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TEOLOGIA DOS DONS ESPIRITUAIS AULA 4 Profª Josadak Lima da Silva 2 INTRODUÇÃO Princípios para o uso adequado dos dons espirituais na comunidade de fé Olá, estudante! Nesta aula vamos observar que aquilo que normalmente denominamos de chamado é na verdade o dom fundamental concedido pelo Senhor. Veremos que, na comunidade de fé, a palavra “servir” tem a conotação de realizar uma tarefa em benefício do outro. Desse modo, quando servimos uns aos outros, passamos a fazer parte de uma engrenagem divina de um plano maravilhoso cuja dimensão nem conseguimos imaginar. TEMA 1 – O CRENTE COMO UMA DÁDIVA Em última análise, os crentes que o Espírito Santo prepara para ministrar internamente ao corpo de Cristo e aos incrédulos para crescimento do Reino de Deus são como uma dádiva. Logo, por meio de uma mesma pessoa (exemplo do apóstolo Paulo) podem operar mais de um dom espiritual, adequados ao ministério. A cooperação interna dos dons é um entendimento avançado da vontade de Deus, que gera saúde para a igreja local, harmonia e sinergia ou comunhão entre os membros e em relação ao próprio Deus. • O ministério de profeta utiliza o dom de profecia, e pode também ser necessário o da palavra de ciência. • O mestre precisa desesperadamente do dom espiritual da palavra de sabedoria; isso irá embelezar e dotar de brilho o seu ministério. • O pastor necessita do dom espiritual de discernimento de espíritos para proteger o seu rebanho de ensinos e profecias malignas ou mundanas. • O evangelista necessita dos dons de curas e operações de maravilhas para atrair multidões à conversão a Cristo. • O apóstolo precisa de muitos dos dons manifestacionais para fundar uma igreja local e ajudá-la a enfrentar poderes das trevas e problemas da indiferença humana ao Evangelho. Na mesma linha de raciocínio, imagine uma aula na escola dominical dada por um mestre e um evangelista ao mesmo tempo. O evangelista levaria a audiência a fazer parte da história bíblica, trazendo-a para o presente; e o mestre 3 explicaria com graça todos os detalhes. E ambos, mestre e evangelista, fixariam, de forma definitiva, a aula na mente e no coração do aluno. “O olho não pode dizer à mão: eu não preciso de ti. Nem a cabeça dizer aos pés: eu não preciso de vós” (1 Coríntios 12.21). TEMA 2 – AVALIE A QUALIDADE DE SEU SERVIÇO NO REINO DE DEUS O melhor texto para uma avaliação da qualidade dos nossos serviços no reino de Deus é, sem dúvida, 1 Coríntios 3.12-17. O texto menciona três tipos de materiais, “ouro”, “prata” e “pedras preciosas”, os quais não podem ser forçados a significar detalhes específicos na edificação cristã. Antes, devem ser entendidos como algo valioso, verdadeiro e duradouro, que é contrastado com as características desprezíveis, superficiais e inferiores da “madeira”, do “feno” e da “palha”. O conceito de avaliação nesse texto está na figura do “fogo”. Precisamos lembrar que o que está sendo provado pelo “fogo” não é a pessoa do crente, porém o seu serviço, pois, “há muito trabalho por aí, feito como se fosse para Deus, que não passa de trabalho puramente humanista e secular, e não contará para aquele grande dia” (Gilberto, 2009, p. 84) Ora, o “fogo” só queima o que não for de qualidade espiritual (madeira, feno e palha); o que for de qualidade espiritual (ouro, prata e pedras preciosas) o fogo apenas refinará e purificará. Então, o “dia” referido no versículo 13 aponta para o Tribunal de Cristo, no qual todo serviço no Reino de Deus será examinado. Hoje, é a Palavra de Deus que examina nossos serviços, bem como nossa consciência. Será que você não precisa melhorar seu desempenho no Reino de Deus? Não em quantidade, mas em qualidade! Olhando mais de perto 1 Coríntios, especialmente os versículos 14-17, o entendimento é que serviço cristão, no contexto da igreja, pode ter três categorias: • O versículo 14 fala do serviço proveitoso, que resiste à prova, pelo qual o servo receberá o galardão. • O versículo 15 fala do serviço inútil, que não resistirá à prova, pelo qual o servo sofrerá o dano. O que está em questão aqui não é a salvação, mas o comportamento do cristão que resiste ou não ao escrutínio do Senhor. 4 • O versículo 17 fala do serviço destrutivo, que desfigura o “santuário de Deus”, a igreja, pelo qual o servo também é desfigurado. Nesse mesmo contexto, a imagem revelada do “santuário de Deus” enfatiza a necessidade de um compromisso pessoal com a santidade, no qual a obediência ao chamamento, a fidelidade aos propósitos divinos e a representatividade de tudo o que é celestial neste mundo é o que tem valor diante do Senhor. Por outro lado, convém saber quais são as causas da destruição do “santuário de Deus”, que é a igreja. As cousas são muitas! Mas a principal é o serviço de má qualidade! Nessa perspectiva, Macdonald (2008, p. 484) diz que no serviço ao Senhor, bem como na vida cristã em geral, sempre existe o risco de autoengano. Talvez alguns mestres em Corinto se fizessem passar por homens de grande sabedoria. Qualquer um que possui um conceito elevado de sua própria sabedoria moral precisa aprender que é necessário tornar-se louco aos olhos do mundo para se tornar sábio diante de Deus. Tendo isso em vista, é possível dizer que o pior que pode acontecer é que o serviço que prestamos a Cristo possa vir a ser contaminado por aspectos naturais ou sentimentos humanos, como o orgulho e a ambição, não inspirado pelas obras de amor e compromisso. Que a promessa graciosa de Deus nos recompense por essas coisas que fazemos por amor a Ele! TEMA 3 – CERTIFIQUE SE VOCÊ É PESSOA CERTA, NO LUGAR CERTO, COM A MOTIVAÇÃO CERTA Sabemos que, no corpo humano, cada membro tem características próprias e traços distintos; cada um tem sua posição bem definida. Todos têm uma função própria. Por exemplo: todos têm habilidade para ouvir? Não! Só o ouvido. Todos têm habilidade para cheirar? Não! Só o nariz. Assim é no corpo de Cristo! A Bíblia utiliza a metáfora do corpo para falar da pessoa certa, no lugar certo, no corpo de Cristo. Em 1 Coríntios 12.18, faz-se a seguinte declaração: “Mas Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve”. Nesse sentido, a pergunta que não quer calar é a seguinte: mas, como saber qual é a minha função no corpo de Cristo? Vamos tentar responder a essa pergunta fazendo um exercício simples: se você tem habilidade especial para servir com uma visão penetrante das coisas espirituais, então você é “olho” no 5 corpo! Porém, se este não é o seu caso, sua habilidade mesmo é servir com um incrível tato espiritual; então você é “mão” no corpo: “e, se quisermos que ela cumpra a sua finalidade, é necessário que cada membro seja encontrado no lugar certo e funcionando numa justa relação com os demais” (Lindsay, 1996, p. 20.). Talvez você possa estar pensando: nada disso tem a ver comigo, o meu negócio mesmo é servir com uma profunda percepção ou discernimento espiritual. Então, você é “olfato” no corpo! Ou, quem sabe, você tem habilidade mesmo é para servir com uma aguçada audição do Espírito. Se esse é o caso, você é “ouvido” no corpo! Os dons estão intimamente ligados à questão da edificação igreja. Nessa mesma perspectiva, observe que os verbos utilizados em 1Coríntios 12.30 estão no presente contínuo e, à luz do contexto anterior (versículos 28-29), indicam que alguns membros do corpo de Cristo continuam a ministrar dons de curar, outros ministram regularmente as variedades de línguas ao corpo, e outros regularmente interpretam essas línguas para a congregação. “O Espírito Santo, ao conceder dons, o faz também na dimensão profética, como é próprio do atuar do Espírito Santo. O Espírito Santo da Igreja não desvincula os que se dedicam mais à dimensão do profeta. O Espírito da Igreja é essencialmenteprofético”. (Josgrilberg; Reilly, 1991, p. 12). Em outras palavras, esses verbos falam dos serviços regulares ao corpo de Cristo. O fato de as perguntas pedirem uma resposta negativa não deve ser enfatizado. Dessa forma, conclui-se que os dons espirituais têm uma função dupla: • Capacitação pessoal; • Edificação da igreja. Nessa mesma linha de raciocínio, em 1 Coríntios 12.31, o verbo “busquem”, referindo-se aos dons, está na terceira pessoa do plural, fazendo conexão com a igreja como um todo. Por isso, a virtude do amor, na sequência (1 Coríntios 13), aparece como o caminho com maior grau de excelência. O texto não diz que o amor deve ser exercido no lugar dos dons, mas que o amor é o contexto do exercício desses dons. Há um teste valioso para você descobrir se é a pessoa certa, no lugar certo no corpo de Cristo. Consiste no fato de que outras pessoas podem dar 6 testemunho a respeito do dom que você tem. Pois cada cristão é equipado por Deus com dons para servir em benefício da comunidade. A igreja está envolvida, sim, pois cada dom sempre visa ao bem do corpo todo. Nisso, nossas diferenças não podem gerar sentimentos de inferioridade, nem de superioridade. O que deve existir é um forte sentimento de pertencer. O testemunho de outros deve ocorrer no próprio campo de trabalho, a igreja local. Contudo, nem todos os carismas têm expressões “especiais” e nem todos os ministérios se tornam visíveis por manifestações “especiais” de carismas. Muitos ministérios se fazem a partir do carisma fundamental do amor e da graça. [...] É inútil, e em geral tem propósitos discriminatórios, a distinção entre dons e ministérios “naturais” e “sobrenaturais”. (Josgrilberg; Reilly, 1991, p. 13.) TEMA 4 – INTERAGINDO NO CORPO DE CRISTO Quando relacionamos o texto de 1 Coríntios 12.27-31 com Efésios 4.11- 12, constatamos que cada membro do corpo de Cristo pode ser considerado como um “dom” (dádiva de Deus) para a sua igreja local. Podemos entender melhor essa concepção voltando à figura do corpo. Imagine os seus olhos: eles são uma bênção para o seu corpo; sem os olhos, falta-lhe algo essencial. O propósito divino em nos doar ao corpo de Cristo é que desempenhemos um papel específico. Deus quer nos estabelecer como um membro que frutifica, por meio de nossos dons e talentos. Logo, os dons espirituais, como dotações e capacitações sobrenaturais do Espírito, são distribuídos a cada um sem acepção de pessoas. No corpo humano não há espaço para um membro ser passivo. Assim é também no corpo de Cristo. Se você faz parte efetivamente da igreja de Deus, não poderá dizer que é sem importância, sem valor. Já que, cada dom – independentemente qual – se orienta para um serviço objetivo e vitalmente solicitado pela comunidade, que é a responsável pelo reconhecimento dos mesmos em seu contexto e articular seus meios de serviços. Tanto um quanto outro é imprescindível para o funcionamento adequando do corpo. No corpo há diversos membros e múltiplas funções. No corpo de Cristo não há membro inútil. Sim, não há membro inútil, nem membro que não precise dos outros. Você tem um “lugar” no corpo de Cristo! Então, no que consistia o problema da igreja de Corinto? É que alguns 7 consideravam certos dons como “pequenos” ou inferiores, o serviço a Deus como algo pouco aparente. Stott (1986, p. 98) vai dizer que a Igreja se assemelha ao corpo humano, porque ambos são sistemas coordenados que consistem de muitos membros, dos quais cada um tem uma função distinta. É significativo que nas três passagens em que Paulo aborda a questão dos dons espirituais (Rm 12; 1Co 12 e Ef 4) ele usa o Batismo e Plenitude do Espírito Santo como metáforas do corpo. Parece que em sua mente o Corpo de Cristo e os charismata necessariamente precisam andar lado a lado. Em duas das três passagens, o vínculo entre ambos é bem evidente. Seu argumento é, por um lado, que como no corpo humano, também no Corpo de Cristo cada órgão ou membro tem alguma função e, por outro, que cada um tem uma função diferente. Hoje, toda vez que surge essa síndrome dos coríntios na igreja, é sinal que se “perdeu” a consciência de corpo. Na proporção em que ganhamos consciência do corpo, o individualismo vai perdendo terreno e espaço. A rigor, o corpo de Cristo é o lugar de interação e reciprocidade, no qual as vidas se voltam umas para as outras, como itinerário de cura pela graça. Deus fez com que o corpo de Cristo funcionasse dessa maneira para que não haja desavenças dentro da igreja em torno de personalidade, funções ou competências entre os membros. O fato de saber que existe uma interdependência, cujo fim é “tecer” nossas vidas com os demais, deve nos motivar a servir mutuamente. Assim, toda igreja é tanto carismática como ministerial, plena da ação do Espírito e serviço. Isso significa que essa igreja deve operacionalizar coesa – união total – sem divisões. Mas todos os seus membros precisam ser instruídos ou discipulados a uma consciência de que somos membros uns dos outros, que temos uma tarefa a cumprir, uma oração a fazer, uma palavra a declarar, ou seja, no corpo não pode haver membro apenas como mero espectador; precisamos estar em movimento, circulando. No corpo de Cristo não há membro inútil, bem como não há superioridade ou inferioridade de um membro em relação ao outro. Na relação do corpo de Cristo não há espaço para manifestações de superioridade de um sobre os outros, mas de complementaridade na diversidade de serviço mútuos na irredutível diferença. Eu pergunto: será que quando estamos reunidos em nossa igreja local, temos consciência de que somos membros mútuos, do corpo de Cristo? Ou os nossos dons nos separam em melhores e piores? 8 Os dons que Deus nos deu e os que Ele deu a outros, todos são importantes e necessários. Juntos eles formam o corpo de Cristo, completo e sadio, no qual todos os membros funcionam adequadamente. Somente quando paramos de desprezar os outros ou nós mesmos, e reconhecemos que os dons vêm de Deus, não haverá mais “divisão no corpo” (1Co 12.25). Deus odeia a discórdia. Sua vontade, pelo contrário, é que “cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros”, participando uns dos sofrimentos e das alegrias dos outros. E a grande verdade, a única que pode libertar- nos de inveja e vanglória, é que os dons espirituais são presentes de Deus, distribuídos por sua graça e de acordo com sua vontade. (Stott, 1986, p. 101) Ninguém se enxergar mais importante do que o outro é uma grande virtude. Esse era o grande problema da comunidade de Corinto; os crentes de Corinto estavam como que dizendo uns aos outros: “Não preciso de você”. Com essa atitude mostravam-se superiores ou mais importantes do que o outro. A distinção, portanto, não se funda sobre a forma de relação de cada um com Cristo, mas sobre a diversidade, voltada para o alcance total da comunidade. Uma das formas de avaliar se alguém verdadeiramente se porta como membro uns dos outros é se ele está comprometido em manter a unidade do Espírito e procura, de todas as formas, seguir aquilo que serve para a paz e a edificação do corpo (Efésios 4.3; Romanos 14.19). Em nossa convivência comunitária, devemos considerar sempre duas grandes realidades: associação e cooperação. Assim, originalmente, a igreja tem a ver com reunião, ajuntamento de pessoas que têm afinidade, características e objetivos comuns. À luz disso, a nossa responsabilidade cristã básica consiste em fazer com que as realidades espirituais do corpo fluam do papel, de nossas declarações teológicas, e aconteçam na prática de fato. Precisam “saltar” das páginas da Bíblia e ser inseridas em nossas atividades e atitudes diárias. TEMA 5 – EM BUSCA DE EQUILÍBRIO ENTRE OFÍCIO E FUNÇÃO Em primeiro lugar, não podemos confundir dons espirituais com cargos e títulos eclesiásticos. De modo geral,os cargos e títulos definem a necessária hierarquia dentro de uma igreja local; quase sempre são homologados nas convenções denominacionais e praticados na vida comunitária, de forma normativa. Uma igreja que opera num sistema de departamentos enfatiza as necessidades da instituição, e não necessariamente atende as reais necessidades espirituais das pessoas e as demandas do reino de Deus. 9 Portanto, os departamentos, quase sempre, funcionam para dentro, com ênfase na manutenção. Sua maior preocupação é com agenda, calendários e programas. Na prática, a cada ano ou dois no máximo, a igreja escolhe ou nomeia aqueles que vão ocupar os cargos dos departamentos afins, geralmente negligenciando os dons espirituais. E quase sempre a função não é compatível com seus dons, pois o foco é outro: a manutenção daquilo que se tem. Daí se faz programas na expectativa de atrair as pessoas. Quase sempre, nesse sistema departamental, tudo está centralizado na figura de um diretor ou presidente, eleito ou nomeado por certo período, o qual controla e supervisiona como se aquilo fosse um clube. Mas a natureza dos ministérios compatíveis com os dons é totalmente diferente, ao articular projetos e procurar encaixar as pessoas certas no lugar certo, formando um time ministerial, trabalhando todos juntos para obter os mesmos alvos. Assim, numa igreja de dons e ministérios o mais comum seria o líder delegar tarefas, no processo de expansão e cumprimento da missão proposta. A ideia tradicional que temos de uma igreja local é a de um pastor sobrecarregado, talvez ajudado por um pequeno núcleo de colaboradores dedicados, enquanto a maioria dos membros dá pouca ou nenhuma contribuição à vida e ao trabalho da igreja. Isto nos lembra mais a imagem de um ônibus (com um motorista e muitos passageiros sonolentos) do que a de um corpo (em que todos os membros são ativos, cada um contribuindo com uma atividade espacial para a saúde e a eficiência do todo). Na verdade, eu não duvido de que uma imagem falsa da igreja é uma das principais razões do crescimento do ’movimento carismático‘. Este movimento é um protesto contra o clericalismo (onde obreiros de tempo integral ocupam os espaços dos leigos), e uma tentativa de liberar os leigos para os papéis de liderança responsável para os quais Deus os dotou. (Stott, 1986, p. 98) O que estou querendo dizer é que se determinada igreja advoga ser uma igreja de dons e ministérios, mas na prática é uma igreja de programas, está sendo incoerente. Então, quando uma igreja local opta por estabelecer um sistema de ministérios, no qual suas funções são desenvolvidas orientadas pelos dons, ela precisa fazer grandes mudanças; um processo de transição de departamentos para ministérios. É necessária uma reestruturação profunda e longa, por se tratar de uma mudança do jeito de ser e fazer igreja. Não estamos falando apenas de uma troca de nomenclatura, mas de uma cultura de ministérios. A formação dessa nova cultura passa pelo caminho do discipulado. O ministério é dinâmico, existe em função de uma necessidade; não havendo a necessidade não faz sentido aquele ministério. 10 Por outro lado, a Bíblia apresenta alguns títulos e cargos eclesiásticos, tais como presbíteros (ou anciãos) e diáconos. Primeiramente, surgiu o ofício de diáconos (Atos 6.3-6) e depois de presbíteros (Atos 20.28), no qual a primeira função era dirigir e governar. Esses ofícios não são dons em si, mas a escolha deles era feita pela igreja local, sob a orientação do Espírito (Atos 6.3-6; 13.1-3). Esse princípio foi estabelecido para todos os tempos! Ora, se tal escolha era feita pela igreja, pelo povo, movida pelo Espírito, somos induzidos a pensar que essa ação era baseada na evidência dos dons em cada pessoa. Concordo com John Owen (citado por Stott, 1986, p. 96) quando expressou de maneira admirável: “A Igreja não tem poder para nomear alguém para uma função ministerial se Cristo não se antecipou à sua indicação concedendo-lhe dons espirituais”. Na mesma perspectiva, Kivitz (1986, p. 96), afirma: Não há qualquer dúvida, portanto, de que a proposta do Novo Testamento é que as igrejas funcionem à base do ministério de todos os seus membros, mobilizados por um grupo de cristãos fiéis e idôneos, que por sua vez dedicam, perfeitamente, tempo integral, mas podem e devem dedicar tempo parcial, quando a situação exigir. Com efeito, o Novo Testamento está sempre interessado em igrejas, não em movimentos ou organizações; em igrejas locais. Lloyd-Jones (2003, p. 364) diz Seguramente somos chamados a voltar ao modelo do Novo Testamento. Devemos reconhecer que a alguns é dado o dom especial de pregação e ensino, a outros o dom de pastoreio. Alguns recebem o dom de governo; e existem vários outros dons de expressão e de exortação. Lloyd-Jones (2003, p. 364) ainda afirma: A igreja primitiva era um corpo vivo, vibrante de vida, vida que se manifestava de várias maneiras, às vezes até com excessos, porque crianças tendem a partir para excessos. Mas os excessos infantis são melhores do que a inatividade da morte. A descrição em apreço é um grande quadro de vida, com alguns ministérios de destaque. No tempo do Novo Testamento, como em nossos dias, quando se confunde o ofício com o dom, corre-se o risco de criar uma expectativa inadequada em relação àqueles que atuam na comunidade de fé. Por outro lado, tanto em 1 Coríntios 12 como em Efésios 4, são mencionadas funções como dons espirituais, em que é claro que as pessoas designadas para os ofícios já 11 possuíam dons. Portanto, quando o Novo Testamento trata naturalmente de ofícios e dons e vice-versa, é porque os dons já estão sendo exercidos. Vale ressaltar, que em Romanos 12 Paulo está sendo dirigido a uma igreja local. Seria, por assim dizer, uma descrição da vida diária da comunidade, em uma cultura de dons e ministérios. Mas, o que isso quer dizer na prática? Bem, obviamente que a igreja local, segundo o Novo Testamento, consiste num corpo em funcionamento. Devemos tomar isso como líquido e certo. Será que não é hora de retornarmos ao próprio Novo Testamento ao invés de nos apegarmos aos modismos contemporâneos?! O Novo Testamento não visa apenas a igreja do primeiro século. Seus ensinos têm tudo a ver com a igreja contemporânea. Portanto, se uma igreja local se considera de dons e ministérios, todavia, opera na base institucional de títulos e cargos eclesiásticos, sem nenhuma aderência aos dons espirituais é, no mínimo, incoerente com a visão bíblica de igreja. Assim, Kivitz (1995, p. 80) entende que toda igreja que pretende ser de dons e ministérios precisa ter uma “agenda de execução flexível, aglutinando cristãos ao redor de projetos comuns, como projetos sociais, teatro, música, evangelização de grupos específicos, engajamento missionário, intercessão e outros”. Somente esse padrão cumpre o propósito dos dons: “um fim proveitoso” (1 Coríntios 12.7). Por isso que o ensino característico de Romanos 12.6-8 é no sentido de que a expressão prática dos dons espirituais se dê por meio de serviços efetivos, não necessariamente através dos ofícios. Aliás, no Novo Testamento, os ofícios foram estabelecidos tendo em vista a fundação da Igreja Cristã. Portanto, não se repete alicerce que é estabelecido de uma vez por todas, se constrói sobre ele. A busca de equilíbrio entre cargos e função enfrenta o problema do personalismo. A sociedade ensina a desenvolver um espírito individualista e independente. Contudo, no corpo de Cristo o princípio que rege é a interdependências. Só quando dependemos mutuamente uns dos outros em cada área da vida e ministério é que teremos a liberdade de dar e receber segundo a vontade de Deus. Nenhuma parte do corpo, portanto, tem chance de se sustentar e crescer sem a inter-relação com as demais. Quando entendemos que Deus nos colocou parafuncionar dentro desse harmonioso ambiente de serviços mútuos, então nos sentiremos mais capazes para servir com os dons concedidos pelo Espírito Santo. Na igreja não cabe 12 colocar uma coisa no centro e fazer com que a mesma seja tudo. É, pois, na variedade que todos dão testemunho da admirável unidade existente no corpo de Cristo. Com efeito, a própria diversidade de dons e ministérios unifica os membros da igreja local. Os vários tipos de ministérios não implicam que a vida cristã tenha dois níveis, correspondendo a algo vagamente parecido com “líderes” (uma palavra que nunca aparece no Novo Testamento para descrever esses ofícios) e o povo. A distinção comumente feita entre o ministério especializado e o serviço dos leigos é funcional. Os que trabalham em tempo integral, qualquer que seja o título, não estão acima dos outros, nem mais próximos de Deus, nem são mais importantes do que os membros de sua igreja. (Ferreira; Myatt, 2007, p. 977) Não há, pois, em Cristo ou na igreja, nenhuma desigualdade. Todos os membros do corpo de Cristo são igualmente importantes. Todavia, não podemos negar que certos ministérios (não seus componentes) se sobressaem mais que outros, no contexto da organização da igreja. Os ministérios que incluem o púlpito, por exemplo, têm mais visibilidade e atenção, mas isso não faz deles superiores àqueles menos vistos ou considerados “menos dignos”. Esse é um grande desafio, especialmente para aqueles membros que estão em posição de liderança: eles têm o dever de honrar os ministérios que, segundo seus conceitos, parecem inferiores. Isso é para retirar do homem qualquer glória na participação nas manifestações dos dons espirituais (1 Coríntios 1.27-29; 2.1-5). Deus não despreza as habilidades e talentos naturais dos homens, mesmo porque foi Ele mesmo que nos criou, porém é o homem que não sabe discernir tais verdades e se acha criador e autor de alguma coisa. Todo conhecimento deve ser trazido cativo a Cristo. Para Gee (1985, p. 85), o ministério, baseado sobre dons do homem natural, quase nunca produz impressão. Geralmente atrai a atenção à rara competência do indivíduo e glorifica ao homem. Mas o ministério verdadeiro, baseado sobre os dons espirituais, não glorifica ao homem, mas a Deus. Era assim no verdadeiro ministério apostólico (cf. 1 Coríntios 2). Jesus Cristo não é lembrado por haver realizado obras faraônicas ou criado sistemas filosóficos, mas sim por seu profundo amor vivenciado em todos os momentos de sua curta existência pública; da mesma forma o crente fiel deve imitá-lo e deixar um exemplo que desafie os outros a seguir seus passos. Quando isso ocorre, ele torna-se um homem ou uma mulher “de peso”, incapaz de ser levado por qualquer vento de doutrinas e modismos religiosos. 13 A igreja existe para ser uma comunidade de serviços. Nosso referencial de serviço é único – Jesus. Ele serviu com a sua própria vida! Na igreja de Cristo, ninguém tem autonomia para se autonomear para o ministério. Pastores, presbíteros e diáconos, todos, sem exceção, precisam ser chamados por Deus para servir nesses ofícios (Hebreus 5.4). O que possibilita um ofício é a vocação, de modo que ninguém pode exercê-lo correta ou legitimamente sem antes ser eleito por Deus. NA PRÁTICA Nesta aula indicamos como interagir no corpo de Cristo e a busca de equilíbrio entre ofício e função. Ressaltamos, também, que a ideia de separar os assuntos dons espirituais e serviços cristãos na igreja é um artifício que não corresponde ao texto bíblico de 1 Coríntios 12.4-6, que afirma: “há diversidade de dons”, “há diversidade de ministérios” e “diversidade de operações”. FINALIZANDO Nesta aula, vimos que existe uma sinergia no exercício dos dons espirituais, no contexto da Igreja. “Todas as práticas da Igreja são ministérios. A Igreja estrutura-se sobre uma base de serviços. A Igreja, portanto, pode ser entendida como o povo de Deus Trinitário” (Josgrilberg; Reilly, 1991, p. 11). Pensar nos dons espirituais, é pensar em servir as pessoas em situações concretas; significa envolver-se com as demandas objetivas do outro. Implica, portanto, ajudar aquele que precisa de ajuda. 14 REFERÊNCIAS FERREIRA, F.; MYATT, A. Teologia sistemática. São Paulo: Vida Nova, 2007. GEE, D. Para que deis frutos. São Paulo: Vida, 1985. GILBERTO, A. 1 Coríntios. Rio de Janeiro: CPAD, 2009. JOSGRILBERG, R.; REILLY, D. A. Dons e ministérios fontes e desafios. Coleção Dons e Ministérios – Programa Agentes da Missão. Piracicaba, 1991. LOYD-JONES, M. Romanos – exposição do capítulo 12. São Paulo: PES, 2003. MACDONALD, W. Comentário bíblico popular. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.