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Evandro Castro Pedro Ricardo Souza Cerqueira Paulo Teixeira de Sousa Gestão de estoques e ArmAzenAGem *Todos os gráficos, tabelas e esquemas são creditados à autoria, salvo quando indicada a referência. Imagem da capa: © Macrovector // Shutterstock. Informamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem autorização. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do Código Penal. Copyright Universidade Positivo 2018 Rua Prof. Pedro Viriato Parigot de Souza, 5300 – Campo Comprido Curitiba-PR – CEP 81280-330 Presidente da Divisão de Ensino Reitor Pró-Reitor Coordenação Geral de EAD Coordenação de Metodologia e Tecnologia Autoria Supervisão Editorial Parecer Técnico Validação Institucional Layout de Capa Prof. Paulo Arns da Cunha Prof. José Pio Martins Prof. Carlos Longo Prof. Everton Renaud Profa. Roberta Galon Silva Prof. Evandro Castro Pedro Prof. Ricardo Souza Cerqueira Prof. Paulo Teixeira de Sousa Bianca de Brito Nogueira Carlos César Ribeiro Santos Regiane Rosa Valdir de Oliveira DTCOM DIRECT TO COMPANY S/A Análise de Qualidade, Edição de Texto, Design Instrucional, Edição de Arte, Diagramação, Imagem de Capa, Design Gráfico e Revisão Textual Ícones Afirmação Contexto Biografia Conceito Esclarecimento Dica Assista Curiosidade Exemplo Sumário Apresentação .................................................................................................................. 12 A autoria .......................................................................................................................... 13 Capítulo 1 Gerenciamento de estoques: visão geral ........................................................................ 17 1.1 Introdução ao gerenciamento de estoques ............................................................... 17 1.1.1 O gerenciamento dos estoques ...............................................................................................................................18 1.1.2 A armazenagem de materiais ................................................................................................................................ 20 1.1.3 Motivações para redução dos estoques ................................................................................................................ 21 1.2 O propósito da armazenagem de materiais ..............................................................21 1.2.1 A dinâmica da demanda e a necessidade de estocagem ..................................................................................... 22 1.2.2 Estocagem nos canais de distribuição .................................................................................................................. 23 1.2.3 Noções de trade-off entre custos e satisfação do cliente .......................................................................................24 1.2.4 Decisões na gestão de estoques ........................................................................................................................... 26 1.3 Sistemas de armazenagem .......................................................................................27 1.3.1 Tipologia dos estoques .......................................................................................................................................... 27 1.3.2 Funções do sistema de estocagem ....................................................................................................................... 29 1.3.3 Armazéns gerais .................................................................................................................................................... 30 1.3.4 Documentação e considerações legais sobre armazéns ........................................................................................31 1.4 Alternativas de estocagem ........................................................................................31 1.4.1 Armazéns para granéis .......................................................................................................................................... 32 1.4.2 Armazéns para mercadorias em geral .................................................................................................................. 32 1.4.3 Armazéns com temperatura e ambientes controlados ......................................................................................... 33 1.4.4 Miniarmazéns, armazéns alugados e armazenagem temporária ......................................................................... 34 Referências ......................................................................................................................35 Capítulo 2 Estratégias de estoque ....................................................................................................37 2.1 Quanto e quando pedir ..............................................................................................37 2.1.1 A importância do tamanho do lote........................................................................................................................ 38 2.1.2 A coordenação entre oferta e demanda ................................................................................................................ 39 2.1.3 A coordenação da produção .................................................................................................................................. 40 2.1.4 Impacto da localização dos estoques .....................................................................................................................41 2.2 Técnicas de previsão de demanda ............................................................................42 2.2.1 A relevância da análise e previsão da demanda .................................................................................................... 42 2.2.2 Tipologia das previsões de demanda: qualitativa versus quantitativa .................................................................. 44 2.2.3 Principais técnicas quantitativas ........................................................................................................................... 45 2.2.4 Escolhendo o modelo de previsão da demanda ................................................................................................... 50 2.3 O lote econômico e suas restrições ...........................................................................51 2.3.1 Os custos de armazenagem ...................................................................................................................................51 2.3.2 O cálculo do lote econômico ................................................................................................................................. 54 2.3.3 O lote econômico com descontos de preços e do frete ........................................................................................ 55 2.3.4 Restrições ao lote econômico ................................................................................................................................ 58 2.4 Ponto de pedir e sua reposição .................................................................................59 2.4.1 O ponto de pedir e suas variações ......................................................................................................................... 59 2.4.2 Nível de reposição e intervalos de revisão fixos .................................................................................................... 60 2.4.3 MRP – material requirement planning ...................................................................................................................61 2.4.4 Estoques de segurança ..........................................................................................................................................63 Referências ......................................................................................................................65 Capítulo 3 Funções do sistema de estocagem .................................................................................67 3.1 O ciclo de pedido do cliente .......................................................................................67 3.1.1 O ciclo das operações ............................................................................................................................................. 68 3.1.2 O impacto do ciclo de pedido na cadeia de suprimentos ..................................................................................... 69 3.1.3 O pedido perfeito ................................................................................................................................................... 69 3.1.4 Métricas de atendimento ....................................................................................................................................... 70 3.2 Recebimento, fracionamento de volume, combinação e manuseio de materiais ....71 3.2.1 O recebimento de materiais .................................................................................................................................. 71 3.2.2 O controle de recebimento .................................................................................................................................... 72 3.2.3 O impacto da localização das mercadorias no espaço do armazém .................................................................... 72 3.2.4 As principais técnicas de controle ..........................................................................................................................74 3.3 Consolidação, unitização e manutenção de estoques ...............................................76 3.3.1 Consolidação e unitização ......................................................................................................................................76 3.3.2 Paletização ............................................................................................................................................................ 77 3.3.3 Gerenciamento de entradas e saídas .................................................................................................................... 78 3.3.4 Causas de perdas no estoque ................................................................................................................................ 79 3.4 Separação, unitização e despacho dos materiais ......................................................80 3.4.1 A ordem de separação de mercadorias ................................................................................................................. 80 3.4.2 Unitização .............................................................................................................................................................. 81 3.4.3 A importância das embalagens............................................................................................................................. 82 3.4.4 Documentação de despacho de mercadorias ....................................................................................................... 83 Referências ......................................................................................................................85 Capítulo 4 Movimentação de materiais ............................................................................................87 4.1 Movimentação e manuseio .......................................................................................87 4.1.1 Tipologia da movimentação .................................................................................................................................. 88 4.1.2 Recebimento .......................................................................................................................................................... 89 4.1.3 Manuseio interno ................................................................................................................................................... 90 4.1.4 Separação e expedição .......................................................................................................................................... 91 4.2 Sistemas de movimentação ......................................................................................93 4.2.1 Sistemas mecanizados .......................................................................................................................................... 94 4.2.2 Sistemas semiautomatizados................................................................................................................................ 95 4.2.3 Sistemas automatizados ....................................................................................................................................... 96 4.2.4 Dispositivos de apoio ............................................................................................................................................. 98 4.3 Sistemas de armazenagem .....................................................................................100 4.3.1 Prateleiras e racks ................................................................................................................................................101 4.3.2 Blocagem e outras técnicas .................................................................................................................................102 4.3.3 Silos e tancagem ................................................................................................................................................. 104 Referências ....................................................................................................................106 Capítulo 5 Manuseio e proteção das mercadorias ..........................................................................107 5.1 Unitização e paletização ..........................................................................................107 5.1.1 Funções da embalagem de unitização................................................................................................................. 108 5.1.2 Sistemas paletizados ........................................................................................................................................... 109 5.1.3 Tipologia dos paletes ............................................................................................................................................110 5.2 Conteinerização ....................................................................................................... 111 5.2.1 Funções da conteinerização ..................................................................................................................................112 5.2.2 Sistemas e funcionalidades ..................................................................................................................................113 5.2.3 Tipologia dos contêineres ....................................................................................................................................114 5.2.4 Operações internacionais .....................................................................................................................................115 5.3 Layout do armazém ................................................................................................ 116 5.3.1 Layout típico de armazenagem ............................................................................................................................117 5.3.2 O uso do espaço do armazém ..............................................................................................................................119 5.3.3 Dimensionamento do armazém .........................................................................................................................120 5.3.4 Classificação ABC na armazenagem .....................................................................................................................124 5.4 Funcionalidades e crossdocking ...............................................................................125 5.4.1 Funções de industrialização no espaço de armazenagem ...................................................................................126 5.4.2 O crossdocking ......................................................................................................................................................127 5.4.3 Montagem de kits no armazém ...........................................................................................................................128 5.4.4 Vantagens e desvantagens das novas funcionalidades....................................................................................... 130 Referências ....................................................................................................................132 Capítulo 6 Custos e taxas de armazenagem ...................................................................................134 6.1 Custos diretos e indiretos na armazenagem ............................................................134 6.1.1 Custos fixos de armazenagem ..............................................................................................................................135 6.1.2 Custos variáveis .....................................................................................................................................................137 6.1.3 Custos diretos e indiretos ......................................................................................................................................137 6.2 Seleção da localização do armazém .......................................................................139 6.2.1 Relevância na escolha da localização do armazém ..............................................................................................139 6.2.2 Técnicas de seleção da localização ...................................................................................................................... 140 6.2.3 Aspectos legais e incentivos tributários ...............................................................................................................142 6.3 Técnicas úteis para profissionais de logística ..........................................................143 6.3.1 Novas técnicas de armazenagem ........................................................................................................................ 144 6.3.2 Armazenagem em trânsito ..................................................................................................................................145 6.3.3 Merge in transit .................................................................................................................................................... 146 6.3.4 Armazéns alfandegados .......................................................................................................................................147 Referências ....................................................................................................................149 Capítulo 7 Avaliação e controle dos estoques ................................................................................152 7.1 Problemas no gerenciamento dos estoques ............................................................152 7.1.1 Obsolescência ....................................................................................................................................................... 153 7.1.2 Prazo de validade e prazo útil .............................................................................................................................. 153 7.1.3 Falta ou excesso de estoque ................................................................................................................................. 154 7.1.4 Falhas na padronização e identificação ................................................................................................................ 156 7.2 Sistemas de codificação ...........................................................................................158 7.2.1 A descrição de materiais ...................................................................................................................................... 158 7.2.2 Sistemas de codificação ........................................................................................................................................159 7.2.3 Códigos de barras ................................................................................................................................................ 162 7.2.4 Etiquetas de radiofrequência ............................................................................................................................... 163 7.3 Controles de estoques empurrados e puxados .......................................................163 7.3.1 Decisões de estoque ao longo da cadeia de suprimentos ................................................................................... 164 7.3.2 Níveis de estoque ................................................................................................................................................. 165 7.3.3 Controle de estoques empurrados ...................................................................................................................... 166 7.3.4 Controle básico e avançado de estoques puxados .............................................................................................. 168 7.4 Indicadores de desempenho no controle dos estoques .......................................... 174 7.4.1 Indicadores de desempenho típicos de armazém ................................................................................................174 Referências ....................................................................................................................178 Capítulo8 Inventários ....................................................................................................180 8.1 Inventário nas empresas ..........................................................................................180 8.1.1 A importância do inventário .................................................................................................................................181 8.1.2 Aspectos legais do inventário ...............................................................................................................................182 8.1.3 Tipologia dos inventários ..................................................................................................................................... 183 8.2 Procedimentos de inventário periódico ...................................................................184 8.2.1 Preparação do inventário ..................................................................................................................................... 184 8.2.2 Listagens e contagens ......................................................................................................................................... 185 8.2.3 Ajustes nos saldos do estoque .............................................................................................................................187 8.2.4 Análise dos resultados ......................................................................................................................................... 188 8.3 Procedimentos de inventário rotativo .....................................................................190 8.3.1 Relevância do inventário rotativo .........................................................................................................................191 8.3.2 Principais técnicas ...............................................................................................................................................1928.3.3 Recursos tecnológicos ..........................................................................................................................................193 8.4 Gestão dos recursos humanos no inventário ..........................................................194 8.4.1 Composição das equipes de inventário ............................................................................................................... 195 8.4.2 Dimensionamento ............................................................................................................................................... 196 8.4.3 Supervisão e coordenação................................................................................................................................... 198 8.4.4 Avaliação dos resultados do inventário ............................................................................................................... 198 Referências ....................................................................................................................201 A razão principal da existência de uma organização empresarial não é acumular esto- ques em seus armazéns, mas sim, maximizar o retorno sobre o capital investido em fábricas, equipamentos, tecnologia, capital de giro, suporte de vendas e estoques. Embora armazenar não gere retorno para as empresas, os estoques têm a importan- te missão de fornecer condições necessárias ao perfeito atendimento das demandas prove- nientes do departamento de vendas. Com a finalidade de propiciar a maximização dos recursos empregados em estoques, o processo de armazenamento passou por uma profunda transformação, migrando da visão primitiva ligada à guarda de materiais para se tornar uma ferramenta de gestão estratégica, empregada de formar a possibilitar o alcance dos objetivos propostos no planejamento es- tratégico das empresas, por meio da implantação de boas práticas de gestão aliadas ao su- porte fornecido pelas novas tecnologias de informação. Desse modo, armazenar e estocar não são apenas o ato de guardar algo, e sim, fatores determinantes par o sucesso de qualquer empreendimento. Apresentação Dedico a Deus por prover energia, proteção e iluminar minhas decisões. A autoria O Professor Evandro Castro Pedro possui mestrado em Economia Aplicada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Também possui especialização em Finanças e Controladoria pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e graduação em Ciências Econômicas pelo Centro Universitário de Sete Lagoas (UNIFEMM). Currículo Lattes: <lattes.cnpq.br/8259032197170648> Em especial, dedico este trabalho a minha querida filha, empolgada, animada e esforçada com as atividades de estudante. Que essa empolgação sirva de inspiração para todos os seus colegas e demais estudantes. O Professor Paulo Teixeira de Sousa é Mestre em Engenharia da Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Possui especialização em Gestão e Planejamento da Educação à Distância pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É graduado em Administração de Empresas pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás. Currículo Lattes: <lattes.cnpq.br/8982249939334898> Dedico este trabalho a todos aqueles que acreditam que a educação é o caminho para transformar o mundo por meio de seu aperfeiçoamento tanto pessoal quanto profissional. Estou certo que a vontade de trilhar esse caminho do aprendizado e a atitude proativa ao longo dessa jornada se refletirá em mudanças positivas no mundo. O professor Ricardo Souza Cerqueira é Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Especialista em Análise de Sistemas e em Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e Bacharel em Engenharia Mecânica. Com mais de 30 anos de atividade profissional, foi engenheiro de projetos e de desenvolvimento de pro- dutos e diretor geral de multinacionais, empresas nacionais e órgãos de governo, atuando em operações, logística e finanças. Na vida acadêmica, é pesquisador e professor nas áreas de lo- gística, estratégia, finanças e sistemas avançados de gestão. Currículo Lattes: <lattes.cnpq.br/2812192621729994> 1 Gerenciamento de estoques: visão geral Ricardo Souza Cerqueira Os estoques representam parcela considerável dos ativos de uma organização, sendo um dos responsáveis pela continuidade de suas operações de forma eficiente e eficaz face às incertezas inerentes ao mundo dos negócios. Eles podem ser compostos por matérias-primas, material em processo ou produtos prontos para venda e são determinantes para assegurar estabilidade nas vendas frente às variações na demanda, à sazonalidade da produção ou a incertezas no transporte. A gestão de estoques permite às empresas administrarem adequadamente os recursos materiais necessários para que possam gerar receitas no futuro próximo. Nesse sentido, gerenciar estoques significa, entre outros aspectos, administrar os custos dos estoques, o local onde devem ser armazenados e as condições adequadas para sua conservação e pronto uso quando necessário. Neste capítulo, veremos os objetivos centrais do gerenciamento dos estoques em empresas, com destaque para seus processos de armazenamento. 1.1 Introdução ao gerenciamento de estoques Desde a origem da civilização, os estoques foram necessários para sanar as inade- quações entre o ritmo do abastecimento e o da demanda. Eles existiam em quan- tidades necessárias para suprir a demanda durante o período entre os recebimentos em cada ponto de consumo ou para regular a oferta de bens com produção sazonal, isto é, dependente dos ciclos da natureza ou de condições climáticas que afetavam as colheitas, causando sobras ou déficits de mercadorias. A partir do desenvolvimento da fórmula do lote econômico em 1915 (criada para determinar a quantidade do pedido e assim minimizar o estoque), iniciou-se a evolução de técnicas e práticas voltadas ao dimensionamento e controle de esto- ques, que passaram a compor estratégias de negócios das empresas. Na siderurgia ou no processo petroquímico, por exemplo, a produção em grandes lotes permite signi- ficativa economia ou ganho de escala, mas, por outro lado, demanda armazenagem desses materiais para vendas futuras. Os estoques também possibilitam aumentar a quantidade de produtos vendidos, pois eles ficam disponíveis imediatamente para atender à clientela. Para tanto, conforme Ballou (2009), as mercadorias ou serviços precisam estar no lugar e no tempo certo e nas condições desejadas, de forma que o comerciante possa obter maior lucro através da satisfação do cliente. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 18 Para que os estoques possam cumprir esse papel de fornecer maior disponibili- dade de produtos, devem ser distribuídos e armazenados em vários locais ao longo da cadeia de suprimentos para não deixar faltar material para venda. Desse modo, há estoques de matérias-primas tanto nos depósitos dos produtores quanto nos armazéns das fábricas, estoques de materiais em processamento espalhados pelo processo produtivo nas fábricas e estoques de produtos acabados tanto nos arma- zéns de fábrica quanto disseminados pelos vários atacadistas, centros de distribuição e pontos de venda ao varejo. Os estoques representam uma parte significativa do investimento das empresas nos negócios, exigindo, portanto, uma dedicação especial para sua correta adminis- tração. Sendo assim, discutiremos a partir de agora alguns aspectos que nos ajudarão a compreender as necessidades de formação de estoques e armazenagem ao longo da cadeia de suprimentos. 1.1.1 O gerenciamento dos estoques A gestão eficiente dos estoques possibilita que os gestores verifiquem se os mate- riais armazenados estão sendo corretamente utilizados, bem manuseados e controlados. Os gerentes de produção do início do século XX, com base nos estudos de Taylor, publicados em 1911 no livro Os Princípios Fundamentais da Administração Científica,perceberam que era interessante conciliar as tarefas de compra dos materiais com o fluxo das mercadorias ao longo do processo produtivo, entendendo que as atividades de contratação dos fornecimentos deveriam estar integradas às funções relativas à qualidade no recebimento, movimentação, armazenagem, planejamento e controle da produção e gestão da distribuição física. A figura a seguir nos dá uma ideia dessa sequência de funcionamento. Sequência de operações na gestão de estoques Compras Estoque de matéria-prima Estoque em processo Estoque em processo Estoque de produtos finais Processamento de materiais Submontagem Gestão de estoques Fornecedores Saída de caixa Montagem Fluxos - Materiais e serviços Clientes Entrada de caixa Distribuição física Fonte: CHING, 2010, p.18. (Adaptado). © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 19 A sequência está alinhada com Ballou (2009), que afirma que a necessidade de gerenciar os estoques de forma mais técnica se originou no processo de gerencia- mento das compras. As operações integradas representaram um grande aprimora- mento na gestão pois, antes, cada função era desempenhada de forma independente por um diretor em cada etapa do processo produtivo, e a única integração possível era a da diretoria financeira, encarregada de conciliar receitas, despesas e disponibilidade de recursos financeiros, o que gerava insegurança e desperdício de recursos. Segundo Ballou (2009), as primeiras organizações a adotarem o gerenciamento dos estoques tinham como objetivo reduzir custos totais, pois os gastos com compras e manutenção de estoques estão entre os mais significativos nas empresas. Elas perce- beram que a redução de estoques não era suficiente para obter a melhor rentabilidade, então passaram a exigir que o processo de abastecimento fosse totalmente integrado à estratégia de atendimento ao cliente. Nesse cenário, gradualmente, novas técnicas foram desenvolvidas para auxi- liar no gerenciamento dos estoques, e atualmente, existem softwares de controle das mercadorias do tipo Enterprise Resources Planning (ERP), sistema de controle e gestão de mercadorias que permitem realizar as previsões de necessidade de materiais ou Warehouse Management System (WMS), isto é, sistema de gestão de armazéns, que são capazes de gerenciar os processos de compras e de movimentação de mercadorias dentro do armazém com rapidez e precisão. Além disso, as decisões de gestão estoques passaram a se integrar aos objetivos estratégicos da empresa. Sendo assim, se uma companhia definir como objetivo estra- tégico que dará ênfase à velocidade no atendimento ao cliente, suas decisões deverão contemplar maior disponibilidade de estoques nos pontos de vendas. De outra forma, se o intuito for servir bens e serviços com menor custo total, a gestão de estoque será dirigida a menores estoques e maior giro das mercadorias ao longo da cadeia de suprimentos. Assim, essa definição estratégica norteia a elaboração dos planos de longo prazo, como: o plano de negócios, no qual o mercado é analisado de forma mais ampla, o plano de vendas, que define as políticas e estratégias de canais de comercialização, e o plano de necessidades de recursos, que determina as fontes de matérias-primas, componentes e serviços que serão adquiridos. Os planos de produção e financeiros são então elaborados de forma a permitir um desenvolvimento integrado dos planos de médio e curto prazo nos quais são definidos os processos de compras e produção e armazenagem, sempre ancorados nas previsões de vendas, que são parte fundamental do gerenciamento da demanda. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 20 1.1.2 A armazenagem de materiais Uma vez definida a quantidade de mercadorias que deverão existir em cada local ao longo da cadeia de suprimentos, é necessário prover as condições para que elas sejam guardadas da maneira adequada e entregues facilmente. Os custos de armazenagem são elevados, então o espaço deve ser aproveitado ao máximo. Deve- se planejar o uso de prateleiras, porta-paletes e outros recursos, maximizando a dimensão vertical do armazém sem comprometer seu layout e o espaço necessário para o manuseio das mercadorias. Rodrigues (2015) define armazenagem como o gerenciamento eficaz de um ambiente adequado e seguro colocado à disposição para a guarda de mercadorias. Segundo o autor, alguns princípios que norteiam essa atividade são: Isto é, capacidade de planejar o espaço necessário para cada tipo de mercadoria e as condições para sua guarda, manuseio e controle de acordo com as necessidades da empresa, como a capacidade de atendimento simultâneo, velocidade de separação de pedidos etc. Planejamento e flexibilidade operacional Considerando as possibilidades de verticalização e empilhamento de forma a possibilitar o armaze- namento da maior quantidade possível por unidade de volume. Otimização do espaço físico tridimensional A armazenagem inclui atividades como recebimento e conferência de mercadorias, gerenciamento da localização dos itens esto- cados, abertura das embalagens recebidas e sua reorganização em outros formatos, controle da movimentação do estoque, entre outras que veremos mais adiante. É preciso um bom gerenciamento do armazém para dar agilidade aos processos, ou seja, rapidez e acurácia nas atividades, o que permite aos gerentes tomarem deci- sões de compras com maior segurança quanto às quantidades e prazos de recebimento. © B al on ci ci // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 21 1.1.3 Motivações para redução dos estoques Uma das principais demandas da diretoria das empresas é a redução dos esto- ques, pois, segundo Ching (2010), eles absorvem recursos financeiros que poderiam estar sendo aplicados de outras maneiras rentáveis. De acordo com o autor, menores estoques favorecem o giro das mercadorias e aumentam a lucratividade. Giro dos estoques é uma medida padronizada que indica o número de vezes que certa quanti- dade de mercadoria “girou” em determinado período. Se dispomos de um estoque de 10 uni- dades de mercadoria e vendemos 20 em um mês, a mercadoria “girou” duas vezes no período. Ballou (2009) também apresenta razões para a redução dos estoques. Conforme o autor, uma quantidade diminuída de mercadorias exige menos espaço na armazenagem e, consequentemente, gastos inferiores com manuseio e pessoal. Além disso, a probabi- lidade de quebras e avarias é menor e caem os riscos de prejuízo frente às flutuações de preços e de perda de mercadorias por obsolescência ou fim de seu prazo de validade. Uma das causas do excesso de estoques está relacionada com a seleção de fornecedores com prazos de entrega extensos e com grandes variabilidades no prazo de entregas. Dessa forma, é necessário atacar essas causas para então viabilizar a redução dos estoques. Devemos ter sempre em mente que um dia a mais no prazo de entrega implica a necessidade de manter o volume equivalente a um dia de vendas a mais no tamanho do estoque. Dessa forma, cabe aos gestores das organizações estabelecer parcerias com os demais integrantes da cadeia de suprimentos, de forma a possibilitar maior confiabilidade no processo de fornecimento de materiais, o que, consequentemente, reduziria os estoques praticados. 1.2 O propósito da armazenagem de materiais As empresas usam os estoques para melhorar a coordenação entre a oferta de maté- rias-primas e componentes e a de bens acabados de forma a atender a suas estratégias de negócios. Os materiais devem ser armazenados e manuseados da forma mais econômica possível e, para tanto, o armazém deve ser capaz de reduzir os custos de transporte sem aumentar excessivamente o gasto com a armazenagem. Segundo o Material Handling Institute (s.d.), os princípios fundamentais necessários para esse propósito são: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 22 Capacidade de planejar antecipadamente o espaço que será necessário para armazenar todos os itens nas quantidades definidas peloplanejamento da empresa. Flexibilidade para adaptar corredores, docas e demais equipamentos às necessidades futuras do negócio, pois o mercado muda constantemente. Competência para simplificar e padronizar os procedimentos para reduzir o tempo de operação e o custo de movimentação. Integração com as atividades de produção, compras e vendas, pois é preciso saber com antecedência quais serão as mercadorias demandadas e em que quantidade serão recebidas ou expedidas para poder planejar em tempo o espaço, os equipamentos e recursos humanos necessários. Para o bom funcionamento do armazém, os gerentes também devem entender a dinâmica da demanda por produtos da empresa no mercado e como ela afeta as deci- sões de distribuição e armazenagem de mercadorias. Por exemplo, se a gerência de vendas definir que as lojas devem dispor de certa quantidade do produto X e os lojistas perceberem que a demanda está maior que a prevista, os gestores do armazém deverão decidir rapidamente se é melhor aumentar a frequência das entregas desse item ou elevar a quantidade a ser entregue em cada visita do caminhão. 1.2.1 A dinâmica da demanda e a necessidade de estocagem Entender a demanda, suas particularidades e características é uma ação essencial para que as atividades de estocagem possam ocorrer da forma mais eficiente possível dentro das organizações. Conforme Holanda (2010), demanda é a quantidade de um bem ou serviço que os consumidores desejam adquirir por um preço definido em um mercado. Segundo Kotler (2000), a demanda por produtos e serviços está diretamente associada à satisfação da necessidade e de desejos do cliente. Segundo o autor, as necessidades são razoavelmente constantes, entretanto os desejos estão associados a fatores como moda, status, preço e renda, que variam ao longo do tempo, levando a grandes variações na demanda. Na gestão da cadeia de suprimentos, a satisfação do cliente está associada a um nível de serviço que se traduz na disponibilidade da mercadoria desejada no local, instante e quantidade desejados. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 23 A satisfação do cliente é um conceito complexo, que segundo Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996) pode ser entendido por uma mistura entre o que o consumidor acredita que poderia e deveria ser entregue pela empresa e o que a organização pode prover sem que o preço da mer- cadoria se torne excessivo. Conforme Ballou (2009), no processo de tomada de decisão sobre a armaze- nagem ao longo dos canais de distribuição, é essencial que seja considerado o custo de cada alternativa estudada e o impacto sobre a rentabilidade do produto. Uma estra- tégia que pretenda colocar mercadorias à disposição do consumidor para atendimento imediato, por exemplo, pode representar uma tarefa de custo extremamente elevado e sujeita a grandes perdas. Desse modo, as decisões de armazenagem nos pontos de venda envolvem uma cuidadosa análise de aspectos como o nível de serviço desejado, a disponibilidade e o custo de espaço nesses locais, a facilidade para carga e descarga de mercadorias e a segurança em seu manuseio. 1.2.2 Estocagem nos canais de distribuição Kotler (2000) conceitua canais de distribuição como conjuntos de processos que servem para fazer com que as mercadorias cheguem às mãos do consumidor. Também podem ser definidos como o meio utilizado pelos vendedores para movimentar fisica- mente suas mercadorias. Dependendo do tipo de mercadoria e da estratégia de vendas, pode-se investir na montagem de uma rede própria de lojas de varejo, contar com parcerias com distribuidores e representantes ou montar um serviço de vendas via internet ou televendas. As necessidades de armazenagem estão associadas ao canal de distribuição selecio- nado pelo vendedor, sem esquecer a estratégia de nível de serviço ao cliente. Em alguns, como a venda por catálogo, mala direta, telemarke- ting e internet, o contato do vendedor com o consumidor se restringe ao ato da contratação da venda, pois a entrega é geralmente realizada por terceiros especializados. Nesses canais, uma parte das mercadorias é geralmente guardada no armazém de fábrica e outra, no do operador logístico contratado. © I. P ilo n // Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 24 Em outros canais de distribuição, nos quais a venda e a entrega de mercadorias ocorrem diretamente entre o fabricante e o varejista ou indiretamente, contando com o auxílio de distribuidores e atacadistas, deve-se analisar a quantidade de mercadorias distribuídas entre os armazéns de fábrica, os centros de distribuição e os armazéns das lojas, descobrindo a relação entre custo e benefício. Um fabricante de fogões e geladeiras, por exemplo, escolhe atender a seus clientes utilizando apenas as vendas via internet e telemarketing. Nesse caso, os esto- ques deverão estar centralizados na fábrica ou em centros de distribuição na forma de armazéns terceirizados. Um concorrente, por sua vez, decide utilizar intermediários, então, teria que dispor de estoques não somente na fábrica e centros de distribuição, mas também em atacadistas, distribuidores e lojas. Ainda segundo Ballou (2009), a escolha dos canais de distribuição e dos locais de armazenagem das mercadorias em armazéns mais próximos do cliente ou das fábricas é, como veremos a seguir, uma decisão que envolve um trade-off entre satisfação do cliente e custos dos produtos. 1.2.3 Noções de trade-off entre custos e satisfação do cliente Segundo Slack, Chambers e Johnston (2002), trade-offs podem ser entendidos como uma incompatibilidade entre dois ou mais critérios ou níveis de desempenho de um produto. Os autores explicam que todos os produtos possuem níveis de desem- penho, como rapidez nas entregas, grau de personalização ou de padronização e de custo total de produto, e existem situações em que a melhoria de um deles implica impacto negativo em outro. Por exemplo, se incrementarmos a velocidade de entrega de determinado bem, possivelmente teremos uma elevação de custos devido à neces- sidade de aumentar estoques e melhorar os sistemas de entrega. A imagem a seguir representa essa situação utilizando a metáfora de uma gangorra: quando o nível de desempenho em velocidade levanta, o de desempenho em custo cai. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 25 Representação dos trade-offs como uma gangorra Nível de desempenho em “velocidade” Nível de desempenho em “custo” Nível de desempenho em “velocidade” Nível de desempenho em “custo” Fonte: CORREA; CORREA, 2004, p. 67. (Adaptado). Ainda conforme Slack, Chambers e Johnston (2002), seria difícil para uma orga- nização obter elevado desempenho em cada um dos critérios de desempenho em todos os seus produtos ao mesmo tempo, o que gera uma necessidade de escolher em quais critérios competir, relacionada aos trade-offs da área de operações. Os critérios competitivos mais usuais citados pelos autores são: custo, qualidade, rapidez, confia- bilidade, estética e flexibilidade. Por exemplo, se a empresa optar, em suas escolhas estratégicas, por privilegiar a redução de custos, possivelmente a gestão dos estoques deverá estar associada à oferta de menor variedade de mercadorias em cada ponto de vendas ou a um maior nível de padronização de produtos e processos de forma que possa satisfazer o cliente ao ofertar preços mais convidativos. Assim, podemos entender que as decisões de estoques são associadas a várias ques- tões-chave e estas, por sua vez, são consequentes de decisões estratégicas relacionadas com a satisfação dos clientes. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 26 1.2.4 Decisões na gestão de estoques A determinação das práticas, técnicas e processos utilizados na gestão dos esto- ques nas organizações são primordiais no alcance de sua eficácia operacional. Segundo Ballou (2009), as decisões mais relevantes na gestão de estoques estão associadas a três questões-chave: o objetivo do estoque, o custo de comprar ou requisitar a produção de bense o custo de manter produtos em estoque em cada local. Ching (2010) destaca que esse processo pode ser alterado periodicamente de acordo com as previsões da demanda dos clientes. Ele começa com a previsão de vendas (que é a base para a elaboração do programa de produção) e então é conver- tido em pedidos de abastecimento, como mostra a figura a seguir. Fluxo descontínuo de materiais Estoque de Matéria-prima Estoque produto acabado Fábrica envio Proc. PedidoPrevisão ClienteFornecedores Pedido envio despacho Fonte: CHING, 2010, p. 25. (Adaptado). O objetivo do estoque está associado ao prazo para sua obtenção e à incerteza quanto à demanda. Se fosse possível prever com exatidão a demanda futura e se os produtos necessários para satisfazê-la pudessem ser fornecidos imediatamente, não haveria razão para formar estoques. O prazo de obtenção de alguns materiais produ- zidos em locais distantes é longo e alguns produtos dependem do plantio e colheita que só ocorrem em certos períodos do ano, assim, estabelecer as quantidades a serem esto- cadas e em quais localizações é parte relevante do processo de gestão de estoques. O custo de comprar ou requisitar a produção de bens é o conjunto de operações necessárias para obter mercadorias e engloba custos administrativos decorrentes do processo de pedir propostas aos fornecedores, colocar pedidos de compras, gastos com fretes e com inspeções de recebimentos. Por fim, o custo de manutenção de esto- ques se equivale, no mínimo, à remuneração financeira que o valor investido em esto- ques teria se fosse aplicado no mercado financeiro. © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 27 1.3 Sistemas de armazenagem Sistemas de armazenagem podem ser definidos como a estrutura física utilizada para o armazenamento dos materiais, suas configurações de layout e os processos utilizados na movimentação e controle. Esses sistemas são compostos por: • equipamentos dedicados a organizar e movimentar de forma conveniente matérias-primas; • produtos em processo; • produtos acabados. Portanto, fazem parte do sistema de armazenagem: prateleiras, racks, estantes, empilhadeiras, paletes, tanques etc. Os sistemas podem ser operados manualmente ou por dispositivos automáticos e semiautomáticos e têm entre seus principais propósitos a maximização do uso do espaço tridimensional dedicado à armazenagem e o rápido fluxo de escoamento das mercadorias no recebimento e na entrega. Na seleção do melhor sistema de armazenagem para cada processo logístico, deve-se atentar para aspectos como: as características das mercadorias, como peso, dimensões, possibilidade de empilhamento etc, as condições físicas do armazém, como pé direito, qualidade e resistência mecânica do piso, e o custo do uso do espaço (aluguel, retorno do investimento etc). Também é necessário levar em conta o propó- sito da armazenagem nos aspectos de facilidade de separação das mercadorias e quantidades a armazenar e a separar em cada entrega. Com isso, vamos então entender a seguir os tipos de estoques, as funções da armazenagem e as possibilidades de uso de espaços de armazenagem públicos. 1.3.1 Tipologia dos estoques Segundo Viana (2008), há duas maneiras de classificar os estoques: quanto ao propósito da armazenagem ou segundo suas características físico-químicas. A clas- sificação que leva em conta o propósito ainda pode ser subdividida nos seguintes grupos: matérias-primas, componentes, estoques de produção ou processo e esto- ques de produtos acabados. Estoques de matérias-primas e de componentes têm o objetivo de manter o adequado funcionamento das atividades de produção e montagem. Estoques de mate- rial em processo são os materiais distribuídos ao longo do processo de produção, criados entre o recebimento das matérias-primas e sua entrega no estoque, já como produtos prontos para venda. Viana (2008) estabelece que, conforme seu propósito de armazenagem, os estoques podem ser dos seguintes tipos: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 28 Quantidade de cada item de estoque necessária para atender à demanda durante o período entre abastecimentos. Estoque cíclico Quantidade de cada item dimensionada para atender às incer- tezas da demanda. Estoque de segurança Quantidade de cada item dimensionada para combater a variabilidade previsível da demanda. Estoque sazonal Quantidade de cada item que se encontra distribuída ao longo do canal de distribuição. Estoque em trânsito Materiais com validade vencida ou que deixaram por qualquer razão de serem demandados. Estoque obsoleto Podemos perceber que estoques cíclicos, de segurança, sazonal e em trânsito podem ser quantidades do mesmo item ou de itens diferentes. Ou seja, podem ser estoques do mesmo tipo de material, porém dimensionados com propósitos espe- cíficos. O estoque de segurança, por exemplo, garante o abastecimento da linha de produção entre as entregas. Assim, a diferença entre essas formas de estoque não está no tipo de produto que é estocado, mas na finalidade para o qual é realizado o estoque. Ainda segundo Viana (2008), com relação a suas características físico-químicas, os estoques podem ser: • granéis sólidos, líquidos ou gasosos; • mercadorias acondicionadas em embalagens de unitização, como caixas, gar- rafas, latas, materiais acondicionáveis em paletes etc; • materiais inertes, inflamáveis, corrosivos, tóxicos, explosivos etc. A classificação dos materiais permite escolher os equipamentos mais adequados para armazená-los e os procedimentos necessários para a proteção das mercadorias no armazém e a segurança no manuseio. A partir dessas formas de classificação dos estoques, podemos definir as funções do sistema de estocagem. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 29 1.3.2 Funções do sistema de estocagem Conforme Ballou (2009), os sistemas de estocagem possuem duas funções básicas: manutenção do estoque e manuseio de materiais. Esta última engloba as operações de carregamento e descarregamento, movimentação da mercadoria dentro do espaço do armazém e separação de pedidos. Ainda de acordo com Ballou (2009), as operações de carregamento e descar- regamento se subdividem em operações de descarga, conferência, recebimento e marcação, contemplando as seguintes atividades: • desembarque da mercadoria do veículo transportador, com confronto físico/ documental das mercadorias desembarcadas, que consiste em comparar o que consta no pedido de compras e o que foi efetivamente recebido; • exame detalhado da documentação de compra, como pedido, nota fiscal, co- nhecimentos e romaneios de carga, documentos de trânsito aduaneiro, seguros e outros; • inspeções da qualidade das mercadorias conforme estipulado no pedido de compras ou seus anexos; • colocação ou verificação das etiquetas de identificação das mercadorias, como os códigos de barras, etiquetas de radiofrequência e etiquetas de classificação como carga perigosa, se for o caso. Já as atividades de movimentação da mercadoria no espaço do armazém contem- plam a separação da mercadoria em lotes e em locais adequados à movimentação e seu endereçamento. Além disso, é preciso prever procedimentos de segregação das mercadorias nas quais sejam apontadas divergências com o que foi pedido, evitando que elas se misturem com as aprovadas para uso. Endereçamento é a atividade na qual se determina o local exato onde cada lote de mercadoria será armazenado, por exemplo, na rua A, rack 3 e posição de prateleira 2. A estocagem propriamente dita compreende as operações de manutenção da integridade das mercadorias quanto a danos físicos causados por ação humana ou de fatores da natureza. São atividades como: a colocação das mercadorias em equipa- mentos de armazenagem, como prateleiras, racks, armários e gavetas, a limpeza e os cuidados com o ambiente físico, o registro das movimentações e controle dos saldos. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 30 Na atividade de separação de pedidos para entrega (picking), separam-seas merca- dorias de forma a atender aos pedidos do cliente de forma rápida e cuidadosa para asse- gurar a qualidade das mercadorias a serem entregues. Além disso, preparam-se todas as documentações de vendas, transporte e contabilização das mercadorias vendidas. 1.3.3 Armazéns gerais Armazéns gerais são empresas destinadas à recepção, manutenção e guarda de mercadorias ou bens de terceiros, podendo ser públicas ou privadas e operando mediante o pagamento de uma tarifa predeterminada ou com base em um percentual do valor referente ao custo da mercadoria que permanecerá estocada, como compensação pelo serviço prestado. Normalmente, de acordo com Ballou (2009), as empresas que optam por utilizar os serviços de armazéns gerais se baseiam nos seguintes critérios: • terceirização de toda a atividade de armazenagem e distribuição; • adequação de espaço físico em determinados períodos de aumentos de vendas ou produção; • necessidade de início imediato das operações; • apuração de impostos pelo controle centralizado em seus estabelecimentos fa- bris e/ou comerciais; • compatibilidade de seu sistema de controle e transmissão de informações com o sistema do armazém geral. É importante ressaltar que um armazém geral é diferente de um depósito fechado, que geralmente é uma edificação própria ou terceirizada utilizado por uma empresa apenas para o armazenamento de suas próprias mercadorias. Assim, para ficar claro: • Armazenagem geral: guarda de mercadorias pertencentes a terceiros. Ou seja, guarda de mercadorias que não são do proprietário do armazém. • Depósito fechado: guarda de mercadorias pertencentes ao próprio proprietário do depósito. O armazém geral possui em seu objetivo social a exploração de atividade econô- mica de guarda e conservação de mercadorias pertencentes a terceiros, dessa forma, materiais de várias organizações ficam estocados no mesmo espaço, reduzindo os custos de armazenagem. © A le ph S tu di o // Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 31 1.3.4 Documentação e considerações legais sobre armazéns Com o aperfeiçoamento das operações de logística e gestão da cadeia de supri- mentos, surgiram e prosperaram empresas especializadas na prestação de variados serviços logísticos, e o uso de armazéns gerais e outros tipos de operadores logísticos implica um aumento na documentação de escrituração fiscal e contábil dessas merca- dorias, pois elas permanecerão por algum tempo em poder de terceiros. Desse modo, os contratos de operação logística precisam ser bem elaborados, com clara descrição dos serviços que serão prestados, quais serão as responsabilidades de cada parte e os indicadores de desempenho aplicáveis em cada serviço. A gestão dos armazéns gerais é responsável pela emissão de títulos especiais que representam as mercadorias que estão sob sua guarda, ou seja, documentos que garantam aos proprietários das mercadorias seu direito de posse e a possibilidade de negociação. Um deles é o conhecimento de depósito, que representa a posse da merca- doria e que circula livremente por endosso, transferindo assim sua propriedade quando for conveniente a seus donos. Outro título é conhecido como warrant (garantia, em português), que permite penhorar a mercadoria para garantia de empréstimos. O papel de guarda de mercadorias prestado por essas empresas é dos mais rele- vantes, pois elas atuam conforme uma legislação capaz de oferecer segurança nas operações de logística ao serem garantidoras perante terceiros da quantidade e da qualidade da mercadoria que consta nesses documentos quando houver a transmissão do direito de posse dos materiais estocados, via endosso no conhecimento de depó- sito. É a empresa responsável pelo armazém que cumprirá as garantias. O Decreto n. 1.102/ 1903 estabelece os procedimentos comerciais prestados nos armazéns gerais e determina seus direitos e obrigações, e é de responsabilidade da Junta Comercial a fiscalização de sua implementação e funcionamento. Além das normas contidas na referida lei, os armazéns gerais também têm que seguir a regula- mentação prevista nos regulamentos de Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de todos os estados brasileiros. 1.4 Alternativas de estocagem Ao selecionar as melhores alternativas para a estocagem de mercadorias, devem ser consideradas as características físicas das mercadorias e das embalagens de trans- porte e os propósitos da armazenagem. Assim, pode ser interessante para uma orga- nização investir em armazéns de múltiplos propósitos para seu uso exclusivo ou utilizar armazéns especializados. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 32 Existem vários tipos de armazéns especializados. A seguir, estudaremos os arma- zéns para granéis, para mercadorias em geral, aqueles com temperatura e ambiente controlados, os miniarmazéns, armazéns alugados e armazenagem temporária. 1.4.1 Armazéns para granéis Empresas do agronegócio, companhias químicas e transportadores especiali- zados em exportação e importação de matérias-primas precisam movimentar grandes volumes de mercadorias sem embalagens, cujo valor por tonelada é geralmente muito baixo, exigindo operações automatizadas ao extremo para reduzir custos. Nesses casos, são utilizados os armazéns especializados em granéis. Nesses locais, a armazenagem das merca- dorias pode ser estática, seja por empilhamento ou acondicionamento em contêineres, ou dinâ- mica, utilizando dispositivos como silos, tremo- nhas, tanques e vasos de pressão nos quais o carregamento do armazém é feito pela parte superior e o esvaziamento, pela porção inferior, às vezes simultaneamente. O controle das mercadorias nesse tipo de armazenamento é executado por pesagem na entrada e na saída, verificação do volume por intermédio de medidores de vazão e pela conferência das notas fiscais. 1.4.2 Armazéns para mercadorias em geral Os armazéns dedicados à guarda de mercadorias em geral são o tipo mais comum, caracterizados pela presença de prateleiras, racks, porta-paletes e equipa- mentos para a movimentação de embalagens dos tipos caixa, caixote, fardo e tambor. Esses armazéns possibilitam o armazenamento de materiais com grande diver- sidade de tipos e formatos e tamanhos de embalagens, o que dificulta as possibilidades de automação, logo, é necessário o uso intensivo de mão de obra, que é diretamente proporcional à variedade dos produtos armazenados. Também são necessários processos complexos para a realização de inventários e de controle de movimentação interna de mercadorias e docas para embarque e desembarque de transportes rodoviários. © F ot of er m er // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 33 1.4.3 Armazéns com temperatura e ambientes controlados A comercialização de produtos alimentí- cios ou farmacológicos exige o uso de arma- zéns com meios para controlar a temperatura ou condições ambientais como umidade ou quantidade de partículas. Essas instalações constituem um tipo especial de armazém para produtos em geral, uma vez que geralmente também movimentam mercadorias com formatos e tipos bastante variados, mas são mais complexas, já que devem dispor não somente dos equipamentos para refrigeração, mas também de áreas segregadas e procedimentos para: • armazenar produtos que são controlados pelo governo, como as carnes e pei- xes in natura e vacinas; cujos parâmetros para armazenagem estão dispostos nas portarias 1428/1993 e 326/1997 e sujeitos a fiscalização pelo Ministério da Saúde e agências municipais de vigilância sanitária; • área segregada para abrigar produtos oriundos de devoluções para que sejam inspecionados e então destinados ao estoque normal ou para destruição; • sistemas de alarmes, monitoramento contínuo e registro de temperatura e condições do ambiente; • pessoal qualificado para operar os sistemas de controle e manusear os produtos; • sistemas de controle de estoque por número de lote e data de validade, códi-gos de barras, etiquetas de rádio frequência etc, adaptados às necessidades de produtos diferentes: matérias-primas, produtos semiacabados, produtos aca- bados e produtos de alto valor; • fracionamento de pedidos em embalagens especiais, montagem de embala- gem para exportação, embalagens para transporte de amostras biológicas e caixas térmicas apropriadas para o transporte de produtos perecíveis. Armazéns com temperatura e ambientes controlados devem possuir sistemas que mantenham a temperatura constante, pois variações influenciam a validade dos produtos armazenados. Dessa forma, são adotados nesses sistemas geradores de energia, medidores de temperatura, lâmpadas especiais, climatizadores, entre outros meios de garantir o ambiente apropriado para o produto. © Z ur ije ta // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 34 1.4.4 Miniarmazéns, armazéns alugados e armazenagem temporária Alugar um galpão para uso como armazém é uma decisão frequente em projetos de redes logísticas por várias razões. A primeira está relacionada à disponibilidade de recursos financeiros para investir na construção de um armazém, pois se pode preferir aplicar esse dinheiro em outras atividades mais rentáveis, como estoques. Outro motivo diz respeito à incerteza acerca dos volumes envolvidos na comercialização de bens em curto e médio prazo, pois o retorno do capital investido na construção geral- mente envolve prazos superiores a cinco anos. Um tipo de armazenagem que tem evoluído significativamente no mercado é o dos miniarmazéns ou self storage (armazenagem individual, em português). É um negócio que explora comercialmente pequenos armazéns, com áreas que variam de 1 a 100 m2, que são alugados ou arrendados por pequenas empresas ou pessoas físicas. Também é um serviço adequado para pessoas ou empresas que precisam de um espaço extra para uso temporário onde se pode guardar roupas de verão/inverno, aces- sórios, ferramentas, mercadorias compradas como reforço do estoque para ocasiões de venda mais forte, arquivos, mobiliário etc. Outra possibilidade é a armazenagem em trânsito, na qual podemos destacar o merge-in-transit, modelo de armazenagem no qual ocorre a coleta das mercado- rias de vários fornecedores, encaminhadas para pontos de consolidação, que podem ser o próprio caminhão em alguns casos, e depois, distribuídas ao consumidor final. Esse tipo de modelo é adotado por empresas de telecomunicações e indústrias de eletrônicos. Um exemplo é o computador, o monitor, teclado e mouse podem advir de origens distintas. Um exemplo prático é o que ocorre com as montadoras de veículos, que solicitam os itens necessários para a produção de cada lote aos fornecedores após a ocorrência do pedido do cliente. Dessa forma, os fornecedores devem estar aptos a fornecer esses itens de forma ágil, por ocasião da solicitação de fornecimento. Além disso, como o modelo dos itens em cada pedido varia, precisam manter estoques de materiais que compõem os produtos finais em centros de distribuição intermediá- rios, que podem ser rapidamente montados na configuração especificada no pedido e entregues ao solicitante. As organizações utilizam seus estoques com a finalidade de garantir sua sobrevi- vência, utilizando procedimentos complexos e decisões estratégicas. É por meio dos processos de armazenagem desenvolvidos em suas práticas administrativas que as empresas conseguem obter vantagens competitivas que possibilitam estabilidade e crescimento, e um tratamento inadequado dos processos de armazenagem pode ser determinante para que elas não consigam atingir seus objetivos e metas, podendo comprometer até mesmo a continuidade de suas atividades. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 35 Referências BALLOU, R. 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Nesse sentido, conforme Martins e Alt (2011), gerir corretamente os estoques possibilita que as empresas estabeleçam ações para verificar se eles estão sendo corre- tamente utilizados, com localização adequada e manuseados e controlados eficiente- mente, evitando acúmulos desnecessários ou a falta de produtos para o consumidor. Determinar corretamente quanto e quando pedir, conciliando a gestão de oferta e demanda com o uso de técnicas de controle e gestão, possibilita que as organiza- ções determinem com segurança seus níveis de estoques, garantindo o atendimento às demandas dos clientes internos e externos sem custos excessivos e desnecessários. 2.1 Quanto e quando pedir Quando organizamos uma recepção para um grupo de pessoas, partimos do princípio de que é preciso definir a quantidade de participantes antes de prever a quantidade neces- sária de alimentos para atender a todos. Para as empresas, entretanto, a demanda não pode ser prevista com exatidão, portanto quanto e quando pedir são questionamentos que elas sempre devem fazer, buscando evitar problemas futuros ao realizar seu planejamento. Esses questionamentos devem ser feitos levando em conta alterações relativas à demanda, ao não cumprimento dos prazos por parte dos fornecedores, aos gargalos produtivos e aos atrasos ocorridos na distribuição. Essas desconformidades podem ser causadas por sazonalidade, mudanças climáticas, aumento de poder aquisitivo dos consu- midores ou novas tendências de mercado. Com base nesses aspectos, segundo Moreira (2004), a gestão de estoque tem que ser visualizadacom um planejamento estratégico que busque determinar valores que podem ser estocados no decorrer do tempo, estabe- lecer como ocorrem as entradas e saídas dos materiais e descobrir seus pontos de pedido. © B al on ci ci // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 38 O grande desafio que as organizações enfrentam é conseguir realizar um balan- ceamento de estoque eficiente, em termos de produção e logística, que lhes possibilite determinar de forma eficaz a quantidade necessária de itens que precisam perma- necer em estoque para atender à demanda da produção e quando iniciar o processo de reabastecimento ou ressuprimento para atender à demanda do cliente. De acordo com Ching (2010), nesse cenário, a gestão de estoque objetiva garantir a disponibilidade de produtos com o melhor uso ótimo do investimento em estoques. Veremos nos tópicos seguintes como as ações relativas ao processo de gestão de estoques nas empresas podem auxiliar os gestores a determinarem quais as quantidades que devem ser adquiridas e em quais intervalos de tempo essas compras ocorrem. 2.1.1 A importância do tamanho do lote A informação sobre o tamanho do lote a ser trabalhado permite às organiza- ções definirem sistematicamente os recursos necessários para a operacionalização do processo logístico ou de produção sem impactos em seu fluxo do ciclo de pedido e na qualidade dos produtos ou serviços ofertados. Para Bertaglia (2006), os gestores devem compreender os objetivos estratégicos do gerenciamento dos estoques para definir corretamente as metas, funções e tipos de estoque. Portanto, é necessário dimensionar corretamente os níveis de estoques para atender às necessidades operacionais da empresa sem comprometer demasiadamente seus recursos financeiros para alcançar os objetivos traçados no planejamento estra- tégico, e a primeira etapa desse processo é a determinação do tamanho do lote de compra, que pode ser realizado em três etapas: • determinar o lote econômico conforme o menor custo unitário de compra. Para isso, é necessário identificar o custo total; • caso o preço unitário de compra for adequado para o lote calculado, o lote eco- nômico é a melhor solução para o custo total; • no caso contrário, devem ser calculados os lotes econômicos conforme cada um dos preços unitários e, assim, fazer a análise do custo total para cada um dos resultados. Determinar o tamanho do lote de compras passa pela análise de dois fatores. O primeiro é o processo de revisão periódica do tamanho do lote. O tamanho do lote de compra é estabelecido após a análise de características e aspectos relativos ao processo produtivo de cada organização, tais como: capacidade de armazenagem e processamento, condições de movimentação dos materiais e impactos financeiros decorrentes de sua manutenção. Esse processo foi criado com a finalidade de propor- cionar a correta utilização dos recursos na aquisição e manutenção dos estoques, e Gestão de estoques e ArmAzenAGem 39 consiste em uma avaliação periódica dos cenários econômicos nos quais a empresa está inserida, buscando determinar suas políticas de ressuprimento da forma mais eficiente possível por meio do acompanhamento constante da demanda (inclusive nos pontos de venda), com o objetivo de determinar uma agenda de produção coerente com as necessidades do mercado. O segundo fator que deve ser levado em conta ao determinar o tamanho do pedido é o alto custo de processamento de um pedido. Alguns materiais apre- sentam custo elevado de processamento de pedido, o que leva fornecedores a influen- ciar seus clientes a comprar lotes maiores e reduzir o número de compras realizadas no período. Como a composição do custo engloba principalmente o custo de transporte e o desconto devido ao volume negociado, um cliente que adquire uma carga completa pode negociar um abatimento maior e valores inferiores de frete. Além disso, grandes lotes diminuem a quantidade de pedidos que precisam ser realizados ao longo de um período, reduzindo custo de pedidos. No entanto, é necessário considerar que geral- mente grandes lotes exigem maiores estoques. Buscar alternativas que permitam adequar o tamanho dos lotes de compra com redução do custo de pedido é tarefa principal do gestor de compras. Nesse sentido, determinar o tamanho correto desse lote se resume em identificar qual a quanti- dade será adquirida em cada compra, levando em conta a coordenação entre oferta e demanda e a coordenação da produção, que veremos a seguir. 2.1.2 A coordenação entre oferta e demanda Oferta é a quantidade de um bem ou a possibilidade de contratação de um serviço disponível no mercado, enquanto procura é o interesse em relação a esse mesmo bem ou serviço. Segundo Vasconcellos (2002), a oferta é definida como a quantidade de determinado bem ou serviço que os produtores e vendedores demons- tram, isto é, representa o planejamento ou a intenção de consumo futura, e não neces- sariamente a venda efetiva. Enquanto a oferta é influenciada por fatores como preço, quantidade disponível, tecnologia e capacidade produtiva, a procura é motivada por tendências de consumo, compatibilidade entre preço e qualidade esperada, necessidade dos consumidores e facilidade de aquisição do produto. Se a oferta de um produto exceder sua demanda, seu preço tende a reduzir; por outro lado, se a demanda for maior que a oferta, a tendência é um aumento no preço. Essa é a lei da oferta e da procura, formulada pelo filosofo escocês Adam Smith. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 40 Adam Smith (1723- 1790) foi um dos mais importantes teóricos do liberalismo econômico no século XVIII e formulou a “Teoria da mão invisível”, segundo a qual indivíduos, buscando seu próprio interesse, podem ajudar outros mesmo sem a intenção de que isso acontecesse (VASCONCELLOS, 2002). Conforme Moreira (2009), o ato de planejar é uma atividade comum a qualquer tipo de empresa e a previsão de demanda é a base para elaboração desse planeja- mento. Prever corretamente a relação entre a oferta e a procura (demanda) é funda- mental para que as empresas possam determinar corretamente seus níveis de estoques e sua política de itens armazenados, pois qualquer previsão incorreta acarre- tará a elevação dos custos relativos ao ciclo de processo dos pedidos e, consequente- mente, refletirá em seus resultados financeiros. 2.1.3 A coordenação da produção A atividade de coordenação da produção monitora os estoques e sua relação com os processos produtivos, cuidando para que as operações não sofram interrupções por falta de estoque de matérias-primas ou componentes do processo de manufatura, ocasionadas por erros no planejamento da demanda de produção. A produção está diretamente ligada à oferta e à previsão da demanda, pois, se não houver a intenção de oferecer um produto ou o interesse de alguém em consumir, não existirá a necessidade de produzir. Nesse sentido, os estoques regulam o fluxo do processo produtivo e, se fosse possível sincroniza a oferta e a demanda perfeitamente, eles não precisariam ser mantidos. Entretanto, existem diferenças entre a velocidade com que os materiais são recebidos e o tempo que são consumidos (saídas), devido a uma série de fatores e incertezas presentes no processo. Com relação ao forneci- mento, podemos destacar as seguintes incertezas em relação à velocidade de recebi- mento dos materiais (entradas): • baixo índice de confiabilidade dos fornecedores; • problemas gerados por entregas de materiais com qualidade abaixo da estipulada; • gargalos produtivos gerados devido a atrasos ocorridos por quebra de máquinas; • controle ineficiente da produção. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 41 Entre as incertezas relativas à demanda (saídas), destacam-se: • imprevisibilidade da demanda; • erros de dimensionamento dos estoques; • alterações no plano de produção; • coordenação ineficiente do processo entre os setores diretamente envolvidos. Coordenar todos asoperações relativas à gestão dos estoques com relação ao processo produtivo das empresas é uma atividade complexa e que exige atenção dos gestores. Esses profissionais devem garantir que o fluxo dos processos produtivos seja atendido sem sobressaltos, evitando falhas no cumprimento das metas estabelecidas no planejamento, de forma aliada à gestão dos custos para assegurar a utilização dos recursos financeiros disponibilizados da melhor forma possível. 2.1.4 Impacto da localização dos estoques A localização do estoque no armazém se reflete na despesa total relativa à movimen- tação de materiais e nos custos de utilização do espaço no armazém. Devido a essa impor- tância, conforme Dias (2011), o sistema de locali- zação de materiais deve estabelecer os princípios necessários para a perfeita identificação dos materiais estocados. A localização dos estoques impacta na melhoria dos serviços por meio da redução do tempo de entrega ao cliente final e tem influência nos custos por meio dos níveis de estoque e, além disso, pode reduzir os gastos com distribuição e suprimento. Ainda de acordo com o autor, o sistema de estocagem utiliza dois critérios de localização de material: • Sistema de estocagem fixa Determina um número de áreas de estocagem para cada tipo de material, ge- rando ociosidade de algumas áreas e falta de espaço de estocagem nos casos em que os materiais apresentem um excesso temporário de armazenamento. • Sistema de estocagem livre Não especifica um local fixo de armazenagem, excetuando-se os materiais que exigem estocagem especial, e os itens são destinados aos locais livres dentro do armazém. © C hr is ti an D el be rt // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 42 Ambos apresentam vantagens e desvantagens. O sistema de estocagem fixa facilita a operacionalização do processo de armazenamento, visto que a localização das mercadorias dentro dos armazéns já está previamente definida. Por outro lado, os produtos com excesso de estoque em determinado período, excedendo a capaci- dade da área destinada a sua guarda, não podem ser acondicionados em outros locais, gerando áreas ociosas e outras com grande volume. Já a estocagem livre não apre- senta essa desvantagem, visto que os produtos são destinados para as áreas disponí- veis no armazém no momento de sua chegada, em contrapartida, exige um perfeito controle sobre o endereçamento do armazém, sob o risco de originar estoques “perdidos”, que serão descobertos ao acaso ou durante a execução do inventário físico. Caberá a cada gestor de armazenagem determinar qual dos sistemas de estocagem se enquadra melhor a suas necessidades. 2.2 Técnicas de previsão de demanda Considerando, por exemplo, o cenário em que a rotina de uma montadora é produzir a quantidade exata que venderá no dia, sem deixar nenhum cliente sem o produto e nem ter veículos não vendidos no mesmo dia. Essa situação seria quase impos- sível, portanto as organizações realizam a previsão da demanda para se aproximar ao máximo das expectativas dos clientes e do mercado sem acumularem estoques. Conforme Barbieri e Machline (2009), prever a demanda tem por finalidade antever acontecimentos futuros, destacando que o termo demanda se refere aos produtos ou serviços que as pessoas realmente têm intenção de adquirir em certas condições. Por meio dessa análise dos dados históricos, em conjunto com a realidade da demanda de cada empresa, os gestores conseguem determinar suas necessidades e encontrar maneiras para atualizar seus planejamentos. A previsão da demanda influencia no aumento dos recursos empregados nos diversos setores envolvidos no processo produtivo, como as áreas de recursos humanos, gestão da cadeia de suprimentos e manufatura. Para eliminar ou ao menos reduzir seus erros, é preciso utilizar técnicas adequadas, que serão exploradas a seguir. 2.2.1 A relevância da análise e previsão da demanda Para as empresas, não é possível conseguir determinar exatamente a quanti- dade e qualidade dos produtos que serão procurados pelos clientes em cada dia. Nesse sentido, a previsão da demanda tem o propósito de reduzir o risco que está sempre presente nas tomadas de decisão, uma vez que essa previsão define cenários futuros. Um exemplo é o exposto por Mancuso (2003, p. 35): Gestão de estoques e ArmAzenAGem 43 A Previsão de Demanda representou um papel importante no início de sucesso da Ford Motors e no seu posterior fracasso. Henry Ford viu que o consumidor queria um carro simples, de baixo custo, e com manutenção mais fácil do que os automóveis oferecidos nos anos 1900. Seu Modelo T dominou a indústria. Entretanto, Ford não viu que os consu- midores cansariam de desenho de Modelo T. A falha de Ford em prever o desejo dos con- sumidores por outros projetos quase resultou no fim de uma empresa que tinha monopolizado a indústria automotiva poucos anos antes.” Conforme Stevenson (2001), essa previsão tem duas aplicações: planejar o sistema e planejar a utilização do sistema. A primeira está direcionada às decisões de longo prazo, como localização de instalações e equipamentos e tecnologias empregadas. Já a segunda aborda decisões de curto e médio prazo, como o nível de estoque, quantidade de mão de obra, sistema de transporte, movimen- tação interna etc. Segundo Stevenson (2001), o processo de previsão está baseado nos seguintes passos: • delimitar o objetivo da previsão; • determinar o horizonte (período) de tempo que ela contemplará; • selecionar o modelo de previsão a ser utilizado; • coletar os dados necessários para o modelo (os dados que devem ser coletados dependerão do modelo); • elaborar a previsão (pode ser por meio de modelos que consideram estatísticas passadas ou pesquisas com clientes); • analisar os resultados apresentados por meio da comparação com concorren- tes, média do setor, o passado ou a meta determinada. Existem três variáveis relacionadas ao tempo que são fundamentais no processo de previsão, pois interferem diretamente na quantidade de itens que comporão cada lote de compra, no período de tempo que essa quantidade conseguirá atender à demanda da empresa e na periocidade em que as compras desses itens ocorrerão. Essas variáveis são: • o período da previsão, que consiste em definir a unidade de tempo básica que será utilizada, por exemplo: dia, semana, mês, trimestre etc; • seu horizonte da previsão, ou seja, determinar os períodos futuros que serão utilizados no estabelecimento da previsão ou qual o tempo em dias, semanas ou meses que os produtos adquiridos levarão para serem utilizados. Isso deve ser feito conforme o perfil de consumo e produto; © s ty le -p ho to gr ap hy // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 44 seu intervalo, isto é, prever o número de vezes e a frequência com que novas previsões serão realizadas. Previsões são insumos importantes para a elaboração do planejamento estratégico das empresas, planos de negócios, orçamentos, planos anuais e plurianuais. Com base nelas, o setor de finanças projeta fluxos de caixa e necessidades de capital, e as demais áreas da empresa, como a de gestão de pessoal, estimam as necessidades de contratação e treinamentos. 2.2.2 Tipologia das previsões de demanda: qualitativa versus quantitativa Obter e confirmar uma demanda futura com antecedência facilita a programação dos recursos e garante o ganho quando se antecipa uma oportunidade de mercado. Segundo Moreira (2009) e Tubino (2000), a classificação mais usualmente utilizada dos métodos de previsão é a que leva em consideração o tipo de abordagem utilizado, ou seja, o tipo de instrumentos e conceitos que serão empregados como ponto de partida para a previsão. Dessa forma, podemos classificar os métodos em qualitativos e quantitativos. Os métodos qualitativos privilegiam os dados subjetivos, ou seja, os que levam em conta a opinião pessoal dos atores envolvidos no processo decisório,sendo, dessa forma, mais difíceis de serem representados numericamente. Já os métodos quantitativos são elaborados com base na análise numérica de dados passados, relatórios e demonstra- ções ocorridas nos anos anteriores, não levando em consideração opiniões pessoais. Mesmo partindo de bases diferentes, certas características são comuns a ambas as técnicas, como a suposição de que as causas que influenciaram a demanda passada continuarão a existir e afetarão os acontecimentos no futuro; a incerteza das previ- sões, uma vez que prever todas as variações aleatórias que podem vir a acontecer é praticamente impossível; e a diminuição da acuracidade à medida que aumenta o período de tempo investigado. As técnicas qualitativas são normalmente utilizadas nos lançamentos de produtos novos no mercado ou quando os dados disponíveis para a consulta estão obsoletos ou defasados. Como é uma técnica mais rápida de ser empregada, também é utilizada quando não se dispõe de tempo para coleta e análise de dados da demanda passada. As quantitativas, por sua vez, são mais indicadas a produtos que já estão conso- lidados no mercado, pois se baseiam no histórico das operações realizadas pela empresa em momentos passados e, por meio da aplicação de fórmulas matemáticas, permitem projetar a previsão de consumo futura. A seguir, conheceremos as principais técnicas quantitativas para previsão de demanda. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 45 2.2.3 Principais técnicas quantitativas Os métodos quantitativos utilizados nas projeções utilizam informações que permitem decidir quais serão as dimensões e a demanda de produtos acabados ao longo do tempo. Conforme Dias (2011), as técnicas quantitativas usuais para calcular a necessidade de demanda nas organizações são: os métodos do último período, da média móvel, da média móvel ponderada e dos mínimos quadrados. O método do último período é o mais simples e consiste em utilizar como previsão para o período seguinte o valor do período anterior. Já o método da média móvel é uma extensão desse modelo, que utiliza a média dos valores de consumo em um número N de períodos anteriores para prever a demanda do próximo período: 1 2 3 nC +C +C …+CCM = n Sendo que: CM = Consumo médio; C = consumo dos períodos anteriores; n = número de períodos. O consumo de uma peça no intervalo de tempo de três anos, por exemplo, foi o seguinte: 2010: 70; 2011: 60 e 2012: 80. O consumo previsto para 2013, utilizando o método da média móvel com n = 3 será: 1 2 3C +C +CCM = n 70 +60 +80CM = 3 210CM = 3 CM = 70 Sendo assim, a previsão para 2013 é de 70 unidades. Para saber se a previsão é boa, ela deve ser comparada com média do setor, meta, anos anteriores e demais métodos de avaliação. Dessa forma, não é possível determinar se é uma boa previsão apenas com essas informações. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 46 O método da média móvel ponderada é uma variação do modelo da média móvel. Nele, os valores dos períodos mais próximos recebem pesos maiores em relação a períodos mais distantes: n t – i t – i i = 1 C= C ×P ∑ Sendo que: C = previsão de consumo n = número de períodos t – i = intervalo de tempo no qual o consumo ocorreu Ct – i = consumo efetivo no período t − i Pt – i = peso atribuído ao consumo no período t – i Para entender como o intervalo é determinado, considere dois pontos no tempo, sendo t uma representação para o dia de hoje: t – 1; t – 5. Nesse caso, t – 1 representa “ontem”, ou seja, um dia atrás. Já t – 5 representa 5 dias atrás. Considerando que i pode representar qualquer número, então, i pode ser substituído para determinar o período desejado para o consumo e, ao mesmo tempo, para o peso utilizado a ele. No exemplo apresentado no quadro a seguir, i pode assumir valores de 1 a 6, que é o intervalo de tempo analisado. Além disso, o somatório dos índices percentuais atribuídos ao fator P no intervalo de tempo estudado tem que resultar em 100% ou ser igual a 1, ou seja: n t – 1 i = 1 P =100% ou 1∑ Vejamos o exemplo do quadro a seguir: Período Peso ou fator de importância em % Quantidade 1 5% de 350 = 17,5 2 10% de 70 = 7,0 3 10% de 800 = 80,0 4 15% de 200 = 30,0 5 20% de 150 = 30,0 6 40% de 200 = 80,0 Total 100% 244,5 ≅ 245 Fonte: DIAS, 2011, p. 24. (Adaptado). Gestão de estoques e ArmAzenAGem 47 Primeiramente convertemos os percentuais em números decimais. Assim, somando o consumo no período de 1 a 6, temos o total: C =0,05 ∙ 350 + 0,10 ∙ 70 + 0,10 ∙ 800 + 0,15 ∙ 200 + 0,20 ∙ 150 + 0,40 ∙ 200 = 244,5 Utilizando os dados constantes no quadro, vamos determinar o consumo previsto para o 7º período, utilizando os seguintes pesos (percentuais entre parênteses) para os períodos 3, 4, 5 e 6: 3 – 80 (5%) 4 – 30 (20%) 5 – 30 (25%) 6 – 80 (50%). C = 0,50 ∙ 80+0,25 ∙ 30+0,20 ∙ 30+0,05 ∙ 80 = 57,50 Assim, a previsão para o período 7 é de 57 unidades. O método dos mínimos quadrados é utilizado para determinar a melhor linha de ajuste, ou seja, a que minimiza as diferenças entre os dados observados e um modelo de consumo linear, no qual os valores são constantes: mínima ∑(Y – Yp)2 sendo que: Y = valor observado; Yp = valor da projeção de um modelo linear. A linha reta está definida pela equação Y = a + bx. Em que: Y é o valor previsto; x é o tempo que pode ser medido em anos Nesse caso, é preciso determinar a (valor de Y quando x = 0) e b (a inclinação da reta). Para encontrar esses valores, utilizam-se duas equações. Para obter a primeira, multiplica-se a equação da linha reta por a e somam-se os termos. Sendo N o número de dados observados (por exemplo, a quantidade de períodos observados no exemplo anterior), temos: �Y = N∙a + b ∙� x Gestão de estoques e ArmAzenAGem 48 Ao multiplicarmos os termos por x e somá-los, obtemos: � (x ∙ Y) = a ∙� x + b ∙�x2 Com a obtenção dessas quatro somas, podemos substituí-las nas equações normais, onde conseguimos calcular o valor de a e b, e depois substituí-los na equação de linha reta, obtendo-se a fórmula de previsão: Suponhamos uma empresa montadora aérea que precisa calcular qual seria a previsão de vendas de seus jatos para o ano de 2016. As vendas dos cinco anos ante- riores foram: 2011: 110; 2012: 108; 2013: 119; 2014: 122 e 2015: 130. Realizando a tabu- lação desses dados, temos: Ano X Y x2 X, Y 2011 0 110 0 0 2012 1 108 1 108 2013 2 119 4 238 2014 3 122 9 366 2015 4 130 16 520 ∑ 10 589 30 1232 Fonte: DIAS, 2011, p. 28. (Adaptado). Substituindo os dados encontrados na tabulação nas equações normais temos: �Y = N∙a + b ∙� x 589 = 5a + 10b � (x ∙ Y) = a ∙� x + b ∙�x2 1232 = 10a + 30b Nesse caso, é preciso resolver por meio de sistema: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 49 Reorganizando a primeira equação: 589 = 5a+10b 5a = – 10b +589 – 10b +589a = 5 a = – 2b +117,8 Substituindo ela na segunda equação: ( ) 1232 =10a+30b 1232 =10 – 2b +117,8 +30b 1232 = – 20b +1178+30b 1232 –1178 =10b 10b = 54 54b = 10 b = 5,4 Substituindo b na primeira equação: a = – 2b + 117,8 a = – 10,8 + 117,8 Resolvendo as equações, obtemos os valores: a = 107,0 b = 5,4 Gestão de estoques e ArmAzenAGem 50 A previsão para 2016 está cinco anos a frente de 2011, então se o colocarmos no lugar do x na equação Y = a + bx , temos: Yp = 107,0 + 5,4 ∙ x = 107,0 + 5,4 ∙ (5) = 134 Segundo o método utilizado, a previsão de vendas de jatos para 2016 foi de 134 unidades, uma quantidade superior aos anos anteriores. Todas essas técnicas visam possibilitar que o gestor de estoques preveja a demanda de consumo em um deter- minado período de tempo, evitando que as empresas tenham que dispor de elevados volumes de recursos financeiros na manutenção de seus estoques. 2.2.4 Escolhendo o modelo de previsão da demanda A escolha do modelo de previsão de demanda está envolta em muito debate. Normalmente, as empresas que utilizam métodos intuitivos, isto é, qualitativos, de previsão de demanda são as que operam com estoques reduzidos oucom uma varie- dade pequena de itens em estoque, fato que facilita a aplicação desse tipo de método. Exemplos são os postos de combustíveis, que operam com um número pequeno de itens cuja demanda ocorre de forma constante na maioria dos casos. Segundo Bertaglia (2009, p. 345): [...] muitas empresas preferem utilizar métodos intuitivos para tomada de decisão que envol- vem a administração de estoques. Para as organizações que utilizam altos volumes de esto- que seria conveniente aplicar métodos mais analíticos que suportem as tomadas de decisão. Já as empresas que operam com um grande número de itens em seus estoques, como ataca- distas ou supermercados, optam por métodos analíticos, pois estes são pautados em dados provenientes de registros operacionais e finan- ceiros, possibilitando um maior grau de acerto nas previsões. Os diversos departamentos das organizações podem entrar em conflito ao defi- nirem o modelo de previsão de demanda, pois essa decisão afeta todos diretamente. Por exemplo, segundo Bertaglia (2009), o setor financeiro sempre aconselha esto- ques mínimos, com aumento da frequência de aquisições no período, pois isso implica menor aporte de capital em estoques. Já o setor de vendas e produção (manufatura), © ts yh un / / S hu tt er st oc k. .. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 51 buscando evitar problemas como falta de matérias e possíveis desabastecimentos, prefere manter o nível de estoques alto. Desse modo, identificar os custos relativos à manutenção dos estoques é funda- mental para determinar a demanda, e gerenciar essa situação com base em métodos analíticos (técnicas quantitativas) é fundamental para que a escolha seja a mais adequada possível. 2.3 O lote econômico e suas restrições Os custos são fator crítico para o gerenciamento de qualquer departamento dentro das organizações, especialmente os relativos ao estoque. Segundo Ballou (2006), as organizações realizam o gerenciamento dos estoques com o objetivo de reduzir custos totais, pois os gastos com compras e manutenção de estoques estão entre os mais significativos. Para identificar esses custos, existem equações que auxi- liam os gestores a prever a necessidade de aquisição de materiais necessários ao funcionamento das empresas, e uma delas é a do lote econômico de compra (LEC). Bowersox et. al. (2006) conceituam o LEC como a quantidade do pedido de compra que apresenta o menor custo total, isto é, quando a soma dos custos de manutenção e obtenção de estoque é a mais vantajosa. Assim, o LEC pode ser definido como o tamanho ideal do pedido de compra para que não haja faltas de produtos e nem sobras em estoque. O sistema do lote econômico de compra objetiva determinar as quantidades que geram mais economia no processo de aquisição de material. Nesse sentido, as orga- nizações precisam identificar o que é inteligente fazer, ou seja, qual a quantidade ideal para garantir o funcionamento desse processo, sem prejudicar a demanda, isto é, o atendimento aos clientes, e sobretudo economizando estoques, com vistas a não deixar capital parado. 2.3.1 Os custos de armazenagem Segundo Martins e Alt (2011), os custos de armazenagem podem ser divididos em duas categorias: os custos de capital, correspondentes ao custo do capital investido em estoques, e o custo de armazenagem, que se refere ao somatório de custos como: de armazenagem, manuseio e perdas. De acordo com Dias (2011), os custos gerados pelo armazenamento de materiais são agrupados nas seguintes modalidades: • custos de capital (juros, depreciação); • custos com pessoal (salários, encargos sociais); • custos com edificação (aluguéis, impostos, luz, conservação); Gestão de estoques e ArmAzenAGem 52 • custos de manutenção (deterioração, obsolescência, equipamentos de movimentação). A quantidade de itens em estoque e seu tempo de permanência são variáveis que interferem diretamente nos custos de armazenagem. Grandes quantidades demandam mais pessoal e uso de equipamentos para movimentação do que estoques com volume menor. Além disso, a obsolescência dessa mão de obra e equipamentos, quando deixam de ser empregados em determinado período, também gera custos desnecessários. Conforme Dias (2011), para calcular o custo de armazenagem de determinado material, utiliza-se a seguinte expressão: Qcusto de armazenagem = T P I 2 ⋅ ⋅ ⋅ Sendo: Q = quantidade de material em estoque no tempo considerado; T = tempo, considerando o custo total dos pedidos de armazenagem. P = preço unitário do material; I = taxa de armazenagem, expressa geralmente em termos de percentagem de custo unitário, embora também possa ser representada por um valor unitário. Segundo Dias (2011), para encontrar o valor de I, é preciso somar as seguintes taxas: de retorno de capital; armazenamento físico; seguro, movimentação, manuseio e distribuição; obsolescência; outras taxas, como água, luz etc. A taxa de armazenamento físico (Ib) pode ser descrita da seguinte forma: ( ) ( )b S x A I =100 x C x P Em que: S = área ocupada pelo estoque da empresa A = consumo anual do m² de armazenamento C = consumo anual de produtos P = preço unitário Gestão de estoques e ArmAzenAGem 53 A taxa de movimentação, manuseio e distribuição (Id), é presentada pela seguinte equação: d depreciação anual dos equipamentosI =100 x valor do estoque Sendo assim, a taxa de armazenamento pode ser demonstrada pela equação: I = Ia + Ib + Ic + Id+ Ie + If O custo de armazenagem é proporcional ao estoque médio, ou seja, quando o estoque é máximo, o custo de armazenagem também é máximo, e quando o estoque é zero, o custo de armazenagem é mínimo, pois continuam incidindo despesas fixas. Além disso, o preço unitário é considerado constante no período analisado, se não for, deve ser tomado em valor médio. Veja o exemplo a seguir para uma empresa que produz shampoo: Variável Valor Preço unitário (P) R$ 17,25 Custo seguro (Cs) R$ 75.000,00 Perdas anuais (O) R$ 750.000,00 Lucro (L) R$ 1.500.000,00 Despesa (D) R$ 3.750.000,00 Valor estoques (Ve) R$ 9.000.000,00 Edifícios (E) R$ 30.000.000,00 Consumo anual do m² de armazenamento (A) 1.500 m² Área ocupada pelo estoque da empresa (S) 40.500 m² Consumo anual de produtos (C) 4.926.240 unidades Gestão de estoques e ArmAzenAGem 54 Depreciação anual (D) R$ 3.401.942,40 A tabela a seguir demonstra o cálculo para a taxa de armazenagem: Taxa Equação Valor Armazenamento físico ( ) ( ) 40.500 x 1.500 Ib = 4.926.240 x 17,25 0,71 Outras taxas (água, luz, etc.) 3.750.000If = 100 x 9.000.000 41,66 Retorno de capital 1.500.000Ia = 9.000.000 0,17 Taxa de obsolescência 750.000Ie = 100 x 9.000.000 8,33 Taxa de seguro 75.000Ic = 100 x 9.000.000 +30.000.000 0,19 Taxa de transporte, manuseio e distribuição 3.401.942,4Ic = 100 x 9.000.000 37,79 Taxa de armazenagem I=Ia + Ib + Ic + Id + Ie + If 88,85 O custo de armazenagem é composto de duas partes: uma fixa, que ocorre sempre, independente de quantidade de material em estoques, devido às despesas fixas como aluguel, imposto predial, energia, água, segurança etc, e uma variável, que sofre interferência da quantidade e das características físicas do material armazenado. 2.3.2 O cálculo do lote econômico O lote de compra (representado nas fórmulas pela letra Q, de quantidade) está presente nas fórmulas utilizadas para definir os mais importantes custos relacionados ao estoque, mas, para determiná-lo corretamente, é preciso antes encontrar o lote ideal de compras ou lote econômico de compras (LEC) para o tipo de negócio e de demanda. O valor de Q que minimiza o custo total (CT) e é o LEC, cuja fórmula, então, é: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 55 ( ) p2C DLEC= CA +i P ⋅ ⋅ sendo que: CA = custo de armazenagem; i = taxa de juros (pode ser uma taxa de juros referencial); P = preço; CP = custo de pedido; D = demanda. Paracompreender a aplicação da fórmula, suponhamos uma indústria de meta- lurgia de grande porte, com demanda anual de 100 mil unidades de um item cujo preço é de R$ 1,80. A taxa de juros anual é de 23,3%, o custo de armazenagem por unidade/ ano é de R$ 0,40, o custo do pedido é de R$ 30,00 e os custos indiretos totalizam R$ 300,00. Para saber o LEC, deve-se incluir os dados na fórmula: ( ) 2 30 100.000LEC= 0,40 +0,233 1,80 6.000.000LEC= 0,8194 LEC= 7.322.431,047 LEC 2.706 ⋅ ⋅ ⋅ ≅ Neste exemplo, o LEC seria de 2.706 peças. Esse resultado, entretanto, não impede que o lote seja ajustado de acordo com as definições de lote do fornecedor, como veremos a seguir. 2.3.3 O lote econômico com descontos de preços e do frete O lote econômico com desconto é uma variação do LEC que busca avaliar a viabi- lidade de se alterar a quantidade mínima do lote em função de um desconto oferecido no preço de um item ou no custo do frete. Essa avaliação se pauta em responder a um questionamento: até que ponto é compensatório para a empresa alterar sua quanti- dade mínima de compra em razão de um desconto oferecido? Gestão de estoques e ArmAzenAGem 56 Segundo Dias (2011), para responder a essa pergunta, a empresa deve determinar o que é mais econômico: adquirir maiores quantidades de produtos do que a determi- nada no LEC, obtendo o abatimento, ou comprar a quantidade de acordo com o que foi estabelecido no LEC, independentemente de qualquer nível de desconto. O autor nos apresenta a seguinte formula para calcular o LEC com desconto: ( ) ( ) ( ) 22+DL + 2+DL – 4 1–D K = 2 1–D sendo que: K = percentual de aumento da quantidade (Q) do LEC; DL = desconto do lote; D = desconto (%) conseguido ao se comprar uma quantidade igual a k. Essa fórmula foi derivada de uma equação de 2º grau, portanto, também apre- senta uma segunda variação negativa, que permite encontrar o ponto mínimo, que seria o menor lote possível. Porém, o objetivo é encontrar um valor de L (lote) maior possível, buscando aferir o máximo de benefícios com a aquisição, fato que nos leva a ignorar o sinal negativo, ficando com a seguinte variação: 2C PL = I B ⋅ ⋅ sendo que: C = consumo médio; P = preço unitário; I = custo de armazenagem; B = custo do pedido. Suponhamos que uma empresa compra uma peça de seu fornecedor a um preço unitário de R$ 3,00. O consumo anual (demanda) desse item é de 1.200 unidades, seu Gestão de estoques e ArmAzenAGem 57 custo de pedido é de R$ 200,00 e o custo unitário de manutenção do estoque 0,6 e 20% de custo de armazenagem. O fornecedor comunicou à companhia que, nas aqui- sições de lotes de compras acima de 1.000 unidades, concederá um desconto de 5%. Qual condição é a mais vantajosa para a empresa? Retomando a fórmula: ( ) 2Cp DLEC= C ⋅ C = custo unitário de manutenção do estoque = 0,6; P = custo unitário de pedido = 200,00; D = demanda = 1.200. Calculando inicialmente o lote econômico, temos: 2 200 1.200Q = = 895 0,60 ⋅ ⋅ Calculando o desconto: ( ) ( ) ( ) 2 2 1.200 3L = =13,4 0,20 200 2+0,05 13,4 2+0,05 13,4 – 4 1– 0,05 K = 2 1– 0,05 2+0,67+ 7,13– 3,8K = 1,9 K = 2,368 ⋅ ⋅ ⋅ ⋅ ⋅ Logo, é preciso encontrar o limite máximo de vantagem na aquisição da peça com o desconto de 5%. Para isso, se deve multiplicar o percentual de aumento da quantidade (Q) do LEC pelo próprio lote econômico: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 58 KQ = (K) 2,368 · (Q) 895 = 2.120 unidades Assim, nesse caso, é vantajoso utilizar o desconto oferecido pelo fornecedor, visto que o limite máximo de vantagem na aquisição da peça com o desconto de 5% está bem acima da quantidade estabelecida no lote econômico (Q), que é de 895 unidades. Outros fatores devem ser levados em consideração, como a capacidade de arma- zenagem e a disponibilidade financeira, para se chegar a uma decisão sobre a vantagem de aumentar o LEC. 2.3.4 Restrições ao lote econômico A tendência apresentada pelas empresas atualmente é buscar a melhoria de seus esquemas de distribuição e fornecimento, objetivando trabalhar com níveis de estoques inferiores e, consequentemente, menores lotes de compras. Segundo Cabanas e Ribeiro (2005), fatores inerentes às condições de armazenagem, variações de preço ou a natu- reza do consumo podem trazer algumas restrições à utilização do lote econômico, como: • Espaço de armazenagem Os lotes de compra recomendados pelo sistema podem não coincidir com a ca- pacidade estática de armazenagem do almoxarifado. • Variação do preço do material Ocorre em países que estão situações de economias inflacionárias, nos quais cal- cular e adquirir a quantidade ideal de compra com base nos preços atuais pode não ser vantajoso, pois, na entrega da mercadoria, será preciso refazer os cálcu- los tantas vezes quantas forem as alterações de preços sofridas pelo material ao longo do período. • Dificuldade de aplicação Decorre da falta de registros ou levantamentos de dados relativos aos custos. • Natureza de material Decorre da possibilidade de o material se tornar obsoleto ou se deteriorar. • Natureza de consumo Para sua perfeita aplicabilidade, o LEC pressupõe demanda regular e constante, com distribuição uniforme. Materiais com consumo aleatório e descontinuado sofrem variações que podem gerar resultados insatisfatórios ou fora do padrão esperado. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 59 A gestão de materiais nas organizações, no tocante à determinação do lote de compras, tem sofrido várias alterações ao longo dos tempos. Com o advento dos sistemas de requisição de materiais informatizados, a opção por níveis cada vez menores de estoques e de lotes de compras é uma realidade cada vez mais presente dentro das organizações. 2.4 Ponto de pedir e sua reposição A reposição ou ressuprimento dos estoques em um centro de distribuição ou qualquer outro espaço de armazenagem deve obedecer a um plano ou estratégia de gestão de estoques a fim de administrar o atendimento das produções sem acumular estoques desnecessários nos armazéns. Conforme Ballou (2006), tempo de ressuprimento (TR) pode ser definido como o tempo decorrido entre o momento que se identifica a necessidade de materiais e a ocasião em que o item será incorporado ao estoque. Esse tempo também é conhecido como ponto de pedir, pois é o ponto exato da emissão do pedido de ressuprimento de um item para que ele possa ser produzido pelo fornecedor, transportado, recebido pela empresa e disponibilizado à produção. Ainda segundo o autor, para medir corretamente o TR, devem ser consideradas as seguintes etapas: emissão da comunicação ao fornecedor e seu prazo de entrega, tempo de deslocamento (transporte), recebimento e inspeção. Veremos a seguir como efetuar esse cálculo. 2.4.1 O ponto de pedir e suas variações O ponto de pedir é o momento que se dispara o novo pedido a fim de atender à produção ou a reposição de um estoque para revenda, evitando a falta de itens antes da chegada dos produtos. Pode-se dizer também que é a quantidade em estoque que, uma vez atingida, inicia o processo de compra ou produção, considerando o consumo médio mensal, o tempo de reposição e o estoque de segurança. Sendo assim, segundo Martins e Alt (2011), o ponto de pedir (PP) é calculado da seguinte forma: PP = (TA ∙ D) + ES sendo que: © n as ir kh an // S hu tt er st oc k https://www.totvs.com/mktfiles/tdiportais/helponlineprotheus/portuguese/mata290_entrega.htm https://www.totvs.com/mktfiles/tdiportais/helponlineprotheus/portuguese/mata290_estoque_de_seguranca.htm Gestão de estoques e ArmAzenAGem 60 TA = TR = tempo de reposição, que é o prazo de entrega e cadastramento do produto no estoque; D = CM = consumo médio; ES = estoque de segurança. Suponhamos que uma empresa metalúrgica produz peças para sistemas de freio automotivo e as fornece para várias montadoras. Seu consumo médio mensal de fibra de carbono, utilizada na produção de pastilhas de freio, é de 40 toneladas. O tempo que transcorre desdea emissão do pedido de ressuprimento até sua disponibilização no estoque é de dois meses, e o estoque de segurança estipulado pelo setor de arma- zenagem é de 20 toneladas. Para calcular o ponto de pedido desse item, basta incluir os dados na fórmula: PP = (2 ∙ 40) + 20 = 100 toneladas Outra forma de representar quanto pedir: ROP = D x T ROP: Ponto de reposição em unidades D = Média da demanda diária em unidades T = Duração média do ciclo de atividades em dias Essa percepção fundamentada no cálculo dá às organizações a segurança de que terão tempo para repor seu estoque sem atingir limites críticos que possam prejudicar o processo produtivo. 2.4.2 Nível de reposição e intervalos de revisão fixos Buscando diminuir os impactos causados por essa escolha, os gestores buscam determinar os parâmetros para os níveis máximos e mínimos de estoque. Esses sistemas de controle das necessidades de reposições de estoques são também conhecidos como sistemas de revisões periódicas (também chamados de sistema de máximos e mínimos, ou sistemas de quantidades fixas). Dias (2011) afirma que, devido às dificuldades que as empresas enfrentam em determinar seu consumo e as variações ocorridas no tempo de reposição, foi estabele- cido o sistemas de revisões periódicas, que consiste em: • determinação do consumo previsto para o item desejado; Gestão de estoques e ArmAzenAGem 61 • fixação do período de consumo previsto em a); • cálculo do ponto de pedido em função do tempo de reposição do item pelo fornecedor; • cálculos dos estoques mínimos e máximos; • cálculo dos lotes de compra. O gráfico a seguir demonstra o fluxo de estoques de uma empresa que trabalha com o lote de compra e o ponto de pedir fixo, e o que sobe e desce é o nível de estoque: Identificação dos níveis de estoque P.P E. Max E. Min T Q Identificação dos níveis de estoque Fonte: DIAS, 2011, p. 117. (Adaptado). Analisando o gráfico anterior, conseguimos identificar os níveis mínimo e máximo de estoques e concluir que o ponto do pedido (PP) e o lote de compra (Q) são fixos e constantes, e suas reposições ocorrem em períodos variáveis, quando o nível de estoque alcança o ponto de pedido. No sistema de reposição periódica, o estoque é reposto em intervalos fixos e constantes de tempo, já previamente estabelecidos, e os lotes de compra variam em função do nível de estoque por ocasião do PP. A quantidade solicitada para a compra é estabelecida de forma que, ao ser somada ao estoque existente no momento do rece- bimento, atinja um nível máximo de estocagem (estoque máximo) supostamente sufi- ciente para atender a demanda até o próximo PP. Esse sistema admite a possibilidade de existir variabilidade na demanda, portanto o estoque de segurança, que estudaremos adiante, precisa garantir que não falte material durante todo o intervalo de ressuprimento. Slack, Chambers e Johnson (2009, p. 359) definem estoque de segurança como aquele cujo “[...] propósito é compensar as incertezas inerentes a fornecimento e demanda”, e esse nível mínimo de estoque existe para cobrir a possibilidade de a demanda vir a ser maior do que a espe- rada durante o tempo decorrido na entrega dos bens (tempo de ressuprimento). 2.4.3 MRP – material requirement planning © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 62 Para facilitar a gestão de materiais nas organizações, foram desenvolvidos os sistemas de planejamento de materiais ou material requirement planning (MRP), termo em inglês que significa planejamento das requisições de materiais. Segundo Dias (2011), o MRP lida com suprimento de peças e componentes cuja demanda depende de determinado produto final. Em outras palavras, o MRP opera um ciclo de operações já previamente definido da produção de um produto (ou uma lista de materiais). Assim, assessorando o setor de manufatura com informações relativas às quantidades neces- sárias e o tempo exato de utilização no processo de fabricação de produtos finais. Para exemplificar, considere uma produção de panelas. Nessa produção o item tampa demora 4 dias para ser produzido, enquanto o item cabo demora 2 dias. Dessa forma, o MRP vai sugerir a melhor data para fazer o pedido da tampa de panela para conseguir atender à demanda prevista. O sistema de solicitação trimestral é predecessor do MRP, aprofundada por George Plossl e Oliver Wight em 1967. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, várias indústrias criaram planos de pro- dução baseados apenas na carteira de pedidos de clientes que estabeleciam parcerias constantes. Ainda de acordo com Dias (2011), um sistema MRP é composto pelos seguintes elementos: Elementos do sistema MRP Programa MRP Programa mestre de produção Saídas e relatórios Registros de inventários Provisões de demanda Lista de materiais Ordens dos clientes Fonte: DIAS, 2011, p. 121. (Adaptado). Gestão de estoques e ArmAzenAGem 63 As ordens dos clientes (pedidos), juntamente com as provisões de demanda para o período, são enviadas para o programa mestre de produção, que encaminha essas informações ao MRP, responsável pelo levantamento das necessidades de materiais levando em consideração as quantidades estabelecidas nas listas de materiais necessá- rios para a produção de cada item e as informações sobre os estoques existentes cons- tantes dos registros de inventários. Após processar todas essas informações, o sistema emite um relatório da necessidade de materiais para atender à demanda, determi- nando a necessidade de aquisição ou não dos produtos. Com base nesses elementos e a partir da alimentação das informações relativas a quanto e quando o cliente deseja consumir, o sistema envia as informações sobre cada item componente do produto final para os elementos interligados do sistema. 2.4.4 Estoques de segurança O estoque de segurança é definido pelas quantidades ou níveis razoáveis para sustentar e evitar as faltas de estoque frente às incertezas da cadeia de suprimentos. Sem o apoio desse estoque, podem faltar produtos quando o processo produtivo precisar ser interrompido devido ao atraso no recebimento de matéria-prima do fornecedor. Na área comercial, quando a demanda for maior que o estoque, é possível consi- derar o estoque que está em trânsito para atender à demanda que o estoque físico não consegue no momento, lembrando-se de acompanhar o lead time das entregas. Lead time de entrega é o tempo transcorrido entre a emissão do pedido de aquisição de mer- cadorias e a sua efetiva inclusão nos estoques da empresa, ou seja, o tempo que o fornecedor leva para produzir, transportar e entregar o pedido. Segundo Garcia, Lacerda e Arozo (2001), o estoque de segurança permite saber o correto ponto de pedido de um item por meio da determinação da quantidade mínima que deve existir no estoque, destinada a cobrir eventuais atrasos no suprimento e proporcionando a garantia do funcionamento do processo produtivo sem risco de faltas. Ele pode ser calculado sabendo-se a demanda (ou sua previsão), o lead time ou tempo de fornecimento, o desvio padrão desses dois elementos e o nível de serviço desejado. Sendo assim: Estoque de segurança = demanda média diária (vendas) ∙ tempo de entrega (em dias) Gestão de estoques e ArmAzenAGem 64 Consideremos uma franquia de venda de sanduíches que costuma comercializar em média 100 lanches por dia. Normalmente, o tempo de entrega de novos pedidos para seu franqueador é de 3 dias. Logo: Estoque de segurança = 100 ∙3 = 300 Esse resultado significa que a franquia precisa ter no mínimo 300 sanduíches em estoque, e qualquer valor igual ou abaixo é um indicador de que é necessário fazer um novo pedido para os fornecedores. Nesse sentido, as estratégias de gestão de estoques devem ser direcionadas para que as empresas consigam atingir seus objetivos. Para tanto, as organizações devem determinar corretamente seus níveis de estoques, o tamanho do lote e quando produzir, pois precisam contar com os insumos necessários para a produção no tempoadequado para atender à demanda por seus produtos. Assim, nesse capítulo, foi abordado o “quando pedir” identificando a importância do tamanho do lote e como avalia-lo. Além disso, foram considerados fatores como a coordenação da oferta e demanda e localização do estoque. Após isso, foram abor- dadas técnicas de avaliação da demanda, se concentrando em métodos de previsão, como a escolha do melhor método conforme a necessidade e os tipos existentes. Ao avaliar a produção, o capítulo se foca no lote econômico, abordando os custos de armazenagem, cálculo do lote e a avaliação dele. Por fim, o capítulo entra na temática “Ponto de pedir” e aborda as formas de identificar quando é o melhor momento para realizar novos pedidos. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 65 Referências BALLOU, R. H. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: planejamento, organização e logística empresarial. 05. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. BARBIERI, J. C.; MACHLINE, C. Logística Hospitalar: teoria e prática. 02. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. BERTAGLIA, P. R. Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento. São Paulo: Saraiva, 2006. ______. Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento. 02. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2009. BOWERSOX, D. J.; CLOSS, D. 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Com base nessa premissa, os sistemas de estocagem são compostos por métodos, equipamentos, instalações e tecnologias que buscam disponibilizar os produtos aos clientes na hora certa, na quan- tidade acordada e com a qualidade esperada, de forma aliada à gestão dos custos. Segundo Ballou (2006), esses sistemas têm duas funções principais: a estocagem e o manuseio de materiais, e neste capítulo, analisaremos o impacto de cada uma delas na gestão de custos logísticos das organizações. Os sistemas de estocagem são sistemas de distribuição em nível micro que se inserem em um macro, que é a cadeia de suprimentos. Sendo assim, identificar as atividades específicas desse cenário maior nos permite entender o sistema e fornece uma base para gerar propostas e alternativas de novos projetos. 3.1 O ciclo de pedido do cliente Ciclo de pedido é o tempo transcorrido entre a realização do pedido pelo cliente e sua entrega. Seus atores principais são o fluxo de informações em um sentido e o fluxo de materiais em sentido oposto, ao longo de toda a cadeia logística. A lógica do ciclo é a seguinte: junto com o fluxo de bens e serviços dos fornecedores para os clientes cada elo da cadeia enviará no sentido inverso pedidos e informações para os fornecedores FUSCO E SACOMANO (2007). A integração da logística Apoio à Manufatura Fluxo de Materiais Fluxo de Informações Distribuição Física ClientesSuprimentosFornecedores Fonte: BOWERSOX; CLOSS, 2001, p. 44. (Adaptado). © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 68 A gestão eficiente do ciclo de pedido do cliente ao longo de toda a cadeia de supri- mentos é crucial para aumentar a percepção dos clientes do nível de serviço. Um erro comum dos gestores de estoques é confundir o ciclo de pedido do cliente com o lead time da entrega, partindo da perspectiva do cliente, cuja visão é a de que quanto menor for o tempo de entrega dos pedidos pelos fornecedores, mais eficiente será a empresa. De acordo com Erickesen, Stoflen e Suri (2007), o lead time é a quantidade de tempo, em dias corridos, desde a criação da ordem, passando pelo caminho crítico, até que pelo menos uma das peças que integram o pedido seja entregue ao cliente. Para evitar esse tipo de equívoco, os gestores devem ter a visão total do processo produtivo, que se inicia no pedido do cliente, passa pela aquisição de matéria-prima e os processos de manufatura, embalagem, distribuição e transporte até a entrega ao cliente, e não somente o período compreendido entre a chegada do pedido no depósito de produtos acabados e o recebimento pelo consumidor. Esse processo também é conhecido como o ciclo das operações logísticas, que veremos com mais detalhe no tópico seguinte. 3.1.1 O ciclo das operações O ciclo das operações do sistema de estocagem está ligado à gestão da cadeia de suprimentos ou supply chain management (SCM). O ciclo das operações de estocagem se inicia no pedido do cliente e passa pela definição de fornecedores, compra de material, operações de transporte, recebimento na área de armazenagem, movimentação e transporte internos no processo produ- tivo até a distribuição ao consumidor final. Assim, administrar estoques corretamente possibilita a maximização do efeito feedback das vendas e o ajuste do planejamento da produção. Além disso, de acordo com Bertaglia (2009), a gestão do ciclo das opera- ções deve levar em conta o balanceamento entre a demanda real de consumo e a produção, buscando evitar a formação de estoques elevados. O efeito feedback das vendas representa o retorno dado pelos clientes sobre os produtos co- mercializados pela empresa. Assim, de acordo com os pedidos de vendas, a produção e conse- quentemente as necessidades de materiais (quantidade e tipo) que permaneceram em estoque serão programados. A estratégia da gestão do ciclo das operações varia de acordo com o planejamento estratégico de cada empresa. De qualquer modo, ainda segundo Bertaglia (2009), essa atividade só será realizada de forma eficaz e eficiente se os estoques forem priorizados. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 69 3.1.2 O impacto do ciclo de pedido na cadeia de suprimentos O ciclo do pedido também se relaciona com a gestão da cadeia de suprimentos, pois a demanda de operações começa com a retirada de um pedido de compra. A determinação do lead time de entrega é ponto de partida para a definição de todos os demais processos componentes dessa cadeia. Segundo Perreault, Junior e McCarthy (2002), o estabelecimento da estratégia de formação de estoques de uma empresa afeta o comportamento de todas as compa- nhias que integram a cadeia de suprimentos na qual ela se insere, pois as demandas delas serão criadas de acordo com as quantidades de estoques determinadas para cada etapa do ciclo produtivo, as necessidades de matérias-primas, produtos semiacabados e produtosacabados. Sendo assim, estabelecer parcerias entre os integrantes da cadeia possibilita que o ciclo de pedido possa ser atendido sem sobressaltos e é o segredo para que as organizações possam se estabelecer no mercado. Essa interação é mais vantajosa que uma relação entre cliente e fornecedor, pois este não tem compromisso maior do que atender a uma demanda esporádica e indeterminada, enquanto o parceiro se compro- mete a assumir etapas do processo produtivo, compartilhando não só as vantagens, como também as responsabilidades. Além disso, determinar o lead time de entrega permite às empresas definir clara- mente como ocorrerá a formação dos níveis de estoques em cada elo da cadeia de suprimentos. Quanto maior for o tempo de ressuprimento, maior será a necessidade de aumentar os níveis de estoque, situação que os gestores devem evitar, pois a manu- tenção de estoques demanda recursos financeiros que a organização deixa de dispor, pois eles estarão imobilizados temporariamente. 3.1.3 O pedido perfeito A gestão da cadeia de suprimentos visa entregar o produto certo no prazo acor- dado, no lugar e nas quantidades corretas, com a qualidade acordada, no preço combi- nado e com a documentação adequada, da maneira menos custosa possível para todos os envolvidos neste processo. Quando o processo consegue reunir todas essas condi- ções simultaneamente, ocorre o pedido perfeito. Para Grüdtner (2005), o pedido perfeito não está calcado no desempenho individual das em- presas, mas sim, no conceito de mensuração de desempenho, pois representa o foco no de- sempenho ideal, almejando a eficácia do desempenho de toda a cadeia logística integrada. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 70 Segundo Christopher (2011), consegue-se estabelecer o nível de serviço ao cliente pelos seguintes elementos: disponibilidade, confiabilidade de entrega e frequência, níveis de estoque e tempo consumido no ciclo dos pedidos. Para Bowersox e Closs (2001), ao maximizar esses aspectos, ocorre o pedido perfeito, de modo que o nível de serviço apresente zero defeitos. É uma situação almejada pelas organizações, pois diminui o tempo de processamento dos pedidos e os custos agregados à satis- fação do cliente. Para tanto, alguns equívocos devem ser evitados, como o envio de pedidos incorretos, a falta de produtos, erros na separação, no acondicionamento e no despacho e atrasos na entrega. 3.1.4 Métricas de atendimento As métricas de atendimento são parâmetros determinados pelas organizações com a finalidade de medir a performance de seus diversos setores. Para tanto, elas desenvolveram mecanismos de controle, identificados como indicadores de desem- penho, isto é, métricas quantitativas que refletem o desempenho de uma empresa no alcance dos objetivos estabelecidos em seu planejamento estratégico. De acordo com Dias (2011), há diversas abordagens de avaliação, com destaque para três clássicas: a financeira, pelas unidades organizacionais (ou departamentos) e por procedimentos administrativos. Essas abordagens possuem vantagens e desvantagens. A abordagem financeira apresenta os resultados em termos de lucro sobre as vendas ou capital investido. Sendo assim, é de fácil aplicação, desde que a empresa tenha seu setor contábil bem organizado, e é útil para terceiros, já que os índices de liquidez e rentabilidade são representativos na prestação de contas aos acionistas. Como desvantagens, apresenta lentidão, pois a avaliação só pode ser realizada após a ocorrência dos fatos, e desatualização, por se referir a fatos do passado. Além disso, revela sintomas, e não causas reais dos resultados encontrados para os processos. A abordagem por departamento consiste em um método ordenado que impõe obediência a normas bem estabelecidas. Por envolver muitas pessoas, propicia o aparecimento de novas ideias e a troca de pontos de vista, incentivando mudanças. Por outro lado, exige uma departamentalização rígida da companhia e enfatiza as operações na forma que são feitas habitualmente, gerando mudanças apenas nos departamentos, e não em toda a organização. Por fim, a abordagem por processos administrativos se baseia na análise dos setores de planejamento, controle, organização, assessoria e lideranças, buscando alcançar o equilíbrio organizacional da empresa como um todo. Entre as desvantagens dessa abordagem, podem ser destacadas: uma quantidade excessiva de informações para o detalhamento, alto custo para utilização e alto custo para utilização. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 71 3.2 Recebimento, fracionamento de volume, combinação e manuseio de materiais A atividade de recebimento de materiais abrange desde sua recepção até a entrada em estoque. Ao longo de todo esse processo, realizam-se várias ações, como identifi- cação, fracionamento (também conhecido como picking ou order picking), combinação de materiais e manuseio. Segundo Bowersox e Closs (2001), essa atividade é a principal função de um armazém, sendo portanto elemento-chave da produtividade. Também é a que mais consome mão de obra, necessária para separação e o manuseio de produtos, represen- tando um alto custo para o sistema logístico. 3.2.1 O recebimento de materiais O recebimento de materiais está integrado a um sistema global de gestão de materiais dentro das organizações, ligado às áreas de compras, transporte e contabilidade, e funciona como uma interface entre o atendimento do pedido pelo fornecedor e os estoques físico e contábil. Conforme Dias (2011), essa atividade está dividida em quatro fases: • Entrada de materiais. • Conferência quantitativa. • Conferência qualitativa. • Regularização. De acordo com Dias (2011), as atribuições básicas do recebimento são: • coordenar todas as atividades relativas ao recebimento e devolução de mate- riais ou produtos; • analisar a documentação recebida, verificando se todo o processo está autorizado; • comparar os volumes declarados na nota fiscal ou no manifesto de transporte com os efetivamente recebidos; • verificar possíveis avarias que comprometam a integridade física do material, realizando as ressalvas necessárias nos respectivos documentos; • realizar as conferências quantitativa e qualitativa dos materiais; • decidir pelo aceite ou recusa e devolução dos materiais; • liberar o pagamento ao fornecedor, ou se for o caso, a regularização da recusa ou devolução; • liberar o material para o estoque no armazém ou almoxarifado. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 72 As atividades de recebimento de materiais tendem a ser onerosas para as orga- nizações, pois costumam ser lentas e demandam tempo. Essa demora faz com que os demais setores fiquem sujeitos a esse hiato produtivo, que precisa ser bem planejado para não causar transtornos ao processo de produção nem prejuízos. 3.2.2 O controle de recebimento A atividade de controle de recebimento de materiais tem a função de determinar as quan- tidades de materiais que devem permanecer em estoque, o momento correto de reabastecimento e a avaliação dos materiais recebidos. Um correto e eficiente sistema de controle permite às empresas realizar uma gestão adequada de materiais que lhes possibilitem melhorar as relações com os usuários da cadeia de suprimentos e reduzir custos de aquisição de materiais e relativos a perdas de estoque. Por outro lado, um sistema ineficiente pode resultar em incapacidade de cumprir prazos de entrega, níveis de estoque elevados e incompatíveis com a demanda, neces- sidade de aumento da área de armazenagem, elevando os custos, e aumento dos índices de obsolescência da estrutura e equipamentos. Para evitar esses problemas, as organizações devem como contar com um sistema de informações confiável. Registrar informações em sistemas ou livros apropriados possibilita inseri-las em mecanismos de controle, buscando manter a veracidade dos registros, que servirão de base para tomadas de decisão respaldadas em dados corretos. O não registro dessas informaçõesacarreta a falta de conhecimento sobre a realidade dos estoques da empresa, o que pode gerar excesso ou falta de estoque. 3.2.3 O impacto da localização das mercadorias no espaço do armazém A disposição dos espaços destinados à guarda dos estoques de uma empresa é chamada de layout de armazenagem. O layout de armazenagem é a forma por meio da qual as áreas de armazenagem estão dispostas. Geralmente, esse layout é arranjado de forma a aproveitar o máximo possível do espaço existente, considerando impacto na produti- vidade, movimentação de materiais e equipamentos, otimização do espaço, saída de itens, entre outros fatores © M ar ci n B al ce rz ak // S hu tt er st oc k © B al on ci ci // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 73 Segundo Cury (2006), o layout pode ser classificado em três tipos: • Por produto As matérias-primas são movimentadas, passando por um processo de trans- formação contínuo, enquanto as máquinas e equipamentos permanecem fixos. • Por processo A produção é seriada ou intermitente e as máquinas são agrupadas conforme a natureza da operação a ser executada, sendo o mais indicado para os processos que envolvem produtos com alto grau de precisão. • Posicional O produto final não se movimenta, apenas os operadores e máquinas, sendo indicado para os casos com poucas unidades de produção e custo de movimen- tação elevado. Conforme Viana (2002), uma armazenagem eficiente e efetiva depende da exis- tência de um bom layout que contemple o grau de acesso aos materiais e às áreas obstruídas à movimentação, dos modelos de fluxos de materiais, da eficiência da mão de obra do armazém e da segurança de todos os envolvidos no processo de armazenagem. Além disso, um sistema de localização de materiais minimiza os custos rela- tivos ao processo de armazenagem, pois permite que os materiais, matérias-primas, produtos semiacabados e produtos acabados possam ser acondicionados nos almo- xarifados e acessados no tempo certo de utilização. Para Dias (2011), esses sistemas devem estabelecer os princípios necessários para a perfeita identificação dos mate- riais estocados nos armazéns, para tanto, deve-se usar uma simbologia (codificação), normalmente alfanumérica, que represente cada local destinado a estocagem dentro dos armazéns, abrangendo até o menor espaço de uma unidade de estocagem. Esse conjunto alfanumérico deve indicar precisamente o posicionamento de cada mate- rial, facilitando as operações de movimentação, inventário etc. Ainda de acordo com o autor, o sistema de estocagem utiliza dois critérios de localização de material: • Sistema de estocagem fixa Contém um número determinado de áreas de estocagem para cada material, definindo que somente itens do mesmo tipo podem ser armazenados. Vantagem: é de fácil gerenciamento, pois os locais são bem determinados. Desvantagem: poderá criar espaços ociosos, pois os níveis máximos de uso do estoque não ocorrem em todos períodos, assim, a capacidade pode ficar subu- tilizada em momentos de baixo nível de utilização. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 74 • Sistema de estocagem livre Não tem local fixo de armazenagem e os materiais são dispostos livremente dentro do armazém, com exceção para os materiais que precisam de estoca- gem especial. Vantagem: economiza espaço a ser utilizado para estocagem. Desvantagem: pode deixar a montagem dos pedidos mais complexa, uma vez que um mesmo item pode estar localizado em pontos distintos. Ambos apresentam vantagens e desvantagens, e caberá a cada gestor de arma- zenagem determinar qual deles se enquadra melhor a seu sistema. 3.2.4 As principais técnicas de controle O custo de manutenção dos estoques é elevado e, para reduzir seu impacto, as empresas devem utilizar técnicas de recebimento, armazenamento, acondicionamento e controle de materiais. Existem dois padrões básicos de consumo de um item ao logo do tempo, e as organizações devem entender sua dinâmica para determinar quais técnicas de controle de estoques serão utilizadas. Conforme Moreira (2012), o primeiro padrão é a demanda independente, que são os itens que dependem do mercado para a definição de seus estoques, visto que a empresa não consegue determiná-la, apenas fazer uma previsão que pode ou não se concretizar. Como exemplos, temos os produtos acabados e as peças e materiais de reposição. O outro padrão é a demanda dependente, isto é, quando o consumo pode ser programado internamente pelas empresas. Essa situação ocorre com as matérias-primas para os produtos e as peças para a montagem. A primeira etapa para determinar a técnica de controle de estoques que será utili- zada é a classificação dos materiais. Para tanto, o método mais empregado nas orga- nizações é a curva ABC ou gráfico de Pareto. Segundo Moreira (2012), tal método funciona classificando o estoque em três grupos A, B e C (por isso o nome curva ABC) da seguinte forma: observou-se empiricamente que um grupo de cerca de 20% dos estoques é responsável por aproximadamente 70% a 80% do capital investido. Além disso, existe um grupo intermediário que representa 20% dos estoques e 20% dos custos, restando aproximadamente de 60% a 70% dos itens em estoque que corres- pondem a aproximadamente 10% dos recursos investidos. Por exemplo: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 75 Grupos ABC Grupo A B C Valor 70% 20% 10% Quantidade de itens do grupo 10% 20% 70% Quando a empresa aplica essa técnica para a definição de suas políticas de vendas, programação da produção, gestão de estoques e planejamento da distri- buição, permite evitar problemas, como manter um volume elevado de itens que têm pouco giro, o que acarreta maior disponibilidade de recursos financeiros e compro- mete seu capital de giro. Dessa forma, a curva ABC permite identificar os itens que justificam atenção e tratamento adequados quanto a sua importância relativa. Quando a empresa define quais itens são os mais importantes, pode partir para a escolha da técnica de controle. De acordo com Dias (2011), as mais utilizadas são: • Sistemas de duas gavetas Recomendado para o controle dos estoques da classe C da classificação ABC, baseado na utilização de duas caixas para realizar o controle. O conteúdo da caixa A tem uma quantidade suficiente para atender ao consumo estimado du- rante o tempo de reposição mais o estoque de segurança, enquanto a caixa B tem estoque equivalente a esse consumo. O controle é realizado por meio do atendimento dos pedidos e requisições de materiais que chegam ao almoxarifa- do pela caixa B, e quando esse estoque chega a zero, a empresa tem que iniciar o processo de aquisição de mercadorias, e o atendimento das requisições passa a ser feito pela caixa A. • Sistema dos máximos-mínimos Utilizado devido às dificuldades em determinar o consumo e as variações do tempo de reposição. Também é conhecido como sistema de quantidades fixas e consiste em determinar os consumos previstos para o item desejado, fixar o período de consumo previsto e calcular o ponto de pedido em função do tempo de reposição do item pelo fornecedor, os estoques mínimos e máximos e os lotes de compra. • Sistema de revisões periódicas O material é reposto periodicamente em ciclos de tempos iguais, chamados de períodos de revisão, de acordo com a quantidade da demanda do próximo período. • MRP e MRP II Sistemas informatizados de controle de materiais que estabelecem uma série de procedimentos e regras de decisão para atender às necessidades de pro- dução em uma sequência de tempo logicamente determinada para cada item componente do produto final. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 76 O custo de manutenção dos estoques é muito elevado para as empresas, portanto as técnicas de recebimento de material, armazenamento, acondicionamento e controle devem ser prioridade para diminuir o impacto destes custos. 3.3 Consolidação, unitização e manutenção de estoques A consolidação é uma técnica utilizada pelos gestoresde armazenagem das empresas visando a ocupar todos os espaços disponíveis relativos a transporte e movi- mentação interna dos materiais. Isso promove maior eficiência nos processos. A unitização de cargas busca agrupar os produtos em volumes que facilitem a sua movimentação interna e o transporte de mercadorias, propiciando maior segurança. Por fim, a manutenção dos estoques é uma medida de redução dos custos nas empresas, tendo em vista que os gastos com disponibilidade dos estoques impactam o resultado das operações. Se, aliados aos gastos, ainda ocorrem perdas dos produtos estocados devido a condições irregulares de armazenagem, esses custos impactam ainda mais fortemente o resultado. 3.3.1 Consolidação e unitização A gestão do processo de armazenagem nas organizações tem como princípio a redução de custos, pois os estoques só se justificam se os custos relativos a sua manu- tenção forem menores que as demais alternativas. Para tanto, uma das técnicas empregadas é a consolidação de cargas, que, por agrupar cargas variadas de diferentes fornecedores com o mesmo destino ou destina- ções próximas, aumenta a eficiência das operações de transporte nas transferências de longa distância. Segundo Ballou (2006), o processo de unitização de cargas pode ser realizado de quatro maneiras: • Consolidação do estoque O embarque destinado à distribuição dos produtos é retardado até que o esto- que dos produtos possa atender à demanda, permitindo embarques em volu- mes maiores e aproveitando melhor o espaço disponível nos veículos. • Consolidação do veículo Concentra a demanda de coleta ou entrega de vários produtos em um mesmo veículo, realizando o transporte de modo mais eficiente. • Consolidação do armazém Concentra cargas variadas no armazém até possibilitar o transporte de grandes volumes de embarque para distâncias longas e agrupa volumes pequenos que se destinam a curtas distâncias. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 77 • Consolidação temporal Atrasa o envio dos pedidos dos clientes para permitir que embarques maiores possam ser feitos, em vez de vários embarques de pequenos volumes. Já a unitização, de acordo com Keedi e Mendonça (2003), é o processo de agregar volumes fracionados em uma única unidade de carga, mantida inviolável ao longo de todo o percurso entre a origem e o destino. Esse processo busca a unificação de lotes de mercadorias para facilitar o manuseio, movimentação e transporte de cargas, proporcionando redução de gastos com mão de obra, embarque, desembarque e embalagens e a diminuição de manuseios de carga e do tempo das operações. As ações relativas à consolidação e unitização de cargas nos armazéns das em- presas possibilitam melhorias nos níveis de serviços, pois reduzem custos e melhoram o processo logístico. 3.3.2 Paletização O processo de paletização visa dimi- nuir danos à integridade física dos materiais, possibilitando maior segurança e proteção durante o período de armazenagem, nas movimentações internas e nas ações de distribuição, possibilitando que o cliente receba os produtos nas condições esperadas. Esse processo é realizado com paletes, que, conforme Ballou (2006), são plata- formas portáteis feitas de madeira, papelão, plástico ou metal, nas quais os produtos ou materiais são empilhados para armazenagem ou operações de transporte. É uma ação de unitização, na qual se agrupam de forma ordenada materiais com as mesmas características físicas, resultando em uma só peça. Oliveira (2004) lista algumas vantagens da paletização, conforme um estudo realizado pela National Wooden Pallet and Container Association (NWPMA): • permite a melhor utilização dos espaços verticais, pois um programa de paletiza- ção possibilita uma quantidade maior de itens armazenados em uma dada área; • reduz acidentes pessoais na substituição da movimentação manual pela mecânica; • economiza de 40% a 45% no custo da movimentação e reduz o tempo de movimentação; • permite ventilação entre as mercadorias tanto nos depósitos como durante o transporte e simplifica o controle de inventário, eliminando quase totalmente danos aos produtos; © B al on ci ci // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 78 • reduz os furtos quando itens individuais são unitizados por cintas, faixas ou filmes; • diminui o tempo de rotulagem e das despesas operacionais, tendo em vista que um ou dois rótulos por unidade de carga eliminam a necessidade de identi- ficar cada embalagem do produto; • uniformiza o local de estocagem, resultando em áreas com aproveitamento racional; • facilita o uso de cintas de aço para a ancoragem segura das mercadorias; • elimina frequentes custeios do sistema de transporte e possibilita realizar en- tregas, cargas e descargas dentro de qualquer ponto acessível por equipamen- tos de movimentação; • elimina interrupções e gargalos, proporcionando maior produtividade, e evita que operários percam tempo dando apoio à movimentação de materiais; • corta pela metade o tempo de carga e descarga de caminhões, reduzindo os custos de prorrogação no tempo de embarque e eliminando sobretaxas, me- lhorando a utilização dos equipamentos de carga e descarga e aumentando o ganho de frete. Por essas razões, as empresas buscam adotar a paletização em seus processos, almejando melhores resultados operacionais e financeiros. 3.3.3 Gerenciamento de entradas e saídas Registrar corretamente as entradas e saídas dos produtos armazenados é impres- cindível para o controle de estoque, pois é com base nessas informações que as orga- nizações estabelecem a melhor maneira de atender às necessidades relativas às demandas futuras, mantendo o investimento em estoques no nível mais econômico possível. Também diminui a idade média de estocagem, favorecendo o ciclo opera- cional e possibilitando um melhor aproveitamento do capital de giro. Esse registro e controle das entradas e saídas de estoque deve assegurar a dispo- nibilidade dos materiais para as vendas e/ou produção. Todos os tipos de materiais sob a guarda e conservação da empresa estão sujeitos a esse acompanhamento constante, sendo tanto de matérias-primas quanto de produtos acabados ou vendidos. O acom- panhamento pode ser realizado de três formas: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 79 • Sistema integrado Utiliza um software integrado de gestão (ERP) que realiza a consolidação do tráfego de informação entre os diferentes estoques da empresa. • Eletrônico manual Emprega programas simples ou planilhas eletrônicas que registram as entradas e saídas de mercadorias e produtos, mas não integra os processos, sendo ne- cessário que esse registro seja realizado por cada departamento. A não integra- ção dos processos possibilita divergências de estoque. • Manual Usa um método de controle por meio de fichas de papel. Para que o acompanhamento e gerenciamento seja realizado, é preciso conhecer os estoques por meio da contagem deles. Segundo Bertaglia (2009), existem duas técnicas para efetuar a contagem dos estoques: o inventário físico geral e o inven- tário rotativo ou parcial. No inventário físico geral, paralisa-se a organização por um período previamente estipulado com a finalidade de realizar a contagem de todos os itens, para que se possam identificar quebras no estoque. Já a contagem parcial faz o inventário de uma certa quantidade de itens ou grupo de itens dentro de uma frequência estabelecida e contínua. O gerenciamento das entradas e saídas dos estoques permite reduzir ineficiências do estoques, como os decorrentes das pernas no estoques, que é abordada a seguir. 3.3.4 Causas de perdas no estoque Entre as principais causas de perdas no estoque, estão o furto de mercadorias e as avarias causadas por má conservação, manuseio inadequado e obsolescência. Segundo dados divulgados nas pesquisas coordenadas pelo Instituto PROVAR, que promove pesquisas relacionadas ao setor varejista, em 2012 as perdas no varejo repre- sentaram 1,83% dofaturamento bruto do setor, o que totaliza R$ 98 bilhões, ou seja, os prejuízos chegaram ao patamar de R$ 1,7 bilhão. De acordo com Ohno (1997) e Shingo (1996) apud Antunes et al. (2008), seguindo a concepção do sistema Toyota de produção (STP), a eliminação de perdas é o resul- tado de quatro etapas: • análise detalhada do processo; • identificação do local crítico; • tomada de decisão; • implementação do ato de otimização . Gestão de estoques e ArmAzenAGem 80 As perdas e desperdícios podem ser divididos em sete grupos: por superpro- dução, por transporte, no processamento em si, por fabricação de produtos ociosos, por estoques, por espera e por movimentação. Vamos nos ater às perdas por esto- ques e movimentação, que estão diretamente ligadas ao sistema de estocagem. Conforme os autores, a perda por estoque é associada ao armazenamento de matérias-primas. Como a manutenção de grandes estoques resulta em prejuízos finan- ceiros e perda de mercado, o STP busca minimizar os estoques gradativamente ao estreitar o período entre a entrada e saída de materiais. As perdas por movimentação são decorrentes dos movimentos inúteis dos produtos ou materiais, por exemplo, realocação no estoque. Uma gestão dos processos de armazenamento, com boas práticas de armaze- nagem, recursos da consolidação e unitização dos lotes de mercadorias e um sistema de controle de entrada e saída eficiente possibilita reduzir as perdas de estoque. 3.4 Separação, unitização e despacho dos materiais Os resultados alcançados nas etapas de separação e unitização influenciam as demais etapas da cadeia de gestão dos estoques, como o despacho dos materiais, contribuindo para a percepção, por parte dos clientes, do nível de serviço das organi- zações e para o alcance dos resultados esperados. A gestão eficiente desses processos possibilita às organizações atender à demanda gerada pelos pedidos dos clientes, evitando falhas relativas a erros nas quan- tidades a serem despachadas e atrasos no prazo de entrega das mercadorias. 3.4.1 A ordem de separação de mercadorias O processo de separação e preparação dos pedidos dentro das áreas de armaze- nagem é conhecido como order picking ou apenas picking, definido por Lima (2002, p. 2) como a “[...] coleta do mix correto de produtos, em suas quantidades corretas da área de armazenagem para satisfazer as necessidades do consumidor”. Por exemplo, ao receber um pedido do cliente, o operador inicia a recolha de um produto por pedido Tal atividade é geralmente a mais trabalhosa no processo de movimentação de cargas nos armazéns. Dessa forma, segundo Souza (2008), representa aproximada- mente de 30% a 40% dos custos com mão de obra na armazenagem. Além disso, o tempo transcorrido entre a recepção de um pedido do cliente e a entrega correta dos produtos é dispendioso. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 81 As principais funções da atividade de picking são a recolha de produtos em armazém, a coleta de itens conforme a lista de pedidos dos clientes e sua prepa- ração para entrega. A atividade de picking deve levar em consideração o layout do armazém e seu padrão de fluxo, que aponta entradas em quantidades maiores que as saídas. Nesses casos, o tempo de trabalho no atendimento de pedidos pode ser desproporcionalmente maior que o tempo gasto no recebimento e na esto- cagem. Diante disso, o gestor deve elaborar uma estratégia própria conforme a quanti- dade de operadores por pedido, produtos por pedido e agendamento por pedido. 3.4.2 Unitização A economia na movimentação de materiais deve ser diretamente proporcional ao tamanho da carga movimentada. Isso quer dizer que, à medida que aumenta o tamanho da carga (volume), o número de viagens necessárias para estocar uma deter- minada quantidade de materiais diminui e, consequentemente, cresce a economia de custos. Dessa forma, o número de viagens se relaciona diretamente ao tempo de trabalho necessário para movimentar as mercadorias e ao tempo de serviço do equipa- mento utilizado no manuseio. Segundo Ballou (2006), a eficiência pode ser melhorada mediante a consolidação de um número de volumes menores numa única carga e o consequente manuseio da carga consolidada. A carga consolidada, também conhecida como carga unitária ou unitizada, é um conjunto ou gru- po de objetos mantido como uma unidade de carga durante o transporte de um ponto a outro. Nesse sentido, a unitização de cargas traz vantagens como: • redução da quantidade de volumes manipulados; • menor utilização de mecanização; • maior agilidade no processo de embarque e desembarque e consequente redu- ção dos custos; • diminuição de custo relativo a embalagens; • redução das ocorrências de avarias e roubos de mercadorias; • padronização internacional dos recipientes de unitização. © v vo e/ / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 82 Para facilitar o transporte e a movimentação de cargas, são utilizados equipamentos que auxiliam sua unitização, como: © J oj je // S hu tt er st oc k © L ju pc o Sm ok ov sk i / / S hu tt er st oc k GaiolasPaletes © 3 dr en de ri ng s // Sh ut te rs to ck © E ug en e Se rg ee v // Sh ut te rs to ck ContêineresCaçambas As vantagens operacionais e financeiras apresentadas pela paletização permitem que as empresas conquistem vantagens competitivas sobre os concorrentes e aumentem seu nível de serviço. 3.4.3 A importância das embalagens A Associação Brasileira da Embalagem (ABRE) define embalagem como um reci- piente ou envoltura que armazena produtos temporariamente, individualmente ou agrupando unidades, com a função de protegê-los e estender seu prazo de vida (shelf life), viabilizando sua distribuição, identificação e consumo (PELLEGRINO, s. d.). Gestão de estoques e ArmAzenAGem 83 Pode-se então classificar as embalagens de acordo com sua natureza e finalidade em quatro tipos. A primária fica em contato com o produto que contém, por exemplo: vidro de palmito em conserva, caixa de leite, embalagens plásticas de refrigerantes etc. A secundária protege a primária, como fazem os fundos de papelão com unidades de caixa de leite envolvidas num filme plástico. É geralmente a unidade de venda no varejo. Embalagens terciárias são as caixas, que podem ser de papelão, plástico e madeira. As quaternárias, por fim, são empregadas na movimentação, transporte e armazenagem, englobando qualquer tipo de contenedor, como os contêineres. Bowersox e Closs (2001) propõem outra classificação: embalagem para o consu- midor, com ênfase em marketing, e embalagem industrial, com foco na logística. A primeira busca ser visualmente atrativa para conquistar a atenção de potenciais consu- midores, enquanto a segunda enfatiza a segurança e proteção dos produtos armaze- nados por ocasião dos processos de movimentação. Para o melhor movimentação e acondicionamento, é possível que um grupo de embalagens para o consumidor esteja dentro de uma embalagem industrial. Com o início das atividades comerciais, o uso das embalagens se popularizou e atualmente elas está presente em todos os produtos, com funções e formas variadas. Para um profissional de marketing, por exemplo, elas são vistas mais como uma forma de apresentar o produto, buscando atrair os clientes e, consequentemente, aumentar as vendas, do que como proteção. Já para um profissional de distribuição, a embalagem serve para resguardar o produto durante sua movimentação, como veremos adiante. 3.4.4 Documentação de despacho de mercadorias A expedição, isto é, o processo de despacho de mercadorias, conclui o ciclo logís- tico das mercadorias, fazendo com que cheguem aos clientes. O despacho de mercado- rias é a última etapa no processo de armazenagem e exige os seguintes documentos: Inicia o processo de transporte de carga e pode ser feito eletronicamente ou por formulário impresso. Pedido de coleta Documento fiscal emitido pelas operadoras de transporte decargas para dar respaldo fiscal às mercadorias durante seu transporte, desde o local de origem até o endereço do destinatário. Substitui a nota fiscal quando a transportadora está prestando o serviço de transporte, mas não é proprietária da carga, e é utilizado contabilmente para registrar suas receitas. Conhecimento de carga ou transporte Gestão de estoques e ArmAzenAGem 84 Relaciona os materiais e produtos expedidos em um meio de transporte, seja aéreo, ferroviário, hidroviário ou rodoviário, listando a quantidade de itens, seu peso, descrição e endereço de destino. Pode ser impresso ou emitido eletronicamente. Manifesto de carga Pode substituir, em alguns estados de origem da mercadoria, o conhecimento de transporte, desde que não seja possível a obtenção de dados concernentes ao peso da carga, distância do percurso ou valor do frete. Autorização de carregamento e transporte Também pode substituir o conhecimento de transporte, caso a empresa transportadora contrate transportador autônomo para complementar a execução do serviço e o preço tenha sido cobrado até o destinatário. Despacho de transporte Qualquer falha na etapa de despacho de mercadoria compromete todo o processo, prejudicando o nível de serviço da empresa, portanto, é preciso ter cuidado com a emissão correta da documentação necessária. A utilização de um código do cliente errado, por exemplo, afeta negativamente o processo, gerando atrasos, custos adicionais de transporte e descontentamento dos clientes por conta da frustação da expectativa de receber os produtos encomendados dentro dos prazos acordados. Zelar para que todo o processo relativo ao ciclo de materiais dentro das organi- zações transcorra da forma correta é a função principal do gestor logístico, que deve garantir que os procedimentos de estocagem, como recebimento, controle, fracio- namento, unitização, localização adequada nos armazéns e distribuição ocorram conforme as normas e procedimentos das organizações. Essa administração possi- bilita que os objetivos e metas estipulados sejam alcançados seguindo o princípio de entregar o produto certo da maneira e no tempo esperados pelo cliente com o menor custo possível. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 85 Referências ANTUNES, J. et al. Sistemas de Produção: conceitos e práticas para projeto e gestão da produção enxuta. 1. ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. BALLOU, R. H. Logística Empresarial: transporte, administração de materiais e distri- buição física. Porto Alegre: Bookman, 2006. BERTAGLIA, P. R. Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento. São Paulo: Saraiva, 2009. BOWERSOX, D. J.; CLOSS, D. J. Logística Empresarial: o processo de integração da cadeia de suprimentos. São Paulo: Atlas, 2001. CHRISTOPHER, M. Logística e Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos. São Paulo: Cengage Learning, 2011. CURY, A. Organização & Métodos: uma visão holística. 08. ed. São Paulo: Atlas, 2006. DIAS, M. A. P. 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O manuseio de materiais é uma atividade inserida no processo de movimen- tação e consiste no processo de manipulação dos materiais dentro das áreas de arma- zenagem, efetuando a conferência e separação dos pedidos e a embalagem dos lotes destinados à distribuição. Neste capítulo, aprofundaremos a movimentação e manuseio de materiais, estu- dando suas particularidades, os tipos e sistemas de movimentação e os sistemas de armazenagem, compreendendo como um processo de movimentação eficiente pode ser um diferencial competitivo importante para as organizações. 4.1 Movimentação e manuseio A movimentação de materiais, com destaque especial para a atividade de manu- seio, está entre os processos com custos mais elevados de toda a cadeia produtiva, pois engloba os custos relativos a mão-de-obra, aquisição de equipamentos e perdas que podem ocorrer durante sua execução. Sendo assim, de acordo com Dias (2011, p. 206): “Os custos de movimentação de materiais influem sobremaneira no produto, afetando diretamente o custo final”. Sendo assim, a determinação do layout a ser utilizado no armazém deve prio- rizar a redução das distâncias percorridas e a quantidade de movimentações às quais os materiais estão sujeitos, melhorando os fluxos internos dos armazéns e reduzindo os custos de armazenamento. O layout é o “desenho” do armazém, isto é, a definição do planejamento do espaço físico da área de armazenagem, com a finalidade de obter acessibilidade, fluxo contínuo e correta loca- lização dos materiais, além de minimizar as movimentações. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 88 A distância é “[...] afetada pelo layout, ou seja, a forma em que distribuímos os pontos de origem e destino dos movimentos e a intensidade de fluxo fornecem subsí- dios para determinação e dimensionamento dos equipamentos de movimentação.” (BANZATO, 2009, s.p.). Dessa forma, todo o planejamento de layout dos armazéns deve priorizar a acessibilidade, a facilidade de movimentação, a possibilidade de se dimensionar uma localização eficiente e a segurança dos produtos armazenados. Uma redução nos trajetos percorridos pelos materiais, nas diversas etapasdo processo de armazenagem, passando desde o recebimento até sua expedição, podem trazer resultados significativos na apuração dos resultados financeiros das organiza- ções. Com esse princípio em mente, conheceremos as seguintes atividades que inte- gram o processo de movimentação: recebimento, manuseio interno, separação e expedição. Antes, entretanto, abordaremos os tipos de movimentação. 4.1.1 Tipologia da movimentação A movimentação de materiais pode ser classificada com base em dois critérios: a finalidade do processo e o sistema e metodologia empregados. Quanto à finalidade, Costa (2002) divide a movimentação de materiais em três tipos, listados a seguir. • Entrada Processo de recebimento de produtos no estoque da empresa, quando são con- feridos e alocados em um armazém. É o caso do recebimento de matérias-pri- mas, insumos, embalagens (nas empresas de transformação) ou mercadorias prontas para a comercialização (nas companhias comerciais). • Saída Retirada do produto em estoque devido a sua venda ou movimentação interna. Por exemplo: venda dos produtos acabados ao cliente final ou saída das maté- rias-primas dos estoques para o setor de beneficiamento (produção). • Transferência Movimentação em centros de distribuição de uma mesma empresa, gerando débito e crédito sem afetar sua situação financeira final. Inclui, por exemplo, transferências de matérias-primas ou mercadorias prontas entre filiais de uma organização. © M ax im B lin ko v // Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 89 Com relação à metodologia e ao sistema utilizado, a movimentação pode ser manual, semiautomática ou automática. No sistema manual, as operações ocorrem com o emprego da força física dos operadores; no semiautomático, esse trabalho é utilizado em conjunto com máquinas e equipamentos auxiliares; no automático, a movimentação durante todo o trajeto interno dos armazéns é feita por sistemas auto- matizados. Todos esses sistemas serão detalhados mais adiante no capítulo. Independentemente de sua finalidade ou tipificação a movimentação de mate- riais deve se pautar pelo objetivo de ganho de eficiência no processo produtivo aliado à redução dos custos. 4.1.2 Recebimento O processo de recebimento abrange desde a recepção dos materiais, quando estes são conferidos de acordo com as informações do pedido de fornecimento, até sua efetiva entrada nos estoques. Está interligado com vários setores das organizações, como contabilidade, compras, financeiro e transportes, sendo caracterizado por Dias (2011) como uma atividade de suporte entre as tarefas de compra e pagamento ao fornecedor, cabendo-lhe a responsabilidade pela conferência dos materiais destinados à empresa. Segundo Paoleschi (2014), o recebimento de materiais é o elo de integração entre o atendimento do pedido pelo fornecedor e os estoques físicos e contábeis da empresa. Essa atividade compreende quatro fases. A 1.ª é a entrada de materiais, composta pelas seguintes etapas: • Triagem da documentação: verifica se o conteúdo da nota fiscal está de acor- do com o pedido de compra autorizado pela empresa, se a aquisição atende ao prazo de entrega contratual e se o número do documento de compra é expres- so na nota fiscal. • Exame de avarias e conferência do volume: no exame de avarias, executa-se uma análise visual da carga, observando a integridade física das embalagens e possíveis sinais de quebra, umidade ou amassamento. Já a conferência de vo- lumes confronta os dados da nota fiscal relativos ao volume transportado com sua contagem física. • Recusa do recebimento: se existirem divergências, serão apontadas no Conhecimento de Transporte Rodoviário de Carga (quando se tratar de trans- porte rodoviário) e no canhoto da nota fiscal, para obtenção de ressarcimento de danos. • Descarga: consiste no descarregamento e colocação do material em uma área segregada para conferência física, normalmente próxima das docas. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 90 A 2.ª fase é a conferência quantitativa, que verifica se a quantidade decla- rada pelo fornecedor na nota fiscal corresponde à efetivamente recebida. Um confe- rente que desconhece a nota aponta a quantidade de itens recebidos, e um segundo confronta o material com o que foi faturado. Se a contagem não coincidir com os dados da nota, deve-se providenciar a recontagem feita por um terceiro conferente. A 3.ª fase consiste na conferência qualitativa, também conhecida como inspeção técnica, e visa garantir a adequação do material ao fim ao qual se destina. Nesta etapa, efetua-se uma análise física do material para verificar se ele tem a qualidade neces- sária e acordada na negociação, verificando suas características dimensionais e especí- ficas, restrições de especificação, embalagem para transporte e embalagem final. Na 4.ª fase, a regularização, processa-se toda a documentação no sistema de recebi- mento, pela confirmação da conferência quantitativa e qualitativa por meio dos laudos de inspeção técnica e pela confrontação dos dados do pedido com os que estão na nota fiscal. Conforme Martins e Campos (2009 p. 390), “[...] o recebimento de uma empresa é mais bem compreendido com a combinação de cinco elementos principais: espaço físico, recursos de informática, equipamento de carga e descarga, pessoas e procedi- mentos normalizados”. Todos estes elementos serão abordados com maior profundi- dade no decorrer do capítulo, contudo, cabe ressaltar a necessidade de todos ocorrerem em perfeita sincronia, para trazerem eficiência a todo o processo de movimentação. 4.1.3 Manuseio interno O manuseio interno de produtos e materiais está relacionado ao transporte de pequenas quantidades de bens materiais por distâncias curtas dentro das plantas de armazenagem, quando comparadas com os percursos realizados pelas empresas de transporte, normalmente mais longos. Essa atividade impacta diretamente o tempo de ciclo do pedido do cliente, portanto é considerada uma tarefa que absorve custos, uma vez que demanda neces- sidade de um volume considerável de mão-de-obra para diminuir seu tempo de execução e esse custo adicional não agrega valor aos materiais manipulados, tendo que ser acrescido aos custos totais. Ballou (2006) propõe que os objetivos do manuseio interno sejam centrados na redução do custo do manuseio e no aumento da área utilizável nos armazéns, pautados em quatro aspectos: • unitização da carga; • arranjo físico do espaço; • escolha do equipamento de estocagem; • escolha do equipamento de movimentação. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 91 Ainda conforme Ballou (2006), a eficiência das operações de movimentação de cargas pode ser melhorada mediante a consolidação de um número de volumes menores numa única carga, isto é, a unitização, e o consequente manuseio da carga consolidada. O conceito da unitização se baseia em um sistema integrado de acondicionamento, movimentação, armazenagem e transporte de materiais, sendo costumeiramente reali- zada por meio da paletização e da contenedorização. Segundo Moura (2005), contenedorização é um sistema de acondicionamento em que os volu- mes individuais são agrupados em contenedores, ou seja, recipientes nos quais mercadorias são depositadas transformando a carga em uma única unidade de movimentação. Um exem- plo são os contêineres. O manuseio interno é influenciado pelas determinações das empresas relativas ao layout de armazenagem. O posicionamento dos pontos de recebimento, guarda, separação e distribuição de materiais em um armazém interfere nas ações de manuseio, pois, depen- dendo do modelo utilizado, essa tarefa pode exigir mais tempo ou mão-de-obra. 4.1.4 Separação e expedição A atividade de separação consiste na coleta, dentro da área de armazenamento, do mix de produtos que será destinado ao consumidor final. Geralmente, é a tarefa mais trabalhosa do processo de movimentação, pois é realizada manualmente por um operador ou grupo de operadores,demandando maior tempo e utilização de mão-de- -obra. Conforme Souza (2008), de 30% a 40% dos custos com mão de obra nos arma- zéns estão associados a essa atividade. De acordo com Nogueira (2012), os sistemas de separação de pedidos são divi- didos em quadro modelos: • Unitário Cada separador faz a coleta de um só pedido por vez. • Por lote A separação é feita por um grupo de pedidos de cada vez. • Por zona A separação é organizada por zona, com um separador em cada uma para fazer a coleta de todos os pedidos. © U lr ic h M ue lle r / / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 92 • Por onda É similar à separação unitária, a diferença é que um grupo de pedidos é progra- mado. Ainda conforme Nogueira (2012), a separação é executada conforme os seguintes passos: • ter certeza de que a mercadoria está disponível, para tanto, o nível de acuraci- dade dos estoques deve estar acima de 95%; • localizar a mercadoria; • acumular os itens do pedido na sequência de separação, segundo o local de es- toque, estabelecendo um roteiro prévio da atividade a ser realizada; • designar o tempo necessário para separar o pedido, para programar o trabalho no armazém, de forma que o dimensionamento do tempo gasto na atividade seja o mais próximo possível da realidade; • liberar os pedidos para a expedição em lotes sincronizados, obedecendo a sua ordem de entrada e evitando lacunas na sequência de carregamento; • calcular o peso e a medida cúbica da mercadoria para definir características volumétricas e de peso do transporte; • enviar o pedido para o faturamento e emitir a nota fiscal; • obter o endereço do cliente para roteirizar a entrega; • acumular as notas fiscais por local de destino e/ou número de rota (para acu- mular volumes máximos por veículos), facilitando o processo de roteirização. Já a expedição é a última etapa de processamento dentro do ciclo de armaze- nagem, iniciando-se com o pedido de coleta de mercadorias emitido pela direção do armazém para o setor de distribuição da empresa. Segundo Marques (2009), é a etapa do processo de armazenagem que ocorre após a mercadoria estar devidamente emba- lada e pronta para ser distribuída para os clientes e engloba as seguintes tarefas: • verificar a conformidade do pedido com o material separado, ou seja, conferir se o que o cliente pediu está pronto para ser expedido; • emitir os documentos relativos à remessa, com informações sobre os artigos embalados, quantidades e endereço de entrega; • aferir o peso e a metragem cúbica, visando à determinação dos custos de envio da mercadoria; • montar os lotes das encomendas por operador logístico, responsável pela distribuição; Gestão de estoques e ArmAzenAGem 93 • realizar o carregamento dos caminhões (tarefa que pode ser realizada pelo transportador). A expedição tem a importante função de concluir o ciclo logístico das mercado- rias, fazendo com que cheguem até seu destino final, isto é, os clientes. Agora que conhecemos os tipos de movimentação e as principais atividades envolvidas nesse processo, estudaremos os sistemas de movimentação. 4.2 Sistemas de movimentação Os sistemas de movimentação de materiais são processos integrados nos quais ocorre a manipulação dos itens em estoque, realizando seu deslocamento de um ponto a outro dentro da cadeia do pedido, com o objetivo de manter a integridade física dos produtos e executar a movimentação no menor espaço de tempo possível. De acordo com Dias (2011) um sistema de movimentação de materiais deve atender às finalidades de redução de custos, aumento da capacidade produtiva, melhores condi- ções de trabalho e melhor distribuição. Ainda segundo Dias (2011, p. 210), “[...] para se manter eficiente um sistema de movimentação de materiais, existem ainda certas ‘leis’ que, sempre dentro das suas possibilidades, devem ser levadas em consideração”. São elas: • obediência ao fluxo das operações; • mínima distância; • mínima manipulação; • segurança e satisfação; • padronização; • flexibilidade; • máxima utilização do equipamento; • máxima utilização da gravidade; • método do espaço disponível; • método alternativo; • menor custo total. Esses sistemas são classificados em: mecanizados, semiautomatizados, auto- matizados e baseados em informação, que serão aprofundados ao longo deste tópico. No mecânico, o custo da mão de obra representa o maior percentual do custo total, enquanto nos automatizados, ocorre o contrário, pois estes buscam reduzir os custos de mão de obra por meio de investimentos em equipamentos de movimentação. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 94 Conforme a necessidade operacional da planta do armazém, algumas demandas de manuseio são atendidas por equipamentos automatizados, e outras, por meios mecanizados, que juntos integram o sistema semiautomatizado. Já os sistemas baseados em informação empregam sistemas operacionais automatizados para realizar o controle das operações. Apresentam um custo mais elevado de implantação, mas proporcionam um nível de produtividade e eficiência maior quando comparados a sistemas mecanizados, que serão detalhados no próximo subtema. 4.2.1 Sistemas mecanizados Os sistemas mecanizados são caracterizados pela utilização de equipamentos mecânicos, movidos à tração humana ou motorizados, que têm a função de propor- cionar agilidade, rapidez e segurança às atividades de movimentação interna de mate- riais nos armazéns. Conforme Ballou (2006), os principais tipos de equipamentos mecânicos utili- zados nesses sistemas são empilhadeiras e pequenos veículos de transporte, além de outros equipamentos, como transportadores ( flow rack) e esteiras, guinchos, pontes rolantes, pórticos e transelevadores. Esses equipamentos possuem versões simples, mecanizadas, que utilizam a tração humana ou a força da gravidade como elemento motriz, e modelos baseados em tecnologias, como sensores de movimentação, utilizados nos sistemas semiauto- matizados e automatizados. Empilhadeira frontal © M ax x- St ud io // S hu tt er st oc k A empilhadeira é um dos equipamentos de movimentação de cargas mais utili- zados nos processos de movimentação de materiais, comumente empregada na movimentação conjunta de estrados ou paletes. Conforme Ballou (2006), é um meio mecânico cuja operação manual seria lenta ou cansativa devido a seu peso e seu formato varia de pequenas plataformas manuais até pequenos tratores. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 95 Os demais tipos de equipamentos citados pelo autor serão abordados com maior profundidade ao longo dos próximos subtemas, pois possuem interface com os demais sistemas de movimentação de materiais. 4.2.2 Sistemas semiautomatizados Os sistemas semiautomatizados são utilizados de forma complementar aos meca- nizados, automatizando algumas atividades específicas do processo de movimentação, como a separação dos lotes de mercadorias destinados a cada setor da empresa. De acordo com Moura (2008), em um armazém semiautomatizado, parte da movimentação de materiais é realizada de forma mecanizada, e outra é automatizada. Os equipamentos mais comumente utilizados são os veículos guiados por automação, ou AGV (automated guided vehicle) e flow racks. Conforme Filippo Filho (2014, p. 92-93), o AGV é “[...] um veículo elétrico auto- guiado, movido à bateria, para transporte de materiais entre estações de trabalho da linha de produção, ou do estoque da organização para a linha. Alguns modelos são capazes de executar a carga e descarga automaticamente”. Por meio de sistemas de controle computadorizados, ele pode chegar a qualquer destino por meio de rotas selecionadas pelos seguintes meios de guia ou direcionamento: • Ótico Fotossensores a bordo identificam a rota a seguir, identificando os caminhos por meio de pinturas no chão. • Fio guiado Sensores magnéticos a bordo dos veículos identificam a rota a seguir com base em fios energizados enterradosno chão da fábrica ou do armazém. • Inercial O computador de bordo guia o veículo por uma rota predeterminada por meio de um sistema de sonar, que emite ondas eletromagnéticas que, ao detectarem obstáculos, retornam para o veículo, cujo giroscópio faz a mudança da direção. • Laser Um feixe de laser e emitido contra refletores ao longo da rota, que possuem código de barras com informações sobre sua posição. Esses dados são proces- sados e a rota, corrigida. • Infravermelho Funciona da mesma maneira que o laser, apenas o meio de transmissão é diferente. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 96 Os flow racks são estruturados a partir de trilhos com roletes deslizantes posicionados de forma inclinada, dispensando a utilização de energia elétrica. Nesse equipamento, a movimentação de materiais é feita por caixas padronizadas pelo método PEPS (primeiro que entra é o primeiro que sai). Permite uma rápida movimentação da carga e é utilizado, geralmente, para cargas fracionadas ou pequenos volumes com baixo custo. Esse equi- pamento geralmente é integrado a outros sistemas de movimentação de materiais. De acordo com Paoleschi (2014), o PEPS é o método de movimentação mais comum, sendo aplicado para controle de materiais perecíveis ou com data de vencimento, como alimentos, produtos químicos e farmacêuticos etc. Segundo Ballou (2006), os flow racks são indicados em situações nas quais é preciso movimentar grande quantidade de itens ao longo da mesma rota, pois permitem agili- dade nas operações e redução do volume de mão de obra empregada. Eles estão entre os equipamentos mais comuns para a movimentação de itens pequenos e pesados, ficando atrás somente das empilhadeiras. 4.2.3 Sistemas automatizados Os sistemas automatizados são mais rápidos e precisos que as demais opções e demandam menos mão de obra, contudo apresentam pontos fracos, como sua complexidade e o alto custo de investimento necessário para sua implantação. Segundo Moura (2008), eles exigem apoio de sistemas de informação e seus equipa- mentos de armazenagem podem representar até 50% do investimento total. Ainda conforme o autor, nesse tipo de sistema, a separação de pedidos é efetuada por robôs, e não por pessoas, a partir de um sistema automatizado que recebe as informações de uma central de processamento de pedidos. Segundo Dias (2011), os equipamentos utili- zados por sistemas automatizados de movimen- tação de mercadorias são: pontes rolantes, pórticos, stacker-cranes e transelevadores. As pontes rolantes são empregadas no trans- porte e movimentação de cargas em instalações indus- triais como usinas siderúrgicas, linhas de montagem, © z en ti lia // S hu tt er st oc k © p is ap ho to gr ap hy / / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 97 pátios de carga, depósitos etc., e sua utilização permite o aproveitamento total das áreas úteis dos depósitos ou armazéns. Esses equipamentos podem ser manuais ou motorizados e sua capacidade de movimentação de cargas vária de 2 a 300 toneladas, sendo assim, costumam ser usados para manuseio de materiais de grande porte e peso, como vigas de aço e bobinas. Similares às pontes rolantes, os pórticos rolantes se constituem de uma viga elevada sobre truques de rodas (conjunto compostos por pares de rodas) que se movimentam sobre trilhos fixos (DIAS, 2011). São apropriados para armazena- mentos em locais descobertos para carga e descarga de mercadorias em áreas que não possuem plataforma de embarque. Stacker-cranes são sistemas conjugados de armazenagem e manuseio nos quais o espaço é aproveitado ao máximo. Segundo Dias (2011, p. 219), consistem “[...] numa torre apoiada sobre um trilho inferior guiada por um trilho superior e uma viga na posição por onde sobe e desce uma cabina de comando operacional”. São empregados no armazenamento de produtos unitizados, normal- mente acondicionados em paletes, e operados por sistemas informatizados que se baseiam na loca- lização dos endereços na torre de armazenagem. Seus corredores podem ser de, no máximo, 1 metro, permitindo somente a passagem da cabine de movi- mentação de mercadorias, situação que maximiza o espaço tanto vertical quanto horizontal do armazém. Os transelevadores automatizados são os equipamentos centrais no processo de automação em depósitos controlados por computador, pois, por intermédio de um sistema de endereçamento baseado nas estantes que compõem a estrutura de arma- zenagem, realiza as operações de apanhar e armazenar os produtos, normalmente unitizados, disponibilizando-os nas esteiras rolantes para a destinação final. Esses equi- pamentos permitem alto grau de automação dos processos e a redução dos custos de mão de obra. Os sistemas automatizados são indicados para os casos nos quais se busca ampliar a utilização da área total de armazenagem de um depósito, visto que diminuem a presença humana nos espaços, já que a maioria dos processos de movimentação é © h an m on // S hu tt er st oc k © w an g so ng // S hu tt er st oc k © S as in Ti pc ha i / / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 98 realizada de forma automática. Desse modo, os corredores podem ser mais estreitos e as estantes, mais altas, o que reduz os custos de armazenagem. Corredores estreitos e estantes altas integram armazéns verticais, que buscam poupar espa- ço com a ocupação por capacidade cúbica nas três dimensões: largura, altura e profundidade. Para Moura (2005), esse aproveitamento reduz os gargalos nas áreas de armazenagem e os custos unitários por estocagem. 4.2.4 Dispositivos de apoio Equipamentos de apoio são empregados na atividade de suporte à movimen- tação de materiais. De acordo com Paoleschi (2014), eles têm a função de auxiliar o manuseio dos produtos por meio de processos que unificam várias unidades de cargas de um determinado produto, como ocorre nos processos de unitização. Os exemplos mais comuns são: paletes, estrados, gaiolas, caçambas, carrinhos de mão, hidráulicos e para tambor e equipamentos auxiliares de embalagem. Pallets © e lg us se r / / S hu tt er st oc k. Estrados © M ad le n // Sh ut te rs to ck . Paletes e estrados são tablados de madeira utilizados para facilitar o acondiciona- mento e a movimentação de materiais, mediante a utilização de empilhadeiras e carri- nhos hidráulicos (PALOESCHI, 2014). Gestão de estoques e ArmAzenAGem 99 Gaiolas © to pa e // Sh ut te rs to ck . Estrados © A nt on V as yl en ko // S hu tt er st oc k. Gaiolas são empregadas para o acondicionamento de pequenos volumes e podem ser transportadas por empilhadeiras ou carrinhos hidráulicos. Caçambas são estruturas de metal semelhantes às gaiolas, mas com os quatro lados fechados com chapas de metal ondulado. Servem para acondicionar peças pequenas a granel. Carrinho de mão simples © B or is R ab ts ev ic h // Sh ut te rs to ck . Carrinhos hidráulicos © T as ha tu va ng o // Sh ut te rs to ck . Os carrinhos de mão simples são usados no no transporte de fardos, caixas e volumes diversos com até 300 kg. Os carrinhos hidráulicos são empregados para levantar e transportar cargas de até 2.000 kg acondicionadas sobre paletes ou estrados. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 100 Carrinho de mão simples © B or is R ab ts ev ic h // Sh ut te rs to ck . Carrinhos hidráulicos © T as ha tu va ng o // Sh ut te rs to ck . Os carrinhos para tambor são utilizados no transporte de tambores de forma segura devido a sua trava de segurança. Equipamentos auxiliares de embalagem são empregados no processo de uniti- zação de cargas, por meio da aplicação de filme plásticos (ou stretch). O sistema de movimentação de materiais utilizado pelas empresas e os equi- pamentos empregados nesse processo estão interligados com o sistema de arma- zenagem adotado. Veremos no próximo tópico como as decisões tomadas pelasorganizações com relação ao seu sistema de armazenagem estão sujeitas a seu processo de movimentação. 4.3 Sistemas de armazenagem Os sistemas de armazenagem se referem ao conjunto das decisões relativas ao processo de armazenamento das empresas em relação a espaço, métodos, estruturas e equipamentos utilizados no recebimento, movimentação, guarda e expedição de produtos. A definição do modelo a ser utilizado pelas empresas se baseia em seus métodos de controle de estoque e seu sistema de movimentação de materiais. Além disso, as características desses sistemas são influenciadas pela metodologia empregada no controle de estoques, e a estrutura física (layout) dos armazéns ou centros de distri- buição interfere no modelo de movimentação e nos equipamentos utilizados. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 101 Esses sistemas podem ser divididos em dois modelos quanto à movimentação de materiais: o sistema estático, no qual os produtos não sofrem movimentos internos após entrarem nas estruturas de armazenagem, e o sistema dinâmico, no qual os itens são movimentados internamente após sua chegada. A escolha do sistema de armazenagem também leva em consideração o tipo e as características físicas do produto que será estocado. Conforme essas características, tais sistemas podem ser divididos em: sistema de armazenagem leve, composto por prateleiras ou racks e destinados a itens de pequenos tamanhos e em grandes quanti- dades, e sistema de armazenagem pesada, formado pelos porta paletes, a blocagem, silos e tanques. Ao longo dos próximos subtemas, estudaremos mais profundamente esses sistemas. 4.3.1 Prateleiras e racks As prateleiras e racks são considerados sistemas de estocagem, constituídos por estantes, armários, prateleiras e acessórios, como caixas de repartições, contenedores verticais e horizontais, escaninhos e gavetas, que são equipamentos utilizados para maximizar o aproveitamento volumétrico do depósito, reduzir danos no manuseio e proporcionar uma boa organização dos itens e seu fácil reconhecimento. Prateleiras © c or ga ra sh u // Sh ut te rs to ck Racks © P ra et hi p D oc ek al ov a // Sh ut te rs to ck . As prateleiras permitem o armazenamento vertical e facilitam o acesso a qual- quer item estocado. Segundo Moura (2005), são ideais para o armazenamento de pequenos volumes de itens não unitizados, em torno de 0,5 m³ e para atender ao controle de estoques baseado na metodologia PEPS. Elas podem ser fixas ou desli- zantes e são utilizadas nos racks. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 102 Racks são equipamentos similares às prateleiras. Entretanto, são inclinados e possuem, na base dos boxes de separação das mercadorias, roletes que permitem a movimentação dos itens por meio da força da gravidade. Desse modo, ao retirar uma mercadoria da ponta de saída, a outra que se encontrava atrás ocupa seu espaço auto- maticamente, sem a necessidade da ação humana ou do acionamento de motores. Ballou (2006) afirma que a eficiência no manuseio de materiais pode ser aumen- tada quando esses equipamentos auxiliares são utilizados como parte do sistema global de movimentação interna. Eles aumentam a agilidade no manuseio dos itens estocados e demandam menos mão de obra em sua operacionalização, uma vez que as caixas se movimentam sozinhas, impulsionadas pela força da gravidade. 4.3.2 Blocagem e outras técnicas A blocagem é a mais simples das técnicas de armazenamento de grandes volumes utilizados pelas empresas. Segundo Moura (2005), consiste no empilhamento em blocos de um palete sobre o outro com ou sem a utilização de equipamentos de sustentação. O autor também apresenta esse sistema no contexto da utilização volumétrica em um projeto de armazenagem, destacando três características que possibilitam uma melhoria nos resultados das organizações: aumentar a altura do empilhamento, reduzir o número de corredores e diminuir a largura dos corredores de acesso. A blocagem é o sistema mais indicado para materiais de baixa rotatividade e com a movimentação em grandes lotes, como itens produzidos em grandes lotes de fabricação que ficam estocados por um longo tempo até que exista demanda por eles, como: bebidas e alimentos enlatados ou produtos acondicio- nados em embalagens longa vida. Esse sistema proporciona melhor utilização do espaço, redução do custo total de armazenagem e alta densidade de estocagem, pois permite estocar um grande volume na área existente. O sistema de armazenagem pesada também pode ser efetuado por meio de pale- tização, utilizando porta paletes, que são estruturas metálicas utilizadas para o acon- dicionamento de cargas que foram unitizadas e acondicionadas em paletes. Essas estruturas são flexíveis e podem ser montadas e desmontadas, além disso, o espaço entre as prateleiras pode seu aumentado ou diminuído de acordo com a necessidade dos materiais que serão estocados. © A le ss ia P ie rd om en ic o // Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 103 Os porta paletes podem ser de dois tipos: dois modelos: drive in e drive through. Drive in © B al on ci ci // S hu tt er st oc k. Drive through © C ha m pi of ot o // Sh ut te rs to ck . Drive in é uma estrutura verticalizada na qual uma empilhadeira entra e sai por um mesmo lado para efetuar a movimentação interna. É ideal para grandes quan- tidades de um mesmo produto, pois, com a armazenagem em lote, a movimentação interna dos materiais ocorre em um só sentido, eliminando corredores e aumentado a área de armazenagem. Essa estrutura se baseia no método de controle de estoques UEPS, que determina que o último lote que entra no sistema é o primeiro a sair no atendimento de uma demanda, exigindo desta forma, um controle mais rigoroso da data de fabricação e validade dos lotes em estoque para evitar perdas. No drive through, há dois corredores, um de entrada e outro, de saída, permitindo o acesso da empilhadeira pelos dois lados. Sua estrutura é baseada em lastres com roletes, que são hastes de metal em formato de U, ligadas entre si por roletes cilín- dricos de metal, o que facilita a movimentação de paletes, pois, com o auxílio da força da gravidade, eles se deslocam de um lado para o outro. Essa estrutura é calcada no método PEPS, desse modo, os itens que entram nos racks de um lado são retirados pelo outro no momento de sua expedição, possibilitando sempre a utilização do lote mais antigo das mercadorias no armazém. A utilização desses modelos de técnicas de armazenamento pelas empresas proporciona melhor aproveitamento do espaço físico das instalações e maior agilidade nos processos de movimentação de materiais. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 104 4.3.3 Silos e tancagem Silos são construções de metal, aço ou concreto armado, dispostas horizontal ou verticalmente, elevados ou subterrâneos, destinadas ao armazenamento e conser- vação de matérias a granel, como grãos secos, cereais, forragens verdes e sementes. Essas estruturas se baseiam nos princípios da eliminação do oxigênio do ambiente de armazenagem e da produção do ácido lático a partir do açúcar contido nos alimentos estocados, o que permite a conservação dos alimentos por longos períodos de tempo. Os tipos mais comumente utilizados são: de superfície e trincheira e os cilíndricos, estes subdivididos em meia-encosta e cisterna (poço). Silos de superfície e trincheira são os que despendem menores custos em sua construção, pois não exigem o investimento em estruturas de alvenaria ou metálicas. Contudo, seu processo de enchimento exige um maior volume de mão de obra quando comparado aos cilíndricos e a possibilidade de ocorrência de perdas também é maior, devido às poucas condições de controle do processo de ensilagem. O silo de meia encosta tem sua estrutura constituída em metal e pode contar ou não com equipamentos destinados à secagem dos grãos, permitindo maior tempo de estocagem. O método de carregamentoé mais fácil que o dos silos do tipo cisternas, pois é realizado com o auxílio de caminhões e esteiras rolantes. O silo tipo cisterna (poço) é mais simples, construído em alvenaria, que pode estar acima da superfície ou enterrado. Seu processo de carrega- mento é facilitado, mas o de descarregamento é mais complexo, demandando mais mão de obra, com um trabalhador dentro do silo e outro fora. Além disso, a execução é manual, com a utilização de baldes, cordas ou correias e roldanas. Os silos de meia-encosta e o tipo cisterna apresentam maior custo de cons- trução do que os silos de superfície e trincheira, mas permitem melhores condições de conservação dos produtos e maior tempo de armazenagem. © s m er ek a // Sh ut te rs to ck © P ic tu re gu y // Sh ut te rs to ck © A er ov is ta L uc ht fo to gr afi e // Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 105 Já a tancagem é o processo de acondicionamento de materiais na forma líquida ou gasosa em tanques de armazenamento, que, segundo Barros (2012), podem ser de metal ou concreto. Essas estruturas podem ser classificadas em tanques atmosféricos e tanques de baixa pressão. Os tanques atmosféricos são utilizados para o armazenamento de líquidos inflamáveis ou não. Conforme Barros (2012), são projetados para operar com um espaço de gás e vapor internos que se aproximem da pressão atmosfé- rica de 0,05 Kg/cm3, acima do nível do líquido armazenado, criando assim o chamado espaço vapor, que impede explosões causadas pelo acúmulo de gases em seu interior, sendo utilizado para o armazenamento de combus- tíveis líquidos, como gasolina, etanol, óleo diesel e querosene. Tanques de baixa pressão são usualmente construídos de aço carbono soldado e trabalham com a pressão interna operando entre 0,05 e 1,0 Kg/cm3, possibilitando o armazenamento de produtos que apresentam maior volatilidade do que os armazenados nos tanques atmosféricos, por exemplo, os gases derivados do petróleo, como o gás liquefeito de petróleo (GLP). Os equipamentos e os sistemas de armazenagem utilizados pelas empresas dependeram dos tipos de produtos armazenados e sua escolha correta permite a redução dos custos com manutenção de estoques. Essa definição deve ser feita levando em consideração os sistemas de movimentação de materiais, buscando inte- grar suas características para que os estoques garantam disponibilidade imediata de insumos para a produção, atuem como amortecedores durante o ressuprimento e reduzam os custos de transporte. Cabe ao gestor de estoques analisar corretamente as características físicas dos materiais que serão movimentados e armazenados, se granéis, sólidos ou líquidos, matérias-primas ou produtos acabados, e as condições ambientais nas quais o arma- zenamento será efetuado para estabelecer o sistema que melhor se adapte às necessi- dades da empresa. © J am es S te id l / / S hu tt er st oc k © T Fo xF ot o // Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 106 Referências BALLOU, R. H. 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Dissertação (Mestrado em Administração e Desenvolvimento Empresarial) - Programa de Pós-Graduação em Administração e Desenvolvimento Empresarial, Universidade Estácio de Sá, Rio de Janeiro, 2008. http://www.guialog.com.br/ARTIGO217.htm 5 Manuseio e proteção das mercadorias Roberto Ribeiro O manuseio de materiais, com toda sua movimentação tem a função de fazer com que os produtos cheguem ao local de seu consumo em condições perfeitas de uso. Por essa razão, as embalagens e formas de unitizar as cargas para o transporte devem levar em consideração a forma de carregamento, recebimento e sua movimen- tação dentro da fábrica, permitindo o controle e todos os registros sobre a movimen- tação da mercadoria. Desse modo, neste capítulo, conheceremos as funções das embalagens no processo de movimentação. Veremos a unitização das cargas como facilitadora do transporte e conheceremos os paletes, utilizados para armazenamento e movimen- tação de mercadorias unitizadas, e os contêineres, voltados para o acondicionamento de produtos em grandes quantidades. Também estudaremos como o desenho de um armazém contribui para a movimentação de produtos e as funcionalidades da estra- tégia crossdocking. 5.1 Unitização e paletização A movimentação de produtos acabados ou semiacabados de um local para outro ou para o consumidor demanda ações de coordenação e controle. O número de viagens para operacionalizar esse processo se relaciona diretamente com o tempo de trabalho necessário para movimentar os produtos e o tempo que os equipamentos de manuseio têm para realizar o serviço. O tempo impacta os custos, e, à medida que o tamanho da carga aumenta, menor será o número de viagens necessário para manusear uma determinada quanti- dade de produtos, assim, maior será a economia. Segundo Ballou (2006, p. 386), “[...] geralmente, a economia no manuseio dos materiais é diretamente proporcional ao tamanho da carga manuseada”. Com base nessa premissa, com a finalidade de acrescentar eficiência a esse processo, várias empresas têm implementado ações relativas à consolidação de cargas, isto é, a reunião de um volume de produtos em uma única carga, facilitando seu manuseio. Essa unificação é chamada de unitizacão de cargas, comumente reali- zada por meio da paletizacão e conteinerizacão, processos que estudaremos ao longo deste capítulo. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 108 As cargas consolidadas são resultantes da criação de carregamentos com grande volume (quantidade) de carga, a partir de vários pequenos lotes, buscando-se obter economia de esca- la no custo dos fretes e aumentar o nível do serviço ao cliente. Veremos nos tópicos seguintes como essas técnicas têm se tornado importantes aliadas na busca por melhores resultados na gestão de materiais, principalmente nas ações relativas a movimentação, manuseio e transporte. 5.1.1 Funções da embalagem de unitização Todas as operações logísticas são afetadas pela embalagem, desde o carre- gamento de caminhões e a separação de pedidos no armazém até o transporte e a utilização do espaço cúbico de armazenamento, e suas características de design, uniti- zação e comunicação influenciam a eficiência no manuseio de máquinasem todas essas situações. De acordo com Paoleschi (2014, p. 36), a unitização “[...] corresponde à alocação de um conjunto de mercadorias em uma única unidade com dimensões padronizadas, o que facilita as operações de armazenamento e movimentação da carga sob forma mecanizada”. A unitização, entretanto, não deve ser confundida com uma forma de embalagem, mas sim, vista como um acessório para movimentação ou transporte de carga, não integrando o produto ou o conjunto de itens armazenados. As embalagens, por sua vez, impactam a produtividade e a eficiência logística (BOWERSOX et al., 2014). Existem vários tipos, mas neste capítulo trataremos especi- ficamente da embalagem de unitização que, conforme Gurgel (2008), tem a finali- dade de proteger os produtos e conter suas embalagens de apresentação, com as quais são expostos para venda. O design de uma embalagem leva em conta a padronização para aumentar a eficiência da logística e suas ações estão voltadas para os espaços cúbicos ocupados pelo produto ante sua necessidade de movi- mentação e armazenamento. As embala- gens de unitização, como precisam garantir a segurança do produto e a facilidade de manuseio e armazenagem, devem contar com acessórios como calc o̧s, cantoneiras, armações de madeira etc. Além disso, sua padronização facilita o dimensionamento da © M SS A / / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 109 capacidade estática do armazém, a utilização adequada dos equipamentos de movi- mentação e o aumento da capacidade de transporte de cargas dos caminhões. Desse modo, a unitização reduz o tempo de movimentação devido ao agrupa- mento de produtos em uma única embalagem, facilitando seu manuseio, ao colocar várias embalagens de um mesmo item em outra maior. Com uma única carga conso- lidada para movimentar, a comunicação também é facilitada, pois se torna necessário rastrear e identificar um número menor de volumes. 5.1.2 Sistemas paletizados Sistemas paletizados são formados e desenvolvidos mediante a unitização das mercadorias conforme padrões de empilhamento de caixas principais em paletes. Conforme Paoleschi (2014), paletização é o uso de paletes, que são estrados ou plata- formas de madeira destinados a suportar cargas fixados por cintas ou envolvidos em filme PVC, permitindo a movimentação das cargas unitizada de forma mecânica com o uso de empilhadeiras ou guindastes mecânicos. Os paletes possuem um tamanho padrão médio no Brasil de 1,00 m x 1,20 m. Existem diversos métodos para unitizar cargas em paletes, sendo que as mais comuns, conforme Bowersox et al. (2014, p. 260), são “[...] blocos, tijolos (brick), linhas e catavento (pinwheel)”. O modelo de blocos usa linhas com caixas de largura e altura iguais, enquanto os demais são apropriados para caixas cujas dimensões têm medidas diferentes, sendo que a diferença entre eles consiste na forma de disposição das caixas no palete no momento da unitização, conforme apresentado na figura abaixo. Métodos de paletização Blocos Tijolos (bricks) Filas Catavento (pinwheel) Fonte: BOWERSOX et al., 2014, p. 260. (Adaptado). © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 110 Nos métodos tijolos, filas e catavento, as caixas são colocadas na unidade de carga arrumadas em um padrão de intertravamento, formando ângulos de 90° umas com as outras, o que possibilita o aumento da estabilidade da carga em seu manuseio e transporte. Já o padrão de blocos não apresenta esse benefício, requerendo a utilização de meios auxiliares como cintas e filmes plásticos para garantir a segurança dos itens transportados. Além da segurança, facilidade e economia de transporte e manuseio, os paletes apresentam outra vantagem para as empresas, que é o fato de poderem retornar ao fabricante, o que também reduz os custos logísticos. O recebedor acumula uma quan- tidade determinadas de paletes do fabricante e, quando chega a uma carga completa, o transportador parceiro da negociação é acionado para coletá-los e levá-los de volta para a fábrica para reaproveitá-los em uma nova movimentação de mercadoria. Os paletes podem assumir diversos formatos e ser produzidos com várias maté- rias-primas, como veremos a seguir. 5.1.3 Tipologia dos paletes Os paletes podem ser classificados quanto a seu uso, equipamentos de movimen- tação necessários para movê-los e matéria-prima com que são fabricados. Segundo Paoleschi (2014), quanto à utilização, os paletes podem ser de três tipos: • Descartáveis (one way) Utilizados uma única vez para a movimentação até seu destino. • Reutilizáveis (de uso repetitivo) Apesar de não retornarem à origem da operação de transporte, podem ser descartados ou aproveitados para novo uso pelo destinatário. • De movimentação Empregados nas operações de movimentação internas dos armazéns e no processo de armazenagem nas estruturas do tipo porta-paletes. Em relação aos materiais utilizados em sua fabricação, conforme Moura (2005), os paletes podem ser: • De madeira São os paletes mais utilizados devido ao custo acessível, mas sua vida útil é menor em comparação aos modelos confeccionados em plástico ou metal. • Metálicos Podem ser compostos, isto é, fabricados em aço e madeira em conjunto, ou de alumínio. A utilização de solda elimina a necessidade de pregos e parafusos, Gestão de estoques e ArmAzenAGem 111 propiciando rigidez e estabilidade e, portanto, maior durabilidade. Seu custo de aquisição, contudo, é o mais elevado entre todos os tipos. • Plásticos São uma alternativa aos paletes de madeira, embora sejam mais caros, portanto, sua utilização tende a ser justificável apenas nas áreas internas dos armazéns, em locais que exijam higiene e segurança. O que os torna vanta- josos é sua durabilidade, facilidade de limpeza em relação aos de madeira, resistência a umidade e agentes químicos, baixo peso e a presença de superfí- cies lisas sem pregos ou parafusos. Os paletes também são classificados de acordo com os equipamentos utilizados para movimentá-los. Existem dois tipos: Palete de duas entradas Possui longarinas, que são peças inteiras de madeira que unem os pontos de apoio do paletes, dando-lhes susten- tação, em vez de simplesmente tocos em sua base. É utilizado quando há necessidade de manusear materiais pesados, que exijam paletes resistentes, portanto é reco- mentado para prateleiras (porta-paletes). Palete de quatro entradas Possui quatro entradas para acesso dos garfos das empi- lhadeiras ou carros paleteiros e pode ser vazado ou assoalhado, isto é, com a face superior fechada. Possui tábuas intermediárias e sua principal característica são os pés montados com pedaços de pontaletes (tocos) que estabelecem sua sustentação, sendo indicado para manuseio de materiais de maior volume e menor peso. O paletes são importantes acessórios no processo de unitização e consolidação de cargas, utilizados tanto na armazenagem quanto no transporte de mercadorias, inclusive dentro de contêineres, que estudaremos no tópico seguinte. 5.2 Conteinerização Conteirenização é o processo de colocação da carga, com a finalidade de trans- porte, em contêiner (cofre de carga). A partir de 1940, os contêineres passaram a ser utilizados na Segunda Guerra Mundial como cofres de aço, medindo 8 pés em cada lado. Em 1955, o americano Malcom McLean abriu sua empresa com 37 navios adaptados para o transporte de contêineres e estabeleceu as seguintes dimensões: 35 x 8 x 8 ½ pés. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 112 Segundo Paoleschi (2014, p. 35), contêiner é: [...] um recipiente construído de material resistente o suficiente para suportar uso repeti- tivo, destinado a propiciar o transporte de mercadorias com segurança, inviolabilidade e rapidez, possibilitando fácil carregamento e descarregamento e adequado à movimenta- ção mecânica e ao transporte por diferentes equipamentos. Os contêineres são recipientes de volume grande e sem rodas e acondicionam produtos de tamanhos e formas variadas,inclusive líquidos, grãos e animais. Sua movimentação deve ser feita mediante equipamentos apro- priados, como pórticos, pontes rolantes e guin- dastes, e seu tamanho é padronizado, o que facilita os projetos de transporte e armazena- mento, sendo transportados por trailer rodo- viário, vagão ferroviário, navio e avião. Estudaremos a partir de agora as funções da conteinerização e suas e aplicações nas operações logísticas. 5.2.1 Funções da conteinerização A conteinerização permite o acondicionamento e movimentação de produtos de grandes volumes com segurança por longas distâncias, protegendo-os da exposição climática e agilizando seu transporte devido à unitização de uma grande quantidade de carga. Assim, reduz o tempo de manobra nos terminais, o furto e roubo de merca- dorias nos portos e os custos de seguros (BALLOU, 2006). Desse modo, conforme Bertaglia (2009), a utilização de contêineres contribui para a economia de movimentação de cargas em navios, terminais de transbordos, portos secos e trens, proporcionando segurança aduaneira ao atender às condições técnicas e de segurança previstas pela legislação nacional e pelas convenções inter- nacionais ratificadas pelo Brasil. Seu uso ainda proporciona eficiência, flexibilidade e rapidez no processo de movimentação de mercadorias e provê a padronização neces- sária ao transporte multimodal, que possibilita obter benefícios relativos à redução de custos e aumento da velocidade de entrega, diminuindo também os problemas de armazenagem e movimentação e, consequentemente, melhorando o nível de atendi- mento das empresas. Moura (2005) sintetiza os benefícios da conteinerização: © h xd yl // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 113 • aumento da produtividade dos equipamentos; • redução de congestionamento e atrasos; • menores custos de embalagem; • proteção contra influências decorrentes do clima ao longo do transporte; • custos mais baixos no seguro marítimo em relação ao das cargas não conteinerizadas; • minimização de faltas e atrasos nas entregas devido à agilidade de movimentação; • menor risco de quebras ou avarias. A conteinerização ainda reduz custos com a documentação, marcação e etique- tamento dos produtos, simplificando os procedimentos alfandegários. As funcionali- dades desse sistema serão aprofundadas a seguir. 5.2.2 Sistemas e funcionalidades Os contêineres seguem um sistema de classificação baseado em suas dimensões e no tipo de material movimentado. A primeira instituição a estabelecer uma padronização foi a International Standards Organization (ISO), ou organização internacional de padronização, instituição que estabelece e controla padrões e procedimentos internacionalmente. No Brasil, essas normas são controladas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e Instituto de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) que, em 1971, emitiu as primeiras normas relativas à terminologia, classifi- cação, dimensões e especificações de contêineres. As dimensões são padronizadas e medidas em pés e polegadas. O pé é repre- sentado pelo símbolo ( ’ ) e equivale a 30,48 cm, enquanto a polegada é simboli- zada por ( ’’ ) e equivale a 2,54 cm. As dimensões dos contêineres se referem sempre a suas medidas externas, e seu tamanho, a seu comprimento, podendo ser de 20’ ou 40’. A largura é a única medida invariável do contêiner, tendo sempre 8’, pois os equi- pamentos de movimentação, chassis dos caminhões, chassis ferroviários e os navios porta-contêiner são construídos com larguras padronizadas para seu encaixe. As funcionalidades dos contêineres se relacionam à facilidade que proporcionam ao processo de movimentação de materiais. Segundo Bowersox et al. (2014, p. 258): [...] a conteinerização oferece eficiência substancial no transporte e redução no manuseio de produtos. Cerca de metade do custo total de transporte de produtos domésticos está na transferência de produtos entre veículos, manuseio em docas e plataformas, embala- gem e em reclamações por perdas e danos. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 114 Bowersox et al. (2014) ainda resumem os benefícios da conteinerização: • aprimoramento da eficiência na movimentação de materiais; • redução de danos no manuseio e transporte; • diminuição de furtos e extravios; • minimização da necessidade de embalagens protetoras; • proteção contra elementos do ambiente; • unidade de carga que pode ser reutilizada inúmeras vezes, reduzindo o desper- dício e necessidade de reposição do recipiente. Essas facilidades oferecidas pelos contêineres ao processo de integração baseado na multimodalidade de transporte são fatores decisivos para a agregação de vantagem competitiva para as empresas. 5.2.3 Tipologia dos contêineres Para cada produto e necessidade de unitização de mercadorias existe um modelo de contêiner. O quadro a seguir mostra os tipos de contêineres e suas respectivas características: Tipos de contêineres Tipo de contêiner Características Carga seca É o de maior desempenho no transporte internacional, pois permite acondicionar diversos tipos de materiais, sejam caixas, pacotes e barris soltos ou paletizados. Gaiola Possibilita estivar unidades de carga especiais, como tanques para líquidos ou gases. Proporciona maior segurança e praticidade, pois, devido ao formato cilíndrico dos tanques, sem a estrutura externa do contêiner, o empilhamento fica impossibilitado. Contêiner teto aberto Também chamado de open top, é destinado ao transporte de granéis ou peças pesadas ou indivisíveis cuja movimentação é feita no sentido vertical, tais como bobinas de siderúrgicas. Tanque É destinado ao transporte de granéis líquidos, como óleos, derivados de petróleo, ácidos, gases etc. Contêiner com carregamento lateral É equipado com portas laterais e destinado a estocagem e descarga nos casos nos quais não é prático usar portas nas extremidades. É utilizado nas compo- sições ferroviárias, quando o produto está embalado em caixas ou unitizado. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 115 Tipo de contêiner Características Contêiner ventilado Dotado de portinholas de ventilação nas extremidades ou nas laterais, é usado para cargas que geram calor ou requerem proteção contra avarias causadas por condensação da umidade do ar. É empregado para transporte de café, cacau, açúcar, embalagens plásticas etc. Contêiner com isolamento térmico Destinado a cargas que não podem ficar expostas a rápidas ou súbitas varia- ções térmicas. É disponível nas versões ventiladas ou não e utilizado no trans- porte de bebidas. Contêiner refrigerado Isolado e equipado com sistema de refrigeração embutido, movido por conexão elétrica direta ou gerador a combustão, é destinado a alimentos resfriados ou congelados. Cargas vivas Destina-se ao transporte de aves domésticas, gado, cavalos e outras cargas vivas. Fonte: LUDOVICO, 2010, p. 59-60. (Adaptado). Qualquer produto pode ser transportado em um contêiner, desde que os fatores de custos, como a distância do local de destino, a operação de carga e descarga, o transporte e os equipamentos de movimentação em função do peso e tamanho do produto, sejam aceitos pelo cliente final. O importante é ocupar totalmente o espaço interno do contêiner, o que otimiza custos e evita possíveis danos nas mercadorias causados pela possibilidade de elas se desprenderem e colidirem com suas paredes durante a movimentação. 5.2.4 Operações internacionais Nas operações internacionais, os contêineres são regulados pela Lei n. 9.611/1998, que, em seu art. 24, define unidade de carga como “[...] qualquer equi- pamento adequado à unitizac ã̧o de mercadorias a serem transportadas, sujeitas a movimentac ã̧o de forma indivisível em todas as modalidades de transporte utilizadas no percurso” (BRASIL, 1998, s.p.). Ainda conforme a lei: “A unidade de carga, seus acessórios e equipamentos não constituem embalagem e são partes integrantes do todo” (BRASIL,1998, s.p.). Até a década de 1990, as operações internacionais com contêineres eram reguladas pelo Decreto n. 80.145/1977 e a Lei 6.288/1975, conhecida como Lei do Contêiner, ambos revogados pela Lei n. 9.611/1998. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 116 De acordo com Ludovico (2010), nas operações internacionais, o transporte de contêineres pode ser negociado pelas seguintes modalidades: • House to house A mercadoria é colocada no contêiner nas instalações do exportador e retirada no importador. • Pier to pier A carga é levada ao terminal marítimo, onde é carregada no contêiner, sendo retirada no terminal marítimo de destino. • Pier to house A carga é levada ao terminal marítimo, onde é carregada no contêiner, sendo retirada apenas na empresa importadora. • House to pier A carga é carregada no contêiner na empresa exportadora e retirada apenas no terminal marítimo do porto de destino. Devido a sua grande viabilidade operacional, regida pela legislação, os contêi- neres demandaram a adaptação de navios e proporcionaram maior operacionalidade e agilidade as operações portuárias. Dessa forma, a conteinerização é um processo que mudou a forma de transporte de mercadorias, possibilitando mais competitividade às empresas. 5.3 Layout do armazém O layout do armazém, ou arranjo físico, engloba os espaços e a forma que o ambiente de armazenamento e movimentação dos produtos foi desenhado e interfere no processo de manuseio e proteção das mercadorias. Desse modo, deve permitir que o fluxo de materiais ocorra de forma acessível, sem obstruções nem riscos para a equipe de trabalho. Um bom layout faz com que as orga- nizações reduzam suas despesas de movi- mentação de materiais ao permitir a máxima utilização dos espaços e proporcionar maior segurança às operações. Para definir o espaço para cada produto ou sua cubagem, isto é, a capacidade volumétrica de armaze- nagem, consideram-se a movimentação que o produto sofrerá no armazém e seu volume. © K .D .P . / / Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 117 Segundo Paoleschi (2014, p. 106, grifo nosso), “[...] definir o arranjo físico (layout) é decidir como posicionar as instalac õ̧es, máquinas, equipamentos e pessoal do almo- xarifado”. Sendo assim, nos próximos subtemas, veremos um modelo típico de layout para armazém, a classificação ABC no processo de guarda dos itens no estoque e as funções de industrialização dos espaços. 5.3.1 Layout típico de armazenagem Antes de construir um depósito, as empresas devem realizar um planejamento prévio levando em consideração as características dos produtos e suas necessidades de movimentação. Após definir o local onde os produtos serão guardados, deve-se estabe- lecer o sistema de retirada desses produtos. Conforme Moura (2005), existem dois: • Sistema de localização fixa A localização dos produtos é designada permanentemente dentro do depósito e geralmente identificada por um código de números. Proporciona mais facili- dade de controle e localização das mercadorias armazenadas, mas, por outro lado, forma espaços não utilizados, ocasionados por faltas temporárias de produtos, e implica no acúmulo de mercadorias em outros espaços, devido à sazonalidade em sua oferta. • Sistema de localização aleatória Trabalha com o estoque em uma base de espaço disponível, ou seja, utiliza os espaços que estiverem vagos nas prateleiras. Embora permita uma utilização mais completa dos espaços disponíveis para armazenamento (já que todos serão ocupados aleatoriamente, não deixando áreas ociosas), dificulta a manu- tenção de um registro de estoque. Conforme Ballou (2006), com relação ao arranjo físico dos compartimentos, prateleiras e corredores de estocagem, as principais diferenças entre os layouts são o número de vãos de cada prateleira, quantas serão usadas e como serão dispostas no armazém, se paralela ou perpendicularmente à parede mais longa. Entre as diversas formulações possíveis, duas são apresentadas pelo autor como os projetos de layout mais viáveis: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 118 Projetos de layout de armazenagem (a) (b) a mL w a v u a w a mL/2 mL/2 u v (a) (b) a mL w a v u a w a mL/2 mL/2 u v Fonte: BALLOU, 2006, p. 408. (Adaptado). Em ambos os projetos, o produto chega por uma porta em um dos lados do prédio e sai por outra, na extremidade oposta. As portas das docas ficam no centro do edifício, e todos os itens do armazém têm a mesma possibilidade de utilização, o que minimiza custos relativos ao manuseio de materiais e à área de armazenagem. Outra decisão importante para a definição do layout é a escolha do sistema de manuseio de materiais (que pode ser manual, com empilhadeiras e paletes, com correias transportadoras, de estocagem e retirada automatizadas ou alguma resultante da combinação desses sistemas), que depende de considerações subjetivas, como risco, flexibilidade e obsolescência. Além disso, conforme Ballou (2006), a localização do estoque e o sistema de movimentação de materiais também interferem na definição do layout. Nesse sentido, métodos intuitivos de determinação fornecem diretrizes sem necessidade de utilizar matemática de alto nível, com base em quatro critérios: • Complementaridade Itens que são quase sempre encomendados em conjunto devem ficar esto- cados perto uns dos outros, por exemplo, tintas e pincéis, lâminas e espuma de barba, lápis e canetas, e a separação dos pedidos é realizada por áreas. • Compatibilidade Relaciona-se a como localizar determinados itens perto uns dos outros de maneira prática. Pneus, por exemplo, não são compatíveis com alimentos, e gasolina deve ser mantida longe de cilindros de oxigênio. Produtos são conside- rados compatíveis quando não há restrições para que sejam mantidos próximos. • Popularidade Baseia-se nas taxas de giro dos produtos em um armazém e no custo de manu- seio de materiais e se relaciona com a distância percorrida no armazém pelos © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 119 operadores para localizar e separar o estoque. Dessa forma, produtos que giram mais rapidamente devem ficar mais próximos das áreas de separação/ expedição, e os que têm menos giros, em locais mais distantes. • Tamanho Os itens de menor volume devem estar localizados perto do ponto de saída no armazém, possibilitando que uma densidade maior de itens possa ser loca- lizada próxima à doca de embarque, diminuindo a necessidade de movimen- tação interna dos operadores. Um layout de armazenamento ainda leva em consideração a localização do estoque e da mercadoria, visando minimizar as despesas de movimentação de mate- riais e obter a máxima utilização do espaço, como veremos a seguir. 5.3.2 O uso do espaço do armazém Para otimizar o espaço existente no armazém, as empresas devem primeiramente avaliar o tamanho das cargas e os veículos necessários para seu transporte, o risco provo- cado pela fragilidade e perecibilidade dos produtos e sua composição físico-química, veri- ficando quais podem ficar juntos e se as cargas podem ser unitizadas ou empilhadas. Além disso, considerando que as atividades de recebimento, conferência, guarda, controle e distribuição ocorrem simultaneamente, o espaço deve ser planejado e geren- ciado para realizá-las com eficiência. Nas áreas de recebimento e expedição, devem-se definir as docas (carga e descarga) e reservar um espaço para as mercadorias passarem por inspeção e conferência de entrada e saída. Nas dependências de guarda e controle dos produtos, é preciso pensar nos espaços de descanso dos itens, isto é, o momento que eles passam pelo controle quantitativo e qualitativo. Por fim, é necessário planejar áreas destinadas à movimentação dos veículos de transporte e sua guarda. O mais importante ao definir o uso dos espaços de um armazém é o cálculo de sua capacidade estática, relacionada ao limite nominal de carga que a área pode receber ao mesmo tempo, em toneladas, expressapela fórmula: praça útil altura do empilhamentoCapacidade estática = fator de estiva médio ⋅ Toda a área disponível para guardar um produto dentro de um armazém, descon- tados os espaços destinados à parte de administração, recebimento e expedição, é a praça útil. Nela, a altura do empilhamento é medida pela capacidade de empilhar uma carga com segurança. Conforme Dias (2011, p. 201, grifo nosso), a altura máxima do “[...] topo das pilhas de mercadorias deve ficar um metro, aproximadamente, abaixo Gestão de estoques e ArmAzenAGem 120 dos sprinklers contra incêndios, instalados no teto. A altura máxima recomendada é de cinco pilhas, devido às limitações dos equipamentos de elevação”, portanto não basta só medir a altura do armazém, mas também se deve subtrair o espaço suficiente para a movimentação do equipamento e da carga até o topo do equipamento de estocagem. Por último, o fator de estiva corresponde ao espaço necessário, em metros cúbicos, para armazenar uma tonelada de um determinado produto. Consideremos um armazém com praça útil de 3.608 m² e altura média de empi- lhamento de 5 metros, com um fator de estiva médio de 2,63m³/T. Para calcular sua capacidade estática, basta substituir os dados na fórmula: 3.608 5Capacidade estática = 2,63 ⋅ 18.040 Capacidade estática = 2,63 Capacidade estática ≅ 6.859 unidades O resultado do cálculo é um valor aproximado, que orienta a organização do espaço de modo que permita o abrir e fechar das portas e que exista espaço suficiente nos corredores para a movimentação dos veículos de transporte. 5.3.3 Dimensionamento do armazém O dimensionamento do armazém deve considerar a relação entre o volume de estoque, o espaço (a área do armazém) e o tempo médio de permanência dos produtos em estoque, tendo como parâmetros o nível de estoque com o qual a empresa deseja operar e a finalidade do armazém (de matérias-primas, produtos acabados, interme- diário ou centro de distribuição). De acordo com Moura (2005), para planejar o espaço do armazém, é preciso: • determinar o que será feito; • estabelecer como fazer; • documentar as necessidades do espaço de cada elemento necessário para rea- lizar a atividade; • estabelecer as necessidades totais de espaço; • definir os materiais a serem recebidos e expedidos; Gestão de estoques e ArmAzenAGem 121 • estabelecer as necessidades de plataformas de recebimento e expedição; • determinar as necessidades de espaço para circulação dos veículos; • definir as necessidades de áreas intermediarias. Para efetuar o dimensionamento do espaço no armazém, é necessário calcular o número de espaços de estocagem, fora as áreas para corredores, balcões e salas para escritório. Nesse sentido, para determinar o número ideal de prateleiras, Ballou (2006) apresenta a seguinte fórmula: ( ) [ ]( ) ( )dCh + 2aCs + 2Cp k w + a L1m a : L 2 dCh + Cp 2h Para dimensionar o comprimento, utiliza-se: u = n(w+a) Por fim, a largura do armazém é dada por: v = 2a + mL Sendo que: m = número de espac o̧s de estocagem ao longo de uma prateleira; a = largura de um corredor (em pés), considerando que deve ser a mesma para todos os corredores; L = comprimento do espac o̧ de estocagem, por exemplo, largura de um palete (em pés); d = processamento (demanda) anual do armazém em unidades de estocagem (por exemplo, paletes), ressaltando que um item de estocagem ocupa uma unidade de espac o̧ (em itens/ano); Ch = custo do manuseio de material da movimentac ̧ão de um item de estocagem de uma unidade de comprimento (em dólares/pé); Cs = custo anual por unidade de área de armazém, incluindo despesas como aque- cimento, iluminac ̧ão, manutenc ̧ão, entre outras (em dólares/pé quadrado); Cp = custo anual por largura de unidade das paredes externas (em dólares/pé); k = capacidade total de armazenagem em espac o̧s de estocagem; Gestão de estoques e ArmAzenAGem 122 w = largura da prateleira dupla (em pés); h = número de níveis de estocagem na vertical; u = comprimento do armazém (em pés) n = número de prateleiras duplas, lembrando que duas prateleiras simples são consideradas uma dupla; v = largura do armazém (pés). Para compreender a aplicação da fórmula, utilizaremos um exemplo adaptado de Ballou (2006). Consideremos um armazém que deve ser configurado com um layout de forma retangular para manusear um processamento de 400.000 paletes por ano, que exigem um espaço de estocagem de 4 x 4 x 4 pés e podem ser empilhados em até ́ quatro paletes. As estruturas porta-paletes de dois lados têm 8 pés de largura, e os corredores, 10 pés. O custo de manuseio dos materiais é de US$ 0,001 por pé, os custos anuais de espaço chegam a US$ 0,05 por pé quadrado, e o custo anual por pé de perímetro de parede é de US$ 3. O giro de armazém é de 8 vezes por ano, com uma capacidade total de armazenagem de 50.000 compartimentos. Qual seria o número ideal de espaços de estocagem ao longo de uma prateleira ? Essa pergunta será respondida a seguir: m = valor que queremos encontrar; a = 10 pés; L = 4 pés; d = 400.000 paletes por ano; Ch = US$ 0,001 por pé; Cs = US$ 0,05 por pé quadrado; Cp = US$ 3; k = 50.000 compartimentos; w = 8 pés; h = 4; O número de espaços de estocagem para a baia longitudinal seria: m(a):237 espaços de armazenamento ( ) ( ) ( ) ( )( ) ( ) ( ) 400.000 0,001 + 2 10 0,05 + 2 3,00 50.000 8 + 10 41m a : 4 2 42 400.000 0,001 + 3,00 ⋅ ⋅ ⋅ Gestão de estoques e ArmAzenAGem 123 Por meio do número de espaços de armazenagem na prateleira (237) a empresa agora sabe a necessidade de espaço de estocagem para ela. Assim, poderá identificar com clareza o tamanho do local destinado a isso. Diante disso, qual seria o tamanho ideal para o prédio destinado ao armazém? Para isso, devemos identificar o compri- mento e largura do armazém. Ou seja, devemos achar v e u. Todavia, não temos n, que é o número ótimo de estantes duplas. Esse valor pode ser encontrado através da seguinte fórmula: ( ) [ ] ( )2 dCh + Cp k w + a L1n a : w + a dCh + 2aCs + 2Cp 2h Utilizando os valores apresentados lado a lado anteriormente, teremos: ( ) [ ] ( )2 400.000 0,001+3,00 50.000 8 + 10 41n a : 8 + 10 400.000 0,001 + 2 10 0,05 + 2 3,00) 2 4 ⋅ ⋅ ⋅ ⋅ ⋅ ⋅ n(a):52 n(a)≅52 n = número de prateleiras duplas = 52 Sabendo que há necessidade de 52 prateleiras, agora é possível encontrar o tamanho do espaço do armazém: μ = n(w + a) = 52(8 + 10) = 936 Por fim, a largura do armazém é dada por: v = 2a + mL = 20 + 237 ∙ 4 = 968 Logo: u = comprimento do armazém (em pés) = 936 v = largura do armazém (pés) = 968 Por meio desses valores, a empresa poderá agora determinar o tamanho do espaço a ser construído para a instalação do armazém necessária. Um dimensionamento bem planejado otimiza os espaços para armazenamento e permite aproveitar ao máximo a altura do depósito, dispensando esforços extras da empilhadeira, que resultariam em custos adicionais de movimentação de carga. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 124 5.3.4 Classificação ABC na armazenagem A classificação ABC tem como base o teorema do economista Vilfredo Pareto, conhecido como lei de Pareto, e é aplicada na gestão dos estoques quando é preciso saber quais são os produtos com maior representatividade financeira nos custos, que, se comprados em grandes quantidades, podem causar dificuldades financeiras para a organização. Vilfredo Pareto (1843-1923) foi um economista e sociólogo italiano que estudou a distribuição da riqueza e constatou que 80% dela se concentrava em 20% da população. A lei de Pareto leva em consideração a relação 80/20 para as variáveis escolhidas, na qual 20% de todos os produtos (causa) representa 80% do valor financeiro em estoque (consequência). Com base nesse princípio, Paoleschi (2014) estabelece uma relação de valores aplicados para a curva ABC da seguinte forma: A – 80%, B – 15% e C – 5%, como mostrao quadro a seguir. Classificação da curva ABC Classe % Itens % Valor A 5 80 B 10 15 C 85 5 Fonte: PAOLESCHI, 2014, p. 68. (Adaptado). De acordo com Paoleschi (2014), esse princípio pode ser utilizado na gestão de estoques para definir sua política de vendas, estabelecer prioridades, programar a produc ã̧o etc. Para tanto, dividem-se os produtos nas classes A, B e C, sendo que o valor percentual de cada item sobre o investimento total do estoque é considerado para a tomada de decisão. Sendo assim, a classificação ABC auxilia os gestores a tomar decisões quanto à forma de abastecimento e investimento de estoque, levando em consideração os seguintes critérios: itens das classes A e B devem ter um giro rápido, pois representam maior valor financeiro imobilizado em estoque, enquanto os de classe C têm valor rela- tivo pequeno e a massa de investimento em estoque atinge somente 5% do valor total, mas representam a maioria dos itens em estoque (85%). Como o valor investido nesses itens não tem muita representatividade no resultado global da empresa, deve-se criar um sistema de reposição fácil e com menor rotatividade que o dos itens A e B. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 125 Esse sistema evita custos inerentes a um controle mais burocrático desses itens, pois não são o foco principal das atividades da empresa, podendo ser tratados de forma menos criteriosa que os das classes A e B, que têm impacto significativo no faturamento. Dessa forma, a organização pode dimensionar sua necessidade dos itens C por um período maior, por exemplo, seis meses, e adquiri-los e mantê-los em estoque, pois as possíveis variações que possam ocorrer nesse período não impacta- riam de forma significativa seu resultado final. A classificação ABC também pode ajudar o gestor a determinar o melhor local para guardar uma mercadoria no armazém, tendo em vista sua frequência de entrada e saída. Os produtos que têm maior giro, por exemplo, devem ocupar áreas mais próximas do setor de separação, e os que têm menor giro precisam ser alocados em posições mais distantes, diminuindo a necessidade de deslocamento dos equipamentos de movimentação de materiais e de mão de obra. Além disso, produtos que normal- mente são requisitados juntos devem ficar próximos uns dos outros, itens de grande peso e volume devem ser lotados próximos às saídas e aqueles com natureza diversa, como alimentos e substâncias de limpeza, devem ficar distantes uns dos outros. De posse dessas informações, os produtos que apresentarem uma classificação A devem ser posicionados próximos às docas de recebimento e expedição, os de classe B, no meio do depósito, e os de classe C, que possuem pouca movimentação, devem ficar no final do depósito. Essas ações aumentam a funcionalidade do armazém e faci- litam o crossdocking, como veremos a seguir. 5.4 Funcionalidades e crossdocking O espaço interno do almoxarifado é visto como uma extensão do chão de fábrica, assim, é possível agregar valor à logística da empresa realizando operações de montagem de kits e aplicando a metodologia crossdocking, na qual a mercadoria rece- bida é imediatamente preparada para ser despachada para o cliente, sem ficar armaze- nada, o que reduz custos e agiliza a entrega. Bowersox et al. (2014) apresentam outros serviços que podem ser agregados aos armazéns, como a composição, que é a atividade de unir itens específicos para a formação de kits de produtos dentro do armazém e montagem, também conhe- cida como industrialização na armazenagem, na qual produtos e componentes são montados a partir de uma variedade de fornecedores de segunda camada por depó- sitos localizados perto das instalações de manufatura. Ao longo deste tópico, estuda- remos mais profundamente essas atividades. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 126 Fornecedores de segunda camada oferecem produtos ou kits para os de primeira camada em um processo de gestão integrada de suprimentos. Em uma montadora de veículos, por exemplo, o de primeira camada é responsável pelo sistema de freio, e o de segunda, por pastilhas e lonas. 5.4.1 Funções de industrialização no espaço de armazenagem A montagem, ou industrialização no espaço de armazenagem, tem a finalidade de apoiar as operações de manufatura. Os conjuntos de produtos e componentes são montados a partir de uma variedade de fornecedores de segunda camada, que possuem seus depósitos localizados perto das instalações de manufatura (fábricas) ou dos centros de distribuição. Do mesmo modo que o crossdocking e a composição, que serão estudados nos próximos subtemas, a industrialização é utilizada para conseguir um agrupamento de estoque em momento e local específicos. Um exemplo é o das empresas auto- motivas. Segundo Bowersox et al. (2014), na montadora de veículos da Honda em Marysville, nos Estados Unidos, um fornecedor de pneus entrega unidades pré- montadas de rodas com pneus diretamente na fábrica. Com base na programação de montagem, o fornecedor de segunda camada fornece o conjunto do sistema de freio para o de primeira camada, que pré-monta a roda e o pneu, combinando-os com a cor do veículo, instala os componentes adequados do conjunto de freio e efetua toda a inspeção de qualidade. No momento adequado, um conjunto roda-pneu é transpor- tado por esteira rolante a partir de um prédio adjacente e chega à linha de montagem final para colocação no automóvel. Esse processo é sintetizado no esquema a seguir: Esquema do processo de montagem (industrialização do armazém) Fornecedor A Fornecedor B Fornecedor C Centro de distribuição do fornecedor principal Planta de montagem Fornecedor A Fornecedor B Fornecedor C Centro de distribuição do varejo Loja Ou Fonte: BOWERSOX et al., 2014, p. 232. (Adaptado). © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 127 Esse tipo serviço reduz custos tanto para a indústria quanto para seus distribui- dores, pois, com ele, os operadores de armazém conseguem realizar um serviço de custo baixo, considerando a otimização de suas instalações, ao empregar sua estrutura de máquinas e equipamentos para prestar serviços a seus clientes, visando à realização de um novo serviço. Outra possibilidade é a realização de parcerias entre empresas de um mesmo segmento. A construção de um armazém exige investimentos altos em infraestru- tura física, sistemas de controle e gerenciamento e equipamentos automatizados, e, dependendo do movimento de mercadorias armazenadas, ocorre uma ociosidade. A empresa nesses casos pode fazer uma parceria com outra do mesmo segmento, arma- zenando mercadorias de outros fornecedores para montar o produto final, ou alugar e terceirizar seus serviços e estrutura para atender a um parceiro fornecedor. Um armazém, então, pode se tornar uma pequena indústria, por meio da reali- zação de atividades que agregam valor para os clientes da empresa. Dessa maneira, ele deixa de ser um centro de custo para ser um centro de receita para a organização que souber operacionalizar seus recursos disponíveis. 5.4.2 O crossdocking Crossdocking é um processo no qual uma indústria envia para um centro de distri- buição uma carreta com carga completa que, em vez de ser guardada no armazém, é redirecionada na doca para o transporte a seu destino final. Conforme Bowersox et al. (2014), é a atividade que combina produtos de diversas origens em uma variedade (lote) pré-especificada para determinado cliente, como mostra o esquema a seguir. Esquema de crossdocking Empresa A ou fábrica A Empresa B ou fábrica B Empresa C ou fábrica C Centro de distribuição Cliente A Cliente B Cliente C Fonte: BOWERSOX et al., 2014, p. 232. (Adaptado). © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 128 As operações de crossdocking são utilizadas pelos varejistas para reabastecer estoques de alta rotatividade, contudo, para ser eficientes, exigem que os fornecedores entreguem as mercadorias no armazém com pontualidade, pois, à medida que os produtos são recebidos e descarregadosno depósito, uma equipe de operadores já realiza a separação com base em seu destino. Normalmente, o cliente informa a quantidade e o destino das mercadorias no documento de transporte. Após a separação das mercadorias na área de manuseio de materiais, sendo agrupadas conforme seu destino, ocorre a troca da documentação de transporte, que foi emitida pelos fabricantes contendo o armazém ou centro de distribuição como destinação. Daí, advém o nome crossdocking, que em uma tradução literal significa troca de documentos. Depois, o produto é movimentado pela doca de recebimento até chegar a um caminhão dedicado (exclusivo) ao destino da entrega. Essa operação requer um alto grau de acurácia, isto é, seu percentual de acerto, visto que, após os caminhões estarem carregados com o mix de produtos combinados de diversos fabricantes, eles são liberados para o transporte até o destino. Erros não podem ocorrer, pois acarretam transtornos aos clientes, que trabalham com esto- ques reduzidos das mercadorias, visto que o principal fundamento dessa técnica é a redução dos níveis de estoques, com base na reposição rápida e pontual pelos forne- cedores. Por essa razão, o crossdocking depende da tecnologia da informação como meio de garantir a eficiência dos processos. Nesse sentido, sistemas computadori- zados de endereçamento e roteirização de cargas, leitores ópticos e sensores de radio- frequência, utilizados no processo de movimentação das mercadorias, minimizam a possibilidade de falhas. 5.4.3 Montagem de kits no armazém Em uma loja, ao se realizar uma promoção, pode-se juntar um produto que está com pouco movimento nas vendas com um outro de maior procura, formando um kit promocional de venda. Do mesmo modo, em um armazém, pode-se realizar a composição, isto é, agrupar componentes específicos para a montagem de um mix de produtos para atender a necessidades específicas de clientes diversos. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 129 Esquema de composição A B C D A B C D A B A B D Ponto de composição em trânsito Fábrica A Fábrica B Produto D Fábrica C Composição (Mixing) Cliente W Cliente X Cliente Y Cliente Z Fonte: BOWERSOX et al., 2014, p. 232. (Adaptado). De acordo com Bowersox et al. (2014), a composição tem um resultado seme- lhante ao do crossdocking, já que normalmente é realizada em um local intermediário entre a origem e o destino da carga. O que os diferencia é que, na composição, o depó- sito tem estoques regulares que são usados na montagem de kits, o que não ocorre no crossdocking. Na composição, cargas completas de produtos são enviadas de sua origem (fabri- cantes) aos depósitos de forma planejada, com a finalidade de minimizar o custo do transporte e agilizar o recebimento na chegada ao armazém. Ainda segundo Bowersox et al. (2014, p. 231): [...] quando chegam ao depósito de composição, as cargas são descarregadas e separadas na combinação desejada pelo cliente. A composição em trânsito tem sido tradicionalmente apoiada por tarifas especiais de transporte que oferecem incentivos financeiros para facilitar o processo. Durante o processo de composição, os produtos que chegam podem ser combi- nados com outros regularmente estocados no depósito. No exemplo da imagem ante- rior, três fabricantes distintos (A, B e C) enviam produtos para o depósito (D), que realiza a composição de novos produtos, juntando itens enviados pelos fornecedores aos que já estavam estocados no depósito (D), criando um kit que será enviado para clientes distintos (W, X, Y e Z), de acordo com a necessidade de cada um. O armazém de um hospital, por exemplo, pode montar um kit com agulha, ataduras, esparadrapo, algodão e gaze para seus enfermeiros, assim cada um, ao atender aos pacientes, não precisa perder tempo procurando e selecionando os mate- riais necessários. Da mesma forma, um kit de uma rede de supermercados pode incluir produtos com baixo giro associados a itens com níveis elevados de venda, por exemplo, refrigerantes a base de cola com outros com sabor de laranja. Já as indústrias podem receber kits completos de determinadas partes de um produto, como um conjunto de câmbio de um modelo de automóvel. © D TC O M Normalmente, reserva-se um espaço específico dentro do armazém para a montagem dos kits, onde devem ficar todos os equipamentos e acessórios necessários para a atividade, assim como ocorre no sistema de produção normal. Dependendo do volume diário, a empresa pode designar uma equipe dedicada a essa a montagem ou, caso seja uma operação esporádica, empregar a mesma equipe que atua no armazém. A montagem de kits é uma estratégia que o armazém pode adotar para aumentar a vantagem competitiva da organização. Segundo Bowersox et al. (2014), os depó- sitos que realizam esse tipo de operação conseguem reduzir o armazenamento geral de produtos em um sistema logístico ao mesmo tempo que conseguem oferecer varie- dades de produtos específicas para cada cliente, minimizando seus custos de trans- porte ao programar suas entregas de forma mais eficiente e aproveitar espaço e mão de obra existentes para a oferta de um novo serviço. 5.4.4 Vantagens e desvantagens das novas funcionalidades Os clientes exigem de seus fornecedores e parceiros melhores e maiores níveis de serviço. Nesse sentido, conforme Hong (2010, p. 131), “[...] entregas com maior frequência e consistentes e no tempo certo programado, transações sem erro e a disponibilidade de estoque” são fatores preponderantes para que as empresas conquistem e mantenham seus clientes. Para atender a essa demanda, as organizações realizam as operações de indus- trialização, crossdocking e montagem de kits, que agregam novas funcionalidades aos armazéns e apresentam vantagens e desvantagens. Segundo Hong (2010), as vantagens dessas novas funcionalidades incluem: • manter o nível crescente de serviço; • garantir produtos com qualidade; • diminuir devoluções por defeitos de manuseio no processo de distribuição; • maximizar a resposta rápida à demanda; • reduzir o capital empatado em estoques. Desse modo, é possível reduzir o capital empatado nos estoques por meio da dimi- nuição do tempo que os produtos permanecem na cadeia de suprimento e maximizar a reposta à demanda ao reduzir custos e o tempo utilizado no processamento de pedido (lead time). Além disso, ao garantir a qualidade das operações de ressuprimento, com base em um processo de reposição de produtos calcado na real necessidade dos clientes, em Gestão de estoques e ArmAzenAGem 131 que a coleta é feita no ponto de venda direta e simultaneamente pelo fabricante ou distri- buidor, mantém-se o crescente nível de serviços exigido pelo consumidor, por meio da melhoria na eficiência dos recursos utilizados, tanto na armazenagem como no transporte. Essas novas funcionalidades, entretanto, também apresentam desvantagens. Segundo Hong (2010), estão relacionadas às seguintes incertezas: • indisponibilidade de volume suficiente de produtos ou serviços que justifiquem entregas mais frequentes; • falta de viabilidade econômica para implantar mais locais de estocagem perto de cada mercado significativo; • necessidade de um alto volume de carga, pois entregas menores que a carga de um caminhão não atendem às necessidades de ciclo curto de produtos, que se baseia no volume processado versus os custos de transporte. Desta forma, para decidir a respeito da implementação dessas novas funcionali- dades a seu processo produtivo, cabe às empresas analisarem cada situação isolada- mente e pesar se as vantagens contrapõem as desvantagens. Sendo assim, o processo de manuseio e proteção das mercadorias é fundamental para que a mercadoria chegue ao consumidor em perfeitas condições de uso. Uma das formas de proteger os itens e reduzir os custos com seu armazenamento e transporte é a unitização, que concentra várias mercadorias em um único volume. Além disso, todo armazém deve ter um layout adequado a suas necessidades,proporcionando segurança dos produtos e pessoas durante a movimentação. Esses espaços podem ser aproveitados para a industrialização, processo utilizado para conseguir um agrupamento de estoque em momento e local específicos; montagem de kits específicos de produtos para determinadas demandas da empresa e seus clientes; e servirem de entreposto para mercadorias, como no crossdocking, processo que movimenta a mercadoria rapidamente para o cliente quando chega ao estoque, podendo auxiliar as empresas a melhorar seus resultados. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 132 Referências BALLOU, R. H. Logística Empresarial: transporte, administração de materiais e distri- buição física. 05. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. BERTAGLIA, P. R. Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento. 02. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. BOWERSOX, D. J. et al. Gestão Logística da Cadeia de Suprimentos. 04. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. BRASIL. Presidência da República. Decreto n. 80.145, de 15 de agosto de 1977. Diário Oficial da União, Brasília, 16 ago. 1977. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto/1970-1979/D80145.htm>. Acesso em: 27/07/2016. ______. Presidência da República. Lei n. 6.288, de 11 de dezembro de 1975. Diário Oficial da União, Brasília, 12 dez. 1975. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/1970-1979/L6288.htm>. Acesso em: 27/07/2016. ______. Presidência da República. Lei n. 9.611, de 19 de fevereiro de 1998. Diário Oficial da União, Brasília, 20 fev. 1998. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/L9611.htm>. Acesso em: 27/07/2016. DIAS, M. A. P. Administração de Materiais. 06. ed. São Paulo: Atlas, 2011. GURGEL, F. A. Logística Industrial. São Paulo: Atlas, 2008. HONG, Y. C. Gestão de Estoques na Cadeia de Logística Integrada: supply chain. 04. ed. São Paulo: Atlas, 2010. LUDOVICO, N. Logística de Transportes Internacional. São Paulo: Saraiva, 2010. MOURA, R. A. Armazenagem e Distribuição Física. São Paulo: Iman, 2005. v. 5. PAOLESHI, B. Estoques e Armazenagem. 01. ed. São Paulo: Érica, 2014. 6 Custos e taxas de armazenagem Roberto Ribeiro As decisões sobre os custos de armazenagem afetam o nível de serviço que as empresas prestam a seus clientes e envolvem o levantamento e análise dos custos diretos e indiretos, a seleção do local do armazém e as técnicas utilizadas para seu gerenciamento. Segundo Dias (2011), o armazenamento de material gera custos, que podem ser agrupados nas seguintes modalidades: • custos de capital (juros, depreciação); • custos com pessoal (salários, encargos sociais); • custos com edificação (aluguéis, impostos, luz, conservação); • custos de manutenção (deterioração, obsolescência, equipamento). Esses custos são classificados conforme sua destinação em dois tipos: custos diretos e custos indiretos e, dependendo de como variam em relação ao volume de produção, podem ser fixos ou variáveis, como veremos ao longo deste capítulo. Além disso, a localização do armazém ou um centro de distribuição interfere na agilidade da prestação de serviços, pois, dependendo do local, o tempo de transporte pode aumentar ou diminuir, e nos custos, com o aumento das despesas de aluguel e impostos. Assim, estudaremos também como escolher um local adequado para o armazenamento, aplicando e algumas técnicas de seleção e observando aspectos legais, por exemplo, incentivos tributários. Por fim, conheceremos algumas técnicas de armazenamento, como o armazena- mento em trânsito, o merge in transit e os armazéns alfandegados. 6.1 Custos diretos e indiretos na armazenagem Uma empresa precisa analisar seus custos para determinar corretamente o preço de venda de seus produtos ou serviços. O levantamento inicial começa no processo de custeio, que consiste em realizar o rateio de todos os custos por um objeto de custo, que, segundo Padoveze (2013), consiste em um elemento do qual se deseja apurar um custo específico, como um serviço, produto, departamento, recurso etc. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 135 Para que se consiga realizar o custeio de forma eficiente, deve-se observar o compor- tamento de custo, que ainda conforme Padoveze (2013), é a definição do comporta- mento dos custos em relação ao volume de produção (ou vendas), analisando como eles aumentam ou diminuem. Nessa análise, observa-se se os custos crescem ou diminuem conforme a elevação ou queda do volume da produção. Assim, é possível identificar se os custos variam conforme as alterações no volume, sendo, então, identificado como variáveis. Caso contrário, serão considerados custos fixos. Conhecendo esse princípio, estudaremos mais profundamente neste tópico os custos fixos e os variáveis. Posteriormente, definiremos também os custos diretos e os indiretos e veremos formas de realizar rateios para gerar um preço final mais justo e competitivo. 6.1.1 Custos fixos de armazenagem Os custos fixos estão ligados ao processo de movimentação dos materiais (equi- pamentos, mobiliário), ao acondicionamento (embalagens, estrutura física) e à admi- nistração (pessoal e serviços prestados). Conforme Padoveze (2013, p. 76), “Um custo é considerado fixo quando seu valor não se altera com as mudanças, para mais ou para menos, do volume produzido ou vendido dos produtos finais”. Um exemplo é o custo de seguro de um armazém, calculado levando em consi- deração uma média de fatores que incluem a área, estrutura física, características dos produtos estocados, condições de segurança etc. Uma vez determinado pela empresa, esse custo não sofre variações significativas por um determinado período de tempo, normalmente pelo menos um ano. Dessa forma, independentemente da quantidade e do valor do material armazenado, o custo permanecerá inalterado. Outro exemplo pode ser observado na tabela a seguir: © G eo rg ej m cl it tl e / / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 136 Evolução do custo de segurança Mês Quantidade Custo do produto (R$) Custo de segurança Janeiro 1.000 2.000,00 1.500,00 Fevereiro 1.300 2.600,00 1.500,00 Março 800 1.600,00 1.500,00 Abril 1.500 3.000,00 1.500,00 Maio 1.000 2.000,00 1.500,00 Junho 1.200 2.400,00 1.500,00 Analisando a tabela, é possível perceber que o custo do produto estocado varia conforme a quantidade mantida em estoque, mas o custo de segurança não muda, mantendo-se fixo. Entretanto, mesmo sendo fixo, o custo de segurança sofre uma variação quando observamos seu comportamento em relação ao custo total de armazenagem, que é a soma de todos os custos incidentes. Isso ocorre porque, conforme a quantidade mantida em estoque em cada período de avaliação, esse custo terá um peso percen- tual diferente quando for rateado (dividido pela quantidade em estoque). Sendo assim, ainda com base na tabela, ao dividir o custo de segurança de cada mês pela quantidade correspondente, pode-se observar que o custo unitário de segu- rança em janeiro foi de R$ 1,50, em março, R$ 1,87 e em junho, R$ 1,25. Assim, ele pode ser considerado um custo fixo que sofre influência da quantidade de mate- rial mantido em estoque, assim como os demais custos fixos, como, aluguel, Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), mão-de-obra direta, entre outros. Para que a atividade de armazenagem agregue valor a seus sistemas de custeio e gerencial, as organizações precisam adaptar suas práticas de rateio, buscando, em vez de agregar todos os custos em um centro de custo, realizar a distribuição por todos os centros existentes, tendo em vista o tipo de serviço que foi prestado e o que efeti- vamente foi gasto com essa operação de armazenamento. Retornando novamente ao exemplo do custo de segurança, se ele não for exclusivo da área de armazenagem, envolvendo também as de produção e administrativa, o rateio deve ser executado proporcionalmente a essas demais áreas, para não se atribuir custos que não são inerentes ao processo de armazenagem na composição dos custos totais. Gestão de estoquese ArmAzenAGem 137 6.1.2 Custos variáveis Custos variáveis são relacionados com a quantidade de esforço realizado em cada operação. Conforme Hansen e Mowen (2009, p. 89), esse tipo de custo “[...] aumenta no total com um aumento na execução da atividade e diminui no total com a dimi- nuição na execução da atividade”. Como no processo de armazenamento as empresas disponibilizam espaços físicos e recursos para a guarda de produtos para evitar perdas e atrasos na logística, os custos variáveis aumentam na medida em que a empresa se propõe a oferecer melhores serviços aos clientes. Um exemplo é a movimentação realizada por uma transpaleteira. Os custos com combustível, manutenção, pneus, entre outros, são proporcionais à quantidade de mercadorias que serão transportadas dentro do armazém. Além disso, se a empresa adotar uma estratégia de unitizar determinadas merca- dorias para atender a uma demanda especí- fica de um grande cliente, o tempo da mão de obra, equipamento e embalagem para preparar tais produtos para o transporte e distribuição será maior quando comparado aos demais processos e deve ser agregado ao valor do serviço prestado. Se a empresa não realizar esse custeio diferenciado, isto é, se não separar a incidência dos custos para cada processo realizado, encarecerá o serviço prestado para todos os demais clientes da organização, uma vez que estará considerando o custo para atender um cliente diferenciado como parte dos custos normalmente incor- ridos para atender os demais clientes padronizados, ou seja, incorporará o aumento de custo a todos os serviços prestados pela empresa em vez de incorporar o custo a apenas ao serviço prestado ao cliente diferenciado. Uma grande dificuldade para se apurar os custos variáveis nas operações de arma- zenamento é que a própria atividade de armazenagem é considerada de custo fixo e indi- reto. Essa situação exige dos gestores um sistema de custeio eficiente e planejado na determinação correta de quais custos são variáveis e quais não são, para que se possa fazer a correta apropriação sobre os custos diretos e indiretos, que discutiremos a seguir. 6.1.3 Custos diretos e indiretos Os custos de armazenagem também podem ser divididos em diretos e indiretos. Essa classificação surge da necessidade, apontada por Padoveze (2013), de separar os custos diretamente ligados à produção de cada produto daqueles que não possuem vinculação direta a esse processo, mas sim, considerados de caráter geral, relativos a todas as áreas da empresa. © fa it hi e / / S hu tt er st oc k. (A da pd at o) . Gestão de estoques e ArmAzenAGem 138 Os custos diretos são aqueles que são possíveis de serem identificados claramente e são apropriados diretamente ao produto e ou serviço executado. Por exemplo, no armazenamento, as operações de mão de obra empregada para a guarda e movimen- tação de um produto integram um custo direto, já a mão de obra do setor financeiro e do departamento de vendas não, mesmo tendo interface com a atividade de armaze- nagem. Outros custos diretos são as despesas de aluguel das instalações e/ou equipa- mentos, já que seus valores são predeterminados em função de um período de tempo. Como nos custos diretos não existe rateio, basta uma unidade de medida para apro- priá-los, como: quilos, horas de mão-de-obra ou de máquina, quantidade de força consu- mida etc. Assim, numa operação de armazenamento na qual ocorre a montagem e elaboração de kits de componentes, embalagens são necessárias para acondicionar todos os produtos. Nesse cenário, a empresa conhece a quantidade de embalagens necessárias para cada kit elaborado, o que atrela o custo diretamente ao produto e o torna claro. Já os custos indiretos não se ligam diretamente ao serviço prestado no armaze- namento nem são identificados facilmente pela organização. Por exemplo, é possível conhecer o valor total da conta referente à energia gasta em todo o armazém, mas não se consegue saber exatamente o que foi gasto em uma operação específica de movi- mentação, guarda ou na administração. A depreciação é outro tipo de custo indireto, pois a organização consegue sabe que um equipamento foi utilizado durante um deter- minado momento para a realização de diversas operações, mas não em qual momento. Depreciação é o processo de desvalorização que os equipamentos sofrem no decorrer do tem- po em função de seu uso, obsolescência ou desgaste natural. Normalmente, esses custos exigem uma metodologia de rateio para apropriar sua parcela a cada operação. Conforme Padoveze (2006, p. 390): Custos indiretos são os gastos que não podem ser alocados de forma direta e objetiva aos produtos finais, sendo necessário desenvolver critérios de distribuição (apropriação, alo- cação, absorção, rateio) para incorporá-los ao custo unitário dos produtos, já que se ca- racterizam por ser gastos genéricos da fábrica (empresa). Os custos indiretos são de difícil apropriação aos produtos. Algumas das formas de apropriá-los é por meio de taxas de distribuição ou critérios subjetivos de distribuição. Esses custos são influenciados pela localização do armazém, que veremos a seguir. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 139 6.2 Seleção da localização do armazém A localização do armazém influencia os custos de armazenamento, pois o local esco- lhido pode deixar as operações de administração dos espaços e dos serviços mais ágeis. No momento da escolha, a empresa deve considerar se pretende ter seu próprio armazém ou se contratará um terceiro. Com a aquisição, serão necessários investi- mentos na compra ou aluguel do terreno, em infraestrutura e equipamentos de esto- cagem e movimentação de mercadorias. Além disso, a companhia também terá despesas com impostos e equipes operacionais e de gestão. Com a terceirização do serviço, a localização das instalações e a infraestrutura da companhia parceira deverão ser consideradas para optar por aquela que oferece o melhor serviço ao menor custo. Após essa definição, é preciso dimensionar o volume de cargas que serão movi- mentadas no armazém, verificando se ele deve ficar próximo à fábrica ou aos clientes. Além disso, a organização deve analisar se a construção será horizontal, o que eleva os custos decorrentes do tamanho da área, ou vertical, opção que eleva os custos com equipamentos de movimentação. A seguir, conheceremos os aspectos mais relevantes para a escolha da localização de um armazém, as principais técnicas de seleção e os aspectos legais que devem ser considerados. 6.2.1 Relevância na escolha da localização do armazém Para escolher a localização de um armazém, as empresas devem levar em consi- deração todas as áreas que estarão interligadas no processo de produção ou à comer- cialização dos produtos, analisando fatores como localização dos fornecedores, vias de acesso e destinação final dos produtos, buscando reduzir os custos de transporte levando em consideração a distância e o peso transportado. Segundo Bowersox (2001), a importância de analisar a localização do armazém é reconheci- da desde meados do século XIX, com os estudos do economista alemão Joachim von Thünen, para quem os principais fatores determinantes do desenvolvimento econômico eram o preço da terra e o custo de transporte. Para selecionar corretamente essa localização, as organizações ainda devem considerar as decisões de marketing e as condições de competitividade em que estão inseridas para garantir vantagens econômicas. De acordo com Lacerda (2000), essa decisão envolve altos níveis de investimentos, gerando profundos impactos nos custos totais de uma rede de distribuição, pois reflete nos custos de transporte e na Gestão de estoques e ArmAzenAGem 140 determinação dos níveis de estoque que as empresas precisarão operar. Algumas companhias, por exemplo, conseguem sucesso em função da sua localização e instala- ções físicas em locais estratégicos. A tecnologia da informação reduziu o tempo para a comunicação percorrer todaa cadeia de abastecimento, diminuindo a necessidade de um grande número de depó- sitos para realizar a distribuição dos produtos. Assim, com os avanços que permi- tiram o desenvolvimento de técnicas de armazenagem como o ECR (efficient consumer response ou resposta eficiente ao consumidor), CPFR (collaborative planning, forecas- ting and replenishment ou planejamento colaborativo de previsão e reabastecimento), VMI (vendor managed inventory ou inventário (estoque) gerenciado pelo fornecedor), milk run (coleta do leite) e postponement (adiamento), que serão abordadas com maior profundidade ao longo deste capítulo, as empresas podem garantir entregas confiáveis e previsíveis mesmo que não mantenham um local fixo para o armazenamento. Para escolher a localização do armazém, é possível adotar algumas técnicas, que serão vistas a seguir. 6.2.2 Técnicas de seleção da localização Para a escolha do local adequado de um armazém, as organizações podem aplicar técnicas que levam em consideração seu planejamento estratégico, como mostra o quadro a seguir. Padrões de localização de depósitos Projeto de um sistema logístico que inclui um depósito sempre que isso proporcione vantagens de serviço ou de custo. O número e a localização geográfica dos depósitos são determinados pela localização de clientes e de instalações e necessidades de produtos. Depósitos localizados direcionados pelo mercado Dedicam-se ao ressuprimento de estoque e servem como locais para montagem de produtos de diferentes origens e de vários fornecedores. Localizados direcionados pela produção Ficam próximos de fábricas para servir como ponto de montagem e consolidação dos produtos fabricados, facilitando a expedição de sorti- mentos de produtos aos clientes. Depósitos localizados em pontos intermediários São localizados entre os clientes e as fábricas, semelhantes aos depósitos localizados direcionados pela produção, e oferecem cargas únicas de uma ampla variedade de produtos a um custo logístico reduzido. Economias de transporte A vantagem de custo surge quando o depósito é utilizado para obter máxima consolidação de cargas. Os depósitos ajudam a obter economia de transporte na medida em que podem ser utilizados para a troca de modais de transporte mais baratos em determinados trechos ou geram economia ao não ter que sair um transporte para cada cliente em determinada loca- lização, ou seja, é feito um único transporte para uma região, e o abasteci- mento da região é realizado direto do depósito. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 141 Economias de estoque O nível de estoque está diretamente relacionado com a estrutura de loca- lização de um sistema logístico. O modelo de análise para o planejamento da distribuição do estoque é baseado no ciclo de atividades, que corres- ponde ao tempo transcorrido entre a emissão do pedido de compra por parte do cliente e a respectiva entrega da mercadoria em seu destino, passando pela aquisição de matérias primas, manufatura, movimentação e distribuição. A distribuição prévia de estoque em um sistema logístico melhora o tempo de resposta do serviço. Projeto de menor custo total A meta da integração logística é a identificação do projeto de sistema de menor custo total. O custo total de comprometimento médio de estoque aumenta a cada deposito adicional. Projeto de custo total mínimo Uma estratégia de custo total mínimo busca um projeto de sistema com as menores despesas fixas e variáveis. O nível geral de serviço ao cliente, em qualquer sistema de custo total mínimo, é conhecido como nível mínimo de serviço. Nível mínimo de exigência de serviço Para estabelecer o nível mínimo de exigência de serviço, é necessário iniciar a reestruturação do sistema, adotando políticas referentes ao desempenho em disponibilidade de estoque e capacidade do sistema logístico. Fonte: BOWERSOX, 2001, p. 416-434. (Adaptado). Quando uma empresa planeja se instalar em determinada região ou implantar um novo armazém ou centro de distribuição, deve considerar na tomada de decisão os pontos mais importantes, dentre os apresentados no quadro, para o contexto geral do empreendimento. Como exemplo, suponhamos uma empresa que atua como operadora logís- tica e atende a várias companhias de manufatura localizadas no estado de São Paulo, realizando as atividades de distribuição dos produtos para os clientes das regiões Sul e Centro-Oeste. Para atender a essa demanda, conta atualmente com um centro de distribuição em Campinas (SP), no qual recebe as mercadorias, separa e consolida os lotes e os distribui para os clientes finais. A demanda para a região Centro-Oeste, contudo, aumentou, o que tem causado gargalos nas entregas devido à distância percorrida, gerando um maior lead time, isto é, o tempo transcorrido entre a realização do pedido e sua entrega ao cliente final. Para solucionar essa questão, a companhia decidiu implantar um novo centro de distribuição na região. Inicialmente, a cidade escolhida foi Rondonópolis (MT), por ficar em uma posição geográfica central e com via de acesso rodoviário para todos os estados subjacentes, gerando economia no transporte e aumentando o nível de serviço com a redução do lead time. O estado de Goiás, entretanto, ofereceu vanta- gens tributárias para as empresas se instalarem no polo industrial de Aparecida de Goiânia, que, no longo prazo, podem compensar os custos maiores em decorrência do aumento dos custos de transporte, mas não possibilitam a redução do lead time. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 142 Essa decisão envolve a aplicação de recursos consideráveis por parte da empresa. Dessa forma, todas as perspectivas apontadas no quadro devem ser analisadas para subsidiarem a escolha que melhor atenda a suas necessidades. 6.2.3 Aspectos legais e incentivos tributários A escolha da localização deve levar em consideração os aspectos legais e os incentivos tributários, uma vez que, na relação jurídica firmada entre uma empresa e o estado, há impostos envolvidos. Nessa relação, o estado assume o papel de sujeito ativo, determinando as condições e benefícios, e a empresa, o de sujeito passivo, cumprindo com as obrigações acordadas. Os principais impostos são: • PIS (Programa de Integração Social): Instituído pelo art. 239 da Constituição de 1988 e nas Leis Complementares 7/1970 e 8/1970, é recolhido pelas pessoas jurídicas ou aquelas assemelhadas a elas na forma da lei (com exceção das microempresas cadastradas no progra- ma Simples), com a finalidade de financiar projetos que visam à integração so- cial dos trabalhadores. • COFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social) Instituída pela Lei Complementar 70/1991, também é recolhido pelas pessoas jurídicas ou aquelas assemelhadas a elas na forma da lei, com exceção das mi- croempresas cadastradas no programa Simples. Sua finalidade é financiar as ações voltadas para a seguridade social, que incluem previdência social, saúde, educação e moradia. • IRPJ (Imposto de Renda de Pessoa Jurídica) Deve ser pago por pessoas jurídicas e empresas, e sua tributação é estabelecida pelo governo federal. Os recursos provenientes deste imposto são destinados à manutenção da máquina pública, isto é, os serviços prestados pelo estado para a sociedade, como educação, saúde, infraestrutura etc (Lei nº 9.249). • ISS (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza) É regido pela Lei Complementar 116/2003, que estabelece que os municípios e o Distrito Federal (DF) tributam a prestação de serviços ocorrida em seus terri- tórios. Seus recursos são destinados para as prefeituras municipais ou ao órgão assemelhado no DF. http://www.portaltributario.com.br/legislacao/lc8.htm Gestão de estoques e ArmAzenAGem 143 • ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) Regulamentado pela Lei Complementar 87/1996, alterada posteriormente pe- las Leis Complementares 92/1997, 99/1999 e 102/2000, que estabelecem a competência dos Estados edo DF na tributação das operações de transporte de mercadorias e de prestação de serviços de comunicação ocorridas em seus territórios. Os recursos do ICMS são destinados ao municípios que podem gas- tar com: esporte, cultura, energia e inclusão, entre outros. Os impostos podem ser divididos em diretos e indiretos. Nos diretos, o governo arrecada recursos diretamente do contribuinte, e seu valor é calculado sobre o patri- mônio e a renda. Um exemplo é o IRPJ. Nos indiretos, a arrecadação ocorre em cima do preço de venda de um produto no mercado quando ele é consumido. Como exem- plos, há o ICMS e o ISS. Ao determinar a localização do armazém, as empresas devem verificar a possi- bilidade de obter redução dos tributos e/ou isenções, dependendo da localidade do empreendimento. Além disso, para a guarda eficiente nesses armazéns, devem-se aplicar técnicas de logística que serão estudadas no tópico seguinte. 6.3 Técnicas úteis para profissionais de logística Com o avanço da globalização a partir da década de 1990, as empresas preci- saram desenvolver novas metodologias e técnicas voltadas à gestão eficiente de seus estoques, visando manter um nível de serviço ótimo aliado a custos reduzidos. Conforme Fleury (2000), as empresas varejistas, por exemplo, sentiram o impacto do aumento da competição, oriundo da entrada de novos concorrentes no mercado, e do interesse dos consumidores por preços mais baixos, o que refletiu na redução de lucros. Buscando minimizar esse impacto, as organizações passaram a intensificar o controle de suas operações geradoras de custos internos. A gestão de armazenagem também teve que se adaptar a esse cenário dinâ- mico e competitivo. Assim, para atender às necessidades de diminuição dos prazos de entrega, das perdas no transporte, das quantidades e do tempo de estocagem dos materiais, novas técnicas envolvendo as operações logísticas surgem no mercado. Neste tópico, estudaremos novas técnicas de armazenamento e os sistemas em trânsito, merge-in-transit e de armazéns alfandegados. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 144 6.3.1 Novas técnicas de armazenagem As empresas devem planejar e controlar suas atividades produtivas, buscando a integração entre todos os elos presentes na cadeia de suprimentos: produção, distri- buição, varejo e consumidor final, pois, de acordo com Ballou (2004, p. 25): [...] uma única empresa não tem condições de controlar a cadeia de suprimentos como um todo, ou seja, desde a extração da matéria prima até a chegada dos produtos nos pon- tos de vendas para o consumidor, apesar de ser uma prática emergente no atual mundo empresarial. Nesse sentido, algumas técnicas foram desenvolvidas para proporcionar maior eficiência dos processos logísticos de armazenagem. • ECR Propõe-se a transmitir informações rápidas da demanda de um produto em toda a cadeia de abastecimento para a reposição do estoque imediata. A ECR Brasil (s.d., s.p.), associação que reúne as empresas que utilizam e divulgam a metodologia, a define como: [...] um movimento global, no qual empresas industriais e comerciais, jun- tamente com os demais integrantes da cadeia de abastecimento (operado- res logísticos, bancos, fabricantes de equipamentos e veículos, empresas de informática, etc.) trabalham em conjunto na busca de padrões comuns e processos eficientes que permitam minimizar os custos e otimizar a produtivi- dade em suas relações. • CPFR Tem os mesmos objetivos do ECR, mas envolve mais o cliente no processo de avaliação de demanda e troca das informações. Seu processo de implementação começa com a integração interna, a colaboração mútua e a otimização do ciclo de abastecimento. Conforme Wanke (2004), o CPFR, por meio do compartilha- mento de informações entre os clientes e fornecedores, possibilita que o fluxo de um produto na cadeia de suprimentos ocorra de forma mais eficiente, melho- rando o nível de serviço logístico de toda a cadeia, alicerçado na cooperação e no compartilhamento das informações da demanda do cliente com seu fornecedor. • VMI Diferentemente do que ocorre nas outras técnicas, nas quais a responsabilida- de pelas decisões de ressuprimento são compartilhadas entre os clientes e for- necedores, nesta técnica, mediante informações processadas via EDI/Internet, Gestão de estoques e ArmAzenAGem 145 é o fornecedor que acompanha os estoques no varejo e faz a reposição neces- sária das mercadorias assim que os estoques atingem os níveis previamente es- tipulados na determinação do ponto de pedido. Neste sistema, o pedido fica em aberto e o faturamento ocorre pela quantidade vendida no final de um pe- ríodo de venda (mês, semana ou quinzena, por exemplo). • Milk Run Este conceito surgiu com base no sistema de distribuição do leite como uma forma de agregar valor na cadeia de abastecimento. O processo exige que o fornecedor deixe seu produto em local predeterminado para ser coletado, em um horário específico, pela equipe da empresa responsável pelo transporte das mercadorias, dentro de uma embalagem adequada para o armazenamento. Conforme Pires (2007), neste sistema, a coleta é programada, o que reduz os estoques, mantendo as operações dentro do menor tempo possível. • Postponement Neste processo, adiam-se a etiquetagem, produção e embalagem até o mo- mento necessário de sua ocorrência. Assim, uma cerveja, por exemplo, pode ser fabricada e guardada em tonéis até que se defina o tipo de envasamento comercializado, se em garrafa ou em lata. Todas as técnicas apresentadas são independentes, e as empresas podem optar por utilizar somente uma ou várias em conjunto. Determinar a melhor alternativa deve levar em conta todos os aspectos presentes na gestão da cadeia de suprimento: forne- cedores, lead times, tempo de processamento, distâncias percorridas na distribuição, definição do modal de transporte adequado etc. 6.3.2 Armazenagem em trânsito Armazenagem em trânsito ou transit point é o sistema de armazenagem que utiliza espaços geograficamente distantes dos armazéns gerais da empresa que servem como um entreposto para a distribuição das mercadorias. Funciona, então, como uma área de passagem da mercadoria que foi consolidada na fábrica, durante o transporte para uma determinada localidade. Quando chega a seu destino, a merca- doria é desconsolidada, ou seja, descarregada e separada para posterior entrega aos clientes locais, como mostra a figura a seguir. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 146 Funcionamento da armazenagem em trânsito Consolidação Desconsolidação Destinatário 2Destinatário 1 Destinatário 3 Destinatário 4 Conforme Pires (2007), a infraestrutura dos locais de armazenagem em trânsito é simples, o que não exige da empresa um investimento alto. Além disso, o sistema de gestão é básico e suficiente para a realização das atividades de estocagem e distri- buição, visto que as cargas já são despachadas com a identificação e documentação necessárias a sua entrega ao cliente final, ocorrendo em muitos casos somente a troca da mercadoria entre as carretas para caminhões menores ou caminhonetas que se deslocarão até os clientes. Assim, seu custo de manutenção é pequeno, sendo então: [...] uma forma racional de se aumentar a efetividade e a capilaridade de um sistema de distribuição sem necessariamente ter que incorrer em custos logísticos adicionais, espe- cialmente custos com armazéns. O objetivo é atender a determinada região distante da fonte de abastecimento ou de difícil acesso (PIRES, 2007, p. 242). Devido à relação entre o custo de transporte e as distâncias a serem percorridas, é necessário existir a demanda de um grande volume de carga consolidada para que o transporte seja economicamente viável. Diante disso, para tornar o custo do trans- porte viável, existe o método Merge in transit, que veremos a seguir. 6.3.3 Merge in transit A ideia do sistema merge in transit é efetuar a manutenção e consolidação de um produto mais perto do cliente final. De acordo comPires (2011, p. 247), consiste em “[...] uma prática aplicada ao processo de distribuição, com crescente aplicação no âmbito dos produtos de alto valor agregado e curtos ciclos de vida, com produção globalizada e feita em várias plantas.” © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 147 O merge in transisit se diferencia da armazenagem em trânsito, pois na primeira os materiais são direcionados aos pontos de consolidação após a coleta, enquanto na armazenagem em trânsito há uma programação de coleta. As estações de trabalho são produtos tipicamente manuseados no merge in transit, são materiais coletados: CPUs, monitores, mouses e teclados Exemplo de como funciona o merge in transit. Fluxo do Merge in Transit Fornecedor 01 Fornecedor 02 Fornecedor 03 Armazém Cliente 01 Cliente 02 Cliente 03 Consolidação 1 Consolidação 1 Fluxo do Merge in Transit Fonte: Transportation & Distribution in VANALLE & JUVELLA, 2002. (Adaptado). O merge in transit pode ser entendido como um modelo variado do milk run, pois os itens são reunidos de diferentes fornecedores e enviados ao cliente em um embarque único. Os principais benefícios deste modelo são a redução do inventário, por não haver formação de estoques, a diminuição do lead time para atendi- mento dos pedidos, devido à distribuição imediata do produto, e a queda dos custos de transporte, pois as mercadorias já se encontram no local de destino. Ao mesmo tempo, o merge in transit exige alto comprometimento dos fornecedores e transpor- tadores, que devem ter condições suficientes para gerenciar informações e transporte. 6.3.4 Armazéns alfandegados Os armazéns alfandegados são instalações licenciadas pelo governo federal com a finalidade de armazenar mercadorias antes do pagamento de impostos ou direitos alfandegários, que são os valores devidos aos importadores ou exportadores relativos © D TC O M © p hi pa tb ig / / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 148 a aquisição ou venda da mercadoria (CHING, 2009). Esses armazéns precisam exercer um forte controle sobre todas as movimentações de saída e entrada de mercadorias, por meio do preenchimento de toda a documentação legal exigida para cada movi- mentação de carga realizada. Guardar uma mercadoria em um armazém alfandegado representa uma garantia de que o contrato entre importador e exportador será cumprido, aumentando a segu- rança para ambos, pois o controle das cargas passa para a gestão do armazém e elas só são liberadas após o atendimento a todas as exigências legais de pagamentos do valor da carga e dos tributos que incidem sobre ela. Desse modo, por exemplo, um exportador pode deixar uma mercadoria em um armazém alfandegado durante a negociação, até que o importador pague por ela. Segundo Rocha (2008), na gestão desses espaços alfandegários, o operador de transporte multimodal assume toda a responsabilidade da carga durante o período compreendido entre seu recebimento e sua entrega ao destinatário final. Cabe a esse profissional executar os serviços de transporte multimodal de cargas, por conta própria ou de terceiros, do local em que as recebe até a sua entrega. Além disso, ele é responsável pelos prejuízos resultantes de perda, danos ou avaria às cargas sob sua custódia ou decorrentes de atraso em sua entrega. Empresas que utilizam as técnicas estu- dadas neste capítulo têm uma gestão mais eficiente, pautada na redução dos custos consi- derados supérfluos e na melhoria de seus níveis de serviços, mantendo-se competitivas no mercado em que os clientes buscam receber mais (qualidade, comodidade, respeito) por menos (custo menor). Nesse sentido, os custos de armazenagem impactam os resultados financeiros das empresas, e buscar a sua redução é uma preocupação constante. Essa diminuição, entretanto, não pode comprometer sua capacidade de atender ao nível de serviço esperado pelos clientes. Dessa forma, utilizar as novas técnicas de gestão da cadeia de suprimentos aliadas a novas tecnologias de informação se tornam elemento neces- sário para o atingimento desse objetivo. © M ac ro ve ct or // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 149 Referências BALLOU, R. H. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: logística empresarial. Porto Alegre: Bookman, 2004. BOWERSOX, D. Logística Empresarial: o processo de integração da cadeia de supri- mento. São Paulo: Atlas, 2001. BRASIL. Presidência da República. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988. Disponível em: <www.planalto. gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm>. Acesso em: 11/07/2016. ______. Presidência da República. Lei complementar n. 102, de 11 de julho de 2000. Diário Oficial da União, Brasília, 12 jul. 2000. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/LCP/Lcp102.htm>. Acesso em: 11/07/2016. ______. Presidência da República. 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Também veremos neste capítulo como um controle dos estoques eficiente permite às empresas subsidiar seu setor de planejamento estratégico na determinação dos níveis do estoque nos sistemas produtivos puxados e empurrados. Estudaremos, ainda, como a codificação facilita a gestão de controle de estoques, classificando os produtos de acordo com suas peculiaridades e finalidade de utilização. Por fim, conhe- ceremos alguns indicadores de gestão dos estoques. Para iniciar os estudos, veremos quais são os principais problemas em relação à gestão dos estoques. 7.1 Problemas no gerenciamento dos estoques O estoque é o “motor” da logística das organizações, responsável por todo seu abastecimento, e seu gerenciamento está sujeito a diversos problemas. Assim, de acordo com Côrrea (2010), planejar as aquisições de materiais é fator determinante para que estes cheguem no momento certo e nas quantidades necessárias ao atendi- mento das necessidades existentes. Para uma gestão eficiente dos esto- ques, as informações sobre os produtos arma- zenados, que vão desde suas características físicas e químicas até seu saldo e parâmetros de ressuprimento (estoque mínimo, máximo e quantidade de compra) precisam ser completas e confiáveis. A falha em uma descrição, por exemplo, pode fazer com que o fornecedor entregue o material errado. Além disso, a ausência de planejamento pode gerar compras emergenciais, que tendem a demandar maiores custos e atrasos e gerar estoques desnecessários para produtos com baixa saída. © ro bu ar t / / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 153 Nesse sentido, determinar corretamente uma política de estoques deve focar a redução dos custos referentes a sua manutenção e os riscos de problemas como obso- lescência, perda do prazo de validade, falta ou excesso de estoque e falhas de padronização, que serão estudados ao longo deste tópico. 7.1.1 Obsolescência A obsolescência está relacionada ao não uso de um produto. Nesse sentido, um item obsoleto é aquele que, apesar de estar em perfeita condição de uso, não é mais necessário em determinado momento em uma empresa, embora ainda possa ser utili- zado em outra companhia ou local. Um exemplo é uma organização que adquiriu um grande volume de tecidos com estampas xadrez para produzir camisas, com base em uma previsão de demanda. Se essa estimativa não se concretizar, esse estoque, ainda que esteja em condições de ser utilizado, ficará obsoleto, pois as características relativas à cor e simetria das estampas dificilmente serão as mesmas na nova coleção. Esse material, contudo, ainda poderá ser aproveitado por uma confecção que trabalhe com produção de saias ou bolsas. De acordo com Dias (2011, p. 302): A análise dos materiais sem giro e obsoletos trará benefícios desde o aumento de capaci- dade de armazenagem até o lucro na venda para terceiros. O que precisa ser considerado é que não devem permanecer em estoques, pois representam capital parado. Assim, quanto mais tempo um produto permanecer em estoque, maiores serão os custos e as possibilidades de ele ficar obsoleto. Por esse motivo, a gestão de esto- ques deve manter uma quantidade adequada dos produtos em estoque para atender à demanda de um determinado período, buscando o equilíbrio para que não ocorra falta nem perda de materiais por obsolescência. Questões como temperatura e forma de acondicionamento podem afetar a duração do produto e também devem ser obser- vadas com atenção. As organizações podem executar diversas ações com seus itens obsoletos, como transferi-los para outras empresas por meio de ações de venda ou troca, fazer promo- ções, montar kits para revenda, promover leilões, fazer doações etc., desde que os produtos estejam dentro dos prazos de validade, como veremos a seguir. 7.1.2 Prazo de validade e prazo útil Um bom sistema de gestão dos estoques permite que as empresas controlem as datas de validade de seus produtos. Para tanto, deve-se registrar essa data todas as vezes que o produto entrar no estoque, informação que fica gravada na memória do Gestão de estoques e ArmAzenAGem 154 sistema de planejamento de materiais. Dessa forma, quando surge a necessidade de utilizar determinado produto, o sistema provisiona o lote que se encontra com venci- mento próximo, evitando perdas devido à expiração do prazo de validade. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) define validade como: “Tempo durante o qual o produto poderá ser usado, caracterizado como período de vida útil e fundamentada nos estudos de estabilidade específicos” (BRASIL, [20--], s. p.). Sendo assim, para a determinação do prazo de validade, cada tipo de produto passa por testes diferentes, e esse prazo dependerá de sua utilização. Um pneu, por exemplo, tem uma validade máxima de cinco anos após sua fabricação, e seu prazo de validade é determinado em função de seu tipo, finalidade de uso e o pavimento de rodagem a que se destina (estrada). Já produtos alimentícios têm suas datas de validade baseadas em suas características físico-químicas e consorciadas ao tipo de embalagem e ambiente de armazenamento ao qual estarão sujeitas. O prazo útil, por sua vez, considera não só o tempo de validade do produto, mas também sua garantia. A Lei n. 8.078/90, que institui o Código de Defesa do Consumidor (CDC), estabelece em seus artigos 26 e 27 que os consumidores têm o direito de reclamar de vícios aparentes ou de fácil constatação em produtos não durá- veis em até 30 dias, e em até 90 dias quando os produtos foram duráveis. Esses sãos os chamados prazos decadenciais. Os fornecedores de produtos duráveis também concedem por conta própria a chamada garantia contratual, que, diferentemente da garantia legal prevista no CDC, não é obrigatória, pode ser parcial, e é dada por escrito no termo de garantia. Um exemplo é o que ocorre com os produtos da linha branca, isto é, geladeiras, fogões, micro-ondas etc., que são comercializados com prazo de um ano de garantia. Após entender os conceitos de validade e prazo útil, veremos no tópico seguinte requisitos que podem afetar a falta e/ou excesso de produtos no estoque. 7.1.3 Falta ou excesso de estoque O cenário ideal na gestão de estoques é que as organizações tenham sempre a quantidade necessária de estoque para atender às demandas para determinado tempo. Entretanto, essa situação nem sempre acontece, pois fatores como atrasos no prazo de entrega, aumento de demanda e mudanças climáticas podem interferir, causando falta de estoque. Já o excesso pode ocorrer quando uma expectativa de demanda não se concretiza ou quando ela é dimensionada de forma ineficiente. Segundo Dias (2011), os custos inerentes à falta de estoques também são conhe- cidos como custos de ruptura de estoques e podem ser determinados por meio de: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 155 • lucros cessantes ocorridos por meio de perdas nos lucros, decorrentes da inca- pacidade do fornecimento e dos cancelamentos dos pedidos; • custos adicionais, decorrentes da necessidade de adquirir materiais de tercei- ros para atender à demanda de fornecimento; • custosoriundos de multas contratuais decorrentes do não cumprimento dos prazos previstos em contratos ou bloqueios de reajustes futuros que poderiam ocorrer, previstos no contrato de fornecimento. Se uma empresa mantém o fornecimento de determinado produto dentro dos prazos e quantidades prede- terminados, terá direito a um percentual relativo a um bônus; • quebra de imagem da empresa, beneficiando a concorrência. A ruptura do estoque pode ser evitada por meio da correta determinação dos níveis de estoque de segurança (ES) com os quais a empresa vai operar. Conforme Martins e Alt (2011, p. 262), “[...] os estoques de segurança diminuem o risco de não atendimento das solicitações dos clientes internos e externos” e permitem que a orga- nização continue operando mesmo nos casos de aumento de consumo ou atraso na entrega de produtos. O excesso de itens em estoque também gera custos, pois sua permanência no estoque demanda manutenção. Além disso, as empresas também devem arcar com custos de capitais e com perdas que podem ser geradas pela obsolescência ou danos, como quebra ou deterioração. Desse modo, avaliar a cobertura de estoque, ou seja, a quantidade de merca- doria necessária para atender a um período de vendas, é fundamental para manter os esto- ques nos patamares adequados, sem excesso ou falta. Para tanto, aplica-se um controle físico e financeiro dos estoques com uma política de compra que considere o perfil do mercado e as capacidades de armazenamento, mediante análises comparativas sobre o estoque atual e o desejado, em cima de custos que sejam os mais baixos para a organização. Nesse sentido, Dias (2011) expõe como calcular o ES estipulando primeiramente o grau de atendimento (GA) adequado, determinado pela gestão da empresa em sua política de estoques, utilizando a equação: ⋅ QGA = 100 C © c os m a / / S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 156 Sendo que: Q = quantidade atendida (entregue pelo fornecedor); C = consumo necessário (previsão de consumo). Posteriormente, calcula-se o ES pela fórmula: ES = C ∙ K Sendo que: C = consumo médio mensal; K = fator de segurança arbitrário com o qual se deseja garantir contra um risco de ruptura (grau de atendimento), expresso em números decimais. Se uma empresa tem sua necessidade de consumo mensal estipulada em 4.000 unidades por mês e seu fornecedor entregou uma remessa de 3.600 unidades, o grau de atendimento dessa operação é: ⋅ 3.600GA = 100 = 90% 4.000 Para calcular o ES de uma peça com consumo mensal de 70 unidades, levando em consideração o grau de atendimento de 90%, deve-se substituir os dados na fórmula: ES = 70 ∙ 0,90 = 63 Conclui-se então que o estoque de segurança para o produto do exemplo é de 63 unidades. Parte dos problemas de falta ou excesso de mercadorias pode vir de falhas ocorridas durante o processo de padronização e identificação dos produtos, que compreenderemos no próximo subtema. 7.1.4 Falhas na padronização e identificação Padronização é o processo que visa estabelecer padrões idênticos de peso, medidas e formato para os materiais, buscando eliminar possíveis variações. Já a iden- tificação dos materiais resulta da descrição técnica pela qual ele será conhecido em um processo de padronização. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 157 Por exemplo, em uma embalagem de arroz disponível nos supermercados, há infor- mações relativas a padronização e identificação do produto que são definidas conforme normas de organizações como: Anvisa, Ministério da Agricultura, ABNT e Inmetro. Além de seu nome “fantasia”, isto é, como ele é conhecido no mercado, há as inscrições: • arroz tipo 1: classe longo fino ( ou agulhinha); • subgrupo: polido • peso: 1 kg (ou 5 kg). A padronização está presente no código arroz tipo 1 e a identificação, na defi- nição da qualidade: classe longo fino – subgrupo polido. Arroz 100% Orgânico Arroz tipo 1 Arroz branco Classe longo �no Subgrupo polido Peso líquido 5Kg Se a especificação for feita incorretamente, faltando informações sobre o produto, suas características e detalhes, a compra pode ser feita de forma errada, o que poderá atrasar a entrega e ocasionar a falta de materiais nos estoques. Para compreender esses problemas, utilizaremos o mesmo exemplo do arroz. O comprador de um supermercado, ao preencher o pedido de reposição de estoque do arroz tipo 1, que está com o nível no ponto do pedido, pode lançar erroneamente um código de material atribuído ao tipo parboilizado, que ainda tem um volume conside- rável em estoque. Quando essa mercadoria for recebida, dois problemas precisarão ser resolvidos. Primeiro, o supermercado não contará com estoque suficiente do arroz tipo 1 para atender a sua demanda até que ocorra outro processo de abastecimento. Segundo, o estabelecimento ficará com estoque elevado de arroz parboilizado caso não seja possível devolvê-lo ao fornecedor, situação que pode ocasionar perdas no estoque devido à validade do produto e a seu custo de manutenção. Para auxiliar a identificação correta dos produtos, existem sistemas de codifi- cação de mercadorias, que serão estudados no próximo tópico. © w an pa ts or n / / S hu tt er st oc k. (A da pt ad o) . Gestão de estoques e ArmAzenAGem 158 7.2 Sistemas de codificação A codificação deve ser construída a partir de uma análise dos materiais da empresa e seu objetivo é propiciar a requisição desses produtos pelo código no lugar da descrição, o que permite a utilização de sistemas automatizados de controle. Segundo Viana (2000), as principais finalidades de um sistema de codificação são aprimorar a comunicação do setor de estoque com seus colaboradores, pessoal de compras, fornecedores e outras áreas e evitar duplicidade de produtos cadastrados na organização. Um bom sistema de codificação permite que as atividades de conferência, coleta e expedição de mercadorias ocorram rapidamente no estoque, reduzindo os custos operacionais e garantindo maior segurança nas informações. Ao longo deste subtema, estudaremos os aspectos que envolvem esse sistema, como a descrição de mate- riais, os elementos que compõem a codificação, os códigos de barras e as etiquetas de radiofrequência. 7.2.1 A descrição de materiais A descrição é o nome que um material recebe na da empresa e serve para iden- tificá-lo no sistema de controle de gestão, relatórios gerenciais e solicitações de compra. Os compradores se baseiam na descrição para decidir pela aquisição ou não do produto, já as organizações a utilizam para conhecer as características dos mate- riais, por exemplo, tamanho, cor e medidas. Essa descrição é obtida mediante o processo de especificação, que leva em consi- deração os seguintes aspectos: nome básico do produto, que determina qual é o tipo de material com que é fabricado; nome modificador, que define em qual classe ele se enquadra; unidade (quilo, gramas, dúzia etc.), medida (centímetros, metros, milíme- tros, etc.); características físicas e químicas e embalagem. Desse modo, um gestor, ao elaborar seu plano de especificação, deverá consi- derar o nome básico aquele com o qual o produto é conhecido no mercado. Se for um extrato de tomate, por exemplo, esse deve ser o nome básico. Após a definição do nome básico, o gestor precisa pesquisar no produto carac- terísticas que os diferenciam dos demais itens de sua classe. No caso do extrato de tomate, pode ser a medida com a qual ele é vendido (como 250 g ou 1 kg) ou seu complemento (se é apimentado, com especiarias ou puro). Gestão de estoques e ArmAzenAGem 159 O gestor também deve considerar a embalagem e a relação entre a unidade e a medida. No exemplo do extrato de tomate, o produto pode ser comercializado na versão de 250 g em uma caixa com 30 latas, isto é, a medida é 250 g, a unidade é 1 caixa e a embalagem é do tipo lata. Caso esses aspectos não estejam alinhados, o fornecedor ou o cliente pode solicitar um produto imaginando uma quantidadee receber outra, devolvendo o produto, o que origina custos com o frete de retorno e cancelamento da nota fiscal. Essas especificações devem ser definidas com base nos padrões e normas estabe- lecidos para cada produto pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Se uma empresa compra um produto que desrespeita essas regras e causa algum tipo de problema para as pessoas e/ou o meio ambiente, pode sofrer ações penais. A ABNT padroniza as características de codificação, estrutura lógica e dimensões do Código Nacional de Produtos adotado como padrão nacional por determinação do Decreto Presidencial nº 90.595/1984. Um processo de especificação eficiente permite que as empresas estabeleçam uma codificação adequada para os produtos mantidos em estoque, facilitando sua identificação e movimentação, como veremos a seguir. 7.2.2 Sistemas de codificação Sistema de codificação é o conjunto de informações apropriadas para cada produto da empresa, com o objetivo de facilitar sua localização e gestão no estoque, na loja ou em seus catálogos e recursos de divulgação. Segundo Dias (2011), os sistemas de codificação podem ser divididos em alfabé- tico, alfanumérico e númerico ou decimal, como mostra o quadro a seguir: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 160 Tipos de sistemas de codificação Sistema alfabético Sistema alfanumérico Sistema numérico ou decimal O material é codificado com um conjunto de letras suficiente para preencher toda sua iden- tificação. Devido ao limite de quantidade de itens que podem ser codificados e a sua difícil memorização, este sistema está em desuso. Exemplo: A-FG-R. A: grupo. FG: subgrupo. R: código identificador. É uma combinação de letras e algarismos, suportando um número maior de itens se comparado ao sistema alfabé- tico. Exemplo: AC-3721. A: grupo. C: subgrupo. 3721: código identificador. É o sistema mais utilizado, podendo ser dividido em grupos, subgrupos e subclasses de acordo com a necessi- dade da empresa e do volume de informação que se deseja obter. Exemplo: 05-02-52635-0. 05: grupo. 02: subgrupo. 52635: código identificador 0: dígito de controle. Fonte: DIAS, 2011, p 170. (Adaptado). O sistema numérico é o mais utilizado, definido por Francischini e Gurgel (2002, p. 127) como a codificação de materiais que “[...] compreende a aplicação de códigos numéricos, de composição uniforme, para os materiais agrupados ou individuali- zados”. Para tanto, esse sistema envolve a descrição de materiais, a construção dos códigos e as tecnologias e os recursos disponíveis no mercado e é composto por: • número do grupo; • número de classe, • número de identificação; • número de estoque. Esses componentes da codificação estão ilustrados na figura a seguir: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 161 Composição do sistema de classificação XX XX XXX XXXX Número do grupo Número de classe Número de identificação Número de estoque Fonte: FRANCISCHINI; GURGEL, 2010, p. 128. (Adaptado). Suponhamos uma companhia que comercializa gêneros alimentícios (arroz, açúcar, sal, óleo etc.). Nesse caso, o grupo seria denominado gêneros alimentícios. Dentro dele, há produtos similares, que podem ser unificados em subgrupos, ou classes. É o caso do arroz. Existem diversos tipos (agulhinha tipo 1, parboilizado, em casca, preto etc.), mas todos pertencem à classe de cereais. Esse procedimento deve ser realizado para todos os itens da lista de materiais da empresa, separando seus grupos e subgrupos. Após essa separação, é preciso realizar a codificação dos produtos. Se consi- derarmos que o grupo de gêneros alimentícios é o 1.º da organização do exemplo e produto arroz agulhinha é o primeiro produto, teríamos o seguinte código: 01.01.00001, ou seja: 01 (grupo gêneros alimentícios); 01 (classe cereal); 00001 (produto arroz agulhinha tipo 1). A escolha por determinado sistema dependerá das necessidades de cada organi- zação quanto à capacidade de expansão do sistema, pois quanto mais dígitos existirem no código e se forem misturados com letras, maior será o volume de tipos de produtos que poderão ser codificados. O sistema de codificação agiliza as operações de logística, diminuindo tempo, aumentando os lucros e facilitando os controles, principalmente quando são operacio- nalizados com códigos de barras, que serão estudados a seguir. © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 162 7.2.3 Códigos de barras Código de barras é o conjunto de números que identifica o produto dentro de toda a cadeia de abastecimento, desde o fabricante até o varejista, formado por uma combinação de barras e seus respectivos números. No Brasil, o padrão adotado é o EAN, com 13 dígitos, elaborado pela associação de mesmo nome (European Article Number Association), entidade europeia responsável pela padronização e difusão do padrão de codificação europeu. Sua utilização é determinada pelo Decreto n. 90.095/1984, que esta- beleceu o código nacional de produtos – padrão EAN para todo território nacional. Para a gestão das organizações, a adoção dos códigos de barras é uma questão estratégica, pois possibilita a automação dos processos, propiciando agilidade no sistema de venda e segurança nos controles de estoque e compra. Conforme Francischini e Gurgel (2002, p. 129), “[...] a opção mais conhecida para entrada de dados nos sistemas informatizados é o código de barras”. Ainda segundo os autores, seus benefícios são seu baixo custo e tempo de implantação, utilização fácil, possibili- dade de uso de equipamentos compactos e alta velocidade de captura de dados. Como exemplo, suponhamos um supermercado, cujos produtos possuem códigos de barras que são detectados pelo leitor óptico e as informações são enviadas automa- ticamente para os sistemas de controle de estoque e de gestão financeira da empresa, que efetuam, respectivamente, a baixa do estoque e o registro contábil e financeiro da venda. Em uma organização do mesmo segmento que não possui esse tipo de sistema, seus operadores precisam executar esse processo manualmente, de modo que a operação fica sujeita a falhas. O sistema de codificação brasileiro é desenvolvido pela GS1 Brasil (Associação Brasileira de Automação), que estabelece os requisitos para que a leitura das infor- mações seja feita corretamente e de forma única para cada produto, adotando uma linguagem comum, em conformidade com os demais sistemas de codificação adotados em outros países. Assim, os códigos de barras elaborados nesse padrão podem ser lidos por todos os sistemas utilizados no mundo. Você pode aprender mais sobre os códigos de barras e conhecer a fundo seus princípios ao visi- tar o site da GS1 Brasil. O código de barras é um dos sistemas que podem ser utilizados no sistema de leitura por radiofrequência, que será estudado a seguir. © H or va ts // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 163 7.2.4 Etiquetas de radiofrequência Os sistemas de radiofrequência, também conhecidos como RFID (radio-frequency identification), são formados por uma antena, um transceptor e um transponder (ou etiqueta) que, acoplado ao produto ou sua embalagem, permite a leitura das informa- ções previamente cadastradas devido a seu circuito eletrônico. Esse sistema funciona em conjunto com os códigos de barras ou outros tipos de etiquetas, como cartões de acesso com chips magnéticos e chaveiros com sensores, que podem ser instalados em animais, equipamentos, embalagens, produtos ou até pessoas. Com essa tecnologia, não há a necessidade de aproximar o aparelho eletrônico do produto, pois toda a leitura é realizada a distância, por intermédio da frequência de rádio, no qual tanto a base de dados (CPU), quanto às etiquetas estão sintonizadas. Dessa forma, a frequência emitida pela etiqueta é captada pela base de dados, que processa as informações. A tecnologia de radiofrequência facilita o inventário dos produtos mantidos em estoque, pois permite sua leitura pelasondas do rádio, diminuindo a necessidade de balanços constantes, reduzindo custos e deixando o controle mais ágil em comparação aos métodos de inventário manuais. Esse sistema ainda pode contribuir para evitar furtos de cargas com alto valor agregado, já que é possível detectar seu paradeiro mediante as etiquetas. Nos estoques, as etiquetas RFID permitem avaliar a capacidade de armazena- mento mediante o volume dos produtos e suas movimentações ao passarem por pontos de checagem, que são locais previamente determinados nos quais são insta- lados sensores de radiofrequência. Nessas áreas, as informações contidas nas etiquetas dos materiais são lidas e repassadas à base de dados, que realiza a atuali- zação dos estoques. Com as informações rápidas e seguras, os controles empurrados e puxados são simplificados, como veremos no próximo tópico. 7.3 Controles de estoques empurrados e puxados A função principal do controle dos estoques é assegurar a disponibilidade dos produtos necessários para o funcionamento das empresas. Sua manutenção, entre- tanto, é um desperdício financeiro, pois significa dinheiro parado e uma forma de as organizações se isolarem no canal de abastecimento, pois não estabelecem uma relação constante de parceria com seus fornecedores. Quando a empresa adquire © M r. Z ac h // Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 164 uma grande quantidade de material, deixa de atuar no mercado, isolando-se por um período, o que pode resultar em perdas de oportunidade decorrentes de descontos ou parcelamentos maiores nos prazos de pagamentos que podem ocorrer. Para equalizar essa questão, as empresas adotam diversos tipos de controle. Segundo Ballou (2006), os sistemas de controle mais utilizados são o empurrado e o puxado. O sistema empurrado considera o ponto do pedido como mecanismo de reposição do estoque, e a produção empurra o produto para o mercado. O puxado, por sua vez, considera primeiro a demanda do produto, para depois iniciar o processo de produção ou aquisição. O ponto do pedido é definido por Dias (2011, p. 45) como “[...] o tempo gasto desde a verifi- cação de que o estoque precisa ser reposto até a chegada efetiva do material no almoxarifado da empresa”. Esses sistemas afetam as decisões de estoque ao longo da cadeia de abasteci- mento, conforme veremos a seguir. 7.3.1 Decisões de estoque ao longo da cadeia de suprimentos Para tomar decisões de estoque ao longo da cadeia de abastecimento, as empresas precisam de um projeto de logística que considera a rede de transporte (caminhões, terceiros) disponível, as técnicas de armazenamento (local, WMS), um sistema de gerenciamento dos estoques (empurrado ou puxado), as condições de compra (mercado de produtos e fornecedores) e os requisitos exigidos pelos clientes. WMS (warehouse management system, ou sistema de gerenciamento de armazém) é um soft- ware que permite a gestão informatizada dos armazéns, oferecendo dados relativos ao nível de estoque e movimentação dos produtos. De acordo com Ballou (2006), existem duas estratégias para escolher a política de reposição de estoques, uma com foco nos estoques e outra, nos pedidos. A primeira se caracteriza pela: [...] configuração do canal de suprimentos visando ao máximo de eficiência. Ou seja, os estoques são processados para conseguir, com o máximo de economia, operação rentá- vel de produtos, compras em alta quantidade, o processamento de lotes de pedidos e o transporte de grande vulto (BALLOU, 2006, p. 63). Gestão de estoques e ArmAzenAGem 165 Nessa estratégia, os estoques de segurança são mantidos com a finalidade de garantir o máximo de disponibilidade, e a demanda é normalmente suprida a partir dos estoques regulares, que podem ser mantidos no nível mínimo estipulado pela gestão da empresa. Assim, não há necessidade de níveis altos de armazenamento, diminuindo os custos relativos a sua manutenção, e o estoque de segurança é usado para atender a eventuais necessidades. Já a estratégia de fornecimento com enfoque no pedido: [...] configura o canal de suprimentos visando a um máximo de responsividade. O canal tem, por isso, como características principais: capacidade máxima, substituição instantâ- nea, prazos de entrega mínimos, processamento flexível, transporte de primeira ordem e processamento individual dos pedidos (BALLOU, 2006, p. 63). Nesse tipo de estratégia, o foco é o canal de suprimento e as parcerias que possi- bilitam a gestão dos estoques, com base no fornecimento de produtos em prazos predeterminados, nas quantidades e qualidade acordadas, com prazos mínimos de reposição, o que possibilita a redução dos níveis de estoques do armazém. Em suas decisões de estoque, as organizações também devem considerar seus recursos, como sistemas de códigos de barras, tecnologias virtuais e condições de entrega, horários, locais e sistemas de controle na conferência tanto no recebimento quanto na expedição, pois interferem diretamente no controle e movimentação dos materiais esto- cados. Se houver algum erro no processo de codificação de determinado material, a informação relativa a sua quantidade em estoque pode gerar a emissão de pedidos de reposição incorretos, que acarretariam entregas desnecessárias de materiais e problemas relativos a seu recebimento e estocagem. Outras consequências seriam o aumento do nível de estoque ou até mesmo sua falta, demandando uma aquisição. Assim, para evitar falta de produtos, as empresas devem controlar seus níveis de estoque. 7.3.2 Níveis de estoque Nível de estoque ou nível de atendimento é a quantidade de mercadoria que a empresa estabelece para manter em seus estoques, que deve ser suficiente para determinado período entre o mínimo e o máximo, formando uma média. De acordo com Martins e Alt (2011, p. 202), “[...] é o indicador de quão eficaz foi o estoque para atender as solicitações dos usuários”. A movimentação de entrada e saída de um item dentro de um sistema de estoque pode ser demonstrada por um gráfico que, segundo Dias (2011), tem o tempo decorrido para o consumo (T), normalmente em meses, representado no eixo da abscissa, enquanto o da ordenada é a quantidade, em unidades, desse item em estoque no intervalo T. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 166 Relação entre quantidade em estoque e tempo J F M A M J J A S O N D Consumo Consumo Re po si çã o Tempo (T) Quantidade 140 120 100 80 60 40 20 Fonte: DIAS, 2011, p. 43. (Adaptado). Nessa proposta, o nível de estoque deve ser suficiente para suportar o tempo de entrega por parte do fornecedor e possíveis imprevistos que atrasem a entrada dos produtos no estoque, por isso, em alguns casos, é necessário agregar uma quantidade de estoque de segurança. No ponto de pedido, é feita uma distinção entre o estoque virtual (pedidos emitidos não entregues) e o disponível (estoque físico armazenado) para levantar a posição correta dos estoques. Suponhamos uma empresa com 100 unidades do item A em estoque mais 300 já adquiridas de seu fornecedor, que estão em processo de entrega, isto é, sendo transportadas ou já entregues no depósito, embora ainda estejam passando pelas etapas do recebimento. Dessa forma, a soma do estoque físico (100 unidades) e do virtual (300 unidades) resulta em 400. Se o ponto de pedido esti- pulado para esse item for de 400 unidades, um novo pedido de compra precisa ser emitido. No próximo subtema, aprofundaremos esses conceitos ao estudar o controle de estoques empurrados. 7.3.3 Controle de estoques empurrados O controle de estoques empurrados é o método mais adequado quando a produção ou as compras excedem as necessidades de curto prazo dos estoques aos quais se destinam. Nesse modelo, a previsão da demanda ocorre baseada no histórico de consumo e capacidade de armazenamento de cada armazém, que emite a informação relativa a sua necessidade de estoque de um produto para determinado período, e a fábrica (ou fornecedor, nas empresas comerciais)encaminha os produtos, que ficarão armaze- nados até o momento de sua venda. © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 167 Fábrica A = Quantidade alocada a cada Armazém Previsão de demanda Previsão de demanda Previsão de demanda A1 A2 A3 Fonte: BALLOU, 2006, p 276. (Adaptado). Conforme Ballou (2006, p. 280), “[...] empurrar é uma abordagem razoável de controle de estoques sempre que a produção ou a aquisição são a força dominante na determinação das quantidades de reposição no canal”. Isso quer dizer que uma empresa só deve utilizar essa abordagem se o lucro da venda futura dos estoques adquiridos for maior que os custos incidentes em sua compra e manutenção. Ainda conforme o autor, em qualquer uma das circunstâncias (produção ou aqui- sição), é preciso avaliar as seguintes questões: • Qual é o estoque ideal que deve ser mantido em cada ponto de estocagem? • Qual é a parte de uma ordem de compra ou processo de produção a ser aloca- da em cada ponto de estoque? • Como distribuir os suprimentos excedentes das necessidades entre os pontos de estocagem? Ballou (2006) ainda lista os passos dos métodos para empurrar quantidades aos pontos de estocagem (armazéns, depósitos): • Determinar, por meio de previsão ou outros meios baseados em dados esta- tísticos e cálculos matemáticos, as necessidades para o período entre hoje e o próximo processo de produção ou compra de fornecedores. • Verificar as atuais quantidades disponíveis em cada ponto de estoque. • Determinar o nível de disponibilidade de estoque em cada ponto de estocagem. • Calcular as necessidades totais das previsões mais as quantidades adicionais necessárias para cobrir incertezas na previsão de demanda. © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 168 • Determinar as necessidades líquidas, isto é, as diferenc a̧s entre as necessida- des totais e as quantidades disponíveis. • Distribuir o excedente das necessidades totais da rede aos pontos de estoque com base na taxa de demanda média, ou seja, na demanda prevista. • Somar as necessidades líquidas e ratear proporcionalmente os excedentes a fim de determinar o total a ser alocado a cada ponto de estocagem. O método de controle de estoques baseado na metodologia de empurrar produtos é uma forma eficiente de gestão de estoques adotada por empresas que produzem ou trabalham com produtos que têm ofertas sazonais de matérias-primas e demanda regular durante todo o ano. Esse sistema permite que os produtos mantidos em estoque possam atender a sua demanda futura, e os custos relativos a sua manu- tenção são amortizados com as variações de preços que os produtos sofreram no período de entressafra. 7.3.4 Controle básico e avançado de estoques puxados O controle básico e avançado de estoques no sistema puxado parte do princípio que, desconhecendo a demanda futura e os prazos de entrega, deve-se planejar uma situação na qual se obtenha estoque suficiente para atender às necessidades dessa demanda. Segundo Ballou (2006, p. 282), “[...] controle de estoque puxado resulta em níveis reduzidos de estoque nos pontos de armazenagem devido à sua reação às condições de demanda e custos específicas de cada um desses pontos”. O modelo de controle básico mais usualmente utilizado é o modelo de quanti- dade de pedido único. Aplica-se a produtos perecíveis, como frutas e vegetais frescos, ou sem demanda futura, como jornais, roupas para determinada estação e pôsteres para campanhas políticas, que têm demanda única e difícil de prever (BALLOU, 2006). Só existe a possibilidade de se realizar um pedido desses produtos para satisfazer semelhante necessidade. Assim, para encontrar o tamanho mais econômico de pedido (Q*), busca-se o ponto em que o lucro marginal sobre a próxima unidade vendida se igualaria ao prejuízo marginal de sua não venda. Esse lucro marginal é representado pela equação: Lucro = preço por unidade-custo por unidade Gestão de estoques e ArmAzenAGem 169 Já o prejuízo por unidade não vendida é representado pela equação: Prejuízo = custo por unidade-valor residual por unidade Considerando a probabilidade de venda de um determinado montante de unidades, os lucros e prejuízos são equilibrados no ponto econômico de pedido, isto é: CP = (1 – CPn)(lucro) Sendo que: CP = prejuízo; CPn = frequência cumulativa de vender pelo menos n unidades do produto. Resolvendo a expressão anterior, temos: n lucroCP = lucro + pr ejuízo Essa equação representa que se deve continuar a aumentar a quantidade do pedido até a probabilidade cumulativa da venda de unidades adicionais se igualar à razão lucro ÷ (lucro + prejuízo). Já os controles avançados, segundo Ballou (2006), partem da premissa que, além do estoque regular, utilizado para suprir demanda e prazos de entrega médios, uma quantidade extra precisa ser adicionada. Assim, aumenta-se o volume do estoque de segurança, mediante o controle da probabilidade da ocorrência de falta de estoque. Os modelos mais utilizados são modelo de ponto de pedido com demanda incerta e o modelo de ponto de pedido com custos conhecidos de falta de estoque. Ainda de acordo com Ballou (2006), o modelo de ponto de pedido com demanda incerta prevê que a demanda sempre existirá de forma contínua, por isso, o estoque pode ser reduzido até o ponto em que sua quantidade fica igual ou menor do que o nível chamado de ponto de pedido, quando uma quantidade econômica de pedido (Q*) é soli- citada para repor o estoque. Deve-se, então, encontrar Q* e o ponto de reposição (ROP). Ballou (2006, p 287) ainda afirma que “[...] o nível eficaz do estoque é a quanti- dade disponível no momento mais a quantidade pedida, menos quaisquer comprome- timentos do estoque”. Deve-se levar em consideração, desse modo, que Q* chega em um tempo retardado devido a seu prazo de entrega, e se a demanda exceder o estoque disponível, no período entre o momento de se realizar o pedido de reposição de Gestão de estoques e ArmAzenAGem 170 estoque de um determinado item e a hora que ele é incorporado aos estoques, pode ocorrer a ruptura de estoque. Conforme Ballou (2006, p. 287, grifo do autor), “[...] a probabilidade de que isso venha a ocorrer é controlada mediante um aumento ou redução do ponto de pedido e pelo ajuste de Q*”. Esse modelo de sistema de controle do ponto de pedido é efetuado em relação a um item único do estoque, que tem sua demanda durante o prazo de entrega conhe- cida, e como uma probabilidade de distribuição normal, cuja média é representada por X e o desvio padrão, por . De acordo com Ballou (2006, p. 287, grifos do autor), “[...] os valores de X ’ e não costumam ser conhecidos diretamente, sendo, porém facilmente estimados pelo cálculo de um determinado período de distribuição de demanda ao longo da duração do prazo de entrega”. Para encontrar Q*, deve-se utilizar a fórmula: 2 2DSQ* = IC Sendo que: Q* = tamanho do pedido para reposição do estoque, em unidades; D = demanda anual dos itens, ocorrendo uma taxa determinada constante no tempo, em unidades/ano; S = custo de aquisição, em unidade monetária/pedido; C = valor da manutenção do item no estoque, em unidade monetária/item; I = custo da manutenção como porcentagem do valor do item, em %/ano. Já para conhecer ROP, deve-se aplicar: ROP = d ∙ LT + z(s’d) Sendo que: ROP = quantidade nos pontos de reposição, em unidades; d = taxa de demanda, em unidades de tempo; LT = lead time, ou seja, prazo médio de entrega, em unidades de tempo; z = número de desvios-padrão da média da distribuição durante o prazo de entrega; s’d = desvio padrão de demanda. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 171 Uma forma simplificada de representar ROP é: ROP = demanda diária x tempo de espera A quantidade do ponto de pedido pode exceder a quantidade do pedido quando os prazos de entrega praticados pelos fornecedores são prolongados ou as taxas de demanda são altas. Sendo assim, para que o sistema de controle do ponto depedido funcione adequadamente, é preciso assegurar que o momento de efetuar o pedido de reposição seja determinado com base no nível efetivo de estoque, que se obtêm somando o estoque efetivo mais o virtual, conforme explicado anteriormente. Desse modo, quando ROP > Q*, emite-se um segundo pedido antes que o primeiro chegue ao estoque. Já o nível médio de estoque, conforme Ballou (2006), é definido com base no total do estoque normal mais o de segurança, ou seja: ( )d *AIL = + s 2 ′Q z Sendo que: AIL = estoque médio; 2 Q* = estoque regular; ( )ds′z = estoque de segurança. Então, temos que: Estoque médio = estoque regular + estoque de segurança Já no modelo de ponto de pedido com custos conhecidos de falta de estoque, não é preciso atribuir um nível de serviço, logo, pode-se calcular a demanda aproxi- mando a quantidade do pedido utilizando a equação: 2D SQ = I C ⋅ ⋅ Gestão de estoques e ArmAzenAGem 172 Depois, analisa-se a probabilidade de ocorrer falta estoque durante o prazo de entrega se for permitido o pedido pendente, isto é, se for possível entregar os pedidos mesmo depois do prazo acordado sem a ocorrência de sanções. Para tanto, aplica-se a seguinte fórmula: Q I CP = 1 – D K ⋅ ⋅ ⋅ Sendo que: P = ponto de pedido; Q = quantidade de pedido; I = custo de manutenção do item em estoque (em %); C = valor do item; D = demanda; K = custo unitário da falta de estoque. Para entender melhor as fórmulas anteriores, observe o seguinte problema: um mercado precisa de 1000 máquinas de café por ano. O custo de cada cafeteira é R$ 78 O custo do pedido é de R$ 100 por pedido. O custo de transporte é de 40% do custo unitário. Sabendo que a empresa não tem estoque de segurança, qual é o Q* e o ponto de reposição (ROP)? Para responder, basta aplicar as fórmulas: 2 2D S* = I C ⋅ ⋅ Q D = 1000 S = R$100 C = R$ 78 I = 40% 2 2 1000 100* = = 80 31,20 ⋅ ⋅Q Gestão de estoques e ArmAzenAGem 173 Ou seja, a quantidade é de 80 cafeteiras. Sabendo que o tempo de espera é 5 dias, e a demanda diária é 1000/365 (a demanda anual dividida pela quantidade de dias), então o ROP é: ROP = 2.74 ∙ 5 = 13,7 ≅ 14 É possível também encontrar o estoque médio através das informações forne- cidas. Para esse caso, o estoque médio é: ( )* = + 2 ′ d QAIL z s Sabemos que estoque regular: * 80 = = 40 2 2 Q Como o estoque de segurança é 0 (z(s’d) = 0), então o estoque médio é: AIL = 40 É possível saber também o ponto de pedido. Nesse caso, deve ser aplicada a seguinte fórmula: Q I CP = 1 – D K ⋅ ⋅ ⋅ P = ponto de pedido = não sabemos ainda Q = quantidade de pedido =80 I = custo de manutenção do item em estoque (em % )= 40% C = valor do item =78 D = demanda = 1000 K = custo unitário da falta de estoque = 20% (estimado pela empresa) Q I C 80 0,4 78P = 1 – = 1 – = 12,48 D K 200 ⋅ ⋅ ⋅ ⋅ ⋅ Gestão de estoques e ArmAzenAGem 174 Dessa forma, encontramos o ponto de pedido para o mercado. O controle baseado no sistema de demanda puxada requer a aplicação de vários cálculos matemáticos, compromisso dos fornecedores e planejamento rigoroso da empresa para que todas as etapas ocorram no momento certo e as entregas sejam feitas nas quantidades necessárias para não interromper o processo de fabricação ou fornecimento. 7.4 Indicadores de desempenho no controle dos estoques Indicadores de desempenho são resultados de uma ou mais medidas, que possibilitam compreender a evolução do objeto de estudo a partir de limites referenciais ou metas estabelecidas. O conceito mais difundido de indicadores de desempenho é o de key performance indicators (KPI), ou indicadores-chave de desempenho, utilizados para medir o grau de desempenho dos processos de uma empresa e, com essas informações, avaliar se os objetivos propostos estão sendo alcançados. Os KPI podem ser formulados para todas as áreas de gestão das organizações, contudo os aplicaremos aos indicadores utili- zados na gestão e controle de estoques. Veremos no tópico seguinte alguns KPI utilizados na gestão do controle de esto- ques. Independentemente dos indicadores aplicados, o mais importante é que a gestão tenha referências para almejar a melhoria de seus processos, estabelecendo metas mensais, bimestrais e anuais de resultado sobre as principais operações até chegar a um patamar que deverá ser adotado como padrão. 7.4.1 Indicadores de desempenho típicos de armazém Entre os indicadores relacionados a estoques, o mais utilizado é o índice de acurácia, que tem a finalidade de medir a porcentagem de itens corretos informados nos relatórios de controle de estoques em comparação com o estoque físico existente nos depósitos. Para descobrir a acurácia, basta aplicar as seguintes fórmulas: Acurácia = número de itens com registros corretos número total de itens Ou: Acurácia = valor de itens com registros corretos valor total de itens Gestão de estoques e ArmAzenAGem 175 O resultado esperado é que 100% dos itens estejam corretos, o que nem sempre corresponde à realidade. Outro indicador diz respeito à utilização dos espaços disponíveis. O espaço para cada produto armazenado deve ser adequado a seu tipo e quantidade movimentada. Se o espaço for grande demais, haverá ociosidade e aumento nos custos, se for pequeno, as mercadorias vão ocupar outros espaços, tais como os corredores do armazém. O cálculo do uso dos espaços pode ser em metros cúbicos ou pelo número de posições existentes para estocagem, por meio da seguinte fórmula: Média de utilização do espaçoUtilização da área de armazenagem = 100 Capacidade total de armazenagem ⋅ O resultado é dado em porcentagem. Se for baixa, significa ociosidade; por outro lado, um valor acima de 100 indica excesso de produtos para os espaços existentes. Se um armazém tem uma área útil de estocagem de 2.000 m3 e a média de estocagem nos últimos seis meses foi de 1.600 m3, o percentual de utilização foi de 80%, pois, substituindo esses dados na fórmula: 1.600Utilização da área de armazenagem = 100 = 80 2.000 ⋅ Conclui-se então que o armazém está sendo subutilizado. Para avaliar se o nível de estoque está de acordo com a política da empresa, emprega-se o indicador do nível médio dos estoques, com o qual a organização descobre a quantidade de dias que o estoque existente suportaria a demanda de um produto, levando em consideração a quantidade em estoque sobre a demanda diária: Quantidade em estoque do itemNível médio de estoques = Demanda diária do item Se determinado produto tem 100 unidades em estoque, e sua demanda diária é de 20 unidades, então: 100Nível médio de estoques = = 5 dias 20 Gestão de estoques e ArmAzenAGem 176 Um resultado baixo mostra que a empresa está aplicando adequadamente os princípios do lean, que se baseia na manufatura enxuta, com eliminação total das perdas e redução de custos. Quanto mais distante o tempo de reposição do produto (lead time) estipulado pela organização, maior é a quantidade de estoque desneces- sário armazenado. Outro indicador-chave para o armazém é o giro de estoque, ou rotatividade de um produto, relacionado com os investimentos financeiros realizados no estoque. Quanto maior esse giro, mais elevada é a lucratividade da empresa. Esse indicador é encontrado mediante a seguinte fórmula: Quantidade de produtos em estoque em um anoGiro do estoque = Estoque médio Como exemplo, suponhamos uma organização que tem um estoque médio de 400 unidades e vende 3.600 durante o ano. Assim: 3.600Giro do estoque = = 9 400 Esse resultado mostra que o produto girou nove vezes na empresa. Por sua vez, o índice de cobertura do estoque dimensiona o tempo que o estoque existente no armazém consegue atender à demanda sem a necessidade de reposição, por meio da fórmula: Estoque atualÍndice de cobertura de estoque = Média de vendas Um produto, por exemplo, tem uma média de vendas semanalde 5 unidades, e, no estoque da empresa, existem 25 peças. O índice de cobertura de estoque desse item, então, é calculado da seguinte forma: 25Índice de cobertura de estoque = = 5 5 Por fim, o custo de manutenção do estoque, baseado no custo de oportuni- dade, indica qual seria o retorno para a empresa caso o valor investido em estoque fosse aplicado no mercado financeiro a uma taxa livre de risco (como caderneta de Gestão de estoques e ArmAzenAGem 177 poupança, Selic ou fundos de renda fixa). Essas taxas variam de 8% a 20% ao ano, e a escolha do índice a ser utilizado é uma decisão gerencial do setor financeiro da empresa. Para encontrar esse indicador, aplica-se a fórmula: Valor médio do estoqueCusto de manutenção do estoque = Taxa mínima de atratividade do investimento Suponhamos uma empresa que estabeleceu a taxa Selic, operando a 10% ao ano, como índice para calcular seu custo de manutenção de estoque. Se o valor médio do estoque é R$1.000.000,00, seu custo de manutenção é dado por: 1.000.000Custo de manutenção do estoque = = 100.000 10 Desse modo, se o lucro da empresa com a venda das mercadorias não for maior que R$100.000,00, o custo de manutenção do estoque não está sendo coberto, assim, é mais vantajoso reduzir os níveis de estoque e aplicar os recursos em operações financeiras. Neste capítulo, aprendemos sobre a avaliação e o controle dos estoques, processos nos quais alinhar a quantidade ideal de estoque de um produto mediante sua demanda é um desafio. Um produto parado e sem uso é resultado de um grave problema de gestão dos estoques, assim, evitar a obsolescência é essencial para que não ocorram prejuízos para a organização. Além disso, o excesso de mercadorias e a falta de um planejamento pode ocasionar perda de produtos devido ao término de sua validade e prazo útil, por isso, conhecer bem as características de cada produto facilita o trabalho de estabelecer a quantidade correta para ser adquirida. O estoque ideal é aquele que não deixa faltarem produtos, nem ficarem em um patamar elevado. Desse modo, para manter o equilíbrio entre o mínimo e máximo, devem-se considerar as diversas características que interferem nesse cálculo e aplicar o método do ponto do pedido. Um sistema com uma boa codificação e especificação permite aos gestores tomar decisões acertadas sobre a quantidade que será armazenada para reduzir os custos, e o uso de tecnologia favorece o controle do estoque, mantendo-o dentro de níveis adequados, seja pelo sistema empurrado, seja pelo puxado. Nesse sentido, os KPIs complementam o sistema de gestão fornecendo dados confiáveis para a tomada de decisões. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 178 Referências BALLOU, R. H. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: logística empresarial. 05. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. BERTAGLIA, P. R. Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento. 02. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. BRASIL. Glossário de definições legais. Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Brasília, [20--.]. Disponível em: <www.anvisa.gov.br/medicamentos/glossario/ glossario_p.htm>. Acesso em: 12/07/2016. ______. Presidência da República. Decreto n. 90.595, de 29 de novembro de 1984. Diário Oficial da União, Brasília, 30 nov. 1984. Disponível em: <www2.camara.leg.br/ legin/fed/decret/1980-1987/decreto-90595-29-novembro-1984-440847-publicacaooriginal- 1-pe.html>. Acesso em: 05/08/2016. ______. Presidência da República. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Diário Oficial da União, Brasília, 12 set. 1990. Disponível em: <www.planalto.gov.br/ ccivil_03/leis/L8078.htm>. Acesso em: 05/08/2016. DIAS, M. A. P. Administração de Materiais: princípios, conceitos e gestão. 06. ed. São Paulo: Atlas, 2011. EAN/UPC. GS1 Brasil, São Paulo, [20--]. Disponível em: <www.gs1br.org/codigos-e- padroes/codigo-de-barras/ean-upc>. Acesso em: 04/08/2016. FRANISCHINI, P.; GURGEL, P. Administração de Materiais e do Patrimônio. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. ______. Administração de Materiais e do Patrimônio. 05. ed. São Paulo: Cengage Learning, 2010. MARTINS, P. G., ALT, P. R. C. Administração de Materiais e Recursos Patrimoniais. São Paulo: Saraiva, 2011. VIANA, J. J. Administração de Materiais: um enfoque prático. São Paulo: Atlas, 2000. 8 Inventários Roberto Ribeiro Inventariar é fazer um levantamento que descreve de forma detalhada os bens que uma empresa possui. “O inventário físico consiste na contagem dos itens de estoque. Caso haja diferença entre o inventário físico e os registros do controle de estoques, devem ser feitos os ajustes conforme recomendações contábeis e tributá- rias” (MARTINS; ALT, 2011, p. 99, grifo nosso). Nesse sentido, o processo de inven- tário permite que as empresas confirmem o resultado do esforço aplicado no gerenciamento de seus estoques. Os bens patrimoniais de uma empresa são divididos em móveis e tangíveis (dinheiro, máquinas e estoques), imóveis (prédios, instalações e construções) e intangíveis (sua marca, invenções e site.). Neste capítulo, estudaremos o procedimento de inventário, conhecendo seus tipos e aspectos legais. Também veremos os procedimentos que devem ser adotados, desde a preparação, passando pela lista dos itens e sua contagem até a análise dos resultados. Considerando que o inventário é uma operação que envolve todo o pessoal ligado à gestão e ao armazenamento dos estoques, trataremos também do processo de composição das equipes e de como a supervisão pode controlar, acompanhar e avaliar seus resultados. 8.1 Inventário nas empresas Por meio do inventário, as organizações acompanham sua evolução patrimonial ao levantar todos os produtos que possuem valor econômico e financeiro e que servem para que elas consigam operacionalizar seu produto e/ou serviço ao cliente. Conforme Dias (2011), ao realizar esse procedimento, uma empresa efetua a contagem física de seus itens mantidos em estoque e dos produtos em processo com a finalidade de verificar: • discrepâncias (em valor financeiro) entre o estoque físico e o contábil; • diferenças (em quantidades) entre registro contábil e as quantidades reais nas prateleiras; • valor total do estoque (contábil) para efeito de balanços ou balancetes, sendo realizado, nesses casos, próximo ao encerramento do ano fiscal. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 181 O resultado do inventário é um documento que permite o cálculo do imposto sobre o patrimônio da companhia, e o registro financeiro de tudo que ela possui, além do controle para verificar se todos os itens adquiridos foram utilizados adequadamente atendendo, assim, respectivamente, às operações contábeis e à gestão dos estoques. Técnicas modernas e sistemas informatizados facilitam a realização do inventário que, devido a sua importância no processo de tomada de decisão, precisa ser eficiente, como veremos a seguir. 8.1.1 A importância do inventário A principal importância do inventário dos estoques é permitir que o gestor dos estoques controle os produtos armazenados, verificando se o saldo em estoque representa a realidade de tudo aquilo que foi movimentado em determinado período. Essa atividade consiste no levantamento detalhado de todo patrimônio da empresa, informação que compõe os ativos que ela dispõe para cumprir suas obriga- ções e deveres. Para Rosa (2003, p. 178), “[...] inventário é o levantamento individuali- zado e completo dos bens e valores ativos e passivos de uma sociedade mercantil ou de qualquer entidade econômica”. Ballou (2006) afirma que os inventários são utilizados pelas empresas como ferra- menta de controle e garantia da acurácia (conceito que estudaremos posteriormente) dos registros relativos ao estoque, avaliando se os materiais adquiridos e pagos entraram nos estoques e se os que foram retirados estão de acordo com o autorizado. Um inventário ainda permite a identificação de itens sem uso, com defeitos e/ou fora de seu lugar de guarda, auxiliando no processo de organizaçãodo ambiente de estoque. Também contribui para o aumento das vendas, apontando itens que podem ser colocados em promoção devido a sua elevada quantidade, e ajuda a detectar falhas no processo de controle de armazenagem, mediante a realização dos ajustes neces- sários nos saldos dos produtos em estoque, alinhando os estoques físico e contábil, como veremos mais adiante. Todo o processo de inventário deve ser realizado conforme normativos legais, que são tratados no subtema a seguir. © w av eb re ak m ed ia // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 182 8.1.2 Aspectos legais do inventário Para realizar seu inventário, as empresas precisam cumprir determinações legais, seguindo etapas de escrituração e critérios que variam de um estado para outro, portanto devem se manter atualizadas a respeito da legislação para não enfrentar problemas judiciais. A regra geral para as empresas é a obrigatoriedade de um livro de registro de inventário, estabelecida pelo Ajuste SINIEF n. 17/2014 e o Ajuste SINIEF n. 2/2009. Trata-se da relação dos itens que a empresa possui na data da realização do inventário com seus valores unitários totais. Além disso, as organizações devem apresentar todos os produtos em processo de fabricação e os que estão prontos e acabados, as embala- gens, entre outros aspectos, como os estoques em trânsito, que são aqueles produtos que foram adquiridos pela empresa, mas estão em processo de transporte ou nas etapas de recebimento. Dependendo do regime utilizado pela empresa para a apuração de sua lucrativi- dade (real, presumido ou simples nacional), a periodicidade para apresentar o registro varia entre mensal, trimestral e anual. Para as que optam pelo modelo de lucro real, há duas opções. Uma é realizar a apresentação anual, apurando mensalmente, no período entre janeiro e dezembro de cada ano, o valor a ser tributado. Outra é demonstrar trimestralmente o levantamento do balanço acumulado do período. Já as empresas que optam pelo lucro presumido devem apresentar trimestral- mente seu balanço, e as optantes pelo simples nacional não são obrigadas a apresentar o balanço, embora apresentem a apuração do resultado mensalmente, tendo como base a arrecadação ocorrida nos últimos 12 meses. As organizações que têm obrigatoriedade de apresentação do balanço têm até 60 dias após sua realização para demonstrar seu resultado aos órgãos fiscalizadores, sob pena de sofrer sanções por multa ou arbitragem, que ocorre quando não há possibili- dade de apurar os tributos pela forma real, apenas presumida. Assim, os valores rela- tivos à receita bruta sobre a qual o imposto incidirá são determinados pelo agente fiscalizador (BRASIL, 1993). O inventário, como documento oficial da empresa que garante seu patrimônio, é ainda um instrumento da controladoria, tanto interna quanto externa, que utilizará as informações constantes dele para realizar sua atividade de acompanhamento e conferência dos processos administrativos, avaliando se estão de acordo com o que foi estabelecido pelas normas e regulamentos vigentes, dentro dos tipos de inventários existentes, conforme veremos a seguir. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 183 8.1.3 Tipologia dos inventários O inventário possui uma classificação para cada necessidade. Deixando de lado as classificações para as atividades de operação contábil (controle patrimonial e tribu- tário) e jurídicas (espólio, herança e conjugais), por não se relacionarem ao assunto da disciplina, focaremos o inventário dos itens mantidos em estoque. De acordo com Bertaglia (2009), as empresas utilizam duas técnicas para efetuar a contagem de seus estoques: contagem física global e contagem cíclica. A contagem física, também definida por Martins e Alt (2011) como inventário periódico, corresponde a parar a organização em determinados períodos, normalmente no encerramento dos exercícios fiscais, e contar todos os itens do estoque. Esse processo, embora amplamente utili- zado, implica em custos adicionais de mão de obra e interrupções na produção que interferem diretamente em sua rotina administrativa. Já contagem cíclica, definida por Martins e Alt (2011) como o inventário rotativo, é um processo contínuo que consiste em contar permanentemente um certo número de itens do estoque em uma frequência preestabelecida. Os autores apresentam a classi- ficação ABC como o critério mais apropriado para realizar a divisão dos itens a serem inventariados, pois aqueles cujos valores são mais altos, considerados da classe A, podem ser contados mais vezes durante o ano, buscando um controle mais efetivo dos valores empregados neles, que têm maior peso na composição financeira do estoque. A classificação ABC determina a proporção 80/20, na qual 20% dos produtos (causa) representa 80% do valor financeiro em estoque (consequência). Ela é aplicada na gestão dos estoques quan- do é preciso saber quais são os produtos com maior representatividade financeira nos custos. Escolher qual tipo de inventário será utilizado por uma organização é uma decisão que se baseia em sua estrutura de armazenagem, tamanho de seu estoque, dispo- nibilidade de mão de obra e suas tecnologias de informação. Para ser realizado com eficiência, cada tipo de inventário deve ter seus próprios procedimentos planejados. © S pe ed K in gz // S hu tt er st oc k Gestão de estoques e ArmAzenAGem 184 8.2 Procedimentos de inventário periódico O inventário periódico, como vimos, é efetuado normalmente no fim do exer- cício fiscal (ano fiscal) das empresas, que corresponde ao período que elas têm para apresentar seus demonstrativos fiscais para as entidades competentes, como o fisco estadual, a Receita Federal, seu conselho de acionistas etc. É um período de 12 meses, dividido em 4 partes (trimestres). Ao final de cada trimestre, as organizações emitem e divulgam seus demonstrativos de resultado e balancetes e, no término do ano fiscal, seu Balanço Patrimonial. O ano fiscal adotado pelas empresas brasileiras é idêntico ao calendário civil, iniciando em janeiro e terminando em dezembro. De acordo com Dias (2011), o inventário periódico abrange todos os itens do estoque de uma só vez, e sua duração é relativamente prolongada, pois normal- mente opera com quantidades elevadas de itens, que variam conforme o tamanho do estoque. Ainda segundo o autor, para realizar o inventário periódico sem sobressaltos, as empresas devem planejá-lo conforme as seguintes etapas: • convocação das pessoas que participarão da elaboração do inventário; • definição dos meios de registros que serão utilizados; • arrumação física do espaço; • cut-off (mapa ou relatório da situação atual do estoque e sua movimentação imediatamente anterior); • atualização dos registros de estoque; • contagem do estoque e as reconciliações e ajustes. Essas etapas serão explicadas nos próximos subtemas, nos quais estudaremos a preparação do inventário, listagens e contagens, ajustes nos saldos de estoque e análise dos resultados. 8.2.1 Preparação do inventário O planejamento deve priorizar a definição do que é melhor para a realidade de cada empresa. Uma organização com grande quantidade e variedade de produtos em estoque, por exemplo, pode estabelecer um calendário anual para o procedimento, enquanto outra, menor, executá-lo em um único dia. Já para uma companhia de porte médio, uma estratégia apropriada é inventariar os produtos por seção ou tipos durante uma semana. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 185 Antes de iniciar o inventário, deve-se efetuar a preparação do inventário, que engloba arrumar e organizar o armazém, retirando embalagens não utilizadas e produtos que estão em trânsito e já tiveram a baixa realizada no sistema, limpando o ambiente (retirando todo o lixo existente) e avaliando cada espaço de armazena- mento para detectar se há algum item fora de seu lugar. Todos esses procedimentos permitem um ganho de tempo no momentode efetuar a contagem das mercadorias. Segundo Dias (2011), para que a empresa realize o seu inventário, um bom plane- jamento e preparação são imprescindíveis para a obtenção de resultados satisfatórios. Nesse sentido, o autor estabelece algumas ações que devem ser previamente reali- zadas e providenciadas: • emissão das folhas de convocação e serviços, estabelecendo os convocados, datas, horários e locais de trabalho; • fornecimento de meios de registro de qualidade e quantidade para a contagem; • análise da arrumação física; • definição do método da tomada do inventario e treinamento; • atualização e análise dos registros; • cut-off para documentação e movimentação dos materiais que serão inventariados. Durante a preparação, as empresas também estabelecem as diretrizes do inven- tário (identificação e quantidade dos itens que serão inventariados, cronograma, profis- sionais envolvidos e responsáveis pela operação da atividade) e todos os documentos necessários, realizando uma checklist de todo o plano de inventário e das listagens. 8.2.2 Listagens e contagens Para que as organizações possam conferir as quantidades físicas presentes em seus estoques, precisam executar ações prévias que evitem dúvidas e incongruên- cias durante essa operação. Uma delas é a elaboração da listagem dos itens que serão conferidos, ou mapa de estoque. Considerando que o objetivo é a contagem física, a listagem deve trazer de forma ordenada e clara todos os produtos. Conforme Dias (2011), sua elaboração é impor- tante para a determinação do cut-off, que, nas operações de inventário, é definido como um ponto de corte, ou seja, o ponto no qual os estoques permaneceram “conge- lados” para a contagem física. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 186 Somente serão considerados para efeito da contagem física os itens integrantes da listagem ou do mapa de estoque, excluindo mercadorias que, embora entregues, ainda não estejam incorporadas aos estoques, e as que foram vendidas, mas ainda não chegaram aos destinatários. Ainda conforme Dias (2011), para registrar a contagem física, devem-se utilizar fichas de controle de inventário, cartões com partes destacáveis empregados para até três contagens, cada um impresso em uma cor diferente conforme o tipo de estoque que será contabilizado. Essas fichas são preenchidas com as informações rela- tivas à localização, à descrição, ao código e à unidade do material e data do inventário, como mostra a imagem a seguir. Modelo de ficha de controle de inventário 4 Peça: Código: Setor: Quantidade: 3ª contagem/auditoria 2ª contagem 1ª contagem 3 2 1 Fonte: DIAS, 2011, p. 174. (Adaptado). Todo item do estoque sujeito ao inventário terá sua quantidade contada necessa- riamente duas vezes, como explica Dias (2011, p. 177): A primeira contagem será realizada pela 1a equipe, a qual poderá efetuá-la imediatamen- te após ter fixado ao lote o cartão de inventário. Feitas as anotações de contagem na pri- meira parte do cartão, o executor da contagem o entregará ao responsável pela primeira contagem, o qual os entregará, por sua vez, ao responsável pela segunda contagem. A se- gunda equipe analogamente registrará o resultado de sua contagem na segunda parte do cartão, entregando-o depois ao coordenador de inventário. © D TC O M Gestão de estoques e ArmAzenAGem 187 Se a segunda contagem coincidir com a primeira, o inventário para o produto em questão está correto, caso contrário, uma terceira contagem, feita por uma equipe diferente, será necessária. Durante todo o processo, deve-se afixar no material a tala identificadora do lote, que é o cabeçalho da ficha de controle de inventário, para comprovar que ele foi contado. Essa tala só poderá ser removida no término de todo o inventário. As listagens e contagens permite o correto controle do estoque, melhorando a gestão e, até mesmo, a eficiência dos processos. Caso haja diferenças nessas listagens e contagens, é necessário realizar o ajuste do saldo de estoque, o que será abordado a seguir. 8.2.3 Ajustes nos saldos do estoque O ajuste no saldo de estoque é uma operação que exige cautela e precisão, portanto, deve ser realizada pelo responsável pela logística de armazenamento mediante autorização de seus superiores. Nessa etapa, as discrepâncias encontradas na contagem física entre o estoque contábil e o inventariado são avaliadas e, se for o caso, mediante justificativa, ajustadas no relatório final do inventário. Dessa forma, as quantidades constantes dos registros contábeis, informatizados ou não, são ajustadas para as quantidades reais de estoque apuradas no inventário físico. Segundo Dias (2011), essas justificativas são providenciadas pelos setores envolvidos nos controles de estoque (almoxarifado, expedição, recebimento, contabilidade, compras etc). O autor apresenta um modelo de ficha de controle das diferenças de inven- tário, que deve ser preenchida pelo departamento de controle de estoques e utilizada para realizar o lançamento e a valoração das diferenças encontradas. Modelo de ficha de controle das diferenças de inventário Controle das diferenças de inventário Data: ____ / ____ / ____ Código Descrição Unidade Valor Unit. Estoque Kardex Estoque inventário Diferença [+] [–] Valor da diferença Observação Coord. Invent.: Conferido por: Auditoria Externa: Contabilidade: Aprovado por: Fonte: DIAS, 2011, p. 176. (Adaptado). Gestão de estoques e ArmAzenAGem 188 O valor unitário corresponde ao valor de compra ou o custo de produção de cada item; o estoque kardex é o estoque lançado na ficha que acompanha cada produto no almoxarifado; a diferença (+)(-) trata das diferenças para mais e para menos após somar os valores contábil e físico; o valor da diferença diz respeito à diferença global de valores e a observação lista as ocorrências relativas aos itens em estoque. Por meio das informações dessa ficha, a empresa realiza a valoração das novas quantidades de estoques que passam a valer após o encerramento do inventário físico. Cada empresa determina sua política com relação aos percentuais aceitáveis de diferenças, mas, segundo Dias (2011, p. 177), “[...] como regra geral, para os itens classe A não devem ser aceitos ajustes de inventários, procurando sempre justificar o motivo da diferença”. Sendo assim, tais itens, por serem os de maior participação financeira na composição dos estoques, não podem ser ajustados imediatamente, mesmo que os ajustes estejam dentro dos percentuais determinados como aceitáveis pela empresa. Primeiramente, devem ser comunicados à diretoria, com as justifica- tivas, pois cabe a ela a aprovação final dos ajustes do inventário. Só após esse procedi- mento é que o setor de controle de estoques emite uma relação, autorizando-os. Após as conferências e contagens, os valores são digitados no relatório de diver- gência emitido pela equipe de inventário, abrangendo suas causas e resultados, e esse documento deve ser arquivado para acompanhamento dos resultados de melhoria implementados no armazém. A controladoria e a diretoria devem ser informadas dos ajustes que foram reali- zados, suas causas e soluções implementadas. Um ajuste a maior e/ou a menor é sintoma de que algo errado ocorreu no processo de armazenagem da empresa, por isso, o inventário deve ser acompanhado de um plano de melhorias que proponha solu- ções para que essas inconsistências não voltem a ocorrer. 8.2.4 Análise dos resultados A fase de análise dos resultados permite que as empresas utilizem seu inventário como uma ferramenta de gestão dos estoques, pois os resultados obtidos as ajudam a acompanhar a qualidade dos serviços prestados no armazém, utilizando-os como indi- cadores de desempenho. Acurácia é um indicador que apresenta as divergências ocorridas durante a reali- zação de um inventário. Para encontrá-la, aplica-se uma fórmula matemática que considera o quantitativo de itens corretos sobre o totalde itens inventariados. De acordo com Martins e Alt (2011, p. 201), “[...] uma vez terminado o inventário, pode-se calcular a acurácia dos controles, que mede a porcentagem de itens corretos, tanto em quantidade quanto em valor”. Sua fórmula é: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 189 Acurácia = número de itens com registros corretos número total de itens Ou: Acurácia = valor de itens com registros corretos valor total de itens Um exemplo é apresentado por Martins e Alt (2000): Exemplo de cálculo da acurácia do estoque Classe Número de itens contados Número de itens contados (%) Número de itens com divergências Acurácia A 4.910 4.910/16.915 = 29,03% 268 (4.910 – 268)/4.910 = 0,9454% B 9.125 9.125/16.915 = 53,95% 438 (9.125 – 438)/9.125 = 0,9520% C 2.880 2.880/16.915 = 17,02% 55 (2.880 – 55)/2.880 = 0,9809% Total 16.915 Fonte: MARTINS, 2000, p. 158. O quadro mostra a aplicação da contagem com base na classificação ABC dos produtos. Nos de classe A, 4.910 itens representam 29% do total de itens inventa- riados, com uma acurácia de 94,54%, ou seja, 5,45% dos itens apresentaram diferença de estoque (100% – 94,54%). Já os de classe B são 9.125, que representam 53,95% do total, com uma acurácia de 95,20%, isto é, uma diferença de 4,80% no total de produtos apurados na classe (100% – 95,20%). Por fim, o total contado da classe C foi de 2.880 unidades, representando 17,02% do total, com um índice de acurácia de 98,09% e uma diferença de 1,91% do total da classe (100% – 98,09%). Ao efetuar o inventário físico, as empresas também podem utilizar outro indi- cador, que é a criticidade, definida por Martins e Alt (2011, p. 255) como “[...] a avaliação dos itens quanto ao impacto que sua falta causará na operação da empresa, na imagem da empresa perante os clientes, na facilidade de substituição do item por um outro e na velocidade de obsolescência”. Na análise dos estoques baseada nesse critério, os produtos são classificados de acordo com sua importância no processo produtivo ou comercial do armazém. Desse modo, ainda segundo Martins e Alt (2011), os itens também podem ser classificados em A, B e C. Os de classe A são aqueles cuja Gestão de estoques e ArmAzenAGem 190 falta interrompe a produção dos bens e serviços e a substituição é difícil devido à inexistência de fornecedor alternativo. Os de classe B são aqueles que, quando faltam, não provocam efeitos na produção de bens e/ou serviços no curto prazo. Por fim, os de classe C são todos os demais produtos. A realização do inventário é fundamental para a empresa realizar o acompanha- mento de seus produtos, analisando se os níveis de estoques estão corretos e reali- zando correções quando houver a necessidade. No próximo tópico, conheceremos os procedimentos de inventário rotativo. 8.3 Procedimentos de inventário rotativo Diferentemente do inventário periódico, que interrompe as atividades da empresa durante um período para ser realizado, o rotativo estabelece um número de itens a serem contados em determinada frequência. Segundo Bertaglia (2009, p. 358): [...] é um processo continuo que consiste em inventariar um certo número de itens dentro de uma frequência estabelecida. Esse processo é contínuo. Baseado na classificação ABC, os itens cujos valores são mais altos podem ser contados mais vezes durante o ano. Essa modalidade reduz custos de inventários relativos à mão de obra e à inter- rupção da produção e das entregas, pois mantém as atividades da empresa durante sua realização, e possibilita à gestão de estoques maior facilidade de solucionar problemas relacionados às diferenças encontradas, pois ocorre continuamente, contando as quantidades de itens diariamente. Nesse sistema, o gestor deve emitir listagens com poucos itens para conferência, de modo que a contagem seja rápida, e, como as operações da empresa não param em função do inventário, os colaboradores devem sinalizar no local do produto quando retirarem uma peça, para que os demais integrantes do setor saibam que aquele item está sendo inventariado e retornará ao estoque posteriormente. Esse procedimento evita falhas ou erros decorrentes de uma interpretação equivocada de falta daquele produto no estoque. No inventário rotativo, as contagens são cíclicas, repetindo-se de tempos em tempos, formando um ciclo. Assim, conforme Bertaglia (2009), as atividades do inven- tário passam a ser uma rotina diária dos envolvidos, fazendo com que eles se tornem especializados nessa operação. Como as operações normais do armazém não precisam ser interrompidas, o procedimento de inventário deve ser o mais simples possível, bastando uma listagem Gestão de estoques e ArmAzenAGem 191 dos itens a serem conferidos diariamente e o campo de lançamento dos ajustes dos saldos de acordo com as diferenciais encontradas. 8.3.1 Relevância do inventário rotativo Por ser um sistema cíclico e constante, o inventário rotativo é mais ágil do que o periódico, pois, com a conferência diária, o gestor acompanha frequentemente se o macroprocesso de armazenamento (recebimento, guarda e expedição) está funcionando. Macroprocesso é o maior processo realizado dentro de uma atividade e sua percepção passa pela visão sistêmica da organização. Mediante esse acompanhamento constante, as empresas conseguem avaliar se suas ações corretivas estão trazendo resultados práticos. Por exemplo, se ocorrer uma diver- gência devido ao lançamento de entrada de um produto com código diferente, o gestor poderá acompanhar com os auxiliares de registro de entrada como estão realizando suas atividades e recomendar medidas de melhoria para evitar esse tipo de situação. Para Bertaglia (2009), à medida que a prática do inventário rotativo for incor- porada no dia a dia da equipe do almoxarifado e estes aperfeiçoarem suas tarefas, os erros serão evitados com o passar do tempo. Além disso, o gestor, ao detectar um equívoco e tomar medidas corretivas, contribui para a redução de falhas no sistema de controle dos produtos, aprimorando a acuracidade da empresa. Conforme Bertaglia (2009), a utilização do inventário rotativo traz as seguintes vantagens: • identificação das causas dos problemas; • correção de erros; • eliminação dos inventários físicos periódicos; • concentração dos esforços da equipe inventariante em áreas críticas, nas quais a interrupção causada pela contagem dos itens pode afetar os processos e ge- rar atrasos; • redução de erros de contagem; • pessoal mais especializado, devido ao aumento do nível de conhecimento que as equipes conseguem atingir com a repetição dos processos; • planejamento confiável de todo o inventário, uma vez que é executado no lon- go prazo e falhas e erros podem ser corrigidos durante o processo; • estoque em níveis mais adequados, priorizando os itens de maior importância para a empresa. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 192 Para a implementação do inventário rotativo, diversas técnicas podem ser apli- cadas e cabe ao gestor escolher a melhor de acordo com o nível técnico de sua equipe e o tipo de produtos que a empresa mantém em seu estoque. 8.3.2 Principais técnicas A escolha dos itens para o inventário periódico pode levar em consideração diversos critérios, que permitem à empresa selecionar os itens que serão inventariados antes dos demais, mas de modo que, ao final, todos sejam contados, conferidos e acertados. De acordo com Bertaglia (2009), a determinação dos critérios de seleção deve considerar os seguintes aspectos: • diferentes classes de itens, como produto acabado, matéria-prima, material de embalagem, entre outros; • fabricados e comprados; • grandes e pequenos; • leves e pesados; • caros e baratos; • similares na aparência; • com descrições semelhantes; • de fácil e difícil manuseio; • que se encontrem em vários locais; • que tenham unidades de medidas alternativas. Com base nesses aspectos, a equipe inventariante determina com antece- dênciaqual a sequência das ações que serão realizadas. Uma empresa industrial, por exemplo, inicia a conferência pelos produtos acabados (fabricados), enquanto uma companhia comercial começa pelos itens comprados, para só depois inventariar as matérias-primas. Também se pode priorizar o início pelos itens de maior valor, comple- mentando com os de menor custo, ou a partir daqueles com maior facilidade de movi- mentação, seguidos dos mais difíceis. Após estabelecer os critérios que serão adotados na contagem, deve-se definir o número de itens que serão contados. Conforme Martins e Alt (2011) e Bertaglia (2009), para tanto, a técnica mais comum é a classificação por importância financeira ABC, na qual o gestor estabelece um índice percentual para a classificação dos itens em estoque e prioriza os itens de maior movimentação. Assim, ele tem um resultado Gestão de estoques e ArmAzenAGem 193 completo para os produtos mais importantes, inventariando todos eles, e distribui uma carga menor para os de classe B e C, otimizando seu esforço de trabalho. De acordo com os recursos tecnológicos que a empresa tenha a sua disposição, pode adotar outras técnicas, como por ordem alfabética, na qual os itens são inventariados seguindo a ordem alfabética de identificação dos produtos; pelo nível de movimen- tação e acesso, que considera no planejamento das ações fatores como peso, volume e facilidade de acesso e movimentação dos itens; por sessões, que realiza a contagem com base na distribuição dos itens dentro do conjunto de similaridades que ele possui; e por sequência de paletes, realizada nos depósitos estruturados no sistema de porta-paletes, no qual a contagem é realizada pelo número de paletes de cada produto e posterior- mente ajustada para unidades. Seja qual for a técnica utilizada, o gestor sempre terá que preparar o ambiente e sua equipe para a realização do inventário. 8.3.3 Recursos tecnológicos Os sistemas informatizados podem auxiliar no processo de realização do inven- tário rotativo de diversas maneiras. Segundo Bertaglia (2009), eles permitem: • extração de relatórios dos itens para contagem; • extração de relatórios das transações de entrada, saída e movimentações internas; • elaboração de gráficos e cálculos; • localização dos itens no armazém. Sistemas computadorizados podem estabelecer automaticamente a curva ABC de produtos e selecionar aleatoriamente aqueles que serão contados em cada ciclo, por exemplo. Além disso, códigos de barras colocados nas mercadorias permitem loca- lizar suas informações; o batch (arquivo em lote utilizado para executar os comandos e as tarefas de forma sequencial nos sistemas informatizados) e radiofrequência são usados em etiquetas de identificação no produto, cuja leitura é efetuada por equi- pamentos handheld (computadores portáteis); sistemas de voz poupam tempo no registro e transmissão dos dados de contagem; sistemas orientados por luz subs- tituem as fichas de controle por uma sequência de luzes nas cores azul, verde e vermelha na identificação das contagens; e o WMS (warehouse management system) agiliza a elaboração de relatórios gerenciais e de localização de produtos. WMS são programas que permitem roteirizar as mercadorias no estoque, apontando direcio- namento de pedidos (picking) e/ou consolidação de cargas. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 194 O uso da tecnologia para registro, leitura e controle dos produtos melhora a eficiência e a segurança dos processos de inventário, agiliza suas operações e reduz seus custos, pois permite que os estoques sejam inventariados constantemente de forma automática. Nos chamados armazéns inteligentes, chips de radiofrequência compatíveis com o sistema RFID (radio frequency identification, ou identificação por radiofrequência) emitem um sinal, que é capitado por sensores instalados em pontos estratégicos do armazém, e os retransmitem para os gerenciadores da base de dados (CPUs) instalados na administração da gestão de estoque. Essas informações alimentam a base de dados do sistema de controle de estoque, realizando a baixa ou a entrada automática dos itens nos quantitativos de materiais estocados, atualizando as quantidades, fornecendo infor- mações relativas a custos dos estoques, quais produtos têm maior e menor giro e quais correm risco de entrar em obsolescência, e informando as necessidades de reposição. Na realização do inventário rotativo, as empresas devem qualificar os recursos humanos que serão empregados no processo, pois quanto mais preparada e gerenciada for a equipe, maior será a eficácia do processo, como veremos no próximo tópico. 8.4 Gestão dos recursos humanos no inventário Para que as empresas possam realizar as operações de inventário, todos seus itens devem ser mantidos em ordem com um registro dos dados sem erros e as merca- dorias precisam estar guardadas corretamente, ações que dependem da equipe de profissionais envolvida nesses processos. Na formação de uma equipe de trabalho para atuar no inventário, o gestor de estoques é o responsável por mantê-la motivada e trabalhando de forma alinhada, sabendo que cada membro tem suas características, personalidade e forma de traba- lhar. Segundo Paoleschi (2014), manter um ambiente saudável e agradável facilita o ato de manter a equipe focada em seus objetivos. Nesse sentido, dimensionar corretamente a equipe, definindo o papel e as responsabilidades de cada um na realização do inventário, deixando claro como será realizada a gestão do processo e o sistema adotado para medir seus resultados, fará com que o gestor tenha total domínio da operação. Seja qual for a proposta e o tipo de inventário, o gestor deve saber escolher os membros da equipe e estabelecer objetivos atingíveis, com metas diárias, semanais ou mensais para cada funcionário. Sendo assim, neste tópico, veremos como devem ser compostas as equipes de inventário, seu dimensionamento e supervisão e, por fim, o processo de avaliação dos resultados do inventário. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 195 8.4.1 Composição das equipes de inventário A realização do inventário nas empresas, independentemente do modelo que for empregado (periódico ou rotativo), necessita da participação direta de seus colabo- radores. Mesmo que uma organização conte com recursos de tecnologia e que seus processos de movimentação sejam realizados com o auxílio de equipamentos de monito- ramento, a presença humana no processo de inventário não é dispensada, sendo neces- sária a formação de equipes de trabalho para realizar a conferência física dos estoques. As características da equipe dependem do tipo de inventário que será reali- zado. Uma empresa que deseja fazer um inventário rotativo pode definir equipes permanentes, que realizam essa atividade rotineiramente, durante todo o ano fiscal, enquanto no periódico, são formados grupos temporários com colaboradores advindos de outros setores e que, após o término da ação, retornam a suas atividades de origem. Após formar a equipe, a empresa deve definir um procedimento operacional padrão que deverá ser seguido por todos. Procedimento operacional padrão é o instrumento que determinará todos os critérios, regras e diretrizes de um processo de trabalho. Um exemplo da forma como essa equipe pode ser formada é dado por Paoleschi (2014), que a identifica como comitê de inventário, composto por um coordenador, um secretário, auditores externos e internos e as equipes de conferentes. Conforme o autor, cabe ao setor de contabilidade das empresas determinar a criação desse comitê, que é o órgão diretivo, ou seja, que coordena todos os passos do inventário, e a convocação dos funcionários que participarão do processo ou, se for o caso, a contra- tação de auditoria externa para realizar o serviço ou auxiliar a equipe interna. Essas ações devem ser planejadas com antecedência para que os convocados sejam avisados a tempo de não assumirem compromissos nas datas previstas para a realizaçãodo inventário. Conforme Paoleschi (2014, p. 108): O inventário deve ser elaborado com a participação do pessoal envolvido na utilização dos materiais produtivos e de consumo da fábrica ou armazém. É importante que os en- volvidos no inventário conheçam os materiais que serão contados para evitar erros de identificação. Essa participação pressupõe que as pessoas envolvidas na gestão de materiais da empresa levam seus conhecimentos para a equipe de inventário, proporcionando agili- dade na identificação localização no armazém e histórico de movimentações dos itens. Alguns autores, contudo, argumentam que essa equipe não deve ser composta apenas Gestão de estoques e ArmAzenAGem 196 por colaboradores que atuam na área de materiais, pois o pessoal de outras áreas pode fornecer uma visão crítica sobre falhas ocorridas no processo de armazenamento. Nesse sentido, Pozo (2015) explica que a contagem física dos itens inventariados deve ser realizada por duas vezes e por equipes distintas. Quando as contagens coincidem, o inventário estará encerrado, porém, se existirem divergências, uma terceira equipe deverá ser montada com a finalidade de realizar uma nova contagem para confirmar os dados obtidos pelas anteriores. A concretização eficiente do inventário depende dos dados coletados no armazém pelos contadores e informados aos auditores, que realizam sua formatação e confron- tação com os registros anteriores para posteriormente emitir seu relatório. A quanti- dade de pessoas envolvidas nesse processo depende de fatores, como tamanho do armazém, quantidade de itens, modelo de inventário adotado e recursos tecnológicos disponíveis. Vamos entender como efetuar esse dimensionamento da equipe a seguir. 8.4.2 Dimensionamento Dimensionar é o ato de fixar as dimensões de uma peça a fim de que ela desem- penhe seu papel no conjunto do qual faz parte ou atribuir dimensões a algo, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (2013). Já dimensionamento, também segundo o Dicionário, é o ato ou efeito de dimensionar. Nesse sentido, dimensionar corretamente o quantitativo de pessoas para a realização do inventário é um passo importante para que o gestor consiga obter os resultados finais planejados sobre o inventário, dentro do tempo estipulado e com a confiabilidade necessária. As equipes de inventário podem ser compostas por duas ou mais pessoas, quantidade que varia em função do tipo de inventário, pois o periódico exige uma quantidade maior de colaboradores que o rotativo devido à necessidade de interromper as atividades do armazém para a sua realização. Outro fator que deve ser levado em consideração são os recursos disponíveis (tecnologias e sistemas) e o tipo e quantidade de material mantido em estoque, pois, conforme a disponibilidade de sistemas de controle automatizados no armazém, que realizam o acompanhamento da movimentação dos materiais estocados de forma automática, a quantidade de mão de obra necessária diminui. Além disso, se existir uma grande variedade de itens de determinado produto armazenado, como ocorre, por exemplo, nas empresas supermercadistas, uma quantidade maior de pessoas será necessária em relação aos estoques que apresentam uma variedade menor de itens. Paoleschi (2014) apresenta uma sugestão de estrutura para a formação do comitê de inventário, conforme o quadro a seguir: Gestão de estoques e ArmAzenAGem 197 Exemplo de um comitê de inventário Comitê do inventário anual Presidente: Diogo Silva Coordenador Geral: Daniel de Almeida Secretária: Maria Francisca Alves Auditores interno: Bruno de Souza João da Cruz Pedro Lucas de Brito Lucas Sarconi Giulia Ramos Queiroz Auditores externos: Sandra Regina (coordenadora) Isabel da Silva Fernando Domingos Marcelo da Rocha Contadores físicos Auditores/contadores José Thiago Domingos Francisco Jaliza Bruna Luiz João Orlando Benedito Fonte: PAOLESCHI, 2014, p. 107. (Adaptado). Nesse modelo, o presidente supervisiona todas as atividades, o coordenador geral acompanha sua execução e informa ao presidente os resultados alcançados, o secretário organiza a documentação relativa ao processo e emite relatórios para análise e aprovação dos coordenadores e os auditores internos (formados por cola- boradores da própria empresa) e externos (compostos de funcionário terceirizados) conferem, analisam e validam todas as informações encaminhadas pelas equipes de contadores. Essas equipes são duas: a de contadores físicos, que realizam a primeira contagem dos itens e fazem as anotações nas folhas de inventário, e a de auditores/ contadores, que executa sua contagem de conferência. Além disso, as empresas também podem dividir equipes para cada uma das fases do processo de inventário, deixando, por exemplo, uma responsável pelo registro e elaboração de documentos no sistema e outras para funções como contagens, arru- mação e organização dos produtos, acertos e providências de melhoria. A quantidade de elementos que a empresa precisa dimensionar para realizar seu processo de inventário varia de acordo com fatores como o tempo de execução, quan- tidade de itens, modelo de inventário adotado e disponibilidade de recursos tecno- lógicos. Para cada ação adotada nesse dimensionamento, o papel da supervisão e coordenação é fundamental, como veremos a seguir. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 198 8.4.3 Supervisão e coordenação O supervisor de uma equipe de inventário, ou o presidente da comissão de inventário, é o profissional encarregado de acompanhar todas as ações relativas ao processo, sendo o elo da equipe com a diretoria da empresa. Já o coordenador é responsável pelo gerenciamento total do processo de inventário, acompanhando as rotinas das equipes de auditores e contadores e organizando juntamente com a secre- taria a emissão dos relatórios e o registro das informações. Conforme Paoleschi (2014), para esses papéis, as empresas devem designar um profissional com experiência em controle e gestão de materiais, pois esse conheci- mento é fundamental para a condução de todo o processo. O supervisor precisa tomar decisões a respeito do tipo de inventário que será realizado, de seu planejamento, elaborando o cronograma dos prazos de todas as etapas, e da definição das equipes de trabalho. Sua função também envolve o levantamento dos relatórios de inven- tários anteriores e o gerenciamento do arranjo dos produtos no estoque para contagem. O supervisor ainda deve acompanhar todo o andamento do inventário, obser- vando se todos os envolvidos estão realizando suas atividades e se as mercadorias estão sendo contadas corretamente, além de elaborar os relatórios e documentos e paralelamente realizar o treinamento da equipe. Sua função ainda exige que ele prepare todos os recursos necessários para realização da contagem de materiais. Ao término do inventário, o supervisor precisa efetuar os ajustes necessários e, por meio de reuniões, estabelecer as metas de correção dos problemas detectados. Ele é, então, o responsável final pelo resultado do inventário e responderá por ele à diretoria da empresa, por isso, tem a obrigação de garantir que nenhum item fique sem ser contado e que não ocorram divergências de quantidades. Após realizar todo esse trabalho, o supervisor deve providenciar os relatórios apontando as melhorias necessárias e os resultados dos indicadores do inventário, conforme veremos a seguir. 8.4.4 Avaliação dos resultados do inventário A avaliação dos resultados do inventário é realizada pela controladoria ou audi- toria das empresas e visa assegurar que todo o processo de inventário tenha ocorrido corretamente, verificando se o estoque físico está idêntico ao virtual registrado no sistema de controle de estoque da organização. © M as lo w sk i M ar ci n // Sh ut te rs to ck Gestão de estoques e ArmAzenAGem 199 Segundo Dias (2011, p. 155), “[...] fica cada vez mais caracterizado que os controles precisam atuar com uma finalidadepreventiva. Não adianta somente iden- tificar e corrigir um problema após a sua ocorrência”. Assim, o inventário, como ferra- menta de controle interno, serve não somente para detectar as falhas erros relativos aos estoques, mas também para nortear os procedimentos a serem adotados pelas organizações, buscando evitar os erros no processo de armazenamento. Segundo Pozo (2004), as empresas devem se atentar ao controle de seus estoques minuciosamente, pois os resultados financeiros futuros têm ligação direta com o nível de eficiência que apresentam. Para medir o resultado do inventário, aplicam alguns indicadores, além da acuracidade, já estudada neste capítulo. Um fator importante para medir a eficiência de um armazém é seu índice de obsolescência, obtido tanto pela realização do inventário quanto pelo controle de entrada e saída de mercadorias. Conforme Paoleschi (2014, p. 44): “Os itens obso- letos podem ser considerados aqueles com no mínimo três meses sem movimento de entrada ou saída”, e cabe ao gestor de estoques acompanhar os relatórios de inven- tário para detectar produtos nessa situação. Outro indicador que deve ser avaliado é o nível de serviço do armazém, que mede o grau de satisfação de seus clientes, fornecedores e usuários, em porcentagem, e pode ser calculado pela fórmula: requisições atendidas plenamente Nível de serviço .100 total de requisições = Outro índice que permite uma avaliação por meio do inventário é a ocupação dos espaços do armazém, também dado em porcentagem, obtido pela fórmula: espaços ocupados Nível de serviço 100 espaços disponíveis x= Um resultado entre 90% e 95% é considerado satisfatório pela gestão de arma- zenagem. Por fim, o inventário também permite a medição do tempo de recebimento das mercadorias no armazém, que mensura o tempo necessário para realizar as ativi- dades de receber a mercadoria, estocá-la, registrá-la no sistema e disponibilizá-la para o uso. Para ser considerado satisfatório, o tempo total transcorrido não pode ser maior do que duas horas. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 200 Com o inventário, as organizações conseguem realizar uma completa avaliação de seu processo de controle dos estoques, com o objetivo de evitar a falta de produtos para atender aos clientes e reduzir os custos logísticos totais. As empresas fazem seus inventários para acompanhar seus recursos financeiros investidos em produtos e mercadorias. É um documento oficial utilizado pela contabi- lidade para prestar contas aos órgãos fiscalizadores e um instrumento de gestão, pois permite avaliar se o sistema de administração implementado para o controle dos esto- ques tem a eficiência esperada. Os inventários ainda permitem que as organizações acompanhem constante- mente seus estoques, evitando perdas ocasionadas por avarias ou obsolescência. Também possibilitam à empresa avaliar seus estoques quanto à acurácia, obso- lescência, nível de serviço, ocupação dos espaços e tempo de recebimento das mercadorias. Gestão de estoques e ArmAzenAGem 201 Referências BALLOU, R. H. Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos: logística empresarial. 05. ed. Porto Alegre: Bookman, 2006. BERTAGLIA, P. R. Logística e Gerenciamento da Cadeia de Abastecimento. 02. ed. São Paulo: Saraiva, 2009. BRASIL. Ministério da Fazenda. Ajuste SINIEF n. 17 de 21 de outubro de 2014. Diário Oficial da União, Brasília, 23 out. 2014. Disponível em: <www.confaz.fazenda.gov.br/ legislacao/ajustes/2014/aj_017_14>. Acesso em: 08/08/2016. ______. Ministério da Fazenda. Ajuste SINIEF n. 2 de 03 de abril de 2009. Diário Oficial da União, Brasília, 08 abr. 2009. 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