. A presença do Espírito Santo, que só apareceu 
três séculos depois do início do cristianismo, tem a ver com uma anomalia que, naquele tempo, assombrava 
90
Unidade II
os padres da Igreja. De acordo com a sabedoria teológica da época, os anjos precederam o Filho, Jesus. Eles 
foram as primeiras emanações divinas da substância divina preexistente. O próprio Paulo havia declarado em 
Hebreus 2,7-9 que Deus fez Jesus um pouco menor que os anjos, mas ainda mais elevado do que Moisés. Os 
anjos eram os agentes de Deus desde o princípio, representando sua criatividade e sabedoria. Eles precisavam 
ser incorporados na religião em igualdade com o Filho e o Pai.
Outra razão possível é o fato de algumas das principais religiões antigas, a egípcia especialmente, 
perceberem o Criador sempre em forma de trindade. Parece que os primeiros padres da Igreja foram 
buscar uma genealogia dos deuses pronta, que já existia e fazia sentido para milhares de pessoas desde 
antes da Era Cristã. Na opinião de alguns estudiosos, foi o movimento gnóstico que influenciou o 
cristianismo a pedir a inclusão tardia do Espírito Santo, a fim de completar uma trindade. De acordo 
com esse movimento, o Filho de Deus era o logos, ou seja, a palavra, compartilhando as qualidades do 
Pai e do Espírito Santo.
 Observação
O termo gnóstico vem da palavra grega gnosis, que significa 
“conhecimento”; gnóstico é, portanto, quem adquire um conhecimento 
especial e vive de acordo com ele.
O Espírito Santo foi concebido pelos gnósticos na forma feminina. Para eles, Jesus estava falando 
da mãe quando mencionava o Espírito Santo. De acordo com o apócrifo Evangelho dos Hebreus, Jesus 
teria dito: “Minha mãe, o Espírito Santo”. Segundo o pensamento gnóstico, o Pai era preexistente e 
autogerado, e portanto origem da divindade. Por meio da palavra, encarnou em Jesus, através da mãe, 
que se tornou o Espírito Santo. Essa interpretação constituía um tipo de trindade análoga à de Ísis. 
Na filosofia gnóstica, Deus era triplo depois de invocar “ele mesmo de si mesmo” na fórmula Nous, 
“a mente”, Ennoia, “o pensamento ou ideia”, e Logos, “a palavra ou razão” (SAMBU, 2007, p. 435).
O movimento cristão equacionou Nous com “Deus Pai”, Ennoia com “Deus, o Espírito Santo” e Logos 
com “Deus, o Filho”. A trindade era uma grande preocupação para os teólogos egípcios, pois em sua 
tradição cultural milenar era comum que três deuses fossem combinados e tratados como um único ser. 
Por esse viés, podemos verificar uma ligação direta da religião egípcia com a teologia cristã. A tradição 
trinitária tinha de ser mantida pelos padres do então novo movimento cristão, provavelmente para 
dotar de máxima credibilidade as conversões, como postulado por um maniqueísta do século III, porque 
os evangelhos não foram escritos nem por Jesus Cristo nem por seus apóstolos, mas muito depois de seu 
tempo por algumas pessoas desconhecidas. Como essas pessoas julgavam que seria bem difícil acreditar 
nas coisas que contavam, coisas que mesmo os padres não tinham visto, cogita-se que utilizaram 
o nome dos apóstolos e de seus discípulos diretos para indicar quem tinha testemunhado e escrito as 
narrativas que traziam os feitos de Jesus.
Como vimos, a trindade egípcia era composta de Ísis, Osíris e Hórus. A maioria das pessoas que 
cresceram no ambiente judaico-cristão, com a disposição cosmológica centrada no homem, tenderia 
a supor prontamente que Osíris era o chefe e Ísis sua esposa subserviente. Mas as mulheres egípcias, 
91
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
mesmo na sociedade mortal, não eram meros apêndices dos maridos. Elas tinham direitos iguais aos 
deles, podendo inclusive herdar a propriedade de seus pais. Nos momentos finais da religião egípcia, 
existia uma forte adoração da virgem mãe (SAMBU, 2007).
Isso nos conduz a outra reflexão, a de certa manutenção de valores religiosos através de milênios e de 
cultos diferentes. A tendência humana de criar divindades à própria imagem sempre foi um fato teológico 
e filosófico bem conhecido. O filósofo pré-socrático Xenófanes de Cólofon, professor de Parmênides de 
Eleia, pensava que a representação dos deuses como figuras humanas era uma falácia. Ele observou que, 
se os animais pudessem desenhar ou esculpir, eles representariam as divindades de acordo com sua própria 
forma. Mas na prática animais não representam. Os homens são o único caso na natureza de seres que 
criam representações. O antropomorfismo na religião inevitavelmentedecorre do fato de que o Homo 
sapiens só pode conceber a divindade em termos de suas próprias categorias mentais. Daí também a 
atribuição às divindades não apenas da forma humana, mas da natureza e das paixões humanas.
 Observação
Antropopatismo é a atribuição de emoções, paixões e desejos humanos 
a Deus. Antropomorfismo é a atribuição de características humanas, como 
membros do corpo, a Deus.
A propensão humana ao antropomorfismo é inevitável e previsível. Se tudo o que se pudesse encontrar 
nas relíquias de uma sociedade passada fossem pinturas e esculturas representando a divindade, também 
seria possível encontrar, examinando esses ícones, a verdadeira representação das características físicas 
daquela sociedade. Os antigos egípcios fizeram isso ao extremo, deixando evidências de sua aparência 
na época. As gerações seguintes não precisaram criar as próprias divindades, pois os ancestrais já tinham 
feito isso. Esse mesmo fenômeno pode ser verificado nas formas de representação de Jesus e em toda 
a iconografia ligada ao catolicismo. Em geral, os santos aparecem com as roupas e com a aparência da 
época em que foram representados.
O interessante é que esse fenômeno pode ser observado mesmo nas figuras mais antigas das religiões 
africanas. Entre os povos Maasai e Oromo, por exemplo, as divindades benevolentes eram negras. Deuses como 
Ísis, Osíris e Ptah eram retratados como negros. Seth, o deus ruivo do antigo Egito, e Enkai, a divindade do 
mal dos Maasai, eram vermelhos. As primeiras Madonas eram negras e retratavam Ísis e Hórus. Na Europa, em 
contrapartida, o povo eslavo figurava o divino de maneira distinta: o Deus Branco, Byeloborg, personificava 
forças criativas positivas; e o Deus Negro, Chemobog, personificava forças destrutivas malignas. O Deus 
Branco era o deus da luz e do dia, enquanto o Deus Negro era o deus das sombras e da noite.
As divindades serem percebidas como pessoas negras apenas confirma o fato de que a pele dos 
ancestrais era majoritariamente negra. As divindades hindus costumam ser retratadas com características 
humanas dos negros. O nome Krishna significa “aquele que é negro”. Embora na arte hindu dos últimos 
séculos ele apareça com a pele azul, no passado, ele era representado com a pele negra. O retrato artístico 
de Buda se destaca como a imagem típica de um homem negro, com lóbulos alongados e perfurados, 
algo mais representativo dos estilos africanos tradicionais. Em suas duas últimas encarnações, primeiro 
92
Unidade II
como Krishna e depois como Buda, Vishnu assumiu a forma de um homem negro. Durga, a deusa-mãe 
do hinduísmo, com dez mãos, é frequentemente retratada como uma guerreira negra. O que esses 
exemplos hindus nos mostram é que os fundadores da religião eram basicamente pessoas negras, cujos 
descendentes, no norte da Índia, tiveram o perfil gradualmente alterado por meio do casamento com a 
nova raça ariana. Já os hindus do sul, como os dravidianos, ainda são essencialmente negros, mais ou 
menos como durante as fases iniciais do hinduísmo (SAMBU, 2007).
O sol ainda é o deus que mais migrou de uma forma para outra. A ligação do sol com uma divindade 
originalmente feminina gerou a natureza cíclica de quase todos os temas culturais e religiosos. O sol 
nasce, sobe e depois desce, à medida que se põe. Então se renova e ressurge no dia seguinte, sem falhar. 
Os seres humanos, da mesma forma, nascem como bebês, crescem até o auge na idade adulta e declinam 
gradualmente como anciãos; depois morrem e renascem como bebês. Ninguém que é um exemplo 
brilhante para os outros e vive uma vida justa morre para sempre. Após cada morte, assim como o sol, deve 
reencarnar. No antigo Egito, todos os principais deuses estavam igualmente associados ao sol e a seu ritmo. 
Como rezavam os antigos sacerdotes egípcios de Mênfis para o deus Ptah, senhor dos anos, mensurador 
do tempo e eterno: “Eu sou ontem, hoje e amanhã, porque nasci de novo e de novo. Eu sou o Senhor da 
Ressurreição, que sai do crepúsculo e cujo nascimento acontece na Casa da Morte” (SAMBU, 2007, p. 494).
Hoje em dia percebemos que, assim como a cultura do ser humano, sua religiosidade representa uma 
construção coletiva de várias nações. Através de movimentos de sincretismo e transmutação, a partir da 
ideia de um Deus que criou tudo e de espíritos de ancestrais que, como família, cuidam dos interesses dos 
seres vivos, intermediando a comunicação com o supremo, formularam-se as religiões que conhecemos. 
Suas fases históricas servem para verificarmos como o conhecimento vai transformando o dogma das 
crenças em novas crenças, oferecendo às pessoas a experiência do sagrado.
 Saiba mais
Sobre o sincretismo, leia:
KARNAL, L. O que é sincretismo? Cruzeiro do Sul, 27 nov. 2019. 
Disponível em: https://www.jornalcruzeiro.com.br/opiniao/artigos/o-que-
e-sincretismo/. Acesso em: 6 jan. 2020.
6 A RELIGIÃO NA IDADE MÉDIA
6.1 Constantino e o Concílio de Niceia
O Concílio de Niceia, muito importante para a consolidação do cristianismo na Europa, foi o 
primeiro concílio ecumênico a poder ser considerado universal, em razão da expressiva participação 
dos bispos. A esse encontro, compareceram bispos de todas as regiões em que os cristãos professavam 
sua fé, pois ocorreu quando a Igreja Católica já tinha alcançado estabilidade e dispunha de liberdade 
para reunir-se abertamente.
93
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
O evento foi realizado entre os dias 20 de maio e 25 de julho de 325. O imperador Constantino, que 
ainda não tinha sido batizado, facilitou a participação dos bispos pondo à disposição deles os serviços 
do exército imperial para as viagens e os traslados, além de oferecer seu palácio em Niceia de Bitínia, 
próximo de sua residência em Nicomédia.
 Observação
De acordo com a Catholic encyclopedia, “os concílios são assembleias 
legalmente convocadas de dignitários eclesiásticos e especialistas em 
teologia com o objetivo de discutir e regular assuntos de doutrina e 
disciplina da Igreja” (QUAL…, 2019).
Cabe destacar que as condições para a propagação da fé cristã foram muito favoráveis até o 
terceiro século. Após essa data, houve um período crítico. Constantino empunhou o nome de Cristo 
como estandarte e, embora tenha posto fim à perseguição aos cristãos, outros problemas surgiram, em 
especial a dominação da Igreja pelo Estado.
A pureza, a coragem e o amor da Igreja primitiva, bem como a constância dos fiéis (a ponto de 
morrerem se fosse necessário), tiveram grande influência sobre a sociedade pagã no Império Romano, 
de modo que Constantino se viu obrigado a reconhecer oficialmente a importância do cristianismo para 
o Estado, convocando e presidindo o Concílio de Niceia.
Desde sempre, o cristianismo enfrentou problemas tanto de ordem interna quanto de ordem 
externa. Havia heresias e perseguições, e esses enfrentamentos fizeram Tertuliano dizer que o sangue 
dos mártires era a semente da Igreja, e que a realidade era terrível para muitos cristãos. Mesmo assim, a 
“Igreja continuou a se desenvolver até o período em que conseguiu a liberdade de culto no governo de 
Constantino” (CAIRNS, 1995, p. 70).
Quanto às causas da perseguição, podemos elencar pelo menos quatro:
• Política: o cristianismo não teve muitos reveses enquanto era visto como uma seita do judaísmo. 
Após sua definitiva separação, e com a exclusiva lealdade espiritual e moral dos que recebiam 
a mensagem de Cristo, César foi posto em segundo plano. Os cristãos se recusavam a oferecer 
incenso sobre os altares dedicados ao culto do imperador romano. Uma vez que não faziam esse 
sacrifício, eram vistos como desleais.
• Religiosa: como a religião de Roma era externa, com altares, ídolos e ritos expostos ao povo, ela 
se diferenciava do culto que os cristãos prestavam a Deus, pois o faziam com os olhos fechados e 
sem nenhuma representação visual. Não havia problema em acrescentar mais um deus ao panteão 
romano, desde que ele pudesse ser visto. Acusações de ordem moral também foram inventadas, 
relacionadasao comer e beber (atos que simbolizavam o corpo e o sangue de Cristo) e ao beijo da 
paz, que foram interpretados, respectivamente, como canibalismo e incesto.
94
Unidade II
• Social: os líderes aristocráticos odiavam os cristãos, pois em sua maioria eram pobres e escravos. 
Os cristãos afirmavam que devia haver igualdade entre todos os homens. Outra questão espinhosa 
era a vida escandalosa que os romanos tinham, totalmente oposta à dos cristãos.
• Econômica: uma clara representação desse ponto está registrada na história de Paulo em Éfeso. 
É bem provável que a preocupação não fosse tanto com uma possível ameaça ao culto de Diana, 
mas sim com os lucros, pois sacerdotes, fabricantes de ídolos, videntes, escultores etc. não se 
animavam com uma religião que não colaborasse com seu meio de vida.
Por esses motivos, a perseguição na segunda metade do segundo século passou a ser mais violenta. 
Quando Roma se aproximava do primeiro milênio de sua fundação, a fome e a agitação civil devastaram 
o império. Os cristãos foram acusados pela opinião pública de serem os culpados. Isso favoreceu e 
justificou a perseguição a eles pelas autoridades, que não os consideravam leais ao Estado romano.
Entre os principais perseguidores da Igreja cristã estava o imperador Nero, responsável por incêndios 
em bairros de Roma, dos quais culpava os cristãos. Outro imperador que também acirrou a perseguição 
foi Domiciano. Uma vez que os judeus se negaram a pagar um imposto público, como os cristãos eram 
identificados a eles, também sofreram as consequências. O livro do Apocalipse, escrito por João, foi 
redigido nessa época na ilha de Patmos.
Durante a administração de Plínio, por volta do ano 112, ele demonstrou preocupação por causa 
dos cristãos. Escreveu uma carta ao imperador Trajano em que relatou o crescimento dessa religião nos 
grandes centros, nas cidades, nas vilas e nas regiões rurais, informando que os vendedores de animais 
para sacrifício abandonaram o negócio em decorrência do esvaziamento dos templos. Diante dessa 
situação, Plínio resolveu que todo cristão denunciado seria levado ao tribunal e, se confessasse três 
vezes que era cristão, seria condenado à morte. No entanto, se no interrogatório renegasse sua fé e 
adorasse os deuses romanos, a acusação seria retirada e o indivíduo poupado. Em resposta, o imperador 
assegurou que Plínio estava correto em sua decisão.
Quando Roma estava sofrendo com calamidades naturais, subiu ao trono o imperador Décio. 
Ele pensou que, se tentasse salvar a cultura clássica, teria um grande álibi contra os cristãos. Como eles 
estavam se expandindo desenfreadamente por todo o império, Décio acreditava que Roma poderia 
em breve sucumbir por causa da criação de um Estado paralelo. No ano de 250, Décio promulgou um 
decreto que exigia um sacrifício nos altares romanos à figura do imperador e aos deuses pelo menos 
uma vez por ano, o que garantiria um certificado chamado libellus. Era evidente que todos os que 
receberam o libellus tinham traído a fé cristã, mas essa questão a Igreja teve de tratar posteriormente.
O primeiro decreto a ordenar perseguição aos cristãos foi promulgado em 303. Diocleciano 
determinou o fim das reuniões, a destruição das igrejas e das Escrituras, a destituição de oficiais e a 
prisão dos que insistissem em testemunhar a favor de Cristo. Antes, a perseguição se dava num âmbito 
mais velado; agora, havia uma verdadeira caça às bruxas. Mais tarde foi promulgado outro decreto, 
obrigando os cristãos a sacrificar animais para os deuses pagãos; se não o fizessem, seriam mortos.
95
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Em 311, em seu leito de morte, o imperador Galério promulgou um decreto no qual dizia que os cristãos 
que não quebrassem a paz do império podiam ser tolerados. Finalmente, em 313, com Constantino, a 
perseguição terminou, por meio do Édito de Milão, que garantiu liberdade de culto não apenas para os 
cristãos, mas para todas as religiões. González (1995a, p. 175-176) explica:
Segundo dois historiadores cristãos que conheceram Constantino, às 
vésperas de uma batalha, ele teve uma revelação. Um desses historiadores, 
Lactâncio, diz que num sonho Constantino recebeu a ordem de pôr um 
símbolo cristão sobre o escudo de seus soldados. O outro, Eusébio, diz que 
a visão apareceu nas nuvens, junto com palavras escritas no céu, “vence 
nisto”. Em todo caso, o fato é que Constantino ordenou que seus soldados 
empregassem para a batalha do dia seguinte o símbolo que se conhece como 
Iabarum, que consistia na superposição de duas letras gregas, X e P. Visto 
que essas duas letras são as duas primeiras do nome de Cristo em grego, o 
Iabarum bem podia ser um símbolo cristão. Alguns historiadores modernos 
assinalaram muitos outros indícios que nos dão a entender que, embora 
fosse possível que já nessa data Constantino se inclinasse em direção ao 
cristianismo, ainda continuava adorando ao sol invicto.
Constantino acreditava que a adoração a Deus deveria ser o foco de todo governante – daí a política 
adotada pelo império. É possível que a visão da cruz que lhe deu a certeza da vitória sobre seus rivais 
tenha algo a ver com essa política tolerante. A partir daquele momento, os cristãos tiveram total 
liberdade para divulgar sua fé e converter outras pessoas.
Para assimilar a tensa relação entre Estado e Igreja após a concessão dessa liberdade, precisamos 
entender os problemas políticos enfrentados pelo imperador nessa época. Cairns (1995, p. 99-100) diz:
A anarquia do século da revolução, que arruinou a República Romana entre 
133 a.C. e 31 a.C., terminou mediante o poderoso principado criado por 
Augusto após destruir o exército de Antônio. Esse principado, no qual o 
imperador, como príncipe, dividia o poder com o Senado, mostrou-se 
também fraco para superar o desafio do declínio interno e da presença 
dos bárbaros nas fronteiras do império; ademais, a prosperidade e a paz 
do primeiro período do principado foram seguidas por outro século de 
revolução, entre 192 e 284. Em 285, Diocleciano reorganizou o império em 
bases mais autocráticas, tomadas de empréstimo dos despotismos orientais, 
[a fim] de garantir a cultura greco-romana. Como o cristianismo parecia 
ameaçar essa cultura, Diocleciano fez uma fracassada tentativa de destruí-lo 
entre 303 e 305. Mais astuto, Constantino, seu sucessor, compreendeu que, 
se o Estado não podia destruí-la pela força, o melhor seria usar a Igreja 
como um aliado para salvar a cultura clássica. Embora oficialmente dividisse 
o poder com um coimperador, Licínio, entre 311 e 324, ele tomou a maioria 
das decisões importantes do Estado.
96
Unidade II
Nos anos seguintes, os cristãos, que até então estavam sendo perseguidos, foram beneficiados por 
alguns decretos de Constantino relacionados à recuperação de propriedades confiscadas, concessão de 
recursos do Estado para a Igreja, desautorização de adivinhações, dispensa do serviço público para os 
clérigos, e designação do Dia do Sol (domingo) como o dia de prestar culto e descansar.
A cidade de Constantinopla, fundada em 330, tornou-se o centro do poder político no Oriente. 
Após 476, o bispo de Roma passou a ter também poder político, além de espiritual. Esse fato colaborou 
para dividir a Igreja entre Oriente e Ocidente, abrindo caminho para o Grande Cisma, em 1054. Os filhos 
de Constantino mantiveram a política de favorecimento aos cristãos, fixando decretos que proibiam a 
frequência a templos pagãos e o ritual de sacrifício. O cristianismo só não se tornou a religião oficial do 
Estado porque, em 361, quando Juliano ascendeu ao trono imperial, foi restaurada a liberdade plena de 
culto, e os privilégios foram retirados. Entretanto, em 380, o cristianismo se tornou a religião exclusiva 
do Estado, com um édito promulgado por Teodósio I.
Apesar de os benefícios concedidos por Constantino e por alguns de seus sucessores serem 
favoráveis à união entre Igreja e Estado, quando avaliamos seu caminho de transformação, vemos 
que, em troca de proteção,ajuda e privilégios, o imperador se apoderou do direito de se imiscuir nas 
contendas na Igreja, ainda que fosse com seu poder temporário, pois acreditava que podia interferir 
nos assuntos teológicos e espirituais.
A partir daí, começou um longo conflito entre Estado e Igreja, e o poder que ela adquiriu foi utilizado 
para perseguir as Igrejas consideradas pagãs. Assim, passou de perseguida para perseguidora, reagindo 
da mesma forma que as autoridades no passado em relação aos cristãos.
Ainda sob o reinado de Constantino, por volta de 318, um dos presbíteros da Igreja, Ário, erudito e 
pregador, após ouvir um sermão de Alexandre, bispo de Alexandria, com o título “A Unidade da Trindade”, 
acabou concebendo uma doutrina que recusava a divindade de Cristo, na ânsia de evitar uma concepção 
politeísta de Deus.
Essa questão, basicamente soteriológica, cresceu tanto que um sínodo de Alexandria condenou Ário, 
o qual teve de fugir para o palácio de Eusébio, seu amigo de estudos e bispo de Nicomédia. Mesmo 
com Constantino tentando resolver o conflito de modo sensato, enviando cartas tanto a Ário quanto 
ao bispo de Alexandria, a contenda extrapolou todos os limites, obrigando Constantino a convocar os 
bispos da Igreja para tentar resolver o caso.
No começo do verão de 325, trezentos bispos da Igreja se reuniram em Niceia, concílio presidido 
pelo imperador. Essa foi a primeira vez que um chefe de Estado dominou a Igreja, fato que nem sequer 
foi percebido pelos bispos, provavelmente porque estavam muito preocupados com a ideia de que se 
afastavam dos ensinamentos da tradição religiosa. Sobre esse concílio, Curtis (2003, p. 23) afirma:
O Concílio de Niceia foi convocado tanto para estabelecer uma questão 
teológica quanto para servir de precedente para questões da Igreja e do 
Estado. A sabedoria coletiva dos bispos foi consultada nos anos que se 
seguiram, quando questões espinhosas surgiram na Igreja. Constantino 
97
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
deu início à prática de unir o império e a Igreja no processo decisório. 
Muitas consequências perniciosas seriam colhidas nos séculos futuros 
dessa união.
Nesse concílio, três partidos se formaram. No primeiro estavam Ário, Eusébio de Nicomédia e alguns dos 
presentes. Eles defendiam que Cristo passou a existir por um ato criativo de Deus, ou seja, seria de substância 
diferente do Pai. Pela obediência à vontade do Pai, ele pôde ser considerado divino, mas não era Deus nem 
existira desde a eternidade: era um ser de essência diferente, criado a partir do nada, mas subordinado ao Pai.
Atanásio, por sua vez, fazia apologia de uma interpretação mais ortodoxa, defendendo a ideia de 
que Cristo existiu desde a eternidade e que era da mesma essência (homoousios) que o Pai, mas 
de personalidade distinta. A defesa de seu argumento se pautava no seguinte: se Cristo fosse menor do 
que ele mesmo afirmava, jamais poderia ser o salvador dos homens, e o relacionamento entre Pai e Filho 
era fundamental no tocante à salvação eterna do homem.
Eusébio de Cesareia liderava o maior partido. Renomado historiador da Igreja, tinha aversão a 
controvérsias. Por isso, tentou propor um significado que pudesse ser aceito por ambos os grupos. 
Para ele, Cristo não foi feito do nada, conforme Ário preceituava, mas criado pelo Pai antes da eternidade, 
sendo de essência semelhante (homoi) ou igual à do Pai. Com base nessa crença, foi concebido o Credo 
Niceno, afirmando a unidade da substância do Pai com o Filho:
Cremos em um só Deus, Pai, Todo-Poderoso, criador de todas as coisas, 
visíveis e invisíveis.
E em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes 
de todos os séculos, luz da luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não 
criado, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; 
o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne, 
pelo Espírito Santo, da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por 
nós sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, 
conforme as Escrituras, e subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai, e de novo 
há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim.
E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, que 
com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através 
dos profetas. E na Igreja una, santa, católica e apostólica. Confessamos um 
só batismo para remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos 
e a vida do século vindouro. Amém (ANGLADA, 1998, p. 179-180).
A ortodoxia se tornou vitoriosa em Niceia, com a afirmação da eternidade e da identidade de Cristo 
com o Pai. O credo usado na Igreja hoje é distinto do Credo Niceno. Como ensina Cairns (1995, p. 108), 
“o credo de 325 cessa na frase ‘e no Espírito Santo’ e é seguido por uma seção condenatória das ideias 
de Ário”. Foi retirada a expressão “anatematiza”, que constava no último parágrafo, e esse ficou sendo o 
credo cristão universalmente aceito.
98
Unidade II
Cremos em um Deus Pai Todo-Poderoso, criador de todas as coisas, 
visíveis e invisíveis.
E em um Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus; gerado como o Unigênito do 
Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus; luz de luz; Deus verdadeiro 
de Deus verdadeiro; gerado, não feito; consubstancial com o Pai; mediante 
o qual todas as coisas foram feitas, tanto as que estão nos céus como as que 
estão na terra; que para nós humanos e para nossa salvação desceu e se fez 
carne, se fez homem, e sofreu, e ressuscitou ao terceiro dia, e virá para julgar 
os vivos e os mortos.
E no Espírito Santo.
Aos que dizem, pois, que houve quando o Filho de Deus não existia, e que 
antes de ser concebido não existia, e que foi feito das coisas que não são, ou 
que foi formado de outra substância ou essência, ou que é uma criatura, ou 
que é mutável ou variável, a esses a Igreja Católica anatematiza (GONZÁLEZ, 
1995b, p. 97).
No entanto, Constantino e seus filhos sofreram uma derrota pelo arianismo, ainda que temporária, 
entre os anos de 325 e 361. Em 381, Teodósio definiu as doutrinas elaboradas pelos ortodoxos de Niceia 
como as que “deveriam ser consideradas a fé dos verdadeiros cristãos”. Outro concílio, dessa vez em 
Constantinopla, no mesmo ano, estabeleceu que “não deveriam abandonar a fé dos pais de Niceia” 
(GONZÁLEZ, 1995b, p. 108).
 Observação
O Concílio de Constantinopla foi convocado pelo imperador 
Teodósio. O texto original desse concílio se perdeu no tempo. Houve 
discussão sobre o arianismo e novamente foi escrito um credo cristão 
(niceno-constantinopolitano), pondo-se o Espírito Santo no mesmo 
patamar do Pai e do Filho.
Ao analisar o credo, vemos que seu intuito era suprimir toda doutrina que implicasse dizer que 
Cristo era um ser criado, em especial nos trechos “Deus de Deus”, “luz de luz”, “Deus verdadeiro de Deus 
verdadeiro” e “gerado, não feito”. Quando o credo se refere a Deus como “criador de todas as coisas, 
visíveis e invisíveis”, dizendo mais à frente que o Filho é “gerado, não feito”, imediatamente o exclui das 
coisas visíveis e invisíveis criadas pelo Pai.
Ademais, o último parágrafo anatematiza (condena, amaldiçoa, reprova) todos os que afirmarem 
que o Filho “foi feito das coisas que não são”, asseverando que o Filho foi concebido “da substância 
do Pai”, no intuito de fechar definitivamente a questão e não deixar qualquer margem para dúvidas.
99
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Ao que parece, quase todos os bispos assinaram esse credo, demonstrando que ficaram satisfeitos 
por expressar o sentimento de sua fé. Somente poucos, como Eusébio de Nicomédia, não quiseram 
referendá-lo, o que causou sua condenação e deposição. Constantino ainda determinou que eles 
deveriam deixar suas cidades. Talvez esse seja o ponto culminante dessa história: quando a Igreja firma 
a condenação de exílio, somada à de heresia, revela-se a clara possibilidade de o Estado, a partir daquele 
momento, poder intervirnos dogmas ou assuntos da Igreja.
 Lembrete
Segundo historiadores, Constantino teve uma revelação em sonho: 
ele recebeu a ordem de pôr um símbolo cristão sobre o escudo de seus 
soldados, símbolo esse que consistia na superposição de X e P, as duas 
primeiras letras do nome de Cristo em grego. Desde então, ele passou a ter 
“tendências cristãs”.
6.2 Carlos Magno e a conversão em massa
O Império de Carlos Magno (768-814), também denominado Império Carolíngio, representa um dos 
momentos de maior esplendor do Reino Franco, que chegou a ocupar toda a região central da Europa.
Por suas realizações, o imperador Carlos Magno é considerado o mais importante rei dos francos. 
Ele destacou-se, principalmente, por conquistas militares e pela organização administrativa implantada 
nos territórios sob seu domínio. Nas regiões ocupadas eram construídas fortalezas e igrejas, em volta 
das quais, organizavam-se vilas, que posteriormente passavam a ser ligadas por estradas. Sendo cristão, 
Carlos Magno obrigava os povos conquistados a se converter ao cristianismo.
Uma das características centrais do governo de Carlos Magno é que ele não tinha uma sede fixa. 
Com sua corte, que se constituía basicamente de familiares, amigos, membros do clero e funcionários 
administrativos, viajava de um lugar para outro.
Nos séculos VIII e IX, o reino medieval na França era liderado pela dinastia carolíngia, que chegou 
ao auge com Carlos Magno. O filho de Carlos Martel, Pepino, o Breve, ou Pepino, o Grande (714-758), 
governou junto com o irmão quando este entrou para um mosteiro.
Pepino foi o primeiro rei carolíngio exatamente por ter arrogado para si esse título, sendo consagrado 
como rei dos francos pelo papa Bonifácio. Depois, auxiliou o papa enviando expedições contra os 
lombardos entre 754 e 756. Ainda em 754, prometeu terras ao papa na região central da Itália, ato que 
ficou conhecido como Doação de Pepino, tendo um significado muito especial para a cidade de Roma, 
que havia sido construída há exatos mil anos.
Carlos Magno subiu ao trono em 768 e teve grande influência na Europa Ocidental, em todos os 
setores. Embora dedicado à religião, além da esposa, ele mantinha em seu palácio concubinas, o que 
mostra que ele divorciava a teoria da prática. Sobre sua aparência física, Curtis (2003, p. 60) diz que “a 
100
Unidade II
imagem do novo imperador era impressionante: alto, forte, grande cavaleiro, lutador destemido e, em 
alguns momentos, cruel”. Ele gostava muito de guerras, participando de aproximadamente cinquenta 
campanhas militares durante seu reinado. Assim, conseguiu ampliar suas fronteiras para a Itália, a 
Alemanha e a França. No entanto, como toda essa terra se devia exclusivamente a sua competência 
como conquistador, após sua morte, em 814, esse reinado não se manteve com seus sucessores.
O soberano ainda criou um excelente sistema de governo imperial para comandar seus domínios, 
dividindo-o em vários condados, os quais eram administrados por um duque. O responsável prestava 
contas a alguns homens da corte, que chegavam de forma imprevista para inspecionar o trabalho, o 
cumprimento da lei, a manutenção da ordem e a determinação de novos decretos.
A Igreja também foi favorecida. Ele a comparava com a alma e o Estado com o corpo. Vinte anos 
depois da doação de terras feita por seu pai ao papa, Carlos Magno a confirmou. Embora acreditasse 
que o dirigente da Igreja não devesse se imiscuir nas decisões do soberano do Estado, entendia que os 
bispos tinham de se subordinar ao papa.
Carlos Magno gostava de ouvir a leitura de grandes livros do passado, em especial A cidade de Deus, 
de Agostinho. Inclusive, recomendou aos abades que abrissem no mosteiro uma escola. Queria que os 
tradutores da Bíblia fossem homens esclarecidos, que interpretassem e compreendessem as Escrituras 
de forma correta.
Certa vez, o papa Leão III, atacado por um grupo em Roma, foi para a corte de Carlos Magno. 
O rei conduziu-o de volta a Roma e depois, no Natal de 800, o papa pôs sobre sua cabeça uma coroa, 
declarando-o imperador dos romanos. Com isso, o Império Romano voltou a existir no ocidente, e uma 
nova Roma, governada por um teutão, substituiu o antigo Império Romano. Essa atitude certamente 
contribuiu para que houvesse uma grande conversão.
Quase toda a cristandade ocidental fazia parte de seu império, exceto as 
Ilhas Britânicas e as regiões remotas da Espanha, onde os cristãos tinham se 
refugiado das invasões muçulmanas. Por isso, o rumo que os acontecimentos 
tomariam em seu império teria amplas consequências para a história futura 
do cristianismo e de toda a Europa (GONZÁLEZ, 1995b, p. 141).
Por causa dessa coroação, houve uma reconciliação entre a população do velho Império Romano 
e os conquistadores teutões, encerrando o sonho do imperador oriental de reconquistar as terras 
do Império Romano que foram dominadas pelos bárbaros do Ocidente. Ademais, a posição do papa 
foi acentuada, como se os imperadores devessem a coroa a ele e tivessem a obrigação de ajudá-lo 
sempre que preciso.
Assim, passou-se a indagar o seguinte: o poder que o imperador tinha sobre os homens era recebido 
de Deus ou conferido pela Igreja, que detinha um poder absoluto? Até essa questão ser resolvida, muitas 
discussões ocorreram na Idade Média.
101
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Ainda no tocante às preocupações da Igreja, Carlos Magno tentou unificar o Ocidente e o Oriente 
para formar um único império. Ele queria englobar a maior parte possível dos territórios que pertenciam 
ao antigo Império Romano. Sobre suas intensas colaborações, Cairns (1995, p. 152-153) diz:
Não se pode esquecer que os imperadores orientais impediram as hordas 
muçulmanas de invadir a Europa até que o Ocidente se recuperasse da 
confusão e do caos provocados pela queda do império e pela chegada 
em massa dos bárbaros. O Oriente enfrentou o problema particular da 
controvérsia iconoclasta de 752 a 843. Leão III, em decretos de 726 e 730, 
proibiu o uso de imagens na Igreja e determinou sua destruição. Carlos 
Magno fez uma declaração em favor do uso de imagens na época em que 
Irene se tornou imperatriz do império oriental. Ele chegou até a propor 
casamento a Irene para reunir as áreas do velho Império Romano numa só 
coroa, com sede no Ocidente. Irene recusou suas propostas, e a divisão do 
império, começada quando Constantino transferiu a capital de Roma para 
Constantinopla em 330, continuou. O segundo Concílio de Niceia, em 787, 
permitiu a veneração, não a adoração de imagens.
Carlos Magno não se preocupou em estender seus territórios apenas em direção a seus vizinhos 
cristãos. Avançou com uma intensa expedição para controlar os frísios e saxões, que habitavam o 
nordeste de seu império, e os muçulmanos, que estavam a sudoeste – os primeiros constantemente 
furtavam igrejas, mosteiros e aldeias, depois retornando a seu território, o que dificultava capturá-los.
Em 772, Carlos Magno invadiu as terras dos saxões e destruiu uma família que era considerada uma 
das principais daquele povo. Aparentemente, queria facilitar a conversão dos saxões ao cristianismo 
e eliminar sua religião. Depois de os saxões se renderem, ele enviou missionários para a região com o 
propósito de ensinar a fé cristã.
Em seguida, Carlos Magno avançou contra os lombardos na Itália, e todos os missionários deixados 
entre os saxões foram mortos. Ele voltou a invadir a região, sufocou a rebelião e convocou uma assembleia 
nacional em Paderborn. Lá os saxões não apenas viram seu país ser organizado de forma eclesiástica 
como tiveram de ajudar na criação de abadias e dioceses.
Ainda que dentro de seus territórios, Carlos Magno se dedicou a ordenar e monitorar a vida da Igreja. 
Demonstrava ter grande convicção e era chamado para assuntos civis e religiosos, inclusive porque, ao 
que parece, ele não diferenciava uma coisa da outra. Da mesma maneira que os condes, os bispos eram 
nomeados pelo rei, alterando a forma anterior de eleição, feita pelo clero ou pelo povo.Carlos Magno comandava de tal modo o governo da Igreja que os próprios bispos tinham de prestar 
conta de seus atos a ele, fazendo com que a função do arcebispo fosse mais de honra do que de 
autoridade. Depois, já com seu substituto, Ludovico, o Pio, os arcebispos não apenas reconquistaram o 
poder, mas passaram a ser grandes senhores feudais.
102
Unidade II
Além de cuidar do contingente, nomeando bispos, Carlos Magno se imiscuía nos assuntos legislativos 
da Igreja. Incluiu o descanso semanal obrigatório, impôs o dízimo como uma espécie de tributo e ordenou 
que a pregação fosse feita na língua do povo, de modo simples e claro.
O monasticismo perdera sua motivação, e muitas pessoas que não tinham qualquer atração pela vida 
monástica, mas apenas ambição de ficar ricas e poderosas, tentavam adquirir abadias. Carlos Magno 
empreendeu uma renovação nos mosteiros, pondo Benedito Aniano como responsável pela reforma e 
supervisão da vida monástica.
Embora com pouca instrução, Carlos Magno acreditava ser o estudo de grande 
importância; quando não se ocupava das guerras, tratava de se empenhar no 
despertamento da arte e da erudição, que ficou conhecido como Renascimento 
carolíngio, patrocinando uma escola palaciana na qual Alcuíno, brilhante 
estudioso anglo-saxão, foi professor. Ele exortava seus estudantes com as 
seguintes palavras: “Os anos correm como água. Não desperdicem os anos do 
aprendizado com a indolência”. Alcuíno escreveu livros e textos sobre gramática, 
ortografia, retórica e lógica. Escreveu também comentários bíblicos e assumiu o 
lado ortodoxo em muitos debates teológicos (CURTIS, 2003, p. 61).
Ainda que Roma e Constantinopla tivessem perdido o controle da costa sul do Mediterrâneo para 
o islamismo, a expansão islâmica tanto no Oriente quanto no Ocidente foi reprimida em 732. Até o 
ano 800, as dificuldades do império tinham sido parcialmente resolvidas. A parte oriental era comandada 
pelo imperador em Constantinopla. O reino franco de Clóvis, por outro lado, evoluiu para um império 
cristão, dirigido por Carlos Magno, unificando-se no Império Romano do Ocidente os bárbaros cristãos 
e os habitantes do velho império.
6.3 A expansão da Igreja Católica
Com os acordos firmados entre o clero e a nobreza, e principalmente a partir do século X, com a 
desagregação política que caracterizou a Idade Média – período em que deixou de existir um poder 
centralizador no continente europeu, que comandasse os diversos povos que nele viviam –, a Igreja 
Católica obteve espaço para expandir seu “império da fé”.
Acreditar em Cristo pressupunha uma série de regras que todo indivíduo deveria seguir para merecer 
um lugar após a morte no paraíso celeste, ao lado de Deus. Nesse sentido, a Igreja instruía os fiéis a 
não pecar, obedecer aos mandamentos divinos e fazer caridade. Vale notar que a caridade pregada não 
estava relacionada apenas com o próximo, mas também (e especialmente) com a doação de bens para 
a Igreja, a fim de ajudá-la a prosseguir em sua missão.
Assim, o crescimento do poder da Igreja Católica e o tamanho de sua riqueza estão diretamente 
associados a sua capacidade de fazer com que os fiéis acreditassem nas verdades que pregava. Contudo, 
mais importante que acreditar nessas verdades era temer a ira divina e o risco de queimar no fogo 
do inferno após a morte. Em razão disso, desde o século IV, sob o imperador romano Constantino, 
começaram a ser definidos os dogmas da Igreja, com o já citado Concílio de Niceia.
103
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
 Observação
Os princípios dogmáticos são crenças básicas pregadas pelas religiões, 
que devem ser seguidas e respeitadas por seus membros sem nenhuma 
dúvida. Além do cristianismo, os dogmas estão presentes em outras 
religiões, como o judaísmo e o islamismo.
Também é preciso observar que, mesmo antes de o cristianismo se tornar a religião oficial do Império 
Romano, seus discípulos já vinham obtendo muito êxito na divulgação de sua fé por todo o território 
dominado pelos romanos.
Vimos que diversos povos contribuíram para a expansão do cristianismo: romanos, gregos e judeus, 
cada um com suas peculiaridades. Com isso, sob o ponto de vista subjetivo humano, o cristianismo 
tem seus primórdios na história temporal – vida de Cristo. Embora a Bíblia seja o livro que aponta de 
forma mais direta para essa evidência, existem muitos fundamentos extrabíblicos que comprovam a 
existência de Cristo, como testemunhos que podem ser considerados pagãos e que estão presentes 
desde o primeiro século da Igreja.
Tácito (c. 60-c. 120), o decano dos historiadores romanos, liga o nome e a 
origem dos cristãos a Christus, que no reinado de Tibério (42 a.C.-42 a.D.) 
“sofreu a morte por sentença do procurador, Pôncio Pilatos”. Plínio (62-c. 113), 
que era protetor da Bitínia e de Ponto na Ásia Menor, escreveu ao Imperador 
Trajano (53-117), por volta do ano 112, para se aconselhar quanto ao modo 
de tratar os cristãos. Sua carta dá uma valiosa informação extrabíblica sobre 
Cristo. Ele elogiou a elevada moral dos cristãos, comentando sua recusa a 
cometer roubo ou adultério, a testemunhar falsamente ou a trair a confiança 
depositada neles. Plínio chegou a dizer que eles “entoavam uma canção a 
Cristo como para um Deus”. Suetônio, em sua obra Vida dos 12 césares: 
vida Claudius (25,4), mencionou que os judeus foram expulsos de Roma por 
causa de distúrbios a respeito de Chrestos (Cristo) (CAIRNS, 1995, p. 37).
Outro autor importante, em especial por seu modo sarcástico de escrever, é Luciano, que viveu no 
fim do século II e fez uma sátira sobre a fé dos cristãos. No texto, descreve Cristo como alguém que foi 
crucificado por ter iniciado um novo culto. Depois de dizer que os cristãos foram ensinados por Jesus a 
crer que deveriam observar seus mandamentos e que eram irmãos, Luciano os ridiculariza pela adoração 
que têm pelo mestre.
Sem dúvida, essas declarações são provas históricas de imenso valor, principalmente por virem 
de historiadores romanos instruídos, que não apenas hostilizavam, mas desdenhavam os cristãos. 
Esses testemunhos, somados aos relatos da própria Bíblia, comprovam a existência histórica de Cristo.
104
Unidade II
Josefo (37-100), historiador judeu que tentou esclarecer o judaísmo para os romanos cultos com 
seus escritos, também falou sobre Cristo, declarando que Tiago era seu irmão. Em outra passagem, 
Josefo retrata Cristo como um homem sábio, que Pilatos sentenciou à morte na cruz. Certamente são 
informações relevantes, que reforçam o argumento citado, sobretudo porque esse escritor não tinha 
nenhuma afeição pelo cristianismo.
Ainda sobre a historicidade de Cristo, muitas cartas, evangelhos, atos e apocalipses escritos devem 
ser levados em consideração. Há muitos símbolos que servem de evidência, especialmente a figura 
da âncora, do peixe e da pomba, bem como diversos outros signos cristãos, que podem ser vistos nas 
catacumbas e que revelam a crença no Jesus histórico. O mesmo se pode dizer do calendário cristão.
No entanto, Cristo apenas inicia a história da Igreja, que ocorre em Jerusalém, após o ponto 
culminante da religião, isto é, sua morte e ressurreição. Esse fato é apresentado na Bíblia seguido de 
diversas aparições pós-ressurreição – algumas vezes, para Jesus comprovar que voltou à vida, outras 
vezes, para orientar os futuros pregadores sobre o evangelho e sua missão.
O exato momento do início da Igreja é narrado por Romag (1948, p. 41):
Cinquenta dias tinham decorrido depois da ressurreição de Jesus Cristo. Em 
Jerusalém, celebrava-se a festa de Pentecostes, que atraía uma multidão 
imensa. De repente, desencadeou-se uma tempestade. Os apóstolos oravam. 
Chamas apareceram no ar e, em formas de língua de fogo, pararam sobre a 
cabeça de cada um. Todos ficaram cheios de Espírito Santo. Com sua luz e 
com sua graça, seriam capazes de realizar sua missão. 
Após esse evento, o apóstolo Pedro começa a pregar aos judeus imigrantes sobre o Cristo que morreu 
e ressuscitou. A partir daí, nascea ideia de um reino universal, que esse Messias inaugura com seus 
valores sobrenaturais, como a penitência, o batismo, a remissão de pecados e a graça, sempre debaixo 
do governo do Espírito Santo.
Os primeiros membros da comunidade judaico-cristã se consideravam uma seita do judaísmo. 
Por isso, seguiam os ritos da lei mosaica. Contudo, promoviam suas próprias reuniões, realizadas em 
casas particulares, “tendo todos um só coração e uma só alma” (ROMAG, 1948, p. 42), o que fazia a 
caridade ser exercida de forma justa, possibilitando a cada um receber conforme sua necessidade.
Após a morte de Estevão, o primeiro mártir do cristianismo, depois considerado santo pela Igreja Católica, 
iniciou-se uma perseguição violenta. Os cristãos que não foram presos ou mortos fugiram da cidade, “pelas 
terras da Judeia e da Samaria. Só os apóstolos permaneceram em Jerusalém” (ROMAG, 1948, p. 44).
Nesse contexto, inicia-se a expansão da Igreja, pois os primeiros ouvintes do apóstolo Pedro que 
foram dispersos pelas cidades passaram a divulgar sua fé nas províncias. Assim, locais como Etiópia e 
Itália também receberam a mensagem da fé cristã.
105
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Com essa dispersão, o número de gentios convertidos ao cristianismo aumentou, preocupando os 
judeus cristãos de Jerusalém, pois a maior parte dos novos convertidos vinha do paganismo. Foi na 
cidade de Antioquia que eles foram chamados cristãos pela primeira vez.
Nessa cidade, onde diversos profetas e doutores pregavam a nova fé, surgiu também a primeira 
controvérsia sobre o que deveria ser feito com os gentios em decorrência da lei mosaica. Ao arrebanharem 
a multidão com os judeus que se convertiam, todos teriam ou não de observar a lei cerimonial?
Para resolver o problema, os apóstolos Pedro, João e Tiago, por volta do ano 50, reuniram-se para 
deliberar sobre o assunto numa assembleia conhecida como Concílio de Jerusalém, o primeiro encontro 
oficial para resolver questões de fé. Cairns (1995, p. 54) explica:
O problema do significado e dos meios de salvação foi a primeira dificuldade 
que Paulo enfrentou durante o Concílio de Jerusalém ao fim de sua primeira 
viagem missionária. A Igreja, nascida nos quadros do judaísmo, desenvolvera 
dois grupos. Um grupo reacionário de cristãos judeus de formação farisaica 
acreditava que tanto os gentios como os judeus deviam observar a lei 
de Moisés para a salvação. Eles queriam tornar o cristianismo uma seita 
particular do judaísmo. O outro grupo entendia que a salvação vinha 
somente pela fé em Cristo e que a oferta da salvação era para todos, e não 
por meio de obras.
A liberação dos novos cristãos da observância da lei cerimonial foi o maior trunfo desse concílio, o 
qual estabeleceu que a salvação seria alcançada exclusivamente pela fé. Sendo essa fé universal, a Igreja 
não viu fronteiras para sua expansão, pois era regida pela lei do amor. A obediência relacionada ao amor 
a Deus se diferenciava da obediência relacionada à arbitrariedade.
Outros grandes eventos que colaboraram de forma ímpar para a expansão da Igreja foram as viagens 
missionárias do apóstolo Paulo, antes conhecido como Saulo, mas que mudou de nome depois de 
aceitar Cristo. Nascido na cidade de Tarso, seus pais o levaram a Jerusalém, onde estudou a lei mosaica 
até se tornar fariseu. Certo dia, por volta do ano 36, quando se dirigia à cidade de Damasco para prender 
cristãos, teve uma experiência mística com Jesus Cristo, e a partir daí passou de perseguidor da Igreja 
para perseguido. É considerado por muitos o maior dos apóstolos, por causa da eficiência na divulgação 
da mensagem cristã através de suas cartas.
Em sua primeira viagem de missão, Paulo foi acompanhado por Barnabé e João Marcos, indo até 
Antioquia. Fez alguns milagres nos locais onde esteve e ordenou a eleição de sacerdotes para exercer 
cargos nas igrejas. Na empreitada missionária subsequente, quem o acompanhou foi Silas, Lucas e 
um jovem chamado Timóteo. Voltou à cidade de Pisídia, passando por Frígia, Galácia, Mísia, Trôade 
e Macedônia. Formou comunidades cristãs em Filipos, Tessalônica e Bereia, mas teve que fugir para 
Atenas por causa da acirrada perseguição dos judeus.
A terceira viagem missionária de Paulo foi com Lucas, Timóteo, Tito e outros. Mais uma vez foi a 
Pisídia e passou por Éfeso, Macedônia, Ilíria, Corinto, Filipos, Trôade e Mileto, onde se despediu dos 
106
Unidade II
presbíteros da Ásia Menor. Lá, pela última vez, ele afirmou aos cristãos que o Espírito Santo os havia 
constituído como pastores, prevenindo-os contra futuras heresias. Depois, passou por Cesareia e seguiu 
para Jerusalém, mesmo prevendo que lá a má fortuna o aguardava.
Séculos mais tarde, quando a capital do Império Romano mudou para Constantinopla, a autoridade 
dos pontífices romanos aumentou, não apenas por sua dignidade espiritual, mas também pelos muitos 
bens que possuía a Sé apostólica. Sobre essa situação, Romag (1949, p. 42) comenta:
Desde muito, reunira a Igreja de Roma numerosos latifúndios na Itália e nas 
ilhas vizinhas, que, por circunstâncias de tempo e por motivos religiosos, 
haviam-lhe sido oferecidos. No segundo período, estenderam-se sobre quase 
todas as províncias do império ocidental. Eram chamados de Patrimônio de 
S. Pedro. Como senhor e administrador dessas imensas doações e legados, 
tornara-se o papa cada vez mais independente em relação aos imperadores 
e seus representantes, os exarcas de Ravena. Gregório II (715-731) e 
Gregório III (731-741) mostravam-se como verdadeiros soberanos, embora 
não tivessem ainda direitos de soberania.
Entre os séculos VIII e X, mais especificamente entre o pontificado de Nicolau I e o de 
Leão IX, poucos líderes da Igreja de Roma foram bons papas. E isso não por falta de números: 
“Aproximadamente quarenta [homens] ocuparam o trono papal nesse período” (CAIRNS, 1995, 
p. 164). Em meados do século XI, um grande escândalo envolveu Bento IX, conhecido como papa 
indigno, que foi expulso de Roma e substituído por Silvestre III. Bento voltou a Roma e vendeu o 
trono papal, por uma grande quantia em dinheiro, a um indivíduo conhecido como Gregório VI, e 
mesmo assim não abriu mão do papado.
A partir desse momento, passaram a existir três papas, todos alegando a própria legitimidade. 
O imperador romano, Henrique III, convocou um sínodo em 1046, depondo Bento e Silvestre e obrigando 
Gregório a renunciar em favor de Clemente II, que faleceu rapidamente. Então, Henrique recomendou 
outra pessoa, que também ocupou o cargo por pouco tempo. Finalmente, Henrique indicou seu próprio 
primo, Bruno, que ficou conhecido como papa Leão IX.
Após a chegada desse papa ao trono, a história dos papas inexpressivos mudou: tanto ele quanto seus 
sucessores foram homens dignos, como Nicolau II e Gregório VII. A eleição dos papas saiu do controle 
romano, ficando a cargo dos líderes eclesiásticos no Colégio dos Cardeais em 1059. Com Inocêncio III, o 
papado atingiu seu apogeu na história.
Esse papa teve tanto poder que submeteu os governantes das nações-Estado a sua vontade, 
dominando a primeira parte da grande guerra contra os descrentes da Terra Santa. Os fundamentos 
intelectuais do poder papal foram fortalecidos através das universidades e do escolasticismo. 
Muitos monges zelosos aderiram ao poder papal, fazendo-se obedientes servos do papa, sobretudo por 
causa da reforma monástica elaborada por ele. Tanto Inocêncio III quanto Gregório VII se destacaram 
no cenário papal medieval.
107
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Esses homens não aceitavam a ideia de que Deus concedera ao papa e 
ao governo temporal a soberania coordenada das almas e dos corpos dos 
homens. O papa não podia aceitar a ideia de que derivava sua autoridade 
sobre a alma dos homens do governante temporal a quem Deus fizera 
soberano; por sua vez, o governante não podia concordar com a ideia de que 
exercia sua soberania sobre os corpos dos homens em virtude da graciosa 
concessão de poder feita pelo papa (CAIRNS, 1995, p. 169).
Por contado crescimento de falsas crenças, no IV Concílio de Latrão, a Igreja adotou medidas severas. 
Inocêncio III fixou sanções aos questionadores pelo Estado, inclusive o confisco das propriedades 
se necessário, estendendo-se a punição de excomunhão para as autoridades seculares que não 
colaborassem com essa norma. Todas essas medidas e inúmeras outras tomadas pelo papa colaboraram 
para a expansão da Igreja Católica na época medieval.
A filosofia moderna ocidental está profundamente marcada pelo cristianismo, 
de modo especial pelo catolicismo. No século XIV, a filosofia escolástica 
entrou em decadência para ceder lugar a uma nova racionalidade, prática e 
voltada para a transformação terrestre. Com o Humanismo e o Renascimento 
rompe-se o vínculo com o velho mundo feudal e cria-se um novo método 
de investigação e conhecimento, que se apoia na razão e na experimentação 
científica (ZILLES, 1991, p. 22-23).
6.4 A invenção do Diabo e do purgatório
Uma das preocupações do cristianismo a partir do ano 1000 foi estruturar e transmitir a ideia dos 
ambientes pós-morte. Embora já estivessem presentes na consciência do indivíduo medieval, não foram 
descritos em detalhes até o século XII. O inferno, o purgatório e o paraíso, fortificados como instituições, 
passaram a controlar a conduta do cristão medieval.
Nesse período, os ambientes do além foram estruturados para explicar o destino do homem depois de 
sua morte. Isso se fortaleceu entre o ano 1000 e o século XV, com a homogeneidade adquirida pelas divisões 
do pós-morte cristão. Inicialmente havia cinco estruturas: o limbo das crianças, o limbo dos patriarcas, o 
inferno, o purgatório e o paraíso. Mas a concepção que prevaleceu e foi mais bem apropriada pelos fiéis 
manteve apenas três desses locais: o inferno, o purgatório e o paraíso (LE GOFF, 1995).
No inferno estão os que pecaram e não seguiram os ensinamentos da Igreja cristã. No purgatório 
encontram-se os arrependidos de seus atos. No paraíso acham-se os abençoados, que foram bons em 
vida e seguiram os mandamentos cristãos. O inferno, portanto, foi descrito como um ambiente de 
punição, em que residiam os demônios e o próprio Diabo; um local de terror, escuro e fundo, onde o 
peso de cada pecado prevalece e afunda para o centro a alma dos danados.
Na Bíblia hebraica, não aparece a palavra Diabo, mas Satanás, termo que geralmente remete 
ao adversário de Deus. Contadores de histórias hebreus já no século VI a.C. mencionavam um ser 
sobrenatural chamado Satanás, um anjo enviado por Deus que tinha como objetivo bloquear ou obstruir 
108
Unidade II
a atividade humana. Pagels (1996, p. 66) diz que “a raiz stn significa ‘um que é contra, obstrui ou age 
como adversário’. O termo grego diabolos, mais tarde traduzido como ‘demônio’, significa literalmente 
‘alguém que atira alguma coisa no caminho de alguém’”. Como vimos, também é possível que o termo 
tenha origem africana.
Quando Satanás aparecia numa narrativa, isso acontecia para explicar os impedimentos que estavam 
diante de alguém. Não necessariamente se fazia referência a um personagem específico, mas muitas 
vezes ao agente do pecado humano. Outros invocavam essa figura extranatural para responsabilizá-la 
por bloquear projetos ou objetivos humanos ou se opor a eles.
No entanto, cabe chamar a atenção para o fato de que esse “anjo” mandado por Deus não era 
fatalmente maligno, pois em geral era enviado como o anjo da morte, para cumprir uma missão 
específica, que poderia ser dissociada da vontade humana. Satanás também podia ser enviado por Deus 
para proteger o homem de um mal maior.
Um exemplo aparece na história de Balaão, registrada no Pentateuco. Balaão desobedeceu a Javé 
tentando ir a um local onde se determinou que não fosse. Balaão selou uma jumenta e partiu, mas Deus 
se irritou com ele pela desobediência. Por conseguinte, o anjo do Senhor se pôs no caminho, como um 
adversário ou obstrutor. Esse mensageiro sobrenatural permaneceu invisível a Balaão, mas a jumenta o 
viu e parou no caminho:
Quando a jumenta viu o anjo do Senhor parado no caminho, empunhando 
uma espada, saiu do caminho e foi-se pelo campo. Balaão bateu nela para 
fazê-la voltar ao caminho. Então o anjo do Senhor se pôs num caminho 
estreito entre duas vinhas, com muros dos dois lados. Quando a jumenta viu 
o anjo do Senhor, encostou-se no muro, apertando o pé de Balaão contra 
ele. Por isso ele bateu nela de novo. O anjo do Senhor foi adiante e se colocou 
num lugar estreito, e não havia espaço para desviar, nem para a direita nem 
para a esquerda. Quando a jumenta viu o anjo do Senhor, deitou-se debaixo 
de Balaão. Acendeu-se a ira de Balaão, que bateu nela com a sua vara. Então 
o Senhor abriu a boca da jumenta, e ela disse a Balaão: “Que foi que eu lhe 
fiz, para você bater em mim três vezes?”. Balaão respondeu à jumenta: “Você 
me fez de tolo! Quem dera eu tivesse uma espada na mão; eu a mataria 
agora mesmo”. Mas a jumenta disse a Balaão: “Não sou sua jumenta, que 
você sempre montou até o dia de hoje? Tenho eu o costume de fazer isso 
com você?”. “Não”, disse ele. Então o Senhor abriu os olhos de Balaão, e 
ele viu o anjo do Senhor parado no caminho, empunhando a sua espada. 
Então Balaão inclinou-se e prostrou-se, rosto em terra. E o anjo do Senhor 
lhe perguntou: “Por que você bateu três vezes em sua jumenta? Eu vim 
aqui para impedi-lo de prosseguir porque o seu caminho me desagrada. 
A jumenta me viu e se afastou de mim por três vezes. Se ela não se afastasse, 
a esta altura eu certamente o teria matado; mas a ela eu teria poupado” 
(BÍBLIA…, [s.d.], Números 22,23-33).
109
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Após receber essa punição verbal e, principalmente, ter essa visão aterrorizante, Balaão concordou 
em fazer a vontade de Javé, que falou através de seu satanás.
Outra história sobre Satanás está registrada no livro de Jó, que o descreve como um mensageiro 
sobrenatural, membro da corte real de Deus. Diferentemente do satanás de Balaão, que o protegeu do 
mal, o de Jó teve outro papel. Ao lermos o excerto, vemos que Javé admite que Satanás o incitou a agir 
contra Jó: “Disse então o Senhor a Satanás: ‘Reparou em meu servo Jó? Não há ninguém na terra como 
ele, irrepreensível, íntegro, homem que teme a Deus e evita o mal’” (BÍBLIA…, [s.d.], Jó 1,8).
A trama começa quando Satanás aparece como um anjo, um filho de Deus (ben Elohim). Esse termo 
do idioma hebraico também pode ser traduzido por “um dos seres divinos” (PAGELS, 1996, p. 68). Como 
os demais anjos da hoste celestial, certo dia, Satanás se apresentou diante do Senhor. Quando lhe 
perguntado de onde vinha, sua resposta foi que estava passeando pela terra.
O cronista explora a similaridade entre o som das palavras hebraicas satan 
e shût, que significa “rodear”, sugerindo que o papel especial de Satanás na 
corte celestial é o de uma espécie de agente ambulante de espionagem, como 
aqueles que muitos judeus na época teriam conhecido – e detestado – 
como membros do refinado sistema de polícia secreta e espiões do rei da Pérsia. 
Tidos como “o olho do rei” ou “o ouvido do rei”, esses agentes vagueavam pelo 
império à procura de sinais de deslealdade entre o povo (PAGELS, 1996, p. 68).
Nesse momento, Deus se vangloria dizendo ser Jó um de seus servos mais leais. A resposta que 
Satanás dá ao Senhor é desafiadora, procurando pôr a fidelidade de Jó à prova:
“Será que Jó não tem razões para temer a Deus?”, respondeu Satanás. “Acaso 
não puseste uma cerca em volta dele, da família dele e de tudo o que ele 
possui? Tu mesmo tens abençoado tudo o que ele faz, de modo que todos 
os seus rebanhos estão espalhados por toda a terra. Mas estende a tua mão 
e fere tudo o que ele tem, e com certeza ele te amaldiçoará na tua face” 
(BÍBLIA…, [s.d.], Jó 1,9-11).
Assim, Deus concorda com o desafio e permite que Satanás devaste todas as riquezas e propriedades 
de Jó, o homem mais próspero de todo o Oriente, o qual perde não apenas bois, ovelhas e camelos, 
mas todos os seus filhos e filhas. Contudo,isso não é suficiente para Satanás. Quando ele novamente 
comparece diante de Deus, o Senhor mais uma vez enfatiza a integridade de Jó, mesmo após ter sofrido 
essa terrível devastação. Satanás pede autorização para pressioná-lo ainda mais:
“Pele por pele!”, respondeu Satanás. “Um homem dará tudo o que tem por 
sua vida. Estende a tua mão e fere a sua carne e os seus ossos, e com certeza 
ele te amaldiçoará na tua face.” O Senhor disse a Satanás: “Pois bem, ele está 
nas suas mãos; apenas poupe a vida dele” (BÍBLIA…, [s.d.], Jó 2,4-6).
110
Unidade II
A narrativa termina com Jó suportando a prova, Satanás se retirando, e a sorte de Jó sendo mudada, 
pois Deus concede a ele o dobro de tudo quanto tinha. Observemos um detalhe: apesar de Satanás 
prejudicar muito a um homem justo, ele continua a ser um anjo, membro da corte celestial e servo 
obediente de Deus.
No mesmo período em que o livro de Jó foi escrito, cerca de 550 a.C., outros autores bíblicos 
também invocaram um satanás para tornar inteligível o conflito que reinava em Israel. O historiador 
da corte recorreu a um satanás para relatar a origem do censo que o rei Davi introduziu em Israel 
no ano de 1000 a.C., com o intuito de criar um sistema de tributos. Essa ordem enfrentou intensa 
oposição, mesmo entre os comandantes do exército encarregados de executá-la. Joabe, o general de 
confiança de Davi, avisou-o de que sua atitude estava sendo má, e os demais comandantes quase 
iniciaram um motim, só desistindo quando perceberam que o rei não arrefeceria.
Por que Davi teria cometido o que o cronista considera um ato mau, agressivo contra Israel? Pagels 
(1996, p. 70) explica:
Não podendo negar que a ordem condenável partira do rei, mas querendo 
condenar o ato de Davi sem atingir diretamente a pessoa do rei, o autor de 
Crônicas sugere que um adversário sobrenatural na corte divina conseguira 
infiltrar-se na casa de Israel e levar o rei ao pecado: “Então Satanás se 
levantou contra Israel, e incitou Davi a levantar o censo de Israel” (1 Crônicas 
21,1). Mas, embora um poder angelical tivesse levado Davi a cometer esse 
ato, de outra maneira inexplicável, o cronista adverte que o rei era, apesar 
disso, pessoalmente responsável – e culpado. Tudo isso desagradou a Deus, 
pelo que feriu a Israel. Mesmo depois de Davi ter se humilhado e confessado 
seu pecado, o irado Senhor castigou-o, enviando um anjo vingador para 
destruir 70 mil israelitas com uma praga. E o Senhor chegou quase ao ponto 
de destruir a própria cidade de Jerusalém.
Aqui, Satanás é uma forma de tornar claro o motivo que levou Davi a dar aquela ordem. Outro 
exemplo é oferecido pelo profeta Zacarias, que descreve Satanás como o responsável por separar o povo 
em partidários. A nação de Israel se dividira em dois grupos: os que permaneceram em Israel e os que 
foram exilados. Esses últimos, quando retornaram, não foram bem recebidos pelos compatriotas, que os 
viram como agentes do rei persa, o qual os havia libertado do exílio na Babilônia. Zacarias narra uma 
visão na qual Satanás falava pelos habitantes do campo, os quais afirmavam que o sumo sacerdote que 
voltava não era mais digno de seu cargo.
Depois disso ele me mostrou o sumo sacerdote Josué diante do anjo do 
Senhor, e Satanás, a sua direita, para acusá-lo. O anjo do Senhor disse a 
Satanás: “O Senhor o repreenda, Satanás! O Senhor que escolheu Jerusalém 
o repreenda! Este homem não parece um tição tirado do fogo?” (BÍBLIA…, 
[s.d.], Zacarias 3,1-2).
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FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Nessa passagem, Satanás era porta-voz do partido descontente (contrário aos compatriotas que 
voltavam), e assumia uma característica funesta, como no exemplo de Davi. Note que aqui seu papel 
começa a mudar: passa de agente para adversário de Deus.
Cerca de quatrocentos anos depois, após os judeus recuperarem a independência do domínio dos 
selêucidas – descendentes de Alexandre, o Grande –, os conflitos internos se acirraram. Durante séculos, 
os judeus haviam sido pressionados a assimilar os costumes das nações estrangeiras que os dominaram: 
babilônios, persas e agora a dinastia criada por Alexandre. Antíoco Epifânio, quando desconfiou que os 
judeus tentariam criar resistência a seu domínio, resolveu erradicar todos os traços da cultura judaica:
Em primeiro lugar, declarou ilegal a circuncisão, bem como o estudo e a 
observância da Torá. Depois invadiu o Templo de Jerusalém e profanou-o ao 
consagrá-lo ao deus olímpico Zeus, dos gregos. A fim de impor submissão 
ao novo regime, construiu e fortaleceu uma maciça fortaleza a cavaleiro do 
próprio Templo de Jerusalém (PAGELS, 1996, p. 72).
Alguns anos depois, os judeus recuperaram o controle do Templo, da classe sacerdotal e do governo, 
o que não culminou em paz aos israelitas, pois a história relatada em 1 Macabeus mostra que eles 
estavam dispostos a resistir às ordens do rei estrangeiro, para manter as tradições ancestrais e combater 
de forma simultânea dois problemas: de um lado, as forças restantes de ocupação; do outro, os judeus 
que vergavam ao domínio estrangeiro.
Embora pareça estranho que parte do povo judeu defendesse o domínio de Antíoco, a razão era 
simples: esses judeus, que eram principalmente da classe alta, caso apoiassem a sociedade helenista, 
poderiam participar plenamente dos poderes e privilégios dessa gente, acessíveis apenas aos cidadãos 
gregos. No entanto, a maioria dos judeus das classes simples de Jerusalém, composta de comerciantes, 
artesãos e lavradores, abominava os judeus helenizados, pois os considerava traidores de seus 
compatriotas e até do próprio Deus. Essa distinção produziu uma dissensão interna, em especial sobre 
quem deveria controlar as instituições, se o partido separatista radical, o dos macabeus; ou o partido 
helenizante, que dispunha de uma situação privilegiada.
Depois, outros grupos dissidentes e mais radicais se juntaram aos fariseus na denúncia contra a 
grande família sacerdotal, sobretudo o sumo sacerdote e seus aliados. Esses radicais passaram a invocar 
Satanás a todo momento para representar seus inimigos judeus, transformando esse anjo desagradável 
numa figura muito mais maligna e muito mais importante. Dessa maneira, Satanás começou a se tornar 
o que seria para a cristandade posterior, o adversário de Deus, seu rival e inimigo.
No início do cristianismo, era comum pensar que o demônio assumia a feição dos gladiadores e dos 
leões que os trucidavam nas arenas romanas. No século IV, por conta da necessidade de investir num 
dualismo que facilitasse a luta do bem contra o mal, num concílio na cidade de Toledo, os religiosos 
inventaram a figura do Diabo, muito diferente da de Satanás, anjo decaído. O Diabo era um ser dotado 
de chifres, rabo, pele avermelhada, pernas de bode e um tridente. Foi das imagens do deus grego Pã que 
se extraíram os principais elementos iconográficos de Satã. Uma iconografia mais específica do Diabo 
foi desenvolvida no século XI, conservando-se, porém, a silhueta antropomórfica.
112
Unidade II
Tudo o que o cristianismo classificava como pagão e impuro pertencia ao reino do mal. A associação 
das divindades pagãs com o Diabo tornou-se uma coisa natural para os primeiros cristãos, porque 
eles eram perseguidos por um mundo pagão. Esse tipo de associação refletia o modo como a Igreja 
interpretava tudo o que não era sua teologia.
A construção do reino das trevas feita pelo cristianismo engloba tudo o que é proibido em seu universo 
de valores. A demonização do “outro”, dos concorrentes dos cristãos no campo religioso, e a formação da 
iconografia do Diabo são um exemplo de como o cristianismo interage com as demais religiões. Em 1215, o 
Concílio de Latrão determinou que o Diabo e os demônios eram criaturas criadas por Deus que preferiram 
se desviar da autoridade divina. Nesse contexto, ao mesmo tempo que o inimigo se tornava claramente 
conhecido, surgiam histórias sobre pessoas que se entregavam ao temível lado da escuridão.
A disseminação de cultos aos demônios ocorreu no séculoXIV. Em alguns países da Europa, a ordem 
dos luciferinos pregava a ideia de que o escolhido de Deus era Lúcifer, pois esse foi o primeiro anjo 
de luz. Na Idade Moderna, o demônio era o maior acusado de conduzir as pessoas a praticar os atos 
heréticos combatidos pela Inquisição. Os manuais de exorcismo detalhavam as manifestações do Diabo 
e as formas de expulsá-lo. Houve então uma consolidação do Satanás do Antigo Testamento com o 
Diabo, que passou a ser chamado indistintamente de vários nomes: Satanás, Belzebu, Shemihazah, 
Azazel, Belial, Príncipe das Trevas. Posteriormente, outras histórias foram contadas, mostrando como 
potências angélicas, inchadas de luxúria ou soberba, caíram do céu para o pecado, tornando-se rivais 
eternos de Deus, sem qualquer possibilidade de perdão ou absolvição, nem sequer direito ao purgatório.
 Saiba mais
Para conhecer a história de nomes como Satã, Belzebu, Lilith, Asmodeu, 
Sátiro, Demônio e Belial, leia:
FORTEA, J. A. Summa daemoniaca: tratado de demonologia e manual de 
exorcistas. São Paulo: Paulus, 2004.
GOUVÊA, R. Q. O anticristo na Bíblia e na história: uma nova perspectiva 
para a teologia a partir da escatologia. São Paulo: Fonte, 2011.
Ao contrário do que a maioria pensa, o purgatório não é privativo da Igreja Católica. Os judeus, por 
exemplo, acreditavam haver um lugar onde a pessoa que não fosse totalmente boa ou totalmente má 
receberia castigos temporários para purgar seus erros, até estar pronta para ir ao paraíso. Para outras 
religiões, como a do povo indiano, existem locais intermediários, os quais fazem parte de uma série de 
reencarnações que levariam até o céu ou até o inferno, dependendo da conduta de cada um. O budismo 
defende que o inferno é uma espécie de purgatório, e que o budista, de acordo com as ações tomadas 
por ele durante a vida, fica lá até que o carma negativo seja liquidado.
113
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Para a Igreja Católica, o purgatório é um local onde as pessoas purificam os pecados e cumprem sua 
pena, por terem morrido culpadas de seus erros menores, conhecidos como pecados veniais. Segundo a 
teologia de Roma, aqueles que morreram de forma repentina talvez não tenham conseguido pedir perdão 
por suas falhas. Isso significa que, embora a justiça divina se dê por intermédio do batismo, é possível que 
ela não tenha sido plenamente satisfeita. Assim, mesmo que a alma do indivíduo escape do inferno, deverá 
suportar uma punição temporária no purgatório, a fim de expiar os pecados que ainda lhe restam.
Conforme sua gravidade, o pecado pode ser dividido em venial ou mortal: o venial não separa 
totalmente o homem de Deus, mas macula essa comunhão; o mortal, por outro lado, afronta gravemente 
a santidade, desvirtuando o homem de sua principal finalidade, conforme explica o catecismo:
O pecado mortal requer pleno conhecimento e “pleno consentimento”. 
Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, de sua oposição à 
lei de Deus. Envolve também um consentimento suficientemente deliberado 
para ser uma escolha pessoal. A ignorância afeada e o endurecimento do 
coração (Marcos 3,5-6) não diminuem, antes aumentam o caráter voluntário 
do pecado (AQUINO, 2016, p. 228).
Assim, o pecado mortal ocorre apenas quando o delito cometido contra Deus se enquadra nos 
requisitos citados. Quando a pessoa o comete, suas consequências são devastadoras:
O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, como o 
próprio amor. Acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, 
isto é, do estado de graça. Se esse estado não é recuperado mediante o 
arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do reino de Cristo e a 
morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções 
para sempre, sem regresso. No entanto, mesmo podendo julgar que um ato é 
em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e 
à misericórdia de Deus (AQUINO, 2016, p. 228).
A doutrina do purgatório, embora tenha começado a ser desenvolvida por Gregório I, o Grande, foi 
sistematizada apenas com o Concílio de Florença (1431-1445) (CAIRNS, 1995; GONZÁLEZ, 1995c).
6.5 A organização da Igreja Católica
Para compreender os principais aspectos religiosos que impactaram a Idade Média, é necessário 
conhecer o feudalismo. Num sentido mais amplo, foi um conjunto de práticas envolvendo questões de 
ordem econômica, social e política, registrado entre os séculos V e XV.
Nesse período, a Europa Ocidental sofreu uma série de transformações que possibilitou o surgimento 
de novas maneiras de pensar, agir e relacionar. A configuração do mundo feudal vinculou-se a duas 
experiências históricas concomitantes: a crise do Império Romano e as invasões bárbaras. Com a expansão 
do feudalismo por toda a Europa medieval, ocorreu a rápida ascensão de uma das mais importantes e 
poderosas instituições desse período: a Igreja Católica.
114
Unidade II
Aproveitando-se da expansão do cristianismo observada no fim do Império Romano, a Igreja Católica 
alcançou a condição de principal instituição a disseminar e refletir os valores da doutrina cristã. Ao se 
estabelecer numa sociedade extremamente marcada pelo pensamento religioso, o catolicismo se fez 
presente nos mais diferentes estratos sociais.
Dessa forma, a própria organização da sociedade medieval (dividida em clero, nobreza e servos) era 
um reflexo da santíssima trindade. Por sua vez, a vida terrena era desprezada em favor da vida celestial 
e seus benefícios. Muitos costumes da época estavam influenciados pela questão da vida após a morte.
Além de se destacar pela sua presença no campo das ideias, a Igreja também alcançou grande 
poder material. Durante a Idade Média, ela passou a controlar grande parte dos territórios feudais, 
transformando-se em importante chave na manutenção e nas decisões do poder nobiliárquico. A própria 
exigência do celibato foi um mecanismo que permitiu à Igreja conservar seu patrimônio. O crescimento 
do poder material da Igreja chegou a causar reações dentro da própria instituição.
Aqueles que viam na influência político-econômica da Igreja uma ameaça aos princípios religiosos 
começaram a se concentrar em ordens religiosas que se abstinham de qualquer tipo de regalia. 
Essa cisão nas práticas da Igreja dividiu o clero em duas vertentes:
• Clero secular: administrava os bens da Igreja e a representava nas questões políticas.
• Clero regular: era constituído pelas ordens religiosas mais voltadas às práticas espirituais e à 
pregação de valores cristãos.
A Igreja também teve monopólio sobre o mundo letrado daquele período. Exceto os membros da 
Igreja, pouquíssimas pessoas eram alfabetizadas ou tinham acesso às obras escritas. Muitos mosteiros 
medievais possuíam grandes bibliotecas, em que obras do mundo clássico e oriental eram preservadas. 
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, por exemplo, foram dois membros da Igreja que produziram 
tratados filosóficos dialogando com pensadores da Antiguidade.
Mesmo contando com tamanho poder e influência, a Igreja também sofreu com manifestações 
dissidentes. As heresias, as seitas e os ritos pagãos interpretavam o texto bíblico de maneira independente 
ou não reconheciam o papel sagrado da Igreja. Em 1054, o Cisma do Oriente marcou uma grande 
ruptura interna da Igreja, que deu origem à Igreja Bizantina.
Assim, quando falamos sobre a Europa feudal, encontramos um elemento que serve para caracterizá-la 
acima de todas as diferenças nacionais ou regionais, ou seja, sua unidade de fé. Por esse motivo, o 
cristianismo do Ocidente, agrupado na Igreja Católica, é o grande protagonista da história medieval.
A expansão do cristianismo ocorrida nos últimos séculos do Império Romano ampliou-se com as 
invasões bárbaras, num trabalho contínuo de evangelização realizado principalmente por monges 
missionários. Um fator crucial nesse processo foi a conversão de líderes importantes, o que implicou a 
conversão maciça de seus subordinados, facilitando os trabalhos de instruçãoe ensino.
115
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Cabe destacar que não havia muitos limites para a expansão do cristianismo ocidental, pois naquela 
época não era possível falar de fronteiras precisas. Os obstáculos que o cercavam e impediam sua maior 
expansão se relacionavam com Bizâncio e com o islã.
 Observação
O Império Bizantino foi a continuação do Império Romano na 
Antiguidade tardia e na Idade Média. Sua capital, Constantinopla (atual 
Istambul), originalmente era conhecida como Bizâncio.
O Império Bizantino rompeu com Roma em 1054. Nesse momento, a divisão em duas Igrejas se 
tornou definitiva. O motivo mais visível do Cisma foi uma disputa teológica sobre o mistério da trindade, 
mas também existiam rivalidades entre as autoridades eclesiásticas de Roma e Constantinopla, todas 
aprofundadas pelo mal-entendido de dois modos de vida diferentes.
O islã dominou o norte da África, o Oriente Médio e quase toda a Península Ibérica, sendo considerado 
o grande inimigo do cristianismo medieval. Apesar disso, a fronteira islâmica não ficou completamente 
fechada. Os fluxos comerciais foram mantidos e, por meio desses contatos, houve uma intensa penetração 
das influências intelectuais islâmicas, particularmente, fortes no campo da ciência e da tecnologia.
Nos limites do domínio cristão, grandes campanhas foram feitas – ou de conquista de armas e 
conversão forçada, ou de ação missionária. Depois dessas campanhas, a fronteira se estabilizou ao 
longo de uma linha que ia da Lituânia à Croácia. Além dela estava o mundo desconhecido e lendário dos 
mongóis, em que apenas alguns missionários, comerciantes e aventureiros entraram.
A maior parte da cristandade, com exceção de Bizâncio e de alguns grupos heréticos, se integrou à 
Igreja Católica, aceitou seu dogma, cumpriu seu ritual e se submeteu a sua autoridade.
Durante certo período, o representante típico do clero secular foi o bispo. Mais tarde, porém, com a extensão 
do culto, surgiu a figura do pároco. Esse sacerdote era encarregado de cuidar (espiritualmente) dos fiéis de sua 
paróquia. Determinado número de paróquias constituía uma diocese, administrada pelo bispo que residia na 
cidade principal. Várias dioceses agrupavam-se em uma província, sob a autoridade de uma metrópole.
Com o tempo, a soberania do bispo de Roma tornou-se incontestável. Os papas dessa época 
dirigiam a defesa da fé contra as heresias, realizavam a evangelização dos bárbaros e afirmavam sua 
predominância sobre os demais bispos e monges. Pela autoridade que tinham, decidiram a ruptura 
progressiva com a Igreja Bizantina e asseguraram seu poder temporal.
 Observação
No entendimento da Igreja Católica, o poder temporal está relacionado 
com as coisas de seu tempo, em oposição ao eterno, ligado aos princípios 
da religião.
116
Unidade II
6.5.1 O Estado da Igreja
Antes do século VIII, a Igreja já possuía importantes domínios, tanto nas adjacências romanas 
quanto no restante da Itália. Eram os territórios que constituíam o chamado Patrimônio de São Pedro. 
Estes, porém, estavam muito expostos a invasões bárbaras.
Os senhores italianos, entre eles o papa, tiveram que enfrentar essa situação sozinhos. O papa 
Gregório I, o Grande (590-604), desempenhou um papel significativo nessa situação, tornando-se o 
líder da resistência contra os invasores e o organizador da cidade de Roma. Por isso, ele é considerado 
o criador do poder temporal da Igreja.
Mais tarde, no século VIII, quando Pepino, o Curto, reinou sobre os francos, o papa Estêvão Il, 
sentindo-se ameaçado pela expansão dos lombardos, que dominavam o norte da Itália, pediu sua 
ajuda. Pepino forçou os lombardos a se afastar e doou para a Igreja os territórios que, a partir desse 
momento (756), se tornariam o chamado Estado Pontifício. A doação de Pepino foi confirmada anos 
depois por Carlos Magno.
Daí em diante, e até o século XIX, o papa seria, além de chefe espiritual do catolicismo, chefe 
temporal de um Estado italiano. Isso lhe traria vantagens práticas necessárias para a administração cada 
vez mais complexa e cara da Igreja, mas também ocasionaria importantes problemas políticos na Itália.
6.5.2 A feudalização do clero
Graças às doações dos fiéis, o clero secular e o clero regular adquiriram importantes extensões 
de terra. Os bispos e abades (chefes dos mosteiros) tornaram-se senhores de outros vassalos (leigos 
ou eclesiásticos) e, por sua vez, vassalos de outros senhores. Assim, a comunidade do clero perdeu 
suas demandas originais. Bastava que o bispo correspondente a determinado feudo fosse investido na 
função. Isso fez leigos poderosos intervirem na designação de bispos, abades e párocos por razões não 
religiosas. Esse panorama se repetia em toda a escala da hierarquia, do pároco ao papa.
Será fácil deduzir o quanto a função religiosa foi prejudicada se for levado em conta que não eram 
mais a vocação ou os méritos que prevaleciam no acesso a posições eclesiásticas. O mais relevante era o 
cumprimento das tarefas de um senhor feudal, a manutenção de seus hábitos e costumes. Essa prática 
estava totalmente em desacordo com a missão espiritual confiada originalmente ao clero.
Muito arraigado aos costumes da sociedade de sua época, violento e desordenado, o clero sofria dos 
mesmos distúrbios de conduta da nobreza, o que era agravado por sua investidura religiosa. Aqueles 
que conseguiam escapar de toda essa situação ficavam bastante preocupados com o futuro da Igreja. 
Duas práticas em especial lhes causavam escândalo:
• Simonia: compra e venda de encargos eclesiásticos.
• Nicolaísmo: violação do celibato e da castidade sacerdotal.
117
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
6.6 O reformismo na Igreja Católica
A preocupação com a reforma da Igreja teve duas manifestações principais: o reformismo das ordens 
monásticas e o reformismo dos papas.
6.6.1 O reformismo das ordens monásticas
Desde suas origens no século IV, e especialmente no século VI, o monarquismo ocidental fez muito 
progresso, e o mundo cristão foi povoado por uma multidão de conventos, a maioria deles sujeita 
às regras beneditinas. Após um período de crescimento, durante o qual se desenvolveu um esforço 
extraordinário para evangelizar os bárbaros, o monarquismo também entrou no processo de feudalização 
e esqueceu suas regras fundamentais.
No século IX, surge na França uma iniciativa que transformará os mosteiros do Ocidente. A partir de 
então, não haveria mais unidades descentralizadas e isoladas; todas elas passariam a fazer parte de uma 
organização centralizada, vinculada a determinada ordem monástica.
Em 910, foi criada a Abadia de Cluny. Seus criadores buscaram a restauração e a plena validade das 
regras de São Bento, que dão muito mais importância para a oração do que para o trabalho manual. 
Esse novo mosteiro se declarou emancipado de qualquer dependência do poder secular e da autoridade 
dos bispos e passou a responder diretamente ao papa. A direção dos grandes abades proporcionou um 
crescimento extraordinário – no início do século XII, a ordem cluniacense tinha mais de 1.450 casas com 
cerca de 10 mil monges.
Vários setores da Igreja Católica, seguindo o modelo de Cluny e dentro de uma organização 
centralizada no domínio monástico, criarão mosteiros semelhantes na França, nas Ilhas Britânicas, 
na Itália, na Península Ibérica e no Sacro Império. A ordem cluniacense foi muito importante para o 
cristianismo. Ao pesquisar sua influência reformista no clero secular, é possível perceber que a construção 
de suas casas exerceu um papel de destaque no desenvolvimento da arte românica.
 Observação
O uso do termo românico para indicar a arte surgida durante a Alta 
Idade Média na Europa Ocidental ocorreu, pela primeira vez, em 1824, pelo 
arqueólogo francês De Caumont, sendo imediatamente adotado.
No entanto, a renovação da vida monástica não terminou por aí. Quando o movimento de Cluny 
pareceu perder seu vigor inicial, surgiram várias novas ordens, cada uma delas com objetivos semelhantes, 
mas mantendo sua independênciadas demais.
A fundação da Abadia de Cister (1098) marca o início de uma das ordens mais famosas, os 
cistercienses, em que se destaca a figura de São Bernardo de Claraval, cujas iniciativas dão fisionomia 
especial à ordem.
118
Unidade II
 Observação
Berço da ordem cisterciense, a Abadia Nossa Senhora de Cister, fundada 
em 1098 pelo abade Roberto de Molesme, foi onde São Bernardo começou 
sua vida monástica.
Nos mosteiros, o tempo dedicado à oração pelos monges austeros, vestidos com um pano branco 
rústico, será intercalado com a prática do artesanato e com o cultivo da terra. Assim, uma nova maneira 
de exercer a religião é introduzida na Igreja Católica do século XIII.
Outros reformadores religiosos, sensíveis às críticas levantadas pelo desempenho das ordens 
existentes e atendendo a realidades e ideias emergentes, darão bases diferentes para um novo 
monasticismo, o das ordens mendicantes. Os membros dessas ordens são pregadores itinerantes, 
porém integrados ao seio da Igreja. Cultivam a pobreza não só individual, mas também comunitária, 
e vivem de trabalho manual ou de esmolas.
Entre as novas ideias postas em prática, ressalta-se a propriedade coletiva dos mosteiros. 
Também passa a ser valorizada a saída do retiro para manter contato íntimo com as pessoas, estudando 
e pregando, principalmente nas cidades, que ressurgem nessa época. Duas grandes ordens mendicantes 
aparecem quase simultaneamente: a dos frades menores ou franciscanos, fundada por São Francisco de 
Assis (1209); e a dos pregadores ou dominicanos, fundada por São Domingos (1215).
Vale notar que não havia apenas monges nos conventos; havia também freiras. Essa prática já tinha 
começado nos primeiros dias da ordem beneditina e foi então continuada nos períodos subsequentes.
6.6.2 O reformismo dos papas
A tendência reformista se manifestou igualmente através da ação de sua mais alta hierarquia. 
As primeiras ações significativas aconteceram no pontificado do papa Gregório VII (1020-1085), o qual 
tinha por objetivo a limpeza moral da Igreja e sua emancipação do poder secular.
Gregório VII condenou severamente os que praticavam a compra e venda de benefícios eclesiásticos 
e os que violavam as regras do celibato sacerdotal. Proibiu os bispos de receber sua investidura de 
senhores leigos, e até mesmo rejeitou essas nomeações. Além disso, instou as pessoas a não comparecer 
aos cultos religiosos administrados pelo clero que estava em desacordo com essa determinação.
As medidas de Gregório VII suscitaram grande resistência por parte do clero acostumado a essas 
práticas, especialmente o clero alemão. Isso causou um desentendimento relevante entre o papa e o 
imperador Henrique IV. Embora Gregório VII tenha sido derrotado materialmente pelo imperador e 
morrido no exílio, seu trabalho seria continuado por outros papas e, juntamente com o monasticismo, 
contribuiria para a revitalização da Igreja.
119
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
6.7 O papado e o império
A coroação de Carlos Magno pelo papa Leão II (800) instilou em muitos a vontade de restaurar o 
Império Romano. Após a ruína do Império Carolíngio, essa ideia foi retomada na Alemanha, criando-se 
o Sacro Império Romano depois da coroação de Otto, o Grande (938). Os imperadores alemães intervieram 
muito ativamente na vida da Igreja, pela concessão de terras e benefícios, que transformava os bispos 
em seus vassalos, e pelo controle sobre a eleição dos papas. Assim, a ideia de unificar o cristianismo 
foi posta em prática, o que levou a um conflito de duas autoridades, uma espiritual (o papa) e outra 
temporal (o imperador), cujo escopo respectivo não abria a possibilidade de acordo.
 Lembrete
O Império Carolíngio foi estabelecido pela dinastia carolíngia, sendo seu 
maior representante Carlos Magno. Ocupando boa parte da região central 
da Europa, esse estado medieval é o embrião da atual França.
O imperador não discutia o poder espiritual do papa, mas considerava que a Igreja como instituição 
deveria estar sob seu controle ou supervisão. O papa, por sua vez, não negava o poder temporal do 
imperador; no entanto, proclamava a primazia do poder espiritual sobre o temporal e o consequente 
direito de intervir nele. O confronto foi inevitável e repleto de episódios espetaculares na maior parte 
da Idade Média.
O papa Nicolau II, por exemplo, publicou em 1059 um decreto que regulava as eleições papais, 
deixando-as reservadas para o Colégio de Cardeais. Foi a primeira tentativa de emancipar a eleição 
papal, tanto do imperador quanto dos senhores feudais italianos. O decreto não alcançou seu objetivo 
imediatamente, mas apontou o caminho e deu as bases para uma organização que, aperfeiçoada mais 
tarde, chegaria aos dias de hoje.
Já o papa Gregório VII, como visto, colidiu com o imperador Henrique IV, quando este resistiu em 
aceitar a proibição papal de que os bispos recebessem uma investidura feudal. O papa proclamou a 
destituição de Henrique IV e sua excomunhão. Preocupado com as consequências que essa medida 
lhe trouxe dentro do império, Henrique IV se humilhou em Canossa (1077) e foi perdoado. Depois de 
obter perdão e se sentir forte novamente, ele expulsou o papa, que morreu no exílio. Com o embate 
de Gregório VII e Henrique IV, começa a longa Disputa das Investiduras, um dos conflitos sem fim da 
Idade Média.
 Observação
A Penitência de Canossa foi a viagem que Henrique IV fez e a espera a 
que foi sujeitado para conseguir se encontrar com o papa Gregório VII, com 
o objetivo de solicitar-lhe a revogação de sua excomunhão.
120
Unidade II
Os episódios dessa “briga” têm semelhanças entre si. Geralmente se iniciam por tentativas do papa 
ou do imperador de fazer prevalecer sua respectiva posição. Ocorrida a ruptura, os partidos sempre 
usam métodos similares de luta: o papa anatematiza, excomunga e dispensa; o imperador obtém o 
apoio de parte do alto clero, nomeia um antipapa e dirige uma ação militar na Itália. Como nem 
o papa nem o imperador tinham força suficiente para uma vitória total ou duradoura, era comum haver 
acordos parciais ou temporários. Mais cedo ou mais tarde, o processo recomeçava.
A Concordata de Worms foi o mais importante desses acordos. Assinada em 1122 entre o papa 
Calisto II e o imperador Henrique V, estabeleceu uma dupla investidura: reconheceu ao imperador o 
direito de investir bispos com a autoridade secular (“pela lança”), mas não com a autoridade sagrada 
(“pelo anel e báculo”). Assim, o imperador podia monitorar a eleição de bispos e abades e fazer a 
concessão de feudos, mas o papa se reservava o direito de conceder autoridade religiosa, a única que 
poderia dar validade às designações.
6.7.1 O papado no século XIII
No século XIII, a força do papado dentro da Igreja aumentou consideravelmente. A centralização do 
poder pontifício estava crescendo, e a renda da Igreja (benefícios feudais, dízimos etc.) tornava-o não 
apenas espiritual, o que já era, mas também econômico.
O poder papal alcança o auge com Inocêncio III. Ele reivindica tanto sua supremacia espiritual 
quanto o direito de se pôr acima de imperadores e reis para julgar e decidir na maioria dos reinos 
cristãos: Sacro Império, França, Inglaterra, Sicília, Hungria, Aragão, Castela e Portugal – e muitos chefes 
se declaram vassalos, como os da Sicília, de Aragão, da Inglaterra, do Reino de Jerusalém e do Reino 
Latino de Constantinopla.
Depois de Inocêncio III, embora a organização eclesiástica avance e continue a emancipar-se do 
poder secular, o poder papal não será mais o mesmo. O Sacro Império vai perdendo importância e vão 
aparecendo os Estados nacionais, cujos reis cada vez mais rejeitarão qualquer intervenção, inclusive a 
do papado.
O incidente ocorrido entre Filipe, o Belo, rei da França, e o papa Bonifácio VIII foi o mais significativo. 
Eles entraram em conflito entre 1301 e 1303, cada um mantendo sua posição com energia máxima. 
Filipe, o Belo, representante dos interesses do nascente Estado nacional francês e apoiado pelos setoresmais altos da sociedade, não apenas resistia a toda interferência papal como também tentava limitar a 
autoridade dos tribunais eclesiásticos e a prática de arrecadar fundos por meio da Igreja. Bonifácio VIII 
pretendia manter com intransigência o princípio da superioridade do poder espiritual sobre o poder 
temporal, mas suas reivindicações na época já eram consideradas anacrônicas e não se sustentavam.
O incidente terminou quando o enviado de Filipe, o Belo, recrutou tropas na Itália e transformou o 
papa em seu prisioneiro no Ultraje de Anagni. Bonifácio VIII foi libertado no dia seguinte, mas morreu 
pouco depois, e o poder pontifício sofreu um forte golpe. A partir desse momento, e por muito tempo, 
o papado foi submetido à influência francesa, tanto que, em 1309, Clemente V decidiu mudar a sede 
pontifícia para a cidade francesa de Avignon.
121
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
 Observação
O Ultraje de Anagni, ocorrido entre 7 e 9 de setembro de 1303, consistiu 
na apreensão e aprisionamento do papa Bonifácio VIII, em seu palácio de 
Anagni, pelos emissários de Filipe, o Belo, rei da França.
6.8 A religiosidade medieval
Durante a Idade Média, a religião dominou a vida do indivíduo e da sociedade. A descrença não era 
admitida. Havia hereges, mas não agnósticos e ateus. Tudo era explicado de acordo com a fé. Existia uma 
mistura de esperança na salvação e medo do castigo, e essas foram as características da religião, ou seja, 
sua preocupação dominante.
Não havia uma separação clara entre a Igreja e o Estado, nem entre a vida religiosa e a civil. 
Tão afins eram a sociedade e a religião, que heresias foram confundidas com movimentos de rebelião 
social. O dogma, já elaborado nos primeiros séculos de vida da Igreja, era ensinado e pregado pelo 
clero secular e regular. A fé popular misturava cristianismo, sobrevivências pagãs e tradições locais. 
Nesse sentido, a Igreja Católica mantinha certos limites de tolerância, sendo inflexível fora deles.
O ideal da época, especialmente nos primeiros séculos, concentrava-se naqueles que se afastavam 
da sociedade e dedicavam a vida à religião. O eremita e o monge eram os personagens mais respeitados. 
As figuras que em vida demonstraram religiosidade e virtudes excepcionais, bem como praticaram ações 
consideradas singulares ou milagrosas, foram reverenciadas depois como santos da Igreja. Por esse 
motivo, durante alguns séculos, a canonização foi abundante. A partir do século X, os bispos decidiram 
que esse poder devia ser reservado ao papa.
A veneração popular se manifestou diante das relíquias ou imagens do santo, ou em peregrinações 
a seu túmulo. Muitas vezes, essas manifestações levavam a excessos e se transformavam em verdadeira 
adoração, contrariamente aos princípios cristãos. Vale observar que as visitas a santuários deram 
origem às peregrinações às quais os homens da Idade Média eram muito afeiçoados. Havia três 
principais centros de peregrinação: Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela.
A crença no Diabo e o medo de seus poderes também moveram poderosamente a imaginação 
popular. Apesar dos esforços da Igreja, havia muita crença no dualismo: Deus, a origem do bem, em 
oposição ao Diabo, fonte do mal. O Diabo foi imaginado com a forma de um personagem sedutor, que 
atraía o ardor do pecado, e de um terrível perseguidor das vítimas caídas em suas redes.
Em meio a esse processo religioso-cultural, lentamente foi imposto, com todo o cuidado, o culto à 
Virgem Maria, que a princípio não fazia parte do ritual católico.
A religião exerceu muita influência na moral pública e privada. Nesse sentido, aos pecados canônicos 
clássicos (idolatria, homicídio, adultério, usura, perjúrio, roubo e magia) foram adicionados outros, que 
122
Unidade II
visavam regrar a vida das pessoas. Para isso, contra grandes pecados e grandes pecadores, a Igreja usou 
grandes armas, de efeitos espetaculares: a excomunhão e a interdição. A excomunhão era a privação 
dos sacramentos, enquanto a interdição era o fechamento das igrejas e a proibição de serviços religiosos 
em determinado círculo eleitoral.
Os pecados eram pagos com penitências, públicas e privadas, detalhadas nos livros penitenciais. Por alguns 
anos, elas foram muito severas. Posteriormente, surgiram indulgências, ou seja, a possibilidade de, em casos 
específicos, resgatar o pecado por meio de uma boa ação ou um bom aporte financeiro em favor da Igreja.
A organização do ritual passou por algumas mudanças e incorporou novidades. No século V, o batismo 
de crianças tornou-se generalizado – antes, somente os adultos o recebiam. A partir do século VIII, o 
batismo por aspersão substituiu o batismo por imersão, típico dos séculos anteriores. Por esse motivo, 
os batistérios foram substituídos por fontes batismais nas igrejas.
A liturgia da missa também variou de acordo com a região. No entanto, a liturgia romana prevaleceu. 
Progressivamente, desenvolveram-se o canto religioso – em especial o gregoriano, atribuído ao tempo 
do papa Gregório Magno –, a polifonia e o uso do órgão.
Durante a Idade Média, o ritmo dos dias e das horas era marcado pela Igreja. O clero possuía o 
conhecimento para interpretar o calendário, e as igrejas tinham os sinos para divulgar as informações. 
O calendário adotado pela Igreja Católica acabou admitindo alguns feriados pagãos, mas sua estrutura 
principal se relacionava com os episódios centrais da vida de Jesus e com as festas dos santos, que aos 
poucos foram sendo incorporadas.
O calendário não contradizia o tempo natural: o ano era dividido de acordo com as estações. Quanto 
às divisões do dia, elas eram marcadas pelos sinos, que indicavam as horas de oração. Essas práticas 
diárias consistiam de oito preces diurnas e três ou quatro preces noturnas, as vigílias.
6.8.1 A Igreja e a cavalaria
A aristocracia feudal se caracterizava por um modo de vida em que o principal era ser um cavaleiro 
(cavalheiro). Esse modo de vida era exigido tanto na guerra quanto na paz, nos momentos de diversão, 
em torneios e caçadas. O acesso à cavalaria ocorria apenas após um extenso aprendizado. Assim, o 
futuro cavaleiro aprendia a andar a cavalo no castelo de seu pai (senhor feudal), onde também aprendia 
a manejar as armas. Na última etapa do treinamento, realizava suas primeiras experiências de combate 
nas tropas do senhor feudal. Ele só se tornava cavaleiro, de fato, depois de uma cerimônia de iniciação, 
na qual recebia as armas que utilizaria pelo resto da vida.
Ser cavaleiro era algo violento e perigoso, para ele próprio e para o resto da população, que sofria 
os efeitos das guerras contínuas. Por esse motivo, a Igreja procurou suavizar os rigores desse estado de 
guerra permanente, instituindo a Paz de Deus, a proibição de atacar os campos de igrejas e comerciantes, 
e a Trégua de Deus, a proibição de guerrear entre quarta-feira à tarde e segunda-feira de manhã. 
Esses mecanismos, porém, constituíam apenas medidas paliativas e fracas, uma vez que os costumes de 
guerra já estavam enraizados na sociedade e, por isso, eram difíceis de controlar ou regular.
123
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
Contudo, essa intervenção da Igreja obteve êxito em dar um caráter mais religioso à instituição da 
cavalaria, imprimindo um sinal especial a seus procedimentos, desde as cerimônias de iniciação até as 
obrigações contraídas pelo cavaleiro. Este deveria aspirar a ser um herói devoto, protegendo a Igreja, os 
fracos, os pobres, as viúvas e os órfãos. Na época das Cruzadas se acrescentaria a luta contra os infiéis 
como um objetivo superior a ser alcançado pelos cavaleiros.
6.8.2 As heresias
Como dito, a Europa Ocidental manteve sua unidade de fé durante a Idade Média. No entanto, houve 
quem não se submetesse completamente aos preceitos do dogma e tornasse pública a fé em aspectos 
não incluídos na fé católica. Por esse motivo, essas pessoas eram chamadas de hereges e condenadas 
com toda a severidade pela Igreja.
 Observação
Geralmente, define-se heresia como uma doutrina contráriaaos 
dogmas de uma Igreja ou de uma religião. Na Igreja Católica, a noção de 
heresia está presente desde o início de sua história.
A pregação de alguns “hereges” levou a movimentos religiosos e sociais importantes, como o caso 
das heresias valdense e albigense. A heresia valdense se iniciou por volta de 1170 pelo comerciante Pedro 
Valdo e seus primeiros seguidores, “os pobres de Lyon”. Eles renunciaram a suas propriedades, opuseram-se 
à propriedade privada e pregaram a pobreza apostólica. Mais ainda: criticaram a riqueza da Igreja e 
rejeitaram o sacerdócio. Sua influência se espalhou por toda a Provença, Piamonte e Lombardia.
Maior alcance teve a heresia albigense. De origens menos definidas, foi o produto de uma mistura 
de influências, do início do cristianismo, do antigo arianismo e das ideias maniqueístas orientais. Ela se 
espalhou pelo sul da França e pelo norte da Itália, também no final do século XII. Seus prosélitos eram 
chamados cátaros ou albigenses, em referência à cidade de Albi, seu principal centro.
Os cátaros tinham como objetivo a criação de uma nova religião, muito diferente do catolicismo. 
Eles acreditavam na luta de dois princípios, o bem e o mal. A ideia de dois deuses ou princípios, um 
bom e o outro mau, foi fundamental para as crenças dos cátaros. O Deus bom era o Deus do Novo 
Testamento, criador do reino espiritual. O Deus mau, por outro lado, que muitos cátaros identificavam 
como Satanás, era o criador do mundo físico do Antigo Testamento.
Rejeitando os sacramentos da Igreja Católica, passaram a valorizar somente um sacramento 
especial, o consolamentum, recebido geralmente pouco antes da morte e que eles diziam garantir 
a salvação. A Igreja Católica foi assim confrontada por uma nova Igreja, com seu próprio ritual e 
sacerdócio. A classe clerical era composta dos “perfeitos”, que se reuniam em verdadeiros concelhos 
para discutir problemas teológicos.
124
Unidade II
Os cátaros também significavam uma ameaça de mudanças sociais. Seus apoiadores eram recrutados 
em todas as classes, e havia até grandes nobres, como o conde Raymond de Toulouse, que os protegiam. 
O maior número de adeptos, porém, era das classes relegadas pela sociedade feudal, como os burgueses e 
os camponeses. Vale destacar que, nos territórios que dominaram, aconteceram eventos revolucionários, 
como ataques às propriedades da Igreja e dos nobres católicos.
Por algum tempo, os albigenses foram tolerados. Todavia, quando a Igreja entendeu que representavam 
um perigo real para a unidade religiosa e a ordem social, ela decidiu agir. Uma verdadeira cruzada foi 
então organizada em 1208, controlada por legados pontifícios, da qual participaram senhores feudais 
de várias partes da França.
6.8.3 A Inquisição
Até o século XIII, não existia na Igreja Católica uma unidade de critérios nem de procedimentos para 
perseguir os hereges. No entanto, na luta contra os albigenses, durante o pontificado do papa Gregório IX, 
a Igreja criou para esse fim os Tribunais da Inquisição, em 1231. Esses tribunais, encomendados em geral 
aos dominicanos, constituíam-se em uma diocese quando as circunstâncias exigiam. Tinham jurisdição 
não somente sobre cristãos, mas também sobre muçulmanos e judeus.
 Observação
A ordem dos pregadores, também conhecida por ordem de São Domingos 
ou dominicana, é uma ordem religiosa católica que tem como objetivo pregar 
a palavra e a mensagem de Jesus Cristo e converter ao cristianismo.
Quando havia uma acusação de heresia, procedia-se à detenção do suspeito. Posteriormente, dava-se 
a ele um prazo de trinta dias para confessar e se arrepender. Transcorrido esse prazo sem resultados 
satisfatórios, iniciava-se a investigação, ouvindo-se os depoimentos das testemunhas e as declarações do 
acusado, sendo consentido ao tribunal que recorresse a métodos de tortura para obter tais declarações.
Aquele que, a juízo do tribunal, era declarado culpado e se negava a abrir mão de suas convicções 
sofria diversas penas, segundo a gravidade da falta. A pena mais grave era a condenação à morte, 
executada por uma autoridade civil, consistindo geralmente na queima em uma fogueira. Os países 
onde mais atuaram esses tribunais foram França, Espanha, Itália e Alemanha; na Inglaterra, a ação deles 
foi mais escassa.
6.9 As Cruzadas
A hostilidade entre cristãos e muçulmanos foi permanente durante toda a Idade Média. Antes das 
Cruzadas, os cristãos já haviam empreendido campanhas armadas contra os muçulmanos. As Cruzadas, 
porém, convocadas e dirigidas no início pelo papa, tiveram mais espetacularidade e comoveram 
significativamente a sociedade europeia.
125
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
O papa Urbano II convocou a Cruzada em uma solene exortação em Clemort, no ano de 1095, 
tendo várias razões para fazer essa convocação. A primeira delas era a intenção de liberar o Santo 
Sepulcro. A situação da época era a seguinte: desde que se apoderaram do antigo Califado de 
Bagdá, os turcos selêucidas haviam cessado a política tradicional de tolerância que fora própria 
dos muçulmanos dessa região; por esse motivo, as comunidades cristãs estabelecidas em torno do 
Santo Sepulcro, assim como os peregrinos que viajavam periodicamente dos mais distintos pontos 
da Europa, começaram a ser molestados.
Nesse contexto, a Cruzada se apresentava, antes de tudo, como uma sagrada missão de resgatar 
o Santo Sepulcro das mãos turcas e restaurar seu papel de principal santuário do culto cristão. 
Além disso, para o papa, esta seria a oportunidade de aproveitar o grande fervor suscitado pelo 
empreendimento para unificar a Igreja, suprimindo a divisão entre Oriente e Ocidente; seria ainda 
uma ocasião propícia para recuperar seu prestígio e sua autoridade no Ocidente, levando-se em conta 
que os conflitos entre o papado e o império, protagonizados por Gregório VII e Henrique IV, tinham 
ocorrido havia pouco tempo.
O chamado para a Cruzada encontrou uma acolhida bastante favorável, que segundo os historiadores 
se deveu a diversas causas:
• Os cristãos sentiram como um imperativo de consciência acudir com seus bens e sua vida para uma 
ação que poderia consistir na redenção de seus pecados e em sua salvação. Assim, a peregrinação 
a que os homens medievais já estavam habituados se transformava numa expedição armada.
• Os nobres teriam a oportunidade de desenvolver seu espírito belicoso e de aventura, que havia 
sido contido pela Paz de Deus e pela Trégua de Deus. Por outro lado, naquela época a instituição 
da cavalaria estava muito controlada pela Igreja e havia assumido um caráter religioso. Com isso, 
vincular-se à Cruzada apresentava-se como outra obrigação do cavaleiro.
• As terras da Europa Ocidental, insuficientemente exploradas, não bastavam para alimentar a 
população cada vez mais numerosa que vivia nelas. Por esse motivo, marcharam para o Oriente 
com a esperança de encontrar os meios de subsistência que estavam escassos em seus territórios.
• Boa parte da nobreza tinha títulos, mas não terras, pois somente os primogênitos as herdavam. 
Assim, a Cruzada se apresentava como uma oportunidade de conquistar novas terras.
• Os grandes nobres, ambiciosos, poderiam ampliar seus domínios.
• As cidades comerciais italianas, que desempenharam um papel preponderante no transporte e 
abastecimento dos cruzados, também tinham muito interesse nessa empreitada.
• A atração do desconhecido e a sedução do Oriente lendário foram outro poderoso estímulo para 
a participação nas Cruzadas.
126
Unidade II
 Lembrete
As Cruzadas foram expedições empreendidas oficialmente pelos cristãos 
do Ocidente, com o apoio e a autorização da Sede Apostólica, a fim de 
libertar o Santo Sepulcro e defender o reino cristão de Jerusalém, uma vez 
que este havia sido ocupado pelos turcos.
A denominação Cruzadas provém do distintivo que seus participantes usavam: uma cruz, em geral 
vermelha, pregada de forma bem visível em suas vestimentas.
Os historiadores apontam a existência de oito Cruzadas, que ocorreram de 1096 a 1270.O cenário 
principal da luta entre muçulmanos e cristãos foram os territórios da Palestina e da Síria, mas num 
sentido mais amplo foram também a Ásia Menor, o Egito e Túnis.
Duas rotas foram utilizadas pelos cruzados para chegar ao Oriente Próximo:
• Rota terrestre: compreendia todos os clássicos caminhos das peregrinações que atravessavam a 
Península Balcânica e convergiam para Constantinopla.
• Rota marítima: compreendia os itinerários das frotas que navegavam no mar Mediterrâneo 
e estava quase que monopolizada pelas cidades italianas. Seu ponto final encontrava-se nos 
principais portos do Oriente Próximo.
Semelhantes pelas finalidades que proclamavam, as diversas Cruzadas foram muitas distintas entre si. 
Na primeira, o impulso religioso, a direção da Igreja e o próprio fato de ser a primeira fizeram-na ser considerada 
a Cruzada por excelência. Posteriormente, a crescente complexidade dos interesses em jogo e a diminuição do 
fervor religioso levaram ao enfraquecimento progressivo do espírito de Cruzada.
6.9.1 Os resultados das Cruzadas
A vitória dos cruzados provocou mudanças imediatas no mapa político do Oriente Próximo. 
Os senhores feudais tentaram implantar o mesmo modelo de organização administrativa política e 
social que existia na Europa e organizar essas terras de acordo com os costumes feudais.
Nesse sentido, mesmo antes de conquistar Jerusalém, já tinham constituído o Condado de Edessa e 
o Principado de Antioquia. Depois da queda da cidade santa, por meio de um acordo entre os senhores 
feudais e com a aprovação do papa, foi criado o Reino de Jerusalém. Anos depois, criou-se o Condado 
de Trípoli, enquanto a zona ocidental da Ásia Menor foi restituída ao Império Bizantino.
No entanto, a situação dos novos Estados latinos, ligados debilmente entre si pelo sistema de 
vassalagem que reconhecia os senhores com respeito ao rei de Jerusalém, era muito difícil. Estavam 
rodeados de poderosos Estados muçulmanos, não contavam com a boa vontade de Bizâncio e seu 
127
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
vínculo com a Europa só era assegurado através do Mediterrâneo, pelas frotas das cidades italianas. 
Tampouco dispunham de um número elevado de guerreiros, pois a maior parte dos cruzados havia 
regressado para a Europa depois da vitória e os peregrinos armados que chegavam não eram suficientes.
Além disso, precisavam de colonos agrícolas que assegurassem o abastecimento, uma vez que boa 
parte da população muçulmana havia emigrado. Dependiam muito do comércio, porque se tratava de 
uma zona de tráfego intenso, porém precisavam se fortalecer militarmente e fazer grandes concessões 
às cidades italianas. Somam-se a essas dificuldades as disputas internas entre os senhores feudais e os 
eclesiásticos, assim como entre as populações de origens distintas que não conviviam pacificamente.
Um dos procedimentos mais significativos em prol do fortalecimento defensivo das terras 
conquistadas foi a criação das ordens religiosas militares. Tanto os hospitaleiros como os templários eram 
monges soldados, que acrescentavam a seus votos o de combater os infiéis. Essas ordens se constituíram 
em milícias disciplinadas e, com seus castelos fortificados, foram importantes para proteger as zonas 
mais estratégicas do reino. Posteriormente, os alemães também criaram outra poderosa ordem, a dos 
cavaleiros teutônicos.
6.9.2 O fim das Cruzadas
No final do século XII, os muçulmanos deixaram suas diferenças temporariamente de lado. Egito, 
Síria e Mesopotâmia se unificaram sob o comando do sultão Saladino, o qual iniciou uma contraofensiva, 
dirigindo operações militares em que pôs vastos recursos a serviço de uma inteligência estratégica. 
Essas operações culminaram, em 1187, numa vitória total, que lhe permitiu apoderar-se da cidade de 
Jerusalém. Esse seria o começo da rápida queda dos Estados latinos e a perda definitiva da cidade santa.
Depois da Quarta Cruzada, tornou-se muito difícil organizar Cruzadas que tivessem o contingente 
necessário para fazer frente ao poderio militar muçulmano. Assim, após séculos de luta, esses 
empreendimentos terminaram em fracasso. O Santo Sepulcro, que passou a mãos cristãs depois 
da Primeira Cruzada, permaneceu nessa situação por pouco tempo, retornando para o poder dos 
muçulmanos, com o agravante da exaltação das paixões religiosas criada pela guerra santa, o que 
produziu mais obstáculos aos peregrinos.
O propósito de unir a Igreja do Ocidente com a do Oriente não se concretizou; antes, houve um 
aprofundamento das diferenças. O contato dos cristãos ocidentais com os orientais teve resultados 
negativos, principalmente depois da Quarta Cruzada, considerada pelos bizantinos um erro imperdoável.
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Unidade II
 Resumo
Destacamos o contexto filosófico, histórico, social e político de Roma, 
contexto que favoreceu o cristianismo. Esse movimento religioso teve o 
auxílio dos gregos por meio de uma variante de seu idioma, o coiné, que 
permitiu aos cristãos relacionar-se com vários povos.
Além disso, o cristianismo se beneficiou da destruição das religiões 
antigas, ofuscadas por causa do crescimento da disciplina intelectual, que 
colaborou para o abandono da religião em favor da filosofia. Não apenas 
os sistemas filosóficos gregos e romanos contribuíram para essa expansão, 
mas também as práticas judaicas, pois os judeus não tentavam encontrar 
Deus por meio da racionalidade; eles já pressupunham sua existência, 
procurando obedecer aos profetas, prestando culto e aguardando o Messias. 
É por esse motivo que o judaísmo é considerado a cobertura dessa nova 
religião e o berço do cristianismo.
Destacamos que os apóstolos de Cristo levaram seus ensinamentos 
a outros povos de modo bastante eficiente. De início, o cristianismo 
expandiu-se na Palestina, entre os judeus, e depois por todas as regiões do 
império. Em seus primórdios, a nova religião encontrou maior repercussão 
entre os pobres e os escravos, que se convertiam acreditando na salvação 
eterna. Mais tarde, ganhou adeptos também entre as classes altas do 
mundo romano.
A expansão do cristianismo em Roma se deu principalmente pela 
descrença na religião romana. Quando o cristianismo se apresentou como 
uma opção, atraiu muita gente. Os romanos, que eram tolerantes com todas 
as religiões, a princípio, aceitaram o cristianismo, mas depois passaram a 
perseguir os cristãos. Essas perseguições se iniciaram logo no século I e 
atingiram particular violência nos séculos III e IV.
Apesar de perseguido, o cristianismo continuou a se expandir. 
Assim, a partir de 313, as autoridades romanas deixaram de perseguir os 
cristãos. Nesse ano, o imperador Constantino, através do Édito de Milão, 
concedeu liberdade de culto a eles. Desde então, a influência do cristianismo 
não deixou de crescer, sendo cada vez maior o número de fiéis.
Em 380, o imperador Teodósio reconheceu o cristianismo como 
religião oficial do Estado. Pouco depois, proibiu o culto de deuses pagãos, 
promovendo a organização da Igreja Católica, que construiu sua hierarquia 
tendo como modelo a estrutura administrativa do império. A partir desse 
129
FILOSOFIA DA RELIGIÃO
momento, a Igreja Católica começou a ganhar força no continente europeu. 
Nem mesmo a invasão dos povos bárbaros (germânicos) no século V 
atrapalhou o crescimento do catolicismo.
Durante a Idade Média (séculos V a XV), a Igreja Católica obteve e manteve 
grande poder. Possuía muitos terrenos (poder econômico), influenciava as 
decisões políticas dos reinos (poder político), interferia na elaboração das 
leis (poder jurídico) e estabelecia padrões de comportamento moral para a 
sociedade (poder social).
 Exercícios
Questão 1. Leia o texto a seguir:
“Com efeito, existem a respeito de Deus verdades que ultrapassam totalmente as capacidades da 
razão humana. Uma delas é, por exemplo, que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem verdades que 
podem ser atingidas pela razão: por exemplo, que Deus existe, que há um só Deus etc.”
AQUINO, T. Súmula contra os gentios.Tradução Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p. 61.
Sobre o pensamento de Tomás de Aquino, analise as afirmativas:
I – Tomás de Aquino baseou-se nas ideias de Aristóteles, adaptando-as ao cristianismo.
II – Segundo o filósofo cristão, no pensamento religioso, basta a fé, uma vez que a razão é totalmente 
dispensável quando se crê.
III – De acordo com Tomás de Aquino, a existência de Deus se prova por meio do movimento que 
existe no universo, pois em todo movimento deve existir causa exterior ao ser que está em movimento. 
É correto o que se afirma em:
A) I, II e III.
B) I e II, apenas.
C) I e III, apenas.
D) II e III, apenas.
E) I, apenas.
Resposta correta: alternativa C.
130
Unidade II
Análise das afirmativas
I – Afirmativa correta.
Justificativa: Tomás de Aquino faz uma releitura das ideias de Aristóteles para provar a existência do 
Deus do cristianismo.
II – Afirmativa incorreta.
Justificativa: a razão não é totalmente dispensável. No trecho do enunciado, afirma-se que existem 
verdades que podem ser alcançadas pela razão.
III – Afirmativa correta.
Justificativa: uma das provas da existência de Deus para Tomás de Aquino é a do primeiro motor, 
que movimenta o universo.
Questão 2. (Enade 2017) No século XIII, quando novos textos de Aristóteles e de seus comentadores 
começaram a circular no Ocidente cristão, iniciou-se uma série de debates metafísicos. De fato, nem 
sempre foi fácil conciliar a tradição filosófica aristotélica com a doutrina cristã. Um caso exemplar 
encontra-se na tese da eternidade, que foi defendida, entre outros, por Averróis (1126-1198), comentador 
de Aristóteles, e que contradiz:
A) A existência da primeira causa.
B) A teoria da criação a partir do nada.
C) A concepção de tempo como passagem.
D) A teoria do movimento para a perfeição.
E) A metafísica vista como transcendência do mundo.
Resposta correta: alternativa B.
Resolução da questão
Para Aristóteles, seria mais razoável aceitar que houve uma causa primeira do que aceitar que o 
cosmos nasceu do nada.

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