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Introdução Olá, caro(a) aluno(a)! Seja bem-vindo(a) à primeira unidade do livro Literatura Infantil. Nesta unidade, discutiremos temas importantes e introdutórios. Iniciaremos com um breve panorama da Literatura Infantil. Voltaremos no tempo e descobriremos como se deu o início da literatura voltada para as crianças e os seus desdobramentos ao longo dos séculos. Na sequência de nossos estudos, faremos uma parada e conversaremos sobre o trabalho de La Fontaine, um dos primeiros fabulistas. Faremos, então, uma viagem ao Oriente Médio para abordaremos o clássico Mil e Uma Noites e as adaptações dessa obra aqui no Brasil, em especial. Por fim, conversaremos sobre um gênero muito importante e diretamente relacionado à criança: os Contos de Fadas, os quais são revisitados, adaptados e readaptados, contribuindo para o ensino-aprendizagem, por terem um caráter pedagógico. Convido você, caro(a) aluno(a), a mergulhar nesta aventura pela história comigo. Vamos nessa? Desejo-lhe bons estudos! Panorama da Literatura Infantil Caro(a) aluno(a), iniciaremos nossa unidade comentando sobre a importância da Literatura Infantil para o desenvolvimento da leitura nas crianças. Também, discutiremos os meios que o docente pode utilizar para a promoção da leitura em sala de aula. Considerando que toda a ficção pode ser considerada literatura, o texto literário cria a ficção. Este texto liga-se ao mundo real, porém é capaz de criar seres, universos, situações imaginárias etc. No que se refere à Literatura Infantil, trata-se de uma fonte inesgotável de conhecimento e informação, visto que traz ao pequeno leitor momentos de alegria, imaginação e aprendizado. Nas últimas décadas, a Literatura Infantil vem sendo objeto de estudo, cujo intuito é apresentar reflexões sobre a importância da leitura desde as etapas iniciais de escolarização, bem como apresentar alternativas e orientações aos docentes de como realizar um trabalho mais sistemático e interacionista, com obras literárias voltadas ao público infantil. Para um trabalho efetivo de leitura com crianças, faz-se necessário propiciar a elas momentos lúdicos e prazerosos no manuseio e na apreensão dos textos literários, tendo em vista o estímulo à alfabetização e ao letramento, já nos anos escolares iniciais. Considerando esse processo, a Literatura Infantil pode ser vista como um recurso fundamental para a formação do indivíduo, tornando-o mais crítico e desenvolvendo nele valores morais. Ler o mundo, ouvir histórias são fatores que influenciam na formação do leitor, uma vez que a formação do leitor se inicia nas suas primeiras leituras de mundo, na prática de ouvir histórias narradas oralmente ou a partir de textos escritos, na elaboração de significados e na descoberta de que as marcas impressas produzem linguagem (CORSINO, 2009, p. 57). Assim, a literatura é uma grande auxiliadora no processo de alfabetização e letramento, pois facilita o aprendizado e contribui para o desenvolvimento da criatividade, da imaginação e do prazer pela leitura. Quando o docente insere a literatura como um meio de promoção da aprendizagem, concomitantemente está inserindo a criança em um mundo de aprendizagem lúdica e prazerosa. Segundo o ponto de vista de Zilberman (1985, p. 22): A literatura sintetiza, por meio dos recursos da ficção, uma realidade, que tem amplos pontos de contato com o que o leitor vive cotidianamente. Assim, por mais exacerbada que seja a fantasia do escritor ou mais distanciadas e diferentes as circunstâncias de espaço e tempo dentro das quais uma obra é concebida, o sintoma de sua sobrevivência é o fato de que ela continua a se comunicar com o destinatário atual, porque ainda fala de seu mundo, com suas dificuldades e soluções, ajudando-o, pois, a conhecê-lo melhor. Considerando o exposto, é imprescindível que o docente consiga despertar o gosto pela leitura na criança, uma vez que é dimensão essencial na vida de todo o indivíduo, pelo único fato de que “[...] quando lemos estamos exercitando a mente, aguçando nossa inteligência” (TELES; SOARES, s/d., p. 3), bem como desenvolvendo nossa concepção de mundo. Por meio da literatura, a criança é estimulada a vivenciar situações que estão, muitas vezes, fora de sua realidade. Nas palavras de Pinati et al. (2017, p. 51): A criança precisa habituar com a variedade de textos e estilos desde o começo da vida na escola, isso acontece porque nessa fase da escola, a criança se encontra em processo de aprendizado e de desenvolvimento de suas capacidades, mesmo que não tenha domínio da língua, ela necessita dessa relação com a literatura para no futuro, serem leitores críticos. Para isso que isso ocorra, é preciso que o docente estabeleça situações em que a criança seja capaz de realizar suas próprias leituras, visando ao desenvolvimento da criticidade, por meio de textos e leituras adequadas e diversas para a sua faixa etária. Ainda conforme Pinati et al. (2017, p. 51): A atuação do professor com o propósito de fomentar a alfabetização no ambiente escolar, utilizando várias vertentes oferecidas pela Literatura Infantil, necessita ser uma ação de maneira a propiciar divertimento e uma leitura significativa para as crianças, sem dispor do ensino da tradicional gramática ou da ortografia como ênfase principal, mas sempre dando estímulo ao prazer de ouvir, ver e ler. A partir do momento em que a criança tem acesso à leitura, toda a equipe pedagógica (professores e coordenadores pedagógicos) deve atuar em conjunto e sintonia, a fim de assegurar que o trabalho com a Literatura Infantil aconteça de forma dinâmica e proveitosa, tendo em vista as práticas docentes que estimulam os pequenos a desenvolverem as habilidades orais, leitoras e escritoras. Reflita: “Os contos populares possuem conteúdo transpassado por sabedoria ancestral e tradição popular, e sua temática é universal e atemporal, assim, o ato de contar histórias confere intimidade e encontro do imaginário com o real” (SOUZA, 2016, p. 28). Um exemplo disso é a contação de histórias, que traz um momento prazeroso e educativo, além de trabalhar com os eixos: leitura, escrita e oralidade, imprescindíveis para o desenvolvimento cognitivo infantil (MELO, 2015). Para que a leitura seja significativa, formadora de opinião e proporcione um ensino-aprendizagem de qualidade, faz-se necessário seguir algumas estratégias: a) Atividades antes da leitura: I) Levantamento do conhecimento prévio sobre o assunto; II) Antecipação do tema ou ideia principal como: título, subtítulo, do exame de imagens. III) Expectativas em função do autor ou instituição responsável pela publicação. b) Atividades durante a leitura: I) Retificação, confirmação ou rejeição das idéias antecipadas ou expectativas criadas antes do ato de ler; II) Utilização do dicionário para consulta, esclarecendo sobre possíveis dúvidas do vocabulário; III) Identificação de palavras-chave; IV) Suposições sobre as conclusões implícitas no texto, com base em outras leituras, valores, experiências de vida, crenças; V) Construção do sentido global do texto; VI) Busca de informações complementares; VII) Relação de novas informações ao conhecimento prévio; VIII) Identificação referencial a outros textos. c) Atividades para depois da leitura: I) Construção do sentido sobre o texto lido; II) Troca de opiniões e impressões a respeito do texto; III) Relacionar informações para concluir ideias; IV) Avaliar as informações ou opiniões expressas no texto lido; V) Avaliar criticamente o texto abordado (SOLÉ, 1998 apud ARANA; KLEBIS, 2015, p. 11-12). Acreditamos, caro(a), aluno(a), que o docente é a peça fundamental para instigar e auxiliar o discente ao longo do processo de leitura. Além das estratégias apresentadas, deve-se prestar atenção a alguns detalhes e tomar algumas medidas pedagógicas, como: [...] convívio contínuo com histórias, livros e leitores; valorização do momento da leitura; disponibilidade de um acervo variado; tempo paraler, sem interrupções; espaço físico agradável e estimulante; ambiente de segurança psicológica e de tolerância dos educadores em relação às singularidades e às dificuldades de aprendizagem de cada criança; oportunidades para que expressem, registrem e compartilhem interpretações e emoções vividas nas experiências de leitura; acesso à orientação qualificada sobre por que ler, o que ler, como ler e quando ler (MELO, 2015, on-line). Dessa forma, o docente deve preparar um momento para a realização da leitura, tendo em vista o espaço, o tempo e o tipo de texto, em conformidade com a faixa etária das crianças (recomenda-se a utilização de contos de fadas, fábulas, poesias etc.). Além disso, deve-se pensar em estratégias que despertem a curiosidade e o imaginário do aluno. A leitura de história pode provocar (e essa é a intenção) as mais diversas sensações (riso, choro) e também a formulação de perguntas e respostas. A leitura deve ser entendida como uma prática social. A t i v i d a d e : Leia o excerto a seguir: “A criança que possui contato com a literatura enquanto obra de arte, acaba por participar de uma ação pedagógica ainda que não seja essa a função do texto; e nesta ação elas alargam sua capacidade de convivência no plano social e coletivo, sua percepção de tempo e espaço, seu mecanismo de comunicação, seu conhecimento de diversidade estética, e [...] desenvolvem-se nos campos emocional, histórico e cultural”. SOUZA, D. L. de. Literatura Infantil: origens e contribuições na Educação Infantil. 2016. 47 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Pedagogia) - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Rio Claro-SP, 2016, p. 30. A partir do excerto apresentado e do conteúdo discutido a respeito das contribuições da Literatura Infantil para as crianças, analise as afirmativas a seguir: I. A leitura auxilia na assimilação de informações, bem como ajuda a criança a encontrar os significados na vida. II. A Literatura Infantil contribui para o desenvolvimento da imaginação, da criatividade e da criticidade. III. A Literatura Infantil contribui para o desenvolvimento moral, pois apresenta resoluções de conflitos internos da criança. IV. A Literatura Infantil e a leitura capacitam a criança para que ela seja capaz de produzir opiniões, justificativas e julgamento sobre o que é certo ou errado, bom ou mau. A partir das afirmativas apresentadas, assinale, a seguir, a alternativa correta: a) Apenas a afirmativa IV está correta. b) Apenas as afirmativas I e II estão corretas. c) Apenas as afirmativas III e IV estão corretas. d) Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas. e) Todas as afirmativas estão corretas. Base Histórica da Literatura Infantil O homem, desde os primórdios, utilizava a contação de histórias para transmitir, de geração para geração, as histórias de suas origens e de seu povo. De acordo com Souza e Feba (2011, p. 153): As primeiras civilizações utilizavam a linguagem oral para repassar aos seus descendentes a sabedoria deixada por seus antepassados, para solucionar problemas e manter viva as tradições e segredos de seus povos. Nesse sentido, ao olharmos para a história da humanidade, constatamos que ela está fortemente marcada pelo uso que os homens fizeram das narrativas para que pudessem se descobrir enquanto pessoas e para repassar às gerações futuras sua identidade e as descobertas realizadas em consequência de suas necessidades, ou seja, o fazer-se ser humano foi construído no decorrer da história narrada. Com a aquisição da escrita, as histórias contadas oralmente foram passadas para o papel; assim, a literatura imortalizou-se. No que se refere aos textos da Literatura Infantil, estes se alimentavam de obras destinadas a um público adulto e, nas palavras de Souza e Feba (2011, p. 100), “[...] circulavam entre as pessoas do povo da Idade Média e eram utilizados como forma de entretenimento dos adultos. [Com o tempo] foram compilados e, posteriormente, adaptados para o público infantil”. O que define e distingue a literatura infantil é, justamente, seu leitor implícito, ou melhor, o que marca sua especificidade é o público a que se destina, pois é a única manifestação literária que [...] tem um público bem determinado (SIMÕES, 2013, p. 219). Uma literatura pensada para crianças teve origem no século XVII com François Fénelon (1651-1751), que objetivava educar moralmente as crianças. Antes desse século, porém, não havia uma visão especial da infância, ou seja, adultos e crianças conviviam de modo igualitário, compartilhando os mesmos ambientes, o mesmo tipo de vestimenta, trabalho etc. As crianças não eram compreendidas como crianças; logo, não havia uma literatura voltada para este público. De acordo com Zilberman (1985, p. 13): [...] a concepção de uma faixa etária diferenciada, com interesses próprios e necessitando de uma formação específica, só acontece em meio à Idade Moderna. Esta mudança se deveu a outro acontecimento da época: a emergência de uma nova noção de família, centrada não mais em amplas relações de parentesco, mas num núcleo unicelular, preocupado em manter sua privacidade (impedindo a intervenção dos parentes em seus negócios internos) e estimular o afeto entre seus membros. Na Idade Média, a escola era uma instituição precária e instável, muito ligada à Igreja. Além das escolas eclesiásticas medievais, voltadas à formação dos clérigos, existiam ainda os estudos livres, ministrados por professores que não eram livres para determinar o próprio currículo. Esses estudos podiam ser frequentados por qualquer pessoa que precisasse ler e escrever; não havia um trabalho pedagógico voltado à faixa etária e as turmas poderiam chegar a 200 alunos. Poucas crianças frequentavam a escola e não havia uma permanência. Tendo em vista a concepção de criança, estas participavam efetivamente da vida comunitária e social. Assim, não havia assuntos dos quais as crianças não poderiam saber e discutir sobre, e tais assuntos giravam em torno de temáticas como: luta pela sobrevivência, sexualidade, morte, transgressão das regras sociais etc. Em outras palavras, não havia um “filtro”, pois tudo era comentado, independentemente da faixa etária do indivíduo. Nas palavras de Cortez (2011, p. 2): A concepção de infância que conhecemos hoje vem evoluindo e se desenvolvendo desde o século XV; foi no fim desse século que começaram a acontecer as mudanças. Até então, o que denominamos de primeira infância (três ou quatro anos), a criança era acompanhada pelos pais e tinha seus momentos de criança, isoladamente ou brincando e jogando com outras crianças. Logo depois, passam a jogar e brincar com os adultos e com jogos de adultos; até mesmo das festividades esses pequenos participavam até acabar. As famílias não desenvolviam afetividade pelas crianças e não havia a preocupação em cuidar delas com sentimentos fraternos. Qualquer criança com mais de sete anos já era vista como um adulto, mesmo pequena, possuindo o direito de manifestar sua identidade própria em sociedade. Foi durante o Classicismo Francês, especificamente na monarquia de Luís XIV, que houve certa preocupação com uma literatura voltada para crianças. A partir daí, criaram-se histórias direcionadas ao público infantil, as quais foram editadas no período de 1668 a 1697. Como exemplo temos: “As Aventuras de Telêmaco”, de Fénelon; e as “Fábulas de La Fontaine” e os “Contos da Mamãe Gansa”, de Charles Perrault. S a i b a m a i s Em relação ao seu marco inicial, ao menos para o Ocidente, pode-se afirmar que a Literatura Infantil surgiu no século XVII com François Fénelon (1651-1715), um padre, teólogo, poeta e escritor francês. Dentre seus escritos, os considerados infantis surgiram a pedido da Duquesa de Beauviller, justamente com a função de educar moralmente as crianças (de modo particular, as meninas). As narrativas propostastinham estrutura maniqueísta, a fim de demarcarem claramente o bem a ser aprendido e o mal a ser desprezado. A maioria dos contos de fadas, das fábulas e de muitos textos contemporâneos inclui-se nessa tradição (CARVALHO, 2015). A partir do século XVII, a criança passou a ser considerada um indivíduo diferente do adulto; portanto, com necessidades e características próprias. Desse modo, houve uma mudança na concepção de indivíduo e um distanciamento da vida adulta. Com isso, nesse século, a criança começou a receber uma educação diferenciada, com a função de prepará-la para a vida. Em 1697, Charles Perrault (1628-1703), escritor e poeta francês considerado o “Pai da Literatura Infantil”, estabeleceu as bases para um novo gênero literário: o Conto de Fadas. Perrault criou grandes clássicos da literatura, como “Chapeuzinho Vermelho”, “O Gato de Botas”, “Cinderela”, “A Bela Adormecida” etc. A respeito da história de vida de Perrault, sabe-se que era um nobre da alta sociedade francesa e que integrou a corte do rei Luís XVI, exercendo atividades ligadas ao Direito. Voltou-se para as Letras quando já tinha mais de 60 anos de idade e estava aposentado. Charles Perrault, coletor de contos populares, realiza seu trabalho após a Fronde, movimento popular contra o governo absolutista no reinado de Luís XIV, cuja repressão deixou marcas de terror na França. Os contos chegam à família Perrault através de contadores que, na época, se integravam à vida doméstica como servos. Considere-se que se trata de um momento histórico de grande tensão entre as classes. O burguês Perrault despreza o povo e as superstições populares e, como homem culto, as ironiza. Seus contos, em alguns momentos, caracterizam-se por um certo sarcasmo em relação ao popular. Ao mesmo tempo, são marcados pela preocupação de fazer uma arte moralizante através de uma literatura pedagógica (CADEMARTORI, 1987, p. 35-36). Perrault teve o cuidado de editar as narrativas folclóricas contadas pelos camponeses, adaptando-as para o público infantil. Desse modo, retirou as cenas de violência e sexo. Em outras palavras, Perrault deu acabamento literário às histórias que, até então, transitavam de forma oral entre as classes sociais. s a i b a m a i s Houve, na história do Ocidente, grandes autores de fábulas. Na Grécia Antiga, o mais famoso deles foi Esopo, que viveu entre os séculos VII e VI a. C. Diz a tradição que Esopo era um grande contador de histórias, mas que não deixou nenhuma fábula escrita. Seus apólogos foram registrados de forma literária mais tarde, por outros autores, e o mais importante deles foi o romano Fedro (15 a.C. – 50 d.C.), que se declarava admirador e imitador de Esopo. Algumas fábulas de Fedro que se tornaram extremamente conhecidas são: “O lobo e o cordeiro”, “A raposa e o corvo”, “A rã e os bois” e “A raposa e as uvas”. No século XVII, na França, viveu o mais importante fabulista da Era Moderna: Jean de La Fontaine (1621-1695). Esse autor, além de compor suas próprias fábulas, também reescreveu em versos franceses muitas das fábulas antigas de Esopo e de Fedro. É dele a fábula mais conhecida de todo o Ocidente: “A cigarra e a formiga” (CARVALHO; MENDONÇA, 2006). Vejamos, a seguir, ainda na mesma temática de adaptação de obra para o público infantil, as contribuições de La Fontaine, contemporâneo de Charles Perrault. O Estudo das Fábulas de La Fontaine Jean de La Fontaine nasceu em Château-Thierry, na França, em 8 de julho de 1621 e faleceu em 13 de abril de 1695, em Paris, deixando para as gerações futuras um legado repleto de lições sobre a condição humana. A primeira obra importante de La Fontaine foi publicada em vários volumes, a partir de 1665, e foi chamada de “Contos”, cujo propósito era a diversão do leitor. O primeiro volume foi nomeado “Novelas em versos extraídos de Bocaccio e Ariosto”, e o último saiu em 1667. Em um outro momento de sua produção, La Fontaine inspirou-se nas literaturas clássicas (gregas) e na Oriental, começando a escrever fábulas (relato fictício, com fim didático e moralizante, cujas personagens são animais). Na Antiguidade, o fabulista mais famoso foi o grego Esopo, grande inspiração de La Fontaine. La Fontaine visitou também as histórias medievais, as parábolas bíblicas e as coletâneas orientais, as quais possuíam a mesma característica: pertencer à memória popular. Com toda essa referência, La Fontaine desenvolveu as suas histórias. No ano de 1684, tornou- se membro da Academia Francesa, por ter atuado no classicismo francês, fato que o tornou uma das mais belas expressões literárias do período. R e f l i t a “Sirvo-me de animais para instruir os homens. [...] Procuro tornar o vício, ridículo. Por não poder atacá-lo com braço de Hércules. [...] Algumas vezes oponho, através de uma dupla imagem, o vício à virtude, a tolice ao bom senso. [...] Uma moral nua provoca o tédio: O conto faz passar o preceito com ele. Nessa espécie de fingimento, é preciso instruir e agradar. Pois, contar por contar me parece de pouca monta” (LA FONTAINE, 1668 apud COELHO, 2000, p. 166). Contabilizando a produção literária de La Fontaine, chegamos aos números de: [...] 64 contos, um romance em prosa entremeado de versos, um idílio heroico, dois libretos de ópera, duas tragédias (uma lírica e outra incompleta), duas comédias, um balé cômico, fragmentos de um sonho, um poema científico, três epístolas críticas em verso, um poema cristão, duas paráfrases de textos sagrados, um relato de viagem, seis elegias, sátiras, odes, baladas, madrigais, sonetos, canções, epitálamos e epigramas, um pastiche, traduções de versos latinos, de cartas, muitos versos de circunstância e outras obras perdidas (CARDOSO, 2015, p. 53). Apesar da quantidade, a coletânea de fábulas é ainda maior, sendo composta por 240, as quais foram distribuídas em doze livros, em 1694. A primeira edição, lançada em dois volumes no ano de 1668, continha um total de 124 fábulas, divididas em seis livros. La Fontaine tem suas fábulas tidas como modelo até os dias de hoje. Nelas, o referido autor aborda princípios básicos que movem os homens, como o comportamento humano e o sentido da vida. As temáticas são apresentadas por meio da exemplificação, podendo conter humor e comicidade, uma vez que as fábulas trazem por personagens, conforme exposto, os animais. Com isso, o fabulista apresenta valores de seres racionais transmitidos por seres irracionais, a fim de transmitir um ensinamento por meio da moral da história. Por meio da fábula, o ser humano pode satisfazer sua necessidade natural de usar a comparação e a imagem para explicar melhor seu pensamento, suas ideias. O importante das fábulas de La Fontaine não é somente o que se conta, pois os temas já faziam parte do imaginário coletivo desde Esopo (620 a.C. – 564 a.C.), mas sim como se conta. A unicidade da obra de La Fontaine está no modus dicendi e não nos temas (CARDOSO, 2015, p. 57). Diante do exposto, podemos afirmar, caro(a) aluno(a), que La Fontaine foi um grande entendedor e criador de fábulas e que, por meio dessa produção ,consagrou-se, entrando para o rol de escritores que produziram literaturas universais. Por isso, o poder moralizante de suas fábulas continua forte ainda nos dias atuais. O Uso das Fábulas no Processo de Ensino- aprendizagem Considerando que as fábulas possuem um fim moralizante, autores como Esopo, Perrault e La Fontaine utilizaram as fábulas como um meio para criticar e denunciar as injustiças e as maldades. Desse modo, trazer esse gênero para a sala de aula é uma forma de mostrar às crianças a vida como ela é, além de esse ser um tipo de texto propício para o desenvolvimento das habilidades de leitura. A fábula também é uma excelente atividade de reflexão sobre o comportamento humano, exigindo do professor uma participação crítica, levando os educandos a realizarem uma leitura reflexiva deforma que percebam a ação dos personagens, relacionando- as aos acontecimentos do dia a dia e do seu próprio contexto social. Pela sua versatilidade, a criança enxerga com maior facilidade as diversas situações, orientações e aprendizado (LIMA; MARTINS; RODRIGUES, 2016, p. 41). De acordo com o exposto, a leitura de fábulas em sala de aula desencadeia no aluno o interesse em conhecer novas histórias, bem como contribui para a formação do hábito de leitura e, consequentemente, escrita. Considerando o caráter pedagógico, a fábula é organizada em duas partes: primeiro, apresenta-se a história, que ocorre em um mundo fictício, e as personagens, na maioria das vezes, são animais; segundo, trata-se da moral da história, que aparece, normalmente, no final, acentuando o significado do que foi narrado. A moral costuma estar separada da história. Vejamos o exemplo a seguir https://anhembi.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/EDU_LITINF_19/unidade_1/ebook/index.html Figura 1.3 - Estrutura da Fábula Fonte: Adaptada de Chagall (2004). A Fábula, segundo La Fontaine: [...] possui duas partes distintas: o corpo e a alma, sendo a narrativa a parte sensível, o corpo dinâmico e figurativo da narração; enquanto a alma é a moralidade, implícita no corpo, embora sem ser destacada materialmente, ela opera com conceitos que revelam as verdades mais sutis (UBIALI, 2014. p. 8). O “corpo” refere-se ao tipo textual narrar, já a “alma” refere-se à moralidade. Assim, o texto moralizante tem por função regular o comportamento e as ações em sociedade. Tendo isso em vista, as fábulas podem suscitar, em sala de aula, boas discussões. Então, o professor pode apresentar aos alunos alguns temas importantes, como: bondade, ganância, solidariedade, injustiça social, vaidade, amizade etc. Desse modo, para a exploração das fábulas no contexto escolar, o docente deve seguir os seguintes passos: 1. Qual é o repertório de leitura necessário para a compreensão da fábula? 2. Resgatar os aspectos culturais trabalhados pela fábula. 3. Desenvolver uma escuta ativa, orientada e colaborativa para que o aluno perceba as nuances da fábula. 4. Analisar o aspecto temático trabalhado pela fábula e trazê-lo para a realidade do aluno. 5. Elaborar um roteiro com as palavras mais relevantes retiradas da fábula para a discussão logo após o encerramento da leitura. 6. Isolar um fato da fábula para analisá-lo a partir da experiência vivida ou não, pelo aluno. 7. Considerar os elementos não verbais apresentados pela fábula. 8. Verificar as interferências das vozes e de outras imagens para a compreensão final da fábula (ALMEIDA, 2010, p. 114). Ao analisar a fábula junto aos alunos, o docente consegue verificar o processo interacional autor - texto - leitor, bem como o modo como o contexto e os conhecimentos individuais influenciam no momento da interpretação do texto, os quais afetam, e muito, na compreensão dos sentidos. Por fim, vale salientar, já antecipando o que veremos adiante, que a fábula “[...] é uma fórmula específica de comunicar pensamentos críticos. [...] dirige-se à inteligência, provoca discussões, desafia a crítica e fomenta capacidade dos alunos de analisar e julgar” (LIMA; ROSA, 2012, p. 160). A t i v i d a d e - Leia o excerto a seguir: “A história da literatura infantil tem relativamente poucos capítulos. Começa a delinear-se no início do século XVIII, quando a criança passa a ser considerada um ser diferente do adulto, com necessidades e características próprias, pelo que deveria distanciar-se da vida dos mais velhos e receber uma educação especial, que a preparasse para a vida adulta”. CUNHA, M. A. A. Literatura Infantil: teoria e prática. São Paulo: Ática, 1987, p. 19. A respeito da história da Literatura Infantil, analise as afirmativas a seguir: https://anhembi.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/EDU_LITINF_19/unidade_1/ebook/index.html I. Após o século XVIII, há uma fase de descoberta da infância, na qual a criança passa a receber uma atenção especial, que foca em sua existência. II. Com a nova percepção da criança, ocorre uma separação do mundo adulto e a escola passa a se responsabilizar por uma educação voltada ao público infantil. III. Os contos, a partir do século XVIII, passaram a ser selecionados, além de conterem valores morais e regras a serem seguidas. IV. Com a nova visão de criança, surgia uma preocupação com seu o desenvolvimento moral e intelectual, mesmo a literatura sendo igual para adultos e crianças. A partir das afirmativas apresentadas, assinale, a seguir, a alternativa correta: a ) Apenas a afirmativa IV está correta. b) Apenas as afirmativas I e II estão corretas. c) Apenas as afirmativas III e IV estão corretas. d) Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas. e) Todas as afirmativas estão corretas. As Adaptações do Clássico “As Mil e uma Noites” Para o Mundo Infanto-Juvenil Tendo em vista que a Literatura Infantil, desde seu surgimento, é considerada um instrumento pedagógico e significativo na formação de leitores, partiremos agora, caro(a) aluno(a), para as adaptações literárias, as quais são um recurso muito interessante para despertar o gosto pela leitura. Antes de iniciarmos essa temática, é necessário ter em mente que: [...] a adaptação literária para crianças e jovens é um processo instável, tendo em vista que o uso de procedimentos narrativos tais como o corte, a segmentação, a redução de elementos, a mudança ou manutenção da perspectiva narrativa, a simplificação das ações, a representação do tempo e do espaço mais próxima ou mais distante do original, depende do cruzamento da leitura da obra e do leitor-alvo que o adaptador realiza, tendo como parâmetro o caráter emancipatório da obra fonte (CARVALHO, 2006, p. 381). As adaptações literárias refletem, decisivamente, na formação de leitores; desse modo, são práticas que merecem estudo e procedimentos bem delineados. O uso dos textos literários adaptados em sala de aula justifica-se, pois é um tipo de texto que facilita o acesso ao texto literário, bem como contribui para o processo de ensino-aprendizagem. De que forma as adaptações podem ser trabalhadas no contexto escolar? Vejamos: Fonte: Adaptado de Weller (2013). As adaptações podem facilitar o acesso dos alunos aos clássicos, funcionando como porta de entrada. Assim sendo, com o uso dos textos adaptados, pode-se incluir ao ensino de língua portuguesa o objetivo de ampliar o repertório e a bagagem do aluno, para formar leitores. Também, podem ser ampliados os objetivos relacionados à reflexão sobre recursos linguísticos. É de adaptações de textos clássicos e de contos de fadas que provém e se fortalece a literatura para jovens leitores. Compilados pelo francês Charles Perrault, no século XVII, adaptando-os de narrativas populares e revestindo-as de valores da burguesia, e pelos famosos alemães Jacob e Wilhelm, conhecidos irmãos Grimm, no século XIX, os contos de fadas não foram escritos especialmente para as crianças bem como não faziam parte da educação burguesa. Esses contos, anônimos e, portanto, recolhidos do seio do povo – do folclore popular –, eram ligados às camadas inferiores e estabeleciam conexões entre a situação social e a condição servil. Assim, por meio desses materiais preexistentes, como os clássicos e os contos de fadas, essa literatura começou a constituir o seu acervo (CORSO, 2012, on-line). https://anhembi.blackboard.com/bbcswebdav/institution/laureate/conteudos/EDU_LITINF_19/unidade_1/ebook/index.html Tendo em vista o exposto, centralizaremos nossos estudos no que se refere às adaptações da obra “As mil e uma noites”. A respeito dessa obra, sabe-se que não há um único autor, mas vários narradores anônimos, e que suas histórias foram reunidas ao longo de séculos, formando uma coletânea, que é considerada pelos especialistas um clássico da literatura fantástica. Estima-se que partedesses contos teria surgido na Índia, em torno do século 3, em decorrência da aparição de semideuses, gênios e animais diversos, os quais remontam o panteão hinduísta. Da Índia, as histórias chegaram à Pérsia por meio da transmissão oral de viajantes e mercadores, e uma obra chamada de Hezar Afsaneh, que significa “Os Mil Contos”, teria formado a primeira compilação dessas histórias. Essa versão já continha personagens importantes, como o sultão Shariar e sua esposa Sherazade, da versão final de “As Mil e Uma Noites”. Os pesquisadores acreditam que, por volta do século 8, já havia uma tradução de Hezar Afsaneh, realizada pelos povos árabes, bem como uma espécie de adequação da linguagem, incluindo os valores islâmicos, o erotismo e palavras de calão. O título “As Mil e Uma Noites” também foi substituído no mesmo período, uma vez que há uma superstição do povo árabe a respeito dos números redondos, os quais trazem azar. Nos séculos seguintes, houve a incidência de diferentes manuscritos, cada um com uma versão da história. No Ocidente, a história “As Mil e Uma Noites” só ficaria conhecida após 1702, por intermédio do trabalho de Antoine Galland, que traduziu um manuscrito do ramo sírio do século 13. Em seu trabalho de tradução, Galland eliminou o erotismo e as ofensas a outros povos. Além disso, pesquisadores apontam que o tradutor acrescentou novos contos árabes à obra, como “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, “Aladim” e “As Viagens de Simbá”. É a partir da versão francesa que a maioria das adaptações dessa obra nasceu, surgindo, assim, um processo de adaptação a partir de uma fonte secundária. “As mil e uma noite” conta a história de um sultão, chamado de Shariar, que surpreendeu sua esposa traindo-o com outro homem e mandou matá-los. A partir daí, resolveu se casar todos os dias com uma nova mulher, que seria degolada no dia seguinte à noite de núpcias. Assim, nenhuma outra mulher o trairia de novo. Até que se casou com Sherazade e, na primeira noite, ela contou uma história, a interrompendo sob a promessa de seguir na noite seguinte, deixando o sultão curioso. Todas as noites, ela começava a contar uma história e a interrompia na melhor parte. Desse modo, o sultão era obrigado a esperar a noite seguinte para ouvir a continuação. Passando as mil e uma noites, o sultão resolveu continuar casado com Sherazade e suas histórias foram escritas. Sherazade pediu para ser entregue ao Rei, pois sabia que havia descoberto uma forma de escapar da morte (RIBEIRO, 2018). A respeito das adaptações de “As mil e uma noite”, a de maior sucesso é a dos britânicos Sir Richard Burton e Andrew Lang, na qual foi retirado o conteúdo erótico, deixando o contexto menos sexual em alguns contos. Entretanto, a tradução, diretamente do árabe, feita por Mamede Jarouche, da Editora Globo, recolocou o conteúdo erótico que antes havia sido censurado, apresentando as histórias como eram contadas na época. Desse modo, esse não é um livro recomendado para as crianças. Para o público infantil, temos a adaptação realizada pela Publifolhinha, que apresenta as histórias contadas pela protagonista Sherazade ao marido, a fim de se manter viva. Dentre as histórias contadas, aparecem, por exemplo, “Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, “Ali Babá e os Quarenta Ladrões” e “O Cavalo encantado”, compostas por ilustrações. Temos também uma versão de “As mil e uma noites” organizada por Ruth Rocha, pela Editora Salamandra, constituída por uma reunião de contos populares do Oriente Médio e do Sul da Ásia. Nesse material, há três das histórias lendárias, como “Aladim e a Lâmpada Mágica”, “O Pescador e o Gênio” e “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”. Outra adaptação voltada ao público infantil é a obra “Scherazade Das Crianças - Histórias de As Mil e Uma Noites - Série Infantil”, de Jordi Sierra I Fabra. Nessa obra, há uma compilação de contos que abordam hábitos, valores, crenças, visão de mundo e cultura da civilização árabe, apresentando ao leitor o povo do Oriente. É uma obra que compõe a série “Mundo Árabe”, da coleção Clássicos do Mundo. Assim, uma adaptação consiste em, basicamente, realizar uma releitura de um texto primário e reescrevê-lo sob uma nova ótica, por meio de uma seleção de léxico em consonância com o objetivo proposto: alcançar determinado público específico e promover sua formação. Vale mencionar também que os livros voltados ao público infantojuvenil apresentam imagens junto ao texto escrito, principalmente nas obras que são destinadas à primeira e à segunda infância, pois essa união (texto + imagem) tem o intuito de chamar a atenção das crianças. Caro(a) aluno(a), as adaptações literárias são imprescindíveis para o desenvolvimento do gosto pela leitura, bem como da arte. Além disso: contribuem no processo de formação de leitores; aproximam as obras clássicas dos leitores; promovem a circulação dos textos e, assim, mantêm as referências culturais; atuam como um estímulo para a leitura do original, que pode ser a tradução; e, por fim, tornam a leitura diferente e mais prazerosa (CORSO, 2012). A t i v i d a d e Considere a citação a seguir: “Adaptações de clássicos de literatura para o público escolar consistem em: [...] textos novos, construídos sobre enredos antigos; são apropriações”. FEIJÓ, M. O prazer da leitura: como a adaptação de clássicos ajuda a formar leitores. São Paulo: Ática, 2010, p. 42. A respeito da adaptação, analise as afirmativas a seguir: I. É um meio de facilitar o acesso dos alunos aos clássicos. II. Trata-se de um texto derivado, que é resultado de um texto primário. III. São paráfrases, “recontos”, uma vez que contam uma história de forma resumida, com as palavras do parafraseador. IV. É uma releitura de um texto primeiro, reescrito sob uma nova ótica, por meio de uma seleção de léxico. A partir das afirmativas apresentadas, assinale, a seguir, a alternativa correta: a) Apenas a afirmativa IV está correta. b) Apenas as afirmativas I, II e IV estão corretas. c) Apenas as afirmativas I e II estão corretas. d) Apenas as afirmativas I, II e III estão corretas. e) Todas as afirmativas estão corretas. Caro(a) aluno(a), chegando ao fim desta unidade, iremos nos debruçar sobre o estudo de mais um gênero da narrativa: o conto de fadas. Vejamos, a seguir, sua definição: Os contos de fadas são narrativas onde aparecem seres encantados e elementos mágicos pertencentes a um mundo imaginário, maravilhoso. Estes contos têm quase sempre uma estrutura simples e fixa. Tem uma característica bem marcante como na sua fórmula inicial: “Era uma vez... ’’ e final: “... foram felizes para sempre’’. Há neles uma ordem na sequência narrativa, ou seja, uma situação inicial, uma ordem perturbadora, quando a situação de equilíbrio inicial se desestabiliza, gerando uma série de conflitos que só se interrompem com o aparecimento de uma força maior que restabelece a ordem. Geralmente há personagens do bem e do mal, e a vitória, apesar do sofrimento, sempre é do personagem do bem (PORTELA, 2013, p. 7-8). Os contos de fadas surgiram por intermédio da tradição oral há muitos séculos, porém sua valorização só se concretizou mais tarde, quando os contos se voltaram para o público infantil. Nas palavras de Pinheiro (2012), essas narrativas eram chamadas de primordiais, pois surgiram anonimamente e tinham por intuito a transmissão e o entretenimento. Os contos de fadas são, basicamente, narrativas antigas – uma espécie de mito que era difundido pelos povos – que apresentavam os conflitos entre a natureza e o homem. Assim, em um determinado momento, as narrativas começaram a trazer como tema os problemas cotidianos, como: poder, fome, família, trabalho, dentre outros. As obras literárias ligam-se, sempre, ao seu contexto de produção. Nos contos de fadas não era diferente, pois eles conservavam uma visão de mundo do período, além de suas ideologias. É no século XVII que o interesse dos intelectuais pelo conto popular nasceu, principalmente apósa publicação da obra “Contos da Mamãe Ganso”, de Charles Perrault, cujo trabalho foi reproduzir em papel os contos que transitavam entre os componentes franceses. Saiba mais A Mamãe Ganso era uma personagem dos velhos contos populares, muito familiar entre os franceses. Sua função era contar histórias para os seus “filhotes fascinados”. Com o passar do tempo, o nome da Mamãe Ganso passou a designar não a personagem dos contos populares, mas uma velha contadora de histórias (PINHEIRO, 2012, p. 41). No século XIX, com os Irmãos Grimm, os contos populares foram concebidos como objeto de estudo capaz de apresentar aspectos linguísticos, psicológicos, históricos, sociais etc. - em outras palavras, apresentar o modo de pensar e agir dos homens do passado (PINHEIRO, 2012). Os contos de fada podem ser encontrados em todas as culturas, porém com outra roupagem. Nas próximas unidades, iremos nos dedicar ao estudo das obras de Perrault e dos Irmãos Grimm. R e f l i t a “É preciso que o conto seja velho na memória do povo, anônimo em sua autoria, divulgado em seu conhecimento e persistente nos repertórios orais” (CASCUDO, 2001, p. 11). Os contos de fada podem apresentar algumas características, como: [...] colocar um dilema existencial de forma breve e categórica. Isto permite à criança aprender o problema em sua forma mais essencial, onde uma trama mais complexa confundiria o assunto para ela. O conto de fadas simplifica todas as situações. Suas figuras são esboçadas claramente; e detalhes, a menos que muito importantes, são eliminados. Todos os personagens são mais típicos do que únicos (BETTELHEIM, 2002. p. 7). Além disso, os contos de fada contêm também uma simbologia fixa e estruturada. Suas personagens são simples, apresentam qualidades e defeitos e são representadas por pais, avós, camponeses e até animais, como lobos, porquinhos etc.; porém, tais personagens possuem problemas reais, desenvolvendo, assim, a identificação da criança. Quanto ao tempo e ao espaço, são como que indeterminados, pois é comum os contos iniciarem com “Num certo reino”, “Em um reino muito distante” e “Era uma vez”. Há um narrador que detém todo o conhecimento da história e que é “dono da vida” das personagens. Estruturalmente, a narrativa inicia-se com uma situação de equilíbrio que, logo na sequência, é alterada pelo conflito, por parte de um herói. Adiante, com o auxílio de seres mágicos e poderosos, consegue vencer o conflito, saindo vitorioso(a) e com um final feliz: - “E viveram felizes para sempre…”. Os contos de fadas podem ser divididos em quatro etapas. Vejamos o quadro a seguir: 1ª etapa 2ª etapa 3ª etapa 4ª etapa Travessia Ocorre alguma situação constrangedora/ embaraçosa/ desagradável que faz com que a personagem principal (herói/heroína) saia em busca de uma solução para esse problema. Assim, em seu percurso, depara-se com uma paisagem desconhecida, contendo acontecimentos mágicos e criaturas estranhas. Esse lugar desconhecido costuma ser caracterizado como florestas e bosques, lugar onde residem animais perigosos, bruxas más e magias. Encontro No ambiente inóspito, a personagem depara-se com algum ser maligno e, para que a jornada tenha sucesso, é preciso que esse “obstáculo” seja ultrapassado. Enfrentar o mal significa um ato de autorreconhecimento. O ser maligno pode ser representado por bruxas, madrastas más, magos etc. Conquista O herói/ heroína entram em um combate de sobrevivência, vida ou morte, com o ser maligno, que morre no final. Com a morte do mal, a personagem principal consegue garantir a erradicação das partes más do próprio eu e a superioridade das partes boas. Celebração Para comemorar o triunfo do bem, costuma acontecer um casamento ou uma reunião de família. O bem sempre vence e todos vivem felizes para sempre. Quadro 1.1 - Saga do(a) herói/heroína Fonte: Elaborado pela autora. s a i b a m a i s A palavra “conto” origina-se do latim, sendo que seu significado remete a duas dimensões: por um lado, à oralidade; e, por outro, à ficcionalidade, isto é, trata-se de um relato que não tem compromisso com a realidade, utilizando-se do maravilhoso com a função de entreter e possibilitar a verbalização das dificuldades humanas (HILLESHEIM E GUARESCHI, 2006). A respeito das sagas dos heróis nos contos de fadas, vale pontuar que costumam ser mais universais e podem estar além ou aquém das divisões entre masculino e feminino, uma vez que, por mais que os contos respeitem essas questões na definição de seus personagens, a feminina costuma ser mais valorizada, em decorrência da influência celta; desse modo, surgem mais heroínas (como Aurora, Mulan, Branca de Neve etc.). De qualquer modo, é interessante percebermos que há diferenças nas narrativas das histórias clássicas de heróis e dos contos de heroínas (por exemplo Cinderela ou Chapeuzinho Vermelho), pois tanto o herói quanto a heroína passam pelos mesmos percalços; no entanto, terminam a jornada de modo diferente. A t i v i d a d e Leia o excerto a seguir: “Talvez um dos temas mais recorrentes nas histórias seja o mito da jornada do herói. Ele aparece desde filmes até os contos de fadas. Como toda narrativa de herói, o conto de fadas vai apresentar o seu protagonista. Esse protagonista pode ser homem ou mulher, herói ou heroína”. ASSIS, P. de. Os contos de fadas e o caminho do herói. Pablo de Assis, 14 out. 2011. Disponível em: <http://pablo.deassis.net.br/2011/10/os-contos-de-fadas-e-o-caminho-do-heroi/>. Acesso em: 02 abr. 2019. A respeito da saga do herói, é correto afirmar que: a) No encontro, o protagonista encontra o seu desafio, seu inimigo ou antagonista, que o ameaça de alguma forma. b) É na celebração que o protagonista inicia suajornada; normalmente, há o bordão: Era uma vez. c) Nos mitos clássicos,predominam protagonistas femininas. d) Na travessia, o protagonista chega à sua terranatal por meio de magia. e) É na conquista que há embate de vida ou morte entre o protagonista e o antagonista, no qual o herói morre Introdução Nesta unidade, continuaremos viajando pela história. Com isso, conheceremos a fundo as contribuições de autores que fizeram a diferença no que se refere a uma literatura voltada para a criança. Nesse sentido, aprofundaremos os estudos de Charles Perrault e de seus contemporâneos, os Irmãos Grimm. Veremos, por meio de uma comparação de enredo, as principais diferenças entre esses autores, lembrando que os contos de fadas de ambos partem da transmissão oral. Ainda estudando os contos de fadas desses autores, discutiremos as histórias pelo viés da psicanálise. Assim, leremos os postulados de Bruno Bettelheim e demais estudiosos. Ainda, veremos os possíveis intertextos das obras clássicas com as contemporâneas; em especial, as cinematográficas. Em seguida, conheceremos as contribuições de Hans Christian Andersen e evidenciaremos as principais inovações em relação às obras de Perrault e dos Irmãos Grimm. Também veremos de que modo os contos de fada desses autores são, ainda hoje, de suma importância para o desenvolvimento infantil. Por fim, discutiremos, sobre os contos de fada modernos, que se diferem dos clássicos em algumas situações. Veremos também os seus desdobramentos neste período que vivemos (o século XXI). As Leituras dos Contos de Fada dos Grimm e de Perrault O estudo dos contos de fada contribui para a descoberta de valores, ideais e aspirações que definem a cultura e a civilização de cada período. Quando falamos sobre contos de fada, os primeiros autores que nos vêm à mente são Charles Perrault e os Irmão Grimm (e são esses autores que abordaremos nesta unidade). Abordaremos brevemente sobre a história de Charles Perrault e suas contribuições para a Literatura Infantil. Antes de o autor organizar os contos por meio da escrita, havia uma produção que era de natureza popular e de vinculação oral. Quando Perraultiniciou seu trabalho de recriação da literatura folclórica, não havia uma preocupação com a infância. No início de sua produção, adentrando as temáticas, os contos selecionados por Perrault focalizavam as mulheres, em especial as que eram vítimas, injustiçadas e ameaçadas. Assim, podemos depreender que o autor manifestava apoio à causa feminista. Após a publicação, em 1696, da obra “A pele de Asno”, o escritor sentiu-se motivado a produzir uma literatura voltada para as crianças, com o objetivo de orientá-las moralmente e entretê-las. Assim, no ano seguinte, publicou a obra “Contos da Mamãe Gansa”, que originalmente englobava histórias ou narrativas do tempo passado com moralidades. A referida obra era composta pelas histórias: A Bela Adormecida; Chapeuzinho Vermelho; Barba Azul; O Pequeno Polegar; As fadas; Riquet, o Topetudo; e O Gato de Botas. Ao dar uma nova roupagem aos contos populares, o autor transformou as histórias, que antes eram vistas como vulgares e imorais, em contos considerados viáveis para se educar e socializar as crianças. Assim, como estratégia, inseriu-se, no final de cada história, uma lição moral, que defendia que a virtude é sempre recompensada e que o vício é sempre punido, ou seja, fazer o bem sempre vale a pena. Em relação à literatura dos Irmãos Grimm, Jacob e Wilhelm Grimm eram dois filólogos, folcloristas e estudiosos dos mitos germânicos que tiveram o trabalho de coletar histórias de fontes populares, de traduções e de reproduções em linguagem escrita. Para isso, realizaram os seguintes procedimentos: 1. Levantamento dos elementos linguísticos para a realização de estudos filológicos da língua alemã. 2. Coleta e valorização de textos do folclore literário germânico. Após os procedimentos, houve uma compilação e, entre 1812 e 1857, todo o material foi publicado, nascendo a obra “Contos de Casa”, ou “Contos Domésticos”. Nesse período, os intelectuais europeus objetivavam recuperar as tradições dos diferentes povos e, ao mesmo tempo, deixar de lado os cânones clássicos. Além disso, tendo em vista que a maioria das línguas era derivada de uma antiga língua comum, a indo-europeu, aumentou-se o interesse pelos idiomas alemão e polonês. No caso dos Grimm, eles se interessaram pela tradição oral, por isso se debruçaram nos estudos da língua alemã e de suas origens. saiba mais "[...] A Alemanha se tornou o centro da música e do pensamento filosófico, respectivamente, com a música de Ludwig van Beethoven e com as ideias de Hegel se espalhando por todo o continente europeu. É nesse contexto de busca de raízes culturais que se afirma a carreira de dois irmãos: Jacob e Wilhelm. [...] nasceram em 1785 e 1786, respectivamente, na cidade de Hanau, perto de Frankfurt, e foram estudar em Kassel. Em 1807, o imperador francês Jêrome Bonaparte invadira e ocupara Kassel, onde os Grimm viviam. A ocupação durou até 1813, quando os franceses tiveram de abandonar a cidade, sendo derrotados em toda a Europa. Esse fato histórico aumentou ainda mais o fervor nacionalista nos dois irmãos” (CANTON, 2006, p. 8). Os Grimm são considerados coletores e editores das narrativas populares, uma vez que, no processo de coleta dos contos, os folcloristas solicitavam que as histórias fossem narradas da mesma forma como eram passadas de boca em boca, sem acréscimos. Após essa espécie de transcrição, as histórias eram traduzidas para o alemão padrão. Naquele período, havia diferentes dialetos germânicos, e a língua das classes populares era realmente diferente da língua dos mais abastados. Dessa maneira, o intuito era registrar e preservar a cultura alemã, visto que se tratava de um contexto repleto de mudanças culturais rápidas, em direção à modernidade. Resultante disso, no ano de 1812, surgiu o volume 1, composto por 86 contos, da obra Kinder-und Hausmärchen. Alguns anos depois, especificamente em 1815, para comporem o volume 2, mais 70 contos foram publicados. Somando tudo, existem 156 contos. Vale pontuar que, inicialmente, a obra era destinada ao público adulto, em decorrência da presença de elementos violentos, sexuais e grotescos. Apesar disso, a obra chamou a atenção das crianças, fato que contribuiu para que os contos fossem adaptados para este público. Assim, nasciam outras edições, ao longo do século XIX, desembocando na edição de 1857, com 211 contos. As estórias de Grimm apelavam ao social e ao religioso, guiados pela ideologia da Igreja Protestante, disseminando valores morais em seus contos, como: família, ética, pátria, trabalho e, principalmente, nas delimitadas definições de gênero da classe média patriarcal. Observa-se também que a punição, a violência e a moral são recorrentes em sua literatura, enfatizando que as pessoas boas e generosas são premiadas, e as malvadas são punidas enfaticamente, havendo, inclusive, algumas cenas de extrema violência (como as invejosas irmãs de Cinderela terem os olhos picados por pombos, ficando cegas, no final), ao contrário das estórias de Perrault (embora neste haja estórias em que a sensualidade esteja marcada). Mesmo assim, seus contos tornaram-se uma espécie de “bíblia” infantil, contados e recontados ao longo do tempo, modificados e usados em outros contextos, mas sempre tendo a base mantida através dos séculos (MARTINS; REIS, 2014-5, p. 145). Conforme vimos, não havia uma literatura infantil até os autores citados e, com isso, as crianças acessavam a literatura adulta. Foi então a partir do século XVIII, com a diferenciação entre criança e adulto, que surgiu uma educação cuja função era preparar a criança para a vida adulta. É assim que desabrocham os contos de fada, que apresentam, também para muitos adultos, reflexões preciosas sobre o mundo e sobre como viver em sociedade. Ademais, considera-se que o início da Literatura Infantil tenha ocorrido com a publicação da obra “Os Contos da Mamãe Gansa”, de Perrault. Em contrapartida, foi somente a partir da publicação da obra dos Irmãos Grimm, aproximadamente cem anos depois, que ocorreu uma consolidação dessa literatura enquanto gênero literário. Leitura Comparada: Cinderela Os contos de fada são recontados por diferentes autores, todos advindos da tradição oral. A fim de compararmos as versões, utilizaremos como suporte a teoria de Vladimir Propp, “Morfologia do Conto Maravilhoso” (2011), e nos respaldaremos, também, no trabalho desenvolvido por Christofoletti (2011). Antes disso, porém, veremos as sinopses do conto da Cinderela, conforme as óticas de Perrault e dos Irmãos Grimm. Charles Perrault Esta versão apresenta a história de uma moça amável e passiva, que sofre maus tratos por parte das irmãs postiças e da madrasta. A passividade é tanta que Cinderela nem chega a pedir para ir ao baile, mesmo desejando muito ir. Então, sua fada madrinha chega para auxiliá-la e transforma suas vestimentas simples em um lindo vestido, a abóbora em carruagem, o rato em cocheiro e dá a ela um par de sapatos de cristal. Após ir ao baile, Cinderela perde um sapato, que será encontrado pelo príncipe, havendo então o casamento. Por fim, Cinderela perdoa as irmãs e as casa com nobres da corte. Essa atitude passa a ideia de um modelo perfeito de comportamento feminino. Irmãos Grimm Nesta versão da história, não há o sapato de cristal e a fada madrinha. Cinderela não é tão passiva. A moça, ao lamentar sua condição de vida, planta um ramo de árvore e o rega com suas lágrimas, fazendo nascer uma árvore com poderes mágicos, na qual um pássaro sempre pousa e lhe concede desejos. Próximo ao baile, Cinderela pede à madrasta para ir, mas esta lhe passa a tarefa de recolher as lentilhas que haviam sido jogadas nas cinzas. A moça cumpre o serviço, mas mesmo assim a madrasta lhe nega o direito de ir baile. Então, Cinderela recorre à árvore e ao pássaro, sendo presenteada com belíssimos vestidos e com sapatos. Após o último dos três bailes, Cinderela perde o sapato. O príncipe a encontra e se casa com ela,e os dois vivem felizes para sempre. Já as irmãs, como castigo pelas maldades, têm seus olhos perfurados por pombos. Na teoria de Propp (2011), a partir de uma situação inicial há uma sequência de funções que podem estar presentes nos contos maravilhosos, e tal sequência é derivada de uma regra de composição rígida e que orienta o sentido da narrativa. Desse modo, temos nos contos: 1- parte introdutória; 2- nó da intriga; 3- intervenção dos doadores; e 4- retorno do herói (CHRISTOFOLETTI, 2011). Vejamos, a seguir, as funções da narrativa e uma análise comparativa de enredo das versões de Cinderela, proposta por Christofoletti (2011), em sua monografia intitulada “Análise comparativa de duas versões do conto de Cinderela: a de Charles Perrault e a dos Irmãos Grimm”, com base nas funções de Propp (2011). Função 1 Um dos membros da família sai de casa (definição: afastamento). Charles Perrault: Ocorre a morte da mãe de Cinderela, que é descrita pelo pai. O pai de Cinderela fica viúvo e se casa pela segunda vez. Irmãos Grimm: Ocorre a morte da mãe de Cinderela. Antes, porém, a mãe chama a filha em seu leito de morte e pede que continue cultivando as virtudes e os bons modos. O pai se casa pela segunda vez. Função 2 Impõe-se ao herói uma proibição (definição: proibição). Nas duas versões: A madrasta, junto às irmãs, impõe a Cinderela o uso de roupas em trapos e a obrigação de realizar, todos os dias, os serviços domésticos da casa, além de se estabelecer o seu lugar junto às cinzas, denominação pejorativa de Borralheira (ou Cinderela). Função 3 A antagonista causa dano ou prejuízo a um dos membros da família(definição:dano). Nas duas versões: Há uma carência relacionada à personagem deCinderela em decorrência da situação que lhe é infligida pela madrasta, emfavor de suas duas filhas. Função 4 Falta alguma coisa a um membro da família, e este deseja obter algo (definição:carência). Nas duas versões: As duas versões de Cinderela apresentam que,apesar de todo o seu sofrimento, ela sabe que, por meio de seus sonhos emantendo suas virtudes, o que lhe falta poderá ser alcançado. Entretanto, atéesse momento da história, só lhe resta esperança e fé. Há um comunicado de quehaverá um baile no reino. Sabendo disso, Cinderela deseja comparecer. Função 5 É divulgada a notícia do dano ou da carência. Faz-se um pedido ao herói ou lhe é dada uma ordem. Mandam- no embora ou deixam-no ir (definição: mediação, momento da conexão). Nas duas versões: Em ambas as versões, Cinderela é uma heroína-vítima. Função 6 O herói é submetido a uma prova; a um ataque etc. O fato o prepara para receber um meio ou um auxiliar mágico (definição: primeira função do doador). Charles Perrault: A protagonista não manifesta verbalmente o seu desejo de ir ao baile por saber que não terminará todos os seus afazeres a tempo. Apesar de sofrer com essa situação, ela ainda ajuda suas irmãs a se produzirem para comparecerem ao evento. Enquanto isso, as irmãs riem e zombam de Cinderela, por ela não poder ir ao baile. Após a partida da madrasta e das irmãs, Cinderela chora e sua fada madrinha aparece para lhe auxiliar. Irmãos Grimm: Cinderela pede insistentemente à madrasta que a deixe ir ao baile. Fica, então, combinado que se a moça conseguir separar os grãos de lentilha que haviam sido jogados propositalmente nas cinzas no período de duas horas, ela poderia ir ao baile. Então, com a ajuda dos pássaros, Cinderela realiza a tarefa, porém a madrasta repete o ato e lança dois pratos de lentilhas ao borralho, dizendo que a moça só poderá ir ao baile se coletar os grãos em uma hora. Novamente, com o auxílio dos pássaros, a tarefa é realizada, porém a madrasta não cumpre sua promessa e não permite que Cinderela vá ao baile. Assim sendo, Cinderela, que sabia palavras mágicas, recorre à árvore encantada que havia plantado sobre o túmulo de sua mãe e regado com suas lágrimas. Pede ao pássaro que nela sempre pousa que lhe sejam concedidos o vestido e os sapatos adequados para o baile.Nas duas versões: Em ambas as versões, Cinderela tem o desejo de ir ao baile. Função 7 O herói reage diante das ações do futuro doador (definição: reação do herói). Charles Perrault: Cinderela responde às perguntas da madrinha e esta lhe pede alguns animais e uma abóbora, a fim de que possa auxiliá-la com a ida ao baile. Os animais são transformados em figuras humanas responsáveis por conduzirem a carruagem (abóbora) até o baile. Cinderela, sob o toque da varinha de condão, ganha vestidos e um par de sapatinhos de cristal. Há dois bailes. Irmãos Grimm: O pássaro pousa na árvore de Cinderela, a fim de ajudá-la a ir ao baile. Ela recebe, por meio de mágica, os vestidos e os sapatos para comparecer aos três bailes. Função 8 O meio mágico passa às mãos do herói (definição: fornecimento). Nas duas versões: Os meios mágicos podem ser: animais, objetos dos quais surgem auxiliares mágicos e objetos que possuem propriedades mágicas. No caso de Cinderela, os meios mágicos se tratam de doadores amistosos em ambas as versões, pois ela os recebe sem passar por qualquer conflito ou provação junto ao doador. Função 9 O herói é transportado, levado ou conduzido ao lugar onde se encontra o objeto que procura (definição: deslocamento no espaço entre dois reinos, viagem com um guia). Charles Perrault: Cinderela é conduzida até o baile pela abóbora transformada em carruagem e guiada pelos animais encantados. Irmãos Grimm: Não há uma descrição de como Cinderela é transportada até o baile. Ela simplesmente chega até lá. Função 10 O herói é marcado (definição: marca, estigma). Nas duas versões: Em ambas as versões, o príncipe sabe que somente Cinderela poderá calçar o sapatinho que foi perdido e anuncia que só se casará com a moça cujo pé caiba perfeitamente no objeto que, nesse caso, assume uma função encantada. Função 11 Regresso do herói (definição: regresso). Charles Perrault: Cinderela tem ordens da fada madrinha para se retirar do baile antes da meia-noite, sob pena de perder o encantamento e ficar vestida em trapos no meio da festa, mostrando assim sua verdadeira identidade. Ao escutar a primeira badalada da meia-noite do relógio, no segundo dia, Cinderela sai correndo do baile. Irmãos Grimm: Não há nenhuma restrição quanto ao horário para sair do baile, mas sempre que a hora vai se adiantando, ela decide, por vontade própria, voltar para casa sem revelar sua identidade ao príncipe, saindo correndo nos três eventos. Função 12 O herói sofre perseguição (definição: perseguição). Charles Perrault: Cinderela foge às pressas do segundo baile para que não seja alcançada. O príncipe ordena que não a deixem escapar sem que seja revelada sua identidade, ocorrendo, então, uma perseguição. Irmãos Grimm: Cinderela sai dos três bailes sem revelar a sua identidade, o que leva o príncipe a persegui-la até sua casa e fazer com que o pai dela derrube o pombal e a árvore em que ele a tinha visto entrar e subir, respectivamente, a fim de poder saber seu nome. Na última tentativa de impedir uma previsível fuga de Cinderela, o príncipe prepara uma armadilha, untando a escadaria com cera de sapateiro, a fim de que ela ficasse grudada e não conseguisse escapar. Função 13 O herói é salvo da perseguição (definição: salvamento, resgate). Charles Perrault: Cinderela consegue manter sua identidade em sigilo ao passar despercebida pelos guardas do palácio, estando de volta aos seus trajes habituais, tendo a carruagem voltado à forma de abóbora e os cavalos, o cocheiro e os lacaios voltado a serem ratos e lagartos, já que a magia havia acabado. Irmãos Grimm: Mesmo com a derrubada do pombal, da árvore e da armadilha na escadaria, Cinderela consegue escapar todas as vezes, por meio do auxílio do pássaro, que levava seus vestidos embora, e de sua própria perspicácia ao entrar pelos fundos da casa, indo recolher-se ao seu canto habitual, no borralho, antes que todos sentissem sua falta. Função 14 Um falso herói apresenta pretensõesinfundadas (definição: pretensões infundadas). Nas duas versões: Em ambas, as versões, as irmãs de Cinderela, com o aval da mãe, na esperança de se casarem com o príncipe, tentam se passar por donas do sapatinho. Função 15 É proposta ao herói uma tarefa difícil (definição: tarefa difícil). Nas duas versões: Em Cinderela, essa função está simbolizada pela busca empreendida pelo príncipe, que deseja encontrar a dama que é dona do sapatinho perdido. Função 16 A tarefa é realizada (definição: realização). Charles Perrault: O sapatinho é deixado no palácio durante o baile, e o príncipe ordena que sua amada seja buscada em todas as mulheres do reino, tendo a certeza de que só a moça certa calçaria o belo sapatinho de cristal. Os guardas partem, então, às casas de todas as senhoritas, para que tentem encontrar a dona do objeto, e todas as moças o provam. Irmãos Grimm: O príncipe já se direciona para a casa do pai de Cinderela, pois era para aquele local que ela sempre fugia e sumia e foi ali também que o sapatinho foi esquecido, em decorrência de uma armadilha preparada na escada, para que ela não pudesse escapar. Desse modo, só há as irmãs e Cinderela para provarem o sapato, e é o que acontece. Função 17 O herói é reconhecido (definição: reconhecimento). Nas duas versões: Em ambas as versões, o reconhecimento da heroína acontece em função do perfeito encaixe de seu delicado pé no sapatinho que havia sido perdido no baile. Função 18 O falso herói, antagonista ou malfeitor é desmascarado (definição: desmascaramento). Charles Perrault: A simples impossibilidade de as duas irmãs calçarem o sapato já as classifica como não-heroínas, excluindo- as da possibilidade de unirem-se em matrimônio so príncipe. Irmãos Grimm: As irmãs, sob influência da mãe, tentam ludibriar o príncipe e mutilam os próprios pés (uma irmã corta os dedos; outra irmã, o calcanhar), mas acabam sendo denunciadas pelo rastro de sangue que vai ficando pelo caminho e pela canção dos pássaros, que narram os acontecimentos e indicam ao príncipe que elas não são quem ele está procurando. Função 19 O herói recebe nova aparência (definição: transfiguração) Charles Perrault: Cinderela recebe nova aparência diretamente, graças à intervenção do auxiliar mágico, logo após descobrirem ser ela a única mulher cujo pé coube no sapatinho de cristal. Sua fada madrinha aparece e, num toque da varinha de condão, transforma seus trapos em belíssimos trajes, que realçam ainda mais a sua beleza. Irmãos Grimm: Não há a transfiguração mágica da aparência da heroína, porém, ao lavar o rosto e as mãos e calçar perfeitamente o sapato, o príncipe imediatamente a reconhece, e os pássaros, que antes haviam delatado as meias-irmãs, pousam sobre os ombros de Cinderela e garantem que ela é a mulher certa. Função 20 O inimigo é castigado (definição: castigo, punição). Charles Perrault: Essa função não ocorre, pois o castigo não existe e também não é mencionada nenhuma ocorrência à madrasta, pois Cinderela é descrita como uma pessoa tão bela quanto bondosa, que perdoa as irmãs e as leva para morarem no palácio, além de providenciar a elas bons casamentos. Irmãos Grimm: A madrasta e as irmãs experimentam o gosto da amargura e da raiva pelo trunfo de Cinderela e, após um ato de hipocrisia, ao tentarem se posicionar como falsas grandes admiradoras da meia-irmã, as duas irmãs têm os olhos perfurados por pombos, sendo que a mais velha perde o olho esquerdo; e a mais nova, o direito. A cegueira lhes é causada como punição pela maldade e pela falsidade Função 21 O herói se casa e sobe ao trono (definição: casamento). Nas duas versões: A personagem Cinderela se casa com o príncipe e recebe, como recompensa por todo o seu sofrimento, o direito de viver eternamente feliz ao lado de seu grande amor (CHRISTOFOLETTI, 2011). Na perspectiva de Vladimir Propp (2011), o conto maravilhoso diz respeito a toda narrativa que apresenta a ocorrência das funções apresentadas. Em Cinderela, das 31 funções propostas pelo referido autor, foi possível encontrarmos 21. Vale comentar, também, que os contos possuem sete personagens básicos, atuando na história: Herói-buscador; Herói-vítima; Mandante; Malfeitor; Doador; Auxiliar (ser vivo ou objeto mágico); Princesa e/ou Pai da Princesa e Falso Herói. As personagens são definidas levando-se em consideração as suas ações e seu impacto sobre o herói. Nas palavras de Propp (2011, p. 79): “O importante não é o que eles [personagens] querem fazer nem tampouco os sentimentos que os animam, mas suas ações em si, sua definição e avaliação do ponto de vista de seu significado para o herói e para o desenvolvimento da ação”. A t i v i d a d e Leia o trecho a seguir: “[Os contos] são típicas expressões de culturas orais (sem escrita), ou seja, culturas que não contam com recursos para fixar informações. De narrador em narrador, guardados, através dos séculos, na plasticidade da memória e da voz, viajaram para todos os lados sendo disseminados pela transmissão boca a boca”. AZEVEDO, R. Conto popular, literatura e formação de leitores. Revista Releitura, Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte, n. 21, abr. 2007, p. 2. Com base no trecho apresentado, qual é a função principal dos contos populares, levando em consideração seu formato? Assinale, a seguir, a alternativa correta: a) Apresentar um mundo ficcional que não se pode associar ao mundo real. b) Apresentar a oralidade, a partir de histórias grafadas conforme a língua do povo c) Apresentar uma moral, que atua como reguladora do comportamento humano. d) Apresentar histórias para entretenimento dissociadas de ensinamentos, que servem para deleite. e) Apresentar um ensinamento que funcione dentro da história, mas que não pode ser replicado no cotidiano. As Leituras dos Contos de Fada de Grimm/Perrault - Em seu livro “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, Bruno Bettelheim (1980) aborda de que modo os contos de fada podem contribuir para os processos evolutivos da criança. Assim, o autor seleciona as histórias infantis mais famosas e apresenta um sentido que não é visto por todos, por meio de uma análise psicanalítica. Conforme estudamos, a literatura infantil tem por função passar um ensinamento para a criança, sendo mais fácil e saudável aprender o que é certo e o que errado por meio das histórias. Por esse viés, a criança identifica-se com a história e pode encontrar refúgio, solução e amparo para os seus problemas: tudo ficará bem, pois há um “felizes para sempre” aguardando ao final. Bettelheim (1980) apresenta em seu trabalho alguns aspectos que são comuns nos contos, por exemplo, as personagens, que as crianças podem relacionar com os adultos em sua volta. Nos contos de fada em que a mãe morre, por exemplo, há uma substituição: surge uma madrasta. Essa situação pode ajudar a criança a aceitar a morte da mãe ou de algum ente querido, bem como auxiliá-la a lidar com o luto, visto que a vida deve continuar, mesmo sem aquela pessoa especial. Por meio dos contos de fada, a criança cria expectativas para o futuro. Para as crianças, as histórias maravilhosas são muito importantes e significativas, pois criam um paralelo com o mundo mágico e o mundo real, sendo que este, muitas vezes, não é tão bom quanto o mundo dos contos de fada. Vejamos, a seguir, os principais contos de fada e as lições deixadas aos pequenos: Três Porquinhos: a preguiça e a comodidade só atraem coisas ruins. João e Maria: os problemas não são resolvidos com a fuga; a independência é conquistada por meio da coragem e das experiências. Chapeuzinho Vermelho: não é seguro falar com estranhos, por mais que eles se mostrem gentis. João e o Pé de Feijão: na vida, há sempre um lado bom em tudo. Branca de Neve e os Sete Anões: às vezes, é preciso abandonar aquilo que é apreciável no momento para transcender. Cachinhos de Ouro e os três ursos: a fuga, apesar de parecer mais fácil, não é a melhor maneirade resolver os problemas. Apresentamos algumas histórias e as possíveis lições; mas, como sabemos, há inúmeros contos e podemos depreender a eles mais de um significado. Além disso, nem toda criança terá a mesma leitura, podendo perceber a história de modo diferente e relacioná-la com sua vivência, sua experiência e seu contexto. Conforme já abordamos, os contos estimulam o desenvolvimento cognitivo das crianças e trabalham com a imaginação. Assim, além do entretenimento, eles proporcionam prazer e contribuem para o desenvolvimento crítico e para a resolução de conflitos internos e externos. Um meio viável de inserir a criança no mundo dos contos de fada, que não seja o livro físico, é com os filmes. Na contemporaneidade, estão surgindo muitos remakes dos clássicos da Disney, em especial. Além disso, em sala de aula é interessante lançar um paralelo entre a obra escrita e a obra fílmica, a fim de evidenciar, por exemplo, as diferenças nos enredos. Devemos nos lembrar, porém, que toda obra adaptada para o cinema possui o seu valor e a sua originalidade, uma vez que se trata de um tipo diferente de arte. Para Gomides (2017, p. 1014): Após séculos de adaptações nas recontagens orais, os contos de fadas se tornaram peças teatrais, filmes e séries de televisão e desde o início do século XXI atraem um público fiel, seduzidos pelas recontagens modernas. Devido a essa proliferação de transformações nos contos de fadas devemos considerar que o leitor, mesmo aquele em formação, é um conhecedor da obra exterior às páginas. Sua interpretação, subjetiva e repleta de imagens cinematográficas, constituirá contos de fada muito diferente da sua narrativa original. Vale pontuar que os contos de fada podem sofrer transformações, as quais estão intimamente ligadas à época e são reflexos dos valores, da moral e dos costumes de uma sociedade, ou seja, um reflexo de como determinado povo vivia em determinado momento histórico. Essas transformações podem gerar uma nova versão e/ou adaptação do texto original, dos clássicos. Então, para a produção de um novo texto, utilizam-se dos artifícios das intertextualidades, que são, nas palavras de Koch e Elias (2007, p. 86), “[...] os diversos tipos de relação que um texto mantém com outros textos”. Já pelo viés de Gomides (2017, p. 1018-1019): [...] a intertextualidade é manifestada na estrutura do texto, nas personagens e suas ações, na trama dos fatos, em referências a determinados objetos, enfim, em tudo que estabelece um diálogo entre os textos. Esse diálogo pode se manifestar na presença de epígrafe, citação, referência (manifestações explícitas de intertextualidade), alusão, eco, traço, paráfrase, ironia e pastiche (manifestações implícitas de intertextualidade). Partindo para a questão da intertextualidade, nos últimos anos surgiram séries e filmes baseados em contos de fada populares, trazendo versões e adaptações, algumas sendo muito criticadas por apresentarem distorções, enfraquecendo o enredo. Porém, é preciso pontuar que o cruzamento intertextual impacta, significativamente, no letramento cultural do leitor, visto que conhecer os contos populares originais é imprescindível para a preservação das narrativas históricas. Vejamos, a seguir, algumas versões em live action de contos famosos: A companhia dos Lobos (1984). Floresta Negra (1997) - adaptação dos Irmãos Grimm. Para sempre Cinderela (1998). A garota da capa vermelha (2011). Espelho, espelho meu (2012). João e Maria – Caçadores de Bruxas (2013) - adaptação dos Irmãos Grimm. Malévola (2014). Cinderela (2015) - adaptação de Charles Perrault. A linguagem do cinema aproxima-se da linguagem literária, pois ambas contam histórias. Assim, ao contar uma história, o cinema pode interferir no contexto social e político de um determinado período, além de exercer influências ideológicas sobre o espectador. As versões citadas, a partir do texto original, foram produzidas e apresentam histórias encantadoras, principalmente pela ótica do público infantil, bem como são compostas pelos valores do período de sua produção, como os contos populares no passado. A t i v i d a d e “As origens dos contos de fadas são as mais diversas. Proveniente de contos folclóricos europeus e orientais, há neles um interessante cruzamento de princípios, entre os quais predominam os judaicos-cristãos e os da vertente mística da antiguidade greco-latina”. KHÉDE, S. S. Personagens da Literatura Infanto-juvenil. São Paulo: Ática, 1986, p. 16. Considerando a citação apresentada e a temática dos contos de fada, a respeito das suas contribuições para a infância, analise as afirmativas a seguir: I. Os contos de fada possibilitam a diversão e o encantamento, bem como permitem que a criança reflita sobre a sua realidade. II. Muitos contos populares podem referir-se a dramas cotidianos. III. Os contos de fada deixam fluir o imaginário e levam a criança a ter curiosidade. IV. Por meio dos contos de fada, é possível formar opiniões sobre o que é certo e o que é errado. V. Os contos populares ampliam e mobilizam os limites do imaginário pessoal e coletivo das crianças. Está correto o que se afirma em: a) I e IV, apenas. b) I, II e III, apenas. c) III, IV e V,apenas. d) I, II, IV e V, apenas. e) I, II, III, IV e V. As Leituras dos Contos de Fada de Andersen O escritor dinamarquês Hans Christian Andersen nasceu em Odense, no dia 2 de abril de 1805, em uma família muito pobre. Cresceu ouvindo as histórias de seu pai, que estimulava as fantasias e o dom criativo do filho. Por meio de uma marionete, presente de seu pai, Andersen aprendeu a ler e interessou-se por teatro, tanto que memorizou algumas peças de William Shakespeare. Após a morte de seu pai, quando tinha 11 anos, teve que parar de estudar e começou a trabalhar. Aos 14 anos, mudou- se para Copenhague, onde conheceu Jonas Collin, diretor do Teatro Real. Essa amizade garantiu a Andersen uma vaga no Teatro Real, em que atuou como ator, bailarino e compositor de peças. Com a ajuda financeira de Collin, Andersen foi para a Universidade de Copenhague, em 1828. Após os estudos, publicou a obra “O Improvisador”, em 1935, tornando-se conhecido mundialmente. A produção literária de Hans Christian Andersen é composta por romances, poemas e narrativas de viagens. No entanto, o escritor ganhou reconhecimento pela publicação de contos de fada, o qual, naquele período, era um gênero muito raro. Assim, Andersen editou seis volumes de contos infantis e escreveu 156 histórias, entre 1835 e 1872. A infância sofrida e pobre contribuiu para a percepção do social como um todo, em especial no que diz respeito às diferenças entre as esferas socioeconômicas. Essa vivência inspirou grande parte das narrativas infantis e adultas de Andersen. Da produção do referido autor, podemos destacar: A Princesa e a Ervilha; O Patinho Feio; A Caixinha de Surpresas; Os Sapatinhos Vermelhos; A Pequena Sereia; e A Roupa Nova do Rei. Nas obras citadas, Andersen objetivava transmitir modelos comportamentais aos leitores e colocá-los para refletirem a respeito dos conflitos sociais. Para o referido autor, deveria haver igualdade de direitos no mundo. Hans Christian Andersen, após uma queda, ficou debilitado, vindo a falecer em 4 de agosto de 1872, em Copenhague. Como um meio de homenageá-lo pela sua contribuição para a literatura, em 2 de abril, data de seu nascimento, é celebrado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Adentrando a obra produzida para o público infantil, vale pontuar que Andersen introduziu novas características aos contos, além de modificar os ideais de herói de sua época. Algumas de suas histórias não se iniciam com “Era uma vez”, bem como não terminam com “...e viveram felizes para sempre”. Além disso, a linguagem empregada em seus contos possui um tom coloquial, em decorrência de suas vivências e história de vida. A experiência do mundo na sua ascensão social não evita quefale de gente humilde e descreva ambientes pobres, o que não era usual na literatura dinamarquesa. [...] E para os seus contos trouxe uma multidão de personagens que a sua volta se encontravam e o país onde viveu, a Fiónia, a Zelândia, reproduzindo, em lugar da paisagem vazia do conto tradicional, uma paisagem verdadeira com sol, natureza e clima, com a flora dinamarquesa que tão bem conheceu (DUARTE, 1995, p. 18-62). Os temas abordados por Andersen não são efêmeros, uma vez que retratam a essência da alma humana. Assim, são passíveis de provocarem reflexões sobre valores, identidade, aparência versus essência, o bem versus o mal, dentre outras temáticas. Assim, sua obra apresenta, por exemplo, as seguintes lições: A existência é maravilhosa; É preciso sofrer para vencer; Há forças boas que auxiliam os infelizes, porém virtuosos etc. Por meio do exposto, podemos perceber que a literatura de Andersen difere-se, significativamente, da literatura de Perrault e dos Irmãos Grimm. R e f l i t a Hans Christian Andersen é “[...] a primeira voz autenticamente romântica a contar histórias para as crianças e a sugerir-lhes padrões de comportamento a serem adotados pela nova sociedade que naquele momento se organizava”. Fonte: Coelho (2003, p. 25). Abordaremos, a seguir, um tema recorrente nas histórias do dinamarquês: a morte, sob duas perspectivas: a) Como um meio para atingir um determinado objetivo. Sobre essa função, podemos observar a obra “O Isqueiro Mágico”, na qual o rei e a rainha são mortos pelo cão maior, que realiza os desejos do soldado (o protagonista). Assim, este é privilegiado, visto que a princesa se tornou a herdeira do trono. No final, o soldado casa-se com a princesa e torna-se o rei. b) Para enaltecer a pureza do personagem. Sobre essa função, observaremos o clássico “A Pequena Sereia”. Na história, há uma sereia boa e pura, que está disposta a se doar e, por se manter fiel à sua pureza, prefere a morte. Assim, por sua escolha, perde o amor de sua vida, ao invés de ferir alguém (VAGULA; SOUZA, 2015). Os contos de Hans Christian Andersen que apresentam a morte como temática fazem com que os leitores reflitam e cheguem à conclusão de que a morte faz parte da vida, e que não há como prevê-la e/ou evitá-la. De modo geral, seus contos diferenciam-se dos contos de outros escritores do gênero, pois suas fontes não são apenas folclóricas, uma vez que o autor adaptou histórias, bem como inventou muitas outras. Seus contos não são somente constituídos pelo maravilhoso, pois muitas de suas histórias foram inspiradas na realidade. Nesse sentido, podemos relacionar uma obra literária com uma obra fílmica, como um meio de potencializar a aprendizagem e despertar o gosto pela leitura no aluno. Tendo isso em vista, sugerimos a relação entre o conto “A rainha da neve” e a animação “O Reino Gelado” (2012), que é, na verdade, uma aventura em tom de fábula. Vejamos, a seguir, a sinopse. Na animação, um homem, ao criar um espelho capaz de mostrar as características negativas da pessoa, acaba por irritar a Rainha Má, que desencadeia uma forte nevasca, destruindo tudo pela frente e matando pessoas, inclusive um homem e sua mulher, que deixam duas crianças órfãs. Passa-se o tempo e, em um orfanato, Gerta é obrigada a costurar luvas, reencontrando, por um acaso, seu irmão, Kai, no mesmo lugar. Na sequência, um troll, mandado pela Rainha, captura as crianças e as leva para um mundo mágico, no qual os irmãos se separam. Kai encontra a Rainha, que acredita que ele possui poderes que poderiam exterminá-la, pelo fato de ele ser desenhista. Assim sendo, a Rainha quer congelá-lo. No entanto, quem tem poderes é Gerda, a irmã. Enquanto isso, junto a um furão e ao troll, Gerda busca o irmão perdido. Pelo caminho, o trio se depara com uma mulher ambiciosa que vende flores sem perfume a preços exorbitantes. Ao perceber que a menina é capaz de transformar suas plantas, a vendedora tenta sequestrá-la. Analisando a questão da intertextualidade, dos elementos que não seguem o conto original, a maior mudança refere-se à personagem do troll, que, na história de Andersen, é representada pelo demônio. Na animação, trata-se de um ser inofensivo e atrapalhado. Outros filmes foram inspirados em suas obras, como “A Pequena Sereia”, “Polegarzinha”, “Os Sapatinhos Vermelhos”, dentre outros. Em suma, como vimos, os contos de Andersen diferem-se dos de Perrault e dos Irmãos Grimm. Assim, observamos que nem todas as histórias apresentam fadas; porém, todas elas contêm um elemento extraordinário, que surpreende e encanta o leitor/espectador, além de auxiliá-lo a superar questões interiores e exteriores, favorecendo o desenvolvimento de sua personalidade. a t i v i d a d e Analise a afirmação: “A produção dos contos de Andersen não se restringiu a coleta e reconto das narrativas da cultura popular, como foi o caso de Perrault e dos Irmãos Grimm”. VAGULA, V. K. B.; SOUZA, R. J. de. A morte na literatura infantil de Hans Christian Andersen. Caderno Seminal Digital, ano 21, n. 23, v. 1, jan./jun. 2015, p. 324. Tendo em vista a afirmativa e a produção literária de Hans Christian Andersen, assinale, a seguir, a alternativa correta: a) Andersen, assim como os Irmãos Grimm, transcrevia as histórias antigas contadas pelos moradores de sua cidade b) Andersen dedicou parte de sua vida à coleta de histórias, as quais traziam uma lição moral, como as fábulas. c) As histórias de Andersen partiram de experiências vividas, bem como do folclore de seu país de origem. d) Andersen recontava as histórias de escritores famosos de literatura infantil, como Charles Perrault. e) Andersen produziu parte de suas histórias, porém a grande maioria advém dos contos populares. Os Contos de Fada Modernos: Pinóquio, Alice no País das Maravilhas e Peter Pan Agora, discutiremos sobre os contos de fadas modernos. Traçaremos, a seguir, uma linha do tempo, evidenciando as mudanças que levaram a uma nova visão do conto. O ponto de partida corresponde ao avanço do racionalismo cientificista e ao pragmatismo da sociedade progressista, que culminaram em uma marginalização do maravilhoso dos contos de fada, cuja natureza advém de magia. Então, em 1856, na França, a Condessa de Ségur publicou a obra “Novos contos de fadas”, a qual não agradou muito o público. No entanto, em 1856, a autora lançou a obra “Meninas exemplares”, conseguindo sucesso, uma vez que as histórias traziam modelos de conduta, os quais deveriam ser seguidos pelos leitores. s a i b a m a i s "Os romances da Condessa compõem-se de histórias que falam das relações no universo familiar e que fixam modelos e contra-modelos de infância, passando pelas brincadeiras, travessuras e rivalidades entre irmãos e primos, com temas sobre a orfandade e o acolhimento, a piedade religiosa e os salões mundanos, entre outros fatos e lições da rotina nos velhos castelos europeus. [...] as histórias da Condessa apresentam uma proposta de formação dos valores e de educação sentimental das crianças”. Posteriormente, nasceu, com Lewis Carroll, o fantástico absurdo, representado pela obra “Alice no País das Maravilhas”, publicada em 1865, na Inglaterra. Já na Itália, em 1883, surgiu uma outra vertente de história, a qual fundia o maravilhoso dos contos de fada com o racionalismo realista. A obra representante desse estilo é “Pinóquio”, de Collodi. A história do boneco de madeira é utilizada como instrumento do racional, apresentando-se como um manual de conduta para as crianças. Já em 1092, o escritor escocês J. M. Barrie, por meio do maravilhoso, trouxe ao público a história de Peter Pan no livro intitulado “The Little White Bird”, história essa que foi adaptada para o teatro. Após essas importantes publicações, por algum tempo, os contos de fada e o conto maravilhoso entraram em hibernação, voltando para a ativa apenas no século XX. No século XXI, por sua vez, há um retorno da magia do maravilhoso, por meio de ediçõesclássicas e de novas versões dos contos de fada, dos contos maravilhosos, das lendas e dos mitos. No âmbito cinematográfico, algumas obras renderam. São exemplos de obras para esse período as produções cinematográficas, que renderam muito dinheiro aos produtores, como os contos de fada modernos Harry Potter e Shrek. Os contos de fada continuam vivos e ainda seguem formando valores, pois venceram a barreira do tempo, estando disponíveis por meio de livros, filmes, animações, dentre outras multimídias. R e f l i t a "Tudo tem uma moral, basta saber encontrá-la”. Fonte: Carroll (2000, p. 112-113). Entretanto, diferentemente dos contos de fada clássicos, os modernos nascem a partir do labor do escritor, isso é, de sua criatividade, pois não advêm da tradição oral. Os contos modernos apresentam por características: A personagem individual é incorporada à coletividade. As personagens reaparecem por meio da sátira e da crítica. O narrador pode aparecer em 1ª ou 3ª pessoa. O tempo pode ser histórico ou indeterminado. O realismo se alterna com a fantasia. As soluções dos problemas nos contos são resultado do trabalho em equipe. As personagens são encorajadas a enfrentarem os obstáculos, sem a ajuda de magia. Na atualidade, muitos contos clássicos são modificados e há um apelo voltado para o visual, uma vez que a geração de hoje é ligada às tecnologias. Por exemplo, os contos de fada abordados nos filmes de Disney, como Branca de Neve, Cinderela, A Bela Adormecida, A Pequena Sereia etc., apresentam-se em uma nova roupagem, ligada ao contexto histórico contemporâneo. Partindo para a onda cinematográfica, em 2003, a empresa Warner Bros apresentou ao público o filme “Peter Pan”, repleto de efeitos visuais, agradando o telespectador pela fidelidade com o conto e a peça teatral. Tempos depois, saiu o filme “Em busca da terra do nunca”, apresentando aspectos biográficos de J. M. Barrie e como se deu a produção da história do Peter Pan. Ainda, vale comentar sobre a minissérie britânica “Neverland”, transmitida, pelo canal Syfy, que conta como Peter Pan e os meninos perdidos foram parar na Terra do Nunca e apresenta o verdadeiro motivo pelo qual o Capitão Gancho odeia tanto o protagonista. Quanto à obra “Alice no País das Maravilhas”, em 2010, surgiu uma versão dirigida por Tim Burton, sendo uma sequência do livro de Lewis Carroll. No filme, Alice volta ao País das Maravilhas dez anos depois, mas não se lembra de ter ido para lá quando criança. Sobre a obra “Pinóquio”, está previsto um live action para o ano de 2019. Conforme já conversamos, as produções cinematográficas contribuem para o despertar do nosso interesse em relação aos contos de fada. A respeito dos significados dos textos e dos filmes, cabe analisar os enredos antes de aplicá-los em sala de aula, pois é a partir de um olhar cuidadoso e de uma leitura atenciosa que essas histórias, nas diferentes esferas (escola, família etc.) podem se transformar em algo significativo para os profissionais, uma vez que podem permanecer no inconsciente de cada um e interferir nos diferentes níveis psicológicos do ser humano. A t i v i d a d e - Analise a afirmação: “Os contos de fadas modernos são frutos da imaginação e criatividade dos autores, diferente dos contos tradicionais, que eram recolhidos da tradição oral, baseados em histórias contadas pelo povo”. JUVINO, A. da S. A relação entre o conto de fadas tradicional e o moderno. 51 f. Monografia (Graduação em Letras) – Departamento de Letras e Educação, Universidade Estadual da Paraíba, Guarabira-PR, 2010, p. 25. Considerando a afirmação apresentada sobre a diferença entre os contos de fada modernos e tradicionais, analise as afirmativas a seguir sobre as características dos contos de fada modernos: I. Há uma valorização da coletividade em detrimento da individualidade. II. Há a presença do maravilhoso. III. Como nos clássicos, há uma moral da história. IV. Os problemas dos protagonistas são individuais. V. Por serem destinados ao público infantil, não há crítica social nesses contos Está correto o que se afirma em: a) I e IV, apenas. b) I, II e III, apenas. c) III, IV e V, apenas. d) I, II, IV e V, apenas. e) I, II, III, IV e V. Introdução Olá, caro(a) aluno(a)! Mais uma vez, nos encontramos! Nesta parada, abordaremos as produções literárias de autores brasileiros voltadas às crianças. Iniciaremos com Monteiro Lobato, considerado por muitos críticos como o “pai da literatura infantil do Brasil”. Esse autor construiu uma obra belíssima e extensa para as crianças, por meio da criação de Sítio do Picapau Amarelo, lugar onde a magia misturava-se com o real, sendo porta de entrada e saída para seres mágicos, imaginários e fantásticos. No sítio, tudo podia acontecer, começando pelos seres que o habitavam. Em um segundo momento, trataremos do realismo mágico presente nas obras de Monteiro Lobato voltadas à criança. Adiante, descobriremos que Clarice Lispector também se dedicou à literatura infantil, literatura essa que também podia ser lida pelos adultos, pois objetivava trazer questionamentos como o ser e o estar no mundo, problematizando questões sociais por meio da paródia e da intertextualidade, por exemplo, com os clássicos. Por fim, veremos as contribuições de Cecília Meireles, poetisa brasileira que lutou por um ensino de qualidade em seu período, chegando a assinar o Manifesto dos Pioneiros da Educação em 1932 e fundando a primeira biblioteca infantil do país.Esta unidade está imperdível! Conto com você nessa viagem pela trajetória da literatura infantil do Brasil e seus desdobramentos. Vamos lá? Monteiro Lobato: Vida e Obra José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu na cidade de Taubaté, estado de São Paulo, no ano de 1882. Tendo em vista os estudos, o prosador mudou-se para São Paulo, onde estudou Direito. Concomitantemente, na Faculdade do Largo São Francisco, compôs o grupo literário Minarete e iniciou algumas atividades ligadas à imprensa. Atuou, por um tempo, como promotor em Areias, cidade interiorana do Vale do Paraíba. Após herdar uma fazenda de seu avô, dedicou-se, também, à agricultura. Contos Roman ces Literatura de ação e artigos jornalísticos Literatura Infantil Urupês (1918); Cidad es Mortas (1919); Negri nha (1920). O Preside nte Negro ou O Choqu e das Raças (1926). Ideias de Jeca Tatu (1919); A Onda Verde (1921); Mundo da Lua (1923); O Macaco que se Fez Homem (1923); Mr. Slang e o Brasil (1929); Ferro (1931); América (1932); Na Em Obras Completas V. 1 e 2: Nas Reinações de Narizinho; Viagem ao Céu; O Saci; Caçadas de Pedrinho; As aventuras de Hans Staden; História do Mundo para Crianças; Memórias da Emília; Peter Pan; Em 1912, Monteiro Lobato publicou o artigo Velha Praga, no jornal O Estado de São Paulo, a respeito das queimadas no campo, assunto que provocou grande polêmica e, ao mesmo tempo, contribuiu para que o referido autor escrevesse outros artigos. Ainda neste ano, o mesmo jornal lançou o conto Urupês, que trazia a personagem Jeca Tatu. Em 1918, morando em São Paulo, Monteiro Lobato publicou seu primeiro livro (Urupês), comprou a Revista do Brasil e fundou a primeira editora brasileira, a Monteiro Lobato & Cia. Em 1922, publicou duras críticas à arte de Anita Malfatti, que se apresentou na Semana de Arte Moderna de São Paulo. No período de 1927 a 1931, Monteiro Lobato residiu em Nova Iorque. Ao regressar ao seu país de origem, partiu para a exploração de recursos minerais e fundou o Sindicato do Ferro e a Cia. de Petróleos do Brasil, provocando entraves com multinacionais e um certo mal-estar no Governo. Nesse período, nasceu um livro-denúncia intitulado O Escândalo do Petróleo, que culminou em alguns meses de prisão para o autor. Monteiro Lobato, por vontade própria, exilou-se em Buenos Aires, por um tempo. Na cidade argentina, escreveuartigos para jornais. No ano de 1948, morreu, abruptamente, em São Paulo. Monteiro Lobato pode ser considerado um autor pré-modernista, pois, em sua obra, aparecem temas que abordam o regionalismo, as mazelas e as desigualdades da sociedade oligárquica da Primeira República. Na vertente regional, Monteiro Lobato apresenta o Brasil rural do século XX, em especial da região do Vale do Paraíba, no interior do estado de São Paulo. Em seus escritos, revela sátira, ironia e sentimentalismo em relação aos costumes e ao povo da região. No conto Urupês, por exemplo, Monteiro Lobato faz a caricatura do caboclo Jeca Tatu, representante do homem interiorano. Jeca Tatu é o caipira que, marginalizado social e historicamente, não tem direito à educação, vive mal e é passível de contrair doenças. Além de denunciar a condição de alguns caipiras da região, o conto aborda, também, a situação do negro após a abolição. Preocupando-se com o povo e com o seu desenvolvimento social e mental, Monteiro Lobato passou a ser um grande divulgador da ciência e do progresso do país. Nas palavras de Zilberman (2005, p. 29-30), o escritor “[...] foi, desde os primeiros livros, como Urupês, de 1918, um ferrenho crítico das mazelas nacionais; mas nunca deixou de colocar o país no centro de seu pensamento, procurando verificar o que era melhor para a população”. Sobre o estilo de sua prosa, pode-se afirmar que é moderno no que se refere à ideologia. Já no que diz respeito à forma, a sua narrativa apresenta objetividade, além de um "vernaculismo camiliano", semelhante aos moldes naturalista e parnasiano. Além do exposto, nas obras de cunho infantojuvenil há uma fusão entre a fantasia e o pedagógico, tendo por característica o caráter moralista e doutrinário, bem como o reflexo da sua luta pelos interesses nacionais. Uma das obras Antevéspera (1933); O Escândalo do Petróleo (1936); A Barca de Gleyre (1944). Emília no País da Gramática; Aritmética da Emília; Geografia de Dona Benta; Serões de Dona Benta; Histórias das Invenções; D. Quixote para as Crianças; O Poço do Visconde; Histórias de Tia Nastácia; O Picapau Amarelo; A Reforma da Natureza; O Minotauro; Fábulas; e Os Doze trabalhos de Hércules. mais significativas da Literatura Infantojuvenil de Monteiro Lobato é Sítio do Picapau Amarelo, na qual o autor narra várias aventuras, as quais ligam-se, metaforicamente, aos problemas do país. É notório que Monteiro Lobato é um dos grandes autores de Literatura Infantil. Nas palavras de Zilberman (2005, p. 26), o escritor pode ser considerado o “[...] primeiro grande autor para a infância brasileira”, devido ao seu projeto literário. Em suas obras, é possível verificar a retratação de aspectos do nosso país, de cunhos geográficos, sociais e culturais. Além das obras apresentadas, há adaptações de clássicos da literatura e de obras estrangeiras, as quais eram destinadas à criança. Devido à grandiosidade, as obras de Monteiro Lobato acabaram virando assunto de filmes, peças de teatro, séries televisivas etc. A t i v i d a d e Leia o trecho a seguir: “Ao contrário dos clássicos estrangeiros, ele não recriou seus contos de outros; ele os criou. Embora se utilizasse do rico acervo maravilhoso da Literatura Clássica Infantil de todo o mundo, a inspiração maior e básica de Lobato foi a própria criança, os motivos e os ingredientes de sua vivência: suas fantasias, suas aventuras, seus objetos de jogos e brinquedos, suas travessuras e tudo o que povoa a sua imaginação... Reencontrou a criança, amealhou toda a riqueza e criatividade de seu mundo maravilhoso e construiu um universo para ela, num cenário natural, enriquecido pelo Folclore de seu povo, aspecto indispensável à obra infantil”. CARVALHO, B. V. de. A Literatura Infantil: visão histórica e crítica. 2. ed. São Paulo: Edart, 1983, p. 133. Considerando o excerto apresentado a respeito da literatura produzida por Monteiro Lobato, analise as afirmativas a seguir: I. Monteiro Lobato, além de escrever para as crianças, criou para elas um mundo repleto de fantasia, personagens e histórias mágicas. II. De modo geral, pode-se afirmar que Monteiro Lobato preocupava-se com a renovação literária do país. III. Por conter o fantástico, a criança está isenta de imaginar, visto que os livros de Monteiro Lobato já apresentam essa característica. IV. As obras de Monteiro Lobato apresentam valores, comportamentos e relacionamentos entre as personagens, elementos característicos de sua época. Está correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) III e IV, apenas. c) I, II e III, apenas. d) I, II, e IV, apenas. e) I, II, III e IV. Monteiro Lobato e a Obra Sítio Do Picapau Amarelo Quando abordamos a história da Literatura Infantil no Brasil, o autor Monteiro Lobato é uma grande referência, visto que é considerado o precursor da literatura para crianças e, até os dias de hoje, suas narrativas encantam o público infantil, por meio dos livros e de suas adaptações. No ano de 1920, o autor lançou a obra A menina do narizinho arrebitado, o primeiro livro dos 17 voltados ao público infantil. Na época, o crítico Tristão de Athayde (pseudônimo de Alceu Amoroso Lima) publicou n’O Jornal do Rio de Janeiro a seguinte nota: Por ele a criança criará gosto pela leitura, sentirá que o livro não é apenas um instrumento de disciplina, mas um campo maravilhoso para expansão de um mundo interior, reprimindo ou apenas pressentindo. É um livro que estimula a vida, que fecunda a imaginação, que desperta a curiosidade (ATHAYDE, 1921 apud AZEVEDO; CAMARGO; SACCHETTA, 1997, p. 158). O valor da invenção literária de Monteiro Lobato gira em torno de personagens e tramas repletas de criatividade e humor. Além disso, há uma sintonia entre a matéria literária concomitante aos valores, as ideias e o contexto em que a obra foi publicada. Nas obras destinadas às crianças, há sempre um aspecto pedagogizante, e Sítio do Picapau Amarelo tem o objetivo de educar, por meio de ensinamentos e instruções, ao mesmo tempo em que suscita a brincadeira. Assim, as personagens são livres para viverem suas experiências e existires. O sítio é local de encantamento, no qual a fantasia se une à realidade. Nas palavras de Barbosa (1996, p. 85): Os livros com mais fabulação, com um predomínio do caráter ficcional da narrativa, contêm também muita informação e elementos didáticos. E os livros com um caráter mais didático também contêm um numeroso elemento ficcional, seja sob forma e em modo de ações, seja sob forma e em modos de diálogos. [...] A insistência e o senso de oportunidade com que Monteiro Lobato intercala instrução e educação em suas narrativas, mesmo as menos propícias a inserções didáticas, revelam, desnudam, esclarecem sua preocupação de fazer de sua literatura para crianças e jovens um veículo de formação intelectual e moral. Monteiro Lobato tinha em vista um didatismo inteligente e, por meio de suas narrativas, educava e incentivava a imaginação e o gosto pela leitura de seus leitores. Por meio de suas histórias, o leitor encontrava conforto e mensagens positivas e alegres, as quais eram transmitidas por personagens icônicos e distintos. Personagem Característica Dona Benta É a avó das crianças Pedrinho e Narizinho. Trata-se de uma senhora inteligente, carinhosa e muito receptiva, que acompanha de perto as aventuras dos netos. Tia Nastácia É a cozinheira e a empregada do sítio. Além dessas demandas, é costureira e foi ela a responsável pela criação de Emília, uma boneca feita de retalhos de panos. Tio Barnabé É um homem da roça que reside no sítio, auxiliando Dona Benta com os afazeres. Além dos cuidados com propriedade, ele ensinou Pedrinho a caçar Sacis. Narizinho É a neta de Dona Benta, uma menina de nariz arrebitado cujo nome é Lúcia. Trata-se de uma menina inteligente, que adora devorar jabuticabas. Além disso, é prima de Pedrinho e dona e amigade Emília. Pedrinho É o neto de Dona Benta que mora na cidade. Suas aventuras acontecem quando passa as férias no sítio da avó. Trata-se de um menino muito corajoso, mas que tem medo de marimbondos. Costuma andar com o seu estilingue no bolso. É o responsável pela criação de Visconde de Sabugosa, feito de sabugo de milho. Emília É uma boneca que fala, feita de retalhos de pano. É a grande amiga de Narizinho. Costuma ser irreverente, faladeira e muito engraçada. Emília guarda consigo um baú repleto de objetos e coisas singulares, advindas de suas aventuras. Visconde de Sabugosa Foi criado por Pedrinho, que ganhou vida e tamanho após tomar uma pitada de fermento, ficando do tamanho de uma pessoa normal. É uma criatura muito sábia, que vive na biblioteca do sítio. Costuma usar uma cartola na cabeça e um paletó verde. Além de ler muitos livros, faz experimentos em seu laboratório, e um exemplo desses experimento é o pó de pirlimpimpim. Quindim É um rinoceronte que fugiu do circo, onde sofria maus-tratos, e passou morar no Sítio do Picapau Amarelo. É um grande amigo e protetor. Marquês de Rabicó É um porco gordo e guloso, casado com a boneca Emília, que só se casou com ele para se tornar marquesa. Saci Pererê De origem popular, trata-se de um menino de uma perna só, que usa uma carapuça vermelha na cabeça, fuma cachimbo e anda em redemoinhos de vento. É responsável por pregar peças no pessoal do sítio. Tornou-se amigo de Pedrinho, após o menino prendê-lo em uma garrafa. Cuca É uma bruxa com características que lembram um jacaré. Costuma viver em uma caverna no meio do mato e fazer maldades com os moradores do sítio. É a grande antagonista da história. Quadro 3.2 - Principais personagens da obra Sítio do Picapau Amarelo Fonte: Elaborado pela autora. As personagens criadas por Monteiro Lobato estão relacionadas ao folclore, aos mitos, e às lendas que advêm da tradição oral. Com isso, o autor consegue aproximar o leitor de seu universo fantástico, permitindo-lhe a formação de opinião e contribuindo para o desenvolvimento psíquico e cognitivo do indivíduo. Em A psicanálise dos contos de fadas, Bruno Bettelheim (1978) defende a importância da fantasia e do fantástico para o desenvolvimento e o amadurecimento infantil. Com isso, em nosso país, [...] coube a Lobato a fortuna de ser, na área da literatura infantil e juvenil, o divisor de águas que separa o Brasil de ontem e o Brasil de hoje. Fazendo a herança do passado imergir no presente, Lobato encontrou o caminho criador que a literatura infantil estava necessitando. Rompe, pela raiz, com as convenções estereotipadas e abre as portas para as novas ideias e formas que o novo século exigia (COELHO, 2009, p. 165). Monteiro Lobato, considerando seu público-alvo, criou uma linguagem brasileira e popular, tendo em vista as suas vivências residindo no interior de São Paulo. Além disso, suas histórias são criativas, emocionante e irreverentes, pois trabalham com o imaginário infantil, visto que há uma fusão entre o real e o imaginário. R e f l i t a “Quem começa pela menina da capinha vermelha pode acabar nos Diálogos de Platão, mas quem sofre na infância a ravage dos livros instrutivos e cívicos, não chega até lá nunca. Não adquire o amor da leitura”. No que diz respeito à obra Sítio do Picapau Amarelo, trata-se de um lugar independente e autossuficiente que não pode ser localizado no mapa. Lá, tudo pode acontecer. O sítio é o próprio Brasil, visto que Monteiro Lobato preocupava-se com as questões nacionais. Nas palavras de Zilberman (2005, p. 29-30), o sítio “[...] é brasileiro, como se fosse uma representação idealizada de nossa pátria. Em outras palavras, é o Brasil conforme o desejo de Lobato, um Brasil sonhado, mas sempre um Brasil”. A Menina do Narizinho Arrebitado, de 1921, é o primeiro livro voltado para crianças; e Os Doze Trabalhos de Hércules, de 1944, é o último. Após a publicação de sua última obra, Monteiro Lobato dedicou-se a organizá-las, falecendo em 1948. A Presença do Maravilhoso em Monteiro Lobato Há muitos aspectos que podemos abordar na obra lobatiana, e focaremos, para este estudo, na presença do maravilhoso. Monteiro Lobato foi o responsável pela criação de uma vasta e insigne produção literária, que é composta por distintos espaços, personagens e “monstros”, os quais habitam o imaginário popular em diferentes regiões do país. A respeito disso, a autora Eliane Yunes (1983, p. 18 e 47) menciona que, em relação à obra de Monteiro Lobato, [...] sua incursão pelo maravilhoso na obra infantil, não tem de ‘irracional’: ao contrário, aproxima com habilidade insuperável o mágico e o real, fantasia e realidade [...]. Em Lobato, a intertextualidade constante das formações discursivas da história e da ficção anula as fronteiras entre o real e o sonho, o que aliás a psicanálise freudiana pouco antes já enunciada. Especificamente na obra Sítio do Picapau Amarelo, há a presença do realismo mágico voltado à infância, bem como do maravilhoso, que possibilita o exercício do pensamento crítico. S a i b a m a i s “Entre seus felizes habitantes, estão Emília, a boneca de pano que diz tudo o que lhe passa na cabeça; o Visconde de Sabugosa, o sábio de espiga de milho; Pedrinho e Narizinho, eternas crianças sempre abertas a tudo; Dona Benta, avó dos meninos, contadora de histórias que aceita a imaginação das crianças e admite as novidades que mudam o mundo; Nastácia, a empregada que fez Emília, suas crendices e seus quitutes. Nesse mundo, um pozinho mágico (pirlimpimpim) rompe os limites do espaço e do tempo, levando suas personagens a viverem as mais incríveis façanhas. Essas maravilhas narrativas, às quais não falta a preocupação de informar e educar, têm encantado gerações e gerações de crianças brasileiras”. As personagens Emília e Visconde de Sabugosa representam, por exemplo, a inserção do mágico no real, pois aparecem nas narrativas, muitas vezes, questionando e problematizando questões cotidianos que surgem no sítio. Vale pontuar que Monteiro Lobato utiliza o maravilhoso de modo alegórico e o realismo materialista de modo objetivo, para compor suas obras com questões voltadas à Moralidade, à Geografia Econômica, à História, à Política, à Filosofia e à Religião (YUNES, 1983). Nas obras infantis de Monteiro Lobato, há uma retomada de personagens maravilhosos presentes nos contos populares da Europa, como Barba Azul, Branca de Neve, Cinderela, Chapeuzinho Vermelho etc., recriando e inserindo essas histórias em um novo contexto, no qual as personagens do sítio estão presentes. Um exemplo dessa intertextualidade está presente em O Picapau Amarelo, obra na qual Barba Azul é mencionado na conversa de Pedrinho com Sancho Pança, retomada do romance de Dom Quixote: Sancho logo fez camaradagem com Pedrinho, ao qual contou várias proezas de seu amo que não figuram no famoso livro de Cervantes. – Ah! Menino, este meu amo é na verdade o herói dos heróis. Ainda há pouco, ali na entrada das Terras Novas, espetou com a lança um homem muito feio, de grandes barbas azuis. – De barbas azuis? Então era o Barba-Azul! Bem feito! Esse homem é o maior especialista em matar mulheres. Já liquidou sete. Não estava de faca na mão? – Trazia na cintura uma enorme faca de ponta, sim. – Pois é isso mesmo. Com aquela faca o malvado já matou sete esposas – e matará a oitava, se aparecer outra tola que se case com ele. – Pois ficou bem espetado pela lança de meu amo – continuou Sancho. – Quis resistir; mas quando ia puxando a faca, foi alcançado no peito e derrubado (LOBATO, 1956, p.31-32). A presença do maravilhoso em Monteiro Lobato se constrói, também, a partir da intertextualidade e da paródia dos contos de fada e da sua combinação com a obra Sítio do Picapau Amarelo. Com isso, o autor revela sua consciência crítica e literária, tendo em vista o panorama da literatura infantil brasileira, bem como a (re)leitura de obras estrangeiras paraa formação literária dos leitores do Brasil. A t i v i d a d e Leia o trecho a seguir: De acordo com Coelho (2010, p. 249), os leitores de Monteiro Lobato “[...] sentiam identificados com as situações narradas; sentiam-se à vontade dentro de uma situação familiar e afetiva, que era subitamente penetrada pelo maravilhoso ou pelo mágico, com a mais absoluta naturalidade. Tal como Lewis Carroll fizera com Alice no País das Maravilhas, na Inglaterra de cinquenta anos antes, Monteiro Lobato o fazia no Brasil dos anos 20: fundia o Real e o Maravilhoso em uma única realidade”. COELHO, N. N. Panorama Histórico da Literatura infantil/juvenil: das origens indoeuropeias ao Brasil contemporâneo. 5. ed. São Paulo: Amarilys, 2010, p. 249. Considerando o excerto apresentado a respeito do maravilhoso nas obras de Monteiro Lobato, analise as afirmativas a seguir: I. Nas obras de Monteiro Lobato é por meio da fantasia que se instala o realismo, fantasia essa que se une ao real. II. Em suas obras, Monteiro Lobato utiliza o maravilhoso fantástico por meio da alegoria e o realismo materialista por meio da objetividade. III. A inserção do mágico no real pode ser visualizada em Sítio do Picapau Amarelo por meio das personagens Boneca Emília e Visconde de Sabugosa. IV. Utilizando a fórmula de Perrault e dos Irmãos Grimm, Monteiro Lobato criou suas histórias. Está correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) III e IV, apenas. c) I, II e III, apenas. d) I, II, e IV, apenas. e) I, II, III e IV. Clarice Lispector para as Crianças Clarice Lispector (1920-1977) foi uma escritora e jornalista nascida na Ucrânia que se naturalizou brasileira e pernambucana. Seu nome de batismo era Chaya Pinkhasovna Lispector, e aqui ela adotou Clarice Lispector. A autora formou-se em Direito e colaborou em jornais cariocas. Debruçou-se na escrita de diversos livros, e o primeiro deles foi Perto do Coração Selvagem, publicado em 1944. Clarice Lispector publicou mais de 20 livros de diferentes gêneros, dentre eles romances, contos, crônicas etc. No que se refere à literatura voltada ao público infantil, publicou seu primeiro livro em 1967, intitulado Mistério do coelho pensante. Seguindo a linha infantil, publicou em 1969 o segundo livro, chamado A mulher que matou os peixes. Em 1974, lançou a obra A vida íntima de Laura. Em 1978, publicou seu quarto livro infantil, intitulado Quase de verdade. Por fim, publicou Como nascem as estrelas, em 1987. A produção clariceana para crianças é composta por elementos de intertextualidades, paródias e paráfrases; além disso, apresenta um aspecto inovador, uma vez que firmou uma linguagem nova para esse gênero, que é voltado para um público específico. Os livros infantis agradam a todos os leitores, visto que utilizam como narrador um adulto que dialoga com as crianças, deixando clara a sua condição e abordando temas pertinentes a todas as idades, como a liberdade, o direito de ser, a morte, a alienação, a inexorabilidade do tempo etc. R e f l i t a “[...] na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que se achar? [...] Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando”. As obras literárias infantis de Clarice Lispector, nas palavras de Araújo (2013, on-line), “[...] sugerem que o adulto é que deve intrometer-se no mundo e nas sensações infantis para compreendê-los, possibilitando, assim, novas propostas de relacionamento criança-adulto-mundo”. Com isso, surge a presença de animais, os quais, muitas vezes, intitulam as histórias e são livres para viver no mundo (remetendo-se àquela essência primitiva, ancestral e inumana), livres da domesticação. Ao entrar na história, por meio da leitura, a criança, no plano da alegoria, está lado a lado com os “bichos convidados” pela narradora. Adentrando a obra A vida íntima de Laura, por exemplo, verificamos que a personagem galinha reforça alguns questionamentos, os quais aparecem em outras obras, como “[...] a sinceridade no tratamento com a criança, o questionamento do próprio gênero ‘literatura infantil’, o equilíbrio entre a realidade e a fantasia, o papel da mulher, da dona de casa e o próprio absurdo desse cotidiano” (ARAÚJO, 2011, on-line). Temos que mencionar que a infância é uma temática que aparece com frequência na prosa de Lispector, principalmente nos contos. Dentre as obras publicadas, as de literatura infantil não são consideradas menores e estabelecem um diálogo com as obras destinados ao público adulto. Podemos comparar e aproximar A vida íntima de Laura do conto clássico Uma galinha, visto que ambos apresentam um tema semelhante: o ser feminino. Além disso, os dois contos abordam a morte, porém de modo diferenciado, levando em consideração a linguagem e o público leitor. Em A vida íntima de Laura, a autora aborda as vivências e o dia a dia da galinha Laura, bem como seus anseios e medos; por exemplo, tornar-se estéril e morrer. Essa temática aparece, também, em Quase de verdade, quando a figueira passa a refletir acerca da maternidade, da condição feminina etc. (ARAÚJO, 2013). Em O mistério do coelho pensante há um mistério, característico do gênero policial, e o leitor, ao longo da narrativa, vai recebendo pistas do narrador, as quais podem ser verdadeiras ou falsas. No entanto, o narrador não sabe como resolver esse mistério. No texto, há uma espécie de paródia, que questiona os códigos instituídos pelo gênero e os valores, fazendo uma crítica aos modelos criando um novo modo de observar o objeto. Há uma intertextualidade com Alice no país das Maravilhas, de Lewis Carroll, e, como paráfrase de Alice, O mistério do coelho pensante reafirma valores da literatura infantojuvenil clássica, aquela que teve sua origem nas fábulas, nos mitos, nos contos de fada, ou seja, histórias de tradição oral, nas quais os mistérios e as magias são imprescindíveis para a sua existência. Já a obra Como nasceram as estrelas trata-se de uma “coletânea” de histórias curtas, destinadas à ilustração um calendário. Para cada mês do ano, há uma narrativa que resgata elementos da cultura popular do Brasil, cujos protagonistas são: Saci-pererê, Uirapuru, Curupira, Iara, Negrinho do pastoreio, curumins, animais (sapos, jabutis, onças, macacos, jacarés), dentre outros, que lidam com as adversidades que colocam suas qualidades à prova. Nessas narrativas, a autora, por meio da paródia, traz a metáfora da perplexidade humana e de seus sentimentos diante dos fenômenos da natureza. Quase de verdade, por sua vez, também traz alegorias de bichos, os quais apresentam tipos humanos, por meio de sentimentos e ações. A temática existencialista é muito presente nessa obra, uma vez que reflete sobre o medo, a morte, a existência, as diferenças sociais e individuais etc. Nessa obra, Clarice entende Ulisses, o cachorro, e digita as suas histórias Já na obra A mulher que matou os peixes há uma personagem-narradora. Vejamos um trecho, a seguir: “Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! Que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra. Dou minha palavra de honra que sou pessoa de confiança e meu coração é doce: perto de mim nunca deixo criança ou bicho sofrer. Pois logo eu matei dois peixinhos vermelhos que não fazem mal a ninguém e que não são ambiciosos: só querem mesmo é viver. Pessoas também querem viver, mas infelizmente também aproveitar a vida para fazer alguma coisa de bom. Não tenho coragem ainda de contar agora mesmo como aconteceu. Mas prometo que no fim deste livro contarei a vocês, que vão ler essa história triste, me perdoarão ou não. Vocês hão de perguntar: por que só no fim do livro? E eu respondo: - É porque no começo e no meio vou contar algumas histórias de bichos que eu tive, só para vocês verem que eu só poderia ter matado os peixinhos sem querer.Estou com esperança de que, no fim do livro, vocês já me conheçam melhor e me dêem o perdão que eu peço a propósito da morte de dois “vermelhinhos” – em casa chamávamos os peixes de “vermelhinhos”. [...] Eu sempre gostei de bichos. Tive uma infância rodeada de gatos. Eu tinha uma gata que de vez em quando paria uma ninhada de gatos. E eu não deixava se desfazerem de nenhum dos gatinhos”. Fonte: Lispector (1999, s./p.). Considerando a literatura como um dos possíveis espaços para a experiência literária, podemos conceber o texto claricea no como um entrelaçamento de infindos e delicados fios constituídos por palavras, que são a matéria-prima da escrita (FERREIRA, 2016). No que se refere aos textos da autora voltados ao público infantil, é possível observar que há algumas mudanças nos paradigmas sociológicos e culturais, uma vez que, por serem razoavelmente curtos, apresentam um efeito único, causando impressões positivas no leitor, como uma participação ativa na construção dos sentidos do texto. As narrativas, no que diz respeito à forma textual, rompem com dogmas, valores e certas temáticas comuns em sociedade. Nas palavras de Walter Benjamin (1985 apud CARVALHO, 2006, p. 19-20), “[...] as mudanças dos mecanismos de produção [afetam] de maneira decisiva a arte de contar histórias”. Desse modo, os textos de Clarice Lispector requerem um leitor ativo, ou seja, aquele que pensa, discorda, confronta e negocia os sentidos apresentados no texto. “Ao fazer o uso de histórias próximas à realidade do leitor, Lispector idealiza um leitor que se coloque em diálogo com as dificuldades presentes no texto” (CARVALHO, 2006, p. 81). Assim sendo, culturalmente, as narrativas possibilitam e colaboram para a formação de leitores críticos e preocupados com os sentidos implícitos e explícitos nos textos, desde a tenra idade, correspondente à infância. Ainda nas palavras da estudiosa, “[...] Clarice Lispector revoluciona a literatura ao criar essa nova conduta de leitura, responsável pela formação de um leitor profícuo, capaz de responder às exigências do estilo dialógico permeado de elementos metalinguísticos” (CARVALHO, 2006, p. 82). Vale pontuar também que, para Lispector, não há uma diferença entre textos para crianças, jovens e adultos, visto que o mesmo texto se direciona a todos os públicos (QUEVEDO; AQUINO, 2010). s a i b a m a i s “[...] ‘tornar-se criança’ é a forma que permite ao narrador clariceano afastar-se da hegemonia do olhar adulto; ‘tornar-se bicho’ é também um dispositivo que permite afastar-se da hegemonia do mundo racional humano, é tentar aproximar-se da vida de uma forma mais direta e instintiva. Expondo seu corpo aos diversos fluxos que habitam o mundo dos bichos e das crianças, o narrador, antes humano e adulto, parece também querer falar de um lugar que rompe com o mundo do racional e mesmo do pragmático. Assim, a literatura infantil de Clarice Lispector não quer dar lições de moral ou mesmo socializar a criança, ela parece querer propor-lhe uma nova aventura: a experimentação de um novo mundo que pode ser constantemente recriado pela imaginação”. A literatura infantil de Clarice Lispector, de modo similar à literatura destinada ao público adulto, procura, por meio da palavra em sua função poética, criar um diálogo entre textos, nos quais a vida, as relações sociais e os problemas do ser humanos podem ser questionados pela fantasia, levando o leitor (pequeno ou grande) à reflexão. a t i v i d a d e A respeito das obras clariceanas voltadas ao público infantil, leia o excerto a seguir: “[...] embora o universo das crianças esteja em jogo, não se trata, em absoluto, de histórias protagonizadas por elas. As crianças representadas nas histórias de Clarice aqui consideradas, estando, ou não, inscritas de forma singularizada nos textos, certamente não podem ser consideradas personagens centrais dos acontecimentos narrados. Podem, às vezes, estar presentes em comentários digressivos que convidam o leitor para a cena da escrita, embora fazendo parecer que estão chamados para integrarem os acontecimentos da história”. BARBOSA, S. M. Clarice Lispector e a literatura infantil. Cadernos de Letras da UFF - GLC, n. 27, p. 141-157, 2003, p. 143. A respeito disso, analise as afirmativas a seguir: I. Nas narrativas clariceanas há a presença de animais, que são como irradiadores das tramas. II. Nos textos de Clarice Lispector, é possível traçar pontos intertextuais entre as narrativas adultas e as narrativas infantis. III. Por escrever textos voltados à criança, Clarice opta por isentar reflexões sobre os problemas do ser humanos, privilegiando a fantasia. IV. Como nas fábulas, nos contos de Clarice Lispector há uma moral da história explícita. A partir das afirmativas apresentadas anteriormente, podemos dizer que está correto o que se afirma em: a) IV, apenas. b) I e II, apenas. c) III e IV, apenas. d) I, II, e IV, apenas. e) I, II, III e IV. A Literatura de Cecília Meireles para Crianças Iniciamos, caro(a) aluno(a), abordando alguns aspectos da vida de Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964), que foi poetisa, jornalista, professora e pintora. Foi uma das principais autoras da literatura brasileira, pois publicou cerca de 50 obras. Estreou na literatura com o livro Espectros. Embora mais conhecida como poetisa, debruçou-se, também, na escrita de contos e crônicas. Traçando uma linha do tempo, Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro, no dia 7 de novembro de 1901. Perdeu o pai pouco tempo depois de nascimento e a mãe após completar 3 anos de idade, sendo criada por sua avó materna, Jacinta Garcia Benevides. Cursou o primário na Escola Estácio de Sá e recebeu das mãos de Olavo Bilac uma medalha do ouro, por ter se destacado ao longo do curso. No ano de 1917, formou-se professora na Escola Normal do Rio de Janeiro. Além disso, dedicou-se à música, ao estudo de línguas e exerceu o magistério em escolas oficiais do estado. Era uma educadora. Cecília Meireles envolveu-se com a pedagogia moderna, assumindo também uma coluna diária no jornal Diário de Notícias do Rio de Janeiro, intitulada Comentário. Posteriormente, dedicou-se também à Página da Educação, no mesmo jornal, entre 1930-1933, comentando em crônicas sobre a árdua tarefa de produzir literatura infantil, visto que tal estilo requer duas coisas ímpares: ciência e arte. Concomitante a isso, especificamente em 1932, assinou o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, quadro da renovação educacional do país. Vale comentar que, no ano de 1934, fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil, situada no Centro Cultural Infantil do Pavilhão Mourisco, em Botafogo, no Rio de Janeiro. No mesmo período, viajou para Portugal e apresentou nas cidades de Lisboa e Coimbra uma série de conferências que abordaram aspectos da cultura, literatura e do folclore brasileiro. Produziu, no período de 1942-1945, uma quantidade significativa de crônicas, as quais foram publicadas no jornal A Manhã, cujas temáticas giravam em torno da cultura e da educação. Cecília Meireles envolveu-se muito com a educação e a docência, tanto que ministrou, em Belo Horizonte, um curso para professores da prefeitura, no ano de 1948. Tal curso resultou na publicação de Problemas da literatura infantil, no ano de 1952, obra na qual havia um panorama histórico, feito por Cecília Meireles, que citava autores como La Fontaine, Perrault, Fénelon, Júlio Verne, Defoë etc. (SILVA, 2013). Assim, ao longo desse período, foram surgindo inspirações para uma literatura voltada à criança. A educadora Cecília Meireles preocupava-se com a formação do leitor. Assim, conforme pontuamos, a ciência requer uma formação profissional, que é a Pedagogia, na missão de elaborar textos voltados à criança, ou seja, é preciso conhecer o mundo infantil. Além disso, alguém que tenha o dom de transformar linhas textuais em obra de arte, tendo em vista um público específico, é imprescindível. Assim, escreverpara crianças requer um artista, visto que é ele que tem a sensibilidade e a intuição para criar e a capacidade de sugerir a beleza estética e, ao mesmo tempo, estimular a imaginação. No entanto, a capacidade artística deve estar de “mãos dadas” com a ciência, ou seja, deve-se conhecer os interesses e os gostos das crianças. Desse modo, o escritor saberá escolher e distribuir as palavras, as construções textuais e os assuntos, para que possa escolher, distribuir, graduar e apresentar os assuntos. Cecília Meireles respaldou-se na concepção de infância da Pedagogia Moderna, cujos fundamentos filosóficos se encontram em Jean Jacques Rousseau, o qual postula que a infância só existe seguindo uma ordem natural. É preciso ser criança para ser “homem”, uma vez que adultos e crianças observam e sentem o mundo de diferentes óticas, sendo que esse olhar vai se aprimorando, conforme o amadurecimento do ser e a passagem do tempo. De acordo com a Pedagogia Moderna, o adulto deve conceder proteção e direção à criança, e esta deve obedecer, visto que é concebida como um ser eticamente amoral, devido à ingenuidade e à falta de consciência. Assim, há um contrato estabelecido: direcionamento em troca de obediência. Com a publicação do livro Criança, meu amor, no ano de 1924, Cecília Meireles deixa claro esse contrato. Tal livro foi indicado como obra de leitura para as escolas públicas do Distrito Federal. Nele, constam textos sob o título de Mandamento, os quais apresentam, de modo acessível, os princípios de Jean-Jacques Rousseau. Por exemplo: “Mandamento II – Devo amar e respeitar a professora como se fosse minha mãe. [...] Ela deseja ver-me instruído e bom; e para isso trabalha [...]. A professora é a minha proteção e o meu guia [...]” (MEIRELES, 1977, p. 35). A Pedagogia Moderna, da qual Cecília Meireles faz parte, postula que a boa educação é aquela que estimula o amor pelo conhecimento, bem como a sua busca, por meio de métodos. Além disso, devia-se formar um homem novo, por meio de um humanismo universal, e a literatura infantil auxilia neste processo. Um livro de literatura infantil é, antes de mais nada, uma obra literária. Nem se deveria consentir que as crianças freqüentassem obras insignificantes, para não perderem tempo e prejudicarem seu gosto. Se considerarmos que muitas crianças, ainda hoje, têm na infância o melhor tempo disponível da sua vida; que talvez nunca mais possam ter a liberdade de uma leitura desinteressada, compreenderemos a importância de bem aproveitar essa oportunidade. Se a criança, desde cedo fosse posta em contato com obras-primas, é possível que sua formação se processasse de modo mais perfeito (MEIRELES, 1979, p. 96). Conforme bem expõe Corrêa (s./d., on-line): “A função da literatura infantil é dar à criança o acesso ao tempo da tradição, formando um humanismo básico e apontando para a direção do homem de compreensão universal, base da fraternidade”. A literatura infantil, então, deve trabalhar com o imaginário infantil, dar-lhe prazer espiritual e estético, além de apresentar-lhe exemplos de moral. As obras de Cecília Meireles são compostas por poesia e musicalidade, características essenciais para se trabalhar a ludicidade em sala de aula. Sua obra infantil mais famosa é o livro Ou isto ou aquilo, publicado em 1964, considerada um clássico da produção poética para a infância. Trata-se de um livro de poemas, nos quais, por meio dos versos, o leitor toma ciência de que a vida é feita de escolhas, que podem ser fáceis e difíceis. Para conhecimento de sua poesia, vejamos um exemplo, a seguir. Ou isto ou aquilo Ou se tem chuva e não se tem sol ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel, ou se põe o anel e não se calça a luva! Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares. É uma grande pena que não se possa estar ao mesmo tempo em dois lugares! Ou guardo o dinheiro e não compro o doce, ou compro o doce e gasto o dinheiro. Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo... e vivo escolhendo o dia inteiro! Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranqüilo. Mas não consegui entender ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo. Os poemas que compõem a obra Ou isto ou aquilo apresentam uma preocupação da autora com a forma. Por isso, há ritmo, rimas adequadamente compostas, vocabulário seleto e a presença de figuras de linguagem. Sua produção poética ultrapassa as fronteiras de espaço e tempo, deixando um legado rico e significativo para a educação brasileira no que se refere à educação e à literatura. Nas palavras de Kikuti (2009, p. 26), [...] fica claro que escrever para crianças nada tem em haver com simplificações ou com algo que possa ser considerado como uma literatura que não mereça prestígio e grande dedicação. Precisa-se, sim, de grandes poetas que, com a sensibilidade que lhes é característica, escrevam para crianças, pois, por meio de sua sensibilidade e de seu trabalho, conseguem captar a alma infantil. Vale mencionar que a autora se dedicou a estudar o folclore. No período de 1920 até 1960, aventurou-se em outros países, debruçou-se na escrita de crônicas e foi reconhecida pela Academia de Letras, além de estar presente no rol dos grandes poetas do século XX. Nesse intervalo de tempo, publicou obras voltadas à criança, como Giroflê, Giroflá e A festa das letras. Após sua morte, foram publicadas as obras Olhinhos de Gato, Os pescadores e suas filhas e O menino azul, apenas para citar alguns exemplos. Cecília Meireles foi uma artista multifacetada, uma vez que articulou o literário ao pedagógico, considerando o leitor e tendo em vista proporcionar uma apreciação estética concomitante à experiência da imaginação e da ludicidade. Com isso, sua obra reforça que leitura e a imaginação não devem perder o caráter educativo e devem estar presentes no trabalho docente, em especial na educação infantil da contemporaneidade. A t i v i d a d e Leia o seguinte trecho: “Cecília Meireles debateu inúmeros assuntos relacionados à educação e à literatura em jornais e conferências. Escreveu poemas e livros para crianças e livros didáticos adotados em escolas. Sua atuação de educadora e escritora, envolvida com questões da infância, foi importante no desenvolvimento da literatura infantil brasileira e nas discussões acerca da educação da criança”. MELLO, C. S.; MACHADO, M. C. G. As contribuições de Cecília Meireles para a leitura e a literatura infantil. Rev. Anu. Lit. da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, v. 13, n. 2, 2008, p. 2. Considerando o excerto apresentado sobre a vida e a trajetória de Cecília Meireles enquanto escritora e educadora, analise as afirmativas a seguir: I. Cecília Meireles, ao longo de sua carreira profissional, preocupou-se com a formação do leitor e com a leitura de qualidade. II. A primeira biblioteca de literatura infantil foi implantada em decorrência de ações de Cecília Meireles. III. O escritor de literatura infantil, segundo Cecília Meireles, deveria dominar duas áreas: a ciência e a arte. IV. Cecília Meireles preocupava-se com a formação da criança na infância e pregava isso. A partir das afirmativas apresentadas anteriormente, pode-se dizer que está correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) III e IV, apenas. c) I, II e III, apenas. d) I, II, e IV, apenas. e) I, II, III e IV. I n t r o d u ç ã o Nesta unidade, abordaremos algumas questões voltadas à contemporaneidade, como a semiótica, o gênero textual HQ, a relação entre língua e literatura, o aluno como pesquisador, além dos elementos de aprendizagem. Em um primeiro momento, discutiremos a produção literária de Ziraldo e sua importância para a literatura infanto- juvenil. Além disso, veremos os pressupostos teóricos da Semiótica para a análise de obras literárias, em especial, a de Ziraldo. Adiante, adentramos o gênero textual História em Quadrinhos, cujogrande autor brasileiro é Maurício de Souza. Neste momento de estudo, comentaremos sobre a obra do referido autor e a sua importância para a educação. E, ainda, abordaremos as especificidades do gênero, no que se refere à estrutura, como à linguagem (verbal e não verbal). Para o terceiro momento, reservamos a questão da indissociabilidade entre língua e literatura, discutindo língua, literatura e a relação texto-leitor, que pode ser potencializada por meio do texto literário. Por fim, dedicamo-nos ao estudo como pesquisador, no qual passamos algumas diretrizes sobre como fazer uma pesquisa bibliográfica e literária, tendo em vista a explanação Ziraldo: Vida E Obra Ziraldo Alves Pinto nasceu em 24 de outubro de 1932 em Caratinga, Minas Gerais. Ocupou-se nas funções de cartunista, cronista, caricaturista, escritor, dramaturgo, pintor, tendo em vista contribuir para a educação do país. Assim, acreditava que a leitura é uma saída viável para a evolução da educação e a literatura tem o papel de ampliar a visão de mundo, fundamentar a cidadania e elevar competências e habilidades. Para o autor, leitura não é obrigação, mas um hábito que deve ser agradável e enriquecedor, bem como disponível a todos. Para Ziraldo, o indivíduo só está preparado quando sabe ler, escrever e interpretar aquilo que leu. Em sua opinião, a leitura possibilita que a pessoa adquira autonomia, assim o objetivo é fazer com que o brasileiro goste de ler desde a mais tenra idade.Tendo isso em vista, lançou algumas obras, que veremos a seguir. Seguindo uma linha do tempo, em 1960, Ziraldo lançou a primeira revista em quadrinhos do Brasil, chamada de Turma do Pererê. Na época, alcançou muitas, no entanto, foi cancelada em 1964, devido ao regime militar. Anos mais tarde, nos anos 70, a Editora Abril relançou a revista, no entanto, não fez sucesso como a primeira. No mesmo período, fundou e foi diretor do periódico O Pasquim, que publicava textos que iam contra o regime de exceção. Assim, após a promulgação do AI-5, Ziraldo foi preso. Apesar disso, o tablóide foi sucesso editorial, visto que as vendas superaram o teto de 200 mil exemplares por semana. O primeiro livro infantil, publicado por Ziraldo, em 1969, chamou-se Flicts, o qual conta a história de uma cor que não encontrava seu lugar no mundo, visto que “não tinha a força do vermelho, não tinha a imensidão do amarelo, nem a paz que tem o azul. Era apenas o frágil, e feio, e aflito Flicts” (ZIRALDO, 1969). Ou seja, as demais cores possuem um traço de personalidade, são quentes, frias ou neutras, menos Flicts, que não se parecia com nada e em nada se representava. Com isso, Flicts, ao longo da história, sai em busca de encontrar o seu lugar (e auto se encontrar). A disposição do texto escrito nas páginas do livro que conta a história de Flicts, a cor, dá a certeza de ser, a narrativa, um poema. Há espaços em branco irregulares antes e depois de cada frase, fragmentando-as, fazendo-as versos. Versos livres, porém. Sem métrica, quase sem rimas. No entanto, com muito ritmo, um ritmo por vezes acelerado, por vezes lento, combinando harmonicamente com o virar de folhas, com as cores nas páginas, com as ambigüidades geradas pela ilustração que complementa ou se opõe ao texto escrito, com a pluralidade de sentidos instalada nas palavras, nas formas, nas cores e nos próprios versos. E com poesia. Poesia expressa em imagens criadas pela combinação de vocábulos nos versos que compõem o poema (VASQUES, 2008, p. 2-3). A obra apresenta uma linguagem poética e de cunho existencialista. Por ser um livro profundo e reflexivo, fez com que Ziraldo ganhasse o prêmio internacional Hans Christian Andersen, o mais importante da literatura infantil. Posteriormente, em 1980, lançou o livro O Menino Maluquinho, seu maior sucesso dentro da literatura infantil. A partir da obra, surgiram adaptações para a televisão, o cinema, o teatro etc., além de receber o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Trata-se de uma obra que resgata o contexto sociocultural, bem como os valores e os costumes vivenciados ao longo da infância do autor. Nas palavras de Leite (2009, p. 27): Quem convive com Ziraldo sabe que ele passa o dia inteiro refletindo, interpretando os fatos, inventando coisas... Observa, processa, questiona, propõe, revê..., da hora em que acorda até a hora em que vai dormir. É uma pessoa irrequieta, que vê e não apenas olha, transmutando a realidade por ângulos inéditos, que coloca diante de nossos olhos, pondo por terra as convicções, levando-nos a pensar. A partir dessa obra, nasceram as obras: Uma professora muito maluquinha, O bebê maluquinho e Diário da Julieta. Além do exposto, o autor publicou outros livros, tais como: Jeremias, o Bom (1969) O Planeta Lilás (1979) A Bela Borboleta (1980) O Bichinho da Maçã (1982) O Joelho Juvenil (1983) Os Dez Amigos (1983) O Menino Mais Bonito (1983) O Pequeno Planeta Perdido (1985) O Menino Marrom (1986) O Bicho Que Queria Crescer (1991) Este Mundo é Uma Bola (1991) Um Amor de Família (1991) Cada Um Mora Onde Pode (1991) Vovó Delícia (1997) A Fazenda Maluca (2001) A Menina Nina (2002) As Cores e os Dias da Semana (2002) Os Meninos Morenos (2004) O Menino da Lua (2006) Uma Menina Chamada Julieta (2009) O Menino da Terra (2010) Diário de Julieta (2012) S a i b a m a i s O texto e a ilustração em Ziraldo são complementares na arte de narrar de maneira dinâmica e bastante atraente à criança. A arquifamosa obra O menino maluquinho tem nas suas ilustrações um espetáculo à parte, tanto que a ilustração da personagem principal, o menino maluquinho, já faz parte do imaginário cultural brasileiro, assim como as personagens do Sítio do Pica-pau Amarelo. Fonte: Almeida (2015, p. 6-7). A respeito da concepção do fazer literário, o autor, em entrevista, afirmou que: [...] vontade de falar as coisas, a necessidade de fazê-las e a aflição interior são tudo uma coisa só. Para transmitir isso, nós utilizamos todas as mídias. Eu posso fazer histórias em quadrinhos, cartazes, anúncios, o que me der na telha, mas todas essas atividades minhas se enquadram dentro do Humor e do Desenho. Estes dois componentes determinam a unidade de meu trabalho (CAMPEDELLI; ABDALLA, 1982, p. 4). As obras de Ziraldo são muitos importantes para a literatura infanto-juvenil pelos seus temas, os quais abordam a diferença, assim transmitem ao leitor a ideia de respeito à individualidade e diversidade, nos aspectos físico, cognitivo e social. O autor propicia ao seu leitor um meio para a discussão de questões ético-políticas em sociedade, bem como auxiliam que reflita sobre a condição humana. Semiótica - Um Meio Possível Para a Análise Literária Conforme estudamos, Ziraldo é um dos autores mais importantes da literatura infanto-juvenil brasileira da contemporaneidade, visto que em suas obras há um aspecto que as valoriza: a qualidade das ilustrações, as quais são de autoria do escritor. Em seus livros é possível observar que o texto e a ilustração são intrínsecos e se complementam ao longo da narrativa, atraindo, assim, o leitor. Como um meio possível de análise literária, conheceremos a perspectiva da Semiótica, aquela defendida por Charles Sanders Peirce. Conforme nos informa Pignatari (1979, p. 9), trata-se de uma “ciência que ajuda a ler o mundo”. Este mundo pode ser o das palavras, o das imagens e o de ambas, como em um livro destinado às crianças, que compõem-se da junção: texto + imagem. Ainda segundo o referido autor, cabe a semiótica: [...] estabelecer as ligações entre um código e outro código, entre uma linguagem e outra linguagem. Serve para ler o mundo não-verbal: “ler” um quadro, “ler” uma dança, “ler” um filme – e para ensinar a ler o mundo verbal em ligação com o mundo icônico ou não verbal (PIGNATARI, 1979, p. 12). No que diz respeito à análise literária, devemos pontuar que todo o texto literárioé um signo icônico, ou seja, quando o signo linguístico apresenta a sua arbitrariedade relativizada e [...] tende a imitar as características do seu objeto. Dessa maneira, cabe à semiótica explicar à literatura de que forma se constrói a iconicidade da linguagem literária, tendo em vista que todo o texto literário é considerado um signo complexo. Peirce, em seus estudos, apresentou a relação triádica entre “signo (veículo que comunica à mente algo do exterior), objeto (aquilo em cujo lugar o signo está) e interpretante (a idéia que o signo provoca)”, resultando na noção de semiose (processo de significação) (FERES, 2006, p.2). Trazendo para a literatura de Ziraldo, ainda segundo a referida autora, quando lemos os textos de Ziraldo é preciso que tenhamos a competência fruitiva que dispõe ao leitor às qualidades do texto. Em outras palavras, a competência fruitiva diz respeito ao conjunto de “habilidades que o leitor deve dominar não só para perceber as sensações provocadas pelas estratégias analógicas articuladas na tessitura textual, como também para criar um ‘estado de aceitabilidade favorável’ a fim de deixar-se afetar interiormente pelo texto” (FERES, 2011, p. 156-161). No entanto, a construção do sentido só se concretiza se, em contato com o texto, houver uma aceitação ao projeto sígnico sugerido pelo conjunto verbal/não verbal. Assim, por meio desse processo, deixamo-nos afetar pelo outro por intermédio do texto, ocorre uma identificação e tornamo-nos iguais a ele e aos seus elementos, passando a construir sentidos a partir daqueles que eram do outro, os quais significam a partir do contato com a leitura (FERES, 2006). Assim, quando lemos Ziraldo (ou qualquer outro texto) devemos observá-lo como signo de possibilidade, que desencadeia emoções no primeiro contato com a leitura. Na sequência, iniciam-se as comparações entre a obra lida e outras de suas possíveis versões (bagagem de leitura) e, por fim, há a decodificação dos signos que compõem a obra, em que nós, leitores, evidenciamos tanto complexidade como as possibilidades do ato de ler (GARCIA, 2017). Atividade - Leia o trecho a seguir: “Ziraldo [...], além de escritor, é jornalista, pintor, teatrólogo, chargista, caricaturista e colecionador. Sua vasta obra faz parte do nosso cotidiano. Seus trabalhos, traduzidos para diversos idiomas, representam o talento e o humor brasileiro no mundo”. MARTINS, Catarina Xavier Gonçalves. A literatura infantil de Ziraldo e Ana Maria Machado: da exclusão à descoberta da identidade. 2011. 93 F. Dissertação (Mestrado em Letras) - Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (MG), 2011, p. 69. Considerando o trecho apresentado no elemento-base e o conteúdo sobre a produção de Ziraldo, é correto afirmar que: I. O exemplar Flicts, quando lançado, fez muito sucesso, devido a composição do texto e das imagens. II. As histórias de Ziraldo apresentam temáticas que colocam o leitor para refletir sobre o social e a condição de existência de cada indivíduo. III. A obra Uma professora muito maluquinha é a mais importante do autor. IV. A Turma do Pererê, de Ziraldo, é a primeira revista em quadrinhos publicada no Brasil. Agora assinale a alternativa que apresenta a(s) afirmativa(s) corretas (s): a) I. b) III e IV. c) I, II e III. d) I, II, e IV. e) I, II, III e IV. A Importância das HQS de Maurício de Sousa Maurício de Souza é o grande criador dos quadrinhos da Turma da Mônica. Nasceu em Santa Isabel, município no estado de São Paulo em 1935. Desde muito jovem dedicou-se ao desenho de pôsteres para alguns jornais de Mogi das Cruzes. Seguindo uma linha temporal, em 1950, os gibis sofreram perseguição no Brasil e no mundo, pois acreditava-se, segundo a afirmação de um psiquiatra alemão Fredric Wertham, em 1964, que publicou que a indústria dos quadrinhos era uma das responsáveis pelo desvio do comportamento de jovens, bem como para o aumento da criminalidade. Com essa teoria, houve um censura nos quadrinhos e uma delimitação do que podia ser publicado. Aqui, no Brasil, não foi diferente. No ano de 1954, Maurício de Souza mudou-se para a capital de São Paulo e começou a atuar como ilustrador, além de atuar como repórter policial, no antigo jornal Folha da Manhã. Nesta função, realizava muitos plantões e ilustrava suas próprias reportagens, caindo nas graças do público. realizando muitos plantões e ilustrando suas reportagens com desenhos próprios que faziam muito sucesso entre os leitores do veículo. Sua primeira tirinha foi publicada na imprensa, em 1959, no jornal Folha da Tarde - grupo editorial da Folha da Manhã. A partir disso, o autor deixou o jornalismo de lado e passou a ocupar-se apenas como desenhista. Com este trabalho, conquistou o país com a estréia de seus personagens carismáticos e únicos. No ano de 1964, em decorrência do período ditatorial, Maurício de Souza e alguns cartunistas temiam a censura e a dificuldade de produzir seus trabalhos. Concomitantemente, havia um movimento nacionalista, que dividia os ilustradores: de um lado, aqueles que apresentavam narrativas voltadas apenas ao Brasil, de outro lado aqueles que incorporavam em seus textos características advindas dos Estados Unidos. O autor, por sua vez, não tomou partido e continuou dedicando-se em suas histórias não sofrendo censura. Em algumas, é possível verificar, de modo bem sutil, uma crítica à ditadura. Por não se posicionar junto aos demais ilustradores, foi demitido do jornal Folha da Tarde e, ainda, teve o seu nome incluído na lista negra de cartunistas do estado de São Paulo. Sofrendo com isso financeiramente, passou a ilustrar em jornais de paróquias. Ainda como cartunista na Folha da Tarde, veículo em que publicava semanalmente seus trabalhos, ampliou a gama de personagens, criando, assim, Bidu e Franjinha. Posteriormente, em 1960, incluiu o Cebolinha, um ano depois foi a vez de Cascão. Somente em 1973, surgiu a personagem Mônica, primeira personagem feminina. Com o tempo, as personagens foram ganhando notoriedade e em 1970, o autor lançou a revista “Mônica e a sua Turma”. Com o passar do tempo, outras personagens e enredos foram surgindo, tais como: Turma do Chico Bento, Turma da Tina, Turma da Mata, Turma do Penadinho etc. Tamanho foi o sucesso, que as tirinhas saltaram das páginas, transformando- se em versões animadas, filmes, comerciais de televisão,entre outros. Maurício de Sousa tem como especialidade a criação de personagens humanizados, isto é, com características e circunstâncias humanas, fato que aproxima os leitores desse tipo textual. Mas, afinal, o que são Histórias em Quadrinhos (HQs)? Conforme nos explica, trata-se de “textos em que a relação palavra-imagem – a verbo visualidade – é explorada ao máximo. [...] são um meio de comunicação em massa e têm grande circulação popular no mundo inteiro”. Vamos a outra pergunta: Quais são as principais características das HQs quanto à forma? São constituídas pelos seguintes elementos: Requadro - Conjunto de linhas que delimitam o espaço de cada cena (moldura) e formam o quadrinho. Calha - Trata-se do vão entre um quadrinho e outro, podendo delimitar o tempo. Balão – Representam o ato da fala dos personagens e dão suporte ao texto da conversa. Recordatório – Trata-se de um painel sem rabicho, utilizado pelo narrador para abordar algo não visível no quadrinho e/ou para apresentar o pensamento das personagens. Onomatopéias -Podem referir-se à representação do som ambiente. Desenho - Imagem. Neste sentido, observemos, as características na figura 4.4: Além das características estruturais, as HQs apresentam algumas especificidades quanto à linguagem, a saber: [...] possuem linguagem autônoma e utilizam mecanismos próprios para representar os elementos narrativos; [...] predomina o modo de organização narrativo, mas os outros modos também podem ser encontrados, tanto no texto verbal quanto no visual; a fala e o pensamento das personagens geralmenteaparecem em balões, que simulam o discurso direto e a língua oral; as histórias normalmente giram em torno de um personagem, que pode ser fixo ou não, e que conduz a ação; as histórias são recheadas de “metáforas visuais” (XAVIER, 2018, p. 11). No que diz respeito às contribuições de Maurício de Souza para a educação, podemos afirmar que as Histórias em Quadrinhos por apresentarem texto e imagem atraem a atenção das crianças, assim é possível abordar diferentes temáticas, pois é certo que atingirá o público-alvo. Em outras palavras, são obras que apresentam signos linguísticos e visuais, constituídos de linguagem verbal e a linguagem não verbal. Conforme Resende (2009, p. 126), “as HQs são “[...] obras ricas em simbologia – podem ser vistas como objeto de lazer, estudo e investigação. A maneira como as palavras, imagens e as formas são trabalhadas apresenta um convite à interação autor-leitor”. A respeito da utilização das HQs no processo de ensino-aprendizagem é recomendado pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental no que se refere ao uso dos gêneros do discurso no contexto da sala de aula para se trabalhar a leitura. Quanto ao Ensino Médio, [...] esse gênero veicula aspectos da realidade social, propiciando ao aluno a reflexão sobre temas sociopolíticos, econômicos e culturais que, muitas vezes, permeiam o conteúdo das histórias. [...] fomentam a compreensão acerca de diferentes manifestações artísticas e oferecem ao educando o elemento imagético (FERREIRA, 2011, p. 2). Vergueiro e Ramos (2009), reforçam a importância de se inserir as HQs na prática pedagógica, pois são textos necessários para a formação de leitores, permitindo que se realize a leitura de elementos verbais e não verbais. Ainda sobre isso, comentam que: [...] ii.) Palavras e imagens, juntos, ensinam de forma mais eficiente; iii.) Existe um alto nível de informação nos quadrinhos; iv.) As possibilidades de comunicação são enriquecidas pela familiaridade com as histórias em quadrinhos; v.) Os quadrinhos auxiliam no desenvolvimento do hábito de leitura; vi.) Os quadrinhos enriquecem o vocabulário dos estudantes; vii.) O caráter elíptico da linguagem quadrinística obriga o leitor a pensar e imaginar; viii.) Os quadrinhos têm um caráter globalizador; ix.) Os quadrinhos podem ser utilizados em qualquer nível escolar e com qualquer tema (VERGUEIRO, 2010, p. 21-25). Seguindo o mesmo raciocínio, Lotufo e Smarra (2014, p. 169) pontuam que tanto os roteiros quanto as quadrinizações de Maurício de Souza tem em vista a alfabetização e a (re)construção do indivíduo por de uma ótica relativizadora dos valores éticos, morais, afetivos e ambientais etc. Silvério e Rezende (2012, p. 227) mencionam que as HQs não se limitam ao público infantil, pois “diante do valor desse gênero, elas são lidas por leitores das mais diferentes faixas etárias, e que, além do entretenimento encontrado no decorrer da leitura, há, dentre outras possibilidades, a edificação do conhecimento”. Além disso, é válido pontuar que os quadrinhos estimular a compreensão de diferentes manifestações artísticas, bem como dão ao educando o elemento imagético, no qual a leitura tem sido cada vez mais solicitada nas diferentes práticas sociais do dia a dia - vivemos em uma cercada pela informação, fato que exige do indivíduo a capacidade de ler tanto do mundo como das múltiplas linguagens. Então, no contexto de sala de aula, no momento da leitura de um quadrinho é imprescindível que o estudante conheça os elementos que configuram esse gênero literário, bem como domine a linguagem quadrinhística para que compreenda o enredo. Assim, paulatinamente, se tornarão mais proficientes na leitura de elementos icônicos e verbais, típicos das HQs. Atividade - Leia o trecho a seguir: “As histórias em quadrinhos, ou simplesmente HQs, são bastante populares na cultura ocidental devido a sua linguagem simples e ao seu grande apelo imagético, sendo que a grande maioria dos personagens dessas histórias acabou sendo explorado por outros meios de comunicação de massa, como o cinema ou a televisão”. ÁVILA, Brayan Lee Thompsom; BERBERT, Anne Isabelle Vituri. O uso de HQ para o ensino de conceitos históricos de segunda ordem. História & Ensino, Londrina, v. 18, p. 07-30, Especial, 2012, p. 10. Dado o conceito de HQ e os seus conhecimentos sobre esse gênero textual, analise as afirmativas a seguir: I. As HQs, em sala de aula, podem ser utilizadas para estimular a leitura. II. Maurício de Souza, criador da HQ Turma da Mônica, além de ilustrador é poeta. III. Os PCNs sugerem a utilização das HQs para a promoção da aprendizagem. IV. Os elementos requadro, calha, balão e paisagem compõem a estrutura das HQs. Agora assinale a alternativa que apresenta a(s) afirmativa(s) corretas (s): a) I. b) I e III. c) II e III. d) I, II, e IV. e) I, II, III e IV. A Indissociabilidade Entre Língua e Literatura A dicotomização do ensino de língua em consonância com a literatura corrobora para a separação de elementos indissociáveis, fazendo com que os profissionais em formação façam a seguinte escolha: trabalhar com a língua ou trabalhar com a literatura. A leitura refere-se a uma construção subjetiva de leitores, os quais atuam sobre o texto levando em consideração os seus conhecimentos e sua bagagem cultural. O texto nos oferece um conjunto de pistas que direcionam o leitor na formação dos possíveis sentidos para a leitura. Quando se trabalha com a leitura, o docente está estimulando o discente a levantar hipóteses e checá-las, bem como confirmar ou descartá-las, por isso essa prática é tão importante em sala de aula. Os estudos sobre a literatura, por sua vez, supõem um trabalho efetivo com a leitura do texto literário no contexto escolar. Assim, deve-se ter em vista a formação de leitores de literatura, cujas práticas estão centradas na produção de leituras dos próprios alunos. Quando o docente concebe a leitura como uma construção subjetiva, presume um trabalho de interpretação por parte do leitor, acionando seus conhecimentos de mundo, linguagem, literatura etc. Com base no exposto, a formação do leitor de literatura pressupõe, portanto, que as práticas motivem os alunos a realizarem suas leituras em busca dos diversos sentidos que um único texto pode ter. [...] toda a interpretação, em princípio, é válida, porque advém da revelação do universo representado na obra, impedindo a fixação de uma verdade anterior e acabada, conseqüentemente, tornando o aluno um co-participante, e o professor, mais exível para o diálogo (ZINANI; SANTOS; WAGNER, 2007, p. 394). Dado o exposto, podemos conceber que o professor or deve exercer o papel de mediador entre o aluno e o texto literário, assim está dentro de seu escopo: organizar o espaço destinado à leitura, propor objetivos de leitura e questionamentos, tendo em vista o processo interpretativo, instigar a participação dos alunos, entre outros. s a i b a m a i s A leitura é a ferramenta que nos coloca em contato com o mundo escrito. É lendo que o leitor pratica sua emancipação intelectual, mediante a função liberatória da palavra. Entretanto, somente através da leitura da literatura é que o leitor pode extrapolar os limites de seu cotidiano e (re)criar sua história como sujeito ativo, crítico e reflexivo. A leitura da literatura, por meio da sinestesia, do envolvimento físico e psicológico dos sentidos, pelo aguçamento da curiosidade e pelas possibilidades emotivas que um livro pode conter, aprimora a linguagem e desenvolve a capacidade de comunicação com o mundo em variadas esferas. Quanto mais cedo se começar a ler, melhor. Fonte: Bueno (2014, on-line). Para saber mais, acesse: Dito isso, o leitor necessita ter a competência necessária e identificar as pistas do autor, bem como realizar uma boa interpretação. O texto apresenta ao leitor elementos gráficos (palavras, sinais) que funcionam como instruções, com as quaisé possível desvendar os significados, elaborar suas hipóteses e tirar suas próprias conclusões. No processo da leitura, por exemplo, esses elementos podem ser o leitor e o texto, o leitor e o autor, as fontes de conhecimentos envolvidas na leitura, existentes na mente do leitor, como conhecimento de mundo e conhecimento linguístico, ou ainda, o leitor e os outros leitores. No momento em que cada um desses elementos se relaciona com o outro, no processo de interação, ele se modifica em função desse outro. Em resumo, podemos dizer que, quando lemos um livro, provocamos uma mudança em nós mesmos, e que essa mudança, por sua vez, provoca uma mudança no mundo (LEFFA, 1999, p. 14-15). No que se refere à indissociabilidade entre língua e literatura deve-se comentar que ao situarmos os estudos de Língua e Literatura dentro da disciplina Língua Portuguesa é possível atingir o público-alvo, contribuindo para a sua formação como leitor. Isso tudo porque por meio da literatura é possível (re)pensar a linguagem, no que se refere ao potencial expressivo e estético. Dito isso, o leitor necessita ter a competência necessária e identificar as pistas do autor, bem como realizar uma boa interpretação. O texto apresenta ao leitor elementos gráficos (palavras, sinais) que funcionam como instruções, com as quais é possível desvendar os significados, elaborar suas hipóteses e tirar suas próprias conclusões. No processo da leitura, por exemplo, esses elementos podem ser o leitor e o texto, o leitor e o autor, as fontes de conhecimentos envolvidas na leitura, existentes na mente do leitor, como conhecimento de mundo e conhecimento linguístico, ou ainda, o leitor e os outros leitores. No momento em que cada um desses elementos se relaciona com o outro, no processo de interação, ele se modifica em função desse outro. Em resumo, podemos dizer que, quando lemos um livro, provocamos uma mudança em nós mesmos, e que essa mudança, por sua vez, provoca uma mudança no mundo (LEFFA, 1999, p. 14-15). No que se refere à indissociabilidade entre língua e literatura deve-se comentar que ao situarmos os estudos de Língua e Literatura dentro da disciplina Língua Portuguesa é possível atingir o público-alvo, contribuindo para a sua formação como leitor. Isso tudo porque por meio da literatura é possível (re)pensar a linguagem, no que se refere ao potencial expressivo e estético. Reflita A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante (CANDIDO, 1989, p. 117). Ademais, a respeito da concepção de “ensino de língua” e de “ensino de leitura” para um trabalho que desperte a criticidade e contribua para a formação do leitor é imprescindível que se integre as práticas de língua e literatura no contexto escolar, tendo em vista, sempre, a experiência pessoal de cada indivíduo com o texto literário. Em outras palavras: a literatura depende do modo em que é estudada e ensinada. Assim, sem o devido preparo e cuidado, os docentes acabam “incorrendo na tendência de pedagogizar o texto, obstruindo as preciosas respostas pessoais que tanto significam para o aluno em sua caminhada de descobertas e construção de novos significados” (BRANDÃO, 2007, p. 44). Atividade Leia o trecho a seguir: “[...] a presença do livro considerado mais atual e mais adaptado às características etárias e culturais do aluno visa promover a leitura, estimular o gosto pela literatura e fortalecer o número de seus consumidores”. ZILBERMAN, Regina. A leitura e o ensino da literatura. São Paulo: Editora Contexto, 1988, p. 126. Considerando o elemento-base a respeito do tema Língua e Literatura, considere as afirmativas a seguir: I. Para um ensino de qualidade, as práticas de língua e literatura no contexto escolar devem estar alinhadas. II. Cabe ao docente exercer o papel de mediador entre o aluno e o texto literário. III. Para a formação de um leitor de literatura, o docente deve pensar em práticas que motivem os alunos no momento de leitura. IV. A Língua e a Literatura para um ensino mais assertivo e profundo deve ser estudadas separadamente. Está correto o que se afirma em: a) I, apenas. b) I e III, apenas. c) II e III, apenas. d) I, II, III, apenas. e) I, II, III e IV. O Aluno Como Pesquisador Conforme estudamos, caro(a) aluno(a), o docente tem um papel fundamental na formação de leitores, visto que é o responsável pela mediação entre o texto e o leitor. O leitor, além da decodificação, deve captar e interpretar os sentidos do texto, bem como tenha a oportunidade de aumentar o seu horizonte de expectativas - tudo isso para a formação de um indivíduo pensante e crítico. Tendo em vista o exposto, no que se refere ao ensino de literatura, uma alternativa viável para a promoção de uma aprendizagem significativa é a utilização da pesquisa-ação, que objetiva unir teoria e prática. Metodologicamente, a pesquisa-ação tem por intuito realizando um planejamento, o qual engloba atividades a serem desenvolvidas por grupos, iniciando com a observação, o registro a análise e a reflexão - é nessa etapa que se realiza a avaliação também, a qual pode prever a necessidade de um novo planejamento ou uma sequência na pesquisa. Por meio desses passos, o docente garante autonomia e emancipação a todos os envolvidos. De acordo com Borges (2008, on-line): [...] a aprendizagem por meio da pesquisa coloca o aluno no papel de pesquisador e produtor de novos conhecimentos proporcionando uma aprendizagem dotada de finalidade e significado. É preciso que tal idéia se espalhe, proporcionando aos estudantes do primário ao stricto sensu novas possibilidades de conhecimento e aprendizado. Educar para a liberdade, a autonomia e responsabilidade, sabendo analisar situações complexas com raciocínio lógico e reflexão crítica, onde tudo isso deve fazer parte dos objetivos gerais do aluno-pesquisador, assim como o desenvolvimento de consciência permeada por valores éticos, humanísticos e tecnológicos Por meio da pesquisa-ação, a sala de aula transforma-se em um laboratório e os seus integrantes, docentes e discentes, tornam-se pesquisadores. Para a promoção de uma aprendizagem significativa por meio da pesquisa-ação é imprescindível observar algumas características, a saber: (a) a pesquisa deve ser um processo de aprendizagem para todos os envolvidos, superando a separação entre sujeito e objeto da pesquisa; (b) as estratégias e produtos terão validade para os envolvidos se houver apreensão e modificação de uma situação; (c) como é situacional, procura diagnosticar e resolver um problema, não se interessando por generalizações. No entanto, a repetição do estudo em diferentes situações com resultados semelhantes possibilita a enunciação de um resultado científico generalizável; (d) como a pesquisa-ação é autoavaliativa, o processo é constantemente monitorado, e o feedback converte-se em redefinições e mudanças de rumo; (e) como é cíclica, essa pesquisa possibilita, através das fases finais, o aprimoramento das fases anteriores. Uma proposta metodológica que privilegia a ação do aluno situa-o como centro do evento educacional (SANTOS; ZINANI, 2008, p. 73). Considerando as características apresentadas, a função do docente está ligado à orientação e acompanhamento do processo e das ações, além de promover o feedback, discussão e trabalho coletivo. Para a formação do aluno-pesquisador é necessário ter orientadores que realmente saibam proporcionar a aprendizagem de métodos e técnicas de pesquisa científica ao aluno orientado, e que saiba ainda estimular o desenvolvimento do pensar de modo científico e criativo nos alunos, em decorrência de condições criadas e confrontadas diretamente com os problemas de pesquisa, contribuindo ainda para diminuição das disparidades regionais na distribuição da competência científica no país (BORGES, 2008, on-line). Tendo em vista que o professor é o mediador do processo, apartir do fomento da discussão, em conjunto deve-se elencar os tópicos considerados importantes para a investigação e os objetivos do trabalho. Após o levantamento das questões norteadoras da pesquisa, o próximo passo diz respeito às estratégias metodológicas. Na sequência, realiza-se à discussão teórica e o planejamento das ações, a execução, a divulgação do trabalho e, por fim, a avaliação. É importante, neste processo todo, que o docente fomente as trocas de experiência e o debate sadio. R e f l i t a : O movimento entre produção e leitura é para nós um movimento que vem da produção para a leitura e desta retorna à produção (ao inverso do que costumam ser as práticas escolares tais como aquelas propostas pelos livros didáticos) (GERALDI, 1991, p. 188). Por meio da pesquisa-ação todos os alunos participam e há uma integração em sala de aula, além de promover um aprimoramento de competências e habilidades. Além disso, o discente passa a conhecer mais sobre o mundo e sobre si mesmo, buscando, assim, a sua própria aprendizagem. Aplicando a pesquisa-ação no ensino de literatura, vamos supor que os discentes tenham que realizar uma análise do gênero narrativo conto. Vejamos, a seguir, o passo a passo. Título da pesquisa: As particularidades do gênero conto infantil Em grupo 1. Delimitação dos objetivos Identificar os elementos organizacionais e estruturais dos contos; Investigar a finalidade do gênero textual conto; Conhecer diferentes tipos de contos, sobretudo o conto infantil. 2. Discussão Resgatar os conhecimentos prévios acerca do gênero conto; Conhecer as principais características do gênero, Elencar as especificidades do conto infantil. Delimitação de tópicos importantes para a investigação O que é um conto? Como o conto é constituído? Qual é a finalidade do conto? Quais são as características específicas do conto infantil? 4. Estratégias Metodológicas Cada grupo, procurará na biblioteca da escola e/ou utilizará a sala de informática para realização da pesquisa sobre o gênero conto - etapa do referencial teórico. Coleta de informações e seleção de um conto infantil. 1. Planejamento das ações Responder aos questionamentos: O que é um conto? Como o conto é constituído? Qual é a finalidade do conto? Quais são as características específicas do conto infantil? 2. Analisar o conto selecionado. 3. Apresentar para a turma. 6. Execução Cada grupo, após selecionar em fontes confiáveis, sob a supervisão do docente, deve produzir um texto dissertativo explicando o que é o gênero conto e suas principais características, destacando o conto infantil. Na sequência, encontrar no conto infantil selecionado as partes que compõem esse gênero (narrador, personagem, espaço, tempo, clímax etc.). Para a exposição dos elementos constitutivos do conto, o docente pode orientar os grupos a produzirem um espécie de infográfico, um esquema, exposto em um cartaz. 7. Divulgação do trabalho Para a divulgar os trabalhos, os grupos apresentarão oralmente para a turma e os cartazes serão expostos na sala de aula. 8. Avaliação A avaliação será em três etapas: autoavaliação; avaliação do grupo e avaliação por parte do docente. DIAGRAMAÇÃO se possível inserir informações neste modelo de infográfico: https://br.123rf.com/photo_38007991_creative-education-infographics-blackboard-with-a-tree-grown-up-and-divided- into-different-road.html Pesquisa-ação: Análise de um conto infantil a partir de pesquisa bibliográfica/literária A aprendizagem por meio da pesquisa-ação em literatura insere o estudante no papel de produtor de conhecimento - cientista da linguagem -, por esse viés as atividades passam a fazer sentido, pois há uma finalidade: a promoção da aprendizagem coletivamente. Além disso, por ser realizada em etapas e por meio de processos, o estudante tem confiança para expor sua pesquisa. Essa “metodologia” de trabalho pode ser aplicada desde o primário até o stricto sensu. A pesquisa- ação garante a todas as faixas etárias escolares autonomia e responsabilidade, pois o estudante passa a analisar as situações, racionalizar e refletir criticamente sobre o assunto que será trabalho. A t i v i d a d e A respeito a pesquisa-ação e de suas contribuições para o ensino-aprendizagem, leia o trecho a seguir, completando as lacunas. “[...] A principal característica da pesquisa-ação consiste em estabelecer uma rede de comunicação no nível de captação de informação e de divulgação; faz parte de um projeto de ação social ou da resolução de ______ coletivos. [...] Na pesquisa-ação é importante destacar como essencial o caráter espiral do __________, a concentração no plano de ação, cujos desenvolvimento e evolução permitem ampliar e clarificar o diagnóstico da situação. A pesquisa-ação na __________ procura através da integração de grupos diagnosticar e resolver as necessidades específicas da realidade vivida na sala de aula, escola e ou comunidade na qual se insere, provoca mudanças e possibilita ao professor teorizar o conhecimento a partir da sua ação na prática __________”. FRANCISCHEN, Mafalda Nesi. Refletindo sobre Pesquisa-Ação. Faz Ciência, Francisco Beltrão, v. 3, n.1, p. 167-176, 1999 Disponível em: <http://e-revista.unioeste.br/index.php/fazciencia/article/viewFile/7478/5529>. Acesso em: 30 abr. 2019. A ordem correta corresponde a: http://e-revista.unioeste.br/index.php/fazciencia/article/viewFile/7478/5529 a) dificuldades; processo; sala de aula; docente. b) problemas; processo; educação; pedagógica. c) situações; procedimento; matemática; de sala de aula. d) dúvidas; ensino; pedagogia; pedagógica. e) problemas; procedimento; sala de aula; pedagógica.