A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
23 pág.
Epistemologia da história da psicologia

Pré-visualização | Página 4 de 6

o mundo físico enquanto matéria, a pensar e a especular sobre ele. Mas essa especulação levou à conclusão de que os sentidos nos enganam. Não haveria verdades, tudo seria subjetivo e o pensamento serviria para defender o que se quiser.
Trata-se de uma crise filosófica: não há verdade possível e deixa-se de se acreditar na religião, na ética e nos valores.
Sócrates:
Tudo o que se sabe dele vem de Platão e, em muitos casos, falar de Sócrates é equivalente a falar de Platão. 
Sócrates caracterizar-se-ia principalmente por um método de interrogar sobre o que era socialmente estabelecido como verdade ética e, assim, chegar à “verdadeira verdade” sobre os motivos do nosso comportamento. Defendia também a imortalidade da alma e acreditava que o conhecimento era possível, necessário e que estava dentro de nós.
Sócrates também acreditava que a verdade não se atingia através dos sentidos e que estes eram enganadores: desaparecida uma sensação, o conhecimento perdura, o que significa que a verdade não está nos sentidos.
Esta compreensão das verdades era possibilitada pela alma que, tal como em Pitágoras, conhecia diretamente as essências e não as aparências, que são as únicas representações dos sentidos. Estas verdades têm de ser procuradas no próprio sujeito: apenas quem pratica a contemplação da mente consegue entender as essências puras.
Platão:
Platão vai buscar à subjetividade o seu pilar com que vai erguer um edifício de certezas. Apesar de toda a confusão dos sentidos, permanece o facto de que existem ideias claras, inequívocas, para o bem, o justo, o belo, etc.
Mesmo quando analisamos o mundo sensível, fazemo-lo a partir de conceitos que não se encontram nesse mundo sensível: diferença, semelhança, identidade, multiplicidade, são detetadas pela mente e não deduzidas pelos sentidos. Estas ideias não ocorrem com base nos sentidos. 
Assim, têm de ter uma outra origem: essa origem deve ser a própria mente. Mas as ideias claras só com dificuldade e graças a uma disciplina mental austera se conseguem atingir.
Somos perturbados pelos desejos do corpo- o poder, o prazer corporal- e não procuramos a verdade. É como se dessas ideias puras apenas tivéssemos uma recordação ténue (de quando não estávamos a ser perturbados pelo corpo).
Estas ideias puras, ou formas, existem como objeto de conhecimento ou como realidades: a alma racional pode apreender as ideias se for desenvolvido pensamento abstrato e, se conseguir submeter as paixões do corpo a uma disciplina rigorosa, temos então as ideias puras.
A ideia de que existem na mente já ideias inatas com origem no mundo imaterial, pertence ao movimento do idealismo, que é o âmago da filosofia de Platão. 
Como vimos, os gregos tinham primeiro isolado o mundo físico como diferente do sujeito. Ao perceber que esse mundo físico é, afinal, enganador, afirmaram que a única realidade era a subjetividade, sempre em mudança, de cada sujeito. Esse sujeito parece mutável, sem ordem, com subjetividades diferentes em momentos diferentes, e cai-se no relativismo de se afirmar que ele é apenas a realidade das coisas. Perante essa dificuldade, Platão erige uma verdade que o sujeito pode estudar: o mundo das ideias puras.
Para compreender este mundo, é necessário saber que Platão, tal como Pitágoras e vários outros pensadores, acreditavam na vida da alma racional independente do corpo e que, só quando a alma estivesse nesse estado incorpóreo (imaterial) teria acesso a toda a verdade pura. 
Ideias puras como realidades não psicológicas:
As ideias puras de Platão não são conceitos psicológicos; correspondem a realidades no mundo ideal. Os conceitos correspondentes a essas formas são apenas elaborações psicológicas. Ou seja, a ideia abstrata de Belo eu construo a partir de várias coisas belas. As formas são, então, produtos da mente e não existem fora dela e são independentes ao mundo percecionado.
Pode então defender-se que as ideias puras platónicas são uma reificação/coisificação e correspondem a uma transformação de uma construção da mente de algo exterior a essa mente.
No caso de Platão, trata-se da reificação de um conteúdo mental num conceito abstrato (“puro e ideal”) e não num conceito grosseiramente material.
Esta posição de Platão é um degrau necessário para a formação de uma psicologia: só compreendendo o sujeito como contemplador de um mundo mental é possível descrever esse sujeito mental. Posso apenas compreender-me como mente se for espetador de conceitos que criei para descrever essa mente (tenho determinadas maneiras de pensar, reagir, gosto mais disto do que daquilo).
Análise das ideias de Platão quanto à mente:
Até ao tempo de Platão, em Atenas, o significado de Psyche era relativamente incerto: queria dizer “ânimo” e “animação do corpo”. Era, pois, uma psique formulada em termos comportamentais e não de subjetividade. Platão altera essa situação: psique quer dizer mente, a nossa vida interior (a vida de que cada um de nós tem consciência).
Chegar às formas puras, isto é, viver no mundo das ideias, seria a maneira de nos elevarmos a um grau de felicidade mais seguro e menos incerto do que simplesmente procurarmos prazer.
A alma não é apenas racional, mas principalmente movida pelo desejo (alma motivada). Esse desejo, essa luta constante consigo e com os outros, é a própria vida. Numa vida não cultivada, os desejos são todos materiais/carnais. Numa alma harmoniosa, esses objetivos são substituídos pelo desejo da posse das ideias puras.
Caminho de aperfeiçoamento espiritual:
Conflito entre tendências da mente: Platão explica a alma em termos do funcionamento de várias tendências. Procura explicar como atingir a justiça e, no processo, fornece uma teoria motivacional. Para se compreender o funcionamento dessas várias tendências convém recordar que Platão queria chegar a uma formulação justa e ética, não só da pessoa, mas também da sociedade.
Assim, quer numa república, quer numa pessoa justa, há três funções interligadas. Isto é o mesmo que dizer que a psique tem três funções:
· Os filósofos e a razão (logistikon);
· Os guardas e a paixão (thymos);
· Os artesãos e os apetites corporais (epitymetikon).
Há, então, três tipos de forças a agir na nossa alma e qualquer uma delas pode tomar precedência e dominar a consciência (o eu-sujeito), mas apenas uma delas nos permite escolher o nosso rumo, a razão.
Platão diz que em todas as pessoas há desejos contrários à razão e que se há pessoas que os controlam a ponto de quase os extinguir, outras há em quem eles se reforçam e multiplicam. Sendo particularmente evidentes nos sonhos.
Platão parece oscilar entre a ideia de uma alma racional una e de uma alma tripartida. Defende que na República não se pode usar um conceito unitário quando há conflitos internos.
Teoria da visão: Através da teoria do raio de fogo, no Timeu, verificamos que a mente vai buscar, não recebe. Isto é uma prova do voluntarismo, da inspiração na própria experiência. Isto é, o que sentimos, é aquilo que vamos buscar porque queremos ver, não o que o exterior nos impõe.
Imortalidade da alma: Platão acredita na imortalidade das almas, no entanto, contradiz-se em duas das suas formulações acerca das mesmas:
· A alma racional (que contempla as ideias puras) é imortal e as almas inferiores morrem;
· As almas justas são recompensadas, enquanto que as más vão para o Tártaro, onde ficam por um tempo proporcional aos seus feitos impiedosos.
Dada a teoria da visão, é miais provável que seja a segunda hipótese.
Psicologia, ética ou epistemologia? A psicologia platónica é a hierarquia dos objetos de consciência, a teoria da relação entre os sentidos e a alma e a teoria das três vontades. 
Como a realidade última é invisível, imaterial e apenas imaginável por hipóteses mentais, tem de existir uma psicologia mínima que mostra as operações da alma e a maneira como ela chega a essa realidade última. É, pois, uma parte de uma ética, um programa de conduta para melhorar o homem e a sociedade e não uma psicologia.
A mente, contudo, é inequivocamente afirmada: ela é o que permite