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Marta Mega de Andrade A “CidAde dAs mulheres” cidadania e alteridade feminina na atenas clássica Rio de Janeiro LHIA 2001 Copyright© 2001 Marta Mega de Andrade Preparação: Marta M. de Andrade Diagramação: Marta M. de Andrade Ilustração da capa: Sérgio Barroso Foto da Capa: Atena (sentada) e jovem mulher. Ânfora ática de figuras vermelhas, 475-425 a.C. London, British Museum, E 316; ARV2 857.6. Corpus Vasorum Antiquorum. Brittish Museum, 5, pr. 58, fig. 1 a-b Revisão: Eduardo Corrêa do Prado Impressão e acabamento: Fábrica de Livros Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 938. 05 Andrade, Marta Mega de - 1967 - A “cidade das mulheres”: cidadania e alteridade feminina na Atenas Clássica / Marta Mega de Andrade. – Rio de Janeiro: LHIA, 2001. 174 p. ISBN: 85-88211-01-7 Bibliografia: p. 171-174 1. História Antiga. I. Título. CDD 2001 Proibida a reprodução total ou parcial. Os infratores serão processados na forma da lei. Laboratório de História Antiga da UFRJ / LHIA 1ª Edição Largo de S. Francisco de Paula 1, Centro Rio de Janeiro - RJ CEP:20051070 http://www.lhiaufrj.com.br info@lhiaufrj.com.br A Eduardo Por este livro, e por tudo mais. Hermes Passa PrefáCio: Ao abrir este livro, o leitor encontrará o estudo que defendi como dissertação de mestrado em 1994, na pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense. É claro que o retorno a este trabalho não podia deixar de ser crítico: seis anos depois, não há leitura mais implacável do que aquela de alguém que se “responsabiliza” pelo que escreveu, nos bons momentos, mas principalmente naquilo que gostaria de dizer de novo com outras palavras. De início, fazer uma “crítica de autor”: em 1994, desagradava-me a idéia de confundir este estudo sobre o imaginário da cidadania ateniense e sua construção a partir da figuração do feminino, com uma pesquisa de cunho “feminista”. Com efeito, eu não fazia uma “história da mulher”, mas uma história da cidadania como nómos, e do como essa “ordem política e social” da Atenas antiga não apenas aceitava como subenten- dia a possibilidade de subversão. Esta possibilidade se configurava na aparição das mulheres como agentes ativas na dinâmica de re-produção de uma ideologia da unidade / diversidade na pólis. Como negar, então, não propriamente intenções feministas, mas o pertencimento dos problemas levantados por este estudo a um projeto de afirmação da presença ativa das mulheres, e da positividade do gênero feminino, na história das póleis antigas? Não se trata de incluir as mul- heres no “clube de homens”, mas de evidenciar que este tal “clube de homens” que, pretende-se, teria sido a cidade-estado grega, não era mais do que a ponta visível de um iceberg, e que a pólis era também uma pólis das mulheres. Uma pólis das mulheres: não a mesma, mas outra; não idêntica aos cidadãos, mas diferente deles. Uma cidade cotidiana, feita de múltiplos encontros e de múltiplas negociações entre habitantes, dentre os quais as mulheres, especialmente as cidadãs (para o caso da ideologia política), tinham um papel de destaque. As mulheres transitavam entre as duas cidades: aquela dos “incluídos”, dos cidadãos e suas famílias, e a dos outros, aqueles que habitavam um lugar conhecido como Atenas ou um território como a Ática, sem, no entanto, se ligarem a ele pelos laços exclusivistas da cidadania. Esta pólis das mulheres não corresponde, definitivamente, ao modelo de cidade ou de Estado, que os historiadores ainda não deixaram de reproduzir desde há muito. E essas mulheres, as descendentes de Pandora que habitam entre os homens mortais nos campos e nas cidades gregas, não se encaixam no modelo da boa mul- her grega, aquela do silêncio, do recato, da reclusão doméstica, que nós nos acostumamos a apontar e dizer” “mirem-se nelas, as mulheres de Atenas”. Mirem-se nelas, porque elas não receberam a herança que nós re- cebemos, e portanto tinham efetivamente uma posição relevante em sua cidade, sem ressentimentos. Porque, de fato, a questão mais importante não é a de esclarecer se elas ficavam presas em casa ou saiam às ruas, se elas eram ou não castas, recatadas, silenciosas. A questão é: como, na subordinação cultural e social das mulheres pelos homens, há mais do que passividade, ou aceitação; mais do que violência ou resistência, há criação, ou talvez fosse melhor dizer, há métis, astúcia, não somente para resistir, mas especificamente para enganar. Como se tira a ação da reação, da passividade? Como tirar a negociação cotidiana e profundamente política, da aceitação? Como perceber o temor de um não, embutido naquele que predomina? É verdade que, seis anos depois, teria sido preferível falar em gêne- ros, ou em como masculino e feminino são posições de sujeitos, investidas nos processos (históricos) de reprodução cultural. No entanto, decidi publicar a dissertação sem alterações de conteúdo, porque o trabalho que teria feito hoje seria outro, e ainda, porque os estudos que realizo hoje têm na dissertação, tal como ela foi defendida, seu ponto de partida e seu ponto de retorno. Boa, má, bem ou mal escrita, em bom português ou — Prefácio — não, o fato é que essa dissertação de mestrado abre e fecha um círculo. O leitor encontrará uma tentativa de evidenciar, primeiro, o caráter de profunda alteridade representada pelo gênero feminino na cultura clássica. Mesmo que se tenha dito que as mulheres cidadãs, em Atenas, eram enquadradas segundo certos modelos de conduta, os quais podiam ser aceitos ou transgredidos na prática social, é verdade que havia um outro “modelo”, não de boa esposa mas de mulher “feminina”, amada, desejada, mas sobretudo temida: porque a sedução feminina tira do homem a sua previdência, sua atenção, seu esforço. Antes mesmo de um modelo (cristão) de “queda” da humanidade, para a qual a respon- sabilidade feminina seria inconteste e seu pecado constituinte, as filhas de Pandora na Grécia tinham que carregar o estigma da suspeita, do presente enganoso que não cessavam de representar na história dos homens. Lembremos, no entanto, que um presente é um presente, não uma tentação; e Pandora era um presente dos deuses, um belo presente, aceito porque desejado. Esse outro modelo do feminino, o do desejo e do temor, da atração e da suspeita, é muito frequentemente esquecido nos estudos sobre a mulher na Grécia; mas é aquele cujos tópicos procuramos explorar na representação de uma “raça das mulheres”. Depois, procura-se deixar claro que a relação das mulheres com a pólis, os avatares de uma participação feminina na construção dos ideais e das práticas políticas na Atenas clássica, não se restringiam apenas à ação largamente aceita (e aceitável, prevista mesmo nas instituições da pólis) da boa-esposa. Ao contrário, a grande importância ativa das práticas políticas femininas, aquilo que poderia ligar feminino a pólis, se configurava no encontro da “raça das mulheres” com a comunidade política e social (políade) da cidade. Tratava-se de algo que só o difer- ente poderia fazer, algo que só um “outro” poderia articular: cidadania e artifício, cidadãos e não-cidadãos, cidade e família, etc. Enfim: não eram os homens que, no fundo, precisavam das mulheres, era a cidade, instituição política e de governo sobre os habitantes de um território, que se experimentava “no” feminino. — A Cidade das Mulheres — Não poderia deixar de agradecer aqui o apoio daqueles que foram parte importante da elaboração desse trabalho. Minha ex-orientadora, profa. Vânia Fróes, e os profs. Ciro Cardoso e Ulpiano Meneses, são ainda hoje pontos de referênciadas pesquisas que realizo. Agradeço também a J-P. Vernant, pois esse estudo sobre feminino e política no teatro jamais teria sido realizado se não fossem as referências teóricas, metodológicas e de vida , de M. Vernant. Rio de Janeiro, 9 de novembro de 2000 sumário introdução: ............................................................................... 11 CAPÍtulo 1: umA PrátiCA do imAGinário: o teAtro e A fABriCAção dA CidAdAniA .....................................18 1.1- o teAtro e A PÓlis: ...........................................................19 1.2 — A prática do imaginário: .......................................................25 1.3 — Cidadania e feminino na Pólis: ............................................28 1.3.1- O Feminino Na Pólis: Algumas Abordagens: ...........................28 1.3.2 — A Vivência da Cidadania Democrática: ................................32 PArte i: o imAGinário do feminino e A rePresen- tAção do outro ................................................................37 CAPÍtulo 2: AlteridAde e feminino ..............................38 2.1- Pandora e a raça das mulheres: ..............................................40 2.1.1- Teogonia: ..................................................................................41 2.1.2- Os Trabalhos e os Dias: ............................................................45 2.2- GYnAiKÓs nÓon: ................................................................48 CAPÍtulo 3: eurÍPides e A Construção dA Alteri- dAde do feminino .............................................................54 3.1- A métis das mulheres: ................................................................54 3.2- uma outra solidariedade: .......................................................62 3.3- A mAniA: ..................................................................................71 3.4- Palavras Vãs, ou o lógos gynaîkos: ...........................................76 3.5- o feminino, A ilusão, A Verdade: ............................................82 3.6- masculino e feminino: ..............................................................89 PArte ii: o feminino e o uniVerso dA PÓlis...............93 CAPÍtulo 4: eurÍPides, ou QuAndo A mulher fAlA dA CidAde ...............................................................................94 4.1- A Cidade como patrís: ...............................................................95 4.2- o discurso Político de hécuba: .............................................106 4.3- o sacrifício das Jovens Virgens: ............................................ 110 4.3.1- Kalòs tánathon: a morte do hoplita e o elogio de Atenas ....... 111 4.3.2- Macária e Polixena: ................................................................ 114 4.3.3- Ifigênia: ................................................................................... 116 CAPÍtulo 5: AristÓfAnes, ou QuAndo As mulheres GoVernAm A CidAde: ......................................................124 5.1- homens e mulheres, partes iguais: ........................................126 5.2- A intervenção nos destinos da Pólis: .....................................130 5.3- A Acrópole sitiada: unidade e diversidade na pólis..............133 5.3.1- Cidadania no feminino: .........................................................134 5.3.2- Unidade, Diversidade: ............................................................136 CAPÍtulo 6: A rAinhA dAs ABelhAs e A Arte de Bem- usAr ........................................................................................145 6.1- A oîkonomia e o anèr agathòs: ................................................146 6.2- hegemòn mélissa: ....................................................................149 6.2.1- Comunidade, complementaridade: .........................................150 6.2.2- O governo da casa: mulher-abelha. ........................................153 6.3- A rainha das Abelhas e a Alteridade do femini-no: ............157 ConClusão: ................................................................................161 BiBlioGrAfiA: ...........................................................................171 lista de Abreviaturas: * AGA Agamenon AND Andrômaca ASM Assembléia das Mulheres BAC As Bacantes ECO O Econômico FEN As Fenícias HEC Hécuba HEL Helena HER Os Heraclidas HIP Hipólito IFA Ifigênia em Áulis IFT Ifigênia em Taurida LIS Lisístrata MED Medéia TEO Teogonia TES As Tesmofórias TRA Os Trabalhos e os Dias TRO As Troianas SEM Elegia - Semônides de Amorgos RÃS As Rãs *A referência completa das obras abreviadas se encontra no item A da Bibliografia do presente estudo. introdução: O estudo que ora se apresenta, abre-se para a construção da cida- dania democrática no período clássico da história das póleis, no espaço do teatro ateniense. Desta perspectiva sob a qual a pólis se oferece ao olhar, emerge a relação entre a cidadania e o feminino. Oferece-se como espetáculo a propriedade que o feminino detém para atuar na construção da cidadania ateniense, de forma que a própria vivência da cidadania comporte, na formulação de seu paradigma, o reconhecimento de si e a delimitação do Outro. Este Outro são os não-atenienses, os não-cidadãos, mas também o Outro da própria cidadania democrática. Pode-se dizer que o feminino impõe à compreensão da cidadania, a presença, junto ao paradigma, daquilo que dele se exclui, mas que no entanto o fundamenta: a alteridade. Que é isso que, excluído, é entretanto fundamento? Uma das princi- pais hipóteses discutidas ao longo do estudo, é a de que justamente por ser excluído da relação política com a cidade, o feminino constitui um Outro: outro do masculino, outro da cidadania, mas também outro da própria cultura (nómos). E por ser este outro, o feminino é chamado a traduzir, no espaço do teatro, uma experiência da alteridade que é constituinte da vivência da cidadania democrática do Vº século a.C.. Não se trata, por- tanto, de desenvolver uma história da mulher, no sentido da abordagem dos vestígios e indícios da “voz” feminina, embora um dos resultados do estudo seja a afirmação da cidadania feminina como possibilidade. Trata-se de percorrer o imaginário do feminino; de compreender as linhas de força presentes neste imaginário, que se misturam e transformam a figura da mulher, em Eurípides e em Aristófanes, principalmente, para que o feminino seja aí lugar de encontro entre a alteridade e a pólis. 12 — Introdução — Por feminino, compreende-se o conjunto das representações que inscrevem a presença da mulher na sociedade. Feminino é, portanto, uma construção do imaginário. O imaginário do feminino comporta, na apropriação que dele fazem as obras de Eurípides e Aristófanes, uma duplicidade. Por um lado, o feminino tem uma “função”. A mulher têm um papel social, no interior do qual se explica sua exclusão do espaço da cidadania. Por outro lado, o imaginário do feminino se abre para a possibilidade de uma relação fundamental entre a mulher e uma forma de alteridade, radical em relação ao universo masculino da cultura. Isto significa que, ao abordar a construção da cidadania pela via do imag- inário do feminino, incide-se sobre ela no “interstício”, onde a identidade comporta sua possível dissolução. As questões básicas apontadas acima delimitam a cronologia e a espacialidade recortadas para o estudo. Focaliza-se a pólis ateniense, na passagem do Vº para o IVº século a.C.. Trata-se de um momento de crise e transição para o mundo grego como um todo. Período da Guerra do Peloponeso, perdida por Atenas, em que a hegemonia da pólis democrática coloca-se em jogo. Momento apropriado para formular com maior insistência a questão da dissolução da experiênciademocrática da cidadania, e, com isso, da experiência da autonomia mesma da pólis. O espaço de circunscrição do estudo é o território ateniense, primeiro porque é a partir deste território, bem como da experiência desta pólis, que o discurso do teatro se estrutura. Segundo, porque Atenas, assim como Esparta, é um paradigma do período clássico da história dos gregos; é um referencial. Um paradigma clássico para os povos da antiguidade grega e romana, mas também para nós mesmos. Torna-se de extrema importância, portanto, mesmo para a atualidade, mostrar como esse “modelo” da democracia investe sobre a relação com o Outro, trazendo para o espaço do teatro a alteridade — estranhamento e diferença, mas ainda pluralidade — como problema. Se a cidadania ateniense clássica foi durante muito tempo percebida através de seus próprios “filtros”, como a isonomia, a permutabilidade, a participação efetiva dos cidadãos, ao — A “Cidade das Mulheres” — 13 incidir sobre ela construindo-a como artifício, é possível perceber como, nesta mesma cidadania, a exclusão da diferença deve ser colocada como questão e não como fato. A questão do outro percebido no interior da cidade, é formulada pelo teatro do final do século V a.C., principalmente por Eurípides e Aristó- fanes. Em ambos, parte-se da figuração do feminino como alteridade. Se o feminino na mulher faz dela um “outro” que habita dentro da pólis, como a diferença instaurada no seio da cidade, a ação dessas mesmas mulheres (ao participarem das festas cívicas, mas ainda procriando filhos legítimos) é imprescindível para a duração da pólis, para a renovação do ciclo ao fim do qual Atenas emerge em sua força, sua hegemonia. Devido a essa “cumplicidade”, a essa “intimidade”, o feminino faz surgir aos olhos públicos um campo em que, do interior, a cidadania começa a vivenciar o problema de sua dissolução pela guerra, pela stásis. Questão de alteridade, mas ainda questão da diferença no interior da cidadania e da cidade. O teatro é um espaço privilegiado para a discussão das imagens que a cidade produz de si mesma. Dentre todas as tragédias inteiramente conhecidas do teatro grego, entre Ésquilo, Sófocles e Eurípides, somente neste último a utilização de personagens femininas, aliada à preocupa- ção com a construção de suas ações, decisões, de seu pathós, era peça chave para a estrutura das peças. Não que os dois primeiros tenham feito das personagens femininas figuras de pouca importância. Mas nenhum deles utilizou, com tanta frequência quanto Eurípides, e com a mesma preocupação em delimitar um campo isolado e próprio ao feminino, a figuração da mulher. A forma de alteridade que o feminino representa, é aquela que se estabelece na delimitação da própria humanidade enquanto tal: entre animais e deuses. Através dessa relação com a alteridade, o teatro de Eurípides alia-se ao feminino não para defender “os direitos da mulher”, mas para utilizá-lo no debate próprio a Tragédia: entre o real (vivido no cotidiano) e a cena, a imitação da ação humana que, nos quadros da 14 — Introdução — pólis democrática, compreende-se principalmente como deliberação, coloca-se frente à frente com o acaso, o destino. Para além da crença na correspondência entre “causa” e “consequência”, muito próximo ainda da potência das divindades e de seus caprichos, o ato de humano e político de deliberar comporta em si o indefinido. Neste “indefinido”, a Tragédia insere sua questão. O feminino surge, no teatro de Eurípides, com dois sentidos difer- entes. Em primeiro lugar, reatualizando a alteridade do feminino, tal qual é formulada nos poemas de Hesíodo, e confirmada por Semônides de Amorgos. Em segundo lugar, na perspectiva de sua relação com uma cidade ou coletividade. De acordo com este segundo sentido, percebe- se não apenas como, na Atenas do período clássico, se compreende a integração “normal” do feminino à cidade, mas ainda como o problema desta mesma integração não se resolve pela exclusão política e dominação social da mulher. Teatro, cidade, feminino. Esses três pontos, interligados, ou melhor, investigados de dentro do nó que os une, fornecem novas perspectivas para os temas da relação da cidade com o Outro, por um lado, e do femi- nino com a pólis, por outro lado. O teatro trágico de Eurípides constitui- se como uma das chaves para a abertura da possibilidade deste tipo de questionamento. A partir dele, é possível livrar-se, por um momento, do “fantasma” da passividade e exclusão da mulher na sociedade grega, para abordar a cidadania feminina do ponto de vista de sua positividade: onde o feminino é vital para a discussão da compreensão que a pólis fabrica, e oferece, de si mesma. A abordagem das comédias de Aristófanes demonstra, com clareza, que a exclusão da mulher não surge naturalmente, como um fato de menor importância. Ao contrário, a presença das mulheres na cidade, principalmente como esposas de cidadãos, engendra a possibilidade do governo feminino, da “ginecocracia”. Eis, então, a mais profunda relação do feminino, no Outro que representa em vista da cidadania masculina, com a mesma pólis dos atenienses. Cidadania e alteridade se unem, em — A “Cidade das Mulheres” — 15 Aristófanes, para dar os contornos da “cidade das mulheres”. O texto do econômico, de Xenofonte junta-se, por fim, ao grupo, para evidenciar o contraste entre a abordagem teatral e a abordagem política do feminino. O espaço que o discurso do econômico de Xe- nofonte abre ao papel do feminino na formação do “homem de bem”, modelo ideal de conduta do cidadão, é considerável. No tratado político, a mulher surge, entretanto, afastada de sua relação com a alteridade. O feminino é integrado: é a esposa, rainha do lar, rainhas das abelhas. Nela, apresenta-se um feminino apropriado, enquadrado no modelo da mulher- abelha. Na abordagem política de Xenofonte, portanto, a alteridade do feminino se oculta, e, com ela, esconde-se a própria possibilidade de cidadania feminina. Na trajetória que leva de Hesíodo a Xenofonte, o feminino perde-se da sua potência de presentificar o Outro dentro da própria cultura? Ou se- ria mais correto afirmar que é apanágio do teatro construir o feminino em sua alteridade, para melhor lançar a cidade e a cidadania como problemas ? O teatro ressalta, de fato, o Outro no feminino, enquanto ao discurso político interessa reforçar sua submissão, sua adequação ao projeto de vida do homem, do bom cidadão. O confronto de um e outro, para além do questionamento sobre a possibilidade do debate entre ambos, ajudou a comprovar as hipóteses de pesquisa. Primeiro, que na dissolução da cidadania instaura-se um debate, ao qual pertencem as obras de Eurípides, Aristófanes, e ainda Xenofonte. Este debate incide sobre a vivência da unidade, da percepção da pólis como efetivamente o conjunto anônimo de seus cidadãos, como cole- tividade, portanto. Segundo, que em cada um desses testemunhos, o papel da mulher é crucial para a construção de um “ideal” em relação à pólis. Enfim, que a cidadania feminina como possibilidade, e positivi- dade se compreende no reconhecimento da alteridade do feminino. Esse reconhecimento faz da figuração da mulher uma via de acesso para a pluralidade dos estatutos sociais, para além da condição de cidadão , que a pólis envolve. Se a alteridade feminina se perde, em Xenofonte, trata-se 16 — Introdução — ainda de utilizar a figuração do feminino para criar uma perspectiva de ação com relação a cidadania. Em todos os momentos, ressalta-se, portanto, a positividade e a cumplicidade da relação das “femininas mulheres” com a pólis. Seria ainda possível, então, insistir na interpretação da cidade democráticaateniense como um “clube de Homens”? A vantagem do estudo do imaginário do feminino situa-se neste ponto: ele desvenda o papel da mulher como muito mais amplo, muito mais abrangente, do que a mais comum afirmação de seu enquadramento social. Que as mulheres não tivessem direito à voz própria em Atenas, mais ainda no Vº século a.C., não se discute no âmbito deste estudo. Discute-se, por outro lado, que o estudo do feminino estabeleça para si mesmo este fato social como limite real do feminino. Para desenvolver a discussão das questões que o estudo suscita, foi estabelecida a divisão em partes. No capítulo 1, enfoca-se de forma mais abrangente o próprio fazer-se da pesquisa: a abordagem do teatro em sua relação com o imaginário, a noção de Imaginário, a questão da cidadania e do feminino na Atenas clássica. Para além do capítulo 1, o estudo foi dividido em duas partes, correspondendo às ambiguidades que envolvem o imaginário do feminino. A primeira parte apresenta e discute a alteridade do feminino, as formas de sua emergência, suas implicações. Inicia-se com a definição dos tópicos da relação da mulher com o Outro na cultura grega, através do mito de Prometeu e Pandora narrado na teogonia e nos trabalhos e os dias (capítulo 2). Como complementação a essa definição da alteridade do feminino, analisa-se os jambos do poeta Semônides de Amorgos, em que se escarnece da “tribo das mulheres” No capítulo seguinte, demonstra-se como Eurípides se apropria desses tópicos para construir a relação das figuras femininas com o estranhamento, e a ameaça que representa, entre os homens, a “raça das mulheres”. Na segunda parte, enfatiza-se a abordagem do teatro de Eurípides — A “Cidade das Mulheres” — 17 sobre a presença da mulher no universo da cidade (capítulo 4). Não ap- enas através do discurso que pronunciam contra as guerras entre póleis, mas também pela inserção do feminino em espaços que, na cidade, lhe são vedados: discussão política, areté do cidadão-soldado. No espaço aberto entre os dois pólos da abordagem de Eurípides inscreve-se o teatro de Aristófanes, que demonstra com clareza as vias de possibilidade da relação própria entre feminino e cidade (capítulo 5). A abordagem do tratado econômico, de Xenofonte, finaliza o estudo (capítulo 6) para mostrar que, na perda do Outro, o feminino torna-se mais “adequado”, mais integrado. Integração que só pode ser feita à custa da relação ativa entre o feminino e a pólis. A conclusão deste estudo aponta para a possibilidade da cidadania feminina na pólis ateniense. Isto significa que, apesar da exclusão do feminino em relação ao poder político, a mulher mantém uma relação ativa com a pólis ateniense, sem intermediários. Esta relação, que torna latente e legítima a “ginecocracia”, baseia-se na construção da alteridade do feminino. E evidencia, por isso, que a alteridade é constituinte da compreensão da pólis como universo de convívio humano. O estudo sugere, portanto, que a experiência política da democracia ateniense é inseparável, ao menos no final do Vº século a.C., da vivência do artifício e da alteridade intrínsecas a essa experiência. E que justamente porque a pólis supõe esse “fundo” onde o outro se introduz e habita, é que ela pode ser, com propriedade, a pólis das mulheres. CAPÍtulo 1 umA PrátiCA do imAGinário: o teAtro e A fABriCAção dA CidAdAniA “Os textos, sem dúvida, mas todos os textos […] documentos para nós, testemunhos de uma história viva e humana, satu- rados de pensamento e de ação em potência …” (FEBVRE, 1985,p.24). Certamente, a epígrafe retirada da obra de Lucien Febvre foi escrita em um outro contexto, no qual se defendia a inclusão dos textos — literários, teatrais, etc — no conjunto das fontes históricas possíveis. Não se discute mais com a mesma insistência que a história possa ser feita a partir de documentos “extra-oficiais”. Aquilo que nos concerne nessa afirmação é, sem dúvida, seu final: o texto, transformado em fonte pela escolha própria do historiador, testemunha. É testemunho de uma história viva e humana que, desde sua realidade, se desdobra em pensamento e ação “em potência”. É neste sentido que a abordagem do texto teatral deve privilegiar seu aspecto de produção cultural, ou antes, de prática. Para levar à discussão as questões importantes para a compreensão do percurso deste estudo, foram escolhidos três fios condutores. O primeiro diz respeito ao modo como o teatro grego se desdobra em sua produção, destinação, enfim, em seu alcance como obra, a partir da fabricação do imaginário. O segundo abre a discussão sobre o imaginário, ou sobre a tarefa de pesquisar a historicidade do “pensamento e ação em potência” de que nos fala Febvre. O terceiro procura introduzir o problema da cidadania feminina, em conexão com o paradigma da cidadania democrática ateniense. No final, apresentamos os textos pesquisados e a forma de abordagem do conjunto desses textos, que são nossas fontes: poemas de Hesíodo, fragmentos da elegia sobre as mulheres, de Semônides de Amorgos, tragédias de Eurípides, comédias de Aristófanes, diálogo do econômico, de Xenofonte. — A “Cidade das Mulheres” — 19 1.1- o teAtro e A PÓLIS: O teatro trágico e cômico do gregos é um fenômeno que, na pólis dos atenienses, se confunde com a história da democracia. Ele se estabelece como instituição cívica no mesmo processo que leva à consolidação das instituições democráticas, a partir do final do século VI a.C. Ele se transforma — perdendo a característica de profundo questionamento da ação humana nos quadros da pólis — quando a cidade passa pela crise e dissolução de seus fundamentos políticos: a autonomia, a isonomia, e a publicidade da vida. Mais do que ligado à história política da democracia em Atenas, o teatro como produção cultural e como espaço, não pode ser concebido como um simples “gênero” de entretenimento. Tratava-se de um evento religioso, mais precisamente de um concurso, parte principal das festividades urbanas (e rurais) em honra ao deus Dioniso. A ocasião das Grandes Dionísias concernia à coletividade dos atenienses, e, para além da cidade, atraía a Atenas uma grande quantidade de estrangeiros. As peças mais famosas ganhavam repercussão, sendo reapresentadas em teatros de outras cidades gregas, assim como em outros teatros na própria pólis ateniense. Do cortejo do ritual religioso à exposição do tesouro da Liga de Delos diante do público das Grande Dionísias, tratava-se da exaltação da grandeza da pólis, da proeminência da cidade como coletividade sobre os cidadãos, da fixação da hegemonia de Atenas frente aos aliados e a outras póleis gregas. Embora não fosse a única oportunidade para as apresentações teatrais em Atenas1, a festa das Grandes Dionísias era ocasião de primeira apresentação da maioria das peças da Tragédia grega que hoje 1-O tempo e espaço do teatro não se restringiam ao teatro de Dioniso, nas Grandes Dionísias, embora ganhassem, nela, sua repercussão. Havia ainda, em Atenas, as Lenéias, Dionísias rurais, e os concursos trágicos nos dêmoi. A existência dessas festividades de porte menor, no interior dos dêmoi, leva-nos a crer que inúmeros outros teatros existiam em Atenas no século V. Ao menos 20 — Capítulo 1: Uma Prática do Imaginário — são conhecidas. Este fato deve ser considerado: um teatro lotado para a representação das peças de um concurso, constitui um circuito cultural de proporções inigualáveis no mundo grego da época. Esta “popu-laridade” do teatro, trágico ou cômico, é um fator constituinte de sua destinação pública. Mas em que consiste a publicidade na Atenas clássica, senão na escrita, no debate das leis, no agôn entre oradores, na deliberação?Os temas propostos pelos poetas são ainda temas depostos para um debate, no mesmo sentido em que as leis são escritas, depostas nos templos, expostas ao olhar público, nos primórdios da civilização das póleis. No espaço do teatro, questões são levadas ao público, e, desta forma, à discussão. Nele, práticas sociais inscrevem-se em cena, formando, para os espectadores, uma imagem que lhes é de todo familiar, na comédia e na tragédia, posto que é imitação: imagem teatralizada da vida cotidiana, naquilo que dela se produz como comum ao conjunto dos atenienses. Por isso, entre o teatro e a prática do imaginário, como veremos, a relação é íntima, profunda. A imagem que o teatro oferece aos espectadores é uma interpretação da vida cotidiana, das práticas sociais que produzem o cotidiano. É neste sentido que se pode afirmar que o teatro fornece uma imitação da pólis: nele a cidade se faz teatro; e nele, a cidade é espectadora de sua própria imagem. Alguns dos principais instrumentos do teatro grego, trágico e cômico, nessa interpretação da vivência cotidiana por meio da imitação, eram a construção de exemplos, a inversão (caricatura, hipérbole, exacerbação de caracteres) e a contradição. A inversão, assim como a caricatura, é a obra da comédia. Mais próxima da linguagem corrente, forçando a interação do público com as peças, através das parabases (onde se inscrevem, muitas vezes, no teatro um desses teatros tinha uma importância comparável, pelo seu porte e pela assistência que recebia, formada por um grande número de estrangeiros, a do Teatro de Dioniso: o teatro do Pireu. Algumas peças foram representadas nele pela primeira vez. — A “Cidade das Mulheres” — 21 de Aristófanes, discussões políticas de acontecimentos contemporâneos), do improviso cômico dos atores, e mesmo da constituição do público, em determinados momentos, como personagem da cena, a comédia do século V a.C. diverte-se a inverter os valores da pólis. Neste sentido, formulou-se uma comparação da Comédia grega com um espelho; um “espelho invertido” da pólis. “”Representar o presente sobre o presente[…],tal é a tarefa de um Aristófanes. Tarefa propriamente cívica, se esta irrealidade, invertendo o real, o coloca no lugar […].” (LORAUX, 1990, p.1940). Fazendo a cidade rir de si mesma, a destinação da comédia é, segundo N. Loraux, preservar a ordem e a unidade da cidade “real”. Neste sentido, o teatro de Aristófanes andaria a passos de caranguejo: atirando ao escárnio, apresentando o ridículo, para melhor defender a pólis em seus valores fundamentais. Que o diga o agôn entre a Razão Justa e a Razão Injusta, em As nuvens, ou mesmo a disputa entre Ésquilo e Eurípides, em As rãs, onde o que entra em cena são a velha e a nova “ordens”: a velha paidéia dos ginásios e das palestras, formadora do caráter do cidadão hoplita, contra a nova educação particular, sofística, onde homens aprendem, ao abrigo da luz solar, como rebater um forte argumento através de argumentos fracos: “[Esq] Por que se faz necessário admirar um poeta? [Eur] Por sua inteligência, suas admoestações, e porque nós tornamos melhores os homens nas cidades” [RÃS, vv. 1000-1011] Na disputa entre Eurípides e Ésquilo, a comédia aristofânica deixa transparecer uma concepção da relação entre a Tragédia e a cidadania. A tragédia cumpre seu papel, apresentando aos homens exemplos de ação. Entretanto, tornar os homens melhores em uma cidade não tem um só sentido. A noção de educação2 do cidadão ateniense implica certamente 2- A paidéia grega tem um sentido profundamente relacionado ao sentido político da ação humana. Se a educação é a forma de tornar melhores os ho- mens, de exercitar-se para a areté, ela implica também a forma de ação política, ou seja, o debate e a deliberação. Por isso, aquilo que é constituinte do debate, 22 — Capítulo 1: Uma Prática do Imaginário — o orgulho, a honra do guerreiro, do mais forte. Em termos éticos, tornar melhores os homens é torná-los soldados, senhores da cidadania e dos destinos de sua cidade. Para o Eurípides de Aristófanes, a função do poeta é ainda a de tornar os homens melhores; função educativa, portanto. No entanto, ele introduz um novo argumento, que é bem peculiar do final do século V a.C.: permitir aos espectadores o raciocínio, o exame das questões propostas. Ainda é isto a poesia? No teatro de Aristófanes, a verdadeira arte trágica é reconhecida em Ésquilo. Em sua obra, na maneira com que ela apresenta ao público exemplos de ação e vida, encontra-se a identificação do cidadão com sua pólis. O cidadão identifica-se com a cidade: o cidadão é, efetivamente a cidade como um todo. Os atenienses serão atenienses, na medida em que o forem como soldados, como magistrados, como homens votados à publicidade exigida pelo modelo político e cívico de Atenas. Se os exemplos oferecidos pelas tragédias de Eurípides já não operam na proximidade entre o cidadão e a própria cidade, é, em princípio, porque eles incidem menos sobre aquilo que apaga, em cada cidadão, os laços com a vida privada; porque a ética que move o hoplita, plasmada na estrutura do modelo da pólis — isonomia, permutabilidade — não é a mesma que move o sofista. Este cresce com suas lições pagas, com a frequentação dos banquetes, a manutenção de lições particulares, as caminhadas pela ágora. É ainda com a sofística que a existência da vida privada como possibilidade da liberdade emerge à cena política (CASSIN, 1990, pp.130-145). Porém, não é ainda a desintegração da pólis como referencial de vida aquilo que Eurípides demonstra. São, ao contrário, indícios de que naquele momento do teatro e da cidade, a ou seja, o conflito, o agón é também o fundamento da paidéia. Não se trata de apresentar exemplos, mas de colocá-los na encruzilhada de um agón, forçando o desenlace, a decisão. Cf.. JAEGGER, Werner. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins fontes, 1983, pp 3-16; VERNANT, Jean Pierre & VIDAL-NAQUET, Pierre.Mito e Tragédia na Grécia Antiga. São Paulo: Bra- siliense, 1982, pp.13-19. — A “Cidade das Mulheres” — 23 identidade da cidadania abre-se ao questionamento. Isto equivale a dizer que a pólis como organização humana se dispõe como questão. Esse questionamento da cidadania não é um debate consciente e explícito. Ele se delineia, subrepticiamente, a partir do caráter ambíguo do teatro trágico. Em outras palavras, as tensões, as ambiguidades, presentes nas peças como na estrutura poética da tragédia grega, favorecem que a contradição atinja a própria a vivência da pólis: frente a frente com seu próprio “artifício” (isto é, eu caráter de nómos, grosso modo “convenção”). No teatro de Eurípides, por exemplo, esse movimento de se defrontar com o artifício da cidade produz-se na exploração do feminino como alteridade, e, por isso mesmo, dentro da contradição entre o si-mesmo da pólis e a alteridade, o estranhamento, o diferente. Dir-se-á isso inúmeras vezes: a mulher representa o Outro dentro da própria cultura. O que se ressalta na vivência da pólis, com a alteridade do feminino, é a possibilidade da diferença, ou, de forma restrita, as fronteiras da cidadania. O teatro é politikós, concerne ao “político”, por sua capacidade de colocar em questão, de discutir, e, por isso mesmo, tornar público, explicitando o conflito, em uma imitação da pólis. A comédia, pela caricatura que inverte os parâmetros do dia a dia, para melhor defendê-los, fundamentalmente. A Tragédia, oferecendo à cidade também um espelho, que toma de empréstimo suas imagens à mitologia e à epopéia helênica por excelência — ilíada, odisséia. Um espelho que purifica, modela, através da apresentação aos olhos públicos de seus heróis encarnados. Um espelho que se auto-destrói, pelas ferramentasdo acaso (tyché), e da necessidade (ananké). A modelagem, a purificação, se fazem no encontro da ação política com o destino. O herói da epopéia é um exemplo de honra, orgulho, e glória. Na Tragédia, entretanto, o herói, sem ser despojado de seu caráter exemplar, é focalizado no momento em que decide, partindo desse momento a ação que desencadeia o trágico, ao perder sua ligação necessária ao agente e inserir-se no acaso. A ação exemplar do herói, na Tragédia, 24 — Capítulo 1: Uma Prática do Imaginário — constitui-se, pois, como problema. Por apropriar-se da questão: “que fazer?”, a Tragédia se mescla a uma das coisas que a pólis traz de mais fundamental: a preocupação com as implicações humanas do ato de deliberar (VERNANT & VIDAL-NAQUET, 1988, p. 17). As consequências dessas implicações do teatro, para sua inserção na sociedade do período clássico, já se fazem notar. Descarta-se sua redução à continuidade de uma história religiosa; descarta-se, ainda, sua “transcendência”: fenômeno “cultural”, “artístico”, como sinônimos de “espiritual”. Pois enfatizar aqui somente a transcendência dos fenômenos da arte, provocaria uma limitação das perspectivas que esses fenômenos trazem para a abordagem histórica: como se a relação entre teatro e história fosse a tentativa de puxar um fio entre feixes paralelos — fio “econômico”, fio “político”, fio “social”. Com isto, perde-se aquilo que faz a especificidade do teatro como fenômeno social. O teatro é, efetivamente, uma parte da realidade, e não um fantasma que se sobrepõe ao todo social. O teatro, como prática social que é, apropria- se da totalidade da cultura: neste centro de densidade total, os fios se encontram. As fronteiras do reconhecimento que uma sociedade fabrica para si mesma, se cruzam no espaço do teatro. Ali, produzem-se as cenas. E, desta maneira, ao seu modo, como obra, as cenas devolvem à pólis a imagem que foi produzida, tal como o reflexo dos feixes de luz que incidem sobre um espelho. Ao estudar o teatro grego, deve-se estar atento à disposição que os feixes de luz tomam ao incidirem no espelho, aos componentes do espelho, à elaboração do produto final, que é a imagem. O espelho como prática, a prática de admirar a imagem produzida no espelho. Duas coisas que estão longe de ser o mesmo que, olhando para o espelho, querer reconstituir os feixes de luz, como se, na virada dos mundos — entre a luminosidade e a superfície polida — esses feixes permanecessem ilesos, e isolados. O teatro não é um reflexo da realidade social; ele é realidade social na medida em que é a própria realidade social que o fabrica, como um de seus mais atraentes produtos. Na medida em — A “Cidade das Mulheres” — 25 que é sobre as práticas sociais que ele incide, criando-as como imagem, como cena, como identidade ou alteridade. No debate que se instaura no espaço do teatro, a pólis se coloca em questão. Como na Tragédia, em que o homem se vê diante do destino que não pode controlar; como na Comédia, em que a inversão da cidade fornece a matéria do riso, mas também do confronto entre o que é a vida cotidiana da pólis, e o universo político da cidade. Das duas maneiras, o teatro devolve à cidade uma imagem, em que ela se vê. A imagem do teatro produz a identidade, mas ao mesmo tempo gera a alteridade. A produção do Mesmo só é possível na compreensão do Outro. 1.2 — A PrátiCA do imAGinário: Foi dito, de passagem, algumas linhas atrás, que a relação entre teatro e imaginário é profunda. Isto porque o teatro, como produção cultural, atualiza em uma perspectiva o conjunto das representações coletivas, como imagem e cena. Nesta realização das representações, produz-se imaginário . A assimilação da cena teatral aos reflexos da luz sobre a superfície do espelho traduz a perspectiva do teatro, na produção do imaginário. Mas o que significa propriamente “imaginário”? Em sua obra As Três Ordens, ou o Imaginário do Feudalismo, Georges Duby (1982) utiliza distintamente os conceitos de estruturas mentais, imaginário, e ideologia. Todos, entretanto, se aplicam à trifuncionalidade social. Como estrutura mental, a trifuncionalidade permanece como esquema de organização da sociedade de origem indo-européia, sobrevivente ainda em meio ao Antigo Regime francês do século XVIII. Como ideologia, intervém na formação dos discursos e das práticas políticas da Igreja, em sua pretensão de hierarquizar a sociedade medieval sob sua hegemonia. Como imaginário do feudalismo, a trifuncionalidade, não se busca apenas nos discursos oficiais, mas nas malhas da formação dos discursos, dos príncipes, dos padres, na literatura e na arte. 26 — Capítulo 1: Uma Prática do Imaginário — Neste sentido, as mentalidades não são a mesma coisa que o imaginário. As estruturas mentais são temas cuja duração pode ser longuíssima (e daí o uso do termo estrutura — visão de mundo persistente, inscrita na longa duração), que se impõem às práticas sociais como seus limites compreensivos (ARIÈS, 1990, p. 175). O imaginário deve algo ao conceito de estrutura, na medida em que instrumentaliza a formação dos discursos. Entretanto, ao contrário das “mentalidades”, ele não se impõe, ele se inscreve nas práticas sociais, em um espaço determinado, e em um momento determinado da vida em uma sociedade. O imaginário é inseparável da perspectiva sob a qual se realiza uma prática social, em sentido geral. A prática não se realiza no nada, por nada, desdobrando-se em um “vazio”. Práticas sociais implicam um lugar, um “quem”, que não é absolutamente o mesmo que um “eu”, e um “sobre o quê”, capazes de amplificação. O estudo de Nicole Loraux sobre a inscrição da autoctonia do cidadão ateniense no espaço da cidade (LORAUX, 1990.) pode ser citado, para demonstrar a ligação do imaginário a uma perspectiva, ou a um “lugar de produção”. Neste estudo, Atenas surge desdobrada em espaços heterogêneos, na maneira como neles se inscreve um tema: a autoctonia do cidadão. Em cada uma dessas regiões, as formas sob as quais a cidadania surge assentada na identificação do cidadãos ao solo da pátria (o operador, neste caso, é o conjunto das narrativas míticas sobre a fundação de Atenas e o nascimento de Erictônio) tomam aspectos diferentes. O imaginário da autoctonia se mostra na multiplicidade das variações sobre um tema, um modelo que informa a relação da pólis com a politeía. Passa como que por uma malha, um filtro, através do qual se formam as imagens e os discursos produzidos em regiões diferentes. Atenas não possui, como um “conjunto de idéias”, um imaginário, mas múltiplos. Pertence, portanto, à essência da noção de imaginário essa multiplicidade de variações, posto que se trata de perspectiva, e não de idéias ou modelos unívocos. O imaginário não tem sentido espiritual, ideal ou transcendente. Ele só existe no encontro entre prática e representação. — A “Cidade das Mulheres” — 27 Entre “pensamento” e “ação em potência”. Daí a expressão: prática do imaginário . Neste estudo, ao se fazer referência ao imaginário da cidadania, da alteridade, do feminino, a noção de topoi (Cf. LORAUX, op. cit, e ibid., 1981) surge muitas vezes como sinônimo de tema ou imagem. A noção é topográfica, e pressupõe a existência de pontos localizáveis em um espaço. Os topoi do imaginário são essas regiões localizáveis, esses “acidentes geográficos”, ou regiões de discursividade 3. Os tópicos do imaginário não se configuram como idéias expressas, nem como modelos através dos quais se representam a sociedade e suas instituições. O imaginário do feminino é formado por diversos topoi, que se manifestam como discursos, idéias, modelos na medida de sua apropriação cultural. Uma narrativamítica pode evidenciar topoi, presentes também em um discurso político, ou numa peça de Comédia, ou numa série de representações iconográficas. Mas é a prática do imaginário que confere o sentido de um topos, na perspectiva própria ao campo de uma obra, ou produção cultural. Portanto, o imaginário remete para a região em que se produz o discurso. O imaginário da cidadania constrói a peça de teatro, a figuração de um mito em uma ânfora, o discurso político de um orador ateniense. Mas só se apresenta nas características daquele âmbito da vida, da produção cultural como aquilo que uma sociedade, produzindo, diz de si mesma. Por isso, pode inverter-se a relação de derivação: a peça, a ânfora, o discurso, constróem o imaginário da cidadania. No teatro de Eurípides, o imaginário do feminino evidencia a relação do feminino com a representação da diferença e do Outro, na cultura grega. Mas, para além desta relação entre feminino e alteridade, que 3- “[…] a natureza dos topoi é sem dúvida a de desorganizar toda definição. Pois se eles são regra, eles são também para o discurso uma matéria, meio pensamento, meio forma. Repertório de palavras, de fórmulas e idéias, eles preexistem a todo discurso como um rascunho, ou mais exatamente, como um tipo de grau zero […], e sua existência testemunha a possibilidade de tomar ainda a palavra para se dizer a mesma coisa […]”. LORAUX, Nicole. L’Invention d’Athènes: histoire de l’oraison funèbre dans la la cité classique. Paris: Mouton, 1981, p. 246. 28 — Capítulo 1: Uma Prática do Imaginário — se repete em diversas ocasiões fora de suas obras, aquilo que confere a Eurípides sua singularidade é a configuração que os topoi de definição do feminino assumem em suas peças. Junto à construção da alteridade do feminino, emerge o problema da cidadania ateniense: há uma relação fundamental entre a mulher e a cidade, nas tragédias de Eurípides como nas comédias de Aristófanes. Se a mulher, malgrado a submissão de fato em que se encontra, com sua existência oficial relegada ao espaço doméstico, surge ligada à cidade, duas questões se colocam: primeiro, que relação é esta que ela mantém com a pólis? Trata-se de cidadania, tal como se define pela democracia? Segundo, se o imaginário do feminino pode admitir a cidadania da mulher, que consequências este fato traz para a própria configuração da cidadania, e da cidade, no imaginário político ateniense? Imaginário do feminino? Sim, mas no encontro entre os lugares de discurso que constróem o feminino, quer em sua alteridade, quer em sua integração pela via do espaço doméstico, e a construção da identidade da pólis, através dos topoi da cidadania ateniense. Este encontro faz a singularidade do teatro, de Eurípides e Aristófanes. 1.3 — CidAdAniA e feminino nA PÓLIS: 1.3.1- o feminino na Pólis: Algumas Abordagens: Uma afirmação muito comum sobre a presença da mulher na cidade grega consiste em dizer que a mulher é, na Atenas clássica, uma eterna menor; a própria Atenas seria um “clube de homens”. Encontra-se esta afirmação como opinião formada tanto em estudos clássicos sobre a cidade e a cidadania (VATIN, 1984, MOSSÉ, 1989), quanto em estudos que abordam a presença da mulher na cidade, em sua relação com a própria cidade (LORAUX, 1990, passim). A cidadania ateniense do século V a.C. exclui a mulher. Em atos jurídicos, por exemplo, a mulher deve ser representada por seu kyrios, responsável ou mais precisamente “senhor”, assim como metecos e — A “Cidade das Mulheres” — 29 escravos necessitam de um intermediário cidadão para interpelar a cidade. Pelo discurso político corrente, o feminino tem seu espaço de direito no universo doméstico, onde deve permanecer em silêncio, evitando apresentar-se, perguntar, escutar conversas. Esta construção política do feminino confere às mulheres uma atitude conveniente a seguir. Os estudos que reproduzem esta imagem do feminino acabam por recair na afirmação da eterna menoridade da mulher na sociedade grega. Esta imagem não esgota, de modo algum, nem a relação entre feminino e pólis, nem a presença da mulher na cidade. Para além das eupátridas, a quem o modelo mais facilmente se dirige, misturam-se à multidão da ágora, do teatro, do porto, centenas de mulheres do povo, e mesmo as próprias — e sempre “sábias” — hetairai. No que se refere a estas mulheres, o modelo politicamente correto do feminino dificilmente se encaixa. Supondo, entretanto, que se admita a imagem política do feminino apenas em seu caráter de “ideal” — paradigma do feminino — cria- se o paradoxo: a cidadania democrática, que informa a relação dos cidadãos com a pólis, exclui estrangeiros domiciliados — os metecos — e escravos. O cidadão, nascido de pai e mãe atenienses, é um homem e não uma mulher. A exclusão, intrínseca à compreensão da cidadania ateniense, deveria negar ao feminino não só a cidadania, mas ainda a relação mais íntima, sem mediação do sexo masculino, com a pólis. Em outras palavras, cidade e feminino seriam, por definição, figuras incompatíveis. Apesar disso, feminino e pólis, encontram-se interligados em diversos momentos da vida da cidade. Nas festas religiosas, por exemplo, a mulher atua de forma decisiva para garantir a permanência da cidade, sua hegemonia, seus cidadãos. Na compreensão mítica que Atenas elabora sobre suas origens, o voto da mulher garante o nome de Palas 30 — Capítulo 1: Uma Prática do Imaginário — Atena à cidade (Varrão, apud. AUSTIN & VIDAL-NAQUET, 1986.)4. No espaço do teatro, a comédia confere às mulheres sua utopia: o governo da cidade. Nessas, e em outras ocasiões, a exclusão de fato abre passagem para a “cumplicidade”. Além disso, se a mulher nascida em Atenas, de uma casa ateniense, não pode votar, nem sequer entrar no recinto da Assembléia, ela pode transmitir os direitos à propriedade fundiária, caso do epiclerato5, assim como conferir legitimidade à cidadania masculina (dependente do nascimento de “pai e mãe” atenienses, a partir de 451 a.C.). A cidadania democrática tal qual se define durante o “século de Péricles”, excluíndo do poder político as mulheres da cidade, não esgota, portanto, as possibilidades de relação íntima com a pólis, fora dos quadros do exercício das magistraturas, da deliberação, e da guerra. Seria essa relação uma forma de cidadania? Para responder a esta questão, C. Vatin (op. cit., pp. 117-142) sustenta uma diferenciação entre cidadania política, e uma cidadania civil. A cidadania política compreenderia o exercício das magistraturas, a armação como hoplita, a votação nas assembléias. Nela, estariam classificados os homens nascidos de pai e mãe atenienses, entre dezoito e sessenta anos. A cidadania civil abarcaria o conjunto da comunidade ateniense: os excluídos do poder político, cuja relação com a cidade seria, entretanto, demasiado estreita para que se lhes recusasse o título de cidadãos: os jovens, rapazes ou moças antes da efebia ou do casamento; e sem dúvida alguma as mulheres casadas, esposas de cidadãos, cujo papel em festas cívicas como as Tesmofórias era o da garantia da própria continuidade da cidade. Esta subdivisão da cidadania em política e civil pode ser admitida, 4- VARRÃO IN Santo Agostinho. A Cidade de deus, 18, 9. 5- A moça epíclera é aquela que, única herdeira, encontra-se literalmente instalada “sobre o cléros” paterno. Ela deve casar-se, preferencialmente, com o parente mais próximo em linhagem paterna, no caso, o irmão do pai. — A “Cidade das Mulheres” — 31 para representar a cidadania feminina como possível e diferente da cidadania masculina. Entretanto, há algumas considerações a serem feitas. Em primeiro lugar, a divisão — político/civil — pode significar uma projeção na cidade grega,de uma oposição que lhe é de todo anacrônica. Mesmo as ações que fazem do feminino uma instância crucial para a reprodução da sociedade não estão fora do político, se entendermos por esta palavra “aquilo que pertence à pólis, que lhe diz respeito”. Conferir ao feminino uma cidadania civil significa, então, reatualizar a afirmação de que “a cidade é um clube de homens”. Significa, por isso, resolver a questão da participação da mulher nos destinos da cidade fora da relação própria entre feminino e político. Incidindo justamente sobre a questão da relação entre feminino e pólis, Nicole Loraux baseia-se na análise da figura mítica da raça das mulheres (génos gynaikôn), para afirmar, com maior veemência, a exclusão da mulher. A cidade compreende-se na divisão entre os sexos. Não há palavra para designar a cidadania feminina (“a ateniense”), como existe “o ateniense”. A mulher não tem cidadania, da mesma forma que não é autóctone (op. cit., passim )6. Esta perspectiva, embora se afirme ainda na confirmação de que a cidade é um “clube de homens”, tem a vantagem de perceber o feminino como princípio de diferença. Em sua exclusão, as mulheres agrupam-se em um génos irredutível ao gênero humano, à sociedade dos homens. A mulher, sob essa perspectiva aparece em sua alteridade. Nicole Loraux ressalta o conflito, entre a presença da mulher na cidade e a sociedade dos homens. Mas não chega a formular, como questão, que na exclusão da mulher, a cidadania feminina seja ainda possível. Da interlocução entre C. Vatin e Nicole Loraux, pode-se colocar uma questão sobre a 6- Marcel Detienne e Giulia Sissa rebatem esta interpretação de Nicole Lo- raux, a partir de seu fundamento, ou seja, da autoctonia do feminino. Para isso, usam fragmentos de uma peça de Eurípides, erecteu, onde surge como heroína a figura de uma ateniense autóctone: Praxitéia. (Cf.. DETIENNE, Marcel. “A Força das Mulheres; Hera, Atena e Congêneres”. IN: DETIENNE, Marcel & SISSA, Giulia. Os Deuses Gregos. São Paulo: Cia das Letras, 1990, pp. 245-267.). 32 — Capítulo 1: Uma Prática do Imaginário — cidadania feminina: para compreendê-la não seria preciso restituir sua diferença, sua irredutibilidade à cidadania masculina? Uma cidadania fundada na própria oposição entre os sexos, e na alteridade do feminino. Uma cidadania do Outro, na medida que relaciona profundamente a alteridade do feminino com a própria pólis dos atenienses. O esforço que se empreende ao colocar-se a questão da cidadania feminina, realiza-se no sentido da compreensão desta cidadania em sua positividade. Não se descarta o fato de que a cumplicidade do feminino com relação a pólis é muitas vezes passiva: a mulher reproduz homens iguais a seus pais; realiza rituais religiosos para a manutenção do status quo, ou seja, do domínio masculino da cidade. Mas se afirma que esta passividade não esgota a cumplicidade entre o feminino e a cidade. Não é por acaso que os atenienses representaram, lado a lado na Acrópole, o primeiro ateniense autóctone — Erictônio — e a primeira mulher — Pandora — este imbatível ardil dos deuses. Da mesma forma como conferiu um habitat à alteridade do feminino, a cidade não teria, com isso, reconhecido no feminino a possibilidade da cidadania? 1.3.2 — A Vivência da Cidadania democrática: Para nossos propósitos no presente estudo, podemos mencionar os três fatores básicos que caracterizam a democracia em Atenas, de acordo com J-P. Vernant (1984). Em primeiro lugar, uma “extraordinária preeminência da palavra [grifo nosso] sobre todos os outros instrumentos de poder” (id., p. 34). Em segundo lugar, a publicidade da vida: acesso público às leis que regem a cidade, debate público das decisões, das idéias, da religião. Concebendo a centralização do poder de forma literal, ou seja, a arché encontra-se no meio a igual distancia de todos os cidadãos, estabelece-se, enfim, uma das mais importantes características do modelo político ateniense (aquela que define a democracia como poder do dêmos): a isonomia. Pelo princípio da isonomia, todos os cidadãos se concebem como semelhantes. — A “Cidade das Mulheres” — 33 A cidadania democrática assim construída caracterizou a relação entre a pólis e seus cidadãos no século V a.C.. Constituiu, deste modo, a forma ideal da cidadania ateniense do período clássico. Sua maior garantia foi a manutenção da hegemonia da cidade por meio dos tributos aliados da Liga de Delos. Graças a ele, um certo equilíbrio entre a dinâmica da cidadania e as forças sociais foi mantido: garantiu-se o acesso dos cidadãos à terra, de forma a estabelecer o equilíbrio entre a grande propriedade e a massa de pequenos proprietários, cidadãos ideais; garantiu-se, ainda, o acesso das classes censitárias às magistraturas, através de sua remuneração. Garantiu-se o enquadramento dos tetas através da remuneração das magistraturas e outras subvenções, e principalmente através de seu serviço na marinha. Com a derrota ateniense na Guerra do Peloponeso e a perda da hegemonia sobre a Liga de Delos, a cidadania democrática ateniense entra em confronto com as práticas sociais que tecem a trama de sua dissolução. A presença maciça dos cidadãos mais pobres na cidade aponta para a concentração da terra, no campo. As fileiras da marinha absorvem cidadãos, antigos pequenos proprietários e tetas. Se a política e a guerra se separam, como indica o afastamento do estratego com relação a liderança política, a ligação entre a infantaria hoplítica e a cidadania torna-se também cada vez mais tênue. As cidades encontram-se mais e mais em vias de sustentar exércitos de mercenários. Terra cívica, cidadania, guerra. Um quadro que delineia, para si mesma, a própria pólis, na medida em que ela é livre, autônoma. Se o que está em jogo é a cidadania, e se a identidade da pólis é dada pela mais profunda relação entre o cidadão — pequeno proprietário, soldado — e sua comunidade isonômica, se, enfim, não se diz Atenas, mas “os atenienses”, aquilo que se esvai com a experiência da cidadania democrática é a pólis mesma. A pólis como estrutura de organização social. Um dos sintomas de que a crise final do Vº século a.C. atua sobre a compreensão da cidadania ateniense, apresenta-se com relação a 34 — Capítulo 1: Uma Prática do Imaginário — publicidade. Durante todo o século V a.C., a força da ideologia da comunidade, da isonomia, do apagamento da família em nome da identificação do cidadão à pólis, foi capaz de silenciar (ou ao menos mascarar) possíveis manifestações de interesses individuais ou privados. O cidadão perdeu o nome de família, para ganhar o nome do dêmos ao qual pertencia. As leis contra a ostentação privada eram duras em seus princípios, embora se possa colocar em questão sua aplicação de fato. A suprema honra do cidadão, sua virtude, era reiterada nos funerais públicos, no elogio da “bela-morte” sem nome, da grandeza da cidade. Quando se inicia o século IV a.C., são também os avatares da publicidade que se encontram modificados. Ao diagnosticar os sintomas da crise da pólis durante o IV século a.C., Pierre Vidal-Naquet afirma: “ A elite social já não corresponde exatamente à elite política, ao contrário do século V. A política e as questões de Estado vão dando lugar pouco a pouco às questões privadas. A mudança de tom é manifesta na Comédia; a política acabará por ser totalmente excluída dela”(AUSTIN & VIDAL- NAQUET, op. cit., p 144). Não apenas a Comédia Nova, mas também a cultura material e a iconografia, sugerem que a demissão política do dêmos ateniense é acompanhada de uma importância maior conferida à vida privada: ao espaço interior da casa e as relações entre “amigos”, mais do que entre concidadãos. A importância da percepçãoda sensibilidade à vida privada supera a simples questão do “abandono” do interesse político, ao cuidado dos interiores, dos indivíduos, das casas particulares. A oposição entre a publicidade da vida na pólis, e a vida privada é da ordem dos fundamentos da própria cidade democrática. A cidade se forma, com efeito, a partir dos parâmetros do universo das famílias aristocráticas da sociedade arcaica, em que o círculo de pertença social gira e se fecha em torno do oîkos. Não é, portanto, como em nossa cultura, formada em longo processo que podemos remontar aos séculos XVI e XVII de nossa era, em que o “público” é da ordem do Estado, da política, da cidadania, — A “Cidade das Mulheres” — 35 e o “privado” é da ordem do íntimo, do verdadeiro, da pessoa em seu diálogo consigo mesma. Pólis e Oîkos opõem-se como duas formas antagônicas de agrupamento. Na gradativa dissolução da cidadania democrática, a cidade apresenta-se como questão. A obra de Eurípides e Aristófanes incide sobre esta questão fazendo emergir os elos que ligam o feminino à cidade. Xenofonte, seguindo os passos da filosofia socrática, constrói seu modelo de formação do cidadão, fundamentando em seu cidadão ideal a legitimidade do poder político (oligárquico?) sobre a cidade. A visibilidade da cidadania feminina inscreve-se, pois, na problemática do acesso ao poder político. Isto pode significar que o grupo dos isói se transforma. Que a unidade inicial da cidadania deixa transparecer por suas frestas uma pluralidade, presente na cidade, mas ausente da pólis ateniense, tal como é vivenciada no século V a.C.. A relação do feminino com a cidade e com o poder político é uma das questões colocadas pelo transparecer da multiplicidade. É talvez a questão mais próxima ainda da dinâmica da cidadania democrática: a cidade exclui do poder a mulher, mas integra o feminino, submetido, pela via do casamento legítimo, e da religião. Para formular a questão de forma radical, ou seja, em termos de cidadania feminina, é preciso ressaltar que a mulher, a esposa que participa das Tesmofórias, por exemplo, tem o caráter irredutível de um ardil dos deuses. Ela descende não da terra sobre a qual a pólis se inscreve, mas de Pandora, feminino universal, raça das mulheres. O teatro, de Eurípides e Aristófanes, formula nesses termos a questão. Xenofonte, no econômico, prefere trazer a natureza feminina para a complementaridade do gênero humano: assimilação das diferenças, para melhor fabricar o anèr kalòs kagathós. PArte i: o imAGinário do feminino e A rePresentAção do OUTRO “O Zeus, porque infligistes aos humanos esta praga frau- dulenta, as mulheres, fazendo-as aparecer à luz do dia? Se vossa intenção era a de propagar a raça mortal, não deveria ser necessário requisitar da mulher o meio” (EURÍPIDES, Hipólito, vv616-620). CAPÍtulo 2 AlteridAde e feminino A palavra alteridade substantiva um pronome demonstrativo. Outro, indicação daquilo que se encontra em descontinuidade com relação ao que somos, torna-se o Outro, condição daquilo que apontamos como diferente. A mesma operação que torna possível conceber o Outro inscreve também os parâmetros da igualdade: reconhecer-se, substantivar-se, definir para si aquilo que lhe é próprio. Não há constituição em separado do Mesmo em identidade, e do Outro em diferença. O estudo dos mecanismos de abordagem da diferença, em uma sociedade, é ainda o estudo das formas de reconhecimento, em que o grupo compreende-se e fabrica-se como unidade. Verso e reverso — identidade (definição dos quadros em que a sociedade cotidianamente se reconhece e se reproduz como grupo) e alteridade — constituem-se intimamente interligados. Ser grego. Ser ateniense. Não ser bárbaro. No período clássico da história dos gregos, uma das formas da invenção contínua de Atenas era precisamente esta: contraposição de gregos a bárbaros, do regime das póleis à realeza persa, da democracia à soberania de um só, da cidadania à submissão. Esta forma de constituição da alteridade é aquela que se reconhece, como diferente, nómoi de outras sociedades (HARTOG, 1991, pp. 224-271). Há, entretanto, uma outra forma de constituição da alteridade, uma outra forma de percepção da diferença na Grécia clássica, que também participa na construção da identidade entre os cidadãos, e a pólis. Trata- se da percepção do outro em relação ao nómos, daquilo que, emergindo no seio da Tradição e dos costumes, provoca uma desorganização, senão uma subversão, desses mesmos costumes. A alteridade do feminino enquadra-se nesta forma da alteridade, da presentificação da diferença. A alteridade que lança a diferença para fora, para as fronteiras do nómos grego, é estudada em sua forma religiosa por Jean Pierre Vernant — A “Cidade das Mulheres” — 39 (VERNANT, 1986). Investigando a relação entre a representação de potências divinas através de máscaras e a experiência do estranhamento, o estudo de Vernant demonstra como o estranhamento é uma forma de irrupção da alteridade absoluta no espaço delimitado pela cultura. Entende-se por alteridade absoluta a percepção daquilo que desafia a ordem normal das coisas, ao tornar evidentes as fronteiras dessa ordem: a natureza selvagem, o delírio, a morte. A cada uma destas representações, associa-se uma divindade “mascarada”: Ártemis, para os limites entre a natureza e o nómos; Gorgô, presentificação da morte; Dioniso, ou as fronteiras entre a razão e o delírio (mania). O feminino constitui-se a partir da alteridade absoluta, opondo uma “raça das mulheres” a uma cultura humana, na qual a mulher é intrusa. A intromissão do gênero feminino é experimentada da mesma forma com que se experimenta o “estranhamento”: irrupção do estranho à. Esta diferença, que o feminino instaura ao apresentar-se, tem origem na própria procedência da raça das mulheres — esta fabricação dos deuses, cujo sentido é enganar, pela aparência sedutora, enlaçar, pela persuasão, e prender os mortais ao pónos do dia a dia, espalhando entre os homens os sofrimentos, as doenças, a imprevidência. Esta representação do feminino como Outro do nómos, encontra- se presente em diversos textos do século V a.C. Está presente, principalmente, no teatro trágico e cômico da pólis dos atenienses. É preciso chamar a atenção para o fato de que o discurso que afirma no feminino um Outro, um ser diferente, nos quadros da cidade, convive com aquele que nega os estatutos intermediários, quando se trata de falar da relação entre os cidadãos e sua pólis. Na completa identificação dos cidadãos à cidade, “Atenas, são os atenienses “. Esta afirmação, bastante corrente nos estudos de história grega, demonstra até que ponto chega a importância do problema do Outro, na Grécia clássica. No limite, a pólis perde sua materialidade — a cidade, suas construções, bairros, sua população enorme de estrangeiros e escravos — transformando-se numa abstração: a pólis está onde estiverem seus cidadãos (MOSSÉ, 1962). 40 — Capítulo 2: Alteridade e Feminino — Para fazer da mulher um ser estranho à cidade e ao nómos, o discurso da época clássica, e mesmo o posterior a ela, reproduz o alarido de uma “estória do começo”: o discurso mitológico da teogonia e dos trabalhos e os dias já lembrava, com efeito, que o feminino nascia do estranho. A mulher tinha em sua origem algo irredutível à ordem humana: a fabricação divina, o imbatível ardil, armadilha de Zeus aos humanos. A fabricação de Pandora, narrada nesses dois poemas de Hesíodo mais de dois séculos antes do auge da civilização das póleis, é o acontecimento mítico que baliza os discursos em que a reprovação ao gênero feminino será a forma “oficial” de se falar da mulher, seja em Atenas, seja na pólis, seja para muito além dos limitesda Antiguidade Grega. Fazer do feminino um ser estranho é uma forma de conceber um espaço onde é possível irromper o outro da cultura, trazendo a diferença para dentro da cidade. Duas questões se impõem: em primeiro lugar, que outro é este em que se reconhece o feminino? Os poemas de Hesíodo e a elegia de Semônides de Amorgos delineiam uma resposta a esta questão. Em segundo lugar, que cidade é esta que, em um certo nível, dá lugar à percepção da diversidade no interior da unidade: “Atenas, são os atenienses”? Trata-se, nesta última questão, de um dos temas cujo debate será proposto na Terceira Parte desse trabalho: O Feminino e o Universo da Pólis. 2.1- PAndorA e A rAçA dAs mulheres: Os poemas de Hesíodo datam pelo menos do século VII a.C., quando o mundo grego ainda não vira o desenvolvimento pleno das póleis. Quando a poesia era ainda marcada pelo seu caráter oral e de Celebração, Hesíodo conta o estabelecimento da condição humana em meio ao surgimento do mundo dominado pelos deuses olímpicos. O tema da fabricação de Pandora, ou da primeira mulher, intervém tanto na teogonia, como em os trabalhos e os dias. As duas narrativas merecem, entretanto, ser abordadas separadamente. — A “Cidade das Mulheres” — 41 2.1.1- teogonia: A teogonia narra a gênese do cosmos, a proveniência dos deuses, e a repartição das tímai (“prerrogativas”) e das moîrai (“domínios”) entre as potências olímpicas. No poema, o mito de Prometeu conta a estória da diferenciação entre deuses e mortais, e da instauração da parte destes últimos: o sacrifício, o cultivo da terra, o casamento1. Este quinhão dos homens mortais se estabelece ao longo de um processo marcado pelo ardil, em que se sucedem ações artificiosas e armadilhas colocando em jogo a métis de Prometeu e de Zeus. Pode-se resumir a sucessão das armadilhas da seguinte forma: 1- Diferenciados homens e deuses no momento da divisão das partes do boi no sacrifício, Prometeu realiza uma dupla ocultação: sob as vísceras do animal ele esconde as carnes, sob a vistosa gordura, esconde os ossos, oferecendo ao Zeus métioeis a escolha. Com a escolha da parte de aparência mais atraente, estabelecem-se as atribuições de mortais e imortais no sacrifício: aos homens, o alimento cozido; aos deuses, a fumaça dos ossos. 2- Como contrapartida do dolo de Prometeu, Zeus esconde o fogo dos mortais, que não mais brotará ininterruptamente dos freixos. Mais uma vez, entretanto, Prometeu o engana, roubando o fogo ocultado em oca férula. 3- Ao ver o brilho do fogo entre os mortais, Zeus enfurecido cria para a “tribo dos homens” (phûl’anthrópon) o incombatível ardil: um mal oculto sob a aparência sedutora de um bem. Moldada da terra e da água por Hefesto, a mulher virgem não recebe nome. 1- Utilizamos aqui as análises do mito de Prometeu e Pandora apresentadas por J.P. Vernant, em “O Mito Prometéico em Hesíodo”, Mito e Sociedade na Grécia Antiga. RJ, José Olímpio, 1992, e Nicole Loraux, em “Sur la Race des Femmes et quelques unes de ses Tribus”, Les Enfants d’Athéna, Paris, La Découverte, 1990. 42 — Capítulo 2: Alteridade e Feminino — É adornada por Atena, como se enfeitam as jovens noivas para o casamento. Terminada a obra, a mulher é apresentada a deuses e mortais reunidos. Homens e deuses são tomados pelo ambíguo sentimento do espanto (thaûma), aplicado ao mesmo tempo para o maravilhoso e para o monstruoso. A bela mulher virgem leva na cabeça uma coroa de ouro, trabalhada por Hefesto, onde reluzem prodigiosamente talhadas as “feras que a terra e o mar nutrem”(v.581). A sedutora virgem fecha o circuito das tramas dolosas, como o último e grande dolo, fixando definitivamente a parte de força e de destino reservada aos homens: condenados a partir de então a casar-se para gerar filhos, os mortais são obrigados a aceitar, dia após dia, o “presente” de Zeus: kalòn kakòn ant’agathoîo (v.585, “...belo mal, reverso de um bem”). De acordo com a interpretação de Jean-Pierre Vernant para o mito, ver-se-á na narrativa hesiódica a ambiguidade do estatuto do homem mortal, “entre animais e deuses”. O sacrifício separa mortais e imortais, o cozimento e a reprodução pelo casamento separam os homens dos animais. Neste processo de separação, as carnes do boi sacrificado, o fogo, e a mulher correspondem-se. A mulher não é a contrapartida do homem. É uma das armadilhas, como o são os ossos do boi por debaixo da gordura branca e reluzente, que atrai os olhares; como o é o “longevisível brilho do fogo”, que Zeus esconde e Prometeu oculta sob a férula. Não se trata de explicar de onde vêm os homens, indistintamente chamados de “homens come-pão”, “homens mortais”, e “grei dos humanos”. A “humanidade de homens” já está lá. Explica-se porque à grei dos humanos é necessário dividir seu lugar e conviver com um ser que lhe é semelhante pela forma, mas que tem do humano e do monstruoso, de cada um uma parte. O espanto é o primeiro atributo, aquele que funda a relação da mulher com os seres que, no mito de Prometeu, definem suas prerrogativas: mortais e imortais. Como armadilha, embuste, thaûma, a mulher surge fora do humano. — A “Cidade das Mulheres” — 43 Ela é justaposta. Um logro aceito imprudentemente pelo reverso de Prometeu, seu irmão Epimeteu, do qual os homens se tornam prisioneiros: quem não traz para junto de si a mulher atinge velhice funesta, sem filhos que o sustentem, e morre vendo seus bens serem divididos por parentes longínquos; quem casa submete-se ao acaso (consequência da dupla derivação da mulher, bem e mal): ou consome-se em trabalho para sustentar o ventre esfomeado da mulher-zangão, ou, com alguma sorte, chega a união com uma boa esposa, garantia de sua descendência. Um mal necessário, jamais a “metade do homem”. A phûl’anthrópon não integrará o sexo feminino. Grei dos humanos afirmará o homem, não a mulher. Tal é o sentido da conclusão de Hesíodo, para a narrativa da fabricação da mulher na teogonia: “Dela descende a geração das femininas mulheres. [Dela é a funesta geração e grei das mulheres ] grande pena que habita entre os homens mortais” 2 Ao grupo dos homens justapõe-se um génos gynaikôn, uma raça das mulheres. O uso de génos e phûla, faz tanto do grupo dos homens mortais quanto do grupo das mulheres blocos separados, definidos ao mesmo tempo por seu fechamento e por sua relação com grupos semelhantes (BENVENISTE, apud. LORAUX, 1990, p. 90)3. O génos kaì; phûla gynaikôn opõe-se e relaciona-se a phûl’anthrópon, em uma convivência penosa, na maioria das vezes, não como dois gêneros de uma mesma espécie, mas como duas espécies que, no limite, não se misturam. Na justaposição dos grupos, a raça das mulheres singulariza-se. A 2-TEOG., vv. 590-592. O tradutor da versão utilizada optou por traduzir génos por “geração”, certamente para escapar da aparente tautologia em que incorre a expressão génos kaì phûla. Nicole Loraux (op. cit., p.77) oferece uma opção para considerar o verso: Dela saiu a raça maldita, as tribos de mulheres, em que “tribos” amplifica o traço funesto da “raça”, multiplicando-a internamente. O uso de phûla consagraria diversidade no interior da unidade. 3- BENVENISTE, Émile. Le Vocabulaire des Instituitions Indo-Européenes. Paris: Minuit, 1969. 2 vols. 44 — Capítulo 2: Alteridade e Feminino — teogonia narra a sucessão dos nascimentos divinos, estabelecendo para os deuses uma genealogia, explicando desta forma a proveniência das potências e do domínio de cada um dos olímpicos. O mito de Prometeu, ao mesmo tempo em que narra o estabelecimento da condição humana, explica o nascimento da mulher, em termos de proveniência e de genealogia. Unifica-se, desta maneira, fora do humano ou do divino,por sua proveniência e descendência diversas, um génos gynaikôn. Do thaûma sai a raça das mulheres. A mulher surge, portanto, fora da humanidade, e reproduz-se ainda fora dela, na medida em que o génos produz sua própria descendência. A mulher gera a mulher, apesar da necessidade que os homens come-pão tem da mulher para gerar filhos semelhantes a seus pais. No limite, a oposição entre a raça das mulheres e os homens mortais alimentará o sonho grego de reproduzir-se sem a participação do ventre feminino: pudessem os homens gerar homens, pudesse a terra gerar homens (id., ibid., 1981, passim), libertando assim a grei dos humanos da armadilha em que foi enlaçada pelo Zeus metíoeis. Algumas conclusões podem ser extraídas desta leitura da teogonia. A mulher surge no desenlace de uma disputa entre homens e deuses, onde se estabelece definitivamente a condição humana no cosmos ordenado sob a potência de Zeus. Em sua origem como fabricação ardilosa de Zeus, esconde-se a natureza ambígua de bem e de mal: bela, sedutora, mas puro artifício. Os homens recebem o presente, deixam-se enlaçar pela armadilha. Assim convivem, entre os mortais, uma humanidade e uma “raça das mulheres”. A teogonia, na versão do mito de Prometeu que apresenta, explica, assim, lado a lado, a presença de duas moîrai no seio dos mortais: ao invés de dois gêneros complementares no grupo humano, dois grupos que não se confundem: os homens, representados por Prometeu na luta por suas prerrogativas, e as mulheres, uma fabricação dos deuses que se assemelha ao homem, mas não é da ordem do humano. O quinhão feminino permanece, pois, indefinido, na separação dos seres: feras, homens, deuses. — A “Cidade das Mulheres” — 45 2.1.2- os trabalhos e os dias: Encontraremos na narrativa do mito de Prometeu em os trabalhos e os dias um outro desdobramento em relação a fabricação da mulher. Neste poema não se trata de narrar a gênese do cosmos. O que entra em jogo é a condição humana já estabelecida, definida necessariamente pelo esforço do trabalho, pela mortalidade, pelo casamento. Nos trabalhos, Hesíodo nomeia a mulher. Não se menciona, entretanto, em nenhum momento, o fato de Pandora ser a primeira mulher, da qual descende a raça das mulheres como um todo. Não se trata, portanto, da proveniência das “femininas mulheres”, como na teogonia. Os deuses criaram, na “forma de virgem semelhante às deusas imortais”, um ser ambíguo porque feito da ambiguidade própria à métis. A duplicidade da inteligência curva não mostra o que faz, nem o que é. A ação astuciosa é feita de ocultação. O ser feito de métis é um ser que esconde, e como mechané (armadilha que seduz), é um ser sem fundamento além de sua própria destinação ao engano, apaté. A sedução, a ocultação e o engano são os atributos constitutivos de Pandora. Enquanto a teogonia ocupava-se da origem do génos gynaikôn, de sua constituição, como raça, fora do grupo dos humanos, os trabalhos e os dias não aborda a questão em termos de proveniência e descendência. Não se fala de Pandora como a origem de um grupo à parte. Detém-se, por outro lado, em seus atributos: descrição detalhada dos “dons” que formam a mulher, atribuição de cada dom, ou de cada dolo, aos deuses que o ofereceram; construção do feminino a partir desses dons divinos. Na narrativa, o thaûma dilui-se: Pandora transforma-se em feminino, pela enumeração do rol de seus atributos. Ao se decompor a narrativa, chega-se aos seguintes termos, ligando deuses e dons (TRA, vv. 42-105): a) Zeus ordena que: - Hefesto misture terra e água, colocando aí força e voz humanas, 46 — Capítulo 2: Alteridade e Feminino — assemelhando-a de rosto às deusas imortais. Este primeiro passo fará da criatura de barro uma bela forma de virgem. - Atena ensine-lhe o trabalho de tecer o múltiplo e intrincado tecido. - Afrodite rodeie-a de graça, desejo, e “preocupações devoradoras de membros”. -Hermes ponha na criatura espírito de cão e dissimulada conduta. b) Os deuses obedecem: b.1) Molda-se a forma: - Hefesto da terra plasmou-a conforme recatada virgem - Atena cingiu-a e adornou-a. - As deusas Graças e a Persuasão puseram colares de ouro em torno do pescoço. - As Horas coroaram a cabeça com flores. - Atena termina a obra, ajustando-lhe ao corpo os adornos. b.2) Insufla-se-lhe o espírito: - Trabalho de Hermes, que lhe forja no peito mentiras, palavras sedutoras, e finda por dar-lhe voz. Na fabricação de Pandora intervêm, pois, os deuses Hefesto, Atena, Hermes e Afrodite, substituída na segunda parte da narrativa pelas Graças, pela Persuasão e pelas Horas. Apesar da continuidade dos fatos, dadas pela introdução “Zeus ordena”, e em seguida “cumprem os imortais”, a descrição detalhada daquilo que foi cumprido pelos imortais não é gratuita. Na primeira parte, Zeus cria o feminino. Ele maquina o feminino, concebendo-o como estratagema. Se a mulher que os deuses o ajudam a forjar é uma armadilha, ela deve atrair com palavras sedutoras e mentiras, por sua forma humana e rosto divino. Aos deuses desdobrarem-se, em seus respectivos domínios, para produzir a obra acabada, a virgem oferecida como noiva ao irmão de Prometeu. O modelo que Zeus oferece aos imortais compõe-se, pois, da seguinte — A “Cidade das Mulheres” — 47 forma: humana voz e força, semelhança de rosto as deusas imortais, bela forma de virgem, trabalho de tecer, graça, desejo e preocupações devoradoras de membros, ou falta de medida em relação aos tá aphrodísia, espírito canino e conduta dissimulada. Sob este modelo, os deuses produzem aquela que “de cada um tem um dom, um mal aos homens que comem pão”. A segunda parte particulariza o modelo ao transformá-lo em noiva, e são as imagens ligadas a preparação da virgem, que antecede ao casamento, aquelas que dominam. No casamento, necessário aos homens, ofuscados pela beleza da virgem recatada, os humanos não percebem aquilo que a noiva oculta: a armadilha do feminino, o mal que consome os homens em sofrimento, em trabalho, em fome, em sexo. A invencível trapaça de Zeus não se esgota na constituição do feminino, na fabricação da mulher. Ao penetrar na “casa” do homem, aceita por Epimeteu, a mulher abre a tampa do jarro, espalhando entre a grei dos humanos (phûl’anthrópon) males invisíveis e silenciosos, deixando oculta a elpís (“esperança”). A partir de então os homens convivem com as doenças, com mil pesares, a mercê da Necessidade. Pandora é o nome da múltipla armadilha, da múltipla prisão: trabalho, fome, doenças, mortalidade, imprevidência (ausência de elpís). A participação da mulher no estabelecimento do quinhão humano é, portanto, decisiva. Não por sua ação, mas por sua própria condição. Isto equivale a dizer que não é à “responsabilidade” feminina que se devem os “males” do humano, mas a sua condição de armadilha invencível. A condição da mulher junto ao mundo delimitado para o humano é marcada por seus atributos, aqueles doados pelos deuses, e que fazem dela um imbatível ardil. Raça estranha, descendência do espanto, cujo estatuto não se reconhece nem como humano, nem como divino, nem como selvagem, o génos gynaikôn dá lugar ao indefinido, ao duvidoso, ao ambíguo. Melhor seria que não se falasse dele. Mas fala-se. Ainda no período arcaico, por exemplo, os versos de Semônides de Amorgos procuram descrever o espírito feminino, seguindo passo por passo os mesmos temas que inspiram os poemas de Hesíodo. Semônides compõe 48 — Capítulo 2: Alteridade e Feminino — um deboche. Ou seria melhor acreditar que ele fala do gênero feminino da única maneira em que vale a pena lembrá-lo: por meio da Censura? 2.2- GYNAIKÓS NÓON: “Primeiro Zeus criou diferentemente o espírito feminino”. Assimse inicia a narrativa do poeta Semônides de Amorgos, no século VII a.C.. O que se segue é um catálogo, ao qual bem se pode dar o nome de bestiário. Catálogo das mulheres, ou melhor, das diferentes phûla, ou tribos, de mulheres. Os jambos de Semônides nos sugerem que o poeta havia se inspirado em uma abordagem singular da estória de Pandora. Semônides decompõe a figura de Pandora, multiplicando pelos “espíritos” os atributos da primeira mulher. Ao mesmo tempo em que o faz ele diversifica esses mesmos atributos, especifica a existência de um feminino “saído” da abelha, dando origem à única tribo feminina a qual não se liga nenhuma reprovação. Mas uma das grandes diferenças entre Hesíodo e Semônides é que os versos deste último são compostos para suscitar a Censura. Semônides atira ao escárnio as tribos de mulheres. A fronteira entre o escárnio, o riso e a censura, entretanto, é muito tênue, senão nula ( LORAUX, 1990, pp 112-113); e em relação à mulher, ao “falar da mulher”, rir, censurar, e estabelecer as fronteiras entre a raça e a humanidade, são passos dados em conjunto, na mesma direção. Em outras palavras, ao fazer rir das tribos de mulheres, o poema de Semônides estabelece para elas lugar e presença no mundo dos homens: lugar da censura, da falta de medida, do artifício. O plano do catálogo é dado pelo conjunto das expressões tá prôta (primeiro, inicialmente), tén mèn/tén dè (uma/ outra, por um lado/ por outro lado), e ek (vir de, sair de, com sentido de gênese, metamorfose ou fabricação). De um início feito de “diferente criação do espírito feminino”, parte-se para a enumeração dos tipos iniciais como blocos — A “Cidade das Mulheres” — 49 estanques: “uma, a da porca … outra, a da raposa “. Simultaneamente, realiza-se a derivação: “Outra deus fez da maliciosa raposa”, de modo que cada bloco representado pelas figuras, ao todo dez (porca, raposa, cadela, terra, mar, mula, doninha, égua, macaco, abelha), apresenta um plano temporal isolado das demais. Não há interpenetração entre um bloco e outro. Podemos construir, assim, o esquema seguinte: niVel 1: niVel 2: espírito feminino niVel 3: (atributos): Primeiro derivação phûla (tá prôta), mèn…dé Porca - ek -casa em lama Características -não se lava gerais: -engorda Raposa - ek - maliciosa (tempo humano) - tudo sabe Cadela - ek -tudo quer ouvir presente de Zeus e ver -inútil grito - artifício Terra (Modelada -estropiada bem e mal a partir da -nada sabe terra) -come Mar - ek - de dupla forma o coração sente Mula - ek -come censura -acolhe qualquer companheiro para os atos de Afrodite Doninha - ek -lamentável raça destino -leito de Afrodite do homem -rouba -come as carnes consagradas e as não consagradas Égua (engendrou -não trabalha escárnio(mômos) ; pariu) -banha-se demais -belo espetáculo para estranhos Macaca - ek -feíssima grilhão -riso (provoca e ri) -mal 50 — Capítulo 2: Alteridade e Feminino — niVel 1: niVel 2: espírito feminino niVel 3: (atributos): Primeiro derivação phûla (tá prôta), mèn…dé Abelha - ek -não há censura -célebre prole -florescem os bens da casa -não se senta em companhia de outras mulheres -não fala nos atos de Afrodite Para melhor falar das mulheres, o poema de Semônides multiplica o espírito feminino, que, nos trabalhos e os dias surgia simplesmente como “espírito de cão, dissimulada conduta”. A cada espírito o poeta relaciona um animal, além de “terra” e “mar”, como metáfora (id., pp.101- 105). “A mulher tem algo de raposa”, ou “o espírito feminino tem algo do mar”, seriam as formas mais apropriadas para unir a diversidade das espécies femininas aos modos sob os quais surgiram no início . “Da porca”. Isto significa ao mesmo tempo “descende da”, “sai da”, mas também “é fabricada como”. Esta variedade de significações é inerente ao termo ek, que só não é usado em dois casos: da terra a mulher deriva como uma obra de sua matéria prima (é modelada por Zeus com a terra), da égua ela literalmente nasce. O primeiro caso, entretanto, confirma a escolha da tradução de ek em termos de fabricação: Zeus criou o espírito feminino a partir do modo de ser da porca, ou da cadela, da macaca, da abelha. O segundo caso evidencia ainda mais a metáfora: a mulher vaidosa e avessa ao trabalho não é uma égua, nem tem como antepassado um animal. O que a égua concebe não é a própria mulher, mas seu espírito. O uso do verbo gígnomai amplifica a relação entre o animal e os atributos femininos: a “égua delicada e de longas crinas” assemelha-se à mulher que “ por causa de trabalhos servis e de aflição treme toda(…)”, e, “sempre a cabeleira estendida leva, espessa(…)” (vv.62-65). — A “Cidade das Mulheres” — 51 Em relação a origem das mulheres, portanto, pode entender-se que elas vêm da terra, do mar, da cadela; ou, mais acuradamente, que Zeus as criou todas, umas a partir das propriedades da terra, outras, a partir das propriedades de certos animais. Neste sentido, em relação a origem, permanece a estória dos poemas de Hesíodo: fabricação de Zeus presenteada aos homens. É verdade que não há mais o génos gynaikôn. Em compensação, a unidade da raça gerada pela primeira mulher desintegra-se em uma série de probabilidades, que são as tribos. A mulher continua, entretanto, descendendo dela mesma. O catálogo de Semônides reafirma o isolamento das tribos de mulheres dos homens, deuses, e animais, na medida em que a mulher não é nenhum dos animais, a partir dos quais os deuses a criaram. Os atributos que descrevem o espírito feminino em cada tribo apresentam as mulheres assim como Hesíodo as apresentava, seja com Pandora nos trabalhos, seja com a raça das mulheres, na teogonia. A mulher não trabalha, é glutona, é volúvel e mesquinha, seus únicos interesses levam às conversas vis e aos atos de Afrodite. O poeta vai mais longe: ao fazer com que os espíritos femininos derivem de uma matéria que não é humana, Semônides desumaniza os atributos que os compõem. A preguiça, a mesquinhez, a glutonaria, não eram da ordem do humano, no começo. Presentes no mundo, as tribos de mulheres lançam também esse mal aos homens. Felizmente, o acaso pode unir-nos à melísses — “abelha”. No tempo humano, Semônides fala aos seus ouvintes das mulheres que vivem com eles, e da probabilidade de unir-se, dentre todas as espécies ruins, com aquela a qual nenhuma censura se liga, a mulher-abelha. Esta espécie feminina é o reverso de todos os males atribuídos à mulher. Zelosa dos bens da casa, amiga de seu marido, inimiga das conversas entre mulheres, as conversas eróticas, a mulher-abelha é um verdadeiro presente dos deuses. Entretanto, ela é também uma mulher. Pode ser uma ilusão (vv. 107-110), já que naquilo em que o constitui, o feminino é um artifício: quando se imagina ter a mulher perfeita, não se enxerga o engano. No ser 52 — Capítulo 2: Alteridade e Feminino — feminino, bem e mal se confundem, e o homem não pode se fiar naquilo que vê. Esta é a conclusão do poema de Semônides. De Hesíodo a Semônides pode não se ter passado um intervalo muito grande de tempo. Mas a abordagem do feminino em termos de alteridade não é uma característica somente do período arcaico. Hesíodo, em suas duas obras, fornece uma explicação mítica do fenômeno génos gynaikôn. Semônides, ao evocar sobre as mulheres o deboche, oferece uma forma de apreensão do feminino enquanto phûla, ou tribos de mulheres. De forma geral, os atributos da alteridade do femininosão qualidades ligadas à proveniência ardilosa das mulheres, que as tornam suscetíveis ao estranhamento. Em primeiro lugar, o ardil. Fundamento do ser feminino, a métis marca a presença da mulher entre os homens que, pela métis, se tornam imprevidentes (incapazes de antecipar e projetar-se contra um artifício). Em segundo lugar, o espanto. Belo e Mal, qualidades incompatíveis mesmo para a língua grega, unem-se para dizer aquilo que a mulher é. O engano (apaté) decorre das duas primeiras qualidades, e constitui o feminino na medida em que conviver com a mulher é estar constantemente sujeito à aporia. A dissimulação, a sedução, a desmedida erótica e a glutonaria, a preguiça são atributos que finalizam a descrição das propriedades da raça das mulheres, e das tribos de femininas mulheres. Como raça, ou como unidade, como tribo, ou como diversidade, a condição feminina não se confunde com a condição humana. A mulher faz parte do quinhão humano, mas sua participação termina aí. Entre o mundo selvagem, o Costume que rege a vida humana, e a sociedade dos deuses, o génos gynaikôn permanece indefinido e, por isso mesmo, ambíguo. Da ambiguidade da raça das mulheres deriva a capacidade do feminino em presentificar o outro do próprio nómos. A Tradição, o Costume, a ordem humana, é aquilo que se estabelece na partilha dos domínios, entre homens, feras, e deuses. Do domínio das feras, o feminino se aproxima, tanto quanto do domínio humano. Não se confunde, entretanto, nem com um nem com outro. Para a sociedade — A “Cidade das Mulheres” — 53 dos deuses, o feminino é o estratagema, assim como para a sociedade humana, é a armadilha. A mulher brota nas fronteiras, nos intervalos entre as esferas. A Reprovação da sociedade dos homens assemelha-a aos animais; mas a necessidade de procriar e garantir descendência a torna humana. Habitando a morada dos homens, o feminino carrega consigo a possibilidade do estranhamento, do afastamento das tarefas cotidianas. Assim se define a afinidade entre a raça das mulheres e o estranho. O feminino traz consigo o estigma de seu nascimento — o ardil divino. Como génos ou como phûla, as mulheres são objeto de discurso na mesma medida em que se encontram fora da tribo dos homens, em que fornecem, por sua proveniência, material para provocar o riso, ou para provocar o espanto. No final do século V a.C., encontraremos ainda o riso e o espanto, no teatro de Eurípides e de Aristófanes. Encontraremos o eco dos “espíritos” femininos, do artifício divino, do mal e da estranheza da mulher com relação ao nómos. Isto não quer dizer que Hesíodo e Semônides sejam os primeiros a definir o feminino como artifício, nem que Eurípides e Aristófanes sejam os últimos a fazê-lo. O que perpassa as obras de Hesíodo, de Semônides, de Eurípides, de Aristófanes, é um mesmo topos, um mesmo lugar de produção do imaginário do feminino na Grécia Antiga. Da mesma forma, não se trata, de Hesíodo a Xenofonte, de copiar modelos preestabelecidos. Uma obra, quer seja um poema de Hesíodo ou uma Tragédia de Eurípides, não diz a mesma coisa, mesmo que utilize os mesmos topoi: a composição, os ouvintes, os espectadores, os fins são outros. Por isso, após a compreensão de algumas das implicações do acontecimento mítico que origina a “raça das mulheres”, deve-se explicar por que a construção da mulher — este ser votado ao estranhamento, ao deboche e à censura — dá lugar ao discurso profundamente político de Eurípides e Aristófanes, no fim do período clássico das póleis. CAPÍtulo 3 eurÍPides e A Construção dA AlteridAde do feminino A questão a que se pretende encaminhar uma resposta no presente capítulo é a seguinte: por que o teatro de Eurípides, na importância que confere à construção do feminino, apresenta um lugar de destaque para a eclosão do feminino como alteridade, ou seja, como lugar de irrupção do estranho no seio da vida cotidiana e da cultura? 3.1- A méTIS dAs mulheres: Coube a Jean Pierre Vernant e Marcel Detienne (DETIENNE & VERNANT, 1976) a tarefa de estudar uma esfera de pensamento e atividade humanos a que os gregos chamavam métis. Neste estudo a métis surge como a inteligência ardilosa, inseparável da prudência, da estratégia, e da ação no tempo: atenção, meticulosidade, subterfúgios para agarrar e não deixar passar a ocasião certa de agir (o kairós). As artimanhas da inteligência referem-se pois a um tipo de raciocínio ligado a um universo prático e em movimento em que, força a força, quase confundidas a natureza e o mundo humano, os seres forjam suas armas, escolhem o momento e o lugar para sobrepujarem um adversário. Tramar, ocultar, apanhar em armadilhas são, portanto, os instrumentos da métis. Vimos como a narrativa do mito de Prometeu na teogonia apresenta a sucessão das armadilhas forjadas pela métis de Zeus, tanto como de Prometeu. Mais do que isso, vimos como a própria raça das mulheres tem aí revelada sua origem como armadilha, fruto das maquinações de Zeus, na luta entre deuses e mortais pela qual se estabelece o quinhão da raça humana. Em Eurípides, a ligação do feminino à métis revela-se na habilidade em criar subterfúgios, em maquinar armadilhas e preparar venenos. — A “Cidade das Mulheres” — 55 Conferindo ao feminino a habilidade em conceber armadilhas, em aprisionar em laços, envenenar e enfeitiçar com filtros mágicos, o teatro de Eurípides confere à mulher um saber, um domínio, que é perigoso e negativo, na medida em que a ação é aí escusa, oculta. A métis das mulheres está, na maior parte das vezes, à serviço de sua natureza desmedida. [Medéia]: “ […] Conheces, e ademais somos nós mulheres imbatibilíssimas nos bens, mas habilíssimas artesãs de todos os males.” (MED, vv 401-409) Quando os ardis relacionam-se à húbris erótica (a desmedida com relação aos “atos de Afrodite”), as figuras femininas envolvidas são as esposas. Mas as artimanhas da inteligência entram na trama dos acontecimentos também quando outras figuras femininas, mesmo virgens como Ifigênia, são chamadas a agir e deliberar. Se as esposas agem por húbris, as virgens agem de acordo com as habilidades e os saberes próprios ao gênero feminino. Este fato vem demonstrar que a métis, da forma como é abordada por Eurípides, delimita um campo de ação e pensamento que é feminino. Encontramos em Ifigênia em Táurida e em helena, por exemplo, a tematização da afinidade do feminino com a métis, sem que a inteligência ardilosa desse gênero esteja ligada à húbris. Em ambos os casos, a métis não surge como modo de ação de Ifigênia ou Helena, mas como modo próprio de ação do gênero feminino. Em helena, quando se trata da ação de Menelau, seu marido, esta só pode ser compreendida como ação de coragem, ataque, ou mesmo guerra. Pegar em armas, lutar, é o que o Menelau de Helena na peça de mesmo nome, ou Orestes, irmão de Ifigênia (Ifigênia em Táurida) se propõem a fazer. Mas o fator decisivo para a fuga será a trama da armadilha, o uso da dissimulação. Fazer valer a aparência frente aos inimigos, tal é a parte na ação que cabe às mulheres. “ [If]Uma nova idéia acaba de me ocorrer. [Or]O que, pois? Ponha-me a par, que eu julgue. [If] De teu próprio sofrimento usarei em meu estratagema. 56 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — [Or] A mulher verdadeiramente entende de ardis “ (IFT, vv.1029-1032) Agir às escondidas; dissimular, mentir. A ação escusa do gênero feminino se opõe ao modo próprio de ação do homem, aberto e guerreiro. A métis, desprovida na época clássica de sua relação fundamental com a ação e com o pensamento em prol do pensamento racional, político e filosófico, torna-se um atributo que delimita modos de agir de mulheres,por oposição aos homens. Como se as artimanhas da inteligência fossem perdendo gradativamente sua relação com o pensamento, especializando- se: uma habilidade própria ao caçador, à certas profissões, a certos domínios específicos da atividade humana, e da vida animal (id.). Se isto acontece, se a tematização da métis encontra um campo em que o discurso verdadeiro se opõe à prática e a ação no tempo, a inteligência “torta” pode tornar-se atributo da raça das mulheres, constituindo a fonte de suas qualidades negativas. Encontramos os traços da métis principalmente na personagem Medéia. Na mitologia grega, Medéia surge ligada a um saber mágico sob o patrocínio de Hécate, divindade ao mesmo tempo infernal e doméstica. Magia e barbárie são dois atributos da figura mitológica de Medéia, que surgem na peça de Eurípides como um fator de acentuação do conflito entre a esposa ilegítima e o marido, entre a mulher estrangeira e as leis da cidade. [Creonte]:” Temo-te, não é preciso disfarçar palavras, não faças à minha filha um irremediável mal. Contribuem muitos motivos deste temor: és hábil, e em muitos malefícios experta mas magoada e frustrada do leito viril” (MED,vv-282-286.) Nas palavras do rei de Corinto, os motivos que levam a cidade a banir Medéia são da ordem do temor contra uma mulher hábil (sophé pèphukas), magoada pelo leito viril (léktron andròs). Para que se compreenda o alcance deste temor, é preciso ter em mente o significado de que se reveste o léktron andròs. Em relação à Medéia, o leito representa — A “Cidade das Mulheres” — 57 legitimidade, engajamento através de juramento. Pode-se afirmar que representa o centro de um espaço, cujo domínio é da mulher, conferindo a ela um status e uma posição em relação a outras mulheres naquela sociedade. Eis a situação: em meus familiares/ o ódio cresceu, a eles eu não devia jamais /maltratar, para te agradar fiz inimigos./ Em troca disto, para muitas mulheres gregas, /fizeste-me feliz: admirável e fiel/ esposo tenho em ti, eu, a miseranda,/ se serei banida, expulsa desta terra,/ erma de amigos, só com os filhos sós.” (MED,vv.506-513). Para Creonte como para Jasão, a mágoa pela perda do leito é um motivo medíocre de reclamação. Se da perspectiva feminina o leito confere legitimidade, da perspectiva masculina o leito viril relaciona-se ao comércio amoroso entre marido e mulher. O sentido desloca-se: ao invés de delimitação de um espaço, o leito torna-se a representação da desmedida erótica própria ao gênero feminino: “[Jasão]: Ao leito deste o valor de seu massacre? [Medéia]: Parece-te que para a mulher é uma dor leve?” (MED., vv. 1367-1368.) Um tal diálogo não se baseia no entendimento. Há, ao contrário, um desentendimento, que devia ser percebido pelo espectador. No momento em que Jasão evocava o leito, o sentido era simplesmente o de acentuar a desmedida, ao passo em que a resposta de Medéia tomava para si a justiça de seu ato, pois tratava-se de lutar pelo seu campo de legitimidade. Surge uma primeira oposição, entre a justiça tal como é compreendida por Jasão ou Creonte, e a Justiça tal como Medéia ( e as mulheres de Corinto) a compreende. [Creonte]:” A ti tenebriforme furiosa com o marido Medéia, editei que desta terra tu saias banida, levando contigo os dois filhos e sem demora, como sou juiz da razão [grifo nosso] disto aqui e não regressarei ao palácio antes de te exilar dos termos desta terra.” (MED, vv.271-276) 58 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — A razão pela qual se julga e se faz justiça expulsando Medéia da cidade opõe-se ao que a protagonista reclama como sendo o justo: punição contra a quebra de um juramento, contra o abandono do leito. A razão política e em certa medida a razão jurídica1 que fundamenta o discurso de Jasão em defesa de seu ato, opõe-se ao juramento, à legitimidade do leito viril, ao assassinato da prole, não a de Medéia, mas aquela que constitui a descendência de Jasão. O assassinato dos filhos, a desmedida, e a selvageria, que fazem de Medéia um ser de natureza selvagem (agriotèran phúsin), são atos que se encontram assim definidos pelo discurso de Creonte, ou de Jasão. Uma tal visão da protagonista releva da perspectiva das Leis, do universo masculino da cidade. Esta afirmação é reforçada pelo fato de que nenhuma outra personagem desta tragédia de Eurípides (escravos, mulheres coríntias) mostra mais do que compaixão, e mesmo por vezes solidariedade em relação aos atos e às decisões de Medéia. A ação de Medéia define, portanto, uma justiça que não se enquadra naquela que se apresenta na personagem de Creonte, o governante e o juiz. A diké reclamada por Medéia com o assentimento das coríntias, é aquela que garante a elas a soberania da casa e o domínio sobre o leito. A vingança do leito, questão que Jasão e Creonte transformam em desmedida erótica, não surge na perspectiva das figuras femininas como desmedida. Do ponto de vista do universo feminino ao qual a métis delineia uma primeira delimitação, não se coloca em realidade esta questão. A questão é a da justa cobrança de um juramento traído, juramento que envolve um dos principais mecanismos de inserção do 1-Jasão está em seu direito ao abandonar Medéia para desposar a filha do rei, já que, por não ser grega, a protagonista não teria, em realidade direito ao esta- tuto de esposa legítima. Desta forma, podemos entender que a argumentação de Jasão em seu agon com a esposa traída não é desprovida de fundamento jurídico. Pretendia ele que, pelo casamento com a filha do rei e conseguinte constituição de família, ele asseguraria o futuro de seus filhos com Medéia. Queria dar a estes aliados fortes. Não seriam esses aliados em verdade os filhos legítimos perante a cidade, e por isso garantia de um estatuto mais seguro para os filhos ilegítimos de seu primeiro casamento com Medéia? Ver MED, vv.522-575. — A “Cidade das Mulheres” — 59 gênero feminino na cultura: o casamento; ponto-chave da integração, mola-mestra da constituição do espaço feminino centrado no leito nupcial. Em hipólito, a métis surge ligada à personagem da ama de Fedra. A forma de agir própria ao sexo feminino é marcada pela relação estreita com a solidariedade entre mulheres, por um lado, e com a oposição entre aparência e verdade, por outro lado2. Fedra e Medéia são duas personagens comparáveis em diversos pontos. Um deles é o da tematização através dessas figuras femininas, da desmedida em matéria de amor tanto em Medéia — que a leva ao assassinato dos filhos — quanto em Fedra. Mas a desmedida de Fedra origina-se em um delírio, uma loucura enviada pela deusa Afrodite para vingar as faltas de Hipólito em relação a ela. Fedra é apresentada por Eurípides como uma mulher casada, preocupada com a honra e a virtude aparentes, que distinguem os bons dos maus entre os homens. Em meio ao delírio divino contra o qual nada pode sua vontade, a esposa do rei está decidida a morrer. Neste ponto relacionam-se Fedra e sua ama: Fedra aspira à decência; a ama representa o ponto de vista de que contra a natureza e as inclinações naturais não se luta. Loucura, desmedida erótica e trama entre mulheres envolvendo um saber que é próprio delas: aplicação da magia. Vejamos, nas palavras de Hipólito, como se define uma tal solidariedade, em relação a este “saber feminino”: [Hip.]: “[…] a perversidade, Cípris a faz nascer sobretudo nas mulheres de espírito: a incapaz é preservada do desatino por sua inteligência limitada. Junto as mulheres 2- Aparência e Verdade, ou aquilo que se faz às claras versus a ação que se completa em segredo, ou fora do alcance da visão dos homens. Esta dicotomia presente na peça hipólito foi analisada por Charles Segal, queprocurou mostrar as oposições entre Aparência/Verdade, Claro/Obscuro, Corpo/Espírito em termos de aspiração a uma pureza (agnós), incomum no pensamento grego da época. Cf.. SEGAL, Charles. “Honté et Pureté dans l’Hyppolite d’Euripide”. La Musique du Sphinx. Paris, La Découverte, 1987, pp 183-221. 60 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — não deveriam penetrar servidoras; é a sociedade muda das feras que lhes seria necessária, para que elas não pudessem dirigir a palavra a nenhuma, nem receber alguma palavra delas.” (HIP, vv 640-649). Um saber temerário, portanto, uma inteligência cuja nocividade é ampliada pela cumplicidade entre as mulheres e suas companheiras, sejam elas servidoras, vizinhas, amigas que, entre si, conversam. Falar entre mulheres implica sempre um mal. Este mal surge, na personagem Fedra como em Medéia e mesmo em Hermíone, na peça Andrômaca, como um perigo, uma armadilha preparada por mulheres, no campo do amor. Dizendo de outra maneira, uma armadilha tramada entre mulheres em seu próprio domínio: o do leito. Para Medéia, o ardil corresponde a fazer a justiça. Para Fedra e para a ama, corresponde à satisfação de inclinações naturais, mas principalmente a ceder à imposição da deusa pela qual tudo nasce, tudo se dá, no mundo humano como na natureza: Afrodite. Em Andrômaca, novamente são colocadas lado a lado em cena a desmedida erótica do sexo feminino e sua contrapartida, a virtude no feminino. Desta vez, entretanto, a sinuosidade da inteligência própria ao feminino surge em meio ao discurso entre mulheres. Nesta peça opõem-se duas personagens femininas: Andrômaca, a cativa troiana concubina de Neoptólemo, viúva de Heitor, e Hermíone, filha de Helena e Menelau, esposa legítima de Neoptólemo. O conflito “doméstico” entre uma esposa e uma escrava concubina tem um fundo político, já que a peça foi apresentada em uma cidade aliada dos atenienses, com o objetivo de fazê-la entrar na guerra contra Esparta. Isto explica, em parte, a escolha do tema, e o porquê da grega Hermíone apresentar em cena o caráter nocivo e desmedido do gênero feminino: Hermíone, na lenda, é princesa espartana. Andrômaca, bárbara, representa, nesta peça como em As troianas, a figura da mulher casta e virtuosa. Hermíone, influenciada pela conversa com vizinhas e amigas, acredita que a escrava bárbara preparou filtros mágicos para que ela, esposa legítima do filho de Aquiles, não pudesse ter filhos. As implicações — A “Cidade das Mulheres” — 61 da disputa aparecem bem claras nas palavras de lamentação, apresentadas por Andrômaca no prólogo da peça: conflito entre mulheres, onde se colocam, de um lado, a esposa e suas “conselheiras”, e, de outro, a escrava bárbara, que deu um filho ao senhor da casa. A disputa envolve os malefícios para tornar estéril, e, com esta arma, apropriar-se do leito conjugal (AND, vv.29-35). Mais uma vez, no conflito interior ao gênero feminino, o que se põe em jogo é o leito. Andrômaca responde às acusações de Hermíone com um discurso pela medida no amor e no casamento (AND, vv.147-273.). Afirma que apesar de ser natural ao feminino, mais que ao masculino, a desmedida no amor, é preciso cobri-la nobremente. Esconder o mal que assola o espírito feminino, a ponto de desencadear delírios e maquinações as mais cruéis: tal é o tema que encontramos em Fedra, e em Hermíone. O que Andrômaca revela é uma falta de aptidão natural do feminino à virtude. Tal como Fedra, o caminho de Hermíone em direção à medida, é o do encobrimento de um atributo do gênero feminino: fraqueza em relação aos tá aphrodìsia. Com a análise do tema da métis e sua relação com o feminino no teatro de Eurípides, torna-se visível, portanto, a presença de ao menos dois questionamentos: a) Pertencimento do génos gynaikôn a um universo que está para aquém do nómos, ou seja, da cidade, de suas leis e convenções. Isto se dá através da construção de uma justiça, de um saber e de uma solidariedade próprias às mulheres, que, somadas à desmedida, fazem emergir os perigos que a presença do feminino torna latente no seio da cultura. b) Raça das Mulheres, ciência, ação das mulheres. A métis delimita o espaço em que a ação é feminina, em que a organização do mundo humano se dobra ao feminino. O espaço torna-se centrado no leito e no quarto (tálamos), o segredo e os subterfúgios, tornam-se instrumentos para a efetivação da justiça. 62 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — 3.2- umA outrA solidAriedAde: Demonstrou-se acima como a métis fundamenta a construção de um universo feminino à parte. O tema que será abordado agora liga-se também ao topos da raça das mulheres. Trata-se da solidariedade entre figuras femininas no teatro de Eurípides. Surge entre elas uma relação de afinidade, independente da pertença a um mesmo grupo social, ou seja, independente da cidadania. A solidariedade vem reforçar a união do feminino dentro do lugar reservado a ele: o génos das mulheres. Por solidariedade, entende-se a forma como se constituem laços de afinidade e união em um grupo. Não se trata somente de entreajuda. O termo grego utilizado com o sentido de relações entre afins é philia. Amor, amizade, mas antes de mais nada fundamento da relação entre membros de um mesmo grupo: marido e mulher, guerreiros, domésticos, a philia é o que une, o que consolida um determinado agrupamento social. Fundamento do grupo, ação que evidencia a relação de grupo, eis o sentido mais amplo que se pode conferir ao termo solidariedade. Numa sociedade que pensa a si própria por oposição aos outros grupamentos, sejam eles outras póleis ou outros povos, a construção de laços de afinidade e solidariedade constitui a rede das relações possíveis. A hospitalidade, a reciprocidade, são alguns dos exemplos de constituição dessa rede. Sob essa perspectiva, a cidadania pode também ser percebida em sua acepção de philia e de solidariedade. Assim como se constróem as relações privadas e domésticas, as relações políticas tem como fundamento a solidariedade do grupo dos “iguais” (isói). Matéria sobre a qual se constitui e se reconhece o grupo, a solidariedade delimita, pois, o conjunto dos cidadãos, os iguais de Atenas ou mesmo os homoioi de Esparta. Como hospitalidade, como reciprocidade, como cidadania, como parentesco. No último dos casos citados, surgem o estudo da mulher e do — A “Cidade das Mulheres” — 63 feminino. Mulher-esposa, mãe, dona da casa em suas tarefas domésticas, mulher que circula, instaurando redes de reciprocidade entre casas. No teatro de Eurípides assistimos, entretanto, à emergência de um universo de relações de solidariedade em que o feminino surge em primeiro plano. Solidariedade feminina, independente de seu estatuto social. Uma outra solidariedade, fora dos quadros normais, que constitui o grupo das mulheres. Mais uma vez o exemplo de medéia é decisivo. Em parte, inclusive, porque nesta peça o contraste é marcante, entre a solidariedade que une Medéia ao coro de mulheres coríntias, por um lado, e sua condição de estrangeira e bárbara perante a cidade, por outro lado. As mulheres de Corinto procuram Medéia para consolá-la diante da perda do leito conjugal. O que se segue é uma interação entre o grupo de mulheres, em que surge a condição feminina (MED, vv. 214-266) frente ao mundo humano, e o destino da raça das mulheres, marcado pela reprovação e pelo descrédito. Apesar de ser usada pelo coro de mulheres coríntias, por uma vez, a expressão do temor pela perda de uma pretensa cidadania (MED, vv.643-644), as coríntias estão menos próximas de sua cidade do que daquilo que as une a Medéia: a condição feminina. Ao monólogoem que Medéia dá a conhecer ao coro seu plano de vingança, pedindo às amigas silêncio, segue-se o canto coral que a ela responde, completando o quadro da condição feminina. O grupo das mulheres delimita-se, por sua própria voz, seu próprio canto, por oposição a um destino e a uma história que são masculinos. Chamam para si, ao mesmo tempo em que “invertem o canto da raça dos do sexo masculino”, a justiça, o respeito aos juramentos sagrados: EST De sacros rios retornam as águas e justiça ainda traz tudo de volta. Entre os homens há tramas dolosas, a confiança dos deuses não vige mais. As famas tornarão gloriosa a minha vida, honra vem ao gênero feminino, não mais díssona fama será das mulheres. As musas de antigos cantores calarão os hinos do meu descrédito. 64 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — Entre os nossos pendores Apolo,guia de ritmos, não pôs a divina canção de lira, a contra-ecoar o hino do gênero masculino. A longa vida pode dizer muito do nosso quinhão e do masculino [grifo nosso]” (MED, vv.410-430) O trecho grifado deve ser analisado com maior profundidade. A versão da peça utilizada aqui traduz o primeiro verso por “longa vida”, makròs d’aiòn. Este aión envolve mais do que a vida biológica, envolve o destino, cuja circularidade torna presente o acontecimento primeiro a cada instante. Um destino dito e criado nas palavras do aedo, na constituição da Memória. Pelo destino, pela memória, retorna a reprovação à raça das mulheres, no canto dos poetas da raça masculina. O uso de Aión equaciona-se ao emprego de moîran, quinhão, parte reservada pelo destino, para diferenciar entre si masculino e feminino. Surge aí uma forma de diferenciação entre os gêneros bastante significativa. Como se na partilha dos espaços de atuação entre o mundo divino e o mundo humano, a moîra (destino que se enraíza nesta diferenciação original dos campos de atuação) não fosse única para os mortais. Haveria moîrai feminina e masculina. Mais do que separação de papéis, separação de potências. Às palavras de Medéia, o coro responde, amplia e confirma a união do feminino em um grupo à parte. As marcas do reconhecimento do grupo surgem na relação com o leito, a reprodução e o casamento, além da oposição à raça masculina (arsénon gene). Ao responder, as mulheres coríntias usam explicitamente a denominação raça das mulheres. Em outras peças, Eurípides tratará de delimitar o espaço do feminino, sem usar explicitamente a figura do génos. Em medéia, pelo próprio conflito que opõe a condição feminina à masculina, dá-se nome ao grupo que se fecha, que se reconhece, que se solidariza: génos gynaikôn. A solidariedade que une a estrangeira banida às mulheres da cidade é maior do que a ligação das coríntias com a pólis. Não se pergunta, em nenhum momento, sobre a decisão de Medéia: matar o rei e sua filha. O plano é um fato, lamenta-se pelo crime hediondo de matar os filhos, — A “Cidade das Mulheres” — 65 mas não se põe em jogo a noção da justiça do ato. A proximidade entre Medéia e as coríntias ultrapassa, pois, os laços que unem à cidade as mulheres do coro, cuja importância elas não cessam de lembrar. Na personagem de Fedra (hipólito) como na personagem de Hermíone (Andrômaca), a solidariedade entre mulheres delimita um espaço como próprio do gênero feminino através da partilha de um saber, da partilha de segredos. Ciência perigosa é a das mulheres, mais perigosa ainda se trocada em forma de diálogo. Contra esta philia entre mulheres Eurípides não se cansa de advertir os espectadores de seu teatro. A fala feminina é suspeita, tanto na sedução que traz em si quanto na troca de ideias entre mulheres. O diálogo feminino implica em tramar, em conceber armadilhas envolvendo o domínio sobre um leito viril. Envolvendo mesmo uma falta de aptidão natural do gênero feminino à medida e à virtude. Afirmou-se anteriormente que o domínio sobre o leito delimitava ao feminino um campo de exercício de poder. A união do gênero feminino em torno de sua condição e de seu saber, presente no teatro de Eurípides, faz emergir esse campo em que é apanágio do feminino exercer uma certa potência. O espaço demarcado pela philia do sexo feminino é a habitação, cujo centro é, da perspectiva feminina, o aposento do casal. Uma conversa3, um saber, uma inteligência “torta”. Tais são os componentes básicos da solidariedade feminina, da philia que mantém coeso o génos gynaikôn. Coesão no tempo do destino humano, de acordo com o coro de medéia, coesão no espaço, organizado em torno da habitação e do quarto do casal. 3- A iconografia do feminino nos vasos áticos do século V a. C. vem con- firmar uma certa atenção à conversa entre mulheres. A conversa, embora não dita, é representada com insistência pelos lábios entreabertos das mulheres. As imagens obstinam-se em negar o silêncio ao mundo feminino. Fala deplorável para alguns, mas, para a linguagem da cenografia, a maneira mais bela de re- presentar a mulher. A fala participa, no conjunto de imagens, da construção do feminino segundo sua beleza. Ver LISSARRAGUE, F. “Femmes au Figuré”. IN: DUBY,G. & PERROT,M. (org.). Histoire des Femmes. L’Antiquité. Paris, Plon, 1991,pp.159-253. 66 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — [Fedra]: “Honrada, que minha conduta não escape aos olhares. Vergonhosa, que ela não tenha muitos testemunhos. Ora, eu não ignorava a infâmia que se ligava a esta conduta e a este mal; e além disso eu era mulher, — eu o sabia bem — objeto de aversão universal. Pereça de morte hedionda aquela que, a primeira, ousa desonrar seu leito com estranhos […] Odeio também as mulheres virtuosas em palavras, que se entregam em segredo a audácias culpáveis. Como podem elas, soberana Cípris, deusa do mar, olhar face a face seu companheiro de leito, sem temer que as trevas cúmplices e o teto da casa não adquiram voz, um dia?” (HIP, vv. 403-418) As palavras de Fedra, palavras contra as artimanhas do feminino, vêm demonstrar como se circunscreve o círculo do génos em sua ação, e em seu espaço. Ação que escapa aos olhares de testemunhas, que se cumpre em segredo no interior do quarto. Não entramos ainda no pleno domínio do oîkos, da casa com seus bens, sua gestão, seus dependentes, seu senhor, enfim. Trata-se, ainda, da casa como habitação, do tálamos e do leito conjugal em seu aspecto físico. Ao falar da mulher, o teatro de Eurípides constrói para ela um “lugar-comum”, em sentido literal e figurado. Lugar comum ao gênero feminino, figura conhecida e familiar ao público ateniense: o espaço da mulher é o espaço da casa. No entanto, aquilo que, nesta abordagem, poderia parecer simples repetição de um discurso socialmente reconhecido sobre o feminino, é apropriado por um outro sentido. Se a ligação da mulher ao dómos soa familiar, a philia que une entre si as do gênero feminino no próprio lugar a elas circunscrito, introduz um “ponto de interrogação”. Um espaço, dentro do espaço, aberto à surpresa e ao inesperado. Assim, acontece ser o espaço da casa um abrigo às ações escusas patrocinadas pela solidariedade entre mulheres. Ações que, na maior parte das vezes, envolvem a desmedida em termos dos “atos de Afrodite”. Mas além da delimitação do espaço — lugar da mulher, aonde se deve observar, com cautela, a possibilidade das maquinações próprias à sabedoria feminina — a solidariedade feminina circunscreve o génos em sua temporalidade. O canto coral de medéia pronuncia-se neste sentido: esforço para reverter a favor do feminino a música das liras, os versos — A “Cidade das Mulheres” — 67 dos poetas. O sentido dessa coesão do génos nos termos da solidariedade, e da constituição de um lugar e uma temporalidade próprias aparecede forma exemplar na vingança de Hécuba contra Polimestor, na peça hécuba. [Polimestor]: “Só com meus filhos, ela me introduziu em sua barraca, para que ninguém mais soubesse o que se passava. Sentei-me em meio ao leito, dobrando os joelhos. Em grande número, uma a esquerda, outras a direita, como junto a um amigo, as moça de Tróia, tomando seus lugares, elogiavam o trabalho da agulha edoniana, examinando à luz minhas vestes; outras, observando minhas lanças trácias, despojaram-me das duas armas. As mães extasiavam-se sobre meus filhos, e lhes faziam saltar em seus braços, passando-os de uma a outra para afastá-los de seu pai […]” (HEC., vv. 1145-1180) A primeira frase do rei sugere a relação íntima entre o espaço das mulheres e a ocultação, o segredo. Neste espaço interior e oculto, Polimestor é cercado pelas cativas troianas, que se apresentam como se estivessem em presença de um amigo (phílo). Para que a vingança seja executada, é necessário fazer entrar o inimigo na barraca das cativas, afim de revelar-lhe um segredo. Toda a construção do acontecimento, narrado aos espectadores, se faz em torno da penetração da vítima neste espaço propriamente feminino: Polimestor será conduzido pelo grupo de mulheres a sentar-se em meio ao leito. Na primeira parte da narrativa, as mulheres, em seus aposentos, agem de forma familiar, elogiando os tecidos e os bordados das vestes de Polimestor, mimando os filhos da vítima tal qual fazem entre si as jovens mães. Este momento inicial delimita, portanto, o espaço feminino que é reconhecido como tal pelo público: os aposentos, o leito, a tarefa de tecer, a maternidade, todas essas figuras utilizadas para descrever as impressões de Polimestor criam essa identificação do “lugar-comum” ao feminino. Mas ao mesmo tempo em que a tragédia constrói, na barraca das cativas troianas, o espaço comum ao feminino, ela o apresenta ao público em sua ambiguidade. Enquanto a descrição do acontecimento ressalta a tranquila relação entre conhecidos — o rei, enquanto rei, unido a Hécuba 68 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — pelos laços da hospitalidade, impera sobre o espaço em que as mulheres troianas são tecelãs, são mães — apresenta-se, desde a primeira frase da narrativa, o perigo. A ocultação a que Polimestor se submete ao penetrar nos aposentos, no espaço das mulheres, o dobrar dos joelhos em meio ao leito, prepara os espectadores para a irrupção da força da raça das mulheres. Subitamente, irrompe o inesperado: “[…] De repente, empunhando espadas escondidas não sei onde, por sob as roupas, elas traspassaram meus filhos, enquanto outras, como inimigas, me agarrando todas juntas, prendem meus braços e pernas. Eu queria salvar meus filhos, mas se eu revelava o rosto, elas me mantinham pelos cabelos.. Se eu movia os braços, as mulheres em grande número tornavam inúteis meus esforços, oh, infeliz! Para terminar, elas levaram ao máximo minha infelicidade, por meio de uma horrível falta: a golpes de agulhas, elas furam meus olhos, ensanguentando minhas pobres pupilas […]”.(id.) Tal como as mênades esquartejam suas vítimas com suas próprias mãos, o grupo de mulheres golpeia com machados os filhos de Polimestor: morte dos filhos, ruína de sua descendência. O mesmo instrumento que as mulheres usam cotidianamente em suas tarefas na casa transforma-se em arma: com suas agulhas, as mulheres precipitam-se em grupo sobre Polimestor e perfuram seus olhos. Neste momento, o estranhamento provocado pela bestialidade das mulheres troianas modifica os olhares que sobre elas incidem. Para Polimestor, narrando a cena, as mulheres assemelham-se aos inimigos, bem entendido, aos inimigos de guerra (polemíon dîken). “[…] se das mulheres já se falou mal, se se fala ainda, ou se ainda se vai falar, com uma palavra eu resumiria tudo: nem o mar, nem a terra nutrem parecida desgraça. Qualquer um que a tenha encontrado pelo caminho conhece esta verdade.”( id.) Por fim, a conclusão de Polimestor: confirmação daquilo que através dos tempos tem sido dito sobre o gênero feminino. No tempo e na história humanas, o feminino circunscreve-se em um grupo a parte. Raça formada — A “Cidade das Mulheres” — 69 por seres detestáveis, nutridos pela terra e pelo mar, indefinida entre os outros seres animais. A peça hécuba traz ainda uma forma de solidariedade feminina que aproxima ainda mais o génos do estranhamento. A união das mulheres provoca a emergência no mundo humano de algo aterrorizante, e que a mulher, em diversas ocasiões, é chamada a tornar visível, a representar: a mania. A imagem da loucura, que arrebata o gênero feminino, é utilizada para representar a ação coletiva das troianas, assassinando os filhos de Polimestor4. O uso da imagem da mania sugere uma relação possível, no imaginário grego, entre esta forma de manifestação do delírio divino e o gênero feminino. Espaço do tálamos, tempo da Censura, que só pode tornar-se tempo feminino pela subversão do canto da raça masculina; raça derivada do espanto, que introduz no curso normal dos acontecimentos o estranhamento, o desterro, a mania. Assim se constitui a raça das mulheres, em sua philia. A solidariedade feminina surge, portanto, para reforçar a união do grupo das do gênero feminino, em torno de um destino comum, em torno de um espaço próprio. Esta philia que une o gênero feminino é mais forte do que os laços que prendem a mulher à casa paterna e à cidade ou pátria. Esta solidariedade irrompe de forma ameaçadora nos quadros normais da cultura, por isso trata-se de uma outra solidariedade que implica no diálogo, na troca de ideias entre mulheres, e não no silêncio. Os lugares comuns ao feminino transformam-se sob a perspectiva dessa philia do génos: um destino dito nas palavras dos poetas constitui uma história desse grupo “detestável” em forma de reprovação; um espaço em que o domínio masculino é o ponto máximo — o oîkos — e onde a mulher habita como sua dependente, torna-se o lugar onde se centraliza 4- Embora em nenhum momento seja afirmado que as troianas agem tomadas pela mania, o uso da imagem da mania pode ser comprovado inclusive pelo que se segue ao ato: Polimestor, cegado pelas agulhas das mulheres, põe-se a profetizar sobre os acontecimentos futuros envolvendo a própria Hécuba e os átridas. Cf.. HEC., vv. 1256-1295. 70 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — um domínio feminino sobre o leito conjugal, domínio que entra em jogo nas relações entre mulheres. A solidariedade entre mulheres confirma, pois, a presença da raça das mulheres como grupo a parte. Ao representar em seu teatro o domínio desta solidariedade, Eurípides faz mais do que confirmar o génos. Foi dito, no capítulo anterior, que a narrativa hesiódica deixava o campo feminino indefinido, na partilha entre animais, homens e deuses. Tratava- se de trazer a tona os avatares da condição humana, da qual o nascimento da primeira mulher era uma peça chave. Em Eurípides explora-se a indefinição constituinte da raça das mulheres, mas ao mesmo tempo constitui-se para ela uma condição. Em síntese: o teatro de Eurípides explora os meandros da condição feminina — a casa, a reprovação, a desmedida, a submissão ao marido, as dores do parto — fazendo emergir, a partir dela, o Outro que o feminino esconde. Uma solidariedade própria às mulheres. Na delimitação de sua ação pela métis, de sua temporalidade pela reprovação, de seu espaço pelo leito, emerge o conflito não resolvido entre o gênero feminino e os da raça masculina. No interior desta oposição constitui-se a raça das mulheres como alteridade. Uma das maiores efetivações da ameaça que representa o conflito, capaz de opor um universomasculino/humano ao grupo das mulheres de “natureza selvagem”, surge na figuração da mania aplicada ao feminino. Em hécuba, a mania surge como imagem, através da qual se representa o estranhamento que a ação coletiva do feminino traz a tona. O teatro de Eurípides aborda, em outros momentos, principalmente em As Bacantes, o fenômeno religioso da mania e sua relação com a raça das mulheres. — A “Cidade das Mulheres” — 71 3.3- A mANIA: O fenômeno religioso que os gregos denominavam mania, e que traduzimos frequentemente por loucura, surge como tema de várias peças do teatro trágico. A mania aparece na Tragédia grega ao lado da lússa e da até, fúria e erro, constituindo uma espécie de cegueira, de desvio do percurso normal dos acontecimentos relacionados a um determinado agente, graças à intervenção de um deus. Assim, por exemplo, a mania cognominada até, erro, com a qual os deuses vingam atos de húbris, geralmente enviada aos humanos pela Lússa, ou Fúria. Tal é o caso do ájax de Sófocles, assim como do héracles furioso, de Eurípides. Normalmente, a mania divina relaciona-se ao deus Dioniso, de tal modo que o vocabulário poético em torno do delírio emprega termos derivados do nome do deus, Bacchos. Mas a categoria psicológica da mania é associada também a outros campos de atuação, como, por exemplo, a divinação. A visão do futuro conferida por Apolo, mas também por Dioniso, emerge em meio à catarse provocada pelo deus. Não se trata mais do Erro que se associa à mania, mas precisamente da relação estreita da loucura com a revelação da verdade. A loucura dionisíaca incide de um outro modo. Associada à religião e aos ritos dionisíacos, a mania divina introduz um corte na realidade do mundo, embaralhando ilusão e realidade, e desterrando o indivíduo de suas referências mais cotidianas e familiares. A potência da ilusão própria a Dioniso é capaz de provocar, de forma diferente de Apolo, a visão do futuro. Além dessas duas formas do delírio, há inúmeras outras. E.R. Dodds (1988, pp. 75-114.) enumera ao menos quatro manifestações do fenômeno: profética, ritual, ligadas a Apolo e Dioniso, e, por fim, poética, e erótica. Das obras de Eurípides que abordam o tema da mania divina, podemos destacar As Bacantes, pela importância de sua abordagem do dionisismo e do menadismo. Apesar disso, ela não é a única. A relação entre figuras femininas e mania surge como tema tanto em hécuba 72 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — quanto nas troianas, com a figura de Cassandra, e ainda em hipólito, em que Fedra consome-se no delírio erótico enviado por Afrodite. [Coro]: “ não estás tu pois, mulher, possuída por Pã ou Hécate, obsidiada pelas augustas Coribantes, ou pela mãe que reina sobre os montes? Não seria uma falta em relação a ardente caçadora Dictina que te consome, por não lhe ter sacrificado vítimas? Pois ela atravessa as ondas como perpassa a terra, nos úmidos turbilhões da espuma marinha” (HIP., vv. 142-152.) O coro de mulheres de Trezena procura a razão pela qual Fedra não apenas delira, mas perece. A primeira delas parece ser a do esquecimento do sacrifício a um deus, no caso Hécate. As outras potências mencionadas não são propriamente deuses, mas semideuses, relacionados a espaços fora do humano. Assim são Pã, a Mãe das Montanhas, e Dictina — rainha das feras. Todas essas potências apontam para um universo selvagem. Pã, Hécate, e os Coribantes tem, todos, a potência de provocar o delírio. Esta ligação do delírio de Fedra com o mundo selvagem escapa aos domínios próprios à Afrodite. “[Fedra]: Ah! Pudesse eu no jorro de uma fonte beber uma água pura, e sob os olmos, em um prado macio, me estender para repousar! [Ama]: Minha filha, que queres dizer? Por que desejar ardentemente a corrente das fontes? Junto a tua porta, ao lado do palácio, está uma queda de águas vivas que te daria o que beber. […] [Fedra]: Leve-me à montanha! Irei ‘a floresta, ao longo dos pinheiros, lá onde passa a matilha perseguindo animais pintados. Pelos deuses! Eu queimo para alcançar os limites da voz, e, ao longo de minha loura cabeleira, lançar a espada tessália, a mão armada com o dardo agudo! […] Ártemis, soberana do Limnes sobre o mar, e dos ginásios que fazem ressonar os cavalos, por que não estou eu sobre seu domínio, a domar potros ariscos!” (HIP., vv.208-231). Em seu delírio, Fedra é levada a abandonar seu lugar na casa, entre o quarto e a fonte onde pode buscar sua água, assumindo a posição do jovem Hipólito. Levada a evadir-se dos limites em que se define, portanto, sua identidade: universo doméstico, espaço das tarefas e afazeres familiares, e da submissão pelo casamento. É a mesma natureza que não foi tocada por mãos humanas, aquela de que o jovem caçador fala no início da peça — A “Cidade das Mulheres” — 73 e aquela percorrida pela loucura de Fedra. Domínio de Ártemis, rainha dos pântanos, das margens, dos limites marinhos e terrestres, entre um mundo dominado por humanos e uma natureza pura, selvagem. Esse domínio é fronteiriço. A natureza ou a experiência da natureza que é a phúsis, surge nos limites da deusa para frisar a diferença entre os campos dominados pelo homem através de suas atividades (a chóra ou território de uma cidade), e o universo selvagem, espaço fora da cultura5. A phúsis sob o domínio de Ártemis não se enquadra nos espaços civilizados da ásty e da chóra. O que se ressalta, desta forma, no delírio de Fedra, é o desterro da personagem, com relação aos aspectos de socialização da mulher. Em suas observações sobre o estudo de Jeanmaire acerca do culto dionisíaco, Louis Gernet afirmava, em relação à identificação da mulher com a mania divina, que “[…] podemos compreender, no dionisismo, o papel preeminente da mulher, porque esse valor essencial [a evasão], a mulher é melhor feita para encarnar. Ela é menos engajada, menos integrada. Ela é chamada a representar, na sociedade, um princípio que se opõe à sociedade mesma — mas do qual ela tem necessidade. É preciso crer que essa necessidade, no plano religioso, foi sentida pelos gregos com bastante acuidade.” (1982, p. 111) A relação entre a mania, a mulher e a phúsis estaria fundamentada, pois, sobre este princípio que se opõe à sociedade, a evasão em relação à própria sociedade. Quando a mulher é tomada pela mania, eclode no seio da cultura um movimento de desterro, comandado por forças de fora do nómos, forças da phúsis. Este movimento envolvendo o feminino em sua relação com o 5- Cf.. estudo de Jean-Pierre Vernant “Artémis ou les frontières de l’Autre”, em La Mort dans les Yeux. Paris, Hachette, 1985. Neste estudo, Vernant explora a ligação da figura de Ártemis com a presentificação do Outro, compreendido como “estado de natureza “. A deusa preside, desta forma, a passagem da phúsis ao nómos: o parto, a adolescência, as fronteiras entre terra e mar, entre espaço agrícola e florestas, pântanos. Seguindo esse estudo, pode-se perceber que a descrição do espaço de Ártemis em hipólito, marca justamente o afastamento, tanto de Fedra quanto do jovem, de seus estatutos normais. 74 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — universo selvagem pode ser percebido na peça As Bacantes. Última obra de Eurípides, apresentada em Atenas após sua morte, a peça constitui- se numa das raras fontes escritas a respeito do ritual dionisíaco e do menadismo. Muito se discutiu sobre o fato de se poder considerar a obra como fonte ou como prova da existência real do menadismo. Não se trata de retomar, no presente estudo, uma tal discussão. Trata-se de analisar as articulações que têm lugar na peça, entre a mania que arrebata as mulheres de Tebas e a diluição de vários parâmetros da cultura, doselos de identificação da cidade consigo mesma: a tradição, e o lógos, ou pensamento racional, ligado à figura de Penteu, e por isso mesmo, ao governo da pólis tebana. O confronto entre a lucidez do delírio divino que toma de assalto as mulheres de Tebas, e a razão delirante sobre a qual se constrói a autoridade de Penteu é uma das questões fundamentais das Bacantes. A loucura das bacantes, correndo pela montanha ao lado das feras, caçando e despedaçando gado com as mãos, entra em conflito com a lógica política de Penteu. Neste conflito, o lógos e a phúsis contrapõe-se. O feminino é chamado a encarnar esta força arrebatadora que tem sua origem na própria natureza, que toma de assalto a esfera do nómos, que desorganiza o universo das relações humanas. [Pastor]: “[…] Chegada a hora do bacanal, elas agitam seu tirso, clamando de uma só palavra Iacchos, Brômio, filho de Zeus! E a montanha inteira se une a seu delírio com suas feras selvagens. Um mesmo frênesi carregava todas as coisas “. (BAC., vv. 722-727) A potência de Dioniso, a mesma que liberta as bacantes de seus laços sociais pela mania, une em um mesmo universo os seres e a phúsis. Deste momento primordial de irrupção do estranho, da desordem, na esfera do nómos, a mulher participa. Como se um princípio inerente à constituição de seu ser comungasse com essa potência de produção e de nascimento, que é a natureza, quer dizer, a phúsis. O entrelaçamento da mania divina com o feminino, nas Bacantes, torna visível, portanto, a existência de uma parte do feminino que não pode ser absorvida pelo — A “Cidade das Mulheres” — 75 nómos. Esta parte que, de resto, compõe a construção imaginária do feminino na Grécia clássica, é precisamente o ponto em que a mulher encarna a alteridade radical, a presentificação do estranho no seio da cidade, a presentificação das fronteiras entre a tradição, a lei, o costume, entre aquilo, enfim, que une em comunidade os homens e a origem de toda ordenação, a potência criadora (e destruidora) da phúsis. A “lição” final da peça de Eurípides completa-se com a rendição da cidade de Tebas à potência do novo deus, com a derrota do lógos político de Penteu pelo delírio. Sem desejar reduzir as implicações que o confronto entre Penteu e Dioniso nas Bacantes pode ter — e são inúmeras — é preciso chamar a atenção para uma questão em particular. Através da abordagem dos limites entre a razão e o desatino, evidencia-se, nas Bacantes, a ambiguidade do feminino. A mulher tem o seu lugar na cultura, que é identificado como o espaço doméstico e a tutela de um marido. Nas palavras de Penteu, delineia- se perfeitamente o quadro em que o feminino participa da cidade: no cuidado dos filhos, do foyer, no respeito ao marido, na atividade de tecer. Retomando a narrativa do pastor em sua íntegra (versos 677 a 786), veremos que a mania divina promove a evasão das mulheres de suas casas, de suas tarefas, transformando-as em caçadoras, em seres perigosos que invadem vilas, incendeiam casas, propagam seu desatino, matam animais domésticos e crianças. Como se aquilo que Medéia afirmava ser a condição feminina experimentasse a subversão de seus fundamentos. Subversão da identidade do feminino, mas uma outra forma de percepção das mulheres como grupo. Do chão e das pedras jorram água, leite e mel com um simples toque do bastão sagrado, carregado pelas mulheres. As serpentes enrolam-se ao pescoço das jovens “não submetidas pelo casamento”, lambendo-lhes o sangue deixado pela matança de rebanhos. As jovens mães que abandonaram seus filhos em casa, oferecem seu leite a animais selvagens. De onde vem este feminino que, sob a potência do deus do vinho e da vinha, parece ordenar em torno de si os elementos selvagens 76 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — da natureza? A condição feminina constrói-se na submissão do feminino ao nómos, ao universo da cidade criado pelo acordo entre os homens, os andres. Submissão não significa, entretanto, integração. Porque o fundamento da pólis é masculino, porque o cidadão é um anèr, a presença da mulher se dá através de duas perspectivas: ou ela ocupa as funções reservadas a ela como parte “vencida” na partilha do poder político, ou ela representa a possibilidade de desorganização deste mesmo universo político. Um princípio de desintegração dentro da pólis. Lógos e mania confrontam-se nesses termos: a presentificação da alteridade faz do ser feminino mais próximo ao delírio, ou a potência religiosa da mania. Esta vizinhança entre o feminino e a mania coloca em jogo, ao irromper no seio da cultura, o Costume, a norma e as leis produzidas como princípio ordenador da sociedade, que regem o governo, o debate, e a deliberação. 3.4- PAlAVrAs Vãs, ou o LÓGOS GYNAîKOS: A loucura de Cassandra é dupla. O delírio profético que abre à profetisa o acesso à verdade sobre o passado, o presente e o futuro, envolve Cassandra com um véu de Engano. Suas palavras verdadeiras são loucura e erro para aqueles que escutam. Nas troianas, Cassandra surge cantando suas bodas com Agamenon, um canto ao mesmo tempo nupcial e hino de vitória. O frênesi que a envolve contrasta profundamente com o sofrimento extremo de Hécuba, protagonista da peça, mas também com toda a positividade do arauto dos gregos, Taltíbio. A loucura de Cassandra remete para fora da cena teatral. Suas palavras são verdadeiras apenas na medida em que o teatro as escuta (VERNANT & VIDAL-NAQUET, 1988, pp. 19-41.). O contraste entre a loucura, a ilusão e a verdade assume seu sentido em relação aos espectadores, que compreendem a realidade predita pela profetisa: a vitória final da cidade de Tróia, com a perda da vida de muitos gregos — A “Cidade das Mulheres” — 77 na viagem de volta, e com o próprio fim de Agamenon. Para o arauto dos gregos, Cassandra é uma louca. Esta loucura não surge, nas palavras de Taltíbio, como mania divina. A mania é um estado religioso, e a mania que se apossa do profeta ou do adivinho não se confunde com o engano, ou a ilusão. Mesmo a mania dionisíaca, sendo produtora de ilusão, é, nisto mesmo, reveladora da verdade. Para Taltíbio, a loucura de Cassandra é a impossibilidade de pronunciar um discurso inteligível. Suas palavras não são oráculos, mas são vãs, sem sentido. Em certo sentido, portanto, a abordagem da figura de Cassandra ultrapassa a tematização da mania. Ela abre um outro aspecto da figuração do feminino no teatro de Eurípides: a relação do discurso feminino com a ilusão, a aparência, e o engano. Falou-se da maquinação, da armadilha de Zeus, e de como das artimanhas do pensamento divino produziu-se a mulher. Hermes, o mensageiro, é chamado a colocar-lhe no peito mentiras e sedutoras palavras. Como armadilha, o princípio feminino já está de antemão fundado na ocultação. A aparência de virgem esconde o “presente dos deuses”. Como mulher, as palavras são pronunciadas para iludir, para enganar e seduzir. Ao viver com a mulher, o homem submete-se à duplicidade do discurso: verdade e engano se misturam, e o ser humano — desprovido da Espera (Elpís)— perde a arte prometéica de se assenhorar da verdade, do engano, da memória, do esquecimento. No Agamenon de Ésquilo surge a menção ao caráter dissimulador e vão do discurso feminino, na forma do lógos gynaîkos 6. Nesta peça, o coro põe em dúvida, em vários momentos, as palavras de Clitemnestra. Delírio feminino, sonho irreal, “ingenuidade” da esposa de Agamenon transformar em discurso mensagens enviadas pelos sinais das tochas de fogo. O próprio coro, formado por cidadãos que já passaram da idade de 6- AGA, v1661-”. Tal é a palavra de uma mulher [lógos gynaîkos], se é digna de ser compreendida”, versos pronunciadospor Clitemnestra, pedindo o crédito dos homens para o seu próprio discurso. O lógos gynaîkos não é um conceito. Trata-se de uma forma de caracterizar a parceria entre a mulher e essa linguagem, cujas palavras não são ditas para serem ouvidas e às quais não se dá crédito. Discurso que evidencia a pluralidade própria à linguagem, e não se liga necessariamente à realidade. 78 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — participar das guerras, só recebe a mensagem de que Tróia foi vencida e Agamenon vive após a narrativa do arauto da armada. O arauto fala claro posto que é testemunha, e fala grego. A oposição entre o discurso claro em língua grega e a mensagem obscura surge em diversas oportunidades. Numa delas, Clitemnestra e Cassandra confrontam-se: [Clitemnestra]: “[…] Se, fechada à nossa linguagem, não compreendes minhas razões, na falta da voz, fale-nos com gestos bárbaros “ (AGA., vv. 1058-1061. No mesmo movimento, ver vv. 1047-1068) Nos termos linguagem, voz e gesto, delineia-se uma tensão entre o ato de dizer, no idioma grego, e de fazer compreender por sinais. A linguagem surge, portanto, em seu aspecto múltiplo, e nesta multiplicidade, em seu caráter ambíguo. O discurso, o lógos, é a via de acesso ao verdadeiro. No universo da pólis, a palavra se compreende como diálogo, comunicação. Através do lógos gynaîkos, Ésquilo deixa à mostra a tensão entre este lógos (possibilidade de acesso ao verdadeiro através do diálogo), e as formas de significação que não implicam o diálogo: sinais, gestos, mensagens. Eurípides não usa o termo lógos gynaîkos. Entretanto, este poeta trágico, mais do que qualquer outro, separou ao feminino um campo do discurso em que, no lógos, misturam-se o acesso ao verdadeiro e a possibilidade do engano. É neste sentido que se pode aproximar a expressão de Ésquilo ao tema da palavra feminina, em Eurípides. hipólito é a peça onde o tema do discurso obscuro, da palavra vã, surge com mais força. Trata-se de abordar a questão da presentificação do falso no discurso. Mais uma vez, ainda, a formulação do problema constrói-se na figuração do feminino. É desta forma que Fedra centraliza um lugar de discurso em que tudo é secreto, escondido. Este jogo entre aquilo que, na mensagem, se esconde e aquilo que, pela palavra, se revela constitui a relação entre Fedra, Hipólito e Teseu. Hipólito e Fedra assemelham-se. Suas personagens são dispostas como se se colocassem frente a um espelho. Em ambas, um dilema — A “Cidade das Mulheres” — 79 fundamental: o da pureza de espírito, ou agnós. Em Hipólito, entretanto, esta pureza a que ele almeja é também desmedida. Pretender-se puro, devotado a Ártemis, é uma forma de negar a devida reverência aos outros deuses, e, assim, colocar-se acima da condição humana. Em Fedra, a pureza é exterior. Pureza e honra só existem como tal sob os olhos de testemunhas. Quando Fedra responde à ama que suas mãos estão limpas, seu espírito é que está maculado, é precisamente disto que se trata: a paixão pelo filho de Teseu permanece escondida e, deste modo, Fedra garante honra, medida e castidade aparentes. Ao contrário de Hipólito, cuja franqueza ultrapassa os limites do humano frente aos deuses, Fedra traz em si a oposição entre o que se mostra e o que se esconde. Aparência e realidade, visível e invisível, claro e obscuro, linguagem e mensagem, público e privado, são alguns dos desdobramentos desse confronto. Fundamento da presença de Fedra na cena, a tensão entre esses pólos faz desta personagem o lugar de construção da oposição entre a palavra ilusória e o lógos, diálogo, como forma de acesso à verdade. O discurso feminino, tal qual surge em hipólito, serve para dissimular. Mesmo que Fedra defenda como condição da honra o falar franco do homem livre, uma tal perspectiva surgirá apenas em contraste com sua própria situação. [Teseu]: “[…] Mas eis que a marca deixada pelo anel de ouro da morta vem acariciar meu olhar. Vamos! Desen-rolemos o cordão do selo; que eu veja aquilo que quer me dizer esta plaqueta […] Ela grita, a plaqueta grita horrores! Para onde fugir do peso de meus males? Fui golpeado mortalmente, aniquilado: tal é o canto que vi elevar-se destas linhas, infeliz!” (HIP., vv.856-877). A mensagem de Fedra, que não mais vive, é deixada como carta secreta, enrolada e presa por um fio de ouro. É preciso desfazer o nó e desenrolar a carta, para ter acesso à mensagem. A ação do rei de Trezena é a de olhar aquilo que está escrito; o olhar revela a mensagem (o canto que se eleva das linhas, ou gráphais mélos). Para salvaguardar aos olhos públicos sua honra, Fedra responsabiliza Hipólito por sua morte. O erro de Teseu será o de acreditar, sem inquérito, na mensagem escrita deixada 80 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — 7- [Hip.] (vv.1023-1024):” […] se eu me defendesse perante Fedra viva, tu conhecerias, ao fazer inquérito, onde estava a falta” [Ártemis] (vv.1337-1338): “Em seguida, Fedra morrendo tornou impossíveis as trocas de palavras que te haveriam convencido”. pela esposa. Crer naquilo que aparenta ser o que não é. A mensagem feminina seduz, em seu segredo, em suas palavras vazias. A mensagem de Fedra contradiz o desejo da fala clara própria ao homem livre, que se expressa em outros momentos da peça. Opõe-se, ainda, no conjunto das personagens, ao elo entre Hipólito e Teseu. A mensagem de Fedra também vai de encontro ao processo que, como governante da cidade, Teseu deveria ter instaurado antes de concluir pela verdade dos fatos. É Ártemis quem o repreende pelo fato de ter acreditado na carta de Fedra, sem “esperar por provas, tentar um inquérito, ou permitir ao tempo que passa iluminar os acontecimentos”. Desta forma, compreende-se quais são as implicações da separação de um discurso próprio ao feminino. A correspondência entre discurso e verdade, a liberdade e publicidade do discurso, o diálogo, o julgamento e o inquérito — processos políticos de acesso ao verdadeiro — colocam-se em jogo, no mesmo movimento em que se define um outro lugar em que o discurso e a linguagem se dão. A palavra de Fedra emerge no interior dessa outra linguagem. O discurso feminino constrói-se, portanto, como campo de possibilidade para a função dissimuladora da linguagem. Utilizando-se de Fedra para formular o problema, Eurípides re-atualiza as palavras de Hesíodo: o ser feminino é dotado da palavra sedutora doada por Hermes. Na construção do discurso em que o paradoxo entre o que é dito e a verdade fundamenta a enunciação, é a oposição entre masculino e feminino que, novamente, se estabelece. A palavra franca, a publicidade do discurso, e, sobretudo a palavra pronunciada dentro de um debate, são características do homem livre. A mulher esconde-se em seu lugar, entre as paredes do quarto, sob o lacre da carta, na segurança conferida pelo silêncio da morte7. — A “Cidade das Mulheres” — 81 Se é possível afirmar que a escrita constitui-se da atribuição de símbolos a palavras que são, antes de tudo, discurso em movimento (já que o termo lógos traduz-se por palavra dita, palavra-diálogo, não correspondendo com precisão à palavra quando esta é disposta como escrita. O próprio Eurípides usa, neste caso, o termo gráphai), o discurso de Fedra surgirá de forma ambígua também neste ponto. Quando Teseu crê na mensagem escrita, ele despreza os procedimentos de inquérito, o depoimento de testemunhos. A falta de tais procedimentos transforma a mensagem secreta em símbolos escritos, que não podem ser debatidos ou defendidos. Tal como no Agamenon, o discurso feminino abre espaço à multiplicidade dos sentidos, e, desta forma, aproxima a ilusão. 82 — Capítulo 3: Eurípidese a Construção da Alteridade do Feminino — QUADRO 1: atributos ligados às personagens. fedrA hiPÓlito teseu Esconder Pureza Verdade Segredo húbris Governo Mensagem Discurso Franco Inquérito Dissimulação Homem livre Julgamento Escrita Diálogo Testemunho Linguagem QUADRO 2: Construção do lógos gynaîkos. Palavras Vãs discurso Verdadeiro .Dissimular Fazer eclodir a verdade .Iludir .Franqueza .Esconder Homem livre .Aparência Diálogo .Revelar por mensagens lacradas .Público .Segredo .Ausência de duplicidade .duplicidade .Visível .Visível e Invisível .Escrita 3.5- o feminino, A ilusão, A VerdAde: O que torna o feminino um lugar de problematização da relação entre o verdadeiro e o falso? Pode-se responder a esta pergunta lembrando a origem da primeira mulher, narrada em Hesíodo. Esta narrativa apresenta o feminino como fabricação, aparência, sedução. Hesíodo, entretanto, não é o criador do “estigma” feminino. Tal como Semônides de Amorgos, Ésquilo, Eurípides, Aristóteles, os poemas de Hesíodo são um lugar de fixação de um imaginário do feminino que os ultrapassa a todos. O teatro de Eurípides está também imerso neste imaginário. Os temas — A “Cidade das Mulheres” — 83 que constituem a figuração do feminino em suas peças são retomados a partir desse imaginário. Ao fixar os topoi que constituem o feminino, a obra de Eurípides se apropria deles, conferindo a eles uma interpretação, que não se confunde nem reflete simplesmente as demais. A construção do discurso feminino como vão, aparente, dissimulador, é uma das vias da alteridade do feminino em Eurípides. O lógos gynaîkos de Ésquilo é um indício da separação ao feminino de um discurso, de uma linguagem diversa, formada por sinais, mensagens obscuras, sonhos e oráculos. Entretanto, Ésquilo não deu ao lógos das mulheres um caráter de oposição a um discurso que, ele sim, daria acesso à verdade. No Agamenon, a ambiguidade surge como inerente à linguagem, como possibilidade do discurso. A palavra feminina realça as tensões entre aquilo que o discurso diz e aquilo que ele significa. Em Eurípides, o discurso feminino, além de inserir-se nas fronteiras ambíguas entre a linguagem e a escrita, opõe-se, como dissimulação, a um discurso que dá acesso ao verdadeiro. A figura de Helena cumpre, no teatro de Eurípides, a tarefa de presentificar a oposição entre aparência e verdade. A escolha de Helena não é arbitrária. A figura mitológica de Helena representa aquilo que se reprova ao feminino: sua desmedida erótica, sua vaidade e mesmo sua vanidade. A Helena que protagoniza helena constitui-se, todavia, como esposa virtuosa, fiel ao marido lançada nos acontecimentos do julgamento de Páris e da guerra de Tróia contra sua vontade. Esta “Helena” surge na peça como a Helena real. Na figura de Helena, a inversão das expectativas do público com relação à odiada Helena de Tróia não é, pois, uma idéia gratuita. Há um sentido em jogar com a sensibilidade dos gregos em relação à Helena da ilíada, tornando-a um fantasma da Helena real, uma aparência feita de éter, como ardil de Hera. Em helena, os nomes das personagens estão repletos de referências simbólicas. Proteu, rei da ilha de Faros, tem o mesmo nome que o Velho do Mar; Teoclímenes, seu filho, diz nas entrelinhas reverência aos deuses; 84 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — sua irmã, na infância, chamava-se Eido, ou Idéia; ao tornar-se mulher, passou a chamar-se Teonoé, ou pensamento dos deuses. O simbolismo com relação a comunicação entre a Idéia, o pensamento divino, e a verdade — na figura do Ancião do Mar (DETIENNE, s/d, pp. 24-32) — parece deliberado, e bastante importante para a compreensão do efeito de conjunto desejado, para a encenação da peça. No quase alegórico jogo de palavras, na duplicação de sentidos caracterizada pelo nome das personagens, percebe-se a presença de alguns signos remetendo aos questionamentos da filosofia socrática 8. [Helena]: “Mas Hera, irritada por não ter vencido, fez com que Páris, acreditando me abraçar, não segurasse senão vento. Ela concedeu-lhe não minha pessoa, mas um fantasma semelhante a mim, feito de Éter e por ela animado. […] O prêmio da luta troiana, o trofeu proposto aos gregos, não era eu mesma, mas meu nome somente” (HEL., vv.31-42) Duplicidade entre o nome e a coisa nomeada. O nome de Helena não corresponde à verdadeira Helena. Emerge um paradoxo: se o rapto de Helena fundamenta a união dos gregos para empreender uma guerra na ilíada, a tragédia apresentada por Eurípides propõe aos espectadores a hipótese de que a luta dos gregos tenha sido vã. Embuste do deuses, em seu jogo com os homens, a disputa de Helena surge em sua ausência de fundamento. A Helena de Tróia é um nome, cuja correspondência ao ser que nomeia dissolve-se no ar. Evidencia-se, na peça de Eurípides, o espaço vazio que se dá entre a pessoa e seu nome; espaço que é habitado pela semelhança, pelo fantasma que aparenta Helena. Em uma outra passagem da tragédia de Helena, a esposa de Menelau 8- Seria importante estudar mais profundamente as alegorias presentes em helena. Encenada pela primeira vez em 412 a.C., certamente não se trata de tomar como ponto de partida as questões de Platão, visto que estas não haviam sido formuladas ainda. Entretanto, a época a qual pertence a peça deve ter visto o desenvolvimento da filosofia socrática. De qualquer modo, é patente que o debate sobre a oposição Verdade/Aparência do qual trata helena insere-se no universo filosófico que dará origem a obra de Platão. — A “Cidade das Mulheres” — 85 dialoga com um grego que, retornando de Tróia, aporta no Egito, e se assusta com a semelhança entre a Helena que ele viu e aquela que aparece diante dele, sem apresentar-se como a Helena verdadeira: [Helena]: “ Contaram-te, ou tu vistes a pobre mulher?” [Grego]: “Eu a vi com meus olhos, assim como te vejo.” [H.]: “Tome cuidado com que os deuses, por meio de um falso-semblante, não o tenham enganado!” [G.]: “ Fale-me do que quiseres, mas não mais dela.” [H.]: “Julgas pois que a aparência não lhe deixe nenhuma dúvida?” [G.]: “Aquilo que meus olhos viram, meu espírito confirma.” (HEL., vv.117-122) Logo na primeira pergunta, Helena opõe o “ouvir dizer” ao “ver”. Em outras peças do teatro grego e do teatro de Eurípides, o testemunho é apresentado como forma de acesso ao verdadeiro. Em Agamenon, por exemplo, estabelece-se como real a mensagem da qual Clitemnestra fora a primeira portadora — vitória dos gregos, retorno de Agamenon — somente após o testemunho daquele que “viu com seus próprios olhos os acontecimentos”: o arauto. Em hipólito, Teseu é responsável por condenar seu filho sem esperar por testemunhos. O próprio Hipólito clama pelo testemunho das paredes da casa (HIP., vv.1091-1092). Em helena a questão é aprofundada. Na figura dupla de Helena e seu nome, o teatro de Eurípides põe em jogo o próprio testemunho. Ouvir dizer, ou ver, não constituem, desta maneira, garantia de acesso a realidade dos acontecimentos. A peça helena apresenta-se, desta forma, como o aprofundamento do teatro trágico de Eurípides no questionamento da oposição entre verdade e engano, ou aparência. O soldado grego acredita na aparência e a ela nomeia Helena. Ele age, desta forma, como o cidadão que se persuade com as belas palavras, sem buscar por seu fundamento na realidade. O soldado age, ainda, como o faz Teseu, em hipólito, que se deixa levar pelo gráphais mélos, pelo canto que emana das linhas escritas por Fedra. Acreditando na semelhança, na aparência que se apresenta imediatamente aos olhos, a testemunha — no caso, o soldado grego — abreespaço para 86 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — o engano, para o erro. Engano e Erro são duas figuras que, associadas ao feminino, fundamentam a alteridade da raça das mulheres. No caso da peça helena, a figuração do feminino não se constrói como um dos lados do conflito. O feminino é, ao contrário, o próprio conflito. A figura de Helena encontra-se construída sobre a duplicidade entre a aparência e a realidade, desde que em sua construção misturam-se a Helena de Tróia, como simulacro, e a Helena que habita a ilha de Faros. Desde que nela se misturam os acasos da raça das mulheres — kalòn kakòn ant’agathoîo (TEO, v. 585, “belo mal reverso de um bem”) — devido aos quais não é possível ao homem reconhecer a diferença entre a mulher-abelha, e a armadilha sedutora dos deuses. Qual delas representa o maior embuste, a maior ilusão? A duplicação de Helena vai de encontro ao imaginário do feminino. À Helena de Tróia apresenta-se um “reverso”, a virtuosa esposa de Menelau — Helena do Egito. Ambas correspondem ao feminino em suas possibilidades. Neste sentido, a duplicação de Helena representa uma tentativa de apresentar, num espaço demarcado por dois modelos opostos da imagem feminina, uma reflexão sobre a relação entre a verdade e o engano. Não que a Helena-abelha da ilha de Faros seja a verdade, enquanto a Helena de Tróia seja o engano. A dificuldade de diferenciar verdadeiro e falso surge na própria dificuldade em enxergar, na mulher que coabita o espaço humano, a boa ou a má (quando boa e má podem, de resto, ser duas faces da mesma armadilha). Esta reflexão, possibilitada pela própria ambiguidade do gênero 9- Como foi bem estudado por J-P. Vernant em diversos trabalhos, a relação entre imagem e imitação só se configura a partir do século V antes de nossa era, dando origem à filosofia platônica. No período arcaico, principalmente, a ima- gem não se constituía como imitação ou ilusão. Assim surge a noção de duplo: um objeto capaz de presentificar, de realizar a alma de um morto, um dáimon, um espírito. O duplo é material, e não representa nada, ele próprio é aquilo que ele tem por destinação lembrar. Cf.. “Do duplo à Imagem”.Mito e Pensamento Entre os Gregos. RJ, Paz e Terra, 1990. O feminino é, pois, chamado na peça de Eurípides a encarnar a relação entre real e imitação, quando o real e a ilusão são percebidos como planos diferentes, quando verdade e ficção diferenciam-se. — A “Cidade das Mulheres” — 87 feminino, apresenta um outro desdobramento. O feminino não apenas assume a oposição e o conflito com os andres. O feminino introduz no universo da claridade, da franqueza, e da justiça, próprios ao gênero masculino, a ambiguidade entre a ilusão e a verdade9. É porque o feminino constitui problema, representa riscos, evidencia o Outro, que ele pode, no teatro de Eurípides, surgir como um lugar para a emergência e formulação de questões sobre o universo propriamente masculino da pólis. Isto porque a questão que se formula sobre a enunciação do verdadeiro, incide sobre o universo da democracia ateniense, e da crise vivida pela cidadania no final do século V a.C.. Um dos principais operadores da cidadania democrática ateniense é o debate. A discussão, a votação, trazem duas implicações: em primeiro lugar, a necessidade do entendimento; em segundo lugar, a importância da persuasão. Um dos problemas que se impõe, com a crise da pólis, é justamente o dos efeitos da persuasão. Com os sofistas, a sedução da palavra compõe a ciência da linguagem. O que importa, no diálogo, no debate, não é o fundamento da argumentação, mas a força da opinião. Aquele que impõe a seus pares, nas assembleias como nas discussões privadas, sua perspectiva (ou os interesses de seu grupo), é o grande político, o grande orador. Entretanto, não apenas a filosofia socrática, como ainda o teatro cômico de Aristófanes, questionam essa “força da opinião”. Aristófanes não formula o problema nos termos da oposição de um discurso verdadeiro a um discurso ilusório. O poeta sonha com o retorno dos valores da mais antiga democracia, os valores estabelecidos pela unidade, unanimidade, e equivalência (isonomia) dos cidadãos. O retorno de uma época em que a “verdade”, ou a boa decisão, advinha da formação guerreira daqueles que decidiam (ver, principalmente, As nuvens) — os cidadãos. Mas na época de Aristófanes, Eurípides e Sócrates, percebia- se a dissolução desses valores da cidadania. Via-se a crise econômica e social, a iminência de uma guerra civil, e assistia-se à especialização do político, ou a demagogia. 88 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — No final do século V a.C., o problema da deliberação em uma cidadania democrática, coloca-se com mais insistência sobre a formação daquele que decide. Se o dêmos, tomado por suas dissenções internas, não consegue mais decidir de acordo com a justiça, é necessário formar um grupo de pessoas qualificadas por um exercício pessoal, ético, a governar (decidir) por todos. Tal é a proposta de Platão, como também a de Xenofonte ( república e o econômico, respectivamente). Neste ponto, relaciona-se a formação do filósofo à busca da verdade no discurso. O teatro de Eurípides apresenta, com helena, a perspectiva do teatro trágico na formulação do problema. A duplicidade de Helena, um dos principais aspectos da alteridade do feminino, faz emergir aos olhos dos espectadores, fisicamente, a oposição entre a aparência e a realidade. Mas ao mesmo tempo que a oposição se instaura, ainda não se define nem o lugar da ilusão, nem o da realidade. Sob um determinado ângulo, tanto a Helena de Tróia quanto a “verdadeira” Helena são ficções: uma, a ficção na peça, nome sem correspondência àquilo que nomeia; outra a ficção de Helena (a Helena do Egito é uma suposição. A tradição mitológica faz de Helena a mesma imagem da Helena de Tróia, a bela e sedutora armadilha de Afrodite). No espaço do teatro, a figuração duplicada de Helena, em coisa e nome , colocando em questão os fundamentos da decisão na pólis democrática (assim como o farão Aristófanes, Sócrates, Platão, Xenofonte) por meio da alteridade do feminino, acaba por incidir simultaneamente sobre a identidade da pólis. Como o teatro de Eurípides dá a reconhecer ao público a pólis? O teatro de Eurípides, ao longo da construção da alteridade do feminino, contrapôs à raça das mulheres uma série de temas: a justiça, a razão política, o falar franco do homem livre, etc. Esses temas o posicionam, de certa forma, em relação à identidade: a pólis, ou o universo político da cidade, reconhece-se na oposição aos atributos da raça das mulheres. Que identidade é esta, a qual Eurípides opõe o feminino como o Mesmo ao Outro? É preciso que sejam abordados, assim como foi feito para a — A “Cidade das Mulheres” — 89 alteridade feminina, os topoi que constituem o lugar do Mesmo no teatro de Eurípides. Tal procedimento deve ter o objetivo de demonstrar como, ao constituir o mesmo, a obra de Eurípides já o desfaz. A identidade: o teatro de Eurípides a coloca em cena através da oposição entre masculino e feminino. 3.6- mAsCulino e feminino: No discurso ateniense sobre a diferença e complementaridade entre os gêneros, feminino e masculino delimitam-se pelas funções da procriação e da guerra, respectivamente. Essas duas funções abrem, no entanto, um campo bastante mais amplo, em que se separam homens e mulheres. A figura feminina encontra-se ligada ao que é estável: interior da casa, tesouro doméstico, zelo com os bens, cuidado com os filhos. A figura masculina liga-se ao que é móvel: exterior da casa, assuntos relativos à cidade (política), acumulaçãode riquezas. De um certo modo, pode-se dizer que o espaço que reservado ao feminino é privado, no sentido de ser limitado ao oîkos. O espaço do masculino é o da publicidade, por ser o espaço das relações políticas e da deliberação. Eurípides afirmava esta distinção ao apresentar Medéia definindo perante as coríntias a condição feminina. A solidariedade entre mulheres é mais um dos temas que surgem no teatro de Eurípides não apenas para opor, mas para deixar claro o conflito entre masculino e feminino. Delimita-se um espaço e uma temporalidade ao feminino que, embora originadas de um lugar-comum — espaço privado, destino inferior ou funesto — constituem às mulheres sua moîra. Como moîra, espaço e tempo deixam de ser limites para se tornarem campo de incidência de um poder próprio as do sexo feminino, potência que tem força o bastante para irromper como um perigo para a organização da cidade. A oposição entre masculino e feminino no teatro de Eurípides situa-se precisamente neste ponto. Tudo aquilo que identifica a cidade e seu universo político 90 — Capítulo 3: Eurípides e a Construção da Alteridade do Feminino — e ético surge, no teatro de Eurípides, como masculino. Ao mencionar o sentido da pólis, deve compreender-se os topoi que se relacionam na construção cotidiana da cidade como identidade. Alguns desses lugares-de-discurso são apropriados no teatro de Eurípides, e transformados em temas que diferenciam o feminino do masculino. Nas peças em que a mulher constitui-se, em seu grupo, como alteridade, o masculino constrói-se a partir da pólis. Em medéia, em fedra, e em As Bacantes, a relação masculino/ feminino se constitui a partir da oposição daquilo que é apanágio do génos gynaikôn ao próprio universo político da cidade. Jasão e Creonte, Hipólito e Teseu, Penteu, enfim, surgem em cena como porta-vozes dos valores da cidade. Além disto, esses personagens têm em comum o fato de se depararem com a total subversão do universo em que se encontram imersos. Às personagens femininas de Eurípides, relacionam-se atributos que colocam em jogo os feixes de relações através dos quais o público do teatro pode identificar-se com a pólis ateniense. A métis das mulheres, a desmedida erótica, o delírio, o segredo e o discurso falso, e, por fim, a duplicidade entre aparência e verdade não cessam de por em cheque a identidade da cidade, no âmbito do teatro. Através da mulher no teatro de Eurípides, a cidade defronta-se com seu outro, colocando-o em evidência. A cidade criou o seu Outro, durante todo o período clássico, marcando com ele sua hegemonia dentre as póleis gregas. Lançando a diferença para fora da cidade, a forma privilegiada da alteridade inscrevia- se, como já foi lembrado, na figuração do bárbaro (SOUSA, 1992). Se o teatro de Eurípides representa uma maneira diferente de ver a barbárie, aproximando-a de certa forma de uma condição “humana”(SAID, 1984), ele cria uma outra alteridade, desta vez inscrita em cena nas suas figuras femininas. Há uma diferença evidente entre a mulher e o bárbaro. Enquanto a fabricação do bárbaro traduz uma percepção da diferença fora do grupo social, a fabricação do feminino, no teatro de Eurípides, — A “Cidade das Mulheres” — 91 presentifica o Outro dentro da própria cultura. Dito de outro modo, a mulher representa a alteridade imersa na identidade. Que motivos levam Atenas, no final do século Vº, e de forma especial no espaço do teatro, a voltar-se para o estranho naquilo que lhe é próprio? A partir do substrato mítico fornecido pelos poemas de Hesíodo, analisou-se as peças de Eurípides que, retomando a tradição do imaginário do feminino, apresentam, na figuração da mulher, a relação entre a identidade e a diferença no interior da cultura. Há, entretanto, um outro grupo de peças em que as figuras femininas surgem em relação estreita com a própria pólis, em seu universo político. Na conjunção dessas duas abordagens, a princípio discrepantes, da figuração do feminino, encontra- se o elo que liga a construção imaginária da pólis como igualdade e justiça, e seu próprio artifício — a pluralidade. Encontra-se o elo que liga, enfim, a mulher à cidade. — A “Cidade das Mulheres” — 93 PArte ii: o feminino e o uniVerso dA PÓLIS “ Estou pronta a tudo fazer com essas mulheres por amor ao mérito: elas têm o talento natural, têm a graça, elas têm a audácia e a sabedoria, elas têm o patriotismo unido à prudência “ (ARISTÓFANES, lisístrata, vv 544-547). CAPÍtulo 4 eurÍPides, ou QuAndo A mulher fAlA dA CidAde No teatro de Eurípides, o feminino é chamado a tornar presente a alteridade no interior da própria cultura. Enquanto constrói a figuração do feminino sobre os topoi da alteridade, o teatro de Eurípides aborda o próprio universo político da cidade, a vivência da cidadania. Ele o faz, quer delimitando a cidadania, ação ou êthos, como experiência masculina, quer colocando a pólis e os valores democráticos em questão, através do feminino. No teatro de Eurípides, a palavra é dada às mulheres para que elas lamentem sobre uma cidade em ruínas; para que elas discursem contra os horrores da guerra. Mais ainda, para que elas defendam a Justiça, utilizando para isso o lógos político reservado aos andres. Esse capítulo do estudo dedica-se, portanto, às diversas manifestações da relação entre a mulher e o universo da pólis. O choro das mulheres e a constituição da cidade como pátria; a voz da matrona, rainha de Tróia, configurando o debate pela justiça e equidade no Governo; enfim, a transposição, para o espaço do teatro, da bela-morte do hoplita ao gênero feminino. Cada um desses passos transforma em afinidade a relação entre o feminino e o universo da pólis. Pouco a pouco, torna-se possível delinear um fio de ligação entre a mulher e o espaço político da cidade. A pólis surge na vivência que ela impõe (aos gregos e aos atenienses, mas também a nós mesmos, enquanto pesquisadores da antiguidade grega) como universo mental, como cultura. Sua definição ultrapassa a de “cidade-estado”, constituindo-se em referencial, em parâmetro cultural. Na reflexão sobre a pólis, são os próprios parâmetros pelos quais Atenas reconhece-se, fabrica a si mesma, que entram em questão. Fabricar à pólis lugares de identidade; criar, para a cidadania, seus exemplos. Tarefa do teatro, principalmente, e a qual o teatro do — A “Cidade das Mulheres” — 95 final do século V a.C. responde, na insistente implicância entre dois “parceiros” na arte de fabricar: Aristófanes e Eurípides. Aristófanes, em sua interminável busca dos valores passados, não se cansa de denunciar a perda do fundamento da cidade — sua paideia — no teatro trágico de Eurípides. E entretanto, sinal de um período de transformações, tanto Eurípides quanto Aristófanes fazem, em diversos momentos de sua obra, da figuração do feminino um discurso sobre o governo da cidade, sobre a democracia, sobre a pólis, enfim, como modo de vida. Em Eurípides, as mulheres falam da cidade em uma relação muito íntima, muito próxima. Em Aristófanes, as mulheres governam a cidade. Vejamos, nos capítulos que se seguem, como essas duas abordagens ao se confrontarem, abrem espaço a uma importante perspectiva da relação entre a cidade e o feminino no imaginário grego. 4.1- A CidAde Como PATRíS: Trazendo para o teatro de Atenas suas Tragédias em um momento de Guerra que, para a pólis dos atenienses, significava ainda momento de perda da hegemonia sobre uma boa parte do mundo grego, Eurípides não deixou de fazer encenar a própria guerra. Para falar da guerra, principalmente de seus efeitos sobre as cidades, fundamenta-se a representação na idade dos heróis, na Guerra de Tróia. A perspectiva do teatro,entretanto, não é mais a da façanha dos gregos, mas a da cidade vencida. Eurípides faz do início de suas peças sobre a Guerra de Tróia o fim da própria guerra: a cidade em chamas, os guerreiros mortos, as riquezas saqueadas e divididas pelos vencedores. Para lamentar a destruição da cidade, a palavra é dada as mulheres. Porque restam apenas as mulheres de Tróia; porque o choro cabe às mulheres. Mas principalmente porque, na abordagem do teatro de Eurípides sobre a guerra, o choro feminino tem um papel decisivo. O drama da derrota e da destruição da cidade só pode ser contado pelas palavras das mulheres. E enquanto as palavras fluem para dizer o fim da cidade, o discurso revela 96 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — os nós que unem as mulheres à pátria. Assim, o coro de Ifigênia em Áulis canta o destino das mulheres troianas na guerra. O momento da peça é o da partida dos gregos e do sacrifício de Ifigênia. Espectadoras dos acontecimentos enquanto espreitam o acampamento grego, as jovens apresentam ao público do teatro uma ligação entre as mulheres e sua cidade, através do “solo da pátria”: “ Que de mim e de meus descendentes seja afastada essa imagem que apavora, sentadas com seus afazeres, ricas lídias, esposas frigias, que uma a outra se perguntam: ‘ quem será aquele que agarrará meus belos cabelos, levando-me às lágrimas, para me arrancar como uma planta do solo de minha pátria em ruínas?’ […]” (IFA, vv. 783-789). Esta citação apresenta as mulheres de Tróia como plantas, arrancadas do solo da pátria. Pode-se dizer que se trata de uma metáfora que não é, de resto, insistentemente utilizada no teatro de Eurípides para evocar a relação entre a mulher e a cidade. Mesmo que a imagem seja “fortuita”, entretanto, a afirmação de que fazer da mulher uma cativa de guerra é como arrancar ao solo uma planta, apresenta uma situação limite em que a mulher identifica-se ao solo da pátria: ela enraíza-se nele. É preciso não descartá-la, portanto, devido a um pretenso caráter “acidental” da enunciação. Se as mulheres troianas podem ser comparadas às plantas as quais se arranca ao solo da cidade, é porque há um sentido capaz de unir a figuração do feminino a este solo da pátria. O solo da pátria ateniense evoca um conjunto de narrativas míticas sobre as origens da pólis, sobre a autoctonia dos cidadãos. O primeiro rei, aquele que funda o génos autóctone de Atenas, nasceu da terra: Erictônio. Nos mitos de autoctonia, o cidadão ateniense reconhece sua ligação à pólis e seu direito à terra ática. À fundação da civilização e da cidade pelo nascimento ctônio do rebento de Palas-Atena, relaciona-se um outro mito: como dar nome à cidade? Dois deuses disputam a eponímia: Poseidon e a Própria Atena. Os votos masculinos escolhem Poseidon, mas os votos femininos elegem Atena. Como reparação, os homens da — A “Cidade das Mulheres” — 97 cidade e a deusa epônima retiram às mulheres a prerrogativa de votar e participar das assembléias. Exclusão do governo (LORAUX, 1990, pp. 119-153.). Na autoctonia dos atenienses, portanto, as narrativas míticas confluem para fundamentar, de um lado, a cidadania masculina e, de outro lado, a exclusão do universo político, reservada ao feminino. Pensar Atenas como unidade é, em diversos planos do imaginário, remeter à origem autóctone dos cidadãos de sexo masculino. Trata- se de uma genealogia, em que os cidadãos se reconhecem enquanto compartilham da mesma origem: o nascimento de Erictônio. Este acontecimento baliza-se, entretanto, quando se trata de falar sobre o feminino na cidade. Se, de fato, pelas leis do Vº século a.C., para ser ateniense era necessário ter pai e mãe atenienses, é preciso explicar a presença deste “e mãe”. Nicole Loraux afirma, neste sentido, não haver autoctonia no feminino (id., pp 75-117) Ao primeiro ateniense autóctone, o imaginário confronta não a primeira ateniense, mas a primeira mulher: Pandora. A seguir, portanto, as afirmações de Nicole Loraux, deve-se concluir que abordar o tema da relação entre a cidade e as mulheres é também colocar a questão da divisão dos sexos. No limite, a unidade e a identidade da pólis se dão no gênero masculino, e na tentativa de retirar ao feminino mesmo sua participação através da função reprodutora. Como explicar, entretanto, o uso da metáfora da planta arrancada ao solo, para representar o elo entre as mulheres e a cidade? É preciso admitir que a imagem da mulher como planta enraizada no solo estabelece uma relação entre o feminino e o solo da cidade, mesmo que esta relação não se fundamente na origem da pólis, ou em um correspondente da autoctonia no feminino. Um caminho possível à explicação da metáfora pode ser trilhado não a partir da imagem do solo, mas a partir da idéia do enraizamento ao solo. Se a terra da pátria faz nascer a autoctonia masculina, ao masculino associa-se também o deslocamento, o movimento. A mulher, no espaço que lhe é reservado na cidade pelo imaginário, não se desloca. Ela deve permanecer no interior da casa. A partir desta diferenciação — movimento 98 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — e fixidez — é possível demonstrar como se opera uma passagem entre a ligação do feminino ao espaço do oîkos, e o enraizamento à terra pátria. Sigamos o estudo de Jean-Pierre Vernant sobre categorias do espaço e do movimento na Grécia antiga (VERNANT, 1990, pp. 151-192.). Na philia que une, no panteão grego, Hermes e Héstia, o estudo de Vernant demonstra a tradução religiosa de uma experiência do espaço e do movimento. Héstia e Hermes presidem às atividades que dizem respeito ao habitat de um grupo humano sedentário, que se organiza em termos de extensão espacial. Como experiência de habitat, o espaço ordenado de acordo com as prerrogativas dos dois deuses é também um espaço diferenciado, comportando uma divisão entre os domínios masculino e feminino. Héstia não se confunde, simplesmente, com o feminino. Se é prerrogativa da lareira doméstica o enraizamento da casa ao solo, a parte feminina nesse domínio não é “a parte de Héstia”. No oîkos paterno, a parthénos (filha virgem) mantêm a lareira. A ligação da jovem virgem com a fixação da casa ao solo — terra natal mas ainda terra da pátria — é patente, principalmente nos ritos religiosos que envolvem a lareira no interior da casa. Mas o estatuto do feminino não se confunde nem se esgota na parthénos. A mulher que se desloca do lar paterno vai em direção a uma outra casa, a uma outra Lareira, a do marido. No oîkos do marido, a esposa é estrangeira. No caso da esposa, a relação que se mantém entre o centro fixo da casa no espaço e o domínio do feminino reside na prerrogativa feminina de fixar o oîkos do marido no tempo, pela procriação de filhos legítimos. Esta interpretação da relação entre o feminino e a imobilidade e imutabilidade permanece ao largo do estatuto do feminino em todas as suas nuances. Não é a mulher que se liga à imobilidade, mas a esposa legítima. Ser gyné gameté é corresponder a um estatuto reconhecido pelo discurso masculino dos gregos. O enquadramento do feminino se dá através da disposição daquilo que é e daquilo que cabe à mulher casada. — A “Cidade das Mulheres” — 99 E a ela cabe permanecer no interior da casa do marido, ordenar os bens e zelar pela riqueza, procriar os filhos legítimos que darão continuidade ao oîkos paterno. Neste sentido, pode-se explicar as palavras do coro de Ifigênia em Aulis, afirmando que, na metáfora do enraizamento da mulher ao solo, desvenda-se um quadro onde a imagem principal é a da profunda relação masculina entre o oîkos e a pólis. Neste quadro, a mulher seria também uma metáfora, que remeteriao estatuto da esposa à permanência da casa no tempo. A destruição de Tróia corresponderia a arrancar ao solo as raízes de suas casas. Fim de Tróia para o tempo dos homens. Uma questão permaneceria, entretanto: mesmo que a mulher como planta constitua-se em uma metáfora para falar da destruição de uma cidade aos homens da cidade em guerra, que relação a mulher mantém com esse mesmo solo, em que o discurso masculino a enraíza? É possível afirmar a existência de uma relação, não apenas metafórica, entre as mulheres frigias e lídias e o solo de sua pátria em ruínas? Em outras palavras: deve-se procurar ainda por uma pólis das mulheres? O teatro de Eurípides traz à tona um universo de imagens da cidade, em que a perspectiva é fruto de um “olhar interessado” masculino da presença feminina na cidade. Se a ligação da mulher à cidade se estabelece, no coro de Ifigénia em Áulis, através da figuração do solo da pátria, essa “pólis das mulheres” deve surgir daquilo que as figuras femininas do teatro de Eurípides chamam pátria. O lugar privilegiado para uma tal compreensão é a peça As troianas. Nesta tragédia, a encenação é marcada por duas constantes, na sucessão dos episódios: A lamentação de Hécuba, ajoelhada com a face contra o chão, o canto do coro que a ela responde, fazendo ressoar suas palavras. Hécuba chora como mãe, a destruição do lar de Príamo, e as troianas se unem a ela para apresentar os gritos de dor pela perda dos lares de Tróia, pela perda da cidade. Mantendo a atenção sobre essas duas constantes, pode-se perceber as ligações que as figuras femininas evidenciam, com um discurso sobre a pátria e com o choro, entre o momento da cidade 100 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — destruída e os vínculos entre a mulher e a cidade. [Coro]: “Ai! Que súplicas bastariam para chorar teu rebaixamento? Não é mais na região do Ida que, em meus afazeres, farei correr a agulha! Pela última vez vejo a casa paterna, pela última vez. São penas mais pesadas as que me aguardam: o leito de um grego, e maldita a noite que a ele me condenará! “. (TRO, vv.197-203). Este trecho apresenta, de certa forma, um argumento análogo àquele pronunciado pelo coro de Ifigênia em Aulis. As mulheres troianas falam de Tróia, do rebaixamento de Tróia. Quando falam da cidade, as imagens evocadas dizem respeito a um universo propriamente feminino. A tarefa de fiar e a visão da casa paterna delimitam, neste canto coral, o sentido da perda da cidade para as mulheres. Na derrota de Tróia, o rompimento dos vínculos normais da jovem com o lar paterno, a incursão da mulher em um leito ao qual ela não foi destinada — e por isso violenta condenação à escravidão — sugerem um quadro em que a relação com a cidade se estabelece através da casa. [Coro]: “[…] eu celebrava por entre os coros a rainha das montanhas, Ártemis, nascida de Zeus, quando um grito de morte vindo das muralhas entrou até o fundo de cada lar […] Em torno dos altares corria o sangue troiano, e, em seu leito deserto, mulheres com cabeças raspadas testemu-nhavam a glória dos belos filhos da Grécia, e o luto da pátria troiana. “ (TRO, vv. 551-567). Eis a presença de um tema insistentemente dito pelas mulheres em luto: o grito de morte vindo das fronteiras da cidade — suas muralhas — penetrando no fundo de cada lar. A destruição da cidade completa-se quando o grito abala os fundamentos daquilo que, na cidade de Tróia, garante a imobilidade e sua permanência no tempo: as casas, ou as lareiras domésticas. E ainda de dentro, do leito conjugal, as mulheres são as únicas a testemunhar esse momento. Sob a perspectiva do testemunho feminino, a derrota da cidade emerge aos olhos dos espectadores como a destruição dos lares. Quando as casas se desfazem, a cidade já não existe mais. Porque a guerra é apresentada, em As troianas, não como um negócio de assembléias e cidadãos em armas, mas do ponto de vista das — A “Cidade das Mulheres” — 101 mulheres e dos lares, a utilização do termo pátria (patrís), de preferência a cidade (pólis), toma um sentido mais do que poético. A pólis é, antes de tudo, uma organização humana. Trata-se de um território, mas de um território ocupado, ordenado, e administrado de acordo com as leis, produzidas pelo grupo humano. Além disso, a pólis confunde-se com seus cidadãos: os atenienses, os lacedemônios, etc.. Patrís não se confunde com a organização humana, tal como acontece com a pólis — espaço administrado e habitado pelos cidadãos. A pátria é a terra dos ancestrais (BAILY, 1950), o solo que nutre, a terra natal. Há uma ligação estreita entre a pólis e a pátria, mas o sentido de pátria remete para o enraizamento em um território. Patrís é o elo que comunica a pólis a seus lares, e os cidadãos-em-armas, os hoplitas, ao solo ancestral. Se a terra pátria é a terra em que a pólis se enraíza, ela o é em dois sentidos: em primeiro lugar, é o solo em que as casas reproduzem, no tempo, a cidade através de seus cidadãos; em segundo lugar, porém, é o solo em que a cidadania se enraíza, na medida em que os cidadãos reconhecem sua afinidade (philia) pela figura da autoctonia. As mulheres de Tróia, ao falarem da cidade, falam da pátria. Seria possível deduzir daí que a relação entre as mulheres e a cidade é permeada pela identificação da pólis com a “terra dos pais”? A integração do feminino à cidade seria verificada, em se admitindo uma tal dedução, nos momentos em que pólis e patrís formassem uma unidade. A pólis é a terra ancestral na figuração da autoctonia. Assim, um dos momentos em que a cidade se confunde com seu território é, por exemplo, o de seu auto-elogio, na oração fúnebre (epitáphios lógos). Ritual ligado à guerra, a oração fúnebre é uma instituição que inspira um modelo de discurso, em que a honra da cidade transborda para a areté de seus cidadãos. O epitáphios lógos remete à bela-morte do cidadão, sua morte como hoplita anônimo em campo de batalha, à sua origem autóctone, e, por isso mesmo, à relação estreita que os andres mantém com o solo, com o território natal. A comunicação entre o jovem e a pátria, neste caso, não se faz através da família, ou dos lares que compõe a cidade. A 102 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — oração fúnebre é um discurso para a pólis, não para a família, nem para as mulheres. Ela prescinde da família, ao fazer do cidadão um rebento “da terra e da pátria” (LORAUX, 1981, pp. 15-77). Outro momento de unificação da pólis à pátria é o das festas cívicas, que reservam um lugar importante para as mulheres, na cidade e com relação à cidade. Nas Panatenéias, nas Tesmofórias, realiza- se a comunicação entre os homens, sua comunidade, seu território, e as potências divinas. O que entra em jogo é esta relação, em que a organização humana renova-se em seu ciclo, faz frutificar seu território, clama para si a afinidade com os deuses e seus mitos. Essas festas religiosas são, outrossim, o momento em que o lugar do feminino diz respeito à comunidade, ao público, à pólis. O exercício feminino da cidadania seria, pois, cívico (VATIN, 1984.), na medida em que a áste, a “citadina”, intervém como esposa e mãe nos destinos da cidade. Não por sua decisão, mas por sua ação de realizar, como necessário, os ritos a ela reservados nas celebrações da cidade. Ao tratar das formas como os cidadãos são chamados a perceber a unidade entre a pólis e o solo ancestral, a cidadania cria um elo entre os cidadãos autóctones e a pátria, em que a identidade mesma exclui a participação feminina. Mas a mulher é chamada a intervir de forma marcante quando a pátria entra em jogo nas festas cívicas. As troianas falam também destas celebrações religiosas, lembrando os sacrifícios,os coros, as festas da noite em honra dos deuses, as estátuas de ouro consagradas, a celebração do retorno da lua, doze vezes por ano (TRO, vv.1069-1077). Confirmação, portanto, da ligação entre a admissão do feminino no seio da vida pública da cidade nos momentos e nos lugares em que a pólis increve-se no solo natal, no solo das casas. Neste solo, em que o tempo faz retornar uma imagem da pólis à própria pólis, renovando o círculo dos cidadãos e a comunidade cívica como um todo, a cidade transforma-se em patrís. O choro das mulheres troianas estabelece a relação entre a derrota da pólis e a perda das raízes no solo ancestral. O significado deste — A “Cidade das Mulheres” — 103 desenraizamento, somente a figuração do feminino pode amplificar. Quando a identificação da cidade ao solo natal se faz pela oração fúnebre, discurso político dirigido aos cidadãos, o que se ressalta não é a perda, mas a renovada conquista desse solo pela unidade dos andres. Conquista- se o solo ancestral para a comunidade dos cidadãos, mas se perdem justamente as casas, este último elo que, no coro das troianas, enraíza a cidade de Tróia ao solo (TRO, vv. 603-607). Quando a identificação se realiza por intermédio das narrativas míticas de autoctonia, desterram- se as mulheres: o grupo dos cidadãos autóctones tem como referência o nascimento de Erictônio, saído da terra, filho sem pai, nem mãe. No teatro de Eurípides, o discurso feminino das troianas sugere, portanto, uma identificação entre a pólis, comunidade política e masculina, e a pátria, a comunidade enraizada em seu território. A escolha do momento final de uma cidade destruída pela guerra, pelo testemunho do choro feminino, produz o surgimento da cidade como terra dos pais, dos lares, dos filhos. É preciso, porém, revisitar medéia com um olhar renovado, para que fique demonstrado que não é apenas em uma situação de guerra e através do pranto que as mulheres, únicas testemunhas, teriam “autorização” para falar da cidade. medéia oferece um confronto singular no teatro grego, pela abordagem direta da diferença entre a situação da “cidadã” e da “estrangeira”, em relação a uma cidade. Não que se instaure na cena um conflito; muito pelo contrário, o que se sobressai é a solidariedade que une as coríntias à Medéia, a partir de sua mesma condição feminina, apesar da diferença em relação à proximidade do lar, ao pertencimento a uma cidade. Entretanto, na mesma peça onde a raça das mulheres nomeia-se em seu destino com tanta propriedade, o universo de relações entre as mulheres e a cidade vem a tona com não menos insistência. O contraste entre a solidariedade feminina, sua unidade na raça das mulheres, e o fosso que separa Medéia das mulheres de Corinto demonstra uma das questões que permeiam a peça: a difícil tarefa de definir a integração do feminino à pólis. 104 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — medéia é talvez a única peça de Eurípides em que o par de opostos integração/exclusão constrói-se sobre as mesmas figuras: Medéia, coro das mulheres coríntias. Ao mesmo tempo, Medéia e as coríntias estão muito próximas, na condição feminina, e radicalmente afastadas, na cidadania. Esta “indecisão” no tratamento do feminino confere à encenação mais um tema em que a ambiguidade do feminino pode ser explorada: a confluência entre a alteridade feminina e a presença necessária e efetiva da mulher na cidade. Na abordagem deste tema, qual seja, das implicações da integração do feminino à pólis, as mulheres são chamadas a desvendar sua condição, desmascarar sua unidade, evidenciar sua relação com a pátria, solo assegurado pela presença da casa paterna, terra dos pais. No primeiro encontro entre a personagem principal e o coro de mulheres coríntias, Medéia define a condição feminina: compra de um marido pelo dote; submissão; adivinhação da melhor maneira de convívio com o marido, seja ele reles ou bom; fado de “fitar uma só alma”; sofrimento das dores do parto, coragem maior do que a exigida pelos perigos da guerra (MED, vv.230-251). Estabelece-se, assim, a ligação entre o ato de injustiça sofrido por Medéia e a solidariedade prestada pelas coríntias. Esta ligação justifica o pedido de silêncio às coríntias, em relação à vingança maquinada por Medéia. Na mesma intervenção, entretanto, contrapõe-se a afeição entre Medéia e o coro àquilo que as afasta: [Med.]: “ tens esta cidade e o palácio paterno e o gozo de viver e o convívio dos teus, eu, porém, órfã sem cidade sou ultrajada ................................................................................... sem mãe, irmão, nem congêneres para abrigar-me neste infortúnio.” (MED, vv. 252-258.) A pólis, patròs dómoi, phílon synousía, cidade, casa dos pais, convívio dos parentes, contrapõe-se um éremos ápolis, órfã e sem cidade. O coro afirmará, por sua vez, essas palavras de Medéia: [Coro]: “Ó pátria, ó palácio, nunca — A “Cidade das Mulheres” — 105 fique eu sem cidadania .................................. nenhuma outra aflição supera a de privar-se da pátria .................................. nem cidade, nem amigo comisera-te na tua mais dolorosa dor. “ (MED, vv. 642-658) Pátria, lar e, por fim, “sem cidadania” (ápolis). Quando as mulheres falam de sua cidadania, falam do lar paterno e da cidade como pátria. Estes se constituem como garantia de proteção, de justiça, de reparação de uma traição: a quebra da aliança do casamento. Ter cidadania é encontrar apoio contra uma injustiça, é poder retornar à casa paterna, é, enfim, pertencer a uma comunidade, seja da família, seja da cidade, em relação aos próximos, em relação ao estrangeiro. Aquilo que Medéia não tem é esta pertença, a rede de alianças que asseguraria seus direitos, seu estatuto de mulher casada. Banida do lar paterno, exilada de Corinto, Medéia está fora, sem lar e sem pátria. Reafirma-se, portanto, a identidade da pólis como pátria, terra dos pais e, mais ainda, com o próprio lar paterno. Privar-se dele é encontrar-se ápolis, sem cidadania e sem cidade. O termo, que serve mais precisamente para designar a condição de perda dos direitos políticos por causa de um exílio, encaixa-se à situação de Medéia. O exílio, em seu caso, implica a perda de direitos equivalentes aos da cidadania masculina, em relação a sua terra natal. Em seu exílio, a ligação ao oîkos paterno encontra-se dissolvida. Deve então concluir-se que a cidadania feminina define-se, em medéia como em As troianas, por sua ligação à casa paterna, por sua profunda relação com a cidade/pátria, a terra ancestral? Uma resposta afirmativa a esta questão significaria que o problema da integração do feminino estaria solucionado? Não é esta a conclusão que uma análise do conjunto da peça medéia sugere. A exploração da alteridade do feminino no teatro trágico de Eurípides não autoriza uma conclusão simples, quando se trata de definir a integração do feminino não só à 106 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — cidade, como também ao nómos. Se a cidadania feminina pudesse ser, de uma vez por todas, definida como cidadania “civil” (VATIN, op. cit.), restrita à pertença da mulher a uma casa cidadã, não haveria ainda contraste a ser explorado, entre a alteridade e a integração da mulher à cidade. Além disso, seria estabelecida uma “dicotomia”: apenas quando a pátria emergisse, o feminino teria condições de falar da cidade. No espaço da pólis, a cidade permaneceria um “clube de homens”. Não há, entretanto, dicotomia entre pólis e pátria. Não há pátria sem pólis. A terra ancestral é a cidade, em seu enraizamento, certamente religioso, no tempo e no espaço. É, também, para a comunidade dos cidadãos, identidade da pólis.A cidadania feminina consiste no nascimento e pertença a uma casa cidadã. Estabelece-se, ainda, pelo casamento legítimo. Em As troianas, entretanto, a mulher não está na casa. Ela se estabelece a meio caminho entre o oîkos e a cidade. Assim, as troianas podem falar à cidade sobre a guerra e o desenraizamento. Em medéia, a mulher está na casa do marido, dos pais… mas justamente o que se ressalta é que o feminino não está realmente lá, onde o costume o fixa. A alteridade do feminino faz penetrar o imponderável — estranhamento, espanto — na casa dos homens. Os quadros que delimitam o lugar em que o feminino se mantém não são, portanto, sólidos o bastante para evitar que a mulher tenha algo mais a dizer da pólis, para a comunidade dos cidadãos. Os quadros em que se delimita a presença da mulher na cidade não surgem bastante sólidos, enfim, para evitar que, no teatro de Eurípides, seja possível falar de liberdade, glória e honra, na morte pública das mulheres. 4.2- o disCurso PolÍtiCo de héCuBA: Hécuba é uma personagem singular no teatro de Eurípides. Nas duas peças que protagoniza, sua imagem é a do desespero e a do sofrimento pela pela cidade derrotada na guerra. Tanto em As troianas quanto em — A “Cidade das Mulheres” — 107 hécuba, o centro da cena é a esposa do rei de Tróia e mãe de seus heróis, agachada sobre si mesma e voltada para o chão. O sofrimento e o choro são constitutivos de seus diálogos, assim como a interação com o coro, formados por cativas troianas em ambas as peças. As troianas, partindo do universo feminino de integração à cidade, faz emergir a pátria e a perda da guerra como desterro, isto é, ruína do solo ancestral. hécuba traz à cena Hécuba cativa, em um acampamento grego de onde se vê o fogo que queima Tróia ao longe. Se em As troianas Hécuba lidera o pranto das mulheres sobre o solo perdido da pátria, em hécuba vem juntar-se ao choro pela cidade a utilização da figura de Hécuba para falar de uma determinada forma — correta — de governo. Em ambas as peças, o tema que se desenvolve a partir do desespero da rainha liga as mulheres que falam à cidade de Tróia. Na abordagem da forma correta de portar-se, enquanto chefe no exercício do poder diante da armada grega, são dois os antagonistas da rainha troiana: Agamenon e Ulisses. No teatro de Eurípides, as figuras do chefe do exército grego e do rei de Ítaca constituem-se por uma série de características constantes. Ulisses tem na métis a maneira corriqueira de atuar. É astucioso, ardiloso, aproximando-se, de certa forma, daqueles políticos que discursam para convencer as assembléias, fazendo prevalecer os mais fracos argumentos. Agamenon é o homem político por excelência, o governante que deve julgar, procedendo à justiça através de uma argumentação racional. No diálogo que se trava entre Hécuba e Agamenon, observa-se a rainha pronunciar palavras como as seguintes: [Hec]: “ De minha parte, sou escrava e sem força, talvez. Mas os deuses são fortes, como também a Lei que os domina. Pois é a lei que nos faz crer nos deuses, e viver distinguindo o justo do injusto. Se colocada em tuas mãos esta lei é destruída, se escapam ao castigo aqueles que assassinam seus hóspedes, ou aqueles que ousam pilhar os santuários dos deuses, não há mais equidade na vida dos humanos. “ (HEC, vv.798-806). As palavras de Hécuba soam a princípio como uma exortação moral. 108 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — Tratar-se-ia, de resto, de um discurso “genérico”, em que a ética, a lei, os deuses, poderiam bem corresponder a um plano de virtudes gerais dos homens, e não a um problema de ação política. Não há, entretanto, virtudes gerais que, para um homem da pólis, não sejam antes virtudes políticas. Primeiro porque o homem se define como animal político, ao menos quando, no mundo grego, surge a preocupação em definir uma natureza humana. Segundo porque as palavras de Hécuba dialogam, para além da cena, com um conjunto de ideias inovadoras, em desenvol- vimento na pólis ateniense do final do século V a.C., pela influência de Sócrates: a Lei, a Justiça e o Bem, surgem como valores do verdadeiro, superiores à crença nas potências divinas. Discurso ético, na medida em que pensar a ação humana é também imaginar a cidadania ideal. As palavras politizadas de Hécuba dão lugar, portanto, a um modo novo de se compreender as relações políticas e sociais na pólis ateniense, em que se focaliza com mais insistência não tanto a deliberação e o discurso político, mas a formação ideal daqueles que, por sua postura ética individual, tornam-se aptos a governarem as cidades. O que torna a figura de Hécuba suscetível de encarnar temas do universo masculino e político da cidade? Deve-se procurar uma resposta não tanto em sua trajetória mítica, mas na própria gama de estatutos femininos a que corresponde. Em primeiro lugar, a matrona, mãe, ordenadora de um oîkos, em que se produzem soberanos, governantes. Mulher impregnada da soberania a qual seu lar se destina, tomada em momento de luto pela perda da casa e da descendência. É como senhora da casa que ela fala e é ouvida. A figura de Hécuba é, pois, o centro das representações que fazem do feminino um princípio de imutabilidade e imobilidade, por um lado, e de domínio do espaço doméstico por outro lado. Como senhora de um oîkos produtor de linhagem real, a rainha mantém, pois, uma relação estreita com a própria soberania. Sobrevivência de um passado aristocrático contado pela epopéia homérica (VERNANT, 1992, pp. 48-71), a relação da esposa real com o fundamento — A “Cidade das Mulheres” — 109 do poder político sobre um território faz de Hécuba, no teatro trágico da cidade democrática, a própria voz dos princípios fundamentadores da legitimidade da deliberação e do governo: o Bem, a Justiça, as Leis. É possível à mulher participar do jogo da opinião e do discurso político? Um tal questionamento não se refere àquilo de que as comédias de Aristófanes dão testemunho: as esposas perguntam a seus maridos como foram as decisões da Assembléia (lisístrata). Há algum sentido em dar a palavra ao feminino, e prestar-lhe atenção, quando o que está em jogo é a gestão da cidade, a formação do cidadão? Alguns exemplos, uns históricos, como Aspásia, a sábia e estrangeira amante de Péricles, outros filosóficos, como Diotima, a hetaira que dialoga com Sócrates, na busca da essência do verdadeiro amor (Banquete), podem ser lembrados. Duas mulheres que, entretanto, escapam ao estatuto da esposa legítima. Ao colocar-se como porta-voz de uma opinião que diz respeito à cidadania para um público teatral que bem poderia chegar aos milhares de espectadores, como centro de um discurso que incide sobre o universo masculino da cidade, Hécuba desvenda um instante em que, esposa e mãe de “bons cidadãos”, a mulher participa na construção da unidade e identidade entre a cidadania (o grupo de cidadãos) e a pólis. Ao lado de uma cidadania feminina fundamentada na relação da mulher com a pátria, eis que a figura trágica de Hécuba fornece a visão de um “grau de legitimidade” da influência feminina sobre a cidade, sobre o conjunto dos cidadãos que se compreendem como pólis. Como senhora de um lar cuja exemplaridade reside no fato de ser um centro de soberania, Hécuba, esposa e mãe, diz ao grupo de espectadores do teatro como deve se constituir através da Justiça e do Bem aquele que deseja agir como cidadão e decidir na cidade. Mas é ainda “de fora”, em seu espaço doméstico, que a mulher intervém indiretamente na formação do cidadão. Na abordagem do sacrifício consentido das virgens, tema constante do teatro de Eurípides, encontra-se, diferentemente, uma formade integração mais direta do feminino ao universo das virtudes políticas e éticas masculinas, da cidadania. 110 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — 4.3- o sACrifÍCio dAs JoVens VirGens: O sacrifício consentido das virgens apresenta-se como uma abordagem do feminino capaz de aproximar a mulher de um universo que, até o presente momento, permaneceu irredutível à sua presença: o das virtudes “viris” da cidadania. A “bela-morte” (LORAUX, 1982, pp. 27-43, VERNANT, 1982, pp. 45-76.), ou a morte consentida, desejada, em nome da areté, surge inesperadamente ligada ao feminino, por se tratar de um tema relacionado ao mundo dos andres da cidade, mais precisamente, ao mundo dos hoplitas. O sacrifício das jovens surge como tema, central ou não, em três peças de Eurípides: os heraclidas, hécuba, Ifigênia em Aulis. Esta última peça é a única em que o tema fornece o argumento central da peça, e de forma exemplar. Ifigênia em Aulis pode ter sido a última peça de Eurípides a ser apresentada em um concurso, e isto após a sua morte, em 405 a.C. Macária, Polixena, Ifigênia. As duas primeiras figuras tem mais pontos em comum do que a última. Todas são jovens “às quais o casamento ainda não submeteu”, mas Polixena é uma prisioneira de guerra, nascida princesa em Tróia, e prometida à sombra de Aquiles; Macária é filha de Héracles, exilada de seu país e suplicante em terra estrangeira. Das três, portanto, aquela que mais parece destinada a seguir o curso de seu destino, imposto pela condição feminina — casar-se — é Ifigênia. Todas as três personagens vêem o curso da vida se interromper por uma sentença irredutível: o sacrifício. Macária se oferece à morte exigida pela filha de Deméter, Koré; Polixena se entrega para a morte sobre o túmulo de Aquiles; Ifigênia decide morrer para a glória da coletividade, no sacrifício exigido por Ártemis. As virtudes que se ressaltam nessas personagens sugerem uma aproximação à virilidade dos “espíritos livres”, devido ao seu consentimento em morrer. Pois ao decidirem pelo sacrifício, — A “Cidade das Mulheres” — 111 é justamente a liberdade, a glória e o renome que as virgens almejam, e que a comunidade lhes promete. Interrompe-se o destino privado do feminino e, pelo consentimento ao sacrifício, Ifigênia, Macária, e Polixena, merecem o louvor público reservado a bela-morte. 4.3.1- Kalòs tánathon: a morte do hoplita e o elogio de Atenas “ […] o logos epithaphios encontra sua revanche por não ter rivais no terreno glorioso da areté : para provar que ‘entre os gregos, só os atenienses sabem honrar o valor’, é suficiente afirmar, como Demóstenes, que ‘somente eles no mundo pronunciam o elogio fúnebre dos cidadãos mortos pela pátria’. “ (LORAUX, 1981, pp. 1-14.) Kalòs tánathon. Assim a oração fúnebre ateniense refere-se à morte de seus guerreiros. Não a um cidadão, a um herói em particular — não há lugar para isso na democracia — mas a todos os andres atenienses mortos em combate. A bela-morte é a suprema honra do guerreiro hoplita. É feita de justa medida, de sophrosyné. Ao contrário da morte heróica da epopéia homérica, a morte cidadã é bela porque ocorre nas fileiras, quando cidadãos em meio a seus pares combatem como um só bloco, coeso, sem que nenhum deles se destaque, ou procure destacar-se individualmente. A seus mortos de guerra, a cidade dos atenienses pronuncia uma oração fúnebre. O epitháphios lógos se caracteriza pela repetição de modelos, através dos quais os magistrados atenienses dizem a glória da cidade, através do enaltecimento da areté de seus cidadãos (ibid., pp 15- 77). A oração fúnebre faz lembrar aos vivos sua ação como coletividade. As virtudes da bela-morte, embora ditas no singular, referem-se a todos os mortos no campo de batalha e, em última instância, referem-se não apenas aos mortos, mas aos cidadãos atenienses como um todo como a coletividade dos guerreiros que foram, que são e que serão andres ágathoi. O epitháphios lógos refere-se, pois, à comunidade dos cidadãos, 112 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — à comunidade dos andres atenienses. A caracterização dos seus topoi demonstra uma proximidade muito sensível entre o elogio da bela-morte dos hoplitas e o louvor que Ifigênia, Macária e Polixena merecem pelo sacrifício. Não se trata de fazer um desvio para um campo de pesquisas que foge ao âmbito desse estudo, mas de acompanhar as afirmações que Nicole Loraux faz sobre oração fúnebre, como forma do discurso político e hegemônico ateniense. “Afirmando que a lembrança ‘se ligará mais à decisão que ao ato dos mortos’, Péricles testemunha que o essencial não é o ergon, mas a intenção que o presidiu. Também a hierarquia dos valores cívicos deve ser assumida por cada cidadão, decidindo em um ato de vontade lúcida que a felicidade está na liberdade, e a liberdade está na bravura” (LORAUX, 1981, p101) O discurso da “bela-morte” é dito para enaltecer a areté dos que morreram em guerra. Pronunciando o discurso pelos cidadãos, é ainda a glória de Atenas que se renova. No epitháphios lógos que é atribuído a Péricles, a valorização do cidadão-soldado é constituída não tanto por sua realização (seu ergon, ato que implicou na morte), mas por sua decisão de sacrificar a vida pela cidade, ou seja, por si próprio e sua coletividade ( na medida em que não é possível entender cidade, ou pólis, fora dos quadros da coletividade dos atenienses, ou dos atenienses que se entendem como essencialmente homens e iguais). Valorização de uma decisão. Nicole Loraux ressalta as implicações de uma tal afirmativa. A proaíresis não corresponde a uma decisão pessoal, íntima, mas a uma forma de agir própria da liberdade do agente. O acento se faz não sobre uma vontade livre, mas sobre uma liberdade inerente à natureza de quem age, de quem decide. A oposição a ser feita, neste caso, não é a do sujeito livre com sua vontade livre contra a falta de vontade ou à ausência de liberdade de escolha inerente ao sujeito, mas a da phúsis do homem livre versus a natureza do escravo. O ato de decidir é portanto ligado ao estatuto de liberdade. “ […] é a esta resolução em morrer que os atenienses, a crer no epithaphios de Lísias, deveram a vitória em Maratona, — A “Cidade das Mulheres” — 113 posto que, ‘sem raciocinar sobre os perigos da guerra, eles estavam convencidos de que a morte gloriosa deixa atrás de si o renome eterno, que se liga ao valor’“ (id., p. 102). Decisão de sacrificar-se, ato inerente a uma natureza livre. O trecho do epitáfio de Lísias adiciona um sentido à bela-morte: valor e eterno renome. Memória, lembrança. Não é sem fundamento que, em um estudo mais aprofundado, pode-se verificar a profusão de valores aristocráticos no seio da oração fúnebre ateniense. Neste lugar de discurso, neste “modo de falar” da democracia ateniense e de seus cidadãos, é como se a pólis deixasse ver o seu fundo enraizado nas práticas da aristocracia (LORAUX, 1981, pp. 175-225.). Os topoi que conferem à oração fúnebre ateniense sua destinação — elogio da bela-morte, como forma de dizer a unidade entre o cidadão e a pátria — surgem no teatro de Eurípides para caracterizar a morte das jovens párthenoi. Não se trata, entretanto, de afirmar a identidade entre o discurso do epitháphios e o discurso veiculado no teatro. O discurso teatral não é um epitháphios lógos, na medida em que não se trata de palavras, mas de instituições diversas. O que pode levar Eurípides a fazer escutar ao público do teatro, um discurso familiar, profundamente marcado pelos valores exclusivos da comunidade dos cidadãos de sexo masculino, pronunciado por jovens mulheres, em nome, entretanto, desses mesmos valores? Diantede sua própria morte, as jovens pronunciam um epitháphios lógos. Assim como na oração fúnebre a cidade eterniza-se em sua areté como coletividade, as jovens assumem o papel do orador para dizerem, de si mesmas, uma oração fúnebre. Cada uma delas se eterniza, de certa forma, ao consentir na morte pela Memória de seu ato. As jovens párthenoi não são, entretanto, “metáforas” da pólis no teatro de Eurípides. Não se trata de representar a instituição política do epitháphios lógos, mas de apropriar-se da forma discursiva bem conhecida dos cidadãos atenienses para falar de outra coisa: a bela-morte no gênero feminino. 114 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — 4.3.2- macária e Polixena: heraclidas e hécuba foram apresentadas ao público ateniense nos primeiros anos da Guerra do Peloponeso. Macária é uma das jovens filhas de Héracles que, diante do oráculo imposto ao rei de Atenas, Demofonte, resolve oferecer sua morte pela cidade. Em Atenas, Macária é uma suplicante como toda sua família. A partir do momento em que os atenienses resolvem acolher os heráclidas, chamam a si a hostilidade e a guerra com Argos. Neste ponto, no limiar da guerra, no momento em que se consultam os oráculos e se roga aos deuses a que lhes sejam propícios, surge a mensagem: a vitória dos atenienses só será selada se, antes da guerra, o sangue de uma virgem de origem nobre for consagrado a Koré, filha de Deméter. Apenas neste instante intervém na peça a personagem de Macária. Intervém para oferecer-se ao sacrifício: “ […] Conduzam-me para onde meu corpo deve morrer,/ revistam-no dos adornos e façam o prelúdio ao sacrifício, como quiserem! Depois, sejam vencedores! Minha vida é livremente oferecida a vocês! Eu o declaro: morro por meus irmãos, mas também por mim mesma. Que sorte para mim, que não espero nada da vida, a mais bela das sortes: deixá-la para encontrar a glória! “ (HER, vv.528-534). Ou ainda: “[…] serei morta pelos meus. Este é meu tesouro, que me toma o lugar de filhos, de minha virgindade oferecida, se algum sentimento subsiste sob a terra […].” (HER, vv.590-592). As palavras de Macária mostram que a jovem se apresenta diante do público do Teatro como um animal, purificado e consagrado ao sacrifício. Foi dito em alguns estudos (LORAUX, 1988, pp. 64-92.), que as jovens heroínas que aceitavam o sacrifício surgiam no teatro graças à proximidade do figura dessas jovens, na cidade, com a animalidade das vítimas do sacrifício sangrento. Esta constatação, embora válida, não — A “Cidade das Mulheres” — 115 esgota, entretanto, a questão em torno do sacrifício de Macária ou de Polixena. A única aparição de Macária na peça faz emergir a decisão da jovem parthénos, de acordo com as figuras da Liberdade e da Glória. No segundo dos trechos citados, pode-se perceber com clareza que o destino livre e o Renome devido a Macária por seus familiares, e sua cidade de Argos (Macária recomenda que os seus, quando retornarem à terra natal, erijam em sua homenagem um monumento e lembrem seu ato), preenche o espaço do destino normal da jovem: casamento, filhos. Em troca da Liberdade, Macária oferece a virgindade, ou seja, um estado de passagem, que indica que a moça está prestes a tornar-se esposa. O discurso de Polixena é em vários pontos semelhante ao de Macária: “[…] Meu pai era senhor de toda a Frigia; este foi o começo de minha existência. Depois, fui criada entre belas esperanças, esposa prometida a reis; e havia entre meus pretendentes uma rivalidade ardente, sobre quem me veria entrar na morada, em seu foyer. […] E hoje sou escrava. Este nome, de início, já me faz desejar a morte […] Jamais. Eu lanço de meus olhos um olhar livre, dando meu corpo a Hades” (HEC, vv.346-377). A jovem princesa não troca, entretanto, a virgindade pela morte; não troca sua trajetória no destino da condição feminina. Polixena é cativa de guerra, e, deste modo, teve sua virgindade interrompida no momento em que Tróia viu-se destruída. A forma de reencontrar o seu destino e tornar-se ao mesmo tempo livre, é a de dar, como esposo a seu corpo, o próprio Hades. Polixena também fala na liberdade, mas não em sua liberdade para escolher o sacrifício, mas naquela que a morte pode lhe proporcionar. Entre a escravidão que o destino lhe reserva e a morte que lhe é exigida, optar, querer a morte é afirmar sua liberdade. Liberdade, Glória, Renome. Estes três temas estão presentes na construção de Macária, mas também na de Polixena. Para o caso desta última, a Memória feita de louvor e lembrança é afirmada pelos gregos que assistem a morte da jovem. Levada ao sacrifício, Polixena recusa o 116 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — toque de mãos masculinas. Em toda a caracterização de sua liberdade, Polixena abaixa-se, desata o manto, com o cuidado de não tornar visível aos olhos gregos aquilo que lhes é interdito, e oferece o pescoço aos golpes do sacrificante. Após a morte, nenhum grego ousa tocar o corpo de Polixena. Reconhece-se sua virtude, sua areté (HEC, vv.505-582). A figuração do feminino, distinguindo dois pólos entre a alteridade radical e a “doce” mulher abelha, guarda um lugar especial à virtude das mulheres. Esta virtude é dita em termos de areté e sophosyné, honra, medida e castidade. São virtudes que aparecem, no entanto, apenas quando a mulher é esposa. A honra, a medida, das virgens que se apresentam ao sacrifício tem um sentido diverso. Elas tornam as jovens livres diante da coletividade que pede sua morte; elas justificam, para o feminino, a Lembrança e o louvor, não aqueles dos epitáfios privados, mas sim os devidos por toda uma coletividade, no sentido de honra pública, política. As jovens ganham espaço na publicidade. Com isto, é possível afirmar que a areté e a sophosyné das jovens virgens são virtudes viris. 4.3.3- Ifigênia: A Ifigênia que nos é apresentada por Eurípides prestes a ser sacrificada em Aulis, é portadora de um discurso surpreendente e exemplar. Trata-se de uma peça tardia em relação as outras duas e, embora surja também o sacrifício da jovem movido pela glória, pela liberdade, pela escolha da protagonista, os temas, ou os topoi discursivos envolvidos na questão tem uma importância e uma utilização novas. Em primeiro lugar, o sacrifício de Ifigênia é o tema central da peça. Ifigênia não surge do gineceu em um instante, proclama seu discurso de escolha/liberdade/honra, para sumir no minuto seguinte e não mais aparecer na trama dos acontecimentos. Ela é a figura imbuída do destino trágico, para a qual os olhares devem voltar a atenção. A reviravolta se dá, na peça, quando Ifigênia cessa de suplicar por sua vida para comunicar sua livre decisão de morrer: — A “Cidade das Mulheres” — 117 “ Eu refleti, minha mãe, e compreendi que devo aceitar morrer. Mas pretendo dar-me uma morte gloriosa, rejeitando toda fraqueza. […] De mim depende que no futuro as esposas sejam protegidas. As empresas bárbaras não as raptarão mais em nossa terra feliz, […]. É tudo isso que minha morte salvará, dando-me a glória por ter livrado a Grécia, que fará meu nome bem-aventurado. Devo eu, depois de tudo, tanto apegar-me à vida? Foi para o bem comum dos gregos, e não somente para ti, que me colocaste no mundo.” (IFA, vv.1369-1385). Decisão pela morte, para o bem comum dos gregos reunidos em armas, que enfim trará à Ifigênia glória e renome. Neste trecho surge, antes de tudo, a integração das mulheres na civilização dos gregos. O objetivo da guerra é impedir o rapto das esposas. A figura de Helena aproxima-se, na fala de Ifigênia, não da armadilha sedutora a qual normalmente Helena é relacionada, mas à esposa legítima queela é de seu marido grego. Na fala livre de Ifigênia, as mulheres são integradas como as esposas gregas, um bem a ser defendido diante dos bárbaros. Mas o discurso da jovem diante de sua decisão, dito à Clitemnestra, não se esgota na defesa dos helenos contra o rapto de suas mulheres. A última palavra é pronunciada para lembrar que a vida de Ifigênia não existe apenas para seus familiares, não pertence à família, mas à coletividade dos gregos, para o seu bem comum. Em última análise, a decisão de Ifigênia desaloja seu biós da casa e da família, transformando a vida da jovem em bem coletivo, público, ou político. Para compreender o sentido de Ifigênia, e o sentido da peça para o público ateniense, deve-se considerar não somente a figura de Ifigênia, mas ainda a presença de Clitemnestra e de Agamenon na peça. O Agamenon que Eurípides apresenta é, com efeito, a figura do estratego, do chefe do exército e do principal magistrado, aquele que deve decidir entre seu oîkos e sua timé, sua honra de chefe diante do exército grego. Agamenon representa o exército grego reunido, prestes a entrar em guerra. Como chefe, ou como estratego, suas decisões devem ter sempre em vista a presença da coletividade dos gregos sob seu comando. Da epopéia, portanto, percebe-se apenas o fio da estória. Não se está 118 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — diante dos aqueus da Ilíada, mas de hoplitas, liderados por um chefe representante do poder do dêmos, ou seja, de um chefe democrático. Em meio à ameaça contra o exército reunido, Agamenon deve sacrificar sua filha. Assim como o fez o herói da gesta ateniense sobre as origens da cidade, Erecteu (DETIENNE, 1990, pp. 245-267.), Agamenon decide-se ao sacrifício. Neste ponto, não é nem a Menelau nem a Ulisses que se opõe a personagem de Agamenon, mas a Clitemnestra. A presença de Clitemnestra em Aulis não é fortuita. Ela é, mesmo pela tradição mítica, sua real antagonista. A chegada de Clitemnestra marca uma irrupção, na cena, do oîkos de Agamenon. É a esposa que chega, para o casamento da filha; chega para cumprir ou executar suas atribuições de senhora do oîkos. A cena em que se representa a chegada de Clitemnestra é a este respeito significativa. A esposa de Agamenon chega acompanhada de Ifigênia, Orestes, e um grupo de servidores. Desde o momento em que seu cortejo entra em cena, Clitemnestra comanda, ordena, torna-se o centro da ação. De certo modo as primeiras palavras que Clitemnestra endereça a Agamenon são duvidosas e até mesmo irônicas: “Tu, a quem honro entre todos, senhor Agamenon, eis-nos aqui dóceis a tuas ordens “ (IFA, vv. 633-634). Efetivamente foi uma mensagem de Agamenon que trouxe a família a Aulis, mas não é à obediência da esposa que isto se deve. Clitemnestra acompanha a filha por sua própria decisão, e pela consciência daquilo que lhe cabe, da sua parte como esposa e dona da casa. A união da filha ao mais valoroso herói dos gregos, Aquiles, é um momento ao qual a esposa de Agamenon não pretende negar sua necessária participação, apesar de toda a pronunciada “docilidade” com que se apresenta. De um lado, o chefe do exército; de outro, a forte figura da esposa ciosa dos assuntos domésticos, no momento de realizar uma das tarefas de maior prestígio para o mundo privado: uma aliança entre duas casas. No cruzamento de Agamenon e Clitemnestra, são precisamente as ordens pública e privada que entram em contradição. Ifigênia se encontra no — A “Cidade das Mulheres” — 119 centro desse conflito entre dois universos, propositadamente separados. A escolha da jovem é a reviravolta, e a proposta do teatro de Eurípides aos concidadãos: “ Concedo meu corpo à Grécia, imolem-no, e tomem Tróia. Assim, de mim será mantida a memória por muito tempo. Isto me tomará o lugar de filhos, de esposo, e de renome. Convém ao bárbaro obedecer ao grego, minha mãe, e não o inverso. Pois eles são escravos, nós somos os homens livres. “ (IFA, vv. 1394-1401). Mistura de discursos, a decisão da jovem Ifigênia traz em si mesma a confirmação do feminino, por um lado. Confirmação de um destino no feminino: filhos, marido. Por outro lado, justapõe esse discurso no feminino ao elogio bem grego, bem ateniense, do consentimento em morrer pela coletividade da pólis. Dar o corpo, a vida biológica e fisiológica, à coletividade dos gregos reunidos para vingar o rapto de uma esposa. Dar seu destino individual em troca da união dos helenos contra os povos bárbaros. Afirmação da liberdade do homem grego contra a escravidão do bárbaro é aplicada aos do sexo masculino que são, na pólis, os iguais. Afirmação da coletividade, do político, do público, frente ao oîkos, o sacrifício de Ifigênia coloca, pois, uma figura feminina frente a frente com os argumentos da bela-morte. Mas por que não dizer simplesmente que a figura de Ifigênia seria apenas uma “metáfora” a serviço da propaganda política? O fato de se tratar de uma mulher desloca o discurso, transforma o lógos político em elogio de uma virtude feminina. Não é possível esquecer Ifigênia. Não é possível esquecer que esta figura realiza uma ponte entre uma virtude feminina e um ato político, no sentido de uma ação que releva à comunidade. Entre Macária, Polixena e Ifigênia, portanto, muitos pontos em comum. Exaltação da nobreza de caráter das jovens decididas a trocar sua destinação ao casamento pela bela-morte, decisão que garante o renome e a glória; ato, enfim, de liberdade. Desta forma, são os topoi da oração fúnebre da Atenas clássica que fornecem os instrumentos para 120 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — que o discurso teatral defina, poeticamente, a morte feminina como um bem da coletividade. Dizer do sacrifício das jovens que se trata do kalòs tánathon não é simplesmente transpor o ideário cívico da bela-morte para o teatro, segundo o gênero feminino. Para demonstrar como a bela-morte das mulheres é ainda um deslocamento feminino das virtudes próprias à cidadania, pode-se apresentar o testemunho de uma outra “bela-morte”, um outro sacrifício pela cidade. Desta vez, entretanto, trata-se do jovem Meneceu, em As fenícias: “Parto, então, a oferecer a Tebas o honorável dom de minha morte, livrando o país de seu mal. Se cada cidadão, em proveito de todos, coloca-se em jogo, até o último esforço, aquilo que ele tem de melhor, as cidades sofreriam menos, e seriam desde então felizes “. (FEN, vv.1007-1012). Oferecimento de um sacrifício à cidade. Desta vez, entretanto, não se trata de enfatizar uma livre escolha, que traz ao agente honra, glória e renome. O discurso de Meneceu é o de um cidadão. Qual é o destino dos cidadãos senão misturar-se, diluir-se na igualdade de seus pares? É disto que se trata o “último esforço”: morrer pela coletividade, aí nomeada — pólis. Meneceu reensina os valores da bela-morte, re-atualiza as palavras do epitháphios lógos em forma de exortação. Representar o kalòs tánathon no masculino e, invenção de Eurípides, no feminino não implica, portanto, os mesmos valores. É importante observar ainda que, apesar de estarem em jogo em ambos os casos valores ligados a uma coletividade, a única vez em que se nomeia esta coletividade como cidade é em relação à morte de Meneceu. Além disso, Meneceu não se oferece como vítima a um carrasco, encarregado de executar o sacrifício. Ele é o autor de sua própria morte. Dupla referência à liberdade: liberdade de decisão, liberdade de tirar a si a própria vida, atitude que deveria ser exemplo para cada cidadão. Cidade-cidadão. Eis duas palavras que se encontram ausentes do discurso das párthenoi, embora Ifigênia deixe claro o direcionamento de seu ato à coletividadedos gregos. Embora o consentimento ao sacrifício — A “Cidade das Mulheres” — 121 desencadeie uma torrente de elogios à virtude, à liberdade, e a promessa de uma glória e um renome futuro e público, isto não é o suficiente para fazer do ato das jovens virgens um ato viril em relação à cidade. A bela- morte no feminino é o reconhecimento de que, para a coletividade, para a comunidade reunida, a jovem será digna de ser lembrada. Não se trata, pois, nem da transferência dos valores da bela-morte para o seio da família e da vida privada. Não são as virtudes domésticas de Macária, Polixena e Ifigênia que fazem de seu sacrifício um ato digno de marcar-se na memória dos gregos. É precisamente a transposição do espaço privado e interior, conveniente à natureza feminina, em direção ao universo da discussão, da palavra, da Memória, espaço exterior próprio à natureza masculina, que o acontecimento e o elogio da bela-morte no feminino tem a preocupação de ressaltar. O kalòs tánathos não perde, em Eurípides, seu sentido político. Discurso totalmente implicado no auto-elogio da pólis através do enaltecimento de seus cidadãos-soldados, a utilização desse discurso no gênero feminino introduz, no âmago do destino privado da mulher, uma interrupção ou um deslocamento. A moça que se sacrifica apresenta-se: aos olhos, ao discurso, à lembrança; penetra por uma “brecha” no universo do auto-elogio da “raça masculina”. Um momento em que vale a pena dizer algo do sexo feminino. Um momento em que a mulher aparece dentro do universo masculino, do universo político, no sentido de coletivo, de público, da cidade. Assim é a bela-morte feminina: um elogio, uma forma de relação ideal da mulher com a coletividade. Não é impensável, portanto, uma tal relação. O passo de Eurípides dá-se para fora do universo culturalmente marcado pelo feminino, e das representações a ele normalmente relacionadas. A figuração da mulher pode efetivamente carregar-se positivamente de discurso da e para a comunidade, através do qual a comunidade se encontra em sua identidade. A análise de medéia demonstra que a cidadania feminina se define na relação entre a mulher e a casa paterna, por conseguinte entre a 122 — Capítulo 4: Eurípides, ou Quando a Mulher Fala da Cidade — mulher e a cidade como terra ancestral. A análise de As troianas explora esta mesma relação, ultrapassando seus limites: confirmando-a como afinidade entre o feminino e a pátria, coloca-se em questão a perda do solo ancestral, o desenraizamento que a destruição da cidade pela guerra representa. A autorização para o lamento feminino vem da relação que, como potência de geração, de procriação e descendência, as mulheres da cidade mantêm com o solo da pátria. A figura trágica de Hécuba demonstra que a mediação da casa paterna na relação entre o feminino e a pólis não é da ordem da fronteira, em que o universo da vida privada seria distinto, descontínuo, em relação à publicidade da vida na pólis. Em Hécuba, Eurípides constrói a representação dramática de um feminino singular — a matrona, senhora da casa — conferindo ao seu discurso o tom da exortação moral e do debate político. Palavras familiares, ouvidas, com certeza, no teatro cômico de Aristófanes, cujo testemunho nos permite afirmar que são também palavras da agora, da Pnyx. É, entretanto, o consentimento ao sacrifício das jovens virgens, em nome da coletividade, da liberdade, da areté, o tema cuja abordagem é mais própria ao teatro de Eurípides. Não se oculta, de forma alguma, a feminidade de Macária, Polixena, e Ifigênia. Por feminidade, compreende-se a destinação do feminino em uma cultura. As virgens não escondem em momento algum que interrompem seu destino feminino em nome da glória, pela liberdade da coletividade, enfim, pelo renome e memória públicos. Sendo realçados pelo teatro de Eurípides os signos da feminidade, as figuras femininas transpõem, para seu universo, um discurso exclusivo do universo exclusivamente masculino da cidadania na pólis. Mistura de valores, confusão de prerrogativas, que fatores explicariam não só a abordagem da cidadania feminina, mas a politização da feminidade, no teatro trágico de Eurípides? Descarta-se o indício cronológico, já que, de medéia a ifigênia em Aulis, convivem o feminino político e a alteridade do feminino como temas constantes. — A “Cidade das Mulheres” — 123 O embaralhamento de Mesmo e Outro na figuração do feminino, aparentemente caótico, encontra-se no cruzamento de alguns “fatos”. Primeiro, a dificuldade de se conferir à mulher um lugar no mundo dominado, desde sua constituição, pelos andres. Esta dificuldade se apresenta em Hesíodo, como em Ésquilo ou Sófocles, onde o feminino demonstra sua ação imponderável e escusa. Em segundo lugar, a importância que as mulheres têm na cidade, seja para sua perpetuação através do nascimento de cidadãos, seja nas cerimônias cívicas em que a ação do feminino é garantia da manutenção do status quo. O primeiro fato foi analisado na tentativa de definir a alteridade do feminino, no imaginário grego, particularmente na obra de Eurípides (capítulo 3). Quanto ao segundo serão investigadas suas implicações, seguindo por dois desdobramentos: a comédia aristofânica em sua utopia de governo feminino; o lógos político de Xenofonte, em sua adequação do feminino ao cidadão ideal. De um mesmo tema, relação entre mulher e cidade, Aristófanes e Xenofonte retiram suas abordagens do feminino. Uma, aproveitando-se da duplicidade do ser feminino, meio “raça das mulheres”, meio “cidadão”. Outro mostrando o modelo perfeito da esposa legítima, em sua atuação em benefício da formação do “homem de bem”. CAPÍtulo 5 AristÓfAnes, ou QuAndo As mulheres Go- VernAm A CidAde: “A ti somente o revelamos, com justiça, pois quando esta- mos em nossos aposentos, e experimentamos as posturas de Afrodite tu permaneces perto de nós […] e quando abrimos furtivamente os celeiros plenos de grãos e de líquido de Baco, tu nos auxilias […] Eis porque tu terás a confidência de nossos atuais projetos, de tudo aquilo que foi decidido por minhas amigas” (ARISTÓFANES, ASM, vv.5-20). Com a declaração de cumplicidade de Praxágora a sua lamparina abre-se o capítulo para a comédia de Aristófanes. Ela, se não contem toda a infinidade de atributos para a Reprovação ao feminino, apresenta de forma marcante o “espírito da coisa”: a mulher, só é permitido imaginá-la em sua insaciável ligação aos atos de Afrodite, à glutonaria, à bebedeira suspeita das bacantes e, fechando o círculo sobre a raça das mulheres, à solidariedade entre amigas. Na comédia de Aristófanes, entretanto, a identificação do feminino aos temas de sua húbris recebe um acento diferente, e singular. Não se trata mais do feminino em geral, mas das mulheres de fato, das atenienses com as quais o público do teatro convive diariamente, em suas casas, como suas esposas, mas também na vizinhança e mesmo na agora. Praxágora, Lisístrata, Mirrina e suas companheiras, atenienses e gregas, não são modelos míticos, são a própria raça das mulheres encarnada no solo de Atenas. Essas mulheres, todas esposas de cidadãos, reatualizam aqueles temas que, em Hesíodo, mas também em Eurípides, são definidores de um lugar e um destino à parte para a espécie feminina: a arte de fiar, a técnica de agir por subterfúgios e, sempre, enganar. As mulheres de Aristófanes são, em primeiro lugar, a matéria cômica por excelência, em sua representação daquilo que “foram, são e serão”: dissimuladoras, enganadoras, desmedidas. Mas não é só pela “velha” Reprovação ao gênero feminino que — A “Cidade das Mulheres” — 125 Aristófanes provoca o riso em seu público. É pela conjunção entreesses atributos próprios à mulher e a possibilidade de lhes entregar o governo da cidade, que o riso em torno da raça das mulheres se torna mais esfuziante. Caricatura da caricatura: entregar às mulheres o governo da cidade, fazê-las falar como cidadãos em assembléia, torná-las responsáveis pela paz entre os gregos. Eis a forma mais radical com que o espelho invertido da pólis, que é a comédia, aborda a questão política dos rumos de Atenas no mundo grego, como cidade hegemônica e como modelo de cidade, após a Guerra do Peloponeso. A comédia assume sua ficção, sua irrealidade. Aristófanes não realiza a propaganda política de um novo sistema de governo, muito menos uma utopia. Sua ficção não é, entretanto, de tal ordem que sua realização seja impensável. O que faz rir não é o total absurdo ou a impossibilidade de um governo das mulheres. É justamente porque a cidade do fim do Vº século pode admitir, senão um governo feminino, ao menos uma positividade com relação à presença feminina no espaço da publicidade, que Aristófanes identifica a possibilidade, risível, mas não ilegítima, das mulheres assumirem o governo. Prova da legitimidade de seus argumentos é o fato de não se tratar de qualquer mulher, mas de esposas, estatuto que fundamenta a integração da mulher à pólis. As peças analisadas são três: lisístrata, tesmofórias, e Assembléia de mulheres. Ao contrário das obras de Eurípides, onde faltam referências à ocasião de sua primeira apresentação, as três peças de Aristófanes são referidas com mais precisão: lisístrata, nas Lenéias de 411 a.C.; tesmofórias, nas Grandes Dionísias do mesmo ano; e, por fim, Assembléia de mulheres, nas Lenéias de 392 a.C., aproximada-mente. A ordem pela qual essas três peças serão abordadas no presente estudo é, entretanto, inversa. Considera-se um tema — o governo das mulheres. As implicações que este tema apresenta devem ser desdobradas, nas argumentações, em primeiro lugar, de Praxágora, na Assembléia de mulheres; depois, das tesmóforas e, por fim, de Lisístrata. 126 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — 5.1- homens e mulheres, PArtes iGuAis: Preocupadas com o excesso de interesses privados no domínio da cidade pelos cidadãos de sexo masculino, as mulheres de Atenas, lideradas por Praxágora, decidem tomar a si o governo. Eis o argumento da Assembléia de mulheres. Para entregar o governo ao sexo feminino, é necessário convencer a assembléia reunida discursando, e sair, assim, com a vitória de uma votação. As mulheres travestem-se, deixam crescer os pêlos, bronzeiam-se para adquirir a cor característica da pele masculina, vestem mantos e botas de seus maridos e, antes do amanhecer, reúnem-se e se põe à caminho da Pnyx. Que significado tem este travestimento? Para além do fato cômico de ver atores que, vestidos de mulher, travestem-se de homem, trata-se do reconhecimento de que as mulheres não podem, como mulheres, participar das assembléias dos cidadãos, e nem reivindicam este direito. As mulheres de Atenas não lutam por participação política na pólis dos homens, não preparam um “golpe” para tomar de assalto o “clube de homens”. Ela usam de um subterfúgio, o travestimento, para, discursando e votando como homens, conferirem às mulheres o governo da cidade. Este governo, aliás, deve ser novo, pouco semelhante às práticas políticas correntes da pólis democrática. Trata-se de inventar (ASM, vv 570- 580) uma nova fórmula de governo, de criar uma verdadeira “pólis das mulheres”. O direito a inventar para a cidade um governo feminino é o discurso que deve ser defendido na Assembléia. Vejamos os argumentos que Praxágora defende diante do público do teatro, falando aos espectadores como se discursasse perante a Assembléia: “Tenho desta terra uma parte igual àquela que tendes; aquilo que me aflige e me é penoso é ver apodrecidos os assuntos da cidade “. (ASM, vv170-175). A oradora da “parte feminina” da cidade argumenta que, do país, as mulheres têm parte igual à dos homens. Mas a parte a que Praxágora — A “Cidade das Mulheres” — 127 se refere não é a “parte da cidade”; esta, pode-se subentender, é deixada para os homens. As mulheres tem parte igual na chóra, no território da Ática. Uma acepção nova, portanto: a cidade, vímo-la como pátria, e agora vemo-la como extensão territorial. Em sua relação com a pátria, as mulheres são chamadas, no teatro de Eurípides, a falar da cidade aos homens. Apropriando-se da metade da chóra, as mulheres de Atenas entendem fundamentar seu direito a tomar a si a tarefa de dirigir a pólis. A raça das mulheres apresenta seu direito ao exercício da cidadania. O governo feminino é uma alternativa, porque às mulheres pertence uma valiosa “qualidade”: tudo o que realizam é feito como sempre foi. As mulheres tecem, como sempre, celebram as Tesmofórias, como sempre, cozinham seus bolos, como sempre... e, como sempre, chateiam seus maridos, escondem seus amantes, embriagam-se com o vinho (ASM, vv215-240). Como sempre. O sentido desta observação, que não ocorrerá uma só vez no conjunto das três peças citadas de Aristófanes, vem juntar a “parte igual” das mulheres à lembrança de que, entre masculino e feminino, a separação é antiga, da ordem de sua proveniência. Afastadas do tempo dos homens em que os negócios mudam, em que a cidade se transforma e a nova política substitui os valores guerreiros da pólis, as mulheres agem como sempre. Porque hoje, como sempre, elas permanecem iguais a si mesmas, no interior de seu próprio génos. Duas partes iguais, dois grupos diversos, um votado aos afazeres domésticos e à gestão da casa, o outro entregue aos negócios públicos e ao governo da pólis. Mas em relação a gestão da cidade, quando é dado às mulheres o direito a assumi-la, os domínios trocam de posição: a sábia “invenção” feminina para salvar a cidade é acabar com os bens privados, tornando-os públicos. Os cidadãos, que são chamados, pelas mulheres, “o povo, nosso concidadão” (ASM, vv570-580), são acusados de governarem a pólis em vista de interesses particulares, fazendo do exercício das magistraturas um rendimento e não um benefício para o grupo. As mulheres realizam, ao tomarem o governo, a extinção dos interesses privados a partir do momento em que os bens de cada um se 128 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — tornam bens de todos: desde edificações até móveis, homens e mulheres, nada será mais propriedade de alguns. Depositar em comum. Se o fundamento da pólis consiste justamente em uma ação de tornar comum a arché, o princípio do domínio feminino sobre o dêmos é ainda tornar comum, mas a economia, os bens visíveis e invisíveis ligados a um oîkos: “[Prax.]: a terra, primeiramente, eu a farei comum a todos, e também o dinheiro e tudo aquilo que pertence a cada um. Depois, sobre este fundo comum, nós mulheres vos nutriremos, administrando com economia e pensando em tudo.” (ASM, vv.595-600). Não se deve confundir uma coisa com a outra. Não se deve concluir ainda em torno da cidade das mulheres por um pretenso “comunismo”. O que a peça de Aristófanes deixa transparecer é que mesmo no domínio da vida pública, as mulheres só podem agir como se administrassem o oîkos do marido. Não há pretensão a trazer o feminino para um domínio onde se exerce o poder político através do debate, do discurso, da deliberação. O governo das mulheres, na Assembléia, traz para o espaço público da cidade a prerrogativa feminina de gestão na oikonomia. Se as mulheres assumem, portanto, a gestão da pólis, se transformam todos os bens em bens comuns, é para melhor administrá-los à maneira como sabem fazê-lo: gerindo a casa. O fundo comum transforma-seem riqueza que as mulheres dispensarão a cada um em partes iguais, e organizarão as refeições comuns assim como o fariam no espaço doméstico. Se as mulheres, enfim, tomam para si o poder político, não é para exercê-lo politicamente, mas para revertê-lo, trazendo para o espaço público e comum da pólis a atividade feminina de gerir os bens privados. A peça de Aristófanes transforma a democracia em ginecocracia (VIDAL-NAQUET, 1989, pp. 128-148.). As duas formas de governo, uma com base na preponderância do — A “Cidade das Mulheres” — 129 dêmos, outra baseada no domínio das gynaikés, opõe-se. Esta oposição encontra-se representada, na peça, pela diferenciação entre mulheres e dêmos; e, entretanto, a ultrapassa. A ginecocracia não é uma invenção de Aristófanes, mas antes um perigo várias vezes narrado pela tradição grega. Trata-se de uma ameaça porque o próprio caráter da dominação e do governo baseia-se nesse krátos, soberania conquistada após combate, ou competição. Portanto, por mais tranquilo que possa parecer o governo das mulheres na abordagem “purificadora” da comédia, ele traz intrinsecamente a oposição, reatualizada, entre o masculino e o feminino no seio da pólis. É por isso mesmo, impensável que homens e mulheres unam seus esforços para gerir a cidade. A ginecocracia exclui a preponderância masculina, exclui a democracia. O governo das mulheres guarda, pois, a força própria ao feminino, potência que emana de sua parte na chóra. Integradas à pólis, a parte que as mulheres defendem e representam liga-se ao domínio do oîkos: acumulação da riqueza, aquisição de terras, organização dos bens. Na visão da comédia de Aristófanes, a ginecocracia é efetivamente um governo das mulheres, que fundamenta sua invenção para o benefício da pólis em seu próprio domínio: a vida doméstica. A Assembléia de mulheres deixa claro que o direito das esposas assumirem o poder político é legítimo. Mas evidencia também que, no poder, as mulheres deixam resplandecer ainda mais aquilo que as diferencia. Não é só o governo que “muda de mãos”. É a pólis que se encontra apropriada pela raça das mulheres. Só é possível rir da ginecocracia se nela a estranheza do feminino se metamorfoseia em sua adscrição ao espaço privado. Aprendeu-se, entretanto, com o teatro “misógino” de Eurípides, que o espaço da casa é lugar do feminino, nos dois sentidos da expressão: 1- Detienne narra um episódio mítico em torno das Tesmofórias em Cirene. O rei Battos, fundador, conseguindo o assentimento das mulheres da cidade para assistir ao início das cerimônias, é por elas surpreendido: as mulheres se jogam sobre ele e lhe decepam o órgão sexual, “afim de privá-lo daquilo que fazia dele ainda um macho”(citando Elieno, fr. 44). 130 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — é seu lugar ideal, mas é também seu domínio. Na peça de Aristófanes ressalta-se, portanto, a instabilidade da integração da mulher à cidade dos homens, mesmo que, pelo apelo à parte igual do feminino no território, a cidadania da mulher — esposa legítima — seja reconhecida. 5.2- A interVenção nos destinos dA PÓLIS: A celebração das Tesmofórias marca, em Atenas, uma licença de três dias ao domínio político das esposas sobre a cidade. Não que as mulheres tomem assento à Assembléia, ocupem os tribunais e a boulé. Reúnem-se no templo de Deméter tesmófora, criando a partir dele uma cidade das mulheres, apropriando-se do vocabulário político da cidade, numa assembléia vedada aos olhos dos homens. Vários testemunhos, na mitologia grega como em narrativas, apresentam o tema da reunião das mulheres em segredo relacionando aquilo que é vedado aos não participantes à irrupção do inesperado: acesso de loucura, pelo qual as mulheres geralmente estraçalham o visitante indesejado. Para citar alguns exemplos, somente em Eurípides, os ataques a Penteu e Polimestor, respectivamente em As Bacantes e hécuba. A surpresa e o inesperado residem no fato de que essas mulheres, tomadas pela fúria, são as esposas e as mães; pertencem, portanto, à categoria feminina cuja integração, não apenas à cidade, mas ao mundo dos anthrópoi, é necessária. No decorrer da assembléia, a tranquilidade dos ritos, a familiaridade das mulheres, é rasgada pela irredutibilidade do feminino: os segredos que celebram as mulheres, mesmo no caso da festa cívica das Tesmofórias, lhes pertencem, são seu apanágio, para a estabilização da pólis. Não se pode partilhar desses segredos, a não ser que o homem torne-se mulher, travestindo-se, como o faz o parente de Eurípides em tesmofórias, ou perdendo aquilo que o confirma como anèr: o órgão sexual (DETIENNE, 1979, pp.. 183-214.)1. É preciso salientar esse lado irredutível da reunião das mulheres para que se possa compreender a amplitude das Tesmofórias, como — A “Cidade das Mulheres” — 131 acontecimento do calendário cívico de Atenas. Absolutamente necessária para que nasçam perfeitos os filhos e os grãos (caligenéia), a festa abre uma brecha ameaçadora para a irrupção do domínio feminino sobre a cidade. Ainda mais porque, ao contrário das bacantes, das confrarias femininas, as mulheres nas Tesmofórias não formam uma tropa tomada pela mania. As eugeneîs (bem nascidas) formam uma sociedade inteira, “com magistrados, um conselho, uma assembléia e decisões que são votadas pela maioria”(id., p.200). Esta verdadeira assembléia de mulheres é apresentada por Aristófanes em sua comédia. No interior do templo, as mulheres têm plenos poderes para decidir a condenação de Eurípides. Nesta “suspensão” da pólis cotidiana, na vacância do poder político que abre uma brecha legítima ao governo das mulheres, não se fundamentará, como na Assembléia das mulheres, uma inovação feminina para os negócios da cidade. Disposta dentro da pólis dos homens, a assembléia das tesmóforas delibera de seu interior. Aqui, as mulheres da pólis assumem suas prerrogativas políticas. Exercem, politicamente, seu direito de cidade. No templo de Deméter tesmófora, as cidadãs, ástai, estão presentes. A cerimônia que Aristófanes descreve inicia-se pela invocação a Caligenia, Pluto, Hermes, e as Carites, potências divinas todas ligadas à riqueza, abundância, e fecundidade. A destinação da cerimônia logo se evidencia. A assembléia das mulheres nas Tesmofórias deve ser plena de vantagens para a cidade dos atenienses, e esta expressão não deve passar despercebida. Os versos que se seguem demonstram que as mulheres não se incluem na pólei têi Athenaíon. “Que aquela que, por sua perspicácia e argumentação tenha melhor merecido do povo ateniense e do povo das mulheres, que ela vença “. (TES, vv 295-306). Povo ateniense, dêmon tôn athenaíon, e povo das mulheres, dêmon tôn gynaîkon. Na invocação que dá início à cerimônia, a pólis se desdobra. As mulheres chamam para si a arché, evidenciando ao mesmo tempo que elas, enquanto eugeneîs, formam um dêmos. Portanto, não é só o 132 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — “favor” feminino à cidade dos homens que a celebração das Tesmofórias consagra, mas o domínio do dêmos das mulheres sobre a cidade. Três dias por ano, Atenas dividi-se em duas, e abre caminho às decisões do povo feminino. Curiosamente, entretanto, se existe um dêmos das mulheres, expressão cujo uso implica a atividade política da parte feminina da pólis, a cidadania feminina não recebe por isso o nome de politeía. Na peça de Aristófanes, as mulheres continuam a ser ástai, denominação que não implica o direito a participar das assembléias e das magistraturas. Uma cidadania “civil” (BAILY, 1950). Em relação às tesmóforas, há, portanto, a denominação corrente de “bem nascidas”, que denota seu possível recrutamento entreas famílias aristocráticas, senão entre as mais abastadas da cidade (DETIENNE, op. cit.). Estas mulheres, no âmbito da festa, assumem o exercício do poder político sobre a cidade, deliberando em favor do “povo dos atenienses”. Ou como é dito alguns versos antes, em favor da “cidade dos atenienses”. No exercício dessa cidadania feminina, colocam-se lado a lado dois povos: povo ateniense, povo de mulheres, ou cidade dos atenienses versus “nós mesmas” (autaîs), as mulheres. Nas tesmofórias, como na Assembléia das mulheres, é impensável que homens e mulheres pertençam à mesma cidade. A fórmula seguinte aproxima ainda mais assembléia das tesmóforas das assembléias do dêmos: “aquelas que procuram subverter os decretos e a lei, que revelam nossos segredos aos inimigos, ou desejam fazer marchar os Medos contra a região, em nosso detrimento, são ímpias e culpáveis em relação à cidade […]” (TES, vv. 350-370). A transgressão à lei, a ambígua revelação dos segredos ao inimigo — os homens, ou os Medos — são uma falta com relação a cidade. A imprecação contra a impiedade daquelas que procuram a conspiração contra a pólis demonstra que as mulheres exercem o poder, e o fazem como os atenienses o fariam. Pois é justamente esta face das Tesmofórias que Aristófanes, em sua peça, acaba por ressaltar: o intervalo entre a — A “Cidade das Mulheres” — 133 Atenas, cidade dos homens nascidos de pai e mãe atenienses, que se confunde com seus cidadãos ao ponto de apagar-se para trazer à tona o grupo uno dos iguais — o dêmos dos atenienses — e a pólis das mulheres. Construir a pólis no espaço do teatro, sob a perspectiva da parte feminina da cidade, eis uma preocupação comum à Assembléia das mulheres, às tesmofórias, e também à lisístrata, como se poderá constatar à seguir. As consequências desta abordagem aparecem agora com mais precisão. Em primeiro lugar, parece difícil afirmar que a integração da mulher à cidade, plenamente demonstrada pelo teatro de Aristófanes, aconteça em detrimento do Outro que ela representa. Isto significa, portanto, que não se pode tratar da relação entre identidade e alteridade no imaginário do feminino como se fossem um par de opostos. Em segundo lugar, ao conferir à mulher o poder de governar a cidade, seja inventando uma ginecocracia, seja abrindo um intervalo no calendário cívico para o exercício da arché pelas esposas dos cidadãos, a unidade da pólis sofre um rasgo: divide-se ao meio, em dois. Uma pólis, um dêmos, abre passagem para a existência de uma outra pólis, cujo dêmos — mas por quê não dizer génos ? — é o das mulheres. O tema do governo da cidade pelas mulheres esconde, pois, uma “armadilha”: por trás da cidadania feminina, da estreita relação entre a cidade e as mulheres, é a própria cidade que se encontra com a ameaça a sua identidade. 5.3- A ACrÓPole sitiAdA: unidAde e diVersidAde nA PÓLIS Finalmente lisístrata. Cronologicamente, a primeira das peças de Aristófanes que abordam o governo da cidade pelas mulheres. Mas, no que diz respeito ao tema em discussão, a peça de Aristófanes representa um aprofundamento. Em meio à “greve de sexo” realizada pelas mulheres gregas em nome da paz, emergem, entrelaçados, dois temas de grande importância: as prerrogativas da cidadania feminina, e a visão da pólis 134 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — como diversidade. 5.3.1- Cidadania no feminino: Junto à Lisístrata, Caloniqué, Mirrina, Lampito, o coro de mulheres que é chamado à sitiar a Acrópole é formado pelas esposas. Mais do que isso, porém, Aristófanes precisa: as mulheres do povo, em toda sua pluralidade — mercadoras de grãos, de legumes, vendedoras de alho, de pão, hospedeiras. Estas são as mulheres que, sem se envergonhar, preparam-se para enfrentar em combate o coro de velhos da cidade. São as concidadãs, demotísin, ou as “mulheres do povo”, termo que apresenta um caráter ambíguo. Ao mesmo tempo em que significa “mulheres do povo”, ou, no masculino demotés, “homens do povo”, indica “concidadãos” pertencentes ao mesmo dêmos. A atitude das mulheres é enfocada, de forma cômica, em sua ambiguidade, na troca de papéis que representa. Tomando a Acrópole, e com ela pondo-se em guarda dos tesouros de Atenas, dispondo-se a falar à cidade, transferindo para o recinto de Palas Atena as prerrogativas do discurso político das Assembléias, as vizinhas, do mercado e das ruelas da cidade, tornam-se companheiras de dêmos. Como cidadãs, as mulheres definem seu agrupamento na cidadela de Palas-Atena: “Estou pronta a tudo empreender com essas mulheres por amor ao mérito: elas têm o talento natural, elas têm a graça, elas têm a audácia, elas têm a sabedoria, elas têm o patriotismo unido à prudência “. (LIS, vv. 544-547). Um elogio como este se adequaria perfeitamente à figura do cidadão em armas, do hoplita. Mérito, audácia, sabedoria, patriotismo e prudência são as virtudes do cidadão, que o conectam aos seus concidadãos e fazem a identidade à pólis. No contexto da peça, o elogio aplicado às mulheres insere-se no combate que elas travam, na Acrópole, com os velhos cidadãos de Atenas. Ou talvez fosse melhor afirmar, aqueles cidadãos a quem o elogio de virtudes guerreiras representa o ponto de interseção entre a riqueza da pólis e sua própria areté. Os velhos — A “Cidade das Mulheres” — 135 cidadãos, confrontados às mulheres na Acrópole, têm a Memória das Guerras Médicas, das quais tomaram parte. Para eles, o sítio da Acrópole pelas mulheres põe em jogo os tesouros de Atenas, mas também o brilho militar, a supremacia do império ateniense, que a esses tesouros se ligam. Riqueza e areté: eis porque os velhos cidadãos procuram combater as mulheres na Acrópole. Não são outros, no entanto, os motivos das mulheres. Em nome do mérito, por amor à cidade, as mulheres apropriam-se da gestão do tesouro. Propondo, com isso, uma troca de papéis aos homens, as mulheres oferecem a eles os véus e a boca calada, afirmando que, a partir de então, a guerra seria assunto feminino (LIS, vv. 525-530). Apropriando-se da guerra, gerindo a riqueza da cidade, as mulheres de Atenas aproximam- se da deusa da qual pedem a proteção: Palas Atena, a virgem guerreira, nutriz de Erictônio. Sob os olhos dos espectadores, a iminência da instalação da cidade das mulheres se apresenta. Pisando o solo da Acrópole, as mulheres exigem a palavra, para pronunciarem seu discurso de interesse da pólis. [Coro]:.”Escutem todos, ó cidadãos, pois abordamos um assunto útil à cidade, o que é natural posto que ela me nutriu no luxo e no brilho. Já na idade de sete anos, eu era arréfora; aos dez anos eu triturava o grão para nossa Patrona; depois, coberta com a pele, eu fui ‘ursa’ nas Brauronias. Enfim, ao me tornar grande e bela moça, fui canéfora, e carreguei um colar de figos secos “ (LIS, vv.635-645). Para começar o discurso, as mulheres desdobram, seguindo os passos de sua vida na cidade, o rol das celebrações, das festas cívicas e religiosas, nas quais sua participação é imprescindível. Através dessas festas que pontuam a apresentação pública do feminino, as mulheres reclamam pelo reconhecimento de sua estreita relação com a pólis, relação esta que garante a elas a possibilidade da cidadania. As mulheres falam como mulheres da cidade, pertencimento fundamentado na comunhão entre a mulher e a pátria, mas também, assim como para os cidadãos autóctones, pela nutrição e criação das mulheres no luxo e no brilho da pólis. 136 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — Não acidentalmente, a passagem das simples mulheres a mulheres da cidade acontece na apropriação feminina do solo da Acrópole. A Acrópole de Atenasnão é avessa ao gênero feminino, tal como a Pnyx. Nela, a raça das mulheres tem lugar, como génos descendente de Pandora, ao lado da figuração de Erictônio, sob a estátua de Atena Párthenos (Loraux, 1990: 122-123, comentando descrição de Pausânias). Estranha representação, que dispõe lado a lado o fundamento da autoctonia do cidadão e a raça das mulheres, que coloca frente a frente a alteridade feminina, este imbatível artifício, e a mais pura autoctonia, a mais clara unidade entre a pólis e os cidadãos. A ficção de Aristófanes, mais uma vez, escolhe o tema de maneira a ressaltar o contraste entre a possibilidade do exercício feminino do governo, e a natureza artificiosa do gênero feminino. A possibilidade da cidadania feminina torna-se real, quando as mulheres apropriam-se do domínio de Palas Atena. O patriotismo das mulheres brilha, na tomada da Acrópole. Mas neste mesmo solo que as acolhe, as mulheres da cidade, esposas zelosas de seus maridos, mulheres lutando pela normalização do casamento, pela vida dos filhos, reencontram-se com Pandora. Atenas nutriria, assim, no brilho, no luxo, um oculto e imbatível ardil? Na dupla visão de Pandora ao lado de Erictônio, é a raça das mulheres que ganha direito de cidade. Atenas chama para si o mito, cria um habitat para a raça das mulheres, e, neste sentido, o génos integra-se à pólis, sob o patrocínio de Atena e Afrodite. É bem este momento de integração que lisístrata ressalta. 5.3.2- unidade, diversidade: A presença feminina na cidade é um fato. A possibilidade de sua preponderância sobre a cidade, um tema caro às comédias de Aristófanes. Mas a peça lisístrata, além de abrir caminho à ficção do governo feminino, apresenta para ele implicações inusitadas, que não serão encontradas nas duas outras obras de Aristófanes que tematizam o governo das mulheres. — A “Cidade das Mulheres” — 137 É bastante comum o comentário que faz de lisístrata uma propaganda do “pan-helenismo”. Contribui para uma tal opinião a reivindicação que as mulheres gregas apresentam na peça: fazer a paz, entre os gregos. O inimigo não é grego, mas bárbaro. Deve-se recuperar, pois, a postura guerreira dos primeiros tempos da cidade: aos bárbaros se ajoelharem, pois cabe aos gregos o serem homens livres. Ao defenderem a união dos gregos, não são mais as mulheres de Atenas, mas as mulheres da Grécia, que falam. Eis mais um joguete da comédia de Aristófanes: no momento em que a ligação das mulheres à cidade dos atenienses delineia com mais profundidade, são elas novamente lançadas para fora da cidade, porque só elas, por habitarem o solo de Atenas sem deixarem de se reunir como raça à parte, podem encontrar-se em sua solidariedade, para além das rivalidades entre as póleis. Para que se compreenda a figuração do feminino, em Eurípides e Aristófanes, imaginemos uma porta. Do lado de fora, o mundo bárbaro, as outras póleis, os grupos de metecos, escravos, e não cidadãos em geral, residentes de Atenas, vitais para a cidade, mas sem participação política, o que significa sem relevância para o modelo que a pólis fabrica para si mesma. Do lado de dentro, a unidade da pólis definida por sua politeía: os cidadãos agrupados em quatro classes censitárias, filhos de pai e mãe atenienses, a quem se reserva o exercício das magistraturas e que se reconhecem pelo nome do dêmos, antes que pela filiação. O solo em que a mulher pisa não é nem aqui, nem ainda lá. A figuração do feminino não apresenta uma recusa, uma negativa à mulher. Pelo contrário, apresenta a mulher sempre na perspectiva de dar um passo a frente e entrar, possibilidade que não se realiza, a não ser no teatro, para rir, para temer. Mas a possibilidade é o que há de positivo, e que permite que, em um momento, as figuras femininas dêem vívidos testemunhos de uma profunda relação da mulher com a pátria. Em outro momento, entretanto, mostram sua “queda” para o lado de fora, sua pertença a uma raça oposta ao grupo humano, sua solidariedade própria, sua proveniência diversa, estranha. A figuração do feminino no teatro de Aristófanes e de Eurípides 138 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — confere a impressão de que o lugar do feminino é o desse limiar onde o quase encontro entre identidade e diferença gera uma “fagulha”: seria o imaginário do feminino também o habitat da divergência, da diferença, não apenas como a alteridade radical que o feminino representa, mas como uma forma original da pólis dos atenienses, para construir e lidar com a diversidade ? A idéia que Lisístrata e suas companheiras apresentam ao povo reunido é, neste sentido, reveladora: [Lis.]: “Primeiro, seria necessário, como fazemos com a lã bruta lavada em um banho, após ter retirado as impurezas da cidade, sobre um leito, à golpes de bastão, eliminar os mesquinhos e separar os pelos duros; aqueles que se aglomeram e fazem tufos para chegar aos cargos, separá-los e arrancar as cabeças uma a uma; depois, reunir em uma cesta a boa vontade comum e geral, e juntando metecos e, no estrangeiro, aqueles que nos são amigos, e os devedores do tesouro, misturá-los também. E, por Zeus, quanto às cidades povoadas com colonos desta região, seria preciso reconhecer que são para nós como tantos pelos da lã caídos pelo chão, cada um de seu lado; em seguida, tomando a todos o seu fio, trazê-lo aqui, reuni-lo em uma só massa, em uma grande bola, e com ela tecer, então, um manto para o povo. “ (LIS, vv. 570-585). À primeira vista, as palavras de Lisístrata parecem seguir a abordagem tradicional do governo feminino: as mulheres farão exatamente o que, no universo doméstico, lhes é reservado. A arte feminina por excelência é a tecelagem. Fiar e tecer são atividades que a mulher traz consigo, desde a casa dos pais, onde, a acreditar-se na narrativa de Xenofonte, é preferível que ela nada aprenda. A arte acompanha a mulher desde menina, e a raça das mulheres recebe-a como dom de Atena. É enfim, o campo de saber no qual o feminino domina incontestavelmente. Nada de extraordinário, pois, seria a identificação da forma de governo das mulheres com a sua arte própria de tecer. O mais espantoso, entretanto, é o resultado da “tecelagem” para a cidade; o tipo de tecido que o fio feminino produz. A arte feminina unirá, para tecer um manto, a “boa vontade geral”: metecos, aliados estrangeiros, os contribuintes do tesouro, as cidades de colonos de — A “Cidade das Mulheres” — 139 origem ateniense, tantos fios quantos os necessários para tecer ao povo seu manto. Arte feminina, de misturar os fios diferentes em um cesto, fazendo deles uma só bola, e, dos fios entrelaçados e misturados, cobrir o dêmos. Vemos, com isso que, para Aristófanes, a “solução” da Guerra entre gregos, não reside somente no pan-helenismo, se entendermos por essa designação uma ideologia baseada na comunidade cultural do povo da Hélade. Ao utilizar-se do exemplo da tecelagem, Aristófanes capta o momento em que a arte feminina de entrelaçar fios de lã para fazer tecidos identifica-se mais com a natureza das mãos que agem no entrelaçar, a natureza feminina. Momento em que a diversidade reúne-se para formar um só; momento de instabilidade em que, no ato de tecer, ainda jaz no cesto a multiplicidade dos fios de diferentes procedências, ao mesmo tempo em que, movimentando o tear, vai-se produzindo o manto, o Um só dos diversos fios. No governo das mulheres, na atividade feminina, a unidade da cidade se quebra, e é à multiplicidade dos estatutos que se clama. Os cidadãos já não se encontram “sós”. A guerra, negócio da pólis e seus cidadãos, concerne a todos os que gravitam, de algum modo, em torno dos atenienses. Duas são as conclusõesque podem ser adiantadas. Em primeiro lugar, que a unidade em que se baseia o modelo da pólis, apesar de ter como fundamento a isonomia e permutabilidade dos cidadãos, não depende tanto quanto se poderia imaginar da exclusão das diferenças ou do mascaramento das divergências provocadoras da stásis (AUSTIN & VIDAL-NAQUET, 1986, FINLEY, 1984, LORAUX, 1993, pp. 75- 98). Em segundo lugar, que o imaginário do feminino e os topoi deste imaginário que constróem a figuração feminina nos teatros de Eurípides e Aristófanes, apresentam uma via de apreensão do modo como a cidade dos atenienses pode perceber-se, no fim do século V a. C., como unidade fundamentada em uma diversidade primordial. Eurípides e Aristófanes têm em comum, portanto, a exploração do imaginário do feminino para abordar a questão da unidade e da identidade da pólis. Mas o questionar a unidade é inseparável da formulação do 140 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — problema da cidadania: o modelo da pólis concerne apenas ao grupo de seus cidadãos, definidos pelas reformas democráticas do início do século V a.C., e pela lei de Péricles. Logo, a alteridade do feminino alterna-se com os avatares da cidadania feminina, a exclusão do feminino depara-se com suas relações profundas com a pátria, com a cidade. Logo, a questão em torno da cidadania faz emergir, sobre a relação entre a mulher e a cidade, pontos de interseção positivos, em que a presença da mulher, na pólis, ou no mundo humano, ganha atividade, ao contrário da passividade que, muitas vezes, é forçoso constatar. Esta positividade da relação entre o feminino e a cidade pode ser percebida, reunindo-se o conjunto das abordagens de Eurípides e Aristófanes, nos seguintes desdobramentos: - relação evidente entre as mulheres e a cidade, entendida como o solo ancestral, a terra nutriz . As mulheres têm um papel fundamental na temporalidade do modelo de cidade, na medida em que, por se identificarem com o que há de fixo no espaço e no tempo, elas encarnam, no teatro, o enraizamento e a imutabilidade da pólis. De certo modo, esta mesma afinidade com a imobilidade/imutabilidade, permite que o feminino assuma grande importância no seio da cidade, na ocasião em que as mulheres são requisitadas pelas festas cívicas. A ponte entre o feminino e o exercício do governo da cidade também passa, nas comédias de Aristófanes, por essa mesma afinidade. O enraizamento das mulheres, como plantas, ao solo da pátria é um tema que, relacionado ao espaço privado, à imutabilidade, à participação feminina na vida da cidade através das festas cívicas, e, por fim, à utopia do governo das mulheres, aponta para a possibilidade da cidadania feminina. Não se trata daquela cidadania que efetivamente integra à mulher à cidade, baseada em seu pertencimento à uma casa cidadã, através dos pais ou do casamento legítimo. A positividade, a união do feminino não apenas à terra dos pais mas à pólis, a cidadania, portanto, enquanto direito de dominar a pólis, é possibilidade, que sem viabilidade de realizar-se na prática, povoa, no final do século V a.C., — A “Cidade das Mulheres” — 141 as peças que tematizam o feminino nas comédias de Aristófanes. - Possibilidade do domínio feminino, ou da cidadania das mulheres. Se Aristófanes levou, em suas peças, este desdobramento ao seu limite, ao limite do governo da cidade pelas mulheres, da tomada da Acrópole, enfim, da ginecocracia, Eurípides vasculhou a presença feminina na cidade nas possibilidades (e ameaças ao mundo humano) que representava, para falar ainda do governo da cidade, da maneira como a Tragédia deve fazê-lo. As figuras femininas de Eurípides não tomam o governo. Não é, de resto, própria à trama do teatro trágico a abordagem direta dos temas que dizem respeito à Atenas. Ao fazer falar as figuras femininas, ao colocar em Hécuba um discurso político e filosófico sobre o governo dos homens, ao inverter o auto-elogio da cidade, criando para as mulheres uma bela-morte, ligada ao mérito, à liberdade e a sua existência coletiva, a arte trágica de Eurípides faz mais do que ressaltar o drama, o patético no destino trágico dos homens. Eurípides traz o feminino para dentro do mundo humano, faz da voz feminina uma voz coerente, mesmo que o substrato de seu discurso possa ser, primordialmente, duvidoso. Para além disso, a criação de uma bela-morte para as mulheres, a valorização de virtudes como a honra, a liberdade, a troca do destino feminino pela Memória da coletividade, sugerem que a dominação masculina sobre o “quinhão” feminino no mundo organizado em torno dos anthrópoi deve ser objeto de questionamento. A alteridade do feminino em sua presença no universo da pólis não é absorvida, não é neutralizada. É por isso que a virtude e a cidadania no feminino resguardam-se como possibilidades. - A oscilação entre o Outro da pólis, e a cidade como unidade. A importância de se perceber a atividade que representa, para a relação entre o feminino e a pólis, a possibilidade da cidadania feminina, deve-se retirá-la de Aristófanes. Por que a cidadania não como atuação política concreta, mas como possibilidade latente no imaginário do 142 — Capítulo 5: Aristófanes, ou Quando as Mulheres Governam a Cidade — feminino, pode ser ativa, positiva? A positividade, não é encontrada em resultados práticos — abertura política para as mulheres, atenuação das condições sociais do feminino no século IV a.C., muito menos num pretenso “feminismo”, que seria, antes de tudo, um “filoginismo” da parte de alguns gregos, autorizados a falar pelas mulheres. Nem em Eurípides, nem em Aristófanes, a exploração do feminino é uma licença à participação da mulher. Por trás das máscaras, são homens do ofício de ator que falam, arte proibida ao sexo feminino. Uma metáfora, testemunho de que, na voz do ator, não é a mulher que fala. Aquilo que liga o feminino à pólis, e que o confronto dos teatros trágico de Eurípides e cômico de Aristófanes evidencia, não é distinto da natureza própria ao feminino — a alteridade. Neste ser que pode ser, ao mesmo tempo, dentro e fora, reside uma força ativa que, no teatro de Eurípides, não é apropriada para falar da mulher, mas daquilo que é próprio ao teatro trágico questionar: o universo da pólis, lugar de constituição da lei, do discurso, da publicidade, da deliberação, e da ética aplicada à formação dos cidadãos. O que se afirma é que o teatro trágico de Eurípides não foge à relação fundamental entre a pólis e a Tragédia. Mas a maneira como ele vem ao seu encontro, evidenciando a cidadania feminina, explorando a alteridade da raça das mulheres, torna patente que, no seio da pólis, o Outro toma também o seu assento. Dentro da cidade: onde convivem cidadãos, metecos, estrangeiros de origens múltiplas, numa prova de aceitação da diversidade das culturas muito maior, e muito diferente, daquela que conhecemos. O outro que o feminino representa, na obra de Eurípides, entretanto, não é da ordem da diversidade humana. Trata-se, como já foi demonstrado no estudo de Hesíodo, do Outro da própria humanidade, outro do cosmos humano e das leis. Este Outro é abertura para o estranho e para o estranhamento, e abrir-se para o estranhamento, na pólis, é evidenciar que a unidade dos atenienses está mergulhada na alteridade: das classes censitárias, da ameaça de stásis, do trabalho escravo, da atividade econômica dos estrangeiros domiciliados. É esta ponte entre o Outro — A “Cidade das Mulheres” — 143 da humanidade e a diversidade inerente à sobrevivência da pólis que a figuração do feminino realiza, e que as comédias de Aristófanes fazem emergir. Em outras palavras, o estranhamento provocauma abertura nos quadros em que a cidade fabrica sua imagem, deixando à mostra a diversidade dos grupos envolvidos em seu cotidiano; evidenciando, ainda, através da abertura para a pluralidade, a pólis como artifício: artefato fabricado para a convivência humana segundo regras, que não são derivadas da phúsis. Porque a cidade é feita de nómos, costume e regras, não há nenhum mecanismo absoluto, que impeça a possibilidade de tomada do poder político pelas mulheres. Na figuração do feminino no teatro de Eurípides, efetua-se a tensão entre a alteridade da natureza feminina e a legitimidade da presença feminina na cidade. Esta legitimidade constrói-se pela ligação à terra ancestral, pela cidadania compreendida como proximidade à casa dos pais, pela permissão em pronunciar discursos racionais e verdadeiros, e, por fim, pela apropriação de uma areté constituinte da cidadania em nome da morte gloriosa das jovens virgens. A tensão entre alteridade e integração feminina evidencia a tensão, vital para o entendimento que a pólis faz de si mesma e para a imagem que projeta para o mundo grego, entre o modelo clássico da cidade, a identidade Atenas- atenienses, a unidade dos iguais no seio da deliberação e do discurso, por um lado, e a realidade de que a pólis é um artifício e que, por trás da cena, repousa a iminência da diversidade: cidadãos tornam-se pentacosiomedimnes, cavaleiros, zêugitas, tetas. Estrangeiros, gregos ou bárbaros, realizam negócios, enriquecem com sua riqueza “invisível” influenciando na política, assim como na filosofia. É a pólis que morre, ao dar lugar à visão de seu próprio ardil? De olho em sua cidade, mesmo quando experimenta a hospitalidade na Macedônia, Eurípides, assim como Aristófanes, prevê: esta é a pólis que vive. CAPÍtulo 6 A rAinhA dAs ABelhAs e A Arte de Bem- usAr “ A casa nos pareceu como sendo tudo aquilo que possuímos, e definimos como possessão aquilo que é vantajoso para a vida de cada um; enfim, descobrimos que era vantajoso tudo aquilo de que sabíamos fazer bom uso” (XENOFONTE, eCo, VI,4) Com Xenofonte, penetra-se no século IV a. C. em um plano discursivo diferente daquele que até o momento foi abordado. Além dos memoráveis, do Banquete, do econômico, que se apresentam como diálogos socráticos, as obras de Xenofonte incluem uma História — as helênicas — a Anabase, e alguns tratados versando sobre caça, equitação, etc. Textos técnicos, crônicas que, mesmo socráticas, chegam a ser mais éticas e políticas que filosóficas. Com Xenofonte, deixa-se, pois, o campo do teatro grego, da poesia, da tragédia, em direção ao lógos político ateniense: discurso, reflexão, saber. O econômico é a obra em questão. Escrita possivelmente fora de Atenas, entre 390 e 371 a.C., a obra narra os diálogos surgidos em vários encontros superpostos: Sócrates e Critóbulo, Sócrates e Iscômaco, Iscômaco e sua esposa. O objetivo do texto é mostrar as técnicas que aumentam as posses de uma casa, e modelam o econômico, o “ homem de bem” . Para isso, logo nos primeiros capítulos, o diálogo entre Critóbulo e Sócrates evidencia que a economia é um saber voltado para a prática, assim como o saber médico ou o do carpinteiro. Na prática da economia, as ações do homem vão sendo guiadas no sentido de sua “disposição natural ou divina” (ECO, XXI, 11) para o bem. Seguem-se, neste sentido, algumas etapas: definição de economia, casa e posse; formação da esposa; comando dos servidores domésticos e gestão da casa; formação e tarefas do “ homem de bem” ; comando dos servidores agrícolas e técnicas da 146 — Capítulo 6: A Rainha das Abelhas e a Arte de Bem-Usar — agricultura; arte de comandar. Na abordagem do texto, o ponto central sob o qual se propõe um enfoque é o da formação da esposa, pelos detalhes que apresenta, mas também pelas metáforas utilizadas, e pela comparação da mulher à rainha das abelhas. O espaço do econômico dedicado à formação da esposa deixa a impressão de uma perfeita sociedade entre homem e mulher, tornando difícil a compreensão de sua instável integração à pólis ateniense, e mesmo ao humano. Teria mudado a posição social das mulheres, por volta do segundo quartel do século IV a.C.? A importância da vida privada, da qual o econômico fornece um testemunho, seria por sua vez uma “ prova” de que o feminino desponta em direção a uma “ paridade” de direitos, a uma absorção de fato na cidade? Do econômico não se pode dizer nem que seja a regra, nem que se trate de uma utopia. Vejamos, então, como se definem no texto a economia e a formação do “ homem de bem” , para que se possa compreender a inserção da educação da boa esposa na narrativa e algumas de suas consequências para o imaginário do feminino. 6.1- A OîKONOmIA e o ANèR AGATHòS: A economia é um saber de aplicação prática, que incide sobre o modo de gerir um oîkos, uma casa. A casa não é, entretanto, somente o edifício ou as instalações da cidade e do campo, mais o grupo humano que nela vive e dela depende. A casa é tudo o que se possui, das ferramentas aos amigos. A posse tem uma definição ampla, em relação ao que entendemos como “ propriedade” , ou bens; mas é ao mesmo tempo restrita, pois só há posse daquilo que é útil, ou seja, daquilo que traz em si a possibilidade do crescimento de uma casa. Um bem, um pedaço de terra, mal utilizados, assim como um inimigo, não são posse, mas dano. A ciência da economia deve mostrar ao homem a boa utilização das coisas e dos seres, afim de aumentar a casa — aumentar a riqueza, e, aumentando a posse, ampliar as possibilidades de aquisição. A riqueza e a aquisição da riqueza traduzem- — A “Cidade das Mulheres” — 147 se, na definição da posse, por uma única palavra: ktésis. A economia, é a arte de bem usar(ECO, VI,4). Porque a arte de bem usar implica, em seu exercício, aquele que usa, o econômico não diz respeito apenas às técnicas e às coisas. A economia é um saber que forma o homem de bem, anèr kalòs kagathós, à maneira socrática: pelo exercício de rememoração que o diálogo representa, e que a utilização insistente do verbo epideiknúo, mostrar através do brilho militar ou da inteligência dos argumentos, testemunha. De certo modo, portanto, o homem de bem já o é de antemão, sendo o exercício da economia uma forma de revelá-lo, exercitando também suas virtudes. A economia é, assim, um saber ético. Pode-se desdobrar o objeto do interesse econômico: por um lado, trata-se da organização da casa e da agricultura; por outro lado, trata-se do exercício do corpo e da prática do mando. Desdobrados, mas profundamente interligados, os campos de atuação da atividade econômica desprezam o enriquecimento vindo do trabalho nas oficinas, do comércio, das atividades financeiras. Por mais ricos que se tornem artesãos, comerciantes e usurários falta a eles a disposição do “ homem de bem” : pele branca, corpo vergado, lassidão na guerra e na defesa do território da cidade, esses homens efeminados encontram-se excluídos da arte de bem usar (ECO, IV). Arte de bem usar, arte de comandar. Por inclinação natural, ou por desígnios da divindade, o econômico constitui-se no exercício do mando. Ele tem algo real, soberano. É justo, incapaz de fazer prevalecer, com seu discurso, o argumento fraco sobre o argumento forte. A agricultura é, para ele, o melhor exercício para o corpo. Trabalhando no campo, adquire vigor físico, pele amorenada pelo sol, a beleza que acompanha os homens de bem, mas também a obediência dos servidores. Pois isto é o mais difícil da agricultura: fazer-se servir, e mais ainda, fazer com que desejem de bom grado servi-lo (ECO, XI-XIV). Assim, forma-se o homem a quem se deseja obedecer. O caráter monárquico da figurado homem bom ressoa, e as comparações com Ciro, 148 — Capítulo 6: A Rainha das Abelhas e a Arte de Bem-Usar — o Jovem, dão deste fato seu testemunho. O anèr kalòs kagathós comanda, porque mostra-se na prática da agricultura, porque toma seu lugar na guerra, é justo no mando dos servidores, bem como na apresentação de queixas e testemunhos perante estrategos e juizes; porque, enfim, acresce sua casa com a finalidade de cumprir as designações cívicas: liturgias, coregias, festas, e mesmo distribuição de préstimos aos bons amigos (ECO, II, 5; XI,9.). Não é ainda um rei; mas seria um democrata? Em nenhum momento afirma-se que o homem de bem participa das Assembléias. Sócrates encontra Iscômaco sentado sob um pórtico na ágora, não à caminho de uma reunião da ekklesia. O anèr kalòs kagathós não está preparado para fazer prevalecer argumentos injustos sobre a justiça e a verdade. O econômico assume, enfim, sua destinação política. O homem de bem, possível monarca, porque vive em Atenas no início do IV século a.C. afina-se com o modelo da oligarquia. É um cidadão que, vivendo ainda em uma cidade definida pela democracia, afirma um ideal de cidadania cuja procedência não é a mesma da cidadania democrática. Os valores ligados ao anèr kalòs kagathós não são os mesmos que fundamentam a cidadania democrática em Atenas. O cidadão é, antes de qualquer coisa, sua cidade. Sua areté forma-se na medida de seu apagamento, de sua igualdade e permutabilidade, diante do dêmos. O cidadão do econômico tem nome, riqueza, casa, virtudes inerentes ao caráter. A cidadania ideal funda-se na dissimetria entre o homem bom, e aqueles que, impotentes diante da arte de bem usar/ arte de comandar, mostram-se incapazes de governarem a si mesmos e aos outros. A cidadania deixa de gerar-se, portanto, no exercício da koinonia, da publicidade, da isonomia. É uma condição do anèr kalòs kagathós, adquirida propriamente, no exercício de si e na gestão da casa. A riqueza mostra o homem de bem, e é ele quem delibera, e quem comanda. Mas no econômico apresenta-se ainda a “ mulher de bem” . É a esposa legítima, que divide com o marido as tarefas que a arte de bem usar e a arte de comandar implicam. Ao voltar a atenção para a formação — A “Cidade das Mulheres” — 149 da mulher de Iscômaco, o estudo pretende responder as questões que se seguem: a) Quem é a “ rainha das abelhas” , e que laços guarda com a mulher-abelha, de Semônides? b) Quais são suas prerrogativas, e porque utilizam-se metáforas políticas e militares para descrevê-las? c) Ao admitir a sociedade de marido e mulher no interior do gênero humano, é a alteridade do feminino que se anula no tratado de Xenofonte? d) Qual o sentido da “ alma viril” da mulher de Iscômaco? e) Que relação mantém a “ rainha das abelhas” com o “ homem de bem” ? 6.2- HEGEmòN méLISSA: A narrativa da formação da esposa ocupa os capítulos VII a X do econômico. Chamam a atenção, de imediato, pelo menos dois fatores: em primeiro lugar, a apropriação da figura da abelha para exemplificar a virtude feminina; em segundo lugar, a comunidade que se estabelece entre marido e mulher, criando para o par masculino/feminino não uma situação de confronto, mas a complementaridade natural de macho e fêmea, no interior do gênero humano (anthrópois). A mulher-abelha, de Semônides, era apresentada como a décima espécie feminina, a única realmente desejável para a coabitação humana. Maneiras sóbrias e castas, não se preocupava com comida excessiva, com maquiagens, penteados e adornos, nem dava atenção às conversas entre mulheres acerca dos atos de Afrodite. Ao contrário, juntava-se ao marido para o trabalho, e dava-lhe uma excelente prole. Contra o falatório das outras espécies femininas, oferecia boca fechada, e assentimento. Grande sonho este, o da mulher-abelha, que, no limite, poderia ser apenas mais um artifício de Zeus, imbatível em sua métis soberana. O imaginário do feminino na Grécia antiga manteve como linhas 150 — Capítulo 6: A Rainha das Abelhas e a Arte de Bem-Usar — fronteiriças os dois pólos contrários, da absoluta exclusão da raça das mulheres à perfeita inclusão das esposas legítimas, as “ mulheres- abelhas”. Encontra-se em Xenofonte, mais uma vez, o elogio à mulher- abelha que, além de apresentar os temas que constróem esta figura do imaginário, deixa emergir outros: a mulher legítima não é apenas a abelha, mas a rainha das abelhas. Não é mais uma ficção, uma possibilidade da loteria do casamento, mas uma escolha do marido, e uma aplicação do “ homem de bem” em sua educação. Por isso, o econômico mostra como se fez a escolha pela mulher certa: seus pais, por um lado, e o futuro marido, por outro, decidem uma aliança que traga frutos para ambas as casas. Elogio, portanto, do sistema corrente de aliança matrimonial, baseada no compromisso da engûe. Descreve-se, ainda, como deve ser a moça dada, desta forma, em casamento: menor de quinze anos, mantida à parte dos debates e do falatório, que nada diz e nada sabe, além das tarefas que, no interior de seu refúgio doméstico, aprendeu: a fiação, a tecelagem, e a distribuição desses trabalhos entre as servidoras. A arte de tecer é a única tarefa própria ao feminino, que não é nem pode ser ensinada pelo marido. A todas as outras tarefas a esposa se apresenta como aprendiz. A formação da esposa, ao contrário da formação do homem de bem, não é um exercício de si. Cabe ao marido formá-la, e é seu mérito que a mulher demonstre virtude. A arte de bem formar a co-gestora dos bens da casa faz parte, pois, do papel ativo do “ homem de bem” . 6.2.1- Comunidade, complementaridade: O casamento, entre o homem de bem e a esposa escolhida por ele, emerge como uma “ deposição” em comum do dote feminino, por um 1- ECO, X,7- “ […] “ os deuses fizeram dos cavalos a coisa mais agradável do mundo para os cavalos, as feras para as feras, os carneiros para os carneiros, e da mesma forma os homens não encontram nada de mais agradável que o corpo do homem, sem nenhum artifício”. — A “Cidade das Mulheres” — 151 lado, e da casa do marido, por outro. A partir da união, tudo aquilo que um e outro traziam consigo “ aparecerá” em comum (ECO, VII,13). Eis um dado bastante interessante, cuja consequência é a expressiva abordagem da relação entre masculino e feminino em termos de simetria, e complementaridade. Homem e mulher depõem em comum tudo o que trazem consigo para o casamento, formando uma nova casa, em que as tarefas masculinas e femininas se complementam. A complementaridade é irredutível. O homem não sobrevive, não realiza, não aumenta sua casa se a mulher não estiver lá, para geri-la, e mantê-la. Ao mesmo tempo, a mulher nada mantêm se não houver a atividade do homem, que realiza a aquisição. Sem a união, há uma jarra sem fundo, aonde a água derramada escoa sempre, jamais chegando a encher a jarra. Em que consiste, pois, esta necessária complementaridade? Em princípio, trata-se de uma disposição natural conferida pela divindade aos corpos masculino e feminino, na espécie humana, disposição esta que se encaixa perfeitamente ao habitat desse grupo. Para os homens, diferentemente do que acontece a outras raças animais, é necessário um abrigo, a moradia. Além deste lugar fixo que representa a casa, é preciso ainda que, para sua sobrevivência, os homens procurem fora do abrigo os meios com que viver. O espaço humano centraliza-se, pois, sobre esses dois referenciais: a fixidez da casa “ sedentária” , e a mobilidade de aquisição do sustento da casa. Homens e mulheres, cada um dentro de seu respectivo domínio espacial, têm forças e prerrogativas simétricas, ou seja, marcadas pela equivalência. Àmulher cabe o espaço do abrigo, já que é sob o abrigo que devem nascer e criar-se os filhos. Porque ela permanece do lado de dentro, cuida também de manter as provisões que o homem traz, velando pela conservação, cozinhando, tecendo. Ao homem cabem as atividades ao ar livre, como a agricultura, a guerra, e todas aquelas tarefas capazes de promoverem a aquisição legítima (justa) de bens. Mas não apenas os deuses agem para que a natureza faça a 152 — Capítulo 6: A Rainha das Abelhas e a Arte de Bem-Usar — equivalência das tarefas interiores e exteriores ao abrigo, em meio aos homens. O costume incide sobre a disposição, ao mesmo tempo natural e divina, de homens e mulheres para suas respectivas atividades: “ Os trabalhos de que os deuses te fizeram capaz — e que o costume aprova também — eis aquilo de que é preciso fazer o melhor “ . (ECO, VII,16). A força natural do feminino para as tarefas interiores à habitação é aprovada pelo costume, nómos. Mais do que uma aprovação, é o nómos que indica a utilização dessa força natural de forma conveniente. Primeiro, unindo, no casamento, homem e mulher; depois, estabelecendo as ocupações para cada sexo. A complementaridade das ocupações, do exterior e do interior, fundamenta-se, pois, nessas duas premissas: a força natural a homens e mulheres, a Convenção, o Costume, que confere à ambas as partes de uma mesma espécie — humana — sua função, seu “ encaixe” . No reconhecimento, em homem e mulher, da complemen- taridade em uma mesma espécie natural, assim como existiriam outros zòon gène (gêneros ou raças animais), a natureza estranha do feminino se perde. No tratado de Xenofonte, a divindade — Zeus — intervém na criação do humano em pares que se complementam, e que precisam unir-se para sobreviver. O nómos integra também a mulher, prescrevendo aquilo que será sua parte na coabitação e na cultura. Do imbatível ardil dos deuses à tribo dos humanos, Xenofonte parece ter-se afastado. A menção ao corpo feminino como corpo humano (anthrópou sòma)1 completa o quadro da absorção do feminino pelo gênero humano, e pelo nómos. Teria a alteridade do feminino deixado de constituir problema, para o discurso político do IV século a.C.? A estranheza constituinte do imaginário do feminino emergia como tema fundamental do teatro, no final do Vº século a.C.. Se é possível, entretanto, falar de uma construção do feminino no econômico, de Xenofonte, afirmar-se-ia que a complementaridade, no gênero humano, de princípio masculino (árren) e feminino (thêlu), obscurece a força do thaûma original da raça das mulheres. O lugar próprio ao génos das mulheres, que se isola em — A “Cidade das Mulheres” — 153 relação ao universo do nómos humano, estaria perdendo seu sentido. Ou então, seria necessário admitir que é próprio ao teatro, trágico ou cômico, apropriar-se do mito para constituir o feminino como alteridade. Que, ao contrário, o lógos político de Xenofonte reunifica masculino e feminino dentro do nómos, deixando como que esquecido o estranhamento inerente ao gênero feminino. Para melhor integrar, mas também para fazer aparecer, não o princípio da diferença sob a unidade, mas o domínio a que a mulher de bom grado deve se submeter, no interior do espaço doméstico. A visão do teatro acendia uma chama de alerta para o fato de o espaço do feminino ser o seu domínio, e do aposento mais familiar poder se transformar em armadilha. A casa do econômico é ainda o domínio da soberania feminina, mas de uma soberania totalmente apropriada, no sentido do exercício de si que este mesmo “ tratado de economia” propõe ao homem de bem. 6.2.2- o governo da casa: mulher-abelha. A mulher-abelha que Xenofonte apresenta, sem nome, é ainda a mélissa, representação tradicional das virtudes femininas — castidade, comedimento. O econômico acrescenta, no entanto, à figuração da mulher-abelha mais uma qualidade: a do mando. Comandar os servidores, organizar e governar a casa, são como exercícios que fazem da boa esposa uma rainha das abelhas. O aprendizado da esposa de Iscômaco não envolve, simplesmente, a indicação de suas ocupações no interior da casa. As tarefas em si são enumeradas, somente após as lições fundamentais, de como fazer-se de bom grado obedecer pelos servidores, de como organizar os bens da casa como o comandante de um barco, ou chefe de um exército, de como formar bons servidores, assim como a cidade tem os guardiães de suas leis, enfim, de como manter, no corpo, uma beleza natural, longe dos artifícios da maquiagem, através de exercícios. Na formação da esposa, assim como na do homem de bem, 154 — Capítulo 6: A Rainha das Abelhas e a Arte de Bem-Usar — novamente se depara com a arte de comandar. As metáforas utilizadas — exército, barco fenício, rei da Pérsia, e cidade — demonstram o que a formação da mulher implica. O domínio sobre a gestão doméstica, parte feminina na partilha das tarefas, não é uma parte menos importante. A gestão feminina reivindica, como no caso do “ homem de bem” , a formação daquele que domina. A soberania feminina na vida doméstica implica, portanto, a formação, o exercício, da mulher abelha para uma tal soberania. Como se um campo de preponderância feminina se abrisse sobre a própria hegemonia masculina. É ao homem que cabe a formação de sua esposa, mas, como no diálogo, Iscômaco afirma “ Eis o prazer mais doce: mostrar-te superior a mim, fazer de mim teu servidor, não ter a temer, assim, que, chegada a idade, tu sejas menos considerada na casa […]” (ECO, VII,42) Aparecer melhor, fazer do homem um servidor. Não como um escravo (doûlos), mas como um gentil-homem, theraponta, aquele cuja nobreza permite reconhecer uma “ alma nobre” , e curvar-se a ela. Um jogo de hegemonias, em que o homem sai na frente, atuando na própria construção da “ rainha das abelhas”, e cujo fim é o reconhecimento de que, por suas virtudes, a mulher garante seu lugar melhor, superior. Mas para chegar ao fim do jogo como verdadeira rainha é a passividade, o assentimento, a conformidade com a ação masculina que criam, na mulher, as condições do reinado. A complementaridade, em lugar da oposição e do conflito, fundamenta, no econômico, a possibilidade de reconhecimento de uma soberania feminina. Uma soberania em que o governo, a realeza, a organização dos atos de governo correspondem a tantas outras virtudes da mulher-abelha. Tornar-se a rainha das abelhas não é, entretanto, façanha comparável à de Agave, mulher rainha que caça e dilacera, com suas próprias mãos, o filho rei; ou Hécuba, rainha que lidera as mulheres de Tróia na loucura assassina dos filhos de Polimestor; ou Fedra, que vela o discurso produzindo um falso testemunho através da escrita. A rainha das abelhas não é nem mesmo comparável às tesmóforas de Aristófanes, — A “Cidade das Mulheres” — 155 deliberando para a cidade. A soberania e superioridade da mulher-abelha só podem se dar na apropriação do modo de ser feminino (ou aquilo que o imaginário produz como raça das mulheres) pelo discurso político, destinado aos homens da cidade. A educação da mulher-abelha para a direção do oîkos é plena de exemplos retirados da vida militar, e do governo da cidade. A ordem do navio, o arranjo das fileiras de hoplitas, a localização dos artigos na ágora, a fiscalização do cumprimento das leis: eis os parâmetros que balizam a arte feminina do comando. Mais uma vez, é preciso contrastar o econômico às obras de teatro de Aristófanes, para que sobressaia a diferença na abordagem do feminino, quando se trata da abelha, ou quando trata-se do génos gynaikôn. A soberania feminina, enfocada pela comédia, traz consigo o germe da ginecocracia; as diretrizesdesta soberania são tomadas não ao universo da guerra, da pólis, ou da ágora, mas ao mundo que, até mesmo em Xenofonte, é propriamente feminino: universo da tecelagem, das atividades de gineceu. Tratar da soberania da rainha das abelhas é, no econômico, demonstrar que um governo, uma virtude, um domínio do feminino deixam de ter sentido fora do espaço ao qual se adscreve sua dúnamis: o interior do espaço doméstico. A complementaridade entre masculino e feminino para a vida humana, aliada à formação da esposa para o governo doméstico, apresentam o feminino, excluída a possibilidade do artifício através da ação formadora do “ homem de bem” , como parte integrante da constituição do homem, em sua ética, para a gestão da casa, para a política, para a guerra. Do jogo que entrelaça soberania feminina e formação do anèr kalòs kagathós, surge, portanto, a figura da mulher-abelha. Comedimento e Castidade, Justiça e Mando, são alguns de seus atributos. Seu corpo, humano, é objeto de exercício. Sem maquiagem, saltos ou penteados, o corpo da mulher adquire beleza e vigor na firme realização das tarefas domésticas: amassar o bolo, fiscalizar os trabalhos, contabilizar as provisões. Às virtudes da mulher ideal, vem juntar-se sua propensão natural à vida no interior do abrigo e, portanto, sua adscrição convencional 156 — Capítulo 6: A Rainha das Abelhas e a Arte de Bem-Usar — ao espaço privado. Com sua beleza, oriunda da sophrosyné, com o governo que exerce sobre os servidores, aprendido na escuta e na obediência àquilo “ que deve ser” (ECO, VII, 8), a mulher-abelha pode considerar-se formada. Mas ainda, saindo desse mesmo jogo, em que o homem torna-se bom, em que a mulher mostra-se em sua virtude, qual o sentido da gênese da rainha das abelhas para a afirmação da equivalência do feminino, da aplicação de sua força na arte de bem usar? Em uma passagem aparentemente despretensiosa, o econômico deixa transparecer, através de um elogio, uma dúvida sobre a mulher ideal. Sócrates é quem exclama, “ Por Hera, Iscômaco, tu nos mostras em tua mulher uma alma verdadeiramente viril.” (ECO, X, 1). Hera, a potência da união conjugal, é clamada a testemunhar a virilidade de reflexão e pensamento apresentada pela esposa de Iscomâco. A mulher-abelha, ao cabo de sua descrição, mostra-se bem nisto: um modo de vida viril. Pode-se já perceber o sentido que Sócrates confere à formação da esposa ideal, da rainha das abelhas. Não que a mulher- abelha deixe de ser mulher, como gênero feminino, feminina no corpo e na forma. O sentido da virtude que produz o homem livre, anèr kalòs kagathós, ao ser aplicado na construção da esposa deste cidadão ideal, não perde seu caráter essencialmente viril. Trata-se efetivamente do significado socrático da conquista da liberdade através do governo de si, da temperança da alma que controla as paixões que fazem do homem um escravo. Na produção de um lugar na cultura para o feminino- complemento, Xenofonte atualiza a mulher-abelha. Mas, mesmo em Xenofonte, a mulher que perfeitamente se integra, deixando-se guiar em sua formação, transformando-se pouco à pouco em soberana do espaço doméstico, só pode ser o complemento do humano à custa da perda das características que mantêm o conflito entre masculino e feminino, e trazem consigo o risco da união da raça das mulheres. A mulher viril é aquela a quem se confere a equivalência na vida humana. Isto é possível porque, ao demonstrar sua virtude, ao aceitar — A “Cidade das Mulheres” — 157 as lições do marido, e exercitar-se afim de se formar como a esposa do “ homem de bem” , a mulher já se encontra despojada de suas características. Ou seja, encontra-se afastada daquelas características que fazem a alteridade do feminino, e a possibilidade de união da raça das mulheres no conflito com o masculino. Pode-se perguntar se, ao final da caracterização da rainha das abelhas, é a integração do feminino que efetivamente se alcança, ou ela não ultrapassa a própria utopia do econômico: possibilidade de haver, dentre as mulheres, aquelas que se portam, diante da virtude feminina (politicamente) apropriada, de maneira viril. Aquelas, enfim, cujas qualidades se constróem não a partir da origem do feminino, mas do apagamento da diferença originária, em prol da “ complementaridade” entre macho e fêmea. Assim como na república de Platão pode-se observar que os saberes próprios às mulheres não se prestam a uma investigação, e não entram na conta da educação das crianças, no econômico também não há lugar para a abordagem dos saberes que a mulher traz consigo, que não aprende com o marido. A república, como o econômico, tem propostas bastante semelhantes em relação às mulheres: em ambos os casos, uma certa equivalência de capacidades se ressalta. É, de resto, curioso perceber como, em duas obras do IV século a.C., a inclusão da mulher no espaço social realiza-se à custa de suas prerrogativas mais originárias, mais arraigadas na procedência mítica da raça das mulheres. Seria o fim da alteridade do feminino? Ter-se-ia encontrado o ponto em que imaginário do feminino perde-se da relação com o Outro? 6.3- A rAinhA dAs ABelhAs e A AlteridAde do femini- no: É possível tentar uma resposta a questão da relação entre feminino e alteridade, a partir da reflexão sobre o circuito cultural desses dois planos distintos, que são o teatro e o discurso político. Se o imaginário do feminino oscila entre o estranhamento e a integração/submissão, o teatro 158 — Capítulo 6: A Rainha das Abelhas e a Arte de Bem-Usar — enveredaria mais comodamente pela perspectiva do estranhamento, enquanto o lógos político se apropriaria das imagens da integração e do domínio sobre o feminino. O enfoque do teatro embaralha as imagens que a cidade produz de si mesma, joga com o fundamento da ação humana da escolha, colocando-a à beira do abismo do acaso e da necessidade. Nesta abordagem, a duplicidade da figura feminina comportaria um “lugar de discurso” bastante rico para o lance das peças em jogo: identidade/ diferença, decisão/acaso. O teatro de Eurípides, que mais propriamente baseou essas oposições sobre o solo do imaginário do feminino, fez emergir a partir dele a problemática da cidadania feminina, desvendando os avatares de uma positividade da presença feminina na cidade. O teatro de Aristófanes aprofundou esses mesmos dois temas, fazendo da relação alteridade/identidade do feminino um meio para que a própria cidade surgisse em seu artifício: a imagem da pólis vinha de encontro à pluralidade do cotidiano que pretendia representar. A artificialidade da cidade emergia quando a diferença dos estatutos, e não a isonomia dos cidadãos, mostrava-se como um de seus mais instáveis alicerces. E à mulher cabia tecer o fio da unidade, sob o novelo, por ela também formado, da alteridade, diferença, e multiplicidade. O discurso político se produz a partir de uma problemática diversa. Seu campo de enunciação não se localiza nesse entre, onde a pólis se forma como cidade, opondo phúsis e nómos, bárbaros e gregos, cidadãos e não cidadãos. O discurso político, assim como o discurso histórico, fabrica-se de dentro do nómos, da cultura. Para este nómos, o feminino deve esgotar-se na mulher-abelha. Mas até que ponto, na apropriação política da mulher-abelha, anula-se a possibilidade do Outro do feminino? É mais compreensível a constatação de que a relação do feminino com figuras da alteridade inscreve-se com mais força, quando a cidade democrática vive o seu apogeu. Quando os parâmetros que enquadram as práticas cotidianas emergem a partir da publicidade da vida, da deposição em comum das leis, do debate, da deliberação entre os cidadãos autóctones— A “Cidade das Mulheres” — 159 e iguais. Mas ao longo do século IV a.C., o cotidiano econômico, social, cultural da cidade encontra suas diretrizes voltadas não tanto mais para as Lareira Comum, mas para os lares privados. Quando o estudo das representações iconográficas, dos discursos, da cultura material, enfim, demonstram que o espaço centraliza-se cada vez mais na casa, a figuração do feminino como modo de vida próprio ao espaço privado torna difícil a visualização da mulher como ser cujo estranhamento é latente. Não tanto porque tenha-se dissolvido, no imaginário, a procedência mítica das descendentes de Pandora, mas porque aquilo que pode estar se transformando é a própria pergunta, ateniense, pela identidade. Pergunta que, durante todo o período de vigor do teatro trágico, tendeu a unir, em uma mesma enunciação, as representações opostas da igualdade e da diferença, da unidade e da pluralidade, da autoctonia e do estranhamento, da decisão e do destino. O feminino, no teatro de Aristófanes e de Eurípides, era construído de modo a representar um lugar em que fosse possível haver o encontro de igualdade e diferença, de unidade e pluralidade, de identidade e estranhamento na cidade. Porque o feminino encontra-se no interior da pólis, e tem a prerrogativa, latente, de assumir a arché, ele pode ser chamado a apresentar a cidade como a pátria, a ser defendida, a ser contemplada. Mas porque sua proveniência guarda para a raça das mulheres a afinidade com o espanto e a armadilha, o feminino habita o solo dos mortais como “ ameaça” latente de desorganização do nómos. Se a cidadania democrática produz, ao longo do século V a.C, para si e para os outros, aliados ou inimigos, uma imagem fundada na igualdade, na unidade, na autoctonia, na deliberação, ela elege a figuração do feminino, no teatro, para abrir-se à vizinhança de seu outro. Em que consistirá, porém, a cidadania democrática em Atenas, na experiência dos contemporâneos de Xenofonte? Xenofonte, assim como Platão, ao colocar a cidadania em discussão, propõe não um ideal de cidadania, mas um modelo de cidadão. O teatro de Eurípides já apontava, em helena, para a possibilidade de se deslocar a questão da cidadania, da ação política para a formação ética do cidadão. Voltando à pergunta inicial: a “ mulher-abelha” de Iscômaco pode ainda ser considerada uma figuração da alteridade do feminino? Das tribos de mulheres, de Semônides, a das abelhas constituía-se como a única a qual não cabia reprovação alguma. Mas a própria armadilha inerente ao feminino fazia dessa tribo uma das mais suspeitas: como garantir que um homem tenha a seu lado a mulher-abelha, se todo o feminino não é além do que um conjunto de ardis? Por isso, a mulher- abelha de Iscômaco só pode se distinguir da alteridade do feminino a troco de perder-se do próprio feminino: trata-se de uma alma viril, não de um corpo de mulher. Portanto, a ambiguidade do feminino permanece. A alteridade do feminino, continua latente. ConClusão: Concluir o presente estudo é como recomeçar. Ver de novo aproxi- mar-se o ponto de partida, e perceber que a discussão das questões pro- postas, bem como a demonstração das hipóteses principais, evidenciou a necessidade de se formular novas perguntas. A princípio, pertencia à tarefa realizada o estranhamento em ver o feminino representando um papel de tamanha importância, através do teatro de Eurípides, no cerne da vida pública — e política — da cidade. Espaço público e, portanto, lugar cujos temas postos em discussão através da cena seriam capazes de traspassar a pólis e, para além dela, o mundo grego como um todo pela repercussão do teatro ateniense. Do imbatível ardil dos deuses ao solo da pátria em ruínas, a obra dos teatros trágico e cômico, de Eurípides e Aristófanes, no final do século V a.C. parece ter concedido lugar de destaque a abordagem do feminino. Ao mesmo tempo em que o feminino entra em cena, delineiam-se os con- tornos da cidadania democrática ateniense, posta em confronto consigo mesma; posta em debate. Deste confronto, sobressaem-se duas questões: a da possibilidade da cidadania feminina, por um lado; a da percepção da alteridade no seio da pólis, por outro lado. O feminino inscreve-se dentro deste campo como uma fronteira, um lugar, um topos da alteridade. O Outro dentro da pólis, dentro da isonomia e da unidade dos atenienses. A presença da alteridade do feminino na pólis faz emergir a alteridade constituinte da própria cidade. Não há organização, não há convívio humano, sem que ele se con- ceba como nómos. Pode-se falar, como Heródoto, em diversos nómoi segundo as diversas culturas, como sinônimo de diversos costumes. Mas o génos gynaikôn não se compreende como um nómos diverso. Por sua procedência, ele é o último “presente” dos deuses para o estabelecimento da condição humana. Ele se insere, pois, no Costume, sem pertencer de fato a ele. É um ser que lembra o embuste e o engano, instalado na casa 162 — Conclusão — do homem pelos deuses, na partilha dos mundos e das prerrogativas narrada na teogonia. Com a alteridade feminina, Eurípides explora a irrupção do estranho no seio da cultura. Coloca suas figuras femininas nas bordas do estranha- mento e da oposição ao masculino. Mas ao mesmo tempo, opta por falar à cidade e seus cidadãos incidindo sobre o questionamento da cidadania e da ação política com a figuração da mulher.. Na representação da ligação mais pura e imediata dos atenienses a Atenas, as tragédias de Eurípides inserem um “intruso”, que se mostra por demais familiar com o solo da cidadania para que seja possível questionar se a cidadania feminina adscreve-se simplesmente à casa paterna e aos ritos sagrados da pólis. Em outras palavras, questionar a alteridade do feminino implica, nas peças de Eurípides, formular como problema a dimensão política, coletiva e cidadã da mulher. O feminino surge, ao cabo, como um”portal” entre o dentro e o fora da pólis, e com isso ainda manifesta sua ambiguidade originária: ser indefinido, entre feras, homens e deuses. A definição de como o Outro pode ser fundamental para a con- strução mesma da cidadania democrática delineia-se no encontro das abordagens de Eurípides e Aristófanes. Este poeta cômico revela ainda mais o problema. Traz para a cena a ginecocracia, ou a possibilidade e legitimidade do governo feminino da cidade. Demonstra, ao mesmo tempo, a impossibilidade em pensar a cidade como um grupamento de dois “gêneros”, homem e mulher: a pólis, ou é do dêmos, ou bem é das mulheres, do dêmos das mulheres. A própria alteridade feminina con- fere os contornos da ginecocracia, e explica a cidadania feminina como possibilidade. A ação feminina de governo e decisão evidencia, por seu lado, o próprio artifício em que a pólis se fundamenta: a cidade assenta- se sobre a diferença e a multiplicidade. A cidadania feminina define-se no interior dos quadros da publici- dade, nos quadros de uma cumplicidade com a pólis, e não apenas como uma “questão privada” de casamento e vida doméstica. Ao discutir a presença feminina na cidade, discute-se a pólis, a cidadania e a demo- — A “Cidade das Mulheres” — 163 cracia; angustia-se com a dissolução da cidadania ateniense, pela própria diluição de seus fundamentos no contexto do mundo helênico do final do Vº e do IVº século a.C.. Não se pensa em dar as mulheres o direito de voto. Mas utiliza-se da figuração do outro no feminino para ter condições, para tornar possível enxergar a pólis desde o fundo, evidenciando assim que a pólis é também diferença e mascaramento. Mascaramento, como nómos. O artifício do costume é o de organizar um cosmos em que se desdobre o convívio humano, tornando possível a existência una emsociedade. A diferença é lançada para fora, mais em Atenas, menos em Esparta, mas faz parte da cidadania, seja democrática ou oligárquica, a exclusão do diferente. O domínio da pluralidade, do estrangeiro, do estranho, habita fora da politeía. Neste sentido, a pólis ate- niense, nas vozes ditas no palco organizado pelo poeta Eurípides, dizem o nómos em seu mascaramento, propõem-no como tal, lembram que, diante da pólis, ergue-se um imponderável acaso. A mulher é o operador desta imagem. O feminino é o campo em que o discurso político do teatro de Eurípides pode evidenciar o acaso e o artifício, a derrocada sempre possível do nómos. A cidadania clássica ateniense deveria, portanto, ser retomada como questão, a partir da perspectiva do teatro do final do século V antes de nossa era. Não pode ser interpretada apenas em sua acepção mais “moderna”, privilegiando a isonomia e a isegoria, já que para nós mesmos a igualdade e a soberania do povo, o voto universal, definem uma democracia que não é ateniense. A cidadania, no contexto da pólis ateniense, deve ser compreendida como o artifício que, envolvendo o abrupto e o permanente, o outro com o mesmo, determina-se como um lugar aberto a possibilidade da diferença e do estranhamento. Com isso, entram em discussão os próprios mecanismos de exclusão que a pólis democrática opera, para manter o plano dos iguais por sobre a vivência cotidiana da pluralidade, da diferença, da alteridade. É assim também no teatro de Aristófanes. A metáfora da tecelagem do manto junta por sobre a tarefa feminina uma pluralidade de estatutos, demonstrando que a compreensão da pólis se abre para abarcar uma 164 — Conclusão — imensa gama de não cidadãos. A pólis ecumênica… não nos adiante- mos tanto. O teatro de Aristófanes confirma a capacidade do feminino em tornar presente a alteridade, e, por sua inserção na cidade, trazer a alteridade para o centro da compreensão da pólis. Além disso, se o femi- nino chega a tomar para si prerrogativas políticas, arché e areté, ele se contrapõe ao masculino, mostrando que a pólis, o “clube de homens”, não é a organização natural e solidamente estabelecida da cidade. Isto significa dizer que a cidade poderia não ser o “clube de homens”? Basta que os cidadãos esqueçam-se daquilo que os une à pólis — a honra, a glória, a autoctonia, a decisão, etc. — para que se lhes lembre, na forma velada do riso, que a cidade das mulheres está lá, pronta para colocar-se, com brilho e fulgor, no lugar não de Atenas, mas dos atenienses. Ao apresentar-se para a cidade no espaço do teatro, o feminino divide-a ao menos em dois: pólis e patrís, democracia e ginecocracia, dêmos tôn athenaiôn e dêmos tôn gynaikôn, duas partes na chóra. Esta habilidade em dividir, em cindir, em evidenciar a diferença, é uma das prerrogativas próprias ao feminino que Aristófanes, como Eurípides, em- prega, para falar da cidade à cidade. O que esta habilidade pode realizar, podemos avaliar pela obra de “tecelagem”, proposta em Lisístrata: através do fio da lã, tecendo um manto, a mulher reunirá sob sua obra todos — clerucos, estrangeiros amigos e domiciliados. Isto porque faz parte do feminino a evidência do diferente, e por isso, somente a arte própria ao feminino, aquela que lhe é conferida na origem (a Pandora) por Palas Atena, pode novamente reunir. Através do feminino, portanto, Eurípides e Aristófanes mostram da cidade, uma imagem feita de multiplicidade. Um sinal dos tempos? É bem possível que a iminência das dissenções internas, a perda do poderio ateniense, tenham provocado essa racha- dura na imagem una e isonômica do grupo de cidadãos e da cidadania ateniense. Mas o fato para ser registrado é o de que fazendo o feminino apropriar-se do krátos, dobrando a pólis à potência das mulheres, a cidade surge como reunião do múltiplo, e não como exclusão, na demarcação do grupo dos isói. O consenso dependerá, então, da visão da diferença? — A “Cidade das Mulheres” — 165 Ao menos é o que o manto de Lisístrata sugere. Sugere que a cidade das mulheres abriga sob a obra feminina de governo, a pluralidade. Entre as peças de Eurípides, Aristófanes, e o texto do econômico de Xenofonte, o feminino assume, pois, um papel importante no diálogo com a cidade.Em todas essas proposições, a mulher é um instrumento, e o imaginário do feminino um operador capaz de colocar frente a frente a unidade da cidadania com o seu artifício e com a diversidade. Esta operação com o imaginário do feminino, desvenda as vias pelas quais torna-se possível conceber a cidadania feminina como possibilidade legítima. Desvenda a potência que o feminino apresenta, quando posto frente a frente com a cidadania e a pólis, de dobrá-las ao universo das mulheres. Para construir a vivência da pólis sobre a figuração do feminino, a mulher assume as prerrogativas de provocar o estranhamento (Medéia, as bacantes), diferenciar (Praxágora, Lisístrata, etc.), inserir no universo do lógos masculino um discurso feminino feito de ambiguidade (Fedra), evidenciar a oposição entre a verdade e o engano (Helena, as bacantes), reverter, portanto, os tópicos de identificação da pólis como organização humana. Evidenciando a oscilação e a ambiguidade inerentes à constitu- ição do Costume, no movimento de questionamento da cidade não é só o universo masculino que entra em questão, mas a própria relação que faz da mulher um ser que vive na pólis. A presença da mulher na cidade oferece-se aos olhares e ao debate, nas possibilidades que se apresentam de o feminino apropriar-se da ar- ché (ginecocracia). A mulher que se apresenta à coletividade da pólis e fala da pátria, baseia-se em uma relação profunda com o solo ancestral, nutriz dos cidadãos autóctones . A mulher instalada no oîkos do homem chora pela cidade, e coloca diante dos governantes os exemplos de ação e vida nos quais devem se espelhar, para trazer em si as marcas da pólis: hegemonia, brilho, memória, liberdade, e honra. A jovem não submetida pelo casamento, pequeno animal meio selvagem/meio domesticado ofer- ecido ao sacrifício, metamorfoseia seu destino, sua condição feminina, e torna-se livre para ser lembrada pela virtude, pela “bela-morte” em nome 166 — Conclusão — de seu biós político, em nome da liberdade da própria coletividade. No limiar que representa, entre a cidadania e a alteridade, o feminino toma partido do estranho, da diferença, da ambiguidade, da pluralidade dos estatutos. Em cada caso, não é o universo privado e doméstico da mul- her que se evidencia, mas a presença pública da mulher na pólis. Assim, nos parece lícito afirmar a cidadania feminina a partir da relação própria entre o feminino e o imaginário político na Atenas clássica, constituída sobre esta alteridade que a mulher presentifica. Se a cidadania feminina é “feita” a partir da experiência da alteridade, a relação própria, ligação sem intermediários, do feminino à pólis, desvenda, na compreensão da cidade como cosmos humano, um fundamento de estranhamento, de alteridade. Desvenda a compreensão do convívio humano estabelecido na pólis como artifício, como mechané. Não é sem sentido que, em Atenas, fez-se representar aos pés da estátua da deusa epônima a relação entre a autoctonia e a alteridade radical, unindo Erictônio a Pandora. Tanto a identificação dos cidadãos ao solo nutriz da pátria ateniense, quanto a presença do estranho no seio da organização humana dela derivada, são duas faces de uma mesma vivência política. O modelo tradicional da cidadania democrática ateniense baseia-se na evidência da exclusão da mulher, entendida no âmbito da inferioridade do feminino. Como se excluir e dominar fossem atos que construíssem a representação do superior e do inferior. A “inferioridade”feminina tem origem na construção do “modelo clássico “de cidadania democrática, por uma sociedade que não é de forma alguma a grega, mas a nossa própria sociedade a partir do século XIX. Para que seja possível recolocar o tema da exclusão feminina da cidadania ateniense, é preciso em primeiro lugar, deixar de lado a correlação exclusão/inferioridade. Mais ainda, é preciso conferir ao discurso “masculino” dos gregos a “permissão” para dizer algo sobre o feminino. Para abrir um campo de visibilidade para além daquilo que é evidenciado pela própria relação de dominação. Não que não haja a relação de dominação. Mas não se deve transfor- mar sua constatação em um ponto final na investigação sobre o feminino, — A “Cidade das Mulheres” — 167 ainda mais em uma sociedade de domínio masculino, cujos poucos testemunhos sobreviventes são frutos deste domínio. Deve-se deixar em aberto a possibilidade de que, sob a ideologia da dominação de um gênero sobre outro, transpareça mais do que a intenção da dominação, transpareçam as próprias estruturas de formação dos discursos, que são culturais. A visão da dominação pode esconder, se não admitir que os discursos dizem mais do que querem dizer, o que a cultura grega produz de próprio sobre o feminino. Este “próprio”, o estudo do teatro de Eurípides, e de Aristófanes, na relação que mantêm entre feminino e alteridade, sugere da seguinte forma: no final do período clássico da democracia ateniense, a figuração do feminino tem lugar no espaço do teatro para conferir visibilidade à pluralidade dentro da pólis. Lembrando o artifício humano constituinte da cidade, é ainda a relação entre o feminino e a pólis que na questão do artifício, do múltiplo, se introduz. Por isso, ao mesmo tempo em que desvela a alteridade, o teatro aborda as vias de possibilidade da cidadania feminina. Esta cidadania enraíza-se na compreensão da pólis como patrís, que não se esgota na constatação da atividade religiosa das mulheres como fundadora de uma “cidadania civil”. A asté pode não ter o “nome de Atenas”, mas tem, no interior da própria exclusão da esfera da arché na democracia, o lugar da “latência”, da possibilidade de que a democracia, confrontada com o múltiplo que pretende excluir, dobre-se à potência do feminino. Um ramo de oliveira, um fio de lã. Na pólis ateniense, estes eram símbolos do nascimento masculino e feminino, respectivamente. Cada um desvenda, no imaginário, uma vivência da cidadania na pólis ateniense. Espera-se ter suscitado, com o estudo sobre a perspectiva feminina da cidadania ateniense, revelada pelo teatro do final do Vº século a.C., a reflexão sobre a parte que o “fio de lã” reserva ao feminino que, sob seu signo, se revela a comunidade. Não se deve colocar a questão da cidada- nia feminina nem sobre a pretensa complementaridade homem-mulher, proposta por Xenofonte, nem tanto apenas sobre a exclusão. Não se 168 — Conclusão — deve, de resto, fazer do oîkos grego um correspondente do nosso “espaço privado”. Se assim for feito, estar-se-á negando a relação ativa que o feminino mantém com a pólis ateniense clássica, já que a compreensão da oposição espaço público/ espaço privado torna o lugar do feminino alheio ao universo político. É preciso retomar o tema da relação oîkos/ pólis, para que seja possível estabelecer as implicações políticas das atividades “privadas” ligadas a presença feminina na cidade. O presente estudo propôs-se a percorrer as malhas que uniam a alteri- dade do feminino à construção da pólis em sua identidade, descobrindo, por essas malhas, a cidadania da mulher como possibilidade, a multipli- cidade como alicerce da cidade — este artifício humano. Demonstrou- se, ainda, como a abordagem do teatro grego em sentido histórico pôde evidenciar, sob o consenso da exclusão da mulher na cidade grega do período clássico, a riqueza do imaginário do feminino, e a irrealidade dessa exclusão absoluta, através da relação positiva do feminino com a cidadania, e a cidade. Resta deixar como questão apenas formulada, a das possibilidades abertas a partir do encontro entre Eurípides, Aristó- fanes e Xenofonte, para acompanhar as transformações que os séculos seguintes viram acontecer na fabricação da alteridade, em Atenas e no mundo grego unido sob a hegemonia da Macedônia. Sabe-se que o teatro de Eurípides foi insistentemente retomado nos períodos posteriores da civilização grega, bem como na antiguidade romana. Mas é evidente que as questões postas à pólis ateniense clássica assumem um outro sentido no universo helenístico das póleis. Falou-se de pólis ecumênica, no sentido de que a helenização, sejam quais forem seus limites, englobou, no ideal da vivência da pólis a presença da di- versidade, da multiplicidade. Para além desta diferença, há várias outras, como por exemplo o fato de a pólis não subentender mais a autonomia, mas a submissão a uma autoridade superior. Seria a “popularidade” de Eurípides, e de Aristófanes mesmo, nos meios helenísticos e romanos, fruto de uma atenção em relação a um passado “ideal” da cidade grega? Uma aspiração ao “classicismo”? Um — A “Cidade das Mulheres” — 169 retorno ao passado? Ou teriam as obras de Eurípides e Aristófanes algo a dizer para aquela civilização nova, cuja vivência do político e do co- letivo havia-se transformado? Em que medida a apropriação helenística e romana do teatro ateniense modificou o significado profundamente político do teatro? Ou seria melhor reformular a pergunta: em que medida o teatro de Eurípides e Aristófanes pôde constituir veículo da experiência política vivenciada no período helenístico, e no período romano? Poder-se-ia continuar estendendo a influência do teatro grego por diversas épocas: renascimento, classicismo, século XIX, nós… o que a experiência do feminino, presente no teatro grego do final do século V a.C. tem a nos dizer, transcorridas tantas eras, de progresso para uns, de declínio, para outros? De fato, a experiência grega do feminino, e sua relação com a cidadania, emerge a nossos olhos como um grande espaço aberto ao questionamento, onde o viajante encontra-se apenas embar- cado. A necessidade da viagem, sua meta? Certamente não diz respeito apenas aos gregos antigos, como cultura “morta” (sic). A viagem, quem a realiza, quem a torna imprescindível, é a atualidade do problema (da alteridade, do feminino, da cidadania). Pois o teatro grego do final do século V a.C., em sua abordagem do estranhamento do feminino, fala a quem tem ouvidos para escutar seu chamado. E a visão, a audição, assim como os outros sentidos, tem também sua época. O chamado que conduz ao feminino no teatro de Eurípides e de Aristófanes, evidencia que a história não se faz apenas sobre a dimensão do que “foi”. Ela se fabrica ainda na dimensão daquilo que “é”, a atualidade, e daquilo que vai ser, como porvir cotidianamente já em construção. Portanto, o fim do estudo não é a resposta, mas a “próxima” pergunta. Deixa-se, portanto, as questões formuladas ao longo deste trabalho como base de pesquisas futuras. BiBlioGrAfiA: A) fontes: A.1) Hesíodo: - os trabalhos e os dias: (trad. 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