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Leitura e produção de textos de comunicação da ciência Cristina Pimentel Damim (org.) Isa Mara da Rosa Alves Janaína Lemos Becker Juliana Alles de Camargo de Souza Maria Eduarda Giering (org.) Maria Helena Albé Silvana Kissmann Vera Helena Dentee de Mello EDITORA UNISINOS 2013 SUMÁRIO CAPÍTULO 1 – APRESENTAÇÃO 1.1 Algumas noções importantes CAPÍTULO 2 – GÊNEROS ACADÊMICOS E DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA CAPÍTULO 3 – O ARTIGO ACADÊMICO-CIENTÍFICO: CONFIGURAÇÃO GLOBAL CAPÍTULO 4 – O RESUMO ACADÊMICO-CIENTÍFICO: CARACTERÍSTICAS 4.1 O que é? 4.2 Quem escreve para quem? 4.3 Onde é veiculado? 4.4 Qual é a sua finalidade? 4.5 O que deve ser abordado? 4.6 Análise de um resumo de artigo acadêmico a partir das unidades temáticas propostas por Swales (1990) 4.7 Palavras-chave 4.8 Algumas questões linguístico-discursivas em jogo no resumo acadêmico- científico 4.9 Etapas para a elaboração do resumo de um artigo acadêmico-científico CAPÍTULO 5 – A RESENHA ACADÊMICA CAPÍTULO 6 – NOS PASSOS DA RESENHA CAPÍTULO 7 – A PRODUÇÃO DE RESUMOS E O PROCESSO DE SUMARIZAÇÃO CAPÍTULO 8 – ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DE RESENHAS ACADÊMICAS 8.1 Etapa 1 – Leitura atenta da obra a ser resenhada 8.2 Etapa 2 – Redação da resenha CAPÍTULO 9 – A DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA CAPÍTULO 10 – QUESTÕES LINGUÍSTICO-DISCURSIVAS 10.1 Coesão textual 10.2 Uso de voz passiva como recurso de impessoalização 10.3 Citação de discurso alheio 10.4 Paráfrase 10.5 Plágio ANEXOS Anexo 1 Anexo 2 Anexo 3 SOBRE OS AUTORES CAPÍTULO 1 APRESENTAÇÃO Neste capítulo, apresentamos os temas principais do livro, teorias que o embasam e noções principais. A comunicação encontra-se no coração da ciência, sendo ela tão vital quanto a própria pesquisa. A comunicação da ciência pode se fazer em vários contextos, tanto no acadêmico-científico quanto no midiático, entre outros, com diferentes objetivos. Cada contexto implica diferenças, exige atenção às convenções, regras e normas que regem os respectivos domínios, ou seja, impõe que se conheça o contrato de comunicação que rege as trocas de linguagem em cada situação. Contrato de comunicação? Utilizamos a metáfora do contrato (o contrato social é o documento por meio do qual se estabelecem direitos e obrigações recíprocos aos seus signatários) para pensar as relações que se instituem entre os interlocutores que interagem por meio da linguagem em determinado contexto. Conforme o domínio de comunicação (jurídico, midiático, religioso, propagandístico, acadêmico etc.), a identidade dos parceiros, o tema em questão, a finalidade e o meio utilizado para comunicar, mudam as formas de dizer (o como dizer). Dirigir-se a crianças ou a adultos implica estratégias comunicativas diferentes. Para sensibilizar crianças, por exemplo, precisamos, muitas vezes, pensar formas mais criativas de organizar nosso texto (quem sabe optar por uma narrativa ou utilizar personagens animais) a fim de sermos aceitos e compreendidos. A finalidade da comunicação também rege as formas de dizer. Por exemplo, no domínio midiático, o informar é concretizado por gêneros como a notícia e a reportagem; já o opinar se revela em gêneros como o editorial ou o artigo de opinião. Se o objetivo ainda é emocionar nosso interlocutor, há necessidade de planejar formas de alcançar isso. O meio em que se dá a comunicação também exerce influência sobre as formas: se estamos frente a frente com nosso interlocutor, organizamos nosso texto diferentemente de se estivéssemos compondo um artigo para ser publicado numa revista. Os gêneros de discurso que circulam nos diferentes domínios de comunicação delimitam igualmente as formas e os modos de dizer: por exemplo, no domínio acadêmico, há uma organização pré-estabelecida para a redação de um resumo, assim como no domínio jurídico, há regras e normas para escrever uma petição. Tudo é uma questão de contrato, ou melhor, de levar em consideração as normas e regras que se estabelecem entre os usuários da língua que estão se comunicando em diferentes contextos. Esta é uma questão crucial para quem deseja se fazer compreender pelo outro e quer compreender os discursos que circulam nos diferentes domínios: saber identificar as normas e regras em jogo nos diferentes contratos de comunicação. É preciso levar em consideração igualmente que existem situações em que o contrato de comunicação é mais rígido, deixando pouca liberdade para o usuário, e outras situações em que há maior liberdade, o que permite ao produtor do texto maior criatividade. Por exemplo, a redação de um artigo acadêmico é mais regrada do que a composição de uma reportagem de divulgação científica, na qual o produtor textual é mais livre para escolher as formas de dizer. Neste livro, tratamos de alguns gêneros do domínio acadêmico-científico, especificamente, o artigo, o resumo e a resenha acadêmica, que requerem o conhecimento dos contratos que circulam no domínio da academia. Da mesma forma, vamos estudar a divulgação científica midiática, concentrando-nos na notícia que veicula informação sobre resultados de pesquisas ou descobertas acadêmico- científicas. 1.1 Algumas noções importantes Estudamos os gêneros discursivos considerando as situações de comunicação em que são produzidos e sua organização discursiva e linguística conforme Charaudeau (2009). 1.1.1 A situação de comunicação – Qual o contrato de comunicação? Olhar para os dados da situação de comunicação na qual se dá o intercâmbio de linguagem é fundamental. Como afirma Charaudeau (2009, p. 1), “não existe ato de linguagem fora de contexto”. Tanto quem produz o texto quanto quem o lê ou ouve estão inseridos em contextos de comunicação e têm expectativas sobre como se comportar nesses contextos. Para que a comunicação tenha êxito, ambos devem partilhar de conhecimentos sobre o que se espera sejam os comportamentos naquela situação específica. Por exemplo, se o leitor de um artigo científico de determinada área não conhece as normas do contrato de comunicação do discurso acadêmico-científico publicado naquela área de conhecimento, terá dificuldades de compreender os raciocínios desenvolvidos pelo autor do texto, assim como as escolhas que o produtor fez para divulgação de sua pesquisa no artigo, que se organiza em função desse contrato. É preciso saber, por exemplo, que, em vista de os artigos acadêmicos serem dirigidos aos pares, ou seja, outros especialistas, provavelmente haverá abundância de vocabulário técnico, além da não explicitação de conceitos teóricos, pois é esperado do leitor especializado um conhecimento técnico mais aprofundado. Pressupõe-se de um leitor de artigo acadêmico certo saber técnico não apenas em relação à área de conhecimento, mas também quanto às formas de comunicação no contexto acadêmico. Para identificar a situação de comunicação, deve-se atentar para as seguintes condições: Identidade dos que se comunicam, que é caracterizada por meio da pergunta “Quem troca com quem?” ou “Quem se dirige a quem?”. No caso do discurso científico, é pressuposto que o cientista seja o produtor do texto, que será lido por outro membro da comunidade acadêmica, seja outro cientista ou um estudante. No discurso midiático de divulgação científica, por outro lado, quem redige, em geral, são jornalistas, mas também cientistas podem escrever em jornais e revistas que divulgam ciência para o público não especializado. Finalidade da troca: identifica-se essa condição por meio da seguinte pergunta: “Estamos aqui para dizer o quê?”. À finalidade da troca corresponde um gênero de discurso. Por exemplo, para divulgar uma pesquisa experimental num periódico científico, o gênero de discurso adequado é o artigo acadêmico, cuja organização prevê as etapas da investigação científica. Na mídia, o gênero discursivo notícia é utilizado para informar o leitor sobre resultados de pesquisas e descobertas da ciência. Tema da troca, que leva à pergunta “De que se trata?”. No artigo acadêmico, devido às expectativas que o contrato de comunicaçãogera nos interlocutores de determinada comunidade acadêmica, espera-se que o produtor domine o tema em questão, cujo tratamento deve ser julgado relevante para o avanço dos conhecimentos na área. No discurso midiático, quando o jornalista científico informa os temas da ciência, ele os apresenta valendo-se de frequentes citações diretas e indiretas da voz do cientista ou da academia, a fim de garantir credibilidade à notícia. Condições materiais de comunicação, que remete à pergunta “Em que ambiente se inscreve o ato de comunicação, que lugares físicos são ocupados pelos parceiros, que canal de comunicação é utilizado?” (CHARAUDEAU, 2006, p. 70). No caso do artigo acadêmico, ele é publicado em revistas científicas impressas ou digitais dirigidas aos pares. As normas de publicação podem variar conforme a área de conhecimento, mas a organização global do artigo segue regras comuns (conforme Feltrim, Aluísio e Nunes, 2000). As notícias de divulgação científica, por sua vez, são veiculadas em meio impresso ou eletrônico, o que impõe diferenças na organização dos textos. Nas notícias publicadas em formato digital, publicadas em sites ou blogues, por exemplo, é comum o produtor agregar outros conjuntos de informação na forma de blocos de textos, infográficos, imagens ou sons, cujo acesso se dá por hiperlinks. Essas quatro indicações dizem respeito às condições da situação de comunicação que restringem as ações do produtor do texto, isto é, que exercem influência sobre como se organiza seu texto. 1.1.2 A organização discursiva – Como se organiza o discurso? Diante das restrições da situação de comunicação, o produtor do artigo acadêmico se pergunta “Como dizer?”. Frente às instruções contidas nas restrições situacionais, trata-se de saber como devem se comportar os interlocutores, quais gêneros de discurso são pertinentes, que vocabulário empregar etc. No discurso acadêmico, o produtor do artigo é visto como aquele que exerce um papel de possuidor de um saber e que se dirige à comunidade acadêmica para divulgar esse saber. Impõe-se, assim, ao produtor do artigo acadêmico, que ele justifique por que tomou a palavra. Ele deve se apresentar como alguém que tem algo relevante a dizer, conquistando seu direito de poder se comunicar na comunidade acadêmica. Além disso, deve estabelecer relações de força e de aliança, de exclusão e de inclusão. No artigo acadêmico, isso significa não só propor uma questão científica relevante na área de conhecimento em questão, como posicionar-se sustentado por uma teoria explicativa adequada para o tratamento do problema. Além disso, o produtor deve levar em conta a possibilidade de existirem diversos posicionamentos teóricos na área, diferentes daquele assumido na pesquisa, o que o conduz a responder por antecipação objeções que lhe poderiam ser feitas. Há necessidade, dessa forma, de realizar citações, trazendo a palavra de outros (teorias) para reforçar a posição teórica assumida ou para se opor a uma posição diferente. No discurso de midiatização da ciência, o produtor textual, por se dirigir a um público não especializado e não necessariamente interessado em temas científicos, precisa acionar estratégias diferentes, que captem o leitor para a leitura, ao mesmo tempo em que informem, com credibilidade, sobre as novidades da ciência. 1.1.3 Organização linguística – Qual a maneira de dizer? O planejamento discursivo da comunicação tem sua contrapartida nas escolhas linguísticas e na configuração do texto: “Qual a maneira de dizer?”. Essa indagação leva o produtor à escolha das formas para concretizar seu projeto de comunicação inserido num determinado contexto. No artigo científico, se a organização geral é dada – conforme Feltrim, Aluísio e Nunes (2000) –, as formas de dizer, embora sofram influência do contrato acadêmico, dependem das escolhas do produtor. É ele quem planeja o texto, gerindo-o passo a passo. É o produtor, por exemplo, que manipulará o uso dos mecanismos de coesão (conectores, emprego de pronomes etc.), retomando informações já ditas e avançando com informações novas. É ele que decidirá se explicitará conteúdos ou se fará com que o leitor os infira a partir dos conteúdos explicitados; se irá se valer de gráficos, ilustrações, diagramas, infográficos; se utilizará frases mais curtas ou mais complexas etc. Nesse nível também se revela a competência do produtor no manejo do sistema da língua, incluindo, entre outras habilidades, as de empregar as vozes verbais (ativa e passiva), a de transformar orações desenvolvidas em reduzidas e vice-versa, a de utilizar conectores, adjetivos, pronomes, a de fazer escolhas vocabulares etc. Em resumo, atentar para a situação, para as escolhas discursivas e textuais é inerente a toda comunicação. As restrições situacionais agem sobre as escolhas discursivas, que exigem uma contrapartida linguística. 1.1.4 Noção de gênero de discurso Consideramos que os gêneros de discursos são situacionais, isto é, eles se organizam tendo em vista as condições de produção da situação. As características discursivas e linguísticas de uma notícia de divulgação científica, de uma resenha ou de um resumo acadêmico, por exemplo, são determinadas pelas restrições do contrato de comunicação. REFERÊNCIAS CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2009. ______. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006. FELTRIM, V. D.; ALUÍSIO, S. M.; NUNES, M. G. V. Uma revisão bibliográfica sobre a estruturação de textos científicos em Português. Série de Relatórios do NILC. NILC-TR-00-11, out. 2000. Capítulo elaborado por Maria Eduarda Giering. CAPÍTULO 2 GÊNEROS ACADÊMICOS E DE DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA Apresentamos os gêneros discursivos acadêmicos, a notícia de divulgação científica e o conceito de comunidade acadêmica. Os gêneros acadêmicos são produzidos e lidos pela comunidade acadêmica. Conforme Swales (1990), uma comunidade acadêmica é formada por membros – pesquisadores, professores, estudantes – que trabalham usual ou profissionalmente com determinados gêneros (o artigo científico, o resumo, o relatório, por exemplo) e conhecem as convenções desses gêneros que circulam na comunidade. É por meio deles que se intercomunicam, divulgando suas pesquisas e estudos. Uma das condições essenciais para fazer parte da comunidade acadêmica é dominar razoavelmente os gêneros de discurso que ela detém e ser capaz de manejar as convenções comunicativas e os usos da linguagem dessa comunidade. As diversas áreas de conhecimento – Direito, Administração, Economia, Linguística, Medicina, Engenharia, Educação etc. – formam comunidades acadêmicas cujos membros partilham um tópico de estudo, desenvolvem pesquisas e dominam um campo de conhecimento específico. Além disso, utilizam um vocabulário especializado e possuem um conjunto de normas e convenções – nem sempre explicitadas – que os membros devem conhecer. Swales (2009) salienta que os membros novos que se inserem nas comunidades discursivas precisam receber instruções sobre o funcionamento dessas comunidades, tanto no que se refere às práticas discursivas quanto aos hábitos dos seus componentes – e até de seus orientadores – a fim de que possam “ler nas entrelinhas” as expectativas de seus interlocutores. Isso significa que a inserção nas comunidades acadêmicas exige o desenvolvimento de uma série de competências, entre as quais a atenção às situações de comunicação nas quais o conhecimento científico é produzido. Nos capítulos que seguem, estudaremos gêneros de discurso que circulam na academia: o artigo, o resumo e a resenha acadêmica, cada qual envolvendo uma prática discursiva. Os artigos acadêmicos são formas de documentação dos resultados de pesquisas realizadas pelos membros da comunidade acadêmica, que os publicam em periódicos dirigidos aos pares. Conforme Macedo e Pagano (2011), os artigos acadêmicos podem ser classificados em artigos teóricos e artigos experimentais. Nesta obra, estudaremos os experimentais e os teóricos. Estes últimos tratam de assuntose/ou pesquisas que não envolvem a coleta de dados à maneira da pesquisa experimental; aqueles baseiam- se em estudos sobre dados coletados. O resumo acadêmico, por sua vez, circula na comunidade acadêmica como parte integrante do artigo acadêmico, ou como texto independente que apresenta dados essenciais de uma pesquisa a ser apresentada aos pares em eventos científicos. Já a resenha acadêmica, publicada em periódicos que circulam no âmbito da academia, apresenta para a comunidade acadêmica, sob uma perspectiva crítica, o conteúdo e o valor de uma obra (geralmente livro ou artigo acadêmico) que acaba de ser publicada. Externa ao domínio acadêmico, mas vinculada a ele, estudamos também a notícia de divulgação científica, que mescla características dos gêneros artigo acadêmico e notícia. Esse gênero de discurso do domínio midiático oferece à comunidade em geral, não especializada, informações sobre resultados de pesquisas ou descobertas do mundo da ciência, as quais tiveram, num primeiro momento, circulação restringida ao âmbito da comunidade acadêmica. REFERÊNCIAS MACEDO, T. S. de; PAGANO, A. S. Análise de citações em textos acadêmicos escritos. D.E.L.T.A., v. 27, n. 2, p. 257-288, 2011. SWALES, John. Genre analysis: English in academic and research settings. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. Capítulo elaborado por Maria Eduarda Giering. CAPÍTULO 3 O ARTIGO ACADÊMICO-CIENTÍFICO: CONFIGURAÇÃO GLOBAL Este capítulo detalha aspectos gerais da configuração do artigo acadêmico-científico. Demonstramos como se organizam globalmente o artigo acadêmico-científico experimental e o artigo teórico ou de revisão. Swales (1990) sublinha que a abordagem focalizada no gênero exige particular atenção à organização retórica dos textos. Tal observação centraliza o trabalho no que ele chama de esquematização. O autor esclarece essa noção, estreitamente ligada ao gênero, em: Um gênero compreende uma classe de eventos comunicativos, cujos exemplares compartilham os mesmos propósitos comunicativos. Esses propósitos são reconhecidos pelos membros mais experientes da comunidade discursiva original e constituem a razão do gênero. A razão subjacente dá o contorno da estrutura esquemática do discurso e influencia e restringe as escolhas de conteúdo e estilo (SWALES, 1990, p. 58). Com Swales (1990), portanto, enfatizam-se as práticas de linguagem nos eventos comunicativos, no que ele denomina de comunidades discursivas. O autor assinala que essas experiências providenciam uma espécie de conjunto de memórias (ou repertório) de fatos, conceitos, formas de organizar e de dizer algo. Esses conhecimentos de fundo habilitam os interlocutores para a compreensão, a interpretação, a verificação e a avaliação da adequação, da relevância e da “verdade” do que é dito. As escolhas estratégicas do produtor e a estruturação textual-discursiva delimitam esse contorno denominado retórico. Segundo o pesquisador, assim se concretizam os propósitos de um determinado evento comunicativo, por exemplo, a escrita do artigo acadêmico-científico. Em vista disso, ao respondermos à pergunta “Por que escrever um artigo acadêmico-científico?”, é possível, entre outras, apontar as seguintes respostas: a) para comunicar resultados de estudos e pesquisas realizadas; b) para aprimorar a qualidade de aprendizagem e de comunicação do saber; c) para desenvolver hábitos de observação, de leitura, de pesquisa e de registros dessas atividades, a fim de partilhá- las na comunidade acadêmica e fora dela; d) para estimular a atitude científica e possibilitar o avanço da ciência. A partir dessas respostas, é possível afirmar que o conhecimento se constrói por meio de nossos sentidos ou percepções físicas e também mediante as capacidades de abstração e de raciocínio. Assim, podemos reconhecer que o saber oportuniza o entendimento pela descrição e pela explicação daquilo que é descoberto quando comunicado. As ações de pesquisar (que significa “buscar” e “inquirir”), de refletir e comunicar as descobertas são, por isso, cruciais no universo acadêmico-científico (MAGALHÃES, 2005). Tal entendimento remete à ideia de que o artigo acadêmico- científico se funda em um raciocínio demonstrativo, gerador da argumentação sobre três eixos: o da problematização, o do posicionamento e o da persuasão. Nessa troca comunicativa entre os pares, o fim demonstrativo se destaca, pois a situação de comunicação do discurso científico envolve diversos posicionamentos sustentados por teorias diferentes que exigem uma atitude aberta a objeções e contraposições possíveis (CHARAUDEAU, 2008, p. 14). Com base na situação de comunicação e nas características específicas dos parceiros da ação comunicativa realizada, o artigo acadêmico-científico requer, de quem o produz, capacidade para: a) contextualizar o tópico principal sobre o qual escreve em dada área e em relação a outras áreas de conhecimento; b) alinhar justificativa e objetivos de seu estudo, formulando hipóteses, se necessário; c) indicar e relacionar os pressupostos teóricos que balizam o trabalho; d) descrever metodologia e procedimentos gerais adotados; e) apresentar e comentar resultados, fatos e achados; e) apontar contribuições e recomendações a partir dos resultados. Esses cuidados na construção do texto, em vista do leitor que se pressupõe, podem ser aliados à pergunta “Vale a pena ler este texto?” (FEITOSA, 2004). Um artigo acadêmico-científico pode se subespecificar, de acordo com a área onde se insere e consoante o modo como são desenvolvidos os passos da investigação. Em razão disso, pode caracterizar-se como um artigo experimental ou teórico, este também conhecido como artigo de revisão. O artigo experimental tem base em um projeto de pesquisa: discute e apresenta fatos relativos a esse projeto em uma dada área de conhecimento (MOTTA-ROTH, 2010). O formato desse gênero de tipo experimental focaliza detalhadamente as etapas do trabalho de pesquisa, revelando-as em sua estrutura, conforme se visualiza na Figura 1, a seguir, proposta em Swales (1990, p. 134) e adaptada por Feltrim, Aluísio e Nunes (2000, p. 4). Por seu turno, o artigo teórico focaliza aspectos teóricos ligados a um problema ou a um tema específico. Não se concentra essencialmente em resultados, mas visa confirmar hipóteses ou defender uma tese, analisando diferentes abordagens sobre um tema ou problema específico. Esse tipo de artigo procede a uma revisão, por meio da articulação de diferentes teorias relacionadas ao foco escolhido para análise, por isso não é comum encontrar no artigo de revisão uma seção específica com título “Resultados”. A seguir, a primeira configuração de artigo acadêmico-científico – experimental – é estudada, na sua forma global, com base no texto A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 125-134). Trata-se de um artigo produzido por Roseane Andrelo, autora, e Rosária Helena Ruiz Nakashima, coautora, ambas doutoras em Educação. A revista acadêmica Educação UNISINOS (http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/index), em que ele foi publicado, é quadrimestral e dá continuidade à Revista Estudos Leopoldenses – Série Educação, fundada em 1997. A revista publica artigos nacionais e internacionais originais e inéditos, oriundos de pesquisas que concorram para a qualificação da produção do conhecimento do campo da Educação e áreas afins. O artigo de Andrelo e Nakashima tem como fim discursivo expor o conhecimento adquirido, por meio de revisão bibliográfica e pesquisa de campo, sobre a formação de professores para a utilização da Web 2.0 em sala de aula. Visando à publicação, as autoras seguiram as regras ditadas pela revista para a submissão de artigos, item “Diretrizes para autores” (http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/about/submissions#authorGuidelines O texto, que analisamos seguindo a esquematização proposta por Swales (2000), se encontra na íntegra nas páginas finais, em anexo, deste livro. O esquemade análise tem base em: Figura1 – Artigos experimentais. Fonte: Feltrim, Aluísio e Nunes (2000, p. 4). http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/index http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/about/submissions#authorGuidelines O desenho trazido de Swales (1990, p. 133-134), em formato de ampulheta, evidencia uma organização do texto com características de início mais geral (motivo de a forma mostrar uma abertura para cima). Há um estreitamento, quando se delimita a introdução, e, mais ainda, quando se especifica o foco nas seções de materiais-métodos e resultados. Tal esquema demonstra abertura específico-geral, mostrando um novo procedimento de generalização, marcado, na Figura 1, pela abertura em forma de um novo trapézio na base inferior da ampulheta. O trapézio inferior abriga a discussão e as conclusões do texto do artigo acadêmico, quando se relacionam com ou se explicam as descobertas e as comprovações específicas na direção de, por exemplo, outros estudos já realizados sobre o tema. As seções do artigo acadêmico exercem funções específicas na construção do sentido do texto. Assim, de modo muito breve, vale destacar: ao resumo, cabe indicar muito sucintamente objetivos, metodologia, resultados e conclusões do trabalho; à introdução, reservam-se as ações de especificar tais objetivos, lacunas existentes no tema ou problema focalizado, hipóteses de pesquisa, contexto que situe e justifique o trabalho realizado; à seção de materiais e métodos ou metodologia, é atribuída função de explicitar o percurso e os instrumentos, o modo como se concretizou a pesquisa. A etapa de resultados e discussão é o foco para onde convergem todas as ações do artigo, visto que retoma as promessas ou metas estabelecidas nas etapas anteriores: os resultados são enumerados e explicados à luz de pressupostos adotados. A conclusão consiste em uma avaliação global dos resultados alcançados e explicados, inserindo o trabalho, até então tratado no espaço mais restrito da pesquisa, no universo de investigações sobre o tema; também aponta a relevância do que foi tratado e oferece novas bases para levantar e estudar questões futuras. Nos estudos que propomos neste capítulo, os movimentos dos textos estão anotados em balões que apontam para o corpo dos textos. Nesses balões e também em boxes, apresentam-se caracterizações, identificando as ações globais que o produtor do texto realiza ao compor um artigo acadêmico-científico experimental no texto já mencionado de Andrelo e Nakashima (2012). A introdução prossegue com diversas considerações teóricas sobre o tema, como reconhecemos em: Assim como o artigo acadêmico-científico experimental, o artigo teórico apresenta as etapas de construção estudadas, mas com sutis diferenças que merecem destaque. No artigo acadêmico-científico teórico, identificamos: Figura 3 – Artigo teórico ou de revisão. Fonte: elaborada pelas autoras do capítulo, com base em Feltrim, Aluísio e Nunes (2000, p. 4). Assim como no artigo experimental, no artigo teórico (também chamado de artigo de revisão), o resumo deve indicar muito sucintamente objetivos, metodologia, resultados e conclusões do trabalho; a introdução precisa especificar os objetivos, as lacunas existentes ou o problema a estudar, as hipóteses de pesquisa, o contexto do trabalho realizado, as linhas teóricas assumidas. À seção de materiais e métodos ou metodologia, do artigo experimental, correspondem seções como percurso metodológico, pressupostos teóricos e títulos específicos de cada tema abordado em artigos desse tipo. Tal seção deve explicitar as escolhas teóricas e demais procedimentos que esclarecem o modo como se concretiza a investigação e pode aparecer integrada no corpo do trabalho, quando são apresentadas e discutidas teorias anteriores ao estudo em curso no artigo teórico. Semelhantemente, a etapa de resultados e discussão em geral, no artigo teórico, assume títulos também específicos do tema em questão no trabalho ou aparece diluída no corpo do texto. Lembre, no entanto, que essa etapa ainda é o foco para onde convergem todas as ações do artigo, visto que retoma as promessas ou metas estabelecidas nas etapas anteriores: ideias encontradas são recuperadas e explicadas à luz dos pressupostos levantados. A conclusão realiza uma avaliação global desse estudo e corrobora a relevância do trabalho no âmbito de estudos já existentes sobre o tema, evocando novas bases para estudar questões futuras. Focalizamos, a partir deste ponto, o artigo teórico A contribuição da psicologia escolar na prevenção e enfrentamento do bullying (FREIRE; AIRES, 2012, p. 55-60), cujo texto integral também consta dos anexos deste livro. O estudo foi publicado na revista Psicologia Escolar e Educacional, periódico vinculado à Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional (Abrapee)1, que objetiva constituir-se num espaço para a apresentação de pesquisas atuais no campo da Psicologia Escolar e Educacional e servir como veículo de divulgação do conhecimento produzido na área. Redigido por Alane Novais Freire e Januária Silva Aires, graduanda e mestre em Psicologia, respectivamente, o artigo discute a relação entre bullying e psicologia escolar. Para a organização do texto acadêmico em foco, as autoras seguiram as normas indicadas no item Instrução aos autores, publicadas pela revista.2 O artigo teórico de Freire e Aires mostra um resumo acadêmico seguido de versão em dois idiomas – inglês e espanhol. Após as palavras-chave, vem a introdução, que cumpre etapas e funções estudadas no texto anterior. Leiamos atentamente. Veja que este artigo de revisão focaliza um referencial teórico, efetuando entrelaçamentos entre ideias postas em jogo no texto. De modo semelhante, essas afirmações e relatos de assertivas defendidas por outros estudos são elaborados verbalmente com objetividade e clareza. É possível dizer que existe uma mediação das autoras de um panorama amplo de ideias sobre o problema. Isso mapeia e tece o percurso da análise que se faz do bullying e do papel do profissional da Psicologia diante e dentro dessa situação. Ambos os artigos – experimental e teórico – são finalizados com as referências, etapa importantíssima da escrita acadêmica, que é onde se indicam as obras consultadas. As normas da ABNT são habitualmente exigidas, com adaptações ou regramentos que cada revista impressa ou eletrônica requisita. REFERÊNCIAS ANDRELO, Roseane; NAKASHIMA, Rosária H. R. A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura. Educação Unisinos, v. 16, n. 2, p. 125-134, maio/ago. 2012. Disponível em: http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/article/view/edu.2012.162.04. Acesso em: 20 fev. 2013. CHARAUDEAU, Patrick. La médiatisation de la science: clonage, OGM, manipulations génétiques. Bruxelas: Éditions De Boeck Université, 2008. FEITOSA, Vera Cristina. Redação de textos científicos. São Paulo: Papyrus Editora, 2004. FELTRIM, Valéria D; ALUÍSIO, Sandra M.; NUNES, Maria G. V. Uma Revisão Bibliográfica sobre a Estruturação de Textos Científicos em Português. São Carlos: ICMC-USP, 2000. FREIRE, Alane Novais e AIRES, Januária Silva. A contribuição da psicologia escolar na prevenção e no enfrentamento do Bullying. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, SP. Volume 16, Número 1, Janeiro/Junho de 2012: 55-60. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php? script=sci_arttext&pid=S1413-85572012000100006 Acesso em: 20/02/13. FUCHS, Juliana Thiesen. A seção de introdução/A seção materiais-métodos/A seção de resultados. In: GIERING, Maria Eduarda; ALVES, Isa Mara da Rosa; MELLO, Vera Helena Dentée de. Leitura e produção de artigo acadêmico-científico. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2010. http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/article/view/edu.2012.162.04 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-85572012000100006 MAGALHÃES, Gildo. Introdução à metodologia da pesquisa: caminhosda ciência e tecnologia. São Paulo: Ática, 2005. MOTTA-ROTH, Désirée (org.). Redação acadêmica: princípios básicos. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, Imprensa Universitária, 2010. SWALES, John. Genre analysis: English in academic and research settings. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. Capítulo elaborado por Juliana Alles de Camargo de Souza e Maria Eduarda Giering. 1 <www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=1413-8557&lng=pt&nrm=iso>. 2 <www.scielo.br/revistas/pee/pinstruc.htm>. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_serial&pid=1413-8557&lng=pt&nrm=iso http://www.scielo.br/revistas/pee/pinstruc.htm CAPÍTULO 4 O RESUMO ACADÊMICO-CIENTÍFICO: CARACTERÍSTICAS Neste capítulo, apresentamos as principais características de um resumo acadêmico- científico com o intuito de habilitá-lo a ler e produzir esse gênero discursivo. 4.1 O que é? O resumo acadêmico-científico, também chamado de resumo acadêmico, pode corresponder (i) a uma parte de uma publicação acadêmico-científica ou (ii) a uma publicação que integra resumos de um evento ou periódico. O primeiro é elemento constitutivo de um texto maior, o artigo acadêmico-científico, e o segundo configura-se como um texto independente que apresenta, de forma sucinta, os aspectos essenciais de uma pesquisa. No primeiro caso, o resumo é a primeira seção de um artigo acadêmico- científico, denominada sempre “resumo”, e possui a função de apresentar ao leitor as informações essenciais do artigo. Barrass (1991), na obra Os cientistas precisam escrever: guia de redação para cientistas, engenheiros e estudantes, destaca que o resumo deve ser cuidadosamente elaborado porque muitos leem apenas o título e o resumo de um trabalho. No segundo caso, o resumo é o texto enviado à comissão científica de um evento para que seja avaliada a pertinência e a adequação da pesquisa aos propósitos do evento; portanto, nesse caso, é um texto que tem a função de apresentar, em síntese, um trabalho de pesquisa que pode ou não estar finalizado. Tendo em vista sua independência, esse resumo recebe um título que contextualize a pesquisa que está sendo apresentada. Ambos os tipos de resumo correspondem a um texto demarcado por certa extensão, que, conforme a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), deve ter entre duzentas e quinhentas palavras, além de ser organizado em parágrafo único. A determinação da ABNT, no entanto, vale para situações em que o local de publicação do artigo (revista ou periódico) não estabelece outros critérios. 4.2 Quem escreve para quem? O resumo acadêmico é escrito pelos mesmos autores do artigo; pode ser redigido, portanto, por pesquisadores, cientistas, acadêmicos e estudantes. O público- alvo do resumo, por sua vez, pode ser composto por (a) leitores de artigos acadêmicos em revistas especializadas, (b) acadêmicos e professores de uma determinada área de estudos e (c) interessados em áreas específicas de pesquisa. 4.3 Onde é veiculado? Fundamental à constituição do texto, o local em que o resumo acadêmico geralmente é publicado são as revistas especializadas (periódicos) de áreas específicas do conhecimento em versões impressas ou online. O resumo somente constitui-se como gênero acadêmico-científico quando é veiculado nesses ambientes, que representam as circunstâncias materiais características desse tipo de resumo. 4.4 Qual é a sua finalidade? O produtor de um resumo acadêmico visa a orientar o leitor do artigo para aspectos essenciais que integrarão o texto completo. Além de indicar – de forma sucinta, interessante e informativa – as principais descobertas, a finalidade do resumo é motivar a leitura do texto ou da pesquisa a que remete; por isso, é fundamental que o produtor do texto atente para os elementos que o compõem. 4.5 O que deve ser abordado? Os gêneros do discurso científico se caracterizam, conforme Charaudeau (2008), por uma finalidade demonstrativa, mediante a qual o produtor do texto, que possui a autoridade de um saber, apresenta fatos e provas ao leitor por meio de um raciocínio hipotético-dedutivo que estabelece encadeamento entre as diferentes informações que compõem o texto. Para que o propósito comunicativo do resumo acadêmico seja atendido, a organização de suas informações se estabelece em cinco movimentos – adaptação do conceito de movimento de Swales (1990) e dos componentes do resumo do texto científico conforme Feltrim (2004): Movimento 1 – apresentação da pesquisa: tem a função de expor o tópico principal da pesquisa e apresentar os objetivos e as hipóteses que a orientam. Movimento 2 – contextualização da pesquisa: tem por função situar a investigação em relação a uma determinada área de conhecimento por meio da descrição do problema de pesquisa e da apresentação de pesquisas ou de teorias que já tenham tratado do tema em questão. Movimento 3 – apresentação da metodologia: tem a função de apresentar o método de investigação utilizado na pesquisa, através da descrição dos procedimentos metodológicos e da articulação de variáveis e de fatores de controle. Movimento 4 – sumarização dos resultados: tem por função mostrar os principais achados/dados da pesquisa, bem como comentar, de forma breve, os resultados obtidos. Movimento 5 – conclusão da pesquisa: tem por função apresentar as conclusões do estudo, por meio da articulação das hipóteses com os resultados da pesquisa. Também é possível apontar a contribuição do estudo para a comunidade científica, e é recomendável apresentar indicações de futuras pesquisas sobre o tema em estudo. Para finalizar a apresentação dos movimentos retóricos que compõem um resumo acadêmico, é importante ressaltar que são permitidas certas inversões na ordem de inclusão dessas informações no texto e, além disso, há movimentos e passos obrigatórios e opcionais. É recorrente, na literatura de diferentes áreas do conhecimento, a recomendação da inclusão de, pelo menos, os seguintes movimentos: apresentação da pesquisa, da metodologia, da sumarização dos resultados e/ou da conclusão. 4.6 Análise de um resumo de artigo acadêmico a partir das unidades temáticas propostas por Swales (1990) e Feltrim (2004) Em relação ao resumo do artigo “A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012), que se encontra em anexo ao final deste livro, as pesquisadoras pretendem sustentar que “Os estudantes pesquisados demonstram dificuldade em usar a web de forma didática e o problema se agrava quando se trata da Web 2.0, que pressupõe o foco no usuário e a colaboração”. Para fundamentar essas afirmações, as autoras indicam, no resumo, a amostra de sua pesquisa, a metodologia utilizada e os resultados obtidos, os quais são descritos e discutidos no artigo. Palavras-chave: formação de professores, recursos da Web 2.0 , tecnologia da informação e da comunicação (TIC). O movimento 1, apresentação da pesquisa, ocorre na primeira frase do resumo em análise e expõe os objetivos do estudo. A segunda frase do resumo mostra o movimento 2, contextualização da pesquisa, situando a investigação através da descrição de sua motivação. O problema de pesquisa é apresentado. O movimento 3, apresentação da metodologia, está constituído de três frases, em que as pesquisadoras descrevem os procedimentos metodológicos adotados. A terceira frase mostra os métodos empregados, ou seja, como a pesquisa foi realizada (revisão bibliográfica e pesquisa de campo). A quarta e a quinta frases indicam como a amostra foi constituída: 213 estudantes de uma determinada disciplina de uma universidade particular de São Paulo. A sexta e a sétima frases do resumo em análise constituem o movimento 4, sumarização de resultados, em que as pesquisadoras descrevem os principais achados da pesquisa: o universo pesquisado tem acesso ao computador e à internet, tem certa habilidade para utilizar recursos da internet, pensa que é importante usar esses recursos no processo de ensino e aprendizagem e tem dificuldadepara usar a web e a Web 2.0 com fins pedagógicos. A última frase apresenta o movimento 5, conclusão da pesquisa, em que as pesquisadoras apontam a contribuição do estudo. Nesse caso específico, a contribuição não é apenas para a comunidade científica, mas também para a comunidade escolar: há uma necessidade de se repensar os cursos de formação de professores para que se possa capacitá-los a utilizar tecnologias digitais como a Web 2.0. 4.7 Palavras-chave Após o resumo acadêmico, devem ser apresentadas, no mínimo, três e, no máximo, cinco palavras-chave, que equivalem a um tipo de resumo organizado sob a forma de substantivos. Elas devem ser listadas em ordem de importância, como, por exemplo, o assunto, a área de conhecimento e a conclusão da pesquisa realizada. É importante destacar que a palavra-chave pode ser uma expressão; assim, se o artigo abordar “tecnologia da informação e da comunicação”, é essa expressão que deve ser incluída, não as palavras “tecnologia”, “informação” ou “comunicação”. No resumo do artigo em análise, as autoras utilizaram as seguintes palavras- chave: formação de professores; recursos da Web 2.0; tecnologia da informação e da comunicação (TIC). A primeira palavra-chave indica a grande área do estudo. As palavras-chave seguintes referem-se ao assunto do trabalho. 4.8 Algumas questões linguístico-discursivas em jogo no resumo acadêmico-científico 4.8.1 Tempos verbais Feltrim, Aloísio e Nunes (2000) recomendam que a contextualização da pesquisa seja redigida, em geral, no presente, enquanto o objetivo do trabalho pode ser indicado tanto no presente quanto no passado, assim como a apresentação da metodologia. Já os resultados devem ser escritos no passado, e as conclusões ou as recomendações, no presente. Além disso, devem ser utilizadas as formas verbais impessoais, flexionadas na terceira pessoa do singular (constata-se, investiga-se) ou na primeira pessoa do plural (investigamos, constatamos). Observamos que o movimento de apresentação da pesquisa é redigido no presente. Já em relação aos movimentos de contextualização e de apresentação da metodologia, as autoras flexionam os verbos, em sua maioria, no passado: “foi” (contextualização); “foi desenvolvida”, “foi representado” e “foram selecionados” (metodologia). A utilização da voz passiva (por exemplo, “foi desenvolvida”), com o objetivo de enfatizar a ação realizada e não o responsável pela ação, e o uso de formas verbais impessoais (“aponta-se”) causam um efeito de imparcialidade e de neutralidade, característica do discurso científico. 4.8.2 Construção frasal Feltrim, Aloísio e Nunes (2000) recomendam que as frases utilizadas na redação do resumo sejam redigidas, geralmente, na ordem direta (sujeito-verbo-complementos). Além disso, é recomendável elaborar uma frase, no mínimo, para cada movimento. As frases devem ser, conforme Swales (1990), afirmativas e diretas; portanto, não é recomendável o uso de períodos longos compostos por subordinação. Ainda, o uso de abreviaturas e de símbolos que possam provocar erros de interpretação deve ser evitado. Caso seja necessário utilizar uma sigla, toda a expressão deve ser explicitada por extenso, colocando-se a sigla entre parênteses, na primeira vez em que for anotada. No resumo em análise, a primeira frase, por exemplo, é afirmativa e está na ordem direta, não é um período longo: “O objetivo do artigo é discutir a importância da formação de professores para a utilização da Web 2.0 em sala de aula”. Além disso, observamos que uma das palavras-chave é uma abreviatura, explicitada por extenso. 4.8.3 Palavras e expressões recorrentes no resumo Para cada etapa do resumo, há palavras ou expressões que tipicamente antecedem a apresentação de cada um dos movimentos retóricos com o objetivo de facilitar a comunicação, possibilitando ao leitor uma compreensão antecipada do conteúdo em questão. No movimento referente à apresentação da pesquisa, é possível empregar, por exemplo, expressões como “o objetivo deste trabalho”; já no movimento relacionado à apresentação da metodologia, expressões como “técnica de coleta de dados” e “método de tabulação dos dados” podem ser utilizadas. Observamos que, no movimento retórico de apresentação da pesquisa, é utilizada a palavra “objetivo” para indicar que, a seguir, é exposto o propósito do estudo. Fato semelhante ocorre em relação ao movimento 3, que é introduzido pela expressão “como metodologia”, que indica ao leitor qual é o conteúdo da sentença. 4.9 Etapas para a elaboração do resumo de um artigo acadêmico-científico Nesta seção, você aprenderá as etapas para redigir um resumo acadêmico. Etapa 1 Responda às seguintes perguntas. Você pode formular uma ou duas respostas para cada questão. Apresentação da pesquisa: Qual é o tema do trabalho? Qual é o objetivo do trabalho? Contextualização da pesquisa: Qual é a área de conhecimento em que se insere o trabalho? Qual é o problema de pesquisa? Apresentação da metodologia: Que metodologia é usada para a realização da pesquisa? Como foi feita a coleta de dados? Como o corpus foi constituído? Como foi feita a análise dos dados? Sumarização dos resultados: Quais são os resultados mais importantes do estudo? O que os resultados significam em relação ao problema de pesquisa investigado? Conclusões da pesquisa: Para que conclusões ou recomendações a pesquisa aponta? Etapa 2 Inicie a redação a partir das respostas dadas às questões do passo 1. Etapa 3 Acrescente palavras ou expressões antes da apresentação de cada um dos movimentos retóricos com o objetivo de facilitar a compreensão. Etapa 4 Faça paráfrase1 das informações referentes às unidades temáticas pertinentes. Etapa 5 Escolha de três a cinco palavras-chave e escreva-as após o texto, precedidas do vocábulo “palavras-chave”. Etapa 6 Revise o texto em busca de incorreções gramaticais. Etapa 7 Submeta o texto a um leitor experiente, a fim de verificar se ele compreendeu o trabalho. Etapa 8 Releia e reescreva o texto quantas vezes for preciso. O resumo publicado não pode ser alterado e fica como registro do trabalho; portanto, é necessário ter cuidado. Faça os ajustes necessários, e o seu resumo estará pronto. REFERÊNCIAS ANDRELO, Roseane; NAKASHIMA, Rosária H. R. A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura. Educação Unisinos, v. 16, n. 2, p. 125-134, maio/ago. 2012. Disponível em: http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/article/view/edu.2012.162.04. Acesso em: 20 fev. 2013. BARRASS, Robert. Os cientistas precisam escrever: guia de redação para cientistas, engenheiros e estudantes. 3 ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 1991. CHARAUDEAU, Patrick. Linguagem e discurso: modos de organização. São Paulo: Contexto, 2008. FELTRIM, V. D.; ALUÍSIO, S. M.; NUNES, M. G. V. Uma revisão bibliográfica sobre a estruturação de textos científicos em Português. Série de Relatórios do NILC. NILC-TR-00-11, out. 2000. ______. Uma abordagem baseada em corpus e em sistemas de crítica para a construção de ambientes Web de auxílio à escrita acadêmica em português. Tese de doutorado. ICMC-USP, 169p., 2004. SWALES, J. M. Genre analysis: English in academic and research settings. Cambridge: Cambridge University, 1990. http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/article/view/edu.2012.162.04 Capítulo elaborado por Cristina Pimentel Damim, Isa Mara da Rosa Alves, Janaína Lemos Becker e Silvana Kissmann. 1 Para aprender a fazer paráfrases, leia o Capítulo 10. CAPÍTULO 5 A RESENHA ACADÊMICA Este capítulo trata das características gerais do gênero de discurso resenha acadêmica e de alguns requisitos necessários para redigi-lo. Também esclarece sob que base teórica se conduzirá o estudo de uma resenha no capítulo posterior. A resenha acadêmica é um gênero de discurso que apresenta criticamente uma obra (livro ou artigo científico). Ela é produzida ou por especialistas em uma área de conhecimento para ser publicada em revistas acadêmico-científicas dirigidasa especialistas, ou por estudantes, geralmente universitários, no cumprimento de tarefas acadêmicas. A resenha, no entanto, não circula apenas na academia. Podemos resenhar obras literárias e/ou artísticas: um livro de literatura, uma peça de teatro, um filme, um CD. É provável que você já tenha tido contato com uma resenha desse tipo – publicada em jornal, revista, blogue –, informando sobre o conteúdo de uma obra, de uma apresentação ou de um evento e tecendo avaliações ou comentários sobre o fato. É possível também que, a partir dessa leitura, você tenha se interessado – ou não – em ler certo romance, em assistir a uma peça de teatro ou a um filme, em comprar um CD de um artista ou banda. Neste livro vamos nos concentrar no estudo da resenha acadêmica, um gênero de discurso de grande circulação e importância nos meios universitários, porque permite, como afirma Severino (1998), que tomemos conhecimento prévio do conteúdo e do valor de uma obra (livro ou artigo acadêmico) que acaba de ser publicada. Isso é importante se desejamos estar atualizados sobre temas científicos de nosso interesse. Podemos, após ler a resenha, querer ler a obra original que foi resenhada ou mesmo comprar o livro recém-lançado. A leitura da resenha acadêmica, portanto, pode também influenciar a decisão de compra ou de leitura de uma obra. É possível economizar tempo e dinheiro lendo resenhas acadêmicas! Da mesma forma, quando estamos estudando ou investigando um tema científico, podemos querer saber o que já foi publicado sobre ele em livros e artigos acadêmicos, isto é, fazer um levantamento bibliográfico de determinado campo de estudo. Neste caso, a leitura de resenhas permite que realizemos uma seleção das obras que podem apresentar conteúdos ou abordagens relevantes para nosso estudo. Feito isso, o leitor decide se consulta ou não o original. Diferentemente da resenha que circula na mídia impressa ou eletrônica endereçada a um público mais geral, a resenha acadêmica se dirige a um público especializado numa determinada área de estudo acadêmico-científica, ou seja, ela pressupõe leitores especialistas na área, os chamados pares. Essas resenhas são publicadas em revistas acadêmicas ou em sites especializados e são redigidas, geralmente, por estudiosos no assunto contido na obra. No meio universitário, professores também costumam solicitar a redação de resenhas de obras e artigos a seus alunos. O objetivo principal, neste caso, é desenvolver a leitura crítica e avaliar a qualidade da leitura dos estudantes. Para redigir uma resenha, é preciso ter bom conhecimento da obra e da área disciplinar em que se situa seu conteúdo e, mais do que isso, é necessário ter capacidade de juízo de valor e saber estabelecer relações com outras obras já conhecidas na área. A resenha, portanto, quando redigida em ambiente de sala de aula, serve para avaliação de compreensão e crítica. Medeiros (2010) salienta que ela contribui para desenvolver mentalidade científica e levar o iniciante à pesquisa e à elaboração de trabalhos monográficos. A resenha, assim, desempenha o papel de instrumento de introdução ao diálogo acadêmico no processo de ensino e aprendizagem dos cursos de graduação e de pós- graduação. Os professores, quando solicitam a redação da resenha, muitas vezes, utilizam diferentes termos para se referir a ela: “resenha”, “resenha crítica”, “resenha bibliográfica”, “recensão crítica”. Neste livro, estamos empregando o termo único “resenha”. Consideramos que o gênero resenha implica não apenas exposição de conteúdo, mas também tomada de posição do resenhista sobre o valor e o alcance da obra que está sendo avaliada. Ao termo resenha acrescentamos a qualificação “acadêmica” – resenha acadêmica –, já que tratamos da organização de resenhas que circulam no meio social acadêmico. Na verdade, a resenha acadêmica está intrinsecamente relacionada à comunidade acadêmica, formada por professores, estudantes, pesquisadores, na qual circulam vários outros gêneros discursivos: o artigo, o resumo, o relatório, por exemplo. Os membros dessa comunidade conhecem as convenções dos gêneros que circulam em seu ambiente e é por meio deles que se intercomunicam. Uma das condições essenciais para fazer parte da comunidade acadêmica é dominar razoavelmente os gêneros de discurso que nela circulam e ser capaz de manejar as convenções comunicativas e os usos da linguagem dessa comunidade. Em se tratando da resenha, a comunidade acadêmica tem certas expectativas quanto às ações linguístico-discursivas do resenhista. Ela espera, por exemplo, que o texto da resenha descreva, relate e argumente. Descreva um conjunto de propriedades da obra (título, credenciais do autor, estrutura da obra, resumo do conteúdo); relate dados que evoluam no tempo e no espaço (passagem da vida do autor, progresso, reformulação de suas ideias); argumente (comentários sobre as ideias do autor, julgamento sobre as qualidades da obra, apresentando argumentos e provas). Para redigir resenhas acadêmicas, são necessários alguns requisitos. Além do indispensável conhecimento na área temática da obra, é preciso conhecer a estrutura da resenha e, como bem salienta Medeiros (2010, p. 152), “saber que resenha não é resumo da obra, nem transcrição de trechos”. O resumo é apenas um dos elementos da resenha: “se, por um lado, o resumo não admite o juízo valorativo, o comentário, a crítica; a resenha, por outro lado, exige tais elementos” (MEDEIROS, 2010, p. 157). O gênero de discurso denominado “resumo acadêmico” circula em cadernos de resumo de eventos acadêmico-científicos como congressos, simpósios, mostras científicas, entre outros. O resumo acadêmico também é encontrado junto ao artigo acadêmico (após o título e o nome do autor), apresentando, num parágrafo único e de forma sumária, o conteúdo que o leitor encontrará no corpo do artigo. O resumo que se mostra na resenha, no entanto, tem outras características e cumpre o objetivo, como acentua Medeiros (2010, p. 161), de “informar o leitor sobre o que contém o livro, qual sua estrutura, quantas partes tem, quantos capítulos, qual a profundidade e extensão dos assuntos abordados”. No Capítulo 6, no qual procedemos à análise de uma resenha, expomos a estrutura da resenha acadêmica a partir das ações que o resenhista deve (ou pode) executar para organizar o texto de acordo com as expectativas dos membros da comunidade acadêmico-científica na qual esse gênero de discurso circula. Outro ponto importante a se observar quando se escrevem resenhas acadêmicas está no fato, conforme Fiorin e Savioli (1996), de que a resenha nunca pode dar conta de forma completa e exaustiva do objeto resenhado. A seleção do que vamos dizer e de como vamos dizer está relacionada a fatores como o fim comunicacional que temos em vista, o público a que nos dirigimos, a área de conhecimento a que pertence a obra, o veículo em que ela é publicada. Por isso, para compor uma resenha, é fundamental que tenhamos claro os aspectos situacionais que envolvem sua produção. É preciso também que saibamos como a área de conhecimento na qual nos encontramos valoriza ideias, posições teóricas, métodos. Não podemos esquecer que a resenha é essencialmente argumentativa, pois defende um ponto de vista. Portanto, quem escreve resenhas deve ter habilidade para argumentar, comparar, distinguir detalhes, saber selecionar argumentos válidos na área de conhecimento em que circula a resenha para provar sua posição. E argumentar não significa tecer elogios ou críticas sem cabimento. Para uma argumentação consistente, que comprove a qualidade (ou sua ausência) da obra, é preciso, de forma objetiva e clara, apoiar-se em fatos, em provas. Assim, “explicar as razões para avaliações positivas ou negativas demanda, por parte do resenhador, uma retórica elaborada”, comentam as linguistas Motta-Roth e Heberle (2005, p. 21). Não esqueçamos que uma das finalidades essenciais desse gênero de discurso é fornecer informações e julgamentos de maneira que o leitor possa se decidir pela leitura ouaquisição da obra original. Salientamos ainda que a crítica presente na resenha, como expõe Severino (1998), deve ser dirigida às ideias e posições do autor, nunca a sua pessoa ou às condições pessoais de sua existência. Trata-se de manter uma postura ética, tecendo considerações justas, pois, como bem afirma Severino, na medida em que o resenhista expõe e aprecia as ideias do autor, estabelece com ele um diálogo. É possível defender pontos de vista coincidentes ou não com o autor resenhado de maneira equilibrada e polida. Neste livro, trabalhamos com o gênero de discurso “resenha acadêmica” a partir dos estudos de John Swales (1990), voltados para gêneros discursivos em contexto acadêmico, e de Patrick Charaudeau (2006), que postula a ideia de que todo locutor (o resenhista, neste caso) deve se submeter às restrições da situação na qual se dá a troca de linguagem e, mais do que isso, deve supor que seu interlocutor (leitor) reconhece as mesmas restrições. De acordo com o linguista, os interlocutores devem ter competência situacional para reconhecer as condições de realização da troca de linguagem em que estão envolvidos. Com o objetivo de descrever aspectos relevantes da situação de comunicação na qual se inserem as resenhas acadêmicas que selecionamos para estudo, valendo-nos da proposta semiolinguística de P. Charaudeau (2006), responderemos às seguintes questões: Quem se dirige a quem? Com que finalidade? De que tema trata? Em que ambiente se inscreve o ato de comunicação? Que canal de comunicação é utilizado para a troca de linguagem? Para análise da organização das resenhas, empregaremos a Sociorretórica, de J. Swales. Essa teoria se apoia em uma análise linguística que revela muito da construção do texto e das práticas sociais – acadêmicas e profissionais – determinantes das escolhas linguísticas que configuram o texto. Swales (1990), a partir do exame da organização retórica de exemplares do gênero artigo de pesquisa, postulou, com fins didáticos, um modelo que aponta movimentos típicos do produtor textual voltados para objetivos específicos. Esse modelo descritivo, constituído de “movimentos” (unidades maiores) e “passos” (unidades menores) retóricos, tem sido aplicado, com adaptações, na análise de diferentes gêneros, entre eles, a resenha acadêmica. É o caso dos trabalhos de Motta-Roth (1995) e de Araújo (1996), para resenhas em inglês, e de Bezerra (2009), que se dedicou a resenhas acadêmicas em português. REFERÊNCIAS ARAÚJO, A. D. Lexical signalling: a study of unspecific-nouns in book reviews. 1996. Tese (Doutorado em Linguística Aplicada) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. BEZERRA, B. G. A resenha acadêmica em uso por autores proficientes e iniciantes. In: BIASI-RODRIGUES, B.; ARAÚJO, J. C.; SOUZA, S. C. T. de. Gêneros textuais e comunidades discursivas: um diálogo com John Swales. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. CHARAUDEAU, P. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006. FIORIN, J. L.; SAVIOLI, F. P. Para entender o texto: leitura e redação. São Paulo: Ática, 1996. MEDEIROS, J. B. Redação científica: a prática de fichamentos e resenhas. São Paulo: Atlas, 2010. MOTTA-ROTH, D. Rhetorical features and disciplinary cultures: a genre-based study of academic book reviews in linguistics, chemistry and economics. 1995. Tese (Doutorado em Linguística Aplicada) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. MOTTA-ROTH, D.; HABERLE, V. M. O conceito de “estrutura potencial do gênero” de Ruqayia Hasan. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. Gêneros: teorias, métodos, debates. Rio de Janeiro: Parábola, 2005. SEVERINO, A. J. Metodologia do trabalho científico. 20. ed. São Paulo: Cortez, 1998. SWALES, J. M. Genre analysis. English in academic and research settings. Cambridge: Cambridge University, 1990. Capítulo elaborado por Maria Eduarda Giering. CAPÍTULO 6 NOS PASSOS DA RESENHA Este capítulo sintetiza aspectos relevantes da situação de comunicação de uma resenha acadêmica, esclarecendo o contrato de comunicação de onde emerge esse gênero. A seguir, esclarece como se configura globalmente uma resenha acadêmica, analisando as ações e os passos que a constituem. Para isso, estudamos a resenha sobre o livro Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. Para a caracterização do quadro situacional que delineou a produção textual da resenha Letramentos múltiplos, escola e inclusão social (KARWOSKI, 2010), identificamos as categorias indicadas por Charaudeau (2006) definidoras da situação de comunicação, respondendo às questões: Quem se dirige a quem? Em que ambiente se inscreve o ato de comunicação? Que canal de comunicação é utilizado? Com que finalidade o texto é produzido? De que trata o texto? A resenha foi veiculada online na Revista Delta (Documentação de Estudos em Linguística Teórica e Aplicada), 1 editada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Segundo consta na página indicada, esse periódico “publica estudos de caráter teórico ou aplicado, oriundos de qualquer área referente ao fenômeno linguístico, desde que se trate de contribuições inéditas cujos autores tenham título de doutor”. A revista, portanto, insere-se num contexto acadêmico-científico e se dirige à comunidade de professores, pesquisadores, estudantes e profissionais da área da Linguística, interessada em informações e discussões científicas sobre temas relevantes para essa comunidade e em resenhas que versem sobre obras pertinentes. Um corpo editorial e consultores ad-hoc (especialistas convidados) fazem a avaliação científica dos textos enviados para uma possível publicação. Tanto o redator dos artigos e resenhas presentes na revista quanto os avaliadores, pertencentes a uma mesma comunidade científica, manejam as convenções comunicativas e os usos da linguagem dessa comunidade. Eles sabem qual a expectativa da comunidade acerca dos gêneros discursivos que ali circulam e obedecem às exigências da área. O texto da resenha Letramentos múltiplos, escola e inclusão social é do Doutor Acir Mario Karwoski, atualmente pró-reitor de Ensino da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM), atuante em Linguística Aplicada e Português nesta e em outras universidades brasileiras. A resenha faz conjunto com artigos e outras resenhas que versam sobre diversos temas ligados à Linguística, já que não se trata de uma edição especial do periódico, isto é, sobre um só núcleo temático de investigação. O texto em foco integra o grupo de quatro resenhas desse número da Revista Delta, sugerindo a leitura do livro de Rojo que trata de letramentos múltiplos na escola e de relações destes com a inclusão social. Considerando as situações de comunicação na qual a resenha selecionada para estudo nesta obra foi produzida, verificamos que: o resenhista é especialista no tema tratado pela obra que resenha; há veiculação de resenhas em periódicos que circulam em comunidades acadêmicas de áreas consagradas de investigação científica; a submissão de artigos ou resenhas às revistas está sujeita à avaliação por um corpo de pareceristas que zela pela qualidade dos textos (GIERING, 2010, p. 14). Salientamos que a versão eletrônica do periódico Delta está disponível na Scientific Electronic Library Brasil (SciELO Brasil), biblioteca eletrônica que abrange uma coleção selecionada de periódicos científicos brasileiros. O acesso às revistas pode ser realizado por meio do Portal de Periódicos da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do Ministério da Educação do Brasil, no seguinte endereço: http://www.periodicos.capes.gov.br/portugues/index.jsp. A finalidade principal da resenha é avaliar uma obra. Tal avaliação precisa estar fundamentada em algum critério, para que a crítica seja “justa e razoável” (SWALES; FEAK, 2004, p. 181). Estes autores também ressaltam que os professores oportunizam a produção de resenhas com os alunos para: (i) assegurar-se de que o estudante de fato leu o que foi indicado; (ii) avaliar a compreensão do aluno;(iii) oportunizar o desenvolvimento de hábitos de leitura analítica entre os estudantes; (iv) propiciar aos alunos de graduação a prática de integrar novas leituras a outras antes realizadas, em especial mediante o exercício da comparação; (v) capacitar os estudantes para uma melhor percepção das expectativas de erudição, ou de conhecimento, no campo de estudos escolhido. Estudos sobre a escrita acadêmica em inglês, de Swales (1990), identificaram ações características na estruturação dos gêneros de textos acadêmicos. A partir dessa http://www.periodicos.capes.gov.br/portugues/index.jsp pesquisa, o autor criou um roteiro indicativo de ações mais globais (ações) e outras mais específicas (passos) realizadas para a escrita de cada gênero. Com a ajuda de Motta-Roth (2010, p. 21), é possível dizer que resenhar um livro ou um artigo lido significa desenvolver “quatro etapas em que realizamos ações de: apresentar>descrever>avaliar>recomendar”. Esse esquema conduz a ações obrigatórias (obr.) ou opcionais (opc.), já que são indispensáveis ou apenas complementares, respectivamente, para que, de fato, tenhamos uma resenha. O Quadro 1 enumera as ações e os passos que as sustentam, alguns obrigatórios (obr.) e outros, opcionais (opc.): Quadro 1 – Ações e passos de uma resenha Ações Passos 1. Apresentar O Livro 1. Indicar o título do livro resenhado e definir o tópico geral do livro (obr.); 2. Informar sobre leitores em potencial (opc.); 3. Fornecer credenciais do(a) autor(a) (obr.); 4. Argumentar sobre relevância e origem da obra (obr.); 5. Elaborar generalizações sobre o tópico (opc.); 6. Inserir o livro numa área de conhecimento (obr.); 2. Sumarizar o livro 7. Apresentar a organização geral do livro (obr.); 8. Descrever cada parte da organização do livro (obr.); 9. Citar material extratextual (opc.); 3. Destacar avaliativamente partes do livro 10. Focalizar partes do livro mediante avaliação ou crítica (obr.); 4. Avaliar o livro conclusivamente 11. Recomendar (ou não) o livro (com ou sem restrições) (obr.); 12. Sugerir futuras aplicações (opc.). Fonte: elaborado pela autora do capítulo com base em Motta-Roth (2010), Araújo (1996) e Bezerra (2009). A partir desse quadro, as quatro principais ações que o produtor de uma resenha realiza são: 1. apresentar o livro (criando condições para que o leitor se situe em relação a aspectos gerais do livro que vai conhecer, para optar ou não pela leitura); 2. sumarizar ou sumariar o livro (indicando aspectos gerais do conteúdo do livro, o que oportuniza tomar contato com as linhas teóricas relevantes a que a publicação se afilia); 3. destacar avaliativamente partes do livro (argumentando, como cabe fazer em uma resenha); 4. avaliá-lo conclusivamente (argumentando de forma a recomendar – ou não – o livro, ou para alertar o leitor sobre detalhes que só uma leitura crítica possibilita). Feitas essas anotações, analisemos a resenha Letramentos múltiplos, escola e inclusão social, de Acir Mario Karwoski, o qual utilizou o mesmo título do livro de Roxane Rojo. A ficha do livro, que condensa todos os dados necessários para que o leitor possa buscar e encontrar com mais agilidade a obra procurada, aparece em primeiro lugar no texto: ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. 128 p. A seguir, incluímos um quadro que visa a organizar a análise das ações e dos passos em colunas para dar uma dimensão clara da configuração de uma resenha modelo. Observe que a análise remete a parágrafos, visto que a construção das ações e dos passos predominantemente assim se constitui neste exemplo. Quadro 2 – Resenha – Configuração global: ações e passos Indicação de parágrafo onde isso ocorre na resenha em análise Ações e passos Anotações importantes AÇÃO 1 – APRESENTAR O LIVRO Parágrafo 1 Passo 1 – Indicar o título do livro resenhado e definir o tópico geral do livro (obr.). O resenhista começa o texto explicitando o título do livro resenhado e apresentando o tópico geral que a obra focaliza (frase ou segmento 1 do par.1). Parágrafo 2 Passo 3 – Fornecer credenciais da autora (obr.). O Passo 3, indicar as credenciais da autora, aparece no segmento 3 (frase 3) do parágrafo inicial da resenha. Passo 4 – Argumentar sobre relevância e origem da obra (obr.). Observe que o produtor do texto utiliza a narrativa de sua experiência de vida, ação que não é comum neste gênero, para contextualizar a obra. A história de vida, nesse texto específico, torna-se um argumento de valorização da obra, pois conta como o letramento experiencial do resenhista contribuiu para seu sucesso. AÇÃO 1 – APRESENTAR O LIVRO Passo 4 – Argumentar sobre relevância e origem O resenhista confirma o livro em análise como prova da escolarização vista como uma saída para melhoria das situações do Parágrafo 3 da obra (obr.). mundo. Transcreve uma citação do texto original de Rojo que explicita isso. É possível perceber afirmações que tecem generalizações sobre o tema. Passo 5 – Elaborar generalizações sobre o tópico (opc.). Passo 6 – Inserir o livro numa área de conhecimento (obr.) O livro resenhado, ainda no parágrafo 3, ganha relevo dentro da área da Pedagogia da Leitura e da Escrita. AÇÃO 2 – SUMARIZAR O LIVRO Parágrafos 4 e 5 Passo 7 – Apresentar a organização geral do livro (obr.). O resenhista aponta como se apresenta o livro em resenha: a) qualificando diagramação e ilustrações (par. 4); b) enfatizando o caráter prático e exigente de letramentos múltiplos do leitor do livro em foco; bem como c) elogiando a precisa construção dos 14 capítulos com as respectivas atividades propostas pela autora do livro resenhado (par. 5). A etapa de sumarização da resenha oferece, ao leitor, o mapa da leitura. Parágrafos 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12 Passo 8 – Descrever cada parte da organização do livro (obr.). Nos parágrafos 6 a 12, o resenhista ocupa-se de descrever cada capítulo da obra. Segue a sequência dada pela autora na escrita do livro e organiza cada parágrafo desse passo da ação de sumarizar: a) indicando o título, b) sintetizando o conteúdo e c) inserindo uma citação que comprova o que resumiu de cada capítulo descrito Parágrafos 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15 AÇÃO 3 – DESTACAR AVALIATIVAMENTE PARTES DO LIVRO Simultaneamente ao ato de sumarizar, o resenhista distribui a ação de destacar avaliativamente as partes do livro, especialmente, do parágrafo 2 até o 15. Isso faz quando: a) narra sua experiência positiva e rica de letramento, analisada à luz do que leu no livro de Rojo (par. 2); b) confirma o que é a escolarização e o papel do letramento como base de mudanças para melhor na sociedade (par. 3); c) qualifica com léxico do tipo “ bem diagramado”, “ impressão” de diálogo autora/leitor (par. 4), entre outros exemplos; d) indica a possibilidade de retomar teorias discutidas pela autora, quando lemos o livro, e destaca a experiência de vivenciar o letramento, quando em contato com um livro como esse, que conduz a links, a sites, a leituras não verbais etc.; e) aponta o “ instigante desafio” que a autora traz como motivação para a produção do livro (par. 6); f) enfatiza, em cada capítulo sumarizado, detalhes positivos da obra. Destaquem-se: f.1) contextualização do leitor no tema, remetendo ao aspecto histórico e à apresentação de gráficos e tabelas esclarecedoras (par. 7); f.2) enumeração de resultados de alunos em exames como Enem, Saeb e Pisa, acrescidos de comentários sobre insucessos dos estudantes nas avaliações (par. 8); f.3) elucidação dos conceitos de alfabetismo e alfabetização para que os leitores avaliem atividades de letramento e ressignifiquem o papel da escola (par. 9); f.4) esclarecimento, mediante retrospectiva histórica, do conceito de alfabetização que leva a uma formulação de novas e mais eficazes propostas de ensino (par. 10); f.5) aprofundamento de conceitos de competências e habilidades de leitura e escrita e a indicação, pelaautora, de fontes teóricas que sustentam uma reflexão acerca do ensino da língua portuguesa (par. 11); f.6) relevância (o resenhista fala em “ o capítulo mais esperado pelo leitor”) da contribuição de Rojo (2009) para os estudos de letramento (par. 12). Parágrafo 13 AÇÃO 1 – APRESENTAR O LIVRO Passo 2 – Informar sobre leitores em potencial (opc.). Note que o resenhista destina este parágrafo do final do texto para indicar possíveis leitores. O parágrafo 13 abre-se assim: “ professores da Educação Básica, estudantes de Letras, Pedagogia e áreas afins […] pesquisadores de linguagem e educação”, mostrando que as ações da resenha, salvo as que têm a função de promover a compreensão inicial do texto, podem se diluir por diferentes lugares (ações e passos) desse gênero. Parágrafos 13, 14 e 15 AÇÃO 4 - AVALIAR O LIVRO Após essa indicação de possíveis leitores da obra, o resenhista elogia a hora apropriada em que tal livro vem ao público, em vista da “ perspectiva da comunidade acadêmica em relação à publicação, pois as pesquisas acerca de letramento no Brasil estão em evidência e o livro vem somar-se em boa hora […]”. Passo 11 – Recomendar (ou não) o livro (com ou sem restrições) (obr.). Passo 12 – Sugerir futuras aplicações (opc.). O parágrafo final – “ Sem dúvida, a ausência de uma conclusão ou a omissão proposital de considerações finais na obra é um anúncio de que brevemente teremos o privilégio de ter outro interessante trabalho de Roxane Rojo. Novos questionamentos devem ser apresentados. Novas respostas poderão ser dadas nos estudos acerca de letramentos múltiplos” – fecha a ação de recomendar a leitura do livro, ressaltando a qualidade e oportunidade da obra, sugerindo novos horizontes na área de estudos tão carente de pesquisa. Observe que a recomendação utiliza a ausência de conclusão como uma qualidade da obra. Observação: possível é, também, dizer que essa recomendação final reafirma o valor e relevância da obra dentro de sua área, pois se reiteram: a AÇÃO 1 – APRESENTAR O LIVRO, com os passos: 4 – argumentar sobre relevância e origem da obra (obr.); 5 – elaborar generalizações sobre o tópico (opc.); e 6 – inserir o livro numa área de conhecimento (obr.). Fonte: elaborado pela autora do capítulo, com base no Quadro 1. Essa primeira análise confirma a feição e a função avaliativa que caracterizam o gênero resenha acadêmica e certifica que “os limites entre os estágios […] se confundem e adquirem mobilidade, antecipando-se ou retardando-se em relação a outros estágios do texto” (MOTTA-ROTH; HEBERLE, 2005, p. 21). Se você percorreu os passos e as observações da resenha analisada com calma e atenção, está apto a entender por que se diz que a resenha é um texto de avaliação. Por um lado, esse gênero de discurso não prescinde de um resumo acurado do original (livro) a que se refere; por outro, exige do resenhista um saber-fazer juízos dentro do campo em que se insere o objeto focalizado. Esta crítica, no entanto, não pode dar lugar a “perguntas retóricas ou sarcasmos” nem a deturpações do pensamento do autor do livro (LAKATOS; MARCONI , 1992, p. 90), conforme constatamos. Na universidade, a resenha oportuniza adquirir “consciência da linguagem de avaliação” (SWALES; FEAK , 2004, p. 181). Além disso, mesmo que o resenhista de livros tenha uma certa liberdade de conteúdo e de organização no seu texto (afinal, esses aspectos são expressão daquilo que ele escolhe a partir de seus pontos de vista), é importante conhecermos o que é recorrente na organização desse gênero de discurso. Conhecer as ações e os passos da organização da resenha, já consagrados por meio de estudos e pesquisas como as mencionadas, traz segurança à escrita, pois providencia clareza, precisão, organização, consistência e ponderação na construção de um texto crítico sobre um livro. REFERÊNCIAS ARAÚJO, A. D. Lexical signalling: a study of unspecific-nouns in book reviews. 1996. Tese (Doutorado em Linguística Aplicada) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. BEZERRA, B. G. A resenha acadêmica em uso por autores proficientes e iniciantes. In: BIASI-RODRIGUES, B.; ARAÚJO, J. C.; SOUZA, S. C. T. de. Gêneros textuais e comunidades discursivas: um diálogo com John Swales. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. CHARAUDEAU, P. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006. GIERING, Maria Eduarda. As resenhas acadêmicas “Filhos sadios pais felizes” e “Passado, presente e futuro das teorias motivacionais” e suas situações de comunicação. In: ALVES, Isa Mara; GIERING, Maria Eduarda; MELLO, Vera Helena D. de. Leitura e produção de resenha acadêmica. São Leopoldo: Unisinos, 2010. KARWOSKI, Acir Mario. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. Delta (online), v. 26, n.1, São Paulo, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php? pid=S0102-44502010000100010&script=sci_arttext. Acesso em: 20 fev. 2013. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Atlas, 1992. MOTTA-ROTH, D. (org.). Redação acadêmica: princípios básicos. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, Imprensa Universitária, 2010. ______. Rhetorical features and disciplinary cultures: a genre-based study of academic book reviews in linguistics, chemistry and economics. 1995. Tese (Doutorado em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-44502010000100010&script=sci_arttext Linguística Aplicada) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. MOTTA-ROTH, D.; HEBERLE, V. M. O conceito de “estrutura potencial do gênero” de Ruqayia Hasan. In: MEURER, J. L.; BONINI, A.; MOTTA-ROTH, D. Gêneros: teorias, métodos, debates. Rio de Janeiro: Parábola, 2005, p. 12-28. ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. SWALES, J. Genre analysis: English in academic and research settings. Cambridge: Cambridge University Press, 1990. SWALES, J. M.; FEAK, C. B. Academic writing for graduate student: essential tasks and skills. 2. ed. Michigan: University of Michigan, 2004. Capítulo elaborado por Juliana Alles de Camargo de Souza. 1 <www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-44502010000100010&script=sci_arttext>. http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-44502010000100010&script=sci_arttext CAPÍTULO 7 A PRODUÇÃO DE RESUMOS E O PROCESSO DE SUMARIZAÇÃO Este capítulo trata das características do resumo como ação (procedimento) discursiva necessária na elaboração da resenha acadêmica e de alguns cuidados importantes para a sumarização. A habilidade de produzir resumos é frequentemente solicitada na vida cotidiana de cada um de nós: como adultos, temos, muitas vezes, que resumir um livro, uma peça de teatro ou um filme, por escrito ou, pelo menos, oralmente. Saber resumir também é uma capacidade necessária, nas sociedades letradas, para o desempenho de várias funções e atividades profissionais. Por exemplo, um advogado precisa resumir o que leu em um processo; um administrador, o que leu em um projeto; um jornalista, o que ouviu em uma entrevista; um professor, o que leu em um manual ou ouviu em uma reunião, e assim por diante. Na vida social, existem muitos textos ou partes de textos pertencentes a diversos gêneros, os quais resultam de um processo de sumarização: títulos e subtítulos de matérias; quadros em reportagens de jornais e de revistas; apresentação concisa de filmes, de peças teatrais ou de outros eventos científico-culturais; abstracts de artigos científicos ou de teses; e o resumo enquanto parte constitutiva de gêneros como resenha crítica e contracapa de livro. Ao estudarmos o resumo como um gênero de discurso, reconhecemos não só seu uso social em diferentes situações de comunicação como também a importância de ele se constituir como um objeto de ensino para o desenvolvimento de capacidades específicas inerentes à compreensão e à produção de textos. O contexto de produção de um texto é constituído pelas representações que temos sobre o local e o momento da produção, sobre os parceiros da comunicação e seu papel social, sobre a instituição socialonde se dá a interação e sobre os objetivos ou os efeitos que pretendemos atingir em relação a nosso destinatário. Portanto, nós sumarizamos de forma diferente conforme o tipo de destinatário, de acordo com o que julgamos que ele deve conhecer do objeto sumarizado e de acordo com o que julgamos ser o objetivo desse destinatário. Em decorrência da grande variação a que estão sujeitos os resumos, diretamente relacionada ao contexto de sua produção, constatamos a existência de subgêneros de resumos de textos, que podem ser identificados de acordo com a instituição social em que são produzidos e em que circulam e, portanto, de acordo com os objetivos de seus leitores. Desse modo, podemos falar em resumo jornalístico, resumo científico, resumo escolar/acadêmico etc. Segundo a NBR 6028/2003 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas), um resumo sintetiza os pontos principais de um documento, podendo ser indicativo, informativo ou crítico. O resumo indicativo é aquele que não dispensa a leitura do texto, uma vez que apenas descreve sua natureza, sua forma e seu propósito. Ele apresenta uma visão geral do texto, porém expõe somente aspectos principais sem detalhar informações quantitativas e qualitativas. Normalmente é utilizado em propagandas, catálogos de editoras, livrarias e distribuidoras ou, ainda, em breves exposições de determinadas obras. O resumo informativo é o mais utilizado no meio acadêmico, pois exige do seu produtor um profundo conhecimento da obra original a ser resumida. Ele objetiva transmitir ao leitor o maior número de informações relacionadas ao texto, de modo que a leitura do original possa ser dispensada. Expõe as referências bibliográficas, o gênero do discurso, o resumo do conteúdo, o assunto, a metodologia, o objetivo, os resultados e a conclusão. O resumo crítico, também chamado de resenha, é o que formula um julgamento sobre o trabalho que é resumido. Esse tipo de resumo igualmente requer profundo conhecimento sobre o assunto a ser resumido, pois associa os fatos e a crítica pessoal de quem escreve. Devemos antecipadamente estudar e conhecer bem o que vamos escrever sobre determinado material. Se analisarmos criticamente “apenas uma determinada edição entre várias” (NBR6028- Resumo.pdf), faremos uma recensão. Estudos realizados por linguistas como van Dijk (1995) centraram-se na identificação de regras, ou estratégias, no processo de sumarização de textos. Segundo o teórico, durante o processo normal de leitura com compreensão, ocorreria um processo de sumarização, por meio do qual construiríamos uma espécie de resumo mental do texto, retendo as informações obrigatórias e eliminando as opcionais, e chegaríamos, ao final desse processo, à significação básica do texto. Para van Dijk, no processo de produção de resumos, utilizamos regras mais ou menos constantes, que já teríamos internalizado e que aplicaríamos, de forma inconsciente, no decorrer da leitura. Segundo essas regras, o resumo deve ser constituído somente de informações indispensáveis para a compreensão das informações básicas do texto original, ou seja: toda informação de pouca importância ou não essencial pode ser omitida. Portanto, no resumo não devem constar detalhes, exemplos, comentários ou julgamentos, mesmo que nos pareçam interessantes. Também é dispensável qualquer opinião sobre o texto resumido. Fazem parte do resumo apenas as informações imprescindíveis para a interpretação global do sentido. Assim, omitimos todas aquelas que são pressupostas ou integrantes; do mesmo modo, não repetimos o que já foi dito antes, no decorrer do texto. Também é possível, na elaboração do resumo, substituir alguns elementos por outros mais gerais que os incluam. O texto pode mencionar uma série de circunstâncias, consequências, componentes, condições habituais de modo que, juntos, formem um conceito mais geral, o qual não está, necessariamente, expresso no texto. Podemos utilizar uma palavra para descrever uma série de ações apresentadas em uma ou em várias frases. Esse conjunto de regras identificado por van Dijk possui um caráter recursivo, ou seja, elas podem ser reaplicadas para a obtenção de um grau cada vez maior de sumarização, o que pode gerar resumos mais extensos ou menos extensos. Além disso, sua aplicação é orientada pela estrutura típica de cada gênero de discurso, que já teríamos internalizado, seja a partir de inúmeras leituras, seja a partir do contato diário com a variedade de gêneros existentes. Por exemplo, um resumo de uma narrativa (um livro de ficção, por exemplo) deve manter a estrutura da narrativa; um resumo de uma notícia de jornal deve manter a estrutura da notícia, e assim por diante. A aplicação desse conjunto de regras também está condicionada ao objetivo da leitura, aos conhecimentos prévios do leitor, à situação em que se processa a leitura, enfim, a fatores contextuais (CHARAUDEAU, 2006). Assim, para chegarmos a um resumo, é importante procedermos a uma leitura atenta e a um estudo detalhado do texto. Podemos identificar o gênero, o meio de circulação, o autor, a data de publicação e o tema. Auxilia essa compreensão o conhecimento sobre o autor, sua posição ideológica, seu posicionamento teórico etc. Também precisamos detectar as ideias que o autor apresenta como as mais relevantes, sobretudo identificando – se o texto for argumentativo, por exemplo – a questão discutida, a posição (tese) que o autor rejeita, a posição (tese) que o autor sustenta, os argumentos que sustentam ambas as posições e a conclusão. A partir de agora, trataremos do resumo como um procedimento necessário para a elaboração do gênero discursivo resenha acadêmica. Entre as quatro grandes ações essenciais da resenha, já descritas no Capítulo 6, está a de sumarizar a obra − Ação 2 (indicando aspectos gerais do seu conteúdo, o que possibilita o contato com as linhas teóricas relevantes que a obra segue), que é constituída por passos específicos, obrigatórios ou opcionais, atendendo ao objetivo específico de cada resenha. 2. Sumarizar o livro 7. Apresentar a organização geral do livro (obr.). 8. Descrever cada parte da organização do livro (obr.). 9. Citar material extratextual (opc.). Na redação da resenha Letramentos múltiplos, escola e inclusão social, temos a ação de sumarização já no primeiro parágrafo: O mais novo livro da professora e pesquisadora Roxane Rojo intitula-se Letramentos múltiplos, escola e inclusão social e apresenta questionamentos interessantes acerca da importância da educação linguística (leitura e escrita) alicerçada em princípios éticos, críticos e democráticos. O Passo 7, de apresentação da organização do livro, é um dos principais na construção da ação de sumarizar. No parágrafo 1, o resenhista Acir Mario Karwoski – expõe o conteúdo da obra, acrescenta detalhes sobre a coleção a que o livro pertence, sobre a editora, além de um breve currículo da autora, uma estratégia que orienta o leitor na opção de ler ou não a obra original. Nos parágrafos 4 e 5, o resenhista retoma a apresentação da obra como um todo, manifestando seu julgamento positivo sobre ela: A obra é bem diagramada, com ilustrações e indicações de sites, de links e notas de rodapé. Apresenta-se de forma didática; no início de cada capítulo, traz um resumo e as informações acerca dos assuntos que o leitor encontrará e os questionamentos que visam a conectar o leitor aos assuntos discutidos claramente pela autora. […] As 14 atividades que constituem os capítulos possibilitam ao leitor uma retomada, na prática leitora e em sala de aula, das teorias discutidas pela autora. […] A arte gráfica, a paginação inovadora, os gráficos, as figuras e tabelas dialogam harmoniosa e criativamente ao longo de toda a obra. O Passo 8, em que o resenhista descreve cada parte da organização do livro, é obrigatório e também não poderia ser omitido por ele. Assim, nos parágrafos 6 a 12, temos o conteúdo de cada capítulo, acompanhado, por vezes, de breve passagem da obra como ilustração: No prólogo, a autora apresentaas motivações para a produção do livro e mostra-nos um instigante desafio […]. […] O último capítulo “ Letramento(s) – práticas de letramento em diferentes contextos” […]. O sexto e último capítulo apresenta reflexões acerca das exigências que os novos letramentos no mundo contemporâneo vêm impondo pelos meios de comunicação e circulação da informação. Finalizando a ação de sumarizar o livro, o resenhista expõe seu conteúdo, mostrando como o autor trata o assunto em estudo. Esse é um dos passos (Passo 8) considerados obrigatórios, e o resenhista optou por segui-lo na construção da sua resenha, cuja função é resumir criticamente o livro original. Como observamos nesta resenha, o resenhista atém-se na ação de sumarizar o livro, principalmente nos passos de apresentação de sua organização geral e de exposição sucinta de cada parte que o compõe. Esse procedimento nos leva a dizer que, consciente ou inconscientemente, foram aplicadas regras, em maior ou em menor grau, para a redução da informação contida no livro original. Como o resumo é um texto sobre outro texto, de outro autor, isso deve ficar sempre claro ao procedermos à sumarização das informações, a fim de evitar que sejam tomadas como nossas as ideias que são do produtor do texto base do resumo. Na elaboração do gênero de discurso resenha acadêmica, também precisamos ter essa preocupação. Como será explicitado no Capítulo 10 deste livro, há alguns procedimentos para referir o autor durante o processo de sumarizar: a indicação de seu sobrenome ou de sua profissão e o emprego de pronomes ou da expressão “o autor”, dentre outros. Como resultado do procedimento de sumarizar, o autor do livro aparece como se estivesse realizando vários tipos de atos (relatar, ser responsável, ser considerado etc.), que, em geral, não estão explicitados no texto original (MACHADO, 2004). Ao produzirmos um resumo, temos de interpretar esses atos, usando o verbo adequado. A escolha do verbo é de quem sumariza a obra e leva em conta a leitura e o sentido do texto resenhado. Desse modo, verbos como (a) define, classifica, enumera e argumenta indicam organização das ideias do texto; (b) afirma, nega, acredita e duvida indicam o posicionamento do autor em relação à sua crença na verdade daquilo que é dito; (c) enfatiza e ressalta indicam relevância de uma ideia do texto; (d) aborda e trata de apontam indicação de conteúdo geral. Portanto, verbos como afirmar, apontar, apresentar, concluir, considerar, iniciar, defender, definir, enfatizar, enumerar, exemplificar, expor, levantar questão, mencionar, mostrar, reconhecer, transmitir, entre outros, servem para atribuir ações ao autor do texto original. Na resenha acadêmica em estudo, o resenhista procedeu à sumarização, uma das ações da resenha de livros, atribuindo ao autor, a partir da leitura que faz da obra, ações como: A autora critica a leitura escolar ao afirmar que a leitura parece ter parado no início da segunda metade do século passado. Em relação às competências e habilidades de escrita, a autora sustenta suas constatações em Bonini (2002) e Geraldi (1984) e faz o leitor refletir acerca dos problemas de escrita e ensino de língua portuguesa. No processo de sumarização, precisamos tomar decisões sobre a importância relativa dos elementos; é preciso relacionar e hierarquizar as informações, e isso exige participação mais ativa do que apenas compreender o texto lido. Também constatamos que a seleção dos elementos para esse processo é feita a partir dos conhecimentos de cada leitor. Apesar das possíveis diferenças, no nível da interpretação global, deve haver uma concordância entre os leitores em relação às informações principais do texto, pois, sem isso, não haveria possibilidade de estabelecermos um resumo. REFERÊNCIAS BRASIL. NBR6028/2003. Disponível em: www.fajolca.edu.br/pdf/ABNT/NBR6028- RESUMO.pdf. Acesso em 6 jun. 2010. CHARAUDEAU, P. Discurso das mídias. São Paulo: Contexto, 2006. DIJK, Teun van. A. Texto e contexto. Semántica y pragmática del discurso. 5. ed. Madrid, Cátedra, 1995. KARWOSKI, Acir Mario. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. DELTA (online), v. 26, n.1, São Paulo, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php? pid=S0102-44502010000100010&script=sci_arttext. Acesso em: 20 fev. 2013. MACHADO, Anna Rachel. Revisitando o conceito de resumos. In: DIONISIO, Ângela Paiva et al. (org.) Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. MACHADO, A. R.; LOUSADA, E.; ABREU-TARDELLI, L. S. Resumo. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. Capítulo elaborado por Maria Helena Albé. http://www.fajolca.edu.br/pdf/ABNT/NBR6028-RESUMO.pdf http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-44502010000100010&script=sci_arttext CAPÍTULO 8 ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DE RESENHAS ACADÊMICAS Este capítulo apresenta um roteiro para a produção de uma resenha acadêmica e quadros com exemplos de recursos linguísticos fundamentais para a redação desse gênero de discurso. O roteiro tem por objetivo auxiliá-lo a escrever resenhas solicitadas pelos seus professores e a desenvolver sua competência escrita e sua capacidade de análise crítica. Antes de iniciar a redação de uma resenha acadêmica, é importante lembrar que esse gênero de discurso tem por propósito apresentar criticamente uma obra. Para produzir uma resenha acadêmica, então, você precisa saber resumir ou sumarizar o texto e apresentar ou expor o seu posicionamento em relação à obra resenhada de forma consistente, valendo-se de argumentos. Além disso, considere que a sua capacidade de leitura e de análise crítica está sendo avaliada ao produzir a resenha. Um bom resenhista deve demonstrar conhecimento sobre o assunto da obra, deve ter capacidade de formular juízo de valor, além de ser fiel às ideias e aos pensamentos do autor da obra que vai resenhar. A sua resenha, portanto, deve evidenciar que você é um leitor competente, que não só leu e compreendeu a obra, mas que também sabe posicionar-se criticamente diante do texto lido para convencer o leitor sobre sua opinião. A seguir, você encontra um roteiro para escrever resenha acadêmica. Este roteiro divide-se em duas grandes etapas: leitura e escrita. 8.1 Etapa 1 – Leitura atenta da obra a ser resenhada Ao realizar a leitura, você deve considerar o propósito da resenha, ou seja, você precisa estar ciente de que deverá produzir um texto para avaliar a obra lida; assumir uma postura questionadora e investigativa pode, de fato, auxiliá-lo a identificar ideias e informações a serem usadas para sustentar o seu posicionamento enquanto resenhista do texto. Seu objetivo, neste contexto, é ler para compreender e avaliar a obra. 8.1.1 Pré-leitura 1. Observe o título do texto e as informações não verbais (imagens, figuras, gráficos, tipografia, subtítulos, legendas, entre outras), verifique se algo chama a sua atenção e registre suas constatações em folha rascunho. 2. A partir da observação do título e das informações não verbais, procure identificar o assunto e o objetivo da obra; imagine a abordagem que o autor dará ao tema; crie hipóteses sobre o conteúdo do texto, sobre a tese defendida pelo autor; e registre essas informações. 3. Observe quem é o autor da obra. Você já leu outra obra desse autor? O que você sabe sobre ele? Pesquise sobre o autor, procure saber que outros textos ele já publicou, familiarize-se com seu trabalho. Você pode ler resenhas de outras obras do autor, usar a Internet para pesquisar ou, no caso de livros, você pode ainda consultar as informações sobre ele que estejam presentes na sobrecapa (orelha/aba) do livro. Além disso, observe a lista de referências da obra e identifique a área de conhecimento a que o autor está ligado e a comunidade científica com que ele dialoga. Registre as informações que você organizou sobre o autor em folha rascunho. 4. Verifique a data de publicação da obra para discorrer sobre sua atualidade, relacioná-la ao contexto histórico e situar o contexto de produção. 5. Observe, detalhadamente, a estrutura global do texto; preste atençãoaos subtítulos e procure identificar o que será tratado em cada seção; faça previsões acerca do texto e registre-as. Verifique, ainda, se a estrutura da obra está adequada ao seu objetivo. 6. Procure lembrar o que você já sabe sobre o tema tratado na obra, ative o seu conhecimento prévio sobre o assunto de que se ocupa o texto. Se você não possui qualquer conhecimento sobre o tema da obra, é preciso pesquisar. 7. Em função do seu conhecimento sobre o gênero da obra resenhada e sobre o seu assunto, crie hipóteses sobre a situação de comunicação (Quem escreve? Para quem escreve? Com que finalidade? Para dizer o quê?…) e procure se familiarizar com o léxico característico desse gênero e da área de conhecimento na qual a obra está inserida. 8.1.2 Leitura 1. Faça uma primeira leitura para identificar de que tratam as partes da obra. Por exemplo, se for um artigo acadêmico, identifique o que é abordado em cada seção; faça o mesmo para capítulos de livros. Registre essas informações em frases completas, escritas com suas próprias palavras – lembre-se de usar a técnica da paráfrase1 (veja também o Capítulo 10). 2. Esclareça suas dúvidas em relação ao vocabulário e ao emprego de termos técnicos, observe em que contexto as palavras estão sendo empregadas. Tenha sempre à mão um bom dicionário. 3. Leia o texto tantas vezes quanto necessário para compreendê-lo detalhadamente. 4. Faça anotações nas margens do texto, procure confirmar as hipóteses de leitura que você construiu antes de iniciar a leitura e verifique, também, por que razões algumas hipóteses foram refutadas. Assinale os trechos que você não compreendeu bem (passagens obscuras) e os argumentos discutíveis apresentados pelo autor. 5. Sublinhe as palavras que indicam a ideia central dos parágrafos ou das seções, observe expressões repetidas e verifique como o autor recupera as ideias já apresentadas e que recursos ele utiliza para acrescentar informações novas; registre essas informações em frases completas ou faça um esquema. 6. Registre as relações que você conseguiu estabelecer entre o conteúdo do texto e outro conhecimento que você já tenha sobre o assunto. Para construir essas relações de comparação, você pode usar alguns conectores: como, assim como, tanto (tão)…como, tanto (tão, tal)… quanto, mais…do (que), melhor (do) que, entre outros. 7. Verifique os recursos linguísticos utilizados para a organização sequencial e lógica das ideias que compõem a obra; observe como as informações são encadeadas, isto é, são ligadas umas as outras. Preste atenção às relações de sentido mais comuns: causalidade, condição; comparação; oposição, concessão, finalidade, explicação e adição (consulte o Quadro 5). 8. Registre as contribuições que o texto está trazendo para você (por exemplo, conhecimento sobre o tema, aprendizado para a carreira profissional, entre outros) e o impacto que a obra pode apresentar para o público ao qual se destina. 9. Registre suas opiniões sobre as ideias apresentadas no texto, selecione aquelas com as quais você concorda, aquelas das quais você discorda e registre o porquê. 10. Faça uma segmentação dos blocos de ideias que tenham alguma unidade de significação e estabeleça relações entre as partes do texto. Resuma/sumarize a ideia ou as ideias centrais de cada fragmento do texto. 8.2 Etapa 2 – Redação da resenha Faça um esboço (esquema) do plano global da sua resenha, considerando as ações que você precisa realizar para produzir uma resenha acadêmica com qualidade: apresentar o livro, sumarizar ou sumariar o livro, destacar avaliativamente partes do livro, avaliar o livro conclusivamente (consulte o Capítulo 6). 8.2.1 Ação 1 – Apresentar a obra Passo 1: indique os dados da obra no corpo do texto ou faça a referência bibliográfica de acordo com as normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT): autor(es), título, número da edição, local de edição, editora, data, número de páginas. Em seguida, escreva-os logo abaixo do título da sua resenha. Para fazer a referência bibliográfica, você pode consultar o guia com normas da ABNT elaborado pela biblioteca da Unisinos, acessando o portal da biblioteca,2 ou consultar qualquer outro manual de metodologia científica publicado recentemente. É importante observar a data de publicação do manual, pois a ABNT seguidamente faz alterações e adequações às normas vigentes. Apresente o tema geral da obra, explique, de forma genérica, qual é esse tema e como ele é abordado ao longo da obra. Passo 2: informe a quem é destinada a obra (caracterize o público-alvo e evite dizer que a obra se destina ao público em geral, seja mais específico). Passo 3: apresente informações sobre o autor que tenham relação com a obra lida. Por exemplo, são informações relevantes: formação do autor, sua experiência profissional e alguns dos seus principais trabalhos. Lembre-se de valorizar os dados que qualifiquem o autor, para tratar do tema de que se ocupa o livro. Passo 4: indique qual é a importância da obra para os leitores e justifique seu posicionamento. Passo 5: faça comentários gerais sobre a obra; escreva, de forma genérica, sobre o tema de que trata a obra. Passo 6: indique a área de conhecimento em que a obra está inserida e apresente as contribuições, os impactos da obra para a área de conhecimento em que está inserida. 8.2.2 Ação 2 – Sumarizar a obra Passo 7: apresente a estrutura da obra, indique o número de capítulos (no caso de livro) e o número de seções (no caso de artigo científico). Passo 8: descreva cada parte da organização da obra, esclareça o que é abordado em cada parte da obra e explicite como o autor aborda os conteúdos; informe se o autor apresenta exemplos práticos, se ele expõe os conteúdos de forma cronológica e explique que tipo de análise é feita e qual método é empregado para tratar as questões. Além disso, aponte os aspectos gerais do conteúdo do livro e as linhas teóricas relevantes que são seguidas na obra. No Capítulo 7 deste livro, você encontra informações detalhadas para realizar esse procedimento. Para sumariar o texto, utilize expressões como: o artigo divide-se em…; o livro está organizado em x capítulos; na primeira parte da obra, o autor aborda a questão…; no item seguinte…; a seguir, o autor analisa… Para introduzir as ideias que o autor apresenta no texto, você pode fazer uso de verbos de dizer, exemplificados no Quadro 4, no final deste capítulo Passo 9: cite outras obras que tratem do mesmo tema, apresente outros autores que o tenham abordado e estabeleça comparações, com a finalidade de auxiliá-lo na tomada de posição sobre a obra resenhada, destacando as contribuições em relação às anteriores. 8.2.3 Ação 3 – Destacar avaliativamente partes do livro Passo 10: focalize os aspectos positivos e negativos apresentados na obra. Estabeleça critérios para avaliar a obra, por exemplo: forma (organização da obra), linguagem (é acessível ao público-alvo?), estilo (é adequado ao público-alvo? É adequado ao gênero?), conteúdo (é relevante? é atual?), abordagem dada ao tema (é crítica? é pertinente? contribui para a área do conhecimento?), entre outros. Aponte se a obra atinge o seu objetivo e justifique seu posicionamento. Os critérios utilizados para avaliar a obra podem ser estabelecidos, às vezes, pelo professor ou pela instituição e, em outras situações, podem ser critérios relacionados à experiência, ao conhecimento anterior do resenhista, por exemplo. Informe, ainda, qual é a contribuição da obra para o leitor e justifique. Para avaliar a obra, você pode fazer uso de algumas expressões, tais como: Fórmulas introdutórias: Comecemos por…; A primeira observação recai sobre…; Inicialmente, é preciso lembrar que ..; A primeira observação importante a ser feita é que… Fórmulas conclusivas: logo; consequentemente; é por isso que; afinal; em suma; portanto; por conseguinte, enfim… 8.2.4 Ação 4 – Avaliar o livro conclusivamente Passo 11: recomende ou não a leitura da obra com ou sem restrições e justifique o seu posicionamento.Você pode apresentar restrições ou não ao recomendar a leitura da obra, desde que explicite as razões que o levaram a assumir esse posicionamento. Por exemplo, a obra pode não ser indicada para leitores iniciantes no tema, pois o autor não se dedica a descrever conceitos teóricos básicos. Passo 12: sugira futuras aplicações para a obra. Os verbos de elocução são um dos recursos que introduzem o discurso de outros, por meio de citação direta ou indireta. Quadro 3 – Verbos de elocução (de dizer) Abordar Distinguir Perguntar (se) Acrescentar Dizer Ponderar Admitir Elogiar Pontuar Advertir Elucidar Postular Afirmar Emendar Precisar Alegar Encerrar Preconizar Alertar Endossar Pregar Aludir Enfatizar Preocupar-se Analisar Enfocar Pressupor Anotar Ensinar Pretender Anuir Entender Prever Anunciar Enumerar Proclamar Apregoar Esclarecer Prognosticar Arguir Especificar Propor Argumentar Estabelecer Prosseguir Arrolar Estimar Protestar Assegurar Evidenciar Questionar Asseverar Exclamar Raciocinar Assinalar Exemplificar Reafirmar Atestar Explanar Rebater Atribuir Explicar Reconhecer Avaliar Explicitar Recordar (se) Censurar Expor Refletir Chamar a Expressar-se Reforçar Citar Exprimir-se Registrar Classificar Falar Rejeitar Comentar Fazer coro Relacionar Comparar Finalizar Relatar Complementar Frisar Relativizar Completar Garantir Relembrar (se) Compreender Historiar Replicar Comprovar Identificar Responder Comunicar Ilustrar Ressaltar Conclamar Imaginar Ressalvar Concluir Incentivar Resumir Concordar Indagar Retrucar Conjecturar Indicar Revelar Constatar Informar Revidar Contabilizar Insistir Salientar Contar Interpretar Sentenciar Contestar Interrogar Simplificar Contra-atacar Ir (mais) além Sintetizar Contradizer Justificar (se) Solicitar Contrapor-se Lamentar (se) Sublinhar Crer Lembrar (se) Sugerir Criticar Limitar-se a dizer Supor Declarar (se) Manifestar-se Sustentar Defender (se) Mostrar Tachar Definir (se) Narrar Temer Demonstrar Nomear Teorizar Descartar Notar Terminar Desenvolver Objetar Transmitir Destacar Observar Ver Determinar Opinar Verificar Diagnosticar Parafrasear Discordar Pedir Discorrer Pensar Fonte: elaborado com base em Ataide (2010). REFERÊNCIAS ATAIDE, Joanita Mota. Verbos e locuções verbais. Disponível em: <http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php? op=gramatica/docs/verbosdeclarativos>. Acesso em: 07 jun. 2010. GARCIA, Othon Garcia. Comunicação em prosa moderna. 20. ed. São Paulo: Fundação Getúlio Vargas, 1995. Capítulo elaborado por Maria Helena Albé e Silvana Kissmann. 1 A paráfrase é um texto que procura dizer de forma mais clara (na medida do possível, com vocabulário e estrutura de frase novos) o que está sendo dito no texto original, preservando com o máximo de fidelidade possível as informações desse texto (GARCIA, 1995). 2 <www.unisinos.br/biblioteca>. http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=gramatica/docs/verbosdeclarativos http://www.unisinos.br/biblioteca CAPÍTULO 9 A DIVULGAÇÃO DA CIÊNCIA Apresentamos as diferenças entre gêneros acadêmicos e os de divulgação científica midiática, especialmente a notícia. Expomos a organização global da notícia de divulgação científica. Os resultados das pesquisas científicas não circulam apenas na academia. O público leigo, não especializado, também se interessa pelos temas da ciência, a que tem acesso principalmente por meio da mídia. Jornalistas e cientistas publicam matérias que divulgam a ciência na televisão, em jornais e revistas, tornando-a acessível a públicos diversos. A ação de informar o público não especializado sobre resultados de pesquisa ou descobertas científicas denomina-se divulgação científica (doravante DC). O objetivo da mídia ao publicar matérias sobre ciência é popularizá- la, dando acesso aos cidadãos aos avanços científicos e tecnológicos. Massarani (2004) explicita a importância da DC e sua responsabilidade no mundo atual: O público passa a ser um protagonista importante na disseminação das informações de ciência, permitindo que indivíduos assumam uma postura que é, simultaneamente, participativa e crítica em relação ao papel do conhecimento nos processos decisórios. O debate sobre cultivos e alimentos geneticamente modificados é um bom exemplo dessa questão (MASSARANI, 2004, p. 12). Há diferenças consideráveis entre os textos que circulam na academia e os que se encontram na mídia. Os gêneros de discurso que circulam na academia – o artigo acadêmico, por exemplo –, por serem dirigidos aos pares e por sua finalidade demonstrativa, pressupõem leitores que já tenham domínio dos grandes temas científicos em questão; por isso, em geral, no artigo acadêmico, o produtor textual, além de valer-se de um vocabulário especializado já empregado pelos especialistas na área, economiza em explicações, dedicando-se a provar a validade de sua pesquisa aos leitores do meio acadêmico. Já a divulgação científica midiática, por se direcionar a um público diversificado, leigo, que não se mostra necessariamente interessado nos temas da ciência, apresenta características distintas. Contrariamente ao que se verifica na academia, o vocabulário empregado na notícia que populariza a ciência é mais próximo do coloquial; o produtor textual, para aproximar o tema científico do leitor, vale-se de metáforas, de analogias. Além disso, dedica-se muitas vezes a explicar passagens que, pela complexidade técnica, poderiam ser obscuras para o leitor leigo. Muito frequentemente, o produtor cria histórias com personagens e muitas ações, o que permite melhor contextualizar os temas da ciência e explicá-los. Outra característica marcante do discurso de divulgação, especialmente em notícias e reportagens, é o emprego da citação. Por meio do discurso direto ou indireto, o jornalista traz a voz do cientista responsável pela pesquisa ou de alguém que esteja direta ou indiretamente ligado a ela. Quanto mais polêmico o tema científico divulgado, mais opiniões o produtor textual busca para enriquecer seu texto. No Brasil, encontramos, nas bancas, jornais e revistas que se dedicam à publicação de matérias sobre ciência ao público leigo adulto: Ciência Hoje, Scientific American Brasil, Revista Fapesp, Mente e Cérebro, Caderno Ciência e Saúde da Folha de São Paulo. Algumas revistas dirigem-se a um público jovem e a crianças: Superinteressante, Galileu, Mundo Estranho, Ciência Hoje das Crianças, Recreio. As publicações se conformam aos diferentes interesses e conhecimentos de mundo dos potenciais leitores e se esforçam para apresentar as informações de maneira adequada a seus públicos diferenciados. Assim, cada publicação apresenta proposta editorial que considera ideal a seus leitores, de forma a captar seu gosto pela leitura e a informá- los sobre os temas científicos: as que se dedicam a um público mais amplo reforçam ilustrações, fotos, gráficos, infográficos; as que pressupõem leitores com conhecimentos científicos prévios, como universitários e professores, trazem textos mais densos, mais aprofundados. Dos gêneros de discurso mais comuns da DC, destaca-se a notícia, que apresenta uma organização muito peculiar: encontram-se as clássicas partes da notícia – título, subtítulo (opcional), lead (informação sucinta do fato jornalístico noticiado e das principais circunstâncias em que ele ocorre), detalhamento, intertítulo (opcional), acompanhada geralmente de algum elemento icônico (ilustração, foto, gráfico, infográfico, legenda) – e, ao mesmo tempo, a organização do artigo acadêmico – resumo, introdução, materiais e métodos, resultados e discussão dos resultados. Para ilustrar essa organização que mescla as partes da notícia e do artigo acadêmico, apresenta-se a notícia a seguir: Quadro 4 – Exemplo de notícia 1. Interações mãe-filho resultam de alterações cerebrais 2. Experimentos em laboratórios sugerem mecanismo de adaptação 3. Instinto maternal e cuidado com recém-nascidos são características tanto humanas quanto de animais, mas uma pesquisa daUniversidade Hebraica de Jerusalém demonstra que a maternidade está associada à adoção pela fêmea de uma série de novos comportamentos, resultado de alterações cerebrais. 4. A pesquisa, feita por Adi Mizrahi, do Centro Edmond e Lily Safra de Ciências do Cérebro (ELSC) e do Instituto Silberman de Ciências da Vida Humana da Universidade foi publicada na revista Neuron. 5. A pesquisa mostra como as mudanças neurais incluem odores e sons, que permitem à mãe interagir com sua prole. 6. Segundo Mizrahi, alterações cerebrais diferentes estão relacionadas à maternidade, mas o impacto dessas mudanças no processamento sensorial e no comportamento materno é desconhecido. 7. Em camundongos, diz ele, sinais olfativos e auditivos desempenham papel importante na comunicação entre a mãe e seus filhotes, o que leva a concluir que “pode haver alguma interação entre o processo olfativo e auditivo junto ao cérebro da mãe”. 8. Mizrahi e seu colega de pós-doutorado Lior Cohen examinaram o córtex auditivo primário, região do cérebro envolvida no reconhecimento dos sons e que serviria como região de processamento inicial de odores. 9. Descobriram que o odor provoca mudanças significativas no processamento auditivo em fêmeas que interagiram com os filhotes. 10. A integração de odor e som apareceu em mães lactantes pouco depois de dar à luz e teve efeito intenso na detecção de chamadas de socorro do filhote. (DQS) Fonte: Scientific American Brasil. Nesta notícia, verifica-se a presença de título, subtítulo, lead (Quem realizou a pesquisa? Onde foi realizada e em que periódico foi publicada? De que ela trata?) e detalhamento (Como a pesquisa foi realizada?). Ao mesmo tempo, constatam-se as partes do artigo acadêmico: Quadro 5 – Organização da notícia DC Fonte: elaborado pela autora. Esta organização da notícia de divulgação científica acontece devido à situação de comunicação em que ela ocorre: é um gênero discursivo midiático – e como tal se apresenta de acordo com as práticas discursivas da mídia –, cuja credibilidade é garantida, entre outras, pela reprodução das etapas do artigo acadêmico, um dos gêneros documentais validados pela academia. REFERÊNCIAS MASSARANI, L. Desafios da divulgação científica na América Latina. In: DICKSON, D; KEATING, B; MASSARANI, L. Guia de divulgação científica. Brasília: Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social, 2004. p. 11-12 SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL. Interação mãe-filho resulta de interação cerebral. Disponível em: <http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/cerebro_de_maes_adapta_para_interacoes_filho_resultam_de_alteracoes_cerebrais.html Acesso em: 25 fev. 2013. Capítulo elaborado por Maria Eduarda Giering. http://www2.uol.com.br/sciam/noticias/cerebro_de_maes_adapta_para_interacoes_filho_resultam_de_alteracoes_cerebrais.html CAPÍTULO 10 QUESTÕES LINGUÍSTICO-DISCURSIVAS Neste capítulo, serão focalizadas algumas questões linguísticas relevantes na tarefa de analisar e produzir um texto que se enquadra nos gêneros de discurso em estudo. Serão contemplados os seguintes tópicos: uso da voz passiva como recurso de impessoalização, coesão sequencial e referencial, citação de discurso alheio, paráfrase e plágio. Segundo Patrick Charaudeau (2001), o sujeito, ao se comunicar, deve possuir uma tríplice competência da linguagem que comporta três níveis distintos: o nível situacional, o nível discursivo e o nível semiolinguístico. Para ele, as três competências – situacional, discursiva e semiolinguística − são contempladas na construção e na compreensão do ato comunicativo. A competência situacional requer que locutor e interlocutor construam e compreendam um texto (oral ou escrito) considerando a identidade dos que se comunicam, a finalidade do ato comunicativo, o tema abordado e as circunstâncias em que se insere esse ato. Logo, pretende dar conta da finalidade do ato de linguagem (para quê?), da identidade dos implicados (quem fala a quem?) e do domínio do saber (sobre o quê?). A competência discursiva apoia-se na situacional e a ela está subordinada. Requer reconhecimento da situação comunicativa e do contrato de comunicação nela envolvido, como também do conjunto de estratégias disponíveis para a realização do ato comunicativo. Essas estratégias têm a ver com os papéis que o locutor assume, com os modos como se organiza o discurso (descritivo, narrativo e argumentativo) e com a ativação do conhecimento que os interlocutores partilham. É no nível semiolinguístico que se constrói o texto, definido por Charaudeau (2001, p. 17) como “o resultado de um ato de linguagem produzido por um sujeito dado dentro de uma situação de intercâmbio social dada e possuindo uma forma peculiar”. Essa competência exige que os interlocutores sejam capazes de compreender e usar as palavras, suas regras combinatórias e seu sentido. Está subordinada, em grande parte, aos elementos da situação em que ocorre o ato de linguagem e às exigências da organização do discurso. Requer três saberes: composição do texto, construção gramatical e uso do vocabulário em função do gênero contemplado, do tema abordado e dos efeitos de sentido a serem produzidos. Os gêneros artigo científico, resenha acadêmica e resumo acadêmico concernem ao domínio acadêmico, no qual é usada a variante linguística culta. Nessa variedade da língua, o enunciador deve ter a competência referente à composição do texto e à seleção vocabular e competência no que se refere à construção gramatical. Tais competências consistem, entre outras, em: a. empregar adequadamente os recursos de coesão sequencial (articuladores) e referencial (substituições lexicais, pronominalizações e elipses); b. inserir adequadamente o discurso alheio (citações direta e indireta) no texto; c. elaborar paráfrases legítimas; d. compreender o que é plágio e evitá-lo na produção textual. 10.1 Coesão textual Irandé Antunes (2005, p. 47) define coesão como a “propriedade pela qual se cria e se sinaliza toda espécie de ligação, de laço, que dá ao texto unidade de sentido ou unidade temática”. Num texto coeso, os elementos que o constituem (palavras, expressões, frases, parágrafos) estão ligados entre si. Segundo Marcuschi (2008, p. 99), a coesão textual é resultante de fatores que regem a conexão referencial e a conexão sequencial. 10.1.1 Referenciação Conforme Koch e Elias (2006, p. 123-124), a referenciação constitui uma atividade discursiva, por meio da qual o locutor, de acordo com sua percepção de mundo e em função de um querer dizer, introduz, no texto, novos referentes. Moura Neves (2006) explica que a referenciação observada no encadeamento do texto concerne a um jogo entre referentes já apresentados ao interlocutor e referentes novos. Quando o locutor retoma ou reapresenta ao interlocutor um referente já introduzido no texto, forma-se uma cadeia referencial, definida por Charaudeau e Maingueneau (2004, p. 89) como “toda sequência de itens que remetem a um mesmo referente”. A referenciação é, pois, um recurso que, mais do que evitar repetições indesejadas no texto, promove a coesão e produz coerência, fazendo com que o texto seja uma unidade. 10.1.1.1 Referência gramatical Ocorre quando pronomes, numerais ou advérbios remetem, no texto, a palavras, expressões, orações, frases ou parágrafos inteiros. Os pronomes, numerais ou advérbios comumente retomam elementos antecedentes, isto é, que já foram apresentados no texto. Nesse caso, a referenciação é anafórica. Exemplo “Em suma, pode-se concluir que o acesso às tecnologias é importante, mas não garante um bom trabalho em sala de aula. A formação dos professores é condição essencial para que isso aconteça.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 133). No exemplo acima, o pronome demonstrativo “isso” recupera a expressão “um bom trabalho em sala de aula”, portanto retoma um referente já explicitado antes no texto. Os pronomes, numerais ou advérbios podem também se referir a um elemento textual subsequente, antecipando-se a seu referente. Ocorre, então, a referenciação catafórica.Exemplo “Baseando-se nessas considerações, levantou-se este problema de pesquisa: os estudantes dos cursos de licenciatura conhecem os principais recursos da Web 2.0 e sabem explorar as potencialidades pedagógicas destes no desenvolvimento de atividades didáticas?” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 128). O pronome “este”, núcleo da expressão nominal “este problema de pesquisa”, antecede a pergunta a que se refere: “os estudantes dos cursos de licenciatura conhecem os principais recursos da Web 2.0 e sabem explorar as potencialidades pedagógicas destes no desenvolvimento de atividades didáticas”. Esse movimento de antecipação ao referente é o que caracteriza a referência catafórica. 10.1.1.2 Referência lexical Implica o uso de uma palavra ou expressão nominal em lugar de outra palavra ou expressão usada no texto. A substituição de uma palavra ou expressão por outra pode dar-se por meio de sinônimos, hiperônimos (termos mais genéricos ou abrangentes) ou expressões descritivas, que categorizam ou caracterizam o referente. Na resenha do livro Letramentos múltiplos, escola e inclusão social, Acir Karwoski faz uso desse recurso ao recuperar o livro de que fala e a autora do livro. Vejamos como isso ocorre: a. Recuperação do objeto de discurso “Letramentos múltiplos, escola e inclusão social” “O livro pertence à coleção Estratégias de Ensino da Parábola Editorial, uma editora que vem se dedicando à publicação de obras na área de Letras, Educação e áreas afins.” (KARWOSKI, 2010, p. 199). A obra é bem diagramada, com ilustrações e indicações de sites, de links e notas de rodapé (KARWOSKI, 2010, p. 200). b. Recuperação do referente “Roxane Rojo” A autora critica a leitura escolar ao afirmar que a leitura parece ter parado no início da segunda metade do século passado. Outras palavras poderiam ser utilizadas na cadeia referencial cujo referente principal é o nome da autora da obra resenhada: além da expressão “a autora”, poderiam ser usadas as expressões “a (essa) pesquisadora” ou “a (essa) estudiosa”, ou ainda “a (essa) linguista”. No exemplo a seguir, retirado do artigo científico A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura, cabe destacar o uso do pronome demonstrativo “(d)este” que acompanha o substantivo “trabalho”: “Essa conclusão remete ao tema central deste trabalho – a formação de professores para o uso da Web 2.0 (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 133).” A expressão “(d)este trabalho” refere-se ao artigo publicado pelos autores Andrelo e Nakashima. O emprego do pronome demonstrativo “este” justifica-se pelo fato de o trabalho referido remeter ao artigo científico em que tal expressão é empregada. A competência linguística do autor no que se refere ao emprego do pronome demonstrativo é fundamental, muitas vezes, para conferir maior clareza ao texto. O leitor, por sua vez, deve ter competência para interpretar adequadamente o referente desse pronome ou da expressão nominal em que aparece como determinante. Observemos outro exemplo, retirado do mesmo artigo: Ter uma cultura informacional significa conhecer as mídias, a informática, a pesquisa documental, entre outras competências. Essa perspectiva reforça a ideia defendida de que o acesso ao computador e a outras TIC não garante o domínio das competências informacionais (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 126). O pronome demonstrativo “essa”, em “Nessa perspectiva”, está adequadamente empregado, porque remete a um referente apresentado em segmento textual precedente: “Ter uma cultura informacional significa conhecer as mídias, a informática, a pesquisa documental, entre outras competências”. Quando a referência faz uma retrospecção no texto, retomando um segmento antecedente, normalmente se usa o pronome demonstrativo de segunda pessoa (esse, essa, esses, essas). Se, no entanto, o pronome ou a expressão nominal tiver, no texto, mais de um possível referente, usa-se o pronome demonstrativo de primeira pessoa (este, esta, estes, estas) para retomar o referente mais próximo e o pronome de terceira pessoa (aquele, aquela, aqueles, aquelas) para referir-se ao antecedente mais distante no texto. “O bullying é classificado como direto quando as vítimas são atacadas diretamente. São considerados bullying direto os apelidos, agressões físicas, ameaças, roubos, ofensas verbais ou expressões e gestos que geram mal-estar aos alvos. O bullying indireto são ações que levam exclusivamente ao isolamento social. Este envolve atitudes de indiferença, isolamento, difamação, exclusão.” (LOPES NETO, 2005 apud FREIRE; AIRES, 2011, p. 56). Nesse fragmento do texto, o uso do pronome demonstrativo de primeira pessoa “este” é fundamental para a clareza da ideia exposta, pois leva o leitor a recuperar a expressão “o bullying indireto”. O emprego do pronome “esse” prejudicaria a clareza do texto, pois o leitor não saberia a que tipo de bullying o autor estaria se referindo. 10.1.1.3 Papel das substituições lexicais no discurso a. Recategorização ou refocalização do referente: mantém-se o foco no referente já apresentado anteriormente, mas, ao mesmo tempo, traz- se uma informação nova, que ressignifica o referente. “Por esse motivo, é que se pretende pensar o fenômeno da violência escolar, mais especificamente o bullying, a partir de uma visão ecológica. Isso significa se opor às abordagens mais individualistas que entendem esse problema como derivado unicamente de problemas gerados dentro da instituição, seja nas formas de gestão autocrática ou metodologias e avaliações excludentes, na precariedade do ensino ou na falta de interação entre família e escola.” (ABRAMOWAY, 2003; COLS, 2005 apud FREIRE; AIRES, 2011, p. 57). O referente “o bullying” é retomado pela expressão “esse problema”, substituição lexical que, além de refocalizar o referente, apresenta-o negativamente na perspectiva do autor. b. Sumarização e rotulação: uma expressão nominal resume segmentos de texto antecedentes (orações, frases ou mesmo parágrafos) e, ao mesmo tempo, caracteriza ou avalia aquilo que é retomado. No artigo A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura, também se observa o emprego do substantivo “problema”, que além de retomar − resumindo − uma afirmação precedente, avalia negativamente o objeto de discurso apresentado anteriormente. “Os estudantes pesquisados demonstram dificuldade em usar a web de forma didática e o problema se agrava quando se trata da Web 2.0, que pressupõe o foco no usuário e a colaboração.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 125). Observa-se, nesse exemplo, que a expressão “o problema” resume e avalia a afirmação anterior: “os estudantes pesquisados demonstram dificuldade em usar a web de forma didática”, isto é, a dificuldade demonstrada pelos estudantes pesquisados em usar a web de forma didática constitui, na concepção dos autores, um problema. c. Organização macroestrutural do texto: as referências lexicais, muitas vezes, assinalam que o autor está passando para outra etapa de sua argumentação, funcionando como elos entre tópicos e subtópicos. No artigo supracitado, evidencia-se que muitas expressões referenciais são usadas no início de um novo parágrafo, sendo responsáveis pelos “dois grandes movimentos de construção textual: retroação e progressão” (KOCH; ELIAS, 2006, p. 140). Em outras palavras, agregam informações novas a informações dadas, mantendo a continuidade tópica. A título de exemplo, são apresentados dois parágrafos em que se verificam esses movimentos: “Essas habilidades tornam-se ainda mais necessárias ao se considerar um conjunto de recursos ligado à segunda geração da internet, focada no usuário e na tendência de tornar o ciberespaço mais dinâmico a partir da colaboração, denominada Web 2.0.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 126). “Esse aspecto é o que faz a diferença entre os modelos mais tradicionais de ensino e aprendizagem e os modelos para compreensão menos lineares, sequenciais e hierárquicos que favorecem o acesso, a compreensãoe a criação de conhecimentos.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 127). A expressão “essas habilidades” reativa na memória do leitor a ideia apresentada no parágrafo anterior da necessidade de “ser capaz de identificar a informação da qual se tem necessidade, de localizá-la, de acessá-la, de avaliá-la e de utilizá-la”. Cumpre, ao mesmo tempo, a função de introduzir um novo tópico que faz o texto progredir semanticamente ao acrescentar que tais habilidades são ainda mais necessárias quando se acessa a Web 2.0. Da mesma forma, a expressão “esse aspecto”, além de recuperar uma informação presente no parágrafo anterior (retroação) – a ocorrência de interações em que todos podem ser criadores, produtores e distribuidores de conteúdos −, organiza o texto, introduzindo um novo tópico (progressão). Nessa nova etapa da argumentação, os autores sublinham o contraste existente entre os modelos mais tradicionais de ensino e os modelos para compreensão menos lineares, sequenciais e hierárquicos, que, segundo eles, favorecem o acesso, a compreensão e a produção de conhecimentos. Esse breve estudo da referenciação mostra que tanto o autor quanto o leitor de gêneros acadêmicos devem ter competência para o uso eficiente e a interpretação adequada desse recurso de coesão textual, a fim de que o ato comunicativo se realize efetivamente. As substituições e retomadas, juntamente com a articulação (que será abordada na seção seguinte) possibilitam tecer o fio condutor do texto, conferindo-lhe unidade temática. 10.1.2 Articulação A articulação ou encadeamento por conexão, conforme Koch e Elias(2006), ou, ainda, a coesão pela conexão, consoante Antunes (2005), é o recurso de coesão que se opera pelo emprego de conectores diversos, como conjunções, preposições, advérbios e locuções conjuntivas, prepositivas e adverbiais. Esse recurso promove a “sequencialização de diferentes porções do texto” (ANTUNES, 2005, p. 140). Os articuladores ou conectores são responsáveis, ao lado dos recursos de referenciação, pelas relações de sentido que garantem a unidade textual, uma vez que encadeiam diversos segmentos do texto entre si, sejam palavras, orações, frases e até parágrafos. Charaudeau (2008) chama atenção para o papel que desempenham as relações lógicas inscritas numa relação argumentativa, em que o locutor visa a defender uma tese, agindo sobre o interlocutor, como ocorre no gênero artigo acadêmico. Analisemos, agora, algumas relações de sentido presentes nos artigos científicos e na resenha em estudo. a) Relação de causalidade Na introdução do artigo A contribuição da psicologia escolar na prevenção e no enfrentamento do Bullying, observa-se a relação de causa e consequência no seguinte fragmento: “Os estudos sobre bullying se iniciaram na década de 70 na Suécia e na Dinamarca, no entanto esse fenômeno sempre existiu no ambiente escolar, mas não era caracterizado como tal por se acreditar que não passava de brincadeiras inofensivas e normais entre os estudantes.” (FREIRE; AIRES, 2011, p. 56). Nessa relação de sentido, o fato de acreditar-se, antes da década de 1970, que o que hoje se denomina bullying não passava de brincadeiras inofensivas e normais entre os estudantes (causa) acarreta o fato de que o fenômeno bullying não era caracterizado dessa forma (consequência). b) Relação de conclusão “É preciso pensar o bullying como um fenômeno social, portanto as formas de enfrentamento e prevenção devem estar em plena comunhão com o contexto onde ocorre, envolvendo medidas psicopedagógicas e preventivas que levem em consideração aspectos sociais, psicológicos e econômicos muito mais do que medidas caracterizadas por punições, ameaças e intimidações ou formas prontas de enfrentamento.” (FREIRE; AIRES, 2011, p. 57). Nesse enunciado, a partir da premissa de que o bullying deve ser considerado um fenômeno social, as autoras concluem que as formas de enfrentamento e prevenção devem levar em conta o contexto em que o fenômeno ocorre. Há, pois, uma dedução lógica a partir de uma afirmação precedente. c) Relação de adição “Bennett et al. (2012) afirmam que o objetivo básico da educação deve ser formar cidadãos com conhecimentos, habilidades e atitudes, não apenas com vistas à qualificação profissional, mas também para a prática social, apoiadas por oportunidades de aprendizagem para exercitar a colaboração, comunicação e o compartilhamento de conhecimentos.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 131). Nesse enunciado, a relação de adição ocorre entre duas finalidades da formação de cidadãos com conhecimentos, habilidades e atitudes: a qualificação profissional e a prática social. Na ótica das autoras, não é suficiente a meta de qualificação profissional; a ela deve somar-se a prática social. “Como metodologia, além da revisão bibliográfica, foi desenvolvida uma pesquisa de campo, de natureza exploratório-descritiva.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 125). Esse enunciado, extraído do resumo do artigo acadêmico de Andrelo e Nakashima (2012), apresenta uma relação de adição entre duas atividades que foram desenvolvidas pelos autores como metodologia do trabalho: revisão bibliográfica + pesquisa de campo. d) Relação de oposição “A formação dos professores é condição essencial para que isso aconteça. Porém, é fundamental repensar os currículos dos cursos de licenciatura, sobretudo no que diz respeito à forma, muitas vezes, estagnada e hermética como os conteúdos são distribuídos em disciplinas desarticuladas com o uso de tecnologias digitais.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 133). No exemplo acima, o articulador “porém” expressa uma relação de oposição entre dois argumentos. O primeiro argumento (“A formação dos professores é condição essencial para que isso [um bom trabalho em sala de aula] aconteça” leva à conclusão de que um bom trabalho em sala de aula prescinde de outras condições. O argumento introduzido pelo conectivo “porém” (“é fundamental repensar os currículos dos cursos de licenciatura”) é o argumento mais forte, pois, para que se formem bons professores, é preciso, segundo os autores, mudar a forma, frequentemente hermética e estagnada como os conteúdos são distribuídos em disciplinas desvinculadas do uso de tecnologias digitais. No quadro a seguir, apresentam-se as relações de sentido que podem ser estabelecidas entre os dados ou ideias expressos num artigo científico ou numa resenha e indicam-se os principais articuladores que podem explicitar essas relações. Quadro 6 – As relações de sentido e articuladores que as expressam Relação de sentido Articuladores mais recorrentes 1. Adição e, nem, não só…como também, não só…mas também, tanto…como, além de, além disso 2. Alternância ou, ou…ou, ora…ora, quer…quer, já…já, seja…seja 3. Oposição mas, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante 4. Concessão restritiva embora, ainda que, mesmo que, conquanto 5. Causalidade porque, por, pois, já que, visto que, uma vez que, por isso, em virtude de, em consequência de, por causa de, em decorrência de, consequentemente 6. Explicação ou justificativa pois, que, porquanto, ou seja, isto é, quer dizer 7. Condicionalidade se, caso, desde que, contanto que 8. Finalidade para, para que, a fim de, a fim de que, com a finalidade de, com o propósito de, com o intuito de, com o objetivo de 9. Conclusão logo, portanto, por conseguinte, então, assim, pois (deslocado) 10. Comparação tão…como, tanto…quanto, como, mais…(do) que, menos (do) que 11. Temporalidade antes de/que, depois de/que, assim que, toda vez que, quando, enquanto, ao mesmo tempo que, a partir de, desde 12. Proporcionalidade quanto mais…mais, quanto menos…menos, quanto menos…mais, quanto mais…menos, à medida que, à proporção que, ao passo que Fonte: Antunes (2005). 10.2 Uso de voz passiva como recurso de impessoalização Charaudeau (1992, p. 156) afirma que os “tipos de textos são mais ou menos normalizados quanto à utilização de marcas da pessoa”. Segundo o autor, os dados da situação em que se insere o ato comunicativodeterminam, em parte, a presença ou aparente ausência do locutor em seu discurso, mas, diante das restrições que o gênero textual lhe impõe, ele possui certa liberdade em relação às estratégias linguístico- discursivas de que se valerá. No discurso científico, por exemplo, sublinha Charaudeau (1992), há, de modo geral, a predominância da impessoalidade, expressa por meio de marcas linguísticas, como modalidades (é preciso, é necessário, é evidente…), estruturas que impessoalizam uma operação mental do locutor (verifica-se…, foi identificada…, são analisados e discutidos…, observa-se…, conclui-se…) e construções que podem remeter a um estudioso ou pesquisador pertencente à comunidade científica ou à própria comunidade científica à qual pertence o locutor e o interlocutor (argumenta-se que…, sabe-se que…, tem-se constatado que…). A impessoalização, conforme Charaudeau (1992, p. 314), consiste em apresentar “uma ação, uma qualificação ou uma modalização como se nenhum sujeito ou agente fosse responsável por essa ação ou modalização”. O uso da voz passiva é um recurso de impessoalização. Serão analisadas algumas ocorrências de voz ativa e passiva no artigo A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura, a fim de observar os efeitos de sentido que esse uso provoca, ao mesmo tempo em que se explicitarão algumas definições relevantes para uma melhor compreensão do que seja voz passiva. 10.2.1 Vozes verbais Voz verbal é a maneira como o locutor apresenta a ação expressa pelo verbo em sua relação com o sujeito, com ênfase no agente da ação, no paciente da ação ou na própria ação. As vozes verbais são as seguintes: a) Voz ativa Um verbo está na voz ativa quando o sujeito é o agente, isto é, aquele que realiza o evento expresso pelo verbo. Vejamos um exemplo: “Greenhow et al. (2009) ressaltam a relevância do desenvolvimento profissional de professores para o ensino com os recursos da Web 2.0 e do uso destes como apoio para a aprendizagem dentro e fora das salas de aula.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 127). Cabe destacar que, embora seja empregada a voz ativa nesse enunciado assim como em outros trechos do artigo científico, o ato de linguagem não se centra nos locutores (autores do artigo), mas estes explicitam quais são os autores da afirmação que contribui para fundamentar a tese defendida ao longo do texto. Como, nesse caso, o ato de linguagem que respalda a tese dos autores é de terceiros, é evidenciada, também, a impessoalidade por meio desse recurso. b) Voz passiva Um verbo está na voz passiva quando o sujeito é o paciente, isto é, aquele que é atingido pelo evento expresso no verbo. A voz passiva pode ser analítica ou sintética. Voz passiva analítica A voz passiva analítica, em geral, é formada pelo verbo ser + particípio do verbo principal, podendo ser usados também outros verbos auxiliares, como estar ou ficar. Veja os exemplos a seguir: “A Web 2.0 é considerada pelos especialistas da área de tecnologias da informação (TI) uma atitude e não uma tecnologia.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 127). “O questionário foi submetido à apreciação de dois especialistas em educação e tecnologias, que sugeriram algumas mudanças na redação das questões abertas a fim de torná-las mais claras e objetivas.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 129). Na voz passiva analítica, o agente pode estar expresso ou não. No primeiro exemplo, o agente “pelos especialistas da área de tecnologias da informação (TI)” é explicitado por ser um argumento de autoridade, daí a relevância de esclarecer aos leitores do artigo de quem é a afirmação de que a Web 2.0 é uma atitude e não uma tecnologia. No segundo exemplo, há o apagamento do agente nós, autores do artigo científico, uma vez que essa informação é depreendida no texto: a submissão do questionário à apreciação de dois especialistas em educação e tecnologias foi feita por aqueles que desenvolveram a pesquisa que resultou no artigo científico. Mais importante do que a explicitação do agente da ação é a própria ação de submeter o questionário à apreciação de especialistas em educação e tecnologias, pois a pesquisa envolve essas duas áreas. Voz passiva sintética A voz passiva sintética é expressa pelo emprego de um verbo transitivo direto acompanhado do pronome apassivador “se”. Nesse caso, o sujeito gramatical é representado por uma palavra ou expressão na terceira pessoa do singular ou do plural, geralmente expressa após a partícula “se”. Em virtude da regra geral de concordância – o verbo deve concordar com o sujeito –, se a palavra ou expressão que normalmente sucede o pronome “se” estiver no plural, o verbo deverá também ser flexionado na terceira pessoa do plural. Exemplos: “Selecionaram-se intencionalmente 213 estudantes matriculados na disciplina Estágio Supervisionado III, por ser uma disciplina presente na grade curricular de todas as licenciaturas, cursada a partir do segundo ano da graduação, auxiliando no esclarecimento do problema levantado.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 129). “Desse total, obtiveram-se 96 questionários válidos, ou seja, 45% de representatividade do universo pesquisado.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 129). “Definiu-se o questionário como instrumento para coleta de dados, com base em Gil (1994) e Laville e Dionne (1999).” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 129). Em todas as ocorrências destacadas nesses excertos, o agente das ações realizadas no decorrer da pesquisa é o mesmo: os autores do artigo. No entanto, como a impessoalização predomina nesse gênero textual, os autores preferiram não deixar vestígios de sua presença no discurso, conferindo ao texto uma aparente objetividade. O uso da voz passiva sintética é um importante recurso para produzir, no artigo, um efeito de aparente neutralidade e para focalizar as ações que foram empreendidas pelos autores, atribuindo maior relevo a essas ações. É pertinente sublinhar que se observa, no artigo A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura, coerência no que se refere ao quadro enunciativo (uso das pessoas verbais), visto que, no decorrer do texto, os autores não se inserem explicitamente em seu discurso. Essa impessoalidade é obtida de duas formas: (1) pelo uso da voz ativa, quando os agentes da ação de dizer são terceiros (estudiosos ou pesquisadores relacionados à respectiva comunidade científica), citados pelos autores do artigo; ou (2) pelo uso da voz passiva sintética ou analítica, quando os responsáveis pelo dizer ou fazer são os próprios autores, cujas marcas são apagadas, ou terceiros, cuja identidade é somente explicitada quando é relevante a informação de qual é o agente responsável pela ação ou ato de linguagem. Cabe salientar, ainda, que, no gênero resumo acadêmico, o uso da voz passiva (sintética ou analítica) é muito comum, uma vez que os autores não se inscrevem em seu texto em primeira pessoa. Assim, o foco reside nas ações desenvolvidas no trabalho e não no agente dessas ações. Vejamos alguns exemplos: “Como metodologia, além da revisão bibliográfica, foi desenvolvida uma pesquisa de campo, de natureza exploratório-descritiva. O campo de pesquisa foi representado por uma universidade particular, situada no município de Bauru (SP). Foram selecionados 213 estudantes matriculados na disciplina Estágio Supervisionado III, por pertencer à grade curricular de todas as licenciaturas, cursada a partir do segundo ano da graduação.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 125). Nesse excerto, constata-se o emprego da voz passiva analítica nas três frases. Assim, as informações centrais são as ações empreendidas pelos pesquisadores, como o desenvolvimento da pesquisa de campo além da revisão bibliográfica e a seleção de 213 estudantes, informantes que foram entrevistados. A explicitação do campo de pesquisa também é apresentada em forma de voz passiva analítica, por meio da qual os autores topicalizam, realçando, “o campo de pesquisa”, que está na posição de sujeito. 10.3 Citaçãode discurso alheio Num texto, diversas vozes podem conviver com a voz do enunciador, com as quais esta pode estar em consonância ou em dissonância. Num gênero textual em que predomina o modo de organização argumentativo − como o artigo acadêmico −, as citações (diretas ou indiretas) servem, na maioria das vezes, para conferir maior credibilidade às ideias defendidas pelo autor, constituindo, pois, argumentos de autoridade. Ao trazer a ideia de outros estudiosos com os quais o enunciador partilha determinado ponto de vista, ele fundamenta sua tese, com vistas a levar o interlocutor a aderir a seu discurso ou, pelo menos, a aceitar a plausibilidade de sua argumentação. Nos artigos A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura e A contribuição da psicologia escolar na prevenção e no enfrentamento do Bullying, os articulistas recorrem, diversas vezes, ao discurso alheio, apresentando vozes de outros estudiosos que tratam, respectivamente, do uso de tecnologias da informação e da comunicação no ambiente escolar e do fenômeno bullying. 10.3.1 Citação direta Charaudeau (2008, p. 240) considera a citação um procedimento discursivo que, no âmbito de uma argumentação, promove efeitos de persuasão. O autor explica que a citação direta “consiste em referir-se, o mais fielmente possível (ou pelo menos dando uma impressão de exatidão), às emissões escritas ou orais de outro locutor, diferente daquele que cita, para produzir na argumentação um efeito de autenticidade”. Segundo ele, a citação funciona como o testemunho de um dizer, de uma experiência ou de um saber. No discurso científico, prevalece o testemunho de um saber, pois aquele que escreve um artigo científico recorre ao conhecimento produzido por outros estudiosos/pesquisadores que já trataram do tema em questão e cujas contribuições lhe servirão de suporte teórico. Maingueneau (2002) afirma que o uso de discurso direto como modo de discurso relatado visa a criar um efeito de autenticidade e de distanciamento, seja porque o locutor não concorda com o teor do discurso citado − por isso não quer misturar esse dito com a posição que assume −, seja porque quer manifestar sua adesão ao que é dito, valendo-se desse discurso como argumento de autoridade. 10.3.2 Citação indireta Por meio do discurso indireto, o enunciador tem diversas maneiras de parafrasear as falas citadas, pois não apresenta a transcrição literal das palavras do autor citado, mas o conteúdo de seu pensamento. Assim, quando o enunciador explicita, com palavras próprias, algo que já foi dito antes por outro autor, sem perder de vista o teor do texto original, está fazendo uso de uma citação indireta ou paráfrase. 10.3.3 Mecanismos linguísticos de inserção do discurso citado a. O discurso direto, sinalizado por aspas, pode ser introduzido por verbo de elocução (afirma, sustenta, assevera, frisa, ressalta, salienta, sublinha, enfatiza, destaca, explica, argumenta, acrescenta, conclui…) seguido de dois pontos. Nos artigos analisados, não se verifica nenhuma ocorrência desse recurso. Por isso, procedemos a uma adaptação no exemplo a seguir: “Bonilla (2005, p. 203) afirma: ‘As tecnologias são tão importantes no processo de formação de professores quanto a língua materna, as metodologias, a psicologia, a sociologia e todas as demais áreas que compõem o currículo de uma licenciatura em qualquer área do conhecimento, ou de um curso de formação continuada’.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 128 − adaptação). Observações: 1. O discurso direto também pode vir precedido de verbo de elocução e conjunção integrante “que”, nesse caso, sem o uso de dois pontos. São as aspas que destacam o dizer de outro autor, reproduzido fielmente. O exemplo acima seria assim introduzido: Bonilla (2005, p. 203) afirma que “as tecnologias…”. 2. Quando a citação direta tiver extensão superior a cinco linhas, deve ser apresentada em fonte menor (10), em espaçamento simples e recuada à margem direita (4 cm). b. Tanto a citação direta quanto a indireta podem ser introduzidas por articulador de conformidade (conforme, segundo, de acordo com, para, consoante…), como nos exemplos a seguir: “Segundo Castells (2000), nos últimos 25 anos do século XX, uma revolução tecnológica com base na informação transformou a forma de pensar, de produzir, de consumir, de negociar, de gerir, de comunicar e de viver dos seres humanos.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 127). “Nessa perspectiva, de acordo com Moran (2007, p. 15), ‘as escolas e universidades são os espaços institucionais legitimados para a formação dos novos cidadãos’ relacionada à revolução tecnológica, que permite novas possibilidades para a construção do conhecimento.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 128). c. Quando a citação indireta vier precedida de verbo de elocução, este será seguido de uma partícula introdutória, que pode ser uma conjunção integrante (que, se), um advérbio (onde, como, quando) ou um pronome interrogativo (por que). “Ao discutir a questão, Belloni (2001, p. 55) pondera que os processos de socialização dependem das escolhas políticas feitas pela sociedade e a educação é um instrumento político.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p. 127). d. Em alguns casos, também é inserida no texto uma citação direta, sem que o autor seja anunciado previamente. O nome do autor, o ano da obra e a página são citados após o fragmento que está entre aspas. Esse recurso ocorre no artigo de Freire e Aires: “Ressalta-se um ponto importante na caracterização desse fenômeno, a repetição. E acrescenta-se o fato de este ser de difícil identificação por acontecer longe de adultos e por não haver denúncias por parte das vítimas devido ao medo de retaliação. ‘A violência, tanto para quem comete quanto para quem é submetido a ela, é, na maioria das vezes, uma questão de violência repetida, tênue e dificilmente perceptível’.” (DERBABIEUX, 2002, p. 29 apud FREIRE; AIRES, 2012, p. 56). Cabe destacar que os autores dos dois artigos usam, de forma recorrente, a citação indireta, evidenciando que parafrasearam o trecho extraído de outro texto, o que requer, primeiramente, a plena compreensão do que foi lido na fonte. Um texto com abundância de citações diretas geralmente denuncia a inépcia do autor quanto à compreensão do texto original ou quanto ao uso do léxico e de estruturas gramaticais para dizer com suas palavras o que está expresso no texto-base. A simples colagem de trechos de outros textos ou “posse” de ideias de outro autor, sem indicação da fonte, configura o plágio, infração sujeita a penalização. É importante a seleção do verbo introdutor do discurso direto ou indireto, uma vez que dá certo direcionamento ao discurso citado, condicionando, em certa medida, a interpretação do enunciado. Constata-se, nos artigos e na resenha analisados, que são recorrentes verbos que informam sobre a ação linguístico-discursiva empreendida pelo(s) autor(es) do texto original: ressalta(m), apresenta, conclui, cita, critica, pondera. As citações, diretas ou indiretas, constituem, portanto, um importante recurso linguístico tanto em artigos científicos como em resenhas acadêmicas. Em artigos científicos, essas citações, geralmente, funcionam como argumentos de autoridade, uma vez que os autores apresentam vozes ou ideias de terceiros que têm renome na área de conhecimento em que se enquadra o artigo para respaldarem sua tese. Em outras palavras, o discurso alheio constitui um argumento de que se vale(m) o(s) autor(es) do artigo para conferir maior credibilidade à posição que defende(m), com vistas a levar o interlocutor a aderir a seu discurso. Em resenhas acadêmicas, por sua vez, esse recurso linguístico é mobilizado pelo enunciador principalmente quando faz menção à autoria da obra resenhada, ou seja, quando, no resumo da obra, resgata informações ou afirmações apresentadas no texto original, a fim de deixar claro a seu leitor que tais ideias ou palavras constam na obra que está sendo resenhada. 10.4 Paráfrase A paráfraseacontece sempre que recorremos ao procedimento de voltar a dizer o que já foi dito antes, porém, com outras palavras, como se quiséssemos traduzir o enunciado, ou explicá-lo melhor, para deixar o conteúdo mais transparente, sem perder, no entanto, sua originalidade conceitual. A paráfrase é, portanto, uma operação de reformulação, de dizer o mesmo de outro jeito (ANTUNES, 2005, p. 62). O objetivo da paráfrase é dizer de forma mais clara (na medida do possível, com vocabulário e estrutura de frase novos) o que está dito no texto original, preservando, com o máximo de fidelidade possível, as informações desse texto (GARCIA, 1995). Em artigos científicos, pode-se fazer uso de paráfrase principalmente nas seguintes situações: (i) em citações indiretas; (ii) em repetição de informações em seções diferentes dentro de um mesmo artigo; (iii) em explicações; (iv) em sínteses. Na primeira situação, a de paráfrase em citações indiretas, a paráfrase é usada para que se faça a reformulação do texto original dizendo com outras palavras o que outro autor disse, com a intenção de tornar mais claro para o leitor o conteúdo reportado. Na seção anterior, foram apresentados exemplos desse tipo de citação. Na segunda situação, a de paráfrase em repetição de informações, a paráfrase é usada quando uma mesma informação precisa ser reproduzida em seções diferentes dentro do mesmo artigo. Isso ocorre, por exemplo, na repetição da pergunta de pesquisa do artigo no resumo e na introdução. É o que se pode observar a seguir em exemplo retirado do artigo A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura: Resumo “ O questionamento que motivou o trabalho foi saber se os estudantes conhecem os recursos da Web 2.0 e sabem explorar as suas potencialidades pedagógicas no desenvolvimento de atividades didáticas.” Fonte: Andrelo; Nakashima (2012, p.125). Introdução “ Baseando-se nessas considerações, levantou-se o seguinte problema de pesquisa: os estudantes dos cursos de licenciatura conhecem os principais recursos da Web 2.0 e sabem explorar as potencialidades pedagógicas dos mesmos no desenvolvimento de atividades didáticas?” Fonte: Andrelo; Nakashima (2012, p.128). Os excertos acima mostram duas informações equivalentes, porém expressas por meio de palavras e de estruturas de frase distintas. Trata-se, portanto, de uma paráfrase. A análise dos textos aponta que, na introdução, as autoras, ao fazerem a paráfrase, caracterizam mais precisamente a pergunta de pesquisa (por meio da expressão “problema de pesquisa” em vez de “questionamento”), delimitam a amostra (em vez de “estudantes” usam “estudantes dos cursos de licenciatura”) e explicitam melhor quais recursos da Web 2.0 serão avaliados (por meio do adjetivo “principais”). Essa paráfrase tem, assim, o objetivo de apresentar a pergunta de pesquisa de modo mais preciso. Na terceira situação, a de paráfrase em explicações, a paráfrase pode ser empregada com a função de esclarecer para o leitor o que foi reportado anteriormente. O autor do artigo pode, por exemplo, dizer algo de uma forma e, em seguida, repetir a informação com outras palavras, visando a tornar a ideia mais clara. Isso é o que ilustra o quadro abaixo: “Com o surgimento da Web 2.0, está ocorrendo uma convergência de mídias e de participação mais ativa dos cidadãos, pois um dos seus princípios baseia-se na “inteligência coletiva” (Lévy, 1998), ou seja, na produção e compartilhamento de conteúdos entre os usuários. Diferentemente da Web 1.0, as mídias já não são mero delivery ou “transferência” passiva de conhecimentos construídos pelo produtor para um suposto receptor. Ocorrem interações em que todos podem ser criadores, produtores e distribuidores de conteúdos.” Fonte: Andrelo; Nakashima (2012, p.127). Nesse exemplo, observa-se que os trechos destacados em itálico cumprem a função de explicar as informações trazidas no início da primeira frase a respeito de um dos princípios da Web 2.0, a “inteligência coletiva”. Ainda com o objetivo de explicar, há situações em que o autor reporta um discurso direto e, em seguida, passa a parafrasear essa citação. Para ilustrar essa situação, apresenta-se, no quadro abaixo, um exemplo adaptado de Abreu (2006). Paráfrase em citação direta O texto acima exemplifica os seguintes procedimentos discursivos: (i) citação direta (linhas 2-4); (ii) paráfrase da citação direta (linhas 5-8); (iii) fala de Abreu, relacionando o conteúdo mencionado nas linhas anteriores com o tema de seu livro (linhas 8-13). Na citação direta, verifica-se uma definição para “síntese”. A porção de texto seguinte (linhas 5-8) corresponde a uma paráfrase porque se trata de uma espécie de tradução daquilo que foi dito na citação direta (linhas 2-4) com outras palavras, isto é, com as palavras do autor do texto como um todo. É possível observar que, para preservar as informações do texto original, Abreu (2006) utilizou palavras e forma distintas daquelas usadas pelo autor parafraseado; apresentou, de modo diferente, o mesmo conteúdo. É comum que o texto parafrásico seja introduzido por meio de uma expressão que indica que a “mesma informação volta a ser dita, porém numa outra formulação linguística e, por vezes, com pequenos acréscimos ou ajustes” (ANTUNES, 2005, p. 62). No referido exemplo, a expressão empregada foi “dito de outro modo”. Com a mesma função, outras expressões podem ser utilizadas, como, por exemplo, em outras palavras, em outros termos, isto é, ou seja, quer dizer, em resumo, em suma, em síntese (ANTUNES, 2005, p. 62). A partir da citação e da paráfrase elaborada tomando por base essa citação direta, nas linhas 8-13, a autora toma a palavra e relaciona as informações a um resumo acadêmico, gênero em foco no livro de Abreu (2006). O procedimento de fazer, logo após a citação direta, uma reprodução dessa fala no formato de comentário, relacionando o tópico em questão ao tema da pesquisa, é comum e recomendado em trabalhos acadêmicos. Por fim, a quarta situação referida anteriormente, a de paráfrase que sintetiza uma informação, ocorre quando, a partir de uma citação direta (ou mais de uma), os autores do artigo fazem, com suas próprias palavras, uma síntese do conteúdo da citação (ou das citações). Esse procedimento pode ser observado abaixo. O exemplo adaptado acima ilustra a paráfrase em síntese. As pesquisadoras apresentam as ideias de outros estudiosos por meio de citações (indireta e direta), e, em seguida, no parágrafo em itálico, elaboram um resumo do conjunto de informações com suas próprias palavras. Trata-se, portanto, de uma situação comum na redação acadêmico-científica, quando se demonstra reflexão sobre a relação entre os estudos de diferentes pesquisadores. Há, portanto, quatro situações em que se realiza uma paráfrase: a. A redação de um artigo científico exige, em alguns momentos, que o pesquisador reproduza com suas próprias palavras o pensamento de outro autor em forma de citação indireta, caso em que precisará parafrasear as afirmações do texto original, ou seja, recriar o texto sem alterar as ideias originais do autor. b. Outra situação ocorre quando o autor repete, com outras palavras, passagens do seu próprio texto. c. É possível, também, que o autor diga com suas próprias palavras o mesmo que acabou de referir em citação direta com o intuito de tornar seu conteúdo mais acessível ao público-alvo e adequado ao contexto do seu artigo. d. Por fim, o autor pode, a partir de uma ou mais de uma citação direta, sintetizar o conteúdo da(s) citação(ões). 10.5 Plágio Até aqui, as seguintes situações de uso das palavras e informações de outro estudo foram apresentadas: citação direta, citação indireta e apresentação do que o outro disse por meio de paráfrase. As três situações precisam ser inseridas em textos acadêmicos de acordo com o seguinte padrão: quando se está reportando fielmente as palavras de outro estudo, é obrigatório marcar essa porção de texto conforme as regras mencionadas na seção 10.3: aspas,itálico ou recuo de parágrafo. Sem essas marcações de discurso direto, é preciso que se faça paráfrase. Caso contrário, as porções de texto copiadas caracterizarão o plágio. Umberto Eco, no livro Como se faz uma tese, publicado em 2005, ressalta que esse tipo de plágio é frequente, pois o aluno ou o pesquisador iniciante fica com a consciência tranquila porque informa, antes ou depois, em nota de rodapé, que está se referindo àquele autor. Mas o leitor que, por acaso, percebe na página não uma paráfrase do texto original, mas uma verdadeira cópia sem aspas, pode tirar daí uma péssima impressão (ECO, 2005, p. 130). “Como ter certeza de que uma paráfrase não é um plágio?” (ECO, 2005, p. 130). O autor destaca que o procedimento mais adequado para se fazer uma paráfrase é escrever o texto após a leitura do original sem tê-lo mais à frente. Uma boa paráfrase demonstra fundamentalmente que entendemos o texto original. Seguindo o critério de Eco (2005), abaixo são apresentados exemplos de “paráfrase honesta”, de “falsa paráfrase” e de “paráfrase quase textual que evita o plágio”. a. O texto original de Andrelo; Nakashima (2012): “ A discussão sobre a inserção de TICs nas escolas pode parecer imprópria em um momento no qual os instrumentos de avaliação indicam que a educação enfrenta problemas ainda mais básicos, como o desempenho dos estudantes em língua portuguesa ou matemática.” (ANDRELO; NAKASHIMA, 2012, p.127) b. Uma paráfrase honesta do original de Andrelo; Nakashima (2012): Diante do fato de a educação enfrentar, no momento, sérios problemas, como o baixo desempenho dos alunos em disciplinas fundamentais como língua portuguesa e matemática, Andrelo e Nakashima (2012) acreditam que o debate sobre a inserção pedagógica de TICs pode parecer inadequado. A honestidade dessa paráfrase fica evidente, por ser tratar de um texto com igualdade de conteúdo, porém com vocabulário e estruturas frasais distintos. É importante salientar que não se fez uma simples substituição lexical por sinônimos, mas uma substituição do texto como um todo, sem desconsiderar nenhuma das informações. O objetivo dessa paráfrase é, efetivamente, traduzir o conteúdo do texto original de uma forma nova, ou seja, com estrutura e vocabulário distintos do original. c. Uma falsa paráfrase do original de Andrelo; Nakashima (2012): Andrelo e Nakashima (2012) afirmam que o debate sobre a utilização de tecnologias da informação e da comunicação nas escolas pode parecer inconveniente em um momento no qual os instrumentos de avaliação apontam que a educação enfrenta problemas ainda mais fundamentais, como o desempenho dos estudantes em português ou matemática. O texto acima é um exemplo da situação de cópia do parágrafo original com simples troca de certas palavras por sinônimos (destacados em itálico). Por essa razão, o texto é uma falsa paráfrase, o que caracterizaria plágio se esse parágrafo fosse inserido em um trabalho acadêmico. Fica claro, portanto, com esse exemplo, que, para produzir uma paráfrase, não basta efetuar uma simples substituição de vocábulos ou expressões. d. Uma paráfrase quase textual que evita o plágio: Quando se trata da “ utilização de TICs nas escolas”, Andrelo e Nakashima (2012, p. 5) defendem que ela “ pode parecer imprópria” se forem considerados “ problemas ainda mais básicos” na educação, como o desempenho dos alunos em português ou matemática. O parágrafo acima poderia ser inserido em um trabalho acadêmico honesto. Ele não pode ser considerado plágio por conter aspas em todos os trechos copiados literalmente do texto original. Trata-se, no entanto, de um parágrafo composto quase que totalmente por citação direta, com muito pouca interferência do autor, que faz menção às ideias de Franco. Esse tipo de estratégia, ao contrário do exemplo 2, não é a ideal. Humberto Eco (2005) defende que, nesse caso, o melhor seria fazer uma citação direta de todo o parágrafo. De qualquer modo, o cuidado com o uso de aspas sempre que se copia algo de outro autor é fundamental. Eco ressalta que é preciso estar “seguro de que, não existindo aspas [em nosso texto], o que ali está é uma paráfrase e não um plágio” (ECO, 2005, p. 130). Quando se faz uma paráfrase, portanto, a intenção é repetir as informações do texto original sem necessariamente resumi-lo; na verdade, o que se pretende é explicá- lo com outras palavras, talvez mais acessíveis ao leitor. Não basta, então, alterar a ordem dos elementos na frase; é preciso reescrevê-la sem alterar significativamente o texto. É necessário, ainda, evitar o acréscimo ou a exclusão de informações. As paráfrases podem ser muito variadas, mas elas são consideradas adequadas se o mesmo conteúdo tiver sido dito de outra maneira. Desse modo, ao redigir um texto acadêmico, é preciso manipular com cuidado as outras vozes que são trazidas para ele. É fundamental que sejam observadas, com muita atenção, as situações em que se está parafraseando e as situações em que se está fazendo cópia fiel das ideias de outros autores. Por fim, é importante que se diga que o plágio, no contexto acadêmico- científico, é entendido legalmente como uma atividade fraudulenta, isto é, ilícita. Para esse tipo de fraude escolar, a UNISINOS prevê sanções disciplinares, conforme a Resolução nº 017/87. Para plágio comprovado, a resolução prevê como punição a reprovação e a repreensão, por escrito, registrada na ficha escolar do aluno por um ano, se não houver reincidência. A determinação na íntegra está disponível no boletim informativo da UNISINOS. REFERÊNCIAS ABREU, Sabrina. Elaboração de Resumo. Porto Alegre: UFRGS, 2006. ANDRELO, Roseane; NAKASHIMA, Rosária H. R. A formação de professores e o uso pedagógico da Web 2.0: a visão de estudantes de licenciatura. Educação Unisinos, v. 16, n. 2, p. 125-134, maio/ago. 2012. Disponível em: <http://www.unisinos.br/revistas/index.php/educacao/article/view/edu.2012.162.04>. Acesso em: 20 fev. 2013. ANTUNES, Irandé da Costa. Lutar com palavras: coesão e coerência. 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Capítulo elaborado por Cristina Pimentel Damim, Isa Mara da Rosa Alves, Janaína Lemos Becker, Silvana Kissmann e Vera Helena Dentee de Mello. ANEXOSSOBRE OS AUTORES CRISTINA PIMENTEL DAMIM Mestre em Teorias do Texto e do Discurso pela UFRGS. É revisora de textos acadêmicos e atua como professora na UNISINOS. ISA MARA DA ROSA ALVES Doutora em Letras e Linguística pela UNESP/Araraquara e mestre em Linguística Aplicada pela UNISINOS. Atua como professora pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada na UNISINOS. JANAÍNA PIMENTA LEMOS BECKER Doutora em Linguística Aplicada pela UNISINOS, mestre em Linguística e Letras pela PUCRS e licenciada em Letras, Português, pela UNISINOS. É professora da Faculdade de Letras da UNISINOS. JULIANA ALLES DE CAMARGO DE SOUZA Doutora e mestre em Linguística Aplicada, especialista em Redação em Língua Portuguesa, licenciada em Letras, Português, e professora na graduação na UNISINOS e na pós-graduação das Faculdades Integradas de Taquara (FACCAT). Atua como revisora de textos de diversas áreas do conhecimento. MARIA EDUARDA GIERING Doutora em Linguística. Professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e do curso de Letras da UNISINOS. Investiga, sob a perspectiva da Linguística Textual dos Discursos e da Semiolinguística, discursos especializados (divulgação científica e popularização da ciência na mídia). MARIA HELENA ALBÉ Mestre em Letras pela PUCRS e especialista em Língua Portuguesa pela UNISINOS. É professora na UNISINOS desde 1980, onde atualmente coordena o subprojeto de Letras Português (PIBID) e a área de português no Projeto Ensino Propulsor. É coeditora da Revista Entrelinhas, publicação semestral online do curso de Letras da UNISINOS. SILVANA KISSMANN Doutoranda em Linguística Aplicada, mestre em Linguística Aplicada pela UNISINOS, licenciada em Letras, Português e Inglês, pela UPF e bacharel em Administração de Empresas pela PUCRS. É professora do Curso de Letras da UNISINOS, onde desenvolve pesquisas sobre os temas enunciação e gestão. VERA HELENA DENTEE DE MELLO Doutora e mestre em Letras pela UFRGS, licenciada em Letras, Português e Inglês, pela UCS. Atua como professora nos cursos de Letras e de Direito da UNISINOS desde 1990. UNIVERSIDA DE DO VA LE DO RIO DOS SINOS – UNISINOS Reitor Pe. Marcelo Fernandes de Aquino, SJ Vice-reitor Pe. José Ivo Follmann, SJ EDITORA UNISINOS Diretor Pe. Pedro Gilberto Gomes, SJ Editora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos EDITORA UNISINOS Av. Unisinos, 950 93022-000 São Leopoldo RS Brasil Tel.: 51.3590 8239 | 51.3590 8238 editora@unisinos.br www.edunisinos.com.br © dos autores, 2013 2013 Direitos de publicação e comercialização da Editora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos mailto:editora@unisinos.br http://www.edunisinos.com.br EDITORA UNISINOS L533 Leitura e produção de textos de comunicação da ciência / Cristina Pimentel Darmim, Maria Eduarda Giering (orgs.); Isa Mara da Rosa Alves … [et al.]. – São Leopoldo, RS: UNISINOS, 2013. 120 p. – (EaD) ISBN 978-85-7431-582-9 1. Redação técnica. 2. Publicações científicas – Normas. 3. Redação acadêmica. 4. Comunicação na ciência. 5. Ensino a distância. I. Darmim, Cristina Pimentel. II. Giering, Maria Eduarda. III. Alves, Isa Mara da Rosa. IV. Série. CDD 808.0665 CDU 001.81 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Bibliotecário: Flávio Nunes – CRB 10/1298) Esta obra segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa vigente desde 2009. Editor Carlos Alberto Gianotti Acompanhamento editorial Mateus Colombo Mendes Revisão Editoração Capa Caroline Soares Rafael Tarcísio Forneck Isabel Carballo Impressão, inverno de 2013. A reprodução, ainda que parcial, por qualquer meio, das páginas que compõem este livro, para uso não individual, mesmo para fins didáticos, sem autorização escrita do editor, é ilícita e constitui uma contrafação danosa à cultura. Foi feito o depósito legal. Edição digital: janeiro 2014 Arquivo ePub produzido pela Simplíssimo Livros http://www.simplissimo.com.br Folha de rosto Sumário Capítulo 1 – Apresentação 1.1 Algumas noções importantes Capítulo 2 – Gêneros acadêmicos e de divulgação científica Capítulo 3 – O artigo acadêmico-científico: configuração global Capítulo 4 – O resumo acadêmico-científico: características 4.1 O que é? 4.2 Quem escreve para quem? 4.3 Onde é veiculado? 4.4 Qual é a sua finalidade? 4.5 O que deve ser abordado? 4.6 Análise de um resumo de artigo acadêmico a partir das unidades temáticas propostas por Swales �⠀㤀㤀 ) 4.7 Palavras-chave 4.8 Algumas questões linguístico-discursivas em jogo no resumo acadêmico-científico 4.9 Etapas para a elaboração do resumo de um artigo acadêmico-científico Capítulo 5 – A resenha acadêmica Capítulo 6 – Nos passos da resenha Capítulo 7 – A produção de resumos e o processo de sumarização Capítulo 8 – Roteiro para elaboração de resenhas acadêmicas 8.1 Etapa 1 – Leitura atenta da obra a ser resenhada 8.2 Etapa 2 – Redação da resenha Capítulo 9 – A divulgação da ciência Capítulo 10 – Questões linguístico-discursivas 10.1 Coesão textual 10.2 Uso de voz passiva como recurso de impessoalização 10.3 Citação de discurso alheio 10.4 Paráfrase 10.5 Plágio Anexos Anexo 1 Anexo 2 Anexo 3 Sobre os autores Créditos