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TEOLOGIA DOS DONS 
ESPIRITUAIS 
AULA 4 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Josadak Lima da Silva 
 
 
2 
INTRODUÇÃO 
Princípios para o uso adequado dos dons espirituais na comunidade de fé 
Olá, estudante! 
Nesta aula vamos observar que aquilo que normalmente denominamos 
de chamado é na verdade o dom fundamental concedido pelo Senhor. Veremos 
que, na comunidade de fé, a palavra “servir” tem a conotação de realizar uma 
tarefa em benefício do outro. Desse modo, quando servimos uns aos outros, 
passamos a fazer parte de uma engrenagem divina de um plano maravilhoso 
cuja dimensão nem conseguimos imaginar. 
TEMA 1 – O CRENTE COMO UMA DÁDIVA 
Em última análise, os crentes que o Espírito Santo prepara para ministrar 
internamente ao corpo de Cristo e aos incrédulos para crescimento do Reino de 
Deus são como uma dádiva. Logo, por meio de uma mesma pessoa (exemplo 
do apóstolo Paulo) podem operar mais de um dom espiritual, adequados ao 
ministério. A cooperação interna dos dons é um entendimento avançado da 
vontade de Deus, que gera saúde para a igreja local, harmonia e sinergia ou 
comunhão entre os membros e em relação ao próprio Deus. 
• O ministério de profeta utiliza o dom de profecia, e pode também ser 
necessário o da palavra de ciência. 
• O mestre precisa desesperadamente do dom espiritual da palavra de 
sabedoria; isso irá embelezar e dotar de brilho o seu ministério. 
• O pastor necessita do dom espiritual de discernimento de espíritos para 
proteger o seu rebanho de ensinos e profecias malignas ou mundanas. 
• O evangelista necessita dos dons de curas e operações de maravilhas 
para atrair multidões à conversão a Cristo. 
• O apóstolo precisa de muitos dos dons manifestacionais para fundar 
uma igreja local e ajudá-la a enfrentar poderes das trevas e problemas 
da indiferença humana ao Evangelho. 
Na mesma linha de raciocínio, imagine uma aula na escola dominical dada 
por um mestre e um evangelista ao mesmo tempo. O evangelista levaria a 
audiência a fazer parte da história bíblica, trazendo-a para o presente; e o mestre 
 
 
3 
explicaria com graça todos os detalhes. E ambos, mestre e evangelista, fixariam, 
de forma definitiva, a aula na mente e no coração do aluno. “O olho não pode 
dizer à mão: eu não preciso de ti. Nem a cabeça dizer aos pés: eu não preciso 
de vós” (1 Coríntios 12.21). 
TEMA 2 – AVALIE A QUALIDADE DE SEU SERVIÇO NO REINO DE DEUS 
O melhor texto para uma avaliação da qualidade dos nossos serviços no 
reino de Deus é, sem dúvida, 1 Coríntios 3.12-17. O texto menciona três tipos de 
materiais, “ouro”, “prata” e “pedras preciosas”, os quais não podem ser forçados 
a significar detalhes específicos na edificação cristã. Antes, devem ser 
entendidos como algo valioso, verdadeiro e duradouro, que é contrastado com 
as características desprezíveis, superficiais e inferiores da “madeira”, do “feno” 
e da “palha”. 
O conceito de avaliação nesse texto está na figura do “fogo”. Precisamos 
lembrar que o que está sendo provado pelo “fogo” não é a pessoa do crente, 
porém o seu serviço, pois, “há muito trabalho por aí, feito como se fosse para 
Deus, que não passa de trabalho puramente humanista e secular, e não contará 
para aquele grande dia” (Gilberto, 2009, p. 84) 
Ora, o “fogo” só queima o que não for de qualidade espiritual (madeira, 
feno e palha); o que for de qualidade espiritual (ouro, prata e pedras preciosas) 
o fogo apenas refinará e purificará. Então, o “dia” referido no versículo 13 aponta 
para o Tribunal de Cristo, no qual todo serviço no Reino de Deus será 
examinado. Hoje, é a Palavra de Deus que examina nossos serviços, bem como 
nossa consciência. 
Será que você não precisa melhorar seu desempenho no Reino de Deus? 
Não em quantidade, mas em qualidade! Olhando mais de perto 1 Coríntios, 
especialmente os versículos 14-17, o entendimento é que serviço cristão, no 
contexto da igreja, pode ter três categorias: 
• O versículo 14 fala do serviço proveitoso, que resiste à prova, pelo qual 
o servo receberá o galardão. 
• O versículo 15 fala do serviço inútil, que não resistirá à prova, pelo qual 
o servo sofrerá o dano. O que está em questão aqui não é a salvação, 
mas o comportamento do cristão que resiste ou não ao escrutínio do 
Senhor. 
 
 
4 
• O versículo 17 fala do serviço destrutivo, que desfigura o “santuário de 
Deus”, a igreja, pelo qual o servo também é desfigurado. 
Nesse mesmo contexto, a imagem revelada do “santuário de Deus” 
enfatiza a necessidade de um compromisso pessoal com a santidade, no qual a 
obediência ao chamamento, a fidelidade aos propósitos divinos e a 
representatividade de tudo o que é celestial neste mundo é o que tem valor 
diante do Senhor. 
Por outro lado, convém saber quais são as causas da destruição do 
“santuário de Deus”, que é a igreja. As cousas são muitas! Mas a principal é o 
serviço de má qualidade! Nessa perspectiva, Macdonald (2008, p. 484) diz que 
no serviço ao Senhor, bem como na vida cristã em geral, sempre existe 
o risco de autoengano. Talvez alguns mestres em Corinto se fizessem 
passar por homens de grande sabedoria. Qualquer um que possui um 
conceito elevado de sua própria sabedoria moral precisa aprender que 
é necessário tornar-se louco aos olhos do mundo para se tornar sábio 
diante de Deus. 
Tendo isso em vista, é possível dizer que o pior que pode acontecer é que 
o serviço que prestamos a Cristo possa vir a ser contaminado por aspectos 
naturais ou sentimentos humanos, como o orgulho e a ambição, não inspirado 
pelas obras de amor e compromisso. Que a promessa graciosa de Deus nos 
recompense por essas coisas que fazemos por amor a Ele! 
TEMA 3 – CERTIFIQUE SE VOCÊ É PESSOA CERTA, NO LUGAR CERTO, COM 
A MOTIVAÇÃO CERTA 
Sabemos que, no corpo humano, cada membro tem características 
próprias e traços distintos; cada um tem sua posição bem definida. Todos têm 
uma função própria. Por exemplo: todos têm habilidade para ouvir? Não! Só o 
ouvido. Todos têm habilidade para cheirar? Não! Só o nariz. Assim é no corpo 
de Cristo! 
A Bíblia utiliza a metáfora do corpo para falar da pessoa certa, no lugar 
certo, no corpo de Cristo. Em 1 Coríntios 12.18, faz-se a seguinte declaração: 
“Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe 
aprouve”. Nesse sentido, a pergunta que não quer calar é a seguinte: mas, como 
saber qual é a minha função no corpo de Cristo? Vamos tentar responder a essa 
pergunta fazendo um exercício simples: se você tem habilidade especial para 
servir com uma visão penetrante das coisas espirituais, então você é “olho” no 
 
 
5 
corpo! Porém, se este não é o seu caso, sua habilidade mesmo é servir com um 
incrível tato espiritual; então você é “mão” no corpo: “e, se quisermos que ela 
cumpra a sua finalidade, é necessário que cada membro seja encontrado no 
lugar certo e funcionando numa justa relação com os demais” (Lindsay, 1996, p. 
20.). 
Talvez você possa estar pensando: nada disso tem a ver comigo, o meu 
negócio mesmo é servir com uma profunda percepção ou discernimento 
espiritual. Então, você é “olfato” no corpo! Ou, quem sabe, você tem habilidade 
mesmo é para servir com uma aguçada audição do Espírito. Se esse é o caso, 
você é “ouvido” no corpo! Os dons estão intimamente ligados à questão da 
edificação igreja. 
Nessa mesma perspectiva, observe que os verbos utilizados em 
1Coríntios 12.30 estão no presente contínuo e, à luz do contexto anterior 
(versículos 28-29), indicam que alguns membros do corpo de Cristo continuam 
a ministrar dons de curar, outros ministram regularmente as variedades de 
línguas ao corpo, e outros regularmente interpretam essas línguas para a 
congregação. “O Espírito Santo, ao conceder dons, o faz também na dimensão 
profética, como é próprio do atuar do Espírito Santo. O Espírito Santo da Igreja 
não desvincula os que se dedicam mais à dimensão do profeta. O Espírito da 
Igreja é essencialmenteprofético”. (Josgrilberg; Reilly, 1991, p. 12). 
Em outras palavras, esses verbos falam dos serviços regulares ao corpo 
de Cristo. O fato de as perguntas pedirem uma resposta negativa não deve ser 
enfatizado. Dessa forma, conclui-se que os dons espirituais têm uma função 
dupla: 
• Capacitação pessoal; 
• Edificação da igreja. 
Nessa mesma linha de raciocínio, em 1 Coríntios 12.31, o verbo 
“busquem”, referindo-se aos dons, está na terceira pessoa do plural, fazendo 
conexão com a igreja como um todo. Por isso, a virtude do amor, na sequência 
(1 Coríntios 13), aparece como o caminho com maior grau de excelência. O texto 
não diz que o amor deve ser exercido no lugar dos dons, mas que o amor é o 
contexto do exercício desses dons. 
Há um teste valioso para você descobrir se é a pessoa certa, no lugar 
certo no corpo de Cristo. Consiste no fato de que outras pessoas podem dar 
 
 
6 
testemunho a respeito do dom que você tem. Pois cada cristão é equipado por 
Deus com dons para servir em benefício da comunidade. A igreja está envolvida, 
sim, pois cada dom sempre visa ao bem do corpo todo. Nisso, nossas diferenças 
não podem gerar sentimentos de inferioridade, nem de superioridade. O que 
deve existir é um forte sentimento de pertencer. 
O testemunho de outros deve ocorrer no próprio campo de trabalho, a 
igreja local. Contudo, 
nem todos os carismas têm expressões “especiais” e nem todos os 
ministérios se tornam visíveis por manifestações “especiais” de 
carismas. Muitos ministérios se fazem a partir do carisma fundamental 
do amor e da graça. [...] É inútil, e em geral tem propósitos 
discriminatórios, a distinção entre dons e ministérios “naturais” e 
“sobrenaturais”. (Josgrilberg; Reilly, 1991, p. 13.) 
TEMA 4 – INTERAGINDO NO CORPO DE CRISTO 
Quando relacionamos o texto de 1 Coríntios 12.27-31 com Efésios 4.11-
12, constatamos que cada membro do corpo de Cristo pode ser considerado 
como um “dom” (dádiva de Deus) para a sua igreja local. Podemos entender 
melhor essa concepção voltando à figura do corpo. Imagine os seus olhos: eles 
são uma bênção para o seu corpo; sem os olhos, falta-lhe algo essencial. 
O propósito divino em nos doar ao corpo de Cristo é que desempenhemos 
um papel específico. Deus quer nos estabelecer como um membro que frutifica, 
por meio de nossos dons e talentos. Logo, os dons espirituais, como dotações e 
capacitações sobrenaturais do Espírito, são distribuídos a cada um sem acepção 
de pessoas. 
No corpo humano não há espaço para um membro ser passivo. Assim é 
também no corpo de Cristo. Se você faz parte efetivamente da igreja de Deus, 
não poderá dizer que é sem importância, sem valor. Já que, cada dom – 
independentemente qual – se orienta para um serviço objetivo e vitalmente 
solicitado pela comunidade, que é a responsável pelo reconhecimento dos 
mesmos em seu contexto e articular seus meios de serviços. Tanto um quanto 
outro é imprescindível para o funcionamento adequando do corpo. No corpo há 
diversos membros e múltiplas funções. 
No corpo de Cristo não há membro inútil. Sim, não há membro inútil, nem 
membro que não precise dos outros. Você tem um “lugar” no corpo de Cristo! 
Então, no que consistia o problema da igreja de Corinto? É que alguns 
 
 
7 
consideravam certos dons como “pequenos” ou inferiores, o serviço a Deus 
como algo pouco aparente. 
Stott (1986, p. 98) vai dizer que 
a Igreja se assemelha ao corpo humano, porque ambos são sistemas 
coordenados que consistem de muitos membros, dos quais cada um 
tem uma função distinta. É significativo que nas três passagens em que 
Paulo aborda a questão dos dons espirituais (Rm 12; 1Co 12 e Ef 4) 
ele usa o Batismo e Plenitude do Espírito Santo como metáforas do 
corpo. Parece que em sua mente o Corpo de Cristo e os charismata 
necessariamente precisam andar lado a lado. Em duas das três 
passagens, o vínculo entre ambos é bem evidente. Seu argumento é, 
por um lado, que como no corpo humano, também no Corpo de Cristo 
cada órgão ou membro tem alguma função e, por outro, que cada um 
tem uma função diferente. 
Hoje, toda vez que surge essa síndrome dos coríntios na igreja, é sinal 
que se “perdeu” a consciência de corpo. Na proporção em que ganhamos 
consciência do corpo, o individualismo vai perdendo terreno e espaço. A rigor, o 
corpo de Cristo é o lugar de interação e reciprocidade, no qual as vidas se voltam 
umas para as outras, como itinerário de cura pela graça. 
Deus fez com que o corpo de Cristo funcionasse dessa maneira para que 
não haja desavenças dentro da igreja em torno de personalidade, funções ou 
competências entre os membros. O fato de saber que existe uma 
interdependência, cujo fim é “tecer” nossas vidas com os demais, deve nos 
motivar a servir mutuamente. 
Assim, toda igreja é tanto carismática como ministerial, plena da ação do 
Espírito e serviço. Isso significa que essa igreja deve operacionalizar coesa – 
união total – sem divisões. Mas todos os seus membros precisam ser instruídos 
ou discipulados a uma consciência de que somos membros uns dos outros, que 
temos uma tarefa a cumprir, uma oração a fazer, uma palavra a declarar, ou seja, 
no corpo não pode haver membro apenas como mero espectador; precisamos 
estar em movimento, circulando. 
No corpo de Cristo não há membro inútil, bem como não há superioridade 
ou inferioridade de um membro em relação ao outro. Na relação do corpo de 
Cristo não há espaço para manifestações de superioridade de um sobre os 
outros, mas de complementaridade na diversidade de serviço mútuos na 
irredutível diferença. Eu pergunto: será que quando estamos reunidos em nossa 
igreja local, temos consciência de que somos membros mútuos, do corpo de 
Cristo? Ou os nossos dons nos separam em melhores e piores? 
 
 
8 
Os dons que Deus nos deu e os que Ele deu a outros, todos são 
importantes e necessários. Juntos eles formam o corpo de Cristo, 
completo e sadio, no qual todos os membros funcionam 
adequadamente. Somente quando paramos de desprezar os outros ou 
nós mesmos, e reconhecemos que os dons vêm de Deus, não haverá 
mais “divisão no corpo” (1Co 12.25). Deus odeia a discórdia. Sua 
vontade, pelo contrário, é que “cooperem os membros, com igual 
cuidado, em favor uns dos outros”, participando uns dos sofrimentos e 
das alegrias dos outros. E a grande verdade, a única que pode libertar-
nos de inveja e vanglória, é que os dons espirituais são presentes de 
Deus, distribuídos por sua graça e de acordo com sua vontade. (Stott, 
1986, p. 101) 
Ninguém se enxergar mais importante do que o outro é uma grande 
virtude. Esse era o grande problema da comunidade de Corinto; os crentes de 
Corinto estavam como que dizendo uns aos outros: “Não preciso de você”. Com 
essa atitude mostravam-se superiores ou mais importantes do que o outro. A 
distinção, portanto, não se funda sobre a forma de relação de cada um com 
Cristo, mas sobre a diversidade, voltada para o alcance total da comunidade. 
Uma das formas de avaliar se alguém verdadeiramente se porta como membro 
uns dos outros é se ele está comprometido em manter a unidade do Espírito e 
procura, de todas as formas, seguir aquilo que serve para a paz e a edificação 
do corpo (Efésios 4.3; Romanos 14.19). 
Em nossa convivência comunitária, devemos considerar sempre duas 
grandes realidades: associação e cooperação. Assim, originalmente, a igreja tem 
a ver com reunião, ajuntamento de pessoas que têm afinidade, características e 
objetivos comuns. À luz disso, a nossa responsabilidade cristã básica consiste 
em fazer com que as realidades espirituais do corpo fluam do papel, de nossas 
declarações teológicas, e aconteçam na prática de fato. Precisam “saltar” das 
páginas da Bíblia e ser inseridas em nossas atividades e atitudes diárias. 
TEMA 5 – EM BUSCA DE EQUILÍBRIO ENTRE OFÍCIO E FUNÇÃO 
Em primeiro lugar, não podemos confundir dons espirituais com cargos e 
títulos eclesiásticos. De modo geral,os cargos e títulos definem a necessária 
hierarquia dentro de uma igreja local; quase sempre são homologados nas 
convenções denominacionais e praticados na vida comunitária, de forma 
normativa. 
Uma igreja que opera num sistema de departamentos enfatiza as 
necessidades da instituição, e não necessariamente atende as reais 
necessidades espirituais das pessoas e as demandas do reino de Deus. 
 
 
9 
Portanto, os departamentos, quase sempre, funcionam para dentro, com ênfase 
na manutenção. Sua maior preocupação é com agenda, calendários e 
programas. 
Na prática, a cada ano ou dois no máximo, a igreja escolhe ou nomeia 
aqueles que vão ocupar os cargos dos departamentos afins, geralmente 
negligenciando os dons espirituais. E quase sempre a função não é compatível 
com seus dons, pois o foco é outro: a manutenção daquilo que se tem. Daí se 
faz programas na expectativa de atrair as pessoas. 
Quase sempre, nesse sistema departamental, tudo está centralizado na 
figura de um diretor ou presidente, eleito ou nomeado por certo período, o qual 
controla e supervisiona como se aquilo fosse um clube. Mas a natureza dos 
ministérios compatíveis com os dons é totalmente diferente, ao articular projetos 
e procurar encaixar as pessoas certas no lugar certo, formando um time 
ministerial, trabalhando todos juntos para obter os mesmos alvos. Assim, numa 
igreja de dons e ministérios o mais comum seria o líder delegar tarefas, no 
processo de expansão e cumprimento da missão proposta. 
A ideia tradicional que temos de uma igreja local é a de um pastor 
sobrecarregado, talvez ajudado por um pequeno núcleo de 
colaboradores dedicados, enquanto a maioria dos membros dá pouca 
ou nenhuma contribuição à vida e ao trabalho da igreja. Isto nos lembra 
mais a imagem de um ônibus (com um motorista e muitos passageiros 
sonolentos) do que a de um corpo (em que todos os membros são 
ativos, cada um contribuindo com uma atividade espacial para a saúde 
e a eficiência do todo). Na verdade, eu não duvido de que uma imagem 
falsa da igreja é uma das principais razões do crescimento do 
’movimento carismático‘. Este movimento é um protesto contra o 
clericalismo (onde obreiros de tempo integral ocupam os espaços dos 
leigos), e uma tentativa de liberar os leigos para os papéis de liderança 
responsável para os quais Deus os dotou. (Stott, 1986, p. 98) 
O que estou querendo dizer é que se determinada igreja advoga ser uma 
igreja de dons e ministérios, mas na prática é uma igreja de programas, está 
sendo incoerente. Então, quando uma igreja local opta por estabelecer um 
sistema de ministérios, no qual suas funções são desenvolvidas orientadas pelos 
dons, ela precisa fazer grandes mudanças; um processo de transição de 
departamentos para ministérios. É necessária uma reestruturação profunda e 
longa, por se tratar de uma mudança do jeito de ser e fazer igreja. Não estamos 
falando apenas de uma troca de nomenclatura, mas de uma cultura de 
ministérios. A formação dessa nova cultura passa pelo caminho do discipulado. 
O ministério é dinâmico, existe em função de uma necessidade; não havendo a 
necessidade não faz sentido aquele ministério. 
 
 
10 
Por outro lado, a Bíblia apresenta alguns títulos e cargos eclesiásticos, 
tais como presbíteros (ou anciãos) e diáconos. Primeiramente, surgiu o ofício de 
diáconos (Atos 6.3-6) e depois de presbíteros (Atos 20.28), no qual a primeira 
função era dirigir e governar. Esses ofícios não são dons em si, mas a escolha 
deles era feita pela igreja local, sob a orientação do Espírito (Atos 6.3-6; 13.1-3). 
Esse princípio foi estabelecido para todos os tempos! 
Ora, se tal escolha era feita pela igreja, pelo povo, movida pelo Espírito, 
somos induzidos a pensar que essa ação era baseada na evidência dos dons 
em cada pessoa. Concordo com John Owen (citado por Stott, 1986, p. 96) 
quando expressou de maneira admirável: “A Igreja não tem poder para nomear 
alguém para uma função ministerial se Cristo não se antecipou à sua indicação 
concedendo-lhe dons espirituais”. 
Na mesma perspectiva, Kivitz (1986, p. 96), afirma: 
Não há qualquer dúvida, portanto, de que a proposta do Novo 
Testamento é que as igrejas funcionem à base do ministério de todos 
os seus membros, mobilizados por um grupo de cristãos fiéis e 
idôneos, que por sua vez dedicam, perfeitamente, tempo integral, mas 
podem e devem dedicar tempo parcial, quando a situação exigir. 
Com efeito, o Novo Testamento está sempre interessado em igrejas, não 
em movimentos ou organizações; em igrejas locais. Lloyd-Jones (2003, p. 364) 
diz 
Seguramente somos chamados a voltar ao modelo do Novo 
Testamento. Devemos reconhecer que a alguns é dado o dom especial 
de pregação e ensino, a outros o dom de pastoreio. Alguns recebem o 
dom de governo; e existem vários outros dons de expressão e de 
exortação. 
Lloyd-Jones (2003, p. 364) ainda afirma: 
A igreja primitiva era um corpo vivo, vibrante de vida, vida que se 
manifestava de várias maneiras, às vezes até com excessos, porque 
crianças tendem a partir para excessos. Mas os excessos infantis são 
melhores do que a inatividade da morte. A descrição em apreço é um 
grande quadro de vida, com alguns ministérios de destaque. 
No tempo do Novo Testamento, como em nossos dias, quando se 
confunde o ofício com o dom, corre-se o risco de criar uma expectativa 
inadequada em relação àqueles que atuam na comunidade de fé. Por outro lado, 
tanto em 1 Coríntios 12 como em Efésios 4, são mencionadas funções como 
dons espirituais, em que é claro que as pessoas designadas para os ofícios já 
 
 
11 
possuíam dons. Portanto, quando o Novo Testamento trata naturalmente de 
ofícios e dons e vice-versa, é porque os dons já estão sendo exercidos. 
Vale ressaltar, que em Romanos 12 Paulo está sendo dirigido a uma igreja 
local. Seria, por assim dizer, uma descrição da vida diária da comunidade, em 
uma cultura de dons e ministérios. Mas, o que isso quer dizer na prática? Bem, 
obviamente que a igreja local, segundo o Novo Testamento, consiste num corpo 
em funcionamento. Devemos tomar isso como líquido e certo. Será que não é 
hora de retornarmos ao próprio Novo Testamento ao invés de nos apegarmos 
aos modismos contemporâneos?! 
O Novo Testamento não visa apenas a igreja do primeiro século. Seus 
ensinos têm tudo a ver com a igreja contemporânea. Portanto, se uma igreja 
local se considera de dons e ministérios, todavia, opera na base institucional de 
títulos e cargos eclesiásticos, sem nenhuma aderência aos dons espirituais é, no 
mínimo, incoerente com a visão bíblica de igreja. Assim, Kivitz (1995, p. 80) 
entende que toda igreja que pretende ser de dons e ministérios precisa ter uma 
“agenda de execução flexível, aglutinando cristãos ao redor de projetos comuns, 
como projetos sociais, teatro, música, evangelização de grupos específicos, 
engajamento missionário, intercessão e outros”. 
Somente esse padrão cumpre o propósito dos dons: “um fim proveitoso” 
(1 Coríntios 12.7). Por isso que o ensino característico de Romanos 12.6-8 é no 
sentido de que a expressão prática dos dons espirituais se dê por meio de 
serviços efetivos, não necessariamente através dos ofícios. Aliás, no Novo 
Testamento, os ofícios foram estabelecidos tendo em vista a fundação da Igreja 
Cristã. Portanto, não se repete alicerce que é estabelecido de uma vez por todas, 
se constrói sobre ele. 
A busca de equilíbrio entre cargos e função enfrenta o problema do 
personalismo. A sociedade ensina a desenvolver um espírito individualista e 
independente. Contudo, no corpo de Cristo o princípio que rege é a 
interdependências. Só quando dependemos mutuamente uns dos outros em 
cada área da vida e ministério é que teremos a liberdade de dar e receber 
segundo a vontade de Deus. Nenhuma parte do corpo, portanto, tem chance de 
se sustentar e crescer sem a inter-relação com as demais. 
Quando entendemos que Deus nos colocou parafuncionar dentro desse 
harmonioso ambiente de serviços mútuos, então nos sentiremos mais capazes 
para servir com os dons concedidos pelo Espírito Santo. Na igreja não cabe 
 
 
12 
colocar uma coisa no centro e fazer com que a mesma seja tudo. É, pois, na 
variedade que todos dão testemunho da admirável unidade existente no corpo 
de Cristo. Com efeito, a própria diversidade de dons e ministérios unifica os 
membros da igreja local. 
Os vários tipos de ministérios não implicam que a vida cristã tenha dois 
níveis, correspondendo a algo vagamente parecido com “líderes” (uma 
palavra que nunca aparece no Novo Testamento para descrever esses 
ofícios) e o povo. A distinção comumente feita entre o ministério 
especializado e o serviço dos leigos é funcional. Os que trabalham em 
tempo integral, qualquer que seja o título, não estão acima dos outros, 
nem mais próximos de Deus, nem são mais importantes do que os 
membros de sua igreja. (Ferreira; Myatt, 2007, p. 977) 
Não há, pois, em Cristo ou na igreja, nenhuma desigualdade. Todos os 
membros do corpo de Cristo são igualmente importantes. Todavia, não podemos 
negar que certos ministérios (não seus componentes) se sobressaem mais que 
outros, no contexto da organização da igreja. Os ministérios que incluem o 
púlpito, por exemplo, têm mais visibilidade e atenção, mas isso não faz deles 
superiores àqueles menos vistos ou considerados “menos dignos”. Esse é um 
grande desafio, especialmente para aqueles membros que estão em posição de 
liderança: eles têm o dever de honrar os ministérios que, segundo seus 
conceitos, parecem inferiores. 
Isso é para retirar do homem qualquer glória na participação nas 
manifestações dos dons espirituais (1 Coríntios 1.27-29; 2.1-5). Deus não 
despreza as habilidades e talentos naturais dos homens, mesmo porque foi Ele 
mesmo que nos criou, porém é o homem que não sabe discernir tais verdades e 
se acha criador e autor de alguma coisa. Todo conhecimento deve ser trazido 
cativo a Cristo. Para Gee (1985, p. 85), 
o ministério, baseado sobre dons do homem natural, quase nunca 
produz impressão. Geralmente atrai a atenção à rara competência do 
indivíduo e glorifica ao homem. Mas o ministério verdadeiro, baseado 
sobre os dons espirituais, não glorifica ao homem, mas a Deus. Era 
assim no verdadeiro ministério apostólico (cf. 1 Coríntios 2). 
Jesus Cristo não é lembrado por haver realizado obras faraônicas ou 
criado sistemas filosóficos, mas sim por seu profundo amor vivenciado em todos 
os momentos de sua curta existência pública; da mesma forma o crente fiel deve 
imitá-lo e deixar um exemplo que desafie os outros a seguir seus passos. 
Quando isso ocorre, ele torna-se um homem ou uma mulher “de peso”, incapaz 
de ser levado por qualquer vento de doutrinas e modismos religiosos. 
 
 
13 
A igreja existe para ser uma comunidade de serviços. Nosso referencial 
de serviço é único – Jesus. Ele serviu com a sua própria vida! Na igreja de Cristo, 
ninguém tem autonomia para se autonomear para o ministério. Pastores, 
presbíteros e diáconos, todos, sem exceção, precisam ser chamados por Deus 
para servir nesses ofícios (Hebreus 5.4). O que possibilita um ofício é a vocação, 
de modo que ninguém pode exercê-lo correta ou legitimamente sem antes ser 
eleito por Deus. 
NA PRÁTICA 
Nesta aula indicamos como interagir no corpo de Cristo e a busca de 
equilíbrio entre ofício e função. Ressaltamos, também, que a ideia de separar os 
assuntos dons espirituais e serviços cristãos na igreja é um artifício que não 
corresponde ao texto bíblico de 1 Coríntios 12.4-6, que afirma: “há diversidade 
de dons”, “há diversidade de ministérios” e “diversidade de operações”. 
FINALIZANDO 
Nesta aula, vimos que existe uma sinergia no exercício dos dons 
espirituais, no contexto da Igreja. “Todas as práticas da Igreja são ministérios. A 
Igreja estrutura-se sobre uma base de serviços. A Igreja, portanto, pode ser 
entendida como o povo de Deus Trinitário” (Josgrilberg; Reilly, 1991, p. 11). 
Pensar nos dons espirituais, é pensar em servir as pessoas em situações 
concretas; significa envolver-se com as demandas objetivas do outro. Implica, 
portanto, ajudar aquele que precisa de ajuda. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
FERREIRA, F.; MYATT, A. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007. 
GEE, D. Para que deis frutos. São Paulo: Vida, 1985. 
GILBERTO, A. 1 Coríntios. Rio de Janeiro: CPAD, 2009. 
JOSGRILBERG, R.; REILLY, D. A. Dons e ministérios fontes e desafios. 
Coleção Dons e Ministérios – Programa Agentes da Missão. Piracicaba, 1991. 
LOYD-JONES, M. Romanos – exposição do capítulo 12. São Paulo: PES, 2003. 
MACDONALD, W. Comentário bíblico popular. São Paulo: Mundo Cristão, 
2008.

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