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76 Unidade II Unidade II 5 A RELIGIÃO NO MUNDO ROMANO A religiosidade na Roma antiga se expressava pelo politeísmo. O povo romano era sincrético e, assim, deuses de outras culturas foram assimilados por ele durante a expansão política e territorial, especialmente, nos períodos monárquico e republicano. Ao conquistar um povo, os romanos incorporavam parte de sua cultura, incluindo seus deuses, como ocorreu com os gregos, os egípcios, os celtas e os germânicos. A religião romana era bastante influenciada pela etrusca, a qual reverenciava os antepassados – especialmente na figura do pater familias, responsável pelo culto aos deuses Lares (os deuses das casas) – e acreditava na possibilidade de prever o futuro, com práticas de adivinhação e interpretação dos fenômenos naturais. Os romanos também se apropriaram das tradições gregas, incorporando seus vários deuses. Dos egípcios, passaram a cultuar Ísis e Osíris. Sabemos disso por meio de vestígios materiais da presença de templos dedicados a eles no território romano. Uma prática religiosa muito comum na Roma antiga era o culto aos deuses protetores do lar e da família em santuários domésticos. Templos para o culto público aos deuses também foram erguidos em diversas províncias romanas. Os rituais religiosos romanos eram controlados pelos governantes. O culto a uma religião diferente à do império era proibido e condenado. Os cristãos, por exemplo, foram perseguidos e assassinados. Por esse motivo, para realizar seus cultos, muitos deles se encontravam nas catacumbas romanas. Vários imperadores exigiram um culto pessoal, como se fossem deuses, prática iniciada no governo do imperador Júlio César. No entanto, no século IV, com o significativo crescimento do cristianismo, este passou a ser considerado religião oficial do Império Romano e, assim, o politeísmo foi aos poucos sendo abandonado. 5.1 A convivência com os deuses Cinco séculos antes de Cristo, as lições de Sócrates e Platão ensinavam que o mundo temporal sensível é apenas sombra do mundo real, em que se encontram os ideais supremos (bem, verdade, beleza). Eles alertavam os gregos para uma realidade que transcendia o mundo visível e passageiro, e diziam que a verdade não era material nem temporal, mas espiritual e eterna. Essa busca pela verdade não se relacionava com os deuses pessoais da mitologia grega. Eram dois sistemas que competiam para alcançar o sagrado. Os gregos contribuíram para a destruição das religiões antigas, pois a disciplina intelectual levou muitos a abandonar a religião em favor da filosofia. No entanto, a filosofia falhou em dar conta das 77 FILOSOFIA DA RELIGIÃO aspirações espirituais da população, fracassou como alternativa religiosa. Com o tempo, passou a haver a necessidade de retornar às questões espirituais da vida. Assim, o grego comum ou se tornava cético, ou se voltava para os antigos cultos. O cristianismo, por sua vez, ofereceu àqueles que aceitavam o pensamento de Sócrates e Platão a possibilidade de uma revelação histórica da beleza, da verdade e do bem na figura de um Deus-homem, Cristo. Enquanto nas propostas filosóficas Deus era concebido como um ser inalcançável, totalmente impessoal; no cristianismo, a divindade revelada em Jesus era um Deus de amor, pessoal, que se importava com o ser humano e se compadecia dele como um pai que deseja o bem ao filho. Lembrete No desenvolvimento do cristianismo, dois grandes modelos de pensamento da filosofia grega foram reinterpretados: o platonismo por Agostinho, e o aristotelismo por Tomás de Aquino. Outra diferença relacionava-se com a visão do pecado: os gregos o enxergavam como algo contratual e mecânico; os cristãos, como uma questão pessoal, que afrontava a Deus e prejudicava os homens. Roma, berço do cristianismo, desenvolveu um sentido bem específico de unidade e de solidariedade em forma de organização política, em especial quanto à lei romana, outorgada a todos do império e originada da antiga lei consuetudinária monárquica. Essa lei foi codificada (Lei das 12 Tábuas), fazendo parte da educação de toda criança romana. Ela incorporava ainda algumas leis das nações que estavam sob o domínio de Roma, por meio do praetor peregrinus, que “era encarregado da tarefa de tratar com as cortes nas quais estrangeiros estivessem sendo julgados, e também se tornou realidade para todos os sistemas jurídicos desses estrangeiros” (CAIRNS, 1995, p. 30). Assim, a Lei das 12 Tábuas, baseada nos costumes de Roma, foi robustecida por leis de outras nações. Os romanos que se especializavam em filosofia do direito defendiam que as semelhanças surgiam tendo em vista o “conceito grego de uma lei universal, cujos princípios foram escritos na natureza do homem” (DALAL, 2016, p. 65) e descobertos em decorrência de um processo racional. Outro meio de contribuir com a unidade das leis foi contemplar os não romanos com a concessão de cidadania romana, prática iniciada antes do nascimento de Cristo e encerrada pelo imperador Marco Aurélio Antonino, conhecido como Caracala. Este “concedeu cidadania romana a todos os cidadãos nascidos livres” (DALAL, 2016, p. 66). Na prática, isso foi o mesmo que conferir a todos os homens a possibilidade de serem cidadãos de um único reino e se submeterem a um mesmo sistema jurídico. Um dos destaques da lei romana era a exaltação da dignidade do indivíduo, com o direito de receber justiça e cidadania romana, unindo homens de diferentes raças numa única organização política. Esse cenário acabou favorecendo a aceitação do que era pregado pelos cristãos, em especial no que se referia à mensagem de unidade da humanidade e à questão do pecado e de sua solução. Certamente, isso teria sido mais difícil na época em que o mundo era dividido em tribos ou cidades-Estado. 78 Unidade II Como os soldados romanos conseguiram manter a paz nas estradas da África, da Ásia e da Europa, iniciada com a expulsão dos piratas do Mediterrâneo, a movimentação dos primeiros cristãos foi facilitada, e assim eles viajavam para pregar sua fé. Ademais, o sistema de estradas criado pelos romanos ligava Roma a todas as regiões do império, alcançando locais muito distantes. Saiba mais Sobre o cotidiano do Império Romano, leia: COTRIM, I. S. Representações da vida cotidiana no Império romano: cultura, sexo e religião em Pompeia (século I d.C.). In: SEMANA DE HISTÓRIA UFES, 11., 2017, Vitória. Anais […]. Vitória: Ufes, 2017. Disponível em: http:// www.periodicos.ufes.br/semanadehistoria/article/view/23097/15668. Acesso em: 6 jan. 2020. Depois de Constantino (272-337) se tornar imperador e adotar o cristianismo como religião oficial do império, o exército desempenhou um papel significativo na divulgação da fé cristã. Os romanos tinham como prática utilizar os habitantes das províncias na guarnição, a fim de suprir as deficiências de contingente. Com isso, os incorporados aprendiam a cultura romana e propagavam suas ideias. Muitos se converteram ao cristianismo, levando a fé cristã às cidades em que viviam. As conquistas romanas colaboraram para esse processo. Os povos subjugados se sentiam abandonados por seus deuses, que não conseguiram protegê-los dos romanos, ficando insatisfeitos com as religiões que professavam. Roma também oferecia uma ampla variedade de deuses, os quais conviveram com a divindade cristã por aproximadamente três séculos. As religiões de mistérios eram um dos maiores adversários do cristianismo. Chamavam-se assim porque a participação nelas era reservada apenas aos iniciados e porque pareciam oferecer muito mais do que um meio de auxílio emocional e espiritual. Entre elas, estava o culto a Cibele, a grande mãe-terra, levado da Frígia para Roma. Cibele era conhecida como a deusa da fertilidade e tinha ritos específicos, como a morte e a ressurreição de seu consorte. O culto a Ísis, que vinha do Egito, era análogo ao de Cibele, enfatizando a morte e a ressurreição. O mitraísmo, trazido da Pérsia, também gozava de boa reputaçãoentre os soldados romanos. Burkert (1991, p. 20) afirma: As chamadas religiões de mistérios ficaram conhecidas como uma alteração básica na postura propriamente religiosa, transcendendo a perspectiva realista e pragmática da religião romana e possuindo uma espiritualidade mais elevada. Eram também consideradas religiões de salvação. O culto a Cibele tinha por rito o sacrifício de um touro, momento em que os devotos se banhavam no sangue do animal. O mitraísmo, por outro lado, promovia refeições sacrificiais. 79 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Para os apologistas e os heresiarcas cristãos, a questão se colocava num outro plano, pois aos múltiplos deuses do paganismo eles opunham o deus único da religião revelada. Era-lhes necessário, portanto, demonstrar, por um lado, a origem sobrenatural do cristianismo – e, por consequência, sua superioridade – e, por outro lado, explicar a origem dos deuses pagãos, sobretudo a idolatria do mundo pré-cristão. Também precisavam explicar as semelhanças entre as religiões dos mistérios e o cristianismo. Foram sustentadas várias teses: 1) os demônios, nascidos do comércio dos anjos caídos com as filhas dos homens, tinham arrastado os povos para a idolatria; 2) o plágio: os anjos maus, conhecendo as profecias, estabeleceram semelhanças entre as religiões pagãs e o judaísmo e o cristianismo, a fim de perturbarem os crentes; os filósofos do paganismo haviam inspirado suas doutrinas em Moisés e nos profetas; 3) a razão humana pode elevar-se por si mesma ao conhecimento da verdade, portanto o mundo pagão podia ter um conhecimento natural de Deus (ELIADE, 1992, p. 7-8). Se por um lado o cenário político de Roma era propício à expansão do cristianismo, por outro o ambiente intelectual era todo influenciado pela cultura grega. Mesmo que os romanos fossem exímios construtores de estradas, pontes e prédios, foram os gregos que erigiram os grandiosos edifícios da mente, construindo a cultura intelectual do império em substituição à cultura rural da antiga república. Quando o Império Romano nasceu, o grego era a língua universal. Só depois o latim se tornou universal no mundo medieval erudito, assim como o inglês no mundo contemporâneo. Contudo, é importante frisar que não se tratava mais do grego clássico, mas do coiné, um dialeto falado pelo homem comum, utilizado pelos cristãos para escrever o Novo Testamento e pelos judeus para a Septuaginta. Observação Coiné era a língua grega comum falada e escrita nos tempos do Novo Testamento, nos países da parte oriental do Mediterrâneo. O grego coiné foi difundido desde os tempos de Alexandre, o Grande, por soldados e comerciantes do mundo helenístico, entre 338 e 146 a.C. Foi por intermédio dele, e não do grego clássico, que os cristãos tiveram a chance de se relacionar com povos do mundo antigo. Cairns (1995, p. 32) diz: Adolf Deissman (1866-1973) descobriu, no fim do século passado, que o grego do Novo Testamento era o mesmo utilizado pelo homem comum do primeiro século nos relatos deixados em papiros sobre seus negócios e em documentos fundamentais de sua vida diária. Eruditos como James Hope Moulton e George Milligan construíram a base científica para a descoberta de Deissman, ao estudarem comparativamente o vocabulário dos papiros e o do Novo Testamento. Essa descoberta deu origem a inúmeras traduções modernas. Se o evangelho foi escrito na língua do 80 Unidade II povo comum à época de sua produção, raciocinaram os tradutores modernos, deveria ser vertido para a língua do homem comum de nossos dias. Quando do nascimento de Cristo, muitos gregos e romanos já tinham abdicado do politeísmo para assumir as filosofias epicurista e estoica, bem como as religiões de mistérios, e isso fortaleceu o desejo dos seres humanos por uma relação mais íntima com um Deus que satisfizesse corações sedentos por uma religião que abrangesse uma espiritualidade maior. Desse modo, os sistemas religiosos romano e grego contribuíram para o crescimento do cristianismo: o primeiro, por abandonar as religiões politeístas; o segundo, por demonstrar a incapacidade da racionalidade filosófica em alcançar Deus. Em certo sentido, as religiões de mistérios também colaboraram, porque traziam os termos pecado e perdão, fazendo com que as pessoas do Império Romano se dispusessem a prestar atenção numa religião que oferecia uma melhor perspectiva espiritual para a vida. Lembramos que os primeiros cristãos europeus eram judeus. González (1995a, p. 15) afirma: Portanto, a Igreja nunca foi uma comunidade desprovida de contato com o mundo exterior. Os primeiros cristãos eram judeus do século primeiro, e foi como judeus do século primeiro que escutaram e receberam o evangelho. Depois, a nova fé foi se propagando, tanto entre os judeus que viviam fora da Palestina como entre os gentios que viviam no Império Romano e ainda fora dele. Diferentemente dos gregos, os judeus não tentavam encontrar Deus por intermédio da racionalidade, pois já pressupunham a existência dele. Obedeciam a Abraão e aos profetas, e aguardavam o Messias (o Salvador). O judaísmo é o berço do cristianismo. Os judeus se diferenciavam da maioria das religiões pagãs especialmente pelo monoteísmo explícito. Os judeus, depois de Moisés, nunca mais caíram no pecado da idolatria. Apegaram-se de forma definitiva ao Deus de Israel, condenando constantemente os deuses dos pagãos através de seus profetas, que se referiam a eles como falsos deuses. O Messias que eles aguardavam era o único que poderia estabelecer a justiça na terra. Essa esperança messiânica era proclamada pelos judeus no mundo romano. De acordo com o Novo Testamento, os discípulos de Cristo também esperavam por esse reino sobre a terra, mas aguardavam uma segunda vinda de Jesus. A ideologia monoteísta defendida pelos judeus cristãos trouxe alguns problemas para a população. Eles eram contra o helenismo, que mesclava as culturas das nações subjugadas e pretendia equiparar os deuses de diversos povos. Os judeus viam nele uma séria ameaça à fé no Deus único de Israel. Desde a conquista de Alexandre, o Grande, até a destruição de Jerusalém no ano 70 d.C., houve um longo conflito, na tentativa de que os judeus trocassem o monoteísmo pelo politeísmo. Sobre essa hostilidade, González (1995a, p. 16-17) escreve: O ponto culminante dessa luta foi a rebelião dos macabeus. Primeiro o sacerdote Matatias e depois seus três filhos – Jônatan, Judas e Simeão – se rebelaram contra o helenismo dos selêucidas, que pretendia impor deuses 81 FILOSOFIA DA RELIGIÃO pagãos entre os judeus. O movimento teve algum êxito. Mas já João Hircano, o filho de Simeão Macabeu, começou a se amoldar aos costumes dos povos circunvizinhos e a favorecer as tendências helenistas. Quando alguns dos judeus mais restritos se opuseram a essa política, desatou-se a perseguição. Por fim, no ano de 63 a.C., o romano Pompeu conquistou o país e depôs o último dos macabeus, Aristóbulo II. Os romanos eram tolerantes em relação aos costumes e à religião das nações conquistadas, inclusive ofertando aos macabeus certa medida de autoridade, permitindo que seu líder usasse o título de sumo sacerdote e etnarca. No entanto, o foco do monoteísmo judeu causou alguns problemas: a insistência em render culto somente a Deus levou a rebeliões ante a menor ameaça a sua fé. Lembrete O cristianismo, religião monoteísta, deve seu crescimento aos sistemas romano e grego: o primeiro enfraqueceu as religiões politeístas, e o segundo demonstrou a incapacidade da razão de alcançar a Deus. Herodes, ao tentar introduzir o politeísmo no país, passou a construir templos em honra a Roma e a Augusto em Samaria e Cesareia. Ao colocar uma águia de ouro na entrada do Templo, os judeus se opuseram ferozmente, fazendo Herodes recorrer à violência, medida também adotada por seus sucessores. Essa postura dos judeus se justificava pela defesa dos valores éticos e pelo elevado padrão de comportamento apresentado nos dez mandamentos,uma vez que esbarravam nos demais sistemas éticos e práticas corruptas da época. Como vimos, para os judeus, o pecado não era uma espécie de fracasso, mas uma violação dos mandamentos divinos, marcada por um coração impuro e por atos pecaminosos. A perspectiva moral e espiritual registrada no Antigo Testamento colaborou para que a doutrina da redenção resolvesse o problema do pecado através de um Deus que se compadecia de seu povo, e não por meio de sistemas racionalistas éticos ou de religiões de mistério. O Antigo Testamento se impõe com a vinda do cristianismo, em especial quando Jesus e seus apóstolos o mencionam, reverenciando-o como a palavra de Deus legada ao ser humano. Os gentios que o leram se habituaram à fé judaica, e muitos adeptos judeus se converteram ao cristianismo devido ao livro sagrado e à nova Igreja, vistos como literatura viva. As sinagogas judaicas foram essenciais para o início e o desenvolvimento do cristianismo antigo, pois desde o cativeiro babilônico tinham se tornado parte da vida dos judeus, como espaços que substituíam o Templo de Jerusalém. As sinagogas passaram a ser a “casa de pregação do cristianismo primitivo” (CAIRNS, 1995, p. 36). Nelas, muitos gentios e judeus se familiarizaram com um jeito súpero de viver, e é provável que a forma de governança e justiça praticada na Igreja primitiva tenha sido herdada dos costumes judaicos nas sinagogas. 82 Unidade II Observação Qualquer comunidade habitada por pelo menos dez judeus adultos deve ter um local designado onde possam se reunir para a prece. Esse local é a sinagoga. Todos esses elementos evidenciam que houve benefício ao cristianismo por diversos fatores: a época em que surgiu, o período de sua formação e a região em que se desenvolveu. O centro cultural era Roma, que dominava o mundo mediterrâneo. A língua comum (o grego coiné) permitiu que a mensagem fosse levada para a maioria das regiões do Império e de volta à Palestina, o local de nascimento da nova religião. A Palestina estava bem situada: era “um importante cruzamento, que ligava os continentes da Ásia e da África à Europa por via terrestre, e muitas das batalhas importantes da história antiga foram travadas por causa da posse dessa estratégica região” (CAIRNS, 1995, p. 36). Sem dúvida, as condições para a divulgação das ideias cristãs através do mundo mediterrâneo foram muito favoráveis até o terceiro século de sua existência. O cristianismo se fundamenta sobre a própria história temporal e, de forma indissolúvel, sobre a vida e a morte de Cristo. Para entender um pouco de sua história, é necessário ler o livro que os cristãos dizem ser a revelação de Deus a seu povo, a Bíblia. A história da Igreja é contada em Atos dos Apóstolos. Inicialmente, apresenta-se uma Igreja forte em Jerusalém, que aos poucos chegou até a capital do império. Ainda que haja poucos dados sobre aquela que seria a primeira Igreja, sabe-se que essa comunidade teve algumas dificuldades, em especial quanto ao povo que não era judeu e que ia às reuniões. Houve problemas com a arrecadação de contribuições, como o caso de Safira e Ananias, os quais, ao mentir sobre o valor de venda de uma propriedade, caíram mortos. Os helenistas também reclamavam, pois suas viúvas estavam sendo esquecidas na distribuição diária de esmolas. Como resultado dessa desavença, houve o primeiro processo de eleição para cargos administrativos na Igreja cristã, embora apenas alguns fossem responsáveis por divulgar a fé. Os judeus que abraçaram o cristianismo não pensavam que faziam parte de uma nova religião, mas que continuavam judeus, pois sua fé consistia na realização da promessa messiânica tão aguardada pelos hebreus e que havia se cumprido com Jesus Cristo. Por essa razão, os cristãos da Igreja de Jerusalém continuavam frequentando o culto no Templo e guardando o sábado, mesmo que perseguidos pelos judeus. A perseguição feita ao apóstolo Paulo e aos demais cristãos ocorreu porque pregavam que em Jesus se cumpriram todas as promessas feitas a Israel. Para celebrar esse fato, eles repartiam o pão, momento em que comemoravam a ressurreição e o início de uma nova era. Sobre esse rito, registrou-se o seguinte: “E, perseverando unânimes todos os dias no Templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração” (BÍBLIA…, [s.d.], Atos 2,46). 83 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Na prática do jejum, os primeiros cristãos seguiram o mesmo modelo dos judeus. Os mais regrados o faziam duas vezes por semana, diferindo apenas em relação aos dias escolhidos: “Enquanto os judeus jejuavam segundas e quintas, os cristãos jejuavam quartas e sextas, provavelmente em memória da traição de Judas e da crucificação de Jesus” (GONZÁLEZ, 1995a, p. 35). Observação O jejum, prática comum em determinadas religiões, consiste em alguém se abster de alimentos e/ou água, podendo ser total ou parcial. Inicialmente, a liderança da Igreja primitiva coube aos 12 apóstolos que acompanharam Jesus em seu ministério, mas não apenas a eles. Tiago, irmão de Jesus, gozou de muita autoridade após se reunir ao grupo. Com isso, surgiu a tradição que atribui a Tiago o título de bispo de Jerusalém, sendo ele o primeiro chefe dessa Igreja. No que se refere ao crescimento e ao desenvolvimento da primeira Igreja, Branco (2014, p. 20) destaca: Judeus de todas as partes do mundo mediterrâneo estavam presentes em Jerusalém para ver a Festa do Pentecostes por ocasião da fundação da Igreja. […] A manifestação sobrenatural do poder divino no falar línguas, claramente relacionada à origem da Igreja, e a vinda do Espírito Santo levaram os judeus presentes a declarar a maravilha das obras de Deus em sua própria língua. O apóstolo Pedro aproveitou a oportunidade para proferir o primeiro sermão já pregado, bem como para proclamar a messianidade de Cristo e a graça salvadora. Três mil pessoas aceitaram sua palavra e foram batizadas. Foi dessa maneira que a entidade espiritual, a Igreja invisível, o corpo do Cristo ressuscitado, começou a existir. O crescimento foi rápido. Logo o número chegou aos 5 mil. Muitos eram judeus helenistas da dispersão (a diáspora) que estavam em Jerusalém para celebrar as grandes festas da Páscoa e do Pentecostes. Nem mesmo os sacerdotes judeus ficaram imunes ao contágio da nova fé. Vários se tornaram membros da Igreja primitiva em Jerusalém. Os judeus não ficaram muito contentes com esse rápido crescimento, pois suas autoridades acreditavam que o cristianismo representava uma intimidação. Por isso, tanto os intérpretes da lei quanto os sacerdotes se uniram para fazer oposição à nova fé. A princípio, o órgão político-eclesiástico que originou a perseguição foi o Sinédrio, que obteve dos romanos permissão para supervisionar a vida religiosa e civil do Estado. Por duas vezes, os apóstolos João e Pedro foram proibidos de pregar a mensagem da fé, mas nenhum dos dois obedeceu a essa ordem. Depois, a perseguição tomou um cunho mais político, e Herodes matou Tiago e prendeu Pedro. Estevão foi acusado injustamente de blasfêmia contra Moisés, inclusive com falsas testemunhas, tornando-se o primeiro mártir da Igreja cristã. Ao comparecer ao Sinédrio, denunciou os líderes judeus por não aceitarem Cristo como seu Messias, sendo executado por apedrejamento devido a tal afirmação. 84 Unidade II Observação O Sinédrio era a corte suprema da lei judaica, com a missão de administrar justiça, interpretando e aplicando a Torá, tanto oral como escrita. Era a representação do povo judeu perante a autoridade romana. O cristianismo primitivo proporcionou uma grande mudança social em determinadas regiões. A Igreja de Jerusalém insistiu na igualdade espiritual dos sexos e valorizou a importância da mulher na Igreja. Um grupo de homens criado para se dedicar ao trabalho social foi outro destaque, com um forte apelo para a caridade. Isso mostra que a divulgação da fé, que no início ficou a cargo dos apóstolos, não descuidava da parte social.Em seguida, outros ofícios foram criados para cuidar da Igreja, a qual não parava de crescer. Presbíteros e diáconos ficaram responsáveis pela parte administrativa, formação essa que até hoje se faz presente na Igreja Católica. 5.2 Elementos do cristianismo Em termos técnicos, o cristianismo é uma religião monoteísta que há cerca de 2 mil anos derivou do judaísmo na região do Oriente Médio. Sua figura central é Jesus Cristo, que se acredita ser o filho de Deus, a encarnação humana da própria divindade. Trata-se da maior religião do planeta (reunindo cerca de 30% da população terrestre) e da mais influente no mundo ocidental. Muitas doutrinas cristãs diferenciadas entre si surgiram desde as primitivas comunidades cristãs. O aparecimento dessas comunidades deu-se em plena expansão do Império Romano. Como o imperador romano era também a figura religiosa máxima do Império, quaisquer seitas eram prejudiciais a seu poder absoluto. Com isso, as comunidades cristãs desse período foram perseguidas. No entanto, mais tarde, o Império Romano adotaria as crenças cristãs como sua religião oficial, ocorrendo assim a fundação da Igreja de Roma. A partir dela, originaram-se as diversas doutrinas cristãs. Como visto, a nova religião cristã surgiu na Palestina, região que tinha muita ligação comercial e cultural com o Egito. O faraó da época era ptolomaico, ou seja, descendia de uma cultura grega helenista. Quando Jesus nasceu, Seth não era mais considerado membro da família de Ísis, Osíris e Hórus. A proeminência de Hórus estava bem estabelecida, e a filosofia da mãe protetora (Ísis) e de seu filho gerado por magia (Hórus) era o ideal teológico aceito. Na narrativa de sua infância, Jesus lembra mais Hórus do que Osíris. Jesus tinha uma grande mãe, que também havia sido impregnada de maneira divina, e que depois ficou conhecida como divina entre as mulheres e como virgem mãe. Embora em Osíris possamos reconhecer Jesus em sua maior essência espiritual depois de adulto, as fugas do menino Jesus nos braços de Maria, em razão das ameaças de Herodes, assemelham-se às do pequeno Hórus nos braços de Ísis, o qual o usurpador do trono do Egito (Seth) queria matar porque ele (Hórus) estava destinado a ser o rei legítimo. Para os seguidores de Jesus, ele também estava destinado a ser 85 FILOSOFIA DA RELIGIÃO o rei dos judeus, o Messias, o libertador de seu povo da tirania estrangeira e de todo o sofrimento terrestre. Mas isso só podia acontecer se Herodes morresse. As aspirações seculares ou políticas não beneficiaram Jesus, e ele acabou sendo apenas o rei espiritual de uma divisão dos judeus. Só mais tarde se tornou o eterno rei espiritual para milhões dos que ainda são considerados gentios pelos judeus (SAMBU, 2007). Hórus e Osíris também formavam uma pessoa. Ao examinar os aspectos mitológicos e simbólicos dos principais atores da narrativa de Osíris, verificamos os paralelos com a narrativa cristã. Essa entidade composta, Osíris-Hórus, é o arquétipo do evangelho de Jesus. Esse argumento se sustenta pelo fato de que, quando os gregos adotaram Osíris como um de seus deuses, chamaram-no Dionísio, literalmente “o filho de Deus” em grego. Esse é o título que mais tarde será atribuído a Jesus (SAMBU, 2007). Maria, mãe de Jesus, atraiu os primeiros convertidos egípcios ao cristianismo por causa de sua semelhança com a Ísis adulta. O amor e a devoção das duas grandes mães a um filho perseguido que mais tarde se torna grande são semelhantes. Como Maria e o menino Jesus, muito frequentemente Ísis era representada em esculturas amamentando seu filho, Hórus. Outros deuses, como Tot, às vezes são mostrados oferecendo presentes a Ísis enquanto ela se encontra na postura de mãe e filho. A imagem popular de mãe e filho, difundida por antigos artistas egípcios, retratava a mãe como criadora, e era natural apresentá-la em sua postura ideal, segurando o filho, porque isso simbolizava todo o seu poder de criação (SAMBU, 2007). O cristianismo primitivo era controlado no Egito por sacerdotes gnósticos egípcios, que estavam abandonando a fé em Ísis sem se separar completamente dela e de sua sagrada família. A coisa mais importante sobre os pregadores gnósticos dessa época é que eles acharam fácil e apropriado criar alegorias, isto é, inventar, adotar, adaptar e contar histórias que se adequassem a determinada moral em determinado momento, considerando o nível de educação do público. Para aqueles teólogos, a historicidade do evento não importava. O valor exegético da narrativa superava todas as outras considerações. A extensão da influência desses sacerdotes e de seus escribas sobre a escrita do Novo Testamento pode ser medida quando se estudam os atributos alegóricos. Abaixo de uma imagem da sagrada família de Ísis, Hórus e Osíris, podemos ler que eles compõem a trindade divina do pai, da mãe e do filho (SAMBU, 2007). Essa história é puramente alegórica e simbólica. Não se pode comprovar nada a respeito da existência terrena desses deuses. Osíris foi o maior deus do Egito, filho do fogo celestial. Ísis é a virgem mãe, a personificação da natureza. Ela é descrita como a mulher vestida com o sol da terra do Egito. Hórus foi o filho que sucedeu Osíris na linha dos soberanos divinos do Egito. Ele é chamado de amado do céu e amado do sol. Hórus também é a substância de seu pai, isto é, relacionado à morte e ao tempo. O mundo é julgado por ele. Ísis era especialmente popular em seu aspecto de mãe com o bebê Hórus. Tanto ela quanto Hórus eram retratados com pele negra, característica dos etíopes. Juntos, Ísis e Hórus formam a primeira e original madona negra. Os afrescos romanos quase sempre mostram os sacerdotes de Ísis como etíopes. As legiões romanas levaram sua imagem e seu culto para os confins da Europa selvagem. Quando o cristianismo finalmente penetrou nessas regiões, onde quer que uma imagem de Ísis segurando o pequeno Hórus fosse encontrada, ela era transformada na madona negra com seu filho. Por mais de um milênio e meio, essas madonas negras foram colocadas em santuários sagrados da Europa católica e, até hoje, milhões de europeus se inclinam para adorar uma deusa africana e seu filho (SAMBU, 2007). Nesse sentido, não podemos esquecer que a padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, é negra. 86 Unidade II A leitura do que os antigos egípcios escreveram sobre Osíris, centenas de anos antes de Jesus nascer, faz lembrar capítulos do Novo Testamento. Os estudiosos reconhecem, por exemplo, o paralelismo fenomenológico entre a ressurreição de Jesus Cristo e a ressurreição de Osíris. Além disso, quando Jesus nasceu, o povo do Império Romano, do qual a Palestina fazia parte, celebrava a miraculosa ressurreição corporal de Osíris. O paralelismo entre esses episódios de ressurreição não termina no momento do reaparecimento físico. Cristo, como Osíris, não retoma sua vida terrena depois da ressureição; ambos sobem ao céu (SAMBU, 2007). Osíris era denominado o salvador da humanidade e tinha um lugar especial na vida e nas esperanças das pessoas comuns como nenhum outro deus. Mas um dia apareceu o sucesso da globalização do ministério de Jesus. Osíris era o deus salvador original, concepção da qual provinha o termo técnico dos teólogos soteriologia, que significa “salvação”. Osíris deu a seus devotos a esperança de uma vida eternamente feliz em outro mundo, governado por um rei justo e bom. Quando Rá reinou sem a ajuda de Osíris, ele proibiu a entrada de pessoas comuns no céu. Somente quem era da linha de descendência de Rá, e por isso espiritualmente dependente do faraó, considerado uma forma humana de Rá, tinha garantida a entrada no céu. No entanto, o caráter humano, o sofrimento e a morte de Osíris mudaram tudo isso, trazendo um sentido de identificação e pertencimento mais próximo das massas. O movimento que adotou Osíris como deus foi em sua época uma revolução social e espiritual, pois finalmente as massas podiam se encontrar com a linhagem real nasala de julgamento de Osíris como iguais. O destino de Osíris estava aberto a todos os indivíduos, através da confissão e do julgamento. Eles tinham de se provar moralmente aceitáveis para ter acesso ao céu. Essa igualdade de direitos perante o criador foi o cerne para o sucesso do culto de Osíris, algo que ainda hoje é um pilar e um grande diferencial de seu sucessor, o cristianismo. Outras semelhanças entre Osíris, Hórus e Jesus podem ser mostradas por meio do calendário. Os antigos egípcios contavam 360 dias para o ano e mais cinco dias adicionais, que representavam o aniversário de alguns deuses egípcios. Os cinco dias adicionais efetivamente transformaram o ano em 365 dias. O primeiro dos deuses a nascer durante os cinco dias foi Osíris, o segundo foi Hórus, o terceiro foi Seth, o quarto foi Ísis e o quinto foi Néftis. O ano novo egípcio começava no dia seguinte ao aniversário de Néftis. Os egípcios comemoravam quatro dos cinco dias adicionais. O terceiro dia, que coincidia com 28 de dezembro, era o dia em que Seth, o deus do mal, nasceu. Era considerado um dia ruim, e não se fazia nenhum negócio nele. Quando o cristianismo chegou e Jesus assumiu plenamente os atributos de Osíris e Hórus, foi natural que a figura de Seth se transformasse no rei Herodes, o rei dos judeus. Seth, quando foi rei do Egito, caçou e tentou matar o bebê Hórus, depois de matar Osíris, pai de Hórus. Assumindo as propriedades temperamentais de ciúme assassino, o rei Herodes, da alegoria cristã, procura matar Jesus ordenando a morte de todos os meninos bebês. Portanto, Herodes e o assassinato de crianças estão associados a 28 de dezembro, o chamado Dia dos Santos Inocentes. Tudo isso confirma a extensão da influência da religião do Egito sobre o início do cristianismo (SAMBU, 2007). Outro fato importante é que o dia do Natal cristão, 25 de dezembro no calendário gregoriano ocidental, cai exatamente no último dia do antigo ano egípcio. Este também é o dia aproximado do solstício de inverno, que foi igualmente reconhecido como sagrado na Europa pagã. É o dia em que, no hemisfério norte, o sol atinge seu ponto mais baixo e está acima do horizonte sul durante o período 87 FILOSOFIA DA RELIGIÃO mais curto do ano. Além de ser o dia mais curto, ele acontece entre as duas noites mais longas do ano. No hemisfério norte, o sol nasce e se põe no ponto mais ao sul, e tem a elevação mais baixa ao meio-dia, em comparação com sua elevação ao meio-dia nos outros dias. O dia do solstício de inverno é o que tem menos luz solar. Ao mesmo tempo, marca o fim da descida do sol no céu do hemisfério norte e o começo de sua ascendência, até atingir o solstício de verão, seis meses depois. Segundo relatos romanos, os anglo-saxões e os alemães festejavam nesse dia o Dia da Criança. Mais tarde, os romanos decidiram comemorar no dia 25 de dezembro o aniversário do sol invicto. Isso aconteceu antes de o Império Romano se tornar cristão, ou seja, a escolha não foi influenciada pelo cristianismo. Tecnicamente o solstício de inverno natural cai entre os dias 20 e 21 de dezembro. Mas naquela época, para o olho humano, a determinação do sol era clara no dia 25 de dezembro, que por essa razão foi escolhido como dia da celebração. Posteriormente os romanos usaram esse dia para marcar o início das celebrações da Saturnália, uma época de intensa folia (SAMBU, 2007). Observação A Saturnália era um festival da Roma antiga, em honra a Saturno, que ocorria em 24 de dezembro, quando o sol voltava a subir na linha do horizonte. A fixação do Dia do Sol e, em seguida, do Natal no dia 25 de dezembro se deve muito à influência egípcia, porque o aniversário do deus Osíris cai nesse dia. Uma vez que o registro da observância da data pelos egípcios é muito mais antigo, restam poucas dúvidas sobre qual deles foi o antecedente e, portanto, o protótipo. O antigo aniversário egípcio em 25 de dezembro foi reconhecido por Roma como o dia do nascimento de Jesus no ano de 336 (SAMBU, 2007). É fácil lembrar a proposta de monoteísmo de Aquenáton, com seu deus sol, quando vemos a posição do sol determinar a nova data de aniversário de Jesus Cristo. Mas há vários “filhos do sol”, que também tiveram seu aniversário marcado para essa data. Como nota Sambu (2007, p. 424), “todos os deuses pagãos foram identificados com o sol, que foi considerado o grande pai, o gerador de toda a vida, enquanto a deusa era a terra ou matéria, a fonte passiva de geração”. O antigo dia do Natal era 6 de janeiro, celebrado no passado pelos cristãos de Jerusalém, enquanto os primeiros cristãos do Egito celebravam a data como o dia do batismo de Cristo. Agora todos os cristãos comemoram esse dia como o Dia da Epifania. Na Igreja Católica do Oriente, a Igreja Ortodoxa, o dia marca o batismo de Jesus. Na Igreja Católica Romana, é chamado Dia de Reis e lembra a visita dos reis magos. Curiosamente, a data de 6 de janeiro também coincide com o dia de limpar as casas, costume dos anglo-saxões desde os tempos pagãos (SAMBU, 2007). É interessante perceber que o cristianismo foi coletando reminiscências de diversas crenças dos povos conquistados por Roma e, assim, construindo novos símbolos. Uma das questões mais complicadas é a da trindade, discussão que foi tão importante entre os primeiros cristãos que acabou suscitando o primeiro concílio de bispos, justamente para decidir sobre o assunto. Todas as principais divindades egípcias antigas 88 Unidade II integravam uma trindade. A mais antigas delas era a ligação de Ptah, Amon e Rá. Os três eram deuses que construíam. Cada um a seu modo construiu o mundo, o que levou os egípcios a reverenciar essas entidades como três aspectos do mesmo deus. Ísis também formou uma trindade divina com Osíris e Hórus. Alguns estudiosos da filosofia da religião dizem que a ideia da santíssima trindade do Novo Testamento, implícita em Mateus 28,19 e mais aceita no Concílio de Niceia, representa uma transição do aspecto trinitário da antiga teologia egípcia. Osíris era o Pai. Hórus era o filho. Ísis não se tornou Maria devido ao machismo exacerbado da época; tornou-se antes o Espírito Santo, que traz a luz e a paz. No Antigo Testamento não há nenhuma menção de que Deus divida seu espaço ou seu poder. Cabe lembrar, porém, que grande parte do desenvolvimento do primeiro cristianismo aconteceu no Egito, e que eram os padres egípcios que estavam utilizando analogias de crenças anteriores para converter as pessoas à religião. O berço da religião cristã era um Egito que estava sofrendo grandes mudanças socioculturais, abandonando o helenismo desenvolvido desde a conquista de Alexandre, o Grande, quando os faraós passaram a ser os descendentes de Ptolomeu, general grego que ficou no controle do Egito. Cleópatra era dessa família e, nesse sentido, sua cultura era grega, e não egípcia. Quando o cristianismo estava nascendo, o Egito estava sendo incorporado pelo Império Romano. Tal subjugação não fez muita diferença culturalmente falando, porque vários soldados romanos e mesmo administradores tinham adotado a forma egípcia de religião, sendo, naquelas regiões do Império, culturalmente egípcios. Por isso, podemos afirmar que, fora de Roma e de Israel, os primeiros padres cristãos eram em sua maioria homens que estavam se convertendo da religião de Ísis para o cristianismo. Os antigos teólogos cristianizados de Ísis, cuja maioria era formada por nativos, mestiços egípcios e gregos egípcios, continuaram exercendo influência cultural sobre a nascente religião cristã (SAMBU, 2007). Um dos primeiros padres da Igreja foi Tertuliano (Quintus Septimius Florens Tertullianus), a quem se atribui a adaptação do conceito egípcio de trindade como doutrina cristã. Ele era cidadão de Cartago, no norte da África, e foi o primeiro escritor de língua latina a exercer uma influência considerável no desenvolvimento da doutrina cristã. Mas qual o motivo de se insistir numa trindade numa religião monoteísta? Figura 4 – Tertuliano(c. 160-240) 89 FILOSOFIA DA RELIGIÃO As religiões egípcias constituíam trindades porque sabiam que o deus superior era inacessível aos mortais. Desse modo, o acesso ao deus superior era mediado pelo espírito do bem e pelo espírito do mal, que serviam de mensageiros para as súplicas dos fiéis. Com o tempo, as trindades na religião egípcia criaram um lugar separado para o espírito do mal, representado por Seth, aquilo que poderíamos chamar inferno. Isso abriu espaço para as trindades que ligam as divindades do bem, no intuito de proteger melhor as pessoas. É interessante a ideia de santíssima trindade, que originalmente devia incluir Maria, Jesus e Deus. O motivo óbvio é que Deus gerou seu filho no ventre de Maria, consagrando-a. A trindade final, porém, acabou substituindo Maria pelo Espírito Santo. Com isso, temos representações na forma de imagens e ídolos tanto de Jesus quanto do Espírito Santo, festejamos as duas entidades e fazemos nossos pedidos aos dois. Mantivemos o Deus cristão sem nenhuma aparência imediata, próximo da ideia de demiurgo de Platão. Como sabemos hoje, isso foi decidido num concílio, uma assembleia religiosa; a decisão não foi exclusivamente racional, mas fruto de batalhas de teses e ideias defendidas por oradores vigorosos. Outra questão é a ideia de Diabo. Segundo Sambu (2007), a palavra Satanás pode não ser de origem semítica. No leste da África, conta-se a história de um rei que deu seetan a seus soldados como proteção, para enfeitiçar, cegar ou enganar o inimigo na guerra. Na tradição judaica, ele está presente como o tentador, o caluniador, o inimigo, o mentiroso e o anjo decaído. Todos esses títulos o apresentam como aquele que tem o poder da morte, governa com mentiras e enganação, acusa a humanidade diante de Deus e se opõe ao propósito de Deus no mundo, mesmo que permaneça em último caso obediente a Deus. Na tradição judaico-cristã, Satanás sempre está próximo, tendo papel primordial na necessidade de atuação de Deus. Ele é o inimigo mencionado nas orações. Se Satanás deixasse de fazer parte da vida religiosa, toda a organização religiosa poderia simplesmente diminuir de tamanho, pois não haveria sentido em arregimentar mais pessoas para deter os avanços de Satanás na vida humana. Por causa de sua presença penetrante, manifesta como o mal inevitável que alcança todos os lugares, Satanás estimula o desenvolvimento das estruturas religiosas dedicadas à defesa dos fiéis. Nesse sentido, o judaísmo e o cristianismo, em suas práticas cotidianas, ainda são religiões dualistas, que lidam o tempo todo com a dicotomia entre o bem e o mal. Isso existe nas antigas religiões animistas da África, assim como em todas as religiões do mundo antigo. Não é coincidência que o conceito de Satanás na Bíblia esteja cristalizado no relato das atribulações de Jó, residente de Uz, região onde o dualismo era a norma teológica. Em Jó 1 e 2, vemos Deus ser convencido, num diálogo com Satanás, a punir Jó severamente, embora saiba que este não mereça tal punição. O livro de Jó retrata Satanás como um visitante frequente de Deus, em busca de conselho, ainda que só faça isso com o intuito de causar sofrimento. Satanás também é descrito, no mesmo livro, como o instrumento de punição de Deus. Embora os cristãos confessem prontamente a crença na trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a quantidade de vezes que se menciona Satanás como causa do mal no mundo parece sugerir que há um reconhecimento não oficial da presença dele nessa equação. A presença do Espírito Santo, que só apareceu três séculos depois do início do cristianismo, tem a ver com uma anomalia que, naquele tempo, assombrava 90 Unidade II os padres da Igreja. De acordo com a sabedoria teológica da época, os anjos precederam o Filho, Jesus. Eles foram as primeiras emanações divinas da substância divina preexistente. O próprio Paulo havia declarado em Hebreus 2,7-9 que Deus fez Jesus um pouco menor que os anjos, mas ainda mais elevado do que Moisés. Os anjos eram os agentes de Deus desde o princípio, representando sua criatividade e sabedoria. Eles precisavam ser incorporados na religião em igualdade com o Filho e o Pai. Outra razão possível é o fato de algumas das principais religiões antigas, a egípcia especialmente, perceberem o Criador sempre em forma de trindade. Parece que os primeiros padres da Igreja foram buscar uma genealogia dos deuses pronta, que já existia e fazia sentido para milhares de pessoas desde antes da Era Cristã. Na opinião de alguns estudiosos, foi o movimento gnóstico que influenciou o cristianismo a pedir a inclusão tardia do Espírito Santo, a fim de completar uma trindade. De acordo com esse movimento, o Filho de Deus era o logos, ou seja, a palavra, compartilhando as qualidades do Pai e do Espírito Santo. Observação O termo gnóstico vem da palavra grega gnosis, que significa “conhecimento”; gnóstico é, portanto, quem adquire um conhecimento especial e vive de acordo com ele. O Espírito Santo foi concebido pelos gnósticos na forma feminina. Para eles, Jesus estava falando da mãe quando mencionava o Espírito Santo. De acordo com o apócrifo Evangelho dos Hebreus, Jesus teria dito: “Minha mãe, o Espírito Santo”. Segundo o pensamento gnóstico, o Pai era preexistente e autogerado, e portanto origem da divindade. Por meio da palavra, encarnou em Jesus, através da mãe, que se tornou o Espírito Santo. Essa interpretação constituía um tipo de trindade análoga à de Ísis. Na filosofia gnóstica, Deus era triplo depois de invocar “ele mesmo de si mesmo” na fórmula Nous, “a mente”, Ennoia, “o pensamento ou ideia”, e Logos, “a palavra ou razão” (SAMBU, 2007, p. 435). O movimento cristão equacionou Nous com “Deus Pai”, Ennoia com “Deus, o Espírito Santo” e Logos com “Deus, o Filho”. A trindade era uma grande preocupação para os teólogos egípcios, pois em sua tradição cultural milenar era comum que três deuses fossem combinados e tratados como um único ser. Por esse viés, podemos verificar uma ligação direta da religião egípcia com a teologia cristã. A tradição trinitária tinha de ser mantida pelos padres do então novo movimento cristão, provavelmente para dotar de máxima credibilidade as conversões, como postulado por um maniqueísta do século III, porque os evangelhos não foram escritos nem por Jesus Cristo nem por seus apóstolos, mas muito depois de seu tempo por algumas pessoas desconhecidas. Como essas pessoas julgavam que seria bem difícil acreditar nas coisas que contavam, coisas que mesmo os padres não tinham visto, cogita-se que utilizaram o nome dos apóstolos e de seus discípulos diretos para indicar quem tinha testemunhado e escrito as narrativas que traziam os feitos de Jesus. Como vimos, a trindade egípcia era composta de Ísis, Osíris e Hórus. A maioria das pessoas que cresceram no ambiente judaico-cristão, com a disposição cosmológica centrada no homem, tenderia a supor prontamente que Osíris era o chefe e Ísis sua esposa subserviente. Mas as mulheres egípcias, 91 FILOSOFIA DA RELIGIÃO mesmo na sociedade mortal, não eram meros apêndices dos maridos. Elas tinham direitos iguais aos deles, podendo inclusive herdar a propriedade de seus pais. Nos momentos finais da religião egípcia, existia uma forte adoração da virgem mãe (SAMBU, 2007). Isso nos conduz a outra reflexão, a de certa manutenção de valores religiosos através de milênios e de cultos diferentes. A tendência humana de criar divindades à própria imagem sempre foi um fato teológico e filosófico bem conhecido. O filósofo pré-socrático Xenófanes de Cólofon, professor de Parmênides de Eleia, pensava que a representação dos deuses como figuras humanas era uma falácia. Ele observou que, se os animais pudessem desenhar ou esculpir, eles representariam as divindades de acordo com sua própria forma. Mas na prática animais não representam. Os homens são o único caso na natureza de seres que criam representações. O antropomorfismo na religião inevitavelmentedecorre do fato de que o Homo sapiens só pode conceber a divindade em termos de suas próprias categorias mentais. Daí também a atribuição às divindades não apenas da forma humana, mas da natureza e das paixões humanas. Observação Antropopatismo é a atribuição de emoções, paixões e desejos humanos a Deus. Antropomorfismo é a atribuição de características humanas, como membros do corpo, a Deus. A propensão humana ao antropomorfismo é inevitável e previsível. Se tudo o que se pudesse encontrar nas relíquias de uma sociedade passada fossem pinturas e esculturas representando a divindade, também seria possível encontrar, examinando esses ícones, a verdadeira representação das características físicas daquela sociedade. Os antigos egípcios fizeram isso ao extremo, deixando evidências de sua aparência na época. As gerações seguintes não precisaram criar as próprias divindades, pois os ancestrais já tinham feito isso. Esse mesmo fenômeno pode ser verificado nas formas de representação de Jesus e em toda a iconografia ligada ao catolicismo. Em geral, os santos aparecem com as roupas e com a aparência da época em que foram representados. O interessante é que esse fenômeno pode ser observado mesmo nas figuras mais antigas das religiões africanas. Entre os povos Maasai e Oromo, por exemplo, as divindades benevolentes eram negras. Deuses como Ísis, Osíris e Ptah eram retratados como negros. Seth, o deus ruivo do antigo Egito, e Enkai, a divindade do mal dos Maasai, eram vermelhos. As primeiras Madonas eram negras e retratavam Ísis e Hórus. Na Europa, em contrapartida, o povo eslavo figurava o divino de maneira distinta: o Deus Branco, Byeloborg, personificava forças criativas positivas; e o Deus Negro, Chemobog, personificava forças destrutivas malignas. O Deus Branco era o deus da luz e do dia, enquanto o Deus Negro era o deus das sombras e da noite. As divindades serem percebidas como pessoas negras apenas confirma o fato de que a pele dos ancestrais era majoritariamente negra. As divindades hindus costumam ser retratadas com características humanas dos negros. O nome Krishna significa “aquele que é negro”. Embora na arte hindu dos últimos séculos ele apareça com a pele azul, no passado, ele era representado com a pele negra. O retrato artístico de Buda se destaca como a imagem típica de um homem negro, com lóbulos alongados e perfurados, algo mais representativo dos estilos africanos tradicionais. Em suas duas últimas encarnações, primeiro 92 Unidade II como Krishna e depois como Buda, Vishnu assumiu a forma de um homem negro. Durga, a deusa-mãe do hinduísmo, com dez mãos, é frequentemente retratada como uma guerreira negra. O que esses exemplos hindus nos mostram é que os fundadores da religião eram basicamente pessoas negras, cujos descendentes, no norte da Índia, tiveram o perfil gradualmente alterado por meio do casamento com a nova raça ariana. Já os hindus do sul, como os dravidianos, ainda são essencialmente negros, mais ou menos como durante as fases iniciais do hinduísmo (SAMBU, 2007). O sol ainda é o deus que mais migrou de uma forma para outra. A ligação do sol com uma divindade originalmente feminina gerou a natureza cíclica de quase todos os temas culturais e religiosos. O sol nasce, sobe e depois desce, à medida que se põe. Então se renova e ressurge no dia seguinte, sem falhar. Os seres humanos, da mesma forma, nascem como bebês, crescem até o auge na idade adulta e declinam gradualmente como anciãos; depois morrem e renascem como bebês. Ninguém que é um exemplo brilhante para os outros e vive uma vida justa morre para sempre. Após cada morte, assim como o sol, deve reencarnar. No antigo Egito, todos os principais deuses estavam igualmente associados ao sol e a seu ritmo. Como rezavam os antigos sacerdotes egípcios de Mênfis para o deus Ptah, senhor dos anos, mensurador do tempo e eterno: “Eu sou ontem, hoje e amanhã, porque nasci de novo e de novo. Eu sou o Senhor da Ressurreição, que sai do crepúsculo e cujo nascimento acontece na Casa da Morte” (SAMBU, 2007, p. 494). Hoje em dia percebemos que, assim como a cultura do ser humano, sua religiosidade representa uma construção coletiva de várias nações. Através de movimentos de sincretismo e transmutação, a partir da ideia de um Deus que criou tudo e de espíritos de ancestrais que, como família, cuidam dos interesses dos seres vivos, intermediando a comunicação com o supremo, formularam-se as religiões que conhecemos. Suas fases históricas servem para verificarmos como o conhecimento vai transformando o dogma das crenças em novas crenças, oferecendo às pessoas a experiência do sagrado. Saiba mais Sobre o sincretismo, leia: KARNAL, L. O que é sincretismo? Cruzeiro do Sul, 27 nov. 2019. Disponível em: https://www.jornalcruzeiro.com.br/opiniao/artigos/o-que- e-sincretismo/. Acesso em: 6 jan. 2020. 6 A RELIGIÃO NA IDADE MÉDIA 6.1 Constantino e o Concílio de Niceia O Concílio de Niceia, muito importante para a consolidação do cristianismo na Europa, foi o primeiro concílio ecumênico a poder ser considerado universal, em razão da expressiva participação dos bispos. A esse encontro, compareceram bispos de todas as regiões em que os cristãos professavam sua fé, pois ocorreu quando a Igreja Católica já tinha alcançado estabilidade e dispunha de liberdade para reunir-se abertamente. 93 FILOSOFIA DA RELIGIÃO O evento foi realizado entre os dias 20 de maio e 25 de julho de 325. O imperador Constantino, que ainda não tinha sido batizado, facilitou a participação dos bispos pondo à disposição deles os serviços do exército imperial para as viagens e os traslados, além de oferecer seu palácio em Niceia de Bitínia, próximo de sua residência em Nicomédia. Observação De acordo com a Catholic encyclopedia, “os concílios são assembleias legalmente convocadas de dignitários eclesiásticos e especialistas em teologia com o objetivo de discutir e regular assuntos de doutrina e disciplina da Igreja” (QUAL…, 2019). Cabe destacar que as condições para a propagação da fé cristã foram muito favoráveis até o terceiro século. Após essa data, houve um período crítico. Constantino empunhou o nome de Cristo como estandarte e, embora tenha posto fim à perseguição aos cristãos, outros problemas surgiram, em especial a dominação da Igreja pelo Estado. A pureza, a coragem e o amor da Igreja primitiva, bem como a constância dos fiéis (a ponto de morrerem se fosse necessário), tiveram grande influência sobre a sociedade pagã no Império Romano, de modo que Constantino se viu obrigado a reconhecer oficialmente a importância do cristianismo para o Estado, convocando e presidindo o Concílio de Niceia. Desde sempre, o cristianismo enfrentou problemas tanto de ordem interna quanto de ordem externa. Havia heresias e perseguições, e esses enfrentamentos fizeram Tertuliano dizer que o sangue dos mártires era a semente da Igreja, e que a realidade era terrível para muitos cristãos. Mesmo assim, a “Igreja continuou a se desenvolver até o período em que conseguiu a liberdade de culto no governo de Constantino” (CAIRNS, 1995, p. 70). Quanto às causas da perseguição, podemos elencar pelo menos quatro: • Política: o cristianismo não teve muitos reveses enquanto era visto como uma seita do judaísmo. Após sua definitiva separação, e com a exclusiva lealdade espiritual e moral dos que recebiam a mensagem de Cristo, César foi posto em segundo plano. Os cristãos se recusavam a oferecer incenso sobre os altares dedicados ao culto do imperador romano. Uma vez que não faziam esse sacrifício, eram vistos como desleais. • Religiosa: como a religião de Roma era externa, com altares, ídolos e ritos expostos ao povo, ela se diferenciava do culto que os cristãos prestavam a Deus, pois o faziam com os olhos fechados e sem nenhuma representação visual. Não havia problema em acrescentar mais um deus ao panteão romano, desde que ele pudesse ser visto. Acusações de ordem moral também foram inventadas, relacionadasao comer e beber (atos que simbolizavam o corpo e o sangue de Cristo) e ao beijo da paz, que foram interpretados, respectivamente, como canibalismo e incesto. 94 Unidade II • Social: os líderes aristocráticos odiavam os cristãos, pois em sua maioria eram pobres e escravos. Os cristãos afirmavam que devia haver igualdade entre todos os homens. Outra questão espinhosa era a vida escandalosa que os romanos tinham, totalmente oposta à dos cristãos. • Econômica: uma clara representação desse ponto está registrada na história de Paulo em Éfeso. É bem provável que a preocupação não fosse tanto com uma possível ameaça ao culto de Diana, mas sim com os lucros, pois sacerdotes, fabricantes de ídolos, videntes, escultores etc. não se animavam com uma religião que não colaborasse com seu meio de vida. Por esses motivos, a perseguição na segunda metade do segundo século passou a ser mais violenta. Quando Roma se aproximava do primeiro milênio de sua fundação, a fome e a agitação civil devastaram o império. Os cristãos foram acusados pela opinião pública de serem os culpados. Isso favoreceu e justificou a perseguição a eles pelas autoridades, que não os consideravam leais ao Estado romano. Entre os principais perseguidores da Igreja cristã estava o imperador Nero, responsável por incêndios em bairros de Roma, dos quais culpava os cristãos. Outro imperador que também acirrou a perseguição foi Domiciano. Uma vez que os judeus se negaram a pagar um imposto público, como os cristãos eram identificados a eles, também sofreram as consequências. O livro do Apocalipse, escrito por João, foi redigido nessa época na ilha de Patmos. Durante a administração de Plínio, por volta do ano 112, ele demonstrou preocupação por causa dos cristãos. Escreveu uma carta ao imperador Trajano em que relatou o crescimento dessa religião nos grandes centros, nas cidades, nas vilas e nas regiões rurais, informando que os vendedores de animais para sacrifício abandonaram o negócio em decorrência do esvaziamento dos templos. Diante dessa situação, Plínio resolveu que todo cristão denunciado seria levado ao tribunal e, se confessasse três vezes que era cristão, seria condenado à morte. No entanto, se no interrogatório renegasse sua fé e adorasse os deuses romanos, a acusação seria retirada e o indivíduo poupado. Em resposta, o imperador assegurou que Plínio estava correto em sua decisão. Quando Roma estava sofrendo com calamidades naturais, subiu ao trono o imperador Décio. Ele pensou que, se tentasse salvar a cultura clássica, teria um grande álibi contra os cristãos. Como eles estavam se expandindo desenfreadamente por todo o império, Décio acreditava que Roma poderia em breve sucumbir por causa da criação de um Estado paralelo. No ano de 250, Décio promulgou um decreto que exigia um sacrifício nos altares romanos à figura do imperador e aos deuses pelo menos uma vez por ano, o que garantiria um certificado chamado libellus. Era evidente que todos os que receberam o libellus tinham traído a fé cristã, mas essa questão a Igreja teve de tratar posteriormente. O primeiro decreto a ordenar perseguição aos cristãos foi promulgado em 303. Diocleciano determinou o fim das reuniões, a destruição das igrejas e das Escrituras, a destituição de oficiais e a prisão dos que insistissem em testemunhar a favor de Cristo. Antes, a perseguição se dava num âmbito mais velado; agora, havia uma verdadeira caça às bruxas. Mais tarde foi promulgado outro decreto, obrigando os cristãos a sacrificar animais para os deuses pagãos; se não o fizessem, seriam mortos. 95 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Em 311, em seu leito de morte, o imperador Galério promulgou um decreto no qual dizia que os cristãos que não quebrassem a paz do império podiam ser tolerados. Finalmente, em 313, com Constantino, a perseguição terminou, por meio do Édito de Milão, que garantiu liberdade de culto não apenas para os cristãos, mas para todas as religiões. González (1995a, p. 175-176) explica: Segundo dois historiadores cristãos que conheceram Constantino, às vésperas de uma batalha, ele teve uma revelação. Um desses historiadores, Lactâncio, diz que num sonho Constantino recebeu a ordem de pôr um símbolo cristão sobre o escudo de seus soldados. O outro, Eusébio, diz que a visão apareceu nas nuvens, junto com palavras escritas no céu, “vence nisto”. Em todo caso, o fato é que Constantino ordenou que seus soldados empregassem para a batalha do dia seguinte o símbolo que se conhece como Iabarum, que consistia na superposição de duas letras gregas, X e P. Visto que essas duas letras são as duas primeiras do nome de Cristo em grego, o Iabarum bem podia ser um símbolo cristão. Alguns historiadores modernos assinalaram muitos outros indícios que nos dão a entender que, embora fosse possível que já nessa data Constantino se inclinasse em direção ao cristianismo, ainda continuava adorando ao sol invicto. Constantino acreditava que a adoração a Deus deveria ser o foco de todo governante – daí a política adotada pelo império. É possível que a visão da cruz que lhe deu a certeza da vitória sobre seus rivais tenha algo a ver com essa política tolerante. A partir daquele momento, os cristãos tiveram total liberdade para divulgar sua fé e converter outras pessoas. Para assimilar a tensa relação entre Estado e Igreja após a concessão dessa liberdade, precisamos entender os problemas políticos enfrentados pelo imperador nessa época. Cairns (1995, p. 99-100) diz: A anarquia do século da revolução, que arruinou a República Romana entre 133 a.C. e 31 a.C., terminou mediante o poderoso principado criado por Augusto após destruir o exército de Antônio. Esse principado, no qual o imperador, como príncipe, dividia o poder com o Senado, mostrou-se também fraco para superar o desafio do declínio interno e da presença dos bárbaros nas fronteiras do império; ademais, a prosperidade e a paz do primeiro período do principado foram seguidas por outro século de revolução, entre 192 e 284. Em 285, Diocleciano reorganizou o império em bases mais autocráticas, tomadas de empréstimo dos despotismos orientais, [a fim] de garantir a cultura greco-romana. Como o cristianismo parecia ameaçar essa cultura, Diocleciano fez uma fracassada tentativa de destruí-lo entre 303 e 305. Mais astuto, Constantino, seu sucessor, compreendeu que, se o Estado não podia destruí-la pela força, o melhor seria usar a Igreja como um aliado para salvar a cultura clássica. Embora oficialmente dividisse o poder com um coimperador, Licínio, entre 311 e 324, ele tomou a maioria das decisões importantes do Estado. 96 Unidade II Nos anos seguintes, os cristãos, que até então estavam sendo perseguidos, foram beneficiados por alguns decretos de Constantino relacionados à recuperação de propriedades confiscadas, concessão de recursos do Estado para a Igreja, desautorização de adivinhações, dispensa do serviço público para os clérigos, e designação do Dia do Sol (domingo) como o dia de prestar culto e descansar. A cidade de Constantinopla, fundada em 330, tornou-se o centro do poder político no Oriente. Após 476, o bispo de Roma passou a ter também poder político, além de espiritual. Esse fato colaborou para dividir a Igreja entre Oriente e Ocidente, abrindo caminho para o Grande Cisma, em 1054. Os filhos de Constantino mantiveram a política de favorecimento aos cristãos, fixando decretos que proibiam a frequência a templos pagãos e o ritual de sacrifício. O cristianismo só não se tornou a religião oficial do Estado porque, em 361, quando Juliano ascendeu ao trono imperial, foi restaurada a liberdade plena de culto, e os privilégios foram retirados. Entretanto, em 380, o cristianismo se tornou a religião exclusiva do Estado, com um édito promulgado por Teodósio I. Apesar de os benefícios concedidos por Constantino e por alguns de seus sucessores serem favoráveis à união entre Igreja e Estado, quando avaliamos seu caminho de transformação, vemos que, em troca de proteção,ajuda e privilégios, o imperador se apoderou do direito de se imiscuir nas contendas na Igreja, ainda que fosse com seu poder temporário, pois acreditava que podia interferir nos assuntos teológicos e espirituais. A partir daí, começou um longo conflito entre Estado e Igreja, e o poder que ela adquiriu foi utilizado para perseguir as Igrejas consideradas pagãs. Assim, passou de perseguida para perseguidora, reagindo da mesma forma que as autoridades no passado em relação aos cristãos. Ainda sob o reinado de Constantino, por volta de 318, um dos presbíteros da Igreja, Ário, erudito e pregador, após ouvir um sermão de Alexandre, bispo de Alexandria, com o título “A Unidade da Trindade”, acabou concebendo uma doutrina que recusava a divindade de Cristo, na ânsia de evitar uma concepção politeísta de Deus. Essa questão, basicamente soteriológica, cresceu tanto que um sínodo de Alexandria condenou Ário, o qual teve de fugir para o palácio de Eusébio, seu amigo de estudos e bispo de Nicomédia. Mesmo com Constantino tentando resolver o conflito de modo sensato, enviando cartas tanto a Ário quanto ao bispo de Alexandria, a contenda extrapolou todos os limites, obrigando Constantino a convocar os bispos da Igreja para tentar resolver o caso. No começo do verão de 325, trezentos bispos da Igreja se reuniram em Niceia, concílio presidido pelo imperador. Essa foi a primeira vez que um chefe de Estado dominou a Igreja, fato que nem sequer foi percebido pelos bispos, provavelmente porque estavam muito preocupados com a ideia de que se afastavam dos ensinamentos da tradição religiosa. Sobre esse concílio, Curtis (2003, p. 23) afirma: O Concílio de Niceia foi convocado tanto para estabelecer uma questão teológica quanto para servir de precedente para questões da Igreja e do Estado. A sabedoria coletiva dos bispos foi consultada nos anos que se seguiram, quando questões espinhosas surgiram na Igreja. Constantino 97 FILOSOFIA DA RELIGIÃO deu início à prática de unir o império e a Igreja no processo decisório. Muitas consequências perniciosas seriam colhidas nos séculos futuros dessa união. Nesse concílio, três partidos se formaram. No primeiro estavam Ário, Eusébio de Nicomédia e alguns dos presentes. Eles defendiam que Cristo passou a existir por um ato criativo de Deus, ou seja, seria de substância diferente do Pai. Pela obediência à vontade do Pai, ele pôde ser considerado divino, mas não era Deus nem existira desde a eternidade: era um ser de essência diferente, criado a partir do nada, mas subordinado ao Pai. Atanásio, por sua vez, fazia apologia de uma interpretação mais ortodoxa, defendendo a ideia de que Cristo existiu desde a eternidade e que era da mesma essência (homoousios) que o Pai, mas de personalidade distinta. A defesa de seu argumento se pautava no seguinte: se Cristo fosse menor do que ele mesmo afirmava, jamais poderia ser o salvador dos homens, e o relacionamento entre Pai e Filho era fundamental no tocante à salvação eterna do homem. Eusébio de Cesareia liderava o maior partido. Renomado historiador da Igreja, tinha aversão a controvérsias. Por isso, tentou propor um significado que pudesse ser aceito por ambos os grupos. Para ele, Cristo não foi feito do nada, conforme Ário preceituava, mas criado pelo Pai antes da eternidade, sendo de essência semelhante (homoi) ou igual à do Pai. Com base nessa crença, foi concebido o Credo Niceno, afirmando a unidade da substância do Pai com o Filho: Cremos em um só Deus, Pai, Todo-Poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis. E em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, luz da luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne, pelo Espírito Santo, da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu ao céu e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim. E no Espírito Santo, Senhor e Vivificador, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas. E na Igreja una, santa, católica e apostólica. Confessamos um só batismo para remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro. Amém (ANGLADA, 1998, p. 179-180). A ortodoxia se tornou vitoriosa em Niceia, com a afirmação da eternidade e da identidade de Cristo com o Pai. O credo usado na Igreja hoje é distinto do Credo Niceno. Como ensina Cairns (1995, p. 108), “o credo de 325 cessa na frase ‘e no Espírito Santo’ e é seguido por uma seção condenatória das ideias de Ário”. Foi retirada a expressão “anatematiza”, que constava no último parágrafo, e esse ficou sendo o credo cristão universalmente aceito. 98 Unidade II Cremos em um Deus Pai Todo-Poderoso, criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis. E em um Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus; gerado como o Unigênito do Pai, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus; luz de luz; Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não feito; consubstancial com o Pai; mediante o qual todas as coisas foram feitas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra; que para nós humanos e para nossa salvação desceu e se fez carne, se fez homem, e sofreu, e ressuscitou ao terceiro dia, e virá para julgar os vivos e os mortos. E no Espírito Santo. Aos que dizem, pois, que houve quando o Filho de Deus não existia, e que antes de ser concebido não existia, e que foi feito das coisas que não são, ou que foi formado de outra substância ou essência, ou que é uma criatura, ou que é mutável ou variável, a esses a Igreja Católica anatematiza (GONZÁLEZ, 1995b, p. 97). No entanto, Constantino e seus filhos sofreram uma derrota pelo arianismo, ainda que temporária, entre os anos de 325 e 361. Em 381, Teodósio definiu as doutrinas elaboradas pelos ortodoxos de Niceia como as que “deveriam ser consideradas a fé dos verdadeiros cristãos”. Outro concílio, dessa vez em Constantinopla, no mesmo ano, estabeleceu que “não deveriam abandonar a fé dos pais de Niceia” (GONZÁLEZ, 1995b, p. 108). Observação O Concílio de Constantinopla foi convocado pelo imperador Teodósio. O texto original desse concílio se perdeu no tempo. Houve discussão sobre o arianismo e novamente foi escrito um credo cristão (niceno-constantinopolitano), pondo-se o Espírito Santo no mesmo patamar do Pai e do Filho. Ao analisar o credo, vemos que seu intuito era suprimir toda doutrina que implicasse dizer que Cristo era um ser criado, em especial nos trechos “Deus de Deus”, “luz de luz”, “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro” e “gerado, não feito”. Quando o credo se refere a Deus como “criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis”, dizendo mais à frente que o Filho é “gerado, não feito”, imediatamente o exclui das coisas visíveis e invisíveis criadas pelo Pai. Ademais, o último parágrafo anatematiza (condena, amaldiçoa, reprova) todos os que afirmarem que o Filho “foi feito das coisas que não são”, asseverando que o Filho foi concebido “da substância do Pai”, no intuito de fechar definitivamente a questão e não deixar qualquer margem para dúvidas. 99 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Ao que parece, quase todos os bispos assinaram esse credo, demonstrando que ficaram satisfeitos por expressar o sentimento de sua fé. Somente poucos, como Eusébio de Nicomédia, não quiseram referendá-lo, o que causou sua condenação e deposição. Constantino ainda determinou que eles deveriam deixar suas cidades. Talvez esse seja o ponto culminante dessa história: quando a Igreja firma a condenação de exílio, somada à de heresia, revela-se a clara possibilidade de o Estado, a partir daquele momento, poder intervirnos dogmas ou assuntos da Igreja. Lembrete Segundo historiadores, Constantino teve uma revelação em sonho: ele recebeu a ordem de pôr um símbolo cristão sobre o escudo de seus soldados, símbolo esse que consistia na superposição de X e P, as duas primeiras letras do nome de Cristo em grego. Desde então, ele passou a ter “tendências cristãs”. 6.2 Carlos Magno e a conversão em massa O Império de Carlos Magno (768-814), também denominado Império Carolíngio, representa um dos momentos de maior esplendor do Reino Franco, que chegou a ocupar toda a região central da Europa. Por suas realizações, o imperador Carlos Magno é considerado o mais importante rei dos francos. Ele destacou-se, principalmente, por conquistas militares e pela organização administrativa implantada nos territórios sob seu domínio. Nas regiões ocupadas eram construídas fortalezas e igrejas, em volta das quais, organizavam-se vilas, que posteriormente passavam a ser ligadas por estradas. Sendo cristão, Carlos Magno obrigava os povos conquistados a se converter ao cristianismo. Uma das características centrais do governo de Carlos Magno é que ele não tinha uma sede fixa. Com sua corte, que se constituía basicamente de familiares, amigos, membros do clero e funcionários administrativos, viajava de um lugar para outro. Nos séculos VIII e IX, o reino medieval na França era liderado pela dinastia carolíngia, que chegou ao auge com Carlos Magno. O filho de Carlos Martel, Pepino, o Breve, ou Pepino, o Grande (714-758), governou junto com o irmão quando este entrou para um mosteiro. Pepino foi o primeiro rei carolíngio exatamente por ter arrogado para si esse título, sendo consagrado como rei dos francos pelo papa Bonifácio. Depois, auxiliou o papa enviando expedições contra os lombardos entre 754 e 756. Ainda em 754, prometeu terras ao papa na região central da Itália, ato que ficou conhecido como Doação de Pepino, tendo um significado muito especial para a cidade de Roma, que havia sido construída há exatos mil anos. Carlos Magno subiu ao trono em 768 e teve grande influência na Europa Ocidental, em todos os setores. Embora dedicado à religião, além da esposa, ele mantinha em seu palácio concubinas, o que mostra que ele divorciava a teoria da prática. Sobre sua aparência física, Curtis (2003, p. 60) diz que “a 100 Unidade II imagem do novo imperador era impressionante: alto, forte, grande cavaleiro, lutador destemido e, em alguns momentos, cruel”. Ele gostava muito de guerras, participando de aproximadamente cinquenta campanhas militares durante seu reinado. Assim, conseguiu ampliar suas fronteiras para a Itália, a Alemanha e a França. No entanto, como toda essa terra se devia exclusivamente a sua competência como conquistador, após sua morte, em 814, esse reinado não se manteve com seus sucessores. O soberano ainda criou um excelente sistema de governo imperial para comandar seus domínios, dividindo-o em vários condados, os quais eram administrados por um duque. O responsável prestava contas a alguns homens da corte, que chegavam de forma imprevista para inspecionar o trabalho, o cumprimento da lei, a manutenção da ordem e a determinação de novos decretos. A Igreja também foi favorecida. Ele a comparava com a alma e o Estado com o corpo. Vinte anos depois da doação de terras feita por seu pai ao papa, Carlos Magno a confirmou. Embora acreditasse que o dirigente da Igreja não devesse se imiscuir nas decisões do soberano do Estado, entendia que os bispos tinham de se subordinar ao papa. Carlos Magno gostava de ouvir a leitura de grandes livros do passado, em especial A cidade de Deus, de Agostinho. Inclusive, recomendou aos abades que abrissem no mosteiro uma escola. Queria que os tradutores da Bíblia fossem homens esclarecidos, que interpretassem e compreendessem as Escrituras de forma correta. Certa vez, o papa Leão III, atacado por um grupo em Roma, foi para a corte de Carlos Magno. O rei conduziu-o de volta a Roma e depois, no Natal de 800, o papa pôs sobre sua cabeça uma coroa, declarando-o imperador dos romanos. Com isso, o Império Romano voltou a existir no ocidente, e uma nova Roma, governada por um teutão, substituiu o antigo Império Romano. Essa atitude certamente contribuiu para que houvesse uma grande conversão. Quase toda a cristandade ocidental fazia parte de seu império, exceto as Ilhas Britânicas e as regiões remotas da Espanha, onde os cristãos tinham se refugiado das invasões muçulmanas. Por isso, o rumo que os acontecimentos tomariam em seu império teria amplas consequências para a história futura do cristianismo e de toda a Europa (GONZÁLEZ, 1995b, p. 141). Por causa dessa coroação, houve uma reconciliação entre a população do velho Império Romano e os conquistadores teutões, encerrando o sonho do imperador oriental de reconquistar as terras do Império Romano que foram dominadas pelos bárbaros do Ocidente. Ademais, a posição do papa foi acentuada, como se os imperadores devessem a coroa a ele e tivessem a obrigação de ajudá-lo sempre que preciso. Assim, passou-se a indagar o seguinte: o poder que o imperador tinha sobre os homens era recebido de Deus ou conferido pela Igreja, que detinha um poder absoluto? Até essa questão ser resolvida, muitas discussões ocorreram na Idade Média. 101 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Ainda no tocante às preocupações da Igreja, Carlos Magno tentou unificar o Ocidente e o Oriente para formar um único império. Ele queria englobar a maior parte possível dos territórios que pertenciam ao antigo Império Romano. Sobre suas intensas colaborações, Cairns (1995, p. 152-153) diz: Não se pode esquecer que os imperadores orientais impediram as hordas muçulmanas de invadir a Europa até que o Ocidente se recuperasse da confusão e do caos provocados pela queda do império e pela chegada em massa dos bárbaros. O Oriente enfrentou o problema particular da controvérsia iconoclasta de 752 a 843. Leão III, em decretos de 726 e 730, proibiu o uso de imagens na Igreja e determinou sua destruição. Carlos Magno fez uma declaração em favor do uso de imagens na época em que Irene se tornou imperatriz do império oriental. Ele chegou até a propor casamento a Irene para reunir as áreas do velho Império Romano numa só coroa, com sede no Ocidente. Irene recusou suas propostas, e a divisão do império, começada quando Constantino transferiu a capital de Roma para Constantinopla em 330, continuou. O segundo Concílio de Niceia, em 787, permitiu a veneração, não a adoração de imagens. Carlos Magno não se preocupou em estender seus territórios apenas em direção a seus vizinhos cristãos. Avançou com uma intensa expedição para controlar os frísios e saxões, que habitavam o nordeste de seu império, e os muçulmanos, que estavam a sudoeste – os primeiros constantemente furtavam igrejas, mosteiros e aldeias, depois retornando a seu território, o que dificultava capturá-los. Em 772, Carlos Magno invadiu as terras dos saxões e destruiu uma família que era considerada uma das principais daquele povo. Aparentemente, queria facilitar a conversão dos saxões ao cristianismo e eliminar sua religião. Depois de os saxões se renderem, ele enviou missionários para a região com o propósito de ensinar a fé cristã. Em seguida, Carlos Magno avançou contra os lombardos na Itália, e todos os missionários deixados entre os saxões foram mortos. Ele voltou a invadir a região, sufocou a rebelião e convocou uma assembleia nacional em Paderborn. Lá os saxões não apenas viram seu país ser organizado de forma eclesiástica como tiveram de ajudar na criação de abadias e dioceses. Ainda que dentro de seus territórios, Carlos Magno se dedicou a ordenar e monitorar a vida da Igreja. Demonstrava ter grande convicção e era chamado para assuntos civis e religiosos, inclusive porque, ao que parece, ele não diferenciava uma coisa da outra. Da mesma maneira que os condes, os bispos eram nomeados pelo rei, alterando a forma anterior de eleição, feita pelo clero ou pelo povo.Carlos Magno comandava de tal modo o governo da Igreja que os próprios bispos tinham de prestar conta de seus atos a ele, fazendo com que a função do arcebispo fosse mais de honra do que de autoridade. Depois, já com seu substituto, Ludovico, o Pio, os arcebispos não apenas reconquistaram o poder, mas passaram a ser grandes senhores feudais. 102 Unidade II Além de cuidar do contingente, nomeando bispos, Carlos Magno se imiscuía nos assuntos legislativos da Igreja. Incluiu o descanso semanal obrigatório, impôs o dízimo como uma espécie de tributo e ordenou que a pregação fosse feita na língua do povo, de modo simples e claro. O monasticismo perdera sua motivação, e muitas pessoas que não tinham qualquer atração pela vida monástica, mas apenas ambição de ficar ricas e poderosas, tentavam adquirir abadias. Carlos Magno empreendeu uma renovação nos mosteiros, pondo Benedito Aniano como responsável pela reforma e supervisão da vida monástica. Embora com pouca instrução, Carlos Magno acreditava ser o estudo de grande importância; quando não se ocupava das guerras, tratava de se empenhar no despertamento da arte e da erudição, que ficou conhecido como Renascimento carolíngio, patrocinando uma escola palaciana na qual Alcuíno, brilhante estudioso anglo-saxão, foi professor. Ele exortava seus estudantes com as seguintes palavras: “Os anos correm como água. Não desperdicem os anos do aprendizado com a indolência”. Alcuíno escreveu livros e textos sobre gramática, ortografia, retórica e lógica. Escreveu também comentários bíblicos e assumiu o lado ortodoxo em muitos debates teológicos (CURTIS, 2003, p. 61). Ainda que Roma e Constantinopla tivessem perdido o controle da costa sul do Mediterrâneo para o islamismo, a expansão islâmica tanto no Oriente quanto no Ocidente foi reprimida em 732. Até o ano 800, as dificuldades do império tinham sido parcialmente resolvidas. A parte oriental era comandada pelo imperador em Constantinopla. O reino franco de Clóvis, por outro lado, evoluiu para um império cristão, dirigido por Carlos Magno, unificando-se no Império Romano do Ocidente os bárbaros cristãos e os habitantes do velho império. 6.3 A expansão da Igreja Católica Com os acordos firmados entre o clero e a nobreza, e principalmente a partir do século X, com a desagregação política que caracterizou a Idade Média – período em que deixou de existir um poder centralizador no continente europeu, que comandasse os diversos povos que nele viviam –, a Igreja Católica obteve espaço para expandir seu “império da fé”. Acreditar em Cristo pressupunha uma série de regras que todo indivíduo deveria seguir para merecer um lugar após a morte no paraíso celeste, ao lado de Deus. Nesse sentido, a Igreja instruía os fiéis a não pecar, obedecer aos mandamentos divinos e fazer caridade. Vale notar que a caridade pregada não estava relacionada apenas com o próximo, mas também (e especialmente) com a doação de bens para a Igreja, a fim de ajudá-la a prosseguir em sua missão. Assim, o crescimento do poder da Igreja Católica e o tamanho de sua riqueza estão diretamente associados a sua capacidade de fazer com que os fiéis acreditassem nas verdades que pregava. Contudo, mais importante que acreditar nessas verdades era temer a ira divina e o risco de queimar no fogo do inferno após a morte. Em razão disso, desde o século IV, sob o imperador romano Constantino, começaram a ser definidos os dogmas da Igreja, com o já citado Concílio de Niceia. 103 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Observação Os princípios dogmáticos são crenças básicas pregadas pelas religiões, que devem ser seguidas e respeitadas por seus membros sem nenhuma dúvida. Além do cristianismo, os dogmas estão presentes em outras religiões, como o judaísmo e o islamismo. Também é preciso observar que, mesmo antes de o cristianismo se tornar a religião oficial do Império Romano, seus discípulos já vinham obtendo muito êxito na divulgação de sua fé por todo o território dominado pelos romanos. Vimos que diversos povos contribuíram para a expansão do cristianismo: romanos, gregos e judeus, cada um com suas peculiaridades. Com isso, sob o ponto de vista subjetivo humano, o cristianismo tem seus primórdios na história temporal – vida de Cristo. Embora a Bíblia seja o livro que aponta de forma mais direta para essa evidência, existem muitos fundamentos extrabíblicos que comprovam a existência de Cristo, como testemunhos que podem ser considerados pagãos e que estão presentes desde o primeiro século da Igreja. Tácito (c. 60-c. 120), o decano dos historiadores romanos, liga o nome e a origem dos cristãos a Christus, que no reinado de Tibério (42 a.C.-42 a.D.) “sofreu a morte por sentença do procurador, Pôncio Pilatos”. Plínio (62-c. 113), que era protetor da Bitínia e de Ponto na Ásia Menor, escreveu ao Imperador Trajano (53-117), por volta do ano 112, para se aconselhar quanto ao modo de tratar os cristãos. Sua carta dá uma valiosa informação extrabíblica sobre Cristo. Ele elogiou a elevada moral dos cristãos, comentando sua recusa a cometer roubo ou adultério, a testemunhar falsamente ou a trair a confiança depositada neles. Plínio chegou a dizer que eles “entoavam uma canção a Cristo como para um Deus”. Suetônio, em sua obra Vida dos 12 césares: vida Claudius (25,4), mencionou que os judeus foram expulsos de Roma por causa de distúrbios a respeito de Chrestos (Cristo) (CAIRNS, 1995, p. 37). Outro autor importante, em especial por seu modo sarcástico de escrever, é Luciano, que viveu no fim do século II e fez uma sátira sobre a fé dos cristãos. No texto, descreve Cristo como alguém que foi crucificado por ter iniciado um novo culto. Depois de dizer que os cristãos foram ensinados por Jesus a crer que deveriam observar seus mandamentos e que eram irmãos, Luciano os ridiculariza pela adoração que têm pelo mestre. Sem dúvida, essas declarações são provas históricas de imenso valor, principalmente por virem de historiadores romanos instruídos, que não apenas hostilizavam, mas desdenhavam os cristãos. Esses testemunhos, somados aos relatos da própria Bíblia, comprovam a existência histórica de Cristo. 104 Unidade II Josefo (37-100), historiador judeu que tentou esclarecer o judaísmo para os romanos cultos com seus escritos, também falou sobre Cristo, declarando que Tiago era seu irmão. Em outra passagem, Josefo retrata Cristo como um homem sábio, que Pilatos sentenciou à morte na cruz. Certamente são informações relevantes, que reforçam o argumento citado, sobretudo porque esse escritor não tinha nenhuma afeição pelo cristianismo. Ainda sobre a historicidade de Cristo, muitas cartas, evangelhos, atos e apocalipses escritos devem ser levados em consideração. Há muitos símbolos que servem de evidência, especialmente a figura da âncora, do peixe e da pomba, bem como diversos outros signos cristãos, que podem ser vistos nas catacumbas e que revelam a crença no Jesus histórico. O mesmo se pode dizer do calendário cristão. No entanto, Cristo apenas inicia a história da Igreja, que ocorre em Jerusalém, após o ponto culminante da religião, isto é, sua morte e ressurreição. Esse fato é apresentado na Bíblia seguido de diversas aparições pós-ressurreição – algumas vezes, para Jesus comprovar que voltou à vida, outras vezes, para orientar os futuros pregadores sobre o evangelho e sua missão. O exato momento do início da Igreja é narrado por Romag (1948, p. 41): Cinquenta dias tinham decorrido depois da ressurreição de Jesus Cristo. Em Jerusalém, celebrava-se a festa de Pentecostes, que atraía uma multidão imensa. De repente, desencadeou-se uma tempestade. Os apóstolos oravam. Chamas apareceram no ar e, em formas de língua de fogo, pararam sobre a cabeça de cada um. Todos ficaram cheios de Espírito Santo. Com sua luz e com sua graça, seriam capazes de realizar sua missão. Após esse evento, o apóstolo Pedro começa a pregar aos judeus imigrantes sobre o Cristo que morreu e ressuscitou. A partir daí, nascea ideia de um reino universal, que esse Messias inaugura com seus valores sobrenaturais, como a penitência, o batismo, a remissão de pecados e a graça, sempre debaixo do governo do Espírito Santo. Os primeiros membros da comunidade judaico-cristã se consideravam uma seita do judaísmo. Por isso, seguiam os ritos da lei mosaica. Contudo, promoviam suas próprias reuniões, realizadas em casas particulares, “tendo todos um só coração e uma só alma” (ROMAG, 1948, p. 42), o que fazia a caridade ser exercida de forma justa, possibilitando a cada um receber conforme sua necessidade. Após a morte de Estevão, o primeiro mártir do cristianismo, depois considerado santo pela Igreja Católica, iniciou-se uma perseguição violenta. Os cristãos que não foram presos ou mortos fugiram da cidade, “pelas terras da Judeia e da Samaria. Só os apóstolos permaneceram em Jerusalém” (ROMAG, 1948, p. 44). Nesse contexto, inicia-se a expansão da Igreja, pois os primeiros ouvintes do apóstolo Pedro que foram dispersos pelas cidades passaram a divulgar sua fé nas províncias. Assim, locais como Etiópia e Itália também receberam a mensagem da fé cristã. 105 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Com essa dispersão, o número de gentios convertidos ao cristianismo aumentou, preocupando os judeus cristãos de Jerusalém, pois a maior parte dos novos convertidos vinha do paganismo. Foi na cidade de Antioquia que eles foram chamados cristãos pela primeira vez. Nessa cidade, onde diversos profetas e doutores pregavam a nova fé, surgiu também a primeira controvérsia sobre o que deveria ser feito com os gentios em decorrência da lei mosaica. Ao arrebanharem a multidão com os judeus que se convertiam, todos teriam ou não de observar a lei cerimonial? Para resolver o problema, os apóstolos Pedro, João e Tiago, por volta do ano 50, reuniram-se para deliberar sobre o assunto numa assembleia conhecida como Concílio de Jerusalém, o primeiro encontro oficial para resolver questões de fé. Cairns (1995, p. 54) explica: O problema do significado e dos meios de salvação foi a primeira dificuldade que Paulo enfrentou durante o Concílio de Jerusalém ao fim de sua primeira viagem missionária. A Igreja, nascida nos quadros do judaísmo, desenvolvera dois grupos. Um grupo reacionário de cristãos judeus de formação farisaica acreditava que tanto os gentios como os judeus deviam observar a lei de Moisés para a salvação. Eles queriam tornar o cristianismo uma seita particular do judaísmo. O outro grupo entendia que a salvação vinha somente pela fé em Cristo e que a oferta da salvação era para todos, e não por meio de obras. A liberação dos novos cristãos da observância da lei cerimonial foi o maior trunfo desse concílio, o qual estabeleceu que a salvação seria alcançada exclusivamente pela fé. Sendo essa fé universal, a Igreja não viu fronteiras para sua expansão, pois era regida pela lei do amor. A obediência relacionada ao amor a Deus se diferenciava da obediência relacionada à arbitrariedade. Outros grandes eventos que colaboraram de forma ímpar para a expansão da Igreja foram as viagens missionárias do apóstolo Paulo, antes conhecido como Saulo, mas que mudou de nome depois de aceitar Cristo. Nascido na cidade de Tarso, seus pais o levaram a Jerusalém, onde estudou a lei mosaica até se tornar fariseu. Certo dia, por volta do ano 36, quando se dirigia à cidade de Damasco para prender cristãos, teve uma experiência mística com Jesus Cristo, e a partir daí passou de perseguidor da Igreja para perseguido. É considerado por muitos o maior dos apóstolos, por causa da eficiência na divulgação da mensagem cristã através de suas cartas. Em sua primeira viagem de missão, Paulo foi acompanhado por Barnabé e João Marcos, indo até Antioquia. Fez alguns milagres nos locais onde esteve e ordenou a eleição de sacerdotes para exercer cargos nas igrejas. Na empreitada missionária subsequente, quem o acompanhou foi Silas, Lucas e um jovem chamado Timóteo. Voltou à cidade de Pisídia, passando por Frígia, Galácia, Mísia, Trôade e Macedônia. Formou comunidades cristãs em Filipos, Tessalônica e Bereia, mas teve que fugir para Atenas por causa da acirrada perseguição dos judeus. A terceira viagem missionária de Paulo foi com Lucas, Timóteo, Tito e outros. Mais uma vez foi a Pisídia e passou por Éfeso, Macedônia, Ilíria, Corinto, Filipos, Trôade e Mileto, onde se despediu dos 106 Unidade II presbíteros da Ásia Menor. Lá, pela última vez, ele afirmou aos cristãos que o Espírito Santo os havia constituído como pastores, prevenindo-os contra futuras heresias. Depois, passou por Cesareia e seguiu para Jerusalém, mesmo prevendo que lá a má fortuna o aguardava. Séculos mais tarde, quando a capital do Império Romano mudou para Constantinopla, a autoridade dos pontífices romanos aumentou, não apenas por sua dignidade espiritual, mas também pelos muitos bens que possuía a Sé apostólica. Sobre essa situação, Romag (1949, p. 42) comenta: Desde muito, reunira a Igreja de Roma numerosos latifúndios na Itália e nas ilhas vizinhas, que, por circunstâncias de tempo e por motivos religiosos, haviam-lhe sido oferecidos. No segundo período, estenderam-se sobre quase todas as províncias do império ocidental. Eram chamados de Patrimônio de S. Pedro. Como senhor e administrador dessas imensas doações e legados, tornara-se o papa cada vez mais independente em relação aos imperadores e seus representantes, os exarcas de Ravena. Gregório II (715-731) e Gregório III (731-741) mostravam-se como verdadeiros soberanos, embora não tivessem ainda direitos de soberania. Entre os séculos VIII e X, mais especificamente entre o pontificado de Nicolau I e o de Leão IX, poucos líderes da Igreja de Roma foram bons papas. E isso não por falta de números: “Aproximadamente quarenta [homens] ocuparam o trono papal nesse período” (CAIRNS, 1995, p. 164). Em meados do século XI, um grande escândalo envolveu Bento IX, conhecido como papa indigno, que foi expulso de Roma e substituído por Silvestre III. Bento voltou a Roma e vendeu o trono papal, por uma grande quantia em dinheiro, a um indivíduo conhecido como Gregório VI, e mesmo assim não abriu mão do papado. A partir desse momento, passaram a existir três papas, todos alegando a própria legitimidade. O imperador romano, Henrique III, convocou um sínodo em 1046, depondo Bento e Silvestre e obrigando Gregório a renunciar em favor de Clemente II, que faleceu rapidamente. Então, Henrique recomendou outra pessoa, que também ocupou o cargo por pouco tempo. Finalmente, Henrique indicou seu próprio primo, Bruno, que ficou conhecido como papa Leão IX. Após a chegada desse papa ao trono, a história dos papas inexpressivos mudou: tanto ele quanto seus sucessores foram homens dignos, como Nicolau II e Gregório VII. A eleição dos papas saiu do controle romano, ficando a cargo dos líderes eclesiásticos no Colégio dos Cardeais em 1059. Com Inocêncio III, o papado atingiu seu apogeu na história. Esse papa teve tanto poder que submeteu os governantes das nações-Estado a sua vontade, dominando a primeira parte da grande guerra contra os descrentes da Terra Santa. Os fundamentos intelectuais do poder papal foram fortalecidos através das universidades e do escolasticismo. Muitos monges zelosos aderiram ao poder papal, fazendo-se obedientes servos do papa, sobretudo por causa da reforma monástica elaborada por ele. Tanto Inocêncio III quanto Gregório VII se destacaram no cenário papal medieval. 107 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Esses homens não aceitavam a ideia de que Deus concedera ao papa e ao governo temporal a soberania coordenada das almas e dos corpos dos homens. O papa não podia aceitar a ideia de que derivava sua autoridade sobre a alma dos homens do governante temporal a quem Deus fizera soberano; por sua vez, o governante não podia concordar com a ideia de que exercia sua soberania sobre os corpos dos homens em virtude da graciosa concessão de poder feita pelo papa (CAIRNS, 1995, p. 169). Por contado crescimento de falsas crenças, no IV Concílio de Latrão, a Igreja adotou medidas severas. Inocêncio III fixou sanções aos questionadores pelo Estado, inclusive o confisco das propriedades se necessário, estendendo-se a punição de excomunhão para as autoridades seculares que não colaborassem com essa norma. Todas essas medidas e inúmeras outras tomadas pelo papa colaboraram para a expansão da Igreja Católica na época medieval. A filosofia moderna ocidental está profundamente marcada pelo cristianismo, de modo especial pelo catolicismo. No século XIV, a filosofia escolástica entrou em decadência para ceder lugar a uma nova racionalidade, prática e voltada para a transformação terrestre. Com o Humanismo e o Renascimento rompe-se o vínculo com o velho mundo feudal e cria-se um novo método de investigação e conhecimento, que se apoia na razão e na experimentação científica (ZILLES, 1991, p. 22-23). 6.4 A invenção do Diabo e do purgatório Uma das preocupações do cristianismo a partir do ano 1000 foi estruturar e transmitir a ideia dos ambientes pós-morte. Embora já estivessem presentes na consciência do indivíduo medieval, não foram descritos em detalhes até o século XII. O inferno, o purgatório e o paraíso, fortificados como instituições, passaram a controlar a conduta do cristão medieval. Nesse período, os ambientes do além foram estruturados para explicar o destino do homem depois de sua morte. Isso se fortaleceu entre o ano 1000 e o século XV, com a homogeneidade adquirida pelas divisões do pós-morte cristão. Inicialmente havia cinco estruturas: o limbo das crianças, o limbo dos patriarcas, o inferno, o purgatório e o paraíso. Mas a concepção que prevaleceu e foi mais bem apropriada pelos fiéis manteve apenas três desses locais: o inferno, o purgatório e o paraíso (LE GOFF, 1995). No inferno estão os que pecaram e não seguiram os ensinamentos da Igreja cristã. No purgatório encontram-se os arrependidos de seus atos. No paraíso acham-se os abençoados, que foram bons em vida e seguiram os mandamentos cristãos. O inferno, portanto, foi descrito como um ambiente de punição, em que residiam os demônios e o próprio Diabo; um local de terror, escuro e fundo, onde o peso de cada pecado prevalece e afunda para o centro a alma dos danados. Na Bíblia hebraica, não aparece a palavra Diabo, mas Satanás, termo que geralmente remete ao adversário de Deus. Contadores de histórias hebreus já no século VI a.C. mencionavam um ser sobrenatural chamado Satanás, um anjo enviado por Deus que tinha como objetivo bloquear ou obstruir 108 Unidade II a atividade humana. Pagels (1996, p. 66) diz que “a raiz stn significa ‘um que é contra, obstrui ou age como adversário’. O termo grego diabolos, mais tarde traduzido como ‘demônio’, significa literalmente ‘alguém que atira alguma coisa no caminho de alguém’”. Como vimos, também é possível que o termo tenha origem africana. Quando Satanás aparecia numa narrativa, isso acontecia para explicar os impedimentos que estavam diante de alguém. Não necessariamente se fazia referência a um personagem específico, mas muitas vezes ao agente do pecado humano. Outros invocavam essa figura extranatural para responsabilizá-la por bloquear projetos ou objetivos humanos ou se opor a eles. No entanto, cabe chamar a atenção para o fato de que esse “anjo” mandado por Deus não era fatalmente maligno, pois em geral era enviado como o anjo da morte, para cumprir uma missão específica, que poderia ser dissociada da vontade humana. Satanás também podia ser enviado por Deus para proteger o homem de um mal maior. Um exemplo aparece na história de Balaão, registrada no Pentateuco. Balaão desobedeceu a Javé tentando ir a um local onde se determinou que não fosse. Balaão selou uma jumenta e partiu, mas Deus se irritou com ele pela desobediência. Por conseguinte, o anjo do Senhor se pôs no caminho, como um adversário ou obstrutor. Esse mensageiro sobrenatural permaneceu invisível a Balaão, mas a jumenta o viu e parou no caminho: Quando a jumenta viu o anjo do Senhor parado no caminho, empunhando uma espada, saiu do caminho e foi-se pelo campo. Balaão bateu nela para fazê-la voltar ao caminho. Então o anjo do Senhor se pôs num caminho estreito entre duas vinhas, com muros dos dois lados. Quando a jumenta viu o anjo do Senhor, encostou-se no muro, apertando o pé de Balaão contra ele. Por isso ele bateu nela de novo. O anjo do Senhor foi adiante e se colocou num lugar estreito, e não havia espaço para desviar, nem para a direita nem para a esquerda. Quando a jumenta viu o anjo do Senhor, deitou-se debaixo de Balaão. Acendeu-se a ira de Balaão, que bateu nela com a sua vara. Então o Senhor abriu a boca da jumenta, e ela disse a Balaão: “Que foi que eu lhe fiz, para você bater em mim três vezes?”. Balaão respondeu à jumenta: “Você me fez de tolo! Quem dera eu tivesse uma espada na mão; eu a mataria agora mesmo”. Mas a jumenta disse a Balaão: “Não sou sua jumenta, que você sempre montou até o dia de hoje? Tenho eu o costume de fazer isso com você?”. “Não”, disse ele. Então o Senhor abriu os olhos de Balaão, e ele viu o anjo do Senhor parado no caminho, empunhando a sua espada. Então Balaão inclinou-se e prostrou-se, rosto em terra. E o anjo do Senhor lhe perguntou: “Por que você bateu três vezes em sua jumenta? Eu vim aqui para impedi-lo de prosseguir porque o seu caminho me desagrada. A jumenta me viu e se afastou de mim por três vezes. Se ela não se afastasse, a esta altura eu certamente o teria matado; mas a ela eu teria poupado” (BÍBLIA…, [s.d.], Números 22,23-33). 109 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Após receber essa punição verbal e, principalmente, ter essa visão aterrorizante, Balaão concordou em fazer a vontade de Javé, que falou através de seu satanás. Outra história sobre Satanás está registrada no livro de Jó, que o descreve como um mensageiro sobrenatural, membro da corte real de Deus. Diferentemente do satanás de Balaão, que o protegeu do mal, o de Jó teve outro papel. Ao lermos o excerto, vemos que Javé admite que Satanás o incitou a agir contra Jó: “Disse então o Senhor a Satanás: ‘Reparou em meu servo Jó? Não há ninguém na terra como ele, irrepreensível, íntegro, homem que teme a Deus e evita o mal’” (BÍBLIA…, [s.d.], Jó 1,8). A trama começa quando Satanás aparece como um anjo, um filho de Deus (ben Elohim). Esse termo do idioma hebraico também pode ser traduzido por “um dos seres divinos” (PAGELS, 1996, p. 68). Como os demais anjos da hoste celestial, certo dia, Satanás se apresentou diante do Senhor. Quando lhe perguntado de onde vinha, sua resposta foi que estava passeando pela terra. O cronista explora a similaridade entre o som das palavras hebraicas satan e shût, que significa “rodear”, sugerindo que o papel especial de Satanás na corte celestial é o de uma espécie de agente ambulante de espionagem, como aqueles que muitos judeus na época teriam conhecido – e detestado – como membros do refinado sistema de polícia secreta e espiões do rei da Pérsia. Tidos como “o olho do rei” ou “o ouvido do rei”, esses agentes vagueavam pelo império à procura de sinais de deslealdade entre o povo (PAGELS, 1996, p. 68). Nesse momento, Deus se vangloria dizendo ser Jó um de seus servos mais leais. A resposta que Satanás dá ao Senhor é desafiadora, procurando pôr a fidelidade de Jó à prova: “Será que Jó não tem razões para temer a Deus?”, respondeu Satanás. “Acaso não puseste uma cerca em volta dele, da família dele e de tudo o que ele possui? Tu mesmo tens abençoado tudo o que ele faz, de modo que todos os seus rebanhos estão espalhados por toda a terra. Mas estende a tua mão e fere tudo o que ele tem, e com certeza ele te amaldiçoará na tua face” (BÍBLIA…, [s.d.], Jó 1,9-11). Assim, Deus concorda com o desafio e permite que Satanás devaste todas as riquezas e propriedades de Jó, o homem mais próspero de todo o Oriente, o qual perde não apenas bois, ovelhas e camelos, mas todos os seus filhos e filhas. Contudo,isso não é suficiente para Satanás. Quando ele novamente comparece diante de Deus, o Senhor mais uma vez enfatiza a integridade de Jó, mesmo após ter sofrido essa terrível devastação. Satanás pede autorização para pressioná-lo ainda mais: “Pele por pele!”, respondeu Satanás. “Um homem dará tudo o que tem por sua vida. Estende a tua mão e fere a sua carne e os seus ossos, e com certeza ele te amaldiçoará na tua face.” O Senhor disse a Satanás: “Pois bem, ele está nas suas mãos; apenas poupe a vida dele” (BÍBLIA…, [s.d.], Jó 2,4-6). 110 Unidade II A narrativa termina com Jó suportando a prova, Satanás se retirando, e a sorte de Jó sendo mudada, pois Deus concede a ele o dobro de tudo quanto tinha. Observemos um detalhe: apesar de Satanás prejudicar muito a um homem justo, ele continua a ser um anjo, membro da corte celestial e servo obediente de Deus. No mesmo período em que o livro de Jó foi escrito, cerca de 550 a.C., outros autores bíblicos também invocaram um satanás para tornar inteligível o conflito que reinava em Israel. O historiador da corte recorreu a um satanás para relatar a origem do censo que o rei Davi introduziu em Israel no ano de 1000 a.C., com o intuito de criar um sistema de tributos. Essa ordem enfrentou intensa oposição, mesmo entre os comandantes do exército encarregados de executá-la. Joabe, o general de confiança de Davi, avisou-o de que sua atitude estava sendo má, e os demais comandantes quase iniciaram um motim, só desistindo quando perceberam que o rei não arrefeceria. Por que Davi teria cometido o que o cronista considera um ato mau, agressivo contra Israel? Pagels (1996, p. 70) explica: Não podendo negar que a ordem condenável partira do rei, mas querendo condenar o ato de Davi sem atingir diretamente a pessoa do rei, o autor de Crônicas sugere que um adversário sobrenatural na corte divina conseguira infiltrar-se na casa de Israel e levar o rei ao pecado: “Então Satanás se levantou contra Israel, e incitou Davi a levantar o censo de Israel” (1 Crônicas 21,1). Mas, embora um poder angelical tivesse levado Davi a cometer esse ato, de outra maneira inexplicável, o cronista adverte que o rei era, apesar disso, pessoalmente responsável – e culpado. Tudo isso desagradou a Deus, pelo que feriu a Israel. Mesmo depois de Davi ter se humilhado e confessado seu pecado, o irado Senhor castigou-o, enviando um anjo vingador para destruir 70 mil israelitas com uma praga. E o Senhor chegou quase ao ponto de destruir a própria cidade de Jerusalém. Aqui, Satanás é uma forma de tornar claro o motivo que levou Davi a dar aquela ordem. Outro exemplo é oferecido pelo profeta Zacarias, que descreve Satanás como o responsável por separar o povo em partidários. A nação de Israel se dividira em dois grupos: os que permaneceram em Israel e os que foram exilados. Esses últimos, quando retornaram, não foram bem recebidos pelos compatriotas, que os viram como agentes do rei persa, o qual os havia libertado do exílio na Babilônia. Zacarias narra uma visão na qual Satanás falava pelos habitantes do campo, os quais afirmavam que o sumo sacerdote que voltava não era mais digno de seu cargo. Depois disso ele me mostrou o sumo sacerdote Josué diante do anjo do Senhor, e Satanás, a sua direita, para acusá-lo. O anjo do Senhor disse a Satanás: “O Senhor o repreenda, Satanás! O Senhor que escolheu Jerusalém o repreenda! Este homem não parece um tição tirado do fogo?” (BÍBLIA…, [s.d.], Zacarias 3,1-2). 111 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Nessa passagem, Satanás era porta-voz do partido descontente (contrário aos compatriotas que voltavam), e assumia uma característica funesta, como no exemplo de Davi. Note que aqui seu papel começa a mudar: passa de agente para adversário de Deus. Cerca de quatrocentos anos depois, após os judeus recuperarem a independência do domínio dos selêucidas – descendentes de Alexandre, o Grande –, os conflitos internos se acirraram. Durante séculos, os judeus haviam sido pressionados a assimilar os costumes das nações estrangeiras que os dominaram: babilônios, persas e agora a dinastia criada por Alexandre. Antíoco Epifânio, quando desconfiou que os judeus tentariam criar resistência a seu domínio, resolveu erradicar todos os traços da cultura judaica: Em primeiro lugar, declarou ilegal a circuncisão, bem como o estudo e a observância da Torá. Depois invadiu o Templo de Jerusalém e profanou-o ao consagrá-lo ao deus olímpico Zeus, dos gregos. A fim de impor submissão ao novo regime, construiu e fortaleceu uma maciça fortaleza a cavaleiro do próprio Templo de Jerusalém (PAGELS, 1996, p. 72). Alguns anos depois, os judeus recuperaram o controle do Templo, da classe sacerdotal e do governo, o que não culminou em paz aos israelitas, pois a história relatada em 1 Macabeus mostra que eles estavam dispostos a resistir às ordens do rei estrangeiro, para manter as tradições ancestrais e combater de forma simultânea dois problemas: de um lado, as forças restantes de ocupação; do outro, os judeus que vergavam ao domínio estrangeiro. Embora pareça estranho que parte do povo judeu defendesse o domínio de Antíoco, a razão era simples: esses judeus, que eram principalmente da classe alta, caso apoiassem a sociedade helenista, poderiam participar plenamente dos poderes e privilégios dessa gente, acessíveis apenas aos cidadãos gregos. No entanto, a maioria dos judeus das classes simples de Jerusalém, composta de comerciantes, artesãos e lavradores, abominava os judeus helenizados, pois os considerava traidores de seus compatriotas e até do próprio Deus. Essa distinção produziu uma dissensão interna, em especial sobre quem deveria controlar as instituições, se o partido separatista radical, o dos macabeus; ou o partido helenizante, que dispunha de uma situação privilegiada. Depois, outros grupos dissidentes e mais radicais se juntaram aos fariseus na denúncia contra a grande família sacerdotal, sobretudo o sumo sacerdote e seus aliados. Esses radicais passaram a invocar Satanás a todo momento para representar seus inimigos judeus, transformando esse anjo desagradável numa figura muito mais maligna e muito mais importante. Dessa maneira, Satanás começou a se tornar o que seria para a cristandade posterior, o adversário de Deus, seu rival e inimigo. No início do cristianismo, era comum pensar que o demônio assumia a feição dos gladiadores e dos leões que os trucidavam nas arenas romanas. No século IV, por conta da necessidade de investir num dualismo que facilitasse a luta do bem contra o mal, num concílio na cidade de Toledo, os religiosos inventaram a figura do Diabo, muito diferente da de Satanás, anjo decaído. O Diabo era um ser dotado de chifres, rabo, pele avermelhada, pernas de bode e um tridente. Foi das imagens do deus grego Pã que se extraíram os principais elementos iconográficos de Satã. Uma iconografia mais específica do Diabo foi desenvolvida no século XI, conservando-se, porém, a silhueta antropomórfica. 112 Unidade II Tudo o que o cristianismo classificava como pagão e impuro pertencia ao reino do mal. A associação das divindades pagãs com o Diabo tornou-se uma coisa natural para os primeiros cristãos, porque eles eram perseguidos por um mundo pagão. Esse tipo de associação refletia o modo como a Igreja interpretava tudo o que não era sua teologia. A construção do reino das trevas feita pelo cristianismo engloba tudo o que é proibido em seu universo de valores. A demonização do “outro”, dos concorrentes dos cristãos no campo religioso, e a formação da iconografia do Diabo são um exemplo de como o cristianismo interage com as demais religiões. Em 1215, o Concílio de Latrão determinou que o Diabo e os demônios eram criaturas criadas por Deus que preferiram se desviar da autoridade divina. Nesse contexto, ao mesmo tempo que o inimigo se tornava claramente conhecido, surgiam histórias sobre pessoas que se entregavam ao temível lado da escuridão. A disseminação de cultos aos demônios ocorreu no séculoXIV. Em alguns países da Europa, a ordem dos luciferinos pregava a ideia de que o escolhido de Deus era Lúcifer, pois esse foi o primeiro anjo de luz. Na Idade Moderna, o demônio era o maior acusado de conduzir as pessoas a praticar os atos heréticos combatidos pela Inquisição. Os manuais de exorcismo detalhavam as manifestações do Diabo e as formas de expulsá-lo. Houve então uma consolidação do Satanás do Antigo Testamento com o Diabo, que passou a ser chamado indistintamente de vários nomes: Satanás, Belzebu, Shemihazah, Azazel, Belial, Príncipe das Trevas. Posteriormente, outras histórias foram contadas, mostrando como potências angélicas, inchadas de luxúria ou soberba, caíram do céu para o pecado, tornando-se rivais eternos de Deus, sem qualquer possibilidade de perdão ou absolvição, nem sequer direito ao purgatório. Saiba mais Para conhecer a história de nomes como Satã, Belzebu, Lilith, Asmodeu, Sátiro, Demônio e Belial, leia: FORTEA, J. A. Summa daemoniaca: tratado de demonologia e manual de exorcistas. São Paulo: Paulus, 2004. GOUVÊA, R. Q. O anticristo na Bíblia e na história: uma nova perspectiva para a teologia a partir da escatologia. São Paulo: Fonte, 2011. Ao contrário do que a maioria pensa, o purgatório não é privativo da Igreja Católica. Os judeus, por exemplo, acreditavam haver um lugar onde a pessoa que não fosse totalmente boa ou totalmente má receberia castigos temporários para purgar seus erros, até estar pronta para ir ao paraíso. Para outras religiões, como a do povo indiano, existem locais intermediários, os quais fazem parte de uma série de reencarnações que levariam até o céu ou até o inferno, dependendo da conduta de cada um. O budismo defende que o inferno é uma espécie de purgatório, e que o budista, de acordo com as ações tomadas por ele durante a vida, fica lá até que o carma negativo seja liquidado. 113 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Para a Igreja Católica, o purgatório é um local onde as pessoas purificam os pecados e cumprem sua pena, por terem morrido culpadas de seus erros menores, conhecidos como pecados veniais. Segundo a teologia de Roma, aqueles que morreram de forma repentina talvez não tenham conseguido pedir perdão por suas falhas. Isso significa que, embora a justiça divina se dê por intermédio do batismo, é possível que ela não tenha sido plenamente satisfeita. Assim, mesmo que a alma do indivíduo escape do inferno, deverá suportar uma punição temporária no purgatório, a fim de expiar os pecados que ainda lhe restam. Conforme sua gravidade, o pecado pode ser dividido em venial ou mortal: o venial não separa totalmente o homem de Deus, mas macula essa comunhão; o mortal, por outro lado, afronta gravemente a santidade, desvirtuando o homem de sua principal finalidade, conforme explica o catecismo: O pecado mortal requer pleno conhecimento e “pleno consentimento”. Pressupõe o conhecimento do caráter pecaminoso do ato, de sua oposição à lei de Deus. Envolve também um consentimento suficientemente deliberado para ser uma escolha pessoal. A ignorância afeada e o endurecimento do coração (Marcos 3,5-6) não diminuem, antes aumentam o caráter voluntário do pecado (AQUINO, 2016, p. 228). Assim, o pecado mortal ocorre apenas quando o delito cometido contra Deus se enquadra nos requisitos citados. Quando a pessoa o comete, suas consequências são devastadoras: O pecado mortal é uma possibilidade radical da liberdade humana, como o próprio amor. Acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, isto é, do estado de graça. Se esse estado não é recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso. No entanto, mesmo podendo julgar que um ato é em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e à misericórdia de Deus (AQUINO, 2016, p. 228). A doutrina do purgatório, embora tenha começado a ser desenvolvida por Gregório I, o Grande, foi sistematizada apenas com o Concílio de Florença (1431-1445) (CAIRNS, 1995; GONZÁLEZ, 1995c). 6.5 A organização da Igreja Católica Para compreender os principais aspectos religiosos que impactaram a Idade Média, é necessário conhecer o feudalismo. Num sentido mais amplo, foi um conjunto de práticas envolvendo questões de ordem econômica, social e política, registrado entre os séculos V e XV. Nesse período, a Europa Ocidental sofreu uma série de transformações que possibilitou o surgimento de novas maneiras de pensar, agir e relacionar. A configuração do mundo feudal vinculou-se a duas experiências históricas concomitantes: a crise do Império Romano e as invasões bárbaras. Com a expansão do feudalismo por toda a Europa medieval, ocorreu a rápida ascensão de uma das mais importantes e poderosas instituições desse período: a Igreja Católica. 114 Unidade II Aproveitando-se da expansão do cristianismo observada no fim do Império Romano, a Igreja Católica alcançou a condição de principal instituição a disseminar e refletir os valores da doutrina cristã. Ao se estabelecer numa sociedade extremamente marcada pelo pensamento religioso, o catolicismo se fez presente nos mais diferentes estratos sociais. Dessa forma, a própria organização da sociedade medieval (dividida em clero, nobreza e servos) era um reflexo da santíssima trindade. Por sua vez, a vida terrena era desprezada em favor da vida celestial e seus benefícios. Muitos costumes da época estavam influenciados pela questão da vida após a morte. Além de se destacar pela sua presença no campo das ideias, a Igreja também alcançou grande poder material. Durante a Idade Média, ela passou a controlar grande parte dos territórios feudais, transformando-se em importante chave na manutenção e nas decisões do poder nobiliárquico. A própria exigência do celibato foi um mecanismo que permitiu à Igreja conservar seu patrimônio. O crescimento do poder material da Igreja chegou a causar reações dentro da própria instituição. Aqueles que viam na influência político-econômica da Igreja uma ameaça aos princípios religiosos começaram a se concentrar em ordens religiosas que se abstinham de qualquer tipo de regalia. Essa cisão nas práticas da Igreja dividiu o clero em duas vertentes: • Clero secular: administrava os bens da Igreja e a representava nas questões políticas. • Clero regular: era constituído pelas ordens religiosas mais voltadas às práticas espirituais e à pregação de valores cristãos. A Igreja também teve monopólio sobre o mundo letrado daquele período. Exceto os membros da Igreja, pouquíssimas pessoas eram alfabetizadas ou tinham acesso às obras escritas. Muitos mosteiros medievais possuíam grandes bibliotecas, em que obras do mundo clássico e oriental eram preservadas. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, por exemplo, foram dois membros da Igreja que produziram tratados filosóficos dialogando com pensadores da Antiguidade. Mesmo contando com tamanho poder e influência, a Igreja também sofreu com manifestações dissidentes. As heresias, as seitas e os ritos pagãos interpretavam o texto bíblico de maneira independente ou não reconheciam o papel sagrado da Igreja. Em 1054, o Cisma do Oriente marcou uma grande ruptura interna da Igreja, que deu origem à Igreja Bizantina. Assim, quando falamos sobre a Europa feudal, encontramos um elemento que serve para caracterizá-la acima de todas as diferenças nacionais ou regionais, ou seja, sua unidade de fé. Por esse motivo, o cristianismo do Ocidente, agrupado na Igreja Católica, é o grande protagonista da história medieval. A expansão do cristianismo ocorrida nos últimos séculos do Império Romano ampliou-se com as invasões bárbaras, num trabalho contínuo de evangelização realizado principalmente por monges missionários. Um fator crucial nesse processo foi a conversão de líderes importantes, o que implicou a conversão maciça de seus subordinados, facilitando os trabalhos de instruçãoe ensino. 115 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Cabe destacar que não havia muitos limites para a expansão do cristianismo ocidental, pois naquela época não era possível falar de fronteiras precisas. Os obstáculos que o cercavam e impediam sua maior expansão se relacionavam com Bizâncio e com o islã. Observação O Império Bizantino foi a continuação do Império Romano na Antiguidade tardia e na Idade Média. Sua capital, Constantinopla (atual Istambul), originalmente era conhecida como Bizâncio. O Império Bizantino rompeu com Roma em 1054. Nesse momento, a divisão em duas Igrejas se tornou definitiva. O motivo mais visível do Cisma foi uma disputa teológica sobre o mistério da trindade, mas também existiam rivalidades entre as autoridades eclesiásticas de Roma e Constantinopla, todas aprofundadas pelo mal-entendido de dois modos de vida diferentes. O islã dominou o norte da África, o Oriente Médio e quase toda a Península Ibérica, sendo considerado o grande inimigo do cristianismo medieval. Apesar disso, a fronteira islâmica não ficou completamente fechada. Os fluxos comerciais foram mantidos e, por meio desses contatos, houve uma intensa penetração das influências intelectuais islâmicas, particularmente, fortes no campo da ciência e da tecnologia. Nos limites do domínio cristão, grandes campanhas foram feitas – ou de conquista de armas e conversão forçada, ou de ação missionária. Depois dessas campanhas, a fronteira se estabilizou ao longo de uma linha que ia da Lituânia à Croácia. Além dela estava o mundo desconhecido e lendário dos mongóis, em que apenas alguns missionários, comerciantes e aventureiros entraram. A maior parte da cristandade, com exceção de Bizâncio e de alguns grupos heréticos, se integrou à Igreja Católica, aceitou seu dogma, cumpriu seu ritual e se submeteu a sua autoridade. Durante certo período, o representante típico do clero secular foi o bispo. Mais tarde, porém, com a extensão do culto, surgiu a figura do pároco. Esse sacerdote era encarregado de cuidar (espiritualmente) dos fiéis de sua paróquia. Determinado número de paróquias constituía uma diocese, administrada pelo bispo que residia na cidade principal. Várias dioceses agrupavam-se em uma província, sob a autoridade de uma metrópole. Com o tempo, a soberania do bispo de Roma tornou-se incontestável. Os papas dessa época dirigiam a defesa da fé contra as heresias, realizavam a evangelização dos bárbaros e afirmavam sua predominância sobre os demais bispos e monges. Pela autoridade que tinham, decidiram a ruptura progressiva com a Igreja Bizantina e asseguraram seu poder temporal. Observação No entendimento da Igreja Católica, o poder temporal está relacionado com as coisas de seu tempo, em oposição ao eterno, ligado aos princípios da religião. 116 Unidade II 6.5.1 O Estado da Igreja Antes do século VIII, a Igreja já possuía importantes domínios, tanto nas adjacências romanas quanto no restante da Itália. Eram os territórios que constituíam o chamado Patrimônio de São Pedro. Estes, porém, estavam muito expostos a invasões bárbaras. Os senhores italianos, entre eles o papa, tiveram que enfrentar essa situação sozinhos. O papa Gregório I, o Grande (590-604), desempenhou um papel significativo nessa situação, tornando-se o líder da resistência contra os invasores e o organizador da cidade de Roma. Por isso, ele é considerado o criador do poder temporal da Igreja. Mais tarde, no século VIII, quando Pepino, o Curto, reinou sobre os francos, o papa Estêvão Il, sentindo-se ameaçado pela expansão dos lombardos, que dominavam o norte da Itália, pediu sua ajuda. Pepino forçou os lombardos a se afastar e doou para a Igreja os territórios que, a partir desse momento (756), se tornariam o chamado Estado Pontifício. A doação de Pepino foi confirmada anos depois por Carlos Magno. Daí em diante, e até o século XIX, o papa seria, além de chefe espiritual do catolicismo, chefe temporal de um Estado italiano. Isso lhe traria vantagens práticas necessárias para a administração cada vez mais complexa e cara da Igreja, mas também ocasionaria importantes problemas políticos na Itália. 6.5.2 A feudalização do clero Graças às doações dos fiéis, o clero secular e o clero regular adquiriram importantes extensões de terra. Os bispos e abades (chefes dos mosteiros) tornaram-se senhores de outros vassalos (leigos ou eclesiásticos) e, por sua vez, vassalos de outros senhores. Assim, a comunidade do clero perdeu suas demandas originais. Bastava que o bispo correspondente a determinado feudo fosse investido na função. Isso fez leigos poderosos intervirem na designação de bispos, abades e párocos por razões não religiosas. Esse panorama se repetia em toda a escala da hierarquia, do pároco ao papa. Será fácil deduzir o quanto a função religiosa foi prejudicada se for levado em conta que não eram mais a vocação ou os méritos que prevaleciam no acesso a posições eclesiásticas. O mais relevante era o cumprimento das tarefas de um senhor feudal, a manutenção de seus hábitos e costumes. Essa prática estava totalmente em desacordo com a missão espiritual confiada originalmente ao clero. Muito arraigado aos costumes da sociedade de sua época, violento e desordenado, o clero sofria dos mesmos distúrbios de conduta da nobreza, o que era agravado por sua investidura religiosa. Aqueles que conseguiam escapar de toda essa situação ficavam bastante preocupados com o futuro da Igreja. Duas práticas em especial lhes causavam escândalo: • Simonia: compra e venda de encargos eclesiásticos. • Nicolaísmo: violação do celibato e da castidade sacerdotal. 117 FILOSOFIA DA RELIGIÃO 6.6 O reformismo na Igreja Católica A preocupação com a reforma da Igreja teve duas manifestações principais: o reformismo das ordens monásticas e o reformismo dos papas. 6.6.1 O reformismo das ordens monásticas Desde suas origens no século IV, e especialmente no século VI, o monarquismo ocidental fez muito progresso, e o mundo cristão foi povoado por uma multidão de conventos, a maioria deles sujeita às regras beneditinas. Após um período de crescimento, durante o qual se desenvolveu um esforço extraordinário para evangelizar os bárbaros, o monarquismo também entrou no processo de feudalização e esqueceu suas regras fundamentais. No século IX, surge na França uma iniciativa que transformará os mosteiros do Ocidente. A partir de então, não haveria mais unidades descentralizadas e isoladas; todas elas passariam a fazer parte de uma organização centralizada, vinculada a determinada ordem monástica. Em 910, foi criada a Abadia de Cluny. Seus criadores buscaram a restauração e a plena validade das regras de São Bento, que dão muito mais importância para a oração do que para o trabalho manual. Esse novo mosteiro se declarou emancipado de qualquer dependência do poder secular e da autoridade dos bispos e passou a responder diretamente ao papa. A direção dos grandes abades proporcionou um crescimento extraordinário – no início do século XII, a ordem cluniacense tinha mais de 1.450 casas com cerca de 10 mil monges. Vários setores da Igreja Católica, seguindo o modelo de Cluny e dentro de uma organização centralizada no domínio monástico, criarão mosteiros semelhantes na França, nas Ilhas Britânicas, na Itália, na Península Ibérica e no Sacro Império. A ordem cluniacense foi muito importante para o cristianismo. Ao pesquisar sua influência reformista no clero secular, é possível perceber que a construção de suas casas exerceu um papel de destaque no desenvolvimento da arte românica. Observação O uso do termo românico para indicar a arte surgida durante a Alta Idade Média na Europa Ocidental ocorreu, pela primeira vez, em 1824, pelo arqueólogo francês De Caumont, sendo imediatamente adotado. No entanto, a renovação da vida monástica não terminou por aí. Quando o movimento de Cluny pareceu perder seu vigor inicial, surgiram várias novas ordens, cada uma delas com objetivos semelhantes, mas mantendo sua independênciadas demais. A fundação da Abadia de Cister (1098) marca o início de uma das ordens mais famosas, os cistercienses, em que se destaca a figura de São Bernardo de Claraval, cujas iniciativas dão fisionomia especial à ordem. 118 Unidade II Observação Berço da ordem cisterciense, a Abadia Nossa Senhora de Cister, fundada em 1098 pelo abade Roberto de Molesme, foi onde São Bernardo começou sua vida monástica. Nos mosteiros, o tempo dedicado à oração pelos monges austeros, vestidos com um pano branco rústico, será intercalado com a prática do artesanato e com o cultivo da terra. Assim, uma nova maneira de exercer a religião é introduzida na Igreja Católica do século XIII. Outros reformadores religiosos, sensíveis às críticas levantadas pelo desempenho das ordens existentes e atendendo a realidades e ideias emergentes, darão bases diferentes para um novo monasticismo, o das ordens mendicantes. Os membros dessas ordens são pregadores itinerantes, porém integrados ao seio da Igreja. Cultivam a pobreza não só individual, mas também comunitária, e vivem de trabalho manual ou de esmolas. Entre as novas ideias postas em prática, ressalta-se a propriedade coletiva dos mosteiros. Também passa a ser valorizada a saída do retiro para manter contato íntimo com as pessoas, estudando e pregando, principalmente nas cidades, que ressurgem nessa época. Duas grandes ordens mendicantes aparecem quase simultaneamente: a dos frades menores ou franciscanos, fundada por São Francisco de Assis (1209); e a dos pregadores ou dominicanos, fundada por São Domingos (1215). Vale notar que não havia apenas monges nos conventos; havia também freiras. Essa prática já tinha começado nos primeiros dias da ordem beneditina e foi então continuada nos períodos subsequentes. 6.6.2 O reformismo dos papas A tendência reformista se manifestou igualmente através da ação de sua mais alta hierarquia. As primeiras ações significativas aconteceram no pontificado do papa Gregório VII (1020-1085), o qual tinha por objetivo a limpeza moral da Igreja e sua emancipação do poder secular. Gregório VII condenou severamente os que praticavam a compra e venda de benefícios eclesiásticos e os que violavam as regras do celibato sacerdotal. Proibiu os bispos de receber sua investidura de senhores leigos, e até mesmo rejeitou essas nomeações. Além disso, instou as pessoas a não comparecer aos cultos religiosos administrados pelo clero que estava em desacordo com essa determinação. As medidas de Gregório VII suscitaram grande resistência por parte do clero acostumado a essas práticas, especialmente o clero alemão. Isso causou um desentendimento relevante entre o papa e o imperador Henrique IV. Embora Gregório VII tenha sido derrotado materialmente pelo imperador e morrido no exílio, seu trabalho seria continuado por outros papas e, juntamente com o monasticismo, contribuiria para a revitalização da Igreja. 119 FILOSOFIA DA RELIGIÃO 6.7 O papado e o império A coroação de Carlos Magno pelo papa Leão II (800) instilou em muitos a vontade de restaurar o Império Romano. Após a ruína do Império Carolíngio, essa ideia foi retomada na Alemanha, criando-se o Sacro Império Romano depois da coroação de Otto, o Grande (938). Os imperadores alemães intervieram muito ativamente na vida da Igreja, pela concessão de terras e benefícios, que transformava os bispos em seus vassalos, e pelo controle sobre a eleição dos papas. Assim, a ideia de unificar o cristianismo foi posta em prática, o que levou a um conflito de duas autoridades, uma espiritual (o papa) e outra temporal (o imperador), cujo escopo respectivo não abria a possibilidade de acordo. Lembrete O Império Carolíngio foi estabelecido pela dinastia carolíngia, sendo seu maior representante Carlos Magno. Ocupando boa parte da região central da Europa, esse estado medieval é o embrião da atual França. O imperador não discutia o poder espiritual do papa, mas considerava que a Igreja como instituição deveria estar sob seu controle ou supervisão. O papa, por sua vez, não negava o poder temporal do imperador; no entanto, proclamava a primazia do poder espiritual sobre o temporal e o consequente direito de intervir nele. O confronto foi inevitável e repleto de episódios espetaculares na maior parte da Idade Média. O papa Nicolau II, por exemplo, publicou em 1059 um decreto que regulava as eleições papais, deixando-as reservadas para o Colégio de Cardeais. Foi a primeira tentativa de emancipar a eleição papal, tanto do imperador quanto dos senhores feudais italianos. O decreto não alcançou seu objetivo imediatamente, mas apontou o caminho e deu as bases para uma organização que, aperfeiçoada mais tarde, chegaria aos dias de hoje. Já o papa Gregório VII, como visto, colidiu com o imperador Henrique IV, quando este resistiu em aceitar a proibição papal de que os bispos recebessem uma investidura feudal. O papa proclamou a destituição de Henrique IV e sua excomunhão. Preocupado com as consequências que essa medida lhe trouxe dentro do império, Henrique IV se humilhou em Canossa (1077) e foi perdoado. Depois de obter perdão e se sentir forte novamente, ele expulsou o papa, que morreu no exílio. Com o embate de Gregório VII e Henrique IV, começa a longa Disputa das Investiduras, um dos conflitos sem fim da Idade Média. Observação A Penitência de Canossa foi a viagem que Henrique IV fez e a espera a que foi sujeitado para conseguir se encontrar com o papa Gregório VII, com o objetivo de solicitar-lhe a revogação de sua excomunhão. 120 Unidade II Os episódios dessa “briga” têm semelhanças entre si. Geralmente se iniciam por tentativas do papa ou do imperador de fazer prevalecer sua respectiva posição. Ocorrida a ruptura, os partidos sempre usam métodos similares de luta: o papa anatematiza, excomunga e dispensa; o imperador obtém o apoio de parte do alto clero, nomeia um antipapa e dirige uma ação militar na Itália. Como nem o papa nem o imperador tinham força suficiente para uma vitória total ou duradoura, era comum haver acordos parciais ou temporários. Mais cedo ou mais tarde, o processo recomeçava. A Concordata de Worms foi o mais importante desses acordos. Assinada em 1122 entre o papa Calisto II e o imperador Henrique V, estabeleceu uma dupla investidura: reconheceu ao imperador o direito de investir bispos com a autoridade secular (“pela lança”), mas não com a autoridade sagrada (“pelo anel e báculo”). Assim, o imperador podia monitorar a eleição de bispos e abades e fazer a concessão de feudos, mas o papa se reservava o direito de conceder autoridade religiosa, a única que poderia dar validade às designações. 6.7.1 O papado no século XIII No século XIII, a força do papado dentro da Igreja aumentou consideravelmente. A centralização do poder pontifício estava crescendo, e a renda da Igreja (benefícios feudais, dízimos etc.) tornava-o não apenas espiritual, o que já era, mas também econômico. O poder papal alcança o auge com Inocêncio III. Ele reivindica tanto sua supremacia espiritual quanto o direito de se pôr acima de imperadores e reis para julgar e decidir na maioria dos reinos cristãos: Sacro Império, França, Inglaterra, Sicília, Hungria, Aragão, Castela e Portugal – e muitos chefes se declaram vassalos, como os da Sicília, de Aragão, da Inglaterra, do Reino de Jerusalém e do Reino Latino de Constantinopla. Depois de Inocêncio III, embora a organização eclesiástica avance e continue a emancipar-se do poder secular, o poder papal não será mais o mesmo. O Sacro Império vai perdendo importância e vão aparecendo os Estados nacionais, cujos reis cada vez mais rejeitarão qualquer intervenção, inclusive a do papado. O incidente ocorrido entre Filipe, o Belo, rei da França, e o papa Bonifácio VIII foi o mais significativo. Eles entraram em conflito entre 1301 e 1303, cada um mantendo sua posição com energia máxima. Filipe, o Belo, representante dos interesses do nascente Estado nacional francês e apoiado pelos setoresmais altos da sociedade, não apenas resistia a toda interferência papal como também tentava limitar a autoridade dos tribunais eclesiásticos e a prática de arrecadar fundos por meio da Igreja. Bonifácio VIII pretendia manter com intransigência o princípio da superioridade do poder espiritual sobre o poder temporal, mas suas reivindicações na época já eram consideradas anacrônicas e não se sustentavam. O incidente terminou quando o enviado de Filipe, o Belo, recrutou tropas na Itália e transformou o papa em seu prisioneiro no Ultraje de Anagni. Bonifácio VIII foi libertado no dia seguinte, mas morreu pouco depois, e o poder pontifício sofreu um forte golpe. A partir desse momento, e por muito tempo, o papado foi submetido à influência francesa, tanto que, em 1309, Clemente V decidiu mudar a sede pontifícia para a cidade francesa de Avignon. 121 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Observação O Ultraje de Anagni, ocorrido entre 7 e 9 de setembro de 1303, consistiu na apreensão e aprisionamento do papa Bonifácio VIII, em seu palácio de Anagni, pelos emissários de Filipe, o Belo, rei da França. 6.8 A religiosidade medieval Durante a Idade Média, a religião dominou a vida do indivíduo e da sociedade. A descrença não era admitida. Havia hereges, mas não agnósticos e ateus. Tudo era explicado de acordo com a fé. Existia uma mistura de esperança na salvação e medo do castigo, e essas foram as características da religião, ou seja, sua preocupação dominante. Não havia uma separação clara entre a Igreja e o Estado, nem entre a vida religiosa e a civil. Tão afins eram a sociedade e a religião, que heresias foram confundidas com movimentos de rebelião social. O dogma, já elaborado nos primeiros séculos de vida da Igreja, era ensinado e pregado pelo clero secular e regular. A fé popular misturava cristianismo, sobrevivências pagãs e tradições locais. Nesse sentido, a Igreja Católica mantinha certos limites de tolerância, sendo inflexível fora deles. O ideal da época, especialmente nos primeiros séculos, concentrava-se naqueles que se afastavam da sociedade e dedicavam a vida à religião. O eremita e o monge eram os personagens mais respeitados. As figuras que em vida demonstraram religiosidade e virtudes excepcionais, bem como praticaram ações consideradas singulares ou milagrosas, foram reverenciadas depois como santos da Igreja. Por esse motivo, durante alguns séculos, a canonização foi abundante. A partir do século X, os bispos decidiram que esse poder devia ser reservado ao papa. A veneração popular se manifestou diante das relíquias ou imagens do santo, ou em peregrinações a seu túmulo. Muitas vezes, essas manifestações levavam a excessos e se transformavam em verdadeira adoração, contrariamente aos princípios cristãos. Vale observar que as visitas a santuários deram origem às peregrinações às quais os homens da Idade Média eram muito afeiçoados. Havia três principais centros de peregrinação: Roma, Jerusalém e Santiago de Compostela. A crença no Diabo e o medo de seus poderes também moveram poderosamente a imaginação popular. Apesar dos esforços da Igreja, havia muita crença no dualismo: Deus, a origem do bem, em oposição ao Diabo, fonte do mal. O Diabo foi imaginado com a forma de um personagem sedutor, que atraía o ardor do pecado, e de um terrível perseguidor das vítimas caídas em suas redes. Em meio a esse processo religioso-cultural, lentamente foi imposto, com todo o cuidado, o culto à Virgem Maria, que a princípio não fazia parte do ritual católico. A religião exerceu muita influência na moral pública e privada. Nesse sentido, aos pecados canônicos clássicos (idolatria, homicídio, adultério, usura, perjúrio, roubo e magia) foram adicionados outros, que 122 Unidade II visavam regrar a vida das pessoas. Para isso, contra grandes pecados e grandes pecadores, a Igreja usou grandes armas, de efeitos espetaculares: a excomunhão e a interdição. A excomunhão era a privação dos sacramentos, enquanto a interdição era o fechamento das igrejas e a proibição de serviços religiosos em determinado círculo eleitoral. Os pecados eram pagos com penitências, públicas e privadas, detalhadas nos livros penitenciais. Por alguns anos, elas foram muito severas. Posteriormente, surgiram indulgências, ou seja, a possibilidade de, em casos específicos, resgatar o pecado por meio de uma boa ação ou um bom aporte financeiro em favor da Igreja. A organização do ritual passou por algumas mudanças e incorporou novidades. No século V, o batismo de crianças tornou-se generalizado – antes, somente os adultos o recebiam. A partir do século VIII, o batismo por aspersão substituiu o batismo por imersão, típico dos séculos anteriores. Por esse motivo, os batistérios foram substituídos por fontes batismais nas igrejas. A liturgia da missa também variou de acordo com a região. No entanto, a liturgia romana prevaleceu. Progressivamente, desenvolveram-se o canto religioso – em especial o gregoriano, atribuído ao tempo do papa Gregório Magno –, a polifonia e o uso do órgão. Durante a Idade Média, o ritmo dos dias e das horas era marcado pela Igreja. O clero possuía o conhecimento para interpretar o calendário, e as igrejas tinham os sinos para divulgar as informações. O calendário adotado pela Igreja Católica acabou admitindo alguns feriados pagãos, mas sua estrutura principal se relacionava com os episódios centrais da vida de Jesus e com as festas dos santos, que aos poucos foram sendo incorporadas. O calendário não contradizia o tempo natural: o ano era dividido de acordo com as estações. Quanto às divisões do dia, elas eram marcadas pelos sinos, que indicavam as horas de oração. Essas práticas diárias consistiam de oito preces diurnas e três ou quatro preces noturnas, as vigílias. 6.8.1 A Igreja e a cavalaria A aristocracia feudal se caracterizava por um modo de vida em que o principal era ser um cavaleiro (cavalheiro). Esse modo de vida era exigido tanto na guerra quanto na paz, nos momentos de diversão, em torneios e caçadas. O acesso à cavalaria ocorria apenas após um extenso aprendizado. Assim, o futuro cavaleiro aprendia a andar a cavalo no castelo de seu pai (senhor feudal), onde também aprendia a manejar as armas. Na última etapa do treinamento, realizava suas primeiras experiências de combate nas tropas do senhor feudal. Ele só se tornava cavaleiro, de fato, depois de uma cerimônia de iniciação, na qual recebia as armas que utilizaria pelo resto da vida. Ser cavaleiro era algo violento e perigoso, para ele próprio e para o resto da população, que sofria os efeitos das guerras contínuas. Por esse motivo, a Igreja procurou suavizar os rigores desse estado de guerra permanente, instituindo a Paz de Deus, a proibição de atacar os campos de igrejas e comerciantes, e a Trégua de Deus, a proibição de guerrear entre quarta-feira à tarde e segunda-feira de manhã. Esses mecanismos, porém, constituíam apenas medidas paliativas e fracas, uma vez que os costumes de guerra já estavam enraizados na sociedade e, por isso, eram difíceis de controlar ou regular. 123 FILOSOFIA DA RELIGIÃO Contudo, essa intervenção da Igreja obteve êxito em dar um caráter mais religioso à instituição da cavalaria, imprimindo um sinal especial a seus procedimentos, desde as cerimônias de iniciação até as obrigações contraídas pelo cavaleiro. Este deveria aspirar a ser um herói devoto, protegendo a Igreja, os fracos, os pobres, as viúvas e os órfãos. Na época das Cruzadas se acrescentaria a luta contra os infiéis como um objetivo superior a ser alcançado pelos cavaleiros. 6.8.2 As heresias Como dito, a Europa Ocidental manteve sua unidade de fé durante a Idade Média. No entanto, houve quem não se submetesse completamente aos preceitos do dogma e tornasse pública a fé em aspectos não incluídos na fé católica. Por esse motivo, essas pessoas eram chamadas de hereges e condenadas com toda a severidade pela Igreja. Observação Geralmente, define-se heresia como uma doutrina contráriaaos dogmas de uma Igreja ou de uma religião. Na Igreja Católica, a noção de heresia está presente desde o início de sua história. A pregação de alguns “hereges” levou a movimentos religiosos e sociais importantes, como o caso das heresias valdense e albigense. A heresia valdense se iniciou por volta de 1170 pelo comerciante Pedro Valdo e seus primeiros seguidores, “os pobres de Lyon”. Eles renunciaram a suas propriedades, opuseram-se à propriedade privada e pregaram a pobreza apostólica. Mais ainda: criticaram a riqueza da Igreja e rejeitaram o sacerdócio. Sua influência se espalhou por toda a Provença, Piamonte e Lombardia. Maior alcance teve a heresia albigense. De origens menos definidas, foi o produto de uma mistura de influências, do início do cristianismo, do antigo arianismo e das ideias maniqueístas orientais. Ela se espalhou pelo sul da França e pelo norte da Itália, também no final do século XII. Seus prosélitos eram chamados cátaros ou albigenses, em referência à cidade de Albi, seu principal centro. Os cátaros tinham como objetivo a criação de uma nova religião, muito diferente do catolicismo. Eles acreditavam na luta de dois princípios, o bem e o mal. A ideia de dois deuses ou princípios, um bom e o outro mau, foi fundamental para as crenças dos cátaros. O Deus bom era o Deus do Novo Testamento, criador do reino espiritual. O Deus mau, por outro lado, que muitos cátaros identificavam como Satanás, era o criador do mundo físico do Antigo Testamento. Rejeitando os sacramentos da Igreja Católica, passaram a valorizar somente um sacramento especial, o consolamentum, recebido geralmente pouco antes da morte e que eles diziam garantir a salvação. A Igreja Católica foi assim confrontada por uma nova Igreja, com seu próprio ritual e sacerdócio. A classe clerical era composta dos “perfeitos”, que se reuniam em verdadeiros concelhos para discutir problemas teológicos. 124 Unidade II Os cátaros também significavam uma ameaça de mudanças sociais. Seus apoiadores eram recrutados em todas as classes, e havia até grandes nobres, como o conde Raymond de Toulouse, que os protegiam. O maior número de adeptos, porém, era das classes relegadas pela sociedade feudal, como os burgueses e os camponeses. Vale destacar que, nos territórios que dominaram, aconteceram eventos revolucionários, como ataques às propriedades da Igreja e dos nobres católicos. Por algum tempo, os albigenses foram tolerados. Todavia, quando a Igreja entendeu que representavam um perigo real para a unidade religiosa e a ordem social, ela decidiu agir. Uma verdadeira cruzada foi então organizada em 1208, controlada por legados pontifícios, da qual participaram senhores feudais de várias partes da França. 6.8.3 A Inquisição Até o século XIII, não existia na Igreja Católica uma unidade de critérios nem de procedimentos para perseguir os hereges. No entanto, na luta contra os albigenses, durante o pontificado do papa Gregório IX, a Igreja criou para esse fim os Tribunais da Inquisição, em 1231. Esses tribunais, encomendados em geral aos dominicanos, constituíam-se em uma diocese quando as circunstâncias exigiam. Tinham jurisdição não somente sobre cristãos, mas também sobre muçulmanos e judeus. Observação A ordem dos pregadores, também conhecida por ordem de São Domingos ou dominicana, é uma ordem religiosa católica que tem como objetivo pregar a palavra e a mensagem de Jesus Cristo e converter ao cristianismo. Quando havia uma acusação de heresia, procedia-se à detenção do suspeito. Posteriormente, dava-se a ele um prazo de trinta dias para confessar e se arrepender. Transcorrido esse prazo sem resultados satisfatórios, iniciava-se a investigação, ouvindo-se os depoimentos das testemunhas e as declarações do acusado, sendo consentido ao tribunal que recorresse a métodos de tortura para obter tais declarações. Aquele que, a juízo do tribunal, era declarado culpado e se negava a abrir mão de suas convicções sofria diversas penas, segundo a gravidade da falta. A pena mais grave era a condenação à morte, executada por uma autoridade civil, consistindo geralmente na queima em uma fogueira. Os países onde mais atuaram esses tribunais foram França, Espanha, Itália e Alemanha; na Inglaterra, a ação deles foi mais escassa. 6.9 As Cruzadas A hostilidade entre cristãos e muçulmanos foi permanente durante toda a Idade Média. Antes das Cruzadas, os cristãos já haviam empreendido campanhas armadas contra os muçulmanos. As Cruzadas, porém, convocadas e dirigidas no início pelo papa, tiveram mais espetacularidade e comoveram significativamente a sociedade europeia. 125 FILOSOFIA DA RELIGIÃO O papa Urbano II convocou a Cruzada em uma solene exortação em Clemort, no ano de 1095, tendo várias razões para fazer essa convocação. A primeira delas era a intenção de liberar o Santo Sepulcro. A situação da época era a seguinte: desde que se apoderaram do antigo Califado de Bagdá, os turcos selêucidas haviam cessado a política tradicional de tolerância que fora própria dos muçulmanos dessa região; por esse motivo, as comunidades cristãs estabelecidas em torno do Santo Sepulcro, assim como os peregrinos que viajavam periodicamente dos mais distintos pontos da Europa, começaram a ser molestados. Nesse contexto, a Cruzada se apresentava, antes de tudo, como uma sagrada missão de resgatar o Santo Sepulcro das mãos turcas e restaurar seu papel de principal santuário do culto cristão. Além disso, para o papa, esta seria a oportunidade de aproveitar o grande fervor suscitado pelo empreendimento para unificar a Igreja, suprimindo a divisão entre Oriente e Ocidente; seria ainda uma ocasião propícia para recuperar seu prestígio e sua autoridade no Ocidente, levando-se em conta que os conflitos entre o papado e o império, protagonizados por Gregório VII e Henrique IV, tinham ocorrido havia pouco tempo. O chamado para a Cruzada encontrou uma acolhida bastante favorável, que segundo os historiadores se deveu a diversas causas: • Os cristãos sentiram como um imperativo de consciência acudir com seus bens e sua vida para uma ação que poderia consistir na redenção de seus pecados e em sua salvação. Assim, a peregrinação a que os homens medievais já estavam habituados se transformava numa expedição armada. • Os nobres teriam a oportunidade de desenvolver seu espírito belicoso e de aventura, que havia sido contido pela Paz de Deus e pela Trégua de Deus. Por outro lado, naquela época a instituição da cavalaria estava muito controlada pela Igreja e havia assumido um caráter religioso. Com isso, vincular-se à Cruzada apresentava-se como outra obrigação do cavaleiro. • As terras da Europa Ocidental, insuficientemente exploradas, não bastavam para alimentar a população cada vez mais numerosa que vivia nelas. Por esse motivo, marcharam para o Oriente com a esperança de encontrar os meios de subsistência que estavam escassos em seus territórios. • Boa parte da nobreza tinha títulos, mas não terras, pois somente os primogênitos as herdavam. Assim, a Cruzada se apresentava como uma oportunidade de conquistar novas terras. • Os grandes nobres, ambiciosos, poderiam ampliar seus domínios. • As cidades comerciais italianas, que desempenharam um papel preponderante no transporte e abastecimento dos cruzados, também tinham muito interesse nessa empreitada. • A atração do desconhecido e a sedução do Oriente lendário foram outro poderoso estímulo para a participação nas Cruzadas. 126 Unidade II Lembrete As Cruzadas foram expedições empreendidas oficialmente pelos cristãos do Ocidente, com o apoio e a autorização da Sede Apostólica, a fim de libertar o Santo Sepulcro e defender o reino cristão de Jerusalém, uma vez que este havia sido ocupado pelos turcos. A denominação Cruzadas provém do distintivo que seus participantes usavam: uma cruz, em geral vermelha, pregada de forma bem visível em suas vestimentas. Os historiadores apontam a existência de oito Cruzadas, que ocorreram de 1096 a 1270.O cenário principal da luta entre muçulmanos e cristãos foram os territórios da Palestina e da Síria, mas num sentido mais amplo foram também a Ásia Menor, o Egito e Túnis. Duas rotas foram utilizadas pelos cruzados para chegar ao Oriente Próximo: • Rota terrestre: compreendia todos os clássicos caminhos das peregrinações que atravessavam a Península Balcânica e convergiam para Constantinopla. • Rota marítima: compreendia os itinerários das frotas que navegavam no mar Mediterrâneo e estava quase que monopolizada pelas cidades italianas. Seu ponto final encontrava-se nos principais portos do Oriente Próximo. Semelhantes pelas finalidades que proclamavam, as diversas Cruzadas foram muitas distintas entre si. Na primeira, o impulso religioso, a direção da Igreja e o próprio fato de ser a primeira fizeram-na ser considerada a Cruzada por excelência. Posteriormente, a crescente complexidade dos interesses em jogo e a diminuição do fervor religioso levaram ao enfraquecimento progressivo do espírito de Cruzada. 6.9.1 Os resultados das Cruzadas A vitória dos cruzados provocou mudanças imediatas no mapa político do Oriente Próximo. Os senhores feudais tentaram implantar o mesmo modelo de organização administrativa política e social que existia na Europa e organizar essas terras de acordo com os costumes feudais. Nesse sentido, mesmo antes de conquistar Jerusalém, já tinham constituído o Condado de Edessa e o Principado de Antioquia. Depois da queda da cidade santa, por meio de um acordo entre os senhores feudais e com a aprovação do papa, foi criado o Reino de Jerusalém. Anos depois, criou-se o Condado de Trípoli, enquanto a zona ocidental da Ásia Menor foi restituída ao Império Bizantino. No entanto, a situação dos novos Estados latinos, ligados debilmente entre si pelo sistema de vassalagem que reconhecia os senhores com respeito ao rei de Jerusalém, era muito difícil. Estavam rodeados de poderosos Estados muçulmanos, não contavam com a boa vontade de Bizâncio e seu 127 FILOSOFIA DA RELIGIÃO vínculo com a Europa só era assegurado através do Mediterrâneo, pelas frotas das cidades italianas. Tampouco dispunham de um número elevado de guerreiros, pois a maior parte dos cruzados havia regressado para a Europa depois da vitória e os peregrinos armados que chegavam não eram suficientes. Além disso, precisavam de colonos agrícolas que assegurassem o abastecimento, uma vez que boa parte da população muçulmana havia emigrado. Dependiam muito do comércio, porque se tratava de uma zona de tráfego intenso, porém precisavam se fortalecer militarmente e fazer grandes concessões às cidades italianas. Somam-se a essas dificuldades as disputas internas entre os senhores feudais e os eclesiásticos, assim como entre as populações de origens distintas que não conviviam pacificamente. Um dos procedimentos mais significativos em prol do fortalecimento defensivo das terras conquistadas foi a criação das ordens religiosas militares. Tanto os hospitaleiros como os templários eram monges soldados, que acrescentavam a seus votos o de combater os infiéis. Essas ordens se constituíram em milícias disciplinadas e, com seus castelos fortificados, foram importantes para proteger as zonas mais estratégicas do reino. Posteriormente, os alemães também criaram outra poderosa ordem, a dos cavaleiros teutônicos. 6.9.2 O fim das Cruzadas No final do século XII, os muçulmanos deixaram suas diferenças temporariamente de lado. Egito, Síria e Mesopotâmia se unificaram sob o comando do sultão Saladino, o qual iniciou uma contraofensiva, dirigindo operações militares em que pôs vastos recursos a serviço de uma inteligência estratégica. Essas operações culminaram, em 1187, numa vitória total, que lhe permitiu apoderar-se da cidade de Jerusalém. Esse seria o começo da rápida queda dos Estados latinos e a perda definitiva da cidade santa. Depois da Quarta Cruzada, tornou-se muito difícil organizar Cruzadas que tivessem o contingente necessário para fazer frente ao poderio militar muçulmano. Assim, após séculos de luta, esses empreendimentos terminaram em fracasso. O Santo Sepulcro, que passou a mãos cristãs depois da Primeira Cruzada, permaneceu nessa situação por pouco tempo, retornando para o poder dos muçulmanos, com o agravante da exaltação das paixões religiosas criada pela guerra santa, o que produziu mais obstáculos aos peregrinos. O propósito de unir a Igreja do Ocidente com a do Oriente não se concretizou; antes, houve um aprofundamento das diferenças. O contato dos cristãos ocidentais com os orientais teve resultados negativos, principalmente depois da Quarta Cruzada, considerada pelos bizantinos um erro imperdoável. 128 Unidade II Resumo Destacamos o contexto filosófico, histórico, social e político de Roma, contexto que favoreceu o cristianismo. Esse movimento religioso teve o auxílio dos gregos por meio de uma variante de seu idioma, o coiné, que permitiu aos cristãos relacionar-se com vários povos. Além disso, o cristianismo se beneficiou da destruição das religiões antigas, ofuscadas por causa do crescimento da disciplina intelectual, que colaborou para o abandono da religião em favor da filosofia. Não apenas os sistemas filosóficos gregos e romanos contribuíram para essa expansão, mas também as práticas judaicas, pois os judeus não tentavam encontrar Deus por meio da racionalidade; eles já pressupunham sua existência, procurando obedecer aos profetas, prestando culto e aguardando o Messias. É por esse motivo que o judaísmo é considerado a cobertura dessa nova religião e o berço do cristianismo. Destacamos que os apóstolos de Cristo levaram seus ensinamentos a outros povos de modo bastante eficiente. De início, o cristianismo expandiu-se na Palestina, entre os judeus, e depois por todas as regiões do império. Em seus primórdios, a nova religião encontrou maior repercussão entre os pobres e os escravos, que se convertiam acreditando na salvação eterna. Mais tarde, ganhou adeptos também entre as classes altas do mundo romano. A expansão do cristianismo em Roma se deu principalmente pela descrença na religião romana. Quando o cristianismo se apresentou como uma opção, atraiu muita gente. Os romanos, que eram tolerantes com todas as religiões, a princípio, aceitaram o cristianismo, mas depois passaram a perseguir os cristãos. Essas perseguições se iniciaram logo no século I e atingiram particular violência nos séculos III e IV. Apesar de perseguido, o cristianismo continuou a se expandir. Assim, a partir de 313, as autoridades romanas deixaram de perseguir os cristãos. Nesse ano, o imperador Constantino, através do Édito de Milão, concedeu liberdade de culto a eles. Desde então, a influência do cristianismo não deixou de crescer, sendo cada vez maior o número de fiéis. Em 380, o imperador Teodósio reconheceu o cristianismo como religião oficial do Estado. Pouco depois, proibiu o culto de deuses pagãos, promovendo a organização da Igreja Católica, que construiu sua hierarquia tendo como modelo a estrutura administrativa do império. A partir desse 129 FILOSOFIA DA RELIGIÃO momento, a Igreja Católica começou a ganhar força no continente europeu. Nem mesmo a invasão dos povos bárbaros (germânicos) no século V atrapalhou o crescimento do catolicismo. Durante a Idade Média (séculos V a XV), a Igreja Católica obteve e manteve grande poder. Possuía muitos terrenos (poder econômico), influenciava as decisões políticas dos reinos (poder político), interferia na elaboração das leis (poder jurídico) e estabelecia padrões de comportamento moral para a sociedade (poder social). Exercícios Questão 1. Leia o texto a seguir: “Com efeito, existem a respeito de Deus verdades que ultrapassam totalmente as capacidades da razão humana. Uma delas é, por exemplo, que Deus é trino e uno. Ao contrário, existem verdades que podem ser atingidas pela razão: por exemplo, que Deus existe, que há um só Deus etc.” AQUINO, T. Súmula contra os gentios.Tradução Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1979. p. 61. Sobre o pensamento de Tomás de Aquino, analise as afirmativas: I – Tomás de Aquino baseou-se nas ideias de Aristóteles, adaptando-as ao cristianismo. II – Segundo o filósofo cristão, no pensamento religioso, basta a fé, uma vez que a razão é totalmente dispensável quando se crê. III – De acordo com Tomás de Aquino, a existência de Deus se prova por meio do movimento que existe no universo, pois em todo movimento deve existir causa exterior ao ser que está em movimento. É correto o que se afirma em: A) I, II e III. B) I e II, apenas. C) I e III, apenas. D) II e III, apenas. E) I, apenas. Resposta correta: alternativa C. 130 Unidade II Análise das afirmativas I – Afirmativa correta. Justificativa: Tomás de Aquino faz uma releitura das ideias de Aristóteles para provar a existência do Deus do cristianismo. II – Afirmativa incorreta. Justificativa: a razão não é totalmente dispensável. No trecho do enunciado, afirma-se que existem verdades que podem ser alcançadas pela razão. III – Afirmativa correta. Justificativa: uma das provas da existência de Deus para Tomás de Aquino é a do primeiro motor, que movimenta o universo. Questão 2. (Enade 2017) No século XIII, quando novos textos de Aristóteles e de seus comentadores começaram a circular no Ocidente cristão, iniciou-se uma série de debates metafísicos. De fato, nem sempre foi fácil conciliar a tradição filosófica aristotélica com a doutrina cristã. Um caso exemplar encontra-se na tese da eternidade, que foi defendida, entre outros, por Averróis (1126-1198), comentador de Aristóteles, e que contradiz: A) A existência da primeira causa. B) A teoria da criação a partir do nada. C) A concepção de tempo como passagem. D) A teoria do movimento para a perfeição. E) A metafísica vista como transcendência do mundo. Resposta correta: alternativa B. Resolução da questão Para Aristóteles, seria mais razoável aceitar que houve uma causa primeira do que aceitar que o cosmos nasceu do nada.