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1 AS BASES DO PENSAMENTO POLÍTICO DE ARISTÓTELES E A FUNDAÇÃO DE UMA FILOSOFIA POLÍTICA Thiago Silva Freitas Oliveira1 Prof. Dr. Luiz Felipe N. de A. e Silva Sahd2 Resumo: O presente trabalho é resultado de uma pesquisa cujo objetivo foi analisar os livros I, II e III da política de Aristóteles buscando demonstrar como a Filosofia Política deste autor concede à Polis a finalidade da existência do homem, demonstrando que somente na cidade-estado o homem será capaz de desenvolver todas as suas capacidades. A Polis será aquela cidade que torna possível a felicidade obtida pela vida criativa da razão (bios theoretikos). À felicidade individual deve corresponder o bem comum e, portanto, uma cidade feliz (polis eudaimon), (1323b30). Diferentemente de Platão, Aristóteles não constrói a idéia de uma cidade paradigmática exterior à história, o que gera o problema entre a cidade ideal e os regimes políticos existentes na época, tema que será tratado no percorrer da pesquisa3. Referir-nos-emos, aqui, à concepção de Polis como o lugar onde os indivíduos podem ser considerados como seres políticos e, desse modo, é somente nela que eles encontrarão a sua realização. Para atingir a atualização de todas as suas possibilidades, o homem deve estar inserido na cidade e essa deve dispor de todos os meios para garantir o soberano bem daqueles que a compõem. A atualização da natureza do homem só pode se dar na cidade, que, nesse caso, é a Polis. O fundamento da existência do homem, bem como o objetivo de sua existência, só pode ser pensado na Polis. Essa visa o bem maior porque abrange outras comunidades menores e possui uma auto-suficiência que as comunidades menores não alcançam. Palavras-chave: Aristóteles; Política; Polis; ética; cidadão 1 Departamento de Filosofia, Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais, Campus Santa Mônica, Bloco 1U, Av. João Naves de Ávila, 2121 – Bairro Santa Mônica CEP 38.408-100 Uberlândia – MG – Brasil, Programa Institucional de Apoio à Iniciação Científica - PIAIC/UFU UFU, tigosofia@yahoo.com.br 2 Departamento de Filosofia, Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais, Campus Santa Mônica, Bloco 1U, Av. João Naves de Ávila, 2121 – Bairro Santa Mônica CEP 38.408-100 Uberlândia – MG – Brasil, Orientador, felipesahd@yahoo.com.br 3 Cumpre notar que entre os estudiosos platônicos há um grande debate sobre a pertinência do alcance desta tese. Em geral ela só é aceita no que se refere à República, mas não no que se refere ao livro das Leis. 2 Abstract: The present paper is resulted of a research whose objective was to analyze the books I, II and III of Aristotle's politics trying to demonstrate how the author's Political Philosophy grants to the Polis it he purpose of the man's existence, demonstrating that only in the city-state, man will be capable to develop all his capacities. The Polis it will be the city that turns possible the happiness obtained by the creative life of the reason (bios theoretikos). The individual happiness should correspond the well common and, therefore, a happy city (you polish eudaimon), (1323b30). Differently of Plato, Aristotle doesn't build the idea of a model city outside to the history, what generates the problem at that time between the ideal city and the existent political regimes, theme that will be treated as the research goes on. We will refer, here, the conception of the Polis as the place where the individuals can be considered as political beings and, in that way, it is only in the city-state that they will find its accomplishment. To reach the updates of wholl its possibilities, the man should be inserted in the city and this should give all the means to guarantee the sovereign well of those that compose it. The updates of the man's nature can only be given in the city, wich, in this case, it is she the Polis. The basis of the man's existence, as well the objective of its existence, can only be thought in the Polis. The Polis seeks the wealth fare state because it embraces other smaller communities and has a self- sufficiency that the smaller communities don't reach. Key-words: Aristotle; Politics; ethics; citizen INTRODUÇÃO É necessário, sempre que se tratar do tema “Política”, remontar às origens do pensamento político grego a fim de descrever melhor como se deu o surgimento dessa ciência que é, indiscutivelmente, uma das maiores contribuições desse pensamento. Todo o vocabulário foi e é construído segundo os conceitos elaborados no pensamento político grego. Portanto, para falar de política é necessário falar daqueles que foram os precursores de tal ciência. Mas o surgimento dessa ciência, bem como de todo o pensamento filosófico da antiguidade, não se deu devido um milagre grego, mas ocorreu de acordo com um período histórico e condições que contribuíram notadamente para o rompimento com a cultura mítica e o surgimento de um novo mundo cujo fundamento podia e deveria ser compreendido por essa razão agora liberta. É preciso notar que o surgimento da política se dá pelo choque ocorrido entre essas condições e 3 o desenvolvimento da Polis que possibilitava a ampliação das potencialidades dessa razão livre, agora também direcionada para o entendimento da vida em comum estabelecida pela Polis e, portanto, capaz de dar uma consciência ao corpo coletivo social justificando sua existência e seu objetivo. Logo, a política surge como a prática da Polis sobre si mesma, capaz de estabelecer seus fundamentos e necessidades. Ela permitiu que surgissem sujeitos históricos capazes de agir sobre essa história de modo a interferir na construção da Polis e pensar a vida política, o que ela poderia ser e o que ela deveria ser. Ao se pretender, também, uma Filosofia Política presente na antiguidade, muito se deve às três considerações anteriormente citadas que permitiram, já na Grécia antiga e mais especificamente em Aristóteles, a objetivação de uma ciência capaz de determinar a vida política mantendo um distanciamento como o característico entre o cientista e seu objeto. Tratar de política é tratar especificamente das coisas ou negócios referentes à cidade considerada no âmbito de sua autonomia, característica de uma entidade capaz de sustentar a si mesma. Eis porque aquele que não se encontra na cidade é incapaz de viver politicamente e encontrar os meios para realizar suas potencialidades. É interessante notar que essa autonomia das cidades ou das Polis não permanece presente em toda a Grécia antiga, mas encontraram no seu auge grandes obras referentes à constituição destas como a aqui referida Política de Aristóteles. A constituição do pensamento político dos gregos se deu com características particulares, e o risco de uma analogia entre o nosso modo de pensar política e o deles é no mínimo um descuido conceitual e cronológico. Fazer referência à construção histórica do pensamento político é uma coisa, reduzir toda a História do pensamento político à compreensão atual de política é um erro. Isso dito porque para os gregos a vida política é mais complexa e ampla do que aquela na qual estamos inseridos. Toda a esfera da vida pública é política para eles. Fazer política é participar da vida comum, uma vez que a política faz parte da comunidade, e é a atividade por excelência. É atividade por excelência, pois só através dela é que o indivíduo será considerado como civilizado e como parte integrante do todo que é a Polis, sua condição de existência e realização de sua finalidade. O homem político deve sempre manifestar as qualidades morais mais elevadas como a justiça, a piedade, 4 a hombridade e principalmente, a amizade4. Desse modo é que se afirma aqui o surgimento daFilosofia Política através do entrelaçamento entre a razão livre característica do pensamento racional, para o qual os gregos se voltaram seguindo determinadas condições, e o desenvolvimento da cidade-estado que manifestou a aurora de uma vida pública participativa capaz de gerar por si mesma as condições necessárias para a realização da natureza humana, ou aquilo que Aristóteles irá chamar de “seu fim”. Apesar das diferentes datas entre século V e século IV, a Grécia não deixaria de experimentar esse entrelaçamento inevitável a despeito das várias divergências entre a filosofia e a Polis, entre a idade de ouro baseada na moral pragmática e reduzida e o livre pensar, entre aquele grande Sócrates e a condenação pela cidade. Contra a perspectiva cronológica, que é claro deve ser respeitada, mas que não considera o processo de desenvolvimento dessa razão política, é preciso notar que dessas discrepâncias emerge o projeto, com referências ao grande homem político do auge da Polis, ou seja, Sócrates, de tornar a 4 Conf. AUBENQUE, P. A prudência em Aristóteles. Trad. Maria Lopes. São Paulo: Discurso Editorial, 2003. Filosofia totalmente Política. É com Platão que vemos o apontamento para uma cidade ideal cujas bases devem ser lançadas sobre essa razão livre capaz de objetivar a política e a atividade política, mas é só em Aristóteles que temos, de fato, uma Filosofia Política. O que parece contradizer a idéia do entrelaçamento exposto acima, posto que Aristóteles já se encontre no fim desse período da Polis clássica, não o é de fato, pois o que foi afirmado é um entrelaçamento não determinado pelo tempo histórico, mas pelo encaminhamento das condições necessárias para a relação sem oposição entre Filosofia e Política. É com Aristóteles que temos um vocabulário específico e totalmente direcionado à prática política sem um distanciamento desta com os conceitos filosóficos uma vez que ele diferencia essa prática política de um saber imutável, e não reduz aquela a esta última. Com Aristóteles temos a valorização das coisas humanas respeitando suas particularidades, pois em si tratando de política, é das coisas humanas que falamos, daquelas que dependem de nós e das variações pertinentes a cada ação individual e contingente, uma vez que são pertinentes à condição de existência da liberdade deste mundo que é nosso, é 5 humano. A cidade real existe sob estas condições e ela deve ser o objeto da Filosofia Política, considerando que a política trata das coisas humanas, não um ideal de cidade que rompe com as contingências presentes na realidade humana e as quais não devem ser descuidadas. Como foi dito por Aristóteles, a política é a suprema ciência da qual dependem o estudo e a efetivação do soberano bem5. Logo, a política trata das condições para o homem realizar sua natureza que tende sempre à felicidade enquanto um fim em si mesmo, e um fim este que somente na cidade e pela cidade o homem será capaz de alcançar. Nota-se ai a relação estreita entre ética e política, mas uma relação que respeita a autonomia de ambas. Sob esse prisma surge a Filosofa Política, que é anunciada pelo autor de Política no livro III, 12, 1282b 23. Essa Filosofia Política surge desde seu início como descritiva e prescritiva. Ela é capaz de fazer uma análise da 5 É sabido que, para Aristóteles, as téchinai não se confundem com a espistéme que é o conhecimento cientifico. Somente a epísteme é capaz de conhecer as causas e os princípios. As ciências em Aristóteles podem ser divididas em práticas (produtivas) ou teóricas. A ciência política em Aristóteles é uma ciência pratica e é a mais elevada entre todas, pois trata doBem Supremo, uma vez que toda ciência trata de um bem respectivo. O bem da ciência pilítica é o supremo, por isso ela é a magna ciência ( 1282b, 14-17 Política). política que se faz até aquela que deveria se fazer. Coloca-se como observadora das relações entre os homens e é capaz de objetivar um modo melhor para estas relações. Em seu comentário bastante detalhado sobre os livros I e III da Política, o professor F. Wolff nota como a relação entre prescrição e descrição é necessária, pois não há prescrição sem descrição. O distanciamento do observador aqui não se dá de modo semelhante ao de um astrônomo, a relação entre descrição e prescrição é de complementação, o que torna mais difícil de diferenciar em uma Filosofia como a de Aristóteles que trata não só de descrever a essência de um ser, mas de dizer para o que sua natureza tende. Por outro lado, Wolff aponta para dois outros tipos de procedimentos presentes na Filosofia Política de Aristóteles, a saber, o especulativo e o positivo. O primeiro preocupa-se mais com o rigor conceitual, a busca pelos fundamentos da cidade e da vida política, em linhas gerais, pretende teorizar a prática política. O segundo parte de realidades empiricamente constatáveis sem ultrapassar a realidade que lhe é posta como objeto específico de analise6. O que nos daria então 6 Aqui, Wolff estabelece duas grandes questões na Filosofia Política de Aristóteles: “ Como são 6 quatro projetos combinatórios na obra política de Aristóteles: uma atividade especulativa ora descritiva ora prescritiva, e uma atividade positiva ora descritiva ora prescritiva. Os livros aqui analisados, bem como toda a obra Política, se enquadram dentro dessas combinações. Desse modo temos os livros I e III segundo uma intenção descritiva partindo de um procedimento especulativo, livros essenciais à abordagem deste projeto. Os livros II, VII e VIII são de intenção prescritiva e procedimento especulativo. O livro IV é de intenção descritiva, mas procedimento positivo e os livros V e VI são de intenção prescritiva e procedimento positivo. Não cabe aqui a discussão sobre a construção completa deste quadro feita por F. Wolff, o que fugiria ao objetivo aqui proposto, nem se cada livro corresponde às respectivas posições estabelecidas por este autor, mas pelo menos aqueles que aqui são abordados parecem-nos que de modo satisfatório se encaixam nas suas posições determinadas. Os livros I, II e III buscam, ao mesmo tempo, determinar os fundamentos de uma as coisas da cidade?” e “ Como elas devem ser?”. É desse modo que Wolff constrói um quadro estrutural com os quatro grandes projetos de Filosofia Política em Aristóteles com base nos oito livros da Política. Conf. WOLFF, Francis. Aristóteles e a Política. p 22- 25 política. O livro I e o III são aqueles considerados como os principais por essa pesquisa, pois manifestam as características da Filosofia Política de Aristóteles ao se referir aos vários tipos de vida social e às várias constituições possíveis. Já o livro II, apesar de adentrar em uma discussão sobre a doutrina platônica das leis e criticar sua republica, procede de maneira a idealizar a cidade perfeita e o melhor regime. Neste livro, em especial, Aristóteles faz um estudo crítico das melhores constituições. É um livro que, em um primeiro momento, parece deslocado devido a grande diferença de conteúdo em relação ao primeiro e ao terceiro, o que nos levará a analisá-lo de modo superficial e apenas para uma complementação da idéia de Filosofia Política presente em Aristóteles justamente por remeter a essa análise do melhor regime ou da melhor politéia, aquela que possui a melhor constituição e é capaz de propiciar a melhor vida política. MATERIAL E MÉTODOS Adotamos aqui, juntamente com o prof. Francis Wolff,uma análise estrutural dos três primeiros livros da Política de Aristóteles a fim de compreender melhor a noção de política 7 levantada pelo autor da obra e o possível entendimento de uma Filosofia Política já presente em seu pensamento. Os textos utilizados foram aqueles presentes nas referencias bibliográficas que se encontram no final deste trabalho, mas é importante destacar entre eles a tradução da Política da editora Gredos, o livro de F. Wolff sobre Aristóteles e a Política, a República de Platão, e o texto de Jaeger. Com todo esse arcabouço bibliográfico, partimos de uma primeira análise de cada um dos três livros da obra mencionados. Após isso, dedicamos a uma interpretação mais detalhada de cada um dos temas levantados nos livros na tentativa de uma nova leitura visando demonstrar a proposta inicial da pesquisa, o que felizmente nos levou a resultados relevantes e ao conceito de deliberação comunicada, estabelecendo uma relação imediata entre a atividade ético-politica e a linguagem em Aristóteles. ANÁLISE ESTRUTURAL DOS PRIMEIROS LIVROS DA POLÍTICA DE ARISTÓTELES O que se fará agora é uma breve análise dos primeiros livros da Política, dos capítulos considerados aqui mais importantes para a compreensão do problema exposto por Aristóteles partindo sempre do texto original e respeitando o arcabouço conceitual criado pelo autor. A análise irá primar os livros I e III por entender que aí se encontra a estrutura fundamental da Filosofia Política aristotélica e as bases de seu pensamento político. O livro I é o menor, mas não menos importante. Possui apenas quatro capítulos distribuídos por temas que pretendem discutir, principalmente, a finalidade e limite da ciência, os elementos da cidade, seu fundamento na família, a sociedade doméstica e suas relações internas, e a posse da virtude7. Já no primeiro parágrafo do capitulo I, Aristóteles propõe uma definição para a cidade e afirma ser esta uma associação visando sempre a um bem, bem esse que será considerado pelo estagirita o supremo. Tal bem só pode ser alcançado pela sociedade política que deve possibilitar e fornecer os meios e condições para a atualização dessa potencialidade da natureza humana. Isso dependerá sempre do tipo 7 Em seu livro Aristote. La justice et la cite, R. Bodéüs diz o seguinte: “ Est d’abord posée la différence spécifique de la communauté politique par rapport aux autres formes de communautés humaines plus restreintes, principalement la famille. Puis se trouve exposée la maniére dont cette communauté procede naturellement des communautés plus restreintes et leur assigne ultimement une fin propre; lê bien, au-delà d’une survie confortable.” P.22. 8 de governo a ser considerado sempre em relação à quantidade de governados. No terceiro parágrafo o autor indica o método a ser seguido a fim de alcançar a definição da cidade perfeita, e o método deve ser analítico “Ficamos convencidos disso se examinarmos a questão de acordo com o método analítico que nos orientou..” (1252a 18- 20), dividindo o problema até elementos simples que representam as partes mínimas do todo. Ao proceder desse modo é que teremos o desmembramento da cidade até chegar à sua constituição fundamental denominada família que por sua vez é constituída de indivíduos. O importante notar aqui é que essa noção de individuo não possui sentido forte, mas apenas conceitual, a fim de indicar a natureza humana que tende, como veremos, à associação e à vida política. Na realidade, Aristóteles coloca o homem no quadro dos seres que não possuem uma existência individual, visto que a natureza sempre o conduz à união e à necessidade de criar um descendente. Assim surge a família, através da união entre homem e mulher, senhor e escravo. A primeira comunidade e a célula que comporá juntamente com outras famílias o todo da cidade. Essa primeira comunidade surge para atender às necessidades diárias imposta ao homem, o que isoladamente ele seria incapaz de conseguir. As necessidades que aqui aparecem encontrarão sua plena satisfação no todo formado por aquela cidade da qual a parte família faz parte. É desse modo que Aristóteles irá empregar seu método analítico que lhe permitirá decompor a cidade até as suas bases para depois proceder de modo inverso e justificar a existência das partes constitutivas somente enquanto componentes desse todo que é anterior segundo a ordem natural e ontológica. Por mais que parta das partes para construir a noção do todo, é somente no todo que Aristóteles terá a compreensão plena do desenvolvimento, o que nos remete a uma noção de História que permite um progresso em direção à realização de determinadas potencialidades. Não cabe aqui uma discussão sobre uma possível Filosofia da História em Aristóteles, mas fica o apontamento para o problema uma vez que está claro que o próprio autor permite essa noção de uma natureza (ou um fim) que tende a se realizar somente no seu fim e ao mesmo tempo constitui a condição para os momentos e as partes que compõe o todo. Para Aristóteles, a primeira sociedade constituída de muitas famílias visando o bem comum é o burgo ou a vila. A união entre as muitas famílias 9 ocorre como algo natural. A sociedade formada por vários destes burgos ou vilas gera a cidade-estado, uma cidade completa que possui todos os meios necessários para a auto-satisfação e para alcançar a sua finalidade dada por natureza que é a existência feliz. É por natureza que estas sociedades existem e promovem a finalidade de bastarem a si próprias. É aqui que encontramos a clássica definição do homem como um animal político por natureza que deve viver em sociedade. Este homem é determinado pela razão que lhe fornece os meios para a ação virtuosa e desse modo realizar uma existência capaz de alcançar o objetivo para o qual ela se dirige. Fica evidente aqui como o conceito de política encontra em Aristóteles uma relação direta com as coisas humanas. A cidade é parte integrante da natureza humana, e esta própria natureza criou as primeiras sociedades8. Elas existem por natureza, por natureza tendem a seu fim, e por natureza fazem parte das coisas humanas. A condição de bastar-se a si mesmo é o ideal natural realizado 8 “Uma cidade conforme a seu conceito não é simples sociedade onde coexistem indivíduos, é comunidade da qual participam cidadãos em vista de viver harmoniosamente juntos” VERGNIÈRES, S. Ética e política em Aristóteles: physis, ethos e nomos. Trad. Constança M. César. São Paulo: Paulus, 1999. dentro da sociedade para a qual o homem tende enquanto um ser social. Por possuir palavra significativa o homem é o ser social por excelência. A palavra expressa o caráter de eticidade das ações humanas. Somente no homem ela permite a distinção entre o justo e o injusto, entre o bem e o mal. É segundo essa ordem da linguagem que o homem é capaz de estruturar o real segundo sua cadeia de significados, fugindo da passividade imposta aos seres desprovidos da deliberação comunicada, e, desse modo, formar o Estado. Entenda-se aqui essa deliberação comunicada como a relação intrínseca entre a linguagem e a ação moral, entre a ação moral capaz de interferir nas relações sociais e uma cadeia de significados que é condição para a efetivação dessa ação. A deliberação comunicada deve sempre se referir à possibilidade da ordenação do real segundo juízos e valores que encontram seu fundamento na relação necessária entre razão subjetiva e mundo objetivo. Cumpre notar que tal conceito não é retirado do autor aqui estudado, mas é um saltoconceitual, com referências neste autor, de ordem necessária para uma possível aplicação da noção de política aqui defendida sob o novo prisma contemporâneo do conceito de atividade política. 10 É esse todo formado pelo Estado anterior segundo a ordem natural, uma vez que o todo é sempre posto antes de cada parte que o compõe. Logo, ele é anterior à família e a cada indivíduo. Só o Estado é por si mesmo e a natureza faz com que todos os homens se associem. Isolado não há homem, mas como diz o próprio estagirita: “... o que há é um ser vil ou superior ao homem.” (livro I, cap. I, §10). Segundo sua filosofia, Aristóteles sempre procurou definir a função de cada ser segundo sua natureza e sua essência. Logo, o Estado deve anteceder por natureza, pois ao compor o todo, ele é quem dá sentido às partes, uma vez que as partes não são capazes de serem por si mesmas. O homem só encontra sua excelência no Estado. O capítulo dois é destinado, principalmente, a análise da economia doméstica e das três classes de indivíduos: marido e mulher; senhor e servo; pais e filhos. Aqui, Aristóteles faz uma defesa da propriedade como um instrumento necessário à vida na Polis e considera o servo como uma propriedade. Não entraremos no debate acerca da justificação aristotélica em favor da escravidão. Há também aqui uma antecipação de um binômio conceitual bastante debatido na modernidade, a saber, produção-uso. Aristóteles afirma serem os instrumentos destinados à produção. já a propriedade é apenas de uso. Para ele, a propriedade é uma existência, e uma existência não necessariamente é produção, mas é uso. Desse modo, o escravo serve para facilitar o uso enquanto uma propriedade do senhor. Segundo o filósofo, existe uma diferença específica entre produção e uso. Assim Aristóteles tenta estabelecer a relação entre servo e escravo. O escravo pertence a outro e é ao mesmo tempo um ser em si distinto deste outro ao qual ele pertence. Ele serve como instrumento de uso separado do corpo ao qual pertence. A escravidão, segundo o estagirita, é natural. A relação entre servo e senhor não é uma simples relação de autoridade e obediência, mas também implica uma relação de utilidade para ambos. Alguns seres são destinados por nascimento a obedecer e outros a mandar. Por outro lado, temos a obediência do corpo ao espírito, da parte apetitiva à inteligência e à razão9. É também por se tratar de seres incompletos que essas relações são estabelecidas, mas sempre tendo em 9 Segundo Vergnières, a virtude ética está para além da continência e do domínio de si, pois ele implica a total eliminação dos excessos e vícios. Para alcançar a verdadeira virtude é necessário a paidéia da criança pequena e a passagem do homem da continência à temperança. O homem temperante é aquele cuja faculdade de desejar é unificada e consoante ao logos. Id., p.129-130. 11 vista um bem comum e supremo. Enquanto o senhor é capaz de prever pelo pensamento, o escravo é capaz de executar pela força. O senhor necessita do escravo na medida em que este é capaz de executar e o escravo precisa de alguém que lhe dirija as ações concebendo o que deve por ele ser feito. Logo, um tem necessidade do outro para satisfazer suas necessidades cotidianas, imediatas e que dizem respeito às coisas domésticas. Ainda referente á discussão sobre a economia doméstica, Aristóteles trata também da relação entre o marido e a mulher e estabelece também entre eles uma distinção hierárquica dada por natureza a favor do homem. Segundo ele, o homem é dotado por natureza de uma perfeição maior que a da mulher que deve por natureza obedecer ao homem. É por natureza também que esses dois seres se unem sempre tendo em vista a procriação, e porque um não pode viver sem o outro, ou melhor, nenhum dos dois pode viver isolado. Como diz Wolff, essa união possui quatro características essenciais que lhe dão um sentido muito específico. Primeiro, é uma relação estabelecida pela natureza a todo macho e a toda fêmea, desse modo, vale para todos os animais, não fugindo o homem dessa determinação. Segundo, existe nessa relação uma necessidade intrínseca, dado que um não pode existir sem o outro, uma necessidade tomada como condicional, ou seja, aquela que concerne aos seres submetidos ao devir, essa necessidade implica que uma coisa não pode ser ou ser boa sem outra, é sempre uma necessidade dos meios em vista de um fim, ou seja, ela estabelece uma relação de complementaridade. Sem esta união, ambos não alcançarão o fim para o qual eles existem. O terceiro se refere à conseqüência natural dessa união que é a procriação. O que não quer dizer que essa relação seja reduzida a isso. Homem e mulher não vivem para somente preencherem essa carência, mas através da procriação é que eles continuam existindo, o que é bem diferente do fim para o qual eles existem que é a vida feliz. Logo, sem união não há procriação, sem procriação não há a continuidade da espécie, sem essa continuidade o homem deixa de existir para o seu fim. É assim que o homem pode perpetuar sua forma que não se sujeitará ao devir e se tornará uma extensão eterna da definição que lhe é própria, e essa é a quarta característica dessa união, a tendência a deixar semelhante com o intuito de perpetuar a espécie e o seu eidos. Biologicamente homem e mulher se completam e se unem em direção ao fim 12 maior para o qual existem. Através dessa perpetuação, os homens criam uma unidade que suplanta o devir presente nos seres individuais ao conceder à continuação, através da espécie que contém a forma, uma existência que conserva a identidade. A relação entre pai e criança é fundada em uma diferença natural de idade e exercida através da afeição. Temos então três tipos de relações que fundam a família segundo Aristóteles: 1) a relação entre homem e mulher ou conjugal, que ocorre de maneira horizontal, mas com a predominância do homem; 2) a relação entre senhor e servo, que ocorre de maneira vertical e diz respeito às relações econômicas dentro da família; 3) e a relação entre o pai e a criança, que ocorre também de maneira vertical segundo a ordem natural da idade, relação chamada de parental. Tais relações estabelecem uma distinção entre três tipos de poder, a saber, um poder político exercido pelo marido sobre a mulher, mas entre seres iguais e livres, um poder régio, exercido pelo pai sobre as crianças, entre seres livres mas desiguais, e um poder despótico, exercido pelo senhor sobre o escravo, sobre seres que, por natureza, não são livres. É através de seu método analítico que Aristóteles chega a esses três elementos base que constituem a unidade do vilarejo e da cidade. Essas três comunidades elementares, que segundo a ordem cronológica são anteriores à cidade, mas lhe são posteriores segundo a ordem natural, fornecem a condição necessária para Aristóteles construir o seu conceito de uma cidade enquanto condição para a existência e realização dos indivíduos e como o fim a que eles se dirigem. Ao desmembrar a primeira comunidade, Aristóteles está apto para analisar a segunda: o burgo, ou vilarejo. Da comunidade familiar os homens passam ao vilarejo. Na sua reconstrução da genealogia da cidade, Aristóteles encontra através do desenvolvimento natural da primeira comunidade o burgo ou vilarejo que seria a reunião de várias famílias a fim realizar mais satisfatoriamente as necessidades cotidianas, mas não está reduzida a essa simples satisfação, pelo contrário, cria novas relações como a administração da justiça e das celebrações religiosas. Desse modo, a comunidade do vilarejo estabeleceuma autoridade ainda maior que aquela presente na família, autoridade essa capaz ordenar o vilarejo no cumprimento dessas outras necessidades. Dentro dessa nova sociedade, o poder constitutivo será um 13 dentre os homens que compõem esse vilarejo e que é naturalmente superior aos outros, sendo capaz de reunir os vários lares a fim de formar o vilarejo. Após isso, o nível seguinte será o da cidade ou Polis. A cidade é a ultima das comunidades naturais, é o apogeu, e só com ela temos a autarquia de modo completo. Ela é capaz de realizar todas as potencialidades dos homens que nela vivem, pois ela promove a tendência natural do homem ao fim por excelência que é a felicidade. Cada comunidade anterior tinha uma existência em função da satisfação de algumas necessidades, e uma após outra foi surgindo para satisfazer aquilo que a anterior não era capaz de fazê-lo. É a Polis, aquela capaz de realizar todas as potencialidades dos indivíduos. Somente a cidade é autárquica, ou seja, auto-suficiente. Ela se coloca no fim de um projeto histórico construído pela natureza do homem que tende a essa união e a formar uma comunidade maior que as primeiras a fim de realizar todas as satisfações, uma vez que só ela é capaz de suprir todas as carências dos seres humanos. É para essa autarquia que a comunidade da cidade existe e para a autarquia ela conduz seus cidadãos, para uma ευδαιµονια que em grego significa bem viver, em outras palavras, só na cidade o homem será capaz de encontrar a verdadeira felicidade. Eis porque a cidade é seu próprio fim, pois ela confunde sua natureza com sua própria existência, e desse modo, faz com que os homens realizem o projeto histórico de sua natureza e de sua existência. Percebe-se uma teleologia política em Aristóteles condicionada ontologicamente. Existem seres cujo fim da existência é a autarquia e o meio para alcançar é a cidade que desse modo se torna também o fim dessa natureza, posto que ela permite a realização dessa natureza fazendo com que a existência dos homens se dirija para a realização desse fim. Se associar em comunidades é natural aos homens. Essas associações desembocam na construção histórica de uma cidade decorrente dessa natureza humana política. A cidade está potencialmente presente no inicio desse projeto dado naturalmente, ela se constrói mediada pelas primeiras comunidades e é o acabamento, o fim do desenvolvimento em direção a autarquia, tornando essa possível. A cidade é para si mesma e em si mesma. Tomado enquanto individuo, o homem é impossibilitado de realizar todas as suas necessidades, sejam naturais ou artificiais. Não pode haver a noção de individuo anterior á noção de uma associação, uma vez que naturalmente 14 os homens, sendo políticos, tendem a formar uma associação cuja função é tornar esse homem um individuo inserido em uma sociedade capaz de realizar suas necessidades. Isto ocorre dado que o grande fim da natureza do homem é a felicidade, e, segundo Aristóteles, só encontra a felicidade aquele que alcança a autarquia e consegue bastar a si mesmo, e essa condição da existência do homem se confunde com o fim da cidade. Um homem sozinho é carente, incompleto. Logo, ao se tratar de seres de carências, é somente na união que estes encontrarão os meios para realizar as satisfações. Portanto, seguindo a definição da natureza do homem, este não poder ser fora da comunidade, e mais, ele só é nela e por ela. Na comunidade política o homem atinge o ser plenamente, pois ela basta a si mesma e permite ao homem alcançar esta autarquia. Surge desse modo uma discussão direta com aqueles que não afirmam essa natureza do homem, ou seja, viver em sociedade, e de que esta realmente exista naturalmente. Se tomado isoladamente o homem é um ser carente, e essa carência esta presente naquele homem que naturalmente tende a satisfazê-las, o objetivo será a autarquia que é justamente a satisfação dessas necessidades. A comunidade se coloca então como natural porque todas as outras, enquanto meios para a satisfação das necessidades, são também naturais e parte do desenvolvimento histórico em direção àquela comunidade política capaz de realizar o fim da natureza humana de modo completo e perfeito. Aqui uma discussão se interpõe, a saber, se a proposta aristotélica também não passa de um projeto idealizado de um Estado hipotético que se coloca contrário até mesmo ao tipo de Estado no qual ele estava inserido, ou se, por outro lado, essa proposta não passa de uma tematização teórica baseada realmente em dados fornecidos pela experiência que lhe mostrou os diversos tipos de constituições e, portanto, não é um projeto idealizador, mas uma leitura dos fundamentos da sociedade política enquanto objetivo e condição para a existência do individuo. Colocamos-nos dentro da segunda via exposta, uma vez que Aristóteles põe termo à separação entre política e Filosofia. Com ele, as coisas humanas passam a fazer parte da Filosofia, inclusive a política, e, desse modo, ele permite uma nova ciência, capaz de determinar os fundamentos da vida publica e das cidades. No mais, a comunidade política se coloca como o fim do movimento natural das outras, o 15 fim do desenvolvimento histórico cujo projeto é a plena realização das satisfações na vida autárquica. Todas as outras comunidades tendem a essa que é a única capaz de bastar a si mesma. A primeira comunidade, ou a família, tende ao vilarejo que é a segunda comunidade, que por sua vez, tende à cidade, sendo essa a atualização das potencialidades encontradas nas anteriores e aquela que não tende a nenhuma outra, mas ao bastar a si mesma permite a vida feliz de todos aqueles cidadãos que dela fazem parte. Logo, a cidade se coloca como aquela que finda o devir das outras comunidades realizando plenamente sua natureza. Encontramos aqui a relação sempre presente na filosofia aristotélica entre potência e ato. Não existe nada em ato que antes não tenha sido em potência. Logo, a atualização das outras comunidades é a cidade, na qual encontramos reunidas as potencialidades presentes nas comunidades anteriores. Desse modo, a mudança é um movimento histórico cujo projeto é a realização da natureza humana e que só alcança seu fim na efetivação da cidade. Ainda, a natureza de um ser tende para o seu bem, no caso dos homens, eles tendem à felicidade, bem como a cidade tende à autarquia. Aquilo para o que um ser se dirige é ao mesmo tempo aquilo que determina o seu ser, e somente o fim da cidade é perfeito. O bem a que nos referimos aqui é aquele que é bom por si mesmo, e nunca em vista de outra coisa. A diferenciação é importante, pois diz respeito ao bem visado pela cidade, que é um bem em si. Um bem que visa outra coisa diferente de si mesmo, tem que necessariamente ser considerado inferior àquilo que ele visa. O único bem ao qual visamos como um fim em si mesmo é o bem soberano e aquele que somente na cidade podemos alcançar, pois ela é condição para a felicidade e para a existência dos indivíduos. Desse modo, fica explicito como a natureza humana tende à união em comunidade. Naturalmente somos levados a suprir nossas carências criando meios para tal e cada comunidade, desde a família até a cidade, marca um progresso dessa busca pela autarquia, ou seja, o bem supremo que nos permite realizar todas as necessidades e alcançar o fim que é por si mesmo: a felicidade. Aristóteles deixa bem claro isso no início de sua Ética á Nicômaco: “Toda arte e todo procedimento, assim como toda ação e toda escolha tendem para algum bem, segundo a opinião geral. Por isso declara-se, com razão, que o Bem é aquilo para o que todasas coisas 16 tendem. Mas há uma diferença entre os fins: alguns consistem em atividades; outros, em obras distintas das próprias atividades” 10. O fundamento da Ética aristotélica é o mesmo de sua metafísica, para a qual todo ser tende necessariamente à realização da sua natureza, à atualização plena da sua potência: e nisto está o seu fim, o seu bem, a sua felicidade. Por ser dotado de razão, e uma razão deliberativa, realiza ele a sua natureza vivendo racionalmente e sendo disto consciente. A felicidade é alcançada mediante a virtude, que é precisamente uma atividade conforme a razão. Logo, o fim do homem é a felicidade, a que é necessária à virtude, e a esta é necessária à razão. A virtude é ação consciente segundo a razão, que exige o conhecimento absoluto, metafísico, da natureza e do universo, natureza segundo a qual e na qual o homem deve operar. Percebe-se como surge ainda na Grécia antiga a necessidade de dominar a natureza através da razão, de criar os mecanismos necessários para o homem se sobrepor à natureza. Esse soberano bem pode ser entendido de dois modos: de modo relativo, ou seja, referente aos que lhe 10 ARISTÓTELES. Ética a Nicomaco. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. Trad., coment. 4. ed. -São Paulo : Nova Cultural, 1991. antecedem, mas sempre lhes sendo superior, ou de modo absoluto, ou seja, totalmente bom por si mesmo, bastando a si mesmo. Todas as outras coisas visam ao soberano bem, mas ele mesmo não visa mais nada. Todas as outras coisas são boas graças a ele, e são boas no sentido do movimento já elucidado, ou seja, na busca da atualização de suas potencialidades. Tudo que é bom é bom em si ou para outra coisa. Somente o bem soberano é bom em si mesmo. Parece haver aqui um padrão referencial nos textos de Aristóteles, pois existe para a ação ética um ser supremo que regula as ações e é o ponto referencial destas, e existe na metafísica uma substância, ou um ser enquanto ser, que garante a existência de outros seres. Logo, o bem soberano nunca é relativo a outro, mas é em si. Tem-se assim uma comparação entre a metafísica e a ética aristotélica, o lugar que a substância ocupa na metafísica seria o mesmo que o bem soberano ocupa na ética. O bem supremo é duplamente soberano, pois é a realização de todas as carências humanas e é ao mesmo tempo a perfeição absoluta, a autarquia. Por não bastarem a si mesmos é que os homens se associam em comunidade, e a comunidade auto-suficiente é a cidade ou Polis que, desse modo, se coloca ontologicamente natural. É um ser 17 natural e necessário para a realização humana. Só nela o homem é efetivamente ele mesmo sem carência. A cidade não é tomada como original por Aristóteles, uma vez que na construção genética ela aparece como a ultima das comunidades, mas ela é natural ao homem. Ser natural não implica em ser em primeiro lugar, mas que faz parte da definição da coisa. A cidade, em oposição aos filósofos da política clássica moderna, faz parte de um desenvolvimento originário característico de um estado de imperfeição do homem que tende a se associar. Não existe aqui uma distinção entre um Estado de natureza e um Estado civil enquanto efeito de uma convenção. Há na natureza do homem essa tendência a viver em cidades e ao realizar essa tendência, o homem tende ao seu próprio bem. Noções de homem solitário e feliz, de um estado natural diferenciado de um estado civil, bem como de uma liberdade natural diferenciada de uma liberdade civil, não são admissíveis para a política grega menos ainda para a Filosofia Política de Aristóteles. Não existe uma noção de individuo independente da cidade, uma noção que expresse um ser completo e acabado. Assim se equiparam, por exemplo, Protágoras e Hobbes, os quais admitem uma noção de indivíduo rebelde por natureza a qual se opõe à noção aristotélica de indivíduo inacabado e que tende por natureza à vida política. Essa incompletude natural do homem faz com que ele necessite do outro ser semelhante a ele e imperfeito. Desse modo, a cidade, enquanto possui uma existência natural, possui também a razão de ser homens. E o homem é o animal político por exigência, pois só ele é capaz de colocar em comum os valores do homem comum. Só o homem é dotado de logos capaz de expressar esses valores. Logo, o homem possui o logos naturalmente e desse modo pode estabelecer uma relação de valor com outro semelhante a fim de preencher suas carências. O homem é um animal político e sociável no sentido forte, pois só ele é capaz de associar com base em valores morais. Nenhum valor moral tem sentido fora da vida comum. Polis e logos exercem papéis de importantes na natureza do homem. Cumpre notar que esse animal político possui características morais que só ele é capaz de expressar enquanto um ser dotado de fala. A política de Aristóteles é estritamente ligada à sua ética. Ambas, em conjunto, definem as características que devem ser manifestas no bom cidadão. É dentro da sociedade política, e somente com prudência e virtude moral que o 18 homem conseguirá alcançar seu fim natural que é a felicidade. A ação virtuosa do bom cidadão da Polis é reconhecida naquele que segue a virtude moral que determina os bons princípios da ação e age de modo prudente. Só assim esse homem encontrará a felicidade que a Polis deve, naturalmente, lhe proporcionar. Ao definir a virtude moral como uma condição para a realização desse homem político, Aristóteles inaugura uma Filosofia Política ligada ao homem inserido na Polis. Esse homem virtuoso não é distinguido da sociedade como em Platão, mas um homem político esclarecido e consciente de sua natureza. Não há a distinção entre um conhecimento superior e imutável e a pratica humana. Logo, a Filosofia Política de Aristóteles parte das próprias coisas humanas para elevar daí a virtude moral do bom cidadão. A busca da prudência não é estranha à atividade política que gera uma separação entre esta e a Filosofia assim como queria Platão. A busca da prudência é necessária à atividade política interna da Polis e que é considerada por Aristóteles como a atividade por excelência. Essa é a principal discussão presente no livro III da Política, livro que é considerado aqui como o principal de toda a obra. Nele, o estagirita retoma toda essa discussão acima citada e já desenvolvida em sua ética. È também nesse livro que Aristóteles estabelece a relação entre a virtude moral e a atividade política ligada à noção do regime ideal. O regime ou constituição é o principio máximo da associação política, constituindo sua forma e estrutura organizada de modo a estabelecer, de acordo com o tipo de governo, uma soberania. Mas antes de desenvolvermos de modo mais detalhado esses problemas, façamos um breve levantamento dos principais capítulos e seus temas para assim obtermos uma melhor referência. O capitulo I se inicia definindo o governo ou a constituição política como sendo uma ordem estatuída entre aqueles que moram na cidade. Mas cabe definir quem são esses moradores das cidades e para isso, Aristóteles terá de definir o que é o cidadão, pois a cidade é um conjunto de cidadãos. É nesse sentido que ele irá buscar a idéia absoluta de cidadão, chegando à conclusão de que esse deve ser aqueles que podem ser juiz e magistrado. Todos os que participam da magistratura são cidadãos. Mas cumpre notar com Aristóteles que o cidadão não é o mesmo em todas as formas de governo, por isso cabe procurar e encontrar a 19 melhor forma de governo e o cidadão que lhe corresponde. No capítulo II, Aristóteles passa a investigar se a virtudedo homem de bem é a mesma do bom cidadão. Na Polis, é necessário que a virtude do cidadão esteja em relação direta com a forma política que lhe corresponde. Nesse sentido, a virtude perfeita caracteriza o homem de bem, já a do bom cidadão, dependendo das formas de governo, pode não possuir uma virtude perfeita e uma. A melhor forma de governo seria aquela na qual a virtude de todos fosse a do bom cidadão, sendo uma condição essencial da politéia perfeita. É importante essa distinção, pois a cidade é composta de partes diferentes que caracterizam seus componentes: razão e desejo referem-se à alma; a família refere-se ao homem e a mulher; e a propriedade refere-se ao senhor e escravo. A cidade engloba todos esses elementos distintos. Logo, é necessário que a virtude não seja idêntica em todos os cidadãos. Tanto se justifica essa idéia em Aristóteles que no capitulo seguinte ele afirma não ser necessário erguer ao grau de cidadão aqueles que a cidade precisa para existir, mas somente aqueles que participam do serviço público. No capitulo IV Aristóteles definirá a constituição de um estado como sendo a organização regular de todas as magistraturas. Para ele, a constituição mesma é o governo. No capítulo VII temos a famosa distinção das várias formas de governo. Essa distinção estabelece seis tipos que Aristóteles estabelece, sendo três considerados os normais: a realeza, a aristocracia e a politéia; e três sendo considerados os anormais: a tirania, a oligarquia e a democracia, sendo todas estas constituições viciadas e que vêem o interesse ou apenas do monarca ou dos ricos ou dos pobres. Discussão que permanecerá até o capitulo VIII. Em resumo, o livro pode ser dividido em quatro blocos. Dos capítulos I a V, temos a pesquisa sobre o cidadão, a virtude cívica e a cidade. Dos capítulos VI a VIII, temos a distinção entre os diferentes regimes políticos. Dos capítulos IX a XIII, o autor faz uma analise sobre a distribuição do poder. Dos capítulos XIV a XVII Aristóteles estuda a realeza. Todas as partes devem ser sempre remetidas á parte principal ou discussão essencial do livro que é a essência dos diferentes regimes políticos e a relação da atividade política virtuosa com a forma de governo. A classificação dos regimes será feita no capitulo VII seguindo a 20 definição de regime dada no capitulo VI e a finalidade da vida política. Em primeiro lugar terá de definir o regime (politéia) que para ele é a organização de diversas magistraturas e sobre tudo daquela que é soberana entre todas: o governo da cidade (1278b 9-10). Existe uma relação entre poderes. Entre os poderes deliberativos ou de decisão política e o poder central que é o governo. Nesse capitulo, Aristóteles identificará a constituição com o governo e poderá assim distinguir os tipos de governo de acordo com a soberania no capitulo conseqüente. Desse modo, no capítulo VII ele distinguirá um regime no qual o poder é exercido por um só em vista de todos e chamado de realeza; o regime no qual o poder é exercido por alguns tendo em vista todos, chamado de aristocracia; e o regime no qual é exercido o poder pela massa dos cidadãos com interesse a satisfazer a vontade geral, chamado de governo constitucional11. Esses três são considerados os regimes sadios. Mas existem três outros que são 11 Essa é comumente chamada de politéia. Tal regime não possui nome específico segundo Aristóteles, mas aqui se refere ao bom regime popular que está de acordo com a essência da vida política, e, por isso, Aristóteles lhe concede o nome genérico e comum a todos os regimes. Esse regime expressa a essência da cidade na qual todos os cidadão governam fazendo da Polis a condição última de sua existência e necessária à realização de seu fim. considerados como a perversão dos três primeiros, estes são: a tirania, que é o governo de um só com interesse pessoal e corresponde à perversão da realeza; a oligarquia, que é o governo de alguns com interesse próprio e que corresponde à perversão da aristocracia; e a democracia ou demagogia, que é o governo da massa popular em vista de seu interesse, ou apenas dos pobres e que corresponde à perversão do governo constitucional. O ideal de suprema felicidade da cidade-estado implica, dentro do regime político, a noção de virtude política (arché politiké) que deve ser buscada pelo legislador, uma vez que a associação política é feita em vista da vida melhor e não do interesse de poucos. Para alcançar essa eudaimonia, o legislador, em primeiro lugar, deve criar as condições para o cultivo desta em sociedade. Nesse sentido, o melhor regime será aquele que depositar na lei a soberania e não no homem que está sujeito ás paixões. A lei estabelece os parâmetros para o que deve e o que não deve ser para a comunidade. CONCLUSÃO A POLIS COMO CONDIÇÃO PARA A FELICIDADE DO INDIVIDUO 21 Para Aristóteles, o bem do individuo coincide com o bem da cidade. A felicidade e a melhor constituição são o fim último da existência do individuo e a realização da natureza deste. Logo, a comunidade perfeita é retratada na sua constituição que permite a realização dos ideais legislativos. A Polis virtuosa pressupõe cidadãos virtuosos e é aquela capaz de realizar a natureza humana de acordo com suas potencialidades éticas e dianoéticas. É a Polis uma cidade-estado (Koinonia), possuidora de fins que lhe são próprios e, assim sendo, é um ser autárquico, pois permite a realização da natureza humana que coincide com seu próprio fim. É na Polis que o bem maior será encontrado, uma vez que ela encerra em si os meios e as condições para a realização dos intentos de cada comunidade que lhe é anterior. A autarquia é uma característica exclusiva da cidade-estado, que é a comunidade perfeita surgida da reunião das comunidades que lhe precedem na ordem do tempo. Ao operar com o método analítico, Aristóteles remonta a uma ordem genética que nos leva às comunidades originarias e destas à cidade, mas essa não é a ordem natural. Isto porque o devir caminha no sentido contrário da realidade, pois o fim é princípio. Assim como em Hegel, a historia de um ser é a atualização de suas potencialidades e a efetivação de sua natureza. A natureza humana se confunde com o seu fim e esse só é alcançado na Polis. O ser tende a se tornar, na Polis, aquilo que ele é naturalmente. Logo, o todo é necessariamente anterior à parte, pois só o todo possui independência ontológica. A cidade-estado pode existir sem o individuo, porem o individuo não pode existir sem a cidade-estado. O todo dá sentido às partes. O final possui a razão de ser do começo12. O desenvolvimento do homem em direção à realização de sua natureza é um desenvolvimento naturalmente político, e esse culmina na Polis, a cidade-estado, única que é por si mesma e capaz de propiciar a plena realização e efetivação das potencialidades do homem tornando-o apto a alcançar o bem soberano. É nela que o homem encontra sua felicidade. Mais que sua subsistência, a Polis fornece aos homens a completude vital para a sua realização. Fora da Polis não há individuo. Ou é um 12 Uma comparação com os contratualistas se torna inevitável, uma vez que estes concebem os homens antes de qualquer associação política, capazes de viverem livres e isolados, capazes de serem individualmente homens. Tal proposta se coloca de modo oposto a que aqui defende Aristóteles e a qual afirma a existência do homem enquanto individuo condicionada pela Polis. 22 ser superior e auto-suficiente, o que por natureza o homem não é, ou é um animal selvagem ou umdeus. Por isso o estagirita afirmará ser a comunidade perfeita aquela que reúne as varias vilas formando a cidade, cuja função é produzir as condições de uma boa existência. Logo, toda cidade é natural, precedendo à família e a cada individuo tomado separadamente. Algumas condições ideais são importantes na consideração do Estado: uma diz respeito à população, pois ela deve ser na justa medida, nem exígua nem numerosa. Outra diz respeito ao território, que deve ser capaz de fornecer o necessário à vida mas sem ser muito extenso. Deve também ser fácil de defender. Outro se refere à qualidade dos cidadãos, que devem possuir uma virtude política necessária à vida em comunidade. É importante a existência de varias funções internas à cidade, capaz de movimentá-la e sustentá-la. Funções estas que, segundo Aristóteles, todos os cidadãos deverão realizar. Dentre todas as condições a principal ou essencial será a virtuosidade de cada cidadão. Uma cidade torna-se feliz na medida em que cada cidadão é virtuoso13. 13 Sobre esse ponto é importante notar como Aristóteles aplica aqui sua teoria das quatro causas ao afirmar ser a causa material da ação o A virtude é virtude de caráter ou força de caráter educado pela moderação para o justo meio ou justa medida. A virtude não é uma inclinação (o desejo é inclinação natural), mas uma disposição. Não é uma aptidão, é um hábito adquirido ou uma disposição constante e permanente para agir racionalmente em conformidade com uma medida humana. A tarefa da ética juntamente com a política é orientar-nos para aquisição desse hábito, a educação do caráter, tornando-nos virtuosos e, se possível, prudentes. A prudência orienta a escolha, isto é, a deliberação racional porque é capaz de discernir o bom e o mau nas coisas e as relações convenientes entre meios e fins. Portanto a virtude ética é: uma disposição interior constante que pertence ao gênero das ações voluntárias feitas por escolhas deliberadas sobre os meios possíveis para alcançar um fim que está ao alcance ou no poder do agente e que é um bem para ele. Sua causa material é o éthos do agente, sua causa formal, a natureza racional do agente, sua causa final, o bem do agente, sua causa eficiente, a educação do desejo do agente. É a disposição voluntária e ethos, a causa formal a natureza racional do agente, a causa eficiente a educação e, por fim, a causa final o bem. 23 refletida para a ação excelente, tal como praticada pelo homem prudente. Logo, a cidade deve proporcionar as condições para cada cidadão alcançar essa vida virtuosa que é necessária para se alcançar a felicidade. Como o próprio Aristóteles diz na sua ética a respeito da virtude e da prudência considerando-as como condição para a felicidade: Quanto à prudência, poderíamos apreender (o que ela é) considerando quais homens qualificamos de prudentes. É nossa opinião que é prudente aquele que é capaz de bem deliberar sobre as coisas boas e úteis para si, e isso não de maneira parcial, como, por exemplo, que coisas são boas para a saúde e para a força física, mas com respeito ao bem- viver em sua totalidade. São também prudentes aqueles que sabem calcular em vista de algum fim honesto relativamente ao qual não há nenhuma arte. De maneira, geral, o homem prudente é aquele que sabe deliberar (...). A prudência não é nem ciência nem arte. Não é uma ciência porque o objeto do agir pode ser diferentemente do que ele é; não é uma arte porque agir e fabricar são diferentes quanto ao gênero. A prudência é uma disposição prática, estável e razoável concernente às coisas boas e más para o homem. (Aristóteles, Livro VI, Ética a Nicômaco). Enfim, a cidade é uma comunidade soberana que permite realizar primeiro a autarquia econômica e depois a autarquia ética dos cidadãos. A Polis é uma pluralidade cujas partes ou elementos encontram a realização de suas potencialidades e que, determinada por uma constituição, proporciona uma simples existência econômica e uma vida ética e política. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARISTÓTELES. Ética a Nicomaco. Trad. Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. Trad., coment. 4. ed. -São Paulo : Nova Cultural, 1991. ____________. Física. Trad. Guillermo R. de Echandia. Madrid: Editorial Gredos, S. A., 1995. ____________. Politica. Intr., trad. y notas de M. García Valdés. Rev.: M.ª L. Inchausti Gallarzagoitia. Madrid: Editorial Gredos, S. A., 1995. ARISTÓTELES. La Metaphysique. Tradução e comentários de J. Tricot. Nova Edição. Paris: Vrin, 1953. Tomo 1, Livro 4-25. AUBENQUE, P. A prudência em Aristóteles. Trad. Maria Lopes. 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