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LICENCIATURA EM HISTÓRIA INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS I Semestre 1 Prof. Carlos Eduardo Finochio UNIVERSIDADE METROPOLITANA DE SANTOS INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS� UNIMES VIRTUAL L782c LOBO, Maurício Nunes Curso de Pedagogia: Atividades Curriculares Acadêmicas Adicionais (por) Prof. Maurício Nunes Lobo. Semestre 2. Santos: UNIMES VIRTUAL. UNIMES. 2006. 22p. 1. Pedagogia 2. Atividades Curriculares Acadêmicas Adicionais. CDD 371 Universidade Metropolitana de Santos Campus II – UNIMES VIRTUAL Av. Conselheiro Nébias, 536 - Bairro Encruzilhada, Santos - São Paulo Tel: (13) 3228-3400 Fax: (13) 3228-3410 www.unimesvirtual.com.br Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio sem a prévia autorização desta instituição. www.unimesvirtual.com.br INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS � UNIMES VIRTUAL UNIMES – Universidade Metropolitana de Santos - Campus I e III Rua da Constituição, 374 e Rua Conselheiro Saraiva, 31 Bairro Vila Nova, Santos - São Paulo - Tel.: (13) 3226-3400 E-mail: infounimes@unimes.br Site: www.unimes.br Prof.ª Renata Garcia de Siqueira Viegas da Cruz Reitora da UNIMES Prof. Rubens Flávio de Siqueira Viegas Júnior Pró-Reitor Administrativo Prof.ª Rosinha Garcia de Siqueira Viegas Pró-Reitora Comunitária Prof.ª Vera Aparecida Taboada de Carvalho Raphaelli Pró-Reitora Acadêmica Prof.ª Carmem Lúcia Taboada de Carvalho Secretária Geral mailto:infounimes@unimes.br www.unimes.br INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS� UNIMES VIRTUAL EQUIPE UNIMES VIRTUAL Diretor Executivo Prof. Eduardo Lobo Supervisão de Projetos Prof.ª Deborah Guimarães Prof.ª Doroti Macedo Prof.ª Maria Emilia Sardelich Prof. Sérgio Leite Grupo de Apoio Pedagógico - GAP Prof.ª Elisabeth dos Santos Tavares - Supervisão Prof.ª Denise Mattos Marino Prof.ª Joice Firmino da Silva Prof.ª Márcia Cristina Ferrete Rodriguez Prof.ª Maria Luiza Miguel Prof. Maurício Nunes Lobo Prof.ª Neuza Maria de Souza Feitoza Prof.ª Rita de Cássia Morais de Oliveira Prof. Thiago Simão Gomes Angélica Ramacciotti Leandro César Martins Baron Grupo de Tecnologia - GTEC Luiz Felipe Silva dos Reis - Supervisão André Luiz Velosco Martinho Carlos Eduardo Lopes Clécio Almeida Ribeiro Grupo de Comunicação - GCOM Ana Beatriz Tostes Carolina Ferreira Flávio Celino Gabriele Pontes Joice Siqueira Leonardo Andrade Lílian Queirós Marcos Paulo da Silva Nildo Ferreira Ronaldo Andrade Stênio Elias Losada Tiago Macena William Souza Grupo de Design Multimídia - GDM Alexandre Amparo Lopes da Silva - Supervisão Francisco de Borja Cruz - Supervisão Alexandre Luiz Salgado Prado Lucas Thadeu Rios de Oliveira Marcelo da Silva Franco Secretaria e Apoio Administrativo Camila Souto Carolina Faulin de Souza Dalva Maria de Freitas Pereira Danúsia da Silva Souza Raphael Tavares Sílvia Becinere da Silva Paiva Solange Helena de Abreu Roque Viviane Ferreira INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS � UNIMES VIRTUAL AULA INAUGURAL Olá! Muito prazer em poder conhecer você através da construção de um novo mundo... Um mundo de responsabilidades e de construção de conhecimento... CONHECIMENTO, SABERES, CULTURA... Nosso maior tesouro. Que bom podermos falar de História!!! Que bom podermos falar da nossa sociedade!!! Que bom podermos falar de nós mesmos!!! Vamos trabalhar, juntos, esse universo único e tão atraente que é a HIS- TÓRIA. Vamos falar de cultura, de fatos, acontecimentos, de tempo e lugares... Espero, de coração, que nossa jornada, nossa HISTÓRIA, seja de grande troca, de grande enriquecimento e muita alegria. Parabéns! Parabéns por ter escolhido História, pois são raras as pessoas que têm essa sensibilidade. Isso faz de você alguém muito especial. Pode acreditar! Seja Bem-vindo! Um abraço, Prof. Carlos Eduardo Finochio INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS� UNIMES VIRTUAL INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS � UNIMES VIRTUAL Índice Unidade I - História: Conceitos e Trajetórias ...................................................... 11 Aula: 01 - O que é História I - conceitos ..................................................................... 12 Aula: 02 - O que é História II – trajetória .................................................................... 15 Aula: 03 - História e a Modernidade ........................................................................... 18 Aula: 04 - História na Atualidade ................................................................................ 21 Aula: 05 - História e as ciências auxiliares I ............................................................... 24 Aula: 06 - História e as ciências auxiliares II .............................................................. 27 Resumo Unidade I ...................................................................................................... 29 Unidade II - História e Produção ........................................................................ 33 Aula: 07 - Fontes Históricas ....................................................................................... 34 Aula: 08 - Análise do Documento Histórico ................................................................ 36 Aula: 09 - O Objeto da História ................................................................................... 38 Aula: 10 - O Fato Histórico ......................................................................................... 41 Aula: 11 - A Produção Histórica ................................................................................. 44 Resumo Unidade II ..................................................................................................... 47 Unidade III - A Construção do Conhecimento Histórico ..................................... 51 Aula: 12 - História e Memória I – Tradição Oral .......................................................... 52 Aula: 13 - História e Memória II – Trajetória ............................................................... 55 Aula: 14 - História e Conhecimento ............................................................................ 58 Aula: 15 - Ensinando História no Brasil ....................................................................... 61 Aula: 16 - Afinal, História é Ciência? .......................................................................... 64 Resumo Unidade III .................................................................................................... 67 INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS10 UNIMES VIRTUAL INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 11 UNIMES VIRTUAL Unidade I História: Conceitos e Trajetórias Objetivos A unidade I pretende trabalhar os conceitos básicos de História e a sua trajetória, abordando a função da História e as ciências auxiliares. Plano de Estudo Esta unidade conta com as seguintes aulas: Aula: 01 - O que é História I - conceitos Aula: 02 - O que é História II – trajetória Aula: 03 - História e a Modernidade Aula: 0� - História na Atualidade Aula: 0� - História e as ciências auxiliares I Aula: 0� - História e as ciências auxiliares II INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS12 UNIMES VIRTUAL Aula: 01 Temática: O que é História I - conceitos No nosso primeiro encontro, vamos abordar alguns concei- tos de História e seus desdobramentos. Para facilitar o nosso primeiro encontro, vamos imaginar uma situação bem corriqueira do nosso cotidiano? Vamos lá... Pense numa criança, ainda em fase de alfabetização, ouvindo a mãe dizer: - Agora vou contar uma historinha pra você dormir. O que será que se passa na cabeça dessa criança? O que ela espera ouvir? Qual é a imagem que ela projeta ao ouvir a narrativa da mãe? Pois bem. Agora, pense um pouco o que representa cada uma dessas palavras para você: • Lenda • Fábula • Parábola • Mito • Conto de fadas • “história” • História Percebeu alguma coisa estranha? Percebeu alguma palavrarepetida? Sabe, de verdade, o significado de cada uma? Qual a diferença entre elas? Pois é... O que vamos tratar aqui não é da história ficção, da história fantasia. Vamos, sim, trabalhar a História ciência. Esta História com a letra H maiúscula. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 13 UNIMES VIRTUAL A origem da palavra História é grega. O latim foi responsá- vel pela sua divulgação em vários idiomas modernos. Seu significado passa pela questão do fato: sua exposição, seu estudo e o próprio fato em si. Hoje, a palavra História é empregada no sen- tido subjetivo e objetivo. Ao falarmos em História como estudo, processo de pesquisa ou conhecimento do passado da humanidade, estamos traba- lhando o seu sentido subjetivo. Como exemplo, podemos dizer: “A História Medieval é bastante complexa”. Por outro lado, quando empregamos a palavra História para designar os acontecimentos do passado, estamos usando o sentido objetivo, isto é, estamos pensando no objeto dos estu- dos históricos que é o próprio fato. A memória da humanidade é conservada nos arquivos da história. As ori- gens da sociedade, a evolução dos povos antigos, o auge e a decadência das civilizações, os feitos de personagens ilustres, os antecedentes de acontecimentos e situações contemporâneas e a trajetória do homem ao longo do tempo são temas históricos que constituem uma parte fundamen- tal da cultura individual e coletiva. O vocábulo grego história, que significa “conhecimento por meio de uma indagação”, deriva de hístor: “sábio” ou “conhecedor”. O termo latino história foi adotado por quase todos os idio- mas ocidentais, com exceções como o alemão (Geschichte). Na atualidade, as definições podem dar margem a dúvidas e infindos de- bates. Uma linha pode localizar a História como uma ciência por trabalhar com documentos e ter a preocupação de indicar causas e conseqüências dos eventos do passado humano. Vejamos algumas definições para a História: > “A História é a ciência dos atos humanos do passado e dos vários fato- res que neles influíram, vistos na sua sucessão temporal”. > “Exposição verídica dos principais acontecimentos do passado da hu- manidade, considerados em suas causas e conseqüências”. > “A História é o conhecimento do passado humano”. > “A ciência histórica estuda e expõe os fatos do desenvolvimento do homem nas suas manifestações como ser social no tempo e no espaço”. > “A História estuda ações dos homens, procurando explicar as relações entre seus diferentes grupos”. > “Narrativa de fatos notáveis ocorridos na vida dos povos, em particular, e da humanidade em geral”. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS1� UNIMES VIRTUAL Do elenco de enfoques acima citados, podemos destacar algumas referên- cias relevantes: 1. Exposição se refere ao trabalho criterioso de investigação e o conheci- mento de seus resultados. 2. A questão de ser verídica, tal exposição, está voltada para uma investi- gação fundamentada em fontes fidedignas. 3. “Os principais acontecimentos”, ou “fatos notáveis”, podem levar o his- toriador a desprezar todo um contexto de entorno, fazendo uma História segmentada, privilegiando os heróis e desconsiderando outros agentes. �. O termo “passado” não pode ser entendido apenas como remoto, muito distante, mas também como um passado próximo. Essa questão do tempo histórico, será abordada em outras oportunidades futuras. �. As causas e conseqüências também nos levam ao entendimento de algo em processo, dinâmico e não estático. �. O homem, como agente da História, e seu objeto de estudo, em seus diferentes grupos estão situados nas relações sociais em permanente mo- vimento. Lucien Febvre, historiador francês (1878-1956), qualifica a História como um estudo cientificamente conduzido e não como uma ciência, porque considera ciência como somas de resultados. História é a necessidade de recomeçar, refazer, de repensar quando preciso. Os resultados adquiridos são readaptáveis. O homem é o único objeto da História, uma disciplina humana, ao lado de outras. Uma História que se interessa por homens com múltiplas funções, aptidões variadas, que entram em conflito e chegam a um modo de vida. Acredito que agora já podemos propor uma reflexão em 3 momentos: • Será que a História que aprendemos na escola passa por uma abor- dagem científica? • Consigo perceber a complexidade das várias definições expostas? • Qual é a verdadeira dimensão do “passado” para a História? Fato histórico, tempo histórico e fontes históricas serão os temas das nossas próximas aulas. Conto com sua partici- pação! INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 1� UNIMES VIRTUAL Aula: 02 Temática: O que é História II – trajetória Agora que já estamos aquecidos, podemos estudar a traje- tória da História! Uma breve retomada: Vimos que a História está sempre se constituindo e que o conhecimento produzido por ela nunca é acabado. Os historiadores buscam uma delimita- ção para o seu campo específico de atuação. Debatem se a História deve estudar só o passado ou pode fazer, ainda, previsões para o futuro. Outra discussão freqüente é a definição das técnicas para se atingir o conheci- mento histórico. Apesar de a História ter surgido no século VI a.C. (região do Mediterrâneo), desde sempre os homens sentem a necessidade de explicar a sua própria origem, a origem de sua vida. A primeira forma de explicação, nas socie- dades primitivas, foi através do mito em forma da tradição oral. Tudo aqui- lo que o homem não explica ele mitifica. Assim os fenômenos da natureza estão sempre interpretados de maneira sobrenatural, mágica, mística e são divinizados. O homem tinha uma explicação religiosa para a realidade. Isso justifica os vários deuses e rituais primitivos ligados aos fenômenos naturais: deus do Sol, deus da morte, dança da chuva, etc. O mito tinha uma força grande nas sociedades primitivas, explicando situações para os povos que o aceitavam, como uma verdade. É claro que essa explicação mítica nunca vai desaparecer. Ela continua pa- ralela a outras formas de explicação da realidade como a própria história. A História, como forma de explicação, nasce unida à filosofia. Desde o início elas estão bastante ligadas; é a filosofia que vai tratar do conhecimento em geral. Em seu início, o campo filosófico abrange embriona- riamente todas as áreas que depois iriam se afirmar como autônomas. (...) São os próprios gregos que descobrem a importância específica da explicação histórica...1 1 In. BORGES, Vavy Pacheco. O que é História. São Paulo: Brasiliense, 1993. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS1� UNIMES VIRTUAL Heródoto, o chamado “pai da História”, seguindo Hecateau de Mileto, bus- cava a “verdade”, fazendo suas investigações. É o primeiro a usar a pala- vra no sentido de pesquisa. Naquele momento os historiadores estavam presos à sua realidade con- temporânea, mais imediata. Estudavam os fatos mais recentes do seu tempo. Não percebemos mais a preocupação com o remoto, com as ori- gens, mas sim a tentativa de entender um momento histórico concreto, presente, ou proximamente passado através de uma narração temporal – perceba que no mito, a narrativa é atemporal. Agora, analise esse pequeno texto do século II a. C., de Políbio, um histo- riador grego: Desde que um homem assume atitude de historiador, tem que esquecer todas as considerações, como o amor aos amigos e o ódio aos inimigos... Pois assim como os seres vivos se tornam inúteis quando priva- dos de olhos, também a História da qual foi retirada a verdade nada mais é do que um conto sem proveito. Perceba como o historiador passou a ter uma preocupação clara com a verdade. Como vimos na aula anterior, abordando os conceitos e as características da História e sua narrativa, uma questão fundamental é: > A questão de ser verídica, tal exposição, está voltada para uma investi- gação fundamentada em fontes fidedignas. Ou seja, a importância dos documentos que certificam os acontecimentos históricos. Na Idade Média, como fortalecimento da Igreja e a difusão do cristianis- mo, temos uma nova orientação para a abordagem histórica. A realidade passou a ser dividida em dois planos: o superior (representado por Deus) e o Inferior (representado pelo homem) – uma visão agostiniana (Santo Agostinho), gerando uma interpretação teológica da História. Era a Cidade de Deus (obra de Santo Agostinho) e a Cidade dos Homens. No início des- se período temos uma séria crise demográfica e uma acentuada regres- são cultural. Somente membros do clero eram alfabetizados, responsáveis pela maior parte da produção escrita – geralmente pela vida de santos. Os documentos leigos surgem a partir do século XII. É nesse tempo que o comércio e a cidade voltam a ter destaque na organização social, política e econômica da Europa. Os documentos eram os registros das atividades comerciais, os diários de escudeiros e dos cavaleiros, etc. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 1� UNIMES VIRTUAL Importante: - Os manuscritos eram feitos por pessoas contratadas, mediante paga- mento. Quem sabia ler e escrever eram, na sua grande maioria, membros do clero que tinham a preocupação em agradar os senhores e cavaleiros que pediam o registro de suas atividades. Assim, não vamos ter um rigor na pesquisa como os gregos buscaram em suas investigações. Os redato- res não estavam muito incentivados em aferir a veracidade dos fatos. Era o tempo em que a tradição oral predominava sobre a escrita. Vale refletir: Será que os registros que temos, na atualidade, para a construção do conhecimento histórico do presente e do futuro podem deixar o histo- riador tranqüilo quanto à veracidade dos fatos? INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS1� UNIMES VIRTUAL Aula: 03 Temática: História e a Modernidade Essa aula vai nos aproximar da situação atual da História como ciência e sua aplicação. Vimos que na Idade Média a fé predominava na mentalidade européia. Isso deu à História uma característica fantástica, plena de lendas e cre- dulidades refletidas no seu registro através da escrita. Uma narrativa com presença de milagres e do impossível. Já na Idade Moderna uma nova visão do mundo é denunciada pela própria História. A Europa passa por transformações na esfera econômica, política e social: >Renascimento urbano; >Renascimento cultural; > Desenvolvimento da tecnologia; > Desenvolvimento da indústria (inicialmente manufatureira); > Grandes Navegações; > Descoberta de novas terras e novas rotas marítimas comerciais; > Resgate dos princípios greco-romanos; > Valorização do homem (humanismo). O contato com a filosofia grega e oriental possibilita uma profunda modi- ficação na esfera cultural da Europa. O conhecimento deixa de partir da explicação divina em direção a uma explicação racional. A corrente do pensamento empírico, baseado na experiência do conheci- mento, se traduz numa forte tendência para a explicação de muitos fenô- menos. O uso da razão em substituição ao uso da fé. A partir do século XVI começa um trabalho mais criterioso nos estudos dos documentos, desenvolvendo técnicas na busca da precisão de infor- mações, visando à veracidade dos fatos. O Iluminismo, movimento de corrente filosófica do século XVIII, procurou mostrar a História como uma corrente linear progressiva da razão humana. Para eles, a verdade está mais próxima, pois a humanidade vai, sempre, dominar a natureza, numa evolução progressiva e constante. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 1� UNIMES VIRTUAL Com Voltaire, um dos maiores filósofos dessa escola, surge a preocupação com a sociedade em seu sentido mais amplo – ele quer ver a “história da civilização -, preocupação que acabará impondo-se na Europa Ocidental. O homem iluminado, levado pela fé em sua própria razão, trabalha para seu próprio progresso.” 1 Já no século XIX, o nacionalismo propõe uma organização dos Estados que estimula o estudo de sua própria história nacional. Cada país vai levan- tar a documentação que registra o seu passado. O governo é um grande organizador de centros de pesquisas. Foi na Alemanha que surgiu o interesse em situar a história como uma ciência, no momento em que a Europa vivia a época de grande desenvolvi- mento científico como a física e a química (ciências naturais). Pretendiam, os alemães, fazer da história uma ciência segura, com grau de exatidão baseado em métodos de trabalhos que estabelecessem leis e verdades. Isso iniciou um trabalho de crítica severa das fontes: era a chamada “esco- la científica alemã” cujo grande nome é Leopold Ranke. Para o historiador era preciso levantarem-se os fatos como eles realmente se passaram. Essa mentalidade vai dar força ao positivismo histórico. A História e o Positivismo O avanço científico europeu do início do século XIX, decorrente da Pri- meira Revolução Industrial, fez com que o homem acreditasse em seu completo domínio da natureza. O positivismo surgiu nessa época como uma corrente de pensamento que apregoava o predomínio da ciência e do método empírico sobre os devaneios metafísicos da religião. Agora podemos ler um fragmento da reportagem publicada na revista His- tória Viva, em março de 2005. ... O movimento intelectual erigido por Auguste Comte (1798-1857), de- fendia que todo saber do mundo físico advinha de fenômenos “positivos” (reais) da experiência, e eles seriam os únicos objetivos de investigação do conhecimento. (...) Na fase teológica o ser humano entende o mundo a partir dos fenô- menos da Natureza dando a eles caráter divino. Essa fase encerra-se no monoteísmo. Na fase metafísica, a interpretação do mundo é calcada em 1 In. BORGES, Vavy Pacheco. O que é História. São Paulo: Brasiliense, 1993. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS20 UNIMES VIRTUAL conceitos abstratos, idéias e princípios. Por fim, na fase positiva o ser hu- mano limita-se a expor os fenômenos e a fixar as relações constantes de semelhança e sucessão entre eles. Nessa fase, as causas e as essências dos fenômenos são deixadas de lado para se evidenciarem as leis imutá- veis que nos regem, pois o conhecimento destina-se a organizar e não a descobrir. (...) Embora o positivismo seja julgado metodologicamente ultrapassado por transformar a ciência em objeto de reflexão da filosofia, a epistemolo- gia comteana é possuidora de consideráveis princípios filosóficos que ten- tam determinar o homem em relação a sua atividade e espaço histórico. Atualmente, traços positivistas são identificados em diferentes atividades no mundo ocidental, e especialmente no Brasil. Para os seguidores dessa linha positivista, cabe ao historiador um levanta- mento científico dos fatos sem buscar interpretá-los. • Para o historiador positivista, os fatos se encadeiam mecanicamente numa relação determinista de causas e efeitos. • A História escrita pelos positivistas é uma cadeia de fatos isolados e feita por heróis. • O historiador vê o passado como algo morto sem fazer relação com o presente. Vale uma nova reflexão: O conhecimento histórico produzido pela história narrativa medieval em confronto com a produção histórica a partir do Renascimento. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 21 UNIMES VIRTUAL Aula: 0� Temática: História na Atualidade Já estudamos a trajetória e os conceitos de História, seus documentos e suas fontes. Agora você vai poder ver a sua aplicação e como os historiadores atuais encaram a História e seus desdobramentos. Quando estudamos a trajetória da História, chegamos no século XIX e per- cebemos que ela era pensada como uma narrativa dos grandes fatos e os heróis nacionais. Uma História diplomática, ligada aos eventos políticos e às mudanças. Para aqueles historiadores, o presente era melhor que o passado, enquan- to que o futuro seria sempre promissor – visão evolutiva e progressiva da história. Em um mundo em que a ciência e a tecnologia triunfavam, a noção de progresso se fazia cada vez mais presente na maneira não só de se entender a história, mas de conduzir as mentalidades daquela época.O século XX trouxe uma nova visão crítica ao campo da História. Essa visão de futuro sempre promissor foi questionada. Como diria o historiador Eric Hobsbawm “entramos numa Era de Incertezas” (título de sua obra). A preocupação passou a ser a colocação do homem no “seu tempo e es- paço” e não simplesmente no tempo passado, rígido, dos grandes feitos históricos. Em um artigo publicado na Revista História e-História, de março de 2004, cujo título é “Escritos Interrompidos: Marc Bloch, um combatente pela História”, o professor Renilso Rosa Ribeiro lembra: Poucos autores transformaram tanto um ramo do co- nhecimento quanto o historiador francês Marc Bloch. Professor da Sorbonne e um dos co-fundadores da Revista Annalles1, Bloch, junto com o seu companhei- ro de ofício Lucien Febvre, revolucionou a forma de 1 Nascida ao mesmo tempo que a revista dos Anais da História Econômica e Social, a Escola dos Anais, fundada em 1929 por Mar Bloch Febvre, reunia um grupo de historiado- res que, renegando a história tradicional factual, privilegiava a longa duração e procurava abrir-se para as outras ciências humanas. Após a Segunda Guerra Mundial, a importância dos Anais foi reconhecida. Desde os anos 70, historiadores como Emmanuel Leroy-La- durie, François Furet ou Jacques Le Goff, dão prosseguimento ao projeto interdisciplinar dos fundadores da Escola dos Anais, e apóiam-se em seus trabalhos sobre a antropologia e a sociologia. Essa “nova história” interessa-se particularmente pela história das men- talidades. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS22 UNIMES VIRTUAL se “fazer história” ao criar uma nova metodologia de estudos para esta área do saber. História para ele era análise e criticidade, e não mera narrativa; era com- preensão, e não julgamento; era reconstrução, e não apreensão; era duração, e não somente mudanças. A História dos Analles (ou Annales) Na França, nos anos 1930, Marc Bloch e Lucien Febvre, vão fazer uma revisão de todo esse complexo universo da História, causando uma verda- deira revolução no seu campo de atuação. São seus trabalhos, publicados na revista Anais de História Econômica e Social cujo primeiro número é publicado em 1929, que servem de base para a origem da conhecida “escola francesa” ou “escola dos Analles”, caracterizada pela luta contra a História exclusivamente política, narrativa e factual. A História ganhou um campo mais amplo de análise. Buscavam chamar atenção para a análise de estruturas sociais na sua totalidade, integrando os grupos humanos sob todos os aspectos (econômicos, políticos, culturais, religiosos, psicológi- cos etc.). Uma História aberta às outras áreas do conhecimento. Tanto que, os chamados herdeiros da Escola dos Analles, começaram a trabalhar com a chamada história das mentalidades, história do cotidiano, história da mulher, história do medo, do sexo ou da alimentação. Valoriza- vam a diversidade de grupos sociais, seus comportamentos, ou mesmo um fato único, mas não como o faziam na história positivista, e sim a partir do pressuposto que a diferença é a forma essencial para se pensar a constituição de uma sociedade. Essas novas aberturas para o campo da História como a História do Cotidiano, por exemplo, não é uma mera nar- rativa de banalidades sem articulação com o seu contex- to. A historiografia do cotidiano não pretende fazer discursos de simples curiosidades, pois, é palco da ação do homem e onde ela se mostra mais contínua e presa aos princípios de difícil mutação. Todo homem, rico ou pobre, preto ou branco, é um agente da história que merece estudo; por outro lado, conhecer as resistências às mudanças é essencial para se conduzir o processo transformador da socie- dade”.2 2 MELLO, Laura de. Revista promocional da Atual Editora, 1995, p. 07. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 23 UNIMES VIRTUAL Mesmo o estudo de fenômenos de massa deve ter como complemento a pesquisa das elites numa reconstituição do meio, no qual os agentes da história transformam-se. Nesse campo, a preocupação foi procurar dados preciosos para o estudo dos comportamentos e costumes do coletivo. Assim, nos deparamos com as novas preocupações da historiografia em busca de novos temas e agentes, favorecendo a abordagem de outros espaços e tempos, além de redesenhar as noções tradicionais de signifi- cados sob novo enfoque de discurso histórico. Nesse sentido, a fonte oral, as imagens e a cultura material se tornam pontos de apoios e de partida para a decodifi- cação das tramas de relações cotidianas e suas diferentes dimensões. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS2� UNIMES VIRTUAL Aula: 0� Temática: História e as ciências auxiliares I Nas aulas passadas, vimos o significado da palavra História e as suas várias definições. Percebemos a importância des- sa ciência para a compreensão da humanidade e da diversi- dade de grupos onde o homem sempre foi o seu agente. Apesar da História tratar do “passado”, é através dela que podemos am- pliar nossos conhecimentos sobre as problemáticas contemporâneas. Outras ciências podem auxiliar a História na sua abrangência. São as Ci- ências Humanas tais como a filosofia, sociologia, psicologia, antropologia, geografia, dentre outras. Mas, ciências de outras áreas do conhecimento podem atuar, junto com a História, nas investigações e reflexões sobre acontecimentos passados e seus reflexos no presente. Veja esse exemplo: Recentemente uma pesquisadora, descendente da família “Colón”, da Es- panha, iniciou uma pesquisa buscando identificar a verdadeira nacionali- dade de Cristóvão Colombo. A Historiografia registra o navegador como um italiano, filho de um casal humilde, sem recursos. A pesquisadora ao perceber que na região de origem de Colombo não havia registros dessa família, juntou uma série de evidências e partiu para uma pesquisa mais profunda. Seu objetivo era provar que sua origem era espanhola e não italiana. Para isso, recorreu aos profissionais de outras áreas como um especialista em análise de caligrafia e até mesmo de profissionais da me- dicina e engenharia genética para estudos de DNA dos restos mortais de Cristóvão Colombo e de seu filho. O estudioso de caligrafias alegou que a posição das letras inclinadas e o vocabulário usado nos textos manus- critos por Colombo não conferiam com a classe humilde do navegador. A inclinação das letras e seu excelente aspecto denunciavam uma escrita veloz, habilidade exclusiva daqueles que podiam freqüentar uma boa esco- la daquele tempo. Os diários do filho registram que seu pai sempre evitava falar de sua origem. Como os restos mortais conseguidos eram apenas fragmentos, os laboratórios da Espanha não conseguiram fazer o estudo completo do DNA, indicando uma equipe norte-americana (profissionais que trabalharam na identificação dos corpos das vítimas do atentado de 11 de setembro dos E.U.A.) melhor equipada para essa pesquisa. Hoje, a investigação prossegue e aguardamos os resultados curiosos. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 2� UNIMES VIRTUAL O exemplo citado levanta uma série de questões que a História poderá explicar. Por que Colombo mentiu sua nacionalidade? Quais eram seus interesses? O que omitia de seu filho? Como sua escrita poderia ser típica de um erudito, se ele era filho de uma costureira pobre da Itália? Por que negar sua terra natal? Existe, ainda, a possibilidade de ele ter sido de família judia, os Colón, da própria Espanha, pois sabemos que aprendeu a navegar com um parente seu - existem registros de um pirata espanhol, judeu, chamado Colón, que junto com algum familiar, membro de seu grupo de marujos, atacou uma nau que pertencia ao rei D. Fernando, católico, aquele que financiou, tem- pos mais tarde, a viagem de Colombo para a América. Assim, o navegador precisou mentir sobre sua origem. Todo esse processo, ainda em andamento, precisou de muita competência de profissionais de outras áreas, auxiliando os historiadores. Concluindo: > A integração entre as ciênciase diversas áreas do conhecimento se faz pelas concepções e pressupostos teórico-metodológicos do objeto de estudo comuns a todas elas. > Fica claro que o historiador e seus parceiros profissionais trabalham suas habilidades como a leitura e interpretação de diferentes linguagens como textos narrativos, informativos, mapas, fotos, documentos de épo- ca, desenhos, tabelas etc. A escrita se manifesta na produção de textos em diversas linguagens e na organização e registro das informações. > A expressão oral, através da exposição de idéias, argumentação e suas análises, ainda apóiam todo o conjunto de procedimentos dos profissionais. > A análise e interpretação de fatos e idéias, coleta de informações, esta- belecimento de relações, formulação de perguntas e hipóteses e a mobili- zação de informações, conceitos e procedimentos em situações diversas com avanços e retomadas são atitudes que compõem esse universo de trabalho do historiador e de outros profissionais das mais variadas áreas. > Já no processo de ensino de História, assunto que retomaremos em outra aula, a preocupação com a integração das ciências, a interdiscipli- naridade, está sendo bem debatida e trabalhada. > Podemos perceber, então, que não são as ciências humanas as únicas a contribuírem no trabalho do profissional de História (seja do historiador, seja do professor), mas as mais diversas áreas como linguagens, exatas, biomédicas etc. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS2� UNIMES VIRTUAL Pois bem, E qual é o instrumento usado, em toda essa trajetória da História, no seu campo de atuação? Resposta: São as Fontes. Para responder melhor essa questão, precisamos entender bem o que são e quais são as tais fontes históricas. Vamos dedicar uma boa parte de nossos futuros encontros nesse debate, explicando o que é uma fonte primária, uma fonte oral ou iconográfica, como utilizá-las e tudo o mais. Para nossa Reflexão: Qual é o papel do historiador dentro de um contexto científico? Qual é o papel do historiador na sociedade? Qual é o papel de um professor de História? Com toda certeza, vamos retomar esses pontos em nossas próximas aulas. Valeu! INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 2� UNIMES VIRTUAL Aula 0� Temática: História e as ciências auxiliares II Vimos várias ciências auxiliando o trabalho do historiador: arqueologia, filosofia, medicina, geografia, e mais um elen- co de outras de caráter mais instrumental. Dentre essas outras disciplinas podemos citar: a Cronologia (estudo da sucessão e datação dos fenômenos históricos), a Paleografia (leitura de escrituras antigas), a Papirologia (estudo dos papiros egípcios e greco-ro- manos), a Epigrafia (interpretação das inscrições), a Numismática (estudo das moedas), a Sigilografia (estudo dos selos e das formas de autentica- ção diplomática), a Filatelia (estudo dos selos postais), a Heráldica (estudo dos brasões) etc. Leia esse trecho do artigo publicado no Boletim Informativo da Sociedade Numismática Brasileira de São Paulo:1 “Em casos mais precisos de datação, o historiador recorre a meios Quími- cos, Físicos e Geológicos, assim como a técnicas complexas baseadas no conhecimento do tempo de desintegração de certos isótopos radiativos. Segundo o período considerado, o historiador utiliza umas ou outras ciên- cias auxiliares. Para o especialista em história antiga serão necessárias a Arqueologia, a Epigrafia, a Numismática e a Papirologia. A Heráldica e a Diplomática - estudo dos documentos - além da Paleografia e da Filologia, serão fundamentais para um Medievalista, etc”. “A relação estabelecida entre as Ciências Humanas e a história é evidente, já que essas disciplinas, em sua referência ao estudo do passado e dos antecedentes dos fatos que analisam, aproximam-se necessariamente do método histórico, qualquer que este seja. A história proporciona uma visão temporal e abrangente que é imprescindível para entender as situações específicas estudadas pela Sociologia ou pela Psicologia. A relação entre história e Arte é particularmente indissolúvel”. A função das ciências auxiliares é estudar questões específicas e podem, ainda, ser divididas em três grupos principais, de acordo com a natureza das fontes estudadas: objetos, fatos ou circunstâncias e fontes escritas: a) objetos: a Numismática (moedas), a Esfragísitica (selos) e a Heráldica (brasões); 1 Fragmentos do artigo publicado na edição n.4 da Revista Histórica. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS2� UNIMES VIRTUAL b) fatos: a Teologia, a Sociologia, a Etnologia, a Economia Política, a Crono- logia (calendários) e a Metrologia (padrões de medida), dentre outros; c) fontes escritas: a Paleografia, a Papirologia, a Epigrafia e a Codicologia. A Paleografia foi consagrada por Jean Mabillon (1642-1707), um benediti- no francês que, além de se dedicar ao estudo dessa ciência, pesquisava a Diplomática e a Cronologia. Inicialmente, a principal função destes estudos era jurídica: servia para provar a autenticidade de documentos, provan- do, assim, o direito de uma pessoa sobre determinado patrimônio. Grosso modo, ocupa-se da decifração e ordenação de escritos antigos. Entre o estudo das fontes escritas temos: a) Papirologia: o estudo dos papiros, que foi o suporte para escrita mais utilizado na Antigüidade. Esta ciência trata da leitura, conservação e inter- pretação dos papiros; b) Epigrafia: o estudo da escrita em materiais sólidos, como madeira, pe- dra e metal; c) Codicologia: o estudo dos documentos manuscritos ou impressos, em pergaminho ou papel, encadernados em forma de livro (códice). A Codicologia tem como objeto de estudo o livro manuscrito ou impresso, mas apresenta orientações segundo os objetivos. Interessa ao pesquisa- dor da área conhecer o quadro teórico da ciência codicológica e atender à finalidade essencial do estudo do códice, que é situá-lo de modo a en- tender a transmissão do texto e a sua funcionalidade de leitura, fixando a atenção particularmente em constituir instrumentos de recuperação do livro e dos fundos de manuscritos. Você viu quantas ciências podem auxiliar o trabalho do his- toriador? Vamos ficar atentos a elas. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 2� UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade I Nessa primeira unidade, o programa apresentou a História tratando seus conceitos e definições. Pretendeu mostrar as interpretações do fazer humano a partir de uma proposta cronológica, evidenciando os fatos e os agentes. A conceituação de História sofreu inúmeras transformações ao longo do tempo. Buscamos tratar a trajetória desde os primórdios, passando pela questão mística, religiosa e fantasiosa, na tentativa de justificar a origem do ho- mem, interesse geral na antiguidade. Com o advento da escrita, os registros passaram a exercer um papel fun- damental no processo de herança cultural, personificando as fontes em documentos. Tal transformação favoreceu uma nova leitura e uma nova concepção no conceito de História. A unidade trabalha, deste modo, um processo transformador, buscando nas raízes a tradição oral e as justificativas para a presença do homem na terra. A Antiguidade, o período medieval e o Renascimento, com suas espe- cificidades deram suas contribuições no processo transformador para a concepção de História. A nova mentalidade humanista determinou um novo campo de atuação da História, mas a trajetória social de permanências e rupturas trouxe um campo mais determinista. Foi com o iluminismo e a valorização do mundo científico baseado no em- pirismo, que a História foi pensada como ciência. Nessa época, a mentali- dade buscava uma história baseada na questão causa-efeito. Tratavam os fatos isolados, num determinismo cronológico, estático, privilegiando os agentes “oficiais”. Essa nova concepção não foi positiva na aproximação da História com o seu entorno. Era preciso adotar uma nova postura, uma nova metodologia, usando as ciências auxiliares - uma aproximação da História com as de- mais disciplinas da áreade humanas. Toda essa trajetória está trabalhada na Unidade I, chegando ao século XX com a Nova História e seus desdobramentos. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS30 UNIMES VIRTUAL Referências Bibliográficas: ACIOLI, V. L. C. A Escrita no Brasil Colônia: um guia para leitura de documentos manuscritos. Recife: Editora Universitária UFPE/Fundação Joaquim Nabuco/Ed. Massangana, 1994. AZEVEDO FILHO, L. A. de. Iniciação em Crítica Textual. Rio de Janeiro/ São Paulo: Presença/EDUSP, 1987. BORGES, Vavy Pacheco. O que é História. São Paulo: Brasiliense, 1993. BLOC, Marc. “A História, os homens e o tempo”. In: Introdução à História. Lisboa: Publicações Europa-América, 1974. pp. 24-46 BRAUDEL, Fernand. “História e Ciências Sociais. A longa duração. In: Es- critos sobre a História. São Paulo: Perspectiva, 1978. pp.41-78 BUENO, F. S. Estudos de Filologia. São Paulo: Edição Saraiva, 1954, 1º vol. CABRINI, Conceição, et alli. O Ensino de História. São Paulo: Brasiliense, 1996. DÍAZ, E. E. R. El uso del reclamo en España. In: Scriptorium, 53, 1, Bru- xelas, 1999. FEBVRE, Lucien. Combates Pela História. 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INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 31 UNIMES VIRTUAL Exercício de auto-avaliação I 1) Segundo a análise da historiografia, considera-se como objeto da História: a) documentos escritos. b) produção material e cultural de um determinado grupo. c) homem. d) planeta terra. e) escrita. 2) Era uma característica marcante no início da História, na antiguidade: a) trabalhar as verdades através dos documentos escritos. b) explicar a origem do homem através da tradição oral em sentido mítico. c) explicar a origem do homem através dos vestígios arqueológicos. d) trabalhar a narrativa encontrada nos documentos escritos. e) explicar as relações sociais através dos registros escritos. 3) Para Heródoto, o sentido da palavra História estava ligado a: a) a pesquisa, a investigação. b) a narrativa oral. c) o mito. d) a religiosidade. e) a natureza. �) Localizar a História no conjunto das Ciências Humanas é possível: a) as ciências humanas tem, na sua totalidade, o mesmo método científico de pesquisa sobre seu objeto. b) as ciências humanas, como a História, têm o Homem como objeto de estudo. c) a História não busca as relações com ciências de outras áreas do conhecimento, assim como as outras ciências humanas. d) a História se aproxima das demais ciências humanas por trabalhar com a escrita, objeto de estudo em comum. e) as ciências humanas fazem oposição às ciências da natureza, assim como a História. �) São ciências auxiliares da História: a) apenas as chamadas ciências humanas. b) apenas a Filosofia e a Geografia. c) todas as ciências que fazem parte da área de linguagem e exatas, excluindo a matemática. d) todas as ciências que fazem parte das diversas áreas do conhecimento. e) apenas Sociologia, Filosofia e Geografia, por serem as chamadas humanas. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS32 UNIMES VIRTUAL �) É característica da escola positivista: a) a adoção da fé como justificativa histórica para os fenômenos naturais e a origem do homem. b) a interdisciplinaridade, buscando a interpretação dos fatos em relação aos contextos sociais. c) a explicação mitológica para a origem do homem e a organização da sociedade. d) o empirismo e mecanicismo nas investigações de fatos e situações históricas, num pro- cesso de causa e efeito. e) a constante busca das ciências auxiliares da História como metodologia para a busca da verdade relativa. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 33 UNIMES VIRTUAL Unidade II História e Produção Objetivos A Unidade II busca explicar como se dá a produção histórica e a metodologia emprega- da para tal. Análise de documentos e definição do objeto de estudo da História, situado no processo de investigação, exercício profissional do historiador. Plano de Estudo Esta unidade conta com as seguintes aulas: Aula: 0� - Fontes Históricas Aula: 0� - Análise do Documento Histórico Aula: 0� - O Objeto da História Aula: 10 - O Fato Histórico Aula: 11 - A Produção Histórica INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS3� UNIMES VIRTUAL Aula: 0� Temática: Fontes Históricas Já vimos, nas aulas anteriores, que as contribuições de di- versas ciências auxiliares, muitas vezes de grande comple- xidade em si mesmas, complementam a análise das fontes e o estudo histórico. Nesses casos, deve-se falar antes de um caráter interdisciplinar das ciências que estudam aspectos diversos da cultura e do ambiente humano. E o que é fonte histórica? Na verdade, tudo que nos permite reconstituir os acontecimentos e modos de viver do passado é uma fonte histórica. Seja ela material como objetos, vestígios arqueológicos, monumentos etc., ou imaterial como as tradições culturais, costumes, ritos, lendas que permanecem num grupo social e são transmitidos de geração a geração até os nossos dias. Outra maneira de classificar essas fontes é em fonte primária e secundá- ria. As primárias são os documentos que registram o acontecimento, pro- duzidos no momento histórico, contemporâneos ao fato ou circunstâncias investigadas. As secundárias já são reproduções, baseadas na fonte pri- mária, que narram o acontecido através de um interlocutor (pode mesmo ser um documento). As fontes são inúmeras. As escritas são os textos de jornais, documentos variados, livros, periódicos etc. Existem, ainda, as fontes iconográficas que narram um fato através da imagem: pintu- ras, fotos, gravuras. Mesmo sendo uma imagem pode ser considerado um documento. A fonte oral, bastante debatida na atualidade, são as que transmitem o conhecimento através da narrativa de discursos, debates, entrevistas etc. Muitas vezes sem o registro da escrita como o depoimen- to de vida de alguém. Sabemos que o historiador tem um compromisso com a verdade. Isso é uma postura fundamental para um bom profissional. Essa verdade pode ser subjetiva, como tanto se debate no meio acadêmico, porém os docu- mentos que servem de instrumento de trabalho para o historiador precisam ser confiáveis e sua interpretação deverá passar pelo “rigor histórico”, que consiste no não envolvimento do profissional com sua narrativa, ou seja: o objeto de estudo não pode ser passivo de interpretações pessoais, tirando o seu valor de fonte primária, podendo causar um resultado equivocado INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 3� UNIMES VIRTUAL no processo de pesquisa. Preservar a memória intacta é um procedimento necessário para que novas articulações e investigações possam permitir outras novas interpretações sem adulterar o documento original. Um outro exemplo de trabalho com documento é o uso da fonte iconográ- fica. As pinturas parietais das cavernas usadas pelo homem pré-histórico no Paleolítico. Existe um debate bastante interessante sobre a interpretação daquelas pinturas. Seria uma pintura com sentido mágico, ritual místico ou simpatia para conseguirem grandes caças como alimento do grupo? – Pois essas pinturas aparecem no alto das cavernas longe do alcance das mãos humanas, como a pintura de um templo. Seria uma questão estética, já que percebemos uma preocupação nos detalhes pintados com requinte no “design” e na aplicação de cores? – Algumas pinturas aparecem com uma mão gravada, em forma de más- cara, sugerindo uma assinatura na obra. Vale Conferir! Para contribuirna discussão consulte o texto sobre a car- ta de Pero Vaz de Caminha, por ocasião do “achamento do Brasil”. No nosso ambiente virtual de aprendizagem indicamos um link na tela des- ta aula sobre o assunto. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS3� UNIMES VIRTUAL Aula: 0� Temática: Análise do Documento Histórico Na nossa sexta aula, trabalhamos com as fontes históricas. Vimos que os documentos são fontes em que o historiador se baseia para a construção do conhecimento histórico. Nessa aula, vamos trabalhar o documento em si. Sua função e diversidade. Para isso, também vamos contar com um artigo do historiador Paulo César Garcez Marins, publicado na revista História Viva, de janeiro de 2005. A reavaliação do conceito de documento histórico e uma visão ampliada do que faz a História são caminhos para renovar e valorizar esse estudo. Muitos historiadores, já há alguns anos, vêm reescrevendo a história do Brasil para além dos estreitos limites de uma memória glorificadora dos governantes e de seus atos políticos. Descortinar a atuação dos múltiplos sujeitos históricos que compõem uma sociedade, a extensa rede de ten- sões entre esses agentes ou, ainda, documentar a multifacetada herança cultural da população brasileira foram algumas dimensões que moveram as pesquisas acadêmicas realizadas em universidades por todo o país. Nesse sentido, a noção do que seria um documento histórico também foi substancialmente alterada. A hegemonia da documentação textual de caráter oficial, gerada pela ati- vidade governamental, foi sendo contraposta pelo uso de cartas pessoais, memórias, documentos contábeis, registros sindicais, jornais, revistas, escritos literários, panfletos políticos, cordéis. Os segmentos sociais, ou apenas o sujeito comum, manifestam-se me- diante esses registros, que representam vozes específicas, muitas vezes dissonantes, diante do que poderia ser interpretado sobre o passado dos brasileiros apenas a partir dos papéis oficiais. Outros documentos materiais, além dos textuais, foram lentamente ga- nhando status de fonte para os historiadores. Pinturas alegóricas, retratos e paisagens a óleo, fotografias, caricaturas, móveis, utensílios culinários, instrumentos de trabalho, roupas e brinque- dos são alguns dos artefatos integrados ao cotidiano de indivíduos, famí- lias ou grupos sociais que passaram a constituir novas mediações entre as preocupações do historiador e as experiências vividas no passado. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 3� UNIMES VIRTUAL Os museus são certamente grandes depositários desses últimos docu- mentos, na medida em que, sob um viés semelhante ao que se processava na atividade acadêmica, também eles passaram a formar ou adquirir co- leções que escapassem da mitologia política ou do mero testemunho de vida de um nobre do Império, de uma autoridade pública ou de um membro das elites econômicas. Ferros de passar roupa são, assim, tão relevantes quanto um serviço de louça monogramada ou, ainda, fôrmas para cachim- bos de barro tão significativas para o conhecimento do passado quanto a rica mobília de um fazendeiro. As expressões do chamado “patrimônio imaterial” foram, também, recen- temente alçadas ao primeiro plano das ações federais de preservação das heranças culturais dos brasileiros. Os gestos, a culinária, cantos, danças, a arte de tecer ou de fazer rendas, uma técnica construtiva, a manufatura de cerâmicas são todos campos de conhecimento essencialmente ligados ao passado e a uma transmissão delicada para o futuro, assegurada pelos elos entre as gerações. Assim, mais uma vez a história pode ser escrita a partir de documentos in- suspeitos, que se constituem no fazer diário que permeia as ações do dia- a-dia - e que o reconstituem. E esse patrimônio imaterial não se expressa apenas em comunidades localizadas em pontos afastados dos grandes centros metropolitanos, como arraiais à beira-mar ou em aldeias indígenas embrenhadas nas matas, mas em todas as casas e corpos do país. Olhos e ouvidos de historiadores podem, se atentos à vastidão desses sinais, documentar formas de existência tão múltiplas quanto são esses legados. Identidades, no plural, passam a fazer mais sentido do que generalizações perigosas, como a ânsia por desenhar um caráter nacional coeso, impro- vável na vastidão geográfica e cultural do Brasil. Serão, pois, brasileiros, tantos quantos são, afinal, os Brasis. Realmente, nenhum documento não é isolado, mas existe uma relação a outros que ampliam o seu sentido e permi- tem maior aproximação da realidade. O documento não é inteiramente explicativo em si, ao lado das significações explícitas tem as implícitas e as não manifestas, tendo o historiador a necessidade de tra- balhar dentro dele e fora dele, ou seja: o que ele diz e o que ele representa, não é espelho da realidade, mas essencialmente representação do real, de momentos particulares da realidade que podem e devem ser capazes de revelar sua historicidade. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS3� UNIMES VIRTUAL Aula: 0� Temática: O Objeto da História Na aula de hoje, vamos compreender melhor qual o objeto de estudo da história. Qual seria o objeto de estudo da História? Fica nítida, desde o seu início, a função da História de fornecer uma expli- cação para a sociedade sobre ela mesma. Nos dias de hoje, percebe-se o quanto essa ciência está cada vez mais próxima às outras áreas do conhe- cimento que têm o homem como objeto de estudo. Nesse sentido, busca explicar a dimensão do homem em sociedade, tanto no passado como no presente. Cada uma dessas áreas tem seu enfoque específico. Para uma visão mais ampla, é necessária a integração dessas diversas áreas, resul- tando no que chamamos de interdisciplinaridade. Vamos ver o que diz a professora da UNICAMP, Vavy Pacheco Borges: “... A história procura especificamente ver as trans- formações pelas quais passaram as sociedades hu- manas. A transformação é a essência da história; quem olhar para trás, na história da sua própria vida, compreenderá isso facilmente. Nós mudamos cons- tantemente; isso é válido para o indivíduo e também é válido para a sociedade. Nada permanece igual, e é através do tempo que se percebem as mudanças. Estudar as mudanças significou durante muito tem- po uma preocupação com momentos que são vistos como crise e de ruptura... Hoje se sabe que mesmo mudanças que parecem súbitas, como os movimen- tos revolucionários, não somente foram lentamente preparados – de forma voluntária e involuntária, por diferentes circunstâncias – mas não conseguiram mudar totalmente as estruturas das sociedades onde se realizaram...”1 O homem, a sociedade e o tempo são referências fundamentais nesse seu depoimento. Outra coisa que está intrínseca é o “fato”. Quando ela fala em movimentos revolucionários, está se referindo à Revolução Francesa ou mesmo à Revolução Russa de 1917. 1 In.:BORGES, Vavy Pacheco. O que é História. São Paulo: Brasiliense, 2001. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS 3� UNIMES VIRTUAL ASSIM: Homem, Sociedade, Tempo e Fato... ... são elementos fundamentais para o estudo histórico em suas investi- gações. Precisamos notar que o tempo, elemento de dimensão de análise da História, não é o tempo cronológico. O tempo histórico tem uma outra leitura. Temos o tempo de curta duração, o que se refere aos fatos bre- ves com data e lugar determinados, gerando mudanças rápidas como por exemplo um golpe de Estado; na média duração temos o tempo onde se dão as conjunturas, tendências políticas que se inserem em proces- sos de longa duração com permanências ou mudanças que parecem imperceptíveis. Os ritmos da duração, conforme descritos por Fernand Braudel2 , permitem identificar a velocidade em que as mudanças ocorrem e como nos acon- tecimentos estão inseridas várias temporalidades: a curta duração; média duração; longa duração. Fernand Braudel propõe no entanto que se desvie o olhar do historiador. Sob a oscilação rápida dos acontecimentosde dimensão humana, que o historiador compara às pequenas ondas na superfície do mar, F. Braudel procura navegar em água profunda, a fim de encontrar a história mais lenta dos grupos humanos em relação a seu meio, estruturas que modelam as sociedades, seja em se tratando das grandes rotas do comércio e das vias navegáveis, seja das mentalidades. Com ele, a história muda de objeto, porque muda de temporalidade. O tempo rápido do acontecimento, o sopro curto e dramático da batalha, ele substitui pelo tempo longo dos ritmos da vida material. Mas essa mudan- ça de perspectiva leva também a se repensar a história. F. Braudel deixa claro que a história não existe independente do olhar do historiador. Este último intervém, como em qualquer saber, a cada etapa da constituição da história, pois não existe história em si, mas apenas fenômenos passados, mergulhados na noite de um tempo que os devora. A perspectiva adotada por F. Braudel leva-o a narrar uma história que não utiliza mais apenas os testemunhos e a psicologia, mas também a geo- grafia, a economia política e a sociologia. Sobre a paleta do historiador, F. Braudel deposita novas disciplinas que são como novas cores: ele introduz ciências sociais na história3 . 2 Na linhagem da célebre Escola dos Anais, inspiradora de toda a historiografia moderna, Fernand Braudel (1902-1985) revolucionou a maneira de se conceber e escrever a his- tória. Utilizando como fontes as diferentes ciências humanas - geografia e economia em primeiro lugar - e restituindo à história humana a variedade de seus ritmos, ele propôs uma visão global da história cuja influência ultrapassou as fronteiras da França. 3 In: MAURIN, Eric. Fernand Braudel – História Total. www.amabafrance.org.br www.amabafrance.org.br INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�0 UNIMES VIRTUAL A abolição da escravatura ocorreu no dia 13 de maio de 1888, no Rio de Janeiro, capital do Brasil. Um fato históri- co com local e dia marcado. Trata-se de um acontecimento breve. Para compreender a abolição e a forma como ela ocorreu, precisa- mos localizá-la no processo estrutural em temporalidade mais longa: des- de as mudanças no sistema capitalista e sua representação na conjuntura econômica do Brasil até a origem da prática de escravidão mundo afora, baseada em conceitos de superioridade e inferioridade de raças. Isso tudo pode explicar as permanências do racismo, discriminação social que per- manecem num processo de longa duração. Tente situar esse argumento no que estudamos nessa aula. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �1 UNIMES VIRTUAL Aula: 10 Temática: O Fato Histórico Nesta aula vamos tratar do fato histórico. Em primeiro lu- gar vamos situar o homem como o agente da história, isto é, aquele que faz a história. Não podemos mais ter a visão tradicionalista de historiador que privilegia os heróis, um personagem su- postamente “ilustre”, um rei ou um grande general. Essa história é ultra- passada e não abarca a sociedade como um todo. Também não podemos adotar um história que não admita as transformações e o dinamismo que é tão próprio do ser humano. Precisamos valorizar e conceber a história em movimento, não estática. Por que um fato é histórico e outro não? Quem determina o grau de historicidade de um fato? Veja como o historiador Jaime Pinsky questiona tudo isso: Por que os livros estabelecem fatos e os repetem seguidamente, de maneira acrítica? E os fatos não são apenas contados. São também comemorados com nomes curiosos. Temos, por exemplo, uma in- confidência (mineira), uma intentona (a comunista), uma proclamação (a da república), várias revoluções (30,32 e 64), algumas expulsões (franceses, holande- ses) e outras denominações que já prejulgam o fato que pretendem analisar. Quem definiu seus nomes, sua importância e por quê?...1 Essa prática de História, tão presa ao passado, positivista, cronológica e dona de verdades universais indiscutíveis, não tem compromisso com o presente e colocam o homem como mero espectador de movimentos históricos, invisíveis e pré-determinados. A História precisa ter, preservado, o seu caráter integrador. O pesquisador precisa analisar o fato com uma visão de conjunto, tendo o homem como agente real da História, atuando para que ela possa ocorrer. Voltando a citar Pinsky, para ele a historicidade se dá quando se trata de um homem noutro momento histórico, resgata-se sua particularidade sem abandonar sua universalidade, enquanto ser humano. 1 PINSK, Jayme. O ensino de História e a criação do fato. São Paulo: Contexto, 1988. p.9. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�2 UNIMES VIRTUAL O fato histórico não mais pode ser encarado como um acontecimento que evidencie seus protagonistas mais destacados na sociedade em de- trimento aos demais. É preciso situar as transformações e permanências que tal fato provocaram num grupo social, sua conjuntura e seus desdo- bramentos, fazendo as relações com as transformações que podem ter provocado ou quando dentro de um processo transformador da socie- dade. É como estudar a Abolição da Escravatura no Brasil (exemplo já citado em aulas passadas) como um fato isolado, sem considerar toda a estrutura que envolvia a sociedade como um todo, seus aspectos polí- ticos, econômicos e sociais, senão, faremos a história factual, isolada e não engajada. Segundo Márcia D’Alessio, outro questionamento importante foi em rela- ção à noção de temporalidade da historiografia tradicional, que encerrava os fatos num espaço de tempo meramente cronológico: “Inspirados em outras ciências sociais, [os integrantes da escola dos Annales] começa- ram a pensar em tempos longos da observação do real. Os conceitos de ‘estrutura social’, de Karl Marx, ou de ‘quadros’, de Halbwachs, são pala- vras e noções que entram para o vocabulário dos historiadores”, afirma. Em outras palavras, eventos históricos deixaram de ser vistos apenas como situados em uma linha do tempo para serem problematizados em função de um contexto mais amplo de rupturas, transformações sociais e mudanças culturais. Para ela, uma vez acontecido esse rompimento, a memória pôde entrar mais facilmente no rol de preocupações dos historia- dores, já que “lembranças habitam, por excelência, longas durações”, ou seja, estão ligadas a processos históricos mais amplos. O fato histórico em sua complexidade, precisa ser trabalhado de forma a contribuir na homogeneização e unificação das ações humanas na consti- tuição de uma cultura nacional. É importante verificarmos um outro depoimento: ... Internamente a produção historiográfica foi se re- novando e se revisando, na tentativa de encontrar novas abordagens, novos rumos e novos problemas, portanto novos espaços de investigações. Temas até então, não privilegiados pela historiografia tornaram- se objetos de reflexão dos profissionais da história, o que enriqueceu o seu campo; o mesmo ocorreu com a metodologia até então influenciada pela obje- tividade positivista, que passou a receber influências benéficas das demais ciências sociais, imprimindo mudanças substantivas na compreensão do que seja história. O historiador, até então sujeito separado e independente do objeto de estudo, descobriu que INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �3 UNIMES VIRTUAL também constrói o seu objeto de investigação, supe- rando a idéia tradicional e ingênua de que os “fatos falam por si sós...2 Refletindo Vimos aqui, novamente, o uso da Abolição da Escravatura no Brasil como exemplo para demonstrar o factual e o engajado. Pense em outro momen- to histórico que possa servir como referência para essa reflexão, onde o seu mero ato, através de uma simples narrativa tradicional, não aborda uma conjuntura real e relevante. 2 NADAI, Elza. O Ensino de História e a Pedagogia do Cidadão. In. PINSK, Jayme. O ensino de História e a criação do fato. São Paulo: Contexto, 1988. p.26 INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL Aula: 11 Temática: A Produção Histórica Já é tempode mais uma retomada para prosseguirmos... Já sabemos que o historiador trabalha com o passado, seja ele remoto ou recente. Não podemos negar que a História trabalha com o real. O tempo é uma dimensão fundamental para a História. As fontes documentais são instrumentos de trabalho do historiador, sejam elas escritas, orais, icono- gráficas ou material. Esse breve apontamento acima nos permite uma afirmação: O historiador investiga sempre uma realidade do passado situado num tempo determinado e num espaço preciso. Logo, o seu trabalho inicial é situar o objeto de estudo no tempo e no espaço. Percebemos que cada realidade histórica é única e não se repete nunca de forma igual. Podemos considerar essa verdade quando trabalhamos as noções de processo, desenvolvimento e conjuntura, não permitindo o es- tudo do “fato” isolado numa postura de construção de História factual, positivista. O trabalho do historiador é muito semelhante ao dos investigadores, bus- cando indícios, provas e testemunhos, para encontrar os condicionamen- tos, os motivos e as razões. A historiografia tradicional, mais conservadora, considerava História os acontecimentos que foram registrados através da escrita. Tanto que na periodização tradicional, o que marca o fim da Pré-História e o início da História é a escrita, como se a trajetória do homem, antes da invenção da escrita não fosse história. Isso demonstra o quanto a escrita, enquanto registro, fonte, foi responsável por maior parte da documentação usada pela História. Alguns períodos da História são bastante prejudicados na questão da documentação. Como alguns grupos não desenvolveram a escrita, os registros em documentos escritos não existem, evidentemente. Para estudá-los, o historiador precisa recorrer ao auxílio de outras ciências, como a arqueologia. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL O importante é que o trabalho do historiador seja fundamentado em fontes que permitam a comprovação dos fatos. É preciso selecionar, com crité- rio, os dados concretos para uma investigação de fatos significativos. An- tigamente, como já vimos, os documentos eram tidos como um monte de papéis velhos que falavam de pessoas importantes, as quais eram vistas como condutores da História. ... Atualmente tem-se consciência de que, entre ou- tros exemplos, uma caderneta de despesas de uma dona-de-casa, um programa de teatro, um cardápio de restaurante, um folheto de propaganda são docu- mentos históricos significativos e reveladores de seu momento... 1 As fontes ou documentos não são um espelho fiel da realidade, mas sim a representação de parte ou momentos particulares do objeto em questão. ... Fazer-se uma listagem de fatos, sem caráter ex- plicativo, não é história, é cronologia (...). Fazer uma interpretação histórica sem base concreta dos fatos é ficção histórica, e está muitas vezes a serviço de outros interesses, em geral mais imediatísticos e li- gados a disputas de poder. 2 O historiador deve trabalhar de forma cautelosa e crítica. Hoje, a mídia for- nece uma fonte muito rica aos pesquisadores. A imprensa é uma fonte que trabalha ao lado do historiador assim como outros canais de comunicação de massa. O importante é seguir os critérios e analisar as linhas que po- dem imprimir tendências, de acordo com os redatores ou mesmo diretores das empresas responsáveis pelos veículos de comunicação. Então... ... precisamos lembrar que ao situar o fato (seu objeto de estudo) no tem- po e no espaço, o historiador precisa lembrar que algumas convenções são pré- determinadas e não correspondem ao universo do conhecimento histórico como um todo. Basta revermos a tradicional e conhecida perio- dização histórica, tão usada nos livros didáticos e na historiografia tradi- cional, onde a Pré-História termina com a invenção da escrita, dando início aos períodos conhecidos como Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea numa postura estática, cronológica com datações “precisas”. Porém, essa demarcação é aplicada sobre uma ótica européia ocidental superficial e progressista. Essa visão eurocentrista deixa o resto do mundo num plano secundário. 1 In: BORGES, Vavy Pacheco. O que é História. São Paulo: Brasiliense, 2001. p.61. 2 Id. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL A periodização pode ser importante para mostrar as épocas distintas que a sociedade se organiza em diferentes formas, podendo mostrar as especifi- cidades de cada período. A periodização deve ter um caráter explicativo e não um simples balizamento cronológico. Para o conhecimento histórico todas as conclusões são pro- visórias, pois podem ser revistas, aprofundadas e reinter- pretadas por trabalhos posteriores. Novamente citando a historiadora Vavy Pacheco, uma verdade absoluta não serve ao historiador sério e digno do nome; serve aos totalitaristas, tanto de direita como de esquerda, que, colocando-se como donos do saber e da verdade, procuram, por meio da explicação histórica, justificar a sua forma de poder. Situe o Brasil dentro da tradicional periodização histórica. Pela datação, sua histórica começa com o seu descobri- mento em 1�00, na Idade Moderna. Antes o Brasil vivia sua pré-história. O que você tem a dizer sobre esta tão divulgada tese? INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade II Nessa unidade pudemos nos aprofundar um pouco mais. O panorama foi traçado na unidade anterior, trabalhando os conceitos e a trajetória da História. Agora, entendemos as bases para a produção histo- riográfica: os agentes e o material (instrumentos) do historiador; fontes e documentos; e o universo de atuação do historiador, as críticas, dificulda- des e conquistas. A polêmica em torno da questão História-Ciência não se encerra no posi- tivismo ou com a História dos Annales, onde Le Goff e seus colegas nos levam para outros universos. Outros debates se manifestam ao tratarmos os documentos e as novas possibilidades de fontes históricas. Críticas, buscas, interpretações e as- sociações foram necessárias para um procedimento metodológico coeren- te. O próprio conceito de “verdade” entrou nos debates. Essa nova discussão permeia a Unidade II. Tratamos dos documentos, fontes e o próprio objeto da História. Os procedimentos metodológicos do historiador são abordados de manei- ra mais abrangentes, sem perder de vista as tendências que determinaram novos técnicas e esferas de atuação do historiador. Não se trata mais de rediscutir os conceitos básicos de História, mas a todo o momento é preciso retomar alguns pontos trabalhados na unidade I para localizar as novas interpretações propostas pelas linhas diversas da histo- riografia. A produção histórica abarca a questão do fato histórico e os olhares diver- sos que lhes são conseqüentes. Entender a historicidade de cada momen- to e os fatores geradores, transformadores e determinantes dos aconteci- mentos passam pela questão do tempo histórico. Assim, toda esfera que envolve tempo e espaço deverá ser analisada como um todo, engajada e não isolada. Esse fator, mais uma vez, determina a aproximação da História com as outras ciências. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL Referências Bibliográficas BORGES, Vavy Pacheco. O que é História. São Paulo: Brasiliense, 2001. MARINS, Paulo César Garcez. Marcante presença nas heranças do dia- a-dia. MARSON, Adalberto. Reflexões sobre o procedimento histórico. Rio de Janeiro: Marco Zero /s.d./ MAURIN, Eric. Fernand Braudel – História Total. www.amabafrance.org.br NADAI, Elza. O Ensino de História e a Pedagogia do Cidadão. PINSK, Jayme. O ensino de História e a criação do fato. São Paulo: Contexto, 1988. p.9. www.amabafrance.org.br INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL Exercício de auto-avaliação II 1) O que é fonte histórica ? a) método de pesquisa usado pela História de tendência positivista. b) qualquer documento que possa reconstituir os acontecimentose modos de vida do passado. c) os documentos escritos e não os iconográficos. d) os documentos iconográficos e nunca os escritos. e) método de pesquisa usado pela História de tendência iluminista. 2) Podemos considerar documento histórico: a) imagens, a narrativa oral, documentos escritos e objetos da cultura material. b) apenas imagens e objetos da cultura material. d) obras de arte e os chamados documentos oficiais registrados pela escrita e catalogados em instituições governamentais. e) qualquer papel que registre, através da escrita, um fato histórico ou situação, narrando apenas a trajetória dos personagens considerados importantes pela História (reis, generais, heróis nacionais, etc.). 3) Com relação ao Tempo Histórico, é correto afirmar que: a) é um período preciso com início meio e fim, acompanhando o tempo cronológico. b) não podemos considerar o tempo em História. c) existe o tempo de longa duração, média duração e de curta duração, independente dos registros cronológicos. d) sempre se refere a um dos períodos localizados, ou na Idade Antiga, ou na Idade Média, ou na Idade Moderna, ou na Idade Contemporânea. e) sempre estará relacionado ao espaço. 4) Como podemos trabalhar o fato na sua historicidade? a) situar o acontecimento num espaço determinado e no seu tempo, destacando os prota- gonistas. b) observar que o fato não pode ser trabalhado isoladamente sem que se perceba o proces- so e a conjuntura que o cerca, relacionando com outros acontecimentos. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�0 UNIMES VIRTUAL c) para a busca da verdade absoluta, sem cair na ficção, o fato deverá ser estudado em profundidade e isolado de outros acontecimentos, evitando assim uma falsa interpretação. d) o fato nem sempre tem conseqüências importantes se não ocorreu num tempo remoto, num passado distante. Para que seja histórico, precisamos determinar sua época passada e nunca próximo do presente. e) o fato nem sempre tem importância para a História. Para que seja realmente significante, precisa trazer mudanças nas estruturas políticas e produzido em locais geográficos de des- taque (impérios, capitais, reinos ou Estados Nacionais do Ocidente). �) A produção histórica não pode se preocupar com a busca da verdade absoluta através da investigação dos fatos. Essa afirmação pode ser aceita como verdadeira por: a) o fato histórico não ser um objeto de estudo do historiador. b) o fato histórico sempre se manifesta através de um documento que atesta a sua verdade absoluta. c) o fato histórico não ser importante para a produção histórica. d) o fato histórico poder sempre ser revisto e reinterpretado com enfoques diferentes. e) o fato histórico só se manifesta como verdade absoluta quando estudado por várias dis- ciplinas das ciências humanas. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �1 UNIMES VIRTUAL Unidade III A Construção do Conhecimento Histórico Objetivos A unidade III propõe uma análise mais aprofundada das relações entre a Ciência História e a memória na construção do conhecimento histórico, localizando tem- po e espaço. Plano de Estudo Esta unidade conta com as seguintes aulas: Aula: 12 - História e Memória I – Tradição Oral Aula: 13 - História e Memória II – Trajetória Aula: 1� - História e Conhecimento Aula: 1� - Ensinando História no Brasil Aula: 1� - Afinal, História é Ciência? INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�2 UNIMES VIRTUAL Aula: 12 Temática: História e Memória I – Tradição Oral Olhe esse título de um artigo da revista Com Ciência: Memória é matéria prima do trabalho do historiador A discussão sobre a relação entre História e memória é um dos grandes debates teóricos que atravessa vá- rias gerações de historiadores, pois envolve os objeti- vos e fundamentos do trabalho histórico. Atualmente, a maioria dos autores concorda que a memória não pode ser vista simplesmente como um processo par- cial e limitado de lembrar fatos passados, de impor- tância secundária para as ciências humanas. Trata-se da construção de referenciais sobre o passado e o presente de diferentes grupos sociais, ancorados nas tradições e intimamente associados a mudanças cul- turais.1 Com certeza temos de concordar que a memória é o elemento fundamental para a história. É através de questionamentos e problematizações que tra- balhamos as questões pertinentes à História. Um processo de perguntas e respostas retomadas e novas constatações contribuindo para a organi- zação da história. A utilização de relatos orais, no entanto, foi colocada em suspeição a par- tir do século XVIII, quando a História ganha o status de ciência e estes relatos passam a não mais ser considerados como fontes seguras para o historiador. Segundo Márcia Mansor D’Alessio, da PUC-SP, isso tem uma relação com o ideário ilumunista de fins do século XVIII, que proclama o império da razão e dissemina a crença cientificista: “Para este ideário, a ciência é a única forma de conhecimento e, como tal, produz verdades únicas, abso- lutas e objetivas”, diz a historiadora. As memórias, construídas a partir de subjetividades, não eram mais vistas como confiáveis para a produção do conhecimento científico. 1 Trechos do artigo publicado na revista Com Ciência, 10/03/2004 – disponível no site www.comciencia.br/repostagens/memoria/04.shtml www.comciencia.br/repostagens/memoria/04.shtml INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �3 UNIMES VIRTUAL A historiadora Marieta de Moraes Ferreira, da UFRJ acrescenta que esse processo continuou no século XIX, quando ocorreu a institucionalização da História como disciplina universitária e uma profissionalização dos his- toriadores: “Nesse momento, os historiadores passam a adotar um con- junto de procedimentos para se diferenciar daqueles então denominados ‘amadores’, que eram cronistas, políticos, literatos ou, como no caso da França, indivíduos ligados à Igreja Católica”. Isso significou a fixação so- bre o que deveria ou não ser usado como fonte. Porém, esse processo de reflexão não implicou em uma retomada automática do trabalho com fontes orais. Isso porque, segundo Marieta Ferreira, é possível trabalhar com a memória a partir de monumentos, literatura e outros documentos: “Muitos historiadores dos Annales, embora se propusessem a trabalhar com a ‘História dos homens comuns’, ainda viam com muita desconfiança o trabalho com testemunhos”, afirma. Segundo ela, durante muito tempo continuou-se aceitando a idéia de que as fontes escritas possuíam uma maior objetividade que as fontes orais, o que só foi quebrada na década de 1980 e 1990, juntamente com a discussão sobre como utilizar os relatos e testemunhos para o trabalho histórico. Tal avanço foi resultado de um processo de embates teóricos iniciados na década de 1950, curiosamente motivados por uma inovação tecnológica. Neste período, foi inventado o gravador, que tornou possível armazenar, reproduzir e conservar um depoi- mento. “O gravador foi muito usado na Segunda Guerra e posteriormente popularizou-se”, afirma Paulo Miceli. A partir daí é que o termo “história oral” começa a ganhar notoriedade. Uma colocação importante nesse debate: – Precisamos encarar a história oral como uma metodologia, um conjunto de procedimentos usados para produzir depoimentos. O trabalho histórico pressupõe um conjunto de procedimentos que visa a uma análise e a um confronto de fontes e não apenas à publicação de uma entrevista. – É necessário cercar a entrevista com todos os cuidados. – Os depoimentos envolvem esquecimentos, distorções e omissões que demandam uma pesquisa e uma interpretação para serem compreendi- dos e contribuírem para o trabalho histórico. Daí a necessidade das en- trevistas serem complementadas pelas pesquisas com outras fontes. Nesse sentido, também é possível afirmar que a história oral faz parte de um processo maior de alargamento da pos- sibilidade do uso de fontes para a escrita da história e de trazer para os historiadores instrumentos para lidar com a subjetividade que encontra-senos depoimentos, mas também nas fontes escritas. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL Até que ponto o entrevistado, interlocutor entre seu ob- jeto de estudo (tema pesquisado) e a sua própria narra- tiva, pode ser considerado uma fonte fidedigna, ou não, para sua pesquisa? Como evitar os ruídos (intervenções pessoais do entrevistado) que possam desviar sua investigação do real? INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL Aula: 13 Temática: História e Memória II – Trajetória Na aula passada, trabalhamos a memória e a história oral. Nessa aula, vamos retomar alguns pontos e perceber como se deu o processo de entendimento da memória como um processo de interpretação da história. Sabemos que a memória não pode mais ser vista como um processo par- cial e limitado de lembrança de fatos passados, de valor acessório para as ciências humanas. Na verdade, ela se apóia na construção de referenciais de diferentes gru- pos sociais sobre o passado e o presente, respaldados nas tradições e ligados a mudanças culturais. A história não pode ter a pretensão de estabelecer os fatos como de fato ocorreram, e por isso coexistem, não obstante, várias leituras possíveis sobre a utilização da memória para interpretar a história. Como você viu em aulas passadas, a origem da História está na antigui- dade com Heródoto, baseada em relatos. Diferente das ciências naturais, não era possível fazer a observação através das experiências. Heródoto só quer falar daquilo que viu ou daquilo que ouviu falar” (GAGNEBIN, 1992, p. 10) e redigiu a sua história “para impedir que o que os homens fizeram no tempo se apaguem da memória e que as grandes e maravilhosas façanhas realizadas, tanto pelos gregos como pelos bárbaros, percam renome.” (HERÓDOTO apud SELIGMANN-SILVA, 2003, p. 72). Agora vamos ver os caminhos percorridos pelo debate História x Memória No século XVIII, com o surgimento do pensamento iluminista, ganha corpo uma concepção da história que instaura a supremacia da razão, propaga a crença na ciência como única forma de conhecimento e conduz a verda- des objetivas e absolutas, a partir da idéia de progresso. Em meados do século XX, a crença num progresso linear, contínuo e irre- versível não pode mais ser sustentada, e tornam a se apresentar olhares mais críticos sobre a história, com a inauguração de um novo conceito de temporalidade colocado pelos Annales. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL Nesse momento, incorporam-se conceitos de outras ciências sociais como a filosofia e a antropologia, assim como dados da experiência individual e coletiva, inaugurando-se uma concepção do tempo a partir da observação de longos períodos, a “história de longa duração”. A temporalidade da historiografia tradicional, que compreendia os aconte- cimentos num espaço de tempo meramente cronológico, não seria mais suficiente para a interpretação da história: esta seria feita segundo dife- rentes ritmos. Mais recentemente, a partir dos anos de 1980, a historiografia adquire a noção de que a relação entre memória e história é mais uma relação de oposição do que de complementaridade, ao mesmo tempo em que em- presta à história o estatuto de produtora de memórias. Em sua reconsideração da memória, a historiografia contemporânea esta- belece com a sociologia seu diálogo preferencial, e ganham renovados inte- resses problemas que tangenciam a psicologia social, como a história dos ressentimentos e, extensivamente, a história do ódio e dos sentimentos. Com efeito, a memória coletiva sofreu grandes transformações ao longo dos tempos, fruto das contribuições ao modus faciendi (maneira de fazer) da história enquanto disciplina. Dessa forma, a incorporação das ciências sociais desempenha aí um papel importante, cimentando a interdiscipli- naridade entre estas, a história e a memória. A pesquisa, o registro e o retorno à memória coletiva se valem menos dos escritos que das palavras, imagens, gestos e rituais: é uma memória sobretudo simbólica. No contexto dessa discussão, buscar uma definição da história enquanto ciência não é uma tarefa fácil. Paul Veyne tentou resumi-la quer como uma série de acontecimentos, quer como a narração dessa série de aconteci- mentos. Extensivamente, a história pode ter ainda o sentido da narração. O próprio Veyne, ao tentar esclarecer o sentido da historicidade, aceita a in- clusão, no campo da ciência histórica, de novos objetos “não-eventuais”, como a história das mentalidades ou da loucura. Assim, “tudo é histórico, logo a história não existe.” (VEYNE apud LE GOFF, 2003, pp. 18-9). São leituras possíveis. Mas seria possível afirmar que a memória de um ou mais grupos sociais, incluindo tradições, culturas, políticas, passíveis de expressão em depoimentos, pode ser simplesmente entendida como história? Le Goff, apesar de rejeitar qualquer messianismo histórico, defende uma fi- nalidade libertária para a memória: “A memória onde cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir o presente e o INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL futuro. Devemos trabalhar de forma a que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens.” (LE GOFF, 2003, p. 477). A história não deve esquecer que as estruturas por ela estudadas são dinâmicas. Todas estas questões constituem reflexões que se apresentam a todo o tempo ao historiador, no mesmo momento em que ele se debruça sobre seu objeto de estudo. O entendimento da memória como fonte viva da história é resultado das transformações historiográficas que ocorrem constantemente, mas que, em contrapartida, também promovem esse processo, ao propor a intro- dução da subjetividade na história e, ato contínuo, ao instrumentalizar um discurso historiográfico mais narrativo e humano e menos expositivo e mecanicista. Para nova reflexão: Se tudo é histórico, a História não existe (Paul Veyne)? Como diferenciar Memória de História? INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL Aula: 1� Temática: História e Conhecimento Na aula de hoje, iremos abordar o conhecimento e o campo de ação do historiador. O espaço de atuação do historiador, de certo modo, é um espaço particular, próprio do historiador. Um espaço onde ele elege, controla e observa seu objeto, instaurando suas perspectivas de conhecer. Dono deste espaço, utiliza-se de instrumentos de trabalho com os quais define sua principal característica: a determinação no tempo e no espaço de algo considerado ser do passado. Deste modo seu objeto está constituído de tema, periodi- zação, localização espacial e da interpretação correspondente. Ao definir tema, lugar e periodização, dá um passo definitivo para a identificação de seu objeto: o que, quando e onde foi. Tal resultado é obtido através de uma operação analítica especializada, que se apóia em certezas muito determi- nadas – o fato e o seu contexto ou conjuntos de fatos –, que por sua vez, se apóiam em provas válidas – o documento. A certeza de que esse objeto existiu está fundamentada nesta prova ou numa manifestação do próprio objeto. Por essa visão, temos a realidade histórica ampliada, como algo recortado, único e com vida própria. Perceba que, desta maneira, o objeto não pode falar por si próprio, ao menos que se queira apenas um mero registro da descrição do real acon- tecido. Somente seria possível fazer sua historicidade se a perspectiva aberta pelo observador permitisse a interpretação com sua complexidade e adoção de critérios de análise e seus princípios. Mas ainda que esse passado fosse julgado inacessí- vel, o que guia a operação de conhecimento é o ideal da restituição. O conhecimento encontra seu modelo na observação exata; esta observação encontra sua garantia de direito na convicção segundo a qual aqui- lo que foi possuía em si sua identidade. (C. LEFORT, cap 12, p. 257. 1983) INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL Quandotrabalhamos e entendemos a História, fazemos o esforço de che- gar a uma explicação completa através de regras de como proceder corre- tamente, na linha dos critérios de objetividade e racionalidade que gover- nam o ato de conhecer. Para que esse conhecimento seja atingido ou construído, algumas noções e categorias devem ser bem entendidas e investigadas pelo historiador: • Processo – o que vai dar um sentido para um acontecimento isolado, definindo a relação entre fatos e situações, definindo o movimento desen- cadeado. • Desenvolvimento – dá o ritmo ao processo através de uma divisão de grau: atraso/avanço, lento/rápido, continuidade/ruptura. • Conjuntura – põe as relações entre os fatos no fluxo das mudanças temporal. Determina o entorno em seus vários aspectos (social, político, econômico, cultural etc.) • Influência – estabelece uma dependência necessária entre aconteci- mentos da mesma época ou do mesmo lugar. • Reflexo – desdobramento da noção de influência, qualifica o lado pas- sivo de quem recebe uma ação e configura o caráter de exterioridade na constituição de um fato ou situação. Estas noções poderão se apresentar de diferentes maneiras, juntas com outras não apresentadas. Porém, é importante salientar que esse rol de catego- rias não significa uma ação mecanicista do historiador. Trata-se apenas de um elenco de considerações perti- nentes ao conhecimento histórico que poderão ser trabalhadas com princípios básicos como: • Integração; objetividade; utilidade; casualidade e outros. Por este levantamento temos uma indicação da maneira como temos pensado a História que acreditamos possuir mais objetividade que os gêneros narrativos tão comprome- tidos com as versões oficiais dos dominadores, cheios de preconceitos e exaltação de heróis patrióticos. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�0 UNIMES VIRTUAL Todo este discurso de procedimentos e noções não pode desconsiderar o historiador como o próprio sujeito da His- tória. Suas concepções, conceitos, formação, ou seja, sua própria cultura é um elemento condutor em todo o processo narrado aci- ma. Seu compromisso com a História, com o rigor na investigação deverá ser uma constante que permita o justo distanciamento no levantamento dos fatos, ou objetos de estudo, evitando novos ruídos e intervenções le- vianas, mesmo que sem a intenção. Um trabalho na construção do conhe- cimento histórico consciente. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �1 UNIMES VIRTUAL Aula: 1� Temática: Ensinando História no Brasil Agora, já conhecedores de conceitos, metodologias e função da História, podemos fazer uma breve leitura de como a dis- ciplina é trabalhada no Brasil. Para Historiadores e Professores de História Hoje, o ensino está norteado por um documento conhecido como Parâme- tros Curriculares Nacionais – o PCN. É um documento do MEC que dividiu o ensino em áreas de conhecimento. A História, como já sabemos, faz parte da área das Ciências Humanas e suas Tecnologias. A elaboração destes Parâmetros Curriculares Nacionais para a área de Ci- ências Humanas e suas Tecnologias do Ensino Médio percorreu um longo caminho, desde 1996, quando se iniciaram os estudos e a discussão de documentos preliminares que embasaram as reflexões sobre seu papel no novo currículo. Repensar o papel das Ciências Humanas na escola básica e organizá-las em uma área de conhecimento do Ensino Médio implica relembrar as chama- das “humanidades”. A finalidade educacional inscrita nesse humanismo respondia por uma for- mação moral e cultural de caráter elitista. No Brasil, essa tradição esteve claramente representada nos programas de ensino do Colégio Pedro II, prin- cipal educandário das elites brasileiras durante o século XIX e parte do XX. O regime republicano, nascido sob a marca do positivismo, instituindo “or- dem e progresso” como lema, iniciou um redimensionamento do papel das Ciências Naturais no ensino do país, rompendo com a tradição “bachare- lesca”, na promessa de introduzir na escola secundária os conhecimentos voltados para a solução de problemas práticos, que levassem a superar o nosso “atraso”, como se dizia. A partir dos anos 30 e 40 do século XX, as Ciências Humanas no Brasil encontraram enorme renovação, com os trabalhos de Gilberto Freire, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Fernando de Azevedo. Com a fundação da Universidade de São Paulo e a vinda de pesquisadores estran- geiros do porte de Roger Bastide, Claude Lévi-Strauss, Fernand Braudel, INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�2 UNIMES VIRTUAL Jacques Lambert, Jean Tricart, dentre outros, tais estudos encontraram um campo fértil, dando origem a seguidas gerações de sociólogos, economis- tas, historiadores, antropólogos e cientistas políticos, que se dedicaram ao estudo da sociedade brasileira, em uma perspectiva de forte engajamento político, que acabaria esbarrando no enrijecimento da reação, no período que se seguiu a 1964. Ao longo desse processo de desenvolvimento das Ciências Humanas, as humanidades foram progressivamente superadas na cultura escolar. Mas não foi só no Brasil que isso se deu. A História, a Sociologia, a Ciência Polí- tica, o Direito, a Economia, a Psicologia, a Antropologia e a Geografia – esta última, a meio caminho entre as Ciências Humanas e as Naturais – contri- buíram por toda parte para a superação das humanidades clássicas. Em sua constituição, voltaram-se para o homem, não com a preocupação de formá-lo, mas de compreendê-lo. Assim fazendo, passaram a circundar em torno de um mesmo objeto principal: o humano, explorado em todas as suas vertentes. No Brasil, entretanto, os anos de autoritarismo institucionalizado, pós-1964, tornaram as Ciências Humanas suspeitas e baniram do “ensino de 1º grau” a História e a Geografia, dissolvidas nos “Estudos Sociais”, que incluíam a “Educação Moral e Cívica”, na tentativa de atualização para as massas de uma educação de caráter moral, sem o componente cultural próprio às humanidades. O momento, hoje, porém, é o de se estruturar um currículo em que o estudo das ciências e o das humanidades sejam complementa- res e não excludentes. Busca-se, com isso, uma síntese entre humanismo, ciência e tecnologia, que implique a superação do paradigma positivista, referindo-se à ciência, à cultura e à história. A história social e cultural tem se imposto de maneira a rearticular a história econômica e a política, possibilitando o surgimento de vozes de grupos e de classes sociais antes silenciadas. Mulheres, crianças, grupos étnicos diver- sos têm sido objetos de estudos que redimensionam a compreensão do co- tidiano em suas esferas privadas e políticas, a ação e o papel dos indivídu- os, rearticulando a subjetividade ao fato de serem produtos de determinado tempo histórico no qual as conjunturas e as estruturas estão presentes. A produção historiográfica, no momento, busca estabelecer diálogos com o seu tempo, reafirmando o adágio que “toda história é filha do seu tempo”, mas sem ignorar ser fruto de muitas tradições de pensamento. A contribuição mais significativa da aprendizagem da História é propiciar ao jovem situar-se na sociedade contemporânea para melhor compreendê-la. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �3 UNIMES VIRTUAL A formação de “cidadãos”, é importante ressaltar, não ocorre sem reflexões sobre seu significado. Do ponto de vista da formação histórica do estu- dante, a questão da cidadania envolve escolhas pedagógicas específicas para que ele possa conhecer e distinguir diferentes concepções históricas, delineadas em diferentes épocas. A organização de conteúdos por temas requer cuidados específicos com a escolha dos métodos. O estudo de temas articulado à apropriação de conceitos ocorre por intermédio de métodos oriundos das investigações históricas, desenvolvendo a capacidade de extrair informações das diver- sas fontes documentais tais como textos escritos, iconográficos, musicais. A apropriação do método da pesquisa historiográfica,reelaborada em situ- ações pedagógicas, possibilita interpretar documentos e estabelecer rela- ções e comparações entre problemáticas atuais e de outros tempos. Torna- se necessário escolher métodos que auxiliem a capacidade de relativizar as próprias ações e as de outras pessoas no tempo e no espaço. O direito à memória faz parte da cidadania cultural e revela a necessi- dade de debates sobre o conceito de preservação das obras humanas. A constituição do Patrimônio Cultural e sua importância para a formação de uma memória social e nacional sem exclusões e discriminações é uma abordagem necessária a ser realizada com os educandos, situando-os nos “lugares de memória” construídos pela sociedade e pelos poderes consti- tuídos, que estabelecem o que deve ser preservado e relembrado e o que deve ser silenciado e “esquecido”. (texto baseado nos Parâmetros Curriculares Nacionais – MEC) Situe, no processo citado acima, o papel do professor de História, do historiador e dos autores de livros didáticos de História. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL Aula: 1� Temática: Afinal, História é Ciência? Nas primeiras aulas deste semestre, refletimos sobre o que é História. Ao longo das aulas, trabalhamos novos conceitos e retomamos definições numa prática típica do estudioso de história – o historiador. Neste momento, é bom retomarmos a questão da História como ciência e debatermos as posturas que adotaram diante desta questão, ao longo da própria História. Antes de darmos um “veredicto” final (se é que isso é possível), vamos resgatar algumas noções para discuti-las. > O texto a seguir é norteado pela colocação de uma professora de Histó- ria em uma produção literária. História é Ciência?1 Se considerarmos ciência do ponto de vista positivista, com certeza História não é ciência. Porém, a partir do início do século XX, com o surgi- mento do Historicismo alemão e, mais adiante, com a Escola dos Annales, o conceito científico de História começa a ser reformulado. Uma das justificativas, como já vimos em aulas passadas, é a de que a História trabalha com documentos. Esse procedimento deixa os teóricos mais à vontade para afirmar que a História é, sim, uma ciência. Das duas gerações que sobreviveram da guerra e que tentavam retomar as suas antigas profissões, perguntavam se havia outras tarefas mais im- portantes a fazer do que entender o que aconteceu no passado e passá- los às gerações futuras. Aqueles que diziam que a História havia falido, não tinham peso. É necessário ir contra as tradições, instituições, mesmo sabendo das conseqüências disto. Mais grave era a crise de outras ciên- cias, como a Matemática e, principalmente, a Física, uma vez que essas ciências naturais tendiam ao objetivo, sem a influência do Eu, ou seja, dos fatos humanos. Com isso, essas idéias novas entravam em choque com as bases seculares da Física. 1 Fragmento de trabalho de pesquisa de Profa. Melissa M. S. Caputo, 2001. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL > Com o abismo entre as recém-chegadas e as velhas idéias, e as rela- ções entre ambas, há um enriquecimento. Passa a haver um alargamento do domínio objetivo e do domínio subjetivo do espírito. A História passa a ser uma ciência, assim como as idéias passam por grandes transfor- mações. Como a história continua imóvel nos seus velhos hábitos, acaba sentindo a necessidade de se reconstruir com novos métodos e novas idéias. Esta reconstrução deve ser feita com fundamentos sólidos, a Humanidade. História como ciência do Homem, uma vez que as idéias e as instituições não existiriam sem o Homem. > Portanto, não há história a não ser a do Homem. Como a História é ciência do Homem, surgem os fatos desta ciência, os fatos humanos. E é onde o historiador deve encontrar os homens que viveram, suas idéias e interpretá-las. Os textos são humanos. Já que foram produzidos pelo homem. Todos têm sua História. Soam diferentes em épocas também diferentes. Raramente são idênticos, pois o Homem não é idêntico. Assim como qualquer documentação - seja ela um quadro, um poema, um drama – pode-se tirar um saber de um testemunho de uma vida, um pensamento e de uma ação. Não só os textos, mas todos os documentos, inclusive de novas disciplinas, assim como tudo que o Homem inventou deve ser estudado, para a construção de uma História sem exclusões e sem os estragos do esquecimento. A evolução é o fato da Ciência História Homem não se lembra do passado. Ele está sempre reconstruindo a partir do presente, fazendo uma interpretação daquilo que passou. > Tentar reconstruir o passado através das idéias e costumes, torna-se complicado, uma vez que as tradições tendem a resistir a isto. Apesar de saber que nunca poderá fazer como era antes. Assim ela pode dar respos- tas ao tempo em que segue. Como já vimos em aulas anteriores, Lucien Fevbre qualifica a História como um estudo cientificamente conduzido e não como uma ciência, por- que ciência é soma de resultados. História é a necessidade de recomeçar, refazer, de repensar quando preciso. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL > Os resultados adquiridos são readaptáveis. O homem é o único objeto da História, uma disciplina humana, ao lado de outras. Uma História que se interessa por homens com múltiplas funções, aptidões variadas, que entram em conflito e chegam a um modo de vida. > O historiador de hoje se interessa por tudo, mas por comodidade pode passar a estudar somente uma parte. Não se esquecendo que ela, a parte, faz parte de um todo. Se não há problema, não há História, e sim narrações. L. Fevbre menciona- va que a História era um estudo cientificamente conduzido, ou seja, deve propor problemas e formular hipóteses. > Antes, pensava-se que o sábio era o homem, que ao olhar o microscó- pio aprendia um elenco de fatos. E esses fatos ele tinha que registrar. A História é tomada pela dimensão de um método universal que se aplica à análise de todas as formas de atividade humana. A História ainda hoje se define não pelo conteúdo, mas sim pelo método - não o método histórico, simplesmente o método crítico. A História absorvia as outras disciplinas humanas. Como História literá- ria, História da arte e outras, e com isso adormecia nas suas certezas. Entretanto, surgiam disciplinas novas como a Psicologia, a Sociologia, a Geografia humana, satisfazendo a realidade que não satisfazia os estudos históricos, cada vez mais afastados da realidade. A História ocupa dema- siado lugar em nossas vidas para não nos preocuparmos com ela. Fazer História, ler história não é perder tempo. Agora, uma rápida reflexão: Por que a autora coloca que, na visão positivista, História não é uma ciência? Você concorda com L. Fevbre ao colocar que a História não é uma ci- ência propriamente dita? (Reveja suas citações nas primeiras aulas) INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL Resumo - Unidade III Essa Unidade amarra os temas trabalhados na Unidade II. Tempo Histórico, historiografia, metodologia, agentes e fontes documen- tais formam o elenco para a construção do Conhecimento Histórico. Sem querer fazer invasão na área da Teoria da História, mas se aliando ao seu conteúdo, o curso de Introdução aos estudos Históricos precisa dar uma breve noção das tendências e críticas ao universo da História. A Unidade retoma alguns conceitos, aprofundando a análise nas linhas historiográficas mencionadas na Unidade I. Memória e tradição oral, conhecimento histórico e memória são funda- mentos que precisam ser trabalhados em novas visões e releituras, pois o dinamismo da História e a diversidade cultural com toda sua produção não podem passar sem a reflexão e o embasamento filosófico de cada momento. Claro que não pretendemos esgotar o assunto nessas aulas, mas o tempo e a continuidade do programa já permitem novas abordagense reflexões. Uma crítica, ou análise, sobre as tendências pedagógicas que abarcam o ensino de História no Brasil, podem ser fundamentais para entendermos como a História foi concebida no país e quais as propostas atuais declara- das nos documentos que norteiam o ensino brasileiro. Essa preocupação é coerente num curso de licenciatura, fazendo o elo entre as disciplinas específicas e de núcleo comum do curso proposto. A mesma unidade permite trabalhar, pela sua abordagem mais madura, autores conhecidos da historiografia, confrontando posturas diversifica- das e lançando as bases para novas reflexões. É preciso, já nesse final de curso, uma certa intimidade com os historiadores que definem as linhas historiográficas existentes. Dessa maneira, estamos fechando um programa que permita uma per- feita introdução, até aprofundada, aos estudos de História com todos os caminhos que indicam seus desdobramentos, tradições, permanências e rupturas. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�� UNIMES VIRTUAL Referências Bibliográficas: ANSART, Pierre. “História e memória dos ressentimentos”. In BRESCIANI, Stella & NAXARA, Márcia (org.) Memória e (res)sentimento. Indagações sobre uma questão sensível. Campinas: Ed. Unicamp, 2004. pp. 15-34. FEBVRE, Lucien. Combates Pela História. Lisboa: Editorial Presença, 1977. GAGNEBIN, Jeanne Marie. “Verdade e memória do passado”. In: Projeto História. Trabalhos da memória. Revista do Programa de Estudos Pós- Graduados em História e do Departamento de História da PUC-SP. São Paulo: Educ/Fapesp, no. 17, novembro de 1998, pp. 213-21. LÊ GOFF, Jacques. Memória – História. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1984. _______, Jacques. História e memória. Campinas: Ed. Unicamp, 2003. pp. 7-22; 127-46; 467-77. Parâmetros Curriculares Nacionais: História/Secretaria de Educação: Brasília: MEC/SEF, 1998. Revista Histórica no. 13 – artigo de Fabiano Junqueira de Freitas e Paula Lou Ane Matos Braga. SELIGMANN-SILVA, Márcio. “Reflexões sobre a memória, a história e o esquecimento”. In: SELIGMANN-SILVA, Márcio. História, memória, lite- ratura. O testemunho na era das catástrofes. Campinas: Ed. Unicamp, 2003. pp. 59-85. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS �� UNIMES VIRTUAL Exercício de auto-avaliação III 1) Com relação à afirmação de que História é uma ciência, observamos que: a) nunca foi levantada esta hipótese por se tratar de uma arte que trabalha com aspectos subjetivos. b) os historiadores da modernidade não consideram História ciência por não trabalhar com elementos da natureza e apenas com a explicação através da fé. c) por se servir de documentos, no processo metodológico, alguns historiadores tomam a História como ciência. d) apenas os historiadores positivistas aceitam essa afirmativa. e) história, desde o tempo de Heródoto, sempre foi considerada uma ciência. 2) Ao analisarmos a trajetória da História no Brasil, podemos afirmar que: a) apesar das várias tendências que a História sofreu ao longo do tempo, no Brasil sempre se produziu e se construiu uma História positivista. b) o ensino de História só foi iniciado depois do período da Ditadura Militar. c) não houve transformação na sua produção por se tratar de um país preso aos princípios eurocêntricos, privilegiando a escola francesa. d) o Brasil buscou manter a tradição, até os dias de hoje, iniciada no império com a Escola D. Pedro II. e) atualmente a História se mostra, com todo seu dinamismo, aproximada das demais ci- ências da área de humanas. 3) Com relação à analise do documento histórico, observamos que: a) um novo elenco, como os veículos da mídia, são fontes seguras oferecidas ao historiador, já que a atualidade pode contribuir com a alta tecnologia gerando confiabilidade nessas novas fontes. b) o historiador passou a contar com a imprensa, vídeo, cinema, televisão, computador e outras fontes, permitindo a escolha de um desses veículos de comunicação para concentrar sua pesquisa, permitindo uma maior facilidade no processo por poder eliminar qualquer outro tipo de documento mais tradicional do seu acervo de fontes. c) graças às inovações tecnológicas empregadas nas fontes, o historiador pode resgatar a questão da busca da verdade absoluta. d) mesmo as novas possibilidades de busca em fontes diversificadas, como a imprensa, por exemplo, o historiador precisa de critérios por se tratar de veículos que podem ser tenden- ciosos, seguindo linhas ideológicas de acordo com a sua administração ou direção. e) a mídia é um meio desprezível para o historiador criterioso, que queira manter suas in- vestigações com sucesso dentro de uma metodologia, que não aceita os novos meios de comunicação. INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS HISTÓRICOS�0 UNIMES VIRTUAL �) Entendemos a História dos Annales como sendo: a) uma linha de pesquisa que trabalha a história oral, exclusivamente. b) uma nova concepção da História que inclui os homens comuns, o movimento dos grupos sociais, novas técnicas de metodologia e fontes, e o dinamismo da História sem privilegiar uma única categoria. c) uma tradicional concepção de História que buscou, ao longo do período iluminista, es- tabelecer a História como ciência, trabalhando os fatos e situações históricas com o rigor científico na análise de causas e efeitos. d) uma linha de pesquisa que explora a História factual. e) uma nova concepção de História, criada na Alemanha, através de uma revista onde privilegiava os estudos medievais e as relações sociais através da luta de classes e seu estruturalismo. �) Entendemos “Patrimônio Imaterial” como sendo: a) rol de documentos escritos que se refere às idéias e pensamentos, nunca aos objetos da cultura material. b) elenco de registros da história oral através das novas tecnologias. c) manifestações produzidas pelo homem ou grupo social como, cantos, técnicas constru- tivas, culinária, etc., passadas de geração a geração, que se tornam fontes para o historia- dor. d) a história produzida através dos monumentos e achados arqueológicos. e) toda a produção histórica gerada pelas sociedades modernas da Europa Ocidental.