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Qual é o sinal clínico clássico da coarctação de aorta? 1.1 CIRCULAÇÃO FETAL Para compreender a dinâmica das cardiopatias congênitas, é importante recordar alguns aspectos da circulação fetal (Figura 1.1). O sangue oxigenado retorna da placenta pela veia umbilical. Cerca de metade do sangue proveniente da placenta passa através dos sinusoides hepáticos, enquanto o restante é desviado do fígado e segue pelo ducto venoso para a veia cava inferior. Fluindo por esta veia, o sangue entra no átrio direito do coração. A maior parte do sangue que penetra no átrio direito é dirigida pela crista dividens para o orifício forame oval, chegando, então, ao átrio esquerdo. Do átrio esquerdo, o sangue passa ao ventrículo esquerdo através da válvula mitral e a partir dessa cavidade é ejetado através da aorta ascendente. O coração, a cabeça e o membro superior direito recebem sangue com maior teor de oxigênio do que o restante do corpo. Cerca de 40 a 50% do sangue da aorta descendente passam pelas artérias umbilicais e retornam à placenta para reoxigenação. O restante suprirá as vísceras e a metade inferior do corpo. Como os pulmões do feto não são responsáveis pela oxigenação do sangue fetal e pelo fato de as artérias pulmonares serem extremamente sensíveis à hipóxia do ambiente intrauterino reagindo com vasoconstrição, existe grande resistência à circulação proveniente do ventrículo direito. Assim, as paredes deste ventrículo são hipertrofiadas na vida fetal. O sangue que chega ao átrio direito pela veia cava superior é proveniente da cabeça e membros superiores, além de pouco oxigenado. Esse volume de sangue passa preferencialmente através da válvula tricúspide, chegando ao ventrículo direito. Deste, é ejetado na artéria pulmonar. Em função da extrema vasoconstrição a que a artéria pulmonar e seus principais ramos estão submetidas, esse volume de sangue será desviado em cerca de 90%, por meio do canal arterial para a aorta, antes da saída da artéria subclávia esquerda. Isto levará a uma mistura de sangue a partir deste ponto da aorta, o que torna este sangue menos oxigenado. Dessa forma, o sangue com maior oxigenação do feto é o que irriga o próprio coração e o cérebro. Tal fato e a própria dinâmica da circulação fetal dependem das 3 estruturas próprias da circulação fetal: ducto venoso, forame oval e canal arterial – ducto arterioso. Figura 1.1 - Circulação fetal Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. Figura 1.2 - (A) Circulação pré-natal e (B) circulação pós-natal Figura 1.3 - Circulação fetal Com o nascimento, após o clampeamento do cordão umbilical e a ventilação pulmonar, ocorrem alterações importantes na circulação descrita. Ao ser ventilado – e insuflado – o pulmão, a sua resistência vascular cai expressivamente, e a circulação no ducto arterial é reduzida quase completamente. O ducto arterioso geralmente deixa de ser funcional nas primeiras 10 a 15 horas pós-parto, exceto em prematuros e naqueles com hipóxia persistente, situações em que pode permanecer aberto por mais tempo. O oxigênio constitui o fator mais importante do controle do fechamento do ducto arterioso. Durante a vida fetal, a abertura deste é controlada pelo baixo nível de oxigênio no sangue, já que o feto vive em ambiente com baixo teor de oxigênio, mantendo, então, o ducto pérvio. O ducto arterial também é mantido pérvio por meio da produção de prostaglandinas durante a vida intrauterina, assim, alguns inibidores da síntese de prostaglandinas, como a indometacina, são usados para promover o fechamento do ducto arterioso que persiste pérvio após o nascimento. Em algumas semanas ou meses processa-se o fechamento anatômico, e o ducto arterial se oblitera e passa a constituir o ligamento arterioso fibroso. A oclusão da circulação placentária provoca queda imediata da pressão sanguínea na veia cava inferior e no átrio direito. Devido ao fluxo sanguíneo pulmonar aumentado, a pressão no interior do átrio esquerdo fica maior que a do átrio direito, e essa pressão acarreta fechamento funcional do orifício do forame oval. Já o fechamento anatômico acontece mais tardiamente. Entendendo a circulação fetal, pode-se observar que o coração fetal funciona praticamente como bomba única, pois a oxigenação sanguínea se apresenta na placenta, e os pulmões fetais não são funcionantes, ocorrendo um shunt direito-esquerdo por meio do forame oval e do ducto arterial. Com o nascimento, ocorrem as alterações descritas e fundamentais para o acoplamento cardíaco à necessidade de oxigenação sanguínea nos alvéolos pulmonares. A grande maioria das malformações cardíacas é bem tolerada durante a vida intrauterina, produzindo sinais após o nascimento. 1.2 APRESENTAÇÃO CLÍNICA A incidência da cardiopatia congênita na população geral é de 1 a 2:1.000 nascidos vivos, distribuída de acordo com o exposto no Quadro 1.1. Trinta por cento dos casos recebem alta da maternidade sem esse diagnóstico. Durante as primeiras horas após o nascimento, o Recém-Nascido (RN) deve permanecer em observação quanto a qualquer sinal ou sintoma que possa gerar suspeita, embora, com a utilização rotineira da ultrassonografia obstétrica, especialmente a morfológica, cada vez menos cardiopatas têm nascido sem um diagnóstico durante a vida intrauterina. De qualquer forma, deve-se suspeitar de cardiopatia congênita sempre que o RN apresente quaisquer dos sinais que seguem: a) Taquipneia, cansaço ou cianose às mamadas; b) Qualquer tipo de sopro cardíaco ou alteração de bulhas cardíacas; c) Alteração de pulsos e/ou, hipertensão arterial sistêmica ou, ainda, diferença sensível da pressão arterial sistêmica entre os membros superiores e os inferiores; d) Arritmias – tais manifestações chamam atenção em qualquer RN. Com o passar dos dias, após o nascimento, é possível observar manifestações nos recém-nascidos cardiopatas, como impulsão torácica, precórdio hiperdinâmico e dificuldade de ganhar peso, hiperfluxo pulmonar ou, ainda, sinais de hipertensão pulmonar. Quadro 1.1 - Distribuição da incidência na população Em função dos tipos de repercussões presentes nas malformações congênitas cardíacas, classificam-se tais repercussões considerando ou não a presença de cianose. A cianose da criança com cardiopatia congênita é do tipo central, quase sempre generalizada; entretanto, em alguns casos, pode ser evidente no dimídio inferior (MMII) e ausente no dimídio superior (MMSS) e mucosas, ou vice-versa, a qual é denominada de cianose diferencial. A título de recordação, a cianose não se refere diretamente à oxigenação sanguínea, mas à relação de hemoglobina oxidada em comparação à reduzida. É observada quando a hemoglobina reduzida no sangue circulante é igual ou superior a 5 g/dL. Casos em que há déficit de oxigenação podem produzir cianose; contudo, em casos de anemia associada a má oxigenação, pode não haver. Casos em que a circulação e a perfusão estão diminuídas em uma parte do corpo e a oxigenação sanguínea não está prejudicada podem, igualmente, apresentar ausência de cianose, à medida que o pouco sangue que chega àquela área tem relação favorável de hemoglobina oxidada com relação à reduzida. 1.3 AVALIAÇÃO DA CRIANÇA COM CARDIOPATIA CONGÊNITA A avaliação inicial tem 3 aspectos: cianóticas versus acianóticas, radiografia de tórax e eletrocardiograma (ECG), e diagnóstico realizado por meio de ecocardiograma (ECO). Os defeitos cardíacos congênitos podem ser divididos em 2 grandes grupos, com base na presença ou ausência de cianose. Em seguida, podem, ainda, ser subdivididos conforme o fluxo pulmonar (normal, aumentado ou diminuído) observado na radiografia de tórax. O ECG pode ser usado para determinar a existência de hipertrofia das câmaras cardíacas. As características dos sons cardíacos e de sopros ajudam a estreitar o diagnóstico diferencial, e o diagnóstico final é confirmado por ECO, cateterismo cardíaco ou ambos. O teste de oximetria de pulso – “teste do coraçãozinho” – é um método de triagem de cardiopatias consideradas críticas no período neonatal.Deve-se realizar aferição da oximetria de pulso em todo RN aparentemente saudável com idade gestacional maior que 34 semanas, antes da alta da unidade neonatal. Deve-se realizar aferição no membro superior direito e em um dos membros inferiores, entre 24 e 48 horas de vida. O resultado normal evidencia saturação periférica maior que 95% em ambas as medidas, membro superior direito e membro inferior, e diferença menor do que 3% entre as medidas do membro superior direito e membro inferior. Quanto ao resultado anormal, caso qualquer medida da SpO2 seja menor do que 95% ou haja diferença igual ou superior a 3% entre as medidas do membro superior direito e membro inferior, uma nova aferição deverá ser realizada após 1 hora. Caso o resultado se confirme, um ECO deverá ser feito dentro das 24 horas seguintes. 1.3.1 Teste do coraçãozinho Figura 1.4 - Teste do coraçãozinho Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria, 2012. A oximetria de pulso é uma ferramenta de triagem neonatal. Figura 1.5 - Triagem neonatal de cardiopatia congênita crítica Fonte: elaborado pelos autores. 1.4 CARDIOPATIAS CONGÊNITAS ACIANÓTICAS As lesões mais comuns são as que produzem carga excessiva de volume. Entre elas, as mais frequentes são lesões com shunt esquerdo-direito: CIV, CIA e PCA. A segunda maior classe de lesões acianóticas corresponde às que provocam aumento da carga pressórica, secundárias à obstrução do fluxo de saída ventricular – estenose pulmonar, estenose aórtica – ou ao estreitamento de grandes vasos Coarctação da Aorta (CoAo). No caso de lesões com sobrecarga de volume – CIV, CIA, PCA –, a fisiopatologia comum é a comunicação entre as circulações sistêmica e pulmonar, resultando num shunt de sangue rico em oxigênio de volta para os pulmões. Esse shunt pode ser quantificado por meio do cálculo da razão do fluxo sanguíneo pulmonar pelo fluxo sistêmico (Qp:Qs). Um shunt 2:1 significa que o fluxo pulmonar está 2 vezes maior do que o normal. O remodelamento do coração ocorre com predomínio de dilatação e, em menor grau, hipertrofia. Caso a doença não seja tratada, há, progressivamente, aumento da resistência vascular pulmonar que pode reduzir o shunt ou mesmo inverter o seu sentido, passando a ser direito-esquerdo (fisiologia ou síndrome de Eisenmenger). Na síndrome de Eisenmenger, a resistência vascular pulmonar após o nascimento permanece alta ou aumenta depois de ter diminuído durante a lactância. Os principais fatores que levam a essa síndrome são pressão pulmonar aumentada, fluxo pulmonar aumentado, hipóxia e hipercapnia. No caso de lesões com sobrecarga de pressão, como: estenose pulmonar, estenose aórtica, CoAo; a fisiopatologia nessas lesões é uma obstrução do fluxo normal do sangue. As mais comuns são as obstruções do fluxo de saída dos ventrículos. Mecanismos de compensação levam a hipertrofia ventricular e dilatação em estágios mais avançados. 1.4.1 Comunicação interventricular (CIV) A CIV é a cardiopatia congênita mais comum. Nessa malformação congênita, há passagem de sangue do ventrículo esquerdo para o direito por intermédio de uma abertura no septo interventricular, em alguns casos, todo o septo interventricular está ausente. O shunt esquerdo-direito ocorre por diferença de pressão; como a pressão sistêmica, (pós-carga) é maior do que a encontrada na circulação pulmonar, o sangue dirige-se do local de maior pressão para o de menor pressão. Como resultado, parte do sangue já oxigenado e que está no ventrículo esquerdo é devolvida ao ventrículo direito e novamente impulsionada aos pulmões, determinando sobrecarga ventricular direita e aumento do trabalho cardíaco. Figura 1.6 - Comunicação interventricular Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. 1.4.1.1 Diagnóstico O shunt é menor no período neonatal. Eventualmente, as manifestações de insuficiência cardíaca, sobrecarga de volume, decorrentes da CIV só se manifestam de 2 a 3 meses após o nascimento, quando os níveis de pressão na circulação pulmonar declinam. Nesse momento, como a diferença das pressões entre os 2 ventrículos é grande, o fluxo esquerdo-direito pela CIV é máximo, exigindo trabalho cardíaco acima das suas capacidades. As manifestações clínicas iniciais podem restringir-se a apenas 1 sopro holossistólico na borda paraesternal esquerda, acompanhado ou não de frêmito. De acordo com a dimensão da CIV e/ou, em razão da queda da pressão pulmonar, podem advir as manifestações da insuficiência cardíaca, como dispneia, taquicardia e sudorese, dificuldade para mamar, infecções respiratórias, hipertensão pulmonar e sibilância. A radiografia de tórax pode evidenciar área cardíaca aumentada, principalmente o ventrículo esquerdo, além do aumento da trama vascular e da artéria pulmonar. O ECG pode mostrar alterações elétricas indicativas de sobrecarga de ventrículo esquerdo ou biventricular, onda T invertida em V-1 ou onda T ascendente. O ecocardiograma, o exame mais importante para a definição diagnóstica de comunicação interventricular e para a conduta clínica, evidencia o defeito anatômico, bem como o fluxo, se associado ao Doppler. Este também faz uma estimativa da hipertensão pulmonar caso ela esteja presente. Figura 1.7 - Radiografia de tórax com área cardíaca aumentada 1.4.1.2 Tratamento Com exceção das CIVs muito pequenas, que podem regredir espontaneamente, todas as demais devem ser operadas, de preferência durante os 2 primeiros anos de vida. Quanto a crianças com repercussões hemodinâmicas precoces, a correção deve ser feita precocemente, a fim de evitar lesão da vasculatura com consequente hipertensão pulmonar. Nos casos em que a conduta é expectante, há insuficiência cardíaca ou a cirurgia não pode ser realizada prontamente, são realizados restrição hídrica, uso de digital, diuréticos e vasodilatadores. Figura 1.8 - Melhora radiológica após cirurgia Fonte: Anesthetic management of children with congenital heart diseases presented for non cardiac surgery, 2009. 1.4.2 Comunicação interatrial (CIA) Nesse tipo de defeito, também não ocorre cianose, pois, à medida que a pressão atrial esquerda é maior do que a direita, há shunt esquerdo-direito. Novamente, aqui há recirculação de sangue já oxigenado. O fechamento inicial do forame oval é de natureza funcional, como se a valva fosse empurrada contra o “batente”, impedindo fluxo da esquerda para a direita. O fechamento anatômico do forame oval ocorre até o primeiro ano de vida. Defeitos na valva ou no próprio forame oval podem originar a CIA após o nascimento (Figura 1.9). Lembrando que, durante a vida intrauterina, há comunicação fisiológica entre os 2 átrios, embora o fluxo durante a vida fetal seja da direita para a esquerda. Figura 1.9 - Defeito do septo atrial Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. 1.4.2.1 Diagnóstico A sintomatologia depende do grau de shunt esquerdo-direito. As manifestações da comunicação interatrial são mais comuns por volta dos 3 ou 4 anos de vida, época em que as pressões intracavitárias cardíacas estão sujeitas a algumas alterações e resultam em maior shunt esquerdo-direito, aumento do átrio e ventrículo direitos, podendo chegar à dilatação da artéria pulmonar. Os sintomas mais frequentes, quando ocorrem, são dispneia, palpitações e fadiga. Infecções respiratórias e déficit ponderal podem acontecer, e a insuficiência cardíaca é um evento tardio. Ao exame físico cardíaco, podem ser auscultados desdobramento fixo de B2, que é típico dessa anomalia e ocorre pelo retardo no esvaziamento do ventrículo direito, o qual apresenta volume sanguíneo aumentado, sopro sistólico e, algumas vezes, sopro diastólico. À radiografia de tórax, pode-se observar aumento da área cardíaca, do tronco da artéria pulmonar e da trama vascular pulmonar. O ECG pode apresentar alterações de condução decorrentes da remodelação cardíaca, como QRS aumentado, e, em 50% dos pacientes, observa-se mudança na onda P, sugerindo aumento atrial direito. O cateterismo cardíaco aponta aumento da saturação do oxigênio nas amostras de sanguedo átrio direito, ventrículo direito e artérias pulmonares em relação às saturações de veias cavas superiores e inferiores. Figura 1.10 - Ressonância magnética cardíaca que evidencia a comunicação interatrial Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. 1.4.2.2 Tratamento A correção cirúrgica da CIA é indicada a sintomáticos e àqueles com relação fluxo pulmonar-sistêmico maior que 1,5:1. A correção cirúrgica deve ser realizada eletivamente por volta dos 2 anos, para evitar aumento crônico do átrio e do ventrículo direitos. O procedimento é simples e praticamente sem mortalidade. 1.4.3 Persistência do canal arterial O canal arterial (Figura 1.11) desempenha função primordial durante a vida intrauterina, com fluxo da artéria pulmonar para a artéria aorta. Com a aeração e a expansão pulmonares, há queda da resistência vascular pulmonar, de forma que, quando há fluxo residual pelo canal arterial, ele ocorre no sentido aorta-artéria pulmonar, desde que não exista associação a hipertensão pulmonar. Dessa forma, outra vez há “circulação fútil”, ou seja, parte do sangue já oxigenado retorna à circulação pulmonar. O fechamento funcional do canal arterial acontece fisiologicamente por volta das primeiras 10 a 15 horas de vida no RN a termo e, mais tardiamente, no pré-termo, entre o décimo quarto e o vigésimo dia de vida. Figura 1.11 - Persistência do canal arterial Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. Caso não haja sorologia materna conhecida para rubéola, aquela deve ser pesquisada na confirmação desse tipo de cardiopatia, embora a PCA seja relativamente mais prevalente em prematuros, independentemente da presença de outro tipo de doença. 1.4.3.1 Diagnóstico Os achados de exame físico são sopro contínuo, tipo maquinaria, no foco pulmonar e pressão arterial divergente (“fuga” da aorta → pulmonar). Vale lembrar que o RN prematuro responde mais satisfatoriamente às medidas farmacológicas para fechamento de um canal arterial persistente do que o nascido a termo. No entanto, no pré-termo, a descompensação cardíaca pode ser muito mais precoce quando comparada ao RN a termo. Na ausculta cardíaca, pode-se encontrar um sopro sistólico clássico em região infraclavicular e esquerda, descrito como sopro “em maquinaria” ou “em trovoada”. Também podem ser encontrados pulsos periféricos amplos e ampla pressão de pulso. Em casos de PCA de pequeno fluxo, normalmente não há repercussões nas pressões do átrio direito e do ventrículo direito, ao passo que PCA de fluxo mais expressivo acaba gerando aumento considerável nas pressões dessas 2 câmaras, bem como na artéria pulmonar. Nesse caso, a PCA pode levar a doença vascular pulmonar caso a doença de base não seja corrigida. Com o aumento da pressão na artéria pulmonar e as alterações anatômicas no leito arterial (muscularização), há elevação da pressão no leito, podendo levar a inversão do fluxo no ducto arterial e, consequentemente, cianose. Na radiografia de tórax, pode-se observar aumento (hipertrofia) das câmaras cardíacas esquerdas (Figura 1.12), o coração bombeia mais sangue do que o volume circulante pelo hiperfluxo, embora ocorra também aumento do ventrículo direito, da trama vasobrônquica e da aorta ascendente. Figura 1.12 - Radiografia de tórax que mostra aumento das câmaras cardíacas esquerdas Fonte: Conexão anômala parcial de veias pulmonares em átrio direito com ausência de comunicação interatrial, 2007. O ECG pode evidenciar alterações compatíveis com sobrecarga biventricular ou predomínio do ventrículo direito, uma vez que ela é mais precoce. O ECO com Doppler é o exame padrão-ouro, pois evidencia a própria persistência do canal e é possível que também evidencie o fluxo sanguíneo local. Pode, ainda, estimar a hipertensão pulmonar, quando ela está presente. As complicações são insuficiência cardíaca congestiva, endarterite e doença vascular pulmonar – Eisenmenger. 1.4.3.2 Tratamento A abordagem inicial da PCA baseia-se em restrição hídrica, diuréticos, visando diminuir o trabalho cardíaco, e ventilação mecânica, quando necessário. Tal abordagem visa promover o fechamento da PCA, tanto por medidas farmacológicas – indometacina, ibuprofeno; esperam-se de 48 a 72 horas, com fechamento em 80% dos casos – como por procedimentos cirúrgicos (toracotomia ou cateterismo). O tratamento é feito com drogas (indometacina), cirurgia e cateterismo (“coils”). Figura 1.13 - Cateterismo com “coil” São contraindicações do uso do inibidor da prostaglandina E: a) Sepse; b) Plaquetopenia – menor que 80.000; c) Hemorragia intracraniana; d) Hiperbilirrubinemia; e) Sangramento renal ou enteral; f) Creatinina maior que 1,8 ou débito urinário menor que 1 mL/kg/h. 1.4.4 Retorno venoso anômalo parcial das veias pulmonares A síndrome da cimitarra é uma anomalia parcial da drenagem venosa do pulmão direito para a veia cava inferior. À radiografia de tórax, vê-se sombra de densidade vascular na silhueta cardíaca direita. Figura 1.14 - Cimitarra Fonte: Worldantiques, 2014. Figura 1.15 - Síndrome da cimitarra Fonte: JVinocur, 2010. 1.4.5 Estenose pulmonar Figura 1.16 - “Fácies de elfo” Tal cardiopatia diz respeito a defeitos na valva pulmonar e em seu anel, na região infundibular ou acima do anel pulmonar. A estenose pulmonar está associada à rubéola congênita. Ocorre a síndrome de Williams quando há associação a estenose aórtica supravalvar, hipercalcemia idiopática, “fácies de elfo” e retardo mental. 1.4.5.1 Diagnóstico Classicamente, está qualificada entre as cardiopatias acianóticas, no entanto, quando o grau de estenose é importante, pode apresentar- se com cianose, dispneia e fadiga, que pioram ao esforço físico. Outros achados ao exame físico incluem primeira bulha acentuada na área tricúspide e segunda bulha na área pulmonar, estalido protossistólico pulmonar e sopro sistólico em ejeção no segundo espaço intercostal esquerdo irradiado para a região infraclavicular esquerda e, algumas vezes, o pescoço. Eventualmente, o sopro pode ser de tal intensidade que encobre as bulhas. O ventrículo direito trabalha contra um obstáculo: a pressão em seu interior apresenta- se aumentada, podendo haver hipertrofia concêntrica, ou seja, aumento da espessura de suas paredes maior do que o aumento do volume de seu interior. Essa hipertrofia pode ser observada por radiografia de tórax, ECO ou ECG. Este pode evidenciá-la de forma indireta, por meio das alterações elétricas que gera desvio do eixo para a direita, ondas T positivas em derivações direitas e onda Q em V1 associada a sobrecarga atrial direita. O ECO demonstra, morfologicamente, estenose, mobilidade e espessura dos folhetos valvares, tamanho do anel valvar, dilatação pós-estenótica e gradiente transvalvar. Figura 1.17 - Radiografia de tórax mostrando trama vascular pulmonar diminuída na presença de aumento das cavidades direitas Nota: o arco médio retificado orienta para a presença de obstrução da via de saída do ventrículo direito. Fonte: Caso 1/2007 – Criança de três anos com Estenose Pulmonar Infundibular, 2007. 1.4.5.2 Tratamento O objetivo do tratamento é a correção da estenose por meio de valvoplastia com cateter e balão cirúrgico precoce seguido de profilaxia para endocardite. Quando há estenose pulmonar com cianose, o uso de prostaglandina E-1 pode proporcionar melhora do quadro. 1.4.6 Estenose aórtica Somente obstruções mais graves causam sintomas na infância. No quadro clínico, o aumento da obstrução resulta em aumento da área cardíaca, hipertrofia do ventrículo esquerdo, e diminuição do pulso. 1.4.6.1 Diagnóstico Evolui com aparecimento súbito de insuficiência cardíaca congestiva, edema pulmonar e, algumas vezes, colapso periférico. Além disso, ocorre aparecimento de frêmito sistêmico sobre a área aórtica, fúrcula e cervical, com estalido protossistólico aórtico e mitral e sopro rude em ejeção de máxima intensidade sobre o rebordo esternal direito. A radiografia revela área cardíaca normal nas estenoses discretas e dilatação aórtica e hipertrofiade ventrículo esquerdo nas estenoses graves. No ECG, há desvio de eixo para a esquerda, aparecimento de onda R em V5 e V6, profunda em V1 e V2, com padrão de “strain”, e alteração de repolarização ventricular. O ECO serve para análise da válvula, mobilidade, espessura, tamanho do anel, dilatação pós-estenótica, gradiente transvalvar, hipertrofia do ventrículo esquerdo e obstruções subvalvares e supravalvares. Figura 1.18 - Radiografia de tórax que salienta a dilatação do arco superior à direita correspondente a aorta ascendente dilatada Fonte: Caso 7/2003 - Instituto do coração do hospital das Clínicas da FMUSP, 2003. 1.4.6.2 Tratamento Compreende seguimento do paciente assintomático e profilaxia de endocardite. Nos casos críticos, trata-se primeiramente a insuficiência cardíaca congestiva e prepara-se para a cirurgia. 1.4.7 Coarctação da aorta Em 98% dos casos a coarctação é justaductal. Figura 1.19 - Coarctação da aorta Fonte: Nelson Textbook of Pediatrics. Associada à síndrome de Turner e à válvula bicúspide em mais de 70% dos casos, trata-se de um estreitamento ou de obstrução do arco aórtico que pode ocorrer antes da emergência do canal arterial, na própria junção da aorta com este ou mesmo após a emergência deste, porém, ainda no arco. Pode, também, ser classificada em relação à emergência da artéria subclávia esquerda, 98% dos casos ocorrem abaixo dela, na posição justaductal ou mesmo pré-ductal. Figura 1.20 - Coarctação da aorta Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. Lembrando da circulação fetal e da posição do ducto arterial, note-se que o ducto arterial se insere na aorta após a emergência das artérias subclávias. Por isso, em casos de CoAo em que o estreitamento acontece antes do ducto arterial, a circulação para os órgãos abdominais e para os membros inferiores ocorre por intermédio da manutenção da permeabilidade desse ducto. O sangue proveniente do ventrículo direito é desviado para a aorta descendente por intermédio do ducto arterial, e, dessa forma, é garantida a circulação abaixo da coarctação, embora com baixa concentração de oxigênio. 1.4.7.1 Diagnóstico Ao quadro clínico estará presente o sinal clássico, que é a diferença de pulso e pressão de membros superiores e inferiores. Por meio da palpação simultânea de pulsos, será verificado o atraso radial- femoral. Figura 1.21 - Cianose diferencial Fonte: Nelson Textbook of Pediatrics. O quadro clínico pode variar desde totalmente assintomático até com manifestação clara de insuficiência cardíaca. O sinal clínico de maior expressão de coarctação da aorta é a diferença de pulsos e de pressão arterial entre os membros inferiores e superiores. Os pulsos femorais, poplíteos, tibiais posteriores e pediosos são mais fracos quando comparados aos braquiais, radiais e carotídeos. Tal diferença varia na dependência da circulação pelas artérias mamárias internas e intercostais oriundas das subclávias ou, até mesmo, das artérias frênicas e vertebrais. A diferença nas pressões sistólicas pode variar entre 145 mais ou menos 12mmHg nos membros superiores e 70 mais ou menos 10 mmHg nos membros inferiores. Precórdio pulsátil ou hiperdinâmico não é raro, bem como a presença de frêmitos. À ausculta, verifica-se sopro sistólico na borda esternal esquerda entre o terceiro e o quarto espaços intercostais, que se irradiam para o dorso e o pescoço. Em alguns casos, pode haver sopro sistólico audível na região interescapular, na altura correspondente à coarctação. Atualmente, o diagnóstico é obtido, em especial, por meio de ECO. Entretanto, outros exames podem contribuir, como o ECG, que pode mostrar alterações importantes no seguimento ST e ondas T negativas em V5 e V6. As alterações na radiografia de tórax dependem da idade do paciente, dos efeitos da hipertensão arterial e da circulação colateral. Entre os lactentes, verificam-se aumento de área cardíaca e congestão pulmonar e, nas crianças maiores, aumento acentuado do ventrículo esquerdo. A partir da primeira década, acentua-se tal aumento, e a artéria subclávia aumentada é visualizada com uma sombra no mediastino superior. Eventualmente, verifica-se imagem de dilatação da aorta descendente. Utilizando-se de radiografia de esôfago contrastado, pode-se encontrar uma imagem de “3 invertido”, com espessamento das bordas inferiores das costelas com erosão central – sinal de Röesler. Figura 1.22 - Sinal de Röesler (setas) Fonte: Medical Pictures Info. 1.4.7.2 Tratamento No tratamento inicial do RN em estado grave, administra-se prostaglandina até a avaliação do grau de comprometimento da circulação e, se necessário, manutenção da medicação até correção cirúrgica. Em alguns casos, pode-se fazer correção eletiva, desde que o RN se encontre assintomático. Em casos de RN com sinais de insuficiência cardíaca, esta deve ser primeiramente compensada para, em seguida, ser realizado procedimento cirúrgico. Entretanto, um ótimo momento para a correção cirúrgica está entre o segundo e o quarto ano. As complicações aumentam com a idade, podendo ocorrer, nos adultos não tratados, hipertensão arterial, encefalopatia hipertensiva, coronariopatia, além de endarterite e endocardite. 1.4.8 Defeito do septo atrioventricular É uma anormalidade do desenvolvimento dos coxins endocárdicos que resulta em uma CIA tipo ostium primum, uma CIV e uma única valva atrioventricular. Comporta-se mecanicamente como uma grande CIV. O shunt ocorre da esquerda para a direita, e pode ocorrer aumento da resistência pulmonar. É a anomalia cardíaca mais frequente nos pacientes com síndrome de Down. Clinicamente se manifesta por dispneia, baixo desenvolvimento ponderoestatural e infecções respiratórias de repetição. Ao exame, o sopro pode ser discreto pois as pressões nos átrios e ventrículos é equilibrada. A segunda bulha é hiperfonética e pode ser desdobrada. Quando a hipertensão pulmonar se desenvolve com hiper- resistência vascular pulmonar aparece a cianose generalizada, que é mais precoce nos pacientes com síndrome de Down. O exame padrão ouro para seu diagnóstico é o ecocardiograma com Doppler. O tratamento é sempre cirúrgico. 1.5 PROLAPSO MITRAL Anormalidade valvar mais comum, ocorre geralmente por degeneração mixomatosa na valva e nas cordoalhas. A valva fica espessada e alargada, e quando o ventrículo esquerdo se contrai, os folhetos da valva se projetam para dentro do ventrículo, permitindo refluxo do sangue para dentro do átrio esquerdo. Quando o prolapso é significativo pode levar à insuficiência cardíaca e arritmia. A causa da degeneração mixomatosa é desconhecida, mas tem um forte componente hereditário. É especialmente frequente na síndrome de Marfan. A maioria dos pacientes são assintomáticos, porém quando há queixa o cansaço e a palpitação são as queixas mais frequentes. Quando intenso, o prolapso se manifesta com sinais de insuficiência cardíaca. Ao exame físico ocorre estalido mitral característico seguido por um ruído ou sopro. O exame padrão-ouro é o ecocardiograma com Doppler. O tratamento não é necessário na maioria dos pacientes. Pacientes com regurgitação mitral ou evidência de degeneração mixomatosa devem receber profilaxia com antibiótico antes de qualquer procedimento que possa causar bacteriemia. Qual é o sinal clínico clássico da coarctação de aorta? O sinal clínico clássico da coarctação de aorta é a diferença de pulso e pressão de membros superiores e inferiores. Por meio da palpação simultânea de pulsos, será verificado o atraso radial-femoral. Quais alterações caracterizam a tetralogia de Fallot? 2.1 INTRODUÇÃO As cardiopatias congênitas podem ser divididas de acordo com a fisiopatologia, com fluxo pulmonar diminuído – por exemplo: tetralogia de Fallot, anomalia de Ebstein e outras – ou aumentado – transposição dos grandes vasos, truncus arteriosus e outros. A radiografia de tórax é útil para a diferenciação inicial entre essas 2 categorias. As lesões cianóticas com fluxo pulmonar diminuído incluem obstrução do fluxo sanguíneo pulmonar emassociação a existência de um caminho pelo qual o sangue venoso sistêmico possa ser desviado da direita para a esquerda e entrar na circulação sistêmica. O grau de cianose depende da gravidade da obstrução do fluxo pulmonar. Caso a obstrução seja leve, o paciente pode ser acianótico em repouso, além da hipótese de crises hipercianóticas em condições de estresse. Nos casos de obstrução muito grave, o fluxo pulmonar pode depender da patência do ducto arterial. Quando o ducto se fecha nos primeiros dias de vida, o neonato passa por profunda hipoxemia e choque. As lesões cianóticas com fluxo pulmonar aumentado apresentam a cianose causada por conexões ventriculoarteriais anormais – transposição dos grandes vasos – ou por mistura total do sangue venoso sistêmico e pulmonar no coração – truncus arteriosus. 2.2 TETRALOGIA DE FALLOT Tal cardiopatia consiste em 4 alterações interligadas, que produzem cianose exatamente devido à concomitância de algumas destas (Figura 2.1). A tetralogia de Fallot envolve comunicação interventricular, estenose pulmonar, dextroposição da aorta e hipertrofia do ventrículo direto. Figura 2.1 - Tetralogia de Fallot Legenda: (A) Tetralogia de Fallot – a) estenose da válvula pulmonar; b) hipertrofia do ventrículo direito; c) dextroposição da aorta; d) comunicação intraventricular; (B) radiografia de tetralogia de Fallot “em tamanco holandês”. A obstrução na via de saída do ventrículo direito leva a aumento da pressão durante a sístole. Dessa forma, na dependência do grau da obstrução, há shunt direito-esquerdo entre os ventrículos. A aorta dextroposta situa-se, parcialmente, sobre a comunicação interventricular (CIV), por consequência, uma parte do sangue lançado na circulação sistêmica é constituída de hemoglobina reduzida. Quando a obstrução é discreta, o fluxo entre os ventrículos acontece da esquerda para a direita. Portanto, o grau de obstrução na via de saída do ventrículo direito determina o grau de cianose e da sintomatologia do paciente. A cianose pode não ser inicialmente observada na dependência da permeabilidade do canal arterial, ou seja, o sangue é desviado do ventrículo direito para o esquerdo e lançado na artéria aorta. Na dependência do valor de pressão da artéria pulmonar, pode haver fluxo da aorta para a artéria pulmonar e daí para os pulmões, sendo então oxigenado. Caso essa situação se perpetue, as manifestações de insuficiência cardíaca podem preceder a cianose. Em outros casos, esta pode surgir gradativamente à medida que se fecha o canal arterial. 2.2.1 Diagnóstico O quadro clínico pode variar de discreta cianose em mucosa, lábios e leitos ungueais, eventualmente visíveis apenas ao choro ou à mamada, e apresentar-se com baqueteamento de dedos e hipodesenvolvimento físico em casos mais expressivos. O exame físico pode evidenciar sopro sistólico ejetivo, segunda bulha única e frêmito. Também é comum haver policitemia, um mecanismo de compensação da cianose. Crises hipercianóticas ou hipoxêmicas ocorrem com lactentes e crianças até 2 anos, são paroxísticas e caracterizam-se por hiperpneia, irritabilidade e choro prolongado – que aumenta a cianose –, podendo levar o lactente a síncope, convulsões e, esporadicamente, morte. Tais crises podem ocorrer quando há aumento da resistência ao fluxo de saída do ventrículo direito ou diminuição da resistência sistêmica, pelo aumento do shunt direito-esquerdo e queda na oxigenação ainda maior do que a existente de base. No momento da crise, deve-se colocar o paciente em posição genupeitoral – cócoras – por diminuir a circulação nos membros inferiores e consequente redução do shunt direito- esquerdo, administrar oxigênio e morfina. O diagnóstico, na maioria das vezes, é obtido intraútero por ultrassonografia, porém a doença não tem repercussão nesse período. Após o nascimento, o ecocardiograma (ECO) continua a ser o exame de eleição, em virtude da sua facilidade e acurácia. A radiografia de tórax mostra área cardíaca normal ou discretamente aumentada, botão aórtico saliente e ápice cardíaco elevado acima do diafragma. O coração apresenta-se com imagem semelhante a um tamanco holandês, sendo assim chamada. Em 25% dos casos, ocorre arco aórtico para a direita: coração em sabot. O eletrocardiograma (ECG) mostra alterações elétricas compatíveis com hipertrofia ventricular direita, onda T ascendente em V1 com onda R pura e sem onda S. Figura 2.2 - Radiografia de tórax – diagnóstico da tetralogia de Fallot Fonte: Caso 6/2004 – lactente de 14 meses com tetralogia de Fallot e com discreto hiperfluxo pulmonar. Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP, 2004. 2.2.2 Tratamento O tratamento para as crises hipercianóticas de hipóxia é composto por: a) Oxigênio; b) Morfina para suprimir o centro respiratório e abolir a taquipneia; c) Posição genupeitoral para aumentar a resistência vascular periférica; d) Vasoconstritores para aumentar a resistência vascular sistêmica: epinefrina 0,01 mg/kg; e) Bicarbonato de sódio – 1 mEq/kg – intravenoso; f) Betabloqueadores para relaxar a musculatura infundibular – propranolol via IV; g) Cetamina – 1 a 3 mg/kg – para sedar e aumentar a resistência vascular periférica; h) Tetralogia de Fallot – o tratamento para RNs com obstrução importante compreende, inicialmente, a manutenção de prostaglandina em infusão contínua até ser realizada a cirurgia paliativa – shunt Blalock-Taussig –. Esta é indicada para crianças abaixo de 6 meses, com más condições clínicas ou com anatomia desfavorável. Consiste em um conduto que liga a artéria subclávia ao ramo homolateral da artéria pulmonar. A cirurgia corretiva deve ser feita entre 3 meses e 1 ano, e consiste em alívio da obstrução do trato de saída de ventrículo direito, removendo as faixas de músculo ali localizadas e promovendo o fechamento da CIV com um patch. Por vezes pode ser necessária uma valvotomia – valva pulmonar estenótica. 2.2.3 Complicações a) Trombose cerebral – policitemia, desidratação – menor que 2 anos; b) Abscesso cerebral – maior que 2 anos; c) Endocardite. 2.3 ANOMALIA DE EBSTEIN DA VÁLVULA TRICÚSPIDE Na anomalia de Ebstein da válvula tricúspide, temos, como alterações, aumento no tamanho do átrio direito, válvula tricúspide regurgitante, obstrução ao fluxo de saída do ventrículo direito – tricúspide “em vela de barco” – e excesso de volume do átrio direito pelo forame oval para o átrio esquerdo: shunt que gera cianose. Figura 2.3 - Radiografia de tórax de paciente com anomalia de Ebstein e esquema com as correspondências anatômicas Trata-se de uma doença rara, que representa 0,04% das cardiopatias congênitas e consiste no deslocamento para baixo de válvula tricúspide anormal, entrando no ventrículo direito e dividindo-o em 2 partes: a primeira, que é uma continuidade do átrio direito, e a segunda, menor, que funciona como ventrículo. O átrio direito é muito grande, e a válvula tricúspide, em geral, regurgitante (Figura 2.4). Figura 2.4 - Anomalia de Ebstein Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. O débito do ventrículo direito é baixo. Já o aumento de volume do átrio direito leva a desvio do sangue deste, por meio do forame oval, para o átrio esquerdo, provocando a cianose. Quanto ao quadro clínico, neonatos com formas graves de anomalia de Ebstein apresentam cianose intensa, cardiomegalia gigante e sopro sistólico; também são comuns o ritmo de galope e a presença de estalidos. O fluxo pulmonar costuma depender do canal arterial. 2.3.1 Diagnóstico O diagnóstico é feito com o ECG, que indica bloqueio do ramo direito; pode ocorrer taquicardia supraventricular – síndrome Wol�- Parkinson-White –; a radiografia revela cardiomegalia, e o ECO ou o cateterismo confirma o diagnóstico. Figura 2.5 - Radiografia de tórax com grande aumento de área cardíaca à custa das câmaras direitas Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular. 2.3.2 Tratamento O tratamento em neonatos com hipóxia grave deve ser feito com prostaglandina. Algumas vezes é indicado shunt aortopulmonar– procedimento de Starnes –, ao passo que o tratamento cirúrgico está indicado para os pacientes com insuficiência cardíaca, cardiomegalia progressiva, arritmia cardíaca e cianose. 2.4 TRANSPOSIÇÃO DE GRANDES ARTÉRIAS A Transposição de Grandes Artérias (TGA) é uma malformação cardíaca congênita em que a relação atrioventricular está mantida, de forma que parte ou todo o sangue que chega ao átrio direito passa ao ventrículo direito. O sangue proveniente da circulação chega ao átrio direito por meio das veias cavas. Do ventrículo direito emerge a artéria aorta, devolvendo o sangue à circulação sistêmica (Figura 2.6). O sangue proveniente dos pulmões chega ao átrio esquerdo, de onde parte, ou todo o sangue chega ao ventrículo esquerdo. Deste emerge ao tronco pulmonar, retornando aos pulmões. Como se pode notar, caso não haja mistura desse sangue em algum ponto, têm-se 2 circulações “fechadas” não comunicantes e os tecidos jamais receberiam sangue oxigenado. Figura 2.6 - Fluxo invertido Legenda: (A) coração normal – circulação normal; (B) coração com malformação – circulação em coração com transposição dos grandes vasos. Por isso, é impossível haver sobrevivência. Caso contrário, certamente o sangue da circulação sistêmica se misturaria ao da circulação pulmonar. Na maioria das vezes, isso acontece por meio de CIA, CIV e/ou PCA. A TGA pode apresentar-se com septo interventricular íntegro ou com CIV. No caso de septo interventricular íntegro, a comunicação entre as 2 circulações acontece por meio da CIA e do canal arterial. Com seu o fechamento, há aumento da cianose e insuficiência cardiorrespiratória gradativa. A transposição de grandes artérias apresenta maior incidência em filhos de diabéticas e em homens (3:1). 2.4.1 Diagnóstico A ausculta cardíaca apresenta sopro sistólico em ejeção e de intensidade variável na área pulmonar, segunda bulha única e, no caso de PCA, sopro contínuo. O ECG apresenta alterações elétricas que indicam desvio de eixo para a direita, sobrecarga ventricular direita e V1 com morfologia Rs e R’ com onda T positiva em V1 e V2. Quando há CIV, a comunicação entre as 2 circulações está garantida; mesmo com o fechamento do canal arterial, a cianose eventualmente pode não ser vista e, quando presente, não revela grande piora com o seu fechamento. No entanto, após a terceira semana de vida, o RN já pode apresentar algum sinal de insuficiência cardíaca, com taquicardia e taquipneia. A ausculta pode apresentar- se com sopro contínuo de alta frequência e de localização paraesternal esquerda baixa, com segunda bulha hiperfonética em área pulmonar e tricúspide. O ECG mostra alterações elétricas sugestivas de sobrecarga de câmaras esquerdas e ventrículo direito. Figura 2.7 - Radiografia de tórax com situs solitus visceral Nota: segundo arco escavado com afilamento de estruturas mediastinais e proeminência vascular pulmonar com discreta oligoemia periférica, típica de portador de transposição de grandes artérias. Fonte: Portadora de transposição das grandes artérias operada em idade pré-escolar, 2007. 2.4.2 Tratamento As opções de tratamento são: a) Prostaglandina E1; b) Atriosseptostomia de Rashkind; Em se tratando de cirurgia: a) Troca arterial (cirurgia de Jatene), a qual deve ser feita nas primeiras 2 semanas de vida, porque o ventrículo esquerdo pode hipotrofiar e não aguentar a pressão; b) TGA com CIV, a qual pode ser feita após 2 semanas de vida, uma vez que a CIV equaliza as pressões entre os ventrículos. O tratamento baseia-se, sempre, no uso de prostaglandina E-1, na forma intravenosa e contínua, oxigênio, correção de qualquer distúrbio acidobásico e/ou hidroeletrolítico, atriosseptostomia com cateter balão ou lâmina e, no caso de insuficiência cardíaca, uso de digoxina e diuréticos. E o tratamento cirúrgico, sempre indicado, pode ser a cirurgia de Jatene, de Senning ou, ainda, de Rastelli, de preferência até a segunda semana de vida. 2.5 RETORNO VENOSO PULMONAR ANÔMALO TOTAL Nessa condição, as veias pulmonares podem drenar acima ou abaixo do diafragma. O diagnóstico é feito por meio de radiografia de tórax, e é patognomônica em crianças maiores a imagem “em boneco de neve”. Figura 2.8 - Imagem “em boneco de neve” 2.6 SÍNDROME DO CORAÇÃO ESQUERDO HIPOPLÁSICO Nessa síndrome, não há o desenvolvimento do lado esquerdo do coração (atresia aórtica, atresia mitral). Dentre as alterações, estão a hipoplasia da aorta ascendente e o ventrículo esquerdo não funcional. O ventrículo direito mantém as circulações sistêmica e pulmonar. Figura 2.9 - Fisiologia da síndrome do coração esquerdo hipoplásico Legenda: os números dentro dos círculos representam os valores de saturação de oxigênio. Fonte: Nelson Textbook of Pediatrics. Figura 2.10 - Fisiologia da síndrome do coração esquerdo hipoplásico Nota: o sangue com pouca oxigenação, oriundo da circulação sistêmica, retorna ao átrio direito normalmente. A maior parte do sangue oxigenado que retorna dos pulmões para o átrio esquerdo atravessa um defeito do septo atrial para se unir ao sangue pouco oxigenado no átrio direito. Esse sangue misto é, então, ejetado pelo ventrículo direito para a artéria pulmonar. O sangue na artéria pulmonar é direcionado aos pulmões e à aorta através de um canal arterial patente. Fonte: adaptado de Comparison of Shunt Types in the Norwood Procedure for Single- Ventricle Lesions, 2010. 2.6.1 Tratamento A cirurgia de Norwood possui 3 estágios (respectivamente, Figuras 2.11, 2.12 e 2.13). Figura 2.11 - Primeiro estágio Legenda: (A) o tronco da artéria pulmonar é transectado, e é criada uma (B) “neoaorta”, formada com a cirurgia de Norwood e o shunt de Blalock-Taussig modificado. Figura 2.12 - Segundo estágio: anastomose de Glenn Figura 2.13 - Terceiro estágio: procedimento de Fontan com a utilização de um conduto extracardíaco para conectar o fluxo sanguíneo da veia cava inferior com a artéria pulmonar Figura 2.14 - Procedimento de Fontan 2.7 TRUNCUS ARTERIOSUS Um tronco arterial único sai do coração e supre as circulações sistêmica e pulmonar. Uma CIV está sempre presente com o tronco arterial, ficando logo acima da CIV, recebendo sangue tanto do ventrículo direito quanto do esquerdo. O tronco arterial origina a aorta ascendente e a artéria pulmonar (Figura 2.15). A saturação de oxigênio na aorta é a mesma que a observada na artéria pulmonar, definição de lesão com mistura total. 2.7.1 Diagnóstico O quadro clínico apresenta-se de modo que, como o fluxo pulmonar é grande, há pouca cianose. O hiperfluxo pulmonar também leva a insuficiência cardíaca. O truncus arteriosus pode estar associado à síndrome de DiGeorge. A síndrome de DiGeorge envolve orelhas de baixa implantação, boca pequena, fenda palatina, ausência de timo e das paratireoides, anomalias cardíacas, atraso mental, déficit de crescimento, convulsões e problemas cognitivo-comportamentais. Figura 2.15 - Radiografia de tórax de paciente jovem com truncus arteriosus Nota: área cardíaca aumentada e mediastino estreito; percebe-se, ainda, pletora pulmonar. 2.7.2 Tratamento O tratamento é cirúrgico e compreende o fechamento da CIV, a separação da artéria pulmonar do tronco arterial e o estabelecimento de um circuito entre o ventrículo direito e a artéria pulmonar (reparo de Rastelli). Figura 2.16 - (A) Coração normal e (B) coração com truncus arteriosus Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. Quais alterações caracterizam a tetralogia de Fallot? A tetralogia de Fallot é caracterizada pela presença de comunicação interventricular, dextroposição da aorta, estenose pulmonar e hipertrofia de ventrículo direito. Como deve ser aferida a pressão arterial nas crianças e adolescentes e como é definida e classificada a hipertensão arterial? 3.1 INTRODUÇÃO A Hipertensão Arterial (HA) é conceituada pela 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, publicada em 2016, como uma condição clínica multifatorial caracterizada pela elevação sustentada dos níveis pressóricos. A porcentagemde crianças e adolescentes com HA dobrou nas últimas décadas, com prevalência estimada de 3,5%, e esse aumento é atribuído ao aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade na população pediátrica. A etiologia da HA pediátrica depende muito da idade, sendo que nas crianças menores é mais frequente a HA secundária a nefropatias e, em adolescentes, a HA primária associada a causas genéricas e obesidade. A HA nas crianças costuma ser assintomática, porém 40% já podem apresentar hipertrofia de ventrículo esquerdo, fator preditor importante de arritmias e de insuficiência cardíaca na idade adulta, além da lesão de outros órgãos-alvo como retina e carótidas. Além disso, a Pressão Arterial (PA) elevada durante a infância se correlaciona com aumento da PA na idade adulta e presença de HA. Já a presença de valores normais de PA durante a infância se correlaciona com a ausência de HA na idade adulta. O diagnóstico precoce e tratamento da PA elevada na infância se associa ao menor risco de comorbidades na vida adulta, como HA e síndrome metabólica, e por isso se recomenda a aferição anual da PA em consultas de rotina a partir dos 3 anos de idade para todas as crianças. As crianças menores de 3 anos devem ter sua PA avaliada em situações de risco específicas, como nefropatias, uso de drogas que elevam a PA e cardiopatias congênitas. A aferição da PA deve ser feita respeitando-se as padronizações de medição, que serão abordadas no decorrer deste capítulo. 3.2 DEFINIÇÕES Em 2004, com a publicação do National High Blood Pressure Education Program (NHBPEP), foi unificada e normatizada a classificação da PA na população pediátrica. Em Pediatria, diferentemente da população adulta, os valores pressóricos normais são definidos de acordo com dados obtidos a partir da aferição da PA de crianças sadias e distribuídos em uma tabela normativa com base na idade cronológica, sexo e percentil de estatura. A publicação de 2004 foi atualizada em 2017 pela American Academy of Pediatrics com os novos valores e classificação de PA que serão abordados ao longo do capítulo. A grande mudança foi a retirada das crianças com sobrepeso e obesidade das tabelas, o que causou uma diminuição nos valores considerados normais de PA, e consequentemente, um aumento no número de hipertensos. A 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial foi publicada em 2016 e, portanto, utiliza a classificação adotada em 2004. A Sociedade Brasileira de Pediatria já recomenda a adoção dos novos valores e termos publicados pela American Academy of Pediatrics em 2017. É considerada PA normal qualquer valor de Pressão Arterial Sistólica (PAS) e Pressão Arterial Diastólica (PAD) que esteja abaixo do percentil 90 – p90 – para idade, sexo e estatura. Isso não mudou com a atualização das tabelas dos valores de PA. De acordo com a classificação abordada na 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, crianças e adolescentes que apresentam PAS e/ou PAD ≥ p95 em 3 aferições diferentes são considerados hipertensas. Crianças com valores de PAS e/ou PAD ≥ p90 e < p95 e adolescentes com PAD/PAS ≥ 120x80 mmHg e < p95 são considerados pré-hipertensos. A hipertensão estágio 1 (HA 1) era considerada quando os valores pressóricos estavam entre o percentil 95 – p95 – e 5mmHg acima do percentil 99 – p99 –. A hipertensão estágio 2 (HA 2) era considerada quando os valores pressóricos estivessem mais que 5 mmHg acima do p99. A nova classificação não considera mais o p99 e muda o termo “pré- hipertensão” para “pressão arterial elevada”, além de dividir as crianças e os adolescentes de 13 anos ou mais, conforme as Tabelas a seguir. Tabela 3.1 - Para crianças entre 1 e 13 anos de idade Fonte: American Academy of Pediatrics, 2017. Tabela 3.2 - Para crianças de 13 anos ou mais Fonte: American Academy of Pediatrics, 2017. 3.3 ETIOLOGIA A HA pode ser primária, sem causa identificável, ou secundária, com causa identificável. A HA primária é a mais prevalente em adolescentes, principalmente naqueles com sobrepeso e obesidade. No entanto, é um diagnóstico de exclusão, e as causas secundárias devem ser investigadas sempre que possível. A obesidade, sexo masculino, etnias hispânica e africana, histórico familiar de HA, ausência de aleitamento materno e agravos no período perinatal e pós-natal são fatores de risco para a HA primária. Considerar como mais frequente a hipertensão secundária em crianças menores e hipertensão primária em crianças maiores de 6 anos e adolescentes. A HA secundária é mais frequente em crianças mais jovens, menores de 6 anos, mas pode acometer todas as faixas etárias. As doenças renais correspondem à principal etiologia – 60% a 90%– e incluem nefropatias parenquimatosas, renovasculares e obstrutivas. As doenças endócrinas, como excesso de mineralocorticoides e doenças da tireoide, correspondem a 5% dos casos, e a coarctação de aorta, a 2%. A HA secundária também pode ser secundária a neurofibromatose, ser causada por medicamentos— corticoides, anticoncepcionais orais, estimulantes do sistema nervoso central – por exposição ambiental – substâncias como mercúrio, cádmio, ftalatos e chumbo – ou por HA monogênica. 3.4 DIAGNÓSTICO 3.4.1 Aferição da pressão arterial A aferição da PA deve ser feita em crianças saudáveis pelo menos uma vez ao ano a partir dos 3 anos de idade. Crianças com 3 anos ou mais, com fatores de risco para HA, devem ter sua PA aferida em cada visita ao serviço de saúde. Crianças menores que 3 anos, em situações de risco para HA, devem ter sua PA aferida em toda consulta de rotina ou conforme necessário. São fatores de risco para aferição de PA em menores que 3 anos: a) Nefropatias, ITU de repetição; b) Cardiopatias congênitas corrigidas ou não; c) Em uso de drogas que elevam a PA; d) Prematuro menores que 32 semanas, muito baixo peso ao nascer, com antecedente de cateterização umbilical ou outras complicações com necessidade de internação em UTI no período neonatal; e) Submetidos a transplantes de órgãos sólidos ou medula óssea; f) Neoplasias; g) Evidências de aumento da pressão intracraniana; h) Outras doenças associadas à hipertensão – neurofibromatose, anemia falciforme. Aferir a PA pelo menos 1 vez ao ano em crianças saudáveis ≥ 3 anos. Nas crianças ≥ 3 anos com fator de risco para HA, aferir a PA em toda visita médica. Aferir a PA em crianças < 3 anos com fatores de risco para HA conforme necessário. Para aferir a PA, a criança deve estar calma por pelo menos 5 minutos, preferencialmente sentada, com os pés e as costas apoiados. Alimentos ou bebidas estimulantes não devem ser oferecidos antes da aferição. O braço escolhido deve ser o direito – pacientes com coarctação de aorta têm uma PA falsamente baixa no braço esquerdo – e ele deve estar apoiado no nível do coração. O método preferencial é o auscultatório e, na sua ausência, indica-se o método oscilométrico. Caso ocorra alteração no valor da PA pelo método oscilométrico, esta deve ser confirmada com o método auscultatório. Deve-se sempre usar um manguito adequado para cada criança. A escolha do manguito é feita através da medida da circunferência do braço no ponto médio entre o acrômio e o olecrânio. O comprimento da bolsa inflável deve ser de 80 a 100% da circunferência do braço, e a largura deve equivaler a 40% da circunferência do braço. O comprimento do manguito deve ser de 80 a 100% da circunferência do braço, e a largura deve equivaler a 40% da circunferência do braço. Os manguitos menores que os ideais superestimam a PA, e os maiores mostram valores mais baixos. Figura 3.1 - Técnica de medida da pressão arterial Fonte: adaptado de Hipertensão arterial na infância, 2003. Aferir a PA pelo menos 2 vezes, no mesmo braço, com um intervalo de tempo de 1 a 2 minutos. Se o valor da segunda medida for > 5 mmHg, afere-se novamente até que se chegue a um valor estável. Caso a medida da PA no membro superior direito esteja elevada, outra aferição deve ser feita no membro superior esquerdo e em um dos membros inferiores. Essa medida deve ser feitacom o paciente deitado e o manguito deve ser colocado na panturrilha de modo a cobrir pelo menos 2 terços da distância entre o tornozelo e o joelho. O diagnóstico de HA só deverá ser feito se as medidas de PAS e/ou PAD estiverem ≥ p95 ou ≥ 130x80 mmHg em pelo menos 3 visitas diferentes ao serviço de saúde. O diagnóstico de HA só deve ser feito quando as medidas de PAS e, ou PAD estiverem maior que p95 ou maior que 130x80 mmHg em pelo menos 3 visitas diferentes ao serviço de saúde. Muitas vezes, as crianças que apresentam aumento de PA na primeira visita têm redução importante nos valores de PA na visita subsequente. É o chamado efeito de acomodação, que resulta da diminuição da ansiedade da primeira medida, responsável pela Hipertensão do Avental Branco (HAB). A HAB é uma situação clínica na qual o paciente apresenta valores elevados de PA quando aferida no consultório, porém apresenta valores normais de PA quando aferidas por Medida Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA) ou Medida Residencial da Pressão Arterial (MRPA). A prevalência descrita de HAB nas crianças é de 22 a 32%. A realização de MAPA em crianças e adolescentes é indicada na investigação da HAB, na hipertensão mascarada e no seguimento de pacientes com PA elevada ou HA. 3.4.2 Anamnese Detalhar as informações sobre o nascimento, crescimento e desenvolvimento, antecedentes de doenças renais e urológicas, endócrinas, cardíacas e neurológicas. Avaliar o histórico nutricional e se há consumo aumentado de sódio, alimentos com muita gordura e bebidas açucaradas em detrimento de vegetais, frutas e alimentos com pouca gordura. Avaliar o histórico de atividade física e sedentarismo, histórico psicossocial – depressão, bullying, ansiedade, maus-tratos, uso de álcool e tabaco – e história familiar de hipertensão. 3.4.3 Exame físico Sempre avaliar peso, estatura e índice de massa corpórea nas curvas padronizadas. Um exame físico detalhado pode mostrar indícios de que a HA é secundária ou evidenciar lesão de órgão-alvo e complicações associadas a HA. Atraso no crescimento pode ser indício de doença crônica, aumento da frequência cardíaca pode indicar hipertireoidismo ou fenilcetonúria, hipertrofia das adenoides está associada a distúrbios do sono, e acantose nigricans sugere resistência a insulina e diabetes. Sempre avaliar a PA nas crianças que já têm diagnóstico de HA ou de PA elevada nos 2 braços e em 1 das penas. A PA normalmente é cerca de 10 a 20 mmHg mais elevada nos membros inferiores do que nos superiores. Uma inversão nesses valores pode indicar coarctação de aorta. 3.4.4 Exames complementares Os exames subsidiários têm como objetivo definir a etiologia da HA, identificar lesão de órgão-alvo e fatores de risco cardiovascular. De acordo com a 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial, todas as crianças e adolescentes com HA 1 e 2 devem ser avaliadas para buscar lesão de órgão-alvo. Polissonografia ou poligrafia residencial está indicada para crianças e adolescentes com distúrbio de sono. Exames específicos para investigar HA secundária estão listados a seguir: a) Hemograma completo; b) Função renal e eletrólitos (incluindo cálcio e magnésio); c) Perfil lipídico; d) Ácido úrico sérico; e) Glicemia de jejum; f) Exame de urina I e urocultura; g) Radiografia de tórax; h) Eletrocardiograma – ecodopplercardiograma; i) Ultrassonografia renal com Doppler de artérias renais; j) Fundoscopia. São exames para confirmação de hipertensão arterial secundária: a) Dosagem de eletrólitos na urina, proteinúria, creatinina urinária; b) Nível sérico de renina (ou atividade de renina plasmática), aldosterona, cortisol salivar, PTH, TSH, T4 livre e T3 livre; c) Eletroforese de hemoglobina; d) Autoanticorpos específicos: FAN, anti-DNA, p-ANCA, c-ANCA; e) Catecolaminas e metanefrinas na urina (ou metanefrina plasmática) e cintilografia com metaiodobenzilguanidina. A American Academy of Pediatrics recomenda, além dos exames citados anteriormente, também solicitar aos pacientes obesos hemoglobina glicada, transaminases – pesquisa de esteato-hepatite – e perfil lipídico em jejum. 3.5 MANEJO INICIAL DO PACIENTE ATÉ O DIAGNÓSTICO 3.5.1 Pacientes com pressão arterial elevada A American Academy of Pediatrics recomenda que, após a primeira consulta, o paciente com PA elevada seja orientado quanto a mudanças do estilo de vida, como perda de peso, reeducação alimentar e atividade física, e que seja reavaliado em 6 meses. Se a PA persistir > p90, (checar a PA sempre nos 2 braços e em 1 das pernas), reforçar as orientações de mudança no estilo de vida e reavaliar o paciente após mais 6 meses. Se após os 12 meses, e 3 medidas, o paciente persistir com PA elevada, solicitar MAPA e todos os exames da investigação inicial. Considerar encaminhar ao cardiologista ou nefrologista pediátrico para acompanhamento específico. 3.5.2 Pacientes com valores de pressão arterial estágio HA 1 Para os pacientes que estão assintomáticos, a American Academy of Pediatrics recomenda, inicialmente, a terapia não farmacológica com mudança do estilo de vida e reavaliação em 1 a 2 semanas. Se após esse período a PA persistir > p95 na aferição auscultatória (2 braços e 1 perna), as orientações nutricionais e de atividade física devem ser reforçadas e a PA deve ser reavaliada em 3 meses. Se após as 3 visitas o paciente continuar com HA 1 e assintomático, solicitar MAPA, exames iniciais de triagem e encaminhar para o especialista. 3.5.3 Pacientes com valores de pressão arterial estágio HA 2 A American Academy of Pediatrics recomenda que o paciente com HA 2 (PA > p95 + 12 mmHg) assintomático receba as recomendações de mudança de estilo de vida e que seja reavaliado dentro de 1 semana. A qualquer momento pode ser encaminhado para um centro de referência. Se após 1 semana a PA persistir com níveis de HA 2, pode-se ou solicitar MAPA, exames iniciais de triagem e iniciar o tratamento, ou encaminhar o paciente dentro de 1 semana para avaliação com especialista. Se em qualquer momento o paciente com HA 2 estiver sintomático e/ou com valores de PA > 30 mmHg acima do p95 – ou > 180x120 nos adolescentes –, encaminhar com urgência ao serviço de emergência. #IMPORTANTE A MAPA serve para fazer diagnóstico de HA, afastar a hipertensão do “avental branco” e avaliar o controle do tratamento dos pacientes com HA. Quadro 3.1 - Comparação da classificação da pressão arterial entre as Diretrizes de 2004 e 2017 3.6 TRATAMENTO Anteriormente, considerava-se como alvo do tratamento atingir valores pressóricos < p95. Sabe-se atualmente que crianças e adolescentes com a PA entre p90 e p95 têm risco aumentado de desenvolver doença cardiovascular e hipertrofia de ventrículo esquerdo no início da vida adulta. Portanto, o objetivo atual do tratamento farmacológico e não farmacológico é manter níveis pressóricos < p90 ou < 130x80mmHg em adolescentes. #IMPORTANTE O objetivo do tratamento da HA é atingir valores de PA < p90 em crianças ou < 130x80 mmHg em adolescentes. 3.6.1 Medidas não farmacológicas Inicialmente, recomenda-se mudança no estilo de vida. A redução de peso mostra bons resultados na criança obesa, e a prática de atividade física tem um bom efeito sobre os valores da PAS. A 7ª Diretriz Brasileira de Pressão Arterial recomenda a prática de exercício aeróbico moderado por 30 a 60 minutos e, se possível, diariamente. Pode-se realizar treinamento resistido ou localizado com supervisão, exceto levantamento de peso. Não há contraindicação a esportes competitivos, exceto para pacientes com HA 2 ainda não controlada. A dieta deve ser mais saudável e pode incluir restrição de sódio com suplementação de potássio e cálcio. A American Academy of Pediatrics recomenda a dieta chamada Dietary Approaches to Stop Hypertension (DASH), rica em frutas, vegetais, laticínios com baixo teor de gordura, grãos integrais, peixes, aves, castanhas, carne vermelha magra e com consumo restrito de açúcares e sódio (Quadro 3.2). Quanto à atividade física, a recomendação do novo guideline é de atividadeaeróbica vigorosa por 30 a 60 minutos, de 3 a 5 vezes por semana. Quadro 3.2 - Dieta DASH Fonte: American Academy of Pediatrics, 2017. 3.6.2 Medidas farmacológicas O tratamento medicamentoso deve ser iniciado em toda criança ou adolescente com HA sintomática, HA secundária, HA persistente não responsiva às medidas não farmacológicas, presença de lesão de órgão-alvo, diabetes tipo 1 e 2 e doença renal crônica. A recomendação é iniciar com uma só droga de primeira linha em baixa dose e ajustar a cada 2 a 4 semanas conforme a resposta. Se a PA não atingir os valores desejados, um segundo medicamento deve ser introduzido, associando-o à terapia inicial. A utilização de todas as classes de anti-hipertensivos parece segura no grupo pediátrico. A American Academy of Pediatrics não recomenda iniciar o tratamento isolado com betabloqueadores. Opta-se por iniciar com inibidor da enzima conversora de angiotensina, bloqueador do receptor de angiotensina, bloqueador dos canais de cálcio ou diurético tiazídico. O tratamento da HA secundária deve ser realizado em consonância com o processo fisiopatológico de base, levando em consideração as comorbidades de cada caso. O Quadro 3.3 apresenta as drogas mais utilizadas na HA pediátrica. Quadro 3.3 - Anti-hipertensivos orais mais utilizados na hipertensão arterial pediátrica Fonte: 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. 3.6.3 Crise hipertensiva A Emergência Hipertensiva (EH), caracterizada por aumento abrupto da PA associada a lesão de órgão-alvo que pode incluir acometimento neurológico, renal, ocular, hepático ou insuficiência miocárdica, manifesta-se como encefalopatia, convulsões, alterações visuais, alterações no eletrocardiograma ou ecocardiograma, insuficiência renal ou hepática. A redução da PA deve ocorrer de maneira lenta e progressiva. No Brasil, a medicação mais utilizada no tratamento da EH é o nitroprussiato de sódio. Vale lembrar que seu metabólito é o cianeto e, se a medicação for utilizada por mais de 24 horas, o paciente deve ter controle do nível sérico. Após estabilização da PA, pode-se iniciar anti-hipertensivo por via oral. A urgência hipertensiva é caracterizada por elevação aguda da PA associada a sintomas menos graves em um paciente com risco de lesão de órgão-alvo sem evidência de acometimento recente. Seu manejo pode ser feito com medicações via oral, com redução da PA em 24 a 48 horas. Pacientes com tumores produtores de catecolamina podem ser inicialmente alfabloqueados com fenoxibenzamina, seguida de adição cuidadosa de um betabloqueador. Na crise hipertensiva causada por sobrecarga de volume, por exemplo, nos pacientes com glomerulonefrite aguda, a furosemida é a droga inicial de escolha. Em caso de oligúria ou anúria, outros anti-hipertensivos podem ser utilizados concomitantemente, podendo haver necessidade de diálise para controle volêmico. No Quadro 3.4 estão os anti-hipertensivos mais usados na crise hipertensiva. Quadro 3.4 - Anti-hipertensivos mais usados em pediatria para emergência hipertensiva Fonte: 7ª Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial. 3.7 CONCLUSÃO A HA na infância está associada a eventos desfavoráveis e comorbidades no futuro. Sua incidência vem aumentando progressivamente, principalmente associada a obesidade. O diagnóstico precoce e o tratamento da HA na infância associam-se a menor risco de HA e de aumento da ateromatose carotídea na vida adulta. Como deve ser aferida a pressão arterial nas crianças e adolescentes e como é definida e classificada a hipertensão arterial? A medida da PA é feita preferencialmente com a criança calma, em ambiente agradável, em repouso de pelo menos 5 minutos, sentada, com o braço direito estendido na altura do coração. O manguito deve possuir uma câmara interna com largura correspondente a 40% da circunferência do braço (medida no ponto médio entre o olécrano e o acrômio) e o comprimento equivalente a 80 a 100% da mesma, sem superposição. Ela é classificada em primária e secundária, e em relação aos percentis tem a seguinte classificação: 1. PA normal: PAS e PAD < p90; 2. PA elevada (antigo pré-hipertensão): PAS e/ou PAD ≥ p 90 e < p 95 ou entre 120x80 mmHg e < p95; 3. Hipertensão estágio 1: PAS e/ou PAD ≥ p95 e < 12 mmHg acima do p95 ou entre 130x80 mmHg a 139x89 mmHg; 4. Hipertensão estágio 2: PAS e/ou PAD ≥ 12 mmHg acima do p95 ou ≥ 140x90 mmHg. Como abordar inicialmente uma criança em parada cardiorrespiratória? 4.1 INTRODUÇÃO A parada cardíaca, ou parada cardiorrespiratória (PCR) – cessação da atividade mecânica do coração –, cursa com inconsciência, apneia e ausência de pulso central palpável. Entre lactentes e crianças, em geral, não acontece por causas cardíacas primárias, mas por falência respiratória progressiva ou choque. Em geral, situações de hipóxia, hipercapnia e acidose prolongadas progridem para bradicardia e hipotensão e podem culminar em uma PCR. Dentre as causas cardíacas que levam a essa condição, a fibrilação ventricular e a taquicardia ventricular sem pulso são os ritmos cardíacos iniciais em apenas 5 a 15% das crianças que evoluem para PCR, e a incidência de ambas aumenta com a idade. Entre as crianças com doenças cardíacas de base – cardiopatias congênitas, miocardiopatias –, a PCR causada por arritmias deve ser considerada, assim como os casos de intoxicação por drogas – digitálicos. No ambiente pré-hospitalar, os eventos mais associados à parada cardíaca são trauma, Síndrome da Morte Súbita do Lactente (SMSL), afogamento por submersão, envenenamento, engasgo, asma grave e pneumonia. A SMSL, por sua vez, acomete crianças menores de 1 ano e constitui um quadro multifatorial em que a asfixia por reinalação e diminuição dos despertares leva ao entorpecimento – hipóxia, hipercapnia. Em resumo, é o óbito no lactente de até 1 ano sem causa aparente e definida, e é mais comum quanto mais jovem a criança. Estudos recentes têm revelado que tanto a SMSL quanto a morte súbita em crianças maiores e em adultos jovens podem estar relacionadas a mutações genéticas que causariam alterações nos canais iônicos cardíacos, o desbalanço eletrolítico dentro e fora de células cardíacas poderia predispor a arritmia. Os fatores de risco e protetores para a síndrome de morte súbita do lactente são recorrentemente abordados nas provas; fatores de risco são dormir na região prona (“de barriga para baixo”), pais e/ou cuidadores tabagistas, uso de protetores de berço e cobertas e hipotermia ou hipertermia no recém-nascido. O principal fator protetor é dormir na posição supina (“de barriga para cima”), e a vacinação. O aleitamento materno ainda não teve seu efeito protetor comprovado em relação à prevenção para a síndrome da morte súbita. A ressuscitação cardiopulmonar (RCP) é um conjunto de medidas que tem como objetivo a manutenção dos sinais vitais por meio da ventilação, da circulação e do estabelecimento de via aérea pérvia. Diversas ações, como as compressões torácicas, a desfibrilação e o uso de drogas fazem parte de sequências padronizadas pela American Heart Association (AHA) e divididas em suporte básico e avançado de vida em pediatria. As diretrizes da AHA nada mais são do que formas de sistematizar o atendimento, a fim de avaliar, identificar e intervir sobre o agravo, de forma protocolar, com o objetivo de fornecer um atendimento mais rápido, preciso e com melhores resultados a condições de alta mortalidade. A sobrevida durante a RCP é de 7 a 11%, porém, quando a parada é apenas respiratória, sem assistolia, é de 75 a 90%, números que justificam a importância da prevenção da PCR, por meio do reconhecimento precoce dos sinais de insuficiência respiratória e circulatória, que podem culminar com a ocorrência. Em se tratando de sobrevida e prevenção, vale lembrar que os traumas são a principal causa de morte na faixa etária de 1 ano até a adolescência. Figura 4.1 - Cadeias de sobrevivência para o atendimento do Suporte Avançado de Vida em Pediatria (PALS), pela American Heart Association Fonte: Manual doProfissional, PALS, 2015. Os elos da cadeia de sobrevivência proposta pela AHA têm como finalidade aumentar a sobrevida e a qualidade de vida. A cadeia atual inclui o elo “prevenção”, uma vez que, as principais causas de mortalidade na faixa etária pediátrica são causas externas ou trauma. 4.2 SUPORTE BÁSICO DE VIDA As ações incluídas no suporte básico de vida objetivam aumentar a sobrevivência e melhorar a qualidade de vida, uma vez que fazem parte de sua cadeia de sobrevivência os seguintes elos e/ou itens: prevenção do trauma, início precoce e eficiente da RCP, conexão a um sistema de emergência, transporte e suporte avançado. Em 2010, foram publicadas pela AHA novas recomendações para a sequência de RCP, que incluem a mudança do ABC (vias aéreas – Airway; ventilação – Breathing; compressões torácicas – Circulação) para o CAB (compressões torácicas, via aérea e respiração), priorizando as compressões torácicas, já que a vasta maioria das vítimas que necessitam de RCP compreende adultos com fibrilação ventricular, cujo prognóstico depende de compressões torácicas iniciadas prontamente e com o mínimo de interrupções possível. Outra justificativa para a mudança em crianças seria a simplificação da sequência de treinamento para que fosse contemplado maior número de vítimas de falência cardíaca, inclusive pelo público leigo. Entretanto, é preciso certificar-se da necessidade da RCP, checando a responsividade da vítima e a sua respiração, para então iniciar as compressões torácicas e as demais ações descritas na Figura 4.2. Vale lembrar que as diretrizes da Academia Americana de Pediatria para o Suporte Básico e Avançado de Vida (BLS e PALS) são indicadas a partir da alta do serviço de Neonatologia – maternidade— até a adolescência, marcada para este fim pelo aparecimento do broto mamário nas meninas e pilificação nos meninos. Figura 4.2 - Suporte básico de vida Nota: atualização da diretriz de ressuscitação cardiopulmonar da American Heart Association de 2015 para Pediatria. Fonte: American Heart Association, 2015. 4.2.1 Avaliação da segurança do ambiente Em primeiro lugar deve ser avaliada a segurança do socorrista, a fim de não gerar nova vítima. O atendimento só deverá ocorrer se o ambiente for seguro para isso. 4.2.2 Responsividade A responsividade é testada segurando firmemente a vítima nos 2 ombros, e chamando pelo seu nome. Nos lactentes menores de 1 ano deve-se bater nas solas dos pés, também chamando pelo seu nome. No caso de não responsividade, deve ser chamada ajuda imediatamente, para desfibrilador automático – DEA – e serviço de remoção avançado. Se houver 2 socorristas, um inicia as manobras de ressuscitação enquanto o outro chama pela ajuda. Se o socorrista estiver sozinho, ou aciona o serviço médico de emergência pelo telefone celular ou abandona a vítima para fazê-lo, antes de iniciar os procedimentos. 4.2.3 Respiração e circulação Deve-se observar a elevação do tórax e sentir o fluxo de ar pelas vias aéreas da criança e checar o pulso, simultaneamente. Nos menores de 1 ano, checa-se o pulso braquial e/ou femoral e, nos maiores de 1 ano, carotídeo ou femoral. A avaliação de respiração e circulação não deve durar mais do que 10 segundos, e caso não seja identificado movimento ventilatório regular e pulso as manobras de ressuscitação devem ser iniciadas. Se não houver evidência de trauma, a criança poderá ficar em posição de recuperação, decúbito lateral, que mantém a via aérea patente. Na suspeita de trauma craniano ou raquimedular, o pescoço e a cabeça devem estar alinhados e, quando necessário, ser movimentados em bloco. Recomenda-se a manobra de tração da mandíbula com estabilização da coluna vertebral. 4.2.3.1 Compressões torácicas Devem ter a frequência de compressões ritmadas entre 100 e 120 compressões por minuto, bem como profundidade de 1 terço do diâmetro anteroposterior do tórax da criança, cerca de 4 cm no lactente, 5 cm em crianças maiores e até 6 cm, no máximo, em adolescentes. É importante permitir a reexpansão do tórax após cada compressão, pois isso melhora o retorno do fluxo sanguíneo ao coração. Em lactentes, um único socorrista pode realizá-la por meio da técnica dos 2 dedos sobre o esterno abaixo da linha intermamilar. Em crianças maiores, o socorrista deve comprimir a metade inferior do esterno com 1 ou 2 mãos, com 1 sobre a outra. 4.2.3.2 Abertura das vias aéreas e ventilação A manobra de elevação da mandíbula com leve extensão do pescoço deve ser realizada para iniciar a ventilação. Se houver bolsa-valva- máscara disponível, esta deve ser utilizada. A máscara deve cobrir boca e nariz, sem escape de ar, e o reservatório ser de dimensão adequada de forma que permita expansão torácica eficaz, sem barotrauma. Entretanto, no caso de não haver material, no lactente, poderá ser utilizada a técnica boca a boca e nariz, a boca do socorrista deve englobar a boca e o nariz do lactente, e em crianças maiores, o boca a boca, técnica em que é importante pinçar o nariz da vítima durante a ventilação. Se a RCP for realizada em apenas 1 socorrista são indicadas 30 compressões por 2 ventilações. Em 2 socorristas 15 compressões por 2 ventilações. A cada 2 minutos, ou 5 ciclos, as manobras devem ser interrompidas de forma breve, checado pulso, e caso o paciente mantenha a condição de parada cardiorrespiratória continuar a RCP, invertendo as funções ventilação e compressão. Se houver possibilidade de intubação orotraqueal as compressões e ventilações passam a ser realizadas de forma independente: 100 a 120 compressões por minuto e 12 a 20 ventilações por minuto. A vantagem é a redução de interrupções nas compressões, a cada interrupção há grande redução de fluxo cerebral e coronariano, e são necessárias algumas compressões para retomar o fluxo; a redução de interrupções garante fluxo contínuo e melhor prognóstico de reversão e morbidade pós-PCR. A escolha do tamanho da lâmina do laringoscópio é a distância do mento ao lóbulo da orelha. A lâmina reta é mais adequada para crianças pequenas, por pinçar a epiglote, que é maior nessa faixa etária. O tamanho da cânula é calculado pela fórmula idade/4 + 3,5 naquelas com cu�, ou idade/4 + 4, naquelas sem cu�. O uso de cânula com ou sem cu� depende da patologia de base e dificuldade ventilatória. A cânula deve ser fixada na altura de 3 vezes o número da cânula, no lábio superior. Figura 4.3 - Abertura de vias aéreas Legenda: (A) sem trauma; (B) com trauma. Figura 4.4 - Ventilação boca a boca Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. #IMPORTANTE Na etapa de ventilação do suporte básico de vida, o reconhecimento da existência de algum corpo estranho nas vias aéreas é importante, já que há elevada taxa de mortalidade por aspiração de corpo estranho na faixa etária pediátrica. 4.2.3.3 Engasgo As obstruções leves e moderadas são resolvidas solicitando-se à criança que continue a tossir, e as severas – a criança não consegue tossir ou emitir sons – requerem intervenção imediata. Lactentes até 1 ano de idade devem ser posicionados com a cabeça em um nível inferior ao do tórax e receber 5 golpes na região interescapular. Caso não ocorra a desobstrução, o socorrista deve realizar 5 compressões torácicas e repetir o ciclo até eliminar o objeto. Nunca deve ser realizada manobra de varredura às cegas na boca do lactente, mas caso seja visto o objeto causador da obstrução este deve ser retirado, com movimento em forma de pinça. Crianças maiores, acima de 1 ano de idade, e conscientes devem ser submetidas à manobra de Heimlich: 5 compressões abdominais subdiafragmáticas até a desobstrução ou a perda da consciência; quanto às inconscientes e em apneia, o socorrista deve iniciar as compressões torácicas, 30 vezes, e se ao abrir as vias aéreas for possível a visualização do objeto, deve tentar retirá-lo. Caso não seja possível a retirada, o socorrista deve fazer 2 ventilações, manter a RCP – 30 compressões:2 ventilações ou 15:2, a depender se 1 ou 2 socorristas – e ativar o serviço de emergência. Valelembrar que a manobra de Heimlich não deve ser realizada nos menores de 1 ano pelo risco de lesão hepática, pelo grande tamanho relativo do fígado nos lactentes, quando comparado aos pacientes maiores, além de dificuldade técnica pelo tamanho e tônus da vítima. Figura 4.5 - Desobstrução em lactentes Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. Figura 4.6 - Desobstrução em crianças maiores e adolescentes – manobra de Heimlich Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. 4.2.3.4 Desfibrilador (DEA) Assim que o desfibrilador estiver disponível deve ser utilizado imediatamente, sem aguardar finalização do ciclo de RCP em andamento. As pás devem ser fixadas de acordo com as imagens impressas nelas e, caso não caibam no tórax sem se tocar ou se sobrepor, devem ser alocadas uma no tórax e outra no dorso do paciente. O tórax deve estar seco. O DEA deve ser utilizado nas crianças maiores de 1 ano de idade; as pás pediátricas devem ser usadas nos pacientes menores de 8 anos ou de 25 kg, mas caso não estejam disponíveis pode-se usar as pás de adulto. O DEA informa todos os comandos, e deve ser mantido no tórax do paciente durante todo o atendimento pré-hospitalar. É o aparelho que informa os passos da reanimação, quando pausar para reavaliar ritmo, a cada 2 minutos, se é necessário checar pulso, e nesse momento deve inverter o socorrista que está na compressão e na ventilação. 4.2.4 Cuidados pós-PCR As manobras de RCP devem ser mantidas até a chegada do serviço médico avançado ou retorno da circulação espontânea do paciente. No caso de retorno da circulação o paciente deve ser mantido em decúbito lateral, supervisionado, mantida normotermia, até chegada do serviço médico avançado. Como abordar inicialmente uma criança em parada cardiorrespiratória? Inicialmente deve-se checar se o ambiente é seguro para o socorrista. Checar responsividade, pulso e respiração (por até 10 segundos), pedir por ajuda, e iniciar compressão e ventilação. Ao chegar desfibrilador, instalá-lo e seguir suas instruções imediatamente. Como são classificados os choques na Pediatria? 5.1 INTRODUÇÃO O suporte avançado de vida é composto basicamente pelo reconhecimento das condições clínicas potencialmente fatais e o tratamento da parada cardiorrespiratória em ambiente hospitalar. As condições potencialmente fatais são a insuficiência respiratória e o choque. O socorrista deve avaliar, identificar e tratar precocemente a condição do paciente, sempre se antecipando em relação às complicações e condições seguintes. Quando houver parada cardiorrespiratória é necessário reconhecer o ritmo de parada, e identificar se é chocável – fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso – ou não chocável – assistolia ou Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP) – para alocá-lo no algoritmo de tratamento correspondente. 5.2 RESSUSCITAÇÃO CARDIOPULMONAR As ações simultâneas realizadas pela equipe de socorristas tanto no ambiente pré-hospitalar como na sala de emergência são importantes para o sucesso das manobras de reanimação. Segundo as últimas diretrizes publicadas em 2015 pela American Heart Association, deve ser obedecida a sequência C-A-B (Compressões – Abertura de vias aéreas – Ventilação). As compressões torácicas devem ser iniciadas sem delongas pelo primeiro socorrista, enquanto outro realiza ventilações com o auxílio da bolsa-máscara. Se por algum motivo houver apenas 1 socorrista, a primeira ação é de chamar por ajuda, antes de iniciar qualquer manobra. Após avaliação da responsividade da vítima e checagem de pulso e movimentos respiratórios por até 10 segundos deve ser iniciada a ressuscitação cardiopulmonar (RCP). Vale lembrar que em lactentes menores de 1 ano deve-se checar pulsos braquial ou femoral, e nos maiores de 1 ano pulso carotídeo ou femoral. A RCP bem executada deve ter frequência de compressões torácicas de 100 a 120 vezes por minuto, e profundidade de 1 terço do diâmetro anteroposterior do tórax, cerca de 4 cm nos lactentes, 5 cm em crianças maiores e até 6 cm em adolescentes) e ser realizada, - preferencialmente, sobre uma superfície firme. Se o atendimento é realizado por 2 socorristas deve ser feitas 15 compressões por 2 ventilações. Em apenas 1 socorrista, 30 compressões por 1 ventilação. O objetivo é reduzir ao máximo as interrupções das compressões, para garantir melhor fluxo sanguíneo possível ao tecido cerebral, coração, rins e demais órgãos. Um terceiro socorrista deve providenciar a monitorização, estabelecer um acesso vascular, intravenoso (IV) ou intraósseo (IO), além de preparar as medicações que poderão ser utilizadas. O acesso venoso central não é uma opção na emergência pediátrica. Assim que houver um desfibrilador automático (DEA) ou um desfibrilador manual, este deve ser posicionado imediatamente, e analisado o ritmo cardíaco, já que nos ritmos chocáveis – com fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso – a principal conduta é a desfibrilação. As pás devem ser colocadas na pele seca, e caso não seja possível posicionar ambas no tórax, por se tocarem, deve-se colocar uma anterior e outra no dorso do paciente. 1. Atenção: o uso dos desfibriladores, tanto manual quanto automático, está indicado a partir de 1 ano de idade. No desfibrilador manual a carga é definida manualmente, e as pás pediátricas devem ser utilizadas até 1 ano ou 10 kg. No DEA a carga é pré-estabelecida, e as pás pediátricas devem ser utilizadas até 8 anos ou 25 kg. No caso de indisponibilidade das pás pediátricas, deve-se prosseguir o procedimento com pás de adultos. O socorrista experiente se antecipa à deterioração clínica de seu paciente. Sendo assim, é importante estar atento a crianças em falência respiratória e, ou em choque, sempre com base na tríade avaliar – identificar – intervir. Vale lembrar que as principais causas de parada cardiorrespiratória na faixa etária pediátrica são hipóxia e choque, além de traumas e infecções, na maior parte das vezes contemplados nas causas anteriores. 5.3 FALÊNCIA RESPIRATÓRIA A criança apresenta maior risco de evolução para insuficiência respiratória, por ter maior taxa metabólica basal, maior frequência respiratória basal, vias aéreas de menor calibre, caixa torácica mais complacente, com maior risco de atelectasia e maior tamanho proporcional da língua. As principais causas de insuficiência respiratória na faixa etária pediátrica são obstrução de vias aéreas superiores, crupe e epiglotite; vias aéreas inferiores, asma e bronquiolite; aspiração de corpo estranho; doença do parênquima pulmonar, pneumonia e Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA) e doenças neurológicas, com falha no drive respiratório. São sinais que antecipam a falência respiratória, ventilação inadequada, oxigenação insuficiente ou ambos: a) Alta frequência respiratória, maior que 60irpm, com sinais de desconforto, retração da fúrcula, batimento de asa de nariz, respiração “em balancim”, estridor, gasping; b) Cianose com desconforto respiratório sob a suplementação de O2; c) Rebaixamento do nível de consciência. Frente a essas condições é fundamental o reconhecimento e intervenção precoce, com o intuito de evitar quadro de parada cardiorrespiratória. 5.4 CHOQUE Trata-se da situação em que há inadequado fluxo de sangue e oxigênio para suprir a demanda metabólica. O choque pode evoluir em gravidade, passando de um estado compensado para um descompensado. Fazem parte dos mecanismos compensatórios a taquicardia e o aumento da resistência vascular sistêmica, provocando vasoconstrição. Com isso, é possível manter o débito cardíaco e a pressão de perfusão. O choque torna-se descompensado quando esses mecanismos falham. Os sinais clínicos de choque compensado e descompensado estão destacados: 1. Sinais de choque compensado: taquicardia; extremidades frias e pálidas; enchimento capilar menor do que 2 segundos; pulsos periféricos fracos; pressão sistólica normal; 2. Sinais de choque descompensado: baixo nível de consciência; baixa diurese; acidose metabólica;pulsos centrais fracos; taquipneia; hipotensão, baseando os valores que variam de acordo com a idade. Quadro 5.1 - Hipotensão sistólica (menor percentil 5) Os choques são divididos em 3 grandes grupos: hipovolêmico, cardiogênico e distributivo. Sendo que dentro do distributivo temos os choques anafilático, séptico e neurogênico. O choque hipovolêmico é o mais comum na Pediatria, geralmente relacionado a perdas, diarreia e vômito, mas também, pode ser atribuído à desidratação por dificuldade de acesso ou solicitação de fluidos, por exemplo: recém-nascidos e neuropatas, e grandes queimados ou cetoacidose diabética. Há redução do volume intravascular, com vasoconstrição para manter a pressão arterial. O tratamento é realizado por meio de expansões volêmicas e tratamento da causa base. O choque cardiogênico ocorre devido à falha da bomba cardíaca, por infecção, cardiopatia prévia ou tratamento cardiotóxico, por exemplo, quimioterapia. No início pode ser confundido com choque séptico, mas há pouca tolerância à administração de volume. O paciente apresenta sinais de congestão: estertores bilaterais simétricos e desconforto respiratório, taquicardia com desdobramento de bulhas e ritmo de galope, edema, estase jugular e hepatomegalia, e no choque descompensado há hipotensão associada. O tratamento deve ser realizado com pouca reposição fluídica, em pequenas alíquotas (5 a 10 mL/kg/alíquota), e introdução precoce de drogas vasoativas se necessário. O excesso de fluido leva à piora do quadro. O choque séptico também é muito comum na Pediatria. Vale ressaltar que é o único choque categorizado em quente e frio. O choque frio se apresenta com o paciente vasodilatador, com tempo de enchimento capilar menor que 1 segundo, extremidades quentes e pulsos amplos; no choque frio as extremidades são frias, pegajosas, com tempo de enchimento capilar lentificado e pulsos finos. Em ambos pode haver hipotensão, nos quadros descompensados. O tratamento é baseado na golden hour, ou primeira hora de ouro, com administração de soro fisiológico ou Ringer lactato 20 mL/kg/alíquota por até 3 vezes, introdução precoce de antibiótico de amplo espectro e, se necessário, introdução de droga vasoativa: adrenalina no choque frio e noradrenalina no choque quente. É preciso ter atenção às mudanças de 2015 sobre a reposição volêmica no choque séptico: deve ser evitado excesso de volume, por piora de morbidade e dificuldade ventilatória do paciente. O choque anafilático é uma reação alérgica grave, caracterizada pelo acometimento de 2 ou mais sistemas: cutâneo – prurido, exantema, urticária –, respiratório – tosse, dispneia, taquipneia, sibilância, rouquidão –, gastrintestinal – dores abdominal, vômito, diarreia – ou circulatório – taquicardia, hipotensão –; única exceção é feita no caso de hipotensão após exposição à alérgeno conhecido, que por si só já define anafilaxia. O tratamento principal consiste em administração de adrenalina pura (1:1.000) 0,1 mL/kg via IM no vasto lateral da coxa. Além disso é realizada ressuscitação fluídica com bolus de 10 mL/kg, corticoide, anti-histamínico e broncodilatador se necessário, além de suporte ventilatório. É caracterizado por vasodilatação, broncoconstrição e aumento da permeabilidade vascular. Por último, o choque neurogênico é caracterizado por vasoplegia, decorrente de falha no controle central. Há vasodilatação, bradicardia e hipotensão, a bradicardia é o que chama atenção para esse tipo de quadro, pois o mecanismo reflexo compensatório seria a taquicardia. Não há tratamento específico; é uma condição muito grave, e deve ser oferecido suporte ao paciente, e droga vasoativa, com pouca resposta. 5.5 VIAS AÉREAS Anatomicamente, as vias aéreas da criança e do lactente diferem das do adulto por serem de menores diâmetro e extensão. Assim, pequena obstrução ou edema de mucosa têm grande impacto na ventilação da criança. O paciente pediátrico tem a língua maior em relação à orofaringe do que o adulto, de modo que, em uma criança inconsciente, o deslocamento posterior da língua causa grave obstrução da via aérea. A laringe de lactentes e crianças é mais cefálica, e a epiglote, mais longa, flexível, estreita e angulada, tornando a intubação mais difícil do que nos adultos. Para minimizar as diferenças anatômicas, recomendam-se lâminas retas no laringoscópio. Diversos são os sistemas para ofertar oxigênio ao paciente pediátrico: a) Máscara não reinalante, que oferece oxigênio a 100%; b) Máscara de O2, exemplo: Venturi, sistema de alto fluxo que provê concentrações controladas de oxigênio inspirado de 25 a 60%; c) Tenda facial; d) Cateter nasal; e) Cânula nasal de alto fluxo; f) CPAP. Para o paciente que apresenta drive respiratório preservado, durante o tratamento na Emergência, é indicada a utilização de máscara não reinalante, por oferecer a maior FiO2. Se o paciente apresenta falha no controle ventilatório, rebaixamento do nível de consciência (Glasgow < 8) está indicada a ventilação com pressão positiva, com bolsa valva máscara e, se necessário, intubação posterior. Porém, tratando-se de suporte avançado das vias aéreas, em muitos casos, é necessário obter via aérea definitiva. A intubação não deve interferir na eficácia da RCP, portanto não será prioridade se a ventilação com bomba-valva-máscara for eficaz. 5.5.1 Cânula orofaríngea (Guedel) Cânula rígida, com saliência circular, que deve ser posicionada no canto da boca, permite conduto de ar através desta. Não se deve usá- la em pacientes conscientes ou semiconscientes, pelo risco de provocar vômitos. Se o paciente tem reflexo de tosse ou vômito, não é indicado seu uso. Figura 5.1 - Cânula orofaríngea Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. 5.5.2 Cânula nasofaríngea Tubo de plástico ou de borracha que permite o fluxo de ar entre as fossas nasais e a faringe. Pode ser usada em pacientes com reflexo de tosse preservado, em conscientes ou semiconscientes. Figura 5.2 - Cânula nasofaríngea Fonte: acervo Medcel. 5.5.3 Máscara laríngea ou tubo laríngeo Utilizada quando a ventilação com bolsa-máscara é realizada sem sucesso e a intubação endotraqueal não é possível. Também são contraindicados a paciente consciente e com reflexo de vômito presente. O tamanho é escolhido de acordo com o peso do paciente. 5.5.4 Dispositivo bolsa-valva-máscara Neste modo, a máscara deve envolver a boca e o nariz da criança, posição em C – E das mãos, sem comprimir os olhos e ao mesmo tempo sem permitir o escape de ar. A FiO2 obtida pode ser próxima a 100% em dispositivos com máscara não reinalante e reservatório de oxigênio, com fluxo de 10 a 15 L/min. Se a criança não estiver intubada, o socorrista, sozinho, deverá realizar 30 compressões torácicas e 2 ventilações, cada ventilação deve durar 1 segundo, ou deverá haver uma dupla com 15 compressões e 2 ventilações (15:2). Se a criança estiver intubada, o socorrista não interromperá a compressão torácica para ventilar. A frequência deverá ser de 1 ventilação a cada 6 segundos, 10 por minuto, ou, simplificando, usar a regra mnemônica “aperta-solta-solta”. Apesar das técnicas descritas, a via preferencial na emergência é a endotraqueal. Figura 5.3 - Ventilação com máscara e balão Fonte: ilustração Claudio Van Erven Ripinskas. 5.5.5 Tubo traqueal São indicações de intubação orotraqueal parada cardiorrespiratória, insuficiência respiratória aguda sem melhora com as outras fontes de oxigênio, risco de fadiga respiratória, rebaixamento do nível de consciência e queimadura de vias aéreas. Durante as tentativas de intubação, o paciente deve permanecer monitorizado, e, caso o tempo exceda 30 segundos, o socorrista deve ventilar a criança. As cânulas endotraqueais podem ter ou não cu�. Quando selecionadas no tamanho adequado ao paciente, cânulas com cu� possuem menor chance de reintubação, e cânulas sem cu� têm maior chance de aspiração. A pressão adequada do cu� não deve ultrapassar 25 cmH2O. O tamanho do laringoscópio é definido pela distância do mento ao lóbulo da orelha.Antes de prosseguir para a intubação propriamente dita, é necessário separar e testar todos os materiais para o procedimento, a fim de reduzir o risco de complicações: monitor, capnógrafo, estetoscópio, cânula, laringoscópio, aspirador, medicações, carrinho de RCP, material para fixação da cânula. Quadro 5.2 - Tamanho da cânula de acordo com a faixa etária Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria. A cânula deve ser fixada na altura de 3 vezes o número da cânula, no lábio superior do paciente. Verificam-se a localização do tubo traqueal, a presença de vapor d’água na cânula, movimento bilateral da caixa torácica, murmúrio vesicular simétrico, ausência de ruído de insuflação gástrica, radiografia de tórax e, de forma mais precisa, capnografia, que avalia, além da posição da cânula, a qualidade da RCP, quando aplicável. Se o paciente apresenta piora súbita do padrão respiratório ou cardiocirculatório após intubação traqueal, deve-se checar o “DOPE” (D – Deslocamento da cânula; O – Obstrução; P – Pneumotórax; E – Equipamento). 1. Deslocamento: checar a posição de fixação da cânula, ausculta, capnografia e, ou laringoscopia direta. De presença de deslocamento, intubar novamente o paciente; 2. Obstrução: aspirar a cânula; 3. Pneumotórax (hipertensivo): expansibilidade e ausculta assimétrica, reduzidas do lado acometido, hipertimpanismo. O tratamento é realizado pela punção no segundo espaço intercostal, na linha hemiclavicular; 4. Equipamento: desconectar o paciente do ventilador, realizar ventilação com bolsa-valva-máscara, e checar equipamento. 5.5.6 Sequência rápida de intubação A sequência rápida de intubação é utilizada para sedação, analgesia e bloqueio neuromuscular para a intubação do paciente. Facilita o procedimento e reduz morbimortalidade. Não deve ser realizada em caso de parada cardiorrespiratória. 1. Midazolam: sedativo, muito utilizado, porém importante efeito cardiodepressor. Evitar se grande instabilidade hemodinâmica. Antídoto: flumazenil; 2. Fentanil: analgésico, depressor respiratório se altas doses. Antídoto: naloxona; 3. Cetamina: sedativo e analgésico, tem propriedades cardioestimulatórias e anti-inflamatória, e por isso é indicado em choque séptico. Lembrar do seu efeito alucinatório, se possível associar com benzodiazepínico; 4. Etomidato: sedativo, reduz a liberação de catecolaminas pelas adrenais, então é contraindicado em choque séptico; 5. Tiopental: sedativo e analgésico, reduz pressão intracraniana, por isso, indicado para HIC; 6. Propofol: sedativo e analgésico, é seguro, pouca ação sob ponto de vista hemodinâmico; 7. Rocurônio: bloqueador neuromuscular de longa meia vida. Antídoto: sugamadex; 8. Succinilcolina: bloqueador neuromuscular com menor meia-vida, mais barato e mais disponível. Não tem antídoto. 5.6 ACESSO VASCULAR 5.6.1 Intraósseo Caso, durante a reanimação, houver demora para obter um acesso vascular, classicamente: 3 tentativas ou até 90 segundos, deve-se buscar a via intraóssea. A obtenção do acesso intraósseo acontece, geralmente, em menos de 60 segundos. O acesso intraósseo é um acesso periférico. Para se certificar de que o acesso foi efetivo, deve- se infundir soro fisiológico sem que haja extravasamento para o tecido subcutâneo subjacente. A aspiração de medula óssea ou sangue após a inserção da agulha não é o método mais fidedigno para a confirmação do acesso. São vantagens o fato de ser rápido, seguro e efetivo e todas as drogas intravenosas poderem ser administradas pela via intraóssea. Podem ser colhidos todos os exames por essa via, exceto hemograma. São contraindicações à obtenção de acesso intraósseo: fratura no osso em questão, lesão ou infecção de pele no local da punção, queimados ou tentativa prévia de acesso naquele osso. Por ser um procedimento asséptico em local não contaminado, não é necessário antibiótico profilático. Pode ser mantido pelo tempo necessário até estabilização do paciente e obtenção de acesso venoso, em geral até 12 horas. Figura 5.4 - Inserção de acesso intraósseo Os locais de punção indicados são: 1. Menores de 4 anos: tíbia proximal na região anteromedial, a 1 cm abaixo da tuberosidade da tíbia, perpendicular ao eixo longo do osso ou ligeiramente caudal (Figura 5.4); maléolo medial ou lateral da tíbia, 1 cm acima do maléolo; fêmur distal, na região anteromedial 3 cm acima do côndilo externo; 2. Maiores de 4 anos: punção de crista ilíaca ou externo. 5.6.2 Acesso venoso É a primeira escolha de acesso periférico, por ser fácil e rápido, fossa antecubital, safenas. O acesso central, mesmo em mãos experientes, consome muito tempo, e não é uma opção como medida de urgência. Deve ser passado após estabilização inicial do paciente. 5.6.3 Endotraqueal Pode ser utilizado como via de administração de drogas lipossolúveis Atropina, Naloxona, Epinefrina e Lidocaína (ANEL). Entretanto, a absorção por essa via é muito errática, e são necessárias doses maiores do que pela via endovenosa. Durante a RCP, é necessário cessar as compressões rapidamente e administrar o fármaco e, na sequência, um flush de solução salina de 5 mL e posterior ventilação com pressão positiva. 5.7 ALGORITMOS DE REANIMAÇÃO Os algoritmos são importantes para padronizar o atendimento, acelerar a intervenção e melhorar o desfecho em relação a morbimortalidade. Sempre inicia com o reconhecimento da parada cardiopulmonar e a RCP de alta qualidade. A intervenção com medicamentos e descarga elétrica varia de acordo com o ritmo cardíaco. 5.7.1 Ritmos não chocáveis São os ritmos de parada cardiorrespiratória mais comuns na pediatria – Assistolia e Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP). Deve ser realizada adrenalina diluída 1:10.000 0,1 mL/kg a cada 3 minutos, na prática, ciclo sim, ciclo não. Realizar sempre no início do ciclo, e durante as compressões, para favorecer a circulação da droga. Figura 5.5 - Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP) Fonte: Keetapong Pongtipakorn. Figura 5.6 - Assistolia Fonte: adaptado de Katsiuba Volha. 5.7.2 Ritmos chocáveis São mais raros na pediatria, e ocorrem em geral naqueles que já apresentam alguma doença de base, sobretudo cardiopatia. São a fibrilação ventricular e taquicardia ventricular sem pulso. Assim que identificados deve ser realizada a desfibrilação com 2 J/kg, e o choque é repetido a cada 2 minutos, ou a cada ciclo, com doses progressivas (2; 4; 6; 8; 10 J/kg). A adrenalina deve ser administrada após o segundo choque, na forma diluída 1:10.000, 0,1 mL/kg. A partir de então alterna-se a cada ciclo adrenalina e amiodarona, doses máximas de amiodarona: 3; adrenalina não tem doses máximas. A adrenalina só deve ser administrada após o segundo choque, porque na maior parte das vezes o quadro é revertido apenas com desfibrilação, e a adrenalina causaria vasoconstrição coronariana, piorando o prognóstico do quadro. Figura 5.7 - Taquicardia ventricular Fonte: adaptado de Steve Allen. Figura 5.8 - Fibrilação ventricular Fonte: adaptado de Steve Allen. Figura 5.9 - Parada cardiorrespiratória sem pulso Fonte: elaborado pelos autores. 5.7.3 Identificação das causas da parada cardiorrespiratória É necessário que durante toda a reanimação a equipe pondere sobre a causa que levou o paciente à parada cardiorrespiratória, a fim de revertê-la. Quando pensamos nas causas reversíveis de parada cardiorrespiratória pensamos nos 6 Hs e 5 Ts: a) Hipovolemia; b) Hipóxia; c) Hidrogênio – distúrbios do H+, mais comum é acidose; d) Hipoglicemia; e) Hipopotassemia ou hiperpotassemia; f) Hipotermia; g) Tamponamento cardíaco; h) Tensão no tórax – pneumotórax; i) Tóxicos – intoxicações em geral; j) Trombose pulmonar; k) Trombose coronariana. 5.8 MEDICAÇÕES DA REANIMAÇÃO CARDIOPULMONAR 5.8.1 Atropina Droga parassimpatolítica que acelera o nó sinoatrial ou marca-passo atrial e que aumenta a condução atrioventricular, utilizada somente para tratar bradicardia sintomática com bloqueio atrioventricular ou decorrente de reflexo vagal nas tentativas de intubação. Desde 2015, não é mais usada comopré-medicação obrigatória em intubação de urgência de lactentes. 1. Dose: 0,02 mg/kg IV ou IO máximo de 0,5 mg/dose. Na via endotraqueal, a dose é de 2 a 3 vezes maior; 2. Atenção: dose menor que 0,1 mg pode causar bradicardia paradoxal. 5.8.2 Epinefrina A catecolamina, cujo efeito alfa-adrenérgico leva a vasoconstrição, aumenta a pressão diastólica na aorta, melhorando a perfusão coronariana. A ação beta-adrenérgica diminui a resistência vascular sistêmica, com doses menores do que as utilizadas na RCP. 1. Dose: 0,01 mg/kg (0,1 mL/kg 1:10.000) IV ou IO e 0,1 mg/kg (0,1 mL/kg 1:1.000) ET. Máximo de 1 mg IV/IO e 2,5 mg ET. Pode ser repetida a cada 3 a 5 minutos; 2. Atenção: não administrar com soluções alcalinas, bicarbonato, pois inativam as catecolaminas. 5.8.3 Lidocaína Droga antiarrítmica que bloqueia canais de sódio. Indicada na taquicardia ventricular sem pulso (TV) e fibrilação ventricular (FV) refratária ao choque, não é tão eficaz quanto a amiodarona. 1. Dose: 1 mg/kg IV ou IO – pela via endotraqueal, deve ser feita de 2 a 3 vezes; 2. Atenção: toxicidade miocárdica. 5.8.4 Amiodarona Droga antiarrítmica que diminui a velocidade de condução atrioventricular, prolonga o intervalo QT e diminui a condução ventricular, aumentando o QRS. 1. Dose: 5 mg/kg IV ou IO, podendo ser repetida até o total de 15 mg/kg/d. Máximo de 300 mg; 2. Atenção: pode causar hipotensão pelo efeito vasodilatador, bradicardia e torsades de pointes. É importante monitorizar eletrocardiograma e pressão arterial. 5.8.5 Bicarbonato de sódio O uso rotineiro não é recomendado na RCP, apenas nos casos refratários e em pacientes com a ventilação já estabelecida. São indicações hipercalemia sintomática, acidose metabólica grave, hipermagnesemia, intoxicação por antidepressivos tricíclicos ou bloqueadores dos canais de cálcio. 1. Dose: 1 mEq/kg IV ou IO; 2. Atenção: o excesso de bicarbonato pode impedir a oxigenação tecidual e causar hipocalemia, hipocalcemia, hipernatremia e hiperosmolaridade. 5.8.6 Glicose Checar glicemia na RCP e tratar hipoglicemia imediatamente. 1. Dose: 0,5 a 1g /kg IV/IO, glicose a 25%. 5.8.7 Magnésio Indicado para hipomagnesemia documentada e torsades de pointes. 1. Atenção: para a hipotensão quando administrado rapidamente; 2. Dose: 25 a 50 mg/kg IV/IO; sulfato de magnésio, máximo de 2 g. 5.8.8 Cálcio Seu uso está indicado nas hipocalcemias documentadas, mas na administração rotineira na parada cardiorrespiratória não é recomendado. 1. Dose: 20 mg/kg; cloreto de cálcio a 10% (0,2 mL/kg), máximo de 2 g. Como são classificados os choques na Pediatria? Os choques são divididos em hipovolêmico, cardiogênico e distributivo, que por sua vez se subdivide em séptico e anafilático. Como reconhecer e tratar a taquicardia supraventricular na infância? 6.1 INTRODUÇÃO Os distúrbios de ritmo em Pediatria são resultados de outras enfermidades em curso no paciente, como insuficiência respiratória, trauma ou diarreia, levando ao choque. A maioria das crianças em parada cardiorrespiratória (PCR) apresenta assistolia ou Atividade Elétrica Sem Pulso (AESP), entretanto, entre crianças que apresentam perda de consciência súbita e testemunhada, há grande chance de a arritmia ser de causa primária. Outras enfermidades também se associam a arritmias cardíacas, como miocardite, cardiopatias congênitas, síndrome de QT prolongado, anormalidades eletrolíticas graves e intoxicações. Logo após o nascimento, as arritmias mais comuns estão relacionadas ao nó sinusal, arritmia sinusal fásica, pausas sinusais seguidas de escapes juncionais. Crianças com menos de 1 ano costumam ter elevada resposta ventricular às arritmias atriais, pelo desenvolvimento incompleto do nó atrioventricular. Por isso, em se tratando de arritmias, principalmente quando há suspeita de que o ritmo de parada é assistolia ou AESP, é preciso identificar e tratar as causas reversíveis, hipóxia, hipovolemia – hipotermia, hipocalemia e/ou hipercalemia, acidose, hipoglicemia, tamponamento cardíaco, tromboembolismo pulmonar, trombose coronariana, pneumotórax e intoxicações. Este capítulo destina-se a descrever as categorias de arritmias potencialmente fatais e como tratá-las na emergência, relatando as ações de suporte avançado em Pediatria. 6.2 ELETROCARDIOGRAMA Cada ciclo cardíaco normal deve constar de: 1. Onda P: despolarização atrial (duração 0,08 a 0,1 s); 2. Complexo QRS: despolarização ventricular (duração 0,06 a 0,1 s); 3. Onda T: repolarização ventricular; 4. Intervalo PR: início da despolarização atrial ao início da despolarização ventricular (duração 0,12 a 0,2 s). O eletrocardiograma de 12 derivações é a representação gráfica da despolarização e repolarização miocárdicas (Figura 6.1). Figura 6.1 - Despolarização e repolarização miocárdicas Fonte: adaptado de Home ECG System: Signal Processing and Remote Transmission, 2015. Quadro 6.1 - Classificação das arritmias de acordo com a frequência cardíaca Convém lembrar que a frequência cardíaca na criança varia com a faixa etária, a atividade e as condições patológicas – vigência de dor, febre, desidratação. Quadro 6.2 - Classificações da frequência cardíaca na criança Onda P antecedendo complexo QRS significa que a origem do impulso é o nó sinoatrial, portanto, se trata de um ritmo sinusal. 6.2.1 Bradiarritmias A bradicardia clinicamente significativa é definida como frequência cardíaca menor do que o normal para a idade (Quadro 6.2), associada a uma perfusão sistêmica inadequada. São os ritmos que mais frequentemente antecedem a PCR e habitualmente estão relacionados a hipóxia, hipotensão e acidose. Os sinais clínicos associados à bradiarritmia podem ser choque com hipotensão, perfusão ineficiente de órgão-alvo, alteração do nível de consciência ou colapso súbito. Ao ECG, podem ocorrer ou não ondas P, e o QRS pode ser estreito ou largo, quando a deficiência da condução acontece no ventrículo. 6.2.1.1 Bradicardia sinusal Pode ocorrer em indivíduos saudáveis, atletas bem condicionados, durante o sono, sob hipotermia, porém, a causa mais comum de bradicardia sinusal patológica é a hipoxemia, seguida de intoxicações, distúrbios eletrolíticos e infecção. Figura 6.2 - Bradicardia sinusal Fonte: James Heilman, 2010. 6.2.1.2 Parada do nó sinusal Ocorre na ausência de atividade do nó sinusal, e entram em ação marca-passos “acessórios”, átrio, ventrículo ou junção atrioventricular (AV): 1. Escape atrial: a onda P é tardia e de morfologia diferente, pois o impulso sai do marca-passo atrial não sinusal; Figura 6.3 - Escape atrial 2. Escape juncional: a onda P pode ser ausente, invertida ou após o QRS. O impulso sai do nó AV e tem capacidade intrínseca de iniciar a despolarização do miocárdio. 6.2.1.3 Bloqueio atrioventricular Distúrbio da condução elétrica pelo nó AV: 1. Primeiro grau: o intervalo PR é prolongado e pode ser assintomático e ocorrer em pessoas saudáveis ou com doença do nó AV, no Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), na miocardite; Figura 6.4 - Bloqueio atrioventricular de primeiro grau 2. Segundo grau: alguns impulsos são atriais e outros se originam no ventrículo, podendo ser secundários a síndrome coronariana aguda, miocardite e BAV congênito. São divididos em: a) Mobitz I ou fenômeno de Wenckebach: o impulso parte do nó AV, o PR aumenta progressivamente até que o impulso não chega mais ao ventrículo e a onda P é bloqueada. Raramente causa tonturas e pode ser decorrente de intoxicações por bloqueadores dos canais de cálcio, digoxina, IAM, ou até mesmo ocorrer em pessoas saudáveis. b) Mobitz II: ocorrem falhas de condução AV de forma anárquica (ausência de despolarização ventricular esporádica) ou regular (por exemplo: BAV 3:1, com 2 ondas P para cada QRS). É bastante sintomático, causando sensação de pré-síncope; Figura 6.5 - Bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz I ou fenômeno de Wenckebach Figura 6.6 - Bloqueio atrioventricular de segundo grau Mobitz II 3. Terceiro grau: o impulso atrial não é conduzido ao ventrículo,ou seja, não há nenhuma relação entre as ondas P e os complexos QRS. Pode ser congênito ou resultar de intoxicação, IAM, miocardite. A sensação é de fadiga, pré-síncope e síncope. Figura 6.7 - Bloqueio atrioventricular de terceiro grau No BAV total no recém-nascido, devemos pensar em lúpus neonatal, e o tratamento consiste na colocação de um marca-passo. Deve-se ter atenção com os algoritmos de conduta, pois eles norteiam o tratamento das arritmias de forma simplificada e eficiente. 6.2.1.4 Tratamento A bradicardia sintomática em crianças e adolescentes – FC < 60 bpm com repercussão hemodinâmica – deve ser tratada da mesma forma que a parada cardiorrespiratória em ritmo não chocável, exceto que é iniciada com 2 ventilações de resgate. Essa mudança no protocolo se deve ao fato de que a maior parte das bradicardias sintomáticas se deve à hipoxemia, podendo ser corrigida com a ventilação com pressão positiva, bolsa-valva-máscara. Dessa forma, a partir do momento em que o paciente é diagnosticado com bradicardia sintomática, iniciam-se as ventilações, e em seguida as compressões, em superfície rígida, respeitando a relação compressão por ventilação de 15 por 2 se 2 profissionais ou 30 por 2 se 1 profissional estiver em atendimento, e administração de adrenalina (1:10.000 0,1 mL/kg a cada 3 a 5 minutos). Concomitante a isso deve-se pesquisar as causas possíveis para a bradicardia e corrigi-la. No caso de bloqueio do nó, pode ser necessária a implantação de marcapasso externo. Vale lembrar que são sinais de repercussão hemodinâmica, ou má perfusão: alteração do nível de consciência, que pode ser irritabilidade ou sonolência, extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado, hipotensão e oligúria. Figura 6.8 - Tratamento das bradiarritmias Fonte: elaborado pelos autores. 6.2.2 Taquiarritmias São os ritmos anormais rápidos, cujos impulsos se originam no átrio ou no ventrículo. Os sinais clínicos associados podem ser bastante inespecíficos – palpitações, tontura, fadiga – e variar conforme a idade, lactentes apresentam sintomas mais exuberantes apenas quando o débito cardíaco começa a ser comprometido. Assim, são frequentes os sinais clínicos de insuficiência respiratória, choque com hipotensão, queda do nível de consciência ou colapso súbito. Subclassificação das taquiarritmias conforme a duração do complexo QRS: 1. QRS estreito (< 0,09 s): taquicardia sinusal; taquicardia supraventricular; flutter atrial; 2. QRS largo (> 0,09 s): taquicardia ventricular; taquicardia supraventricular em 10% dos casos. 6.2.2.1 Taquicardia sinusal O impulso elétrico origina-se do nó sinusal, porém com frequência aumentada, geralmente por uma necessidade do organismo de aumento de débito cardíaco ou de oferta de oxigênio. A taquicardia sinusal pode ser causada por hipóxia, hipovolemia, febre, dor, ansiedade, intoxicação e anemia. O eletrocardiograma (ECG) evidencia a onda P de morfologia normal, precedendo o QRS estreito, intervalos PR constante e RR variável. A frequência cardíaca é inferior a 220 bpm em lactentes e a 180 bpm em crianças maiores. Figura 6.9 - Taquicardia sinusal 6.2.2.2 Taquicardia supraventricular O impulso elétrico se origina logo acima do ventrículo, com reentrada por uma via de condução acessória, é a taquiarritmia mais comum na infância. A taquicardia supraventricular tem início geralmente abrupto, exceto em lactentes, que apresentam irritabilidade, inapetência e dispneia enquanto evoluem para insuficiência cardíaca congestiva. Crianças mais velhas podem apresentar desconforto respiratório, dor torácica e até desmaio. O ECG não mostra onda P, mas ela pode estar presente e com morfologia anormal, assim, nem sempre é possível determinar o intervalo PR. O intervalo RR é constante e o QRS estreito. A frequência cardíaca é superior a 220 bpm em lactentes e a 180 bpm em crianças maiores. Figura 6.10 - Taquicardia supraventricular 6.2.2.3 Flutter atrial O impulso elétrico percorre um circuito reentrante no átrio à proporção de 3, impulsos provenientes do átrio, por 1, despolarização do ventrículo. É um ritmo pouco comum na criança, pois resulta de cicatriz de atriotomia. O padrão da onda P ao ECG tem aspecto de dente de serra. Figura 6.11 - Flutter atrial 6.2.2.4 Taquicardia ventricular Trata-se de taquicardia de complexo QRS largo, pois o impulso elétrico é gerado no ventrículo. O ritmo é incomum em crianças e, quando ocorre, em geral é decorrente de cardiopatia de base ou pós- intervenção cirúrgica para correção de cardiopatia. Causas menos comuns em crianças são distúrbios eletrolíticos e intoxicação – antidepressivos tricíclicos, cocaína. O ECG não evidencia ondas P, mas as ondas T têm polaridade oposta ao QRS. A frequência cardíaca é maior do que 120 bpm. O traçado de aspecto polimórfico na taquicardia ventricular pode incluir torsades de pointes, ou torção das pontas, em que ocorrem alteração da polaridade e amplitude dos complexos QRS. Tal condição é possível em surtos não sustentados e pode estar relacionada a síndromes do QT longo, hipomagnesemia, hipocalemia, intoxicação por antiarrítmicos ou outras drogas. É importante ressaltar que a taquicardia ventricular pode evoluir para fibrilação ventricular e ritmo de colapso em que diversas áreas ventriculares despolarizam e repolarizam, não sendo possível identificar o P-QRS-T. Figura 6.12 - Taquicardia ventricular Figura 6.13 - Torsades de pointes Figura 6.14 - Tratamento das taquiarritmias Fonte: elaborado pelos autores. 6.2.2.5 Tratamento O tratamento da taquicardia sinusal é o tratamento da causa de base. Em geral a taquicardia sinusal cursa sem repercussão. A taquicardia supraventricular dividiremos em estável ou instável. A instável é definida pela presença de sinais e má perfusão, como extremidades frias, tempo de enchimento capilar prolongado, hipotensão, alteração do nível de consciência, como sonolência ou irritabilidade, e redução da diurese. No quadro da taquicardia supraventricular estável, pode-se fazer manobra vagal até que os passos seguintes do tratamento estejam prontos, desde que a manobra não atrase o restante da conduta. A manobra vagal é realizada por meio de gelo na face e, nos pacientes maiores e colaborativos, manobra de Valsalva. A droga de escolha é a adenosina, a adenosina tem meia vida curta, então deve ser administrada em flush, com soro fisiológico imediatamente após. Podem ser realizadas até 2 doses da medicação. Vale lembrar que há sensação ruim, de morte iminente, durante a administração, e o paciente e pais devem ser avisados. Além disso é fundamental que o carrinho de PCR esteja perto do atendimento, pelo risco de evolução para PCR em fibrilação ventricular ou assistolia. Caso não haja reversão e o paciente continue estável pode ser realizada a cardioversão elétrica sincronizada, ou outros antiarrítmicos, como amiodarona e lidocaína, sob a orientação de um cardiologista pediátrico. A cardioversão deve ser realizada sob sedação. O paciente com taquicardia supraventricular instável deve ser submetido diretamente à cardioversão elétrica sincronizada ou à cardioversão química com adenosina, o que for mais rápido na situação. A manobra vagal não faz parte do protocolo, e a sedação para cardioversão reservada aos pacientes com estabilidade suficiente para isso. Em relação às taquiarritmias mais raras, vale salientar apenas o tratamento de torsades de pointes, que envolve a reposição de magnésio. 6.3 SÍNCOPE NA INFÂNCIA A síncope na infância e adolescência é uma queixa muito comum no pronto-socorro pediátrico. As causas de síncope nessa faixa etária podem ser divididas em cardíacas, neurocardiogênicas e outras. As causas cardíacas são as que impõe risco de morte aos pacientes com síncope, seriam os distúrbios elétricos primários, taquicardia supraventricular, síndrome de QT longo ou curto, as doenças cardíacas estruturais, correção cirúrgica de comunicação interatrial e interventricular, manipulação do nó AV, cardiomiopatias ou tamponamento cardíaco,e outras, como anomalias de coronárias, cardiomiopatia dilatada e displasia arritmogênica familiar. As causas neurocardiogênicas seriam síndrome vasovagal, crise de perda de fôlego e hipotensão postural, que são quadros de evolução benigna, e outras possível causas de síncope são neuropsiquiátricas, metabólicas e intoxicação. 6.3.1 Avaliação O paciente que dá entrada no pronto-socorro com história de perda de consciência deve ter uma anamnese ampla e completa, exame físico minucioso e obrigatoriamente realizada eletrocardiograma. O ecocardiograma é reservado para os pacientes com alta suspeita de doença cardíaca, e o eletroencefalograma para os pacientes com perda de consciência prolongada, atividade convulsiva e período pós-ictal prolongado. Ecocardiograma e eletroencefalograma não devem ser realizados rotineiramente. Exames laboratoriais podem ser realizados em casos selecionados, de acordo com a avaliação médica: glicemia, hemograma, teste de gravidez, screening toxicológico e perfil eletrolítico. Outros exames disponíveis, para casos selecionados, são o tilt test, na suspeita de hipotensão postural ou reflexo vasovagal, holter para os pacientes com palpitação ou síncopes de repetição, teste de esforço naqueles com episódios de desmaios durante esforço físico e neuroimagem de alterações neurológicas associadas. 6.3.2 Tratamento Na maioria das vezes o paciente apresenta quadro benigno, que não requer tratamento, apenas orientações e seguimento. Quando é definida etiologia a mesma deve ser tratada ou acompanhada de forma específica, pelo especialista. Como reconhecer e tratar a taquicardia supraventricular na infância? A taquicardia supraventricular é definida como frequência cardíaca maior do que 220 bpm no lactente e maior do que 180 bpm nas crianças maiores, com complexo QRS estreito e ausência de onda P. No quadro estável (sem sinais de má perfusão), pode-se fazer manobra vagal até que os passos seguintes do tratamento estejam prontos, desde que a manobra não atrase o restante da conduta. A cardioversão química é feita com adenosina 0,1 mg/kg (máximo 6 mg), e pode ser repetida com dose dobrada. Caso não haja reversão e o paciente continue estável pode ser realizada a cardioversão elétrica sincronizada, ou outros antiarrítmicos, como amiodarona e lidocaína, sob a orientação de um cardiologista pediátrico. A cardioversão deve ser realizada sob sedação. O paciente com taquicardia supraventricular instável deve ser submetido diretamente à cardioversão elétrica sincronizada ou à cardioversão química com adenosina, o que for mais rápido na situação. A manobra vagal não faz parte do protocolo, e a sedação para cardioversão é reservada aos pacientes com estabilidade suficiente para isso. Como abordar a golden hour do choque séptico? 7.1. CHOQUE Choque é um estado de falência de energia em que não há produção de adenosina trifosfato (ATP). Trata-se de uma condição crítica, resultante de má distribuição de oxigênio e nutrientes aos tecidos. Diversos fatores influenciam essa distribuição, como a concentração de hemoglobina no sangue, pois determina a saturação de oxigênio sanguíneo, e o fluxo sanguíneo adequado. Este, por sua vez, é determinado pelo Débito Cardíaco (DC) – volume de sangue que flui para os tecidos em 1 minuto, cuja fórmula é: DC = volume sistólico vezes frequência cardíaca. O volume sistólico é o volume de sangue ejetado após cada contração cardíaca. Depende de 3 fatores: a) Pré-carga – volume de sangue presente no ventrículo antes da contração; b) Contratilidade – força com que o coração se contrai; c) Pós-carga – resistência contra a qual o ventrículo está se contraindo. Diante de um quadro de choque em que o índice cardíaco está diminuído (hipovolêmico, cardiogênico e distributivo), existem mecanismos compensatórios que tentam manter a distribuição de oxigênio aos tecidos: taquicardia, aumento da resistência vascular sistêmica, aumento da contratilidade, aumento do tônus venoso. Com a progressão do choque, a pressão arterial, determinada pelo DC e pela resistência vascular sistêmica, pode começar a cair, caracterizando condição mais grave. Assim, o termo “choque compensado” se destina a crianças com sinais de má distribuição, mas em que a taquicardia e o aumento de resistência vascular mantém a perfusão parcialmente adequada, e os níveis pressóricos normais. O choque hipotensivo ocorre quando a criança tem sinais inadequados de perfusão tecidual e pressão sistólica baixa. Geralmente, cursa com alteração do nível de consciência devido à piora da perfusão cerebral, e oligúria, decorrente da má perfusão renal. A hipotensão é um sinal tardio e pode sinalizar parada cardíaca iminente. 7.1.1 Tipos de choque Podem ser caracterizados 4 tipos básicos de choque: hipovolêmico, distributivo, cardiogênico e obstrutivo. 7.1.1.1 Choque hipovolêmico Nesse tipo de choque, a pré-carga está diminuída, a contratilidade cardíaca está normal ou aumentada e a pós-carga aumentada. O choque é sempre frio, com extremidades frias e pálidas, além de perfusão periférica lentificada. Tais alterações podem ser traduzidas nestes sintomas: taquipneia sem dispneia, taquicardia, pulsos centrais normais ou fracos e periféricos ausentes ou fracos, tempo de enchimento capilar prolongado, oligúria, palidez e alteração do nível de consciência. A hipovolemia é a causa mais comum de choque em crianças, sendo diarreia e desidratação as causas mais comuns de hipovolemia dentre as demais: vômitos, hemorragias, diurese osmótica, como na cetoacidose diabética, e queimaduras. Sinais clínicos compatíveis com choque hipovolêmico: a) Taquipneia – com ou sem esforço respiratório; b) Taquicardia; c) Pressão arterial normal ou hipotensão; d) Pulsos periféricos fracos ou ausentes; e) Pulsos centrais normais ou fracos; f) Enchimento capilar lentificado; g) Pele pálida e fria; h) Alteração do nível de consciência; i) Oligúria. 7.1.1.2 Choque distributivo A distribuição do volume sanguíneo está inadequada, isto é, alguns tecidos têm perfusão adequada – pele, músculo esquelético – enquanto outros, circulação esplâncnica, têm perfusão ruim. Exemplos desse choque ocorrem na sepse, na anafilaxia e no choque neurogênico. O choque séptico é a forma mais comum de choque distributivo, e as infecções respiratórias e a bacteremia primária são as causas principais de infecções entre pacientes pediátricos com sepse e choque séptico. São sinais clínicos compatíveis com choque distributivo: 1. Sinais do choque distributivo por anafilaxia: agitação; náuseas e vômitos, dor abdominal; urticária; angioedema; desconforto respiratório com estridor ou sibilos; hipotensão; taquicardia; 2. Sinais de choque distributivo de origem neurogênica: hipotensão com alargamento de pulso, sem taquicardia compensatória, vasodilatação. Quando falamos de sepse pediátrica, é preciso explicar determinados conceitos, como sepse e choque séptico, de acordo com o Instituto Latino-Americano de Sepse (ILAS). a) Sepse A sepse deve ser considerada como uma disfunção orgânica potencialmente fatal causada por uma resposta inadequada a uma infecção. Entre os recém-nascidos, tem sinais inespecíficos como instabilidade térmica, desconforto respiratório, intolerância alimentar, alterações cutâneas – palidez, eritema, má perfusão – letargia, irritabilidade, convulsões, tremores, hiperglicemia ou hipoglicemia. 7.1.1.3 Choque séptico Sepse e disfunção cardiovascular, na qual, apesar da administração de fluido intravenoso em bolus ≥ 40 mL/kg em 1 hora, há a persistência de: a) Hipotensão arterial – PAS < percentil 5 para idade, ou < 2 desvios- padrão; b) Necessidade de droga vasoativa para manter a PAS normal; c) 2 dos seguintes parâmetros de perfusão inadequada: Acidose metabólica inexplicável; Lactato acima de 2 vezes o valor de referência; Oligúria, débito urinário < 0,5 mL/kg/h; Tempo de enchimento capilar > 5 segundos; Diferença entre temperatura central e periférica > 3 °C. É o único tipo de choque que é diferenciado entre quente e frio;clinicamente, o choque quente caracteriza-se por extremidades aquecidas, pulsos amplos e rápidos e enchimento capilar rápido, sinais de resistência vascular sistêmica diminuída. O choque frio, por sua vez, caracteriza-se por extremidades frias, pulsos finos e de difícil palpação e tempo de enchimento capilar > 2 segundos – sinais de redução do índice cardíaco por hipovolemia ou disfunção miocárdica. 7.1.1.4 Choque anafilático Este tipo de choque distributivo é resultado de reação exuberante a droga, vacina, alimento, toxina ou outro antígeno. A resposta alérgica aguda e multissistêmica leva a vasodilatação sistêmica, aumento da permeabilidade capilar e vasoconstrição pulmonar. São sinais clínicos compatíveis: agitação, náusea ou vômitos, urticária, angioedema –inchaço de face, lábios e língua – desconforto respiratório, com estridor e/ou sibilos, taquicardia e hipotensão. Seu diagnóstico é dado quando há pelo menos 2 dos sistemas acometidos: pele, urticária, prurido, exantema; respiratório sibilância, tosse, desconforto respiratório, estridor, taquidispneia; gastrintestinal, dor abdominal, vômitos, diarreia; ou cardiovascular, taquicardia, hipotensão. A única exceção é a hipotensão, que se é sinal único associado à exposição de alérgeno conhecido também fecha o diagnóstico de choque anafilático. 7.1.1.5 Choque neurogênico Este tipo resulta de lesão cranioencefálica ou vertebral que rompe a inervação do sistema nervoso simpático dos vasos sanguíneos e do coração – inclui o choque medular. Ocorre perda súbita de sinais do sistema nervoso simpático para a musculatura lisa da parede dos vasos que leva a vasodilatação descontrolada. Os sinais iniciais são hipotensão com pressão de pulso ampla e frequência cardíaca normal ou bradicardia. Nesse tipo de choque, a hipotensão ocorre devido à perda da inervação simpática, levando a vasodilatação; ao contrário do que acontece no choque hipovolêmico, não há taquicardia nem vasoconstrição periférica. A bradicardia e a vasodilatação, associadas à hipotensão, chamam atenção para esse diagnóstico. São sinais clínicos compatíveis com choque séptico: a) Taquipneia sem esforço respiratório, exceto se há pneumonia ou edema pulmonar; b) Taquicardia; c) Hipotensão com pressão de pulso ampla, choque quente, pressão de pulso estreita, choque frio, ou normotensão; d) Pulso periférico fraco; e) Enchimento capilar lentificado, choque frio, e rápido, choque quente; f) Pele quente ou avermelhada, extremidades, ou pálida com vasoconstrição. Presença de púrpuras ou petéquias, no choque séptico; g) Alteração do nível de consciência; h) Oligúria; i) Variação de temperatura. 7.1.1.6 Choque cardiogênico Nesse tipo de choque, a perfusão tecidual está inadequada por consequência de disfunção miocárdica. Os sinais clínicos são decorrentes de redução do índice cardíaco. Assim, é comum evidenciar sinais de hipoperfusão tecidual, como oligúria, cianose, diminuição do nível de consciência, extremidades frias e pulso periférico fino. Pode ocorrer hipotensão, seja pela redução do índice cardíaco, seja pelo acúmulo de metabólitos vasoativos nos tecidos que levam a dilatação arteriolar capilar. Pode haver, também, elevação da pressão capilar pulmonar e, consequentemente, sinais clínicos de edema pulmonar – desconforto respiratório e cianose secundária a hipoxemia. São causas comuns de choque cardiogênico: cardiopatia congênita, miocardite, arritmias, sepse e intoxicação. São sinais para choque cardiogênico: 1. Sinais compatíveis: taquipneia e esforço respiratório decorrente do edema pulmonar; taquicardia; pressão arterial normal ou baixa com pressão de pulso estreita; pulsos periféricos fracos ou ausentes; pulsos centrais fortes que na evolução se enfraquecem; enchimento capilar lento e extremidades frias; 2. Sinais de congestão cardíaca – estase jugular, hepatomegalia, edema pulmonar: cianose – cardiopatia congênita ou por edema pulmonar; pele fria e pálida; alteração do nível de consciência; oligúria. 7.1.1.7 Choque obstrutivo O comprometimento do DC acontece por obstrução física ao fluxo sanguíneo, como no tamponamento cardíaco, no pneumotórax hipertensivo, nas lesões cardíacas dependentes de ducto arterial e na embolia pulmonar maciça. Inicialmente, esse tipo de choque pode ser indistinguível do choque hipovolêmico. a) Sinais compatíveis com tamponamento cardíaco: na criança, geralmente ocorre por trauma penetrante, cirurgia cardíaca, desordens inflamatórias que levem a efusão pericárdica importante; b) Diminuição ou abafamento de bulhas; c) Pulso paradoxal, diminuição de pressão sistólica em mais de 10 mmHg durante a inspiração; d) Estase jugular, poderá não ocorrer se houver hipotensão severa na criança. 7.1.2 Tratamento O principal fator de sucesso no tratamento é a identificação precoce do paciente em risco para desenvolver o choque e seu encaminhamento para um serviço especializado. A abordagem global do paciente em choque inclui suporte geral – respiratório, conforto térmico, monitorização, nutrição, correção de distúrbios metabólicos – controle da causa-base que levou ao choque, suporte cardiovascular, correção da pré-carga, da função cardíaca e da pós-carga, uso de drogas e tratamento das complicações. O fundamental no tratamento é a rapidez com que as intervenções são feitas. Reconhecer o choque precocemente e tratar de forma adequada podem melhorar o prognóstico do paciente em choque. O alvo do tratamento é restabelecer a perfusão e oxigenação teciduais adequadamente. Os sinais de restabelecimento da perfusão e oxigenação tecidual são: a) Tempo de enchimento capilar ≤ 2 segundos; b) Pulsos normais; c) Extremidades aquecidas; d) Diurese > 1 mL/kg/h; e) Nível de consciência sem alterações; f) Pressão arterial adequada para a idade; g) Saturação venosa central de oxigênio ≥ 70%. O início do tratamento do choque deve ter como objetivo a manutenção das vias aéreas e garantir ventilação e oxigenação adequadas. A intubação orotraqueal reduz o consumo de oxigênio pelos músculos respiratórios e deve ser instituída nas seguintes situações: a) Aumento do trabalho respiratório; b) Hipoventilação; c) Diminuição do nível de consciência; d) Instabilidade hemodinâmica grave. Outra medida fundamental no tratamento do choque é a obtenção de acesso vascular. Preferencialmente, deve-se obter acesso venoso em 2 veias periféricas calibrosas. Caso não seja possível obter o acesso periférico rapidamente, a via intraóssea torna-se uma opção. Com o acesso vascular garantido, a ressuscitação hídrica pode ser iniciada com a administração de cristaloide, soro fisiológico a 0,9%, 20 mL/kg em 5 a 20 minutos nos casos de choque hipovolêmico, distributivo ou séptico. A expansão de volume deve ser feita até que a volemia esteja adequada, com pressão venosa central ≥ 8 a 12 mmHg, caso não haja sinais de sobrecarga hídrica. O acesso venoso central, para monitorização da pressão venosa central e administração de drogas vasoativas, caso seja necessário, deve ser providenciado enquanto ocorre a expansão hídrica. É fundamental que o paciente seja continuamente avaliado, observando com atenção os seguintes sinais: a) Frequência cardíaca; b) Pressão arterial; c) Pulsos; d) Tempo de enchimento capilar; e) Estado mental; f) Débito urinário; g) Saturação de oxigênio com oximetria de pulso; h) Sinais de sobrecarga de volume: estertores pulmonares, ritmo de galope e hepatomegalia. Nos casos de cetoacidose diabética que cursam com choque hipovolêmico, a reposição deve ser realizada de forma mais lenta, pois há risco de edema cerebral. Essa reposição pode ser feita com 10 a 20 mL/kg de soro fisiológico 0,9% em 1 hora. 1. Choque hipovolêmico: o tratamento consiste em reconstituir o volume intravascular, com reposição de soro fisiológico ou ringer lactato em alíquotas de 20%. Pode ser oferecido o volume que for necessário, desde que não haja sinais de congestão. Nos casos refratários à volume, que são bastante raros, está indicada a introdução de drogas vasoativas – em geral adrenalina.Não há volume máximo de líquido que pode ser administrado; 2. Choque séptico: o tratamento é baseado na golden hour, ou primeira hora de ouro, com administração de soro fisiológico ou Ringer lactato 20 mL/kg/alíquota por até 3 vezes, introdução precoce de antibiótico de amplo espectro e, se necessário, introdução de droga vasoativa: adrenalina no choque frio e noradrenalina no choque quente. É preciso ter atenção às mudanças de 2015 sobre a reposição volêmica no choque séptico: deve ser evitado excesso de volume, por piora de morbidade e dificuldade ventilatória do paciente. Se possível devem ser colhidos exames durante a primeira hora de tratamento: hemograma, hemocultura, PCR, função renal e perfil hepático, coagulograma, gasometria – arterial ou venosa – e lactato – também pode ser arterial ou venoso. A glicemia e cálcio iônico devem ser corrigidos na primeira hora, o que leva à melhora no prognóstico. Sobre a escolha do antibiótico, para pacientes previamente hígidos provenientes da comunidade, quadro domiciliar, a escolha é ceftriaxona. Mas nos pacientes com patologia de base ou nos casos de infecção hospitalar a escolha do antibiótico depende da condição clínica e sinais que o paciente apresenta, por exemplo, cefepima ou meropeném, vancomicina. Pacientes com risco de insuficiência adrenal, uso crônico de corticosteroides, púrpura fulminante e doença do sistema nervoso central, e choque refratário às catecolaminas devem receber corticosteroides; 3. Choque anafilático: o tratamento principal consiste em administração de adrenalina pura (1:1.000) 0,1 mL/kg via IM no vasto lateral da coxa. Além disso é realizada ressuscitação fluídica com bolus de 20 mL/kg, corticoide, anti-histamínico e broncodilatador se necessário, além de suporte ventilatório; 4. Choque cardiogênico: o tratamento deve ser realizado com pouca reposição fluídica, em pequenas alíquotas, 5 a 10 mL/kg/alíquota, e introdução precoce de drogas vasoativas se necessário. O excesso de fluido leva à piora do quadro. As drogas vasoativas de escolha costumam ser adrenalina, dopamina ou dobutamina e/ou milrinona; 5. Choque neurogênico: não há tratamento específico; é uma condição muito grave, e deve ser oferecido suporte ao paciente, e droga vasoativa, com pouca resposta; 6. Choque obstrutivo: devem ser oferecidas medidas de suporte ventilatório e monitorização, como nos outros choques; a reversão do quadro se deve ao tratamento específico para a etiologia, como descompressão do pneumotórax, com punção no segundo espaço intercostal na linha hemiclavicular e drenagem no quinto espaço intercostal na linha axilar média, ou drenagem pericárdica – punção de Marfan. Figura 7.1 - Choque séptico segundo o American College of Critical Care Medicine Legenda: Pediatric Advanced Life Support® (PALS®); Pressão Arterial Média (PAM); Pressão Venosa Central (PVC); Veia Cava Superior (VCS); Saturação Venosa Central (SVC); Índice Cardíaco (IC); oxigenação por membrana extracorpórea (ECMO). Fonte: elaborado pelos autores. 7.1.2.1 Tratamento na Emergência O tratamento na emergência visa estabilização inicial do paciente, com suporte ventilatório, obtenção de acesso venoso periférico ou intraósseo, administração de fluidos – conforme descrito acima, introdução precoce de antibiótico de amplo espectro no caso de choque séptico e, se necessário, introdução de droga vasoativa. A introdução das drogas vasoativas não deve ser retardada pelo demora de transferência do paciente à Unidade de Terapia Intensiva (UTI). 7.1.2.2 Tratamento na UTI O tratamento na UTI visa a manutenção da estabilização do paciente, investigação das causas de choque e introdução e manejo da ventilação e drogas vasoativas, conforme descrito a seguir: a) As drogas vasoativas são divididas em inotrópicas, vasopressoras, vasodilatadoras e inodilatadoras, a depender de sua ação; b) As inotrópicas aumentam a força de contração miocárdica e, às vezes, a frequência cardíaca. São exemplos desse grupo a adrenalina, dopamina e dobutamina. São as drogas mais utilizadas, e estão indicadas no tratamento do choque séptico frio, choque hipovolêmico refratário à reposição fluídica, choque anafilático refratário, choque cardiogênico e choque neurogênico; c) As vasopressoras aumentam a resistência vascular sistêmica e pulmonar, levando ao aumento da pressão arterial sistêmica em pacientes com função miocárdica normal. São a adrenalina, noradrenalina, dopamina e vasopressina. A noradrenalina é a droga indicada nos casos de choque séptico quente. As demais são utilizadas nos demais tipos de choque; d) As vasodilatadoras diminuem a resistência vascular sistêmica e pulmonar, levando a redução da pós carga e consequente aumento do débito cardíaco. Não atuam diretamente na contratilidade miocárdica. O exemplo de medicação deste grupo é o nitroprussiato de sódio, indicado no tratamento de urgência e emergência hipertensiva. Não é utilizado no tratamento dos choques; e) As inodilatadoras melhoram contratilidade miocárdica e diminuem resistência vascular sistêmica. O exemplo é o milrinona, que é bastante utilizado nos quadros de choque cardiogênico, associado a drogas inotrópicas, e de hipertensão pulmonar, como em hérnia diafragmática nos recém nascidos, por exemplo. O importante efeito colateral das drogas vasodilatadoras e inodilatadoras é a queda da pressão arterial sistêmica, que pode ser um fator limitante ao seu uso durante o quadro de choque. É importante observar os itens a seguir: a) Algumas drogas têm mais de uma ação, por isso fazem parte de mais de um grupo, por exemplo, as inotrópicas e vasopressoras têm várias em comum; b) A dopamina tem diferentes ações, a depender da dose utilizada – pois sua ação varia nos receptores, a depender da dose. Doses baixas (3 a 5 µg/kg/min) têm ação nos receptores dopaminérgicos, com aumento da perfusão renal e esplâncnica. Doses intermediárias (5 a 10 µg/kg/min) têm ação nos receptores beta-1, com aumento da frequência cardíaca e da contratilidade miocárdica. E doses altas (> 10 µg/kg/min) têm ação nos receptores alfa, com vasoconstrição e aumento da resistência vascular periférica; c) Todas as drogas vasoativas devem ser administradas em acesso venoso central, em bomba de infusão contínua. Exceção é feita ao uso inicial da adrenalina, que quando há necessidade na emergência pode ser iniciada em acesso venoso periférico, até que seja obtido um acesso central. Como abordar a golden hour do choque séptico? O choque séptico deve ser prontamente reconhecido. O paciente deve ser levado à sala de emergência, ter acesso venoso calibroso ou intraósseo, realizar coleta de exames (hemograma, hemocultura, PCR, transaminases, coagulograma, função renal, eletrólitos, gasometria arterial ou venosa, lactato), além dos exames pertinentes para o quadro clínico do paciente. Administrar até 3 expansões com soro fisiológico ou Ringer lactato 20 mL/kg, sendo reavaliado após cada alíquota. Introdução precoce de antibiótico de amplo espectro ou voltado para agente etiológico conhecido ou foco infeccioso. Se manutenção do choque, introdução de droga vasoativa ainda na primeira hora de tratamento: adrenalina para choque frio, noradrenalina para choque quente. Como fazer o seguimento por imagens após quadro de ITU, conforme recomendação da American Academy of Pediatrics? 8.1 INTRODUÇÃO A Infecção do Trato Urinário (ITU), doença importante e bastante comum na infância, caracteriza-se pela multiplicação bacteriana em qualquer segmento do aparelho urinário, incluindo próstata e epidídimo, que resulte em sintomas. A ITU alta, pielonefrite, pode levar a cicatrizes renais, hipertensão e doença renal crônica. Embora crianças com pielonefrite geralmente se apresentem com febre, é sempre difícil distinguir clinicamente entre cistite e pielonefrite, particularmente nas crianças com menos de 2 anos. Com exceção daquela que ocorre no período neonatal, a maioria das ITUs são infecções ascendentes, em que as bactérias penetram pela uretra, chegam à bexiga e, eventualmente,ascendem pelo ureter, atingindo os rins. 8.2 EPIDEMIOLOGIA A prevalência geral em crianças menores de 2 anos e febris é de aproximadamente 7%, mas pode variar de acordo com a idade, a raça, o sexo e a presença ou não de circuncisão nos meninos. Lactentes do sexo feminino têm 2 a 4 vezes mais ITUs do que meninos circuncidados. De maneira geral, predominam no sexo feminino (exceto nos primeiros 6 meses de vida, quando ocorre mais no sexo masculino), à proporção de 4:1 a partir do sexto mês de vida. Seu pico de incidência acontece ao redor de 3 a 4 anos. No primeiro ano de vida, a infecção de urina febril pode corresponder a pielonefrite aguda na maioria dos casos (90%). Os recém-nascidos de mães que apresentaram, na gestação, ITU de repetição têm risco maior, até 4 vezes, de ter ITU no período neonatal. 8.3 ETIOLOGIA Escherichia coli é o agente bacteriano mais comum da ITU, responsável por, aproximadamente, 80% a 90% dos casos na infância. Outras bactérias Gram negativas incluem Klebsiella, Proteus e Enterobacter. Patógenos bacterianos Gram positivos incluem Staphylococcus saprophyticus, Enterococcus e, raramente, Staphylococcus aureus. As ITUs causadas por bactérias que não a E. coli estão mais associadas a anomalias do trato urinário, ITU materna no período neonatal e tratamento prévio com antibióticos. Vírus e fungos também são causas menos comuns de ITUs em crianças. A patogênese das ITUs, principalmente as relacionadas com a E. coli, deve-se à contaminação pela flora fecal da região periuretral, que chega à bexiga ou às vias urinárias altas pela via ascendente. Proteus é responsável por cerca de 30% das cistites e apresenta maior incidência em meninos não circuncisados, pois nestes as bactérias que ascendem pela uretra são provenientes do prepúcio. Porém, a presença de bactérias na mucosa periuretral não é suficiente para a ocorrência de ITU. A ligação das bactérias com as células uroepiteliais constitui um processo ativo mediado por adesinas bacterianas e receptores específicos dessas células (pilli). Em recém-nascidos, como a infecção pode ocorrer pela via hematogênica, o agente etiológico fica na dependência do foco original da infecção. Muitas vezes, a ITU no recém-nascido é oriunda da disseminação transplacentária da infecção urinária materna. Já em adolescentes, 20% a 30% das ITUs são causadas pelo Staphylococcus saprophyticus. 1. Klebsiella sp.: mais frequentes em recém-nascidos; 2. Proteus sp.: 30 a 40% dos meninos; 3. Staphylococcus saprophyticus: 30% dos adolescentes de ambos os sexos; 4. Enterococcus, Pseudomonas, Staphylococcus aureus ou epidermidis: crianças com malformação ou disfunção do trato urinário. 8.4 FATORES DE RISCO 8.4.1 Idade A prevalência é bem maior nos meninos com menos de 1 ano e nas meninas com menos de 4 anos. 8.4.2 Meninos não circuncisados Meninos não circuncidados com febre de origem desconhecida têm até 20 vezes mais chances de estarem com ITU do que meninos circuncidados da mesma idade. Além de a mucosa do prepúcio ser mais suscetível à colonização de uropatógenos do que a pele queratinizada, a obstrução parcial do meato uretral também está relacionada com maior facilidade a essa colonização e consequente desenvolvimento de ITU. 8.4.3 Disfunção miccional temporária Durante o treinamento ao uso do banheiro, em meninas, há uma disfunção miccional temporária, pois a criança pode reter a urina para permanecer seca, ao mesmo tempo em que há contração da musculatura vesical. Assim, há tendência a retenção urinária e ITU. Muitas vezes, as disfunções miccionais estão associadas a disfunções intestinais, como constipação e incontinência fecal. Essas 2 alterações da função intestinal também estão relacionadas como fatores de risco para ITU. 8.4.4 Uropatia obstrutiva Crianças com esta condição podem apresentar esvaziamento incompleto da bexiga, sendo a urina estagnada um excelente meio de cultura para a maioria dos patógenos relacionados. A predisposição às anormalidades obstrutivas pode ser anatômica (válvula de uretra posterior, estenose de junção ureteropélvica e estenose de junção ureterovesical, neurológica (mielomeningocele com bexiga neurogênica) ou funcional; alterações que podem cursar simultaneamente com refluxo vesicoureteral e, em alguns casos, levar a hidronefrose e lesões parenquimatosas renais. Essas lesões serão mais graves se estiverem associadas à ITU. Em meninos, a válvula da uretra posterior é a principal causa obstrutiva primária de uropatia. A obstrução pode ocorrer em qualquer nível do trato urinário, do meato uretral aos infundíbulos dos cálices renais. Pode ser causada por processos traumáticos, neoplasia (tumor de Wilms, neuroblastoma), cálculos, processos inflamatórios (tuberculose) ou mesmo procedimentos cirúrgicos. 8.4.5 Refluxo vesicoureteral O refluxo vesicoureteral é a anomalia urológica mais comum nas crianças e compreende a passagem retrógrada da urina da bexiga para o trato urinário alto. Crianças com refluxo vesicoureteral apresentam risco aumentado para o desenvolvimento de ITUs recorrentes e pielonefrite clínica à medida que a urina presente na bexiga retorna em direção ao ureter, podendo chegar até os cálices renais, na dependência da gravidade do refluxo. 8.5 QUADRO CLÍNICO A ITU pode apresentar-se com sinais e sintomas inespecíficos, particularmente nos lactentes jovens. O quadro clínico varia conforme a faixa etária e o segmento do trato urinário acometido. 8.5.1 Faixa etária 8.5.1.1 Recém-nascidos e lactentes Os sintomas são pouco específicos, principalmente nos recém- nascidos (apresentam-se geralmente com um quadro séptico) e nos lactentes jovens (nos quais a febre é o principal sinal clínico). Caracterizam-se por febre ou hipotermia, vômitos, anorexia, irritabilidade, icterícia, distensão abdominal e baixo ganho ponderal. Nos casos mais graves, apresentam-se sob a forma de bacteriemia ou sepse. Até os 2 anos, raramente se identificam sintomas urinários. É importante lembrar que os menores de 1 ano apresentam risco elevado para pielonefrite e, consequentemente, cicatriz renal. Lactentes jovens com quadros febris sem sinais localizatórios do processo infeccioso devem ser sempre investigados para ITU. 8.5.1.2 Acima de 2 anos A partir dessa idade surgem os sintomas urinários típicos, como disúria, polaciúria, urgência miccional, incontinência urinária, enurese secundária e sintomas sistêmicos com febre e dor abdominal, mais predominantemente hipogástrica. A presença de febre, tremores e dor lombar é altamente sugestiva de pielonefrite em crianças mais velhas. 8.5.1.3 Adolescência Em adolescentes e jovens, é uma importante causa de morbidade no sexo feminino. Nas adolescentes, as alterações hormonais favorecem a colonização vaginal por bactérias nefrogênicas, que, migrando para a área periuretral, podem ascender pelo trato urinário, causando ITU. As infecções baixas são as mais frequentes. Com exceção dos abscessos perirrenais e renais decorrentes de bacteriemia, as infecções urinárias altas são secundárias a cistites. A disseminação ascendente envolve diversos fatores: urodinâmicos, de virulência, de suscetibilidade da medula renal e obstrução ou refluxo vesicoureteral (RVU). 8.5.2 Segmento acometido 8.5.2.1 Pielonefrite aguda Há o comprometimento do parênquima renal, que pode resultar em cicatriz pielonefrítica, ou seja, lesão renal sequelar localizada ou global. Apresenta-se com comprometimento do estado geral, dor abdominal, febre e mal-estar. O exame do sedimento urinário pode demonstrar cilindros leucocitários. 8.5.2.2 Cistite O comprometimento ocorre na bexiga urinária ou desta em direção ao meato uretral, já que a localização precisa pode ser difícil. Apresenta sintomas característicos, como disúria, polaciúria, dor suprapúbica, incontinência urinária, alteração do cheiro da urina e, eventualmente, febre. 8.5.2.3 Bacteriúria assintomática Há urocultura positiva para bactérias sem existirem sintomas indicativos de infecção. No entanto, pode evoluir para ITU sintomática.Vale lembrar que essa divisão é didática, sendo muito difícil a diferenciação clínica, principalmente em menores de 2 anos. 8.6 DIAGNÓSTICO A anamnese detalhada e o exame físico podem direcionar o quadro para o diagnóstico de ITU, mas a sua confirmação deve ser feita pela cultura de urina, que evidencia a proliferação de micro-organismos no trato urinário. A avaliação laboratorial da criança com suspeita de ITU inclui a obtenção de urina para avaliação bioquímica ou de celularidade e para cultura. A cateterização vesical ou punção suprapúbica são os métodos de escolha para a coleta de urina para cultura em lactentes e crianças sem controle esfincteriano. Para crianças já treinadas, a urina de jato médio é o método preferencial. As urinas coletadas por meio de sacos coletores estéreis não são recomendadas devido aos altos índices de falsos positivos. Resultados de culturas de urina coletadas desta forma só terão valor caso sejam negativos. A urina coletada deve ser analisada o mais rápido possível para diminuir a chance de resultados falsos positivos ou falsos negativos. 8.6.1 Diagnóstico laboratorial 8.6.1.1 Urina tipo I 1. Leucocitúria: em 80% dos casos, nos primeiros surtos de ITU há leucocitúria. Entretanto, isso não é suficiente para o diagnóstico, pois em outras patologias se pode encontrar leucocitúria estéril, como na leucorreia, balanopostite, glomerulonefrite, gastroenterocolite, litíase e mesmo processos febris de etiologia viral. Leucocitúria é definida como mais de 10 leucócitos/mm3; 2. Hematúria: hematúria microscópica e, ou cilindros leucocitários podem estar presentes; 3. Teste de nitrito: quando positivo, é sugestivo de infecção urinária, pois é altamente específico, com poucos falsos positivos, porém é necessário que a urina esteja na bexiga por pelo menos 4 horas para os nitritos serem detectados; 4. Bacterioscopia: é definida pela presença de qualquer bactéria por intermédio da coloração de Gram. 8.6.1.2 Urocultura O diagnóstico de certeza só pode ser feito na presença de urocultura positiva, e o seu resultado depende diretamente da técnica de coleta. A urocultura deve ser solicitada juntamente com a avaliação de antibiograma. 1. Critérios de Kass: quando a amostra de urina utilizada para a cultura é colhida por jato médio, são necessárias mais de 100.000 Unidades Formadoras de Colônia (UFCs) do mesmo patógeno ou > 50.000 UFC associada a exame de urina I com piúria para que se possa diagnosticar ITU. Uroculturas com menor número de colônias devem ser consideradas como possível contaminação. Quando a amostra de urina é coletada por cateterismo vesical sob condições adequadas de assepsia, qualquer valor > 1.000 UFC é diagnóstico, alguns serviços consideram 5.000 UFC; quando a amostra é coletada por punção suprapúbica, qualquer crescimento bacteriano é considerado positivo (Sociedade Brasileira de Pediatria, 2016); 2. Uso do saco coletor: a coleta por meio do saco coletor não é considerada adequada pela maioria dos autores. Terá valor se mostrar urinoculturas negativas, haja vista o grande risco de contaminação com resultados falsos positivos. Figura 8.1 - Punção suprapúbica 8.6.2 Exames de imagem 8.6.2.1 Ultrassonografia Poderá revelar aumento do volume renal, alterações da ecogenicidade do parênquima, perda da visualização normal das pirâmides e dilatação pielocalicial. É um exame não invasivo e não expõem o paciente à radiação, mas é examinador dependente. Deve ser realizado em todas as crianças com ITU febril menores de 3 anos, no primeiro episódio; entre 3 e 7 anos de idade a realização da ultrassonografia no primeiro episódio de ITU febril é discutível. É também indicado a partir do segundo episódio de ITU, independentemente da idade do paciente, para pesquisa de malformações e presença de lesão renal. 8.6.2.2 Cintilografia Utiliza-se o ácido dimercaptossuccínico (DMSA). Observam-se hipocaptação do radioisótopo focal ou difusamente e aumento do volume renal. Está indicada em casos selecionados onde o diagnóstico de pielonefrite aguda é necessário e não pode ser realizado por meio dos exames de urina, uso de antibiótico prévio, por exemplo. Entretanto, seu uso na fase aguda tem sua dificuldade por captação anômala, limitando essa função. É indicada nos casos de ITUs de repetição, complicadas, por agentes que não E. coli ou com refluxo vesicoureteral associado, além das ITUs febris nos lactentes e pielonefrites em menores de 6 anos de idade. Deve ser realizado cerca de 5 a 6 meses após o episódio de ITU para a detecção de cicatrizes pielonefríticas, é exame padrão-ouro para identificar cicatrizes. 8.6.2.3 Uretrocistografia miccional (UCM) Exame realizado com administração de contraste iodado intravesical. Nele podemos visualizar alterações da coluna, visualizar uretra, RVU e alterações da bexiga. Deve ser realizado em pacientes que apresentam USG de rins e vias urinárias e, ou cintilografia com DMSA alterada e, ou quadros repetitivos de infecção urinária associados à disfunção miccional. 8.7 TRATAMENTO Os objetivos incluem: a) Eliminação da infecção e prevenção de sepse – e tratamento da sepse quando houver; b) Prevenção da recorrência e de complicações em longo prazo, incluindo hipertensão, cicatrizes renais e alterações da função renal; c) Alívio dos sintomas agudos. 8.7.1 Antibioticoterapia O tratamento com antibióticos deve ser instituído imediatamente quando há suspeita de ITU em crianças sintomáticas (febre ou sintomas locais), mesmo antes do resultado da urocultura e do antibiograma. A instituição da terapêutica imediata visa evitar o aumento da gravidade da infecção e a possibilidade de lesão renal. 8.7.1.1 Crianças com mais de 2 meses A maioria pode ser tratada ambulatorialmente, desde que estejam garantidos as reavaliações e o acompanhamento. 8.7.1.2 Recém-nascido e lactentes com menos de 2 meses Quando a infecção ocorre em recém-nascidos, lactentes jovens com estado comprometido, imunodeprimidos ou crianças de qualquer idade com suspeita de pielonefrite, deve-se proceder a internação e antibioticoterapia intravenosa com cefalosporinas de terceira geração ou aminoglicosídeos. 8.7.1.3 Conforme resultado da bacterioscopia e da urocultura Quando a urocultura estiver disponível com o antibiograma correspondente, o antibiótico deverá ser adequado à sensibilidade do agente etiológico. Em lactentes ou outras faixas etárias sem suspeita de pielonefrite, o tratamento pode ser iniciado empiricamente por via oral, até o resultado da urocultura e do antibiograma. A bacterioscopia pela coloração de Gram já pode orientar a escolha do antibiótico. Como a maioria das ITUs é causada pela E. coli, a orientação é optar por uma droga que a elimine, e a escolha deve ser determinada pelo padrão de resistência local. 8.7.1.4 Antibióticos Desse grupo fazem parte as cefalosporinas de primeira, segunda e terceira gerações, sulfametoxazol-trimetoprima e amoxicilina- clavulanato. As fluoroquinolonas são eficazes contra E. coli e podem ser utilizadas em casos selecionados e complicados de ITU e pielonefrite, embora sua segurança em crianças ainda não tenha sido totalmente determinada. Também podem ser utilizadas nas ITUs por Pseudomonas aeruginosa ou outras bactérias multirresistentes. A duração do tratamento nunca deve ser inferior a 7 dias, dando preferência aos tratamentos por 10 dias, e, no caso de pielonefrites, deve-se estender por 14 dias. As drogas de escolha estão relacionadas no Quadro 8.1. Quadro 8.1 - Medicamentos para tratamento da infecção do trato urinário por via parenteral Quadro 8.2 - Medicamentos para tratamento da infecção do trato urinário por via oral 8.7.2 Conduta cirúrgica Crianças com abscesso renal ou perirrenal e aquelas com ITU obstruído devem ser submetidas a procedimento cirúrgico para a drenagem do abscesso e medidas que visem à liberação do fluxo urinário, além da introdução de antibióticos. 8.8 REFLUXO VESICOURETERAL O refluxo vesicoureteral é classificado segundo a aparência do trato urinário na UCM. Classificação:1. Grau I: refluxo para 1 ureter não dilatado; 2. Grau II: sistema coletor superior sem dilatação; 3. Grau III: ureter dilatado e, ou presença de apagamento dos fórnices cabeceais; 4. Grau IV: ureter dilatado grosseiramente; 5. Grau V: refluxo maciço, com dilatação ureteral significativa com tortuosidade e perda da impressão papilar. Figura 8.2 - Diferentes graus de evolução do refluxo vesicoureteral No refluxo vesicoureteral primário, há deformidade anatômica da junção ureterovesical. Quando produzido por pressão intravesical aumentada, por processos inflamatórios ou como resultado de procedimentos cirúrgicos envolvendo a junção ureterovesical, o refluxo é chamado secundário. O momento mais apropriado para a realização da UCM ainda é controverso; alguns autores sugerem que seja adiada em 2 a 6 semanas após a resolução da ITU, para permitir a resolução do processo inflamatório na bexiga. É importante ressaltar que esse exame não deve ser realizado sob anestesia geral, por invalidar uma parte do exame (esvaziamento vesical ou fase miccional). Alguns autores recomendam que crianças com menos de 2 anos recebam antibioticoterapia profilática até a realização da UCM. No caso de a USG das vias urinárias apresentar alteração, a criança deve ser submetida a cintilografia com DMSA ou urografia excretora, em caso de refluxo vesicoureteral. Já quando a UCM apresenta alteração, deve-se realizar cintilografia com DTPA ou urografia excretora, em caso de obstrução ao fluxo urinário. Quando as recorrências se tornam frequentes, mesmo na ausência de alterações evidenciadas por meio de USG de vias urinárias e, ou UCM, deve-se pesquisar a presença de fatores predisponentes. Eventualmente, pode-se encontrar constipação acentuada. Por isso, informações sobre o hábito intestinal sempre devem ser colhidas no acompanhamento da criança com ITU, e quadros de obstipação intestinal devem ser tratados de forma assertiva. 8.9 PREVENÇÃO Alguns grupos de crianças necessitam de profilaxia das ITUs com antibióticos administrados diariamente. Os casos em que deve ser considerado esse tipo de profilaxia com o objetivo de prevenir recidivas e, ou dano renal são: a) Pacientes com achados ultrassonográficos do pré-natal sugerindo uropatias; b) Crianças em curso de investigação ultrassonográfica de alterações do trato urinário; c) Dilatação grave no trato urinário; d) Refluxo vesicoureteral graus 3, 4 e 5. ITUs de repetição, mesmo na ausência de malformação de trato genitourinário, têm sua indicação de antibioticoterapia profilática discutível, e varia a cada serviço. Não há recomendação específica para essa situação, e o uso de antimicrobiano aumenta o risco de seleção de cepas resistentes. Os antimicrobianos de escolha são nitrofurantoína, sulfametoxazol- trimetoprima e cefalosporina de primeira geração. As doses são apresentadas no Quadro 8.3. Quadro 8.3 - Doses dos antimicrobianos Convém ressaltar que não se recomenda nitrofurantoína antes de 2 meses de vida. Algumas recomendações básicas de higiene e hábitos devem ser realizadas em todas as crianças, mesmo as que não apresentam malformações do trato urinário. Em meninas, deve ser orientada a higiene anal sempre de frente para trás, visando evitar levar bactérias da flora intestinal em direção à vagina. Além disso, o hábito de ingerir grandes quantidades de líquidos para aumentar a diurese também é eficaz para a prevenção de ITU, já que a urina eliminada serve como limpeza mecânica do urotélio, eliminando as bactérias da região uretral. Dieta rica em fibras, atividade física e prevenção da obesidade são outros fatores protetores do trato urinário, principalmente em meninas, uma vez que a constipação intestinal é um grande fator de risco para ITU. Como fazer o seguimento por imagens após quadro de ITU, conforme recomendação da American Academy of Pediatrics? 1. Ultrassonografia de rins e vias urinárias: deve ser realizada em todas as crianças menores de 3 anos com ITU febril, no primeiro episódio; entre 3 e 7 anos de idade a realização da ultrassonografia no primeiro episódio de ITU febril é discutível. É também indicada a partir do segundo episódio de ITU, independentemente da idade do paciente, para pesquisa de malformações e presença de lesão renal; 2. Cintilografia: indicada nos casos de ITUs de repetição, complicadas, por agentes que não E. coli ou com refluxo vesicoureteral associado, além das ITUs febris nos lactentes e pielonefrites em menores de 6 anos de idade. Deve ser realizada cerca de 5 a 6 meses após o episódio de ITU para a detecção de cicatrizes pielonefríticas (é exame padrão-ouro para identificar cicatrizes); 3. Uretrocistografia miccional: deve ser realizada em pacientes que apresentam ultrassonografia de rins e vias urinárias e/ou cintilografia com DMSA alterada e/ou quadros repetitivos de infecção urinária associados a disfunção miccional. Quais recém-nascidos devem ser investigados para sífilis congênita e como devem ser tratados? 9.1 INTRODUÇÃO Uma variabilidade de agentes pode infectar a mãe durante a gestação, o trabalho de parto e o parto, podendo causar infecção do feto ou do neonato e levando de disfunções orgânicas a óbito fetal ou aborto. Essas infecções congênitas contam com diversas etiologias com manifestações clínicas semelhantes, representadas principalmente pelos clássicos agentes que compõem o acrônimo TORCH (toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, herpes-simples e sífilis). 9.2 TOXOPLASMOSE CONGÊNITA (AGENTE TOXOPLASMA GONDII) A toxoplasmose congênita é uma doença infecciosa que resulta da transferência transplacentária do Toxoplasma gondii, parasita intracelular para o concepto, decorrente de infecção primária da mãe durante a gestação ou por reagudização de infecção prévia em mães imunodeprimidas. A severidade da doença fetal depende da idade do feto no momento da transmissão, sendo mais grave a apresentação durante os primeiros 2 trimestres da gestação. A gravidade da doença no neonato é inversamente proporcional à idade gestacional; no primeiro trimestre da gestação, a taxa de transmissão é de 17% com repercussões graves, como óbito fetal ou neonatal; no segundo trimestre, o risco sobe para 25%, e o Recém-Nascido (RN) pode apresentar manifestações subclínicas. No terceiro trimestre, o risco chega a 65%, com manifestações subclínicas – repercussões leves – e, mais raramente, um quadro de parasitemia. 9.2.1 Quadro clínico Na grande maioria das vezes, a doença é subclínica, dificultando o diagnóstico. A maioria das crianças acometidas são assintomáticas ao nascimento. Os sintomas, quando presentes, são inespecíficos, podendo simular qualquer outra infecção, tornando fundamental o diagnóstico sorológico. A tríade clássica de sinais é composta por coriorretinite, hidrocefalia e calcificações cerebrais. Outros quadros clínicos são: a) Natimortalidade e morte neonatal, 5% dos casos; b) Formas subclínicas, 70%; c) Formas leves, 20% – o paciente é aparentemente normal, com algum sintoma semanas ou meses; d) Algumas vezes aparecem calcificações cerebrais e coriorretinite, sem comprometimento do Sistema Nervoso Central (SNC). Formas graves manifestam-se como: 1. Neurológica (encefalítica): coriorretinite, alteração do líquido cerebrospinal (LCE), anemia, convulsões, calcificações cerebrais, hidrocefalia, microcefalia; 2. Generalizada (formas neurológica e visceral): icterícia, hepatoesplenomegalia, linfadenopatia, febre, alterações liquóricas, coriorretinite, anemia, petéquias, eosinofilia, trombocitopenia, surdez neurossensorial. Suas sequelas incluem alterações da acuidade visual – praticamente 100% das crianças não tratadas terão lesões oculares ao longo da vida – convulsões, retardo mental. Quadros graves de toxoplasmose congênita apresentam a tétrade de Sabin: hidro ou microcefalia, retinocoroidite bilateral macular ou perimacular, calcificações cerebrais intraparenquimatosas grosseiras e retardo mental. Figura 9.1 - (A) Hidrocefalia e (B) calcificações intracerebrais Figura 9.2 - Lesão macularpor toxoplasmose congênita 9.2.2 Diagnóstico A suspeita clínica deve ser feita com base nos antecedentes epidemiológicos e obstétricos, bem como na presença de sinais e sintomas sugestivos de infecção congênita, como anemia, icterícia, hepatomegalia, baixo peso de nascimento etc. O diagnóstico pode ser feito por meio de métodos sorológicos, dentre eles o Enzyme-Linked Immunosorbent Assay (ELISA), com captura de IgA para o diagnóstico de infecções recentes, pois seus anticorpos desaparecem de circulação mais rapidamente do que os da classe IgM, e reação em cadeia da polimerase no líquido amniótico. Outras avaliações devem ser realizadas, como a oftalmológica, a neurológica e a auditiva, e outros exames, como ultrassonografia (USG) transfontanela, hemograma completo e análise do LCE para avaliar o comprometimento do paciente. Durante a gravidez, com a presença de anticorpos IgG na gestante, pode ser feito o teste de avidez para avaliar se a infecção é recente ou antiga. O teste de avidez de IgG ≤ 30% indica infecção nos últimos 60 dias; ≥ 60%, infecção há mais de 60 dias; entre 31 e 59%, não se permite determinar o tempo de infecção e o teste deve ser repetido. O diagnóstico de toxoplasmose fetal pode ser sugerido por alterações na USG fetal como hidrocefalia, calcificações cerebrais e hepáticas ascite, cardiomegalia e alterações placentárias. Pode-se investigar a presença do Toxoplasma por meio da amplificação do seu DNA por meio da proteína C reativa (PCR) específica no líquido amniótico obtido por amniocentese. 9.2.3 Tratamento O tratamento materno deve ser iniciado logo que há comprovação laboratorial da infecção por toxoplasmose na gestação. O tratamento pós-natal de neonatos infectados melhora o prognóstico em longo prazo. Todos devem ser tratados. Aos sintomáticos, sulfadiazina, 100 mg/kg/d VO, a cada 12 horas nos 6 primeiros meses e, após esse período, 1 vez ao dia; pirimetamina, 2 mg/kg/d VO, a cada 12 horas, por 2 dias e, posteriormente, 1 mg/kg/d, por 6 meses; após esse período, 3 vezes sem – às segundas, quartas e sextas-feiras. Quanto ao ácido folínico, para combater a ação antifólica da pirimetamina, com supressão medular, preconizam-se 5 a 10 mg, 3x/sem, mantendo-se por 1 semana após a retirada da pirimetamina. Indica-se prednisona quando a proteína no LCE é igual ou superior a 1 g/dL e na coriorretinite em atividade. A dose preconizada é de 0,5 mg/kg VO, a cada 12 horas, por 4 semanas— segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria – ou até a melhora dos níveis de proteína (< 1 g/dL) ou da coriorretinite. 9.2.4 Prevenção Sua prevenção durante a gestação consiste em evitar o contato com animais infectados, principalmente gatos, não consumir carnes cruas ou malcozidas, lavar bem as mãos antes das refeições, lavar bem as frutas e as verduras, evitar jardinagem e repetir a sorologia a cada trimestre. 9.3 RUBÉOLA CONGÊNITA A Síndrome da Rubéola Congênita (SRC) decorre da infecção fetal por via transplacentária durante a viremia materna, diminuindo a sua taxa de transmissão quanto mais avançada a gestação. As infecções placentária e fetal podem ocasionar abortos, óbito fetal, anomalias congênitas, doença multissistêmica e restrição do crescimento intrauterino. 9.3.1 Quadro clínico As manifestações clínicas são várias e consequentes à infecção do feto pelo vírus da rubéola. Cerca de 70% têm manifestação ao nascer. Os RNs podem apresentar desde um quadro assintomático até SRC: catarata, cegueira, surdez neurossensorial, microcefalia, retardo mental e malformações cardíacas, persistência do canal arterial, estenose da artéria pulmonar e defeitos de septos atrial e ventricular. A principal característica da rubéola congênita é a sua cronicidade, e as manifestações existentes podem progredir ou novas alterações aparecer ao longo da vida. O paciente com rubéola congênita pode apresentar como manifestações tardias: dificuldade de aprendizagem, distúrbios de comportamento e autismo. 9.3.2 Diagnóstico É obtido por testes sorológicos maternos ou fetais com aumento da titulação ou soroconversão, além de isolamento viral no sangue, urina ou LCE e reação em cadeia da polimerase no sangue ou nas secreções da orofaringe. A suspeita clínica deve ser feita em todo RN cuja mãe teve rubéola na gestação, suspeita ou confirmada, e para aqueles com restrição de crescimento intrauterino associada a qualquer estigma da rubéola congênita. 9.3.3 Tratamento Compreende suporte clínico. Não há tratamento específico, e o acompanhamento por uma equipe multiprofissional deve ser prolongado, sobretudo no primeiro ano de vida, para a detecção de sintomas de início tardio e oferecimento de maior suporte às possíveis sequelas. 9.3.4 Profilaxia Compreende vacinação para rubéola em mulheres em período fértil; não pode ser aplicada a mulheres grávidas. Após a vacinação o ideal é que se espere 1 mês antes de tentar engravidar. A criança com rubéola congênita deve ficar isolada durante a fase aguda, e os familiares devem ser esclarecidos sobre a possibilidade de eliminação do vírus até 1 ano depois do nascimento. Ressaltando que essa medida não é necessária caso as culturas de nasofaringe e urina sejam repetidamente negativas – pelo menos 2 resultados, com intervalo de 1 mês – após 3 meses de vida. 9.4 INFECÇÃO CONGÊNITA POR CITOMEGALOVÍRUS Trata-se da infecção congênita mais comum, vírus da família do Herpes. Das infecções, 90% são assintomáticos e cerca de 10% desenvolvem complicações como perda da audição, coriorretinite, atrofia óptica, microcefalia e distúrbios da fala e da aprendizagem. O maior risco para o feto ocorre durante a primeira metade da gestação, podendo a infecção materna ser assintomática. Estima-se que cerca de 0,5 a 2,2% dos neonatos sejam infectados pelo citomegalovírus (CMV) no período do nascimento e cerca de 10% sejam sintomáticos ao nascimento. Alguns destes podem ter sintomas extremamente graves, podendo evoluir para óbito, geralmente por coagulação intravascular disseminada (CIVD), falência de múltiplos órgãos e infecção bacteriana secundária. Nos adultos, pode causar a síndrome mononucleose-like. 9.4.1 Modos de transmissão A transmissão vertical pode ocorrer por 3 vias: intraparto, secreção cervicovaginal; aleitamento materno, perinatal; e transplacentária, congênita. Esta última é a mais importante, pois pode resultar em infecção congênita e sequela neurológica. Nos casos em que a primoinfecção materna é durante a gravidez, o risco fetal será maior. 9.4.2 Fatores de risco a) Mãe adolescente; b) Atividade sexual com múltiplos parceiros; c) Multiparidade; d) Baixa condição socioeconômica. 9.4.3 Quadro clínico Cerca de 90% das crianças infectadas apresentam a forma subclínica ou assintomática, enquanto 10% ou menos apresentam a doença de inclusão citomegálica grave. Esta se caracteriza por hepatomegalia, esplenomegalia, icterícia, petéquias e púrpura (a trombocitopenia pode persistir por meses a anos), microcefalia (perímetro cefálico abaixo do percentil 50), calcificações cerebrais (sobretudo periventriculares) e hidrocefalia, defeitos oculares, coriorretinite, microftalmia e catarata), retardo do crescimento intrauterino, prematuridade, pneumonites, defeitos dentários, perda auditiva neurossensorial (alteração mais comum causada pelo CMV, que envolve 60% das crianças sintomáticas e 5% das assintomáticas). A coriorretinite apresenta-se com áreas de necrose retiniana branco- amareladas extensas. Há graus variáveis de hemorragias e vasculite com um aspecto chamado “pizza com ketchup”. Figura 9.3 - Infecção congênita por citomegalovírus 9.4.4 Diagnóstico O diagnóstico é feito pela pesquisa de vírus em secreções urina, salina, secreção respiratória, sangue, e fragmentos de órgãos com isolamento nas primeiras 2 a 3 semanas indicam infecção congênita. Em caso de positivação da pesquisa, anteriormente negativa, ocorrer após 2 semanas de vida, a infecção terá sido perinatal. O IgM positivo após 3 a 4 semanas de nascimento sugere infecção pós-natal. 9.4.5 TratamentoAtualmente, nenhum tratamento materno é recomendável. Para o tratamento sistêmico da infecção pelo CMV, temos drogas licenciadas: ganciclovir, valganciclovir, cidofovir e foscarnete. Destas, apenas 2 são utilizadas no período neonatal, o ganciclovir e o valganciclovir. Em geral, a infecção congênita sintomática tem sido tratada com ganciclovir, 6 a 12 mg/kg IV, a cada 12 horas, por 6 semanas, com diminuição da excreção viral e de deficiência auditiva. 9.5 INFECÇÃO CONGÊNITA POR HERPES-SIMPLES – TIPOS 1 (FACE E TRONCO) E 2 (GENITÁLIA) Ocorre, geralmente, por infecção genital materna, e é mais comum sua transmissão durante o trabalho de parto ou pós-natal, chega a 50% no parto vaginal. As mulheres com primo-infecção geralmente são assintomáticas, enquanto aquelas com infecção recidivante têm a transmissão intraparto diminuída para uma taxa de 3 a 5% pela presença de anticorpos preexistentes. O Herpes-Vírus Simples-1 (HSV-1) infecta a pele e a mucosa acima da cintura, e o Herpes-Vírus Simples-2 (HSV-2) infecta a genitália materna e o neonato – transmissão perinatal. 9.5.1 Quadro clínico O período de incubação da infecção varia entre 2 e 20 dias, com média de 16 dias, portanto os RNs que apresentam lesões ao nascimento provavelmente foram infectados antes do nascimento. As manifestações clínicas se apresentam em 3 categorias: infecção de pele, olho e boca, de 5 a 6 dias após o parto; infecção do SNC (de 8 a 12 dias após o parto); infecção disseminada (de 5 a 6 dias após o parto. Apresenta-se com lesões cerebrais que incluem microcefalia, hidrocefalia e meningoencefalite; na região ocular, conjuntivite, ceratite, coriorretinite e cegueira. Outras sequelas incluem anencefalia, microcefalia, pneumonite, hepatomegalia, anemia hemolítica, espasticidade e retardo mental. Na pele, as lesões podem se apresentar na forma de vesículas agrupadas. A meningoencefalite herpética ocorre geralmente entre a segunda e a terceira semana de vida e é caracterizada por instabilidade térmica, letargia, má aceitação alimentar, irritabilidade, tremores, convulsões e fontanela anterior ampla. Pode ou não ser acompanhada das lesões vesiculares nos olhos, pele e boca. Figura 9.4 - Herpes-simples Fonte: Red Book, American Academy of Pediatrics, 2015. Figura 9.5 - Herpes-simples neonatal Fonte: Red Book, American Academy of Pediatrics, 2015. 9.5.2 Diagnóstico É realizado por meio de cultura e exame citológico das lesões e liquor. Para sorologia, realiza-se o teste de imunofluorescência para anticorpos IgG e IgM, além do ELISA. Em caso de meningoencefalite herpética, o diagnóstico é feito por reação em cadeira da polimerase e análise do liquor (hemácias, pleocitose, aumento de proteínas, sem alteração da glicose), além de eletroencefalograma e ressonância nuclear magnética com lesões destrutivas no lobo temporal (anormalidade clássica), edema e hemorragia parenquimatosa. 9.5.3 Tratamento Deve ser realizado com aciclovir, medicamento inibidor seletivo da replicação viral na dose de 60 mg/kg/d IV, a cada 8 horas, por 14 dias, prolongando-se para 21 dias quando há o envolvimento do SNC. Em gestantes com HSV genital, lesões primárias ou recorrentes, deve-se optar por parto cesárea. 9.6 SÍFILIS CONGÊNITA Convém atentar-se para a sífilis congênita, pois as últimas estatísticas apontam para o aumento do número de casos. Ocorre em qualquer fase da gestação e qualquer estágio da sífilis materna, sendo o agente etiológico uma bactéria Gram negativa, o Treponema pallidum. Os fatores determinantes são tempo de exposição, carga treponêmica, virulência, tratamento e imunodeficiências. Quanto mais tarde na gestação e mais precoce a sífilis, maior o risco de infecção fetal. A transmissão é feita pela disseminação hematogênica do Treponema pallidum da gestante para o feto. A transmissão da sífilis não ocorre por meio do leite materno. Durante o aleitamento materno, é possível que aconteça a transmissão se há lesão mamária por sífilis, mas essa é uma situação rara. Em gestantes com sífilis precoce não tratada, estima-se perda fetal em 40% de aborto espontâneo ou natimorto. A notificação de sífilis adquirida, sífilis em gestante e sífilis congênita é obrigatória. Taxa de transmissão vertical da sífilis: 1. Fases primária e secundária da doença materna: de 70 a 100%; 2. Fases terciária e latente tardia: 30%. 9.6.1 Prevenção e controle da sífilis congênita a) Triagem diagnóstica antes da gravidez em mulheres em idade reprodutiva e em seu parceiro; b) Assistência pré-natal adequada, com VDRL no primeiro trimestre e em torno da vigésima oitava semana da gestação; c) Tratamento de acordo com a fase da doença. 9.7 SÍFILIS CONGÊNITA PRECOCE A sífilis congênita é classificada como precoce, nos primeiros 2 anos de vida, e tardia, após os 2 anos de idade. Mais de 50% das crianças afetadas são assintomáticas ao nascimento, com sintomas surgindo ao redor dos 3 meses. As manifestações clínicas e alterações laboratoriais estão relacionadas a seguir. 9.7.1 Alterações cutâneo-mucosas – de 15 a 60% a) Pênfigo palmoplantar; b) Exantema maculopapular; c) Coriza; d) Condiloma plano; e) Placas na mucosa oral; f) Fissuras nos lábios, nas narinas e no ânus; g) Alterações ectodérmicas – perda de cílios e cabelos, esfoliação das unhas. Figura 9.6 - Pênfigo palmar 9.7.2 Alterações viscerais – laboratoriais a) Hepatomegalia – 75% a 100%; b) Esplenomegalia; c) Hepatite; d) Síndromes nefrítica e/ou nefrótica; e) Paralisia das cordas vocais; f) Pneumonia intersticial; g) Meningite, convulsões; h) Hidrocefalia progressiva; i) Uveíte, coriorretinite “em sal e pimenta”; j) Rinite serossanguinolenta; k) Anemia – hemolítica e Coombs negativo; l) Trombocitopenia, púrpura; m) Leucopenia – leucocitose com reação leucemoide; n) CIVD. 9.7.3 Alterações osteoarticulares Osteocondrite (pseudoparalisia de Parrot) e periostite. Figura 9.7 - Periostite ou osteocondrite 9.7.4 Outras a) Febre; b) Adenomegalia; c) Retardo de crescimento; d) Prematuridade; e) Pequeno para Idade Gestacional (PIG). 9.8 SÍFILIS CONGÊNITA TARDIA Cerca de 40% das crianças não tratadas apresentam sequelas de doença sistêmica precoce nas fases pré-escolar e escolar. As principais características são gomas do véu palatino (ulcerações e perfuração), rágades (cicatrizes periorificiais), hidrocefalia, ceratite intersticial, surdez neurológica (lesão do VIII par), dentes de Hutchinson (incisivos centrais superiores), molar “de amora” (primeiro molar inferior), nariz “em sela”, encurtamento da maxila; articulações de Clutton, tíbias “em lâmina de sabre”, bossa frontal e fronte olímpica. Figura 9.8 - Sífilis tardia 9.8.1 Diagnóstico Devemos iniciar investigação de sífilis congênita em todos os RNs de mães com sífilis e evidência clínica e, ou laboratorial, e em todas as crianças com menos de 13 anos com suspeita clínica e, ou epidemiológica de sífilis congênita. Nesses casos, devemos realizar, além de exame físico minucioso, radiografia de ossos longos, dosagem de Venereal Disease Research Laboratory (VDRL) – teste não treponêmico – em amostra de sangue periférico do RN, coleta de liquor e hemograma completo. Se o VDRL da criança for maior do que o da mãe, suspeita-se de sífilis congênita; se a criança não estiver infectada pelo Treponema, espera-se que os títulos de anticorpos comecem a declinar com 3 meses de idade e negativem aos 6 meses. Caso permaneça reagente, aumenta a suspeita de sífilis congênita, com necessidade de maior investigação. Na radiografia de ossos longos, podem-se encontrar periostite e osteocondrite, lesões que sugerem quadro sifilítico. Outros achados importantes incluem VDRL positivo no liquor, FTA- ABS/IgM reagente em material fetal ou títulos sorológicos (VDRL) do RN maiores do que os títulos maternos. 9.8.2 Tratamento O tratamento adequado durante a gestação reduz o desenvolvimento de doença fetal, importante causa de prematuridade. O tratamento de escolha envolve a penicilina, em qualquer fase da doença. Em recém-nascido com sífilise congênita alergia a penicilina, podem-se empregar eritromicina ou cefalosporinas. Possuem menor eficácia em relação ao tratamento-padrão. Tratamento e seguimento da sífilis congênita: 1. RN de mãe não tratada ou com tratamento incompleto: a) É considerada mãe com tratamento incompleto nas seguintes situações: Uso de tratamento não penicilínico ou por tempo inadequado; Tratamento iniciado a menos de 30 dias do nascimento, é considerado tratamento incompleto para sífilis todo tratamento não finalizado até 30 dias antes do parto; Parceiro não tratado durante a gestação; Tratamento não documentado; Acompanhamento sorológico não documentado. b) Se VDRL positivo e/ou alterações clínicas ou radiológicas, porém sem acometimento neurológico: Penicilina G cristalina, na dose de 50.000 UI/kg IV, a cada 12 horas na primeira semana de vida e a cada 8 horas após a primeira semana de vida, por 10 dias, ou penicilina G procaína 50.000 UI/kg IM a cada 24 horas, por 10 dias. c) Se VDRL positivo e/ou alterações clínicas ou radiológicas, porém sem acometimento neurológico: Penicilina G cristalina, na dose de 50.000 UI/kg IV, a cada 12 horas na primeira semana de vida e a cada 8 horas após a primeira semana de vida, por 10 dias, ou penicilina G procaína 50.000 UI/kg IM a cada 24 horas, por 10 dias. d) Se houver qualquer alteração no liquor ou mesmo impossibilidade de colhê-lo: Penicilina G cristalina, na dose de 50.000 UI/kg IV, a cada 12 horas na 1ª semana de vida e a cada 8 horas após a primeira semana, por 10 dias, sem a opção de penicilina procaína. e) Se o RN for VDRL negativo, sem alterações clínicas, liquóricas ou radiológicas: Penicilina G benzatina, na dose única de 50.000 UI/kg IM. Devem-se acompanhar os pacientes com VDRL sérico seriado. Caso não seja possível, trata-se com penicilina cristalina ou procaína nas doses já citadas, por 10 dias. 2. RN de mãe com tratamento completo: a) Se sinais clínicos ou radiológicos presentes – tratamento por 10 dias, como referido; b) Se alteração liquórica – tratar como já citado, com penicilina cristalina e sem a opção de procaína; c) Se assintomático e sorologia do neonato negativa – se o acompanhamento ambulatorial não é garantido, tratar com dose única de penicilina G benzatina, 50.000 UI/kg IM. 3. Acompanhamento laboratorial: a) É obrigatório, com seguimento sorológico dos casos. Deve-se realizar VDRL com 1, 3, 6, 12, 18 e 24 meses, interrompendo quando há negativação. Diante de elevações de títulos sorológicos ou não negativação desses até os 18 meses, recomenda-se reinvestigação. 9.9 HIV A transmissão vertical é a forma predominante de na aquisição de HIV por essa população. A taxa de transmissão gira ao redor de 15% a 40%, sendo mais alta nos países em desenvolvimento e na ausência de medidas profiláticas. A transmissão pode ocorrer durante todo o pré-natal, parto ou pela amamentação. O maior risco ocorre no momento do parto, pela exposição da pele e mucosa do concepto ao sangue e secreções maternas, além da transfusão materno fetal. 9.9.1 Diagnóstico Como a transmissão costuma ser periparto, as crianças são assintomáticas ao nascimento. Deve ser realizada intervenção profilática de acordo com a sorologia e carga viral materna, e seguimento sorológico do lactente. 9.9.2 Tratamento O tratamento é, na verdade, a profilaxia da infecção pelo vírus. Com relação à via de parto, se a mãe tem carga viral maior do que mil cópias ou essa avaliação foi realizada antes das 34 semanas de gestação, está indicada a via cirúrgica (cesariana). Caso contrário, especialmente se a carga viral for indetectável, a via de parto é por indicação obstétrica, podendo ser vaginal. Entretanto deve-se evitar o uso de fórcipe, evitar a episiotomia sempre que possível e outros procedimentos que traumatizem mucosa. Se houver possibilidade de o bebê nascer empelicado, sem rotura da membrana amniótica, é ainda melhor, para evitar a infecção. A ligadura do cordão deve ser imediata. Além disso, está indicada a administração de AZT IV para todas as parturientes, pelo menos 4 horas antes do parto, sempre que possível, independentemente da carga viral e de resistência prévia a essa medicação. Imediatamente após o nascimento a criança deve ser higienizada com compressas macias e lavada com água e sabão. Aspirar vias aéreas apenas se for necessário, e de forma delicada, a fim de evitar traumatismos na mucosa. O RN deve começar a receber AZT nas primeiras 8 horas de vida, e deve-se mantê-lo durante as primeiras 6 semanas de vida. A profilaxia para Pneumocystis jiroveci, com sulfametoxazol- trimetoprima iniciado entre 4 e 6 semanas de vida. O aleitamento materno é contraindicado; na alta da maternidade o paciente deve ser encaminhado para serviço de referência, para seguimento. 9.10 HEPATITE B Em geral a transmissão desse vírus ocorre no momento do parto, e as crianças costumam apresentar sintomas entre 1 e 3 meses de idade – uma vez que o período de incubação do vírus é de 45 a 180 dias. São fatores de risco para transmissão vertical infecção materna no terceiro trimestre da gestação, títulos de AgHBs maternos, positividade do HbE materno e AgHBs positivo no sangue do cordão umbilical. Não há contraindicação para parto vaginal nem para o aleitamento materno, mas essas crianças devem receber imunoprofilaxia adequada. O risco de cronicidade é de 90 a 95% nos casos de transmissão vertical da hepatite B. 9.10.1 Diagnóstico A maioria das crianças são assintomáticas no período perinatal, e pode haver discreta ascensão de transaminases. O diagnóstico costuma ser feito pela sorologia materna, e posterior manutenção desta no lactente. 9.10.2 Tratamento O tratamento na realidade visa em evitar o contágio do RN; deve-se fazer a triagem universal de todas as gestantes com sorologia para hepatite B, vacinação universal de todos os RNs logo após o nascimento (profilaxia pré-exposição); RNs filhos de mãos AgHBs+ devem receber imunoglobulina humana nas primeiras 12 horas de vida, (profilaxia pós-exposição), além da vacina. Deve ser realizado seguimento de sorologia do RN. Por hora não há tratamento para a forma crônica de hepatite B. 9.11 VARICELA A transmissão em geral ocorre no período pós-natal, com riso de varicela disseminada. Portanto, é mais grave se ocorre ao final da gestação. 9.11.1 Diagnóstico O diagnóstico é clínico, pelo quadro materno de doença aguda. 9.11.2 Tratamento Os RNs de mães que desenvolveram o quadro de varicela entre 5 dias antes e o 2 dias após o parto devem receber imunoglobulina específica para varicela-zóster; o aleitamento não é contraindicado, mas a mãe deve utilizar máscara cirúrgica como isolamento do RN, bem como não deve haver o contato do bebê com lesões maternas. O RN deve ser mantido em isolamento por 28 dias, por ser um potencial transmissor da doença. Quais recém-nascidos devem ser investigados para sífilis congênita e como devem ser tratados? 1. RN de mãe não tratada ou com tratamento incompleto: a) É considerada mãe com tratamento incompleto nas seguintes situações: ▪ Uso de tratamento não penicilínico ou por tempo inadequado; ▪ Tratamento iniciado há menos de 30 dias do nascimento (é considerado tratamento incompleto para sífilis todo tratamento não finalizado até 30 dias antes do parto); ▪ Parceiro não tratado durante a gestação; ▪ Tratamento não documentado; ▪ Acompanhamento sorológico não documentado. b) Se VDRL positivo e/ou alterações clínicas ou radiológicas, porém sem acometimento neurológico: ▪ Penicilina G cristalina, na dose de 50.000 UI/kg IV, a cada 12 horas na primeira semana de vida e a cada 8 horas após a primeira semana de vida, por 10 dias, ou penicilina G procaína 50.000UI/kg IM a cada 24 horas, por 10 dias. c) Se houver qualquer alteração no liquor ou mesmo impossibilidade de colhê-lo: ▪ Penicilina G cristalina, na dose de 50.000 UI/kg IV, a cada 12 horas na primeira semana de vida e a cada 8 horas após a primeira semana, por 10 dias, sem a opção de penicilina procaína. d) Se o RN for VDRL negativo,sem alterações clínicas/liquóricas ou radiológicas: ▪ Penicilina G benzatina, na dose única de 50.000 UI/kg IM. Devem-se acompanhar os pacientes com VDRL sérico seriado. Caso não seja possível, trata-se com penicilina cristalina ou procaína nas doses já citadas, por 10 dias. 2. RN de mãe com tratamento completo: a) Se sinais clínicos ou radiológicos presentes: tratamento por 10 dias, como referido; b) Se alteração liquórica: tratar como já citado, com penicilina cristalina e sem a opção de procaína; c) Se assintomático e sorologia do neonato negativa: se o acompanhamento ambulatorial não é garantido, tratar com dose única de penicilina G benzatina, 50.000 UI/kg IM. 3. Acompanhamento laboratorial: é obrigatório, com seguimento sorológico dos casos. Deve-se realizar VDRL com 1, 3, 6, 12, 18 e 24 meses, interrompendo quando há negativação. Diante de elevações de títulos sorológicos ou não negativação desses até os 18 meses, recomenda-se reinvestigação. Qual é o quadro clínico da bronquiolite e como tratá- la? 10.1 DEFINIÇÃO E EPIDEMIOLOGIA Bronquiolite é uma infecção viral que ocorre nos primeiros 2 anos de vida, mas predominantemente nos lactentes menores de 1 ano de vida. Aproximadamente 1 a cada 3 lactentes desenvolvem bronquiolite no primeiro ano de vida, e 2 a 3% deles necessitam de internação hospitalar. A incidência é maior nos meses de outono e inverno, e a gravidade da doença é maior em pacientes mais jovens, prematuros ou com doenças congênitas, como sibilância recorrente, cardiopatias ou imunodeficiências congênitas ou adquiridas. Para fins acadêmicos, a bronquiolite é definida como o primeiro episódio de sibilância nos lactentes menores de 2 anos de idade. Entretanto, sabe-se que a criança pode ter vários episódios de bronquiolite nos primeiros 2 anos de vida. 10.2 FISIOPATOLOGIA A bronquiolite se enquadra no grupo das obstruções agudas de vias aéreas inferiores. Geralmente o quadro inicia com uma infecção de vias aéreas superiores, ou resfriado comum, com obstrução nasal, rinorreia e tosse progressiva. Em 3 a 4 dias há progressão de acometimento em bronquíolos, com aparecimento de dispneia, sinais de esforço respiratório, dificuldade de alimentação ou amamentação e, nos mais novos, apneia. O vírus causa inflamação em bronquíolos, com aumento da produção de secreção em vias aéreas, diminuição da sua drenagem e disfunção dos movimentos ciliares. Isso leva à obstrução das vias aéreas de pequeno calibre, hiperinsuflação pulmonar e atelectasias em lactentes menores de 2 anos. Figura 10.1 - Fisiopatologia da infecção pelo vírus sincicial respiratório Fonte: elaborado pelos autores. 10.3 ETIOLOGIA A bronquiolite, como já abordado, é uma doença viral das vias aéreas de pequeno calibre. O vírus sincicial respiratório (VSR) é o principal agente etiológico, seguido por rinovírus, adenovírus, metapneumovírus, parainfluenza, influenza, coronavírus e outros. Agentes etiológicos: a) VSR (50% a 80%); b) Rinovírus (20%); c) Influenza (10% a 20%); d) Parainfluenza (10% a 30%); e) Adenovírus (5% a 10%); f) Metapneumovírus (10%). 10.4 QUADRO CLÍNICO Em geral o quadro clínico da bronquiolite se instala após 3 a 4 dias do início do resfriado comum. A criança passa a apresentar taquipneia, tosse paroxística, sibilos difusos (principalmente expiratórios, mas que em casos de maior gravidade podem também ser inspiratórios, associado à redução de murmúrios vesiculares globalmente) e estertores subcrepitantes, além de retrações intercostais, subcostais, retração de fúrcula e batimento de asa de nariz. A criança, além de dispneia, pode apresentar-se com irritabilidade e dificuldade de aceitação da dieta. A hipoxemia é comum, mas a cianose é rara. Os sinais de insuficiência respiratória são ascendentes: nos casos mais leves há tiragem subdiafragmática e intercostal, nos moderados associa-se tiragem de fúrcula, e nos casos mais graves batimento de asa de nariz e respiração paradoxal, “balancim”, em que há movimentos assíncronos de tórax e abdome. Além disso gemência e alteração do nível de consciência, sonolência ou - irritabilidade, também são sinais de gravidade do quadro respiratório. Vale lembrar do conceito de insuficiência respiratória: é o desconforto respiratório grave que coloca em risco, de forma imediata, a vida do paciente, com necessidade de intervenção imediata e, por vezes, invasiva. Em lactentes muito jovens, com menos de 3 meses, pode ser observada, ainda, apneia, em decorrência da insuficiência respiratória e imaturidade do centro respiratório. A febre, quando presente, pode chegar a cerca de 38,5 a 39 °C. O quadro é autolimitado, com resolução em 5 a 7 dias. A tosse após o episódio agudo de bronquiolite, entretanto, pode durar por até 2 semanas. Algumas crianças apresentam episódios recorrentes de sibilância e desconforto respiratório nos quadros virais subsequentes, por até 6 meses – sendo denominada síndrome pós bronquiolite. Isso ocorre devido alteração de mobilidade ciliar temporária após o quadro respiratório agudo inicial. Há evidências de que infecções precoces pelo vírus sincicial respiratório e pelo adenovírus aumentem o risco de que a criança desenvolva quadro asmático durante seu desenvolvimento, mas ainda são necessários mais estudos a respeito. 10.4.1 Complicações agudas da bronquiolite As principais complicações da bronquiolite são infecções bacterianas secundárias. Em geral o paciente apresenta uma melhora parcial do quadro clínico e/ou resolução da febre, e na evolução do quadro passa a apresentar novamente piora da tosse e do desconforto respiratório, febre, má aceitação alimentar ou dificuldade nas mamadas e irritabilidade. As principais infecções bacterianas envolvidas nas complicações da bronquiolite são otite média aguda e pneumonia, ambas com diagnóstico clínico e tratamento específico com antimicrobiano (betalactâmicos), sintomáticos e suporte. Outras complicações, não infecciosas, são desidratação, pneumonia aspirativa e insuficiência respiratória. 10.4.2 Fatores de risco para bronquiolite grave ou complicada Há fatores intrínsecos e extrínsecos que favorecem um curso mais grave e maior ocorrência de complicações, sendo eles: a) Prematuridade (menor ou igual a 36 semanas); b) Baixo peso ao nascer; c) Idade menor de 3 meses; d) Doença pulmonar crônica (principalmente broncodisplasia); e) Defeito anatômico de via aérea; f) Cardiopatia congênita; g) Imunodeficiência; h) Doença neurológica; i) Fatores externos/sociais – pais tabagistas, frequentador de berçário, gemelar, presença de irmão mais velho (que frequenta a escola). 10.5 DIAGNÓSTICO O diagnóstico da bronquiolite é clínico: 1. Anamnese: paciente menor de 2 anos de idade, com histórico de infecção de vias aéreas superiores, e após terceiro ao quarto dia de histórico de evolução com sinais de desconforto respiratório – taquipneia, tiragens – hipoxemia, má aceitação alimentar e/ou dificuldade na amamentação; 2. Exame físico: sibilos e estertores, taquipneia, tiragens, hipoxemia. Não é necessária realização de exames laboratoriais ou radiológicos de rotina, sendo indicados apenas se suspeita de complicações, como pneumonia ou atelectasia. A realização de pesquisa viral na secreção de nasofaringe – pesquisa de vírus respiratório – é útil para confirmação diagnóstica. Pode ser realizada por proteína C reativa (PCR), biologia molecular e, ou imunofluorescência. A grande vantagem na identificação do vírus como agente etiológico é a redução da introdução de antibióticos nesses casos. Achados comuns na radiografia de tórax nas bronquiolites: a) Hiperinsuflação pulmonar – aumento do espaço retroesternal, horizontalização dos arcos costais; b) Infiltrado intersticial peribrônquico; c) Atelectasias; d) Condensações, ocorrência rara. O hemograma é normal nos casos de bronquiolite, e o PCR costuma ser baixo. Pode haver leucocitose com desvio à esquerda e aumento de PCR nos casos de infecção bacteriana secundária. 10.5.1 Diagnósticos diferenciais 1. Doenças agudas: asma e, oubroncoespasmo, coqueluche, pneumonia viral e, ou bacteriana, aspiração de corpo estranho e, ou broncoaspiração, pneumocistose, sepse, insuficiência cardíaca congestiva e pneumotórax; 2. Doenças crônicas: fibrose cística, cardiopatias congênitas, malformações das vias aéreas – por cistos, por malformações vasculares – anel vascular e, ou hemangioma, por fístulas traqueobrônquicas, discinesia ciliar primária, traqueobroncomalácia, tumores. 10.6 TRATAMENTO A bronquiolite é uma doença autolimitada, e as únicas condutas que comprovadamente têm utilidade no tratamento são lavagem nasal e inalação com soro fisiológico 0,9%, além de suporte ventilatório e hidratação se necessário. O suporte ventilatório de escolha depende do grau de hipoxemia do paciente e de sua resposta à oferta de oxigênio, bem como à presença de desconforto respiratório e a necessidade de ventilação invasiva ou não invasiva. A hidratação pode ser indicada por via oral, se disponível, ou intravenosa, nos casos em que o paciente apresenta má aceitação por via oral, vômitos ou desconforto respiratório que impeça a ingesta líquida. Vale lembrar que na bronquiolite o paciente se apresenta taquipneico, com aumento das perdas insensíveis e maior risco de desidratação. A utilização de beta-2-agonista de curta ação – inalação ou pu� – brometo de ipratrópio e inalação com adrenalina não estão indicados de forma rotineira para o tratamento da bronquiolite, assim como corticoide não deve ser utilizado em casos de bronquiolite – os estudos não mostraram benefícios ao uso dessas medicações, prevalecendo apenas seus efeitos colaterais. Entretanto pode ser realizada prova terapêutica com beta-2-agonista de curta ação, e nos casos em que há resposta à medicação a mesma pode ser mantida. Em geral pacientes mais velhos – maiores de 1 ano – apresentam melhor resposta aos broncodilatadores, já que têm maior quantidade de musculatura lisa peribrônquica. A inalação hipertônica – com cloreto de sódio a 3% – parecia promissora há um certo tempo, mas estudos recentes mostraram que não tem eficácia superior à inalação com soro fisiológico, e acarreta maior risco de broncoespasmo reflexo – por esse motivo não pode ser utilizada em ambiente domiciliar. Seu uso está sendo cada vez menor. A fisioterapia respiratória é amplamente utilizada nestes casos, mas estudos demonstram que não mudam o curso da doença, e reduzem o tempo de internação em poucas horas, quando comparado aos pacientes que não foram submetidos a esse procedimento. 10.6.1 Tratamento domiciliar versus hospitalar Pacientes com frequência respiratória < 60 irpm, sem tiragens ou com tiragens leves, sem hipoxemia, em bom estado geral e boa aceitação hídrica, e pertencentes a famílias que compreendem o tratamento, sinais de gravidade e têm condições de acesso ao serviço de saúde podem ser tratados em ambiente domiciliar, com lavagem nasal e inalação com soro fisiológico. Manter hidratação e alimentação habitual da criança, respeitando aceitação e, se necessário, oferecendo em intervalos mais curtos. Os pacientes que não se enquadram nestes critérios (taquipneia > 60 irpm, desconforto respiratório, má aceitação via oral, sinais de desidratação ou piora do estado geral), ou em que a condição social não permite tratamento domiciliar adequado ou retorno breve ao serviço de saúde, devem ser tratados em regime hospitalar. Neste caso, além da lavagem nasal e inalação, há a manutenção de hidratação via oral ou intravenosa, monitorização e suporte ventilatório conforme necessidade do paciente, possibilidade de realização de teste de resposta com broncodilatador e fisioterapia respiratória, ainda que bastante discutível. A saturação deve ser mantida acima de 92%. Paciente com desconforto respiratório importante ou taquipneia > 60 a 70 irpm devem ser mantidos em pausa alimentar via oral, por risco de broncoaspiração, e alimentação por sonda nasogástrica e/ou hidratação intravenosa até melhora do quadro. Os pacientes em tratamento hospitalar devem ser mantidos em isolamento de contato e gotículas, a fim de reduzir o risco de transmissão entre os pacientes. A higiene das mãos dos profissionais de saúde e acompanhantes tem papel fundamental nessa prevenção. Vale salientar, neste momento, que a principal causa de parada cardiorrespiratória na infância é a hipoxemia. Dessa forma, os sinais de insuficiência respiratória devem ser tratados de forma rápida e assertiva. 10.6.1.1 Critérios de admissão hospitalar De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, estes são os critérios para recomendar a internação hospitalar do paciente com bronquiolite: a) Sinais de toxemia, baixa ingesta alimentar, letargia e desidratação; b) Desconforto respiratório moderado e/ou severo com pelo menos 1 destes sinais: Batimento de asa nasal; Retração intercostal; Subcostal ou supraesternal; FR > 60 irpm; Dispneia; Cianose e SatO2 < 91% em ar ambiente. c) Apneia; d) Hipoxemia (SatO2 < 95%) com ou sem hipercapnia; e) Incapacidade de tratamento domiciliar – indicação social; f) Idade menor que 12 semanas; g) Presença de comorbidades – cardiopatia, fibrose cística etc. 10.6.1.2 Critérios de admissão em unidade de terapia intensiva De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, estes são os critérios para recomendar a internação do paciente com bronquiolite em unidade de terapia intensiva: a) Crianças que, apesar de estarem recebendo oxigênio a 50%, têm paO2 < 60 mmHg, paCO2 > 50 mmHg e pH < 7,25; b) Crianças que, mesmo em uso de oxigênio a 50%, apresentam apneias associadas a SatO2 < 90%; c) Crianças com episódios muito frequentes e rápidos de apneia – especialmente se menores de 6 meses. 10.7 PREVENÇÃO A principal forma de prevenção é evitar o contato com os vírus causadores da bronquiolite. Isso é feito evitando o contato da criança com outras pessoas doentes, não frequentando locais fechados e aglomerados e creche nos primeiros meses de vida, e mantendo adequada higiene ambiental e das mãos. Além disso, evitar o tabagismo passivo também reduz o riso e a gravidade dos episódios de bronquiolite. O aleitamento materno é um importante fator protetor, pela passagem de anticorpos para o lactente. Além disso, um grupo restrito de lactentes têm a indicação do uso de palivizumabe, um anticorpo monoclonal, recombinante, contra a glicoproteína de superfície do VSR. É uma forma de imunização passiva contra o vírus. Ele é administrado via intramuscular, mensal, por até 5 meses, durante o período de sazonalidade, que varia de acordo com a região, mas no Brasil é entre fevereiro e junho ou março e julho. O palivizumabe é fornecido gratuitamente pelo governo para os grupos de risco, a saber: a) Lactentes nascidos com 28 semanas de idade gestacional ou menos, até 28 semanas e 6 dias, durante a primeira sazonalidade do VSR, quando esta ocorre durante os primeiros 12 meses de vida; b) Lactentes menores de 2 anos, até 1 ano, 11 meses e 29 dias, com doença pulmonar crônica da prematuridade – displasia broncopulmonar – ou doença cardíaca congênita com repercussão hemodinâmica; c) Lactentes no primeiro ano de vida portadores de anormalidades pulmonares ou neuromusculares que alterem a capacidade de clareamento das secreções das vias aéreas superiores. d) Menores de 24 meses que estão ou estarão com imunossupressão e/ou imunodeficiência profunda durante a sazonalidade do VSR. O palivizumabe é capaz de reduzir a frequência de hospitalização e admissão à unidade de terapia intensiva nos grupos de risco, principalmente de prematuros e portadores de pneumopatias crônicas, mas sua utilização ampla é limitada pelo alto custo. As indicações precisas do Ministério da Saúde garantem o fornecimento da medicação aos grupos de risco específicos. Apesar de diversas pesquisas, até o momento não há vacina para imunização ativa contra o VSR em estudos clínicos. Qual é o quadro clínico da bronquiolite e como tratá- la? A bronquiolite ocorre em menores de 2 anos e, em geral, é iniciada após 3 a 4 dias de um quadro de resfriado comum.A criança apresenta tosse, sibilos e estertores e sinais de desconforto respiratório; pode ainda apresentar hipoxemia, irritabilidade ou letargia. O diagnóstico é clínico, e o tratamento é realizado com lavagem nasal e inalação com soro fisiológico. Deve ser oferecida hidratação, de acordo com a via disponível para o paciente, oxigenoterapia se necessário, e é autorizado o teste de reposta com broncodilatador (mas não seu uso rotineiro). Como conduzir um paciente pediátrico em crise asmática grave? 11.1 DEFINIÇÃO A asma é definida como uma doença inflamatória crônica, caracterizada por hiper-responsividade das vias aéreas inferiores e limitação variável ao fluxo aéreo, reversível espontaneamente ou com tratamento, manifestando-se clinicamente por episódios recorrentes de sibilância, dispneia, aperto no peito e tosse, particularmente à noite e pela manhã, ao despertar. Costuma-se definir o quadro asmático a partir dos 2 anos de idade. Isso porque é difícil diferenciar, até essa idade, um quadro de bronquiolite de um quadro asmático. Porém é sabido que filhos de pais asmáticos ou atópicos, sibilância recorrente, início dos quadros ainda muito jovem e presença de chiado/sibilância na ausência de quadro viral, nos primeiros 2 anos de vida, aumentam o risco de que o paciente venha a ser asmático. Além disso, muitos pacientes asmáticos têm resolução dos quadros após 5 anos de idade. 11.2 EPIDEMIOLOGIA Na faixa etária pediátrica, o estudo International Study of Asthma and Allergies in Childhood, realizado em algumas cidades brasileiras, revela a prevalência da asma entre 4,7 e 20,7% nas idades entre 6 e 7 anos e 4,8 e 21,9% entre 13 e 14 anos, ou seja, os índices permanecem ao redor de 20% para ambas as faixas etárias. Segundo dados obtidos no DATASUS, ocorrem, em média, 350 mil internações anuais por asma, constituindo-se a quarta causa de hospitalização no Sistema Único de Saúde e a terceira causa entre crianças e adolescentes; representa aproximadamente 7% das internações em UTI. É a doença crônica mais frequente na infância em todo o mundo. 11.3 FISIOPATOLOGIA A fisiopatologia é bastante complexa, mas a asma resulta da interação de fatores genéticos e ambientais que contribuem para o desenvolvimento de hiper-responsividade brônquica e edema das vias aéreas. As alterações genéticas, ainda não totalmente esclarecidas, contribuem para o desequilíbrio do sistema imunológico e predomínio de resposta direcionada a linfócitos T do tipo Th2, que sintetizam e liberam citocinas como IL-4, IL-5 e IL-13, cujas ações estão relacionadas ao aumento da síntese de imunoglobulina E sérica, à proliferação e à maturação de eosinófilos. Deste modo, a pesquisa do lavado broncoalveolar de pacientes com asma pode revelar infiltrado celular com elevado conteúdo eosinofílico e linfocitário. Há evidências de alterações genéticas que levam ao comprometimento da musculatura brônquica e da organização histológica dos brônquios, especialmente as fibras elásticas. Existem, ainda, outros componentes envolvidos que fazem que as alterações fisiopatológicas desencadeadas por fatores genéticos sejam complexas e variadas na asma. Atualmente, assume-se que a asma compreenda um conjunto de diferentes doenças com fenótipos diferentes. Somados à genética, e não menos importantes, são os fatores ambientais, que podem facilitar o desencadeamento de uma crise e agravar o quadro. Dentre esses fatores, destacam-se os relatados de fatores ambientais: 1. Alérgenos, em especial os aeroalérgenos: com ênfase nos ácaros da poeira domiciliar, Dermatophagoides pteronyssinus e Blomia tropicalis, nos epitélios de animeis e gato e nos insetos como a barata; 2. Agentes infecciosos: principalmente os vírus, importantes desencadeadores de crises nos primeiros anos de vida, com destaque para opara o vírus sincicial respiratório e o rinovírus, além do vírus influenza, adenovírus e parainfluenza; 3. Irritantes: especialmente os poluentes externos, resultantes da queima de combustíveis em automóveis e indústrias; 4. Fumo: um dos agentes mais deletérios ao pulmão, cujas inúmeras substâncias tóxicas contribuem para lesão pulmonar direta, piora de hiper-responsividade brônquica e aumento de secreção. 5. Exercício físico/estresse; 6. Doença do refluxo gastroesofágico; 7. Baixa aderência ao tratamento. 11.4 QUADRO CLÍNICO As manifestações clássicas de asma incluem episódios paroxísticos de sibilância associados ou não a dispneia. Entretanto, muitas vezes a queixa consiste na presença de episódios recorrentes de tosse, cansaço aos esforços e dificuldade de atividades físicas habituais. Em geral nos quadros mais leves há apenas sibilos expiratórios. Nos quadros mais graves os murmúrios estão diminuídos globalmente, pode haver sibilos inspiratórios ou expiratórios, ou ausência de sibilos – pela pouca entrada de ar nos pulmões. Os sintomas podem piorar à noite e interferir na qualidade do sono. Pode-se notar apatia ou desconforto diante de exercício físico ou crises recorrentes de tosse. Em razão do estreitamento dos brônquios e da presença constante de muco, o uso da musculatura acessória na respiração faz-se necessário, com retrações intercostais e da fúrcula esternal. Figura 11.1 - Utilização de musculatura acessória 11.4.1 Gravidade Devem-se determinar o número de crises ao ano e sua intensidade, necessidade de visitas ao pronto-socorro, medicação necessária, número de internações e necessidade de terapia intensiva. O período entre as crises – intercrítico – deve ser avaliado quanto à presença de despertares noturnos pela asma e comprometimento do esforço, quer em atividades físicas específicas, quer no dia a dia. É necessário indagar o número de exacerbações e a necessidade de medicação broncodilatadora. 11.4.2 Fatores desencadeadores Detectar fatores de piora como alérgenos, agentes infecciosos e irritantes, bem como investigar sobre ambiente familiar, escola e trabalho. 11.4.3 Doenças associadas Deve-se questionar a presença de outras comorbidades bastante comuns, como rinite alérgica, sinusites e outros episódios infecciosos, como pneumonias, além de dermatite atópica. 11.4.4 Antecedentes familiares Presença de pais ou irmão com asma, rinite alérgica ou dermatite também aumentam as chances de o paciente ter asma. 11.5 DIAGNÓSTICO O diagnóstico de asma deve-se basear na anamnese, no exame físico e, sempre que possível, nas provas de função pulmonar e na avaliação da alergia. Os exames subsidiários ajudam na definição da doença, principalmente quando existe dúvida entre mais de 1 causa envolvida nos sintomas definidos pelo paciente. Essa dúvida, muitas vezes, está entre confirmar a asma e algum outro diagnóstico que se superponha e some sintomas à principal suspeita. O Global Initiative for Asthma (GINA) 2019 prevê a utilização rotineira do peak flow, aparelho que avalia fluxo expiratório, de fácil manejo e portátil. 11.5.1 Diagnóstico clínico De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, para o diagnóstico de asma em crianças, é necessário: a) História clínica de crises de insuficiência respiratória aguda que melhoram com o uso de broncodilatadores. b) Aumento dos níveis de IgE e positividade para testes cutâneos a aeroalérgenos. c) Avaliação da função pulmonar com espirometria pré e pós- broncodilatador e medida de hiper-reatividade brônquica, metacolina, por exemplo. O diagnóstico é feito com a + b + c, a + b ou a + c. 11.5.2 Exames laboratoriais Os exames complementares auxiliam na avaliação do paciente. São citados: a) Hemograma; b) Dosagem de imunoglobulina E sérica (IgE) em maiores de 1 ano; c) Protoparasitológico seriado – 3 amostras; d) Provas de função pulmonar; e) Radiografia de tórax anteroposterior e, ou perfil – obrigatório em toda primeira crise de sibilância; f) Radioallergosorbent test (RAST) para leite de vaca e pesquisa de refluxo gastroesofágico nas crianças com sintomas sugestivos de mais de 1 fator para sibilar; g) Teste cutâneo ou IgE específico para aeroalérgenos; h) Na impossibilidadede realizar tais exames, é muito válido o teste terapêutico. 11.5.3 Diagnóstico funcional O diagnóstico de asma é fundamentado pela presença de sintomas característicos, confirmado pela demonstração de limitação variável ao fluxo de ar. As medidas da função pulmonar fornecem avaliação da gravidade da limitação ao fluxo aéreo, sua reversibilidade e variabilidade. 11.5.3.1 Espirometria Método de escolha na determinação da limitação ao fluxo de ar e no estabelecimento do diagnóstico de asma, a espirometria deve ser rotina em todo paciente com suspeita de asma brônquica. É um exame mais detalhado da função pulmonar, definido mais precisamente se o distúrbio ventilatório é obstrutivo, restritivo ou misto. Só é possível realizar a espirometria em adultos com compreensão adequada e em crianças com mais de 5 anos e boa compreensão. Em lactentes, essa prova só é realizada em alguns centros de pesquisa, que dispõem dos espirômetros específicos e cujos exames são realizados visando a estudos e aprimoramentos científicos. Qualquer nível de gravidade da asma pode cursar com VEF1 normal quando o quadro se encontra estável. O exame é feito com o auxílio de broncodilatadores. O aumento do VEF1 > 12% depois da administração de broncodilatadores indica limitação reversível do fluxo aéreo compatível com asma. Vale ressaltar que, quando a história clínica é característica, mas a espirometria é normal, o paciente deve ser considerado asmático e, quando necessário, deve ser tratado. 11.5.3.2 Pico do fluxo expiratório O Pico do Fluxo Expiratório (PFE) não é um exame útil para o diagnóstico de asma em Pediatria por si só. Suas medidas são muito variáveis e dependem de esforço, além de seus valores terem notável variabilidade. Pode ser usado como medidor de resposta ao tratamento farmacológico, mas, mesmo para esse fim, o uso da espirometria é mais indicado. Mas é bastante útil para o seguimento de resposta durante a crise. 11.5.4 Diagnóstico da alergia A anamnese cuidadosa é extremamente importante para ajudar na identificação da exposição a alérgenos relacionados com a asma. A sensibilização alérgica pode ser confirmada por meio de provas in vivo – testes cutâneos – ou in vitro – determinação de concentração sanguínea de IgE específica. Em nosso meio, predomina a sensibilização a antígenos inaláveis, sendo os mais frequentes os ácaros Dermatophagoides pteronyssinus, Dermatophagoides farinae e Blomia tropicalis. Outros alérgenos inaláveis, como pólen, baratas, epitélio de gatos e cães, são importantes, mas sensibilizam menor número de pacientes. Os alimentos raramente induzem asma, mas os poluentes ambientais ou ocupacionais são desencadeantes ou agravantes dela. A determinação de IgE específica confirma e complementa os resultados dos testes cutâneos. 11.5.5 Diagnóstico diferencial Algumas doenças podem ser confundidas com a asma e precisam ter o seu diagnóstico estabelecido ou afastado. A seguir, resumimos essas condições, nas diferentes faixas etárias, com base nas Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o Manejo da Asma de 2012. Diagnóstico diferencial: 1. Crianças menores que 5 anos: a) Rinossinusite; b) Doença pulmonar crônica da prematuridade e malformações congênitas; c) Fibrose cística, bronquiectasias, bronquiolite obliterante pós- infecciosa e discinesia ciliar; d) Síndromes aspirativas – refluxo gastroesofágico, distúrbios de deglutição, fístula traqueoesofágica e aspiração de corpo estranho; e) Laringotraqueobroncomalácia, doenças congênitas da laringe – estenose e hemangioma – e anel vascular; f) Tuberculose; g) Cardiopatias; h) Imunodeficiências. 2. Crianças maiores de 5 anos e adultos: a) Rinossinusite; b) Síndrome de hiperventilação alveolar e síndrome do pânico; c) Obstrução das vias aéreas superiores (neoplasias e aspiração de corpo estranho); d) Disfunção das cordas vocais; e) Doença pulmonar obstrutiva crônica e outras condições obstrutivas das vias aéreas inferiores (bronquiolites, bronquiectasias e fibrose cística; f) Doenças difusas do parênquima pulmonar; g) Insuficiência cardíaca diastólica e sistólica; h) Doenças da circulação pulmonar (hipertensão e embolia); i) Síndrome de Loeffler (doença parasitária). 11.6 CLASSIFICAÇÃO DE GRAVIDADE DA ASMA O objetivo do tratamento é o controle da doença, o qual compreende 2 domínios: o controle das limitações clínicas atuais e a redução dos riscos futuros. O primeiro deve ser preferencialmente avaliado em relação às últimas 4 semanas e inclui sintomas como necessidade de medicação de alívio, limitação de atividades físicas e intensidade da limitação ao fluxo aéreo. Com base nesses parâmetros, a asma pode ser classificada em 3 grupos: controlada, parcialmente controlada e não controlada. A prevenção de riscos futuros inclui reduzir a instabilidade da doença, as suas exacerbações, a perda acelerada da função pulmonar e os efeitos adversos do tratamento. Com relação à gravidade, podemos classificar a asma em intermitente e persistente leve, moderada e grave. Quadro 11.1 - Níveis de controle Nota: avaliação dos riscos futuros: exacerbações, instabilidade, declínio acelerado da função pulmonar e efeitos adversos. Características associadas ao aumento dos riscos de eventos adversos no futuro: mau controle clínico, exacerbações frequentes no último ano, admissão prévia em unidade de terapia intensiva, baixo VEF1, exposição a fumaça de tabaco e necessidade de medicação em altas dosagens. 1 Por definição, exacerbação em qualquer semana é um indicativo de asma não controlada. Qualquer exacerbação é indicativa da necessidade de revisão do tratamento de manutenção. 2 Valores pré-broncodilatador sob o uso da medicação controladora atual. Não aplicável na avaliação do controle da asma em crianças com menos de 5 anos. Fonte: Global Initiative for Asthma (GINA), 2019. 11.7 ABORDAGEM TERAPÊUTICA Os principais objetivos do tratamento são: a) Controle dos sintomas; b) Prevenção da limitação crônica ao fluxo aéreo; c) Permissão da realização de atividades do cotidiano; d) Manutenção da função pulmonar normal ou a melhor possível, prevenindo ou atenuando o remodelamento das vias aéreas; e) Diminuição nas ocorrências de crises, idas à Emergência e hospitalizações; f) Redução da necessidade de broncodilatadores para alívio; g) Prevenção da morte por asma aguda. 11.7.1 Medicamentos que controlam os sintomas agudos As medicações prescritas por via inalatória podem ser administradas por meio de nebulização ou com espaçador ou a administração do jato diretamente na cavidade oral, dependendo da idade e do nível de compreensão do paciente. Figura 11.2 - Uso de medicação inalatória Legenda: (A) com espaçador; (B) sem espaçador. 11.7.1.1 Broncodilatadores beta-2-agonistas de curta duração São os medicamentos de escolha para alívio dos sintomas de obstrução brônquica nas exacerbações agudas de asma e como pré- tratamento da obstrução brônquica induzida por exercício físico. O aumento da necessidade de beta-2-agonistas de curta duração é um sinal de descontrole da asma. A dificuldade na obtenção de broncodilatação sustentada após a utilização dos beta-2-agonistas de curta duração indica a necessidade de cursos de corticosteroides orais. O GINA 2019 prevê que adolescentes e adultos com asma moderada e grave não sejam mais tratados apenas com beta-2-agonista de curta duração; deve ser associado corticoide inalatório ou beta-2-agonista de longa ação desde o início do tratamento, para evitar crises graves e mortes. Estão disponíveis salbutamol, fenoterol e terbutalina. O início de ação é rápido, em média de 1 minuto, e a duração de seu efeito, de 4 a 6 horas. Os principais efeitos colaterais são tremores de extremidades, arritmias cardíacas e hipocalemia. 11.7.1.2 Anticolinérgicos O brometo de ipratrópio (Atrovent®) tem início de ação lento, com efeito inferior ao dos beta-2-agonistas. É o tratamento de escolha para a obstrução brônquica causada por beta-2-bloqueadores. Nas exacerbações graves de asma, pode ser usadoassociado ao beta-2- agonista de curta duração. Nos efeitos adversos dos anticolinérgicos, incluem-se secura da mucosa oral, náuseas, glaucoma e retenção urinária. 11.7.1.3 Xantinas Teofilina e aminofilina têm sido cada vez menos utilizadas. São broncodilatadores de baixa potência com vários efeitos colaterais, principalmente em idosos e lactentes, pois a dose tóxica é muito próxima da terapêutica. 11.7.1.4 Corticosteroides sistêmicos Dentre os corticosteroides de uso sistêmico, prednisona ou prednisolona são os que apresentam meia-vida intermediária e menos efeitos colaterais. Estão indicados nas exacerbações agudas sem resposta satisfatória e imediata aos broncodilatadores e devem ser administrados ainda na primeira hora de atendimento. Para prednisona, utilizam-se comprimidos de 5 e 20 mg, 1x/d, e, para prednisolona, 1 a 2 mg/kg (solução oral 3 mg/mL), ambas devendo ser utilizadas precocemente na menor dose necessária (entre 1 e 2 mg/kg/d, máximo de 60 mg/d), para o controle da crise. Os principais efeitos adversos surgem após o uso prolongado, menor do que 10 dias e, ou doses elevadas, com destaque para alterações no metabolismo da glicose, retenção de líquidos, osteoporose, ganho de peso, hipertensão arterial e necrose asséptica da cabeça do fêmur. 11.7.1.5 Macrolídeos No GINA 2019 foi aprovado, de forma o� label, o uso de azitromicina para crises severas, a fim de promover imunomodulação. Ainda é discutível, deve-se pesar riscos e efeitos colaterais (principalmente seleção bacteriana), mas já está sendo utilizado. 11.7.1.6 Tratamento de manutenção O corticosteroide inalatório é o principal medicamento utilizado no tratamento de manutenção, profilático e anti-inflamatório em adultos e crianças com asma, de forma associada ao formoterol, beta-2-agonista de longa ação. O tratamento de manutenção é feito com Corticosteroide Inalatório (CI). O uso correto reduz a frequência e a gravidade das exacerbações, melhora a qualidade de vida, a função pulmonar e a hiper-responsividade brônquica, além de diminuir os episódios de asma induzida por exercício físico. O controle dos sintomas ocorre após 1 a 2 semanas de tratamento. A reversão da hiper- responsividade brônquica pode necessitar de meses ou anos de utilização do CI. 11.7.1.7 Efeitos colaterais O CI, quando bem indicado e controlado, apresenta efeitos colaterais previsíveis: candidíase oral, rouquidão, tosse e irritação na garganta, osteoporose, catarata e glaucoma, adelgaçamento da pele e equimose ou desaceleração do crescimento em crianças. 11.7.2 Equivalência dos corticoides inalatórios utilizados no Brasil Os Quadros a seguir mostram a equipotência estimada para maiores de 12 anos no Quadro 11.2, crianças de 6 a 11 anos no Quadro 11.3 e as doses recomendadas para menores de 5 anos no Quadro 11.4. Quadro 11.2 - Equivalência dos principais corticoides inalatórios utilizados no Brasil – para adultos e adolescentes acima de 12 anos Fonte: adaptado de Global Initiative for Asthma (GINA), 2019. Quadro 11.3 - Equivalência dos principais corticoides inalatórios utilizados no Brasil – para crianças de 6 a 11 anos Fonte: adaptado de Global Initiative for Asthma (GINA), 2019. Quadro 11.4 - Dose de corticosteroides recomendada para menores de 5 anos Nota: com a atualização do GINA 2019, para maiores de 6 anos, a indicação é o tratamento com corticoide inalatório associado ao beta-2-agonista inalatório de longa duração, desde o início do tratamento. Os menores de 6 anos mantêm o uso de corticoide inalatório, nos casos leves a moderados. Associação de broncodilatador de longa duração apenas se houver sinais de mau controle. Fonte: adaptado de Global Initiative for Asthma (GINA), 2019. 11.7.2.1 Beta-2-agonistas de ação prolongada São beta-2-agonistas de ação prolongada (LABAs) o formoterol e o salmeterol, medicações utilizadas em associação aos CIs em pacientes com mais de 4 anos, quando há necessidade para controle da asma. A monoterapia com LABA deve ser evitada. Efeitos adversos são incomuns: estímulo cardiovascular, tremores de extremidades e hipocalemia. 11.7.2.2 Antagonistas de receptores de leucotrienos Os utilizados são o montelucaste e zafirlucaste, cujo efeito broncodilatador é lento e modesto. São indicados a partir de 6 meses. No Brasil, só está disponível o montelucaste. Têm efeito anti- inflamatório, que, em longo prazo, reduz a hiper-reatividade brônquica. Para alguns indivíduos com asma persistente, podem ser úteis como substituição aos LABAs e adição à associação entre LABA e CI. Também são indicados para asma induzida ao exercício, sem efeitos adversos graves. 11.7.2.3 Cromonas Cromoglicato e nedocromila são drogas com resposta modesta. Somente o cromoglicato é disponível em nosso meio. Têm efeito anti-inflamatório fraco e menor do que doses baixas de CIs. 11.7.3 Outros medicamentos e terapias 11.7.3.1 Omalizumabe (anti-IgE) Trata-se de um anticorpo monoclonal recombinante humanizado específico, inibindo a ligação da IgE com seu receptor de alta afinidade. Está indicado para maiores de 6 anos com asma alérgica de difícil controle. Para indivíduos com peso > 150 kg ou IgE < 30 ou > 700 UI/mL, não se recomenda sua utilização. 11.7.3.2 Imunoterapia específica com alérgenos A administração de doses progressivamente maiores de alérgenos específicos em pacientes sensibilizados, não exacerbados, com o objetivo de induzir tolerância, não está indicada para os que respondem bem à profilaxia ambiental e ao tratamento farmacológico. Quando ela é indicada, o tratamento tem duração de 2 anos por via subcutânea ou sublingual e deve ser acompanhado por um alergologista. 11.7.4 Etapas do tratamento de manutenção O tratamento é dividido em 5 etapas, e cada paciente deve ser alocado para alguma dessas etapas de acordo com o tratamento atual e o seu nível de controle, devendo ser ajustado conforme as mudanças que vão ocorrendo de forma dinâmica. Esse ciclo engloba acessar, tratar para obter o controle e monitorizar para manter o controle. A seguir, apresenta-se o manejo da asma (Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o Manejo da Asma, 2012/GINA 2019). 11.7.4.1 Etapa 1: medicação de resgate para o alívio dos sintomas Nessa etapa, além de promover a educação do asmático e o controle ambiental, utiliza-se apenas medicação de alívio para pacientes que têm sintomas ocasionais (tosse, sibilos ou dispneia ocorrendo 2 vezes ou menos por mês) de curta duração. Entre esses episódios, o indivíduo está assintomático, com função pulmonar normal e sem despertar noturno. Para a maioria dos pacientes nessa etapa, utiliza- se um beta-2-agonista de curta duração. As alternativas são anticolinérgico inalatório, beta-2-agonista oral ou teofilina oral, mas estes têm início de ação mais lento e maior risco de efeitos adversos. 11.7.4.2 Etapa 2: medicação de alívio mais 1 único medicamento de controle Os corticosteroides inalatórios em doses baixas deixaram de ser a primeira escolha. Atualmente a recomendação é sempre a associação de corticoides inalatórios com beta-2-agonista de longa ação. 11.7.4.3 Etapa 3: medicação de alívio mais 1 ou 2 medicamentos de controle A associação de CI em doses baixas com LABA é a primeira escolha. Um beta-2-agonista de rápido início de ação é utilizado para alívio de sintomas conforme necessário. Como alternativa, em vez de associar beta-2-agonista de longa ação, pode-se aumentar a dose do CI. Outras opções são a adição de antileucotrieno ao CI em doses baixas ou a adição de teofilina, nesta ordem. 11.7.4.4 Etapa 4: medicação de alívio mais 2 ou mais medicamentos de controle Nessa etapa, sempre que possível, o tratamento deve ser conduzido por médico especialista no tratamento da asma. A escolha preferida consiste na combinação de CI em doses médias ou altas com LABA. Como alternativa, pode-se adicionar antileucotrieno ou teofilina à associação descrita. 11.7.4.5 Etapa 5: medicação de alívio mais medicação de controle adicional Adiciona-se corticosteroide oral àsoutras medicações de controle já referidas, mas devem-se sempre considerar os efeitos adversos potencialmente graves. Esse esquema só deve ser empregado para indivíduos com asma não controlada na etapa 4, que tenham limitação de suas atividades diárias e frequentes exacerbações e que tenham sido exaustivamente questionados sobre a adesão ao tratamento. Os pacientes devem ser esclarecidos sobre os potenciais efeitos adversos, e a dose do corticosteroide oral deve ser a menor possível para manter o controle. A adição de anti-IgE é uma alternativa na etapa 5 para indivíduos atópicos, pois sua utilização pode melhorar o controle da asma e reduzir o risco de exacerbações. O Quadro 11.5 resume o manejo da asma, e o Quadro 11.6 mostra as etapas do tratamento. Quadro 11.5 - Níveis de controle da asma e ação a ser realizada Fonte: Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o Manejo da Asma, 2012. Pelo GINA 2019, a orientação é iniciar na etapa 3 (para os maiores de 6 anos), e reduzir as medicações caso haja bom controle. Os menores de 6 anos iniciam na etapa 2, e incrementam medicações caso seja necessário. Quadro 11.6 - Etapas do tratamento da asma Nota: em negrito e itálico estão as escolhas preferenciais para as etapas 2, 3 e 4. Legenda: Corticoide Inalatório (CI); Beta-2-Agonista de Ação Prolongada (LABA). Fonte: Global Initiative for Asthma (GINA), 2019. Com a revisão do GINA 2019, o início do tratamento da asma deve ser realizado na etapa 3 para todos os pacientes que apresentarem sintomas mais do que 2 vezes ao mês. Para as crianças menores do 6 anos, mantém-se a recomendação de iniciar o tratamento na etapa 2, com corticoide inalatório, inicialmente sem associação com B2 de longa. Após 3 meses de asma bem controlada pode-se reduzir 1 etapa do tratamento, a fim de manter o paciente no menor “degrau” possível, com o mínimo de tratamento possível. 11.7.5 Tratamento da crise aguda de asma 11.7.5.1 Crise leve a moderada a) Inalação com beta-2-agonista (1 gota/3 kg; máximo 10 gotas) + brometo de ipratrópio (250 a 500 µg ou 20 a 40 gotas) na crise moderada e somente na terceira inalação; a inalação com beta-2- agonista por ser substituída por puff (inalação oral); b) Reavaliação em 20 minutos e repetição das inalações até 3 vezes na primeira hora, se necessário; c) O efeito do beta-2-agonista de curta duração administrado por aerossol dosimetrado acoplado ao espaçador é semelhante ao obtido por nebulizador de jato, sendo eficaz mesmo em casos de crises graves. Salbutamol spray oral com espaçador 100 µg/jato, 50 µg/kg, ou 1 jato/2 kg, no máximo 10 jatos a cada 20 minutos; d) Se a resposta ao broncodilatador não for adequada, haverá indicação de corticosteroide sistêmico ainda na primeira hora de atendimento –intravenoso ou preferencialmente por via oral – prednisona na dose de 1 a 2 mg/kg/d e máximo de 60 mg/d, por 7 a 10 dias (no adulto), ou prednisolona na dose de 1 a 2 mg/kg/d, por 5 dias (em crianças). O efeito do corticosteroide por via oral ou intravenosa é equivalente quanto ao início de ação e à meia-vida plasmática. Não há evidências suficientes que indiquem a utilização dos CIs na crise em substituição aos corticosteroides sistêmicos. 11.7.5.2 Crise grave a) Monitorização, oxigenoterapia, b) Administração de corticosteroide – 2 mg/kg de metilprednisolona (máximo de 125 mg) ou hidrocortisona 4 mg/kg intravenosa em dose de ataque; c) Hidratação intravenosa (fase rápida); d) Inalação com beta-2-agonista + brometo de ipratrópio a cada 20 minutos durante 1 hora; e) Encaminhamento para a Urgência; f) Se persistência do quadro grave, está indicado sulfato de magnésio e/ou terbutalina IV (broncodilatador venoso). Vale salientar que a criança asmática é difícil de ser ventilada na ventilação mecânica, pelos diferentes mecanismos de insuficiência respiratória: broncoconstrição, distúrbio ventilação/perfusão, atelectasias e risco de barotrauma. Por esse motivo é interessante reservar a intubação para casos estritamente necessários. Para os demais, tratamento precoce e outras fontes de oxigênio, como máscara não reinalante ou cateter nasal de alto fluxo são importantes ferramentas de tratamento. Figura 11.3 - Tratamento da exacerbação da asma em crianças no pronto-socorro Nota: caso não seja possível o uso de oxímetro de pulso ou medidas de função pulmonar, os critérios clínicos são adequados para avaliação da crise. Fonte: Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o Manejo da Asma, 2012. 11.8 PREVENÇÃO E CONTROLE DOS RISCOS FUTUROS O controle da asma implica o controle das limitações atuais e a prevenção dos riscos futuros. O reconhecimento e a prevenção desses riscos são obrigatórios na avaliação e no manejo dos pacientes com asma. Os riscos futuros incluem desfechos que possam levar a mudanças irreversíveis na história natural da asma. Atualmente, 4 parâmetros são reconhecidos e utilizados: a) Prevenir instabilidade clínico-funcional: manter a asma controlada por longos períodos; b) Prevenir exacerbações da asma; c) Evitar a perda acelerada da função pulmonar ao longo dos anos; d) Minimizar os efeitos colaterais dos tratamentos utilizados. É fundamental a avaliação da adesão do paciente ao tratamento profilático, já que a principal causa de quadros com falha de controle é a baixa adesão ao tratamento. 11.9 FATORES DE GRAVIDADE NA CRISE DE ASMA Como a principal causa de parada cardiorrespiratória na Pediatria é a hipóxia, a crise asmática grave deve ser tratada de forma assertiva e rápida. A asfixia é a causa de morte entre os indivíduos com asma, portanto é mandatória a identificação dos riscos da gravidade das crises. Alguns aspectos já estão estabelecidos como fundamentais: a) 3 ou mais visitas à Emergência ou 2 ou mais hospitalizações por asma no último ano; b) Uso frequente de corticosteroide sistêmico; c) Crise grave prévia com necessidade de intubação e ventilação mecânica em UTI; d) Problemas psicossociais (depressão, baixo nível socioeconômico); e) Comorbidades associadas; f) Uso de 2 ou mais tubos de aerossol dosimetrados de broncodilatador por mês; g) Asma lábil com variações de função pulmonar (> 30% do PFE ou do VEF1 previsto); h) Má percepção do grau de obstrução. 11.10 CLASSIFICAÇÃO DE GRAVIDADE DA CRISE AGUDA DE ASMA EM ADULTOS E CRIANÇAS O tratamento da crise deve iniciar-se imediatamente após a verificação da gravidade. Quadro 11.7 - Gravidade da crise aguda 1 A presença de vários parâmetros, mas não necessariamente todos, indicam a classificação geral da crise. 2 Em crianças normais – < 2 meses: < 60 irpm; 2 a 11 meses: < 50 irpm; 1 a 5 anos: < 40 irpm; 6 a 8 anos: < 30 irpm; > 8 anos: adulto. Fontes: Global Initiative for Asthma (GINA), 2019; Diretrizes da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia para o Manejo da Asma; Turner, 2012. Como conduzir um paciente pediátrico em crise asmática grave? O paciente deve ser monitorizado, receber oxigenoterapia; administração de corticosteroide 2 mg/kg de metilprednisolona (máximo de 125 mg) ou hidrocortisona 4 mg/kg intravenosa em dose de ataque, hidratação intravenosa (fase rápida), inalação com beta-2-agonista + brometo de ipratrópio a cada 20 minutos durante 1 hora. Deve ser encaminhado para a Urgência e posteriormente para unidade de terapia intensiva. Se persistência do quadro grave, está indicado sulfato de magnésio e/ou terbutalina IV (broncodilatador venoso). Como tratar rinite alérgica na infância? 12.1 RINITE ALÉRGICA 12.1.1 Definição A Rinite Alérgica, ou Rinossinusite Alérgica (RA), é um problema muito frequente na infância e adolescência. É definida por inflamação da mucosa nasal e seios paranasais com 1 ou mais dos seguintes sintomas: congestão nasal, rinorreia, prurido nasal, espirros e hiposmia. Trata-se de uma doença alérgica mediada por IgE específica para determinados alérgenos. 12.1.2 Epidemiologia Dados epidemiológicos apontam que a prevalência no Brasil é de 25,7% dos escolares e de 29,6% dos adolescentes. Os sintomasapresentam certa perenidade em nosso meio, com 1 pico sazonal em abril e outro em agosto, configurando as seguintes tendências: crescente, de janeiro a julho, e decrescente, de agosto a dezembro (Figura 12.1). Figura 12.1 - Distribuição dos sintomas mês a mês Fonte: adaptado de Prevalência de sintomas de rinite em adolescentes de 13 e 14 anos avaliada pelo método ISAAC, na cidade de Fortaleza, 2009. 12.1.3 Fisiopatologia Trata-se de uma doença crônica nasal, caracterizada por processo inflamatório com mastócitos, eosinófilos e linfócitos que liberam citocinas e mediadores inflamatórios que levarão a vasodilatação, estímulo de nervos sensoriais e edema local. Os alérgenos apresentam papel importante no desencadeamento dos sintomas, pois indivíduos sensibilizados produzem imunoglobulinas E séricas específicas a cada uma das proteínas alergênicas. Os ácaros da poeira domiciliar (Dermatophagoides pteronyssinus e Blomia tropicalis), epitélios de cães e gatos, baratas e fungos são os principais aeroalérgenos relacionados à etiopatogenia da RA, destacando-se que alérgenos alimentares raramente estão envolvidos nesses quadros. 12.1.4 Manifestações clínicas A RA é caracterizada por espirros em salva, prurido, coriza hialina, congestão nasal e, algumas vezes, gotejamento pós-natal. Outros sintomas menos evidentes podem estar relacionados, como epistaxes recorrentes e hiposmia. Tais sintomas contribuem para um processo respiratório inadequado. Aspectos fundamentais são o comprometimento da qualidade de vida e a facilitação de comorbidades, com destaque para as sinusites recorrentes, os distúrbios do sono, as conjuntivites alérgicas, as otites serosas e, especialmente, a asma. A correlação direta com esta, relacionada a fatores anatômicos e fisiopatológicos, permite que intervenções terapêuticas na mucosa nasal causem impacto positivo na melhora dessa doença. A respiração bucal pode estar presente no paciente com RA e determinar, em longo prazo, alterações diversas, como perda de volume e elasticidade das narinas pelo desuso, mucosa nasal pálida, proliferação de adenoides por falta de ventilação, falta de filtração e aquecimento do ar à respiração. Pode causar, ainda, alterações no maxilar e na mandíbula (hipodesenvolvimento e menor espaço para erupção dentária adequada), alterações do metabolismo basal, obstrução da tuba auditiva (secreção e falta de aeração das vias respiratórias), sorriso gengival e aerofagia. As alterações posturais (maior extensão da cabeça em relação à coluna cervical), sono agitado e irregular, alteração ocasional no traçado encefalográfico e síndrome da apneia obstrutiva do sono também podem ser consequentes à respiração bucal. Exame físico: a) “Saudação alérgica”, quando a criança empurra a ponta do nariz para cima com a mão, formando uma prega nasal horizontal; b) Palidez facial associada a olheiras; c) Dupla linha de Dennie-Morgan – dupla linha que aparece sob os olhos; d) Achatamento dos malares e palato arqueado; e) Epistaxe; f) Prurido e lacrimejamento ocular; g) Prurido do conduto auditivo externo, no palato e na faringe; h) Congestão nasal; i) Cefaleia ou otalgia; j) Diminuição da acuidade auditiva, sensação de ouvido tampado ou de estalidos durante a deglutição; k) Congestão nasal crônica – respiração oral, roncos voz nasalada a alterações no olfato; l) Irritação e secura na garganta – respiração oral; m) Má oclusão dentária; n) Tosse possivelmente presente. São características a serem observadas na rinoscopia anterior: a) Aspecto da mucosa da fossa nasal – coloração pálida, trofismo, vascularização e hidratação; b) Grau de obstrução; c) Presença de rinorreia e suas características; d) Forma e tamanho das conchas nasais. 12.1.5 Classificação Com relação ao tempo de duração, a RA pode ser classificada em: a) Persistente – quando os sintomas ocorrem por mais de 4 dias por semana e por mais de 4 semanas consecutivas; b) Intermitente – quando os sintomas ocorrem por menos de 4 dias por semana ou menos de 4 semanas. Com relação à gravidade, a RA pode ser classificada em: a) Leve – quando os sintomas não prejudicam a vida do paciente e nenhum dos itens a seguir está presente; b) Moderado ou grave – pelo menos 1 destes itens deve estar presente – comprometimento do sono, limitação das atividades diárias, lazer e/ou esporte, prejuízo no desempenho escolar ou no trabalho e sintomas que incomodam. 12.1.6 Diagnóstico Anamnese e exame físico, incluindo a observação da mucosa nasal, são essenciais para estabelecer o diagnóstico de RA. Os exames complementares que podem auxiliar no diagnóstico são os testes cutâneos e a dosagem de imunoglobulina E (IgE) específica sérica. O teste cutâneo de leitura imediata, também conhecido como prick test, ou teste de puntura, indica se o paciente está sensibilizado para o agente testado. Incluem um controle positivo, a histamina, e um controle negativo, uma solução salina. Em nosso meio, os alérgenos presentes no ar que apresentam maior prevalência de positividade são os ácaros (Blomia tropicalis e Dermatophagoides pteronyssinus), as baratas (Blatella germanica e Periplaneta americana) e os fungos (Alternaria spp. e outros). Em crianças menores, a reatividade cutânea costuma ser baixa, podendo gerar falsos negativos. A dosagem de IgE específica in vitro pode ser realizada por método imunoenzimático ou imunofluorométrico e, mais recentemente, pelo microarray (ISAC) e expressa resultados quantitativos alérgenos específicos. A desvantagem é que pode sofrer influências do aumento policlonal da IgE total, fato que pode ocorrer nas helmintíases. A eosinofilia pode estar presente no hemograma, contudo as alergias não são a única causa dessa alteração, que também pode estar presente nas helmintíases, artrite reumatoide, nefrite intersticial e outras condições. Todos esses métodos têm especificidade e sensibilidade. A citologia nasal requer maior padronização para o valor diagnóstico. Quando há mais de 10% de eosinófilos associados a história clínica de alergia e sensibilização a aeroalérgenos, realiza-se o diagnóstico de RA. A Figura 12.2 mostra as etapas do diagnóstico da RA. Figura 12.2 - Diagnóstico Fonte: elaborado pelos autores. 12.1.6.1 Diagnóstico diferencial O diagnóstico diferencial é feito com pólipos, fatores mecânicos, tumores, granulomatoses, alterações ciliares, rinorreia cerebrospinal, rinite infecciosa, rinite idiopática, rinite eosinofílica não alérgica, rinite hormonal, rinite induzida por drogas, rinite por irritantes, rinite na alimentação, rinite atrófica e rinite desencadeada por exercício. 12.1.7 Tratamento Os pilares do tratamento da RA incluem orientação quanto à cronicidade da doença, medidas de controle ambiental, tratamento medicamentoso e imunoterapia alérgeno-específica. 12.1.7.1 Controle ambiental Quando feito isoladamente, a eficácia do controle ambiental é muito baixa. Entretanto, é sabido que um ambiente repleto de ácaros, alérgenos de animais, fungos e fumaça de cigarro pode levar ao desencadeamento dos sintomas. De modo geral, recomenda-se que: a) A moradia fique longe de fábricas e oficinas, com atenção em áreas rurais a plantações e proliferações de fungos. Opta-se por casa ensolarada, principalmente o quarto do paciente; b) O fumo seja evitado, assim como a domesticação de animais; c) Haja eliminação de focos de baratas. No quarto do paciente, é importante: a) Forrar colchões com capas apropriadas e laváveis e, sempre que possível, expô-los ao sol. Evitar colchões de penas; b) Forrar travesseiros com capas apropriadas e laváveis, além de lavá- los quinzenalmente. Evitar travesseiros de penas, ervas ou cortiça; c) Roupas de cama não devem permanecer expostas durante o dia. Deve-se cobri-las com uma colcha. Não usar cobertor, apenas edredom; d) Não manter, no dormitório, objetos que facilitem o acúmulo de pó – bichos de pelúcia, livros, brinquedos em excesso. A irrigação nasal com solução salina fisiológica visa diminuir a viscosidade do muco e restabelecer o batimento ciliar.12.1.7.2 Tratamento medicamentoso Com relação ao tratamento farmacológico, há uma série de classes medicamentosas disponíveis para o tratamento de RA. A escolha da farmacoterapia adequada dependerá da intensidade e das características do quadro clínico (Quadro 12.1). Portanto, quadros leves e intermitentes demandam uso de medicação apenas durante os sintomas, e quadros mais graves necessitam de tratamento profilático e associações medicamentosas. Quadro 12.1 - Tratamento segundo a gravidade Notas: considerar medidas de controle ambiental; nos casos persistentes, imunoterapia. De acordo com a classificação de gravidade, são utilizadas as seguintes classes medicamentosas: a) Anti-histamínicos tópicos os sistêmicos; b) Corticosteroides tópicos os sistêmicos; c) Antileucotrienos; d) Cromoglicato dissódico; e) Descongestionantes tópicos ou sistêmicos; f) Anticolinérgicos. Em todos os pacientes, devem-se considerar higiene ambiental e possibilidade de imunoterapia nos casos persistentes. a) Anti-histamínicos Os anti-histamínicos atuam como antagonistas competitivos reversíveis dos receptores de histamina, e sua utilização é fundamental para o controle da RA, já que a histamina é o principal mediador inflamatório da fase aguda da resposta alérgica. O bloqueio dos receptores H1 interfere em sua liberação, contribuindo para a diminuição da vasodilatação, da permeabilidade dos vasos e do estímulo a terminações nervosas. Assim, há diminuição dos espirros, rinorreia e prurido. Atualmente, os anti-histamínicos são classificados em 2 categorias: primeira e segunda geração. Os anti-histamínicos de primeira geração apresentam estrutura molecular de tamanho reduzido e atravessam a barreira hematoencefálica. Dessa maneira, causam efeitos colaterais, como sedação, dificuldade de concentração e tonturas. Em lactentes, podem produzir, como efeito paradoxal, a hiperexcitação; em crianças mais velhas, pode haver fadiga e déficit de concentração; em adultos, podem levar a retardo de ações ao volante, gerando risco de acidentes nos trabalhadores que atuam em máquinas de precisão. É importante destacar que os anti-histamínicos dessa classe se ligam a receptores muscarínicos, apresentando efeitos anticolinérgicos como boca seca, alterações visuais e agitação. Os anti-histamínicos de segunda geração apresentam estrutura molecular maior que a de seus antecessores e não atravessam a barreira hematoencefálica, minimizando os efeitos sedativos. Têm se mostrado mais seguros; entretanto, por suas características de metabolização hepática, alguns de seus representantes – já excluídos do mercado – apresentavam interação medicamentosa com antifúngicos e alguns macrolídeos, aumentando o risco de intoxicação e arritmias. #IMPORTANTE Os consensos atuais preconizam o uso de anti- histamínicos não sedativos (segunda geração) como primeira escolha para o tratamento das doenças alérgicas, inclusive em crianças. Quadro 12.2 - Classificação dos anti-histamínicos Fonte: IV Consenso Brasileiro Sobre Rinites, 2017 b) Corticoterapia A corticoterapia nasal é o tratamento de escolha nos casos de RA persistente, sendo a principal medicação utilizada. Atualmente, encontram-se disponíveis dipropionato de beclometasona (DPB), budesonida (BUD), Propionato de Fluticasona (PF), Furoato de Mometasona (FM), Furoato de Fluticasona (FF) e ciclesonida (CIC). FM e FF estão liberados para o uso em maiores de 2 anos. Os produtos liberados em bula para crianças acima dos 4 anos são a BUD e o PF, acima dos 6 anos estão DPB e CIC. Atuam ligando-se a receptores localizados no citoplasma e agem impedindo a síntese de citocinas, como interleucinas 3, 4 e 5 (IL-3, IL-4 e IL-5). Têm ação em diversos setores da resposta inflamatória, destacando-se diminuição da captação e processamento de antígenos pelas células de Langerhans; diminuição do infiltrado de basófilos, mastócitos, eosinófilos e linfócitos; diminuição da síntese de algumas interleucinas. Clinicamente, os pacientes que utilizam corticosteroides regularmente referem melhora da obstrução nasal, coriza e prurido nasal, tornando-se drogas fundamentais para o tratamento da RA, com algumas vantagens sobre os anti-histamínicos, especialmente na congestão nasal. Porém, corticoides tópicos não são usados como sintomáticos, e sim como anti-inflamatórios, por isso, de forma preventiva. O tempo de tratamento depende da gravidade da rinite e da resposta de cada criança. A maior parte tolera bem a utilização dos corticosteroides tópicos, porém alguns efeitos colaterais locais podem ser observados, como a formação de crostas, pequenas epistaxes, ardência e secura, em geral, transitórios. Efeitos colaterais sistêmicos são raros nos pacientes que utilizam apenas corticoterapia nasal. Contudo, é importante a avaliação ocular em indivíduos com história de glaucoma. A utilização de corticosteroides sistêmicos por curto período – 5 a 7 dias – pode ser apropriada no controle de sintomas nasais graves. Quadro 12.3 - Corticosteroides de uso tópico nasal c) Antileucotrienos A síntese de leucotrienos durante o processo inflamatório da RA é um dos principais fatores que justificam a utilização de antagonistas de leucotrienos, como o montelucaste. Estudos revelam melhora dos escores clínicos de sintomas. É indicado quando existe asma concomitante. d) Cromoglicato dissódico Medicamento que pode ser usado em lactentes, de eficácia bastante reduzida quando comparado a corticosteroides nasais ou anti- histamínicos. Deve ser utilizado cerca de 4 a 6 vezes ao dia. e) Descongestionantes tópicos ou sistêmicos Atuam, exclusivamente, no sintoma obstrutivo, em nada interferindo no processo inflamatório. Podem ser indicados aos casos graves de obstrução, mas devem ser evitados em crianças. Convém lembrar os efeitos adversos, como a rinite vasomotora com descongestionantes tópicos e quadros de agitação e palpitação com descongestionantes sistêmicos, além da possibilidade de retenção urinária. A intoxicação por nafazolina é grave e requer tratamento e suporte imediatos. f) Anticolinérgicos São medicações com uso restrito para rinites com componente vasomotor, para controle da rinorreia. g) Imunoterapia Deve fazer parte do plano de tratamento, especialmente em crianças com mais de 5 anos. Os melhores resultados são nos indivíduos sensibilizados por um único alérgeno e nas rinites sazonais. Pode ser feita por via subcutânea ou sublingual; esta última, no entanto, por um tempo mais prolongado. 12.1.7.3 Abordagem cirúrgica A abordagem cirúrgica ocorre, principalmente, por conta das complicações associadas, como desvio de septo, esporões ósseos ou outras alterações anatômicas. Ocasionalmente, pode-se realizar a redução das conchas nasais. Entretanto, tais procedimentos não interferem no processo alérgico. 12.1.8 Rinite alérgica e asma Em 2001, foi publicado um extenso documento, a partir de uma grande reunião de experts avaliando o impacto da RA na asma, iniciativa denominada Allergic Rhinitis and its Impact on Asthma (ARIA). A correlação entre asma e RA pode ser evidenciada por estudos epidemiológicos que apontam a concomitância dessas doenças e a semelhança entre as 2 fisiopatologias. As principais razões para que a rinite possa facilitar o surgimento ou a permanência da asma incluem: a) A liberação de mediadores inflamatórios que atingem o pulmão por contiguidade ou por via hematogênica; b) O comprometimento da qualidade do processo respiratório nos pacientes que, pela rinite, desenvolvem respiração oral, fazendo que o ar que chega aos pulmões não seja adequadamente filtrado, aquecido e umidificado; c) A presença de inervação comum entre nariz e pulmão, que faz que estímulos nasais facilitem a broncoconstrição. Dessa maneira, recomenda-se que pacientes com asma sejam sistematicamente investigados e tratados com relação à RA e vice- versa. 12.2 DERMATITE ATÓPICA 12.2.1 Definição A Dermatite Atópica (DA), ou eczema atópico, é uma doença de caráter inflamatório, crônico e recidivante, clinicamentecaracterizada por eczema associado a prurido intenso, de distribuição peculiar e variável com a idade do paciente. As pessoas afetadas têm história pessoal ou familiar de atopia. A DA acarreta transtornos em toda a estrutura familiar, comprometendo o desempenho escolar e as atividades de trabalho e de lazer. 12.2.2 Epidemiologia A incidência vem aumentando, como tem ocorrido nos demais processos alérgicos. Sessenta por cento dos casos de DA se manifestam no primeiro ano de vida. Dados epidemiológicos do último consenso de DA mostram que, no Brasil, a prevalência entre adolescentes foi de 4,7% e entre os escolares foi de 6,8%. Em adultos, estudos recentes estimam prevalência ao redor de 10%. Além da sua importância clínica, a DA é considerada fator predisponente ao aparecimento de asma. Segundo diversos relatos da literatura, a prevalência de alergias respiratórias nos pacientes que têm ou tiveram DA gira em torno de 45%. Essa evolução dos diagnósticos de DA, rinite alérgica e asma é chamada “marcha atópica”. 12.2.3 Fisiopatologia À semelhança de outras doenças alérgicas, a DA resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais que culminam em intenso processo inflamatório cutâneo e comprometimento da barreira epidérmica. Dentre os fatores ambientais, podemos citar irritantes que causam prurido, mudanças climáticas, estresse materno durante a gravidez, tabagismo passivo e alguns alimentos. Ao perder sua integridade, a epiderme apresenta aumento da perda de água e desestruturação de suas camadas lamelares, resultando em pele xerótica com maior facilidade de descamação. Entre as alterações genéticas que levam ao comprometimento da barreira cutânea, incluem-se alterações qualitativas e quantitativas na síntese de ceramidas, defeitos na produção de ácidos graxos e comprometimento dos queratinócitos. Dentre as alterações imunológicas, destacam-se aumento da síntese de imunoglobulina E (IgE), maior produção de citocinas – interleucina 4 (IL-4), interleucina 13 (IL-13), interleucina (IL-22) e interleucina (IL-31) – diminuição da resposta imunológica celular e diminuição da imunidade inata. Os fatores ambientais que podem contribuir para a piora do quadro de DA são agentes infecciosos (principalmente Staphylococcus aureus), aeroalérgenos (como o ácaro da poeira domiciliar), alérgenos alimentares (os mais implicados são clara de ovo, leite de vaca e trigo) e fatores irritativos e emocionais. A infecção por S. aureus é a principal complicação da doença. A bactéria coloniza cerca de 10% da pele da população normal. Já nos pacientes com DA, a incidência aumenta para mais de 90%. Os fungos também são fatores desencadeantes de DA, principalmente os do gênero Malassezia. São encontrados principalmente nas lesões do pescoço e da face e nos adolescentes. 12.2.4 Quadro clínico As manifestações clínicas iniciam-se, em 90% dos casos, antes dos 5 anos e antes dos 12 meses de vida em 60% dos casos. As características clínicas comuns a todos os atópicos são prurido intenso e xerose cutânea. O eczema é definido como uma lesão inflamatória não contagiosa da derme e da epiderme. Em lactentes jovens, os sintomas podem ser inquietação, irritabilidade e dificuldade de dormir. Além das lesões clássicas, existem outros sinais importantes e frequentes na DA: prega infraorbital de Dennie-Morgan, sinal de Hertog (diminuição dos cílios superiores na porção lateral), xerose, pitiríase alba, hiperlinearidade palmoplantar, ceratose pilar, dermografismo branco, descamação das pontas dos dedos, eczema palpebral, entre outros. Entretanto, o espectro clínico é bastante variado, muitas vezes dificultando o diagnóstico da enfermidade. Hanifin e Rajka, em 1980, estabeleceram critérios para o diagnóstico da doença, dividindo-os em 2 categorias: maiores e menores; de acordo com tal classificação, para diagnóstico, são necessários 3 ou mais critérios maiores e, ao menos, 3 critérios menores. São critérios para diagnóstico: 1. Critérios clínicos maiores ou absolutos (3 ou mais): a) Prurido; b) Morfologia e distribuição típica das lesões – envolvimento extensor e facial em crianças e liquenificação e linearidade flexural em adultos; c) Dermatite crônica recidivante; d) História pessoal ou familiar atopia. 2. Critérios clínicos menores ou relativos (3 ou mais): a) Exame dermatológico: Asteatose; Hiperlinearidade palmar; Queratose pilar; Ictiose vulgar; Prega infraorbitária de Dennie-Morgan; Pitiríase alba; Dermografismo branco; Palidez ou eritema facial; Queilite; Eczema de mamilo; Pregas anteriores no pescoço; Acentuação perifolicular; Escurecimento periorbital; Alopecia areata; Sinal de Hertog – rarefação nas sobrancelhas. b) História clínica: Início precoce de doença; Tendência a infecções cutâneas; Conjuntivites recorrentes; Tendência a dermatites inespecíficas de mãos e pés; Curso influenciado por fatores ambientais; Curso formado por fatores emocionais; Hipersensibilidade alimentar; Prurido com sudorese; Urticária colinérgica; Enxaqueca; Hipersensibilidade ao níquel; Elevação da lgE sérica; Hipersensibilidade cutânea do tipo 1; Catarata; Ceratocone. Tais critérios foram publicados de maneira mais simplificada no Reino Unido, em 1994. Atualmente, considera-se para o diagnóstico, como característica essencial, a presença de prurido nos últimos 12 meses – ou relato pelos pais – associado a 3 ou mais dos seguintes critérios: a) Envolvimento pregresso de pregas flexurais – cotovelos, joelhos e tornozelos – pescoço ou ao redor dos olhos; b) Dermatite flexural visível (em menores de 4 anos, incluir região malar, fronte e superfície extensora de membros); c) História pessoal de asma ou rinite alérgica (ou familiar em pais ou irmãos se criança <4 anos). d) História de pele ressecada nos últimos 2 meses; e) Início antes dos 2 anos (também considerado antes dos 4 anos). A distribuição das lesões varia, em geral, conforme a faixa etária: a) Fase infantil: No lactente até 6 a 8 meses, as áreas mais afetadas são face (poupando o maciço centrofacial), couro cabeludo, pescoço, tronco e superfícies extensoras dos membros. A partir dos 8 a 10 meses, a topografia típica inclui as áreas flexurais – especialmente, os cavos antecubitais e poplíteos – as nádegas e a raiz posterior das coxas; b) Fase pré-puberal: a partir dos 2 anos até a puberdade. As lesões localizam-se nas regiões flexurais dos joelhos e cotovelos, pescoço, punho e tornozelos. Gradativamente, as lesões são substituídas por liquenificação (espessamento da pele com escurecimento e acentuação dos sulcos). Nessa fase, cerca de 60% dos pacientes apresentam melhora importante ou desaparecimento das lesões de DA; c) Fase adulta: em adolescentes e adultos, predominam as lesões mais liquenificadas em flexuras, face e mãos. O aspecto é bastante semelhante ao da fase pré-puberal. Figura 12.3 - Fase infantil Fonte: adaptado de Lole. Figura 12.4 - Fase pré-puberal Fonte: adaptado de Lole. Figura 12.5 - Adultos e adolescentes Fonte: adaptado de Lole. Figura 12.6 - Criança com placas em base eritematosa e crostas na região da panturrilha direita Figura 12.7 - Lesões de dermatite atópica: (A) face poplítea e (B) fossa cubital 12.2.5 Diagnóstico O diagnóstico da é clínico. Exames laboratoriais podem ser úteis para a determinação dos fatores desencadeadores. A presença de eosinofilia no sangue periférico e de níveis elevados de IgE sérica comumente é vista em pacientes com DA. Entretanto, cerca de 20% não apresentam alterações nos níveis de IgE. Os testes do tipo radioallergosorbent (RAST) são métodos in vitro para a detecção de IgEs séricas específicas. São indicados a pacientes com DA cuja área de pele envolvida seja extensa e grave, embora apresentem, em geral, menor valor preditivo para a maioria dos alérgenos do que os testes epicutâneos. Testes epicutâneos (prick tests) e para determinação de IgEs específicas no soro podem ser úteis para apontar possíveis fatores desencadeadores da DA, sendo muitas vezes necessários outros testes para confirmaçãodiagnóstica. O teste de contato para atopia – Atopy Patch Test (APT) é um exame novo para a identificação de alérgenos provocadores de eczema nos pacientes com DA. A resposta positiva ao APT representa a reação imunológica mediada por linfócitos T ou uma reação de fase tardia mediada por IgE. Trata-se de um recurso usado no diagnóstico de alergia alimentar associada a DA. Se refratária a tratamento, a cultura da pele afetada pode fornecer informações a respeito de superinfecção por bactérias e fungo. 12.2.5.1 Diagnóstico diferencial 1. Outras dermatites: a) Dermatite seborreica; b) Dermatite de contato; c) Eczema numular; d) Dermatite de fraldas. 2. Doenças infecciosas: a) Foliculites por Staphylococcus; b) Herpes-simples; c) Escabiose. 3. Imunodeficiências: a) Síndrome de Wiskott-Aldrich; b) Síndrome de hiper-IgE; c) Síndrome de DiGeorge; d) Síndrome de Sézary; e) Imunodeficiência combinada grave. 4. Doenças neoplásicas: a) Linfoma cutâneo de células T; b) Histiocitose de células de Langerhans. 5. Doenças metabólicas: a) Fenilcetonúria; b) Tirosinemia; c) Deficiência de ácidos graxos essenciais; d) Acrodermatite enteropática; e) Psoríase; f) Ictioses. 6. Dermatite de fralda: dentre os diagnósticos diferenciais, a dermatite de fraldas se destaca pela frequência com que ocorre. A apresentação clínica é lesão eritematosa, brilhante, com variação na intensidade conforme a evolução. Acomete primordialmente as regiões onde há maior contato com a fralda: superfícies convexas das nádegas, coxas, parte inferior do abdome, pube, grandes lábios e escroto. É comum a infecção concomitante por Candida. A dermatite de fraldas também é conhecida como dermatite “em W”, como ilustra a Figura 12.8. Figura 12.8 - Regiões de maior acometimento da dermatite de fraldas, também chamada dermatite “em W” Fonte: acervo Medcel. 12.2.6 Tratamento O tratamento da DA envolve abordagem ampla que visa à diminuição dos sintomas e à restauração da barreira cutânea. Após orientação aos pais e pacientes, o tratamento deve ser planejado com perspectivas em longo prazo, por se tratar de uma doença crônica. Deve ser preconizado: 1. Afastar fatores irritantes: a) Vestuário inapropriado; b) Sabonetes agressivos; c) Banhos quentes e demorados; d) Unhas grandes. . 2. Afastar alérgenos: se houver alergia alimentar, realizar dieta de exclusão; na maioria das crianças, os alérgenos alimentares envolvidos são ovo, leite e trigo. As medidas de controle ambiental para a redução de ácaros da poeira domiciliar (Dermatophagoides pteronyssinus, Dermatophagoides farinae e Blomia tropicalis) são recomendadas para o controle da doença. São recomendações para o controle da doença: 1. Controle do processo infeccioso: uma estratégia para diminuir os episódios de infecção bacteriana são os banhos de imersão por 10 minutos com hipoclorito de sódio a 6% diluído em 100 litros de água, em 3 aplicações semanais, durante 3 meses. Ao mesmo tempo, a erradicação do S. aureus pode ser realizada com aplicação nasal, nas pregas axilares e inguinais e cicatriz umbilical com mupirocina 2 vezes ao dia, durante os primeiros 5 dias do mês, para toda a família e o paciente; 2. Restauração da barreira: após o banho, proceder à aplicação de hidratantes que impeçam ou minimizem a perda transepidérmica de água. Esse processo deve ser repetido quantas vezes for necessário, principalmente após o banho e ao deitar-se; 3. Controle da inflamação: corticosteroides tópicos de média ou de baixa potência são utilizados como droga anti-inflamatória de primeira escolha nas exacerbações da DA, conforme a faixa etária e a localização das lesões (região escrotal e face, sempre de baixa potência). Inibidores da calcineurina (pimecrolimo a partir de 3 meses e tacrolimo) são alternativas no controle da inflamação. A corticoterapia sistêmica é reservada para casos mais graves e refratários ao tratamento tópico. Na retirada do corticoide sistêmico há que se ter cuidado, pois é comum um efeito rebote com piora do quadro; 4. Controle do prurido: embora todos esses passos possam culminar com diminuição do prurido, podem-se utilizar anti-histamínicos. Entretanto, as revisões sistemáticas não apontam evidências que justifiquem seu uso. Dessa forma, são usados os de primeira geração pelo efeito de indução de sonolência. Na ausência de resposta adequada ao tratamento (sempre verificar a adesão e a dificuldade de eliminação dos fatores desencadeantes), têm sido usados ciclosporina, azatioprina, micofenolato de mofetila e fototerapia. Grupo de apoio e acompanhamento psicológico são necessários a esses pacientes, dado que as lesões de pele e o prurido podem levar a desconforto no convívio social e escolar, com grande perda da qualidade de vida. Como tratar rinite alérgica na infância? O tratamento varia conforme a gravidade. Para todos está indicado o controle ambiental: tirar carpete, tapetes, cortinas e bichos de pelúcia, tomar medidas de higiene, evitar perfumes. Para os casos leves está indicado anti- histamínico e antileucotrienos e, nos quadros moderados e graves, corticoide nasal. Como diagnosticar alergia à proteína do leite de vaca no lactente? 13.1 ALERGIA ALIMENTAR 13.1.1 Definição A Alergia Alimentar (AA) é definida como o grupo de reações adversas a alimentos que apresenta envolvimento do sistema imunológico, mediado pela imunoglobulina E (IgE) ou relacionado a outros mecanismos desse sistema. Tais reações são classificadas como não tóxicas, em contraposição aos quadros desencadeados por toxinas presentes em alimentos, ou mesmo quadros de reação adversa decorrentes de efeitos farmacológicos, relacionados a substâncias presentes na alimentação. 13.1.2 Epidemiologia a) A prevalência de AA é bastante variável e parece estar crescendo; b) É mais comum em crianças; c) Cerca de 2% são adultos; d) De 6 a 8% correspondem a crianças menores de 2 anos; e) Entre crianças, os fatores que mais causam alergia são leite de vaca, ovo, soja, amendoim, trigo, milho, arroz, peixes e frutos do mar; f) Uma das frações proteicas do leite de vaca, a betalactoglobulina está ausente no leite humano, mas, com o consumo de leite de vaca, passa a estar presente e é a que mais frequentemente induz à sensibilização; g) O ovomucoide representa quase 10% do conteúdo proteico da clara de ovo e é considerado o alérgeno mais importante deste alimento. Quem é sensibilizado para ovomucoide tem uma alergia mais persistente ao ovo; h) Em adultos alérgicos, 85% das reações devem-se a amendoim, castanha, peixes e frutos do mar, em especial o camarão. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, a AA é responsável por 50% das reações anafiláticas que resultam em hospitalização. No seu desenvolvimento, podem-se encontrar todos os tipos de reações de hipersensibilidade descritos por Gell e Coombs. Reações de hipersensibilidade (Gell e Coombs): 1. Tipo I: mediado por IgE – anafilaxia, urticária, asma e alguns tipos de manifestações gastrintestinais. É o tipo mais comum; 2. Tipo II: citotoxicidade mediada por anticorpos – rara na AA. Já foi descrita plaquetopenia dependente de anticorpos, secundária à alergia ao leite de vaca; 3. Tipo III: é mediada por imunocomplexos – artralgias e lesões cutâneas purpúricas; 4. Tipo IV: mediadas por células – doença celíaca, hemossiderose pulmonar secundária à alergia ao leite de vaca. As manifestações clínicas são mais tardias, várias horas após o contato. 13.1.3 Patogenia O desenvolvimento de AA é resultado da interação de alguns fatores, como a suscetibilidade do paciente, determinada por fatores genéticos, as características do alimento, que o tornem alergênico, fatores locais, que levam ao comprometimento da barreira do trato gastrintestinal, a microbiota intestinal e a maturidade do sistema imunológico do trato gastrintestinal. A modulação da microbiota intestinal, importante fator de regulação da barreira gastrintestinal, também pode sofrer influência da herança genética e de fatores que ainda necessitam ser mais bem determinados, como o tipode parto, o uso de antiácidos e antibióticos ou o contato precoce com o tabaco. As características dos alimentos para que se tornem alergênicos incluem sua capacidade de manutenção da atividade alergênica após cozimento e todo o processo digestivo. A fisiopatologia das alterações relacionadas à AA é complexa. Inúmeros mecanismos imunológicos podem estar envolvidos. Vale ressaltar que as reações adversas a alimentos se subdividem, por critérios fisiopatológicos, em: 1. Intolerância alimentar: hipersensibilidade não alérgica a alimentos – que compreende as reações não imunológicas, agentes tóxicos, farmacológicos, deficiências enzimáticas, idiossincrasias ou reações psicogênicas; 2. AA: envolve reações imunológicas. Classicamente, as manifestações clínicas dividem-se em mediadas por IgE, não mediadas por IgE e mistas. 13.1.3.1 Não mediadas por IgE As manifestações ocorrem de forma mais tardia, horas ou até dias após a ingestão, e têm a participação de células e citocinas, originando processos imunológicos distintos. 1. Pele: dermatite herpetiforme; 2. Trato gastrintestinal: proctocolite, enterocolite, síndrome da enterocolite induzida por proteína alimentar (FPIES); 3. Sistema respiratório: casos de hemossiderose pulmonar. A FPIES é a enterocolite/proctocolite perdedora de proteínas; em geral suas manifestações clínicas são de baixo ganho ponderal (failure to thrive) e quadros de diarreia e obstipação intestinal. O diagnóstico é feito pela biópsia intestinal na colonoscopia, com perda das vilosidades intestinais. Com a exclusão do alérgeno e a repetição do exame, há normalização das vilosidades. 13.1.3.2 IgE mediadas São as manifestações mais comuns de AA, que surgem imediatamente após a ingestão do alimento, entre minutos e horas depois, e envolvem poucos alimentos, 1 ou 2. O volume de alimento capaz de desencadear uma reação depende do grau de sensibilização do paciente. 1. Pele: urticária aguda, angioedema, urticária de contato; 2. Trato gastrintestinal: síndrome da alergia oral, edema e prurido, e quadros gastrintestinais de início súbito – vômitos, diarreia e cólicas; 3. Sistema respiratório: broncoespasmo, rinite e edema de laringe; 4. Sistêmico: anafilaxia, anafilaxia induzida por exercício dependente de alimentos. Figura 13.1 - Urticária e angioedema Fonte: Anaphylaxis, Urticaria, and Angioedema, 2013. 13.1.3.3 Mistas 1. Pele: dermatite atópica; 2. Trato gastrintestinal: doenças eosinofílicas; 3. Aparelho respiratório: asma. Quadro 13.1 - Principais manifestações clínicas relacionadas à alergia alimentar 13.1.4 Diagnóstico A anamnese é o principal elemento no diagnóstico. A descrição dos sintomas é fundamental para avaliar a real possibilidade de AA, pois, ocasionalmente, o paciente ou os familiares podem atribuir à ingestão do alimento sintomas não relacionados ao quadro. Os episódios mais recentes devem ser descritos de maneira detalhada, pois são os que reproduzem de forma mais fidedigna a sequência de eventos após o contato com o alimento suspeito. Por meio de adequada história clínica, é possível determinar o alimento suspeito, avaliando a idade de sua introdução e a época de aparecimento dos sintomas, sendo importante pesquisar se houve mais de 1 exposição ao alimento e se o sintoma se repetiu em todas as ocasiões. A quantidade ingerida pode auxiliar no diagnóstico do mecanismo envolvido, pois manifestações mediadas por IgE podem ocorrer com quantidades mínimas do alérgeno. Como exemplo: respirar em um ambiente em que houve manipulação recente do alimento pode ser suficiente para deflagrar o sintoma clínico. O conhecimento dos hábitos familiares e a confecção de um recordatório alimentar podem ser úteis para resgatar preparações que contenham o alérgeno oculto, como nos derivados ou nos alimentos industrializados. Agravos relacionados ao trato gastrintestinal devem ser pesquisados, pois processos inflamatórios intestinais podem facilitar a sensibilização a alimentos. No caso de alergia à proteína do leite de vaca, é importante questionar se houve, já no berçário, administração de leite por mamadeira. Outros dados, como tempo de aleitamento materno, presença de outras alergias e atividade física após refeição são informações úteis ao diagnóstico. #IMPORTANTE Após anamnese cuidadosa, é possível determinar, na maior parte das vezes, o mecanismo fisiopatológico envolvido na AA, se IgE mediado ou não, e os alimentos suspeitos. O exame físico pode ser normal se o paciente está fora de crise, entretanto, é importante avaliar se há o comprometimento do estado nutricional ou sinais de atopia. 13.1.4.1 Exames complementares A avaliação laboratorial é complementar à anamnese. É importante ressaltar que os exames acessíveis ao diagnóstico estão, em sua maioria, direcionados à avaliação de manifestações mediadas por IgE. A pesquisa de IgE específica pode ser realizada de 2 maneiras: por meio de teste in vivo, denominado teste de puntura ou teste prick – prick positivo é igual ao valor preditivo positivo 50%, sensibilização prick negativo igual ao valor preditivo positivo 95%, exclusão de AA IgE mediada – ou teste in vitro de dosagem de IgE específica por meio de diversas técnicas, sendo o radioallergosorbent test (RAST) a mais comum. É importante ressaltar que testes com resultados positivos indicam sensibilização, e a relação causal entre alimento e sintoma só poderá ser estabelecida à luz da anamnese. Ocasionalmente, podem ser feitos testes de provocação com diferentes metodologias. a) Provocação aberta O médico e o paciente conhecem o momento em que o alimento que está sendo testado será ingerido. É indicado especialmente quando a AA está praticamente descartada. b) Teste simples-cego Apenas o paciente desconhece o momento em que o alimento será ingerido. É indicado aos casos em que os sintomas são bastante objetivos – urticária, angioedema. c) Teste de provocação duplo-cego placebo controlado O momento em que o alimento será ingerido não é conhecido pelo médico nem pelo paciente, sendo necessária uma fase placebo. Tido como padrão-ouro, é indicado quando os sintomas relatados são subjetivos. Para a realização desse teste, recomenda-se ambiente hospitalar. 13.1.5 Alergia a proteína do leite de vaca Quadro 13.2 - Principais diferenças 13.1.6 Tratamento O tratamento de AA envolve a exclusão total do alérgeno. A orientação adequada demanda tempo, mas é essencial para assegurar adesão ao tratamento, prevenir a desnutrição e melhorar a qualidade de vida do paciente e dos familiares. O tratamento deve ser individualizado, considerando os alérgenos a serem excluídos, as necessidades nutricionais e os alimentos mais aceitos pela criança. São fundamentais a leitura cuidadosa de todos os rótulos, alimentos, cosméticos e medicamentos, e o conhecimento de termos sinônimos, para garantir a completa exclusão do alérgeno. Uma lista de alimentos permitidos e proibidos pode ser útil para auxiliar na aquisição de produtos industrializados. O leite de vaca é um dos principais alérgenos na faixa etária pediátrica. Quando confirmada a alergia, a orientação inclui a sua eliminação e a de todos os seus derivados. Com isso, a criança perde um importante alimento, rico em proteínas e especialmente em cálcio, razão pela qual é fundamental a escolha do substituto. É importante saber que bebidas à base de leite de cabra ou outros animais estão totalmente contraindicadas e que fórmulas de soja não devem ser utilizadas nos primeiros 6 meses de vida. As fórmulas parcialmente hidrolisadas e fórmulas sem lactose também não são indicadas. As fórmulas mais adequadas são os hidrolisados proteicos, extensamente hidrolisados, ou as de aminoácidos livres. Caso a criança esteja em aleitamento materno, é indicado à mãe realizar dieta isenta de leite de vaca e derivados. Há muita discussão sobre a melhor fórmula infantil para iniciar o tratamento de pacientes com Alergia a Proteína do Leite de Vaca (APLV), se seria a fórmula extensamente hidrolisada ou a fórmula de aminoácidos.Atualmente, de acordo com os protocolos internacionais e da Sociedade Brasileira de Pediatria, a fórmula inicial de escolha para o tratamento da APLV é a extensamente hidrolisada. Alguns pacientes com formas graves de APLV, no entanto, terão reação alérgica com as extensamente hidrolisadas, cerca de 10%. Para esse grupo, a fórmula inicial mais adequada é a fórmula de aminoácidos livres. O tempo de exclusão da proteína depende do tipo de alergia. Nos casos IgE mediados com altos títulos ou reações alérgicas severas, a exclusão deve ser feita por, pelo menos, 12 meses, e a provocação deve ser norteada pelos níveis de IgE específica, postergada se os títulos permanecem elevados. Nesses pacientes, o teste de provocação deve ser realizado em ambiente hospitalar. Para aqueles com APLV não IgE mediada, o tempo de exclusão recomendado é de cerca de 6 meses para fazer, então, o teste de provocação. 13.2 ANAFILAXIA 13.2.1 Definição A anafilaxia é sempre uma emergência médica que se caracteriza por imprevisibilidade, rápida instalação e risco real de morte. É uma reação multissistêmica grave, de início agudo e potencialmente fatal, em que alguns ou todos os sintomas a seguir podem estar presentes: urticária, angioedema, comprometimentos respiratório e gastrintestinal e, ou hipotensão. Não se trata de um evento de fácil definição, mas consensos recentes estabeleceram critérios para o diagnóstico. A reação anafilática é basicamente desencadeada pela grande liberação de mediadores produzidos por basófilos e mastócitos. Na maioria das vezes, os mecanismos imunológicos mediados por IgE estão envolvidos na gênese do processo. No entanto, a anafilaxia pode ser idiopática e, também, do tipo não alérgica, como a causada por agentes físicos, frio, exercício físico, e drogas anti-inflamatórios não esteroides, opioides, radiocontrastes. 13.2.2 Quadro clínico Os quadros de anafilaxia têm início, em geral, muito rapidamente após o contato com a substância desencadeadora. Nos casos relacionados a medicamentos ou contrastes radiológicos, os sintomas começam em 5 minutos; nas alergias a insetos, em cerca de 15 minutos; a alimentos, em média, 30 minutos. O processo anafilático é intenso e autolimitado, mas, em cerca de 20% dos casos, pode haver reação bifásica, especialmente em anafilaxias a alimentos. Embora as causas que justifiquem o padrão bifásico ainda não estejam adequadamente esclarecidas, podem estar envolvidos fatores como retardo na administração de adrenalina ou doses inadequadas. O quadro clínico pode ser bastante variado, apesar de as manifestações cutâneas estarem presentes em 70 a 90% dos pacientes com anafilaxia, sendo sempre importante estar atento à evolução de reações alérgicas que se iniciam com urticárias e angioedema. Outras manifestações cutâneas incluem rubor, rash morbiliforme, prurido palmoplantar, periorbital ou no couro cabeludo. As mucosas podem estar envolvidas com prurido nos lábios, na língua e no palato. As manifestações respiratórias, embora nem sempre presentes, conferem maior gravidade ao quadro, e a presença de broncoespasmo e o edema de laringe são indicativos de risco de morte. O paciente pode referir prurido ou aperto na garganta, rouquidão ou disfonia e apresentar estridor, sintomas que indicam comprometimento laríngeo. Quadros gastrintestinais de diarreia súbita e vômitos podem ser sinais da anafilaxia se acompanhados de manifestações em outros sítios. Dentre as alterações cardiovasculares, destacam-se hipotensão, taquicardia, vertigem, síncope, dor no peito e arritmias. Outros sintomas já descritos em situações de anafilaxia são contrações uterinas, alterações visuais, zumbido, alteração esfincteriana e sensação de morte iminente. É importante ressaltar que as manifestações clínicas de anafilaxia podem aparecer novamente de 1 a 72 horas após o evento inicial, mesmo sem reexposição ao desencadeante. Esse evento é conhecido como anafilaxia bifásica. 13.2.3 Diagnóstico O diagnóstico de anafilaxia é essencialmente clínico, com anamnese minuciosa. Devem constar do questionamento o agente suspeito, a via de contato, a dose, a sequência de sintomas, o tempo de início, tratamentos anteriores, fatores associados e uso de medicamentos. Embora seja pouco utilizada na prática clínica, a dosagem de triptase plasmática pode auxiliar na confirmação do diagnóstico de anafilaxia. Outro exame auxiliar no diagnóstico da etiologia da anafilaxia é a dosagem de IgE específica, que não deve ser feita na fase aguda, pois pode ser negativa. Atualmente, o diagnóstico de anafilaxia é estabelecido quando são preenchidos quaisquer dos critérios relacionados na a seguir, de acordo com a World Allergy Organization: a) Doença de início agudo, minutos a várias horas, com envolvimento da pele, do tecido mucoso ou de ambos (urticária generalizada, prurido ou rubor facial, edema de lábios, língua e úvula, por exemplo, e no mínimo, 1 dos seguintes: Comprometimento respiratório (dispneia, sibilos, broncoespasmo, estridor, redução do pico de fluxo expiratório, hipoxemia); Redução da pressão arterial ou sintomas associados à disfunção terminal de órgão, hipotonia, colapso, síncope, incontinência. b) 2 ou mais dos seguintes que ocorrem rapidamente após a exposição a provável alérgeno, minutos ou várias horas: Envolvimento de pele e mucosa: urticária generalizada, prurido e rubor, edema de lábios, língua e úvula; Comprometimento respiratório: dispneia, sibilos, broncoespasmo, estridor, redução do pico de fluxo expiratório, hipoxemia; Redução da pressão sanguínea ou sintomas associados: hipotonia, colapso, síncope, incontinência; Sintomas gastrintestinais persistentes: cólicas abdominais, diarreia, vômitos. c) Redução da pressão sanguínea após exposição a alérgeno conhecido para determinado paciente, minutos ou várias horas: Lactentes e crianças: pressão sistólica baixa, idade específica ou > 30% de queda na pressão sistólica. Na criança, pressão sistólica baixa é definida como < 70 mmHg para a idade de 1 mês a 1 ano, < 70 mmHg mais 2 vezes a idade para aquelas entre 1 e 10 anos e abaixo de 90 mmHg para adolescentes e adultos. 13.2.4 Diagnóstico diferencial Dentre os diagnósticos diferenciais, destaca-se a reação vasodepressora, que leva à palidez e à síncope. Em geral, os pacientes apresentam bradicardia de maneira contrária àqueles com anafilaxia, que desenvolvem taquicardia. Outros diagnósticos incluem os relacionados a seguir: a) Liberação de substâncias carcinoides, álcool e quadros relacionados à menopausa, que levam a rubor e desconforto; b) Síndrome “de restaurante chinês”, sintomas relacionados à liberação de glutamato monossódico; c) Mastocitose sistêmica; d) Angioedema hereditário; e) Feocromocitoma; f) Transtorno do pânico; g) Disfunção de pregas vocais; h) Síndrome de Münchhausen, sintomas fictícios produzidos pelo paciente ou responsável. 13.2.5 Tratamento O tratamento tem 2 grandes objetivos: controle da crise e prevenção de novos eventos. Durante a crise, a rapidez na elucidação do diagnóstico e na instalação de medidas terapêuticas será fundamental para o êxito do tratamento. São importantes as medidas de suporte básico e avançado de vida. Três aspectos são fundamentais no manejo da anafilaxia: administração rápida de adrenalina, decúbito dorsal com membros inferiores elevados e manutenção adequada da volemia. A adrenalina é a droga-chave na anafilaxia, e a sua rápida administração garante diminuição da mortalidade. Deve ser sempre administrada por via intramuscular, na região do vasto lateral da coxa, na dose de 0,2 a 0,5 mL – 0,01mg/kg em crianças, máximo de 0,3 mg – e pode ser repetida a cada 5 ou 15 minutos, dependendo da evolução do quadro. A adrenalina é a droga-chave na anafilaxia e sua via de administração é intramuscular (vasto lateral da coxa). Na sequência, outros fármacos são administrados, incluindo-se beta-2-agonistas para reversão de broncoespasmo (salbutamol por aerossol dosimetrado na dose de 1 jato/2kg, no máximo 10 jatos), anti-histamínicos (difenidraminapor via intravenosa, na dose de 1mg/kg, dose máxima de 50mg) e corticosteroides, os últimos atuantes somente na fase tardia do processo. A fluidoterapia com solução fisiológica ou Ringer lactato é fundamental nos casos com hipotensão, e drogas como glucagon (5 a 15 µg/min) podem ser indicadas a pacientes que utilizam betabloqueadores normalmente, impedindo o adequado efeito farmacológico da adrenalina. Também são necessárias doses mais elevadas de adrenalina nesses casos. Pacientes com asma mal controlada têm maior risco de complicações e reações fatais. Os pacientes devem ficar em observação por, no mínimo, 6 a 8 horas nos casos leves e 24 a 48 horas nos casos graves. Na alta, devemos orientar sobre a possibilidade de recorrência dos sintomas em 12 horas após o episódio. Para evitar a recorrência, prescreve-se corticoide oral (1 a 2 mg/kg/d em dose única) por 5 a 7 dias. Além disso, anti-histamínicos (anti-H1) de segunda geração, como desloratadina ou fexofenadina, devem ser usados por 7 dias. A estratégia de prevenção é tão importante quanto o tratamento da crise. O paciente deve ser encaminhado ao especialista para ser detectado o agente desencadeador e receber orientações sobre como evitá-lo. Deve ser delineado um plano de ação para o paciente, que utilizará um dispositivo de identificação e, de preferência, portará um dispositivo de adrenalina auto injetável com dose fixa (0,3 ou 0,15 mg para crianças), o que torna seu uso limitado a crianças com menos de 15 kg. Como diagnosticar alergia à proteína do leite de vaca no lactente? Deve-se suspeitar de Alergia a Proteína do Leite de Vaca (APLV) no paciente com baixo ganho ponderal, irritabilidade, cólica/refluxo de difícil controle, diarreia, vômito, sangramento nas fezes, e ainda em quadros de sibilância recorrente sem outra causa aparente e dermatite de difícil controle. Quando suspeitado, deve-se excluir da proteína do leite de vaca da dieta do paciente (e, em caso de aleitamento materno, exclusão da proteína do leite de vaca da dieta materna), e reexposição em 14 dias. Se há melhora com a retirada e exacerbação com a exposição, o diagnóstico de APLV está firmado. Quando suspeitar de complicação bacteriana sobreposta a um quadro respiratório viral na criança e adolescente? 14.1 INTRODUÇÃO A incidência das doenças respiratórias na criança vem aumentando nas últimas décadas por inúmeros fatores, dentre os quais podemos citar as alterações do meio ambiente, em decorrência da progressiva urbanização da população infantil, com piora da qualidade do ar inalado intra e extradomiciliar, associada a tabagismo e mudança do estilo de vida familiar. A inclusão da mão de obra feminina no mercado de trabalho determinou a inserção cada vez mais cedo da criança em creches e escolinhas, fato que também propiciou o desmame precoce, com consequente introdução do leite de vaca e de alimentos industrializados, possibilitando a ocorrência de infecções virais mais precoces principalmente das vias aéreas superiores e do trato gastrintestinal e o aparecimento de alergia alimentar. As Infecções Respiratórias Agudas (IRAs) incluem um extenso grupo de doenças respiratórias, de grande importância na faixa pediátrica, uma vez que correspondem ao principal motivo de atendimento nos serviços de Unidade Básica de Saúde e nos serviços de urgência e emergência em Pediatria. As IRAs subdividem-se, do ponto de vista anatomoclínico, em doenças das vias aéreas superiores e doenças das vias aéreas inferiores. O ponto anatômico de divisão entre as vias superiores e as vias inferiores encontra-se na carina, no limite de bifurcação da traqueia. Os agentes etiológicos mais frequentes são os virais, seguidos pelos bacterianos. Na faixa pediátrica, vários fatores de risco concorrem para predispor a criança a desenvolver IRAs, com elevação da gravidade e da mortalidade. Fatores de gravidade e mortalidade: a) Prematuridade; b) Baixo peso ao nascer; c) Baixo nível socioeconômico; d) Desmame precoce; e) Desnutrição energético-proteica; f) Baixa cobertura vacinal; g) Aglomerações de pessoas – creches, escolas; h) Tabagismo familiar e/ou domiciliar; i) Número elevado de crianças menores de 5 anos; j) Dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Neste capítulo, trataremos das Infecções das Vias Aéreas Superiores (IVASs), que englobam uma diversidade de patologias. As IVASs compreendem de 40% a 60% do total de atendimentos na faixa pediátrica, nos serviços médicos de urgência e emergência e nas intercorrências ambulatoriais. As IVASs compreendem doenças muito frequentes na faixa pediátrica, de curso benigno e autolimitado, em sua maioria. As doenças respiratórias que correspondem às IVASs incluem a rinofaringite aguda – resfriado comum –, a faringite, a laringotraqueobronquite, a rinossinusite aguda e as otites agudas. Uma criança tem, em média, de 8 a 10 quadros de IVASs por ano, com morbidade especialmente alta devido às seguintes razões: primeiro contato com o agente agressor; falta de imunidade que faz com que transmitam o agente em grande quantidade por mais tempo; vias aéreas de menor calibre, que podem complicar com desconforto respiratório e insuficiência respiratória; maior contato social e contatos mais íntimos, fazendo a taxa de ataque ser mais alta. Fatores de risco na infância: a) Idade entre 6 e 24 meses; b) Sexo masculino; c) Baixo peso; d) Atopia; e) Deficiência imunológica; f) Anomalias craniofaciais e do palato; g) Aglomerações de pessoas – creches, escolas; h) Irmãos mais velhos – que frequentam escolas; i) Tabagismo familiar e/ou domiciliar; j) Uso de chupeta; k) Aleitamento artificial – desmame precoce. 14.1.1 Agentes etiológicos Os agentes etiológicos incluem os vírus e as bactérias, além de agentes atípicos. Os vírus são os agentes predominantes. Entre estes, podemos relacionar rinovírus, adenovírus, influenza, parainfluenza, Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e Coxsackievirus. Entre todos os vírus, os rinovírus são os mais frequentes, participando de 30 a 40% dos casos. Entre os agentes bacterianos mais frequentes, podemos citar Streptococcus pyogenes (Streptococcus beta-hemolítico do grupo A), Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae não tipável, Staphylococcus aureus e Moraxella catarrhalis. 14.2 RINOFARINGITE AGUDA – RESFRIADO COMUM 14.2.1 Introdução A rinofaringite aguda – ou resfriado comum – é a mais comum das IVASs. Da mesma forma, é um dos problemas mais comuns nos serviços de atendimento médico pediátricos, o qual resulta em morbidade significativa em todo o mundo. 14.2.2 Definição Trata-se de uma síndrome clínica benigna e autolimitada, causada pela inflamação aguda da mucosa do nariz, dos seios paranasais e da faringe, provocada principalmente por um amplo grupo de vírus. 14.2.3 Epidemiologia Acomete com mais frequência a faixa etária pediátrica, especialmente crianças menores de 5 anos. Sua incidência é inversamente proporcional à idade. As crianças são os principais reservatórios dos vírus. Ocorre a disseminação em ambiente domiciliar ou, principalmente, em creches e escolinhas, onde passam a maior parte do dia. Portanto, as crianças que frequentam esses locais têm maior risco de contrair a doença. Fatores genéticos podem afetar ou alterar a suscetibilidade individual ao resfriado comum, mas seus mecanismos são desconhecidos. O estresse psicológico e o exercício físico intenso podem aumentar o risco de doença. Em países em desenvolvimento, crianças menores de 5 anos apresentam média de 4 a 8 episódios por ano, predominando entre os 6 e 24 meses. Aquelas com fatores de risco para IVAS, principalmente as crianças que frequentam creche. podem apresentar cerca de 10 quadros de rinofaringite aguda por ano. 14.2.4 Sazonalidade Resfriado comum mostra clara sazonalidade. Embora possa acontecer durante todo o ano, a incidência maior é no outono e no inverno. Nos países tropicais, como o Brasil, a maioria ocorre durante as estações das chuvas e nos meses frios, quando é maior a permanência de pessoas em ambientesfechados. A sazonalidade depende também do agente envolvido: rinovírus – início de outono e final de primavera; influenza e VSR – inverno; parainfluenza – final de outono; Coxsackievirus – no verão (“resfriado do verão”). 14.2.5 Transmissão A rinofaringite aguda é uma doença altamente transmissível. As vias de transmissão dos vírus respiratórios são bastante semelhantes, destacando-se o contato direto, especialmente mãos contaminadas ou partículas virais aerossolizadas, que se transmitem pessoa a pessoa ou podem permanecer em suspensão. No caso do rinovírus e do VSR, um importante mecanismo de contaminação é a autoinoculação por meio do contato da mão contaminada com a mucosa nasal ou ocular; ou seja, o indivíduo entra em contato com as partículas virais da secreção nasal contidas nas mãos de outra pessoa ou objetos contaminados e, ao carregá-las aos seus olhos ou nariz, adquire a infecção. Por outro lado, a via inalatória é a mais importante no caso do vírus influenza, que se dissemina principalmente por meio de pequenas partículas de aerossol. 14.2.6 Etiologia No grupo amplo de vírus, o rinovírus é o mais frequente (com mais de 100 sorotipos), responsável por pelos menos 50% dos casos de rinofaringite. Outros vírus ocasionais seriam o coronavírus, o VSR, o metapneumovírus, o vírus influenza, o parainfluenza (os tipos 3 e 4 são mais comuns), o adenovírus e os enterovírus (Coxsackievirus e echovírus). Em alguns estudos de corte realizados com avaliação por meio de cultura e polymerase chain reaction (PCR) (reação em cadeia da polimerase), observou-se que o rinovírus estava presente em 20% das crianças até os 6 meses e em 79% delas aos 2 anos. 14.2.7 Fisiopatologia A fisiopatologia envolve a invasão do epitélio da nasofaringe, dos seios paranasais e do trato respiratório superior, com lesão celular subsequente. Em decorrência da estimulação colinérgica, aumenta a produção de muco, com o surgimento de coriza e tosse. Há, ainda, secundariamente à invasão do epitélio, liberação de mediadores inflamatórios nas secreções nasais, aumento de permeabilidade vascular, edema de mucosa e congestão nasal. 14.2.8 Quadro clínico A coriza é um dos sintomas mais precoces de rinofaringite e pode ser acompanhada de espirros, obstrução nasal e febre baixa nos primeiros 3 dias. O período de incubação varia de 2 a 5 dias; o de contágio, de algumas horas antes a 2 dias após o início dos sintomas; e o pico dos sintomas, entre o segundo e o quarto dia. Os sintomas iniciais são irritação nasal e, eventualmente, dor de garganta. Sintomas inespecíficos como dor muscular, cefaleia, mal-estar e inapetência também podem estar presentes, principalmente nas crianças maiores. Em lactentes jovens, poderão ser observados ainda - inquietação, choro fácil, recusa alimentar, vômitos, alteração do sono e dificuldade respiratória por obstrução nasal. A febre, quando presente, tende a resolver-se nos primeiros dias, e sua persistência ou retorno pode indicar infecção bacteriana. Em geral, não há sinais de desconforto respiratório, uma vez que os rinovírus não costumam atingir as vias aéreas inferiores. Com a evolução do quadro, a secreção nasal pode tornar-se amarelada, esverdeada – pela presença de leucócitos – ou até mesmo purulenta, pela destruição de células epiteliais da mucosa, sem significar necessariamente infecção bacteriana secundária. Ao exame físico, percebem-se a congestão e a hiperemia das mucosas nasal e faríngea, das membranas timpânicas e da conjuntiva ocular, associadas habitualmente ao bom estado geral da criança. Os sintomas tendem a se resolver dentro de 5 a 7 dias. Eventualmente, pode persistir tosse seca. Em lactentes e crianças pequenas, e em alérgicos os sintomas podem durar até 14 dias. Naquelas suscetíveis, a rinofaringite poderá desencadear crises de rinite e/ou broncoespasmo. 14.2.9 Diagnóstico O diagnóstico é essencialmente clínico e baseado nos sintomas citados. O aspecto temporal é importante. Devem-se avaliar cuidadosamente início, cronologia e duração dos sintomas. É comum as mães “valorizarem” apenas o dia em que a criança apresenta febre e piora clínica. A doença viral tem curso clínico em torno de 1 a 2 semanas. Sintomas persistentes ou recorrentes podem ser sugestivos de complicação bacteriana ou alergia. Deve-se avaliar história de contato domiciliar, institucional ou epidemia na comunidade. A identificação do vírus é desnecessária. Em algumas situações de importância epidêmica, pode ser conveniente a pesquisa de vírus respiratórios para melhor controle, ou prevenção, por parte da autoridade sanitária. O diagnóstico diferencial deve ser feito com manifestações iniciais de várias doenças: sarampo, coqueluche, infecção meningocócica, faringite estreptocócica, hepatite A e mononucleose infecciosa. 14.2.9.1 Diagnóstico diferencial O surgimento de um quadro de IVASs de repetição, com sintomas quase permanentes nos períodos de inverno e primavera, deve levar à suspeita da existência de rinite. 14.2.10 Tratamento O tratamento do resfriado comum é feito com medicamentos para melhora dos sintomas e medidas de suporte: lavagem nasal, inalação com soro fisiológico e antitérmicos/analgésicos. O mel tem boa indicação para melhora da tosse, com comprovação em estudos científicos. O uso de xaropes, expectorantes e descongestionantes nasais são contraindicados, por efeito questionável e risco de intoxicação exógena. Medidas gerais: a) Repouso no período febril; b) Hidratação e dieta conforme aceitação: deve-se orientar hidratação oral com oferta abundante e frequente de líquidos habituais da criança; oferecer o devido cuidado à alimentação, oferecendo pequenos volumes fracionados em curtos períodos, respeitando a aceitação; c) Higiene e desobstrução nasal: instilação de solução salina isotônica nas narinas, seguida algum tempo depois de aspiração delicada das fossas nasais com aspiradores manuais apropriados. O lactente menor de 6 meses pode apresentar muito desconforto com a obstrução nasal causada pela rinofaringite. Portanto, esse cuidado é especialmente importante antes das mamadas e de dormir; d) Umidificação do ambiente; e) Antitérmicos e analgésicos: antitérmicos nas crianças devem ser instituídos quando de temperatura maior que 37,8 °C. Ingestão de líquidos frios, roupas leves e banhos mornos são medidas físicas que podem ser orientadas; f) Os antitérmicos recomendados são: paracetamol (10 a 15mg/kg/dose), dipirona(1 gota/kg) e ibuprofeno(10mg/kg/dose). O ácido acetilsalicílico deve ser evitado pela associação à síndrome de Reye e pelo uso de Aspirina® em pacientes com influenza (A e B) e varicela. O uso excessivo de antitérmicos, analgésicos e anti- inflamatórios tem sido relacionado com supressão da resposta de anticorpos neutralizantes e aumento dos sintomas. Estão recomendados somente em função da intensidade da febre e do mal- estar, quando necessários; g) Descongestionante nasal tópico: devem ser evitados, pelo risco de toxicidade e rinite medicamentosa; h) Antitussígenos e anti-histamínicos pela via oral – o uso é desaconselhável devido à ineficácia e à presença de efeitos adversos. Os anti-histamínicos (dexclorfeniramina, loratadina, cetirizina) são recomendados aos portadores de rinite alérgica; i) Antimicrobianos: não são indicados por não prevenirem infecções bacterianas secundárias nas IVASs e poderem causar efeitos adversos, incluindo o aumento de cepas bacterianas resistentes na orofaringe; j) Antivirais: para a maioria dos vírus, não existe nenhum tratamento específico. Entretanto, no caso da gripe causada pelo vírus da influenza, o oseltamivir deve ser iniciado nas primeiras 48 horas; k) Deve-se ter observação cuidadosa: para detecção das complicações, sendo importante orientar os pais a retornar ao pronto- socorro em caso de desconforto respiratório, febre por mais de 72 horas ou queda do estado geral da criança, pois esses são sinais de alerta que exigem reavaliação médica. 14.2.11 Complicações A complicação mais comum é a Otite Média Aguda (OMA), emrazão da disfunção tubária concomitante. A OMA após rinofaringite aguda ocorre em até 30% dos casos. Outras complicações possíveis são as rinossinusites, bronquites, laringotraqueítes e pneumonias. As viroses respiratórias são também apontadas como desencadeantes de sibilância, especialmente em lactentes. 14.2.12 Prevenção As principais medidas preventivas para o resfriado comum se referem aos cuidados na transmissão viral, como a lavagem das mãos, o uso de lenços e máscaras descartáveis. Outras medidas também podem ser muito úteis e são recomendadas: a) Evitar contato com pessoas infectadas, principalmente lactentes até 3 meses e imunodeprimidos; b) Em épocas de surtos de infecções virais, evitar aglomerações; c) Ventilação – manter arejados os ambientes em que a criança permanece (domiciliar, escola e creche). Em caso de crianças frequentadoras de creche com infecções virais recorrentes, avaliar os benefícios da permanência na creche. Crianças resfriadas que necessitem de cirurgia com anestesia geral devem ter esse procedimento adiado por 6 semanas. 14.3 INFLUENZA – SÍNDROME GRIPAL 14.3.1 Definição A gripe é uma síndrome clínica – doença infecciosa epidêmica aguda – causada pelo vírus influenza tipos A e B, que se diferencia do resfriado comum (nasofaringites virais) pela sua maior repercussão sistêmica – febre, mialgia, cefaleia, mal-estar e prostração – e pelo acometimento mais extenso da árvore respiratória (trato respiratório superior – faringe e laringe – e inferior – bronquíolos ou parênquima pulmonar), não se limitando à mucosa da nasofaringe. 14.3.2 Etiologia É causada apenas pelo vírus influenza, um vírus RNA grande, da família ortomixovírus e do gênero influenza. Diferentemente dos demais, o influenza tem uma característica própria: incrível capacidade mutagênica. Suas inúmeras mutações sucessivas ao longo do tempo e do espaço produziram diversos subtipos e uma infinidade de variantes ou cepas. Existem 3 grandes tipos sorológicos: os vírus influenza A, B e C; essa subdivisão baseia-se nas diferenças antigênicas da nucleoproteína e da proteína de matriz. Nos tipos A e B, os principais determinantes antigênicos são as glicoproteínas de superfície, hemaglutininas e neuraminidase. O tipo C não tem grande importância para o ser humano. 1. Vírus influenza A: parece ser o sorotipo mais importante para o ser humano, por ser o mais mutagênico e mais virulento. Os vírus influenza A são divididos em subtipos de acordo com as 2 glicoproteínas do envelope viral: hemaglutinina e neuraminidase. Atualmente, são reconhecidos 16 tipos da primeira (H1 a H16) e 9 da segunda (N1 a N9), entre seres humanos e várias espécies animais. Os vírus influenza adaptados ao homem circularam nos últimos 100 anos. Até 1999, somente 3 diferentes hemaglutininas (H1, H2 e H3) e 2 neuraminidases (N1 e N2) estavam presentes nos vírus humanos; 2. Vírus influenza B: é menos mutagênico e virulento. Apresenta menos sorotipos e menor variedade de reservatórios animais. 14.3.3 Epidemias As epidemias sistemáticas de gripe a cada 1 a 3 anos são decorrentes das chamadas mutações menores (drifts) na estrutura glicoproteica do vírus, criando novas cepas, enquanto as famosas pandemias – gripe espanhola de 1918, gripe asiática de 1957 – dependem de mutações maiores (shifts), modificando o subtipo, e têm ocorrido, em média, a cada 30 anos. Em 1947, a Organização Mundial da Saúde (OMS) começou a desenvolver uma estratégia de controle da gripe no mundo, habilitando diversos “laboratórios de influenza” em vários países. Atualmente, dispõe-se de 100 laboratórios, distribuídos por 80 países. O objetivo é monitorizar os subtipos e as cepas de influenzas A e B que estão circulando no planeta. No Brasil, existem 3 laboratórios especializados – em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belém. Desde 1995, com a criação do Grupo Regional de Observação da Gripe, reforçado em 2000 com o projeto VigiGripe, as equipes brasileiras monitorizam os nossos vírus influenza e as nossas epidemias. A grande importância da monitorização, pela OMS, de seus sorotipos, subtipos e cepas no mundo é que o conhecimento das cepas mais prevalentes influi diretamente sobre a composição da vacina anti-influenza, revista todo ano. Se não for feito esse exaustivo trabalho, a vacina perderá o seu efeito protetor. 14.3.4 Epidemiologia A gripe, ou influenza, é uma das infecções das vias aéreas mais frequentes, e os dados de incidência são impressionantes. Segundo o Centers for Disease Control and Prevention (CDC), em 1 ano regular nos Estados Unidos, cerca de 60 milhões de pessoas são infectadas e mais de 25 milhões procuram serviços médicos, acarretando, em média, 226 mil internações e 34 mil mortes, estas últimas principalmente entre adultos com mais de 65 anos. Em crianças, o vírus influenza acomete principalmente pré-escolares e escolares, mas lactentes também apresentam infecção pelo vírus, especialmente influenza A, sendo maiores as taxas de hospitalização e mortalidade nesse grupo de pacientes. Embora existam grupos de maior risco para complicações por influenza, as crianças saudáveis compõem a maior parte dos quadros de internação. As crianças também representam papel relevante na propagação do vírus, uma vez que podem transmiti-lo por período mais longo que os adultos, sendo uma importante fonte de contaminação para toda a população, inclusive em creches, nas quais a taxa de infecção pode exceder 50%. A infecção pelo vírus influenza tem distribuição global e transmissibilidade elevada. É único na habilidade de causar epidemias anuais recorrentes e, menos frequentemente, pandemias, atingindo quase todas as faixas etárias em curto espaço de tempo. Os tipos A e B causam epidemias graves a cada 10 a 15 anos e a cada 4 a 7 anos, respectivamente, resultando de desvios antigênicos profundos. Na epidemiologia das doenças, podemos considerar a influenza um problema permanente; a pandemia, um problema iminente e incerto. Não há restrições geográficas. Em áreas de clima temperado, a incidência da doença apresenta padrão sazonal, com picos bem demarcados durante o inverno. No Brasil, sua epidemiologia é bem conhecida nas regiões Sul e Sudeste, onde a sazonalidade está bem caracterizada, ocorrendo nos meses de outono e inverno. A mortalidade varia de 1% a 8% e está associada a idade, comorbidades e estado vacinal da população. 14.3.5 Transmissão Além de ser altamente mutagênico, o vírus influenza possui poder de transmissão interpessoal muito grande, e, pelo curto período de incubação – 1 a 3 dias –, os surtos e as epidemias se alastram rapidamente por comunidades imunologicamente suscetíveis. O vírus é altamente contagioso, transmitido de pessoa a pessoa por meio de gotículas ou contato direto com objetos contaminados recentemente por secreções nasofaríngeas. O paciente é mais infectante durante as 24 horas anteriores ao início dos sintomas e o período mais sintomático. A doença dissemina-se pelas pessoas, atingindo o seu pico em 2 a 3 semanas e dissipando-se em 1 a 2 meses. Uma pessoa pode ter inúmeras gripes durante a vida, pois cada epidemia é causada por nova cepa viral, não reconhecida pela sua memória imunológica. O mecanismo de transmissão principal acontece por via inalatória: o vírus infecta as células epiteliais ciliadas da árvore respiratória, sendo eliminado em grande quantidade na fala, na tosse e no espirro. O vírus influenza destrói o epitélio escamoso e leva a perda da função ciliar, facilitando a superinfecção bacteriana. 14.3.6 Fatores de risco Geralmente, é uma doença benigna, autolimitada e de bom prognóstico, mas pode produzir marcada morbidade na presença dos fatores de risco listados: a) Doenças pulmonares: Broncodisplasia da prematuridade; Asma; Fibrose cística. b) Doenças neurológicas; c) Doenças cardíacas; d) Imunodeficiências; e) Nefropatias; f) Doenças metabólicas; g) Doenças que requerem o uso crônico de ácido acetilsalicílico, como doença de Kawasaki. 14.3.7 Período de incubação O período de incubação é geralmentede 1 a 3 dias, sendo característico o adoecimento de várias pessoas ao mesmo tempo, especialmente em famílias nas quais há crianças em idade escolar. Os adultos transmitem o vírus 24 horas antes do início dos sintomas a até 7 dias após. As crianças são mais contagiosas e transmitem desde vários dias antes até 10 dias após o início dos sintomas. 14.3.8 Patogênese O vírus influenza tem tropismo pelas células ciliadas do epitélio respiratório, acometendo, indiscriminadamente, desde a mucosa nasal até os alvéolos. Isso significa que, do ponto de vista anatômico, a gripe pode se localizar nas vias aéreas superiores e, ou inferiores, acarretando combinações variadas de nasofaringite, faringite, laringite, laringotraqueíte, bronquite e pneumonia. O que determina a extensão da infecção pela árvore respiratória, bem como a gravidade da doença, é a relação entre a virulência da cepa e a resposta do hospedeiro. 14.3.9 Quadro clínico Uma característica peculiar da gripe, diferindo das demais viroses respiratórias, é o predomínio das manifestações sistêmicas sobre as respiratórias. Em crianças menores, geralmente o quadro se apresenta com febre alta, sintomas nas vias aéreas superiores, como coriza hialina, obstrução nasal e tosse, associados a sintomas gastrintestinais, como anorexia, náuseas e vômitos. Já as crianças maiores relatam cefaleia, mal-estar, mialgia, adinamia e fadiga. A intensidade dos sintomas respiratórios é variável, e, às vezes, eles podem estar ausentes. A presença de sintomas das vias aéreas superiores é grande referência para a suspeição de gripe na criança com síndrome febril aguda, especialmente na época de inverno e quando outras pessoas ficaram “resfriadas” ou “gripadas”. A gripe é uma doença autolimitada. Os principais sintomas melhoram ao longo de 3 a 7 dias, mas podem acontecer complicações severas mesmo em indivíduos saudáveis. 14.3.10 Diagnóstico O diagnóstico da gripe é presuntivo, feito por critérios clínicos e epidemiológicos. Existem métodos laboratoriais para detecção do vírus, que incluem: a) A cultura de swab nasal ou aspirado de secreções, cujos resultados são obtidos entre 2 e 5 dias. b) Os testes de detecção rápida para identificação dos antígenos virais por meio de ensaios imunoenzimático. c) Pesquisa direta de vírus por meio de técnicas de biologia molecular (PCR). Quadro 14.1 - Diferenças entre síndrome gripal e rinofaringite aguda 14.3.11 Tratamento A síndrome gripal geralmente é benigna e autolimitada. O tratamento é semelhante ao da rinofaringite aguda. Consiste, fundamentalmente, em diminuir o desconforto decorrente da febre, rinorreia, obstrução nasal ou tosse persistente. O tratamento, em geral, é apenas sintomático, como estabelecer repouso, controle de coriza, hidratação oral, antitérmico e analgésico. Atualmente, existem 2 classes de antivirais. A primeira classe de drogas inclui o oseltamivir e zanamivir, cujo mecanismo de ação é a inibição da neuraminidase – uma proteína do envelope viral. O zanamivir existe na forma inalada e está liberado para uso em crianças a partir de 7 anos para tratamento e 5 anos para profilaxia, enquanto o oseltamivir (Tamiflu®) pode ser administrado por via oral e está liberado para crianças a partir de 1 ano. Ambos têm igual ação sobre os influenzas A e B. Na segunda classe de drogas, têm-se amantadina e rimantadina, ambas ineficazes contra o tipo B e não liberadas para menores de 1 ano. Ambas as classes de medicação deverão ser administradas dentro das primeiras 48 horas dos sintomas, a fim de reduzir a magnitude da gripe. No entanto, estudos recentes mostram que pacientes com doença muito grave se beneficiam da terapia mesmo quando iniciada após as 48 horas iniciais. O protocolo do Ministério da Saúde orienta o tratamento àqueles com síndrome respiratória aguda grave e fatores de risco: a) Crianças menores que 5 anos – sendo mais importante nos menores de 2 anos. b) Adultos maiores de 60 anos, grávidas em qualquer idade gestacional, puérperas até 2 semanas após o parto. c) Indivíduos com doença crônica: d) Pneumopatias (incluindo asma); e) Cardiovasculopatias (exceto hipertensão arterial sistêmica); f) Nefropatias; g) Hepatopatias; h) Doenças hematológicas (incluindo anemia falciforme); i) Distúrbios metabólicos (incluindo diabetes mellitus); j) Transtornos neurológicos que podem comprometer a função respiratória ou aumentar o risco de aspiração; k) Disfunção cognitiva; l) Lesões medulares; m) Epilepsia; n) Paralisia cerebral; o) Síndrome de Down; p) Atraso de desenvolvimento; q) Acidente vascular cerebral ou doenças neuromusculares; r) Imunossupressão; s) Menores de 19 anos em uso prolongado com ácido acetilsalicílico (risco de síndrome de Reye); t) Indígenas. u) Obesidade mórbida (IMC ≥ 40 kg/m2). Porém, a critério clínico, qualquer indivíduo saudável com suspeita de síndrome gripal pode receber o tratamento medicamentoso desde que iniciado nas primeiras 48 horas do quadro. Estudos clínicos recentes mostram que em pacientes com quadro grave, progressivo ou complicado, o tratamento ainda traz benefícios mesmo que instituído após 48 horas do início dos sintomas. Existem 2 classes de agentes antivirais disponíveis para tratamento e profilaxia da influenza, porém, no Brasil, apenas o oseltamivir é aprovado para tratamento e profilaxia em crianças maiores de 1 ano. Trata-se de um potente inibidor da molécula de neuraminidase presente na superfície dos vírus influenza A e B, indispensável para a liberação dos vírus recém-formados das células infectadas. Embora a composição genética do vírus sofra mudança constante, a sequência de aminoácidos do sítio ativo da enzima é altamente conservada, sendo o local ideal para terapia antiviral. A terapia antiviral com oseltamivir reduz a duração da doença em cerca de 1 ou 2 dias, quando usado dentro de 48 horas desde seu o início. O começo precoce do tratamento é decisivo para a sua eficácia. Alguns estudos também demonstram diminuição de complicações do uso de antibióticos e de hospitalizações tanto em crianças e em adultos saudáveis como em grupos de risco. Há redução de otites, pneumonias e exacerbação de asma. A única apresentação do oseltamivir é em cápsula; deve ser diluída em água para administração em crianças, sempre por via oral, ou gástrica. Após a ampla campanha vacinal de 2010, os casos de gripe pelo H1N1 foram reduzidos, juntamente com outras variantes no ano de 2011. No caso de suspeita ou confirmação do diagnóstico, principalmente em pacientes com comorbidades ou menos de 5 anos, a Organização Mundial da Saúde mantém a orientação de tratamento com o oseltamivir por 5 dias – sendo obrigatório abaixo dos 2 anos, e discutível dos 2 aos 5 anos. Quadro 14.2 - Doses do oseltamivir no tratamento e na profilaxia da gripe em pacientes de 1 a 12 anos 14.3.12 Complicações As complicações secundárias à influenza são responsáveis pelo aumento da morbidade do quadro, sendo as mais frequentes a OMA, a pneumonia bacteriana, a miosite e as síndromes neurológicas. A miosite e a rabdomiólise são causadas principalmente pelo vírus influenza B. É possível que possa acometer todos os músculos. Manifesta-se, em geral, com dor e fraqueza nas pernas e panturrilhas. Os exames laboratoriais ajudam a esclarecer o diagnóstico. Níveis séricos de creatinoquinase e mioglobina na urina estão elevados. A duração média é de 5 a 7 dias, com resolução habitualmente espontânea. Dentre as síndromes neurológicas que podem se manifestar pós- gripe, podemos citar doença de Guillain-Barré, meningite asséptica, mielite transversa e encefalite pós-infecciosa. 14.3.13 Prevenção – vacina anti-influenza A imunização anual contra influenza tem sido a principal medida para a profilaxia da doença e a redução da morbimortalidade. As vacinas são alteradas anualmente, com base nas recomendações da OMS, de acordo com a mudança dos principais subtipos circulantes. No Brasil, está disponível a vacina trivalente inativada no serviço público, que contém 2 subtipos do vírus da influenza A(H1N1 e H3N2) e 1 subtipo do vírus da influenza B, representando os mais prováveis no Hemisfério Sul durante o inverno subsequente. Nos serviços particulares pode ser encontrada a vacina quadrivalente. Pelo fato de ser inativada não há risco de que a vacina provoque a doença, mesmo em imunodeprimidos. Deve ser aplicada anualmente, sempre nos meses de outono, antes do período epidêmico do vírus. A vacina pode ser aplicada a partir dos 6 meses de vida, e sua eficácia está diretamente relacionada à taxa de circulação das cepas vacinais. No primeiro ano devem ser administradas 2 doses, com intervalo de 1 mês entre elas, e depois passa a ser anual. Os estudos demonstraram eficácia de 90% de proteção antigripal e importante redução da morbimortalidade em idosos e pacientes debilitados, com comorbidades. Na rede pública, a vacina está disponível nos Centros de Referência de Imunobiológicos. Segundo o Ministério da Saúde, as principais indicações da imunização anual pela vacina anti-influenza estão. Principais indicações de vacina anti-influenza: a) Idosos maiores de 60 anos; b) Crianças de 6 meses a 5 anos; c) Portadores de HIV e/ou AIDS, incluindo filhos de mães portadoras de HIV; d) Transplantados de órgãos sólidos e medula óssea; e) Doadores de órgãos sólidos e medula óssea devidamente cadastrados nos programas de doação; f) Imunodeficiências congênitas; g) Imunodepressão por câncer ou imunossupressão terapêutica; h) Comunicantes domiciliares de imunodeprimidos; i) Profissionais de saúde; j) Cardiopatias crônicas; k) Asplenia anatômica ou funcional e doenças relacionadas; l) Diabetes mellitus; m) Portadores de doenças pulmonares crônicas, inclusive asma moderada à grave e fibrose cística; n) Trissomias, como a síndrome de Down; o) Implantes de cóclea; p) Doenças neurológicas crônicas incapacitantes; q) Doenças de depósito; r) Usuários crônicos de ácido acetilsalicílico; s) Portadores de nefropatia crônica, submetidos a hemodiálise e síndrome nefrótica; t) Asma; u) Hepatopatias crônicas. 14.4 FARINGOAMIGDALITES AGUDAS 14.4.1 Definições As infecções faringoamigdalianas são um grupo de enfermidades que desenvolvem processos inflamatórios nas vias respiratórias superiores, acometendo a faringe, as amígdalas e os tecidos adjacentes. As causas são variadas, mas o quadro clínico geralmente é similar, o que torna difícil ao clínico definir se há ou não a necessidade de tratamento antimicrobiano. 14.4.2 Etiologia Os vírus são a causa mais comum de faringites e amigdalites em todas as faixas etárias. Os patógenos mais comuns são os vírus respiratórios como influenza, parainfluenza, adenovírus, rinovírus, bem como vírus Coxsackievirus, echovírus e o vírus Epstein-Barr (VEB) – mononucleose. O Streptococcus beta-hemolítico do grupo A (S. pyogenes) é a causa bacteriana mais comum (rara em crianças menores de 2 anos), mas outras bactérias também podem estar implicadas na etiologia (Mycoplasma, Chlamydia, gonococo). O Streptococcus do grupo A está relacionado a complicações supurativas das faringoamigdalites, abscessos peritonsilares e retrofaríngeos e sequelas não supurativas, como febre reumática e glomerulonefrite difusa aguda. 14.4.3 Quadro clínico A abordagem clínica baseia-se nos aspectos inflamatórios apresentados no exame físico, visando à distinção presuntiva dos agentes etiológicos. Outra abordagem, considerando o mencionado, baseia-se no principal desafio no diagnóstico em distinguir as infecções entre estreptocócicas e não estreptocócicas, visando ao tratamento. 14.4.3.1 De acordo com a apresentação clínica 1. Faringoamigdalite estreptocócica: sintomas clínicos sugestivos incluem: início agudo de dor de garganta; febre; cefaleia; odinofagia; dor abdominal; náusea; vômitos; rash cutâneo; petéquias no palato; exsudato purulento; adenomegalia cervical. A criança apresenta maior acometimento do estado geral e, na maioria das vezes, sem coriza, tosse e conjuntivite; 2. Faringoamigdalite não estreptocócica: sintomas mais sugestivos incluem sintomas concomitantes de infecção viral respiratória e, ou gastrintestinal, com associação de tosse, coriza, conjuntivite e diarreia. Há algumas particularidades para alguns vírus, como Epstein-Barr da mononucleose, em que há típico exsudato com falsa membrana. Na herpangina, causada por vírus Coxsackievirus A, podem ser vistas pequenas vesículas no palato mole, na úvula e nos pilares amigdalianos, acompanhadas de febre elevada e lesões papulovesiculares presentes nas mãos e nos pés, constituindo a síndrome “mão-pé-boca”. As lesões do herpes-simples ocorrem entre imunossuprimidos. Figura 14.1 - Herpangina Fonte: kris4to. 14.4.3.2 De acordo com aspectos inflamatórios 1. Faringoamigdalites eritematosas: observam-se hiperemia e congestão da superfície da faringe e das amígdalas. Os principais agentes são virais; Figura 14.2 - Faringoamigdalite viral 2. Faringoamigdalites eritematopultáceas: observam-se hiperemia e edema associados a exsudato amarelado não aderente nas criptas e na superfície das amígdalas. Entre os agentes causais, são apontados Streptococcus beta-hemolítico do grupo A e vírus Epstein-Barr; 3. Faringoamigdalites pseudomembranosas: há formação de placas esbranquiçadas aderentes ao tecido amigdaliano, que pode invadir faringe, palato e úvula. Dentre os agentes causais, está Corynebacterium diphtheriae; 4. Faringoamigdalites ulcerosas: há formação de úlceras, que podem ser superficiais, com muitas vesículas, como no caso do vírus Coxsackievirus e do Herpesvirus hominis, ou profundas, com ulcerações profundas, no caso da angina de Plaut-Vincent, lesão por tuberculose, sífilis e imunodeficiências. Figura 14.3 - Faringoamigdalite bacteriana Figura 14.4 - Faringoamigdalite pseudomembranosa em paciente com suspeita de difteria Figura 14.5 - Pequenas ulcerações em palato mole e úvula Quadro 14.3 - Diferenças clínicas entre faringoamigdalite estreptocócica e não estreptocócica 14.4.4 Diagnóstico Testes diagnósticos para a detecção do Streptococcus do grupo A incluem a pesquisa rápida do antígeno em material colhido da orofaringe e cultura da secreção faríngea em placas de ágar. A pesquisa rápida do antígeno possui especificidade de 98% a 99%. Entretanto, a sensibilidade é de cerca de 70%. O uso desse método nos casos suspeitos apresenta a vantagem de o resultado ser rápido, o que leva a tratamento precoce, redução do risco de disseminação, rápido retorno à escola ou ao trabalho e redução da morbidade. Além disso, um resultado negativo pode acarretar a espera do resultado da cultura, levando a adiar a introdução do antibiótico, considerando que a maioria dos casos é de etiologia viral. Exames laboratoriais, como PCR, contagem de leucócitos no hemograma e velocidade de hemossedimentação, contribuem pouco para a diferenciação entre quadros virais e bacterianos. Quadro 14.4 - Principais métodos laboratoriais para a identificação do Streptococcus pyogenes Na mononucleose, o aumento da contagem de leucócitos no sangue, mais linfocitose e com 20% a 40% de atipia linfocitária pode apontar para essa causa. Outro teste é a detecção rápida de anticorpos heterófilos (monoteste ou teste de Ho�-Bauer) para crianças com mais de 4 anos. Em adolescentes, esse teste chega a detectar 90% dos casos de mononucleose. Um diagnóstico diferencial importante de faringoamigdalite quando há membrana exsudativa nas amígdalas, de coloração acinzentada, de difícil remoção e acompanhada de intensa toxemia, principalmente em crianças não adequadamente vacinadas, é a difteria, uma doença de notificação compulsória. Na faringoamigdalite estreptocócica, a febre pode ser alta e persistir por até 4 dias. O achado de eritema difuso das tonsilas e de seus pilares e, ou a presença de pontilhado difuso petequial no palato mole sugerem etiologia bacteriana, mais especificamente, estreptocócica. A Periodic Fever, Aphthous Stomatitis, Pharyngitis and Adenitis (PFAFA) é caracterizada por febre periódica, aftas, faringite bacteriana e adenite – linfonodomegaliacervical – ocorre esporadicamente, em crianças de 2 a 6 anos. Os sintomas são febre, cansaço e amigdalite purulenta com culturas negativas. A etiologia é desconhecida, o diagnóstico inclui leucocitose e aumento dos reagentes na fase aguda, e o quadro costuma se repetir (8 a 12 vezes por ano). A periodicidade e a intensidade diminuem com o tempo. Os episódios duram de 4 a 6 dias, mesmo com sintomáticos e antibióticos. A diferença para os demais quadros de faringite é que respondem muito bem a prednisona (1 a 2 mg/kg) ou betametasona, com resolução dos sintomas em 24 horas. Há resolução completa em 4 a 8 anos, e a amigdalectomia é uma alternativa. 14.4.5 Tratamento Caso se suspeite de faringoamigdalite de causa viral, o tratamento será basicamente sintomático, com analgésicos e antitérmicos, para alívio, principalmente, da dor faríngea, que pode dificultar a ingestão de alimentos. O tratamento com antibióticos deve ser instituído assim que é realizado o diagnóstico de etiologia bacteriana ou, quando não for possível esse diagnóstico de certeza, nos casos em que o exame físico e a epidemiologia assim sugerirem. 1. Penicilina: apesar de a maioria dos antibióticos se mostrar efetiva contra Streptococcus do grupo A, a penicilina ainda é a droga de escolha, principalmente a penicilina benzatina (na dose única de 600.000 UI IM, para crianças de até 25 kg e de 1.200.000 UI IM, para peso maior que 25 kg). A vantagem da penicilina oral inclui sua eficácia, segurança, seu baixo custo e uso, dividindo a dose em 2 ou 3 tomadas diárias por 10 dias. Em nosso meio, utiliza-se, mais comumente, a amoxicilina (50 mg/kg/d, a cada 8 ou 12 horas para crianças de até 30 kg, e 500 mg, a cada 8 horas maior que 30 kg, por 10 dias); 2. Outros antibióticos: também podem ser utilizados macrolídeos, cefalosporinas de segunda geração e clindamicina – principalmente nos portadores crônicos do Streptococcus na orofaringe. Nos casos de alergia a penicilina, pode-se usar eritromicina ou azitromicina. Quadro 14.5 - Antibióticos mais usados nas faringoamigdalites bacterianas Com o uso adequado da antibioticoterapia na faringoamigdalite estreptocócica, são observados os seguintes benefícios: a) Redução da duração dos sintomas em 12 a 24 horas; b) Redução na transmissão da doença depois de cerca de 24 a 48 horas após uso de antibiótico; c) Prevenção das complicações supurativas, como abscessos amigdalianos; d) Prevenção das complicações não supurativas, como febre reumática. A amigdalectomia é opção quando há 7 faringites de repetição no período de 12 meses ou 5 vezes nos últimos 2 anos ou 3 vezes nos últimos 3 anos. O tratamento adequado e precoce das faringoamigdalites estreptocócicas não previne a glomerulonefrite difusa aguda, embora possa prevenir a febre reumática. 14.4.6 Complicações As complicações da faringoamigdalite estreptocócica podem ser divididas em supurativas e não supurativas. 1. Complicações supurativas: a) Abscesso retrofaríngeo: complicação muito rara, predominante em crianças entre 3 e 4 anos. Acomete principalmente meninos. Os principais sintomas são febre, irritabilidade, dificuldade de engolir, rigidez cervical ou até torcicolo por contratura da musculatura paravertebral. Voz abafada, estridor e dificuldade respiratória também podem estar presentes. Ao exame físico, pode ser observado abaulamento local. O agente causal, em geral, é polimicrobiano, como Streptococcus pyogenes, associado a anaeróbios da boca e mais Staphylococcus. O diagnóstico pode ser sugerido pela radiografia lateral do pescoço, com observação do aumento do espaço retrofaríngeo. A tomografia computadorizada cervical é confirmatória. A conduta consiste em internação imediata, antibioticoterapia venosa com amoxicilina associada a clavulanato ou clindamicina e drenagem de urgência; b) Abscesso periamigdaliano: é pouco comum, embora ocorra mais que o abscesso retrofaríngeo. Mais frequente em crianças maiores e adolescentes, manifesta-se clinicamente com intensificação da dor faríngea, com disfagia, associada a trismo de intensidade variável. Ao exame físico, observa-se abaulamento inflamatório unilateral, rechaçando a amígdala e a úvula para o lado oposto. A conduta consiste em internação imediata, antibiótico venoso (amoxicilina + clavulanato ou clindamicina) e drenagem cirúrgica. Para evitar a reincidência, deve-se realizar amigdalectomia eletiva. 2. Complicações não supurativas: a) Glomerulonefrite difusa aguda pós-estreptocócica; b) Febre reumática. Figura 14.6 - Abscesso retrofaríngeo após 24 horas de drenagem Figura 14.7 - Abscesso periamigdaliano 14.5 OTITE MÉDIA AGUDA 14.5.1 Definição Trata-se da inflamação do ouvido médio e de seus anexos, associada à presença de líquido na orelha média, com sinais e sintomas de início agudo, como dor e febre. Na grande maioria das vezes, é secundária a processo infeccioso bacteriano. 14.5.2 Epidemiologia Após as infecções do trato respiratório superior, é a enfermidade mais prevalente na infância, sendo a causa principal de prescrições de antibióticos. Cerca de 60% a 80% dos lactentes têm pelo menos 1 episódio de OMA até o primeiro ano de vida e até 90% o terão até os 5 anos. O pico de incidência ocorre entre 6 e 24 meses de vida, com declínio após essa idade e novo aumento entre 5 e 6 anos, quando as crianças começam a vida escolar. Mais de 1 terço pode apresentar 6 ou mais episódios antes dos 7 anos. São comuns nos meses de inverno, em função de serem associadas a infecção do trato respiratório superior. As tubas auditivas se abrem no espaço anterior do ouvido médio e o conectam à nasofaringe. Os episódios de OMA estão intimamente relacionados à obstrução anatômica ou funcional (disfunção parcial ou total) da(s) tuba(s) auditiva(s). Pelas características anatômicas, os processos que interferem na mucosa nasal, por edema, tumor ou pressão negativa intratimpânica (disfunção tubária), facilitam diretamente a extensão do processo infeccioso da nasofaringe para o ouvido médio, causando a OMA (Figura 14.8). Figura 14.8 - Ligação da tuba auditiva com cavidade nasal 14.5.3 Fatores de risco Alguns fatores de risco estão relacionados a maior chance de OMA. A maior incidência nos primeiros anos de vida possivelmente está relacionada à imaturidade do sistema imunológico, a alterações anatômicas em relação à tuba auditiva – mais curta e horizontalizada – hipertrofia de adenoide e à permanência dessas crianças na posição horizontal. Também está mais associada ao sexo masculino, tabagismo passivo, doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) e à baixa condição socioeconômica, superpopulação no mesmo ambiente, más condições de higiene, desnutrição, assistência médica precária e falta de medicamentos. O uso de mamadeira na posição horizontal e a rinite alérgica também são fatores de risco. O aleitamento materno tem sido descrito como fator protetor, pela presença de IgA, enquanto a exposição ao tabaco e o contato com outras crianças – nas creches – tem se relacionado ao aumento da chance de desenvolvimento da doença. Crianças com anomalias craniofaciais e síndrome de Down também têm prevalência aumentada. Lactentes com fenda palatina não corrigida apresentam, universalmente, o risco de OMA. 14.5.4 Patogênese A OMA está relacionada principalmente à obstrução da tuba auditiva. Essa estrutura exerce 3 funções quanto ao ouvido médio: ventilação – a mais importante –, proteção e limpeza. Dentre as causas de obstrução da tuba auditiva, podem-se citar IVAS (principal causa), hipertrofia de adenoide e tumor. Com a resposta inflamatória, há um comprometimento do transporte mucociliar, levando a efusão líquida na cavidade timpânica, propiciando a infecção bacteriana. Os lactentes têm a tuba auditiva menor e em posição mais horizontal, contribuindo para o refluxo de secreção da nasofaringe. É bastante comum a OMA como complicação do quadro viral agudo – resfriado comum: há disfunção e obstrução tuba auditiva com prejuízo na ventilação do ouvido médio. As bactérias colonizadoras da nasofaringese acumulam no ouvido médio, e a partir disso há formação de secreção purulenta, abaulamento da membrana timpânica e otalgia. Se ocorre perfuração da membrana timpânica, há otorreia e melhora imediata da dor, por redução da pressão intra-auricular. 14.5.5 Quadro clínico O quadro clínico pode ser muito variável, principalmente nos lactentes e nos pré-escolares, e, algumas vezes, é frusto, a depender da idade da criança. O quadro típico pode apresentar OMA com início abrupto de otalgia, irritabilidade, otorreia e febre. A presença de abaulamento da membrana timpânica tem alto valor preditivo de líquido na orelha média, seguida por ausência de mobilidade da membrana e níveis hidroaéreos vistos à otoscopia (Figura 14.9). A membrana timpânica apresenta-se eritematosa ou opacificada. Sintomas inespecíficos, como vômitos e inapetência, podem estar presentes. Meningite bolhosa é sinal de otite média – tímpano com bolhas. A mobilidade timpânica durante o exame otoscópico é fundamental para determinar efusão líquida no ouvido médio. No caso de conjuntivite purulenta associada ao quadro de OMA ipsilateral, o agente é Haemophilus não tipável, sendo necessária a antibioticoterapia oral. Figura 14.9 - Membrana timpânica abaulada e com aumento de vascularização De acordo com o manual da American Academy of Pediatrics de 2013, o diagnóstico de OMA é feito com base nos seguintes critérios: a) Membrana timpânica de moderada a intensamente abaulada ou otorreia de início recente; b) Membrana timpânica levemente abaulada e otalgia de início recente (< 48 horas); c) Membrana timpânica levemente abaulada e com hiperemia intensa. Assim, a American Academy of Pediatrics especifica, ainda, que, para o diagnóstico de otite média aguda, sejam identificados os seguintes fatores: início rápido; presença de líquido na orelha média; e presença de sinais e sintomas de inflamação do ouvido médio. Essas recomendações visam ocasionar a indicação mais precisa da antibioticoterapia, em vista da crescente resistência aos antibióticos e de, muitas vezes, não haver a necessidade de tratamento das otites médias agudas não complicadas. 14.5.6 Etiologia Os agentes bacterianos mais comuns são Streptococcus pneumoniae (de 30% a 50%), Haemophilus influenzae não tipável (de 20% a 30%) e Moraxella catarrhalis (de 10% a 15%). Outras bactérias, como S. aureus, Streptococcus do grupo A e Gram negativos, também podem ser responsáveis, em menor porcentagem e em casos isolados. Apesar de os vírus terem sido isolados dos exsudatos da orelha média, ainda não se sabe se podem causar OMA sem a associação a copatógeno bacteriano. O agente viral mais comum é o VSR, seguido de adenovírus, rinovírus, enterovírus, parainfluenza e influenza A e B. A presença de infecção viral das vias respiratórias altas pode levar ao desenvolvimento de OMA secundária à disfunção tubária, associação à colonização bacteriana da nasofaringe e dano ao epitélio do trato respiratório, com subsequente alteração do clearance bacteriano pelos batimentos mucociliares. Sua etiologia pode ser viral ou bacteriana; na prática clínica, é difícil a sua diferenciação. A epidemiologia e a microbiologia das OMAs têm-se modificado nos últimos anos em decorrência do uso mais abrangente da vacina heptavalente contra o pneumococo, da publicação de guidelines específicos com orientação de critérios diagnósticos e tratamento, além de campanhas educacionais (para os públicos leigo e médico) quanto ao uso indevido de antibióticos em casos duvidosos de OMA. Agentes etiológicos: 1. OMA com etiologia viral: a) VSR; b) Adenovírus; c) Rinovírus; d) Enterovírus; e) Parainfluenza; f) Influenza A e B; 2. OMA com etiologia bacteriana: a) Streptococcus pneumoniae; b) Haemophilus influenzae (não tipável); c) Moraxella catarrhalis; d) S. aureus; e) Gram negativos. É importante ressaltar que a vacina contra Haemophilus influenzae tipo B não protege de todas as otites causadas por essa bactéria, pois, na maioria das otites médias agudas causadas por Haemophilus, este é não tipável, e a imunização é específica contra o tipo B. 14.5.7 Tratamento 1. Sintomático (antitérmicos e analgésicos): toda criança com diagnóstico de OMA deve receber analgesia, geralmente paracetamol, dipirona ou ibuprofeno; os pacientes maiores de 2 anos, com otite unilateral, febre menor que 39°C e bom estado geral devem ser tratados inicialmente com anti-inflamatório por 3 dias, sem necessidade de antibiótico, desde que haja segurança na compreensão da família e possibilidade de retorno ao serviço em caso de necessidade. A maioria dos pacientes têm sua doença resolvida dessa forma; 2. Antibioticoterapia: é a base do tratamento, visando tratar os 3 principais agentes: S. pneumoniae, H. influenzae não tipável e M. catarrhalis. Caso sejam necessários antibióticos, a droga de escolha para a OMA não complicada é a amoxicilina. A dose pode variar de 50 a 80 mg/kg/d, a depender do padrão de resistência local do pneumococo, dividida em 2 a 3 tomadas diárias, durante 10 a 14 dias. Deve-se usar, preferencialmente, a dose dobrada de 80 a 90 mg/kg/d, em 2 a 3 doses, em vez da dose convencional de 40 a 50 mg/kg para ampliar a cobertura para cepas de pneumococo com resistência moderada. A amoxicilina apresenta excelente ação quando o agente etiológico é o Streptococcus pneumoniae, responsável por 40% a 50% das ocorrências. Nos casos em que a criança recebeu tratamento antibiótico nos últimos 3 meses, deve-se dobrar a dose da amoxicilina ou iniciar tratamento diretamente com amoxicilina-clavulanato ou axetilcefuroxima. A associação amoxicilina-clavulanato também está indicada nos casos de falha do tratamento com amoxicilina, para ampliar a cobertura na suspeita de bactérias produtoras de betalactamase. Nos casos de alergia a penicilina, pode-se optar por macrolídeo (azitromicina ou claritromicina) ou, em casos de alergia não mediada por imunoglobulina E, por cefalosporinas de segunda geração. Os menores de 2 anos, portadores de otite bilateral em qualquer idade, febre com temperaturas maiores que 39°C e/ou piora do estado geral devem ser tratados imediatamente com antibiótico. Entende-se como falha terapêutica a permanência dos sintomas de otite média aguda por mais de 48 a 72 horas, seja em uso de amoxicilina em dose convencional, seja com macrolídeos, nos alérgicos. O seu motivo principal é a resistência bacteriana. 14.5.8 Evolução Com o tratamento adequado, espera-se diminuição dos sintomas, da febre, da otalgia ou da otorreia dentro das primeiras 48 a 72 horas. Evolutivamente, a otoscopia pode estar alterada até 3 meses após o episódio agudo. Dessa forma, a permanência de febre é fator importante a ser observado quando é instituído o tratamento medicamentoso. Outro critério a ser considerado é a piora do aspecto da membrana timpânica, efusão ou perfuração com drenagem de material purulento. 14.5.9 Timpanocentese A timpanocentese com retirada de material para cultura tem diminuído consideravelmente nos últimos anos, principalmente em decorrência da eficácia dos antibióticos no tratamento da OMA. Entretanto, em algumas ocasiões pode ser indicada, como: a) OMA refratária ao tratamento clínico adequado, provocando quadro de toxemia, especialmente em crianças com menos de 12 meses e em imunocomprometidos; b) OMA acompanhada de complicações (mastoidite, abscessos no Sistema Nervoso Central (SNC), meningite e paralisia facial). Nesses casos, a paracentese tem função diagnóstica (isolamento do patógeno) e função terapêutica; c) Alívio da dor, principalmente quando a membrana timpânica está muito abaulada (indicação rara). 14.6 OTITE MÉDIA AGUDA RECORRENTE 14.6.1 Definição A OMA recorrente é definida por 3 ou mais episódios em 6 meses, ou 4 ou mais episódios de OMA nos últimos 12 meses, sendo que o último episódio ocorreu nos últimos 6 meses, com resolução dos sintomas entre cada uma das infecções. Fatores de risco: a) Sexo masculino; b) Falta do aleitamento materno; c) Pais tabagistas; d) Creches; e) Baixo nível socioeconômico;f) Uso de chupetas; g) Primeiro episódio de OMA antes dos 6 meses de vida; h) Anomalias congênitas (fenda palatina); i) Imunodeficiências. 14.6.2 Epidemiologia A OMA tem probabilidade razoável de recidiva, especialmente na faixa etária entre 6 meses e 2 anos e que frequenta creche. Quanto antes ocorre o primeiro episódio, maior é o risco de recorrência ou doença crônica. 14.6.3 Diagnóstico Deve-se fazer um estudo imunológico inicial dessas crianças, para a procura de deficiência de anticorpos da classe imunoglobulina G ou A, bem como avaliação da presença de fatores de risco, como exposição à fumaça de cigarro em ambiente doméstico, frequentar creche, presença de doença do refluxo gastroesofágico e uso de mamadeira em posição horizontal ou, ainda, de chupeta. 14.6.4 Prevenção As principais medidas recomendadas para prevenção das otites são: a) Estimular o aleitamento materno, retardar o ingresso em creches, evitar fumaça de cigarro, evitar o uso de chupeta e realizar imunização; b) Vacina anti-influenza – indicada anualmente a partir dos 6 meses, durante epidemia de influenza; c) Vacina heptavalente antipneumococos: deve ser considerada em crianças menores de 2 anos. As crianças que apresentam OMA recorrente têm maior risco de complicações supurativas e sequelas. A OMA recorrente é causa predominante e prevenível de surdez. 14.6.5 Procedimentos cirúrgicos A cirurgia consiste na inserção do tubo de timpanostomia, um pequeno dispositivo inserido após o procedimento que mantém o ouvido médio ventilado durante a fase da disfunção tubária. Pode ser realizada a adenoidectomia na falha das demais medidas. Esses procedimentos são indicados especialmente a crianças que não respondem ao tratamento clínico e devem ser encaminhadas ao otorrinolaringologista para avaliação especializada. 14.6.6 Complicações Dentre as complicações, podemos citar as mais frequentes e importantes: perfuração timpânica, otite média secretora (efusão persistente), Otite Média Crônica (OMC), mastoidite e infecção do SNC. 14.6.6.1 Perfuração timpânica Trata-se de evolução comum nos casos de OMA não tratada, quando ocorre a autodrenagem da supuração do ouvido médio. Em geral, a perfuração é pequena e está localizada na porção inferoanterior da membrana timpânica – parte densa –, permitindo a regeneração espontânea na maioria dos casos. Figura 14.10 - Perfuração timpânica 14.6.6.2 Otite média secretora (efusão persistente) Caracteriza-se pela presença de efusão no ouvido médio, sem os sintomas e os sinais de infecção aguda. Não há dor nem febre, e o principal sintoma é a perda auditiva. Na maioria das vezes, decorre de OMA tratada e se resolve em 3 meses em 90% dos casos. Quando a efusão ocorre por até 3 semanas, é chamada de aguda; de 3 semanas a 3 meses, de subaguda; acima de 3 meses, de crônica. A efusão pode ser fluida (serosa), espessa (mucoide), purulenta ou mista, e essa diferenciação é feita pelo otorrinolaringologista. Os sintomas da otite média secretora podem ser perda auditiva, zumbidos e diminuição do equilíbrio. A otoscopia pneumática pode evidenciar membrana timpânica retraída com ossículos salientes ou, quando a quantidade de líquido é maior, abaulamento da membrana com apagamento da imagem dos ossículos sob a mesma. Nesses casos, a audiometria revela perda auditiva do tipo condutiva em graus. Geralmente, o líquido é reabsorvido em até 3 meses, e a conduta é expectante, com reavaliações periódicas. No entanto, caso a efusão persista por mais de 3 meses, ou seja, bilateral e associada a perda auditiva, pode haver indicação de tratamento, que se baseia na administração de antibióticos e em avaliações frequentes. Porém, em casos selecionados, podem ser necessárias miringotomia com aspiração da efusão do ouvido médio e colocação de tubos de ventilação. 14.6.6.3 Otite média crônica Caracteriza-se pela persistência dos sinais de otite média por mais de 3 meses. Pode ser do tipo OMC secretora, OMC supurativa e OMA colesteatomatosa. Figura 14.11 - Otite média crônica simples com vários graus de perfuração da membrana timpânica 1. OMC secretora: algumas vezes compromete a audição (hipoacusia). Quando bilateral, pode atrapalhar o desenvolvimento cognitivo da criança de até 18 meses; 2. OMC supurativa: cursa com perfuração timpânica e otorreia crônica. Os principais agentes são Staphylococcus aureus e Pseudomonas aeruginosa. O risco de surdez e supuração do osso temporal (mastoidite) e infecção do SNC (meningite, abscesso) é relativamente alto; 3. OMA colesteatomatosa: cursa com perfuração timpânica e otorreia crônica. Também tem risco de surdez e de supuração do osso temporal (mastoidite) e infecção do SNC (meningite, abscesso). O colesteatoma é uma reação de metaplasia do epitélio por queratinócitos e contendo debris celulares e plugs de queratina. Essa “massa polipoide” envolve a cadeia ossicular, inflama e infecta, provocando otorreia fétida e sanguinolenta e perda rápida da audição. Figura 14.12 - Otite média crônica (colesteatoma) Fonte: Welleschik, 2006. 14.6.6.4 Mastoidite A OMA pode cursar com algum grau de mastoidite, por contiguidade entre a mucosa da orelha média e a mucosa das células da mastoide. Esse envolvimento é subclínico. Os principais agentes são pneumococo, Haemophilus não tipável e Pseudomonas aeruginosa. Manifesta-se por dor retroauricular com calor, edema e hiperemia local, desviando o pavilhão retroauricular para fora. O processo se reverte, exceções, após a antibioticoterapia para OMA. Em uma minoria, no entanto, o processo inflamatório se estende para o periósteo da mastoide no osso temporal, provocando sintomas de edema, vermelhidão e dor atrás da orelha na topografia do processo mastoide. O tratamento é feito com antibioticoterapia venosa com ceftriaxona associada a oxacilina ou clindamicina e miringotomia. Figura 14.13 - Mastoidite aguda – complicação de otite média aguda Fonte: Welleschik, 2006. Em casos mais graves, pode haver evolução para osteomielite da parte pedrosa do osso temporal, levando à destruição do osso trabecular. É visível à tomografia computadorizada como desaparecimento dos septos ósseos nas células da mastoide. Na petrosite aguda, pode aparecer a síndrome de Gradenigo, caracterizada pela tríade composta por otorreia purulenta, paralisia de nervo abducente (VI par) e dor orbitária ipsilateral, por comprometimento do ramo oftálmico no nervo trigêmeo. A conduta é sempre internação, com tomografia computadorizada e mastoidectomia e administração de antibioticoterapia venosa: ceftriaxona, amoxicilina-clavulanato ou cefuroxima. 14.6.6.5 Infecção do SNC Complicações supurativas são bastante graves e exigem tratamento sem demora. Existe pequeno risco de complicação para o SNC: meningite, abscesso cerebral (epidural, subdural ou parenquimatoso) e tromboflebite do seio lateral. 14.6.6.6 Outras sequelas Timpanoesclerose, atelectasia e perfuração crônica, levando a surdez de condução. 14.7 RINOSSINUSITE AGUDA 14.7.1 Definição Trata-se de uma doença que resulta da infecção de 1 ou mais seios paranasais, causada por agentes virais ou bacterianos. Figura 14.14 - Cavidades paranasais na criança 14.7.2 Cavidades paranasais As cavidades paranasais etmoidais estão presentes ao nascimento, embora as dimensões sejam reduzidas. Já as cavidades frontal e esfenoidal começam a desenvolver-se após os 3 anos e são visíveis à radiografia após 6 a 7 anos, quando estão completamente formadas. Essas cavidades ósseas têm comunicação com o nariz, de onde recebem o ar inspirado, para aquecimento e filtração. Os anticorpos da classe imunoglobulina A representam 2 quartos das imunoglobulinas locais. O sistema mucociliar agrega e transporta partículas e micro-organismos em direção à cavidade nasal, drenando as secreções por meio de orifícios localizados junto aos cornetos. A drenagem dos seios acontece por intermédio dos óstios em comunicação com a fossa nasal. Quando há obstrução de drenagem e acúmulo das secreções intrassinusais, os micro-organismos comensais da cavidade nasal, particularmente as bactérias, multiplicam-se na coleção líquida e promovem a inflamação da parede sinusal. Dos métodos de obtenção de secreções para cultura, o único realmente confiável é a aspiração direta do seio paranasal, mas esse procedimento está indicado apenas em casos selecionados, como em imunocomprometidos ou doença refratária ao tratamento. 14.7.3 Etiologia A maioria das rinossinusites é de etiologia viral – rinovírus, adenovírus, vírus sincicial respiratório, parainfluenza –, consequência direta das rinofaringites virais (cerca de 6% das rinossinusites são complicações bacterianas). Requer apenas tratamento sintomático. Nas rinossinusites bacterianas agudas, os principais agentes envolvidos são os micro- organismos aeróbios que habitualmente colonizam a cavidade nasal e os mesmos agentes da OMA: Streptococcus pneumoniae (30%), Haemophilus influenzae não tipável (20%) e Moraxella catarrhalis (10% a 20%). Nos casos de obstrução ostial prolongada, levando a sinusite crônica, outros micro-organismos, como o Staphylococcus aureus e diversas bactérias anaeróbias, podem desenvolver-se. Em imunodeficientes e diabéticos, algumas vezes ocorrem infecções por fungos, como Aspergillus sp. e Nocardia sp. 14.7.4 Classificação De acordo com os Consensos Europeu e Americano, pode-se dividir a sinusite, de acordo com o tempo de doença, em: a) Sinusite aguda: inflamação das cavidades paranasais de até 4 semanas; b) Subaguda: de 4 até 12 semanas; c) Crônica: além de 12 semanas; d) Recorrente: mais de 4 episódios agudos por ano. 14.7.5 Patogênese A partir da rinossinusite viral, iniciam-se edema e inflamação local, causando o bloqueio da drenagem dos seios da face, acumulando líquidos e secreções, favorecendo a proliferação de bactérias, levando a sinusite bacteriana. 14.7.6 Fatores de risco e prevenção Vários fatores sistêmicos e locais referentes à criança devem ser considerados na patogênese da sinusite, como os listados a seguir: a) IVASs de repetição por permanência em creches; b) Obstrução anatômica – hipertrofia de adenoides, defeitos do septo nasal; c) Rinite alérgica não tratada; d) Deficiências de anticorpos; e) Diabetes; f) Exposição a agentes irritantes – tabaco, poluição, ar seco, água clorada; g) Discinesia ciliar primária. A vacinação decavalente contra pneumococos tem influência positiva na redução da incidência da rinossinusite por esse agente. Já a vacina contra Haemophilus influenzae tipo B não é eficaz contra a sinusite, apesar de ter diminuído a incidência de várias doenças. 14.7.7 Diagnóstico É eminentemente clínico, na maioria das vezes dispensando exames de imagem. Sintomas nasais persistentes – coriza, obstrução, congestão – , acompanhados de tosse, que geralmente pioram à noite, são característicos, diferenciando-se do resfriado comum pela persistência e história de IVAS acima de 14 dias ou com quadro de febre alta e descarga nasal purulenta por 3 a 4 dias. Em crianças maiores, pode-se ter queixa de cefaleia, dor facial em peso e dor à palpação e, ou percussão de seios paranasais. Quando se trata de pré-escolares ou crianças mais novas, tais sintomas são mais difíceis de serem identificados. A tosse e o corrimento nasal, embora não sejam específicos, podem estar presentes e se acentuar ao decúbito dorsal. Ao exame físico, podem-se encontrar mucosa nasal eritematosa e, ou edemaciada e, também, a secreção mucopurulenta em nasofaringe posterior, sinal “da vela” – ou sinal da gota pós- nasal. A cultura de aspirado do seio da face é recomendada a imunodeprimidos ou em sinusites refratárias. A radiografia de seios paranasais pode mostrar imagem de velamento assimétrico de seios ou edema de mucosa, sinais inespecíficos que podem aparecer também em uma simples rinofaringite, portanto sem valor diagnóstico. Esse exame não deve ser solicitado para o diagnóstico de rinossinusite. A tomografia computadorizada de seios da face é mais fiel para fins de diagnóstico. No entanto, apresenta alguma limitação em função da assimetria dos seios paranasais, algumas vezes encontrada em algumas crianças, devido ao desenvolvimento parcial dessas estruturas. Além disso, o custo-benefício de expor o paciente à alta radiação de tomografia para o diagnóstico de patologia simples descarta seu uso rotineiro. Figura 14.15 - Radiografias dos seios da face Legenda: (A) Waters; (B) Caldwell; (C) Waters. Figura 14.16 - Nível líquido em seio maxilar Não é necessário solicitar nenhum exame de imagem para o diagnóstico de rinossinusite aguda. O diagnóstico é clínico. Figura 14.17 - Tomografia computadorizada coronal Nota: velamento dos seios maxilares. Figura 14.18 - Obstrução em seio maxilar na radiografia e nível líquido na tomografia computadorizada (padrão-ouro) 14.7.8 Tratamento Nas rinossinusites virais, o tratamento é de suporte, como orientado para a rinofaringite aguda. No caso de etiologia bacteriana, consiste na administração de antibióticos direcionados aos patógenos mais comuns. A escolha do antimicrobiano, especialmente na criança, deve ainda considerar a segurança e os fatores de adesão ao tratamento – apresentação, posologia, via de administração, sabor e efeitos colaterais. Geralmente, os pais preferem as drogas administradas 1 ou 2 vezes ao dia. Quando não há ingestão de antimicrobianos nos últimos 3 meses, a amoxicilina é a droga de escolha (de 50 a 80 mg/kg/d, a cada 8 horas ou a cada 12 horas, pelo período de 14 dias). No entanto, ao suspeitar de H. influenzae ou M. catarrhalis, esse antibiótico não produz os efeitos desejados devido à produção de betalactamase que destrói a camada produzida pelo antibiótico, devendo-se optar por amoxicilina associada ao ácido clavulânico, macrolídeos (azitromicina, claritromicina) ou cefalosporinas de segunda (cefuroxima) ou terceira geração. Tais opções também devem ser realizadas nos casos em que houve falha terapêutica com amoxicilina. Alguns autores preconizam a manutenção do tratamento antibiótico até que a criança esteja assintomática por 7 dias. Eritromicina, tetraciclina e cefalexina não devem ser utilizadas em razão do seu espectro inadequado e de efeitos colaterais. 1. Soluções salinas hipertônicas: não se deve esquecer de manter a permeabilidade das vias áreas superiores. A irrigação da mucosa nasal com soluções salinas hipertônicas aumenta a frequência do batimento ciliar e reduz o edema da mucosa, diminuindo a obstrução nasal. Podem ser usadas como terapêutica adjuvante, sem os riscos potenciais e as inconveniências das drogas, além da comodidade e do baixo custo. As irrigações podem ser realizadas 2 vezes ao dia, inicialmente com soluções isotônicas e, após 2 semanas, com soluções hipertônicas; 2. Anti-histamínicos: não devem ser usados na rotina do tratamento da rinossinusite bacteriana, pois ressecam a mucosa e limitam a drenagem de secreções, além da possibilidade de intoxicação entre crianças pequenas; 3. Cirurgia: eventualmente o tratamento cirúrgico é necessário, principalmente quando a sinusite é secundária a fatores obstrutivos ou malformação de seios paranasais. 14.7.9 Complicações As complicações secundárias à sinusite, como celulite periorbital, abscessos, trombose de seio cavernoso, meningite e osteomielite, são sempre graves. Dessa forma, o exame físico de casos suspeitos de sinusite sempre deve buscar sinais de tais complicações. Figura 14.19 - Celulite periorbitária Quando suspeitar de complicação bacteriana sobreposta a um quadro respiratório viral na criança e adolescente? Complicação bacteriana deve ser suspeitada com paciente que, durante o curso viral, apresenta febre alta, piora do estado geral, aumento da quantidade da secreção, presença de secreção mais esverdeada e espessa. Além disso, sinais de otite média aguda e abcesso amigdaliano ou retrofaríngeo também são sinais de complicação bacteriana. Quando suspeitar de laringite e como tratar? 15.1 INTRODUÇÃO A laringite, a laringotraqueobronquite e a epiglotite formam o grupodas obstruções agudas inflamatórias das vias aéreas superiores, e apresentam como sinal clínico comum o estridor. Essas doenças se manifestam clinicamente por graus variados de obstrução e inflamação das vias aéreas superiores. Também em conjunto correspondem à síndrome clínica conhecida como “crupe”, cujos sintomas em comum são tosse metálica, rouquidão, estridor e variáveis graus de desconforto respiratório. Quando a etiologia dessa síndrome é viral, denomina-se crupe viral. Outras etiologias para síndrome do crupe incluem traqueíte bacteriana e difteria. A epiglotite é uma patologia supraglótica, enquanto a laringite, a laringotraqueíte e a laringotraqueobronquite são infraglóticas. O grupo de doenças virais infraglóticas é denominado crupe viral. 15.2 EPIDEMIOLOGIA A laringite e a laringotraqueobronquite são mais frequentes nos 2 primeiros anos de vida, sendo também bastante incidentes na faixa etária que se estende dos 6 meses aos 6 anos. Isso ocorre porque, até o 2 anos de idade, o calibre das vias aéreas é menor, e qualquer inflamação ou secreção diminui de forma significativa a luz da via aérea, com repercussão clínica exuberante. É um pouco mais comum em meninos, e costuma ocorrer associado a quadros gripais ou em períodos de mudança abrupta de temperatura. A epiglotite é uma doença bacteriana, de curso mais grave e fulminante, mais comum em criança de 2 a 5 anos de idade. 15.3 FISIOPATOLOGIA A inflamação aguda das vias aéreas, decorrente de infecção viral ou bacteriana, no caso da epiglotite, acarreta edema e espasmos laríngeos, com redução do calibre das vias aéreas. 15.4 ETIOLOGIA O crupe geralmente é causado por vírus, embora possa ocorrer infecção bacteriana secundária. Os vírus parainfluenza tipos 1 e 3 são os mais associados ao crupe em todas as idades, em cerca de 75% dos casos. Outros vírus envolvidos na etiologia são o sincicial respiratório, o influenza, o adenovírus e o vírus do sarampo. A laringotraqueíte bacteriana é uma complicação da laringite viral, e os principais agentes são S. aureus, M. catarrhalis e H. influenza não tipável. O Mycoplasma pneumoniae é um agente menos comum nesses casos, e pode causar casos mais leves. Já a epiglotite é sempre bacteriana. No período pré-vacinal seu principal agente etiológico era o H. influenza tipo B. Entretanto, com a disseminação dessa vacina, houve uma redução significativa no número de casos e a mudança no perfil de patógenos. Atualmente os agentes responsáveis por essa condição são o S. pyogenes, S. aureus e S. pneumoniae. 15.5 QUADRO CLÍNICO As afecções subglóticas (crupe) iniciam-se com rinorreia clara, faringite, tosse leve e pode haver febre baixa. Após 12 a 48 horas, iniciam-se os sintomas de obstrução das vias aéreas superiores, característicos da síndrome do crupe. Os achados clínicos caracterizam-se por rouquidão, estridor inspiratório, tosse ladrante e sinais de desconforto respiratório, taquipneia e tiragens, que tendem a ser piores à noite. A gravidade dos sintomas está relacionada ao grau de estreitamento da laringe ou da traqueia, resultante do processo inflamatório e do edema de mucosa. Casos mais graves apresentam-se com estridor, mesmo ao repouso, e estão associados ao desconforto respiratório evidenciado por batimento de asas de nariz e retrações intercostais. Os sintomas geralmente se resolvem em 3 a 7 dias, podendo durar até 24 dias nos casos mais graves. A epiglotite é um quadro mais grave e agudo, com evolução precoce para insuficiência respiratória. O paciente apresenta febre alta, prostração, dor de garganta, rouquidão ou afonia, sialorreia, estridor inspiratório e dispneia rapidamente progressiva. A criança em geral se coloca na posição de tripé: sentada para frente, com pescoço estendido, apoiando-se sobre os braços, com o objetivo de manter pérvia a coluna aérea. Na laringoscopia é visualizada a epiglote grande, edematosa, vermelho cereja. Evitar o uso de abaixadores de língua na suspeita de epiglotite: seu uso pode ocasionar laringoespasmo, com piora do quadro. A avaliação da epiglote é realizada no momento da laringoscopia. 15.6 DIAGNÓSTICO O diagnóstico das patologias obstrutivas inflamatórias das vias aéreas superiores é clínico, pela história e exame físico. Exames de imagem não são necessários, mas caso seja realizado radiografia de pescoço em perfil é evidenciado o sinal “da torre” ou sinal “do campanário”: área de dilatação a montante da traqueia, estreitamento subglótico, distensão da hipofaringe e irregularidade das pregas vocais. Na epiglotite a radiografia de pescoço apresenta o sinal “do polegar”: edema da epiglote. Exames laboratoriais não estão indicados nos quadros virais, e se colhidos hemograma e exame de PCR não apresentam alterações significativas. Já na epiglotite há leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda, e aumento de PCR. Figura 15.1 - Sinal “do campanário” Quadro 15.1 - Características das infecções respiratórias agudas das vias aéreas médias 15.6.1 Diagnósticos diferenciais O crupe diftérico é um importante diagnóstico diferencial das patologias apresentadas, em que há corrimento nasal seroso ou serossanguinolento, presença de membrana branco acinzentada sobre as amígdalas, disfagia importante e ausência de febre. Se há tentativa de remoção da membrana que recobre a amígdala, com o abaixador de língua, por exemplo, há sangramento local. A prevalência do crupe diftérico hoje é baixa, devido à ampla distribuição da vacina pelo serviço público de saúde. Outro diferencial é a aspiração de corpo estranho, mas nestes casos o quadro é súbito, sem antecedente de infecção de vias aéreas superiores ou resfriado comum. 15.7 TRATAMENTO O crupe viral é autolimitado, com duração de 3 a 7 dias. O tratamento é direcionado primariamente ao alívio do desconforto respiratório. O principal objetivo do tratamento é a manutenção das vias aéreas patentes. Nos casos leves – taquipneia e desconforto respiratório ausentes ou leves, sem hipoxemia e sem piora do estado geral – o tratamento é feito em ambiente domiciliar, com inalação com soro fisiológico e sintomáticos. Nos casos em que há taquipneia ou desconforto respiratório importante, hipoxemia (SatO2 < 92%) ou acometimento do estado geral, o tratamento é realizado com corticoide sistêmico e inalação com adrenalina pura. Hoje já é reconhecida também a ação de corticoide inalatório no tratamento das laringites (budesonida). A inalação com adrenalina pode ser realizada apenas em ambiente hospitalar, e após sua realização é necessário período mínimo de observação por 6 horas, pelo risco de efeito rebote. A criança deve ser mantida na forma mais tranquila e confortável possível, muitas vezes no colo dos pais, para evitar a piora do desconforto respiratório. Os pacientes que mantém sinais de gravidade após tratamento inicial com corticoide e inalação com adrenalina, pacientes que não tem condições sociais para receber o tratamento domiciliar ou que não têm condições de retorno breve ao serviço médico devem ser internados para tratamento hospitalar. Os pacientes que apresentam desconforto respiratório ou hipoxemia devem receber suporte ventilatório de acordo com sua necessidade. Critérios de internação no crupe: a) Suspeita de epiglotite; b) Estridor progressivo; c) Estridor intenso em repouso; d) Dificuldade respiratória; e) Hipóxia; f) Inquietude; g) Cianose e/ou palidez; h) Alteração do nível de consciência; i) Febre alta e sinais de toxemia; Já o crupe é um quadro agudo e potencialmente fatal. Deve ser realizada a estabilização imediata das vias aéreas, por meio da intubação por um médico experiente, coletado hemograma, hemocultura, PCR e culturas das secreções e realizada sempre internação em ambiente de terapia intensiva. A introdução de antibiótico deve ser a mais breve possível: amoxicilina + clavulanato, ceftriaxona. O uso de corticoide e a inalação com adrenalina são ineficazes nos quadros de epiglotite. 15.8 PROFILAXIA PARA OS CONTACTANTES DE EPIGLOTITE Se há suspeita de epiglotite causadapor hemófilos, crianças menores de 2 anos com vacinação incompleta e crianças contactantes domiciliares imunossuprimidas devem receber profilaxia com rifampicina 20 mg/kg 1x/d por 4 dias, dose máxima: 600 mg/d. Quando suspeitar de laringite e como tratar? A laringite é um quadro agudo, pode iniciar de forma espontânea ou como consequência de resfriado comum, e cursa com tosse seca, estridor inspiratório e desconforto respiratório. Pode cursar também com hipoxemia. Para os casos leves o tratamento consiste em inalação com soro fisiológico. Nos casos moderados e graves, corticoide oral ou inalatório, inalação com adrenalina, suporte de oxigênio conforme necessidade. Quando suspeitar de coqueluche na faixa etária pediátrica? 16.1 INTRODUÇÃO A coqueluche é uma infecção bacteriana do epitélio ciliar do trato respiratório causada pela Bordetella pertussis, cocobacilo aeróbio encapsulado isolado somente em humanos. É uma doença altamente contagiosa, que se transmite durante os acessos de tosse e eliminação de gotículas. Cursa com tosse prolongada, tradicionalmente acompanhada por um “guincho” inspiratório e diferentes graus de desconforto respiratório. Pode ser muito grave entre as crianças menores de 1 ano, sendo uma das 10 causas mais comuns de óbito nessa faixa etária. A maioria dos casos acontece em menores de 12 meses de vida. 16.2 EPIDEMIOLOGIA Apesar da ampla imunização contra pertussis, a incidência de coqueluche vem aumentando desde a década de 1990, principalmente, entre os adultos e adolescentes, mas o predomínio das notificações permanece entre menores de 1 ano. Dados do Ministério da Saúde mostram que, no período de 2007 a 2012, de todos os casos notificados em menores de 6 meses, 51% não haviam recebido a vacina, 37% haviam recebido 1 dose e 12% haviam recebido 2 ou mais doses. A principal fonte de contaminação nos surtos intradomiciliares são os adultos e adolescentes. A coqueluche é uma doença de notificação compulsória. 16.3 TRANSMISSÃO A transmissão é feita por eliminação de gotículas durante a tosse. O período de transmissão se inicia 5 dias após o contato e dura até 3 semanas após o início da tosse paroxística, pode chegar em até 6 semanas nos pacientes com menos de 6 meses. O período de incubação é de 7 a 21 dias. 16.4 PATOGENIA A B. pertussis, ao entrar em contato com a mucosa respiratória do hospedeiro, adere ao epitélio ciliado. A seguir, a bactéria elimina toxinas e enzimas que irão deflagrar a resposta imunológica do hospedeiro e provocar os sintomas. Essas enzimas paralisam os cílios do epitélio respiratório, causando diminuição na eliminação das secreções. Ocorre lesão do epitélio respiratório com destruição celular, hemorragias focais, edema e infiltrado peribrônquico. 16.5 QUADRO CLÍNICO Os sintomas podem variar com a idade do indivíduo, imunidade, o uso de antibióticos e comorbidades. A doença é classicamente dividida em 3 fases: 1. Fase catarral: com o período de incubação, inicia-se um quadro de resfriado comum, com coriza e secreção nasal, tosse, mal-estar e febre baixa a moderada. A duração vai de 1 a 2 semanas; 2. Fase paroxística: depois de 7 a 10 dias do quadro catarral, inicia-se o quadro clássico com tosse paroxística característica da coqueluche. Ocorrem acessos súbitos de tosses curtas, rápidas, sem intervalo para inspiração entre elas, seguidos por uma inspiração profunda com o “guincho” característico. Pode ser acompanhada, também, de vômito após o acesso de tosse. Nas crianças menores de 1 ano e principalmente nas menores de 6 meses, durante os episódios de tosse é possível observar pletora facial, cianose, apneia, petéquias na face e no pescoço pelo esforço e convulsão. A fase de tosse paroxística pode durar várias semanas; 3. Fase de convalescença: as crises de tosse, o guincho, os vômitos e os engasgos diminuem progressivamente. A tosse é a última a desaparecer por completo, e pode levar alguns meses para isso. Nessa fase, pode ocorrer exacerbação do quadro com novos paroxismos caso o paciente adquira alguma infecção respiratória concomitante. A fase dura de 1 a 3 semanas. Crianças vacinadas e adultos, em geral, apresentam quadro menos exuberante, e o diagnóstico fica pouco lembrado. Nesse grupo etário, a presença de B. pertussis pode ser identificada em 5 a 25% dos pacientes com tosse há mais de 14 dias sem outra causa aparente. 16.6 DIAGNÓSTICO O Ministério da Saúde lançou recentemente um guia de recomendações para o diagnóstico e o combate à coqueluche. Nele, para facilitar o diagnóstico correto, foram definidos critérios para casos suspeitos e casos confirmados. Existem critérios clínicos, clínico-epidemiológicos e laboratoriais para confirmar o diagnóstico. 16.6.1 Casos suspeitos 1. Menores que 6 meses: independentemente do estado vacinal, qualquer criança que apresente tosse há mais de 10 dias associada a pelo menos 1 dos demais: tosse paroxística – de 5 a 10 tosses curtas numa mesma expiração –, “guincho” inspiratório, engasgos, cianose, apneia e vômitos pós-tosse; 2. Maior que ou com 6 meses: independentemente do estado vacinal, qualquer indivíduo com tosse de qualquer tipo há mais de 14 dias associada a pelo menos 1 dos demais: tosse paroxística – de 5 a 10 tosses curtas numa mesma expiração –, “guincho” inspiratório e vômitos pós-tosse; 3. Todo indivíduo: que apresente tosse por qualquer período com história de contato face a face com um caso confirmado pelo critério laboratorial. 16.6.2 Casos confirmados 1. Critérios clínicos: a) Menores que 6 meses: independentemente do estado vacinal, qualquer criança que apresente tosse há mais de 10 dias associada a pelo menos 1 dos demais: tosse paroxística, “guincho” inspiratório, engasgos, cianose, apneia e vômitos pós- tosse; b) Maiores que ou com 6 meses: independentemente do estado vacinal, qualquer indivíduo com tosse de qualquer tipo há mais de 14 dias associada a pelo menos 1 dos demais: tosse paroxística, “guincho” inspiratório e vômitos pós-tosse. 2. Critérios clínico-epidemiológicos: a) Contato de um caso confirmado por cultura ou PCR no período de transmissibilidade. 3. Critérios laboratoriais: a) Isolamento da B. pertussis por cultura da secreção da nasofaringe ou identificação por PCR em tempo real. A detecção do B. pertussis pela cultura da secreção nasofaríngea tem maior sensibilidade quando é colhida durante a fase catarral e até 2 semanas da fase paroxística. O hemograma pode auxiliar na suspeita diagnóstica, pois a leucocitose com linfocitose é um achado inespecífico importante nos pacientes com coqueluche. Linfocitose absoluta, > 10.000 linfócitos/mm3, em geral está associada à positividade da cultura de secreção de nasofaringe para B. pertussis e leucocitose acentuada; quando > 60.000/mm3, em geral se associa a maior gravidade. A radiografia de tórax nos casos não complicados pode ser normal ou apresentar espessamento peribrônquico, infiltrado peri-hilar ou atelectasias, mas esses achados são inespecíficos. Leucocitose com linfocitose é a alteração do hemograma mais sugestiva de coqueluche, mas não é critério diagnóstico. 16.6.3 Diagnósticos diferenciais A “tosse coqueluchoide”, com característica paroxística, pode estar presente em diversas infecções respiratórias. Os principais agentes são Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia trachomatis, Chlamydia pneumoniae e adenovírus. 16.7 COMPLICAÇÕES A principal complicação é a pneumonia, que pode ser causada pela B. pertussis ou por outros agentes bacterianos. A convulsão é uma complicação neurológica frequente, sobretudo, nos menores de 1 ano. Atelectasias podem ocorrer com frequência, enfisema e pneumotórax são complicações mais raras. Cerca de 90% das mortes por coqueluche ocorrem nos pacientes menores de 6 meses de vida, por insuficiência respiratória. O aumento de leucócitos circulantes em alguns casos pode alterar a viscosidade sanguínea, levando à formação de trombos nas veias pulmonares. 16.8 TRATAMENTO As crianças maiores de 1 ano, como apresentam menor risco de complicação, podem ser tratadasem domicílio. Menores de 1 ano e principalmente menores de 6 meses apresentam um risco maior de evoluir com insuficiência respiratória e apneia, portanto, devem ser tratadas em ambiente hospitalar, de acordo com o bom julgamento clínico. Deve-se oferecer suporte com oxigenoterapia, hidratação e fisioterapia respiratória. A terapia medicamentosa de escolha para erradicar B. pertussis da nasofaringe é antibioticoterapia. O quanto antes for iniciada a terapia, maior será a redução da transmissibilidade do patógeno. O Ministério da Saúde, o Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos e a agência inglesa de saúde Health Promotion Program preconizam, como droga de escolha para o tratamento, a azitromicina. Como segunda opção, podem-se usar a claritromicina e, na sua ausência, a eritromicina. Sulfametoxazol-trimetoprima deve ser usado na intolerância aos macrolídeos. A dose atual preconizada e o tempo de tratamento dos antibióticos estão relacionados nos Quadros 16.1, 16.2 e 16.3. Quadro 16.1 - Primeira escolha: azitromicina Fonte: Ministério da Saúde. Quadro 16.2 - Segunda escolha: claritromicina Fonte: Ministério da Saúde. Quadro 16.3 - Sulfametoxazol-trimetoprima Fonte: Ministério da Saúde. Salbutamol por via oral, solução, não nebulização, nas 2 primeiras semanas do paroxismo e prednisolona durante 7 dias podem reduzir a intensidade dos acessos de tosse. Mulheres no último mês de gravidez, puérperas e recém-nascidos que tiveram contato com caso suspeito ou confirmado de coqueluche e que tiveram tosse por mais de 5 dias devem ser tratados independentemente da situação vacinal. 16.9 PREVENÇÃO A principal estratégia para o controle é a imunização, que deve ser feita aos 2, 4 e 6 meses de vida, com primeiro reforço entre 6 e 12 meses após a última dose e segundo reforço entre os 4 e 6 anos de vida. Classicamente há as vacinas combinadas para difteria, tétano e pertussis, que podem ser de células inteiras (DTP), acelular tipo infantil (DTPa) e acelular tipo adulto (dTpa). O Ministério da Saúde disponibiliza a vacina DTP, no entanto a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda DTPa pela menor reatogenicidade, embora esta última só esteja disponível na rede privada. A vacina contra coqueluche de células inteiras está contraindicada a crianças com quadro neurológico em atividade; reação anafilática a doses anteriores; hipersensibilidade aos componentes da vacina; encefalopatia nos primeiros 7 dias após a aplicação de uma dose anterior desse produto ou outro componente pertussis; convulsões até 72 horas após a administração da vacina; colapso circulatório, com choque ou episódio hipotônico-hiporresponsivo até 48 horas após a administração da vacina. Todas as gestantes devem receber a vacina DTPa. Essa vacina deverá ser administrada a cada gestação, a partir da vigésima semana de gestação. A depender da situação vacinal encontrada, deve-se administrar uma dose da vacina DTPa para iniciar e completar o esquema vacinal ou como dose de reforço. Em gestantes que não foram vacinadas durante a gestação, aplicar uma dose de DTPa no puerpério o mais precocemente possível. A quimioprofilaxia dos comunicantes deve ser feita como o tratamento da coqueluche com o uso de antibiótico. Está indicada para: a) Crianças com menos de 1 ano, independentemente do estado vacinal e do período de tosse; b) Crianças com mais de 1 ano e menos de 7 anos com esquema vacinal incompleto ou desconhecido – completar o esquema vacinal após; c) Crianças com mais de 7 anos que tiveram contato próximo com um caso suspeito no período de até 21 dias ou que convivem com comunicante vulnerável no mesmo domicílio; d) Pessoas que trabalham em serviços de saúde ou diretamente com crianças. São considerados comunicantes vulneráveis: a) Recém-nascidos de mãe com sintomas respiratórios; b) Crianças com menos de 1 ano, com menos de 3 doses de vacina penta, tetravalente ou DTP; c) Crianças com menos de 10 anos, não imunizadas ou com imunização incompleta – menos de 3 doses de vacina penta, tetra ou DTP; d) Mulheres no último trimestre da gestação; e) Indivíduos com comprometimento imunológico; f) Indivíduos com doenças crônicas graves. Quando suspeitar de coqueluche na faixa etária pediátrica? 1. Menor de 6 meses: independentemente do estado vacinal, qualquer criança que apresente tosse há mais de 10 dias associada a pelo menos 1 dos demais: tosse paroxística (de 5 a 10 tosses curtas numa mesma expiração), “guincho” inspiratório, engasgos, cianose, apneia e vômitos pós-tosse; 2. Seis meses ou mais: independentemente do estado vacinal, qualquer indivíduo com tosse de qualquer tipo há mais de 14 dias associada a pelo menos 1 dos demais: tosse paroxística (de 5 a 10 tosses curtas numa mesma expiração), “guincho” inspiratório e vômitos pós-tosse; 3. Todo indivíduo que apresente tosse por qualquer período com história de contato face a face com um caso confirmado pelo critério laboratorial. Quais são os principais agentes causadores de pneumonias na faixa etária pediátrica e seus respectivos tratamentos? 17.1 INTRODUÇÃO A pneumonia aguda constitui uma das principais causas de morbimortalidade, principalmente em crianças com menos de 5 anos, nos países em desenvolvimento. Estimativa da Organização Mundial da Saúde prevê 4 milhões de mortes por infecções respiratórias agudas, 2 terços em crianças menores de 1 ano. No Brasil, os fatores de risco associados à mortalidade em menores de 1 ano estão fortemente ligados a idade do desmame, peso ao nascer, número de moradores da casa, aplicação da vacina BCG e condições sociais da família, em particular da mãe. 17.2 EPIDEMIOLOGIA As pneumonias são doenças frequentes, com incidência de 3% a 4% ao ano, em crianças abaixo de 4 anos, e de 1% a 2%, em pré- escolares e escolares. A maioria dos casos é leve e pode ser tratada ambulatorialmente. Entretanto, os casos graves não são raros, e a pneumonia bacteriana é causa de 10% a 25% de morte em crianças nos países subdesenvolvidos e de 1 a 3% nos desenvolvidos. Essa diferença ocorre porque a desnutrição aumenta a incidência, a gravidade e a mortalidade pela doença. A qualidade da assistência médica é essencial na redução da mortalidade. Faz parte do calendário do Programa Nacional de Imunizações (PNI) a vacina contra pneumococo 10-valente, administrada aos 2, 4 e 6 meses, com reforço aos 15 meses. Fatores de risco para pneumonias: 1. Maternos: grau de instrução, desmame precoce, efetividade do pré- natal; 2. Sistema de saúde: diagnóstico precoce, tratamento adequado; 3. Ambientais: poluição, tabagismo, sazonalidade, contato com paciente com infecção das vias aéreas superiores; 4. Paciente: prematuridade, baixo peso ao nascer, calendário vacinal incompleto, doenças prévias –cardiopatias, anemia falciforme, imunodeficiências primárias, corticoterapia e outras doenças que levam ao comprometimento imunológico, doenças pulmonares que induzem a pneumonias de repetição, como fibrose cística. 17.3 DEFINIÇÃO O termo “pneumonia” descreve uma inflamação dos alvéolos e espaços aéreos terminais, bronquíolos e espaço intersticial, em resposta à invasão por agente infeccioso introduzido no pulmão, principalmente em decorrência da aspiração de material de secreções infectadas das vias aéreas superiores ou disseminação hematogênica. A maioria dos casos é de natureza infecciosa, porém, há pneumonias de natureza não infecciosa, secundárias à aspiração de corpos estranhos, substâncias irritantes e pneumonite induzida por droga ou radiação. Vários estudos apontam que a principal etiologia de pneumonias em crianças menores de 5 anos é viral. 17.4 CLASSIFICAÇÃO Pode ser classificada por critérios anatômicos, ou seja, a área pulmonar afetada, podendo ser lobar, envolvendo 1 lobo ou segmento, lobular, alveolar ou intersticial. A classificação pelo agente etiológico nem sempre é possível e, quando determinada pela cultura, direciona melhor o tratamento. 17.5 ETIOLOGIA Do ponto de vista etiológico, as pneumonias são classificadasem: 1. Bacterianas: Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenza tipo B, Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes; 2. Virais: especialmente vírus sincicial respiratório, influenza, parainfluenza, adenovírus e rinovírus; 3. Atípicas: Mycoplasma pneumoniae e Chlamydia pneumoniae. Mais raramente, a pneumonia é causada por processos autoimunes, hipersensibilidade, fungos, drogas, radiação, inalação ou aspiração – líquidos, poeiras, gases ou poluentes. Quadro 17.1 - Principais agentes etiológicos de pneumonias comunitárias, de acordo com a faixa etária Fonte: Diretrizes brasileiras em pneumonia adquirida na comunidade em Pediatria, 2018. 17.5.1 Pneumonias bacterianas Os agentes etiológicos das pneumonias bacterianas variam de acordo com a faixa etária. 17.5.1.1 Recém-nascidos com menos de 7 dias Os agentes Gram negativos (E. coli e Klebsiella pneumoniae), Streptococcus B (agalactiae) e Listeria monocytogenes são as causas comuns, por estarem presentes no canal de parto. Nesse período, a infecção pode ser intrauterina, por meio da aspiração no canal de parto ou contato pós-natal com outra pessoa ou equipamento contaminado. Configura uma das formas da sepse neonatal precoce. 17.5.1.2 Recém-nascidos de 7 dias a 1 mês de vida Após esse período e até o fim do primeiro mês de vida, os agentes mais prevalentes são semelhantes aos anteriores, porém o S. aureus e o S. pneumoniae já podem ser responsáveis por alguns casos. Configura uma das formas de sepse neonatal tardia. 17.5.1.3 Lactentes de 1 a 3 meses Após o primeiro mês de vida e até o final do terceiro mês, os agentes variam de acordo com a presença ou a ausência de febre. Nesta última, as bactérias mais prevalentes são Chlamydia trachomatis, Ureaplasma urealyticum e P. jirovecii, encontradas na pneumonia afebril do lactente, que se caracteriza por tosse “em staccato”, seca e bem marcada; paroxística, taquipneia e ocasionalmente hipóxia. Na pneumonia febril, os agentes mais comuns identificados são S. pneumoniae, H. influenzae e S. aureus; são também os mais prevalentes em pneumonias de crianças até 6 ou 7 anos. 17.5.1.4 Escolares e adolescentes Em escolares e adolescentes, os agentes mais prevalentes são S. pneumoniae, Mycoplasma pneumoniae e Chlamydophila pneumoniae, antes chamada Chlamydia pneumoniae. A infecção geralmente decorre da aspiração de secreções infectadas das vias aéreas superiores. A infecção pelo Mycoplasma causa sintomas graduais de mal-estar, febre baixa, cefaleia e muita tosse, principalmente, na segunda semana da doença. Em nosso meio, deve-se sempre pensar, como diagnóstico diferencial das pneumonias, em tuberculose, especialmente, nas situações com dissociação clínico-radiológica, não respondendo bem ao tratamento proposto de maneira correta e naquelas com importante epidemiologia familiar. 17.5.2 Pneumonias virais Os vírus que mais comumente causam pneumonia incluem o vírus humano sincicial respiratório, parainfluenza 1, 2 e 3, influenza A ou B e, com menor frequência, o adenovírus, e o rinovírus. Quadro 17.2 - Pneumonias: orientação etiológica 17.6 MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS A pneumonia afebril não é frequente e é mais encontrada em crianças até os 3 meses. A intensidade da febre e o comportamento do quadro febril podem ajudar na distinção clínica. Nas etiologias virais, apesar de ser possível febre acima de 39°C, há grande melhora do estado geral com a redução da temperatura, enquanto na pneumonia bacteriana a toxemia, em geral, é mantida. 17.6.1 Pneumonias bacterianas O quadro característico é composto por tosse, febre, taquipneia, presença de retrações do tórax, tiragens subcostais; estertores finos, crepitações; dor torácica, hipoxemia e sintomas sistêmicos associados. A presença de tosse, febre e taquipneia e/ou dispneia fecham o diagnóstico de pneumonia pela Atenção Integrada às Doenças Prevalentes da Infância (AIDPI), sem a necessidade de exames adicionais, por exemplo, radiografia de tórax, e com indicação de intervenção imediata, antibioticoterapia. Sibilos são raros na pneumonia bacteriana. Ao exame físico, além de estertores, podem-se notar diminuição do murmúrio vesicular, aumento do frêmito toracovocal e broncofonia. Submacicez ou macicez à percussão podem estar presentes quando há derrame pleural, mas também podem estar ausentes quando o derrame pleural é pequeno (locular) ou laminar. Algumas crianças podem apresentar dor abdominal, principalmente, quando há envolvimento dos lobos inferiores. Toxemia, palidez e cianose acompanham a prostração e mostram relação com a gravidade do caso. A taquipneia com ou sem dispneia é mais encontrada nos casos de Pneumonia Adquirida na Comunidade (PAC), sendo esse o sintoma mais importante no seu diagnóstico. Quanto menor for a criança, mais perceptível será a dificuldade ventilatória. 17.6.2 Pneumonias virais As manifestações clínicas das pneumonias virais incluem sintomas respiratórios leves, como tosse e coriza, e evoluem com taquipneia e retrações intercostais, subcostais e supraesternais. A febre pode estar presente desde o início do quadro ou quando os sintomas se tornam mais intensos. Os quadros virais podem apresentar febre maior do que 39 °C, mas, após a diminuição da temperatura com antitérmicos ou banhos térmicos, apresenta uma grande melhora do estado geral, ao passo que, nas infecções bacterianas, a prostração se mantém. É importante salientar que a taquipneia, vista nos casos de pneumonia, persiste mesmo quando a temperatura está abaixo de 36,5°C, devido a alterações de ventilação e/ou perfusão, e não apenas ao estado hiperdinâmico causado pela febre. A ausculta torácica pode evidenciar murmúrios vesiculares diminuídos unilateralmente e estertores e/ou sibilos difusos, podendo ser muito semelhante à ausculta pulmonar do quadro bacteriano. Os sibilos são mais comuns nos quadros virais do que bacterianos. 17.7 DIAGNÓSTICO Pela elevada frequência das pneumonias e suas associações a outros fatores de risco, que contribuem com o aumento da morbimortalidade, é importante realizar precocemente o diagnóstico correto, reconhecer as complicações e iniciar o tratamento adequado. Para o diagnóstico de pneumonias, podem-se utilizar dados clínicos ou clínico-radiológicos. Embora, as manifestações clínicas sejam comuns a várias doenças pulmonares. Na prática tal dificuldade é contornada com um número de sinais de boa acurácia, facilmente identificáveis, possibilitando estabelecer o diagnóstico de pneumonia de forma simplificada. Portanto, o objetivo inicial norteia, em primeiro lugar, a identificação de crianças com pneumonia e, em seguida, a distinção dos casos graves dos não graves e a proposta da forma do tratamento, hospitalar ou ambulatorial. O Ministério da Saúde tem adotado uma medida, como norma geral para tratamento, de que o diagnóstico de pneumonia seja feito por síndromes clínicas, tendo como parâmetros os sinais e os sintomas clínicos. Os sinais de gravidade do quadro infeccioso de acordo com a faixa etária podem ser vistos nos Quadros 17.3, 17.4 e 17.5. Quadro 17.3 - Diagnóstico clínico das insuficiências respiratórias agudas Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria. Programa de Atualização em Terapêutica Pediátrica, 2016. Quadro 17.4 - Frequência respiratória normal para a idade Fonte: Sociedade Brasileira de Pediatria. Programa de Atualização em Terapêutica Pediátrica, 2016. A tosse e/ou, a dispneia são os principais sinais para suspeitar do diagnóstico de pneumonias. Em seguida, deve-se classificá-la segundo a gravidade, sendo importante parâmetro a taquipneia, a Organização Mundial da Saúde a aponta como o sinal de maior sensibilidade, 77%, e maior especificidade, 58%. A ausência de taquipneia tem um alto valor preditivo negativo, isto é, na ausência de taquipneia dificilmente teremos diagnóstico de pneumonia. A elevação da FR pode ocorrer precocemente, mesmo antes dos sinais auscultatórios ou da presença de imagem radiológica, e deve ser aferida no período de 1 minuto, de preferência com a criança emposição confortável. Outros sinais que expressam a gravidade da pneumonia são o esforço respiratório e a presença de tiragens ou retrações subcostais. Para crianças menores de 2 meses, a presença de convulsões, sonolência, batimentos “de asas de nariz”, gemido respiratório, cianose central, hipotermia e impossibilidade de beber ou mamar determinam maior gravidade. Quadro 17.5 - Classificação clínica da gravidade de pneumonias em crianças de 2 meses a 5 anos Fonte: Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, 2007. 17.7.1 Exames de imagem Classicamente, a radiografia de tórax pode evidenciar infiltrado alveolar ou intersticial na pneumonia. O primeiro está associado à etiologia bacteriana, e o segundo, à viral, mas tal afirmativa tem sido muito questionada atualmente, não existindo padrão radiológico típico que permita fazer diagnóstico etiológico de certeza. A radiografia de tórax pode mostrar infiltrados bilaterais difusos, infiltrados lobares, hiperinsuflação, broncogramas aéreos que chegam à periferia, consolidações. Diferenças de penetração entre cada hemitórax, também podem ser achados de pneumonia incipiente. Podem ser observados “borramento” da silhueta cardíaca na dependência da extensão do acometimento e complicações como a atelectasia. Tais achados não são suficientes para predizer o agente, se viral ou bacteriano, tendo em vista que mesmo uma pneumonia bacteriana pode se apresentar, inicialmente, com os mesmos achados. A ausência de sinais radiológicos como consolidação, derrame pleural e pneumatocele, cavidade no parênquima pulmonar preenchida com ar, não significa que a etiologia não seja bacteriana. A radiografia de tórax não deve ser feita de rotina para o diagnóstico de pneumonia, mas deve ser realizada em crianças com sinais de gravidade que necessitam de tratamento hospitalar. Realizar radiografia nas seguintes situações: a) Dúvida no diagnóstico; b) Presença de hipoxemia, desconforto respiratório e outros sinais de gravidade; c) Falha na resposta após 48 a 72 horas de tratamento ou em caso de piora progressiva; d) Pacientes hospitalizados. Figura 17.1 - Evidência de pneumonia lobar no ápice direito Figura 17.2 - Radiografia de tórax, incidência anteroposterior, com imagem de pneumonia bilateral Figura 17.3 - Radiografia de tórax com imagem de pneumonia bilateral e derrame pleural Figura 17.4 - Radiografia de tórax com imagem de pneumonia unilateral que evoluiu com derrame pleural É importante observar a presença dos sinais de complicações da pneumonia, como derrame pleural ou atelectasias. Quando há dúvida se a imagem na radiografia é realmente de derrame pleural, pode-se fazer outra incidência: lateral com raios horizontais, paciente deitado do lado em que se desconfia haver o derrame pleural – radiografia em Laurel. Figura 17.5 - Radiografia em Laurel com derrame pleural Em caso de suspeita de derrame pleural, em que a radiografia com incidência em Laurel deixa dúvida, pode ser realizada ultrassonografia torácica, para melhor elucidação e quantificação do derrame. A radiografia de tórax não deve ser solicitada para o controle de cura de PAC. 17.7.2 Exames de laboratório O hemograma de crianças com pneumonia de etiologia viral tende a ser normal ou mostrar discreta leucocitose (< 12.000/mm3), com predomínio de linfócitos associados aos marcadores da fase aguda da inflamação – Proteína C Reativa (PCR) e velocidade de hemossedimentação (VHS). Leucopenia (< 5.000/mm3) e anemia são marcadores de mau prognóstico. A presença de eosinofilia nos casos de pneumonia afebril pode sugerir infecção por Chlamydia trachomatis. O diagnóstico laboratorial para a identificação do agente pode ser difícil, pela dificuldade da coleta do material de um local que represente o verdadeiro foco infeccioso; conhecer os principais patógenos envolvidos em cada faixa etária determina a melhor decisão para o uso de antibióticos. Para os casos adquiridos na comunidade, em crianças sem doença de base, a pneumonia por S. pneumoniae deve ser o primeiro agente a ser considerado. O isolamento das bactérias piogênicas com a capacidade de invadir a corrente sanguínea pode ser feito pela hemocultura. Muito embora seja um exame de fácil coleta e execução, a identificação do agente causal não chega a 5% dos internados. Quando a cultura é realizada no líquido pleural, o isolamento do agente pode chegar a 20%. Entretanto, para o pneumococo, a hemocultura é positiva em 20% a 30%, chegando a 50% quando realizada no líquido pleural, antes da introdução dos antibióticos. Assim, é de suma importância sempre questionar a necessidade de realizar a punção pleural, com amostra para cultura, na presença do derrame pleural. A decisão de puncionar pode ser facilitada com a ultrassonografia de tórax para avaliação da quantidade de líquido pleural e se o derrame está loculado. Até algum tempo atrás praticamente todos os derrames pleurais eram puncionados, para que fossem diferenciados de empiema. No ano de 2019, a decisão sobre punção é baseada em sinais de desconforto respiratório. Se houver necessidade de puncionar, devido o desconforto, deve ser analisado o aspecto do líquido, purulento, por exemplo, e enviado para as seguintes análises laboratoriais: a) Identificação etiológica – bacterioscopia, cultura e contraimunoeletroforese; b) Bioquímica pleural e/ou plasmática – proteínas, desidrogenase láctica, glicose; c) Análise do pH, se menor do que 7,2, avaliar a indicação de drenagem pleural; d) Citologia, principalmente no diferencial com exsudatos serosos; e) Adenosina deaminase para tuberculose. A drenagem não é mais obrigatória, mesmo em caso de empiema, o tratamento pode ser conservador, com antibioticoterapia em ambiente hospitalar. A indicação de drenagem deve-se à persistência ou recidiva do desconforto respiratório, falha no tratamento conservador e sinais de complicações. Quadro 17.6 - Principais características das pneumonias de acordo com o agente etiológico A determinação dos patógenos virais é demonstrada pela detecção dos antígenos virais em células da nasofaringe pela técnica da imunofluorescência direta, como o vírus humano sincicial respiratório, parainfluenza, influenza e adenovírus. Muitas das pneumonias tratadas com antibióticos são, na verdade, virais, que cursariam com remissão espontânea sem necessidade de antibioticoterapia. O tratamento se baseia em medidas de suporte para a manutenção da função respiratória. Para alguns casos, são necessários internação, hidratação intravenosa, oxigênio ou até mesmo ventilação assistida. 17.8 TRATAMENTO O ideal, sempre que possível, seria identificar o agente, mas, por dificuldades muitas vezes técnico-operacionais, o tratamento instituído é empírico, orientado pelos agentes mais prováveis da faixa etária e o estado imunológico. Estudos recentes confirmam o Streptococcus pneumoniae como o agente bacteriano mais frequente em crianças e adolescentes. O Mycoplasma pneumoniae, em alguns países, em maiores de 5 anos, apresenta-se como o primeiro ou segundo patógeno associado à PAC. A primeira etapa após o diagnóstico de pneumonia é decidir o tipo de tratamento: ambulatorial ou hospitalar em regime de internação. Os critérios de internação utilizados encontram-se a seguir: a) Lactentes menores de 2 meses; b) Presença de hipoxemia (SatO2 < 92% em ar ambiente); c) Desconforto respiratório, dispneia, batimento de asa nasal, uso de musculatura acessória, FR ≥ 60 irpm em menores de 2 meses e ≥ 50 irpm nos demais; d) Sinais de toxemia; e) Presença de derrame pleural, pneumatoceles, abscessos pulmonares; f) Desidratação moderada; g) Doenças crônicas de base, doença falciforme, cardiopatia, fibrose cística, síndrome nefrótica, desnutridos graves e imunodeficiências primárias; h) Falha da terapêutica ambulatorial; i) Incapacidade da família de continuar adequadamente o tratamento; j) Crises de apneia, convulsões, alteração do nível de consciência, vômitos; k) Sinais clínicos gerais de gravidade. Recomendações dietético-nutricionais: