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EA
D
2
O Povo de Deus I
1. ObjetivOs
•	 Estudar	os	principais	temas	da	primeira	parte	do	livro	II	
do	CIC.
•	 Refletir	sobre	a	Igreja	como	povo	de	Deus	e	os	princípios	
que	regem	sua	organização.
•	 Compreender	a	figura	do	fiel	e	os	diversos	estados	de	vida	
na	Igreja.
•	 Conhecer	 os	 deveres	 e	 direitos	 fundamentais	 dos	 fiéis	
(cânn.	208-223).
2. COnteúdOs
•	 Livro	II	do	CIC	em	sua	primeira	parte.
•	 Igreja	como	povo	de	Deus	e	os	princípios	que	regem	sua	
organização.
•	 O	fiel	e	os	diversos	estados	de	vida	na	Igreja.
•	 Obrigações	e	direitos	fundamentais	dos	fiéis	(cânn.	208-223).
© Direito Canônico I106
3. Orientações para O estudO da unidade
Antes	de	 iniciar	o	estudo	desta	unidade,	é	 importante	que	
você	leia	as	orientações	a	seguir:
1)	 O	livro	II	do	CIC,	intitulado	"Do	povo	de	Deus",	é	o	mais	
extenso	e,	sem	dúvida	alguma,	foi	o	que	mais	se	bene-
ficiou	da	doutrina	eclesiológica	do	Concílio	Vaticano	 II.	
Basta	 observar	 alguns	 de	 seus	 conteúdos,	 como,	 tam-
bém,	os	títulos	dados	às	suas	três	partes,	para	perceber	
a	sua	sintonia	com	os	capítulos	centrais	da	constituição	
dogmática	Lumen gentium.	Por	isso,	desde	já,	sugerimos	
que	você	estude	esta	unidade	tendo	em	mãos	o	Com-
pêndio	do	Concílio	Vaticano	II	e,	sobretudo,	a	menciona-
da	constituição	dogmática.
2)	 	Seguindo	a	ordem	estabelecida	pelo	Concílio,	este	livro	
II	 do	 CIC	 descreve	 a	 estrutura	 da	 Igreja,	 voltando	 sua	
atenção	para	o	elemento	comunitário,	formado	por	fiéis	
cristãos	que	adquiriram	tal	condição	mediante	o	batis-
mo	e	constituem	a	communio fidelium.	A	segunda	parte	
do	livro	está	centrada	no	elemento	hierárquico,	que	de-
pende	do	sacramento	da	ordem	e	comporta	uma	comu-
nhão	hierárquica	entre	os	fiéis.	Desta	forma,	colocam-se	
em	destaque	tanto	o	sacramento	do	batismo	quanto	o	
sacramento	da	ordem	na	configuração	jurídica	da	Igre-
ja,	como,	também,	a	precedência	que	possui	o	batismo,	
tanto	de	um	ponto	de	vista	lógico,	quanto	ontológico	e	
funcional.	De	fato,	o	substrato	comunitário	do	povo	de	
Deus	é	 logicamente	antecedente	em	 relação	à	 sua	es-
trutura	hierárquica;	 a	 condição	de	 fiel	 é	previa	em	 re-
lação	àquela	de	ministro	ordenado.	Todavia,	estes	dois	
elementos	 constitutivos	 da	 Igreja,	 tanto	 o	 aspecto	 co-
munitário	 quanto	 o	 aspecto	 hierárquico,	 articulam-se	
organicamente	e	são	inseparáveis.	É	importante	ter	isso	
sempre	presente.
3)	 O	livro	II	do	CIC	atual	é	claramente	diferente	do	livro	II	do	
CIC	anterior,	o	qual	articulava	o	próprio	conteúdo	ten-
do	por	base	os	"estados	canônicos"	(clérigos,	religiosos	
e	 leigos),	 atribuindo	 um	papel	 principal	 aos	 clérigos	 e	
considerando	os	demais	fiéis	como	sujeitos	passivos	da	
Claretiano - Centro Universitário
107© U2 -O Povo de Deus I
atividade	da	Igreja.	O	atual	livro	II,	de	acordo	com	a	dou-
trina	conciliar,	apresenta	o	fiel	como	figura	central,	para	
apenas,	em	um	segundo	momento,	referir-se	às	diversas	
maneiras	 (clérigos,	 leigos	e	 consagrados)	de	 viver	esta	
comum	 condição	 (fiel).	 Portanto,	 nesta	 unidade,	 você	
será	convidado	a	conhecer	um	pouco	mais	de	perto	os	
princípios	 que	 regem	 a	 organização	 do	 povo	 de	Deus,	
tendo	 presente,	 sobretudo,	 a	 nossa	 condição	 comum:	
povo	de	batizados	e,	portanto,	de	fiéis.	Veremos,	 tam-
bém,	as	principais	obrigações	e	direitos	que	são	comuns	
a	todos	os	membros	do	povo	de	Deus	e,	desta	forma,	po-
deremos	ter	uma	visão	de	conjunto	do	que	toca	a	cada	
fiel,	enquanto	batizado,	no	âmbito	deste	mesmo	povo.	
4)	 Por	fim,	no	estudo	dos	temas	você	encontrará	informa-
ções	complementares	e	sugestões	de	leituras.	Procure,	
dentro	do	possível,	aprofundar	os	 temas	 tratados	com	
a	leitura	de,	ao	menos,	parte	dos	textos	sugeridos,	pois,	
como	é	sabido,	na	construção	do	conhecimento,	o		alu-
no	possui	um	papel	ativo.
4. intrOduçãO À unidade
Na	primeira	 unidade,	 nos	 ocupamos	 de	 algumas	 questões	
introdutórias	que	visavam	situá-lo	de	modo	panorâmico	no	estudo	
deste	Caderno de Referência de Conteúdo.	Agora,	nosso	 foco	 se	
voltará	para	alguns	temas	bem	específicos,	diretamente	ligados	à	
atual	normativa	da	Igreja	latina,	pois	foi	essa	a	proposta	feita.
Esta	unidade	tem	por	finalidade	propiciar	a	você	uma	visão	
global	da	figura	do	fiel,	e,	sobretudo,	do	conjunto	de	suas	obriga-
ções	e	direitos,	como	uma	espécie	de	desdobramento	lógico	dos	
princípios	que	regem	a	organização	do	"povo	de	Deus".	Tudo	isso	
será	precedido	de	uma	breve	apresentação	deste	importante	livro	
do	CIC	atual.
No	final	da	unidade,	você	perceberá	que	no	âmbito	interno	
deste	"povo	de	Deus"	existe	uma	igualdade	fundamental	e	diversi-
dade	de	funções,	cabendo	a	todos	direitos	e	deveres.
© Direito Canônico I108
Vamos	compreender	com	mais	detalhes,	com	o	estudo	que	
ora	se	inicia!
5. O LivrO ii dO CiC e aLGuns aspeCtOs de OrdeM 
eCLesiOLÓGiCa
O	livro	segundo,	intitulado	Do povo de Deus,	é	o	mais	amplo	
de	todos	os	que	compõem	o	CIC	atual,	pois	engloba	543	cânones,	
ou	seja,	quase	um	terço	da	legislação	canônica	latina.	
O	livro	foi	dividido	em	três	partes,	a	saber:
•	 Dos	fiéis	(cânn.	204-329).				
•	 Da	Constituição	Hierárquica	da	Igreja	(cânn.	330-572).	
•	 Dos	 Institutos	de	vida	consagrada	e	Sociedades	de	vida	
apostólica	(cânn.	573-746).	
•	 Já	o	livro	segundo	do	CIC	de	1917	estava	dividido	da	se-
guinte	maneira:
•	 Dos	clérigos	(cânn.	108-486).	
•	 Dos	religiosos	(cânn.	487-681).	
•	 Dos	leigos	(cânn.	682-725).
Se	você	fixar	atentamente	o	seu	olhar	nos	títulos	anterior-
mente	indicados,	comparando-os	entre	si,	irá	se	deparar	com	algo	
bem	mais	complexo	do	que	uma	simples	troca	de	títulos.	Na	ver-
dade	nos	encontramos	diante	de	uma	mudança	radical	na	escolha	
da	sistemática	utilizada	pelo	legislador	que	optou	por	não	seguir	
a	 tradição	romana,	mas,	sim,	a	eclesiologia	do	Concílio	Vaticano	
II.	De	fato,	da	constituição	dogmática	Lumen Gentium	deriva	não	
somente	a	estrutura	do	livro	II,	mas	também	alguns	princípios	fun-
damentais	que	regem	toda	a	normativa,	como,	por	exemplo,	o	da	
igualdade	fundamental	na	dignidade	e	no	agir	de	todos	os	fiéis	e	
aquele	de	comunhão,	enquanto	determinador	das	relações	esta-
belecidas	entre	os	membros	do	povo	de	Deus.	(Cf.	LG,	n.	32).
Claretiano - Centro Universitário
109© U2 -O Povo de Deus I
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Observando a estrutura definitiva do livro II, percebe-se claramente que ela de-
riva dos capítulos II, III, IV e VI da LG, girando em torno a três conceitos funda-
mentais: 
1) Os fiéis (1ª parte).
2) A Constituição Hierárquica da Igreja (2ª parte).
3) Os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica (3ª par-
te).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Ao	constatar	esta	mudança,	você	já	começará	a	perceber	o	
quanto	foi	aprofundada	e	aplicada	a	eclesiologia	do	Concílio	Vati-
cano	II.	Tenha	presente	que	o	código	anterior	foi	elaborado	tendo	
como	referência	uma	concepção	de	Igreja	entendida	como	socie-
dade	juridicamente	perfeita,	hierarquicamente	organizada	e	com	
uma	acentuada	prevalência	dos	clérigos.	Já	o	código	atual,	mesmo	
reafirmando	o	princípio	da	constituição	hierárquica	da	Igreja,	co-
loca	em	primeiro	plano	o	princípio	da	igualdade	de	todos	os	fiéis,	
considerando	positivamente	a	diversidade	das	funções,	dos	minis-
térios	e	dos	carismas	e	ordenando-os	em	uma	relação	de	comu-
nhão.	
Do	que	dissemos	até	aqui,	é	possível	perceber	que	o	aspecto	
eclesiológico	é	de	fundamental	importância	para	a	compreensão	
não	somente	do	 livro	segundo	do	CIC,	mas,	 também,	de	 todo	o	
direito	canônico.	Por	isso,	iremos	fazer	um	breve	aceno	para	algu-
mas	noções	ou	"imagens"	da	Igreja	que	lhe	permita	compreender	
o	real	alcance	das	mudanças	realizadas.
A Igreja como sociedade jurídica perfeita 
No	código	anterior,	esta	noção	de	Igreja	era	a	mais	significa-
tiva	e	importante.	Por	isso	precisamos	esclarecê-la	aqui,	situando-
-a	 no	 contexto	 histórico	no	qual	 foi	 formulada,	 para	 evitar	mal-
-entendidos.
A	Igreja	sempre	afirmou	a	sua	independência	do	poderesta-
tal,	tendo	consciência	de	poder	autogovernar-se	para	a	realização	
do	seu	fim.	Este	poder	é	algo	que	a	Igreja	reivindica	como	parte	de	
© Direito Canônico I110
sua	natureza.	Portanto,	ela	se	reconhece	como	sociedade	fundada	
diretamente	por	Deus	e	dotada	de	um	ordenamento	jurídico	origi-
nário,	sendo	autossuficiente	e	possuidora	de	uma	jurisdição	plena.
Vamos	conhecer	melhor?
A	Igreja	possui	um	ordenamento	jurídico	originário	porque	
tem	um	direito	radicalmente	próprio,	que	não	deriva	do	direito	de	
outra	sociedade,	nem	é	o	resultado	de	uma	transmissão	de	direi-
tos	feita	pelo	Estado.
A	autossuficiência	da	 Igreja	deve	ser	entendida	no	sentido	
de	dispor	da	capacidade	de	autogovernar-se,	de	coordenar	a	ati-
vidade	dos	seus	membros	e	de	ordenar	os	meios	adequados	para	
conseguir	o	seu	fim.
Jurisdição	plena	não	significa	ilimitada,	mas	um	poder	pleno	
e	limitado	na	sua	própria	ordem,	ou	seja,	em	relação	àquelas	coi-
sas	que	caem	no	âmbito	do	seu	fim.
Os	elementos	supraindicados	não	são	acidentais,	e	historica-
mente	foram	utilizados	na	elaboração	do	conceito	que	identificou	
a	Igreja	como	sociedade	jurídica	perfeita.	Na	verdade,	a	compre-
ensão	da	Igreja	como	sociedade	é	muito	antiga	(já	se	faz	presente	
na	escolástica	medieval),	encontrando,	porém,	uma	insistente	va-
lorização	no	período	posterior	ao	Concílio	de	Trento	(1545-1563).	
Vamos	compreender	a	razão?
Na	Contrarreforma,	por	um	motivo	eminentemente	defensi-
vo	e	apologético,	a	conceituação	da	Igreja	não	somente	como	so-
ciedade,	mas	como	sociedade	jurídica	perfeita,	assumiu	uma	enor-
me	importância,	pois	naquele	período	várias	correntes	de	opinião	
contestavam	a	independência	e	plenitude	da	Igreja.	De	um	lado,	
o	Estado	absolutista	procurava	obter	para	si	todo	poder	e	sobera-
nia	e,	de	outro	lado,	as	teses	protestantes	pretendiam	situar	todas	
as	Igrejas	cristãs,	sem	distinção,	sob	a	jurisdição	do	Estado,	visto	
como	a	única	sociedade	soberana.	
Claretiano - Centro Universitário
111© U2 -O Povo de Deus I
A	questão	alongou-se	até	o	século	19,	quando,	então,	se	ten-
tou	reduzir	a	Igreja	a	uma	instituição	colocada	a	serviço	das	fina-
lidades	do	Estado	e,	deste	modo,	ela	seria	reduzida	a	uma	mera	
associação	de	direito	público.	Portanto,	estava	em	jogo	a	liberdade	
e	a	identidade	da	Igreja	e	a	problemática	exigia	uma	postura	clara	
e	sustentável	por	parte	dela.	O	que	fazer,	então?
Para	 responder	àqueles	que	contestavam	a	 independência	
da	Igreja	e	para	garantir	a	liberdade	desta	frente	ao	Estado,	os	ca-
nonistas	desenvolveram	a	 ideia	de	que	ela	 seria	uma	 sociedade	
juridicamente	perfeita.	De	fato,	uma	sociedade	é	jurídica,	quando	
a	união	que	se	estabelece	entre	os	membros	que	a	compõe	deriva	
de	um	vínculo	jurídico	estabelecido	por	um	poder	soberano;	é	per-
feita,	quando,	perseguindo	um	bem	completo,	possui	um	fim	e	dis-
põe	de	todos	os	meios	para	realizá-lo,	sendo,	consequentemente,	
autônoma	e	independente.	Ora,	se	o	Estado	era	considerado	uma	
sociedade	juridicamente	perfeita,	o	mesmo	ocorria	com	a	Igreja,	
pois	 ela	 também	é	 uma	 sociedade	 jurídica,	 na	medida	 em	que,	
enquanto	comunidade	de	fiéis,	está	unida	por	elementos	juridica-
mente	vinculantes;	é	perfeita,	na	medida	em	que,	tendendo	a	um	
bem	completo	na	sua	ordem,	possui	uma	finalidade	e	dispõe	de	
todos	os	meios	para	conseguir	realizá-la,	sendo,	por	esta	razão,	em	
seu	próprio	âmbito,	suficiente	a	si	mesma	e	independente.	Desta	
forma,	reafirmava-se	a	ideia	de	que	a	Igreja	tem	um	ordenamento	
originário	e,	por	direito	divino,	possui	todos	os	poderes	necessá-
rios	para	realizar	o	seu	fim	sobrenatural,	sendo,	consequentemen-
te,	autônoma	e	independente.	
Esta	concepção	da	Igreja	como	"sociedade	jurídica	perfeita"	
teve	o	mérito	de	distinguir	claramente	duas	sociedades	diferentes	
pela	sua	natureza	e	equiparáveis	pela	sua	plenitude	de	poder	e,	
ao	mesmo	tempo,	serviu	para	defender	a	Igreja	das	ingerências	do	
Estado	e	das	ameaças	deste	em	reduzi-la	a	uma	mera	associação	
de	direito	público.	Porém,	nesta	concepção,	há	uma	prevalência	
do	aspecto	jurídico,	no	qual	ficam	acentuados	os	aspectos	visíveis	
da	Igreja,	prescindindo-se	dos	elementos	teológicos	e	da	graça.	
© Direito Canônico I112
Consciente	dos	limites	desta	concepção,	o	Concílio	Vaticano	
II	achou	por	bem	explicitar	outros	aspectos	de	suma	importância	
para	possibilitar	uma	compreensão	da	 Igreja	em	profunda	cone-
xão	com	a	sua	essência.	Para	 isso,	 redimensionou	o	conceito	de	
Igreja-Sociedade,	adotando	algumas	categorias	fundamentais	em	
seu	tratado	eclesiológico:	
São	elas:
1)	 Mistério.
2)	 Sacramento.	
3)	 Povo	de	Deus.	
4)	 Comunhão.
5)	 Instituição.	
Vamos	compreender	melhor!
A Igreja como mistério
Ao	afirmar	que	a	Igreja	é	um	mistério,	o	Concílio	tem	presen-
te	que	a	Igreja	é	a	comunidade	do	amor	divino,	que	ela	aparece	
como	um	povo	reunido	na	unidade	do	Pai,	do	Filho	e	do	Espírito	
Santo.	A	 Igreja	na	verdade	participa	da	vida	 trinitária	e	procede	
da	Trindade,	sendo,	portanto,	necessário	observar	conjuntamente	
(embora	distintamente)	aquilo	que	nela	é	visível	e	o	que	é	invisível	
(espiritual).	De	um	ponto	de	vista	institucional,	isto	significa	colo-
car	em	primeiro	plano	a	Igreja	como	comunidade	de	fé,	esperança	
e	caridade,	pois	a	Igreja	é	uma	realidade	que	transcende	o	agrupa-
mento	de	pessoas	e	de	estruturas	por	meio	das	quais	se	exprime.	
Qual	a	consequência	desta	noção	para	o	direito	canônico?
Fundamentais a este respeito são as palavras da constituição Lu-
men Gentium, que, ao aplicar à Igreja a categoria "mistério" (nº 5), 
sublinha a primazia do aspecto espiritual, fazendo uma analogia 
com a divindade e humanidade de Cristo (nº 8), reconhecendo, 
assim, que na origem da Igreja há uma ação trinitária (nº 4), pneu-
matológica e não puramente cristológica.
Claretiano - Centro Universitário
113© U2 -O Povo de Deus I
Se	a	Igreja	é	mistério,	a	experiência	pessoal	e	comunitária	do	
mistério	não	pode	ser	plenamente	configurada	juridicamente.	Con-
sequentemente,	o	direito	positivo	canônico	(a	lei	escrita),	embora	
necessário,	 torna-se	 insuficiente	para	exprimir	esta	experiência	e,	
portanto,	está	subordinado	à	inteira	realidade	misteriosa	da	Igreja.
A Igreja como sacramento 
A	constituição	Lumen	Gentium,	aplicando	à	Igreja	a	categoria	
de	"sacramento"	(nº	1),	coloca	em	destaque	o	sentido	e	a	essência	
do	mistério	eclesial:	a	missão	diante	do	mundo,	enquanto	sinal	de	
comunhão	com	Deus	e	com	cada	pessoa	humana,	para	a	instaura-
ção	do	Reino	de	Deus.	A	consequência	jurídica	é	evidente:	qualquer	
norma	ou	estrutura	eclesiástica	deve	estar	a	serviço	daquilo	que	é	
chamada	a	significar	(sacramento).	Se	a	Igreja	enquanto	sacramento	
deve	ser	para	o	mundo	sinal	dos	valores	do	evangelho,	as	realidades	
reguladas	pelo	direito	canônico	devem	exprimir	este	dado.	
A Igreja como povo de Deus
Afirmando	que	a	Igreja	é	povo	de	Deus,	o	Concílio	coloca	em	
evidência	que	ela	procede	do	alto,	dos	desígnios	de	Deus,	ou	seja,	
da	eleição,	da	aliança	e	da	missão.	A	expressão	"povo	de	Deus"	
procura	 explicitar	 a	 dupla	 índole	 da	 Igreja,	 enquanto	mistério	 e	
enquanto	sujeito	histórico,	uma	vez	que	em	cada	momento	e	em	
cada	 circunstância,	 estes	 dois	 aspectos	 se	 atualizam	 e	 realizam.	
Além	disso,	a	noção	recorda	que	se	o	povo	de	Deus	é	único,	tam-
bém	é	organizado	com	grande	variedade,	a	qual	compreende	os	
diversos	ministérios	e	carismas.	Na	mesma	noção	se	entrelaçam	os	
princípios	de	igualdade,	de	diversidade	funcional	e	de	correspon-
sabilidade	a	respeito	dos	quais	falaremos	mais	adiante.
A Igreja como comunhão 
A	eclesiologia	de	comunhão	é	a	ideia	central	e	fundamental	
dos	documentos	do	Concílio	Vaticano	II.	Muitos	enxergam	nela	não	
© Direito Canônico I114
apenas	a	principal	figura	da	Igreja,	mas,	também,	o	fundamento	
da	sua	ordem.	A	noção	de	comunhão	possui	três	significados:	
1)	 místico;	
2)	 eucarístico-sacramental;	
3)	 eclesiológico.	
Em	sentido	místico,	 a	 comunhão	 significa	união	 com	Deus	
por	meio	de	 Jesus	Cristo,	no	EspíritoSanto.	Esta	noção	nos	 leva	
a	descobrir	a	vida	interior	da	Igreja.	A	comunhão	de	vida	junto	à	
Trindade	é	fonte	de	comunhão	fraterna	e	eclesial.	A	 Igreja	é	um	
ícone	da	Trindade	(LG	n.	2-4).	No	mistério	de	Deus	estão	presentes	
unidade	e	multiplicidade	e	uma	dimensão	não	pode	existir	sem	a	
outra.	Algo	semelhante	ocorre	com	a	Igreja,	vista	seja	no	seu	con-
junto,	seja	nas	relações	que	se	estabelecem	entre	as	Igrejas	parti-
culares	e	a	Igreja	universal.	Portanto,	na	unidade	da	Igreja,	como	
unidade	de	comunhão,	encontramos	um	espaço	 legítimo	para	a	
multiplicidade.
Em	sentido	eucarístico	e	sacramental,	a	comunhão	realiza-se	
na	vida	concreta	da	Igreja	mediante	a	Palavra	e	os	sacramentos.	
Portanto,	no	encontro	com	a	Palavra	de	Deus	e	os	sacramentos,	
particularmente	na	Penitência	 e	 na	 Eucaristia,	 entramos	em	 co-
munhão	com	Aquele	que	é	a	fonte	do	corpo	eclesial	e	de	suas	ar-
ticulações.	
Em	sentido	eclesiológico,	a	comunhão	do	corpo	eucarístico	
significa	e	produz	a	íntima	comunhão	de	todos	os	fiéis	no	Corpo	
de	Cristo.	Trata-se,	portanto,	de	comunhão	entre	os	fiéis	e	entre	as	
Igrejas,	não	meramente	espiritual	e	 individual,	mas	orgânica,	re-
fletindo	direta	e	concretamente	nas	estruturas	visíveis	que	a	Igreja	
possui	e	nas	relações	e	funções	que	nela	se	estabelecem.
A Igreja instituição
Permanecendo	firmes	às	imagens	vistas	até	aqui	não	pode-
mos	negar	que	o	Concílio	fez	uma	referência	expressa	à	institucio-
nalidade	da	Igreja	(LG	n.	18ss).	Isso	porque	embora	tenha	afirmado	
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o	aspecto	carismático	desta,	definindo-a	como	realidade	espiritu-
al,	cujo	fim	é	testemunhar	ao	mundo	o	Evangelho,	tem	consciência	
de	que	se	trata	de	um	testemunho	comunitário.	Por	esta	razão,	a	
Igreja	é,	também,	uma	realidade	institucional,	ou	seja,	um	agru-
pamento	que	nasceu	em	força	da	livre	adesão	de	pessoas	a	ele-
mentos	objetivos	pré-existentes	aos	indivíduos	que	dele	formam	
parte.	Nesse	sentido,	as	 instituições	e	as	 leis	positivas	canônicas	
são	instrumentos	necessários	para	afastar	o	risco	de	cairmos	em	
uma	leitura	relativista	e	individualista	do	carisma	e	da	missão.	
Por	fim,	tendo	diante	dos	olhos	as	categorias	fundamentais	
explicitadas	pelo	Concílio	Vaticano	II	em	seu	tratado	eclesiológico,	
não	é	mais	possível	admitir	a	 identificação	da	 Igreja	com	o	con-
ceito	de	 sociedade	 jurídica	perfeita,	 o	que	não	 significa	negar	 a	
sua	natureza	social,	pois,	em	sentido	análogo,	a	Igreja	também	é	
sociedade,	como	nos	recordou	o	próprio	Concílio.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Conde nos recorda que a expressão "sociedade jurídica perfeita" pressupõe que 
a Igreja, em relação a si mesma, tenha instituições, estruturas e leis perfeitas 
enquanto derivadas da vontade de Cristo e, em relação às outras sociedades, 
possua uma organização completamente autossuficiente. Como visto o Concílio 
Vaticano II, ao colocar na origem da Igreja uma ação trinitária, e não somente 
cristológica, reconheceu ao Espírito Santo um papel imprescindível na criação e 
vida da Igreja. É este Espírito que guia as consciências para que possam viver a 
vocação cristã e entender os sinais dos tempos. O discernimento espiritual con-
sente a evolução das leis eclesiásticas e, portanto, considerá-las imutáveis seria 
inadequado. Quanto à sua relação com outras sociedades, podemos afirmar que 
o mundo é um lugar teológico e destinatário da missão da Igreja. Portanto, é 
fundamental que ela tenha capacidade de escutar e de se inculturar. Os textos 
conciliares afirmam a íntima união entre a Igreja e o mundo (GS. nn. 1-3) e re-
conhecem a ajuda que a Igreja recebe do mundo, mesmo no seu modo interno 
de se estruturar. Isto não significa que falte à Igreja elementos fundamentais em 
sua constituição, mas sim que a evolução do mundo ajuda a Igreja a conhecer 
melhor a sua essência profunda e constitutiva, adaptando-a, com maior eficácia, 
à missão que deve realizar. Pelas razões expostas é possível admitir a dimensão 
social da Igreja (afirmada pelo Concílio), relativizando, porém, a expressão "jurí-
dica perfeita" ( 2006, p. 23).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
© Direito Canônico I116
6. a iGreja COMO pOvO de deus e Os prinCÍpiOs 
Que reGeM sua OrGaniZaçãO
O	 livro	 segundo	do	CIC	 tem	o	 seguinte	 título:	Do povo de 
Deus.	Pode	parecer	estranho	que	um	texto	jurídico	tenha	como	tí-
tulo	uma	expressão	de	cunho	bíblico-patrístico,	pois,	como	vimos,	
na	tradição	jurídica	anterior,	a	Igreja	era	vista	em	uma	perspectiva	
societária.	Mas	a	noção	de	povo	de	Deus	não	nega	e	nem	con-
funde	a	dimensão	jurídica	da	Igreja	e,	além	disso,	contribui	para	
colocar	em	evidência	a	peculiaridade	do	seu	ordenamento	jurídico	
em	relação	aos	demais.
O	termo	"povo"	destaca	o	elemento	social,	o	substrato	pes-
soal,	a	comunidade	de	pessoas	unidas	por	uma	identidade	com-
partilhada	e	que	perseguem	um	fim	comum.	A	referência	a	Deus,	
em	um	sentido	de	pertença,	significa	que	não	se	trata	de	um	povo	
qualquer,	 reunido	por	 iniciativa	própria,	mas	de	um	povo	eleito,	
com	o	qual	Deus	fez	uma	aliança,	enviando-o	em	missão.	A	fina-
lidade	deste	povo	é	perseguir	os	meios	para	realizá-la	e	a	autori-
dade	nele	existente	foi	determinada	pelo	próprio	Deus.	Portanto,	
não	estamos	diante	de	uma	realidade	meramente	humana,	mas,	
também,	divina.	É	por	isso	que	não	podemos	simplesmente	identi-
ficar	a	Igreja	como	uma	sociedade	e	a	menção	a	tal	conceito	é	feita	
apenas	de	modo	análogo.
O	 legislador	ao	assumir,	embora	não	exclusivamente,	a	ca-
tegoria	"povo	de	Deus"	almejou	aplicar	a	eclesiologia	do	Concílio	
Vaticano	II,	tendo	como	referência	maior	a	Lumen Gentium. 
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Para maior compreensão desta unidade, sugerimos que você leia a Constituição 
Dogmática Lumen Gentium, prestando atenção no Capítulo II, particularmente no 
número 13. Veja, ainda, o Capítulo IV, que trata dos leigos, focando sua atenção 
no número 32 (Cf. COMPÊNDIO DO VATICANO II. Constituições, decretos, de-
clarações. Petrópolis: Vozes, 1969).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
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117© U2 -O Povo de Deus I
A	chave	de	leitura	para	uma	adequada	compreensão	da	nor-
mativa	que	iremos	estudar	pode	ser	encontrada	em	três	princípios	
fundamentais,	a	saber:	
•	 princípio	de	igualdade	fundamental;
•	 princípio	da	diversidade	funcional;
•	 princípio	institucional.	
Da	noção	de	fiel	cristão	deriva	o	princípio	da	igualdade	fun-
damental,	enquanto	define	a	condição	basilar	de	todos	os	mem-
bros	do	povo	de	Deus	que	é	aquela	de	radical	 igualdade	deriva-
da	do	batismo.	Isto	significa	que	juridicamente	todos	os	fiéis	são	
iguais,	seja	diante	da	lei,	seja	diante	dos	princípios	que	estruturam	
a	Igreja.	Em	razão	desta	igualdade,	cada	fiel,	segundo	a	condição	
própria	de	cada	um,	participa	da	função	sacerdotal,	profética	e	ré-
gia	de	Cristo	e	é	chamado	à	santidade	e	à	corresponsabilidade	na	
missão	confiada	a	todo	o	povo	de	Deus.	
O	Concílio	nos	lembra	que,	por	instituição	divina,	a	Igreja	é	
estruturada	e	regida	com	admirável	variedade	(LG	n.	32).	Temos	
aqui,	portanto,	o	princípio	da	variedade	ou	diversidade	funcional. 
Uma	primeira	 variedade	 é	 determinada	 pelo	 sacramento	 da	 or-
dem	do	qual	derivam	os	clérigos.	O	sacerdócio	ministerial,	porém,	
não	se	encontra	no	mesmo	plano	do	sacerdócio	comum,	na	me-
dida	em	que	o	primeiro	está	em	função	do	segundo	e	somente	se	
justifica	enquanto	tal.
Uma	segunda	variedade	deriva	do	 fato	de	que	alguns	 fiéis	
são	 chamados	por	Deus	 com	especial	 vocação	para	assumir	um	
estado	de	vida	que	pertence	à	vida	e	à	santidade	da	Igreja.	Trata-se	
dos	membros	dos	institutos	de	vida	consagrada.
Por	fim,	o	princípio	institucional nos	recorda	que	as	caracterís-
ticas	fundamentais	do	povo	de	Deus,	sobretudo	a	igualdade	funda-
mental	derivada	do	batismo	e	a	diversidade	funcional	que	faz	com	
que	cada	fiel	se	encontre	em	uma	determinada	condição,	não	foram	
o	resultadode	escolhas	feitas	pelas	comunidades	cristãs	em	função	
de	determinadas	contingências,	mas,	sim,	delineadas	pelo	Senhor.	
© Direito Canônico I118
Os princípios da igualdade e diversidade são tratados em várias 
obras. Em língua portuguesa, você poderá consultar o seguinte 
texto: NEVES, A. O Povo de Deus. Renovação do Direito na Igreja. 
São Paulo: Loyola, 1987, p. 55-64.
7. a FiGura dO FieL e Os diversOs estadOs de 
vida na iGreja
O	livro	segundo	do	CIC	se	abre	com	uma	disposição	que	con-
tém	uma	noção	 fundamental	para	uma	adequada	 compreensão	
não	só	do	direito	das	pessoas,	mas,	também,	de	todo	o	ordena-
mento	 canônico:	 trata-se	da	noção	de	 fiel	 cristão	 (christifidelis). 
Esta	noção	transcende	as	figuras	do	leigo,	do	ministro	ordenado	e	
do	consagrado.	Trata-se	de	um	dato	prévio	e	unitário,	uma	espécie	
de	 raiz	comum	(gênero)	da	qual	derivam,	em	um	sucessivo	mo-
mento	lógico,	as	várias	condições	concretas	de	vida	(espécie):	os	
fiéis	leigos,	os	fiéis	clérigos	e	os	fiéis	consagrados.	
Vejamos	o	que	diz	o	texto	do	cânon	204	§1:	
Fiéis	são	os	que,	incorporados	a	Cristo	pelo	batismo,	foram	cons-
tituídos	 como	 povo	 de	 Deus	 e	 assim,	 feitos	 participantes,	 a	 seu	
modo,	do	múnus	sacerdotal,	profético	e	régio	de	Cristo,	são	cha-
mados	a	exercer,	segundo	a	condição	própria	de	cada	um,	a	missão	
que	Deus	confiou	para	a	Igreja	cumprir	no	mundo.	
Observe	que	o	cân.	204	§1	nos	apresenta	com	clareza	os	ele-
mentos	fundamentais	que	dão	forma	ao	conteúdo	da	noção	de	fiel:	
incorporado	a	Cristo	pelo	batismo;	constituído	membro	do	povo	de	
Deus;	participante	do	tríplice	múnus	de	Cristo;	chamado	a	realizar	a	
missão	da	Igreja.	Como	você	pode	notar,	tudo	começa	com	uma	rea-
lidade	essencialmente	sacramental:	o batismo.	Dele	derivam	os	de-
mais	elementos	como	consequência	direta	do	sacramento	recebido.
Para um maior aprofundamento da noção de fiel, sugerimos a seguin-
te obra: GHIRLANDA, G. O direito na Igreja: mistério de comunhão. 
Compêndio de Direito Eclesial. Aparecida: Santuário, 2003, p. 91-94.
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Desse	modo,	de	um	ponto	de	vista	eclesiológico,	 todos	os	
fiéis,	enquanto	formam	o	povo	de	Deus,	são	radicalmente	iguais	
em	dignidade,	 liberdade	 e	 filiação	 divina.	 Todos	 são	 igualmente	
servidores	de	Cristo	Cabeça	e	dos	outros	membros	de	seu	Corpo.	
Portanto,	no	que	tange	a	esta	condição	basilar	dos	fiéis	e	à	tarefa	
fundamental	de	realizar	a	missão	da	Igreja,	não	pode	existir	qual-
quer	distinção	entre	os	membros	do	povo	de	Deus.	Nenhuma	dis-
tinção	entre	o	Papa	e	o	último	batizado;	nenhuma	distinção	entre	
homens	e	mulheres;	entre	crianças,	jovens	e	idosos,	entre	etnias	
diversas.	Em	definitivo:	na	posição	jurídica	de	fiel	cristão,	encon-
tram-se	todos	os	batizados,	 indistintamente	e	antes	de	qualquer	
diferenciação	(aplicação	do	princípio	de	igualdade).
O	cân.	204	§1,	porém,	nos	recorda	que	o	fiel	cristão	participa	
do	tríplice	ofício	de	Cristo	"a	seu	modo"	e	"segundo	a	condição	pró-
pria	de	cada	um"	sem	com	isso	mitigar	ou	contradizer	o	princípio	da	
igualdade	fundamental.	Portanto,	as	diferentes	condições	de	cada	
um	(descritas	pelo	cân.	207)	desenvolvem-se	a	partir	daquilo	que	é	
comum	a	todos	(ser	fiel),	imprimindo	em	cada	sujeito	uma	identida-
de	específica	(funcional)	que	o	legislador	reconhece	e	tutela	(aplica-
ção	do	princípio	de	variedade	ou	diversidade	funcional).
A	 primeira	 e	 fundamental	 diversidade	 deriva	 da	 estrutura	
hierárquica	da	Igreja,	vista	não	apenas	como	uma	forma	de	orga-
nização	do	governo	da	sociedade	eclesial,	mas	como	participação	
específica	 no	 sacerdócio	 Cristo.	 Portanto,	 embora	 todos	 os	 fiéis	
sejam	iguais	enquanto	batizados,	por	causa	do	sacramento	da	or-
dem,	que	somente	alguns	recebem	para	exercitar	aquelas	funções	
intimamente	conexas	com	o	sacramento	recebido,	temos	uma	dis-
tinção	entre	os	fiéis	que	se	dividem	em	dois	grupos:					
•	 clérigos;
•	 leigos.	
Desta	distinção	decorre	uma	série	de	consequências	jurídi-
cas,	seja	em	relação	à	condição	dos	clérigos	e	dos	leigos	na	Igreja,	
© Direito Canônico I120
seja	em	relação	à	disciplina	das	funções	que	pertencem	a	uma	ou	
a	outra	categoria	de	fiéis.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
A LG n.10 com muita propriedade nos apresenta uma exposição do sacerdócio 
comum dos fiéis e do sacerdócio ministerial. Embora um sacerdócio seja ordena-
do ao outro, existe uma diferença essencial e não apenas de grau. E por causa 
desta diferença essencial é que se justifica uma diferenciação na condição jurídi-
ca do fiel clérigo e do fiel leigo. 
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Uma	segunda	diversidade	entre	os	fiéis	na	Igreja	deriva	de	
sua	estrutura	carismática	e	ao	mesmo	tempo	institucional.	A	ela	o	
cân.	207	§2	se	refere	da	seguinte	maneira:
Em	ambas	as	categorias	(clérigos	e	leigos)	há	fiéis	que,	pela	profis-
são	dos	conselhos	evangélicos,	mediante	votos	ou	outros	vínculos	
sagrados,	 reconhecidos	e	 sancionados	pela	 Igreja,	 em	seu	modo	
peculiar	consagram-se	a	Deus	e	contribuem	para	a	missão	salvífica	
da	Igreja;	seu	estado,	embora	não	faça	parte	da	estrutura	hierárqui-
ca	da	Igreja,	pertence	à	sua	vida	e	santidade.
Como	você	pode	notar, a	igualdade	fundamental	entre	todos	
os	fiéis	não	elimina	a	variedade	das	formas	de	vida	teológica	e	ca-
nonicamente	relevantes.	Na	base	do	princípio	de	igualdade	encon-
tra-se	o	sacramento	do	batismo	e,	portanto,	o	sacerdócio	comum.	
Na	base	do	princípio	de	diversidade	funcional	está	o	sacramento	
da	ordem	e	a	respectiva	constituição	hierárquica	da	Igreja,	e	a	pro-
fissão	dos	conselhos	evangélicos	e	a	relativa	constituição	carismá-
tica	da	Igreja.	
A causa originante das diversas formas de vida reside, para os mi-
nistros ordenados, na vontade do Senhor (cf. cânn. 207 §1, 1008 
e LG n. 18,1) e para a vida consagrada, na vida e na santidade da 
Igreja (cf. cânn. 207 §2 e 574), fundada nas palavras e exemplos 
do Senhor.
Antes	de	encerrar	este	assunto	não	podemos	deixar	de	re-
conhecer	que	o	CIC	atual	realizou	uma	mudança	profunda	em	re-
lação	ao	código	anterior.	No	lugar	do	clero,	colocou	como	sujeito	
protagonista	 o	 fiel	 cristão.	 Esta	 figura	 teológico-canônica,	 como	
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dissemos,	transcende	a	figura	do	clérigo,	do	consagrado	e	do	lei-
go,	não	se	identificando	concretamente	com	nenhuma	delas,	mas	
estando	presente	em	todas	elas.	É	verdade,	porém,	que	esta	figura	
é	uma	realidade	genérica	e	abstrata,	possuindo	um	valor	prático	
muito	escasso,	uma	vez	que	o	exercício	concreto	da	missão	do	fiel	
se	dará	de	acordo	com	a	condição	de	cada	um.	Isto	não	invalida	o	
valor	da	mudança	feita	e	desta	figura,	porque	com	ela	aparece	em	
primeiro	plano	um	dado	ontológico	de	base	e,	 somente	em	um	
segundo	momento,	o	dado	funcional,	como	consequência	 lógica	
do	primeiro.	
Por	fim,	uma	última	questão	a	ser	colocada	é	a	seguinte:	se	
todo	batizado	é	fiel,	tal	conceito	não	se	limita	à	figura	do	católico,	
não	é	verdade?	De	fato,	todo	católico	é	fiel,	mas	nem	todo	fiel	é	
católico.	A	noção	de	 fiel	 católico	pode	ser	extraída	do	cân.	205.	
Ali	se	afirma	que	fiel	católico	é	todo	batizado	que	está em	comu-
nhão	com	a	Igreja	Católica,	unindo-se	a	Cristo	na	estrutura	visível	
da	Igreja	pelos	vínculos	da	profissão	de	fé,	dos	sacramentos	e	do	
regime	eclesiástico.	
O	 vínculo	 da	 profissão	 de	 fé	 consiste	 em	 aceitar	 voluntá-
ria,	pública	e	 integralmente	o	credo	niceno-constantinopolitano,	
acrescido	de	três	parágrafos:
"Creio	também	firmemente	em	tudo	o	que	está	contido	na	pala-
vra	de	Deus,	escrita	ou	transmitida	pela	tradição,	e	é	proposto	pela	
Igreja,	de	 forma	solene	ou	pelo	Magistério	ordinário	e	universal,	
para	ser	acreditado	como	divinamente	revelado".	"De	igual	modo	
aceito	firmemente	e	guardo	tudo	o	que,	acerca	da	doutrina	da	fé	e	
dos	costumes,	é	proposto	de	modo	definitivo	pela	mesma	Igreja".	
"Adiro	ainda,	com	religioso	obséquio	da	vontade	e	da	inteligência,	
aos	ensinamentosque	o	Romano	Pontífice	ou	o	Colégio	Episcopal	
propõem	quando	exercem	o	Magistério	autêntico,	ainda	que	não	
entendam	proclamá-los	com	um	ato	definitivo"	(Cf.	Professio Fidei 
et Iusiurandum fidelitatis in suscipiendo officio nomine Ecclesiae 
exercendo, de	9	de	janeiro	de	1989.	In	AAS 81(1989)105).
O	vínculo	dos	sacramentos	exprime-se	na	admissão	de	todos	
os	sete	sacramentos	do	Novo	Testamento	e	na	adequada	prática	
daqueles	sacramentos	que,	segundo	a	condição	natural	ou	ecle-
© Direito Canônico I122
sial,	ou	segundo	a	vocação	de	cada	um,	podem	e/ou	devem	ser	
praticados.	O	vínculo	jurídico	comporta	que	os	sacramentos	sejam	
aceitos	pelo	fiel	como	ações	de	Cristo	e	da	 Igreja;	como	sinais	e	
como	meios	de	fé,	de	culto	a	Deus,	de	santificação	e	de	consoli-
dação	da	comunhão	eclesial	(cân.	840).	Para	um	maior	aprofunda-
mento	a	respeito	do	conteúdo	deste	vínculo	convém	ter	em	mente	
as	afirmações	do	Concílio	de	Trento	no	decreto	sobre	os	sacramen-
tos,	pois	constitui	a	fonte	decisiva	desta	matéria.
O	vínculo	de	governo	eclesiástico	consiste	na	admissão	da	cons-
tituição	hierárquica	da	Igreja,	assim	como	aparece	nas	suas	estruturas	
reveladas	por	Deus	e,	também,	nas	estruturas	positivas	que,	inspira-
das	nas	primeiras,	a	Igreja	deu	a	si	mesma.	Consiste,	além	disso,	no	
reconhecimento	da	missão	global	de	moderação,	direção,	magistério	
e	santificação	que,	em	nome	de	Cristo,	compete	aos	pastores.
O	cân.	751	define	os	três	casos	clássicos	e	evidentes	de	rup-
tura	da	comunhão:	a	heresia,	a	apostasia	e	o	cisma,	qualificando-
-os	 sucessivamente	 como	 delitos	 (cân.	 1364	 §1).	 Analogamente	
procede	o	CIC	em	relação	ao	vínculo	de	governo	eclesiástico	(cânn.	
752	e	1371).	
8. ObriGações e direitOs FundaMentais dOs Fi-
ÉIS (CÂNN. 208-223)
O	estatuto	 jurídico	comum	a	todos	os	fiéis	 (clérigos,	 leigos	
e	consagrados)	no	âmbito	do	ordenamento	da	Igreja	se	encontra	
substancialmente	 delineado	 nos	 cânn.	 208-223.	 Após	 ter	 apre-
sentado	a	imagem	ideal	do	fiel	e	suas	categorias	essenciais,	o	CIC	
passa	a	desenvolver	genericamente	a	sua	condição	de	vida,	para	
depois	 tratar	da	 regulamentação	específica	e	detalhada	de	 suas	
categorias.	Deste	modo,	temos	a	passagem	do	gênero	à	espécie.	
É importante destacar que provavelmente você ouviu dizer que 
na Igreja os fiéis possuem determinados deveres e direitos e, mui-
to menos, que os mesmos (termo gera ambiguidade: quem são 
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fundamentais: os fiéis? Os direitos e deveres?) sejam fundamen-
tais. Em geral há um desconhecimento disso, como, aliás, também 
ocorre em relação à vida civil. Aqui você terá a oportunidade de ter 
um primeiro contato com o tema, e esperamos que isso contribua 
não apenas para ampliar os seus conhecimentos, mas, também, 
para ajudá-lo em sua caminhada eclesial. 
O	elenco	dos	deveres	e	direitos	 contido	nos	 cânones	208-
223	reflete	um	amadurecimento	na	reflexão	eclesiológica	e	jurídi-
ca,	particularmente	do	Concílio	Vaticano	II	em	diante.	Além	disso,	
não	podemos	deixar	 de	negar	 a	 contribuição	da	 ciência	 jurídica	
civil,	pois	há	um	bom	tempo	já	refletia	sobre	os	direitos	do	homem	
e	do	cidadão,	formalizando	esta	reflexão	na	declaração	universal	
dos	direitos	humanos	e	nas	diversas	cartas	constitucionais.	
Devemos,	porém,	esclarecer,	logo	de	início,	que	na	Igreja	a	
questão	dos	direitos	humanos	se	coloca	com	uma	especificidade	
própria.	De	um	 lado,	os	direitos	e	deveres	 fundamentais	do	ho-
mem	não	podem	deixar	de	encontrar	uma	acolhida	por	parte	da	
Igreja,	pois	esta	é	formada	de	pessoas	humanas	e	está	vinculada	
ao	direito	natural.	De	outro	lado,	é	necessário	ter	presente	a	novi-
dade	do	batismo,	evento	que	não	só	projeta	luz	sobre	os	direitos	
e	deveres	humanos	fundados	sobre	argumentos	de	razão,	mas	os	
funda	em	modo	novo,	ampliando-os.
A	doutrina	vê	no	Verbo	encarnado	e	no	seu	mistério	pascal	
o	fundamento	e	a	amplidão	dos	direitos	do	homem	e	do	fiel.	Não	
há,	portanto,	uma	mecânica	 transposição	dos	direitos	e	deveres	
do	âmbito	natural	para	aquele	teológico-canônico	e,	muito	menos,	
uma	formalização	dos	direitos	e	deveres	do	fiel	cristão	no	sentido	
de	criar	uma	esfera	de	autonomia	em	contraposição	à	comunida-
de	eclesial	ou	à	autoridade	eclesiástica.	Assim,	os	direitos	e	deve-
res	dos	fiéis	têm	por	finalidade	garantir	a	participação	destes	na	
edificação	do	Corpo	de	Cristo	e	procuram	assegurar	um	correto	
exercício	destes	direitos	dentro	de	um	legítimo	espaço	de	liberda-
de	reconhecido	a	todos.		
© Direito Canônico I124
Para aprofundar a reflexão sobre a relação entre direitos humanos 
e direitos na Igreja, sugerimos os seguintes textos: GHIRLANDA, 
G. O direito na Igreja: mistério de comunhão. Aparecida: Santuá-
rio, 2003, p. 91-94.; FELICIANI, G. Op. cit., p.136-139. 
Diante	do	exposto,	acreditamos	que	você	 tenha	percebido	
que	o	tema	dos	direitos	e	deveres	dos	fiéis	se	insere	numa	realida-
de	maior	(a	vida	e	missão	da	Igreja)	e	somente	à	luz	desta	perspec-
tiva	mais	ampla	é	que	pode	ser	adequadamente	compreendido.	
Os deveres e direitos dos fiéis (cânn. 208-223) 
Como	nos	encontramos	diante	de	16	cânones,	você	pode-
rá	achar	que	os	deveres	e	direitos	dos	fiéis	sejam	equivalentes	a	
este	número.	Mas,	se	prestar	bem	atenção	no	texto	da	normativa,	
imediatamente	 cairá	na	 conta	de	que	alguns	 cânones	 chegam	a	
enunciar	até	cinco	distintos	deveres	e	direitos.	Portanto,	facilmen-
te	você	chegará	à	conclusão	de	que,	na	verdade,	nos	encontramos	
diante	 de	 um	 elenco	maior,	 formado	 por	 32	 deveres	 e	 direitos.	
Apresentaremos	em	seguida	um	breve	comentário	destes	direitos	
e	deveres,	atendo-nos	àqueles	aspectos	de	maior	relevância.
Condição ou situação de igualdade no ser e no agir (cân. 208) 
O	cânon	208	§1	afirma	a	existência	de	uma	igualdade	fun-
damental	entre	os	fiéis	em	razão	do	batismo,	mas	recorda	que	o	
exercício	desta	igualdade	se	dará	em	conformidade	com	a	condi-
ção	de	cada	um.	Dessa	forma,	observa-se	que	a	igualdade	consti-
tucional	é	um	princípio	que	em	sua	aplicação	concreta	se	encontra	
condicionado	pela	singularidade	e	condição	de	cada	fiel	na	Igreja.	
Esta	igualdade	fundamental	do	cristão	na	Igreja,	consequên-
cia	da	graça	batismal,	não	destrói	a	natureza	humana	e,	por	conse-
guinte,	respeita	a	igualdade	fundamental	de	toda	pessoa	humana	
na	dignidade,	nos	direitos	e	com	igual	proteção	perante	a	lei.	Tal	
igualdade	é	contrária	a	qualquer	tipo	de	discriminação	nos	direitos	
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fundamentais,	tanto	da	pessoa	humana	quanto	da	pessoa	do	cris-
tão.	Encontramo-nos,	portanto,	diante	de	um	cânon	fundamental,	
pois	se	trata	de	um	ponto	de	referência	necessário	para	a	promul-
gação,	interpretação	e	aplicação	de	qualquer	lei	na	Igreja.	
Convém esclarecer que a igualdade não consiste em tratar todas 
as coisas de modo igual (lembra-se do que falamos sobre a justi-
ça?). Não é justo regular e resolver em forma desigual as coisas 
que são essencialmente iguais, como, também, não seria justo 
tratar de maneira igual aquilo que é essencialmente desigual. Em 
ambas as situações cairíamos na arbitrariedade.
Para	entender	 como	o	 legislador	 trabalha	 com	a	 categoria	
igual-desigual,	é	fundamental	que	se	recorde	de	que	o	núcleo	de	
base	do	povo	de	Deus	é	conformado	indissociavelmente	por	três	
princípios:
•	 igualdade;		
•	 variedade	ou	diversidade	funcional;	
•	 institucional.	
O	ponto	de	partida,	sem	dúvida,	é	o	princípio	da	igualdade	
fundamental.	Cabe	ao	princípio	de	variedade	ou	diversidade	impe-
dir	que	o	primeiro	se	transforme	em	uniformidade	e	igualitarismo.	
Nunca	é	demais	 lembrar	que	do	batismo	deriva	não	 somente	 a	
igualdade,	mas,	também,	as	diversas	formas	de	vida	na	Igreja,	os	
diversos	 ritos,	 as	diversas	 formas	de	apostolado,	os	diversos	 ca-
rismas	e	ministérios,	pois	 tudo	 isso	é	produzido	por	um	único	e	
mesmo	Espírito.	Em	contrapartida,	o	princípio	de	igualdade	impe-
de	que	a	diversidade	se	torne	desunião,	fragmentação,	pois	tudo	
deve	convergirpara	uma	unidade.		
O	princípio	institucional	ou	hierárquico	nos	recorda	que	há	
no	povo	de	Deus	uma	série	de	funções	e	atividades,	cujos	titulares	
não	receberam	da	comunidade	a	habilitação,	a	missão	e	a	capaci-
dade	de	desenvolvê-las.	São	funções	peculiarmente	hierárquicas	e	
produzem	uma	desigualdade	funcional	(não	essencial)	delineada	
© Direito Canônico I126
substantivamente	por	Cristo,	na	medida	em	que	foi	ele	quem	con-
feriu	tais	funções.	
Tendo	presente	esses	princípios,	podemos	estabelecer	ago-
ra	o	conteúdo	da	igualdade	existente	entre	os	fiéis	e	que	basica-
mente	seria	o	seguinte:	uma	mesma	filiação	divina;	uma	mesma	
consagração	batismal;	um	mesmo	sacerdócio	comum;	um	mesmo	
chamado	à	santidade;	uma	comum	responsabilidade	pela	missão	
da	Igreja;	a	não	existência	de	distinções	de	sangue,	raça,	sexo,	con-
dição	social	etc.
Quanto	ao	conteúdo	da	diversidade	ou	variedade	funcional,	
encontramo-nos	em	um	campo	muito	vasto.	Inicialmente,	come-
çamos	com	a	condição	dos	fiéis,	chamados	a	viver	como	clérigos,	
como	leigos	ou	como	religiosos.	Além	disso,	temos	uma	variedade	
de	circunstâncias	que	determinam	e	modificam	a	capacidade	de	
agir	(cânn.	96-112)	e	que	repercutem	na	condição	jurídica	subjeti-
va	das	pessoas,	como,	por	exemplo,	idade,	domicílio,	parentesco,	
rito	etc.
Enfim,	devemos	ter	presente	que	as	diversas	tarefas	e	fun-
ções	eclesiais	não	comportam	uma	maior	ou	menor	dignidade	ou	
uma	maior	ou	menor	responsabilidade	na	edificação	da	Igreja,	pois	
todas	as	funções	existentes	na	Igreja	têm	como	raiz	uma	vocação	
divina	 e,	 portanto,	 são	 importantes	 para	 a	 realização	da	missão	
que	Cristo	confiou	à	Igreja.	Por	isso,	o	cân.	208	anuncia	que	as	di-
versas	vocações	na	Igreja	exprimem	a	mesma	dignidade	e	fundam	
uma	comum	responsabilidade	na	edificação	da	Igreja.	
dever de observar a comunhão com a igreja e de cumprir as 
obrigações para com a Igreja (cân. 209) 
A	comunhão	é	base	de	tudo,	enquanto	realidade	trinitária,	
pois	Deus	é	comunhão	de	pessoas.	Cristo	é	a	comunhão	entre	na-
tureza	divina	e	humana.	O	Espírito	Santo	é	vínculo	de	comunhão	
da	Igreja	consigo	mesma,	do	fiel	com	Deus	e	dos	fiéis	entre	si.	
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127© U2 -O Povo de Deus I
O	princípio	de	comunhão	 (na	 fé,	nos	 sacramentos	e	na	dis-
ciplina	 eclesiástica)	 representa	 um	dos	 elementos	 de	maior	 peso	
na	diferenciação	entre	o	direito	canônico	e	os	ordenamentos	civis.	
Por	meio	dele	 se	 impõe	uma	diferente	 compreensão	não	apenas	
das	relações	entre	as	várias	instâncias	de	governo	na	Igreja,	como,	
também,	dos	direitos	subjetivos	dos	fiéis,	cujo	fundamento	não	é	
do	 tipo	 individualista,	mas,	 sim,	 comunitário.	 Em	outras	palavras,	
os	direitos	dos	fiéis	não	representam,	como	ocorre	nas	legislações	
civis,	a	máxima	expressão	da	emancipação	do	indivíduo	de	qualquer	
vínculo	social	ou	institucional	de	origem	humana,	mas,	ao	contrário,	
representam	esferas	autônomas	de	ações	do	fiel,	sempre	voltadas	
para	a	realização	do	fim	supremo	da	Igreja,	à	luz	de	uma	antropolo-
gia	teológica	que	concebe	o	destino	de	salvação	de	cada	um	como	
indissoluvelmente	ligado	ao	do	inteiro	povo	de	Deus.	
De	um	ponto	de	vista	eclesiológico,	a	Igreja	exprime	esta	re-
alidade	por	meio	da	 "comunhão	hierárquica"	existente	entre	os	
distintos	níveis,	funções,	dimensões,	desde	a	menor	das	Igrejas	lo-
cais	à	Igreja	universal.	A	expressão	sacramental	desta	comunhão	
é	a	Eucaristia	a	qual	é	para	nós	fonte	de	vida	cristã	e	reforço	da	
comunhão	entre	todos	os	que	nela	tomam	parte.
 
O dever de comunhão não é um sentimento impreciso, mas, sim, 
uma realidade orgânica que exige uma forma jurídica e, ao mesmo 
tempo, está animada pelo amor (LG, Nota explicativa prévia nº2). 
Este dever de comunhão não se refere, apenas, à Igreja univer-
sal, mas, também, às Igrejas particulares, pois, como nos recorda 
o cân. 368, nelas e partindo delas existe a Igreja Católica una e 
única.
O	legislador	tem	presente	o	que	teologicamente	existe	como	
irrenunciável	da	parte	da	Igreja:	a	comunhão.	E	não	poderia	ser	di-
ferente,	pois	se	a	Igreja	rompesse	a	comunhão	perderia	a	própria	
identidade	e	seria	distinta	de	si	mesma.	Somente	o	fiel	pode	rom-
per	ou	não	aderir	à	comunhão	e,	por	esta	razão,	a	norma	procura	
evitar	esta	ruptura	por	parte	dos	fiéis.	
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––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
O direito penal da Igreja tende justamente a evitar estas rupturas subjetivas de 
comunhão, procurando salvar o dever e o direito à comunhão, preservando-a dos 
caprichos pessoais. O cân. 751 define os três casos clássicos e de ruptura desta 
comunhão: a heresia, a apostasia e o cisma. Tratam-se de posturas qualificadas 
como delitos (cân. 1364).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Por	fim,	a	diferença	entre	a	comunhão	para	com	a	Igreja	e	a	
observância	das	obrigações	eclesiásticas	não	é	de	tudo	adequada,	
pois,	 na	 verdade,	 as	obrigações	para	 com	a	 Igreja	 são	acima	de	
tudo	de	comunhão,	nela	se	inspiram	e	a	reforçam,	de	modo	que	a	
observância	de	tais	obrigações	é	a	primeira	e	mais	visível	demons-
tração	desta	comunhão.	
dever de buscar a própria santificação, de promover o crescimento 
e a santificação da Igreja (cân. 210)
A	 raiz	 fundamental	deste	dever	encontra-se	na	união	 com	
Cristo	e	na	incorporação	à	Igreja,	esposa	santa	de	Cristo.	O	funda-
mento	último	desta	norma	é	o	próprio	Evangelho	que	nos	recorda	
o	chamado	universal	à	perfeição	(Mt	5,48).	
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
O Concílio Vaticano II, no admirável capítulo V da constituição dogmática Lumen 
Gentium sobre a vocação universal à santidade na Igreja, afirma que todos na 
Igreja foram chamados à santidade (LG nº 39). Portanto, o cân. 210 nos oferece 
a versão jurídica da doutrina conciliar sobre a santidade.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Este	dever	deve	ser	entendido	no	sentido	de	que	cada	bati-
zado	é	chamado	a	esforçar-se	para	tender	à	santidade.	Isso	porque	
a	santidade	é	obra	do	Espírito	Santo	que	atua	na	pessoa.	Cabe	a	
ela,	simplesmente,	permitir	que	isso	ocorra,	pois	o	resultado	final	
dela	não	depende.
Este dever irá gerar como efeito imediato o direito de receber da 
Igreja todos os meios necessários para atingir este objetivo, como 
veremos mais adiante.
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129© U2 -O Povo de Deus I
O	cânon	nos	recorda	que	a	busca	da	santidade	se	dará	em	
conformidade	 com	 a	 condição	 de	 cada	 um.	 Portanto,	 se	 de	 um	
lado	é	certo	que	em	nível	constitucional	é	pedido	o	empenho	de	
todos,	 de	outro	 lado,	 em	nível	 funcional	 e	 prático,	 é	 necessário	
levar	em	consideração	a	condição	que	cada	fiel	ocupa	na	 Igreja.	
Desse	modo,	pede-se	a	mesma	coisa	a	todos,	porém	de	maneira	
diferente,	pois	se	reconhece	que	existem	diversos	modos	e	cami-
nhos	para	se	buscar	a	santidade.
Quanto	ao	crescimento	da	Igreja	isso	nada	mais	é	do	que	a	
sua	progressiva	 identificação	 com	a	 vocação	à	 santidade	que	 se	
realiza	em	cada	um.	Portanto,	à	medida	que	cada	fiel	se	santifica,	
a	Igreja	cresce	em	sua	especificidade	e	identidade:	santa.	
Dever-direito de difusão universal da mensagem de salvação 
(cân. 211)
A	Igreja	por	sua	própria	natureza	é	missionária	e	evangeliza-
dora.	Como	todo	o	povo	de	Deus	é	Igreja,	este	cânon	nada	mais	faz	
do	que	colocar	o	fiel	no	coração	da	missão	histórica	e	constitutiva	
da	Igreja	que	é	aquela	de	proclamar	universalmente	o	Evangelho.
A	norma,	enquanto	dever,	vincula	cada	cristão	em	tudo	aqui-
lo	que	se	refere	ao	Evangelho	e	em	cada	situação	de	vida.	Já,	en-
quanto	direito,	nos	recorda	que,	ao	menos	em	certo	sentido	e	em	
certo	 nível,	 não	 existe	 qualquer	 necessidade	 de	 autorização,	 de	
mandato	ou	de	delegação	para	pregar	o	Evangelho,	desde	que	não	
se	co-envolva	aqueles	que	possuem	o	dever	de	vigilância	sobre	a	
pureza	da	pregação	e	não	se	proclame	em	nome	da	Igreja	aquilo	
que	 é	 proclamado	em	nome	próprio.	Os	 controles	 precisos	 que	
dizem	respeito	à	fidelidade	e	à	publicidade	da	proclamaçãose	en-
contram	nos	cânones:	756-759;	764;	766;	812	e	831.
dever de obediência aos pastores; liberdade de expor aos 
Pastores as próprias necessidades; direito-dever de manifestar 
aos Pastores e a qualquer fiel a própria opinião (cân. 212) 
A	norma	possui	um	conteúdo	bem	amplo,	dividido	em	três	
parágrafos.	 Inicialmente,	 o	 §1	 limita-se	 a	 vincular	 todos	 os	 fiéis	
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(incluídos	os	Pastores)	aos	preceitos	formais	que	os	Pastores,	na	
condição	 de	 representantes	 de	 Cristo,	 declaram	 ou	 disponham	
exercitando	o	seu	múnus	de	magistério	ou	regime.	
A	raiz	última	deste	dever	de	obediência	está	no	fato	de	que	
os	 Pastores	 representam	 a	 Cristo	 quando	 declaram	ou	 dispõem	
enquanto	mestres	da	 fé	ou	 chefes	da	 Igreja.	 Este	dever	 vincula,	
em	primeiro	lugar,	aos	próprios	Pastores	e	a	fidelidade	aos	termos	
e	conteúdos	do	mandato	que	possuem	é	a	única	credencial	para	
que	sejam	obedecidos.	Portanto,	se	ultrapassam	os	deveres	intrín-
secos	ao	próprio	mandato	ou	se	traem	a	própria	representação,	
geram	da	parte	do	fiel	o	dever	de	não	obediência.	
Diante	do	exposto	é	fácil	concluir	que	tanto	cristã	deve	ser	
a	obediência	do	fiel	quanto	cristão	deve	ser	o	mandato	por	parte	
da	Hierarquia,	pois,	caso	contrário,	não	existe	a	comunhão,	mas	
somente	desagregação	e	escândalo.	
A	 norma	 também	 recorda	 que	 a	 obediência	 do	 fiel	 não	 é	
algo	cego,	mas	consciente	e	responsável.	Obedece-se	não	porque	
existe	um	comando,	mas,	sim,	quando	o	comando	é	legítimo,	seja	
em	relação	ao	conteúdo,	seja	em	relação	à	competência	de	quem	
comanda.	Somente	com	consciência	e	responsabilidade	a	obedi-
ência	 torna-se	um	dever	 jurídico	ao	qual	o	 fiel	 se	 submete	com	
sentido	de	comunhão,	pois	não	se	trata	de	"obediência	cega".
O	§2	do	cânon	afirma	que	os	fiéis	possuem	a	faculdade	de	
expor	 aos	 Pastores	 as	 próprias	 necessidades,	 particularmente	
aquelas	de	caráter	espiritual,	pois	esta	se	fundamenta	no	bem	co-
mum,	derivante	da	dignidade	e	igualdade	fundamental	existente	
entre	os	fiéis.
Considerando	que	nos	encontramos	diante	de	uma	faculda-
de,	corresponde	aos	Pastores	o	dever	de	escutar	e	não	necessaria-
mente	o	de	conceder,	pois	a	Hierarquia	poderia	não	dispor	daquilo	
que	é	pedido,	ou,	então,	se	encontrar	diante	de	um	pedido	que	
estivesse	completamente	fora	das	relações	entre	os	fiéis	e	os	Pas-
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131© U2 -O Povo de Deus I
tores.	A	única	exceção	à	regra	de	escutar	seria	o	caso	de	não	se	
tratar	apenas	de	uma	necessidade,	mas,	sim,	de	um	direito	garan-
tido	pelo	CIC.
Por	fim,	no	§3	o	legislador	reconhece	aos	fiéis	o	direito-dever	
de	manifestar	aos	Pastores	e	a	qualquer	fiel	a	própria	opinião,	des-
de	que	se	trate	de	matéria	atinente	ao	bem	comum	da	Igreja	e	isso	
seja	feito	na	observância	das	condições	indicadas	pelo	legislador.
O	fundamento	deste	direito	de	opinião	pública	vertical	e	ho-
rizontal	encontra-se	na	dignidade	e	igualdade	existentes	entre	os	
fiéis	e,	especialmente,	na	expectativa	de	que	o	exercício	deste	sir-
va	para	o	bem	da	Igreja,	pelo	qual	todos	devem	zelar.	
A	matéria	objeto	deste	direito-dever	pode	 ser	material	ou	
espiritual	desde	que	esteja	vinculada	ao	bem	comum	e,	por	isso,	
normalmente	é	relacionada	com	o	tríplice	múnus	da	Igreja.
Os	beneficiários	desta	norma	são	todos	os	fiéis,	independen-
temente	da	função	ou	status	que	ocupam	na	Igreja.	A	isto	será	ne-
cessário	acrescentar	limitações	e	outras	condições	oportunas	para	
o	exercício	deste	direito.	Estas	limitações	são	de	gênero	e	natureza	
diversa,	mas	todas	dizem	respeito	ao	exercício	prático	do	direito	e	
não	a	ele	enquanto	tal.	
A	 ciência,	 a	 perícia	 e	 o	 prestígio	 necessário	 são	 orientados	
para	dar	peso	à	opinião	expressa.	Portanto,	todos	têm	direito	a	opi-
nar,	mas	nem	todas	as	opiniões	possuem	o	mesmo	peso,	pois	de-
pendem	das	qualidades	pessoais	e	dos	dons	de	quem	as	exprimem.	
Uma limitação incondicionada e intransponível deste direito é a in-
tegridade da fé e dos costumes, de modo que não há liberdade de 
opinião em matéria de fé e de moral proclamadas autenticamente 
pelo Magistério da Igreja, pois, existindo o dever de obediência cris-
tã nestas matérias, a liberdade de opinião é praticamente retirada.
Quanto	aos	modos	de	exercício	prático	deste	direito,	pode-
mos	dizer	que	são	muitos.	Vejamos	alguns:	
© Direito Canônico I132
1)	 instauração	de	conselhos;
2)	 colégios;	
3)	 organismos	pertencentes	à	Hierarquia	e	de	caráter	con-
sultivo;	
4)	 dever	da	parte	da	hierarquia	de	ouvir	a	opinião	de	ou-
tros	nos	casos	taxativamente	previstos	pelo	direito;
5)	 meios	de	comunicação	social	próprios	dos	fiéis	ou	de	ou-
tros	etc.
direito de receber dos pastores os bens espirituais da igreja, 
particularmente a palavra de Deus e os sacramentos (cân. 213)
A	razão	da	norma	encontra-se	na	vocação	à	 santidade	e	à	
salvação,	pois	os	bens	espirituais	da	 Igreja	 são	necessários	para	
que	o	fiel	realize	esta	dupla	vocação.	Além	disso,	a	norma	justifica-
-se	em	razão	da	 função	que	cada	um	desenvolverá	a	 serviço	do	
povo	de	Deus,	no	sentido	de	que	cada	função	será	mais	bem	de-
senvolvida	à	medida	que	a	preparação,	a	maturidade	espiritual,	o	
testemunho	e	a	santidade	sejam	mais	intensos.	
Deparamo-nos	com	um	direito	genuíno	e	não	com	um	privi-
légio	concedido	bondosamente	pelo	legislador.	Este	direito	apare-
ce	frequentemente	tutelado	(garantido)	no	código	atual.	
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Como exemplo de tal tutela veja os cânn. 843 §1 (relativo aos sacramentos), 843 
§2 (relativo à preparação para os sacramentos) e 756-757 (relativo à pregação 
da Palavra de Deus). Além disso, encontramos, também, diversos cânones vol-
tados para o laicato e que nada mais são do que uma tentativa de responder sa-
tisfatoriamente às exigências deste direito, como, por exemplo, nos cânn. 517 §2 
(paróquia), 784 (missionários leigos), 785 (catequistas leigos), 861 §2 (ministros 
extraordinários do batismo), 1112 (leigos assistentes delegados do matrimônio) e 
1168 (leigos ministros de alguns sacramentais). O cân. 213 praticamente repro-
duz o conteúdo da LG nº 37.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Em	relação	ao	conteúdo	da	expressão	"bens	espirituais",	tra-
tam-se,	especialmente,	da	Palavra	de	Deus	e	dos	Sacramentos	aos	
quais	nenhum	outro	bem	pode	ser	equiparado	na	 Igreja,	 já	que	
são	bens	constitutivos	dela.	
Claretiano - Centro Universitário
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Quanto	ao	dever	que	este	direito	gera,	trata-se	de	uma	obri-
gação	global	e	genérica	(não	específica)	de	organizar	a	pregação	
da	Palavra	de	Deus	e	a	celebração	dos	sacramentos,	de	modo	que	
possa	responder	adequadamente	às	necessidades	dos	fiéis	nesta	
matéria.	Este	dever	não	gera	uma	obrigação	de	justiça	entre	todos	
os	 fiéis	 e	 todos	os	ministros	 sacros.	 Esta	obrigação	pode	nascer	
somente	entre	fiéis	concretos	e	um	ministro	sacro	concreto.
Enfim,	 convém	destacar	 que	os	 abusos	 contra	 este	direito	
existem,	particularmente,	quando	nos	encontramos	diante	de	prá-
ticas	ou	medidas	ditas	"pastorais"	que	impõem	como	obrigatório	
o	que	o	direito	não	obriga	ou,	então,	limitam	o	exercício	deste	di-
reito,	exigindo	determinadas	práticas	que	retardam	de	modo	inde-
vido	a	recepção	de	um	sacramento.	
direito de prestar culto a deus segundo o próprio "rito" e de 
seguir a própria vida espiritual (cân. 214)
A	norma	estabelece	dois	direitos:	
•	 Direito	a	oferecer	culto	a	Deus.
•	 Direito	a	ter	uma	própria	espiritualidade.
O	direito	ao	rito	próprio	nada	mais	é	do	que	um	modo	(di-
reito	modal)	vinculante	de	dar	culto	a	Deus	(direito	substancial).	
Na	verdade,	trata-se,	em	primeiro	lugar,	de	um	dever	e	somente	
em	um	segundo	momento	de	um	direito.	O	texto	deixa	a	entender	
que	existem	outros	ritos	e	que,	portanto,	a	pessoa	não	pode	ser	
impedida	de	seguir	o	rito	ao	qual	está	vinculada.	
Mediante o Batismo somos incorporados à Igreja e adscritos a 
uma Igreja ritual "sui iuris" (cf. cân. 111 §1). Atualmente, em razão 
do rito, temos aIgreja latina (cânn. 1 e 438), na qual existem diver-
sos ritos litúrgicos, sem implicar em diferenças de ordem discipli-
nar e hierárquica, e 22 Igrejas Orientais católicas, dotadas de ritos 
litúrgicos próprios e de disciplina e Hierarquias próprias, distintas 
e autônomas. Estas Igrejas são chamadas Igrejas rituais "sui iuris" 
exatamente porque são autônomas.
© Direito Canônico I134
Quanto	à	espiritualidade,	encontramo-nos	em	uma	situação	
análoga	a	que	dissemos	anteriormente,	ou	seja,	o	fiel	possui	o	di-
reito	de	ter	uma	própria	espiritualidade	e	o	dever	de	que	ela	esteja	
em	conformidade	com	a	doutrina	da	Igreja.	
Por	espiritualidade	devemos	entender	um	estilo	de	vida	que	
co-envolve	a	pessoa	em	sua	 totalidade	e	nas	 relações	que	esta-
belece.	Este	direito	aparece	ao	lado	daquele	de	dar	culto	a	Deus,	
mas,	na	verdade,	forma	um	par	com	ele.	Portanto,	o	direito	à	espi-
ritualidade	não	se	reduz	ao	culto,	pois	ela	possui	evidentes	expres-
sões	práticas	de	conduta,	pressupõe	uma	ética	que	a	condiciona	e	
uma	norma	de	comportamento	e	de	vida.	
Por	 "própria"	devemos	entender	 seja	 aquela	 espiritualida-
de	que	o	fiel	livremente	cria,	seja	aquela	que	o	fiel	livremente	es-
colhe,	 aderindo	 a	 uma	 já	 existente	 e	 proclamando-a	 sua.	 Como	
recorda	o	 legislador,	é	suficiente	e	necessário	que	ela	esteja	em	
conformidade	com	a	doutrina	da	Igreja	em	ambos	os	casos,	pois,	
caso	contrário,	o	fiel	romperia	a	comunhão.	
Para	se	verificar	a	conformidade	entre	a	própria	espirituali-
dade	e	a	doutrina	da	Igreja,	basta	ter	como	referência	as	interven-
ções	do	próprio	magistério	quando	em	diversos	momentos	elogia,	
encoraja,	aprova,	acompanha	e	reconhece	uma	determinada	es-
piritualidade.	Além	disso,	outro	critério	útil	é	a	continuidade	his-
tórica	ininterrupta	e	os	frutos	que	produz,	permanecendo	firme,	
porém,	o	princípio	da	catolicidade.	
Enfim,	como	se	trata	de	um	direito,	deve	ser	respeitado	por	
todos	e	compete	à	Hierarquia	tutelá-lo,	incrementá-lo	e	protegê-
-lo,	pois	a	espiritualidade	interessa	diretamente	à	vida	e	à	santi-
dade	da	Igreja	da	qual	os	Pastores	são	os	principais	responsáveis.	
Direito de fundar e dirigir associações e de reunião (cân. 215) 
O	direito	de	associação	aplica	à	vida	da	Igreja	um	direito	fun-
damental	da	pessoa	humana,	fundado	na	natureza	humana	e	na	
dimensão	social	do	homem.	
Claretiano - Centro Universitário
135© U2 -O Povo de Deus I
Em	relação	à	associação,	trata-se	de	poder	fundá-las,	aderir	
às	existentes,	desenvolvê-las	e	de	poder	caminhar	autonomamen-
te	à	norma	dos	estatutos.	
Quanto	à	reunião,	trata-se	de	poder	estar	juntos,	de	receber	
novos	 sócios,	de	utilizar	determinados	espaços	 físicos	para	 falar	
sobre	os	fins	e	os	meios	da	associação	etc.
Em	relação	à	finalidade	das	associações	e	reuniões,	aquela	
fixada	pelo	cânon	não	é	taxativa,	pois	o	cân.	298	exprime	muitos	
fins,	além	da	caridade	e	piedade,	como,	por	exemplo,	a	perfeição,	
o	culto	público,	a	promoção	da	doutrina,	a	evangelização	e	a	ani-
mação	da	ordem	temporal.	São	exclusos	os	fins	relativos	às	fun-
ções	próprias	da	Hierarquia	e	aqueles	atinentes	a	questões	mera-
mente	temporais	cujo	objeto	é	de	direito	natural	e	compete	a	cada	
pessoa	pelo	fato	de	ser	pessoa.	
Por	fim,	as	limitações	no	exercício	destes	direitos	são	muitas	
e	evidentemente	em	íntima	conexão	com	a	condição	de	cada	um	
na	Igreja.	Entre	tantos	exemplos	podemos	recordar	os	cânn.	278	
§3,	287	§2,	307	§3,	672	e	677	§2.
Direito à promoção e ao sustento do apostolado (cân. 216) 
Em	conexão	com	o	direito	de	associação	e	 reunião,	o	cân.	
216	declara	que	os	batizados	possuem	o	direito	de	promover	 e	
sustentar	a	ação	apostólica.	A	razão	desta	norma	encontra-se,	em	
última	 instância,	 no	 fato	 de	 que	 a	 participação	 pós-batismal	 na	
missão	da	 Igreja	é	um	dever	 radical	de	estado.	Além	disso,	este	
direito	 é	 uma	 lógica	 e	 necessária	 derivação	 do	 direito-dever	 de	
proclamar	o	Evangelho	(cân.	211).	Desse	modo,	faz-se	necessária	
a	existência	orgânica	de	iniciativas	e	de	estruturas	que	propiciem	
meios	de	evangelização	de	maior	eficácia	possível.
Tratando-se	de	um	direito	que	vincula	a	Igreja	em	geral,	esta	
possui	 a	 obrigação	 de	 fornecer	 o	 espaço	 e	 os	meios	 suficientes	
para	que	seja	possível	a	todos	o	exercício	deste	direito.	
© Direito Canônico I136
Mas	como?
Em	primeiro	lugar,	estimulando	e	apoiando	a	iniciativa	priva-
da	dos	fíéis,	particularmente	aquelas	obras	pensadas	e	realizadas	
por	eles	por	própria	iniciativa.	Tais	iniciativas	podem	ser	inexaurí-
veis,	considerando	o	tempo,	a	geografia	e	as	necessidades	históri-
cas	da	Igreja.	Contudo,	a	norma	nos	recorda	que	o	exercício	deste	
direito	deverá	ser	em	conformidade	com	a	condição	e	status	de	
cada	um,	para	evitar	que	em	questão	de	apostolado	se	faça	uma	
espécie	de	"salada	mista"	de	modo	que	não	se	veja	mais	a	distin-
ção	entre	o	modo	de	fazer	apostolado	próprio	do	clero,	dos	con-
sagrados	e	dos	leigos.	Sem	dúvida	alguma,	a	ordem	e	a	comunhão	
aparecerão	somente	se	cada	um	puder	encontrar	o	seu	espaço	e	
atuar	conforme	sua	condição.
Outro	aspecto	relevante	diz	respeito	à	catolicidade.	Todas	as	
iniciativas	devem	ser	católicas	no	sentido	de	serem	conformes	à	
doutrina	da	 Igreja	e	úteis	e	eficazes	para	a	sua	construção.	Con-
tudo,	nem	 todas	as	 iniciativas	possuem	a	necessidade	de	que	a	
própria	 catolicidade	 seja	 declarada	 pela	 autoridade	 eclesiástica,	
acrescentando	oficialmente	esta	catolicidade	ao	nome,	de	modo	
que	sirva	de	publicidade	para	a	iniciativa.	Neste	último	caso,	a	nor-
ma	estabelece	que	nenhuma	obra	fruto	da	iniciativa	privada	pode	
reivindicar	o	nome	de	católica	sem	que	intervenha	uma	aprovação,	
declaração	ou	reconhecimento	da	parte	da	hierarquia	da	Igreja.	A	
autoridade	 competente	para	 reconhecer	 tal	 catolicidade	depen-
derá	da	entidade	e	raio	de	ação	da	iniciativa	que	deseja	se	tornar	
católica	no	nome	ou	título.	No	caso	de	associações,	a	autoridade	
competente	se	pode	deduzir	considerando	o	cân.	312.
Direito à educação e à instrução cristã (cân. 217)
Ao	cumprimento	do	dever	de	levar	uma	vida	santa,	de	coo-
perar	eficazmente	na	santificação	dos	batizados	e	de	adequar-se	
existencialmente	à	doutrina	do	Evangelho	corresponde	o	direito	a	
uma	educação	cristã.	
Claretiano - Centro Universitário
137© U2 -O Povo de Deus I
Não	se	trata	de	um	direito	natural	à	educação,	pois	este	é	
um	aspecto	do	direito	natural	à	liberdade	religiosa	formulado	no	
confronto	do	Estado,	mas	sim	de	um	direito	eclesial	e,	portanto,	
formulado	no	confronto	de	toda	a	comunidade	cristã	e,	particular-
mente,	da	Hierarquia,	pois	esta	responde	diretamente	pelo	munus 
docendi.
No	âmbito	do	exercício	prático	deste	direito	poderão	existir	
limitações	por	parte	dos	pastores	no	sentido	de	que	nem	toda	a	
Hierarquia	da	Igreja,	em	todos	os	lugares	e	em	cada	momento	his-
tórico,	encontra-se	nas	mesmas	condições	e	dispõe	de	 todos	os	
meios	para	oferecer	aos	 fiéis	 a	necessária	educação	e	 instrução	
cristã.	
Como	recorda	o	texto	da	norma,	a	 finalidade	da	educação	
cristã	é	a	plena	maturidade	da	pessoa	humana	e	o	conhecimento	
e	a	vida	do	mistério	da	salvação.	Esta	maturidade	consiste	na	capa-
cidade	de	estar	no	próprio	mundo,	história	e	ambiente,	de	modo	
sereno,	dinâmico	e	construtivo	e	se	funda	sobre	a	maturidade	hu-
mana	geral,	a	qual	é	física,	intelectual,	afetiva	e	social.	
Liberdade de pesquisa e de publicação dos resultados (cân. 218) 
Esta	norma	é	endereçada	àqueles	que	se	dedicam	às	ciências	
sagradas,	particularmente	os	membros	dos	Seminários	menores	e	
maiores	e	das	Universidades	eclesiásticas	e	católicas.
O	texto	não	usa	a	expressão	direito,	mas	sim	iusta libertate,	
ou	seja,	uma	liberdade	não	absoluta,	mas	relativa.	É	relativa	por-
que	necessária	para	o	desenvolvimento	da	pesquisa,	sem,	porém,	
poder	produzir	injustiça,	e	limitada	às	ciências	sagradas.		
Um	aspecto	importante	é	a	exigência	de	uma	atitude	de	pru-
dência	na	manifestação	do	próprio	pensamento,	seguindo	o	estilo	
e	as	regras	peculiares	da	pesquisa	científicaque	são	as	seguintes:	
1)	 declarar	as	fontes	estudadas;	
2)	 os	meios	utilizados;	
3)	 as	dependências;	
© Direito Canônico I138
4)	 não	 oferecer	 como	 conclusões	 definitivas	 aquelas	 que	
não	o	são;
5)	 não	apresentar	como	teses	indiscutíveis	aqueles	que	são	
somente	meras	hipóteses	de	trabalho;	
6)	 exprimir	as	próprias	opiniões	por	meio	dos	meios	técnicos	
adequados:	 escolas;	 convênios;	 revistas	ad hoc.	 Não	 em	
qualquer	lugar	indistintamente	e,	muito	menos,	na	liturgia;
7)	 lugar	próprio.
A	norma	recorda,	ainda,	a	necessidade	de	se	observar	o	de-
vido	obséquio	ao	Magistério,	o	qual	não	se	reduz	a	uma	mera	limi-
tação	do	exercício	do	direito,	mas,	sim,	é	um	limite	intransponível,	
pois	o	dever	de	obediência	a	ele	é	um	dever	fundamental.	
A relação entre o Teólogo e o Magistério será mais bem aprofunda-
da no momento em que nos ocuparemos do livro III do CIC relativo 
ao múnus de ensinar da Igreja.
direito a ser imune de qualquer forma de coação na escolha do 
estado de vida (cân. 219) 
Este	cânon	ocupa-se	do	estado	de	vida	e	de	sua	livre	eleição,	
garantindo	 ao	 fiel	 o	direito	de	não	 ser	 coagido	em	 sua	escolha.	
Dessa	forma,	o	legislador	procura	garantir	a	liberdade	de	decisão	
pessoal	na	eleição	do	estado	de	vida,	sem,	com	isso,	obrigar	nem	
co-envolver	os	outros	a	fim	de	que	por	força	deem	o	próprio	con-
sentimento	quando	este	seja	necessário	para	que	a	escolha	feita	
se	torne	uma	realidade.	Portanto,	tal	direito	se	reduz	a	uma	imu-
nidade	de	coação	exterior,	extrínseca	e	social,	deixando	a	pessoa	
livre	para	decidir	o	que	quer.
Observando	atentamente	a	norma,	percebe-se	que	o	legisla-
dor	se	absteve	de	formular	um	verdadeiro	e	próprio	direito	de	es-
colher	e	realizar	um	determinado	estado	de	vida,	porque,	na	ver-
dade,	tal	direito	não	existe	na	Igreja.	Prova	disso	está	nos	cânn.	597	
§1,	1024-1039	e	1083-1094,	que	fixam	condições	objetivas	para	a	
admissão	à	vida	consagrada,	ao	sacerdócio	e	ao	matrimônio.
Claretiano - Centro Universitário
139© U2 -O Povo de Deus I
O	direito	 reconhecido	pelo	 cân.	 219	 garante	que	 cada	um	
possa	amadurecer	 livremente	a	própria	decisão	em	torno	da	es-
colha	 feita	em	relação	a	um	dos	 três	estados	eclesiais,	mas	não	
implica	que	uma	concreta	escolha	deva	sempre	ser	realizada,	isto	
por	motivos	óbvios.
São	eles:
•	 a	escolha	pelo	matrimônio	poderia	ser	frustrada	pela	pes-
soa	escolhida	para	casar	ou	por	circunstâncias	objetivas	
que	a	impedem	(impedimentos	dirimentes	e	incapacida-
de	para	consentir);
•	 a	aspiração	ao	ministério	ordenado	poderia	 ser	 frustra-
da	por	causas	justas	e	razoáveis	por	parte	da	autoridade	
competente,	considerando	as	exigências	feitas	pelo	CIC;
•	 a	aspiração	à	vida	consagrada	poderia	ser	frustrada	pelo	
superior	competente	do	 IVC	ou	SVA	por	causas	 justas	e	
razoáveis,	 considerando,	 também,	 as	 exigências	 feitas	
pelo	CIC	ou	pelo	direito	particular.	
Convém	destacar	que	esta	norma	impede a qualquer pessoa	
receber	o	sacramento	da	ordem,	de	abraçar	a	vida	consagrada	e	
de	esposar-se	contra	a	vontade.	Encontramos	no	CIC	diversos	câ-
nones	que	tutelam	esta	liberdade	de	escolha,	como,	por	exemplo,	
643	§1,	4º;	656,	4º;	1026,	1057	§1	e	1103.
É bastante óbvio que esta fundamental eleição (ser clérigo, con-
sagrado ou casado) condiciona toda a vida da pessoa e, portanto, 
não pode, em hipótese alguma, ser fruto de qualquer tipo de impo-
sição, nem direta e nem indireta, nem aberta e nem velada, mas, 
ao contrário, deve sempre ser o resultado de uma livre, consciente 
e madura decisão. 
Direito à boa fama e à própria intimidade (cân. 220) 
A	formulação	do	cânon	em	abstrato,	sem	mencionar	o	fiel,	
indica	que	 foram	repetidos	no	 foro	eclesiástico	dois	direitos	hu-
© Direito Canônico I140
manos	fundamentais	que	não	derivam	do	batismo,	mas	do	direito	
natural.	Contudo,	devemos	acrescentar	que,	 também,	os	batiza-
dos	têm	o	específico	dever	evangélico	de	amor	e	estima	recíproca.	
É	preciso	considerar,	ainda,	que	estes	direitos	comuns	a	todos	os	
homens,	na	comunidade	cristã,	assumem	conotações	específicas	e	
incisivas	que	devem	ser	tuteladas,	pois	é	mais	grave	perder	a	boa	
fama	na	família	natural	ou	no	meio	dos	amigos,	do	que	perdê-la	
em	um	lugar	distante	(um	brasileiro	na	Índia,	por	exemplo).	É	mais	
arriscado	e	problemático	perder	a	intimidade	onde	existem	rela-
ções	de	familiaridade	e	amizade	do	que	em	qualquer	outro	lugar.	
O	direito	à	boa	fama	e	à	intimidade	aparece	no	CIC	suben-
tendido,	pois	seria	uma	imperfeição	técnica	considerar	como	pró-
prio	do	fiel	o	que,	na	verdade,	são	dois	direitos	humanos	funda-
mentais.	
Em	 relação	 ao	 conteúdo	 da	 boa	 fama,	 trata-se	 do	 bom	
nome,	da	dignidade	e	do	decoro	pessoais,	da	consideração	social	
que	os	outros	possuem	em	relação	à	pessoa,	considerando	as	suas	
qualidades	 físicas,	morais,	 culturais,	 religiosas,	 artísticas	 etc.	 Em	
linguagem	moderna	se	diria	imagem.	Evidentemente	que	o	direito	
garante	a	proteção	da	imagem	positiva	e	não	da	negativa.	A	calú-
nia,	a	injúria	e	a	difamação	são	os	modos	mais	concretos	de	lesar	
este	direito.	
Quanto	à	intimidade	e	seu	conteúdo,	podemos	afirmar	que	
a	intimidade	de	vida	ou	vida	privada	consiste	em	poder	dispor	de	
um	 âmbito	 existencial	 completamente	 privado	 e	 intransferível.	
Dessa	maneira,	seu	conteúdo	nada	mais	é	de	um	espaço	interior	e	
reservado	no	qual	a	pessoa	encontra	a	si	mesma	e	a	própria	iden-
tidade.	Este	espaço	repercute	no	exterior.	
Desse	modo,	possui	uma	dimensão	de	consciência	(fé,	peca-
dos,	rancores,	amores,	sentimentos);	uma	dimensão	física,	ineren-
te	ao	corpo	da	pessoa	(partes	íntimas	normalmente	protegidas);	
uma	dimensão	externa,	atinente	às	coisas	e	realidades	que	a	cons-
ciência	ou	o	corpo	exigem	ou	declaram	como	reservadas	(a	casa,	
Claretiano - Centro Universitário
141© U2 -O Povo de Deus I
determinados	objetos	de	uso	pessoal	etc.);	e	uma	dimensão	social	
(em	relação	àquelas	pessoas	contra	as	quais	se	faz	valer	o	próprio	
direito).
O	legislador,	porém,	ao	falar	em	lesões	ilegítimas,	dá	a	enten-
der	que	existem	lesões	 legítimas	e,	consequentemente,	defende	
as	pessoas	somente	das	lesões	ilegítimas.	De	fato,	existe	na	moral	
e	no	direito	a	possibilidade	de	descobrir	e	denunciar	os	delitos,	cri-
mes	e	pecados	das	pessoas	quando	estes	colocam	em	jogo	o	bem	
superior	da	pessoa	humana,	da	sociedade	e	da	Igreja,	mesmo	que	
a	denúncia	implique	na	ruptura	da	boa	fama,	ao	menos	parcial.	
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
A tutela da boa fama podemos encontrar em alguns cânones do CIC, como, 
por exemplo, o cân. 1717 §2 e, sobretudo, o cân. 1390. Além disso, em âmbito 
judicial e administrativo, encontramos algumas exigências que a tutelam: não 
tomar em consideração denúncias anônimas; o acusado pode conhecer o nome 
do acusador e o objeto da acusação; o direito à defesa; o direito a sanções moti-
vadas; a possibilidade de recurso. A tutela do direito à intimidade a encontramos 
em alguns cânones que a garantem, como, por exemplo, 630 §1, §4 e §5; 642, 
1548 §2, 2º e 1697.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
direito à proteção jurídica e à aplicação do princípio de legalidade 
em âmbito penal (cân. 221) 
Esta	norma	visa	tutelar	o	patrimônio	jurídico	da	pessoa	do	
fiel,	pois	recolhe	o	direito	a	reivindicar	e	defender	legitimamente	
os	direitos	de	que	goza	na	Igreja	no	foro	eclesiástico	competente.	
A	norma	traz,	ainda,	uma	dupla	consequência:	
•	 interpretação	do	direito	processual	em	vigor	deve	ser	efe-
tuada	de	modo	a	assegurar	ao	máximo	possível	a	prote-
ção	dos	direitos	dos	fiéis;
•	 qualquer	 formulação	 legislativa	 futura	 relativa	 aos	 pro-
cessos	deve	sempre	ter	presente	este	direito.	
Os	meios	processuais	de	tutela	dos	direitos	dos	fiéis	são	mui-
tos	e	devem,	especialmente,	garantir	o	direito	de	agir	em	juízo,	o	
direito	à	defesa,	o	direito	de	tentar	resolver	a	lide	pacificamente	
(cân.	1446	§1),	o	direito	a	uma	equitativa	solução	da	controvérsia	
© Direito Canônico I142
(cân.	1466	§2)	etc.	Trata-se,na	verdade,	do	direito	a	que	no	pro-
cesso	sejam	seguidas	pontualmente	as	normas	pré-estabelecidas.	
A	equidade,	mais	que	um	direito	do	fiel,	é	um	dever	do	juiz	e	con-
siste	 em	 julgar,	 tendo	 presente	 todas	 as	 circunstâncias	 do	 caso,	
mesmo	aquelas	não	previstas	pelas	normas	positivas,	desde	que	
favoráveis	 ao	 fiel.	O	direito	do	 fiel	 se	 reduz	 a	 ter	uma	 sentença	
justa,	já	que	o	direito	se	define	como	justiça.	
Os	direitos	garantidos	processualmente	são	inúmeros.	Veja,	
por	exemplo,	os	cân.	1508	§§1	e	2,	1481	§1,	1598	§1,	1598	§2	etc.
O	§	3	do	cân.	221	nasceu	de	uma	combinação	dos	cânones	
1321	§2	(o	qual	proíbe	a	punição	daquelas	transgressões	causadas	
por	omissão	da	devida	diligência,	a	não	ser	que	a	lei	ou	o	preceito	
disponha	diversamente)	e	19	(o	qual	proíbe	a	extensão	analógica	
das	 leis	penais	e,	nas	causas	penais,	proíbe	o	recurso	aos	princí-
pios	gerais	do	direito,	à	jurisprudência	e	práxis	da	Cúria	Romana	e	
à	doutrina).	Trata-se	do	princípio	de	legalidade,	porém	mitigado,	
pois	o	legislador	afirma,	somente,	o	princípio	generalíssimo	de	que	
na	Igreja	o	poder	coativo	não	poderá	ser	exercitado	em	formas	dis-
tintas	daquelas	estabelecidas	pelo	ordenamento	canônico.	Desse	
modo,	se	de	um	lado	não	é	possível	deixar	uma	excessiva	liberda-
de	ao	superior	hierárquico;	de	outro	lado,	não	é	possível	fazer	uma	
transposição	de	normas	peculiares	dos	ordenamentos	contempo-
râneos,	 porque	 na	 Igreja	 a	 salvação	 poderá	 exigir	 a	 punição	 de	
comportamentos	 gravemente	 lesivos	 da	 ordem	 eclesial,	mesmo	
nos	casos	em	que	tais	comportamentos	não	sejam	expressamente	
mencionados	pelas	leis	canônicas	codificadas,	como	muito	bem	o	
indica	o	cân.	1399.	
dever de socorrer às necessidades da igreja, de promover a 
justiça social e de socorrer aos pobres (cân. 222) 
O	dever	indicado	pelo	§	1	é	uma	especificação	da	obrigação	
de	contribuir	para	incremento	da	Igreja	e	a	sua	contínua	santifica-
ção	(cân.	210).	Não	diz	respeito	somente	à	esfera	econômica,	pois	
as	obras	de	apostolado	e	de	caridade,	a	celebração	do	culto	e	o	
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honesto	sustento	do	clero,	além	de	recursos	 financeiros,	podem	
exigir	prestações	de	caráter	pessoal,	direto	e	imediato.	
A	generalidade	da	norma	permite-nos	deduzir	que	o	legisla-
dor	tenha	deixado	amplo	espaço	de	liberdade	aos	legisladores	in-
feriores	e	particulares	nesta	matéria.	Basta	vermos,	por	exemplo,	
os	cân.	1261,	1262	e	1266.
Já	o	dever	contido	no	§	2	é	de	direito	natural	e	não	especi-
ficamente	cristão	como	tal,	pois	cada	pessoa	possui	o	direito	de	
ter	bens	suficientes	para	si	e	para	a	própria	família	(GS	69).	Toda-
via,	convém	recordar	que	os	fiéis,	enquanto	discípulos	de	Cristo,	
devem	ser	os	primeiros	a	respeitar	tal	direito.	O	mesmo	discurso	
vale,	também,	para	o	segundo	direito	enunciado	neste	parágrafo,	
pois	ajudando	aos	pobres	o	fiel	ajuda	ao	Senhor.
A	norma	é	genérica	e	também	aqui	o	legislador	deixou	aos	
legisladores	inferiores	um	amplo	espaço	para	precisar	e	aplicar	as	
exigências	deste	preceito.	
Os	modos	possíveis	de	aplicar	a	norma	são	inclassificáveis	e	
dependem	muito	da	situação	real	na	qual	pessoas	concretas	pos-
sam	se	encontrar.	Especificamente,	por	exemplo,	o	cân.	287	§1,	di-
rigido	ao	clero	secular	e	aplicado,	também,	aos	religiosos	(cân.	672)	
pede	que	seja	fomentada	a	paz	e	a	concórdia	radicada	na	justiça.	
Limites legais impostos ao exercício dos deveres-direitos (cân. 223) 
O	cân.	apresenta	disposições	gerais	que	determinam	as	mo-
dalidades	e	os	limites	no	exercício	dos	deveres-direitos	dos	fiéis.	
A	primeira	norma	apresenta	um	perfil	subjetivo	(§1)	e	a	se-
gunda	um	perfil	objetivo	(§2).	
De	acordo	com	a	primeira,	os	 fiéis,	 individualmente	ou	as-
sociados	encontram	no	exercício	dos	próprios	direitos	três	limites	
fundamentais:	
© Direito Canônico I144
•	 o	bem	comum;
•	 os	direitos	dos	outros;	
•	 os	próprios	deveres	para	com	os	outros.
De	acordo	 com	a	 segunda	 é	 a	 própria	 autoridade	que,	 ao	
regular	o	exercício	dos	direitos	dos	fiéis,	encontra	como	limite	o	
bem	comum.	No	primeiro	caso,	é	o	fiel	que	obedece	aos	princípios	
de	convivência	social	e	de	justiça	retributiva	na	Igreja,	com	base	
na	caridade	e	equidade;	no	segundo	caso,	o	fiel	obedece	a	possí-
veis	determinações	da	autoridade	constituída	quando	esta	regula	
o	exercício	dos	direitos	em	vista	ao	bem	comum.	
Convém	 recordar	 que	 o	 bem	 comum	 deve	 ser	 entendido	
como	um	conjunto	daqueles	valores	(paz,	 justiça,	respeito,	bem-
-estar	 integral,	desenvolvimento	da	pessoa	etc.)	que	constituem	
o	bem	comum	de	cada	sociedade	natural	e,	também,	como	"salus 
animarum".
Portanto,	é	importante	interpretar	com	cautela	a	função	do	
bem	comum	em	relação	a	alguns	direitos	dos	fiéis,	como	no	caso	
das	garantias	processuais,	penais	e	do	direito	à	 intimidade.	Nin-
guém,	em	nome	de	um	pretenso	bem	comum,	poderá	ser	obriga-
do	a	assumir	um	estado	de	vida	para	o	qual	não	há	vocação	ou	que	
não	quer	abraçar.	Do	mesmo	modo,	não	será	possível	em	nome	de	
um	pretenso	bem	comum	privar	gratuitamente	alguém	das	legíti-
mas	garantias	processuais	ou	penais	e,	muito	menos,	do	direito	à	
intimidade.	
 
Para maior compreensão do tema estudado, sugerimos que você 
leia: BERTONE, T. Pessoa e estrutura na Igreja (Os direitos fun-
damentais dos fiéis). In: CAPPELLINI, E. Op. cit., p. 76-85; FELI-
CIANI, G. Op. cit., p. 139-150; GHIRLANDA, G. O direito na Igreja: 
mistério de comunhão Op. cit., p. 98-105; MÜLLER, I. Direitos e 
deveres do Povo de Deus. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 15-46; NE-
VES, A. Op. cit., p.74-100.
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9. Questões autOavaLiativas
Confira,	na	sequência,	as	questões	propostas	para	verificar	
seu	desempenho	no	estudo	desta	unidade:
1)	 Quais	as	principais	imagens	utilizadas	pelo	Concílio	Vaticano	II	para	se	referir	
à	Igreja?	Qual	a	que	mais	lhe	chama	a	atenção?	Explicite.
2)	 É	possível	aplicar	à	Igreja	o	conceito	de	sociedade?	Justifique.
3)	 Esclareça	 o	 significado	dos	 seguintes	 princípios:	 igualdade	 fundamental	 e	
diversidade	funcional.
4)	 Se	o	 cân.	 208	afirma	que	entre	os	 fiéis	 vigora	uma	verdadeira	 igualdade,	
como	explicar,	então,	que	na	Igreja	haja	categorias	de	fiéis,	como,	por	exem-
plo,	clérigos	e	leigos?
5)	 Em	que	consiste	estar	em	comunhão	com	a	Igreja	Católica	e	quais	as	formas	
clássicas	de	ruptura	desta	comunhão?
6)	 Se	os	fiéis,	à	norma	do	cân.	213,	têm	o	direito	de	receber	dos	Pastores	os	
bens	espirituais	da	Igreja,	particularmente	a	palavra	de	Deus	e	os	sacramen-
tos,	tais	bens	podem	lhes	ser	negados?	Justifique.
7)	 Em	que	consiste	o	direito	à	boa	fama	e	à	própria	intimidade?
10. COnsiderações 
Como	você	bem	pôde	observar,	encontramo-nos	diante	de	
um	elenco	suficientemente	 longo	de	deveres	e	direitos	que	me-
receriam	de	nossa	parte	uma	explicação	bem	mais	detalhada	de	
cada	um	deles,	 tamanha	é	a	sua	 importância.	No	momento	 isso	
não	será	possível.	Caberá,	portanto,	a	você,	partindo	dos	elemen-
tos	 contidos	neste	 instrumento	de	 trabalho,	buscar	um	comple-
mento	das	informações	aqui	contidas	nos	textos	de	referência	que	
deixamos	à	sua	disposição.	Trata-se	de	um	tema	muito	interessan-
te,	pois	estamos	no	campo	dos	deveres	e	direitos	 comuns	a	 to-
dos	os	fiéis,	embora	na	aplicação	prática	deste	elenco	será	preciso	
adequá-los	à	condição	de	cada	um	na	Igreja.	É	importante	ter	isso	
em	mente,	pois	o	fiel	em	abstrato	não	existe.	Concretamente	te-
mos	o	fiel	leigo,	o	fiel	clérigo	e	o	fiel	consagrado.	
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Na	próxima	unidade,	você	será	convidado	a	construir	conhe-
cimentos	sobre	os	direitos	e	deveres	dos	fiéis	leigos	e	dos	fiéis	clé-
rigos,	como,	também,	sobre	as	associações	de	fiéis	em	geral	e	em	
especial.
Esperamos	por	você!
11. reFerÊnCias bibLiOGrÁFiCas
ARROBA	CONDE,	M.	J.	Diritto processuale canonico.	Roma:	Ediurcla,	2006.
FELICIANI,	G.	As bases do Direito da Igreja:	comentários	ao	Código	de	Direito	Canônico.	
São	Paulo:	Paulinas,	1994.
GEROSA,	L.	Ainterpretação da lei na Igreja:	princípios,	paradigmas	e	perspectivas.	São	
Paulo:	Loyola,	2005.
GHIRLANDA,	G.	O direito na Igreja, mistério de comunhão.	Compêndio	de	Direito	Eclesial.	
Aparecida:	Santuário,	2003.	
GRINGS,	D.	A ortopráxis da Igreja.	O	Direito	Canônico	à	serviço	da	pastoral.	Aparecida:	
Santuário,	1996.
MÜLLER,	I.	Direitos e deveres do Povo de Deus.	Petrópolis:	Vozes,	2004.
NEVES,	A.	O Povo de Deus:	renovação	do	Direito	na	Igreja.	São	Paulo:	Loyola,	1987.

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