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Serviço de Seleção do PeSSoal da Marinha ano 03 - número 03 - 2015 - iSSn 2238-1139 Psicologia Revista Naval Em Destaque Serviço de Seleção do PeSSoal da Marinha Praça Barão de ladário, s/n° - Complexo do 1º distrito naval (edifício almirante Prado Maia) Centro - CeP 20091-000 - rio de Janeiro - rJ - Brasil Tel.: (21) 2104-5393 www.sspm.mar.mil.br - www.sspm.mb revista naval - Psicologia em destaque - ano 03 - núm ero 03 - 2015 - Publicado pelo Serviço de Seleção do Pessoal da M arinha Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 1 Psicologia Revista Naval Em Destaque A Revista Naval de Psicologia registra um valoroso feito do Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha (SSPM) na trajetória dos 63 anos de existência. As excelentes pales- tras apresentadas na 17ª Jornada de Psicologia, realizada entre 19 e 21 de agosto de 2014, que teve como tema: Atividades de Risco: “O ser humano em evidência”; e a premiação dos vencedores da 3ª edição do Concurso de Artigos Técnicos, cujo tema foi “Clima Organizacional e suas implicações no ambiente de trabalho”, são marcos importantes para a publicação de nossa Revista. O tema da Jornada (Atividades de Risco) muito tem a ver com o futuro planejado para o SSPM, no qual se pretende valorizar a implementação da “Psicologia Operativa”, que tem no arcabouço atividades operativas onde a presença do Psicólogo se faz necessária. Para tais atividades, o SSPM já realiza assessoria para a Marinha, mais diretamente, nos campos da aviação, submarino, mergulho, antártica, opera- ções de Negociação dos Exercícios de Operação de Reto- mada de Instalações e Resgate de Reféns (RETREX) e mis- sões especiais. Nesse campo, cabe destacar a participação de psicólogos do SSPM nas atividades de assessoramento à Administração Naval, merecendo destaque as seguintes: participação nas etapas de Pré-Seleção do Grupo-Base da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), Treinamento Pré-Antártico (TPA) e desenvolvimento interpessoal dos militares designados para o Grupo-Base da EACF; treina- mento em gestão de situações de conflito para o Chefe e o Ajudante do Destacamento do Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (DstPOIT); participação em Vistorias de Segurança de Aviação (VSA) nos navios da Esquadra, com o propósito de identificar perigos na atividade aérea sob o enfoque do Fator Humano; e composição de Grupos de RETREX, com a finalidade de apoiar a equipe de negocia- dores, no que se refere a traçar os perfis psicológicos dos elementos adversos. Ao final de 2013, a fim de contribuir para o aperfeiçoamento da Avaliação Psicológica destinada à atividade do Submarino de propulsão Nuclear, dois Ofi- ciais Psicólogos do SSPM realizaram um Estágio no Serviço de Psicologia da Marinha Nacional da França. Frente a atividades cada vez mais relevantes e comple- xas, o SSPM permanece firme e determinado a desempe- nhar com brilhantismo seu lema de “selecionar a pessoa certa para o lugar certo”. Calcado em valores como: com- prometimento, respeito, espírito de equipe, comportamen- to ético e excelência de desempenho, o Serviço de Seleção busca constantemente a efetividade do seu trabalho e o cumprimento da sua nobre missão de “contribuir para a valorização do capital humano da Marinha, visando à pre- paração e aplicação do Poder Naval”. Cesar da Silva Santos Capitão-de-Mar-e-Guerra (T) Diretor Editorial Psicologia Revista Naval Em Destaque Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha2 Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 3 O jovem José Maria de Aguiar ingressou na Escola de Apren- dizes do Maranhão, aos quatorze anos de idade, em 27 de março de 1901, e em mais de 62 anos de dedicação integral à Marinha galgou postos e deixou como legados sua obstinação, disciplina e empenho pelo trabalho. Sua carreira, repleta de exemplos, inspira Marinheiros de diversas gerações. Ao longo de sua carreira, José Maria de Aguiar, compôs a tripulação de vários navios, dentre esses: Encouraçados De- odoro e Minas Gerais; Navios-Escola Benjamim Constant e Tamandaré; Torpedeiro Pedro Ivo; Cruzadores Barroso, Repú- blica, Tiradentes e Bahia; e o Navio-Auxiliar José Bonifácio. Em todas as suas Comissões, o Patrão-Mor José Maria de Aguiar demonstrou empenho relevante e conduta ilibada. Em Organizações Militares de Terra, serviu nas Capitanias dos Portos de Natal, Recife, Salvador, Manaus, Pará, Amapá e Bahia. Além disso, contribuiu com seu trabalho nos Arsenais de Marinha do Rio de Janeiro e de Mato Grosso. Em todas as Organizações Militares das quais fez parte, destacaram-se seu profissionalismo e dedicação, que fomentaram sua designação para cargos e funções de grande relevância para a Marinha. O brilhantismo do Patrão-Mor José Maria de Aguiar foi reco- nhecido por meio das diversas condecorações recebidas por este ilustre militar, sendo elas: Medalha de Bronze; Medalha Militar de Ouro; Medalha da Vitória (Primeira Guerra Mundial); e Medalha de Serviços de Guerra, uma estrela (Segunda Guer- ra Mundial). Recebeu, ainda, ao longo de sua carreira, mais de vinte elogios e a Medalha do Mérito Naval Post Mortem. A imagem do Capitão-Tenente Patrão-Mor José Maria de Aguiar é tão emblemática e importante para a Marinha do Brasil que seu nome é lembrado em diversas Unidades Operativas e de Terra. A Biblioteca da Escola de Aprendi- zes-Marinheiros do Ceará possui o nome deste notável militar, bem como esta Escola instituiu o Prêmio “Patrão- Mor Aguiar” para distinguir seu melhor aluno. A Escola de Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina também atribuiu o título de “Aluno Patrão-Mor Aguiar”, mensalmente, para o Grumete mais disciplinado e aplicado nos estudos. Além disso, anualmente, a família Aguiar oferece o prêmio Patrão- Mor Aguiar ao melhor aluno. Em 1982, a Marinha designou o nome “Patrão-Mor Aguiar” a uma Agência Flutuante, que posteriormente foi substituída pela Agência Escola Flutuante na Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental. Seu nome hoje também é lembrado pelas Organizações Públicas, sendo es- colhido para homenagear Praças no Rio de Janeiro. O SSPM, que cultua valores como o comprometimento, a excelência no desempenho e o respeito, buscou inspira- ção nos exemplos de carreira do valoroso Capitão-Tenente Patrão-Mor Aguiar, tendo como horizonte seu espírito ma- rinheiro e amor pela Marinha. Desta forma, com o intuito de homenagear tão ilustre Marinheiro e manter seu nome lem- brado na história, o SSPM, no dia 26 de maio de 2014, no- meou o Salão Nobre deste Serviço de Seleção como “Salão Nobre Capitão-Tenente Patrão-Mor José Maria de Aguiar”. Homenagem ao Capitão-Tenente Patrão-Mor José Maria de Aguiar Patrão-Mor Aguiar (terceiro da esquerda para a direita) em evento na MB Psicologia Revista Naval Em Destaque Expediente Diretor do Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha Capitão-de-Mar-e-Guerra (T) Cesar da Silva Santos Vice-Diretor do Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha Capitão-de-Fragata (T) Hugo Ferreira Sanabria Organização Capitão-de-Mar-e-Guerra (T) Cesar da Silva Santos Revisão Capitão-de-Mar-e-Guerra (T) Cesar da Silva Santos Capitão-de-Corveta (T) Givanildo Agostinho da Silva Colaboração Capitão-de-Fragata (T) Hugo Ferreira Sanabria Criação e Impressão Agência 2A Comunicação Tel. (21) 2233-5415 - www.agencia2a.com.br Os artigos publicados são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do SSPM. Publicação da Marinha do Brasil, elaborada pelo Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha (SSPM) Praça Barão de Ladário, s/nº - Complexo do 1º Distrito Naval - Ed. Alte Prado Maia Centro - Cep 20090-000 - Rio de Janeiro - RJ Brasil - Tel. (21) 2104-5393 www.sspm.mar.mil.br ISSN 2238-1139 Ano 03 - Número 03 - 2015 Psicologia Revista Naval Em Destaque DISTRIBUIÇÃO GRATUITA PsicologiaRevista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 5 Artigo Histórico 06 • A Psicotécnica e a Marinha: uma revisão 70 anos depois 06 Jornada de Psicologia 12 • Curso de Ações de Comandos: Estressores, Níveis de Estresse e Representações Pictóricas 12 • Atividade de Risco e Estresse: o dia a dia na vida de um Mergulhador de Combate 22 • Suporte Psicológico no Pós-Acidente Aeronáutico 26 • Missões Especiais: Antártica 30 • Missões Especiais: Líbano 35 • Estresse na Vida Moderna 36 • Gameficação Aplicada às Atividades de Risco 38 • Contribuições da Psicologia no Gerenciamento de Crise 40 • Contribuições da Psicologia para a Vistoria de Segurança de Aviação 42 Artigo em destaque 44 • O Impacto do Conflito entre o Trabalho e a Família sobre a Intenção de Rotatividade nas Organizações 44 Concurso de Artigos Técnicos do SSPM (ano 2014) 53 • 1º Colocado - Clima Organizacional: uma Ferramenta na busca da Excelência em Gestão 53 • 2º Colocado - Comportamento Organizacional e a Perspectiva de Mudança no Ambiente de Trabalho 60 • 3º Colocado - Clima Organizacional e suas Implicações no Ambiente de Trabalho 66 SSPM em fotos 73 • Aniversário do SSPM 74 • Celebração de Aniversariantes do Trimestre 80 • Cerimônia Militar 81 • Inauguração do Salão Nobre Capitão-Tenente Patrão-Mor José Maria de Aguiar 83 • Visita de Autoridades 86 Sumário Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha6 Artigo Histórico A Psicotécnica e a Marinha: uma revisão 70 anos depois Primeiro-Tenente (T) Michelly Oliveira dos Santos Melo Segundo-Tenente (RM2-S) Serena Nogueira e Silva Bragança ::: Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha ::: "A Marinha vale o que valem os homens que a integram." O objetivo do presente artigo é apresentar as princi- pais ideias e contribuições do Primeiro-Tenente Inten- dente Naval (IN) Raul Mendes Jorge quando escreveu o trabalho intitulado “A Psicotécnica e a Marinha”. O Te- nente Mendes Jorge demonstrou ao longo do seu tra- balho grande preocupação com a apresentação de em- basamentos científicos e relato de experiências realizadas em todo o mundo. Suas pesquisas, sua atu- ação, seus trabalhos escritos e o interesse demonstrado nesta ciência foram primordiais para a valorização e desenvolvimento da Psicologia na Marinha, sendo este livro considerado um marco inicial. A criação oficial do Serviço de Se- leção Psicotécnica Naval – SSPN ocorreu em 28 de Julho de 1951, 7 anos após a publicação do livro ao qual esta resenha é dedicada. A referida obra foi fruto, em 1941, de uma ordem dada pelo Vice-Almirante Américo Vieira de Melo, então diretor de Ensino Naval, ao Te- nente Raul Mendes Jorge, após palestras apresentadas por este último sobre a psicotécnica e sua possível apli- cação à Marinha. O livro foi julgado por uma comissão e publicado pela primeira vez em 1944, pela Imprensa Naval do Rio de Janeiro. O autor, como já dissemos, procurou apresentar um trabalho com fundamentos científicos, através da análi- se de trabalhos e livros com experiências de diversos países, especialmente Estados Unidos, França, Alema- nha, Portugal e o próprio Brasil. Ele não tinha a preten- são de indicar soluções definitivas para os problemas apontados, mas constituir um sumário, ainda que incom- pleto, do que se realizava na época no domínio da Psicologia Aplicada nas instituições civis e militares, nacionais ou estrangeiras. Seu principal objetivo era divulgar no âmbito naval esses conhecimentos científicos, assim como os resulta- dos já obtidos com suas práticas. Também não pretendia sugerir re- formas radicais no que já existia na época, mas sim aperfeiçoar o que de útil já se fazia naquele momen- to e propor uma organização das práticas de seleção na Marinha. O livro é composto por quatro capítulos, sendo eles: 1. Generalidades 2. Orientação, Seleção e Formação Profissional 3. Os testes 4. Considerações Gerais e conclusões – Sugestões O primeiro capítulo é um resumo histórico sobre a adaptação científica do trabalho ao homem e do ho- Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 7 mem ao trabalho, o que mostrou ser uma adaptação recente, com cerca de 40 anos. Jorge (1944) levantou que dois pontos atrasaram o início desse estudo: 1. Trabalho significava esforço, fadiga, pena, castigo em todas as partes, tempos e povos, indigno de quem é livre. “O homem que traba- lha e, em conseqüência, o trabalho profissional permaneciam fora de cogitações científicas, porque eram indignos de tais investigações.” (JORGE, 1944, p.10) 2. A escolha da profissão era determinada por grupos sociais a que o grupo pertencia desde seu nascimento. O autor comenta que o primeiro grande passo para a mudança foi a Revolução Francesa através da De- claração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que pela primeira vez proclamou a liberdade da escolha da profissão. A partir de então, não havia mais obstá- culos legais para a escolha, mas os preconceitos so- ciais ainda persistiam. As profissões eram escolhidas seguindo diversas influências do meio social e não as próprias inclinações e desejos pessoais. Alguns au- tores na época já defendiam a escolha profissional como uma decisão central na vida do sujeito. A partir da análise desse aspecto surgem as frases célebres do autor, defendendo que uma má escolha da profissão gera uma completa insatisfação e infelicidade que não ficam apenas no âmbito individual, mas tam- bém na esfera social. A escolha da profissão inadequada ao indivíduo é causa de muitas infelicidades. Não podendo, mais tarde, aban- donar a carreira a que se dedicou, sem grandes pre- juízos materiais, o indivíduo nela permanece mal satis- feito, irritado, ineficiente; e, sem compreender a causa real da sua desventura, passa a atribuí-la à sociedade, ao meio em que vive, tornando-se elemento negativo, dissolvente, per turbador... O erro na escolha da profissão, mesmo na hipótese de não ocorrerem as circunstâncias anteriormente apontadas, decorre, de um lado, de não serem conhecidas as qualidades exigidas pela profissão em referência e, de outro, de não ter o individuo conhecimento exato das próprias aptidões. (JORGE, 1944, p.12) Por necessidade do progresso industrial, o olhar sobre o homem começa a mudar e começa a surgir a investigação científica com fins práticos. Neurolo- gistas, psiquiatras, sociólogos, médicos, economistas e outros estudiosos contribuíram para a valorização destas investigações. O primeiro gabinete de orientação profissional foi fundado nos Estados Unidos, onde eram dados "conse- lhos" aos jovens sobre a escolha profissional. Na mes- ma época foram conhecidas as idéias de Taylor. Houve então o desenvolvimento da Psicologia Aplicada, com a verificação das diferenças individuais e emprego de provas especiais – testes. Divulgou-se que era missão dos psicólogos e dos seus métodos, estabelecer as qualidades exigidas para o exercício de uma profissão determinada, bem como verificar se os candidatos a um ofício possuem, de fato, as aptidões necessárias. O referido autor apresenta algumas definições do termo psicotécnica, como o de Münsterberg, que define a psicotécnica como a Psicologia a serviço da prática. Porém, acentua que a denominação do termo muda de acordo com a área de aplicação prática, por exemplo, a psicotécnica utilizada em assuntos jurídicos é conheci- da como Psicologia Jurídica. Segundo Jorge (1944), a adaptação do homem às profissões e das profissões ao homem oferece muitas vantagens não só no aspecto técnico, mas também no aspecto social. Para ele uma sociedade teria uma or- ganização perfeita se pudesse associar às diferentes profissões os indivíduos que reunissem as aptidões necessárias para tal, sendo assim, cada indivíduo sentir-se-ia feliz na sua atividade chegando ao fator máximo deeficiência. "Os indivíduos mal ajustados no ofício que elegeram, como já dissemos, além de se- rem sempre maus profissionais, são infelizes, inúteis a si próprios e à sociedade. (JORGE, 1944, p.18)" Jorge (1944) menciona que naquela época no Brasil já existiam diversos serviços de psicotécnica, como por Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha8 exemplo, nos sistemas educacionais dos Estados de Pernambuco e São Paulo e do Distrito Federal onde foram criados gabinetes de psicotécnica destinados ao estudo e aplicação dos meios para melhor aproveitamento das aptidões individuais e dos elementos do trabalho e solução dos problemas de orientação e seleção profissionais. Citou também, dentre outros, a Escola de Professores do Instituto de Educação em São Paulo e a Estrada de Ferro Central do Brasil. Assim, para o autor, a prática da seleção profissio- nal vinha tendo naquela época em nosso país certo desenvolvimento e apresentava resultados satisfató- rios. Afirma que de todas as práticas desenvolvidas naquela época, a mais perfeita foi a efetuada na or- ganização do Instituto de Resseguros do Brasil. Além dos exames de sanidade e capacidade física, das pro- vas de nível mental e de verificação de conhecimen- tos, este Instituto realizou provas de aptidão especial para escritório de acordo com a natureza dos cargos a serem preenchidos. Também realizava provas de análise de personalidade dos candidatos já seleciona- dos e admitidos com o objetivo de que fossem distri- buídos de forma que melhor ajustassem as exigências das funções às aptidões individuais. Jorge (1944) mostra que os serviços de psicotéc- nica aplicada à aviação militar ou civil existiam, com maior ou menor desenvolvimento, em todos os países considerados desenvolvidos no mundo desde a Gran- de Guerra – 1914/1918. Naquela época não se podia admitir uma aviação que não possuísse esses serviços. O mesmo autor cita Estados Unidos, Alemanha, Fran- ça, Portugal e Argentina, além do Brasil, que utiliza- vam massivamente os serviços de psicotécnica. Como exemplo, a Marinha Portuguesa realizava provas obje- tivas para avaliação das aptidões dos candidatos à Es- cola Naval, e o resultado destas provas podia eliminar candidatos. No Brasil, a Aviação Militar também realiza- va exames de seleção por métodos psicotécnicos. Em 1940 foi prevista a criação do Instituto Militar de Psico- logia pelo Exército Brasileiro, para oferecer um serviço de Psicologia Aplicada que pudesse atender a todas as necessidades de uma instituição militar moderna. O autor também discorre sobre as causas que de- terminaram o desenvolvimento da psicotécnica e suas aplicações. Uma delas foi o progresso da Psicologia Experimental que, segundo ele, contribuiu cientifica- mente provando que os fenômenos psicológicos são passíveis de mensuração e de experimentação, procu- rando não o que há de comum entre os homens, mas sim o que há de variável entre eles. Outra evolução da época foi o progresso da análise estatística. Houve também o desenvolvimento de es- tudos no sentido de eliminar as causas de acidentes de trabalho, estes também demonstraram a necessi- dade de seleção e orientação profissional. Outro fator foi devido ao grande número de indivíduos que muda- vam de profissão, o que indicava uma falta de aptidão física ou psíquica para o exercício daquela atividade, levando ao erro na escolha da carreira. Jorge (1944) apresenta ainda a organização cien- tífica do trabalho, contribuição trazida pelo movi- mento do taylorismo, que desenvolveu investigações no ramo da fisiologia e da Psicologia Aplicada ao Trabalho. Outra causa foi a Grande Guerra, que uti- lizou intensamente os serviços da psicotécnica para que pudesse obter maior êxito em suas operações, procedendo exames de aptidões fisio-psicológicos dos combatentes. Apresenta também as principais aplicações da psicotécnica naquele tempo, dentre elas a aplicação da Psicologia à Pedagogia, à seleção e orientação profissional, à medicina, à farmacodinâmica, à hi- giene, à publicidade, e à área jurídica, pois todas se utilizaram de pesquisas e estudos desenvolvidos pela Psicologia à época. No segundo capítulo o autor trata da Orientação, Seleção e Formação Profissional sob o contexto da Psicotécnica profissional. Ele afirma que durante muito tempo houve divergência na maneira de conceituar a orientação e seleção profissional, apesar de, para ele, serem dois temas muito diferentes. Porém, mostra que as divergências foram desfeitas quando, no Segundo Congresso Internacional de Psicotécnica que aconte- ceu em Barcelona em 1921, foi estabelecida a de- Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 9 finição de ambas: "Orientação profissional consiste na escolha da carreira para o indivíduo e Seleção profissional é a escolha do indivíduo para a carreira" (JORGE, 1944, p.35). Defende que o conhecimento da profissão, sob o as- pecto físico e mental, econômico, técnico, social e peda- gógico, é indispensável tanto para a orientação como para a seleção profissional. Segundo ele, a orientação profissional interessa- se pelo indivíduo, principalmente pelo jovem que busca uma profissão para seguir, visando colocar o homem devido no lugar devido. Volta a defender que os motivos para a escolha da profissão são varia- dos e acabam sendo mal aproveitadas as aptidões individuais, e as consequências costumam ser muito negativas, podendo gerar grande insatisfação tanto para o próprio indivíduo quanto para o serviço. Diz que para realizar o trabalho de orientação deve-se primeiro estudar o indivíduo e a profissão. Esse estudo do candidato às profissões deve começar pelos exames clínico e antropométrico, considerando características físicas e aspectos psicológicos. Define aptidão e revela que elas podem ser avaliadas atra- vés de inúmeros testes e provas, dependendo do ob- jetivo. A indicação ou não para a carreira vem após o resultado desta avaliação. Referindo-se à seleção profissional, define seu ob- jetivo como a escolha do indivíduo para a profissão, interesse único do empregador. Esta é mais restrita que a orientação, pois exige apenas o conhecimento de uma profissão para a qual se seleciona candidatos, enquanto que o da orientação depende de conheci- mento científico de todas as profissões a que o indiví- duo pode ser encaminhado. Apresenta vários métodos que podem ser empre- gados na análise científica do trabalho, para a des- coberta das aptidões necessárias a cada atividade, como inquérito, observação, verificação experimental e matemática. Além disso, enfatiza a necessidade da observação do psicólogo, que é o profissional que tem a preparação para estudar os aspectos psico- lógicos, e a aplicação de métodos estatísticos para comprovação das aptidões inicialmente listadas para o exercício de uma determinada atividade, assim como para a validade dos testes utilizados. O terceiro capítulo refere-se aos testes que eram empregados naquele tempo. O autor defende que os indivíduos eram facilmente caracterizados por dados antropométricos, mas os recursos da ciência possi- bilitaram uma avaliação objetiva dos fenômenos psi- cológicos. A necessidade era dar uma classificação hierárquica aos indivíduos de acordo com seu grau de inteligência ou seu nível mental. Segundo Jorge (1944), teste foi definido por Pieron como uma prova destinada a caracterizar o indivíduo, sob determinado aspecto, não necessariamente para medida mental, podendo ser utilizado também para funções físicas, nível cultural, de instrução, de inteli- gência, dentre outros. O emprego dos testes desenvolveu-se de maneira surpreendente em diversos países como Estados Unidos, Alemanha, Suíça, Bélgica, França, Inglaterra, Itália, etc. Com modernos gabinetes de Psicologia Aplicada, dispondo de complexa e custosa aparelhagem, permitiu ser obtida maior precisão e rigoraos métodos de estudo. Citado por Jorge (1944), Claparéde, relata que os processos psicológicos avaliados eram: a) psicofísico; b) psicocronométrico; c) psicodinâmicos e d) psicoestatísticos. Jorge (1944) afirma que são numerosos os tipos de testes empregados em todos os domínios da psi- cotécnica. Cita como os mais utilizados: 1. Testes para avaliação de nível global de de- senvolvimento de inteligência: Descreve a es- cala de Binet-Simon, revisão de 1911, como base para outras escalas de mesmo tipo, que foram adaptadas para a utilização em outros países. Ela era constituída de um grupo de tes- tes e procurava identificar a idade mental de acordo com os testes resolvidos com acerto. Segundo Jorge (1944), Terman aperfeiçoou e ampliou a série de testes de Binet-Simon, Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha10 divulgando o emprego do termo quoeficiente de inteligência, que é a relação entre a idade mental obtida através dos testes e a idade real da pessoa. Assim, utilizando escalas métricas de inteligência era possível avaliar cientifica- mente o grau de desenvolvimento mental dos indivíduos e classificá-los em supernormais, normais e subnormais. 2. Testes para determinação de aptidões gerais: Estes testes procuram determinar a ordem que o indivíduo ocupa dentre os da mesma idade com relação à aptidão avaliada. Esta classifi- cação é feita pelo método dos percentis que, segundo Jorge (1944), foi indicado por Galton e proposto por Cleparéde. Este último define percentil como a ordem que um indivíduo ocu- pa, num total de cem indivíduos colocados pela ordem dos resultados obtidos em certo teste. 3. Testes de escolaridade ou medida objetiva do trabalho escolar: Jorge (1944) faz uma diferen- ciação entre as provas tradicionais utilizadas na época e as provas objetivas para aferição do co- nhecimento adquirido e faz uma análise das limi- tações das provas tradicionais. Em decorrência dessas limitações, as provas objetivas passaram a ser cada vez mais aceitas e empregadas em todos os meios adiantados do mundo apesar de serem alvo de críticas em nosso país, o que con- siderava ser tradicionalismo da época, superfi- cialidade e ignorância da maioria, que levava em consideração os resultados pouco satisfatórios que eles apresentavam. Não defendeu a ado- ção exclusiva desses testes com a exclusão dos métodos clássicos de provas, pois eles se desti- navam a complementar, sendo apenas medidas impessoais e objetivas. No quarto e último capítulo, Jorge (1944) apresenta considerações gerais, conclusões e sugestões. Tal autor defende a necessidade de se aproveitar to- dos os recursos técnicos e científicos que a civilização já proporcionava na época para se atingir o máximo rendimento com o mínimo de dispêndio, e que este era o objetivo da organização científica do trabalho que foi formulada e definida por Taylor, fundamenta- da em diversos princípios. Mas para Jorge (1944), o que se tornou um dos maiores fatores do progresso industrial do mundo, foi a divisão do trabalho, que não era feita de modo arbitrário, pois via a necessidade de selecionar os indivíduos procurando os mais capazes, os que possuíam as necessárias aptidões para atingir a máxima produtividade. Porém, tal autor acreditava que além de atribuir o trabalho dividido a cada pessoa, era necessário estimulá-lo com o propósito de realizá-lo o mais eficientemente possível. Por estímulo entendia o justo salário, as promoções, as recompensas e medi- das capazes de despertar nos indivíduos o interesse pela máxima eficiência. Jorge (1944) cita também as contribuições de Fayol para a administração científica, como por exemplo, a divisão do trabalho; a autoridade; a disciplina; a unida- de de comando; unidade de direção; hierarquia; dentre outros que também muito contribuíram para a organi- zação do trabalho que se formava. Dessa forma, a racionalização do trabalho mobilizou recursos da ciência e da técnica, como da biologia, da sociologia e da Psicologia Aplicada por tratarem direta- mente do elemento humano, que deveria ser colocado em plano superior ao material, seja qual fosse a nature- za da instituição (pública, particular, industrial, militar). E neste sentido, um dos mais importantes objetivos da psicotécnica era não apenas promover a adaptação do homem ao trabalho e deste àquele, mas valorizar o ele- mento humano e defendê-lo dos ataques e prejuízos vindos do descaso, ignorância ou tradicionalismo, tor- nando o ambiente propício à realização de suas tarefas nas melhores condições. Com isso, se alcançaria rendi- mento ótimo e não o rendimento máximo que antes se procurava atingir à custa de sacrifícios da saúde física e mental do trabalhador. Ao descrever suas conclusões, Jorge (1944) aponta em 15 tópicos o resumo dos assuntos que considera mais importantes de tudo o que apresentou. Este autor, apresenta algumas sugestões decorren- tes dos estudos e de sua prática. No que se refere à Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 11 seleção de pessoal, defende que o processo de recru- tamento para ingresso na Marinha, além de condições como idade, estado civil, exames clínicos, fisiológico e intelectual, deveria englobar também os exames psicológicos com o emprego da psicotécnica, para que não entrassem candidatos que não possuíssem as aptidões necessárias. Cita as seguintes provas psicológicas, dentre tantas outras existentes, como imprescindíveis para a seleção de candidatos à Mari- nha: de nível mental e aptidões especiais, de funções psicovisuais, de funções psicoauditivas, de funções psicomotrizes, de habilidade manual ou capacidade mecânica, de memória, de atenção visual e de imagi- nação e de compreensão. A respeito também da se- leção pela Marinha, o autor sugere que deveria haver uma ampla divulgação dos editais, a organização de uma racional propaganda da Marinha, proporcionan- do visitas de jovens das escolas secundárias e profis- sionais do país a navios, arsenais e outros serviços navais com o objetivo de despertar o interesse para o ingresso na instituição; abolir dificuldades na matrí- cula e na admissão; e utilizar dos resultados da psi- cotécnica para distribuição dos candidatos de acordo com suas menores ou maiores possibilidades. Sobre Formação e Orientação, insiste mais uma vez na necessidade de que a educação perca característi- cas exclusivamente teóricas para tornar-se mais ativa e funcional, proporcionando desde o início uma inte- gração entre conhecimento teórico e aplicação prática. Para a aplicação da psicotécnica na Marinha, o autor defende a criação de órgãos especializados. Levando em consideração fatores econômicos e de emprego imediato, abriu mão de propor a criação de um labo- ratório de psicotécnica ou de um Instituto Naval de Psicologia Aplicada, e propôs a criação na Diretoria de Ensino de uma Divisão Especializada que se chamaria Divisão de Psicotécnica. Ela teria como principal finali- dade estudar os problemas relativos à seleção, orien- tação e formação profissional do pessoal da Marinha e apontar soluções científicas. Enumera atribuições da divisão, prevê sua organização em três seções técnicas (Seleção e Orientação Profissional; Pedagogia Experi- mental; Estudos e Pesquisas) e em três serviços au- xiliares (Estatística e Arquivo; Biblioteca Especializada; Divulgação Interna). Apresenta ainda uma sugestão de organograma que deveria ser a estrutura da divisão. Menciona que estas sugestões deveriam ser elabora- das por uma comissão especial que fosse assistida por técnicos no assunto ou poderia ser designada uma co- missão de oficiais para estudar o tema, realizar cursos para depois organizarem e dirigirem os serviços. O autor defende, finalizando, que nas Escolas de Marinha deveriam ser ministradas aulas sobre Orga- nização Científica, Administração, Psicologia e Peda- gogia, pois seus alunosseriam os futuros organiza- dores e dirigentes de serviços, educadores, chefes e orientadores de seus subordinados. Todo o livro do Tenente Mendes Jorge é permeado por análises que ainda hoje poderiam ser considera- das atuais, apresentando também dificuldades encon- tradas cotidianamente. Este é um livro que demonstra a amplitude e variedade dos conhecimentos históricos e científicos de um profissional da intendência que de- fendeu não só a Psicologia como ciência de grande importância, mas como ciência de grande relevância para a Marinha do Brasil. Além de ter feito um apa- nhado histórico, apresentado definições conceituais, detalhado testes e suas utilizações, o último capítulo trouxe sugestões de aplicação prática de tais concei- tos na Marinha. Essas sugestões e os estudos reali- zados pelo autor formaram as bases que permitiram a formação e o estabelecimento de uma Psicologia aplicada à realidade naval como hoje temos. JORGE, Raul Mendes. A Psicotécnica e a Marinha. Rio de Janeiro: Imprensa Naval, 1944. Referências Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha12 Jornada de Psicologia Curso de Ações de Comandos: Estressores, Níveis de Estresse e Representações Pictóricas Angela Maria Monteiro da Silva | Jurema Barros Dantas Maria Auxiliadora Salcedo Giolo | Daniela Vergueiro Rodrigues Lecy Consuelo Rocha Neves ::: Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias – Exército Brasileiro (CEP - EB) ::: ::: Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) ::: "Nada de excepcional é criado sem a renúncia a si mesmo." (autor desconhecido) Introdução A decisão política de privilegiar a Educação tem permi- tido à Força Terrestre manter seus quadros capacitados. As reflexões sobre a formação dos seus integrantes re- metem, essencialmente, à adoção de mecanismos varia- dos para atender às especificidades e novas demandas do seu emprego. Segundo a Diretriz do Processo de Transformação do Exército Brasileiro (BRASIL, 2010) e a Estratégia Nacional de Defesa (BRASIL, 2008), aliar rusticidade e qualificação, para atuar em combates com- plexos e em operações de amplo espectro, torna-se um imperativo para a formação do militar. A busca por uma formação de excelência também envolve a força de elite do Exército Brasileiro (EB), aqui representada pelos egressos do Curso de Ações de Comandos (CAC). Face aos desafios que se apre- sentam, destaca-se a importância do CAC na forma- ção de um militar especializado, capaz de participar de diversos tipos de operações, sob variadas condições de emprego, com acúmulo de funções e tarefas, sub- metido a elevado risco e imensas exigências físicas, emocionais e mentais (FLAMENT, 1972). Os coman- dos realizam ações com tropa habilitada, de valor e constituição variável, por intermédio de uma infiltração terrestre, aquática ou aérea, contra alvos de valor es- tratégico, estratégico-operacionais ou críticos do pon- to de vista tático, localizados em áreas hostis ou sob o controle do oponente (BRASIL, 1991, IP 31-21). A formação dessa tropa pode ser considerada imprescin- dível para o ambiente estratégico em cenários atuais e prospectivos de atuação do EB (BRASIL, 2010). As diferentes missões em que pode ser empregado torna o concludente do CAC o integrante de uma tropa de elite do EB capacitada ao planejamento, condução e execução de: operações de guerra irregular; contrater- rorismo; fuga e evasão; inteligência de combate; con- traguerrilha; guerra de resistência; operações psicoló- gicas; reconhecimento estratégico; assim como busca, Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 13 localização e ataque a alvos estratégicos. O egresso do CAC pode se infiltrar no ambiente operacional e se ex- filtrar por terra, mar ou ar, utilizando-se tanto de meios convencionais como não convencionais. Todas essas possibilidades de emprego implicam necessariamente na precisão e na capacidade deste militar em agir de forma sagaz, firme e destemida diante de situações deveras desafiadoras e perigosas; seguindo normas de segurança e expressando a capacidade de decidir pela alternativa mais adequada em tempo útil (DANTAS, SzELBRACIkOwSkI & MONTEIRO DA SILVA, 2012). O presente estudo foi realizado no Núcleo de Pesquisa em Psicologia do Centro de Estudos de Pessoal e For te Duque de Caxias (CEP/FDC), como par te do conjunto de atividades psicossociais de- senvolvidas no CAC. Antes e no decorrer dos três meses do curso foram realizadas diversas ativida- des psicossociais, que podem ser classificadas em três etapas: Seleção de Pessoal, Acompanhamento e Desmobilização. Não foram encontrados registros de que estas duas últimas etapas tenham sido sis- tematicamente desenvolvidas antes no EB, em um curso com tais características e especificidades. Este estudo envolveu principalmente a etapa de Acompanhamento e seus objetivos consistiram em: 1) avaliar os níveis de estresse clínico dos alunos em di- ferentes momentos do CAC; 2) identificar, quantificar e verificar a evolução dos estressores atinentes ao cur- so; e 3) investigar as experiências dos militares alunos no CAC, a partir de representações pictóricas. A compreensão dos fenômenos de estresse, a identi- ficação e medida de estressores e dos níveis de reação dos militares alunos podem viabilizar a implementação de intervenções e estratégias para prevenir efeitos noci- vos e adversos do estresse. O conhecimento acerca dos estressores, sintomas e níveis de estresse, por parte de instrutores e instruendos, pode contribuir para o pro- cesso de formação militar, permitindo o ajustamento de rumos que previnem os excessos na administração de estressores e auxiliando no manejo do estresse. O termo estresse tem um significado bastante amplo. Ele abrange: a) estados internos do organismo (rea- ções fisiológicas/celulares e emocionais), b) eventos externos (estressores); e c) experiências com base na transação pessoa – meio ambiente (apreensão cogni- tiva de dano/perda ameaça ou desafio e estratégias para lidar com estressores). De modo similar, o estresse de combate também in- clui estados internos, decorrentes da exposição a con- dições de combate (estressores de combate); assim como experiências do militar oriundas da sua transação com o ambiente de combate. O estresse de combate não está restrito ao combate em si; podendo ser defla- grado por outras operações militares que apresentam condições similares ou de simulação de combate. Os treinos de simulação têm a função de dessensibilizar o militar em relação aos estressores de combate e pre- pará-lo para enfrentá-los com eficácia. O CAC é descrito como um curso de combate, incorporando condições de intensa simulação de combate. Três modelos fundamentaram a investigação do estresse neste estudo: O Modelo Trifásico de Selye (1976), integrando o estágio de quase exaustão de Lipp (2000); o Modelo Transacional de Arnold Laza- rus (1993) e o Modelo de Estresse de Combate de Gal & Jones (1995). Selye (1976) observou em seus estudos que o transtorno de adaptação inespecífico ou a síndrome de adaptação geral (síndrome do estresse) se dividia em três estágios distintos: alarme, resistência e exaustão. A primeira fase, alarme, caracteriza-se pelas reações encontradas na resposta de luta-ou-fuga. Ocorre um aumento repentino na atividade das glândulas adre- nais e no sistema cardiovascular. A medula da glândula adrenal responde secretando adrenalina e noradre- nalina na corrente sanguínea, ao passo que o córtex adrenal libera cortisol. Caso o estresse perdure e/ou surjam novos estressores, o organismo entra em ação para evitar o desgaste maior de energia ingressando em um estágio de resistência. Durante a resistência, o organismo busca resistir aos estressores e restabele- cer a homeostasia. O desempenho tende a decair nes- sa fase, e também ocorre a produção de cortisol e o aumento da vulnerabilidadea vírus, bactérias ou outros Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha14 antígenos. Caso o estresse perdure, o organismo entra em uma fase em que a resistência não é mais possível, uma vez que seus recursos estarão consumidos. É a fase de exaustão, em que a suscetibilidade ao aparecimen- to de doenças e processos degenerativos está muito aumentada. Nesta fase observa-se o aparecimento de infecções, reações alérgicas e doenças graves relacio- nadas, principalmente, ao enfraquecimento imunológico. Mais tarde, em seus estudos, Lipp (2000 e 2004) de- tectou estatística e clinicamente um quarto estágio de estresse: quase exaustão. Na fase de quase exaustão o organismo enfraquecido não mais consegue resistir ao processo de estresse. O cortisol é produzido em maior quantidade e começa a prejudicar a resposta imune. Aparecem doenças, que, no entanto, não são tão gra- ves como na fase posterior de exaustão. Uma diferença importante entre as duas últimas fases é que o indivíduo ainda se mantém funcional na quase exaustão, mesmo que de forma limitada. O modelo transacional de Richard Lazarus e colabo- radores (1993) considera o estresse como processo. Neste modelo, os estímulos e as respostas são conside- rados interconectados e componentes de um processo em que há mútua influência e adaptações contínuas, ou seja, estímulos e respostas devem ser considerados em conjunto. Seriam necessários sucessivos ajustes e inte- rações entre os comportamentos para lidar com o es- tresse (estratégias de coping) e o meio ambiente. Estes ajustes e interações são denominados de transações. A importância da apreensão cognitiva ou avaliação que o indivíduo faz dos estressores e de seus próprios recur- sos de coping para estimar sua capacidade de adaptar- se e enfrentar o estresse fica evidenciada à medida que um mesmo evento estressor pode ser considerado ge- renciável por uma pessoa e muito estressante por outra. O modelo do estresse de combate surgiu a partir de teorias cognitivas de estresse e coping (estratégias de enfrentamento de estressores), que enfatizam o papel da apreensão cognitiva e do coping ativo em resposta aos estressores (GAL & JONES, 1995). As estratégias ativas de coping envolvem ações e respostas para eli- minar, reduzir o estressor em si mesmo ou para mu- dar o que o indivíduo pensa/sente a respeito dele. A complexidade das condições de combate demanda um modelo multidimensional e interativo, a fim de dar con- ta da diversidade de fatores envolvidos na deflagração e no coping do estresse de combate. De acordo com o modelo, as variáveis antecedentes não determinam diretamente a apreensão cognitiva do combatente ou sua interpretação acerca da intensidade ou severida- de dos estressores. A apreensão cognitiva é regulada por variáveis moderadoras, de modo interativo. O pa- pel do líder (entre outras variáveis tais como carac- terísticas de personalidade) é de capital importância para a interpretação do militar sobre a situação de combate. A maneira pela qual o comandante descreve a operação (suas metas e o seu planejamento); dis- tribui ou delega tarefas e dá ordens aos seus lide- rados interage com as condições antecedentes para produzir a apreensão cognitiva do liderado acerca dos estressores de combate e de suas habilidades de en- frentamento. O desempenho de papel do comandan- te é como uma lente que pode amplificar ou reduzir o impacto das variáveis antecedentes na apreensão cognitiva e nas reações dos liderados. Conforme foi acima exposto, as experiências dos alu- nos no CAC foram investigadas por meio da análise de representações pictóricas. A representação pictórica pode ser entendida como uma linguagem de comuni- cação baseada no desenho. Os desenhos podem ser empregados como parte de uma metodologia de pesquisa produtiva e útil na inves- tigação de como as pessoas interpretam suas experiên- cias e seus mundos. Por exemplo, os desenhos podem ser utilizados no estudo das compreensões e significa- dos das doenças (GUILLEMIN, 2004). Em outras pala- vras, os desenhos são especialmente indicados quando a temática ou o tópico é sensível. As técnicas psicológi- cas expressivas captam o conteúdo simbólico de difícil expressão em linguagem verbal (AUGRAS, 2000). O desenho enquanto uma estrutura afetivocognitiva expressa inclui vários componentes que podem se apre- sentar em diferentes extensões. Segundo Vass (2011), alguns dos mais importantes componentes são: Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 15 • A visão de mundo do indivíduo: A mesma instru- ção ou situação representa estímulos diversos para diferentes indivíduos. As reações de cada um são determinadas por suas percepções úni- cas e exclusivas que geram modelos afetivocog- nitivos singulares acerca do mundo. O modelo de mundo adotado pela pessoa está relaciona- do com a sua personalidade. • A projeção inconsciente: De base psicanalítica, envolve o modo mais comum de interpretar ma- teriais expressivos (é possível identificar meca- nismos de defesa, conteúdos e conflitos incons- cientes, por exemplo). • Os movimentos ou comportamentos expressi- vos: São conscientemente controlados ou não. Por exemplo, tempo psicomotor, uso do espa- ço. São singulares e diferenciam as pessoas. O comportamento expressivo envolve gestos, ex- pressões faciais, postura, entre outros. • Os signos e esquemas cognitivos: Referem-se a padrões organizados de pensamento e com- portamento: sinais de comunicação visual e sím- bolos (por exemplo, o desenho de um coração como símbolo de amor). O desenho enquanto código de expressão especí- fico formata e apresenta o conteúdo simbólico com diferentes modos de expressar/significar. O desenho se constitui no entrelaçamento das representações: (1) mais internas e subjetivas e (2) mais externas, intersubjetivas e sociais. A metodologia figurativa leva o pesquisador a mover sua observação por um território simbólico desafiador, de um imaginário fi- gurativo de complexa decodificação. O símbolo é uma representação de algo que vai além do concreto, do objeto visível e palpável. Ele abarca sentidos ocultos e associados com aquilo que está representando, unindo diversos sentidos em uma só expressão. O símbolo não pode ser definido, pois é intrinsecamente maior do que qualquer defi- nição. Ele traz em si, invariavelmente, a polaridade: o Ying e o Yang; a luz e a sombra; o bem e o mal. A interpretação de um símbolo é sempre parcial e de- pendente de quem o interpreta, da ocasião e do con- texto. O significado atribuído ao símbolo pode sofrer grande variação, extrapolando sempre a definição pontual (CAMPIGLIA, 2004). Vários dos desenhos dos alunos do CAC, represen- tando as suas experiências neste curso, incluíam o sím- bolo dos Comandos: a Faca na Caveira. O símbolo Faca na Caveira veicula significados es- pecíficos cujas intensidades simbólicas estão associa- das às atividades de Comandos, representando esta subcultura do EB. Os Comandos e outras Forças de Operações Especiais apresentam elementos próprios, tais como: menor distância e maior coesão entre os círculos hierárquicos (por exemplo, todos comparti- lham as refeições no mesmo rancho; todos têm voz ativa). Enquanto símbolo compartilhado e referencial, a Faca na Caveira reúne os significados das experi- ências vivenciadas por aqueles que compartilham do exercício dessa função de Comandos. A intensidade simbólica da representação figurati- va constitui-se na potência afetivocognitiva investida no significado (GEERTz, 1978). Quanto maior a carga afetiva/emocional, mais forte tende a ser o significado atribuído pelo informante. Metodologia No que se refere à investigação do estresse no CAC, foi realizada a avaliação do estresse clínico e o levan- tamento dos estressores. Foi administrado o Inventário de Sintomas de Stress de Lipp (ISSL) em três momen- tos diferentes, nointuito de monitorar os estágios de estresse clínico dos alunos (LIPP, 2000). O ISSL está baseado no modelo de estresse de Hans Selye (SELYE, 1956) e em estudos de Lipp (2004), que acrescentou mais um estágio de estresse, quase exaustão. Além da análise do estresse clínico foi realizado um levantamento de dados para a elaboração do Inven- tário de Estressores do Curso de Ação de Comandos (IECAC), com base na observação direta e entrevistas Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha16 dirigidas com alunos e instrutores do Curso. O IECAC continha 43 estressores, levantados ou identificados em quatro momentos diversos do curso: a) momento 1, cinco dias após a matrícula; b) momento 2, quin- ze dias após a matrícula; c) momento 3, dezoito dias após a matrícula; d) momento 4, faltando duas sema- nas para o encerramento do curso. No preenchimento do IECAC, inicialmente, o res- pondente indicava se o estressor havia ocorrido ou não. Em caso afirmativo, ele avaliava a intensidade do estressor em uma escala de 1 a 10 e, em seguida, especificava a frequência do estressor: de 1 a 5 ve- zes, de 6 a 10 vezes ou mais de 10 vezes. Também era especificado, caso o evento tivesse sido contínuo. O instrumento foi administrado em três momentos do CAC: 1) Exercício na Montanha; 2) Exercício em Am- biente Urbano; 3) Exercício na Caatinga. No decorrer do Curso foram realizadas quatro vi- vências grupais com os alunos. A quarta vivência, em que foram produzidos os desenhos, ocorreu 15 dias antes dos alunos serem submetidos à última ativida- de de encerramento das ações militares do curso. A quarta vivência envolveu 26 militares e foi elaborada como uma prévia da desmobilização. A vivência envol- veu a atividade de expressão figurativa e o comparti- lhamento de experiências, nas diversas etapas vividas no curso até o momento, bem como na superação e determinação de cada aluno. Na coleta de dados foi entregue a cada aluno uma folha A4 em branco junto com material de pintura e as seguintes instruções: “Faça um desenho que me- lhor represente a sua experiência no Curso de Ações de Comandos”. Quando todos terminaram o desenho, foi pedido que se reunissem no fundo da sala e juntos construíssem uma “estória” que retratasse a experiên- cia do CAC, unindo todos os desenhos. Ao final do pro- cesso, um aluno, voluntariamente, contou a “estória” que foi elaborada pelo grupo. Após o primeiro relato, a psicóloga o recontou e perguntou se a mesma, real- mente, retratava a experiência comum e se havia algo mais a acrescentar: Segue, então, o relato: "Uma porta se entreabre, mostrando um fundo negro, o que registra o início de todo o processo que envolve o curso; desde o momento do envio do requerimento, sem saber o que está por vir. Mesmo que já se esteja reali- zando o curso, o fundo negro ainda permanece; pois a incerteza acerca do que acontecerá está sempre presente no CAC.Um olhar no horizonte marca o início do curso. Um olhar de incertezas, dúvidas e desorientação. Está marca- da a caminhada que se inicia, o processo.... o fato de que o curso é apenas parte do caminho para atingir nossos ideais. No decorrer dessa caminhada passamos por várias coisas... alguns estressores como cansaço, falta de água e de comida, sono e o peso da mochila. Este sol enorme representa a nossa cabeça...uma cabeça monstro com tantas situações difíceis. Surgem os estressores aplicados pela equipe de instrução, mandando todo mundo para a água. Mesmo com todos os problemas e o tempo todo ocupado, ainda havia força para continuar e para puxar o companheiro. Há várias subidas e descidas, muito esfor- ço e muita luta... Dos que entraram, poucos ficaram até aqui. Ficaram porque têm objetivo, força e determinação: o famoso foco no objetivo!!! A fim de prosseguir neste cur- so, precisaram escalar uma montanha de adversidades: semana complementar, TRL, contra terror, teste de lutas, caatinga e outros. Mesmo chegando até aqui, os estres- sores não diminuíram... ainda há pressão da equipe de instrução, privação de sono, fome, problema de saúde, deficiência de planejamento. Todos estão no mesmo bar- co. Precisamos do espírito de grupo, de equipe. Apesar das turbulências ou das condições extremamente desa- fiadoras, não desistir nunca. Continuar na missão. O CAC gera união... não apenas entre os alunos do curso; mas também com as pessoas em quem cada um se apoia para lhe ajudar a enfrentar os desafios do curso: pai, mãe, fi- lhos, família... No processo é gerado o domínio da mente sobre o corpo. Mesmo perto do fim, alguns alunos foram desligados. Desligados por motivo de saúde. Companhei- ros bons com o perfil de comandos. O fator sorte tam- bém contribuiu para estarmos aqui. Há que continuar na escalada, mesmo com toda a dificuldade. O importante é o objetivo. O importante é a missão. O importante é a satisfação pessoal e profissional de concluir um curso como este. Há muitos obstáculos, muitos quilômetros de subidas e descidas, sem que se deixe ninguém para trás... Pensar no curso é sempre pensar nos seus desafios e obstáculos. Uma conquista dura que exige muito sacrifício e determinação. O fim do curso não é tudo, é apenas o início de uma nova fase profissional e novas missões! Por mais que você se limpe, tem sempre algo preso em você, algo que fica, que não lhe abandona e nem nunca Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 17 lhe abandonará. Talvez por isso seja necessária a des- mobilização. Este desenho retrata o curso e a vida pós- curso com várias situações operacionais que estamos aptos a realizar. Falta pouco, um pouco que é dolorido... Um pouco que nos leva ao nosso limite. Muitas dificul- dades, sempre dificuldades, mas permanecemos... Por vontade, por garra e satisfação. O curso é como uma construção em que colocamos um tijolo a cada dia. O ânimo se renova quando percebemos que está acaban- do, que já chegamos até aqui... No início estávamos em desvantagem. Mas, com objetivo, paciência, superação, persistência enfrentamos nossas decepções, o medo do desconhecido e nossas frustrações. Conhecendo o ini- migo dentro de nós nos tornamos for tes! Nada é certo no curso. As dúvidas, o que aconteceu na piscina, as lutas; tudo isso marcou muito. Porém, são etapas que foram superadas! Todos nós visamos um objetivo. Assim, nos distanciamos da vida anterior com tal propósito. No CAC temos uma vida quase confinada, com problemas de toda ordem, até mesmo problemas de saúde, que são superados em nome do foco. Emesmo com o chão aparentemente infér til e o terreno impróprio, com todas as dificuldades, nascem COMANDOS!" Resultados Estresse Clínico No que se refere ao estresse clínico, o nível de es- tresse do participante foi codificado como: 0 = sem estresse; 1 = estágio de alarme; 2 = estágio de re- sistência; 3 = de quase exaustão; 4 = exaustão, com base no ISSL. Na terceira semana do curso, partici- param da primeira Avaliação de Estresse com o ISSL 41 militares, sendo a maioria de oficiais: 63,41%. Os resultados do ISSL indicaram que a maioria dos par- ticipantes não apresentava estresse clínico: 73,17%, n = 30. Onze militares (26,83%) relataram estresse clínico, dez deles se encontravam na fase de resistên- cia e um na fase de quase exaustão. Logo após o TRL participaram da segunda Avaliação de Estresse 38 militares, sendo a maioria de oficiais: 60,52%. Os resultados indicaram que a maioria dos participantes (n = 24 - 63,15%) apresentou estresse clínico: dois militares estavam na fase de alerta, 21 na fase de resistência e um na fase de quase exaustão. Durante a desmobilização, após três meses de curso, participaram da terceira Avaliação de Estresse Clínico os militares que iriam se formar em comandos, sendo a maioria de oficiais (64,4%). Os resultados indicaram que 43% dos participantes do CAC se encontravam no estágio de resistência. A homeostasiados organismos desses militares, quebrada pelos desafios e desgastes provocados pelas variáveis e condições relacionadas ao CAC, ainda não havia sido restaurada. Estressores O IECAC foi administrado pela primeira vez duran- te a nona semana do curso, na fase do Exercício na Montanha, cobrindo os estressores vivenciados desde o início do CAC. Os estressores relacionados à sobrevi- vência e condições físicas/fisiológicas foram considera- dos os mais intensos, tais como: Apresentar problemas de saúde: ferimentos, dor e mal estar; Carregar carga pesada (peso na mochila); Sofrer privação de sono; entre outros. Com relação aos estressores de nature- za psicossocial ou organizacional, Sentir falta de pe- quenos intervalos administrativos para organizar sua vida foi considerado o quinto mais intenso estressor. Além disso, Sofrer falta de tempo para desenvolver as atividades do CAC; Sentir impacto ao rever a família e Receber punições injustas ocuparam o décimo primei- ro, décimo segundo e décimo terceiro lugar, respectiva- mente. Quanto aos estressores de menor intensidade, em sua maioria, eles foram de natureza psicossocial, na primeira administração do IECAC. Os cinco menos estressantes, em ordem crescente de intensidade fo- ram: Pressão na coesão do grupo pela saída de com- panheiro; Estar ciente de problemas na família; Estar confinado ou isolado; Receber castigo físico; Sofrer pressão para se desligar. Os dados indicaram que os estressores mais ligados à sobrevivência do militar e a sua permanência no CAC foram os considerados de maior intensidade nessa primeira avaliação. Os dois estressores mais intensos foram relacionados pelos participantes ao TRL: 1) Problemas de saúde: feri- mentos, dor e mal estar, entre outros; 2) Carregar carga pesada (peso na mochila). Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha18 Na segunda administração do IECAC, responderam ao instrumento 34 participantes, o que ocorreu du- rante a fase de Exercício em Ambiente Urbano. Nova- mente os dados indicaram que os estressores mais elevados eram de natureza fisiológica e diziam res- peito à sobrevivência e/ou ao risco de ser retirado do CAC: Vivenciar problemas de saúde (média + DP = 7,56 + 2,58); Sofrer privação de sono (média + DP = 7,38 + 1,88); Sentir frio (média + DP = 7,12 + 2,11). Todavia, questões de família sofreram um incremento. Percebeu-se que um estressor relativo à família (Estar ciente de problema com a família), que apresentou uma média baixa com alta variabilidade na primeira administração do IECAC (média + DP = 3,27 + 3,06) ganhou destaque nesta segunda admi- nistração do instrumento com a média bem mais alta e a variabilidade mais baixa: média + DP = 6,89 + 2,93. O estressor Afastamento/Saudades da família também aumentou da primeira (média + DP = 5,29 + 2,99) para a segunda administração do IECAC (mé- dia + DP = 6,46 + 2,80). O estressor de natureza psicossocial Ser exposto a reações exageradas ou pressão do instrutor na primeira administração apre- sentou média+ DP = 4,88 + 2,79; já nesta segunda administração o mesmo estressor apresentou média + DP = 6,61 + 2,40, o que denota um aumento. Assim, esses estressores de natureza psicossocial passam a ganhar maior intensidade. Os dados da terceira administração do IECAC fo- ram coletados durante os Exercícios na Caatinga. Um estressor de natureza fisiológica foi o mais intenso (Experimentar cansaço/desgaste físico), nessa ter- ceira administração do IECAC. O estressor Vivenciar problemas de saúde que foi considerado o mais in- tenso nas duas administrações anteriores passou a ocupar o sexto lugar. Os dados indicaram que o estressor Estar ciente de problema com a família ga- nhou sucessivamente destaque nos três momentos de administração do IECAC : 1) média + DP = 3,27 + 3,06; 2) média + DP = 6,89 + 2,93; e 3) média + DP = 7,43 + 3,41, respectivamente. Conclui-se, então, que à medida que o curso se prolonga os fatores de família ganham importância. O estressor de nature- za psicossocial Ser exposto a reações exageradas ou pressão do instrutor após ter aumentado da primeira para a segunda administração do IECAC, apresentou média + DP = 6,24 + 2,28, nesta terceira aplicação do instrumento, sem alteração significativa. Refletindo o exercício vivenciado pelos alunos, surgiram estresso- res típicos da caatinga, tais como: Ser exposto ao calor intenso e Sofrer sede. Tabela 1: Os dez mais intensos estressores na terceira aplicação: respectivas médias e desvios-padrão Estressor Média DP 1º Experimentar cansaço/desgaste físico 7,88 1,80 2º Estar ciente de problema com a família 7,43 3,41 3º Carregar carga pesada 7,35 2,08 4º Desgaste físico/mental 7,12 2,03 5º Sofrer privação de sono 6,96 1,84 6º Vivenciar problemas de saúde 6,87 2,87 7º Ser exposto a reações exageradas ou histéricas do instrutor 6,24 2,28 8º Sentir frio 6,24 2,90 9º Receber reforço negativo 6,08 2,55 10º Ser exposto à imprevisibilidade 5,81 2,31 Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 19 Representações Pictóricas Após o exame intensivo dos desenhos, emergiram as categorias temáticas: Representação Simbólica; Etapas e Progressão no Curso; Desafio Ascendente para a Meta; Percurso Militar até ao CAC; Represen- tação da Vivência de Desafios; Processo Intenso e Contínuo de Exclusão; Tempo; Atividades da Rotina Militar; Percurso Militar até ao CAC; Natureza sem Ator; Pessoa em Primeiro Plano; Contraste da Vida de Comandos com a Civil. A categoria Representação Simbólica inclui desenhos com um nível de abstração elevado que vai além do concreto, visível e palpável. Abarca sentidos ocultos e associados com aquilo que está representando, unindo diversos sentidos em uma só expressão. Na classificação Representação e Vivência de Desafios, são retratados e destacados momento(s) desafiador(es) que exigem superação por parte do aluno do CAC. Em Desafio Ascendente para a Meta os desenhos ilustram vertical e ascendentemente o processo extre- mamente desafiador do CAC. Na categoria Etapas e Progressão no Curso o infor- mante descreve figurativamente a sua passagem pelas diversas etapas do curso, podendo também indicar estados internos (por exemplo: sono, fome, frio, dor e etc) no percurso para atingir o objetivo. No Processo Intenso e Contínuo de Exclusão o infor- mante mostra a diminuição gradativa do grupo até pró- ximo ao final do curso evidenciando contínuo processo de seleção no curso. A categoria Tempo inclui desenhos com representação figurativa (relógios e ampulheta) destacando a relevân- cia do tempo no cumprimento das tarefas do curso. Em Rotina Militar são representadas atividades comuns no EB. O Percurso na Carreira Militar até ao CAC é uma categoria que descreve a experiência militar em diver- sas escolas/cursos até o informante chegar ao CAC, que é a grande meta. A Natureza Sem Ator retrata uma paisagem de mar e montanha, apenas cenários com elementos básicos. Na Pessoa em Primeiro Plano aparece uma figura humana ressaltada e atrás dela pequenas figuras com traço de baixa nitidez. O Contraste da Vida de Comandos com a Civil mar- ca a diferença entre a vida de comandos e a civil, dividindo-as em diferentes colunas. Categoria temática Frequência Representação Simbólica 5 Representação de Vivência de Desafios 5 Desafio Ascendente para a Meta 4 Etapas e Progressão no Curso 3 Processo Intenso e Contínuo de Exclusão 2 Tempo 2 Atividades da Rotina Militar 1 Percurso Militar até ao CAC 1 Natureza sem Ator 1 Pessoa em Primeiro Plano 1 Contraste da Vida de Comandos com a Civil 1 Tabela 2: Categorias temáticas da análise pictórica e respectivas frequências Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha20 As categorias mais frequentes foram: Represen- tação Simbólica; Representação da Vivência de De- safios; Desafio Ascendente para a Metae Etapas e Progressão no Curso (tabela 2). Conclusões Quanto ao estresse clínico, os resultados mostraram que o nível mais alto ocorreu logo após ao TRL; o que é congruente com a visão de que o TRL é um dos três pon- tos de inflexão, ou seja, pontos de maior dificuldade no CAC, junto com o Teste de Lutas e o Campo de Concen- tração. Além disso, ao término do CAC um número sig- nificativo de alunos ainda apresentava um quadro clínico de estresse, o que é consequência dos grandes desafios do curso. Tais resultados apontam a necessidade do mo- nitoramento da saúde física e mental desses militares. Os dados também indicaram um aumento sucessivo da sintomatologia psicológica de estresse da primeira para a terceira administração do ISSL: 1ª administração = 48,78%; 2ª administração = 52,63%; e 3ª adminis- tração = 78,6%; o que está de acordo com o aumento dos estressores psicossociais no decorrer do CAC. Cabe ressaltar que os alunos que relataram estar na fase de quase exaustão foram monitorados recebendo uma atenção especial da equipe. Em relação aos resultados do IECAC, ficou evidencia- do que nenhum estressor do CAC levantado no presente estudo se aproximou do extremo superior da escala de 1 (nada estressante) a 10 (extremamente estressante). Isso pode ser consequência da dosagem de estressor pela equipe de instrução nos procedimentos de simula- ção de estresse e/ou da resiliência própria do perfil dos comandos em formação. Embora os estressores de na- tureza fisiológica tenham se apresentado como os mais intensos, os estressores psicossociais se intensificaram e ganharam destaque no decorrer do curso, se aproximan- do bastante dos fisiológicos, principalmente, o estressor Estar ciente de problema com a família e o estressor Ser exposto a reações exageradas ou pressão do instrutor. Parece que uma vez que a resistência física foi testada e confirmada, os estressores psicossociais se projetam. Possivelmente, estressores ligados à família e outras condições psicossociais tendem a se acentuar com o iso- lamento do militar e continuidade das missões durante o CAC. Estudos futuros são indicados para verificar se esses resultados se mantêm em outras turmas do CAC. Cabe esclarecer que os estressores até agora levan- tados pelo CEP/FDC não cobrem todo o espectro de desafios do CAC. Ainda não foram identificados os es- tressores relativos às missões na selva. Recomenda-se o prosseguimento dos estudos para finalizar a construção do Inventário de Estressores do Curso de Comandos. Com relação à análise dos desenhos representativos das experiências no CAC, foi verificado que expressam um universo simbólico demarcado por especificidades que se configuram em um radical afastamento dos di- lemas cotidianos da vida. Trata-se de uma testagem e preparação operacionais de natureza altamente seleti- va, de suporte técnico específico, condições e contex- tos especiais. Um processo que implica, para o aluno, em altos custos físicos, emocionais e sócio afetivos, de- vido às fortes demandas em relação ao desempenho. Foi possível identificar na maioria dos desenhos (65,38%) a lógica regente que configura o sistema simbólico dos Comandos: extremo desafio, superação e o compromisso supremo com a missão. O objetivo de concluir o curso, o ímpeto para alcançá-lo e o su- cesso na superação são representados pelo símbolo Faca na Caveira, presente em 40% dos desenhos. O relato dos desenhos confirma os resultados da análi- se pictórica; indica a importância da desmobilização e ressalta o famoso “foco no objetivo”. Assim, é plausí- vel conjecturar que o sucesso no CAC pressupõe que o aluno tenha uma perspectiva de tempo orientada para o futuro, pré-requisito para a superação dos grandes desafios (zIMBARDO & BOYD, 1999). A Faca na Caveira é o símbolo da tropa de Comandos do EB. Amplamente falando, a caveira é um emblema da morte do homem. No entanto, ela é “o que sobrevive” do ser vivo após a destruição do corpo. Portanto, ela também adquire o significado de receptáculo da vida e do pensamento, sendo ainda representada como o receptáculo usado nos processos de transmutação Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 21 (CIRLOT, 1971). A simbologia da faca está relacionada à ideia de execução, ela é o instrumento essencial do sacrifício (CHEVALIER & GHEERBRANT, 1988). Os próprios Comandos assim descrevem o seu símbolo: ...A caveira simboliza a morte, que está sempre presente em uma ação de comandos. A faca com a lâmina verme- lha significa o sigilo de uma missão dos comandos e o sangue derramado pelos combatentes. O fundo verde representa as matas do Brasil, e o negro é a noite es- cura, momento ideal para a execução de uma ação de comandos (BRASIL, 2012). Em suma, a Faca na Caveira representou com fre- quência o objetivo a ser atingido (assim localizada em vários desenhos). Ela também foi representada no centro e acima da folha do desenho impulsionando, movendo o aluno a superar os desafios do CAC. Para atingir a sua meta, o tão almejado brevê de Coman- dos, o aluno precisa romper com sua forma de vida anterior e renascer com a nova identidade. No exercí- cio profissional como Comandos, a missão está acima de todas as pessoas e condições de vida. Referências AUGRAS, M. Testes psicológicos e técnicas projetivas: uma integração para um desenvolvimento da interação interpretativa indivíduo-psicólogo. Psicologia Ciência e Profissão, v. 20, n. 2, 12-19, 2000. BRASIL. Estado Maior do Exército. Processo de Transformação do Exército, Diretriz Nr002 do Chefe do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx), de 30 de julho de 2010. BRASIL. Presidência da República, Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa, Decreto Nr6.703 de 18 de dezembro de 2008. CAMPIGLIA, H. Psique e Medicina Tradicional Chinesa. São Paulo: Roca, 2004. CIRLOT, J. E. 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Autora Angela Maria Monteiro da Silva Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha22 Introdução O mergulhador de combate (MEC) é o Oficial ou Praça do Corpo da Armada que possui o Curso de Aperfeiçoamentode Mergulhador de Combate para Oficiais ou Curso Especial de Mergulhador de Com- bate, respectivamente, ou equivalente estrangeiro, reconhecido pela Marinha do Brasil. São voluntários submetidos a um rigoroso proces- so de seleção, que inclui avaliações físicas, médicas e psicológicas. Após um curso de duração de aproxima- damente nove meses, ministrado pelo Centro de Ins- trução e Adestramento Almirante Áttila Monteiro Aché (CIAMA), se tornam elementos de Operações Especiais1 (OpEsp) e passam a pertencer ao Grupamento de Mer- gulhadores de Combate (GRUMEC). As ações empreendidas pelo MEC são aquelas que têm o propósito de destruir ou danificar objetivos de interesse em ambiente predominantemente maríti- mo ou ribeirinho, capturar ou resgatar pessoal ou material, obter informes, despistar e produzir efei- tos psicológicos. 1 As Operações Especiais são aquelas realizadas por pessoal especialmente selecionado e adestrado, empregando meios não convencionais e executando ações também não convencionais. Normalmente, são operações de duração limitada. O sigilo, a rapidez, a surpresa e a agressividade das ações são condições essenciais para o sucesso desse tipo de operação. É indispensável que os militares nelas empregados possuam condições físicas e psicológicas adequadas para o exercício de atividades complexas em ambiente de risco elevado. Jornada de Psicologia Atividade de Risco e Estresse: o dia a dia na vida de um Mergulhador de Combate Capitão-Tenente Felipe Fonseca Mesquita Spranger ::: Centro de Instrução e Adestramento Átilla Monteiro Aché (CIAMA) ::: Destacamento de Mergulhadores de Combate Revista Naval de Psicologia Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 23 AS OpEsp Para tratarmos das OpEsp, é necessário conhecer aspectos que contribuam para o entendimento da natureza dessas operações, em face de inúmeros exemplos registrados na história. Seu curso é ca- racterizado pela surpresa, dissimulação, audácia e velocidade, empreendidos por pequenos grupos, constituídos de elementos com diversificada habili- tação. Esses elementos especializados encontram- se frequentemente em inferioridade numérica, no que se refere a efetivos e a poder de fogo, empre- endendo ações complexas e altamente exigentes, o que requer adestramentos especializados. O fator tempo, elemento por vezes escasso nos con- flitos contemporâneos, reduz a possibilidade de uma adequada preparação para a ação, requerendo, então, adestramento permanente, cauteloso e detalhado, à luz do estado da arte. Preparação e Treinamento As tarefas do MEC envolvem diretamente ações de risco elevado, como por exemplo: o manuseio de diversos tipos de armamento, explosivos, salto de paraquedas a grande altitude, mergulho com equi- pamento de circuito fechado, abordagem de navios e plataformas de petróleo e lançamento a par tir de submarinos e aeronaves. Foi observado que a maioria dos erros em combate está associada ao medo e ao pânico. Assim sendo, de- duz-se que a capacidade de controlar esses impulsos seja extremamente importante. Uma das formas de lidar com isso e minimizar os riscos da atividade é o treinamento repetitivo, aliado ao profissionalismo dos adestramentos diários, que têm como objetivo simular situações de estresse em combate, buscando automa- tizar procedimentos e reações possíveis para as dife- rentes emergências a que o militar possa ser exposto. Da mesma maneira, é de fundamental importância utilizar equipamentos de última geração e que seus operadores estejam bem familiarizados com os mes- mos, sabendo operá-los minuciosamente nos diversos ambientes operacionais, buscando sempre um elevado nível técnico. Contribui também a experiência adquirida ao longo dos anos21onde através de lições aprendidas foram estabelecidas normas padrões de operação, que constam diversos procedimentos detalhados de segu- rança que devem ser seguidos de acordo com cada tipo de adestramento ou missão. 2 O GRUMEC completou, em 10 de março de 2014, 16 de ativação como Organização Militar. Entretanto, existe outra data também marcante para os MEC, pois o dia 03 de abril de 1970 baliza o surgimento de seu verdadeiro embrião, com a criação da Divisão de Mergulhadores de Combate. Esta unidade foi o núcleo organizacional do atual GRUMEC. Destacamento de Abordagem na Força Interina das Nações Unidas no Líbano Exercício de sabotagem de navio, com mina de fixação magnética Abordagem a navio suspeito de pirataria Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha24 Além dos treinamentos específicos para cada tarefa, é de fundamental importância manter uma excelente higidez física, alcançada através de treinamentos fun- cionais diários e constantes testes de aptidão, de forma com que sob pressão e elevado nível de estresse du- rante uma operação, o MEC consiga raciocinar rapida- mente e seu corpo acompanhe sua mente. O estresse na atividade de risco Estresse é a reação de adaptação a qualquer de- manda feita a uma pessoa, sendo um alarme natu- ral do organismo, que nos prepara para situações de luta ou fuga. Portanto, o enfrentamento de uma situação nova requer um reajuste do organismo, a fim de restabelecer o equilíbrio normal do indivíduo. Em outras palavras, podemos dizer que o estresse é o estado do organismo submetido às pressões. Em doses certas, ele funciona como um elemento de mo- tivação, porém, se atingir níveis elevados, pode gerar uma série de reações que podem comprometer o bem estar psicossocial do indivíduo. Na maioria das vezes não é possível prevenir o estresse, mas é possível administrá-lo de forma a reduzir os efeitos nocivos que ele provoca em nosso organismo. Primeiramente, é necessário identificar as situações estressantes e seus elementos causa- dores, depois, é impor tante estabelecer prioridades, para que o indivíduo possa começar a controlar o estresse e aproveitá-lo de forma eficaz no cumpri- mento de sua missão. Situações de estresse podem acontecer durante as missões por envolver diversas atividades onde os ris- cos são inúmeros, desta forma, durante toda sua vida operativa o MEC aprende a conviver com as eventuais contingências, planejando sempre uma segunda linha de ação a ser seguida. Além disso, aprende a convi- ver e suportar a fadiga física e mental, fome, frio, sono e várias situações adversas, onde tudo isso contribui para o seu preparo emocional, inerente à profissão. Mas a principal forma de lidar com isso é através de muito treinamento. O MEC bem treinado sabe que é capaz de realizar todas as suas tarefas nos diversos ambientes operacionais, mesmo encontrando qualquer dificuldade pelo caminho, pois tem consciência que já foi posto à prova e que já passou por situações seme- lhantes, ou piores, durante os diversos treinamentos e missões as quais já foi submetido. Conclusão Quando falamos em estresse, referimo-nos ao ner- vosismo, a tensão, a descarga de adrenalina que ocor- re no corpo humano diante de uma situação de perigo. As mãos tremem, os músculos travam, os olhos turvam e você vê as coisas do fundo do túnel. E isso não é vergonha, é uma reação natural do organismo. Portan- to, é preciso fazer com que o indivíduo seja capaz de reagir adequadamente mesmo em condições adversas. Não é possível lutar contra o estresse. Mas é possível aprender a conviver com ele. Não existe um modelo ideal de ser humano capaz de realizar estes tipos de operações, pois todos são diferentes entre si e cada um tem suas características particulares no que tange aos aspectos relacionados à personalidade. O que existe de comum entre todos os MEC é uma afinidade com as tarefas desenvolvidas pelo GRUMEC e o gosto por executar ações de natu- reza especial. O alto risco envolvido faz com que cada um tenha o devido respeito pela atividade, fazendo com que se cumpram todos os procedimentos de se- gurança necessários, semnegligenciar nenhum deta- lhe, onde nada pode passar despercebido. O estresse Exercício de salto livre Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 25 Capitão-Tenente Felipe Fonseca Mesquita Spranger pode até surgir em algum momento, mas o MEC sabe contorná-lo, pois foi forjado para agir principalmente em ocasiões de extrema dificuldade. “Fortuna Audaces Sequitur” (A Sorte acompanha os Audazes) Referências ARENTz, Carlos Eduardo Horta. Mergulhadores de Combate come- moram 40 anos no Brasil. O Periscópio, Rio de Janeiro, ano XLVIII, nº 66, p.8. 2013. MACIEL, Luiz Eduardo Cetrim. Preparação da tripulação e seus fami- liares para comissões Deployment. O Pericópio, Rio de Janeiro, ano XLVIII, nº 66, p.23. 2013. ESTRESSE. In : wIkIPEDIA Encyclopedia. Disponível em: < pt.wikipedia.org/wiki/Estresse>. Acesso em: 05 jul.2014. ESTRESSE NAS OPERAÇÕES ESPECIAIS: Disponível em: <http://www.defesanet.com.br/sof/noticia/13243/Preparacao-de-e- quipes-de-alta-performance-sob-estresse-/>. Acesso em 05 jul.2014. ESTRESSE NAS OPERAÇÕES ESPECIAIS: Disponível em: http://selfdefense.com.br/artigos/treinamentorealistico.htm. Acesso em 05 jul.2014 Autor http://www.defesanet.com.br/sof/noticia/13243/Preparacao-de-equipes-de-alta-performance-sob-estresse-/ http://www.defesanet.com.br/sof/noticia/13243/Preparacao-de-equipes-de-alta-performance-sob-estresse-/ http://selfdefense.com.br/artigos/treinamentorealistico.htm Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha26 Jornada de Psicologia Suporte Psicológico no Pós-Acidente Aeronáutico Primeiro-Tenente QCOA PSO Fabrícia Barros de Souza | Primeiro-Tenente QCOA PSO Luciana Toaiari Scarlatelli Coelho | Segundo-Tenente QCOA PSO Lívia Cardoso Junqueira Botto | Segundo-Tenente QCOA PSO Vanessa Vaz Santos Segundo-Tenente QCOA PSO Juliana Guimarães de Oliveira ::: Instituto de Psicologia da Aeronáutica (IPA) ::: Introdução Em decorrência de uma série de desastres, sejam eles naturais ou tecnológicos, a área de gestão de cri- ses vem se desenvolvendo no Brasil. Esse contexto de emergências e desastres constitui-se como uma área multidisciplinar, na qual a Psicologia vem inserindo-se gradativamente, com o intuito de fornecer suporte psi- cológico aos vitimados. No âmbito do Comando da Aeronáutica, pode-se destacar que o impacto causado por um acidente aeronáutico vai muito além das perdas materiais e humanas. Quando o desastre acontece, as consequências psicológicas podem fazer com que as vítimas sofram prejuízos emocionais intensos, com danos à sua saúde física e mental. Considerando o significativo papel desempenhado pelo trabalho na vida das pessoas, como fonte de sobrevivência, de identidade, de pertencimento e de apoio social, é de se esperar que os efeitos de um acidente, neste contexto, afetem não apenas os indivíduos diretamente envolvidos, mas toda a comunidade do local de trabalho. Dentre os efeitos do acidente, podemos destacar o adoecimento psíquico, que pode se manifestar de diversas formas e acaba por comprometer, de modo significativo, a vida familiar, social e profissional da- quele que adoece. Considerando, portanto, que a ocorrência de um acidente pode afetar, significativamente, a rotina dos indivíduos e organizações, ressalta-se a importância de se estabelecer medidas para prevenir o adoecimen- to relacionado ao evento traumático, para acelerar os processos normais de recuperação e para restabelecer a rotina das atividades. Atualmente, a atividade de Suporte Psicológico no Pós Acidente Aeronáutico vem sendo desenvolvida con- tinuamente, sendo realizada sob demanda da Organi- zação Militar (OM) afetada pelo acidente. Desenvolvimento Considerações conceituais De acordo com Franco (2012, p. 55), o desastre é: Uma ruptura séria no funcionamento de uma comunidade ou sociedade, causando extensas perdas humanas, mate- riais, econômicas ou ambientais que excedem a habilidade dos afetados em utilizar seus recursos de enfrentamento. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 27 Teoricamente, pode-se distinguir os desastres entre naturais e tecnológicos, por conta das características específicas de cada um. O acidente aeronáutico é classificado como um de- sastre tecnológico, com aspectos peculiares: há poucas chances de sobrevivência; a ocorrência do evento pode ser muito rápida, porém o resgate e a identificação dos corpos podem ser muito demorados e envolve a ativa- ção dos sentidos como a visão do acidente, o cheiro do material e o barulho decorrente do acidente. O desastre produz uma crise, definida por Franco (2005, p. 178) como “a interrupção em um estado previamente normal de funcionamento, que resulta em instabilidade e significativo desequilíbrio no sistema.” A crise advinda de um acidente aeronáutico é cara- terizada pela interrupção da rotina, perdas (familiares, colegas de trabalho, materiais, emprego...), possíveis hospitalizações e homeostase psicológica rompida. Com isso, configura-se a exigência abrupta de uma nova configuração de vida por parte dos afetados. As condições do acidente, aliadas às características pessoais dos envolvidos, definem se o evento é vi- venciado de forma traumática. De acordo com Franco (2005, p. 178), o trauma é “uma ruptura no tecido vivo, causado por um agente externo, como resultado de uma cirurgia, um ato violento, um desastre.” Con- ceitualmente, pode-se distinguir dois aspectos do trau- ma: individual e coletivo. O trauma individual consiste em um ataque ao psiquismo, que destrói defesas da pessoa tão forte e repentinamente que não é possível responder com eficácia à situação. Por outro lado, o trauma coletivo abrange o ataque aos tecidos da vida social, atingindo os vínculos interpessoais. O processo traumático é caracterizado por uma sin- tomatologia complexa, como descrita pela American Psychiatric Association (1994 apud FRANCO, 2005). O fator mais pregnante consiste na persistência do acon- tecimento traumático, a qual pode se expressar de ma- neiras diferentes: memórias recorrentes ou intrusivas, agir ou sentir como se o evento traumático estivesse acontecendo novamente e/ou como se a pessoa fa- lecida estivesse viva, podendo incluir a ocorrência de alucinações. Em contrapartida, reações de evitação também são comuns após a vivência de um evento traumático. As evitações podem dirigir-se a situações, pensamentos, conversas, lugares ou pessoas que, de alguma forma, estão associadas ao trauma. Como resumem Hodgkinson e Stewart (1998, apud FRANCO, 2005, p. 179): As reações típicas ao trauma se apresentam como intensa angústia diante de situações que lembrem o momento trau- mático, ou mesmo algum aspecto referente a ele; reação fisiológica diante desta exposição: ansiedade, sensações físicas, sensação de pânico; diminuição do interesse e par- ticipação nas atividades rotineiras; sensação de estranha- mento diante das outras pessoas, retraimento e isolamento; inabilidade para fazer projetos e medo de morrer. É importante salientar que esses sintomas tendem a variar de acordo com o momento do evento traumá- tico. Didaticamente, pode-se pensar que há uma fase de impacto, logo em seguida à ocorrência do aciden- te; uma fase de recuo, quando as atividades de so- corro e resgate são finalizadas e, por fim, um período pós-traumático, quando as atividades rotineiras vão sendo retomadas. No momento inicial, predominam sintomas de desorientação, altos níveis de ansiedade, negação, limitação na capacidade de pensamento e ação, redução da capacidade de atenção, concen- tração e amnésia. Na fase de recuo, for tes reações emocionais podem ser observadas: luto intenso, ódio, culpa, raiva, responsabilidade, depressão, risco de suicídio, necessidade de relatar as experiências e di- ficuldade de planejamento futuro. Por fim, o período pós-traumático é caracterizado,prioritariamente, pela persistência de memórias dolorosas (flash backs), acompanhadas de altos níveis de ansiedade e hiper- vigilância, que constituem-se indicadores de estresse. Intervenção psicológica O primeiro passo para a intervenção psicológica em um pós-acidente aeronáutico militar é a realiza- ção de uma análise das dimensões e características do desastre. Essa análise deve considerar, entre ou- Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha28 tras informações, o número de mortos e feridos e a função, concreta e simbólica, que as vítimas desem- penhavam na OM. Para isso, é interessante que os profissionais que atuam em situações de crise tenham uma visão da extensão do acontecimento sobre o pú- blico atingido pelo evento. São consideradas vítimas primárias os possíveis so- breviventes do acidente. As denominadas vítimas se- cundárias incluem familiares e amigos das vítimas pri- márias. As terciárias referem-se aos profissionais que atuam diretamente no acidente, como, por exemplo, bombeiros, enfermeiros e médicos. Por fim, as vítimas quaternárias incluem toda a comunidade mobilizada pelo desastre. Tendo clareza dessa configuração, o psicólogo possui mais recursos para planejar ou ao menos gerenciar suas intervenções. De uma forma geral, o papel do psicólogo na in- tervenção de emergência permite identificar as pes- soas em risco para o desenvolvimento de quadros patológicos, oferecer supor te e, se necessário, re- alizar encaminhamento para profissionais especia- lizados. Dessa forma, o psicólogo pode contribuir para a prevenção ou atenuação de transtornos psí- quicos decorrentes do trauma. Na fase de impacto, o objetivo principal desse su- porte é reduzir o estresse agudo causado pela eclo- são do evento, auxiliando o retorno do equilíbrio do funcionamento cognitivo. Essa restauração cognitiva é essencial, inclusive, para que o afetado possa en- tender as informações que lhe estão sendo passadas, assim como responder a perguntas que auxiliem, por exemplo, o contato com alguma pessoa que ele gos- taria que estivesse com ele, ativando assim, os sis- temas de apoio, que contribuem para a recuperação dos afetados, como destaca Franco (2005). A organização de tarefas simples e práticas pode contribuir para o aumento da capacidade de resposta do indivíduo, convidando-o, gradual e solidariamente, a sair da condição de vítima para retomar sua capacida- de de ação e protagonismo no mundo e, ainda, favore- ce o restabelecimento das funções cognitivas. A atividade de suporte psicológico demanda em- patia por parte do profissional para propiciar uma escuta ativa, encorajando os afetados a construírem uma narrativa sobre os fatos ocorridos, o que facilita a organização subjetiva do sujeito. A construção de uma relação de confiança entre profissional e afeta- do, na qual este sinta-se seguro, é fundamental para a realização desse tipo de trabalho. Além disso, são necessárias ao profissional uma boa capacidade de comunicação, flexibilidade e criatividade para agir em uma situação imprevista, completamente distinta do setting clínico tradicional do psicólogo. É importante salientar o cuidado que os profissio- nais, inclusive os psicólogos, precisam ter no sentido de identificar-se com a atividade e, uma vez estando nela, saber respeitar seus próprios limites, pois é um contexto de sofrimento explícito, pelo qual os profis- sionais também podem ser afetados de tal forma a não mais conseguir contribuir. Conclusão A atuação da Psicologia em situações de crises e emergências é um campo em desenvolvimento, ne- cessitando ainda de pesquisas e aprofundamento te- órico. Apesar desse caminho a percorrer, as interven- ções psicológicas em desastres têm certamente sua contribuição em um momento em que o sofrimento humano se impõe de maneira irrevogável. O Instituto de Psicologia da Aeronáutica (IPA) empreende uma busca continuada pela atualização teórica do seu efe- tivo, especialmente, nesta área do saber que encon- tra-se em fase de solidificação. Com isso, o IPA objetiva o estabelecimento de ações que atenuem o impacto psicológico do aciden- te, através do planejamento prévio das atividades de gerenciamento de crise, incluindo-se a previsão das ações de pronta resposta quando confrontada com um acidente e as necessárias intervenções pós-aci- dente, com objetivo de auxiliar os indivíduos a lidar de forma adaptativa com tal evento, o que pode facilitar um retorno saudável ao trabalho. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 29 Segundo-Tenente QCOA PSO Lívia Cardoso Junqueira Botto Referências FRANCO, M.H.P. (2005). Atendimento psicológico para emergências em avia- ção: a teoria revista na prática. Estu- dos de Psicologia, 10(2), 177-180. FRANCO, M.H.P. (2012). Crises e de- sastres: a resposta psicológica diante do luto. O Mundo da saúde, São Paulo, 36 (1): 54-58. Autora Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha30 Jornada de Psicologia Missões Especiais: Antártica Capitão-de-Corveta (T) Givanildo Agostinho da Silva Capitão-Tenente (T) Patrícia Simon Lorenzutti Primeiro-Tenente (T) Zelma Vanessa Dams ::: Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha (SSPM) ::: Introdução A Marinha do Brasil (MB) mantém, no continente An- tártico, desde 1984, a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), onde diversas instituições desenvolvem pesquisas científicas apoiadas pela Marinha do Brasil, por meio do Grupo-Base (GB), composto por quinze mi- litares, sendo quatro Oficiais e onze Praças de diferentes especialidades. O GB permanece na estação, normal- mente, pelo período de um ano. Além do Grupo-Base, a EACF abriga pesquisadores civis e, eventualmente, um grupo de manutenção composto por funcionários e enge- nheiros do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ), responsáveis pelas manutenções de maior monta. Em 2012 houve um incêndio na Estação que acar- retou a perda de grande parte das instalações. Desde então, a MB atua diretamente no trabalho de reconstru- ção da EACF. Atualmente, a Estação conta com as instala- ções provisórias denominadas MAE (Módulos Antárticos Emergenciais) para a acomodação dos militares e civis. A Secretaria da Comissão Interministerial para os Re- cursos do Mar (SECIRM) é a Organização Militar (OM) responsável pela missão realizada pela MB na EACF. Essa OM administra e organiza os meios necessários para que os militares possam desempenhar seu traba- lho na Estação. A SECIRM também é responsável pela escolha dos mi- litares componentes do GB. Para isso, solicita a assesso- ria do Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha (SSPM) na seleção do Grupo-Base que irá guarnecer a EACF. Em face das atividades que realizam, os componentes do GB estão expostos ao ambiente de condições climáti- cas adversas, ao isolamento, sobretudo físico, de outros grupos e de seus familiares e as responsabilidades que repercutem não somente na Estação, mas em nível na- cional e internacional. Esses fatores são considerados fundamentais no processo de seleção, pois os militares candidatos à Missão Antártica serão avaliados em sua capacidade de se adaptarem a essas particularidades. Nessa perspectiva, esse artigo pretende apresentar o trabalho realizado pelo SSPM, cujo objetivo é apoiar a SECIRM na seleção dos militares para composição do GB. Atuação do SSPM O SSPM atua no processo seletivo, visando indicar militares para compor o GB da EACF, com perfil para executar atividades que envolvem risco, estresse, con- finamento, adaptabilidade ao clima inóspito e apoio aos pesquisadores civis. Para isso, o processo avaliativo precisa buscar com- preender o sujeito e suas relações, habilidades e com- petências, no qual a pessoa é percebida como parte de um grupo que lhe exigirá diferentes características técnicas e/ou humanas visando alcançar os objetivosorganizacionais (ALMEIDA, 2009). O ambiente encon- Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 31 trado pelo militar na EACF possui características muito peculiares que exigem do processo seletivo uma es- trutura específica e cuidadosa para melhor analisar os requisitos necessários dos componentes do GB. Assim, a avaliação psicológica é utilizada como ferra- menta que facilita o processo de decisão no momento de seleção para determinada função ou missão, pois contribui com a análise das características pessoais. Logo, a seleção caracteriza-se como um processo de decisão e escolha, devendo funcionar como um filtro através do qual passarão apenas as pessoas com o perfil desejado pela organização. Porém, a decisão fi- nal de aceitar ou rejeitar o candidato cabe ao órgão requisitante (ALMEIDA, 2009; CHIAVENATO, 2004). A seleção realizada pelo SSPM indica os candidatos considerados aptos no processo, mas cabe à SECIRM, como órgão requisitante, escolher, entre esses milita- res, aqueles que serão escolhidos para a Missão. Seleção Inicial É realizada uma seleção psicológica inicial para avaliar os candidatos que seguirão no processo seletivo para a Comissão. Esse processo se baseia na Análise de Traba- lho (SPECTOR, 2005), método descritivo dos diferentes tipos de trabalhos e das características necessárias para o desenvolvimento das tarefas e que, portanto, define os requisitos do perfil desejado para compor a Missão. Após essa etapa, segue-se o planejamento técnico no qual constam as técnicas utilizadas na seleção. A avaliação psicológica para a EACF constitui-se de testes psicológicos que são utilizados como uma medida de desempenho e se baseiam em amostras estatísticas de comparação, sendo aplicados sob con- dições padronizadas (CHIAVENATO, 2004, p.147). Durante o processo, o SSPM faz uso de diversos instrumentos para realizar a avaliação psicológica. Chiavenato (2004) afirma que essa prática permite o melhor rastreamento das características do candidato por meio de amostras do seu comportamento. Pré-Seleção do Grupo-Base e Treinamento Pré-Antártico (TPA) Após a seleção inicial, o processo tem continuidade com os candidatos aprovados na primeira etapa. Esses militares participam da segunda etapa da avaliação, denominada Pré-Seleção do GB. Os candidatos aprovados nessa fase seguem para a terceira e última etapa da seleção, denominada Treinamento Pré- Antártico (TPA). Tanto a fase da Pré-Seleção do GB quanto o TPA ocorrem na Ilha da Marambaia (RJ), um centro de instrução e treinamento da MB. O trabalho do SSPM, realizado nessa Ilha, busca ava- liar o comportamento dos candidatos numa situação típica de trabalho, para o qual estão se voluntariando, com o emprego de Técnicas Vivenciais, Dinâmicas de Grupo e observação do desempenho nas demais ativi- dades propostas pela SECIRM. As técnicas vivenciais assemelham-se às técnicas de simulação apresentadas por Chiavenato (2004), as quais são essencialmente técnicas que procuram aproximar a tarefa da realidade que será vivenciada no cotidiano, possibilitando analisar e diagnosticar o com- portamento do avaliado. Essas estratégias centram-se no trabalho em grupo e ação social no momento em que está sendo realizada a avaliação, promovendo aprendizagem ao mesmo tempo em que os candidatos são avaliados (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001). As técnicas vivenciais contribuem significativamente, pois fornecem uma expectativa mais realista acerca do com- portamento dos sujeitos e permitem um prognóstico mais fidedigno dos seus desempenhos na Missão. A proposta de trabalho de avaliação, adotado pelo SSPM, nas duas etapas da Ilha da Marambaia, inspira- se no modelo metodológico que Robbins (2010) deno- mina de centros de avaliação, um tipo de simulação de desempenho. Trata-se de um "conjunto de testes de simulação de desempenho com o objetivo de avaliar o potencial gerencial do candidato" (p.536), ao qual os candidatos são submetidos por mais de um dia. Assim, os candidatos passam por exercícios que simulam os problemas reais que poderão enfrentar na prática de seu trabalho na Estação Antártica. Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha32 Chiavenato (2004) pontua que esses tipos de téc- nicas são utilizadas para avaliação de atividades que exigem um forte componente de relacionamento in- terpessoal por possibilitar a observação de atividades que serão executadas no cotidiano. Promovem, ainda, feedback e aprendizagem, favorecendo o autoconheci- mento e a autoavaliação, ao mesmo tempo em que se fomentam aprendizagens vivenciais (DEL PRETTE & DEL PRETTE, 2001). Desse modo, busca-se o duplo objetivo proposto por este trabalho: selecionar e treinar. Desenvolvimento Interpessoal A realização do Desenvolvimento Interpessoal do GB da Comissão Antártica tem como objetivo precípuo promover a coesão grupal por meio de técnicas e di- nâmicas de grupo. Esse trabalho é realizado antes dos militares partirem para a Estação e tem a duração de uma semana. Corroborando com o estudo de Reis (2007), o de- senvolvimento interpessoal ocorre por meio de estra- tégias e ferramentas utilizadas em situações simula- das com o objetivo de impulsionar o aprimoramento da equipe. Essas ações são efetivadas por meio do planejamento do desenvolvimento interpessoal, elabo- rado com essa finalidade, contendo diferentes ativi- dades visando ao treinamento e ao desenvolvimento de habilidades e atitudes necessárias ao desempenho individual e em equipe. Nesse sentido, Reis (2007) enfatiza a importância de habilidades que facilitem o trabalho em equipe, dife- rentes daquelas exigidas em tarefas individuais, argu- mentando que a organização precisará conhecer como obter adesão das pessoas e fazer com que se dispo- nham a aprender e a mudar conforme as exigências do contexto e necessidades do grupo, pois nenhuma equi- pe de trabalho nasce pronta, ela aprende e se desen- volve continuamente. Assim, considerando as particu- laridades da Missão Antártica, desenvolver e promover habilidades de convivência em grupo torna-se fator de saúde emocional, pois, além de ser o local de traba- lho, a EACF também será a moradia dessas pessoas no longo período da comissão. Destacando-se assim, a necessidade de aprimorar os recursos pessoais para conduzir as situações que surgirão durante a comissão. Outro aspecto também abordado no Desenvolvimento Interpessoal do GB é o afastamento familiar. No decorrer do trabalho, essa questão é abordada e, muitas vezes, suscitada pelo próprio grupo, posto ser comum a mobi- lização dos militares devido à proximidade do embarque para essa longa Missão. Uma estratégia adotada pelo SSPM é propiciar o conhecimento mútuo dos familiares, incluindo-os, presencialmente, nesse trabalho e amplian- do, dessa forma, as redes sociais de apoio para os fami- liares que permanecerão no Brasil. Acompanhamento O SSPM faz o acompanhamento dos militares que compõem o Grupo Base da Estação Antártica Coman- dante Ferraz (GB-EACF) por meio de Entrevistas de Feedback ao retornarem da Missão. Essas entrevistas possibilitam aprimorar o processo de seleção e propor discussões sobre a análise de trabalho, cujo conteúdo embasa a elaboração do perfil desejado para os milita- res que irão compor a Missão. O conteúdo das entrevistas de feedback permite enfatizar a importância de alguns fatores, como o tra- balho em equipe. Destaca-se, ainda, administração de conflitos por meio do diálogo como recurso fundamen- tal para a convivência na Estação Antártica. Souza (2007) afirma que trabalho em equipe faz emergir divergências quanto à tarefa, aos interesses e às motivações, sendo que essas diferenças precisam ser reconhecidas e trabalhadas por meio de comunicação eficaz que possibilite manutenção e facilite o crescimento da equipe, pois, somente dessa forma, os conflitos po- derão ser mediados e poderãoultrapassar a condição de obstáculos e favorecer o comprometimento com a tare- fa. Essa possibilidade de transformação construtiva das diferenças também costuma ser observada na Missão Antártica. Percebe-se que situações conflituosas podem vir a promover o maior conhecimento dos colegas de GB, permitindo melhor relacionamento, pois, ao reconhecer as diferenças, as pessoas podem melhor lidar com as características dos outros, inclusive aqueles com quem não têm significativa afinidade. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 33 O incêndio ocorrido na Estação Antártica, em 2012, pode ser considerado como um período marcado por incertezas em que não se sabia qual seria o futuro da comissão. Logo após o incêndio, foi necessário providenciar a retirada dos escombros. Nessa fase, ressalta-se o comprometimento do grupo na execu- ção dessa extenuante tarefa, assim como o papel do chefe no exercício da liderança. Suas atitudes preci- sam demonstrar implicação com as necessidades do grupo e suas ações devem evidenciar a busca para atender essas demandas. [...] em momentos de transição e incerteza, o líder pre- cisa mostrar o caminho em meio ao caos, dar luz a novas possibilidades e induzir pessoas a acreditar na sua visão de futuro. Mais do que nunca, suas habilidades, conheci- mentos e atitudes devem ser aceitos e reconhecidos pelos membros de sua equipe como capazes de dar direção e o significado do trabalho, além de serem capazes de pro- vocar a caminhada sinérgica de seus componentes, por meio da criação, do fortalecimento e manutenção da rede de relações e do apoio à troca e ao compartilhamento (CAVALCANTI, 2007, p.35). A partir do exposto, destaca-se a importância e in- fluência que as atitudes do líder têm no grupo sob o seu comando, contribuindo, de forma decisiva, para o sucesso do seu trabalho. Visita à EACF De acordo com a demanda da SECIRM, em 2011, foi designado à EACF um psicólogo do SSPM a fim de acompanhar e avaliar algumas das atividades desen- volvidas pelo GB para ajustes na aplicação do TPA. O militar permaneceu por, aproximadamente, um mês na EACF participando das tarefas para a manutenção da Estação e atuando como membro do grupo. Como téc- nica para coleta de dados utilizou a observação parti- cipante que: [...] consiste na participação real do conhecimento na vida da comunidade, do grupo ou de uma situação deter- minada. Neste caso, o observador assume, pelo menos até certo ponto, o papel de um membro do grupo. Daí por que se pode definir observação participante como a técnica pela qual se chega ao conhecimento da vida de um grupo a partir do interior dele mesmo (GIL, 2008, p.103). O trabalho de observação in loco, realizado pelo SSPM, contribuiu, de forma efetiva, para a ampliação do conhecimento acerca da atividade em foco e se tor- na imprescindível para a realização de um adequado processo de avaliação psicológica, diante de uma Co- missão com tamanhas especificidades. Considerações Finais Ao longo de seus 63 anos de existência, o SSPM vem buscando o constante aprimoramento dos trabalhos que desenvolve. Nessa linha de crescimento, o proces- so de seleção de pessoal para compor o Grupo-Base da EACF apresenta-se como o modelo mais completo e complexo de avaliação psicológica desenvolvido por esta OM. Completo, pois a teia de técnicas utilizadas aborda desde uma testagem psicológica inicial, per- passando pelo uso de Técnicas Vivenciais e pelo tra- balho de Desenvolvimento Interpessoal, culminando no acompanhamento dos militares que cumpriram a Missão. Complexo, posto que conduzir essa proposta Vista panorâmica das atuais instalações Módulos Antárticos Emergenciais. Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha34 Referências Autores ALMEIDA, Flávia A. Perspectivas e desafios da avaliação psicológica nas organizações. (p.11 - p.22). In: BANDEIRA, Denise R.; PEREIRA, Daniela F. (org.) Aspectos práticos da avaliação psicológica nas organizações. São Paulo: Vetor, 2009. CAVALCANTI, Vera Lucia et al. Liderança e motivação. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007. CHIAVENATO, Idalberto. Gestão de pessoas: e o novo papel dos recur- sos humanos nas organizações. 2.ed. Rio de Janeiro: Eselvier, 2004. DEL PRETTE, Almir; DEL PRETTE, zilda A. P. Psicologia das relações interpessoais: Vivências para o trabalho em grupo. Petrópolis, RJ: Vo- zes, 2001. GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6.ed. São Paulo: Editora Atlas, 2008. OS MÓDULOS ANTÁRTICOS EMERGENCIAIS BRASILEIROS. XXIII Reu- nião de Administradores de Programas Antárticos Latino-Americanos, 2012, Rio de Janeiro. PSICOLOGIA EM DESTAQUE. Rio de Janeiro: Serviço de Seleção do Pes- soal da Marinha, 2011, nº 01. ISSN: 2238-1139. PSICOLOGIA EM DESTAQUE. Rio de Janeiro: Serviço de Seleção do Pes- soal da Marinha, 2014, nº 02. ISSN: 2238-1139. REIS, Ana Maria V. et al. Desenvolvimento de equipes. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007. ROBBINS, Stephen P.; JUDGE, Timothy A.; SOBRAL, Filipe. Comportamen- to Organizacional: teoria e prática no contexto brasileiro. 14. ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010. SERVIÇO DE SELEÇÃO DO PESSOAL DA MARINHA: 60 anos. Rio de Janei- ro: Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha, 2011. SOUzA, Vera Lucia de et al. Gestão de desempenho. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007. SPECTOR, Paul E. Psicologia nas organizações. São Paulo: Saraiva, 2005. metodológica de seleção torna-se um grande desafio. Ainda cabe ressaltar que a participação do militar na comissão Antártica implica o envolvimento tanto do mi- litar quanto da família, pois o afastamento do convívio familiar por longo período vai demandar esforço das pessoas próximas para tolerar essa distância e admi- nistrar as questões familiares na sua ausência. Módulos Antárticos Emergenciais instalados. Capitão-de-Corveta (T) Givanildo Agostinho da Silva Capitão-Tenente (T) Patrícia Simon Lorenzutti Primeiro-Tenente (T) zelma Vanessa Dams Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 35 Jornada de Psicologia Missões Especiais: Líbano Suboficial FN-IF Gilmar Rodrigues da Silva ::: Comando da Tropa de Desembarque ::: No período de 04 de dezembro de 2012 a 31 de agosto de 2013, tive a nobre missão de integrar a tripu- lação da Fragata Constituição na Comissão para a For- ça-Tarefa Marítima da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (FTM-UNIFIL). Sob a égide da Organização das Nações Unidas (ONU), a Fragata Constituição, já como Navio Capitânia, tinha a função de patrulhar o litoral do Líbano com navios de diferentes nacionalida- des (Alemanha, Turquia, Grécia e Bangladesh). Com a função de Supervisor do grupo de reação con- tra ameaças assimétricas, tinha sob minha responsabili- dade dezoito militares. Uma das principais atribuições do grupo era guarnecer os conveses abertos para realizar a segurança do navio durante a navegação em águas restritas, as entradas e saídas de portos ou quando fun- deados próximo ao litoral, e também quando ocorria a troca do Oficial de Ligação Libanês. Durante a missão, a rotina foi intensa e ocorreram riscos marcantes, como os foguetes que atingiram a capital do Líbano e um carro bomba que foi detona- do em um bairro muçulmano. Além dos episódios de risco real, outras situações relacionadas ao confina- mento e à distância da família foram consideradas fatores de estresse. Devido aos riscos e às peculiaridades de uma mis- são desse por te, a preparação e a capacitação dos militares envolvidos foi intensa. Além dos diversos treinamentos operativos oferecidos pela Marinha do Brasil, foram realizadas palestras sobre a popula- ção libanesa, suas religiões, cultura e singularida- des. Na mesma ocasião, foram transmitidas orienta- ções sobre controle do estresse. Aos familiares dos envolvidos foram apresentadas orientações sobre como lidar coma ausência do militar. Apesar das adversidades vividas durante os nove meses no Líbano, a missão foi cumprida com êxito. O Comando da Fragata Constituição (F-42) contornou todos os óbices apresentados contribuindo sobre- maneira para minimizar os efeitos negativos causa- dos pelo longo afastamento das terras brasileiras. Somado a isso, o preparo e a competência de todos os militares da Marinha do Brasil envolvidos na mis- são foram determinantes para que a mesma fosse finalizada com sucesso. Suboficial FN-IF Gilmar Rodrigues da Silva Autor Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha36 Jornada de Psicologia Estresse na Vida Moderna Lucio Emmanuel Novais ::: Instituto de Psicologia e Controle do Stress Marilda Emmanuel Novaes Lipp ::: Um tema que custa caro a todos os brasileiros: o estresse na vida moderna. Nesse artigo, você vai ficar sabendo o que fazer para evitar e tratar o estresse, e também quem são os mais afetados por este mal. O estresse não é uma doença, mas sim uma comple- xa reação psicofisiológica que nasce da necessidade do organismo lidar com algo que, de um modo ou de outro, o irrite, amedronte, excite ou confunda. E até mesmo que o faça imensamente feliz (Lipp, 1985). Os sintomas mais comuns são: dores de cabeça constan- tes, ansiedade, depressão, tensão muscular, dores de estômago, gastrite, irritabilidade, hipertensão, taqui- cardia, aftas, queda de produtividade, confusão mental, apatia, desânimo e dificuldade de concentração. Uma das razões para o estresse na vida moderna é a procura excessiva pela realização de projetos, às vezes muito grandes, e que vão além da possibilidade pessoal de serem desenvolvidos, em que os limites não são respeitados ou observados. O estresse pode vir de fora ou de dentro da pessoa. Como fontes externas, é possível citar: acontecimentos do dia a dia, perda de emprego, violência doméstica, violência urbana, brigas de família ou no trabalho. Já as fontes internas dizem respeito à maneira como interpretamos as situações, como querer ser aprovado em tudo que faz, achar que só sua verdade é a que conta, fazer duas ou mais coi- sas ao mesmo tempo, agir sempre correndo ou como se estivesse competindo, achar que só o seu jeito de fazer as coisas é o correto, comer, falar e andar rápido demais. Tudo isso provoca estresse. Nem sempre a pessoa com estresse excessivo tem consciência de seu estado. Se você já teve alguma manifestação física desencadeada por um estresse muito grande ou pela somatória de muitos fatores estressantes, mas constantes, seu tratamento neces- sariamente deverá ser feito por um psicólogo espe- cialista em estresse. Uma pesquisa realizada em São Paulo com 1.500 pessoas revelou que 32% dos entrevistados apre- sentavam estresse excessivo, sendo que 13% eram homens e 19% eram mulheres. Portanto, as mulheres apresentam mais estresse do que os homens. E exis- tem três hipóteses para isso: 1. Hipótese biológica: maior sensibilidade ao es- tresse devido aos hormônios femininos; 2. Hipótese emocional: talvez os homens inibam mais as emoções ou relatem menos os sinto- mas; e 3. Hipótese social: o modo como se ‘aprende’ a ser menina e que depois se intensifica com as pressões sociais, pois se espera que elas se- jam mães e filhas amorosas, esposas e mulhe- res exemplares. Sem contar que a sociedade, em geral, valoriza mais as características masculinas. Você já viu algum super- herói com características femininas? Não há, mesmo as heroínas têm características masculinas. Repare, por exemplo, como a Shirra é forte, bruta… São características masculinas. Outro ponto é a diferença Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 37 salarial: as mulheres normalmente ganham menos do que os homens para desempenhar a mesma função e, por isso, encaram tripla jornada de trabalho – trabalham como os homens, fazem as tarefas de lar e ainda levam serviço para casa. O estresse funciona como um ciclo: a vida moderna, com seu ritmo acelerado, leva ao estresse. O estresse, por sua vez, quando não tratado leva a varias doenças. No Centro Psicológico do Controle do Estresse traba- lhamos quatro pilares para combater o estresse: Alimentação anti-estresse: Deve ser rica em legumes, verduras e frutas. Coma pouco sal e gordura, chocola- te, café e refrigerantes. Relaxamento: Quando relaxamos o nosso corpo e mente, aumentamos as chances de nos livrarmos das tensões acumuladas e de nos prepararmos para novos desafios. Além disso, todo ser humano precisa de pelo menos meia hora por dia para relaxar. Exercício físico: Sugerimos caminhadas de trinta mi- nutos pelo menos três vezes por semana. Mas é im- portante consultar o seu médico antes de começar a se exercitar. Estabilidade Emocional: Tente pensar de modo posi- tivo, vendo o lado bom das coisas. Se algo o incomoda, procure falar sobre o assunto. Se alguém o magoar, converse calmamente com a pessoa sobre seus senti- mentos. Não se preocupe com problemas sem impor- tância e reflita sobre o fato de que, na verdade, poucas coisas importam tanto a ponto de merecerem toda a sua preocupação e sacrifício. Não assuma mais respon- sabilidades do que pode dar conta, aprenda a dizer ‘não’ e entenda que todo problema tem fim, pois nada ruim dura para sempre. Mantenha um estilo de vida saudável, dentro dos seus limites; valorize apenas o que é impor tante para sua vida; reserve tempo suficiente para rea- lizar seus projetos; organize sua agenda; pense calmamente no que vai fazer durante aquele dia. Lembre-se que a essência da vida é SER e não FA- zER. Faça algum tipo de relaxamento e, quando se se sentir afobado, pergunte-se: “Que impor tância esta atividade vai ter daqui a um ano?”. Psicólogo Lucio Emmanuel Novais Autor "Quando relaxamos o nosso corpo e mente, aumentamos as chances de nos livrarmos das tensões acumuladas e de nos prepararmos para novos desafios. Além disso, todo ser humano precisa de pelo menos meia hora por dia para relaxar." http://www.estresse.com.br/ Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha38 Jornada de Psicologia Gameficação Aplicada às Atividades de Risco Marcel Cohn ::: Gameficadora ::: A retomada do projeto Proantar (Programa An- tár tico Brasileiro) na Estação Antár tica Comandan- te Ferraz após o incêndio no ano de 2012 traz um questionamento: O que a Marinha Brasileira pode fazer para evitar que outros acidentes como esse aconteçam? Quando faço essa pergunta uma resposta clara vem a minha cabeça, a necessidade de investimento em treinamentos cada vez mais eficazes para ativi- dades de risco, deste modo minimizando perdas e otimizando a eficácia das operações. Estou citando o incidente na Estação Antár tica por ter sido o incidente de maior repercussão na mídia, porém, creio que novas soluções de treinamentos mais aperfeiçoados devam ser implementadas em todos os programas da Marinha Brasileira, tais como Missões de Paz da ONU, Mergulho Saturado, Combates a aviação naval dentre outros. Uma característica de treinamentos convencionais é a de serem entediantes e na sua grande maioria não contemplam com clareza a realidade cotidiana dessas missões. A solução para o aperfeiçoamento e melhor quali- dade na absorção desses conteúdos é a utilização de técnicas de Gameficação. Mas o que é Gameficação? Gameficação é o uso de mecânicas, processos, fer- ramentas e técnicas de jogos para resolver problemas que são relacionados ao ambiente real. Esse conceito foi criado em 2012 nos Estados Uni- dos, mas ainda é pouco conhecido pelo brasileiro, ape- sar de o Gartner Group ter divulgado que até 2015, 80% da inovação mundial se dará via Gameficação. Existem diversos fatores que fazem com que estra- tégias de Gameficação façam tanto sucesso. Entre elas podemos citar: • As pessoas estão cansadas da “mesmice” da realidade; • Nosjogos o jogador se sente vivo, focado, ativo a todo momento; • Todo o jogo possui um propósito heróico, que quando esse propósito é cumprido chega-se ao momento “fiero” - momento de orgulho pró- prio o que gera uma grande emoção e a certeza do dever cumprido. • Todo jogo sempre possui uma competitividade saudável; • Senso de trabalho em equipe; e • Oferece recompensas que a realidade não pode proporcionar. Sentimentos quando jogamos Epic win: Alcançar um resultado tão positivo que você só consegue ver que era possível depois que alcançado. Fail: Quando falhamos na vida real, ficamos frustra- dos depressivos, porém no mundo dos games, quando falhamos, encaramos com naturalidade, começamos tudo de novo e aprendemos com os nossos erros. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 39 Com esses conceitos muito bem consolidados e com o objetivo de aperfeiçoamento de seus soldados para a retirada das tropas do Afeganistão o exército ameri- cano, em 2012, implementou um modelo de treinamen- to chamado “multi-missão” do futuro. O Centro Nacional de Treinamento, em Fort Irwin, na Califórnia, e o Centro de Treinamento Conjunto de pron- tidão, em Fort Polk, Louisiana, começaram a criar um novo estilo de rodízios de treinamento. Nosso plano é priorizar o desenvolvimento de líderes. Nós vamos adaptar a prontidão e modelos de formação para melhor preparar as unidades para operar no que acredi- tamos ser ambientes cada vez mais complexos em que vamos ter que atuar. (General Raymond Odierno, chefe do Estado Maior do Exército Norte-Americano). Tendo em vista que os primeiros videogames fo- ram desenvolvidos em ambiente militar pelo físico william Higinbotham, a utilização de gameficação para treinamentos é a solução para que esse ciclo se feche, e com ele seja gerado novas descober tas e nossas forças armadas estejam muito mais bem preparadas para qualquer situação. MARINHA DO BRASIL Marcel Cohn Autor Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha40 Jornada de Psicologia Contribuições da Psicologia no Gerenciamento de Crise Capitão-Tenente (T) Camila Gomes Macedo Soares Capitão-Tenente (T) Cezar Augusto Lima Santos Primeiro-Tenente (T) Lívia Espíndola Gomes ::: Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha (SSPM) ::: Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha (SSPM) "Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha, sofrerá também uma derrota. Se você não conhece o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas." (Sun Tzu. 500 a.c.) Introdução Segundo a Academia Nacional do Federal Bureau of Investigation (FBI) ,“crise” pode ser definida como “um evento ou situação crucial que exige uma resposta especial da polícia, a fim de assegurar uma solução aceitável”. A situação de crise possui três características: • Imprevisibilidade; • Ameaça à vida; e • Compressão do tempo (urgência). Essas características geram a necessidade de uma postura organizacional não rotineira por parte das Instituições envolvidas, planejamento analítico espe- cial, capacidade de implementação e considerações legais especiais. Exige, também, mudança de estrutura das organiza- ções envolvidas e mobilização de recursos humanos e materiais em busca de uma solução. Sendo assim, a crise será mais bem resolvida quanto menor for o grau de violência empregado. Neste con- texto, o psicólogo contribui com importantes atribui- ções no gerenciamento de crise, assumindo o papel de assessor no evento crítico. Gerenciamento de Crise A doutrina sobre Gerenciamento de Crise estudada e aplicada no Brasil já vem recebendo um tratamento científico nos Estados Unidos há algum tempo. Atual- mente, seu entendimento é essencial no atendimento Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 41 de ocorrências em eventos cruciais. O FBI define Ge- renciamento de Crise como: "processo de identificar, obter e aplicar os recursos necessários à antecipação, prevenção e resolução de uma crise." Em eventos que envolvam reféns, o foco da ação será sempre salvar vidas e aplicar a lei. Papéis do Psicólogo no Gerenciamento de Crise É pertinente a contribuição de um Psicólogo ao Ge- renciamento de Crise e sua atuação ocorre por meio das seguintes ações: • Identificar o perfil psicológico e a dinâmica de personalidade dos elementos causadores da crise; • Avaliar o estado mental e emocional dos ele- mentos causadores da crise, verificando possí- veis sinais de fadiga que possam comprometer a qualidade das negociações; e • Investigar a possível ocorrência da Síndrome de Estocolmo (sentimento de simpatia recíproco entre os sequestradores e reféns). Ressalta-se que a Marinha do Brasil, com o intuito de preparar seu pessoal para gerenciar eventos críticos, criou o Curso Especial de Negociação em Conflitos com Tomada de Reféns (NECONREF). Este curso visa habili- tar o Oficial a participar e/ ou supervisionar diretamen- te as negociações em conflitos com tomada de reféns e os psicólogos do Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha (SSPM) vêm sendo habilitados no referido cur- so para melhor assessorar. Por fim, cabe destacar que os psicólogos do SSPM fizeram parte das Equipes de Negociação, constituídas também por integrantes de outras Forças Militares, nos seguintes eventos de projeção internacional: • Jogos Mundiais Militares (2011); • Rio+20 (2012); • Copa das Confederações (2013); • Jornada Mundial da Juventude (2013); e • Copa do Mundo (2014). Considerações Finais Entende-se, portanto, que a atuação do psicólogo como assessor em situações de crise, somente reforça a importância do diálogo entre a Psicologia e outras áreas. Os psicólogos deste Serviço de Seleção vêm ga- nhando cada vez mais espaço ao participarem de gran- des eventos e de exercícios de simulação em situações de crise, contribuindo, assim, com seus conhecimentos no manejo de situações críticas. Referências ACADEMIA NACIONAL DE POLÍCIA. Manual de Gerenciamento de Crise. Brasília, 1991. IBÁÑEz, LUIz DE LA CORTE. La Lógica Del Terrorismo. Madrid: Alianza Editorial, S.A, 2006. Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha42 Jornada de Psicologia Contribuições para a Vistoria de Segurança de Aviação Capitão-Tenente (T) Patricia Alexandre de Araujo Alves Primeiro-Tenente (T) Tatiana Moreira da Silva Primeiro-Tenente (T) Érica Conrado Nogueira de Mattos ::: Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha (SSPM) ::: Introdução No ano de 1974, a Marinha inseriu o Serviço de In- vestigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos da Marinha (SIPAAerM) na estrutura organizacional da Dire- toria de Aeronáutica da Marinha (DAerM), a fim de atuar na área de segurança de voo, implementando ações que sedimentassem a cultura de segurança de aviação nas diversas unidades aéreas da Marinha do Brasil. Dentre os aspectos que podem contribuir para a ocorrência de acidentes aeronáuticos, o fator humano (aspecto psicológico) delineia-se como bastante rele- vante, segundo as pesquisas, pois é uma das principais causas de acidentes neste ambiente. Neste sentido, o psicólogo que atua na área de aviação desenvolve di- versas atividades com o intuito de prevenir a ocorrên- cia de novos acidentes e incidentes, bem como reforçar a cultura de segurança de aviação. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 43 Em 2005, a fim de se inserir neste cenário e am- pliar o campo de atuação de seus psicólogos, a Ma- rinha criou o Curso Especial de Psicologia de Aviação (C-Esp-PAVO). Desde então, cabe a este profissional desenvolver atividades de prevenção relativas ao fator humano, tais como: • Realização de palestras; • Participação em investigaçãode incidentes e acidentes aeronáuticos; e • Participação em Vistorias de Segurança de Avia- ção (VSA). A VSA é uma importante ferramenta na prevenção de acidentes aeronáuticos e a participação de psicólogos nas mesmas iniciou-se em 2003, conforme previsto no Programa de Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (PPAA) 2003, do Serviço de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos da Marinha (SIPAAerM). O Psicólogo na Vistoria de Segurança de Aviação O Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha possui em sua tripulação psicólogos capacitados na área de aviação e aptos para compor uma equipe de Vistoria de Segurança de Aviação (VSA). Nas VSA são realiza- dos diversos exercícios de operações aéreas a fim de que a equipe de vistoriadores, composta por militares de diversas áreas, entre eles o psicólogo, identifiquem perigos existentes e possam estabelecer medidas de prevenção para combatê-los. O psicólogo, neste contexto, possui uma lista de ve- rificação que abrange diversos aspectos individuais e organizacionais, tais como: • Sobrecarga de trabalho; • Comunicação; • Cultura organizacional; • Treinamento; e • Motivação. Ao longo da VSA, além de observar os exercícios de operações aéreas, o psicólogo realiza entrevistas com o médico de bordo, com o Agente de Segurança de Aviação (ASAv) e com os demais militares envolvidos em operações aéreas, a fim de identificar os perigos relativos aos aspectos psicológicos. Com base nestas técnicas e de acordo com a orientação do Vistoriador- Chefe, o psicólogo aponta os perigos potenciais, os riscos provocados por estes perigos e propõe medidas e recomendações de segurança, com o intuito de mi- nimizar os riscos inerentes aos perigos encontrados. Ao final da VSA, toda a equipe se reúne e expõe, para o comandante do navio e para a tripulação envolvida nas operações aéreas, os perigos encontrados e as medidas de segurança propostas. Uma Vistoria de Se- gurança de Aviação busca sempre identificar perigos, mitigar riscos e, consequentemente, prevenir acidentes e incidentes aeronáuticos. Conclusão Diante do exposto, pode-se concluir que os psicó- logos de aviação da Marinha do Brasil vêm, ao longo dos anos, contribuindo com diferentes estratégias para a prevenção da ocorrência de acidentes e incidentes aeronáuticos, reforçando a cultura e a mentalidade de segurança em todas as unidades aéreas. Neste cená- rio, destaca-se o Serviço de Seleção do Pessoal da Ma- rinha inserindo seus psicólogos na área de aviação e buscando novas propostas de intervenções, bem como formas mais efetivas de atuação. Referências ALVES, P. A. A.; SILVA, T. M. A Psicologia e a Aviação Naval: algumas contribuições. Revista Psicologia em destaque, v.1, n.1, 2011. DEJOURS, C. O fator humano. RJ: Editora FGV, 1997. MOREIRA, S. L. Bozzeti. A Psicologia da Aviação e a segurança de vôo. In: PEREIRA, M. C.; RIBEIRO, S. L. (Org.). 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No presente estudo buscou-se verificar a relação entre dois tipos de conflitos relacionados ao trabalho e à família e o impacto dos mesmos sobre a intenção de sair do emprego. O Conflito trabalho-família é entendido como a percepção de que o trabalho está interferindo na vida familiar. Por sua vez, o conflito família-trabalho se refere ao conflito no qual a família é percebida como um problema por estar interferindo na vida profissional do indivíduo. Foram coletados dados com 364 trabalhadores, de diversas organizações do estado do Rio de Janeiro, diferenciados em função do sexo, idade, tempo de serviço, estado civil e posse ou não de filhos. Dos 364 trabalhadores, 132 eram do sexo masculino, média de idade de 28,49 anos, média de tempo de serviço de 9,42 anos, 213 solteiros e 221 não possuem filhos. Os resultados do presente estudo evidenciaram que o conflito trabalho-fa- mília é uma importante variável e que deve ser considerada nas estratégias das organizações para a retenção de seus talentos e a diminuição dos índices de rotatividade. Foi observado que há um impacto negativo do conflito família-trabalho para a intenção de rotatividade, ou seja, quando ocorrem proble- mas na família, esta é vista como um obstáculo ao atendimento das demandas profissionais. Diferente do que foi hipotetizado, os dados evidenciaram que o conflito família-trabalho tem um impacto negativo sobre a intenção de rotatividade. Finalizando, os dados evidenciaram que o conflito família-trabalho era maior no caso em que um dos cônjuges não trabalhava. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 45 Introdução Rotatividade, intenção de rotatividade e retenção de pessoal As exigências atuais em termos de mão-de-obra qua- lificada têm levado diversas organizações a investirem grandes quantias de dinheiro em estratégias que per- mitam contar com profissionais com grande capacidade de trabalho em seus quadros. Assim, o investimento em estratégias de recrutamento, seleção e treinamento de pessoal tem sido cada vez mais observado. Tanto esforço é justificado diante da constatação de Fleury e Fleury (2000) de que são as atividades inteligentes e não aquelas caracterizadas por ações rotineiras que agregam maior valor aos produtos e serviços. Joo e McLean (2006) reforçam a impor tância de investimento por par te das empresas em estraté- gias de retenção de pessoal, ao afirmarem que para que uma empresa seja competitiva, necessita de empregados altamente comprometidos e engajados, o que explica o esforço dos empresários em atrair, desenvolver e reter os empregados que contribuem para os objetivos organizacionais. De acordo com Diorio (2002) e Ulrich (1998) a so- brevivência das organizações depende do diferencial em relação ao pessoal que possuem. Assim, devem desen- volver estratégias voltadas para proporcionar aos seus quadros, adequadas condições de contribuírem de forma positiva para a visão de futuro e o negócio da organiza- ção, garantindo a competência da força de trabalho e a otimização das capacidades organizacionais. É nesse sentido que Brian, Hatch e walker (2000) destacam a importância da quantificação do valor dos recursos humanos por parte das empresas, chamando a atenção para o fato de que as pessoas não devem ser consideradas apenas como recursos a serem con- sumidos e de fácil reposição. Assim, é preciso também investir em retenção de pessoal. Para Mendonça (2002) a retenção de talentos pode ser definida como o esforço despendido por uma orga- nização para manter os talentos satisfeitos e compro- metidos com seus resultados, gerando motivação para nela permanecerem. A retenção de talentos, então, é o êxito obtido por uma organização na tentativa de man- ter em seus quadros aquelas pessoas que a ajudarão a permanecer competitiva, assegurando sua existência em um mundo de rápidas e constantes mudanças. Apesar de haver relativo consenso sobre o fato de que nem toda rotatividade é negativa, já que garante a oxige- nação do quadro de pessoal da empresa, em geral têm sido enfatizados nos estudosda área os aspectos preju- diciais advindos principalmente da rotatividade que ocor- re por vontade do empregado e não da organização. Considerando o custo econômico da rotatividade, Homn (1992) destaca três tipos de custos. O primeiro é o custo de separação, no qual são computados os fatores relacionados à saída do empregado da organi- zação. Entrevistas de desligamento, custos legais, en- tre outros, podem ser enquadrados nesta categoria. O segundo tipo de custo é o de recolocação de pessoal, o qual envolve ações relacionadas ao recrutamento e seleção de pessoal. Finalmente, os custos de treina- mento englobam aquelas estratégias tanto de redução do tempo de adaptação do novo empregado à cultura da organização, como a sua preparação em termos do adequado desenvolvimento de suas atividades. De acordo com Hopkins e Hopkins (1991), um novo empregado é um organismo que precisa se adaptar, desenvolver um senso de valores, crenças e compor- tamentos congruentes com os valores da organização para que não venha a também querer dela sair. Outro tipo de custo que não foi previsto por Homm (1992) se refere aos empregados que permanecem na organização. É possível que a satisfação e o com- prometimento dos que permanecem sejam, em algu- ma medida, questionados diante da saída de alguns membros da organização. Dado o impacto que a rotatividade tem para as empresas, tem sido abundante o desenvolvimento de estudos buscando explicar como ela ocorre e como ela pode ser reduzida. Schwab (1991) identifica duas abordagens na busca de preditores da rotatividade. A primeira abordagem é direcionada à busca de predito- res internos ou psicológicos. A segunda relacionada a Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha46 preditores externos ou ambientais. O presente estudo se insere no primeiro caso, já que está sendo conside- rado como preditor da intenção de rotatividade o con- flito entre o trabalho e a família. A lógica defendida no presente estudo, então, é que havendo conflito entre trabalho e a família, o indivíduo estará mais propenso a buscar um novo emprego que permita uma melhor relação entre esses dois importantes contextos. Conflito entre a família e o trabalho “Quando se chega ao trabalho os problemas devem ficar do lado de fora”. Apesar de não se fazer menção a um autor específico, a frase é bem conhecida no meio organizacional e ainda considerada válida em muitas empresas. Entretanto, a concepção do trabalho e da família em mundos independentes e sem coexistência temporal já foi refutada por diversos pesquisadores. De fato, o indivíduo não se separa em dois mundos e trabalho e família devem ser considerados como partes complementares e não opostas da vida do trabalhador. O conflito entre trabalho e família é definido como uma forma de conflito entre papéis, no qual a pressão de ambos os domínios são incompatíveis de alguma for- ma (GREENHAUS & BEUTEL, 1985). De fato, o impacto potencial que as questões envolvendo a relação entre família e trabalho têm para o empregado, para os fami- liares e para a organização, tem despertado o interesse de pesquisadores em diversos países (LU et al, 2006). A administração das demandas geradas no trabalho e na família é uma fonte de estresse para muitos trabalha- dores, podendo dar origem a consequências negativas para o indivíduo, para a família e para seu trabalho. Ain- da que se possa imaginar que esse estresse será maior para as mulheres, tem havido forte evidência de que os homens também vêm sofrendo com questões envolven- do exigências da família e do trabalho (BURLEY, 1994). Greenhaus e Beutell (1985) identificam quatro dife- rentes tipos de conflito envolvendo trabalho e família: (1) Conflito baseado no tempo afetando o trabalho – quando as exigências familiares refletem em prejuízo de tempo para o trabalho; (2) conflito baseado no tempo afetando a família – quando não se tem tempo para dedicação à família devido a exigências do tra- balho; (3) conflito devido a tensão no trabalho devido as exigências familiares – quando, por exemplo, não se tem tranquilidade na família em função de proble- mas passados no trabalho e (4) conflito no trabalho devido a tensão na família – quando há prejuízo para o desempenho das atividades profissionais em função de problemas vivenciados na família. Outros aspectos têm sido investigados em relação ao conflito entre trabalho e família, mas a distinção mais amplamente observada na literatura é entre conflito trabalho-família e conflito família-trabalho. No primeiro caso o trabalho interfere de forma negativa na família, diferente do que ocorre no segundo caso, quando as exigências familiares trazem consequências negativas para o trabalho (LU et al, 2006) De acordo com Eloy e Smith (2004), em geral nos conflitos entre trabalho e família é observada uma so- brecarga de trabalho, que ocorre devido as diversas demandas que esgotam os recursos do indivíduo para atendê-las. Embora as demandas de cada contexto se- jam independentes uma da outra, existe forte relação entre elas, já que uma sobrecarga com questões fa- miliares pode refletir em maior dificuldade em comple- tar as tarefas do trabalho e a sobrecarga de trabalho traga dificuldades para o indivíduo em adequadamente lidar com as exigências familiares. A explicação para as diferenças entre homens e mulheres no conflito entre trabalho e família podem, então, ser explicadas com base na perspectiva tradicional de socialização com base no sexo. Assim, é possível que o conflito entre família e trabalho seja mais fortemente percebido pelas mulheres do que pelos homens, uma vez que as mulheres recebem uma maior pressão social para o cuidado do lar, dos filhos e da família em geral, enquanto que para os homens a pressão social é pelo papel tradicional de provedor do lar (LILLY, DUFFY & VIRICk, 2006; O’DRISCOLL, BROUGH & kALLIATH, 2009). No que se refere aos conflitos em trabalho e família, pelo menos três trabalhos altamente citados merecem Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 47 atenção especial. Meyer, Stanley, Herscovitch, Topol- nytsky (2002) conduziram uma meta-análise para analisar variáveis que impactam no comprometimento dos trabalhadores. O estudo possui 155 amostras in- dependentes e um total de 50146 trabalhadores. Entre outros aspectos, os autores concluíram que o conflito trabalho-família tem um impacto negativo no compo- nente afetivo do comprometimento com a organização. Frone, Russell, Cooper (1992) estudaram anteceden- tes e consequências dos conflitos em trabalho e família. O estudo envolveu uma amostra probabilística de 631 participantes que responderam a uma entrevista em suas residências. De acordo com os autores, os resulta- dos corroboram um modelo que assevera o caráter bidi- recional dos conflitos entre trabalho e família. Ou seja, os conflitos poderiam ser trabalho-família ou família-traba- lho. Esses conflitos, de uma maneira geral, seriam predi- tores, por exemplo, de sintomas de depressão. Allen, Herst, Bruck, Sutton (2000) conduziram uma ampla revisão quantitativa de pesquisas que explora- ram consequências associadas ao conflito trabalho-fa- mília. A revisão examinou resultados de 67 artigos re- portando pesquisas empíricas. Entre outros aspectos, os autores reportaram que aproximadamente 40% dos trabalhadores vivenciam algum tipo de conflito traba- lho-família durante a vida. Segundo os autores, um dos mais impressionantes resultados refere-se às associa- ções entre conflitos trabalho-família e depressão. Nesse sentido, é possível que diante de um conflito entre as demandas do trabalho e da família, as mulhe- res estejam mais propensas a abandonar o trabalho para um melhor atendimento das exigências familiares. Método Participantes Participaram do estudo 364 (trezentos e sessenta e quatro) trabalhadores de diferentes empresas loca-lizadas no polo industrial de Santa Cruz e no Porto de Itaguaí, no Rio de Janeiro, diferenciados em função do sexo, idade, tempo de serviço, estado civil, posse ou não de filhos. Destes 364 trabalhadores 132 eram do sexo masculino, média de idade de 28,49 anos, média de tempo de serviço de 9,42 anos, 213 solteiros e 221 não possuíam filhos. Instrumentos Os participantes preencheram um questionário com- posto de uma parte destinada a coletar os dados só- cio-demográficos (sexo, idade, tempo de serviço, esta- do civil, posse ou não de filhos e grau de escolaridade). Para a mensuração da intenção de rotatividade foi utilizada a EIR – Escala de Intenção de Rotatividade, de autoria de Siqueira et al. (1997). A EIR é composta de três itens no formato Likert, de 5 pontos. O conflito entre o trabalho e a família (trabalho-fa- mília e família-trabalho) foi mensurado com a utiliza- ção da Escala desenvolvida por kopelman, Greenhaus e Connolly (1983). Tal instrumento é composto por 14 itens em formato Likert de 5 pontos, variando de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). A escala é composta por 2 fatores: um relativo a conflito família-trabalho (4 itens) e outro relativo ao conflito trabalho-família (8 itens). A escala será validada para fins do presente estudo. Procedimentos Os instrumentos foram aplicados no local de traba- lho e em cursos noturnos de universidades próximas, sempre de forma coletiva. Os participantes assinaram um termo de esclarecimento e de consentimento para divulgação dos dados da pesquisa. O preenchimento ocorreu após a explicação dos objetivos do estudo. Resultados Para a análise dos dados foram utilizados os sof- twares SPSS (Statistical Package for the Social Scien- ces) e o AMOS (Analysis fo Moment Structures), am- bos da versão 19. Inicialmente foi testado o modelo de impacto do con- flito da vida profissional e da vida familiar dos partici- pantes, considerando os dois tipos de conflitos consi- Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha48 derados no instrumento de coleta de dados utilizado: conflito trabalho-família e conflito família-trabalho, so- bre a intenção de rotatividade. O impacto observado sobre a intenção de rotatividade foi significativo nos dois casos: conflito trabalho-família (p < 0,0001) e conflito família-trabalho (p < 0,001). Outro ponto a ser observado na análise por equa- ções estruturais são os índices de qualidade do ajus- tamento do modelo. O método de análise utilizado foi o de máxima verossimilhança, por ser um método tradi- cional e o mais utilizado (MARôCO, 2010). Para análise do modelo foram considerados (1) índices absolutos, (2) índices relativos, (3) índices de parcimônia e (4) índices de discrepância populacional. Os índices absolutos avaliam a qualidade do mode- lo, sem compará-lo com outros modelos possíveis. Um índice que tem sido amplamente considerado é o X2/ gl (qui-quadrado dividido pelos graus de liberdade). O valor 1 nesse índice indica um ajustamento perfeito. En- tretanto, considera-se aceitação um valor de até 5. No presente estudo o valor obtido para o X2/gl foi de 2,91. Outros índices absolutos amplamente utilizados são o RMR (Root Mean Square Residual) e o GFI (Goodness of Fit Index). Quanto menor o RMR, melhor é o ajusta- mento do modelo, sendo 0 o valor de um ajustamen- to perfeito. O GFI de um modelo perfeito teria valor 1. Entretanto, considera-se um bom ajustamento quando seu valor é acima de 0,9. No presente estudo o valor de RMR foi de 0,14. O GFI obtido foi de 092. Os índices relativos avaliam a qualidade do modelo que está sendo testado em relação a dois modelos hipotéticos: um modelo de pior ajustamento possível e um modelo de melhor ajustamento possível. Alguns dos critérios de análise que se enquadram nesta ca- tegoria são o NFI e o RFI. O NFI (Mormed Fit Index) de um modelo perfeito ou ideal possui valor 1. Entretanto, valores acima de 0,9 são considerados aceitáveis. No presente estudo o valor obtido foi de 0,91. O RFI (Relative Fit Index) valores aci- ma de 0.9 são considerados aceitáveis, sendo 1 o valor ideal. O valor do RFI no presente estudo foi de 0,93. Figura 1: Modelo de impacto do conflito trabalho-família e do conflito família-trabalho sobre a intenção de rotatividade. f4 .23 Conflito Fam-Trab Conflito Trab-Fam Intenção de Rotatividade.64 .38 -.21 .35 .90 .90 .82 r3 r2 r1 .73 .80 .11 .85 IR1 fatr4 fatr3 fatr2 fatr1 trfa1 trfa2 trfa3 trfa4 trfa5 trfa6 trfa7 trfa8 .77 .57 .33 .41 .46 .53 .34 .49 .54 .60 .60 f3 f2 f1 t1 t2 t3 t4 t5 t6 t7 t8 rot3 rot2 rot1.68 .73 .58 .70 .74 .78 .77 .48 .88 .76 .57 Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 49 Os índices de parcimônia têm como objetivo compensar o melhor ajuste que modelos mais complexos podem apresentar. Alguns dos índices de parcimônia utilizados em estudos de modelagem por equações estruturais são PNFI (Parsimony Goodness of Fit Index) e PCFI (Parcimony Normed Fit Index). Valores superiores a 0,8 são indicativos de um modelo bem ajustado. No presente estudo o valor obtido do PFNI foi igual a 0,87 e o PCFI obtido foi de 0,91. Os índices de discrepância populacional comparam o modelo obtido com os participantes do estudo com aquele que seria obtido considerando toda a população. Um índice que é amplamente utilizado é o RMSEA (Root Mean Error of Approximation). O modelo é considerado inapropriado quando o valor de RMSEA é superior a 0,10, sendo muito bom quando o valor é inferior a 0,05. Contudo, o valor do RMSEA tende a aumentar conforme aumenta o número de variáveis no modelo, o que indica a necessidade de uma maior reflexão na utilização deste índice. O valor do RMSEA obtido no presente estudo foi de 0,07 (0,062-0,083). Consideradas em conjunto, as informações obtidas pela análise dos índices de ajustamento do modelo atestam sua qualidade e confiabilidade. Como pode ser observado na Figura 1, como hipotetizado, o mo- delo demonstra que a intenção de rotatividade nas organizações pode ser influenciada pelo conflito em que o indivíduo percebe o trabalho influenciando na vida familiar. Entretanto, no que se refere ao conflito família-trabalho, o impacto observado é negativo so- bre a intenção de rotatividade. Tal resultado merece maior atenção e, possivelmente maiores investigações futuras. Parece haver um refor- ço da importância do trabalho quando a família é vista como fator que interfere nas atividades laborais. Entre- tanto, em estudos empíricos não é suficiente considerar o fenômeno que está sendo investigado. É crucial consi- derar que o fenômeno está sendo avaliado a partir das informações que o instrumento utilizado para a coleta de dados fornece. Claramente, os itens que compõem o instrumento para mensuração do conflito trabalho-famí- lia se destinam ao entendimento que a família é um pro- blema diante das atividades laborais. Trabalho e família, então, não são considerados como partes em equilíbrio em uma balança. Consequentemente, maior importância ao trabalho termina sendo atribuída. Dito de outra maneira, no conflito família-trabalho, a família é vista como um peso para o bom desempenho das atividades inerentes à função desempenhada pelo indivíduo. Não é considerada a possibilidade do traba- lho ocupar mais horas do dia do que o devido. O mode- lo também indica uma correlação positiva significativa entre os dois tipos de conflito. No que se refere às variáveis demográficas, foram analisados grupos constituídos em função do sexo, idade, estado civil e o fato do cônjuge trabalhar ou não. O teste t de Student não revelou diferenças sig- nificativas entre homens e mulheres, entre casados e solteiros e entre grupos constituídos em função da idade (mais novos e mais velhos) nas variáveis do estudo (conflito trabalho-família, conflito família-tra- balhoe intenção de rotatividade). Variáveis Cônjuge trabalha Cônjuge não trabalha t Média Desvio padrão Média Desvio Padrão Intenção de rotatividade 2,79 0,99 2,63 1,14 0,84 Conflito Família-Trabalho 1,76 0,66 1,99 0,57 2,22* Conflito Trabalho-Família 2,59 0,91 2,74 0,85 0,99 * Significativo ao nível de 0,05. Tabela 1: Comparação dos grupos constituídos em função do cônjuge trabalhar ou não. Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha50 Em relação ao fato do cônjuge trabalhar ou não, foi também utilizado o teste t de Student para amostras independentes para a comparação dos dois grupos. Os dados são apresentados na Tabela 1. Na comparação dos grupos constituídos em função do cônjuge trabalhar ou não, como pode ser observa- do na Tabela 1, a diferença foi significativa em relação ao conflito família-trabalho em função do cônjuge tra- balhar ou não. A média foi mais elevada nos casos em que um dos cônjuges não trabalha. Parece, então, ha- ver um processo natural de buscar maior contato com o cônjuge em casa depois que este esteve ausente durante todo o dia em função do trabalho. É nesse sentido que a demanda familiar passa a interferir e disputar tempo com o trabalho. Conclusões Os resultados do presente estudo evidenciam que o conflito trabalho-família é uma importante variável que deve ser considerada nas estratégias das organi- zações para a retenção de seus talentos e a diminuição dos índices de rotatividade. Diversas ações, como discutido, têm sido desenvol- vidas pelas organizações para lidar com esse conflito, sendo a flexibilização do trabalho uma das mais impor- tantes. Mesmo nos casos em que a organização não investe em ações específicas para a diminuição do con- flito gerado pelas demandas do trabalho, pode haver um esforço em proporcionar um suporte organizacio- nal mais efetivo, sendo compreendido que em alguns momentos o trabalhador deverá estar disponível para atender as necessidades da família. A compensação das horas de ausência poderá ser acertada entre or- ganização e o empregado, sendo o banco de horas uma opção interessante para ambos os lados. O impacto negativo do conflito família-trabalho para a intenção de rotatividade é também uma preocupação, diante da percepção que alguns trabalhadores têm da família como um obstáculo para o seu crescimento profissional. Além de uma preocupação da organiza- ção, tendo em vista a diminuição de índices de saúde e qualidade de vida do trabalhador, há uma preocupa- ção que deve ser tratada em nível mais amplo, sendo de interesse de governos e da sociedade de maneira geral. Os esforços, assim, devem ser direcionados para a obtenção de formas mais igualitárias de lidar com a questão do balanço entre família e trabalho. Outro ponto que merece atenção é o fato de haver maior impacto das demandas do trabalho na família quando o cônjuge não trabalha. Tal fato parece ser importante para aqueles profissionais que lidam com a questão da orientação e intervenção em famílias. A importância, então, de haver um nível igualitário de atividades a serem desempenhadas pelo casal fica for- temente evidenciada. Tal resultado deve ser analisado, também, em função da centralidade que o trabalho tem na vida atualmente. Além de ser uma fonte de renda, exercer uma profissão tem um caráter mais profundo, podendo-se mesmo dizer que é uma fonte de identida- de nas sociedades contemporâneas. Os resultados desafiam a noção do homem como o provedor do lar e da mulher como a responsável pelos afazeres domésticos e pelos cuidados com os filhos. A lógica do mercado parece assim, mais uma vez, ditar as- pectos da vida dos trabalhadores que vão além daquelas horas destinadas ao exercício da atividade profissional. Sugere-se que estudos futuros considerem as duas formas de conflito na relação entre trabalho e família na busca por melhores condições para os trabalhadores e no desenvolvimento de estratégias visando o aumento da saúde, bem estar e qualidade de vida no trabalho. Artigo em Destaque Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 51 Anexos Anexo I - Escala de Intenção de Rotatividade (EIR) Abaixo estão listadas frases que podem representar alguns pensamentos seus. Para dar suas respostas, utilize os seguintes códigos: 1. Nunca 2. Raramente 3. Ás vezes 4. Frequentemente 5. Sempre Dê suas respostas, anotando nos parênteses que antecedem cada frase, aquele número que melhor representa sua resposta. 1. ( ) Você pensa em sair da empresa onde trabalha. 2. ( ) Você planeja sair da empresa onde trabalha. 3. ( ) Você tem vontade de sair da empresa onde trabalha. Anexo II - Escala de Conflito Família-Trabalho Itens 1 2 3 4 5 A minha família retira-me tempo que eu gostaria de estar a trabalhar. Os meus interesses pessoais tiram-me tempo demais do meu trabalho. As minhas exigências familiares fazem com que seja difícil concentrar-me no trabalho. Por vezes, os meus problemas pessoais fazem com que fique mal humorado (a) no trabalho. O meu horário de trabalho entra muitas vezes em conflito com a minha vida familiar. Após o trabalho, chego em casa demasiado(a) tarde para fazer algumas das coisas que gostaria. No trabalho, tenho tanta coisa para fazer que os meus interesses pessoais são postos de lado. A minha família não gosta que eu esteja preocupado(a) com o trabalho quando estou em casa. Devido à exigência do meu trabalho, por vezes fico mal humorado (a) em casa. As exigências do meu trabalho fazem com seja difícil estar descontraído (a) em casa. O meu trabalho tira-me tempo que eu gostaria de passar com minha família. O meu trabalho faz com que seja difícil ser um (a) esposa/marido atencioso (a) ou o pai/mãe que gostaria de ser. 1 a 4 – Conflito Família-Trabalho | 5 a 12 – Conflito Trabalho-Família Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha52 Referências Allen, T.D., Herst, D.E., Bruck, C.S., Sutton, M. (2000). Consequences associated with work-to-family conflict: a review and agenda for future research. Journal of occupational health psychology, 5, 278-308. Brian, F., Hatch, J.; walker, David M. (2000). Capital Humano, Ed. 2ª, São Paulo : Futura. Burley, k.A. (1994), Gender differences and similarities in coping respon- ses to anticipated workfamily conflict, Psychological Reports, 74, 115-23. Diório, S. (2002) . Competência Emocional dos Gestores. In. XXVI En- contro Anual da ANPAD. Salvador, BA. 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(1998) Os Campeões de Recursos Humanos: Inovando para obter melhores resultados. São Paulo: Futura. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 53 Concurso de Artigos Técnicos do SSPM (ano 2014) 1º Colocado – Clima Organizacional: uma Ferramenta na busca da Excelência em Gestão Roberto Sarpa ::: Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha ::: Resumo Com a introdução do Programa Netuno (PN) na Marinha do Brasil (MB), uma nova perspectiva de valorização aos militares e servidores civis se tornou prioridade. A preocupação nos resultados - que era uma meta governamen- tal, passou a ser uma consequência dos trabalhos realizados pelos seus colaboradores. Assim, o Serviço Público introduziu novas ferramentas de gestão para avaliar o seu desempenho e medir o grau de satisfação dos seus trabalhadores, como também foi feito recentemente na MB com a introdução do PN. Neste estudo de caso, este artigo levantou evidências de como uma Organização Militar (OM) conseguiu resultados surpreendentes em sua pontuação no PN, elaborando, principalmente, políticas baseadas na análise do Clima Organizacional e introduzindo políticas motivacionais de recompensa, demonstrando que a ferramenta de pesquisa sobre o Clima Organizacional funciona se as medidas corretivas necessárias forem bem aplicadas pela alta administração da organização. Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha54 Introdução Há algum tempo atrás se utilizava mais a punição do que as recompensas para modificar o comportamento dos servidores e funcionários, sejam de estatais ou de empresas privadas, para melhorar seus desempenhos e resultados. Naquele tempo, implementavam-se ações negativas de repreender e punir ao invés de ações positivas como conhecer os problemas, recompensar, incentivar e motivar. Com a nova perspectiva das Teorias de Gestão de Pessoas, Gestão por Resultados e Gestão Pública, que busca atingir a eficiência, maximizar os resultados com os menores recursos aplicados e satisfazer às neces- sidades individuais dos colaboradores e da própria instituição, tudo mudou. Nessa busca, as organizações criaram indicadores de feedback capazes de medir a percepção e a satisfação não só dos clientes, mas, prin- cipalmente, dos seus colaboradores. O objetivo era de corrigir essas ações negativas supracitadas por ações positivas que agreguem valor ao trabalhador, criando com isso um ambiente de trabalho propício para gerar oportunidades de crescimento profissional e uma nova cultura organizacional capaz de influenciar mudanças positivas de comportamento e comprometimento de todos. Ações essas que propiciarão o bem-estar, a mo- tivação do trabalhador e, consequentemente, os resul- tados positivos serão apresentados nas organizações. Neste contexto, cabe lembrar que o ambiente de trabalho torna-se peça fundamental, e os fatores que levarão às mudanças na cultura das organizações são as necessidades humanas destacadas por Mas- low (1943), e a ferramenta mais adequada para me- dir seria a identificação do Clima Organizacional, por meio de pesquisa. Mas como poderíamos mensurar e identificar as necessidades humanas para se criar um ótimo ambiente de trabalho e agregando valor? Em busca dessa resposta, esse artigo tenta evidenciar o papel importante da ferramenta Pesquisa de Cli- ma Organizacional e o impacto gerado no Programa Netuno na Diretoria de Sistema de Armas da Marinha (DSAM), no período de 2011 a 2013, que poderá re- fletir também nas diferentes Organizações Militares (OM) da Marinha do Brasil (MB). O primeiro fator a ser identificado na Pesquisa é a motivação dos cola- boradores, em seguida seu ambiente de trabalho, sua cultura e se há programas de correções dos pontos fracos ou planejamento de ações corretivas. Desenvolvimento Motivação A produtividade, a qualidade do trabalho, a satisfa- ção, o absenteísmo e a rotatividade que estão ligadas aos fatores de eficácia ou desempenho da organiza- ção, estão conectados diretamente com a variável subjetiva clima organizacional. Nas OM da Marinha do Brasil (MB), o trabalho diferenciado realizado por alguns colaboradores em detrimento de outros com menor eficácia, pode demonstrar que não está rela- cionado somente pela sua habilidade, mas sim pela sua motivação. Com isso, todo cuidado deve ser leva- do em conta durante a criação de uma política de re- compensa e uma estratégia motivacional. A pesquisa de clima organizacional pode orientar nessa criação pois atinge todas as camadas da OM. Amabile (1998) citou o princípio da motivação intrín- seca da criatividade cuja base principal discorre que as pessoas serão mais criativas quando motivadas pelo interesse, pela satisfação e pelo desafio do próprio trabalho e não pelos componentes externos e pres- sões. O autor destaca a motivação extrínseca como: a fixação de objetivos sobre os funcionários, avaliação (feedback) envolvendo funcionários e alta administra- ção, recompensa (a criatividade é incentivada quando os funcionários têm o reconhecimento pelos esforços criativos) e pressão (impossibilita a criatividade pelo senso de urgência ou quando a organização necessi- ta solucionar um problema). Para Spector (2003), a motivação está ligada a uma direção, intensidade e persistência de um com- por tamento em determinado tempo. Na psicologia, diz-se que é um estado interior que induz uma Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 55 pessoa a assumir alguns tipos de comportamento. Já Pérez - Ramos (1990), promoveu as teorias de conteúdo, que segundo ele, prioriza a identificação dos diferentes tipos de necessidades que o indivíduo busca para sua satisfação. Segundo Maslow (1943), criador da teoria motiva- cional, está baseada nas necessidades humanas bási- cas. Esta teoria, apesar de não ser nova, ainda é a mais utilizada para medição do comportamento das necessi- dades humanas e o que move o homem a buscar seus anseios. Nela, seu autor apresenta a hierarquização das Necessidades Humanas. Elas definem três grandes áreas de Necessidades: Básicas, Psicológicas e de Au- to-Realização, conforme figura 1. Programa Netuno O Programa Netuno na MB foi implementado em 2007, após a criação pelo Governo Federal do Programa Nacional de Gestão Pública e Desburocratização - GesPública - instituído pelo Decreto nº5378 de 23 de fevereirode 2005. Segundo Palvarini (2010), o propósito do programa foi criar uma mentalidade de Excelência em Gestão, ou seja, fazer mais com menos possível e atingir a eficiência na gestão dos recursos aplicados em todas as esferas administrativas. O programa também abrange identificar os pontos fracos das OM avaliadas para elaborar políticas compensatórias e dar oportunidade de corrigir as falhas administrativas. Naquele programa, a MB adota critérios de avaliação das OM, atribuindo notas de valor total de 1000 pontos de desempenho, nas sete (7) grandes áreas adminis- trativas, como: 1. Liderança e Desempenho Global; Implementação; 2. Formulação de Estratégias; 3. Imagem e Relacionamentos com outras OM e “stakeholders”; 4. Responsabilidade Socioambiental, ética e controle social; 5. Gestão do Conhecimento e Informações; 6. A Tripulação, seu trabalho, sua capacitação e de- senvolvimento; e 7. Processos orçamentários, financeiros, finalísticos e de apoio. Necessidades Auto-Realização Necessidades Psicológicas Necessidades Básicas ESTIMA Auto-estima, confiança, conquista e respeito dos outros. REALIzAÇÃO PESSOAL Moralidade, criatividade, solução de problemas, ausência de preconceito e aceitação dos fatos. AMOR / RELACIONAMENTO Amizade, família e intimidade sexual. SEGURANÇA Segurança do corpo, do emprego, de recursos da moralidade, da família, da saúde, da propriedade. FISIOLÓGICAS Alimento, roupa, repouso e moradia. Maslow (1943), adaptado. Figura 1 - Hierarquia das Necessidades de Maslow Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha56 Ao final da avaliação, todos aspectos positivos e ne- gativos de cada área avaliada serão analisadas por uma comissão do Programa Netuno de cada OM, visando elaborar estratégias de melhoria contínua e correções. Clima Organizacional A definição de Clima Organizacional é bem antiga, e os autores Litwin & String (1968) o definem como: conjunto de propriedades psicológicas mensuráveis do ambiente de trabalho que são percebidas pelas pes- soas que ali estão. Para walters & Roach (1976), traz a ideia de que é um conjunto de atributos determina- dos que caracterizam uma parcela da organização, e o modo como ela interage com seus integrantes em seus respectivos ambientes. Já Obaldeston (1978), trata o tema como um aspecto psicológico e cita que o clima organizacional nada mais é que uma percepção de como a estrutura e processos de um ambiente ins- titucional produz os efeitos sobre o desempenho orga- nizacional e a satisfação dos seus membros. Nas propriedades objetivas do ambiente organiza- cional, Litwin & String (1968) define que o Clima Orga- nizacional deve trabalhar nas seguintes áreas: Neces- sidades da Pessoas, Estrutura Organizacional, Grupos de Trabalho, Comunicação, Liderança, Tecnologia/Re- cursos e, por fim, as Estratégias Motivacionais. Conforme exposto acima, o Programa Netuno tem a preocupação de formular estratégias e políticas para satisfazer não só seus clientes, mas principalmente sua tripulação, o ambiente que o cerca, sua capacita- ção e desenvolvimento. E o reflexo de uma gestão mal sucedida aparecerá na pontuação geral de desempe- nho daquela OM, quando for avaliada pelo Programa Netuno. O Clima Organizacional serve para medir o grau de satisfação de seus funcionários, e, também, para identificar possíveis falhas na administração como: políticas de pessoal, de capacitação, falta de recursos materiais, entre outras que são apresen- tadas nos indicadores do programa, visando adotar estratégias de correções para se ter um ambiente de trabalho adequado para o melhor desempenho possí- vel, refletindo positivamente na organização. Ambiente de Trabalho O ambiente de trabalho deve ser capaz de prover o equilíbrio emocional sem a presença de agentes que possam comprometer a capacidade física e psicológica dos colaboradores, necessários para a sua sobrevivên- cia, bem como na realização das suas necessidades de acordo com Maslow (1943). Para Amabile (1998), o ambiente de trabalho é composto pelos elementos: recursos de toda ordem (tempo, espaço, pessoal com expertise, informações relevantes, normas, especificações técnicas, sistemas e processos disponíveis, etc), motivação organizacio- nal para inovar e práticas gerenciais que envolvem os departamentos e divisões que se relacionam com os projetos ou tarefas e atividades. Assim, o ambiente de trabalho é o fator condicionan- te para exercer as atividades laborais dos colaborado- res e deve ser analisado periodicamente para proteger e ser tratado como um bem intangível, objetivando pre- servar as condições ideais para saúde do trabalhador que irá proporcionar uma melhor qualidade, tanto nas suas atividades quanto no bem-estar pessoal de sua vida. Esta análise, ou feedback, é feita com as ferra- mentas de gestão que são identificadas na pesquisa do clima organizacional por meio de indicadores (per- cepção de como os usuários enxergam a instituição em todas as dimensões). Cultura Organizacional Outro ponto crucial é a implementação de uma nova mentalidade cultural, pois ela modifica comportamen- tos do passado, que na nova gestão participativa exige que seus colaboradores passem a ser proativos, dei- xando de lado a postura de que só a Alta Administra- ção pode resolver os problemas da organização. Nessa abordagem o Programa Netuno cria uma Assessoria de Organização composta de funcionários de todas as áreas para identificar os gargalos administrativos insti- tucionais. Essa equipe elabora propostas de melhorias, dando sugestões de toda ordem, criando assim uma nova cultura participativa de Gestão. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 57 A cultura, segundo Schein (1985), é compreendida pelas normas e valores empregados na organização que ajudam a determinar o que é apropriado e inapro- priado. Segundo ele, as normas e valores podem ser considerados sistemas de controle que têm condições para se chegar à eficácia. A alta administração deve apoiar os objetivos das mudanças que possam resultar da pesquisa do clima organizacional. Para Freitas (1991), a dificuldade de dar uma defi- nição para cultura propicia a investigação da mesma para identificar os diferentes elementos que a com- põem, como: ritos, crenças e pressupostos, mitos, his- tórias, heróis, tabus e processos de comunicação. Metodologia Para Cervo; Bervan e Da Silva (2006), qualquer pes- quisa exige uma pesquisa bibliográfica prévia para levan- tamento da situação do tema, para aprofundá-lo teori- camente ou para justificar os limites e contribuições da mesma. Para koche (1997), a investigação deve estar focada de acordo com as características formuladas no problema a fim de orientar as respostas procuradas. A metodologia aplicada no presente estudo tem como objetivo confrontar os dados coletados na pesquisa de campo com a teoria estudada, de forma que o pesqui- sador busque identificar a relação entre o Clima Orga- nizacional e o impacto com o Programa Netuno na OM estudada. Para isso, o pesquisador buscou avaliar os relatórios da pesquisa sobre o Clima Organizacional da OM, seu relatório de avaliação do Programa Netuno, e perceber esses fenômenos por meio de análise qualita- tiva de documentos para o levantamento de evidências. Tipo de Pesquisa A pesquisa, por apresentar características peculia- res, apresenta-se como sendo um estudo de caso e será do tipo qualitativo que adotará um enfoque descri- tivo e explanatório. Para Yin (2005), o pesquisador de estudo de caso deve estar ciente das questões aborda- das e ter habilidades de ouvir as respostas tendo o cui- dado de não emitir juízo de valor ou carregar opinião pré-formada, que possa deturpar ou comprometer as investigações que a pesquisa se propõe. Finalidade Trata-se de uma pesquisa descritiva e explana- tória. Cervo et al (2006), definem pesquisa descri- tiva como sendoa observação, registro, análise e correlação de fatos ou fenômenos sem nenhum tipo de manipulação. Tem como objetivo descrever como evoluiu a avaliação anual da OM estudada, após a utilização dos indicadores da pesquisa do Clima Or- ganizacional, nas sete (7) áreas administrativas des- critas no Programa Netuno: 1. Liderança, Desempenho Global e Implementa- ção; 2. Formulação de Estratégias; 3. Imagem e Relacionamentos com outras OM e “stakeholders”; 4. Responsabilidade Socioambiental, Ética e Controle Social; 5. Gestão do Conhecimento e Informações; 6. A Tripulação, seu trabalho, sua capacitação e desenvolvimento; e 7. Processos orçamentários, financeiros, fina- lísticos e de apoio, após implementação das Políticas provenientes da Pesquisa do Clima Organizacional. Meios Trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental. Estudo de caso A Diretoria de Sistemas de Armas da Marinha, antes de iniciar a implementação do Programa Netuno, criou em 2011 um Grupo de Trabalho (GT) para investigar os fatores que poderiam motivar sua tripulação, com o propósito de realizar um estudo motivacional na OM. O Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha58 estudo identificou e apresentou algumas possibilidades de melhorias quanto ao reconhecimento dos trabalhos realizados e a política de recompensa. Dentre os pro- gramas de incentivos propostos para a Alta Adminis- tração, estava a criação de critérios para indicação às medalhas e também a prêmios da MB. A administração elaborou Ordem Interna que se preocupou com a moti- vação dos servidores e criando políticas de reconheci- mento e mérito. Tratou nela as diretrizes e políticas de premiação desses servidores. A partir disso, em 2012, a organização ampliou ca- nal de comunicação importante, criando, então, a ferra- menta “Pesquisa de Satisfação Organizacional da OM”. Canal este de suma importância para OM, onde pôde perceber seus pontos fracos e propor ações corretivas de modo a melhorar o ambiente de trabalho. Criou-se, assim, uma nova mentalidade cultural, ou seja, trans- formar a pesquisa de Clima Organizacional em uma fer- ramenta importante para implantar políticas de melho- rias com planos de ações eficientes, como vem sendo realizado até a presente data. Alguns bons exemplos desses planos podem ser ve- rificados de 2013 a 2014, em que se alterou a imple- mentação de política de substituição dos computadores e monitores, na manutenção do ar-condicionado, subs- tituição do mobiliário, melhoria na limpeza, e políticas de reconhecimento nas indicações à Medalhas Mérito Tamandaré (MMT) e Ordem do Mérito Naval (OMN), bem como prêmios para aqueles servidores que se destacam ao longo dos anos como servidor padrão civil e militar. Nesse esforço, em 2 (dois) anos a OM teve 5 (cinco) servidores civis contemplados com a MMT e 1 (um) com OMN, além das indicações para concorrer ao Prêmio Mestre Antônio da Silva (PMAS). A OM ouviu os anseios de seus colaboradores e o resultado foi além do esperado, pois o impacto para a OM no Programa Netuno foi constatado imediatamen- te pela equipe da Assessoria de Organização - Setor que cuida deste Programa. No período de 2013-2014, após o início da verificação do Clima Organizacional da OM e as implementações das políticas de melhoria apontadas na análise desta verificação, a OM apresen- tou uma pontuação de 818 pontos, ou seja, aumen- tando muito em relação ao período anterior avaliado. Além disso, a Assessoria de Organização, juntamente com alta administração, está promovendo mudanças na cultura interna, as quais podem ser destacadas: o incentivo na participação de seus colaboradores em passeios ou caminhadas ecológicas programadas pela OM, programas socio-ambiental, programas de ajuda ao próximo e instituição filantrópica, coleta seletiva de lixo, criação de Ordens Internas voltadas para a me- lhoria na Gestão, entre outras. Tudo para implementar os planos de ações para atacar cada ponto negativo apontado na pesquisa de Clima Organizacional. Conclusão Após analisar as evidências apresentadas, pôde-se perceber que a Alta Administração da OM deu impor- tância aos resultados e indicadores da ferramenta cha- mada Pesquisa do Clima Organizacional. Teve como re- sultado a adoção de políticas de reconhecimento para aumentar a motivação funcional, além da valorização profissional, em todos os aspectos, bem como procu- rou melhorar o ambiente de trabalho e o bem-estar de seus colaboradores. Identificando desta forma, quais os recursos mínimos necessários para se criar um am- biente adequado em todos os níveis organizacionais por meio da análise dos indicadores que evidenciam o estado do Clima Organizacional. Quanto ao meio ambiente e a nova cultura inserida por meio das medidas adotadas, a OM buscou atender às necessidades humanas de seus colaboradores, con- forme citou Maslow (1943), a fim de ter um compor- tamento proativo de recompensa dentro do ambiente de trabalho e ouvir suas necessidades. Em contrapar- tida a essa mudança cultural, as medidas contribuíram com um fator positivo dos seus colaboradores dentro da organização, pois na busca de seus anseios houve um reflexo positivo que contribuiu significativamente na avaliação da OM no Programa Netuno. Embora muitos estudiosos enfatizem que o problema Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 59 salarial é o fator que mais motive os trabalhadores, este estudo mostrou que fatores como: o reconhe- cimento, o respeito e planos de ações como uma política clara de recompensa pode ser o ideal para a motivação, pois na busca das necessidades psico- lógicas humanas, estes fatores foram os que mais se destacaram, demonstrando que as necessidades de auto-realização e valorização dos colaboradores fez a diferença no ambiente de trabalho da OM estudada. Desta forma, com esta ferramenta, a OM acabou tendo um reflexo positivo no Programa Netuno na busca pela Excelência em Gestão. Assim, cada OM da MB poderia utilizar a Pesquisa de Clima Organizacio- nal a seu favor para criar políticas adequadas para suas atividades, e se preocupar, principalmente, em verificar como anda seu ambiente de trabalho, seu pessoal, sua motivação e se os recursos materiais estão criando opor tunidades de desenvolvimento das necessidades humanas, visando uma maior efi- cácia nos trabalhos e resultados a alcançar. A par ti- cipação dos colaboradores na busca dessas melho- rias, por meio da pesquisa, propicia as correções para obter um ambiente de trabalho harmonioso e eficaz na busca da excelência em gestão, que é o objetivo principal do Programa Netuno. Concluiu-se também que o fator motivação, identificado no Clima Organizacional, foi a mola propulsora dos objetivos alcançados e poderia ser introduzido nos planeja- mentos estratégicos das OM, pois trabalhar feliz e motivado é uma ótima ideia, ganhando tanto os ser- vidores quanto as organizações. AMABILE, T. M. 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Referências Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha60 Concurso de Artigos Técnicos do SSPM (ano 2014) 2º Colocado – Comportamento Organizacional e a Perspectiva de Mudança no Ambiente de Trabalho Edna do Socorro Matos Carneiro ::: Comando do 4º Distrito Naval ::: Introdução Este trabalho foi realizado por meio de pesquisa bi- bliográfica, tendo como propósito analisar o Comporta- mento Organizacional e estabelecer possíveis mudan- ças no ambiente de trabalho para atingir a excelência na qualidade dos serviços. O conceito de qualidade não se restringe apenas aos produtos e serviços, mas também nos métodos admi- nistrativos, no ambiente de trabalho, nos treinamentos e principalmente nas relações entre as pessoas. A excessiva carga burocrática foi sendo identificada e, assim, foram surgindo ações em busca de um ser- viço público de qualidade, tendo como foco o cidadão. Há grandes desafios na aplicabilidade de progra- mas voltados para a excelência dos serviços na Ad- ministração Pública, mas há um que se destaca, é a qualificação do servidor, atuante na gestão das esfe- ras municipais, estaduais e federais. A qualificação do servidor se destaca, devido a sua atuação diária no processo de dinâmica das ati- vidades executadas. Cada Organização Pública possui característica pró- pria, conforme sua história organizacional, o que pos- sibilita identificar o traço constitutivo influenciador na personalidade e no comportamento do agente público. A reflexão se faz necessária sobre o comportamento humano, dentro das Organizações Públicas, em confor- midade com a estrutura organizacional a qual estabe- lecerá parâmetros a serem analisados, para adequar as relações sociais, sejam elas individuais, em grupos ou no meio ambiente, procurando enfatizar os fenôme- nos da liderança, da resistência, da inércia, da acomo- dação, do comportamento e outros. Os objetivos específicos foram formulados com os propósitos de auxiliar na busca pela excelência dos serviços na MB, de abordar o comportamento or- ganizacional na perspectiva da OM; e de contribuir com este trabalho para reflexão dos dirigentes da MB sobre a importância de um comportamento organi- zacional voltado para a qualificação e motivação dos servidores, para atingir a excelência na qualidade dos serviços prestados à sociedade brasileira. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 61 Excelência em gestão O termo “excelência” vem do latim e remete-nos ao pensamento de superioridade, grandeza, elevação, le- vantar ao alto, elevar, erguer, movimento na direção vertical e para cima. Nas últimas décadas, o conceito de excelência inseriu- se no cenário mundial de globalização, em consonância ao que está definido na literatura sobre administração gerencial para uma melhor gestão pública. Desta forma, a Administração Pública Brasileira precisava definir um modelo referencial em busca da transformação cultural e de gestão rumo a excelência e, que também permitisse avaliações comparativas de desempenho entre as orga- nizações públicas. (BRASIL, 2011c, p. 1-8). Sem dúvida nenhuma, a busca pela excelência organi- zacional, atualmente, deve ser encarada com premissa básica para uma “administração gerencial moderna”. O modelo de excelência em gestão pública adotado, na Marinha do Brasil, é composto por sete critérios que, interligados, possibilitam a análise da organização segundo enfoques distintos. São eles: a. Liderança: analisa os procedimentos, critérios e métodos utilizados pela administração de cada Organização Militar na condução das principais decisões. b. Estratégias: examina o processo de formula- ção das estratégias administrativas, os des- dobramentos em planos de ação e o sistema de medição adotado para acompanhamento da evolução de suas implementações. c. Cidadãos: analisa a organização no cumprimen- to de suas tarefas institucionais, identificando como as necessidades dos usuários são aten- didas pelos serviços prestados. d. Sociedade: examina os impactos da atuação da Organização Militar perante a sociedade e as comunidades próximas. e. Informação e conhecimento: examina a gestão e a utilização das informações, a partir dos méto- dos e ferramentas aplicados para identificá-las. f. Pessoas: avalia as condições existentes no am- biente de trabalho e a capacitação e desenvol- vimento da força de trabalho, buscando verificar se são propícios à melhoria do desempenho, à participação, e ao crescimento das pessoas e da Organização Militar. g. Processos: examina a gestão dos processos principais e de apoio visando a operação eficaz e eficiente dos mesmos e a melhoria contínua. Gestão participativa A Gestão Participativa é a única característica que se destina à força de trabalho da organização, envolvendo os gerentes e gerenciados. O estilo de gestão pública de excelência é participativo. Isso determina atitude de liderança que busque o máxi- mo de cooperação das pessoas. Para tanto, é necessário reconhecer o desempenho diferenciado de cada um e harmonizar os interesses individuais e coletivos, a fim de conseguir a sinergia das equipes de trabalho. Uma gestão participativa genuína requer cooperação, compartilha- mento de informações e confiança para delegar, dando autonomia para atingir metas. Como resposta, as pessoas tomam posse dos desafios, e dos processos de trabalho dos quais participam, tomam decisões, criam, inovam e dão à organização um clima organizacional saudável (LIMA, 2007, p.59). O sucesso do servidor, seja civil ou militar, depende cada vez mais de um ambiente favorável propício para gerar oportunidades de aprendizado, experimentar no- vas habilidades e utilizar a criatividade. É necessário investir no desenvolvimento do servidor por meio de capacitação e oportunidades de crescimento pessoal. Servidores com habilidades e competências formam equipes de alto desempenho, quando lhes é dada au- tonomia para alcançar metas bem definidas. A valorização dos servidores leva em consideração a diversidade de desejos e necessidades que, uma vez iden- tificados e utilizados na definição das estratégias, dos pla- nos e das práticas de gestão organizacionais, promovem Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha62 o desenvolvimento, o bem-estar e a satisfação da força de trabalho, a atração e retenção de talentos humanos, bem como um clima organizacional participativo e agradável, possibilitando o alcance do alto desempenho da organiza- ção e o crescimento das pessoas. Avaliação da gestão Após a Segunda Guerra Mundial, a transformação do papel do Estado aumentou a sua atuação nas po- líticas sociais, gerando a necessidade de analisar as vantagens e os custos de suas ações e a prática da avaliação. (RUA, 2000). Com essa mudança, passou a ser exigida dos agentes públicos uma gestão voltada para resultados (accountability), com a necessidade de definir formas para medir, acompanhar e garantir o atingimento dos resultados. (GUBERMAN, 2008). Avaliar a gestão de uma organização pública pode ser entendido como verificar o grau de aderência das suas práticas de gestão em relação ao referen- cial de excelência. A avaliação da gestão constitui-se um dos principais meios para a transformação organizacional, pois per- mite traçar um diagnóstico do sistemade gestão das Organizações Militares, que servirá de subsídio para a adoção de medidas de melhoria. Não é fácil implementar um programa de gestão de qualidade, devido as diversidades culturais, morais e éticas, mas com muita cautela podemos transformar uma insatisfação na execução das tarefas desempe- nhadas por um determinado servidor, em uma condi- ção de prazer e bem estar no âmbito de suas funções, desde que para isso haja um mecanismo de verificação. A Marinha não é a única a enfrentar as dificuldades inerentes à implantação do GESPÚBLICA e ainda lidar com situações de restrições orçamentárias, limitações a contratações de novos servidores e dificuldades ma- teriais de toda ordem. A forma como cada organização prioriza a qualidade e como reage a estas dificuldades é que define o grau de comprometimento das lideran- ças e desenvolvimento das pessoas. De acordo com Poole (2004, apud Favero, 2010, p. 92), “nenhuma mudança organizacional é possível a menos que os indivíduos tenham capacidade de mudar seus comportamentos, suas atitudes e seus pensa- mentos para afetar e sustentar a mudança.” Comportamento organizacional O comportamento organizacional nada mais é que o comportamento humano no ambiente de trabalho. O propósito em abordar o comportamento organi- zacional na Administração Pública, na perspectiva da Organização Militar da Marinha do Brasil, é de apre- sentar os fundamentos do comportamento humano no ambiente de trabalho, enfatizando a importância e a di- mensão da participação do servidor, seja militar ou ci- vil, na implantação do Programa de Qualidade Netuno. Logo, o desempenho institucional passa a depender, expressivamente, da qualidade desse relacionamento – servidor versus Organização Pública. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 63 O comportamento humano dentro de uma Organi- zação Pública requer estudo de análise, envolvendo questões diversas como: habilidade individual, mo- tivação, satisfação, liderança socialização, dinâmica de grupo, status social, conflito, competição, efici- ência e as influências culturais e ambientais. De um lado tem-se a burocracia em seu sentido corporati- vo, centralizadora e, por tanto, contrária às mudan- ças na organização e nas formas de operar do apa- relho do Estado; e de outro, as forças inovadoras, que, não raramente, encontram muita dificuldade para implementar de maneira efetiva projetos de re- forma. Essas forças inovadoras procuram introduzir, nas organizações públicas, uma cultura de flexibili- dade e de gestão empreendedora que permita às organizações públicas atuarem de forma eficiente, num mundo de rápidas transformações. É nessa relação entre servidor e Organização Públi- ca, que se destaca o fenômeno da motivação. Segundo Bergue, (2010, p. 89) “A motivação é um impulso constante e de intensidade variável orientado para o alcance de um objetivo, seja este decorrente de uma necessidade ou de um estado de satisfação.” Sendo a motivação uma força interior que faz com que as pessoas se esforcem para atingir um objetivo, então cabe ao gestor público compreender o que faz as pessoas agirem ou se comportarem de determinada maneira no ambiente de trabalho e quais as expectati- vas profissionais de cada um, apesar das influências de fatores como as limitações culturais (crenças, valores, etc...), objetivos individuais e outros. Nessa linha de ação em promover o estímulo do servidor está a aversão à perda e a possibilidade de ganho. Cada servidor apresenta um elenco de neces- sidades, em termos de objeto e intensidade, que o difere dos demais. As necessidades passam a ter a conotação de motivação. Segundo Abraham Maslow (1908 - 1970), as ne- cessidades das pessoas obedecem a uma hierarquia, ou seja, a uma escala de valores a serem alcançados, seguindo uma ordem de prioridades: necessidades fisiológicas (alimentação, habitação, vestuário, etc...), necessidades de segurança (transporte, planos de benefícios, integridade física, etc...) e necessidades so- ciais (status, pertencer a clubes, etc...). Já Frederick Taylor (1856 - 1915), se preocupava com as necessidades das pessoas no ambiente de trabalho. Essas duas vertentes, Maslow e Taylor, mostram que as necessidades não se limitam, unicamente, a uma ordem, mas sim a um conjunto, envolvendo questões sociais, status e auto-realização. O servidor no ambiente de trabalho busca a motiva- ção nos seguintes fatores: realização, reconhecimento, progresso, responsabilidade, condições de trabalho, salário, relacionamento com os demais, incentivos so- ciais e outros. Assim, o gestor público pode diagnosti- car as condições que afetam a satisfação do servidor em relação ao cargo que ocupa, possibilitando a de- vida ação gerencial. O servidor tenderá a empreender maior esforço no desenvolvimento de uma atividade, quanto maior for a sua percepção de que seu desempenho nessa ativida- de poderá ser mais bem avaliado. Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha64 A avaliação de desempenho permite aos gestores públicos compreenderem os fenômenos comporta- mentais dos servidores, envolvendo aspectos como: esforço pessoal, desempenho na atividade exercida, valorização pessoal e profissional e a recompensa. Uma boa avaliação de desempenho conduzirá o ser- vidor à percepção de recompensas organizacionais tais como: pontuação para promoção na carreira, promo- ção para uma posição de chefia ou de assessoramento que possa significar, por exemplo, uma função gratifica- da ou uma posição de maior status. Em uma Organização Militar o comportamento orga- nizacional é marcado por hierarquia e disciplina, visto que seu quadro funcional é constituído em maior nú- mero de militares comparado ao número de servidores civis, mas a Marinha do Brasil, através de seu dirigente, tem a compreensão na qualificação pessoal e no com- prometimento de todos para a excelência na qualidade dos serviços, estabelecendo um diferenciador no fenô- meno da motivação, o que influencia substancialmente no comportamento das pessoas. Considerações finais A preocupação com a qualidade dos serviços pú- blicos já existe e os métodos para obtê-la estão evo- luindo. A mudança de foco do modelo burocrático para o modelo voltado ao cidadão é cada vez mais difundida, sendo necessário que ultrapasse a retó- rica dos manuais e torne-se prática comum em cada processo ou método administrativo. A reflexão proposta neste trabalho mostra que deve- mos ser cautelosos, quando se quer atingir a excelência na qualidade operacional dos serviços. Não se pode querer mudanças significativas no comportamento orga- nizacional usando a força ou buscando usar o mecanis- mo de avaliação do quadro funcional de forma coerciva. Assim, para que as organizações realizem um proces- so de mudança, é preciso primeiro mudar as pessoas para que haja um comprometimento com o programa. A mudança torna-se necessária, pois as demandas da sociedade evoluem em termos quantitativos e quali- tativos, o que faz incidir sobre a administração a adap- tação às novas contingências pela via de inovação em diferentes níveis de intensidade. Toda mudança, seja ela física, profissional, familiar e outras, acarreta dificuldade na adaptação de novos contextos. Assim também, as Organizações Militares possuem suas dificuldades: financeira, tradições que são entrave à melhoria, apego ao poder e a necessida- de de entender e saber gerenciar a cultural organiza- cional por meio de lideranças, para colocar em prática um Programa de Gestão de Qualidade. Cada Organização Militar possui sua cultura própria que a distingue das demais, sua sobrevivência, depen- derá da capacidade de promover mudança. A cultura de cada Organização reflete em seus servidores, no entendimento e na reação aos fatos que lhes são im- postos, ocasionando uma grande influência na resis- tência às mudanças. A gestão participativae a valorização das pessoas aparecem como práticas que visam o fortalecimento do principal elo de toda estrutura, o ser humano. Devemos procurar valorizar o conteúdo profissional de cada um, possibilitando o crescimento pessoal com base na motivação, na confiança e na perspectiva de ascensão funcional interna, desta forma haveria a va- lorização do agente público, contribuindo para atingir a excelência dos serviços. Observar que não só aspectos psicológicos que abordam o comportamento dos servidores nas Orga- nizações Militares, mas também aspectos sociológicos presentes nas relações de trabalho. É relevante ressaltar que cada pessoa tem a sua peculiaridade e que precisa ser motivado para melhor contribuir para a excelência de qualidade na prestação dos serviços à sociedade. Possibilitar ao servidor, mi- litar ou civil, uma maior participação no processo de transformação, contribuindo para o crescimento da sua autoestima e não limitá-lo. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 65 BERGUE, S. T. Comportamento organizacional. Brasília: CAPES; UAB, 2010. BRASIL, 2011c, p. 1-8. CALMON, k. M. N. A Avaliação de Programas e a Dinâmica da Apren- dizagem Organizacional. Revista de Planejamento e Políticas Públi- cas. Rio de Janeiro, v. 43, n. 19, p. 340, jun. 1999. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/ppp/pdf/ppp19.pdf.>. Acesso em: 20 abr. 2014. COSTA, Maria José Oliveira; Silva Jackson. Metodologia de Estudo e Pesquisa em Administração. DUCk, Jeanie Daniel. O mostro da mudança nas empresas: as forças ocultas que interferem nas transformações organizacionais. Rio de Janeiro: Campus, 2001. FACHIN, O. Fundamentos de Metodologia. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2003. FAVERO, 2010, p. 92. GUBERMAN, Gustavo. A Dinâmica Social das Organizações Públicas como Inibidora do Desenvolvimento no Brasil. In: ENCONTRO NACIO- NAL DE ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E GOVERNANÇA, 3., 2008,Salvador. 2008. Anais... Salvador, 2008. 1 CD-ROM. LIMA, Paulo Daniel Barreto. A excelência em gestão pública: a tra- jetória e a estratégia do GESPÚBLICA. 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Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha66 Concurso de Artigos Técnicos do SSPM (ano 2014) 3º Colocado – Clima Organizacional e suas Implicações no Ambiente de Trabalho Maria da Paz Ferreira do Nascimento ::: Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro ::: Introdução Certamente, ao longo dos anos, desde a primeira vez que foi concebida esta terminologia até os dias atuais, houve evolução em seu conceito, agregando-se à ela atribuições novas de acordo com as mudanças sofri- das pela sociedade. O Clima, em uma definição mais objetiva, é a percepção coletiva que as pessoas têm da empresa através do que observaram, viveram ou experimentaram em termos de política, estrutura, pro- cessos e sistemas, bem como as consequências desta percepção em seu comportamento no ambiente de tra- balho. Por outro lado, já não nos parece tão simples definir ou analisar o Clima Organizacional, pois se trata de um conceito multidisciplinar que envolve o entendi- mento de variáveis de cunho social e comportamental. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 67 Dentre as inúmeras definições de Clima Organizacional, tomaremos uma para nossas considerações iniciais. Segundo Flávio de Toledo Benedito Milioni (TOLEDO, 1979), Clima Organizacional pode ser definido como sendo um conjunto de valores, atitudes e padrões de comportamento, formais e informais, existentes em uma organização. Partindo desta linha de definição, en- tendemos que o objetivo de uma organização é que em suas atitudes busque-se o melhor ambiente de Clima Organizacional visando obter equilíbrio entre a produti- vidade da empresa e a satisfação de seus colaborado- res. Nesta busca, faz-se necessário estabelecer metas e estratégias capazes de potencializar as habilidades e aproveitar seus conhecimentos em prol do sucesso da empresa com a certeza de que este representa para o colaborador a satisfação de participar deste feito. Para que o colaborador coloque todo seu empenho em atingir metas de produtividade, um fator importante deve ser avaliado: Até que ponto as necessidades e expectativas das pessoas estão sendo atendidas den- tro da organização? Este questionamento representa a base do conceito de Clima Organizacional descrito por Stanley M. Davis. Segundo outro consultor norte-ame- ricano, warren G.Bennis, o Clima Organizacional é um conjunto de atitudes e valores que afetam a maneira como as pessoas se relacionam umas com as outras e com a organização. Até o momento percebemos que todas as definições de Clima Organizacional referem-se à qualidade do ambiente dentro da organização e a forma como ele é percebido pelas pessoas interferindo diretamente no comportamento das mesmas. Para entendermos melhor a influência de atitudes e valores sobre o Clima Organizacional, consideremos a partir de agora conceitos relacionados à “Teoria das Necessidades de Maslow”. Os fatores motivacionais descritos por Abraham Maslow em sua Teoria das necessidades, segundo Andre Ferreira (FERREIRA, 2010), podem ser utilizados para explicar que quan- do se analisa pessoas no ambiente de trabalho com diferentes níveis de escolaridade (nível fundamental, médio e superior), existe uma relação entre o nível educacional e a percepção quanto aos fatores moti- vacionais no ambiente de trabalho. A teoria de Maslow propõe que os fatores de satis- fação do ser humano, dividem-se em cinco níveis dis- postos na pirâmide como podemos observar abaixo. A base da pirâmide corresponde às necessidades bási- cas do ser humano, denominadas fisiológicas, àquelas ligadas à fome, sede, abrigo, sexo e outras necessi- dades corporais, consideradas assim necessidades de nível baixo junto com as necessidades de segurança, que incluem segurança e proteção contra danos físi- cos e emocionais. Já as necessidades do alto nível são aquelas que vão ao topo da pirâmide e são representa- dos pela busca da individualização do ser, incluindo as necessidades sociais, como afeição, aceitação, amizade e sensação de fazer parte do grupo, necessidades de estima que inclui respeito próprio, realização e autono- mia, status, reconhecimento e atenção e finalmente às necessidades de auto-realização, que incluem intenção de progresso, crescimento e auto desenvolvimento e alcance de seus limites de potencial. As expectativas de nível baixo, podem ser atendidas através de fatores extrínsecos, tais como, remuneração, boas condições de trabalho e segurança no emprego. Por outro lado, as necessidades de nível alto serão atendidas através de fatores intrínsecos (ROBINNS, 2005). Figura 1: que representa a pirâmide da Teoria das Necessidades de Maslow AUTO- REALIzAÇÃO ESTIMA SOCIAIS SEGURANÇA FISIOLÓGICAS Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha68 Como aperfeiçoamentoda teoria de Marslow, Clayton Alderfer (ALDERFER, 1973) sugeriu a Teoria de ERG- Existência, Relacionamento e Crescimento (em inglês: Existence, Relatedness, Growth), onde os cinco grupos motivacionais de Marslow são transformados em três grupos e são eles: relacionamento, existência e crescimento como mostra a FIGURA 2. As características destes níveis são agora generali- zados agrupando conceitos mais subjetivos, onde as necessidades de relacionamento correspondem ao desejo que as pessoas tem de se relacionar compar- tilhando ideias e sentimentos, já como características das necessidades de existência temos todas as ne- cessidades psicológicas e materiais e finalmente as necessidades de crescimento correspondem ao de- sejo de influenciar de forma criativa e produtiva sobre si mesmo e sobre o ambiente em que vive, gerando a satisfação da necessidade de crescimento. Apesar da Teoria de ERG estar mais alinhada com a realidade das diferenças dos indivíduos, que se comportam de forma diferente diante de cada grupo de necessida- des dependendo de sua cultura, por exemplo, esta não tem a validação relevante de pesquisas empíricas que a Teoria de Marslow possui. Analisando o que foi exposto sobre a Teoria de Necessidades de Marslow temos que considerar que dado o número diverso de variáveis que regem o comportamento humano, os grupos de necessidades da Pirâmide de Marslow pareceram rígidos e sem opção de inversão. Desta forma, as necessidades de indivíduos de perfil semelhante estariam sempre pro- pícios à seguir as mesmas necessidades, no entanto isto nem sempre ocorre, pois cada individuo possui um histórico de vida singular que interfere e direciona a ordem de suas necessidades. As necessidades de nível baixo nascem com o indivíduo, logo podem mais rapidamente serem atendidas enquanto que as de ní- vel mais elevado surgem com o passar do tempo e dependem de estímulos do ambiente. Desenvolvimento A Evolução do Clima Organizacional Como já foi constatado inclusive em organizações militares, práticas de gestão de conhecimento podem resultar no melhor desempenho organizacional. Um fator importante neste processo é o comportamento AUTO- REALIzAÇÃO ESTIMA SOCIAIS SEGURANÇA FISIOLÓGICAS CRESCIMENTO EXISTêNCIA RELACIONAMENTO Figura 2: Pirâmide de Marslow comparada à ERG Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 69 das pessoas pertencentes à organização, no ambiente organizacional. Deve ser criado um ambiente de apren- dizagem corporativa contínua. Desta forma, é preciso estimular o compartilhamento de conhecimento e a confiança entre as pessoas que fazem parte da equi- pe. Saímos de modelos de administrações burocratas e controladoras para gestões mais preocupadas com o humano, a satisfação no trabalho e a motivação para a produtividade de alta qualidade. Para que isto ocorra deve ser dado espaço para as ciências relacionadas ao comportamento humano e à psicologia, bem como relacionar o estudo do comportamento humano às prá- ticas de gestão. Esta nova visão trouxe um avanço para as áreas de gestão e um representativo crescimento às empresas que aplicaram estes conceitos. O processo que envolve a busca da produtividade e a construção de um ambiente organizacional favorável ao desenvol- vimento crescente, deve ter início no processo de re- crutamento e ir além do tempo em que o colaborador permanecer na organização. Com isto podemos dizer que para que exista um equilíbrio de gestão, a satisfa- ção no ambiente de trabalho deve ter início recrutando colaboradores que possuam habilidades e competên- cias para o trabalho que irão desempenhar, ainda que sem experiência (MARCHISINI, 2002). Para compreendermos um pouco acerca da gestão estratégica de pessoas, é importante definir o compor- tamento do gestor. Este deve identificar as caracterís- ticas e qualificações dos indivíduos que fazem parte de seu grupo de trabalho, não somente quanto ao co- nhecimento adequado ao desempenho de sua função, como também à sua conduta de trabalho em grupo e interferência ou contribuição de suas experiências de vida ao seu dia-a-dia laboral. As estratégias de gestão, desta forma acompanharam os avanços tecnológicos desde o fim do século XX e início deste século, onde as necessidades que surgiram entre a relação traba- lhador-empresa, estas exigiam força de trabalho e pro- dutividade quantitativa, enquanto hoje se necessita de um colaborador com produtividade qualitativa, fruto de conhecimento e qualificação intelectual na execução de suas funções. Neste contexto, a valorização do humano e a motivação promovendo a competitividade, devem ser equilibradas ao ponto de manter a confiança e a ética entre os colaboradores, coexistindo junto com o compartilhamento de conhecimento corporativo e tra- balho de equipe. O emocional, o intelecto e as compe- tências se agregam para formar um colaborador empe- nhado em contribuir positivamente com o crescimento da organização à qual pertence. A Importância do Clima Organizacional A análise de Clima Organizacional de uma empresa deve levar em consideração fatores como habilidades, competências, deficiências, expectativas e aspirações de seus colaboradores. A partir da apuração destes fatores, busca-se mapear os aspectos políticos que conseguiram o momento motivacional de seus funcio- nários. Esta pesquisa é de extrema importância para criar um banco de informações que visa identificar e compreender os aspectos positivos e negativos que interferem no clima para que sejam traçados estraté- gias de ação para a otimização do Clima e consequen- temente satisfação do funcionário na direção de um ganho real de produtividade. A atitude da empresa em ouvir seus colaboradores é uma prática motivacional, onde revela a mensagem de que a opinião do empregado é importante e a empresa deseja ouvi-lo. A preocupação com o Clima Organizacio- nal tem um sentido direto e objetivo, pois se sabe que colaboradores com baixos índices de motivação, utili- zam apenas 8% de sua capacidade de produção, en- quanto aqueles motivados chegam à índices de 60% em sua capacidade produtiva. Diante de um planejamento estratégico da organização, devem ser contempladas variáveis como: o trabalho, a integração setorial e in- terpessoal, o salário, o estilo gerencial, a comunicação, o desenvolvimento profissional, a imagem da empresa, o processo decisório, os benefícios, as condições físicas do trabalho, o trabalho em equipe e as orientações para resultados. O sigilo e a confiança durante a construção da base de dados do Clima Organizacional é fundamen- tal para o sucesso deste processo. Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha70 As principais contribuições que podem ser obtidas a partir de um Clima Organizacional são: Alinhamen- to da cultura com as ações efetivas da organização; promoção de crescimento e desenvolvimento dos co- laboradores; integração de processos e áreas funcio- nais; otimização da comunicação; minimização da bu- rocracia; identificação da necessidade de treinamento e desenvolvimento; condução de ações gerenciais mais consistentes; aumento da produtividade, diminuição da rotatividade; oferecimento de conforto e segurança ao colaborador e finalmente aumento da satisfação de clientes internos e externos. Com tantas variáveis, podemos observar que não existe uniformidade no Clima Organizacional, depen- dendo principalmente da situação psicológica e estágio motivacional em que se encontra o funcionário. O Sucesso e o Clima Organizacional Muitas empresas, através de estudos comparativos, perceberam a importância de valorizar o fator huma- no, pois constataram que nenhuma empresa atinge o sucesso se não tiver pessoas satisfeitas, e conse- quentemente motivadas, trabalhando para elas. Daí a grande mudança na mentalidade das empresas que hoje buscam cada vez mais criar um ambiente organi- zacionalfavorável, investindo em atividades que visam a melhoria de qualidade de vida de seus funcionários. Desta forma, tem sido cada vez mais evidente que uma empresa que deseja ser competitiva e manter bons re- sultados, necessite oferecer bem mais que um salário atrativo (GUSTMANN, 2014). Clima Organizacional Conforme Escalão Hierárquico Observou-se que ao longo dos anos as organiza- ções hierarquicamente mudaram, tiveram que flexi- bilizar suas estruturas e estratégias, antes rígidas e pouco flexíveis, pois identificaram que era necessário acompanhar as mudanças sociais e políticas do mun- do atual. Assim as organizações tiveram que criar um ambiente mais favorável para sobreviverem. Em estudo comparativo, utilizando diferentes níveis hierárquicos, constatou-se que em níveis mais baixos o clima orga- nizacional real se aproxima mais do ideal do que em níveis mais elevados. Isto também reflete um clima de satisfação maior nos níveis mais baixos de hierarquia (GUTIERREz,1988). Relação entre a Satisfação no Trabalho e o Comprometimento Organizacional Existe uma relação direta entre a satisfação no tra- balho e o comprometimento organizacional. Segundo estudos realizados por E.J Lumley et al., utilizando um grupo de 86 empregados de quatro companhias de Tecnologia de Informação da África do sul, observou- se que há um comprometimento maior associado à satisfação no trabalho. Foram avaliados vários fatores considerados importantes para a satisfação no traba- lho e identificados como sendo os seguintes: salário, promoção, estilo de supervisão, benefícios, recompen- sas, procedimentos operacionais, colegas de trabalho, natureza do trabalho e comunicação. Segundo Soari & Judge, “Empregado feliz é empregado produtivo”. Para entendermos melhor esta interferência da satisfação do trabalho na produtividade, discutiremos cada um destes fatores a seguir (LUMLEY, 2011). Salário O dinheiro é importante para o indivíduo e faz par- te de suas necessidades básicas, fisiológicas, ou seja, aquelas que nascem com este indivíduo e são aten- didas mais facilmente. Identificou-se porém que não necessariamente indivíduos que ganhavam mais eram mais motivados ou mais satisfeitos. Promoção É comprovado e conhecido que prover oportunidade de promoção gera uma maior satisfação no trabalho. Psicologia Revista Naval Em Destaque 2015 | Revista Naval - Psicologia em Destaque 71 Supervisão O comportamento do supervisor imediato para com o funcionário é fator importante que influencia na satis- fação no trabalho. A satisfação do empregado aumenta quando seu supervisor imediato é amigável, oferece recompensa por melhor desempenho, se propõe à ouvir seus funcionários e demonstra interesse pessoal por eles. Oferecer oportunidade de que seus funcio- nários desenvolvam suas habilidades e conhecimentos, gerando desafios e dando-lhes oportunidade de racio- cínio, promoverá maior satisfação no trabalho. Benefícios e Recompensas Os benefícios, sejam eles financeiros ou não, atraem a atenção do empregado e consequentemente podem aumentar seu empenho, levando-o à um alto nível de comprometimento organizacional. Segundo Spector, exemplos de recompensa são reconhecimento e felici- tação pelo bom trabalho (SPECTOR, 1997). Condições Operacionais e Colegas de Trabalho A ocorrência de injustiças no trabalho é determi- nante no comportamento das pessoas e suas reações no ambiente de trabalho. De acordo com Martins e Coetzee (MARTINS, 2007), a motivação e cultura or- ganizacional do empregado são afetadas pela forma como as necessidades destes empregados e seus ob- jetivos estão integrados às necessidades e objetivos da organização. O fator social é atendido quando os colegas de trabalho desenvolvem relações amigáveis e colaborativas entre eles, conduzindo assim um au- mento da satisfação no trabalho (ROBBINS, 1993). A autonomia do empregado é outro fator importan- te, pois faz aumentar o senso de responsabilidade dando a ele um sentido de valor de seu trabalho au- mentando a satisfação. O baixo nível de exigência de resultados pode levar o empregado à acomodação reduzindo sua satisfação no trabalho. Comportamento Falaremos de três modelos de comprometimento que interferem diretamente no comportamento do empre- gado, denominados como: o comprometimento efetivo, comprometimento de continuidade e comprometimento normativo. Cada um deles é reflexo de um momento vivido pelo empregado, podendo ser transitório ou de- finitivo a depender do desenvolvimento do empregado ao longo de sua permanência na empresa. Aqueles comprometidos efetivamente trabalham por prazer, por gostarem daquilo que fazem, já os comprometidos por continuidade, estão na empresa por necessidade sala- rial, para pagar as contas e tem atitudes calculistas e finalmente aqueles que tem comprometimento norma- tivo, estão na empresa por uma responsabilidade ética e se julgam moralmente no dever de permanecer na empresa, não importa o retorno satisfatório ou não. Conclusões A satisfação no trabalho tem como um dos fatores mais importantes, os valores de vida do indivíduo. O conceito de sucesso e a visão de felicidade devem estar associados à reflexão que fazemos após as adversida- des da vida, sejam nossas ou de terceiros. Alguém que não avalia o privilégio de estar vivo do ponto de vista da preservação de seus sentidos e sua saúde mental esta- rá insatisfeita eternamente. Estar satisfeito não significa estar acomodado, pois seja qual for a atividade laboral escolhida, desejada ou exercida, poderá ter opções e oportunidades de desafios, de crescimento, de metas a curto, médio e longo prazo, independente da capacita- ção do executor, ou seja, nenhum trabalho é insignifi- cante o suficiente para que o despreze sem desenvolver avanços e deixar sua marca ou difícil o suficiente para que cruze os braços e se torne medíocre. De um modo geral, a forma como o indivíduo percebe a organização reflete seu comportamento diante da mesma. Alguém que ao longo da vida soube superar adver- sidades, sempre encontrará novos desafios que o esti- mulem e tragam prazer à qualquer atividade. Pessoas com inteligência emocional sabem que o que dá valor Psicologia Revista Naval Em Destaque SSPM | Serviço de Seleção do Pessoal da Marinha72 ao trabalho é a forma como o executamos e não o quanto nos remunera. Por outro lado, nenhuma clas- se de trabalho é mal remunerada apenas por falta de vontade política, sempre existe de alguma forma um desprezo da classe, que associa negligência e baixa qualidade do trabalho executado ou mesmo produtivi- dade, levando à remuneração inadequada. Na verda- de, o prazer do que fazemos vem das afinidades com esta atividade, dos motivos da escolha e principal- mente da adequação de nossas qualificações ao tipo de atividade. Com isto, o que ganhamos para realizar tal tarefa torna-se secundário e não prioritário. Comportamentos como assédio moral, abuso de poder e conduta antiética estão cada vez mais afas- tadas em relação ao passado, pois hoje o mercado de trabalho pune estas condutas e mais ainda os gestores tem consciência dos prejuízos reais que podem causar às suas empresas. Ainda temos muito que evoluir, porém do ponto de vista histórico, muitos progressos foram alcançados e hoje conduzem à um Clima Organizacional favorável à satisfação no traba- lho e um elevado nível de produtividade associado à qualidade de vida do empregado. O Brasil é um país capitalista e não oferece ao povo, de forma gratuita, bons serviços de saúde, educação e segurança. Existe a premissa de que nossa remune- ração laboral nem sempre oferece condições de aten- der nossas necessidades básicas e, por conseguinte, nos torna preocupados com o que necessitamos para mantermos nossas condições mínimas de sobrevivên- cia, onde o que determina a Constituição Federal da República do Brasil/88 acerca das atribuições do sa- lário mínimo não são cumpridas, porém como foi visto, nemsempre o salário é o foco da satisfação já que foi observado que o mais remunerado não necessaria- mente é o mais motivado. Concluímos que o Clima Organizacional tem forte influência no ambiente de trabalho, pois é comprova- do que a satisfação no trabalho é fruto de um Clima Organizacional favorável e planejado estrategicamente através de um conjunto de condutas de gestão. Além deste planejamento, devem ser consideradas teorias envolvendo as necessidades de Maslow e o equilíbrio entre aquelas estabelecidas pela organização. ALDERFER, C. P.; SCHNEIDER, B. Three Studies of Measures of Need Satisfaction in Organizations. Administrative Science Quarterly, Ithaca, v. 18, n. 4, p. 489-505, dez 1973. Disponível em: http://www.fa7. edu.br/recursos/imagens/File/Revista%20FA7/revista2007_2.pdf. Acesso em: 28 Jun. 2014. FERREIRA, A., DEMUTTI, C. M. GIMENEz, P. E. O. Teoria das Necessi- dades de Maslow: A Influência do Nível Educacional Sobre a sua Per- cepção no Ambiente de Trabalho. XII Seminários em Administração. Setembro de 2010. 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BRASIL Amazônia Azul R SeRvIço de SeLeção do PeSSoAL dA MARInhA Serviço de Seleção do PeSSoal da Marinha ano 03 - número 03 - 2015 - iSSn 2238-1139 Psicologia Revista Naval Em Destaque Serviço de Seleção do PeSSoal da Marinha Praça Barão de ladário, s/n° - Complexo do 1º distrito naval (edifício almirante Prado Maia) Centro - CeP 20091-000 - rio de Janeiro - rJ - Brasil Tel.: (21) 2104-5393 www.sspm.mar.mil.br - www.sspm.mb revista naval - Psicologia em destaque - ano 03 - núm ero 03 - 2015 - Publicado pelo Serviço de Seleção do Pessoal da M arinha __DdeLink__31_553673085 __DdeLink__174_2106095858 __DdeLink__1769_1972044724 _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack pagina88.pdf __DdeLink__31_553673085 __DdeLink__174_2106095858 __DdeLink__1769_1972044724 _GoBack _GoBack _GoBack _GoBack