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Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp SARA A SARA é uma forma de lesão pulmonar aguda grave (LPA) e clinicamente é caracterizada por início rápido de insuficiência respiratória grave, cianose e hipoxemia arterial grave refratária a oxigenoterapia. Essa síndrome tem um comportamento mais ou menos binário: ou o paciente sobrevive praticamente normal (pode ter algumas sequelas, como fraqueza muscular); ou o paciente vai à óbito. Não existe insuficiência respiratória crônica causada por SARA: ou sara ou morre. A definição da Síndrome da Angústia Respiratória Aguda (SARA) é muito restrita, deve obedecer aos seguintes critérios: • Insuficiência Respiratória Aguda hipoxêmica (frequentemente, nos estágios iniciais a PaCO2 está baixa porque quando cai a oxigenação há taquipneia e quando ela se difunde mais que O2, está mais baixa que o normal). Quando o indivíduo entra em fadiga muscular e não tem tanta taquipneia a PCO2 sobe. • Que não pode ser explicada por um edema pulmonar cardiogênico ou edema pulmonar provocado por sobrecarga de volume (excluir essas hipóteses). • Que requer suplementação de oxigênio (na maioria das vezes, com Fração Inspirada de Oxigênio =FiO2 superior a 0,5 (ou 50%). • Que se desenvolve dentro de um período de uma semana após a exposição a uma situação de risco (as várias causas de SARA). Na história clínica do paciente com SARA geralmente tem uma desgraça (acidente, cirurgia com muita transfusão de sangue, infecção abdominal). • Que se apresenta com opacidades bilaterais nos exames de imagem (indicando um acometimento pulmonar difuso) que não podem ser explicadas por derrame pleural, atelectasias ou nódulos. São opacidades pulmonares por lesão do parênquima pulmonar! Muito importante seguir esses critérios, pois nem toda doença que causa hipoxemia aguda é sara. Outras doenças também podem causar hipoxemia aguda, como edema agudo do pulmão cadiogênico, tromboembolismo pulmonar agudo grave, doenças neuromusculares e intoxicações. INCIDÊNCIA E MORTALIDADE Em situações normais, sem pandemia, a incidência é de 27,6 casos por 100.000 pessoas por ano. A mortalidade é muito alta, é uma doença muito séria. Segundo a definição de Berlim (2012), a mortalidade é 27% em SARA leve; 32% para moderada e 45% para grave (dados mundiais). No Brasil, a mortalidade é de 52% para moderada e 60% para grave. CAUSAS DA SARA Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Há inúmeras causas do SARA, muito distintas entre si, mas que preservam essas características comuns da síndrome. Podemos dividir as causas de SARA em lesão pulmonar direta e lesão pulmonar indireta (o mecanismo da lesão veio através do sangue). Na lesão pulmonar direta o tecido lesado primeiro é o epitélio alveolar, e vai se estendendo até os vasos. Já na indireta é o contrário, a lesão se inicia nos vasos pulmonares e vai acometendo o epitélio alveolar. Causas infecciosas são comuns, principalmente virais, como o SARS- COV-2 (coronavírus) que causou a pandemia de COVID-19. Quando é causada por vírus chamamos de Síndrome da Angústia Respiratória Severa (SARS). Outras causas são tóxico-inalantes (gases tóxicos, cocaína); drogas quimioterápicas; choque (todos os tipos de choque desencadeiam; cardiogênico, traumático, neurogênico, hemorrágico); sepse, etc. Uma das causas de sara que ocorre após múltiplas fraturas de ossos longos é a embolia gordurosa. Libera muitas substancias (moléculas de ac graxos) e medula óssea amarela que causam um processo inflamatório intravascular no pulmão e no rx vemos opacidades bilaterais. Há edema pulmonar por inflamação da rede capilar pulmonar. Diferente do edema por ICC, pois nesse caso há exsudato no interstício e não só transudato (água). A lesão surge como causa de uma tempestade inflamatória. Uma grande lesão traumática, como aquela produzida em alguém que pisou numa mina terrestre, destrói muito tecido. Muito material necrótico e substâncias desnaturadas são absorvidos a partir da lesão e desencadeiam uma reação inflamatória generalizada dentro da circulação (capilarite inflamatória generalizada). Um gatilho muito importante que é acionado é o Fator de Necrose Tumoral (TNF). Estas substâncias ao passarem pela rede capilar pulmonar vão inflamar os capilares, aumentar a permeabilidade capilar e dar início ao processo de lesão pulmonar. Nestas circunstâncias é importante lembrar que todos os órgãos sofrem com esta capilarite e o pulmão é só o primeiro a se manifestar. Quando ele fica comprometido, a hipoxemia que isso gera colabora para piorar os outros órgãos. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Outra causa comum de SARA é por endotoxinas bacterianas. Bactérias Gram Negativas tem elementos em sua parede que são capazes de desencadear respostas muito importantes do sistema imune. Existem receptores em monócitos circulantes para esta endotoxina. Quando a endotoxina se liga a esses receptores provoca uma resposta intensa dos monócitos de produção do Fator de Necrose tumoral. Esse pico de TNF é capaz de desencadear uma tempestade inflamatória que resulta naquela capilarite inflamatória generalizada. É importante ressaltar aqui que a densidade destes receptores na superfície de monócitos é variável, fato que pode ser um dos elementos que explica a variável suscetibilidade das pessoas a estas agressões. A SARA pode surgir, ainda, por lesão direta da membrana alvéolo-capilar (COVID-19). Em algumas situações a lesão epitelial precede a lesão vascular na SARA. Alguns exemplos: • Lesão por inalação de vapor d’água, fumaça e gases tóxicos; • Aspiração de suco gástrico; • Lesões infecciosas difusas virais e bacterianas; É fácil entender como com altas temperaturas e gases tóxicos provocam lesão epitelial. Geralmente gases mais lipossolúveis danificam mais as vias aéreas distais. Bactérias frequentemente produzem toxinas e chegam com facilidade à circulação (e, ao circularem, podem desencadear a tempestade inflamatória que lesa a rede capilar pulmonar). Nas infecções virais, os agentes patogênicos tem que ultrapassar a camada de surfactante que, entre outras coisas, dificulta a chegada destes agentes patogênicos aos elementos da membrana celular utilizados pelos vírus para entrar nas células (pneumócito II). Nas pneumonias bacterianas (e, talvez também, nas virais) as duas coisas podem acontecer ao mesmo tempo: uma lesão direta do epitélio alveolar por toxinas bacterianas e outro produtos microbianos e, depois da absorção para o sangue das toxinas e microrganismos a partir do pulmão, pode-se acontecer a sepse (inflamação generalizada desencadeada pela presença de microrganismos ou seus componentes na circulação), que, por sua vez, lesa a rede capilar pulmonar ao passar pelo pulmão. FISIOPATOGENIA O evento primordial da SARA é o intenso processo inflamatório. A lesão acontece por uma interação complexa de vários fatores: Liberação de citocinas pró-inflamatórias; Lesão de células epiteliais e endoteliais; Mediadores fibrogênicos. Ativação Endotelial: é um importante evento inicial. Em alguns casos, a ativação endotelial é secundária à lesão de pneumócitos, a qual é percebida pelos macrófagos alveolares residentes. Em resposta, essas sentinelas imunes secretam mediadores, como o TNF, que age nos endotélios Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp circunvizinhos. De maneira alternativa, os mediadores inflamatórios circulantes podem ativar o endotélio pulmonar diretamente no contexto de injúria tissular grave ou sepse. A lesão da membrana alveolocapilar e a própria hipoxemia na sara podem explicar a formação de trombos e microtrombos. Adesão e extravasamento de neutrófilos: os neutrófilos aderem ao endotélio ativado e migram para o interstício e para o alvéolo, onde eles degranulam e liberam mediadores inflamatórios, incluindo proteases, formasreativas de oxigênio e citocinas. Acúmulo de fluido intra-alveolar e formação de membranas hialinas: a ativação e a injúria endotelial fazem os capilares pulmonares vazarem, permitindo a formação do fluido do edema intra- alveolar e intersticial. Os danos e necrose dos pneumócitos alveolares tipo II acarretam anormalidades no surfactante, além de comprometerem a troca gasosa alveolar. Em última análise, o fluido de edema espessado e rico em proteínas e os debris das células alveolares mortas organizam-se nas membranas hialinas, uma característica típica da SARA. A resolução da lesão é impedida na SARA devido a necrose epitelial e danos inflamatórios que comprometem a habilidade de as células remanescentes ajudarem na reabsorção do edema. Contudo, finalmente, se o estímulo inflamatório diminui, fatores estimulam o crescimento de fibroblastos e a deposição de colágeno, levando à fibrose das paredes alveolares. No estado agudo, os pulmões são pesados, firmes, vermelhos e encharcados. Exibem congestão, edema intersticial e intra-alveolar, inflamação, depósito de fibrina e dano alveolar difuso. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Histologicamente, a lesão pulmonar apresenta padrão de dano alveolar difuso (DAD). Isso ocorre na maior parte dos casos de SARA. Todas as partes do alvéolo são afetadas: endotélio, epitélio alveolar e espaço intersticial. No dano alveolar difuso, a lesão epitelial (necrose do pneumócito) e a lesão endotelial levam a muita permeabilidade, edema proteico rico em fibrina e com formação de membranas hialianas. O DAD pode ser dividido em: Estágio Agudo (fase exsudativa – 7 dias): edema dos septos alveolares e membranas hialinas recobrindo a superfície alveolar; infiltração por macrófagos e neutrófilos. Há hemorragia alveolar e atelectasia de alvéolos. Estes achados refletem um elemento fundamental na lesão da membrana alvéolo-capilar na SARA que é o aumento da permeabilidade capilar. Este aumento permite que escapem da luz dos vasos água, proteínas e células. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Estágio Organizante (fase fibroproliferativa): hiperplasia dos pneumócitos tipo II e proliferação fibroelástica intersticial. Evolui para colapso alveolar, fibrose, pulmão em favo de mel. Num estágio mais avançado tem muito colapso alveolar, muita fibrose circundando os bronquíolos e espessando os septos interalveolares. O que resta aberto são os bronquíolos. Quase não reconhecemos mais o tecido como pulmonar e é observada em pacientes que evoluem para óbito. Macroscopicamente, nessa fase proliferativa organizante, o pulmão fica armado, endurecido, com aeração diminuída e aspecto em favo de mel. Fibrose intersticial muito acentuada dá esse aspecto. Perda intensa da complacência pulmonar (elasticidade). Inicialmente há edema dos septos alveolares e surgimento das membranas hialinas na superfície alveolar. Isso ocorre na primeira semana. Gradativamente, os pneumócitos tipo II aumentam em número (hiperplasia) para tentar repor os pneumócitos tipo I lesados. Nessa fase predomina a fibrose intersticial. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Tem um limite para agressão da membrana alvéolo capilar e superfície alveolar, se esse limite não for ultrapassado o paciente regenera e fica normal, se ultrapassar ele morre. O que define o prognóstico é o estado do arcabouço conjuntivo do pulmão. Se for digerido por enzimas proteolíticas do processo inflamatório deforma o alvéolo e não tem mais como recuperar. Mas se ele for mantido e só o alvéolo danificado, o pneumócito tipo II consegue recompor o epitélio alveolar. O achado de Lesão Alveolar Difusa indica que a agressão ao pulmão já foi muito longe e a chance de não ser possível a recuperação é alta. a) Uma micrografia leve de baixa potência de uma amostra de biópsia pulmonar coletou dois dias após o início da LPA / SDRA secundária à sepse gram-negativa demonstra características de dano alveolar difuso, incluindo membranas hialinas, inflamação, eritrócitos intra-alveolares e neutrófilos e espessamento dos vasos alvéolo-capilares membrana. b) Uma visão de maior potência de um campo diferente ilustra uma densa membrana hialina e inflamação alveolar difusa. Os leucócitos polimorfonucleares são embutidos na estrutura da membrana hialina proteica. A seta azul aponta até a borda de um alvéolo adjacente, que contém leucócitos mielóides. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Quase sempre há infecção bacteriana secundária após a lesão aguda da sara, pois está muito vulnerável. Isso aumenta a reação neutrofílica. Clínica: os indivíduos que desenvolvem lesão pulmonar aguda geralmente estão hospitalizados por uma das condições predisponentes (diversas causas da sara). Dispneia e taquipneia profundas anunciam a LPA, seguidas por cianose e hipoxemia crescentes, insuficiência respiratória e o aparecimento de infiltrados bilaterais difusos ao exame radiográfico. A hipoxemia pode ser refratária à terapia com oxigênio, em razão de desequilíbrio da relação ventilação-perfusão, e uma acidose respiratória pode se desenvolver. No início, os pulmões ficam rígidos pela perda do surfactante funcional. Os pulmões têm áreas que são infiltradas, consolidadas ou colapsadas (e, consequentemente, pouco aeradas e pouco complacentes) e regiões que apresentam níveis quase normais de complacência e ventilação. As regiões pouco aeradas continuam a ser perfundidas, produzindo um desequilíbrio da relação ventilação-perfusão e hipoxemia. Importante diferenciar o edema pulmonar da SARA pelo raio-x. O edema pulmonar cardiogenico (ICE) tem a tendência de se concentrar nas bainhas peribronquiovasculares e gera um edema em asa de borboleta, mais central. Não ocorre na SARA, as opacidades são mais periféricas ou difusas. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp PROGNÓSTICO O que determina o prognóstico da SARA (se o paciente vive ou morre) é o estado do arcabouço fibroelástico do pulmão, isto é, o tecido conjuntivo da parede alveolar (septos interalveolares). No pulmão há um “esqueleto” de tecido conjuntivo que estrutura as vias aéreas. Há 3 tipos: tecido conjuntivo axial, tecido conjuntivo periférico, tecido conjuntivo septal. Todos esses tecidos são contínuos entre si. O tecido conjuntivo axial acompanha as vias aéreas desde a traquéia até as ramificações das pequenas vias. Ele compõe a parede dessas vias maiores. O tecido periférico tem origem na região subpleural e manda prolongamentos conjuntivos para o interior do pulmão, delimitando os lóbulos pulmonares (formam os septos interlobulares). Já o tecido conjuntivo septal delimita os alvéolos, formam os septos interalveolares. Esse arcabouço conjuntivo é muito importante para o pulmão pois mantêm os alvéolos abertos e a complacência. No estágio final da SARA há fibrose e esse tecido é danificado, prejudicando muito a função pulmonar e evoluindo para morte. Assim, quando o arcabouço fibroelástico do pulmão é danificado o prognóstico é pior. DIAGNÓSTICO DE SARA O diagnóstico de SARA pode ser difícil, pois até hoje não existe nenhum biomarcador de lesão alveolar aguda que possa ajudar no diagnóstico. No diagnóstico de SARA considerar: doença aguda, que causa hipoxemia, num paciente no qual um evento desencadeante foi identificado e que tem uma relação PaO2/FiO2 comprometida (desde que ele não tenha uma doença pulmonar crônica que cause hipoxemia crônica). O fato de ser uma síndrome dificulta muito o diagnóstico de SARA, que é difícil. As múltiplas causas dificultam o estabelecimento de fatores fisiopatogênicos comuns. Além disso, a falta de uma correlação clínico-patológica definitiva para ela também dificulta o diagnóstico, já que a lesão anatomopatológica típica da SARA (lesão alveolar difusa ou DAD)só é encontrada em aproximadamente 50% dos casos de biópsia. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp As biópsias não são frequentes e geralmente são indicadas nos indivíduos nos quais o diagnóstico de SARA não é muito claro. Nas necropsias, o achado de lesão Alveolar Difusa é mais frequente, especialmente nos casos graves. Um indicador que ajuda no diagnóstico de SARA é um índice que relaciona a Pressão Parcial de oxigênio no sangue arterial com a Fração Inspirada de Oxigênio da mistura gasosa que o paciente está respirando: Um indivíduo normal tem uma PaO2 ao redor de 80 mmHg e respira uma mistura gasosa que tem um fração inspirada de oxigênio de 21% ou 0,21 (utiliza-se este último tipo de notação para a fração inspirada de Oxigênio no cálculo da relação PaO2/FiO2). Valor normal= 380,95 - Critérios para o Diagnóstico de Lesão Alveolar Difusa: • Presença de membranas hialinas associada a pelo menos um dos seguintes achados: Edema intra-alveolar Necrose de Pneumócitos tipo 1 Proliferação de Pneumócitos tipo 2 (células cuboides) tentando reconstruir a membrana alvéolo-capilar Proliferação de fibroblastos e miofibroblastos (vão causar fibrose) Fibrose já organizada Pneumonia associada é diagnosticada na presença de intensa infiltração neutrofílica nos espaços alveolares, no interstício e, em especial, ao redor de bronquíolos terminais. - Todos pacientes devem apresentar Lesão Alveolar Difusa para terem diagnóstico de SARA? Depende da intensidade da lesão. Na presença de LAD não sabemos se está ou não preservado o arcabouço. Um estudo de 2019 analisou que apenas 50% dos pacientes com sara tiveram LAD no exame anatomopatológico e que não é possível prever, a partir dos achados clínicos, se o paciente teria ou não LAD e que a presença de LAD estava associada a maior mortalidade. Classificação: Definição de Berlim (2012) classificou a gravidade da SARA em: SARA leve: PaO2/FiO2 entre 300 e 201, em um paciente intubado e recebendo ventilação mecânica com PEEP mínimo de 5 cm de água; SARA moderada: PaO2/FiO2 entre 200 e 101, em um paciente intubado e recebendo ventilação mecânica com PEEP mínimo de 5 cm de água; SARA grave: PaO2/FiO2 menor que 100, em um paciente intubado e recebendo ventilação mecânica com PEEP mínimo de 5 cm de água. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Técnica PEEP (Positive End Expiratory Pressure) É uma técnica de ventilação que utiliza uma barreira à respiração normal, mantém uma pressão positiva dentro das vias aéreas mesmo durante a expiração. Corresponde à técnica padrão de ventilação em pacientes com SARA, apesar de não ter estudo duplo-cego randomizado para testar sua eficácia. Contudo, sabemos que a técnica é eficaz em melhorar a oxigenação de pacientes com SARA, permitindo a utilização de frações inspiradas de oxigênio menores (lembrar que o oxigênio em altas concentrações é tóxico por si só). A lesão epitelial alveolar prejudica a produção de surfactante. O aumento da permeabilidade capilar faz com que líquido, proteínas e células extravasem para a luz alveolar. Esse líquido na luz alveolar impede a ação do surfactante, pois o surfactante, para funcionar, precisa ser a última camada em contato com o ar do alvéolo. Todas essas alterações levam ao colapso alveolar: o oxigênio não consegue se difundir em regiões pulmonares que tenham seus alvéolos colapsados (este é um shunt pulmonar verdadeiro, ou mistura venosa acontecendo pela incapacidade de o pulmão oxigenar grande parte do sangue que passa por ele). O oxigênio não entra para o sangue em alvéolos que estão colapsados, mesmo que o paciente esteja sendo ventilado com 100% de oxigênio. A manutenção de uma pressão positiva (isto é, acima da pressão atmosférica) nas vias aéreas (PEEP) força muitos alvéolos a abrirem e melhora a oxigenação. INSUFICIENCIA RESPIRATÓRIA SARA é uma forma de insuficiência respiratória aguda. IR é a incapacidade de captação da quantidade adequada de oxigênio necessária aos processos metabólicos que pode ou não estar associada já de início a uma redução na capacidade de eliminar o CO2 produzido pela respiração celular. A insuficiência respiratória pode ser aguda, crônica ou crônica agudizada. As causas da IR são muitas, como: • Comprometimento do estímulo nervoso para a respiração; Lesões do SNC Lesões dos nervos periféricos importantes para a respiração • Comprometimento dos músculos respiratórios; • Comprometimento da integridade morfológica e funcional da caixa torácica; • Insuficiência cardíaca esquerda; • Comprometimento das vias aéreas; • Lesão aguda do parênquima pulmonar (ex. SARA) Os sintomas e achados principais são: desconforto respiratório, depressão respiratória (bradipneia), taquicardia (ou bradicardia), cianose (eventualmente, em anêmicos não aparece), comprometimento do estado de consciência (pode levar ao coma), convulsão e síncope. Os sintomas clínicos são bem enganadores. Por isso precisamos de diagnóstico de certeza: gasometria arterial. Coleta de sangue da artéria radial e tem a pressão parcial de oxigênio no sangue Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp arterial. Um modo mais simples de fazer isso mas menos preciso é a oximetria de pulso (mede saturação da Hb pelo oxigênio). A curva de saturação da Hb pelo oxigênio mostra que a Hb está aprox. saturada em 90% quando tem pressão parcial de oxigênio de 60 mmhg. Quedas na saturação abaixo de 90% indica quedas muito acentuadas na pressão parcial de oxigênio (parte reta do gráfico). Um indivíduo sem nenhuma doença respiratória prévia ter saturação de 95% já está ruim, já tem um comprometimento importante. Se cair abaixo de 90 é gravíssimo. → SARA FASE AGUDA A lesão inicial na SARA pode ocorrer tanto nas células endoteliais dos capilares pulmonares (o mais frequente), como das células de revestimento alveolar (pneumócitos I, menos frequente). Nas etapas subsequentes, há habitualmente lesão de ambas, resultando em disfunção da barreira alvéolo- capilar e prejudicando grandemente as trocas gasosas. A lesão celular leva a aumento de permeabilidade dos dois tipos de células, permitindo a passagem de fluidos e proteína para a superfície alveolar. Nas fases iniciais, proteínas plasmáticas extravasadas forram parcialmente os alvéolos, formando membranas hialinas. Posteriormente, esse material é removido por fagocitose. Os pneumócitos I lesados são removidos e substituídos por pneumócitos II, que são células cúbicas ou arredondadas, bem mais espessas que os pneumócitos I. Os pneumócitos II proliferados forram os alvéolos à maneira de epitélio. Sendo espessos, dificultam as trocas gasosas. Por fim, há reação inflamatória crônica e fibrose difusa do interstício pulmonar, resultando na fibrose pulmonar difusa. Estas etapas estão demonstradas a seguir. Em pequeno aumento, observam-se poucos alvéolos expandidos. Sua superfície está parcialmente revestida por membranas hialinas. O tecido pulmonar entre estes alvéolos é constituído por alvéolos atelectásicos, infiltrado inflamatório e septos interalveolares edemaciados. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Alvéolo revestido por membranas hialinas. Notar que há grande semelhança do aspecto na SARA com a doença da membrana hialina do RN, embora os mecanismos sejam bem diferentes. Nesta, o mecanismo básico é falta de surfactante. Num mesmo alvéolo podem coexistir as membranas hialinas e hiperplasia regenerativa dos pneumócitos II. Estes tomam aspecto de epitélio cúbico simples revestindo parcialmente a superfície alveolar. Os pneumócitos II proliferam em resposta à lesão dos pneumócitos I. Devido ao estímulo regenerativo, alguns pneumócitos II são hipertróficos, com núcleos volumosos e nucléolos proeminentes. Estes sugerem síntese proteica ativa. Algumas mitoses são observadas. Brandade Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Em vários bronquíolos o epitélio respiratório sofreu necrose e descamou. As cavidades são reconhecíveis como bronquíolos pela musculatura lisa logo abaixo da superfície. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp → SARA FASE SUBAGUDA Neste exemplo, a fase aguda exsudativa da SARA já passou e não se observam mais membranas hialinas. Há lesões nos brônquios e bronquíolos, que podem ser menos ou mais graves. Nas menos graves o epitélio não foi totalmente destruído e encontra-se agora em fase regenerativa. O epitélio em regeneração mostra-se hiperplásico: os núcleos estão dispostos em várias alturas, apresentam certo pleomorfismo e os nucléolos são evidentes. Não há cílios, mas os elementos nobres como cartilagem e musculatura lisa estão preservados. Comparar com o quadro de bronquíolo normal, mais abaixo. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Em outros bronquíolos, a lesão foi mais grave. O epitélio foi totalmente destruído e não regenerou mais. Elementos nobres como cartilagem e musculatura lisa desapareceram. No lugar das estruturas normais observa-se tecido conjuntivo jovem de textura frouxa devida ao edema, e com fibroblastos volumosos. Estas células têm núcleo grande e irregular, frequentemente com nucléolo, e citoplasma evidente, por vezes basófilo (sinais de síntese proteica). Estão dispostas em meio a fibras colágenas delicadas e substância fundamental pálida e amorfa. Em alguns destes bronquíolos há luz, em outros a luz está obliterada. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Bronquíolos normais de outro caso, para comparar. Notar que brônquios e bronquíolos estão sempre próximos a pequenas artérias e arteríolas. Observam-se intensas hiperplasia e hipertrofia dos pneumócitos II, que atapetam os alvéolos à maneira de epitélio cúbico. Nesta fase, as membranas hialinas já desapareceram. Há espessamento dos septos interalveolares por edema. Observam-se mitoses, provavelmente em pneumócitos II. Alvéolos normais de outro caso, para comparar. Notar a delicadeza dos septos interalveolares e presença de macrófagos interalveolares normais (macrófagos residentes). Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp → SARA FASE CRÔNICA Imagens escaneadas da lâmina de pulmão, mostrando aspecto em favos de mel. As pequenas cavidades correspondem a bronquíolos. Entre eles há tecido fibroso no local onde anteriormente havia alvéolos. A isto se chama fibrose pulmonar difusa. As cavidades são, na maior parte, bronquíolos dilatados. Entre eles há fibrose difusa do parênquima pulmonar, com ausência praticamente total de alvéolos funcionantes. Os bronquíolos dilatados estão desepitelizados. Os elementos nobres da parede, como musculatura lisa, cartilagem e glândulas também não estão mais presentes. No lugar deles há tecido conjuntivo neoformado, com fibroblastos proeminentes e intenso edema intersticial. Entre os bronquíolos, onde deveriam estar os alvéolos, também se nota tecido conjuntivo jovem, com fibras colágenas e fibroblastos de aspecto ativo. Nestes, chama a atenção a cromatina frouxa e o nucléolo evidente, indicando síntese ativa de colágeno. O resultado é a chamada fibrose pulmonar difusa, em que o tecido funcionante do pulmão é substituído por tecido fibroso. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Nos poucos alvéolos remanescentes, observa-se intensa hiperplasia e hipertrofia dos pneumócitos II, que aparecem como células arredondadas salientes na luz dos alvéolos. Há espessamento dos septos interalveolares por fibrose e edema. Branda de Oliveira de Lima, Turma LVI - MedUnicamp Pulmão de choque, fase crônica. Este é um pulmão de criança fixado em formol e cortado longitudinalmente. Chama a atenção o aspecto compacto, esbranquiçado e finamente noduloso do parênquima. Isto se deve a intensa fibrose intersticial que ocorre na fase adiantada do pulmão de choque, após a organização das membranas hialinas vistas na fase aguda.