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OO MMUUNNDDOO GGEEOOGGRRÁÁFFIICCOO DDEE NNIITTSSCCHHEE 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Valéria Cristina Vaz Nitsche 
 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
OOO MMMUUUNNNDDDOOO GGGEEEOOOGGGRRRÁÁÁFFFIIICCCOOO DDDEEE NNNIIITTTSSSCCCHHHEEE 
 
 
Valéria Cristina Vaz Nitsche 
 
 
A Verdade é dura como o diamante - e delicada 
como a flor do pessegueiro. 
Vocês podem me acorrentar, torturar e até 
destruir meu corpo, mas nunca aprisionarão 
minha mente. 
 
Pensamento de Gandhi 
 
 
 
 
 
 
 3 
Ao adentrar na casa de um colega geógrafo, Nitsche percebeu que seu amigo estava 
ocupado com um recipiente de vidro que comportava aproximadamente cento e 
vinte litros de água. Logo, Nitsche perguntou: 
- O quê está fazendo amigo? 
- Ah...Acabei de criar um espaço para os peixes! Gostou do meu aquário? 
 Nitsche respondeu: Peixes necessitam de cuidados, tais como: iluminação 
adequada, controle do PH, tratamento d´água e de alimentos...Você não criou 
espaço para os peixes, mas sim, desenvolveu um ambiente propício a vida 
aquática! 
 
 
 
 Aos meus pais que sempre me confortaram 
nos momentos mais difíceis de minha jornada 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 4 
 
SUMÁRIO 
 
 
Palavras Iniciais..................................................................................................... 
 
Apresentação (é proibido ler)................................................................................ 
 
Introdução: a problemática existencial da Geografia............................................ 
 
As origens............................................................................................................. 
 
O nascimento da filosofia ocidental e sua influência na Geografia..................... 
 
Estruturas de sustentação do mundo geográfico.................................................. 
 
Uma nova abordagem conceitual sobre Espaço e Cidade................................... 
 
A Geografia Espacial em Análise....................................................................... 
 
Geografia...Ferramenta de Análise ou Ciência................................................... 
 
Pensamentos que não foram utilizados em seus trabalhos................................. 
 
Desabafo Geográfico: Influência pessoal/social e política na ciência............... 
 
Palavras Finais................................................................................................... 
 
Bibliografia........................................................................................................ 
 5 
PALAVRAS INICIAIS 
 
 
Este livro que ora vos apresento, é uma tentativa de preservar as idéias de 
meu irmão Julio César Vaz Nitsche, que se dedicou à Geografia durante o tempo 
que lhe foi permitido. Escrevendo desta maneira, aparentemente se tem a impressão 
que ele não está mais no mundo dos vivos. Mas ele ainda permanece conosco! 
A preocupação de se fazer tal obra, recai na capacidade degenerativa de 
suas memórias e de sua condição física, cada vez mais debilitada, devido ao acidente 
ocorrido há algum tempo, forçando-o a permanecer mais de nove meses em um 
hospital. São estas marcas e cicatrizes que possibilitam Nitsche a ver o mundo de 
uma maneira diferente daqueles que não possui em sua armadura um arranhão. O 
corpo e a alma necessitam de novos desafios, não há a necessidade de provar que o 
outro está errado, pois o que é útil prevalecerá e o mais próximo da realidade do 
momento vivido e da tecnologia desenvolvida, se concretizará. 
Percebi que muito foi feito por ele, durante o tempo que ingressou na 
Universidade, até os dias mais produtivos de seu estado de saúde e suas idéias são 
inovadoras dentro do âmbito geográfico. 
Muitas pessoas não visualizam o esforço humano de se conquistar um 
diploma e a importância deste perante a sociedade. E não precisa ser um diploma 
universitário, pois muitos adolescentes vindos de famílias humildes mal conseguem 
terminar o ensino médio. 
Nitsche, passou quatro semanas morando literalmente na rodoviária de 
Brasília-DF, apenas para poder concluir e adquirir seu certificado de conclusão do 
Ensino Médio, que na época era denominado de 2o Grau. 
Não se pode deixar passar o tempo e não tentar mostrar ao mundo 
geográfico e a população em geral, as idéias deste, que tanto lutou para se tornar um 
geógrafo e desempenhar trabalhos importantes. Mas que não pode seguir adiante em 
suas metas por motivo de força maior. Sendo assim, entrego a você caro leitor, o 
 6 
memorial de meu irmão, que descrevo embasado nas anotações e nos manuscritos 
que ele enviou às editoras das universidades para serem avaliadas para possível 
publicação e nos artigos e trabalhos de sua autoria, expondo seu ultimo registro, que 
foi adaptado e/ou interpretado por minha pessoa (Valéria C. Nitsche)1 conforme se 
inicia: 
 
 
APRESENTAÇÃO 
(É PROIBIDA A LEITURA) 
 
 Ah...está lendo! 
 Sinta-se à vontade para descobrir o que está sendo abordado aqui, pois 
muitas pessoas não lêem as apresentações e prefácio. Mas com este pequeno aviso 
de proibição... como pode resistir? 
Muitos livros e teses ofereceram valiosas contribuições às idéias sobre as 
questões filosóficas e práticas geográficas, porém, não expressam uma inovação ou 
análises que possam contribuir com uma nova realidade do pensamento geográfico e 
social, questionando a representatividade do espaço como objeto de estudo e 
formulando novas análises e praxes aos conceitos que se referem. Desta forma, o 
presente manuscrito possui a intenção de demonstrar novas possibilidades, 
fundamentando-se em exaustiva revisão bibliográfica, contendo uma fundamentação 
às análises geográficas que deve contribuir com novos horizontes de pensamento 
sobre a Geografia e seu objeto de estudo. 
Nitsche, manifesta-se contra a criação de espaço realizado pelas mãos 
humanas, afirmando que a sociedade não cria espaço, mas desenvolve ambiente 
 
1 Pois Nitsche, não possui mais a clareza lógica de seu pensar e necessita de alguém para 
ajuda-lo a escrever/descrever eventos, além do processo avançado de afasia 
 7 
artificial. Com esta visão, tenta unir duas Geografias tão distantes2 através de suas 
experiências relatadas em suas obras literárias e de seus trabalhos de campo, bem 
como na elaboração de princípios ideológicos e metodológicos, embasando-se na 
convivência e ensinamentos de seus mentores e amigos. Logo, a finalidade de tal 
obra é demonstrar que há uma maneira de amenizar o efeito dicotômico3 existente na 
Ciência Geográfica, desenvolvendo diagnósticos interativos voltados às análises 
ambientais, bem como, o de reavaliar o conceituado objeto que embasa e estrutura a 
Geografia. Porém, este livro não atende apenas as questões geográficas, pois abre 
um leque de pensamento para os demais membros de todas as classes sociais. 
Inclusive aos renomados pensadores e pesquisadores possuidores de títulos. Devo 
enfatizar o significado e a contextualização desta obra escrita por minha pessoa, pois 
muitos não conseguem interpretar o real significado do fio condutor para reflexões 
variadas, que procura caracterizar as fases evolucionárias da humanidade, assim 
como as manifestações e transformações, tanto da ciência geográfica, bem como, 
dos aspectos que definem e explicam a funcionalidade da filosofia e sua 
importância, tanto no meio acadêmico, bem como, em nossa própria vida cotidiana. 
Mas não há a intenção de um aprofundamento filosófico, perante a pessoa de 
Nitsche. 
Vou responder algumas dúvidas que possam surgir ao longo de sua leitura, 
caro leitor, como por exemplo,as que se expõem no momento: 
1. O título do trabalho não é compreensível. “O Mundo 
Geográfico de Nitsche”. Quem é Nitsche? Não se trata 
seguramente do filósofo Nietzsche. 
 
2 Geografia Física e a Geografia Humana 
3 Estabelecer vínculo harmonioso entre as duas distintas geografias, possibilitando a 
dissipação dicotômica. 
 8 
R. O título do livro se refere ao mundo geográfico que Julio C. V. Nitsche 
expõe sua vivência, suas experiências e suas aquisições de pensamentos e 
reflexões. São questões pessoais vividas por este geógrafo. 
2. Texto perigosamente generalista e superficial, principalmente 
na parte que se dedica a filosofia. 
R. Este manuscrito não tem a intenção de se tornar um tratado de filosofia, 
pois os enfoques são introdutórios, para que as pessoas que não tiveram 
contato com a filosofia possam entender do que trata a investigação da 
dimensão essencial e ontológica do mundo real e seus princípios teóricos 
que fundamentam, avaliam e sintetizam a miríade de ciências particulares. 
3. Difícil definir público alvo. Não é um para-didático (todavia, 
por vezes parece ser) e por vezes dirigir-se a um público mais 
específico (estudantes de geografia, ou mesmo profissionais). 
Neste último caso o texto peca pela argumentação pouco 
desenvolvida (mais uma vez superficialidade). É um texto 
introdutório ou não? Tem este propósito? O trabalho não deixa 
isto claro. 
R. O objetivo do livro é justamente fazer algo diferente de tudo o que se 
tem feito desde o século XIX. Não deve haver um público alvo, pois 
Nitsche, deseja que todas as massas de todas as classes sociais tenham 
acesso a este memorial/reflexões pessoal de como é a geografia e o mundo 
científico para a pessoa de Nitsche. E não há, por parte deste, exemplificar 
ou deixar claro se é ou não um texto introdutório, pois a idéia é deixar a 
mente do leitor atenta e pronta para encontrar e desenvolver suas próprias 
conclusões4. 
 
4 Mas os moldes do Século XX exigem um público alvo, caso contrário, não pode haver 
publicação. Sendo assim, o tema se repercute mais no âmbito estudantil e acadêmico 
geográfico. 
 9 
Um exemplo: O que justifica o título “Estruturas de sustentação do mundo 
geográfico?” Se o autor vê esta questão, ele não justifica porquê. 
R. Esta é a maneira que Nitsche observou como é arquitetado este mundo 
da geografia. Não havendo necessidade de justificar, pois a intenção, é que 
os leitores tenham suas próprias conclusões e não sejam contaminados por 
justificativas. Mas a explicação está diante dos seus olhos, basta saber 
interpretar textos. 
4. O texto condiz mais com um artigo para revista especializada, 
descontando aqui a posição seguida pelo autor, que ao nosso 
juízo é um tanto superficial em sua sustentação. 
R. Não há porque seguir o rijo científico (ser profundamente científico e/ou 
aprofundado nas questões acadêmicas), pois, este manuscrito é dedicado a 
toda população brasileira e aos demais grupos de pessoas que vivem neste 
planeta denominado Terra. Porém, foram feitos trabalhos de campo e de 
leituras que levaram a tais conclusões, sendo que estes são tratados 
cientificamente nos moldes do Século passado e remodelados para uma 
nova realidade metodológica observada e experimentada por Nitsche. 
A Geografia, (para Nitsche), possui duas linhas de pensamentos e 
uma definição: Nós construímos espaços. Porém, não há concordância 
perante a pessoa deste que desenvolve as palavras aqui interpretadas. E não 
há a intenção de impor tal ideal. Pois este livro, nada mais é que: Reflexões 
feitas. E a sustentação não deve ser impositiva ou defendida com vigor. 
Pois cada intelecto possui a capacidade de elaborar novas 
contextualizações, lendo simples idéias sem suporte científico ou 
explicações. 
5. É mais uma vez citado o autor que dá título a obra (e que 
consta na bibliografia): Nitsche. Mas isto justifica o título? 
R. Acho que os próprios leitores podem responder esta! 
 10 
6. A obra aborda problemas de ordem epistemológica na 
geografia e pela complexidade que o tema apresenta. Neste 
campo carecea necessidade de um tratamento mais denso. 
R. Mais uma vez digo: Este manuscrito não é tese! O texto foi feito para, 
como diz o Prof. Olavo Soares, ser usado como injeção de ânimo. “Você 
aplica uma injeção que estremece o cérebro e faz com que ele veja o mundo 
de várias formas nunca vista antes”. 
Caro decifrador de signos gráficos que traduzem a linguagem oral, 
você pode achar cômico o título é proibido ler e que ainda quer ver se há 
consistência científica no texto. E como se não bastasse, ainda diz que: “A 
proposta explícita na introdução sugere uma crise existencial na geografia, 
não deixa de ser razoável uma reflexão sobre o tema, todavia a justificativa 
apresentada chega a beira do “achismo” com citações do próprio Nitsche, 
uma filosofia de si mesmo. 
R. Quem ler este livro saberá com certeza que tudo é exatamente isso! Uma 
reflexão das coisas, que Nitsche entende/vê do mundo geográfico! Pode 
chamar de achismo se quiser. Mas o importante é interpretar as construções 
de frases e a maneira como se escreve tal obra. Voltando mais uma vez aos 
intelectuais detentores de diploma. Seguindo em suas análises até o 
momento em que diz: 
7. O autor salta do Australopitecus para Engels e Popper o que demonstra a 
pouca consistência de seus argumentos. 
 R. Não há salto! Simplesmente mostra-se como o humanóide evolui em 
sua trajetória intelectual, e tais fatos demonstram que, o ser humano adquiriu 
experiências e conhecimento que possibilitaram o desenvolvimento e criação de 
ferramentas e habilidades para superar as fases de transformação ambiental natural5, 
prosperando em sua jornada evolutiva do raciocínio e desenvolvimento corporal, o 
 
5 Não criado e/ou alterado por nós. 
 11 
que possibilitou a construção de sua própria cultura. Adotando este enfoque sobre a 
cultura, conota-se a idéia de que para se criar e desenvolver cultura é necessário 
pensar e estabelecer um raciocínio lógico e ao mesmo tempo metafísico, 
estabelecendo o padrão de inteligência do ser humano dentro de sua corrida 
evolutiva começada há 3,5 milhões de anos. E que, para Engels, o trabalho manual 
e físico foi o responsável pela transformação de um ser com características semi-
bípede para bípede, que possuía a habilidade de caminhar ereto! Nitsche não está 
realizando uma seqüência de eventos cronológicos de ação, mas sim, de pensamento 
e expõe as explicações de pesquisadores e filósofos, que respaldam a evolução dos 
processos que permitiram a existência de cidades e o mundo como vimos e vivemos 
hoje. 
8. Adentrando em outra questão, há um tratado com verbetes, desde os 
gregos antigos até os primeiros geógrafos modernos. Estas descrições, além de 
serem recorrentes na literatura básica do assunto estão dispostas como em um 
“almanaque”. 
R. Como dito, este livro é voltado e de fácil entendimento para qualquer 
pessoa que se interesse pelo tema ora abordado. Quem irá trabalhar com as 
informações serão os professores, profissionais, alunos e todo e qualquer indivíduo 
que se interesse por estas questões. Quero levar ao público esta oportunidade de 
entender o bojo filosófico que na minha concepção embasa todo o conhecimento 
adquirido. E nada mais simples que disponibilizar estas informações da maneira que 
é disposta no Almanaque! O professor de filosofia e/ou geografia, ou qualquer 
profissional que necessitar adentrar nos enfoques que aqui descrevo, irá com 
certeza, moldar em sua plena capacidade de transmissor do conhecimento, uma 
ênfase maior e mais aprofundada as carências de bases epistemológicas e 
filosóficas. Pois este livro não é voltado para aos que tem diplomasapenas! E quem 
tem os diplomas e títulos que façam suas conotações e críticas a este memorial, mas 
que retrate aos seus ouvintes a essência desta obra, que conduz a uma nova 
abordagem nos métodos científicos e reflexões que trazem a tona duas questões 
 12 
ainda não resolvidas dentro do âmbito geográfico e social. 1- Espaço é 
realmente objeto de estudo da Geografia? 2- Criamos espaço ou ambientes? 
Além deste fato, Nitsche está mostrando uma nova maneira de se trabalhar com os 
aspectos dicotômicos enfrentados no âmbito acadêmico, mudando completamente as 
condições metodológicas que vem sendo aplicado desde o Século XX. 
As análises aqui postuladas podem não resolver os problemas, mas com 
certeza, proporcionará uma reflexão aos novos caminhos que se pode seguir dentro 
do âmbito geográfico, contribuindo com uma nova visão aos alunos do ensino 
médio, bem como aos demais indivíduos que compõem nossa sociedade. Pois os 
alunos de hoje vêem o mundo com o material didático e pedagógico que os 
professores lhes oferecem. E estes materiais, dizem apenas que nós construímos 
espaço e que organizamos o espaço. Não há outra literatura que interprete o 
contraditório desta afirmação. Estes alunos tornar-se-ão formadores de opinião no 
amanhã, por este motivo faz-se necessário mostrar novos rumos que se podem 
seguir, tanto no âmbito acadêmico da geografia, bem como de várias outras 
ramificações do saber, apreciando a trasdisciplinalidade que une e transforma o 
caráter das ramificações científicas antes divergentes. Além, é claro, de demonstrar 
aos demais grupos de pessoas que se interessam por este tipo de literatura6, que 
existem conflitos ideológicos e metodológicos no mundo científico e no mundo que 
cada indivíduo possui ou vê como sendo o mundo real. 
 
 
 
 
 
 
 
 
6 Aos curiosos e a quem não concluiu o Ensino Fundamental. 
 13 
INTRODUÇÃO A PROBLEMÁTICA EXISTENCIAL DA 
GEOGRAFIA 
 
 
Meu irmão, entende que existe um universo onde esconde vários mundos, 
algo tão abstrato quanto à radiação solar, sendo sentido apenas quando se visualiza a 
pele de nossos corpos serem ruborizadas ou quando observamos falhas de 
comunicação de satélites, devido às influências das atividades de nossa estrela 
amarela, denominadas de ventos solares. 
Este universo não é palpável, e sua visualização é livre de conceitos pré-
definidos, cada pessoa ou pesquisador pode vê-lo ou percebe-lo de várias maneiras, 
pois tudo depende do idealismo formal filosófico de cada indivíduo que cria, forma 
e reformula suas bases de pré-existência, recaindo na metafísica7 dos conceitos de 
concretizar o abstrato, criando o concreto através de paradigmas e paradoxos. 
Através da atividade cerebral do homem é que foi possível perceber o 
mundo abstrato da ciência, digo abstrato porque não se pode tocar ou ver. Apenas 
refletimos e fazemos uso da razão e da percepção para perceber a existência de tais 
conjuntos de saberes que se adquirem pela meditação e leitura, criando desta 
maneira uma doutrina filosófica que considera os conhecimentos científicos como 
definitivos, negando a importância dos problemas inacessíveis aos métodos 
científicos. E só podemos senti-la, quando concretizamos algo na superfície do 
nosso planeta, como edifícios, casas (moradias em geral), veículos automotores, 
embarcações, usinas geradoras de energia, e tudo mais que se possa construir através 
das bases científicas e/ou por intermédio da vivencia e experiência. Além destes, 
 
7 metafísica significa o conhecimento das causas primárias e dos primeiros princípios dos 
conhecimentos provenientes da razão pura. E tais conhecimentos, não afirmam uma visão de 
mundo ou de natureza estagnado(a). 
 
 14 
ainda podemos criar objetos que podem vagar no Espaço Cósmico, como 
espaçonaves, telescópios, satélites, base espacial e outros. 
(...) Pedi a ele: “Tu que és a sabedoria e que me conduzes por esta estância 
infernal, satisfaz o meu desejo de bem conhecer este lugar (...)”. Transcrito do livro 
“A Divina Comédia, Canto X.” 
Neste complexo universo do pensamento humano, encontra-se um mundo 
ainda inexplorado, desconhecido até mesmo pelos seus próprios habitantes. Os 
habitantes deste, são denominados geógrafos e este mundo dicotômico é conhecido 
por Geografia. 
A Geografia ainda não possui uma exata localização, pois se tratando de um 
mundo novo e inexplorado suas coordenadas oscilam entre as Ciências da Terra, 
Ciências Humanas, Ciências Sociais, Antropologia e Ciências Exatas e outras. 
Como se pode perceber, é quase impossível mapear com exatidão suas dimensões e 
localidade científica. Tendo ainda, vários pensadores que redefinem o que é 
geografia e o que o geógrafo faz. Será possível existir uma ciência assim? 
Mas por quê os Geógrafos não conhecem o próprio local onde vivem? 
A Geografia é uma ciência ou uma ferramenta de análise? 
O Espaço é realmente o objeto de estudo da Geografia? 
Por quê a Geografia não possui um posicionamento fixo em suas 
coordenadas ou lugar determinado no universo científico? 
 
 “QUEM NÃO CONHECE A REGIÃO ONDE MORA, NÃO 
CONHECE A SI MESMO”. 
 
Esta frase de Nitsche (1999), tem uma conotação muito ampla, apesar de 
ser bem simples em sua estruturação gramatical, pois ela expressa uma realidade que 
não se percebe de imediato, sendo necessária uma análise profunda de seu 
significado. Estas palavras podem ser inseridas na região de estruturação do mundo 
geográfico, pois muitos geógrafos ainda não definiram e nem sabem ao certo do 
 15 
conceito básico da ciência geográfica, implicando na própria atuação do geógrafo no 
mercado de trabalho. Com ênfase nestas questões, abordar-se-á as diretrizes 
analíticas do pensar geografia, no intuito de colaborar com novas perspectivas ao 
pensamento geográfico. Estas e outras questões estão sendo abordadas nesta obra, 
conforme se inicia: 
 
AS ORIGENS 
 
A origem deste mundo geográfico está relacionada com os estágios de 
evolução do homem, sendo classificadas em quatro estágios conforme exposto: 
 1º Estágio: Australopitecínio-Homo, remontando cinco milhões de anos 
atrás, com diversas variedades de fósseis hominídeos e com ferramentas 
rudimentares feitas de pedra. 
 2º Estágio: Homo erectus, com idades aproximadas de um milhão de anos 
atrás, com uma duração de cem mil anos. 
 3º Estágio: Surgem os humanóides transicionais e em seguida os 
neandertalenses e seus contemporâneos menos diferenciados. 
 4º Estágio: Datando de aproximadamente 40 mil anos, surgem os primeiros 
vestígios de esqueletos totalmente modernos, sendo denominado de Homo sapiens. 
 Todos os três primeiros estágios apresentam humanóides fabricando 
ferramentas e no último estágio, observa-se o homem moderno formado, adaptado 
às transformações ambientais, que no processo demonstrado, o ambiente estava em 
constante mutação e desequilíbrio, com variâncias climáticas, sendo estas evidências 
e comprovadas através dos estudos geográficos, geológicos e paleontológicos, além 
de serem evidenciados na arqueologia, através dos estudos dos ossos fósseis. 
 Tais fatos demonstram que o ser humano adquiriu experiências e 
conhecimento que possibilitaram o desenvolvimento e criação de ferramentas e 
habilidades para superar as fases de transformação ambiental, prosperando em sua 
 16 
jornada evolutiva do raciocínio e desenvolvimento corporal, o que possibilitou a 
construção de sua própria cultura. 
 Nas palavras de Braidwood (1907), “A cultura permanece, embora os 
indivíduos que compõem um determinado grupo desapareçam. Por outro lado, a 
cultura muda conforme mudam as convenções e entendimentos. Quase se pode dizer 
que a cultura vive nas mentes das pessoas que a possui. Mas as pessoas não nascem 
com ela, adquirem-naà medida que crescem.” 
 Para Braidwood, a cultura significa o modo como um grupo de pessoas 
pensa, crê e vive, além de suas capacidades de manufaturar vestimentas, 
instrumentos e a forma de como se fazem as coisas. 
Adotando este enfoque sobre a cultura, conota-se a idéia de que para se 
criar e desenvolver cultura é necessário pensar e estabelecer um raciocínio lógico e 
ao mesmo tempo metafísico, estabelecendo o padrão de inteligência do ser humano 
dentro de sua corrida evolutiva começada há 3,5 milhões de anos, quando surgem os 
macacos hominídeos, antecessores do homem moderno. Pode-se estabelecer estas 
fases de desenvolvimento da seguinte maneira: Período Paleolítico (de 3,5 milhões 
a.C. a 10.000 a.C.), Mesolítico (de 10.000 a.C. a 8.000 a.C.) e Neolítico (de 8.000 
a.C. a 4.000 a.C), sendo que a domesticação de animais, o surgimento da agricultura, 
a utilização dos metais e a descoberta da escrita marcam o fim dessa fase. 
Os exemplares de hominídeos mais antigos são: Ardipithecus kadabba 
datado com aproximadamente 5.700.000 (cinco milhões e setecentos mil anos), 
ainda sendo estudado pela mesma equipe internacional de pesquisa8 que descobriu 
em 17 de dezembro de 1992 o primeiro dente de hominídeo datado em 
aproximadamente 4. 400.000 (quatro milhões e quatrocentos mil anos), sendo que 
no ano de 1994, foram encontrados mais de 90 (noventa) ossos do Ardipithecus 
 
8 Tim Withe, Owen Lovejoy, Berhane Asfaw, Yoahannes Haile-Selassie, Giday W. 
Gabriel, Paul Renee, Yonas Beyene, Gen Suwa, Leslea Hlusko, Cesur Pehlevan e 
mais 40 cientistas de vários lugares do planeta. 
 17 
ramidus (Ardi)9 à oeste do rio waoache localizado na região de Afar, em Aramis, no 
que atualmente denominamos de Etiópia10. Logo após, na cadeia evolucionária, 
aparece o Australopithecus afarensis (a Lucy), com aproximadamente 3 milhões de 
anos, encontrados em Afar na década de 20, mais especificamente em 1925. A 
evolução do afarensis resulta em pelo menos duas outras linhagens: o 
Australopithecus africanus e os Paranthropus boisel e robustus. Os Paranthropus 
não deixam vestígios de evolução, tornando-se praticamente um beco evolutivo. O 
Australopithecus africanus evolui para o Homo erectus ou Pitecanthropus, há 
aproximadamente 2 milhões de anos. O Homo erectus – É o primeiro a usar objetos 
de ossos e pedras como ferramentas e como arma, a empregar o fogo e 
provavelmente, a falar. Evolui, há 700 mil anos, para o Homo neanderthalensis (o 
homem de Neanderthal) e, há 500 mil anos, para o Homo sapiens, do qual descende 
o homem atual. Porém, o mais recente achado, o sahelanthropus tchadense de 7 
milh de anos, está sendo caracterizado por BRUNET, como sendo o mais antigo 
ancestral do homem moderno (In: Folha de São Paulo – 15/07/2002. pp11). 
A evolução histórica dos hominídeos até o Homo sapiens não ocorre de 
forma linear. Agrupamentos inteiros do gênero Homo desaparecem em conseqüência 
de variações climáticas, condições geográficas, miscigenação e outros fenômenos 
naturais. 
Existem duas teorias amplamente aceitáveis, existindo ainda, uma que não 
é muito bem recebida, sobre o local onde surgem os antepassados do homem. A 
primeira sustenta (com base na descoberta do afarensis), que a origem é a África 
(nas savanas), de onde teria começado a se espalhar pelo mundo há 200 mil anos. A 
segunda apóia-se nos achados de restos do Homo erectus em Java, Indonésia (1,8 
milhão de anos), e do Homo sapiens em Jinniushan, China (200 mil anos), e diz que 
 
9 Sendo este uma fêmea. 
10 Até o momento não houve movimentos sociais ou intervenção política-
administrativa que motive a substituição do nome deste país. 
 18 
a evolução de uma espécie ocorre em diferentes regiões da Terra, em momentos nem 
sempre coincidentes. A terceira, que não é aceita por muitos antropólogos e 
arqueólogos, enuncia que a África é o local de surgimento de nossos antepassados, 
porém, este primórdio ser é semi-aquático e não se originou nas savanas. Esta teoria 
se fundamenta em questões funcionais do corpo humanóide e fatos que tentam 
elucidar simples perguntas: “Por quê estes primitivos seres andavam com apenas os 
membros inferiores? E como fizeram isso? E por quê?” Mas tudo o que se sabe da 
evolução humana está apenas engatinhando, Graças a descoberta do Ardipithecus 
kadabba e o ramidus, confirmando muitas idéias de Darwin e ao mesmo tempo 
refutando alguns pensamentos deste brilhante pesquisador. Além de refutar as 
teorias que enunciam sobre a origem da bipedalidade, pois, o Ardipithecus vivia em 
ambiente florestal e não em ambiente savânico, desconstruindo imediatamente os 
pilares teóricos que corroboravam e respaldavam teorias sobre o ambiente de origem 
do homem. 
Saindo destas análises, voltamos aos períodos evolutivos de nossa condição 
de ser humano, sendo assim representado: 
A Idade da Pedra Lascada (Paleolítico), é o período mais longo e antigo da 
história humana. Estende-se de 3,5 milhões de anos a.C. a 10.000 a.C. Os diferentes 
grupos hominídeos vivem em pequenos bandos ou grupos se preferir, alimentam-se 
de caça, pesca e coleta de frutos. Abriga-se em cavernas. Desenvolvem muito 
lentamente a linguagem oral e a fabricação de instrumentos de osso e pedra, com os 
quais caçam, guerreiam e realizam entalhes nas paredes e em diferentes momentos, 
aprendem a utilizar e produzir fogo. 
Entre os anos 10.000 e 8.000 a.C. (Mesolítico), o domínio sobre o fogo, 
aliado à domesticação de animais ao cultivo das plantas e à fabricação de 
instrumentos mais avançados, incluindo a cerâmica, promove a sedentarização dos 
grupos de hominídeos, surgindo consecutivamente a divisão do trabalho baseada 
principalmente no sexo. Isso não significa que a mulher ou a fêmea agia 
 19 
passivamente no grupo, apenas representa que cada indivíduo desenvolvia suas 
funções gerais e algumas específicas, como caçar e cuidar da prole. 
O desenvolvimento da agricultura e o início da metalurgia, entre os anos 
8.000 e 4.000 a.C., constituem os aspectos principais da chamada revolução 
neolítica. Nesse período, também conhecido como Idade da Pedra Polida, os homens 
agrupam-se em povoados e aumenta a divisão do trabalho, que permite a produção 
de excedentes e a realização de intercâmbio com outras comunidades. 
Ao adquirir estes conceitos e entendimento de suas capacidades 
administrativas e de suas ações e observações, o homem pôde desenvolver a arte, 
sendo esta dividida em dois grandes grupos: o primeiro grupo seria a arte portátil, 
que é expressa pela maneira de se trabalhar com pedras, ossos, madeira e barro, 
criando pontas de flechas, arremessadores de lança, arpão de osso, machado, panelas 
e jarros. E o segundo grupo, representado pelas pinturas em cavernas e rochas e a 
escultura, que são as representações de animais e grupos sociais de indivíduos 
desenhados nas paredes das cavernas, ou objetos feitos de seixos moldados, 
representando seres vivos como tartaruga e peixes (zoólitos). 
O homem se autodescobre, com sua força de pensamento conhece os 
minerais, produz abrigo, domestica animais, inicia processos extrativistas, conhece 
as propriedades de curas das plantas, delimita plantações e cultiva milho, arroz e 
trigo, inovando e aperfeiçoando suas técnicas e desenvolvendo novos implementos, 
até conquistarem a civilização e construção de cidades. 
Nas palavras de Friedrich Engels (1896, p. 01-02) “O trabalho é a fonte de 
toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, 
encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, 
porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a 
vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho 
criou o próprio homem. Há multas centenasde milhares de anos, numa época, 
ainda não estabelecida em definitivo, daquele período do desenvolvimento da Terra 
que os geólogos denominam terciário provavelmente em fins desse período, vivia em 
 20 
algum lugar da zona tropical - talvez em um extenso continente hoje desaparecido 
nas profundezas do Oceano Índico - uma raça de macacos antropomorfos 
extraordinariamente desenvolvida. Darwin nos deu uma descrição aproximada 
desses nossos antepassados. Eram totalmente cobertos de pelo, tinham barba, 
orelhas pontiagudas, viviam nas árvores e formavam manadas. É de, supor que, 
como conseqüência direta de seu gênero de vida, devido ao qual as mãos, ao trepar, 
tinham que desempenhar funções distintas das dos pés, esses macacos foram-se 
acostumando a prescindir de suas mãos ao caminhar pelo chão e começaram a 
adotar cada vez mais uma posição ereta. Foi o passo decisivo para a transição do 
macaco ao homem.” 
Para Engels, o trabalho manual e físico foi o responsável pela 
transformação de um ser com características semi-bípede para bípede, que possuía a 
habilidade de caminhar ereto. Porém esta conclusão é especulativa, pois não há nada 
nos registros paleontológicos e/ou arqueológicos que sustentem tal afirmação. É 
possível que sua análise se baseie na observação das atividades de alguns primatas 
que permanecem em pé durante algum tempo, quando estão coletando galhos e 
alimentos. Mas não se pode atribuir tal postura devido ao único pretexto do trabalho 
puro, pois neste ponto, existem vários outros fatores que devem ser avaliados, como 
por exemplo: O hábito comportamental reflexivo e instintivo que remonta a 
ancestralidade deste indivíduo ou espécie. 
Os registros fósseis apontam uma linha evolutiva já adaptada ao ser bípede 
que caminha ereto, porém não foram encontrados evidencias ou vestígios fósseis 
intermediários – mais antigos, que poderiam elucidar as causas dos primeiros passos 
eretamente dados. 
O trabalho pode não ter sido o principal responsável pelo andar ereto dos 
humanóides, mas com certeza, sua contribuição foi de suma importância para o 
desenvolvimento da sociedade e da civilização, sendo que Popper (1972), analisa a 
evolução da vida e da emergência do ser humano e do desenvolvimento da 
civilização em um padrão construtivo de três mundos, sendo assim demonstrado: 
 21 
 Mundo 1 – Formado por coisas materiais, com uma visão objetiva de 
mundo. 
 Mundo 2 – É o mundo subjetivo da mente. 
 Mundo 3 – Mundo de estruturas objetivas que são o produto, não sendo 
este, obrigatoriamente intencional, da ação dos espíritos de criaturas vivas, 
existindo independentemente desses espíritos. Um exemplo disto: Todas as 
estruturas criadas pelos animais fora de seu corpo. A represa construída por 
castores é um bom exemplo. Sendo assim, as próprias estruturas, 
transformam-se no centro do meio ambiente do animal, para o qual se 
orienta a parte mais importante de seu comportamento. E como o homem é 
um animal mamífero, ele constrói ambientes conscientemente ou não11. 
O ser humano adquiriu a capacidade de realizar o abstrato, criou 
equipamentos e desenvolveu artifícios para a construção de suas residências, 
usufruindo recursos naturais e transformando-os em matéria prima para a confecção 
de suas vestes e demais objeto para seu conforto pessoal e social. A mente humana é 
capaz de assimilar e estruturar raciocínios lógicos e abstratos, bem como expressar 
estes sentimentos através da escrita, gestos, figuras, monumentos, estátuas, criando 
simbologias, e cultuando o sobrenatural. 
A união desta habilidade do pensar estrutura as classes sociais, fundamenta 
a religião, cria uma visão de mundo, explora as possibilidades e inventa o estudo do 
saber e do conhecimento. 
 
11 Quando construímos um armário ou uma caixa, inconscientemente estamos criando um 
ambiente, pois ao deixarmos esta caixa isolada e/ou sem higienização constante, dentro de 
algum tempo, vamos encontrar: teias de aranha e até mesmo a aranha, traças, ácaros, 
bactérias, fungos e outros. 
 
. 
 
 22 
O trabalho unifica os povos, aglomerados humanos começam a se fortalecer 
culturalmente e ideologicamente, iniciando o processo construtivo das cidades e da 
civilização, onde se identifica monumentos arquitetônicos, uma administração 
centralizada de poder, estratificações sociais e atividades comerciais definidas. Tais 
conjecturas favorecem o amadurecimento espiritual, social e cultural, que por sua 
vez, trás as primeiras noções de visão de mundo, sendo mais evidenciadas nas 
concepções dos primeiros filósofos. 
 Neste momento, o homem está pronto para buscar as questões do quem 
sou, para onde vou, de onde vim... SURGEM OS PENSADORES GREGOS! 
 
O NASCIMENTO DA FILOSOFIA OCIDENTAL 
 E SUA INFLUÊNCIA NA GEOGRAFIA 
 
Para os próprios autores gregos, o estudo da filosofia iniciou-se com os 
“Bárbaros”, povos que não falavam a língua grega e tal expressão não era pejorativa 
ou racista, conforme conota Diógenes Laertios (que viveu no Século III), em seu 
livro “Vida e Doutrina dos filósofos Ilustres”. Sendo aqui demonstrado algumas 
contribuições: 
Os povos da Mesopotâmia são os primeiros a observar e registrar 
sistematicamente os fenômenos astronômicos. Definem os conceitos de dia, mês e 
ano e organizam os primeiros calendários. Diferenciam os planetas (estrelas 
errantes) das estrelas (estrelas fixas). Reconhecem os planetas observáveis a olho nu 
– Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno – e desenvolvem métodos 
matemáticos para calcular seus movimentos e os da Lua. 
Quase todos os povos da Antiguidade desenvolvem calendários lunares, 
baseados nas fases da Lua: dividem o ano em 12 meses de 29 ou 30 dias, num total 
de 354 ou 355 dias. A defasagem de 11 dias em relação ao ano solar é corrigida pela 
inclusão de um mês extra ao final de um certo número de anos. 
 23 
Os egípcios são os primeiros a calcular calendários com base no ciclo das 
estações: o ano tem 360 dias divididos em 12 meses de 30 dias e mais cinco dias 
extras, dedicados aos deuses. Os romanos adotam o calendário egípcio em 46 a.C., 
com a introdução de um ano bissexto, com 366 dias, a cada quatro anos. Em 1582, o 
papa Gregório XIII reforma o calendário Juliano: suprime dez dias de diferença que 
haviam se acumulado ao longo dos séculos e, para evitar defasagens futuras, opta 
pela supressão de três anos bissextos a cada 400 anos. 
Os gregos sofreram influência dos povos babilônicos ou assírios, indianos, 
celtas e gálatas, de acordo com o testemunho de Aristóteles em sua obra “O 
Mágico”. Com estas influências, inicia-se o processo de formação das questões 
filosóficas, sendo criado por Pitágoras o termo filosofia e se autodenomina filósofo 
(que significa: amigo da Filosofia). 
Conforme os relatos de LAERTIOS (1988), a filosofia tem uma origem 
ambígua, começando com Anaxímandros e o próprio Pitágoras, sendo que o 
primeiro era discípulo de Tales e o segundo, recebeu lições de Ferecides. Surgem 
então, duas escolas, sendo assim descritas: 
Iônica – Porque Tales, um milésio e portanto um iônio. 
Italiota – Devido a Pitágoras que filosofou na Itália durante sua trajetória de vida. 
A Escola Iônica termina com Cleitômacos, Crísipos e Teôfrastos, sendo que 
a escola italiota, encerra-se com os Epícuros. Ainda, conforme as análises de 
Laertios, a sucessão passa de Teles a Maxímandros, Anaxímenes, Anaxágoras, 
Arquelaos, até Sócrates, sendo este último o introdutor da ética na Filosofia, 
denominando seus discípulos de “Os Socráticos”, sendo Platão um de seus 
representantes mais importantes, fundador da Academia Antiga, por meio de 
Spêusipos e Xenocrates, passando a Polêmon, Crântor e Crates, sendo que o 
fundador da Academia Média é Arcesílaos e Lacides figura como o fundador da 
Academia Nova. A EscolaIônica finda com seus últimos representantes, passando 
de Platão a Aristóteles e deste para Teôfrastos. 
 24 
A Escola Italiota apresenta seus seguidores, assim mencionados, Ferecides 
a Pitágoras, passando a Telauges (filho deste último), a Xenofanes, Parmênides, 
Zênon de Elea, Leucipos, Demócritos e finalmente Epículos. 
Destes fatos expostos, surgem duas correntes de pensadores, os Dogmáticos 
e os Céticos, que são caracterizados pela maneira de ver o mundo e suas relações 
com o que é conhecido ou não, assim posto, se atribui aos dogmáticos “aqueles que 
pressupõem que as coisas são existentes”, sendo que os céticos, analisam “como não 
sendo possível conhecermos as coisas”. Sendo dogmáticos ou não, muitos dos 
filósofos não deixaram registros escritos, porém foram seguidos e são referenciados 
até os dias de hoje, como Sócrates. 
Surge posteriormente a Escola Eclética, fundada por Pôtamon de 
Alexandria, que elaborou uma seleção de doutrinas de todas as existentes, 
escrevendo uma obra denominada “Elementos de Filosofia” (mencionado por 
LAERTIOS), sendo que sua abordagem é o critério da verdade aquilo que forma o 
juízo, ou seja, o princípio dominante da alma e o instrumento usado são a percepção 
acurada. Seus princípios universais são a matéria e a causa eficiente, a qualidade e o 
lugar, pois aquilo de que e por que uma coisa é feita, bem como a qualidade com 
que e o lugar em que algo é feito, são princípios. O fim a que ele se subordina todas 
as ações é a vida levada a perfeição em todas as formas de excelência, sendo as 
vantagens naturais corpóreas e ambientais indispensáveis à consecução desse objeto 
devendo menciona-los para que possamos entender o desenvolvimento de cada área 
do saber, citando alguns grandes nomes como: 
 ARISTÓTELES: Nascido em Estagira, na Grécia do Norte, filho de médico 
da corte Macedônia. Aos treze anos foi enviado para Atenas, a fim de 
estudar na Academia de Platão, tendo ficado associado à mesma por vinte 
anos. Logo após a morte de Platão foi para a Ásia Menor, dando 
seguimento aos seus estudos biológicos e filosóficos, sendo que em 342 
a.C. voltou para Macedônia como tutor de Alexandre Magno, conforme 
esclarece LOSEE (1979). 
 25 
 ARQUÊLAOS: Foi mestre de Sócrates, qualificavam-no de naturalista, 
pois com ele terminou a filosofia natural, quando Sócrates introduziu a 
ética. Sua teoria naturalista baseia-se no seguinte raciocínio: A água 
evapora-se sob ação do calor e quando precipita condensa-se por causa do 
fogo, produz a terra, ao inundar tudo em volta gera o ar, sendo assim, a 
terra é delimitado pelo ar e o ar pelo fogo que circunda tudo. Os seres vivos 
são gerados pela terra quando é aquecida e assim a terra produziu até o 
homem. 
 ERATOSTHENES: (276a.C.-196 a.C.) Matemático, astrônomo, geógrafo e 
poeta grego, nasceu em Cyrene (Shahhat, Líbia). Em 240 a.C. tornou-se 
bibliotecário-chefe da Biblioteca de Alexandria, ficando responsável na sua 
época pelo maior acervo sobre o conhecimento humano. Eratosthenes é 
mais conhecido hoje pelo seu preciso cálculo da circunferência da Terra12, 
numa época aonde não se acreditava que a Terra seria redonda. Para chegar 
a tais cálculos Eratosthenes empregou seus conhecimentos de astronomia 
para determinar a latitude de Assuã e Alexandria no Egito, e mediu a 
distância entre elas, tendo notado que a imagem da sombra de uma torre de 
igual altura em Assuã e Alexandria tinha diferentes comprimentos numa 
mesma hora do dia, ele chegou a conclusão de que a Terra era redonda e 
calculou com estes dados a sua circunferência. Porém, existem autores que 
defendem que não eram as sombras das torres que Eratosthenes media, ele 
observava que um poço em Siena (Assuan) somente recebia luz solar na 
lâmina d’água entre 20 a 22 de junho. Logo ele percebeu que Siena 
localizava-se no Trópico de Câncer e sabia que havia um outro poço em 
Alexandria com o mesmo fenômeno. Tudo o que ele fez foi medir a 
distância de Siena e Alexandria, resultando aproximadamente 5.000 
estádios, sendo que 1 estádio vale 41.25 metros. O seu mais importante 
 
12 Contendo um erro de menos de 5% 
 26 
trabalho foi um tratado sistemático sobre geografia; após ficar cego com 
quase 80 anos se suicidou por inanição. Este filósofo foi o primeiro a 
explicar a voz como sendo uma concussão do ar e a formação do mar se dá 
através de concavidades devido a infiltrações através da terra. O sol é o 
maior dos astros e todo o universo é infinito. 
 PLATÃO: Nasceu em Atenas, por volta de 428/7 (?), e era membro de uma 
aristocrática e ilustre família. Descendia dos antigos reis de Atenas, de 
Sólon e era também sobrinho de Crítias (460/403) e Cármides, dois dos 
"Trinta Tiranos" que governaram Atenas no ano de 404. Entre 409 e 404, 
Lutou na Guerra do Peloponeso, sendo que em algum momento nesse 
período conheceu Sócrates, e sua admiração por este ilustre pensador foi 
decisiva em sua vida, tendo-o como seu mestre. O seu verdadeiro nome era 
Aristócles, mas devido à sua compleição física recebeu a alcunha de Platão 
("ombros largos"). 
 PTOLOMEU: (também Claudius Ptolomaeus, 100-70 d.C.) Astrônomo e 
matemático grego, viveu em Alexandria, Egito e era cidadão romano. Seu 
primeiro trabalho foi o 'Almagesti', traduzido para o árabe 500 anos depois. 
Nesta obra ele propunha o sistema de geocentrismo o qual descrevia a 
Terra no centro do universo com o sol, planetas e as estrelas rodando em 
círculos ao seu redor. Este trabalho de Ptolomeu influenciou o pensamento 
astronômico durante mais de mil e quinhentos anos até ser substituído pela 
teoria heliocêntrica de Copérnico. Para a Geografia sua mais importante 
obra foi “A Geografia”13 uma tentativa de mapear o mundo conhecido da 
época, demarcando latitudes e longitudes de locais importantes, 
acompanhadas de mapas e uma descrição de técnicas de mapeamento. 
Nesta compilação Ptolomeu utilizou-se de dados estabelecidos por ele 
 
13 Formada por oito volumes, sendo estes acompanhados de um mapa-múndi e mais 26 mapas 
detalhados. 
 27 
mesmo e de Hiparco, Strabo e Marinus de Tiro. Mesmo com informações 
imprecisas este trabalho foi a principal ferramenta de orientação geográfica 
e cartográfica até o fim da renascença. 
 SÓCRATES: Filho do escultor Sofroniscos e da parteira Fainareté, nascido 
em Atenas, no quarto ano da 77a Olimpíada, participou da campanha de 
Anfípolis. Sócrates era conhecido como grande orador e filósofo da ética. 
Sua morte data no primeiro ano da 95a Olimpíada, aos setenta anos de idade 
(LAERTIOS, 1988). 
 SÓLON: Filho de Execestides, nascido em Salamina. Sua obra mais 
importante denomina-se “A Lei da Liberação”, introduzida em Atenas com 
a finalidade de resgatar pessoas e bens. As pessoas requisitavam dinheiro 
emprestado mediante garantia de suas próprias pessoas e bens materiais ou 
animais, sendo que muitos se tornaram servos, devido ao fato do não 
pagamento. Este filósofo foi o primeiro a renunciar uma dívida de sete 
talentos14 cujo credor era seu pai. 
 STRABO: (63a.C. - 24 d.C.), geógrafo e historiador grego, nasceu em 
Amaseia15, Strabo começou seus estudos com Aristodemus e em 44 a.C. foi 
para Roma estudar com Tyrannion, ex-professor de Cícero. Antes de deixar 
Roma ele concluiu sua monumental obra de 43 volumes intitulada 'Esboço 
Histórico'. Em 31 a.C. Strabo começou suas viagens na Europa, Ásia e 
África, tendo viajado quase todo o mundo conhecido da época, ele voltou a 
Roma em 17 d.C. e escreveu seu mais importante trabalho de 17 volumes 
intitulado 'Geographicae' - Geografia. Esta foi a primeira vez que surgiu a 
palavra Geografia. Os volumes seriam conhecidos atualmente como guias e 
eram escritos para uso militar. Esta obra é o principal documento daquela14 moeda da época 
15 Atualmente: Pontus Amasya, Turquia 
 28 
época conservado inteiro (com exceção de partes do volume sete), 
conforme relata LOSEE (1979). 
Sua lógica de raciocínio permitiu-lhe dizer que o princípio do universo é a água 
e que o mundo é dotado de 365 dias. Tales desponta como sendo o primeiro dos 
primeiros, estudando política, física, matemática, razão, imortalidade e a natureza 
(seja ela universal ou humana). 
TALES: Conforme Diógenes Laertios, embasado nas descrições de Dúris e 
Demócritos, Tales era filho de Examias e Cleobuline, que pertenciam a família de 
Nelidas, que conforme Platão, foi o primeiro a receber o título de sábio. Suas obras e 
atuações recaem desde a política até a matemática, escrevendo duas obras concretas 
“Do Solstício” e a outra se denominava “Do Equinócio”, sendo o primeiro a estudar 
Astronomia e o primeiro a predizer um eclipse em 585 a.C., reconhecido ainda por 
Calimacos como sendo o descobridor da constelação Ursa Maior. Tales foi o 
primeiro filósofo a determinar o curso do sol, declarando ainda, que este astro 
correspondia a 720a do círculo solar, e que o tamanho da luz emitida correspondia à 
fração do círculo lunar. Determinando ainda o nome do último dia do mês o nome 
de trigésimo. 
 Aristóteles (Da Alma, 405), afirma em seus manuscritos que Tales, observando 
o âmbar e uma pedra-imã, atribuiu uma alma até aos objetos inanimados. Sendo 
mencionado ainda por Panfile, que relata: “(...) Tendo aprendido geometria com os 
egípcios, Tales foi o primeiro a inscrever um triângulo eqüilátero num círculo e por 
esta descoberta sacrificou um boi”. 
Os gregos são os primeiros a afirmar que a Terra é esférica e realiza um 
movimento de rotação em torno do Sol e que a Lua apenas reflete a luz solar. 
Organizam vários catálogos de estrelas e chegam a afirmar o heliocentrismo, 15 
séculos antes de Copérnico, embora o geocentrismo seja predominante. 
Pode-se dizer, que estes filósofos anteriormente mencionados, são os 
responsáveis pelo nascimento da ciência em si, além do próprio ramo científico 
 29 
denominado de Geografia. Porém, os que se destacam como geógrafos fundadores 
de uma geografia moderna teórica-prática são: 
 FRIEDRICH W. H. ALEXANDER VON HUMBOLDT: Geógrafo, 
naturalista e explorador alemão, nasceu em Berlim, mais conhecido pelas 
suas contribuições à geologia, climatologia e oceanografia. Ainda jovem 
Humboldt foi apresentado a um grupo de intelectuais, entre os quais Moses 
Mendelssohn. Em 1879 ele foi para a Universidade de Gottingen, onde 
estudou arqueologia, física e filosofia. O seu interesse por botânica e 
explorações foi intensificado ao conhecer Georg Forster, que acabará de 
voltar de uma viagem ao redor do mundo com o famoso Capitão James 
Cook. No ano seguinte, Humboldt abandonou Gottingen para estudar 
geologia com A.G. Werner na escola de minas de Freiburg, tornando-se 
inspetor de minas para o governo da Prússia. Uma farta herança de sua mãe 
o permitiu se dedicar aos seus interesses por exploração científica. Em 
1799, Humboldt explorou durante 5 anos a América Latina, visitando 
países como Equador, Colômbia, Venezuela, México e Peru, além de parte 
da bacia amazônica. coletando muitos dados sobre o clima, fauna, flora, 
astronomia, geologia e sobre o campo magnético da Terra. Durante sua 
estada no Peru fez precisas medições sobre uma corrente fria descoberta 
por ele que veio a ser chamada pelo seu nome e hoje é mais conhecida 
como Corrente do Peru. Após uma breve estada nos Estados Unidos da 
América foi morar em Paris onde ficou até 1827, período durante qual 
escreveu uma obra de 23 volumes com as descobertas feitas naquela 
viagem anteriormente citada. Em 1827 viajou para Berlim e foi nomeado 
assessor do rei da Prússia. Em 1829 por convite do Czar russo Nicolau I 
viajou aos Montes Urais e Sibéria para fazer estudos geológicos e 
fisiográficos. Dedicando sua vida a escrever sua principal obra intitulada 
'Kosmos' na tentativa abrangente de descrever o universo como um todo e 
 30 
mostrar que tudo era inter-relacionado. Humboldt foi o primeiro a mapear 
pontos isotérmicos16, impulsionando o estudo da climatologia. 
 KARL RITTER: Geógrafo alemão, conhecido como fundador da moderna 
ciência da geografia. Ritter mostrou ao mundo o princípio da relação entre 
a superfície da Terra a natureza e os seres humanos, era defensor constante 
do uso de todas as ciências para o estudo da geografia. Foi professor de 
geografia na Universidade de Berlin de 1820 até sua morte; seu mais 
importante trabalho, 'Die Erdkunde' (Ciência da Terra, 19 volumes, 1817-
1859), enfatizava a influência de fenômenos físicos na atividade humana. 
 FRIEDRICH RATZEL: Geógrafo e etnólogo alemão fundador da geografia 
política moderna ou geopolítica, o estudo da influência do ambiente na 
política de uma nação ou sociedade. Dele originou-se o conceito de 'espaço 
vivo' (Lebensraum), que se preocupa com a relação de grupos humanos 
com os espaços do seu ambiente. Ele lecionou na Universidade de Munique 
entre 1875 e 1886, e desta data até sua morte foi professor de geografia da 
Universidade de Leipzig. Seu conceito de 'espaço vivo' foi depois usado 
pelo Partido Nacional Socialista (Nazista) para justificar a expansão 
germânica e a anexação de territórios que precedeu a segunda guerra 
mundial. Ritler, o ditador alemão, inspirou-se nesta visão para elaborar sua 
teoria “Espaço”. 
Como se pode observar, classificam-se os filósofos de várias maneiras, 
como a cidade de origem, os locais onde funcionavam suas escolas, ou por 
autodenominação, como os amantes da verdade (os refutacionistas) e outros devido 
aos seus mestres (socráticos). Alguns adotam o nome de físicos, devido as suas 
investigações voltarem-se para a natureza, surgindo ainda os éticos, que analisam 
fenômenos de ordem moral e por fim, àqueles que se dedicam ao verbal, 
denominados de dialéticos. 
 
16 Conectando pontos geográficos de mesma temperatura 
 31 
Até o momento, vimos que a ciência se origina em uma fase de 
transformação do intelecto humanóide, um estágio evolucionário entre as atividades 
puramente instintivas e as primeiras noções de pensamentos inquisitivos, sendo que 
a Geografia segue as mesmas proporções desenvoltas no amadurecimento 
intelectual, onde é necessário aprender a se localizar e identificar pontos de extrema 
importância para a manutenção de suas próprias vidas. Um destes pontos seria a 
localização de fontes alimentícias, abastecimento de água, estabelecimento de 
cidades e observância de postos de comercio. Um importante documento histórico 
deste fato, é o mais antigo mapa já encontrado na cidade de Ga-Sur ao norte da 
Babilônia, forjado em uma pequena placa de barro, datando de 2.500 anos a.C. Tal 
artefato encontra-se em exposição no Museu Semítico da Universidade de Harvard. 
A Geografia se origina dos conceitos filosóficos adotados no berço da 
civilização humana, que se sustentaram graças aos filósofos outrora descritos. E, tais 
intelectuais, fundamentaram suas idéias e concretizaram o abstrato, criando desta 
maneira a Filosofia e a ciência geográfica. A contribuição destes filósofos e 
pesquisadores será mais evidenciada quando tratarmos das estruturas que sustentam 
a dinâmica científica geográfica, conforme se observa a seguir: 
 
ESTRUTURAS DE SUSTENTAÇÃO DO MUNDO GEOGRÁFICO 
 
A importância de enfatizar os filósofos e suas academias recai na 
estruturação e arquitetura do pensamento científico, sendo estes os pilares que 
sustentam a ciência geográfica. Pois na visão de Nitsche, é a filosofia da ciência que 
embasa (sustenta) todo o processo construtivo da ciência em si17. Sendo que a 
filosofia se estrutura e se caracteriza por ramos de pensamento e análises práticas, 
sendo assim demonstrado:17 A Ciência é vista por Nitsche como um corpo sistemático/sistematizado único, formado por 
ramificações e/ou sub-sistemas caracterizados por sua natureza empírica. 
 32 
 Física – Ramo dedicado ao universo e ao seu conteúdo. 
 Ética – Parte dedicada a vida e ao que se relaciona conosco. Parte da 
filosofia que estuda os deveres do homem para com a sociedade e seus 
deveres religiosos podendo ser denominada de ciência da moral. Reflete 
sobre o bem e o mal, o que é certo ou errado e procura responder, por 
exemplo, se os fins justificam os meios ou os meios justificam os fins. 
Sócrates (470 a.C. -399 a.C.), passa a se ocupar de problemas relativos ao 
valor da vida. O primeiro a organizar essas questões é Aristóteles. Em sua 
obra destacam-se os estudos da relação entre a ética individual e a social e 
entre a vida teórica e a prática. Ele também classifica as virtudes. A justiça, 
a amizade e os valores morais derivam dos costumes e servem para 
promover a ordem política. A sabedoria e a prudência estão vinculadas à 
inteligência ou à razão. 
Na Idade Média predomina a ética cristã, impregnada de valores religiosos 
e baseada no amor ao próximo, que incorpora as noções gregas de que a felicidade é 
um objetivo do homem e a prática do bem, um meio de atingi-la. Para os filósofos 
cristãos, a natureza humana tem destino predeterminado e Deus é o princípio da 
felicidade e da virtude. 
Entre a Idade Média e a Moderna, o italiano Nicolau Maquiavel rompe com 
a moral cristã, que impõe os valores espirituais como superiores aos políticos. 
Defende a adoção de uma moral própria em relação ao Estado. O que importa são os 
resultados, e não a ação política em si. Por isso, considera legítimo o uso da 
violência contra os que se opõem aos interesses estatais. Maquiavel influencia o 
inglês Thomas Hobbes (1588-1679) e o holandês Benedito Spinoza (1632-1677), 
pensadores modernos extremamente realistas e radicais no que se refere à ética. 
Nos séculos XVIII e XIX, o francês Jean-Jacques Rousseau e os alemães 
Immanuel Kant e Friedrich Hegel (1770-1831) são os principais filósofos a discutir 
a ética. Segundo Rousseau, o homem é bom por natureza e seu espírito pode sofrer 
aprimoramento quase ilimitado. Para Kant, ética é a obrigação de agir segundo 
 33 
regras universais, comuns a todos os seres humanos por ser derivadas da razão. O 
fundamento da moral é dado pela própria razão humana: a noção de dever. O 
reconhecimento dos outros homens, como fim em si e não como meio para alcançar 
algo, é o principal motivador da conduta individual. Hegel divide a ética em 
subjetiva ou pessoal e objetiva ou social. A primeira é uma consciência de dever; a 
segunda, formada por costumes, leis e normas de uma sociedade. O Estado reúne 
esses dois aspectos em uma "totalidade ética". Nietzsche critica a moral tradicional, 
derivada da religião judaico-cristã, pelo fato de subjugar os instintos e as paixões à 
razão. Essa é a "moral dos escravos", que nega os valores vitais e promove a 
passividade e o conformismo, resultando no ressentimento. Em oposição a ela, 
propõe a "transvaloração de todos os valores", que funda a "moral dos senhores", 
preconizando a capacidade de criação, de invenção, de potência. O ser humano que 
assim consegue superar-se é o super-homem, o que transpõe os limites do humano. 
A valorização da autonomia do sujeito moral leva à busca de valores 
subjetivos e ao reconhecimento do valor das paixões, o que acarreta o 
individualismo exacerbado e a anarquia dos valores. Resulta ainda na descoberta de 
várias situações particulares com suas respectivas morais: dos jovens, de grupos 
religiosos, de movimentos ecológicos, de homossexuais, de feministas, e assim por 
diante. 
Essa divisão leva ao relativismo moral, que, sem fundamentos mais 
profundos e universais, baseia a ação sobre o interesse imediato. É dentro dessa 
perspectiva que o filósofo inglês Bertrand Russell (1872-1970) afirma que a ética é 
subjetiva, não contendo afirmações verdadeiras ou falsas. Defende, porém, que o ser 
humano deve reprimir certos desejos e reforçar outros se pretendem atingir a 
felicidade ou o equilíbrio. 
Como reação a essas posições, o novo iluminismo, representado por Jürgen 
Habermas, desenvolve a Teoria da Ação Comunicativa, dentro da qual fundamenta a 
ética discursiva, baseada em diálogo, por sujeitos capazes de se posicionar 
 34 
criticamente diante de normas. É pelo uso de argumentos racionais que um grupo 
pode chegar ao consenso, à solidariedade e à cooperação. 
 Dialética – A arte de raciocinar argumentativamente. É o processo de 
raciocínio utilizado por ambas as ramificações citadas anteriormente. 
Possui visão de mundo contrária a metafísica. Originalmente, é a arte do 
diálogo, da contraposição de idéias que leva a outras idéias. O conceito de 
dialética, porém, é utilizado por diferentes doutrinas filosóficas e, de acordo 
com cada uma, assume um significado distinto. 
Para Platão18, é o método mais eficaz de aproximação entre as idéias 
particulares e as idéias universais ou puras. É a técnica de perguntar, responder e 
refutar que ele teria aprendido com Sócrates (470 a.C. -399 a.C.). Platão considera 
que apenas através do diálogo o filósofo deve procurar atingir o verdadeiro 
conhecimento, partindo do mundo sensível e chegando ao mundo das idéias. Pela 
decomposição e investigação racional de um conceito, chega-se a uma síntese, que 
também deve ser examinada, num processo infinito que busca a verdade. 
Aristóteles define a dialética como a lógica do provável, do processo racional 
que não pode ser demonstrado. 
Kant registra a perspectiva aristotélica quando define a dialética como a "lógica 
da aparência". Para ele, a dialética é uma ilusão, pois se baseia em princípios que, na 
verdade, são subjetivos. 
Georg Wilhelm Hegel 1770-183119, tenta solucionar o problema das 
transformações às quais a realidade está submetida e apresenta a dialética como um 
 
18 Filósofo grego (427 a.C.?-347 a.C.?), seus seguidores estabelecem o platonismo que 
trabalha com a distinção do mundo entre o que é visível, sensível e o que é invisível, 
inteligível (mundo das idéias). Após a morte de Sócrates, em 399 a.C., deixa Atenas e se 
estabelece definitivamente no Egito. 
19 Escrito por F. Engels em 1877. Publicado como folheto, em francês, em Paris (1880),em 
alemão, em Zurique (1882) e em Berlim (1891), e em inglês, em Londres (1892). Publica-se 
segundo a edição soviética de 1952, de acordo com o texto da edição alemã de 1891. 
 35 
movimento racional que permite transpor uma contradição. Uma tese inicial é 
confrontada e esta é substituída por sua antítese. Essa antítese, que conserva 
elementos da tese, é superada pela síntese, que combina elementos das duas 
primeiras, em um processo contínuo de enriquecimento de conhecimentos e fatos 
novos. 
Segundo Hegel, a história da humanidade cumpre uma trajetória dialética 
marcada por três momentos: tese, antítese e síntese. O primeiro vai das civilizações 
orientais antigas até o surgimento da filosofia na Grécia. Hegel o classifica como 
objetivo, porque considera que o espírito está imerso na natureza. O segundo é 
influenciado pelos gregos, mas começa efetivamente com o cristianismo e termina 
com Descartes. É um momento subjetivo, no qual o espírito toma consciência de sua 
existência e surge o desejo de liberdade. O terceiro, ou a síntese absoluta, acontece a 
partir da Revolução Francesa, quando o espírito consciente controla a natureza e o 
desejo de liberdade concretiza-se na concepção do Estado Moderno. 
Karl Marx e Friedrich Engels20, reformam o conceito hegeliano de dialética, 
sendo denominada de dialética materialista, porque o movimento histórico, para 
eles, é derivado das condições materiais da vida. 
A dialética materialistaanalisa a história do ponto de vista dos processos 
econômicos e sociais e a divide em quatro momentos: Antiguidade, feudalismo, 
capitalismo e socialismo. Cada um dos três primeiros é superado por uma 
contradição interna, chamada "germe da destruição". A contradição da Antiguidade 
é a escravidão; do feudalismo, os servos; e do capitalismo, o proletariado. O 
 
20 In: Stalin, Materialismo Dialético e Materialismo Histórico (1982) e Escrito por Karl Marx 
e Friedrich Engels em dezembro de 1847 - janeiro de 1848. Publicado pela primeira. vez em 
Londres em fevereiro de 1848. Publicado de acordo com o texto da edição soviética em 
espanhol de 1951, traduzida da edição alemã de 1848. Confrontado com a edição inglesa de 
1888, editada por Friedrich Engels. Traduzido do espanhol. 
 36 
socialismo seria a síntese final, em que a história cumpre seu desenvolvimento 
dialético. 
A dialética também é estabelecida como lógica dentro de algumas correntes 
filosóficas. Porém, pode-se estabelecer a lógica como uma ramificação distinta, 
sendo assim expressa: 
 Lógica: Refere-se ao raciocínio correto, a lógica surge no Ocidente com o 
filósofo grego Aristóteles. Para mostrar que os sofistas podem enganar os 
cidadãos utilizando argumentos incorretos. Aristóteles estuda a estrutura 
lógica da argumentação. Revela, assim, que alguns argumentos podem ser 
convincentes, embora não sejam corretos. A lógica, segundo Aristóteles, é 
um instrumento para atingir o conhecimento científico. Só se pode chamar 
de ciência aquilo que é metódico e sistemático. Na obra Organon, 
Aristóteles define a lógica como um método do discurso demonstrativo, 
que utiliza três operações da inteligência: o conceito, o juízo e o raciocínio. 
O conceito é a representação mental dos objetos. O juízo é a afirmação ou 
negação da relação entre o sujeito (neste caso, o próprio objeto) e seu 
predicado. E o raciocínio é o que leva à conclusão sobre os vários juízos 
contidos no discurso. Os raciocínios podem ser analisados como 
silogismos, nos quais uma conclusão decorre de duas premissas. "Todo 
homem é mortal. Sócrates é homem, logo, Sócrates é mortal", diz ele, para 
exemplificar. "Sócrates", "homem" e "mortal" são conceitos. "Sócrates é 
mortal" e "Sócrates é homem" são juízos. O raciocínio é a progressão do 
pensamento que se dá entre as premissas "Todo homem é mortal", 
"Sócrates é homem" e, a conclusão, "Sócrates é mortal". 
No período clássico (século IV a.C ao século XIX), Aristóteles 
sistematizou e definiu a lógica como uma ciência autônoma e também utilizou uma 
metodologia própria. No século XVI os problemas que diziam respeito à 
sistematização do conhecimento científico designava – se por “lógica menor” e no 
século XIX por “lógica formal”. Os problemas que diziam respeito à verdade dos 
 37 
juízos constituíram o objeto do que se chamou no século XVI de “lógica maior” e no 
século XIX por “lógica material”. Com o objetivo metodológico de mostrar o 
caminho correto para a investigação, o conhecimento e a demonstração científica, a 
lógica de Aristóteles usava as seguintes fases do método científico: Observação de 
fenômenos particulares; Intuição dos princípios gerais (universais) a que os mesmos 
obedeciam; dedução a partir deles das causas dos fenômenos particulares. Mas sua 
lógica, a partir do século XVI, começou a ser questionada, por filósofos como 
Francis Bacon (1561 – 1626) e Descartes (1596 – 1650), devido ao “aparecimento” 
da “ciência experimental”, que procurava atingir o universal a partir do particular, e 
não mais o inverso21. 
O matemático e filósofo alemão G.W. Leibniz (1646-1716) critica a lógica 
aristotélica por demonstrar verdades conhecidas e não revelam novas verdades. A 
lógica estabelecida pelos modernos, necessita de um método capaz de estudar 
também relações entre objetos e a percepção humana referente ao modo de como se 
observa algum fenômeno e/ou objetos. 
No final do século XIX, o alemão Gottlob Frege (1848-1925) desenvolve 
uma lógica baseada em símbolos matemáticos e na análise formal do discurso, 
perfazendo desta maneira as bases da lógica moderna, que formaliza e equaciona os 
raciocínios, organizando-os como sendo uma espécie de gramática, que pode ser 
empregada em diversas linguagens (como a proposicional, que estuda a relação dos 
juízos entre si, e a de predicados, que analisa a estrutura interna das sentenças). 
Desta forma, a validade de um argumento depende exclusivamente de sua fórmula 
lógica e não do conteúdo das afirmações. Pode-se concluir que ao se estudar a 
 
21 Para os estudantes interessados na epistemologia e filosofia da Geografia, recomenda-se a 
obra de Robert de Moraes – Geografia Pequena História Crítica. Esta leitura enfoca alguns 
dos principais movimentos e contribuições do pensar geográfico. Uma leitura voltada ao 
aprendizado. E o entendimento das idéias é bem simples e muito bem elaborado. 
 
 38 
estrutura e a natureza do raciocínio humano e reproduzi-las em fórmulas 
matemáticas, torna-se possível a criação de uma linguagem22. 
Diante da apresentação dos grandes pensadores gregos e contribuintes do 
pensamento geográfico e filosófico, sendo estes responsáveis pelas inovações e 
reflexões do ser e do saber, abalizar-se-á as questões do surgimento e diretrizes da 
fundamentação que implementa a epistemologia propriamente dita, partindo do 
filósofo que melhor representa sua formulação...ARISTÓTELES! 
Existem quatro formas de conhecimento, segundo Aristóteles: fé; 
evidência; experimentação e opinião. 
As três primeiras formas de conhecimento são seguras, porque se baseiam 
em fatos vistos, sentidos, abruptos e reais, ou sendo convicções pessoais embasadas 
na experiência espiritual e vivida; enquanto que a opinião é uma asserção fundada 
em formulação de pensamentos possíveis, com a possibilidade de estes serem falsos. 
A filosofia se estabelece dentro de três pilares principais: 
 Gnosiologia, que estuda a natureza do conhecimento em geral; 
 Epistemologia, que estuda a natureza e a fundamentação dos vários 
conhecimentos científicos; 
 Metodologia que estuda os processos lógicos de aquisição do 
conhecimento cientifico. 
Conforme Andrade Filho (2000), “A filosofia, dita conhecimento, é função do 
pensamento objetivo, é conhecimento que nos faz ultrapassar as aparências e 
alcançar a realidade". Racional não é só função de conhecimento, aplica-se 
também a pratica, reporta-se à ação. A reflexão e a razão criticaram e destruíram 
um mundo mítico e elaboraram um outro tipo de explicação: a filosofia, onde 
diferente da visão mítica, há discussão, possibilidade de critica "Tudo era um caos 
 
22 linguagem de máquina ou programas, linguagem para deficientes visuais e auditivos, 
podem ser exemplos para se entender o que está sendo descrito. 
 39 
ate se erguer a Mente para por ordem nas coisas. A filosofia brota do chão da vida 
e da historia concreta de um povo”. 
Para Andrade Filho (2000), esta mudança do homem em relação ao seu modo 
de pensar, do mítico para o racional, ocorreu por dois motivos: 1-contradições do 
pensamento mítico e o 2- fortalecimento da razão. 
Filósofos como Tales (625 - 548 a.C.); Anaxágoras (585 - 528 a.C.); 
Heráclito (540 - 470 a.C.); Pitágoras (580 - 497 a.C.); Platão (348 - 322 a.C.), 
refletiam sobre as realidades quaisquer e tentavam descobrir seus significados e 
funções. Os filósofos passaram a criar confiadamente explicações, não mais baseada 
nas tradições míticas das coisas, mas às forças racionais de suas mentes. Uma figura 
de desponte entre os filósofos seria Aristóteles, que discutiu lógica, epistemologia, 
física, biologia, ética, política e estética. Sua principal obra foi “A Analítica 
Posterior”,discussão sobre a filosofia da ciência, além desta, a Física e a Metafísica 
contém discussões sobre o método científico. Chegamos ao ponto importantíssimo 
que justifica toda esta exposição até o presente, conotando a abordagem do método e 
a investigação científica, que mantém a sustentação e a comprovação, ou os teste 
que se pode realizar para afirmar ou negar algo expresso ou não na natureza, na 
sociedade ou no pensamento. Inicia-se neste momento o suporte básico para 
qualquer trabalho científico, inclusive para a formulação dos termos utilizados nos 
ramos da ciência atual. 
Na Antigüidade, Aristóteles classificou as ciências em práticas, poéticas e 
teóricas, sendo sua classificação questionada posteriormente por Platão23. Esta 
divisão da ciência na Antigüidade mostra duas abordagens distintas: 
 Modo linear e horizontal – tem como defensores Aristóteles, Ockham, 
Descartes, Kant e o positivismo de Augusto Comte24 ; 
 
23 Platão defendia que: Conhecer é recordar verdades que já existem em nós. Esta teoria pode 
ser atestada sempre que nos deixarmos guiar pela voz do inconsciente. 
 40 
 Modo circular e vertical – Representado por filósofos como Platão, 
Echkart, Piaget, constituindo uma filosofia de uma relação objeto/sujeito 
paradoxal, ou imaginário. 
A filosofia da ciência pode ser dividida em duas grandes áreas: 
1. A epistemologia da ciência que discute a justificação e a 
objetividade do conhecimento científico, tendo como tema central 
o problema da indução, o problema se encontra no fato de que os 
argumentos não são logicamente válidos, pois a verdade das 
premissas particular não garante a verdade da conclusão universal. 
Outro ponto fundamental é a possibilidade do conhecimento de 
inobserváveis a olho nu. Os instrumentalistas negam que as teorias 
científicas sobre inobserváveis possam ser aceitas como descrições 
verdadeiras de um mundo inobservável. Seus argumentos 
contraditórios as teorias voltadas ao esclarecimento dos não 
observáveis, recaem na premissa de que estas teorias são úteis para 
gerar previsões observáveis. Contrapondo os instrumentalistas, 
adota-se a visão realista de que a ciência pode descobrir e 
descobre verdades sobre inobserváveis. Alguns filósofos da 
ciência como Kuhn e Feyerabend, argumentam que a observação 
está “contaminada pela teoria”. Para estes dois filósofos, a verdade 
científica objetiva não é alcançável mesmo ao nível dos 
observáveis, quanto mais ao nível dos inobserváveis. 
Mas nem todos os epistomólogos da ciência aceitam o relativismo de Kuhn 
e Feyerabend. Um argumento contra o relativismo é que as teorias científicas são 
descrições verdadeiras de uma realidade independente. Muitas teorias do passado 
revelam-se falsas, desta maneira conclui-se que uma vez que as teorias científicas do 
 
24 O positivismo de Comte embasa-se na observação dos fenômenos, subordinando a 
imaginação à observação, mas há outras características igualmente importantes 
 41 
passado normalmente são falsas, então, as teorias do presente e do futuro serão 
também provavelmente falsas. 
Na década de 1980, alguns filósofos adotaram uma abordagem naturalista 
em epistemologia da ciência. Em vez de tentar identificar regras à priori do método 
científico, inspiraram-se na história da ciência e para mostrar que estratégicas 
metodológicas constituem de fato meios eficazes para se atingirem objetivos. O 
ponto de vista realista do objetivo da formulação de teorias científicas é a descoberta 
da verdade. Muitos filósofos da ciência naturalista rejeitam a idéia de que a verdade 
seja um objetivo sensato para a ciência, investigando invés disto estratégias para se 
atingirem objetivo teórico. 
2. A metafísica da Ciência discute aspectos filosoficamente 
problemáticos da realidade desvendada pela ciência. Parte mais 
central da filosofia que busca o princípio e as causas fundamentais 
de tudo, tratando de questões que, em geral, não podem ser 
confirmadas pela experiência direta. O termo surge por volta de 50 
a.C., quando Andronico de Rodes (século I a.C.), ao organizar a 
coleção da obra de Aristóteles, dá o nome de ta metà ta physiká ao 
conjunto de textos que se seguiam aos da física ("metà" quer dizer 
além). Historicamente, a palavra passa a significar tudo o que 
transcende à física, porque nesses estudos Aristóteles examina a 
natureza do ser em geral e não de suas formas particulares, 
postulando a idéia de Deus como substância fundamental. Na 
Idade Média, a metafísica confunde-se com a teologia, conforme 
estabelecido pelo italiano santo Tomás de Aquino, afirmando que 
a metafísica estuda a causa primeira, e, como a causa primeira é 
Deus, ele é o objeto da metafísica. 
A experiência passa a ser extremamente valorizada e a metafísica deixa de 
ser considerada a base do conhecimento filosófico durante a Idade Moderna. David 
Hume diz que o homem está completamente submetido aos sentidos, portanto não 
 42 
pode criar idéias, e não é possível formular nenhuma teoria geral da realidade. Para 
ele, ciência alguma é capaz de atingir a verdade, seus conhecimentos são sempre 
probabilidade. 
O método científico é a análise praticada por ações e reflexões, restrita aos 
processos manuais de repetição de uma ação, para que se estabeleça um padrão 
contínuo e que este processo, sempre desempenhe os mesmos dados ou aborde um 
fenômeno natural ou artificial com as mesmas observações anteriores. Desta 
maneira, as teorias são testadas através de métodos práticos, e se alguém não 
concordar com os dados, deve refazer o processo metodológico e as etapas 
anteriores, sem modificar ou acrescentar algo no processo. As conclusões devem ser 
avaliadas conforme os dados são fornecidos com a metodologia empregada. 
Esta maneira de executar ou desenvolver atividades metodológicas para 
estabelecer parâmetros e dados propícios ou não a sustentação de uma teoria; na 
verdade recai, no teste da metodologia e na maneira como se repete o processo 
metodológico. Desta forma, a teoria fica em segundo plano e o que se comprova 
realmente é a metodologia. 
POPPER (1961), expressa estas questões e desempenha um papel 
fundamental nesta linha de pensamento. Apesar de que poucos são os cientistas e 
pensadores que gostem da abordagem deste intelectual, devido ao fato de criticar o 
marxismo e até mesmo o próprio Marx. “Os princípios do historicismo — que faz 
parte da tarefa das ciências sociais apresentar profecias históricas e que estas 
profecias históricas são indispensáveis a qualquer teoria racional são hoje 
correntes porque constituem uma parte muito importante da filosofia que gosta de 
se atribuir a si próprio o nome de “Socialismo Científico” ou “Marxismo”. Poder-
se-ia, pois, definir a minha análise do papel da previsão e da profecia como uma 
crítica do método histórico do Marxismo. Mas na realidade, ela não se ocupa 
apenas dessa variante econômica do historicismo que caracteriza o Marxismo, pois 
visa criticar a doutrina historicista em geral. Decidi, no entanto, falar como se o 
Marxismo fosse o objeto principal, ou o único, do meu ataque, já que é meu desejo 
 43 
evitar a acusação de que estou a atacar sub-repticiamente o Marxismo sob o nome 
de historicismo. Gostaria, contudo, de que vos lembrásseis que, sempre que 
menciono o Marxismo, tenho também em mente muitas outras filosofias da 
história”, pois vou tentar criticar um determinado método histórico, considerado 
válido por muitos filósofos, antigos e modernos, de idéias políticas muitíssimo 
diferentes das de Marx. 
Como crítico do Marxismo, tentarei imprimir à minha tarefa um espírito 
liberal. Tomarei a liberdade não só de criticar o Marxismo mas também de defender 
certos dosseus argumentos; e permitir-me-ei também simplificar radicalmente as 
suas doutrinas. Um dos pontos em que me sinto de acordo com os marxistas é a sua 
insistência em que são prementes os problemas sociais do nosso tempo e que o 
dever dos filósofos é fazer face às questões em debate; que não nos devemos limitar 
a interpretar o mundo, mas devemos ajudar a transformá-lo. Estou perfeitamente de 
acordo com tal atitude, o tema escolhido pela presente assembléia,O Homem e a 
Sociedade, mostra que é geralmente reconhecida a necessidade de discutir estes 
problemas. É preciso que os filósofos não ignorem o perigo mortal em que a 
humanidade veio cair -- sem dúvida o perigo mais grave da sua história. Mas que 
espécie de contribuição podem os filósofos dar — não apenas como homens, não 
apenas como cidadãos, mas como filósofos? Insistem alguns marxistas em que os 
problemas são demasiado urgentes para que se continue a refletir e que é nosso 
dever tomar imediatamente partido. Mas se -- como filósofos — nos é realmente 
possível dar alguma contribuição, então devemos, decerto, recusar-nos a aceitar 
precipitada e cegamente conclusões já feitas, por maior que seja a premência da 
hora; como filósofos, melhor não podemos fazer senão submeter a uma crítica 
racional os problemas que nos fazem frente e as soluções defendidas pelos vários 
partidos. Eu creio para ser mais específico -- que o melhor que posso fazer, como 
filósofo, é abeirar-me dos problemas munido das armas de uma crítica de métodos. 
É isto o que me proponho fazer.” (Palavras de POPPER, 1961). 
 44 
Em sua juventude, Popper apoiava e defendia o marxismo, porém em sua 
trajetória de vivência, transformou-se em social-democrata, que posteriormente 
deixa de ser, para se tornar um liberal democrata no velho sentido da palavra. Além 
disso, algumas pessoas até hoje acreditam que Popper era membro do Círculo de 
Viena, sendo assim, suas idéias eram contraditórias ao que ele representava. Na 
verdade, Popper participava de algumas reuniões, convidado pelos amigos, porém 
suas idéias sempre foram conflitantes aos pensamentos dos integrantes de tal 
corporação. 
Popper é considerado pela comunidade científica como o principal filósofo 
da ciência depois de Hume (1711-1776) e Kant (1724-1804). Suas idéias forneciam 
respaldos técnicos e científicos aos processos de metodologia, estabelecendo novas 
maneiras de se observar os fenômenos e testar teorias. Dentro de sua linha de 
pensamento, havia a preocupação com a utilização restrita do processo 
metodológico, ao contrário de Feyerabend que defende a idéia de que tudo é válido 
para atingir seu objetivo. Seus métodos devem ser utilizados e manipulados 
objetivando seu pré-conceito do fenômeno. 
Este tipo de análise pode ser exemplificado quando se utiliza a estatística, 
pois se pode manipular os dados estatísticos conforme se deseja, para atingir um 
resultado positivo ou negativo de algum fenômeno que esteja sendo estudado. 
O método expressa as nossas necessidades e possibilidades materiais, bem 
como, conduz ao manuseio destes, que nos encaminha ao procedimento. O método é 
a aplicação de uma forma de encontrar uma solução para testar algo, não sendo um 
reflexo de nossas necessidades, mas sim, a solução ou uma maneira alternativa de 
suprir a nossa necessidade de testar algo. 
Conforme ENCICLOPÉDIA BARSA (2000), o método significa - termo 
geral que designa vários processos pelos quais se constrói a ciência. Mais 
precisamente pode ser definido como uma sucessão de passos ou operações que vão 
desde a formulação de um problema ate a incorporação, no patrinômio cientifico, do 
conhecimento novo resultante da investigação. 
 45 
Na concepção de Popper, a lei da natureza é descritiva e não prescritiva, 
que como em seu próprio exemplo, Popper conjectura: A água ferve a cem graus 
Celsius. Esta é uma lei da natureza e não deve ser violada, porém, as asserções 
explicativas de caráter geral devem ser modificadas ou abandonadas, quando estas 
mostrarem ser inadequadas. Desta maneira, o que ocorre é uma lei universal natural 
que não pode ser violada, mas ao experimentar novas condições e inferências 
conceituais embasadas em novas experiências, revelar-se-á uma contribuição recente 
aos padrões previstos. Sendo estes exemplificados da seguinte forma: A água 
sempre vai ferver a 100 0 C, em condições naturais normais, dentro de uma 
determinada temperatura, altitude e levando-se em consideração o material usado 
para aquecer, ou o recipiente que se encontra a água. Desta forma, em altas altitudes 
e em locais de clima rigoroso, a água não ferverá a cem graus Celsius. Estas 
condições estabelecem um enriquecimento de conhecimento a hipótese 
anteriormente descrita, porém não derruba esta teoria (a água ferve a cem graus 
Celsius), apenas contribui com mais elementos para sustentar a hipótese de que um 
fenômeno realmente ocorre em tais condições. 
Newton foi o primeiro a adotar principiados de leis naturais, quando 
realizou a experiência com o espectro da luz. No entanto a descrição sistemática do 
processo metodológico na busca das leis foi elaborada por Francis Bacon. O método 
que permite assentar enunciados gerais sob observações acumuladas de casos 
específicos é denominado de Indução, sendo este o ponto de demarcação da ciência 
e não ciência. O que se caracteriza por ciência são os enunciados científicos, os 
únicos que conduzem ao conhecimento garantido, porque estão estabelecidos em 
evidência observacional e experimental. Pois na concepção de Bacon, os fenômenos 
se repetem mesmo com o passar dos anos e tudo é como foi antes. Neste ponto, 
surge alguém com uma idéia contraditória, realçando algumas dúvidas nas propostas 
de Bacon. 
David Hume declarou “que embora não exista meio de demonstrar a 
validade dos procedimentos indutivos, a constituição psicológica dos homens é tal 
 46 
que não lhes resta outra alternativa senão a de pensar em termos de tais 
procedimentos indutivos. Como esses procedimentos parecem ter legitimidade 
prática, o homem os adota”. (Hume, 1949). 
Esta percepção foi adotada após sua análise dos aparentes fatos repetitivos 
dos fenômenos naturais, conforme Bacon expunha. O que Hume expressava, 
resumia-se em um exemplo bem simples: 
O sol pode ter surgido a cada dia, todos os dias de que tenhamos 
conhecimento, mas isso não acarreta que deva surgir amanhã. Isso significa que as 
leis físicas que vigoraram no passado, não acarretam logicamente que continuarão 
vigorando no futuro. Assim, esta tentativa de justificar a indução é viciosa, porque 
dá por assente a validade da própria indução. 
Para Hume, existe uma problemática na interpretação metodológica 
aplicada aos conhecimentos científicos, sendo assim exposto: 
 Problema lógico: São os fenômenos que se tem registrado repetitivos e que 
não se tem experiência. 
 Problema Psicológico: Refere-se ao hábito de associar idéias ao 
mecanismo de repetição. Ou seja: Se há uma continuidade de um 
fenômeno, nossa mente de imediato crê que será sempre igual ou 
semelhante ao anterior. 
Nas análises de Ferigolo (1984), Popper concorda com Hume, no que diz 
respeito a indução, que para eles não é aceitável. Porém estabelece uma maneira 
alternativa de se resolver o problema, pois não aceitava que a indução fosse um 
hábito necessário ao pensamento humano. Sendo assim, Popper cogitava que não é a 
experimentação e a observação que antecedem a teoria, pois segundo ele, jamais 
observamos desinteressadamente e imparcialmente os fenômenos. Popper chegou a 
esta conclusão, quando em uma de suas aulas, ele realizou um teste: pediu aos 
alunos para pegarem papel e lápis, e descrevessem e analisassem o que estavam 
vendo. Então, vários alunos indagaram: “Mas o quê é pra descrever ou ver 
professor?” 
 47 
Para resolver o problema psicológico, Popper utiliza oprincípio da 
transferência, “o que é verdadeiro em lógica é verdadeiro em psicologia”, afirmando 
que o irracionalismo de Hume não existe, ou seja: que nenhuma conclusão é 
irracional. 
Avaliando estas análises anteriormente demonstradas, pode-se concluir que 
estamos sempre teorizando e para isto utilizamos toda a bagagem e experiência de 
leituras, estudos, observações diretas e indiretas e outras variáveis que nos permita 
adquirir conhecimento e experiências próprias. Desta maneira, pode-se inferir que a 
ciência é um sistema de hipóteses e não um corpo de conhecimentos. Sendo assim, o 
método é dedutivo e não indutivo. Tal observação e conclusão levaram Popper a 
criar o termo “Método Dedutivo de Teste”. 
Na concepção de Popper, o problema lógico da indução está na validez de leis 
universais. Surge então uma indagação: “Como decidimos sobre a verdade ou 
falsidade de asserções de testes?” 
As leis universais transcendem a experiência, a linguagem se utiliza termos de 
termos universais não definidos e de infinita regressão, não apresentando 
verificabilidade. Estes termos universais tornam-se de fácil falseabilidade. Desta 
forma, devemos descartar processos ou alternâncias que nos levam a uma regressão 
ao infinito. Outro ponto fundamental nesta análise recai na impraticabilidade de 
executar todas as observações de todos os objetos ou fenômenos em questão, o que 
seria humanamente impossível de ser realizado, bem como realizar todas as 
experiências imagináveis. 
Segundo David Hume (In: POPPER, 1995), a causalidade enquanto relação 
objetiva é apenas uma questão de associação constante, ou seja, um acontecimento 
causa outro se, e só se, os acontecimentos do primeiro tipo estiverem 
constantemente associados aos acontecimentos do segundo tipo. Mas esta análise 
gera problemas como a questão da distinção entre genuínas leis causais da natureza e 
associação acidentalmente verdadeira; um problema quanto à direção da causalidade 
e por fim a questão da causalidade probabilística. 
 48 
As análises de Popper revelam que uma teoria é confirmada por tudo aquilo 
que comprovava a teoria mais antiga, mas que não obstante refuta a teoria mais 
antiga pelo que não podem ser ambas verdadeiras. Portanto, não pode haver 
verificação, apenas uma confirmação transitória. Não há confirmação definitiva, e, 
portanto, toda a teoria é insegura, pois em cada teste existe a possibilidade de 
refutação. O exemplo disto expressa-se em Popper (1991): “Até a invenção do 
telefone, verificou-se que não se podia falar a distância, que não podia, portanto, 
haver telefone”. Cada teoria que foi construída a partir desta lei, foi testada até este 
momento. 
Para Popper, as teorias que não são passíveis de teste negativos, não são 
científicas. Sendo assim, Popper estabelece que existem dois tipos de testes: 
 Teste Positivo: Onde ocorre a repetição aproximada ou exata dos 
experimentos. 
 Teste Negativo: Este é o mais importante, pois acrescentam condições 
diferentes das originais para que se teste os experimentos. Caso a teoria se 
mantenha após os testes negativos, diz-se que a teoria foi corroborada (não 
sendo esta comprovada). 
Os testes positivos levam a estagnação enquanto que os negativos acrescentam 
novos parâmetros de análises, adicionando maiores conhecimentos a respeito do 
fenômeno que está sendo estudado e é à base de uma lei universal. 
Os cientistas devem procurar os erros nas suas teorias e não ocultá-los. Para 
isso, deve-se aplicar regras metodológicas e de abordagens críticas, desta forma, 
rejeitar-se-á o falseamento. 
 As idéias de Popper são importantes e estabelecem um padrão ético dentro 
da ciência, porém como o ser humano é mesquinho, vaidoso, hipócrita, orgulhoso, e 
cheio de si, o que se observa no meio científico são pessoas (cientistas) tentando 
provar/confirmar e sustentar a qualquer custo suas teorias. 
 As maiorias das filosofias, desde Platão até os dias de Marx, tiveram 
concepções que relacionavam não apenas o desenvolvimento social e histórico, mas 
 49 
também se focava o avanço da lógica e da ciência, sendo estas alcançadas com as 
conquistas da epistemologia. E Popper, não deixou de estabelecer tais correlações e 
fundamentações epistemológicas. Desta forma, para solucionar problemas, Popper 
propõe a livre proposição de sugestões, que passam a ser submetidas à crítica e ao 
crivo do sistema de eliminação de erros. 
Deve-se ressalvar, que Popper refuta teorias antigas e não preserva teorias 
que não são necessariamente falsas, mas que se tornaram inadequadas. Nitsche não 
concorda com Popper quanto ao refutamento ou a não preservação das teorias, pois 
todas as teorias possuem algo positivo e que acrescenta conhecimento, mesmo que 
estes sejam considerados errôneos. Por exemplo: Uma teoria hipotética: A água é 
fria e será sempre fria, mesmo que sofra modificações em seu estado físico. De 
imediato se vê que esta teoria é falsa, pois a água alterará seu estado físico graças às 
mudanças de temperatura. Esta falsa hipótese corrobora na reafirmação da teoria que 
fôra testada e se constatou confirmada. Vamos supor que a teoria confirmada é que 
enuncia que a água sempre sofre modificações em seu estado físico graças às 
mudanças de temperatura. 
O não refutamento de teorias é estabelecido por FEYERABEND (1975). 
Todas as teorias devem ser preservadas. E todos os métodos devem ser utilizados 
para que possamos atingir nosso objetivo, e que este objetivo, se for direcionado 
para a confirmação de uma teoria, o procedimento metodológico tem de ser calcado 
no Método Dedutivo de Teste25. 
Paul K. Feyerabend26 - Filósofo e crítico das ciências. Ao lado de Karl 
Popper e Thomas Kuhn, é considerado um dos principais renovadores da história 
das ciências. Este ilustre pensador criticou duramente a pretensão de neutralidade 
das pesquisas científicas, cujo sucesso entendia como decorrente de fatores políticos 
e retóricos, ao invés de um suposto progresso do conhecimento objetivo do mundo. 
 
25 Conforme esclarece POPPER (1975) 
26 Viena, 1924 - Zurique, 1994 
 50 
Autor de Contra o Método (1975) e Farewell to Reason (Adeus à Razão, 1987), 
Feyerabend (1975), analisa a ciência e o método por este prisma: “A diferença entre 
ciência e metodologia é óbvio fato da história, indica, portanto, insuficiência da 
metodologia e, talvez, também das ‘leis da razão’. Com efeito, o que se afigura 
‘fugidio’, ‘caótico’, ‘oportunista’, quando posto em paralelo com tais leis tem 
importantíssima função no desenvolvimento daquelas mesmas teorias que hoje 
encaramos como partes essenciais de nosso conhecimento acerca da natureza. (...) 
Sem ‘caos’, não há conhecimento. Sem freqüente renúncia à razão, não há 
progresso. Idéias que hoje constituem a base da ciência só existem porque houve 
coisas como o preconceito, a vaidade, a paixão; porque essas coisas se opõem à 
razão; e porque foi permitido que tivessem trânsito. Temos, portanto, de concluir 
que, mesmo no campo da ciência, não se deve e não se pode permitir que a razão 
seja exclusiva, devendo ela, freqüentes vezes”, ser posta de parte ou eliminada em 
prol de outras entidades. Não há uma só regra que seja válida em todas as 
circunstâncias, nem uma instância a que se possa apelar em todas as situações” 
(FEYERABEND, P. “Contra o Método” , cap. XV, p. 279). 
O pensador e filósofo mencionado anteriormente, além de expressar que 
nem todas as coisas são realmente lógicas, e que não há muitas vezes maneiras de 
testa-las diretamente ou com métodos específicos, critica Popper e mostra um novo 
caminho na maneira de interpretar as condições de se fazer ciência. 
FEYERABEND (1975), defende a idéia de se utilizar todos os meios 
possíveis. E quando algo ou algum fenômeno ocorrer inesperadamente, utilizar-se-á 
argumentos quedefendam sua teoria ou trabalho, sendo esta reconhecida como 
hipótese ad hoc, uma hipótese para o caso. Esta análise conota uma anarquia 
científica, mas que estabelece uma contribuição ao modo inovador de observar a 
ciência e aplicar os métodos pertinentes. Esta visão se aplica mais especificamente 
as ciências históricas e as questões onde o teste direto não é possível muitas vezes, e 
os testes indiretos demandam tempo. “Contra o Método” pode ser interpretado como 
uma negação aos processos eminente da razão, distorcendo de uma certa forma as 
 51 
aplicações lógicas do método científico. Desta maneira, trabalha-se com 
cientificidade e seriedade nas áreas científicas que atuam com a conduta, modo de 
pensar, modo de vida e fobias humanas, além de outras referentes às áreas que 
envolvem tais questões, além das ciências históricas e procedimentos não testáveis 
no momento. 
"O fato de ser empírico pouco importa, (...) o que vai importar, então, é a 
possibilidade de conhecimentos transmitido e retido”.(SODRÉ p. 14). 
A transmissão de conhecimentos no âmbito da ciência, só é válida se este 
conhecimento for científico, ou seja: que este conhecimento gere informação 
cientificamente comprovada, não sendo propriamente verdadeira, mas que seja o 
mais próximo possível de uma interpretação correta no momento histórico de sua 
elaboração27 e que esta seja passível de testes. Porém, pode haver a transmissão de 
idéias e crenças, sem um respaldo técnico metodológico científico, sendo estas 
caracterizadas como metafísicas, e/ou expressas em salas de aulas por um professor. 
Mas se um indivíduo for transmitir algo, ou uma notícia, que se transcreva de 
maneira responsável, sem o objetivo de alienar o pensamento humano, ou de 
divulgar algo infundado. 
E o que distingue ciência da metafísica é exatamente o que se pode ser 
testado no momento ou em um futuro. É o que POPPER (1972) caracteriza ou 
denomina de Demarcação. Desta maneira posta, temos duas grandes áreas 
científicas: ciência histórica e ciência empírica. Exemplo de ciência histórica: 
Paleontologia. Pois ela trabalha com fatos únicos, porém são aplicados métodos 
diretos e indiretos (procedimento metodológico) para se alcançar um objetivo. E as 
teorias postuladas dentro desta área, são passíveis de testes diretos e indiretos, que 
podem ou não falseá-las. Porém o resultado final para a confirmação de uma teoria 
 
27 Exemplo: Teorias Evolucionistas que não se aplicam mais ao presente momento, mas que 
em sua época foram aceitas e defendidas por mais de cinqüenta anos. 
 52 
paleontológica não é possível, pois os eventos não podem ser seguidos e/ou 
reconstituídos em uma abordagem empírica. 
Seguindo com as explanações anteriores, pode-se citar como exemplo de 
ciência empírica, a Biologia e a medicina, pois suas análises voltam-se ao campo do 
experimentalismo, através de tentativa e erro, modelando procedimentos testáveis 
empiricamente, sendo que seus postulados podem ser confirmados, pois há a 
possibilidade de reconstituir, descrever e seqüênciar eventos. 
Ao se entender as estruturas que sustentam as bases metodológicas 
científicas, os pensamentos e abordagens de alguns filósofos, podemos adentrar nas 
questões de importância geográfica, mais especificamente aos conceitos e análises 
de alguns pensadores e pesquisadores deste ramo científico. Pois, as linhas e 
condutas adotadas por cada um destes referenciados no texto a seguir, são 
responsáveis pelo processo evolucionário geográfico, caracterizando os moldes 
conceituais e metodológicos atualmente adotados na Geografia. Possibilitando 
ainda, uma análise histórica que permite desenvolver uma nova perspectiva dos 
fenômenos estudados por nós geógrafos. Desta forma, vamos nos ater nas páginas 
seguintes, ao modo de como Nitsche pensa sobre os conceitos de espaço e cidade. 
Além de sua visão sobre os demais processos de realizações e conjecturas de 
cunhos geográficos mais importantes aos olhos deste que vos escreve. 
 
UMA NOVA ABORDAGEM CONCEITUAL SOBRE ESPAÇO E CIDADE 
 
Muitos autores estudam, descrevem, classificam, reinventam e denominam 
ESPAÇO. 
 53 
Muitos cientistas e especialistas tentaram especificar e classificar tal 
conceito dentro de sua análise corporativa comercial28. Surge então: Espaço 
Geográfico, Espaço Mental, Espaço Social, Espaço Físico, Espaço Cósmico, Espaço 
Regional, Espaço Urbano, Espaço Virtual, Espaço Neutro, Espaço Vital, etc...etc. 
Em toda e qualquer ramificação científica surge termo correlato e 
modificado de sua origem lingüística ou de sua raiz gramatical. Este fato faz com 
que se abra a possibilidade de criar e inventar novas linguagens e novos 
significados, porém embasados naqueles que já são descritos nos dicionários da 
língua de origem. Estas invenções de termos e novas conotações embasadas em algo 
já estabelecido são evidenciadas por FEYERABEND (1975) e WITTGENSTEIN 
(1978). Porém pouco se fez para modificar o panorama científico ao que se refere. 
Enfocando este ponto de vista, observa-se que muitos estudiosos 
estabeleceram um conceito próprio de espaço, criando uma infinidade de conceitos, 
sendo estes abordado amplamente por La Blach, Milton Santos, Correa, Robert de 
Moraes, Foucaut, Tuan e outros. Além deste fato, ainda se estabeleceram e criaram 
novos ramos dentro da Geografia, criando inclusive uma nova Geografia. 
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, ocorreu uma enorme mudança no 
setor científico, houve uma “revolução quantitativa e teorética da geografia”. 
A Nova Geografia desenvolveu-se procurando incentivar e buscar um 
enquadramento maior da geografia no contexto científico global, utilizando-se de 
metas como: Rigor maior na aplicação da metodologia científica – salienta a 
necessidade de maior rigor no enunciado e na verificação de hipóteses, assim como 
na formulação das explicações para os fenômenos geográficos; 
Desenvolvimento de teorias – sob o paradigma da metodologia científica 
procurando estimular o desenvolvimento de teorias relacionadas com as 
 
28 Todas os ramos científicos são movidos e motivados pelo mercado de trabalho. Ninguém 
leciona sem receber e ninguém faz nada sem ganhar algo em troca. Vivemos em um mundo 
capitalista. 
 54 
características da distribuição e arranjo espaciais dos fenômenos; Uso de técnicas 
estatísticas e matemáticas; Abordagem sistêmica. 
Mas surgiram correntes contrárias ao positivismo, ou seja, a esta Nova 
Geografia, como foi o caso da geografia Humanística, Geografia Idealista e da 
Geografia Radical. 
Desta forma descrita, verificam-se os seguintes adeptos do não positivismo, 
elaborando uma distinção entre as Ciências Humanas e as Ciências Naturais, como 
Friedrich Hegel (1770 – 1831) e Wilhem Dilthey (1833 – 1911) que estabeleceu a 
diferença entre explicação e compreensão. Desta maneira, surge uma geografia 
humana, repleta de contradições e procedimentos diversificados, que estabelecem 
várias “geografias” em uma só. E uma geografia física, que mantém suas linhas mais 
conservadoras e com um enfoque mais específico, permitindo pouca variação no 
estabelecimento de condutas metodológicas, estabelecendo uma única geografia. 
Porém há termos que se confrontam com a humanística, sendo citado como 
exemplo: Região. 
Palavras de TUAN (Transcrito dos Annals of the Association of American 
Geographers, 66: (2), junho 1976. Título do original: Humanistic Geography. 
Tradução de Maria Helena Queiroz): “As abordagens científicas para o estudo do 
homem tendem á minimizar o papel da conscientização e do conhecimento humano. 
A Geografia Humanística, em contraste, tenta especificamente entender como as 
atividades e os fenômenos geográficos revelam a qualidade da conscientização 
humana. Usarei o modeloetológico na Ciência para prover o ponto de partida para 
o exame da perspectiva humanista. Outros modelos científicos reduzidos do homem 
- homem econômico, por exemplo, podem também servir como ponto de partida, 
mas para evitar sobreposição e confusão não os tenho usado. A sobreposição existe 
porque todos os modelos científicos do homem simplificam a capacidade humana de 
saber, criar e ofuscar. Pode a Geografia Humanística oferecer um novo modo de 
enxergar os fenômenos geográficos? Para dar uma resposta tenho que brevemente 
explorar cinco temas de interesse geral para os geógrafos: conhecimento 
 55 
geográfico; território e lugar, aglomeração humana e privacidade, modo de vida e 
economia, e religião.” 
Quando se analisa somente o aspecto ou tema citado por Tuan, sem 
correlaciona-los com a natureza, não caracterizamos uma Geografia pura, mas sim, 
transformamos a Geografia em ramificações que intervem e sobrepõe análises não 
pertinentes ao contexto geográfico (Psicologia e sociologia). 
A Geografia é uma ciência de síntese na visão que vem se seguindo desde 
La Blache, que recebe críticas por este aspecto, sendo assim mencionado: 
Palavras de La Blache (Transcrito dos Annales De Géographie, 22 (124): 
289·299, 1913.): “A Geografia é considerada como se alimentando nas mesmas 
fontes de fatos da Geologia, da Física, das Ciências Naturais e, de certa forma, das 
Ciências Sociológicas. Ela serve-se de noções, sendo que algumas delas são o 
objeto de estudos aprofundados nas ciências vizinhas: daí vem, então, a crítica que 
se faz às vezes à Geografia, a de viver de empréstimos, a de intervir indiscretamente 
no campo de outras ciências, como se houvesse compartimentos reservados no 
domínio da ciência. Na realidade, como veremos, a Geografia possui seu próprio 
campo. O essencial é considerar qual uso ela faz dos dados sobre os quais se 
exerce. Será que ela aplica métodos que Ihe pertencem? Será que traz novos 
horizontes, de onde as coisas possam aparecer em perspectiva especial, que os 
mostra sob angulo novo? Todo o problema é este que está aí. Na complexidade dos 
fenômenos que se entrecruzam na natureza não se deve ter”. uma única maneira de 
abordar o estudo dos fatos; é útil que sejam observados sob ângulos diferentes. E se 
a Geografia retoma certos dados que possuem um outro rótulo, não há nada para 
que se possa taxar essa apropriação de anticientífica. A Geografia compreende, por 
definição, o conjunto da Terra. Este foi o mérito dos matemáticos-geógrafos da 
Antigüidade (Eratóstenes, Hiparco, Ptolomeu), o de colocar em princípio a unidade 
terrestre, o de fazer prevalecer esta noção acima das descrições empíricas das 
regiões. É nesta base que a Geografia pôde-se desenvolver como ciência” . 
 56 
La Blache tem a idéia que a Geografia é a ciência dos lugares e não dos 
homens. Quem estuda os lugares sem a atuação humana? Sua visão de mundo é 
muito restrita ao pensamento naturalista da época em que formulou suas 
interpretações. Atualmente todos os ramos científicos estão trabalhando com a 
interferência humana no meio, e o lugar29 só é estudado metafisicamente. 
Quanto ao problema da Geografia utilizar ou avançar no campo de outras 
áreas, isto é descartado, pois todos os ramos científicos se sobrepõem em um 
determinado ponto, porém cada um se estabelece dentro de seu enfoque de estudo. E 
o enfoque geográfico deve atender contextos ambientais, forjados por uma cadeia 
interativa de elementos sociais humanos e físicos, que estabelecem ou criam 
fenômenos naturais. 
"A geografia é talvez a ciência de história mais longa. Ela começa, na 
verdade, com as primeiras comunidades gentílicas" que através de migrações 
chegaram "ao conhecimento mais amplo da superfície da Terra e a tendência ao 
registro ou à transição desse conhecimento. Trata-se incontestavelmente de 
material geográfico" (SODRÉ p. 13). 
Como Sodré mencionou, a Geografia é um ramo da ciência muito antigo, 
porém os geógrafos não construíram uma base teórica sólida, que estabelecesse o 
seu objeto de estudo. Ao contrário do que se esperava, houve uma divergência ao 
processo construtivo de tal elemento magno, criando ou desenvolvendo duas 
geografias bem distintas. 
Desta forma, inicia-se uma corrida entre os próprios geógrafos para 
estabelecer regras e conceitos calcados no “Objeto Espaço”, tentando impor 
metodologias embasadas na teoria de alguns filósofos práticos, pensadores, 
sociólogos e outros. Tentando ainda definir Geografia, conforme se observa nestes 
exemplos: 
 
29 Marc Augé “Não lugares” (1994) 
 57 
 Definição de Geografia: segundo Albert Demangeon, em 1942 : é o estudo 
dos grupos humanos nas suas relações com o meio geográfico”. 
 Emmanuel de Martonne define em sua obra Traité de Géographie 
Physique, que a “geografia moderna encara a distribuição à superfície do globo 
dos fenômenos físicos, biológicos e humanos, as causas dessa distribuição e as 
relações locais desses fenômenos”. Estas duas interpretações anteriormente citadas 
explanam de forma bem simplificada o objeto de estudo da Geografia, que nada 
mais é do que a relação sociedade/natureza. Porém esta relação é observada 
distintamente e sem uma correlação direta entre ambas. 
Geografia Humanística: Possui a fenomenologia existencial como a 
filosofia subjacente. Edmund Husserl (1859-1939) foi quem atribuiu os significados 
contemporâneos a fenomenologia. “A fenomenologia não é nem uma ciência de 
objetos, nem uma ciência do sujeito : ela é uma ciência da experiência”. Este tipo 
de abordagem foi adaptada a Geografia com o desponte de Tuan, que defendia o 
processo fenomenológico da capacidade do ser humano criar mapas mentais. Ou a 
perspectiva de uma pessoa em se localizar mentalmente em um determinado 
território ou local. E pelo simples fato de um ser consciente produzir tal elemento 
cartográfico virtual, estabeleceu-se a idéia do espaço fenomenológico, sendo este de 
cunho geográfico. Ainda dentro deste ramo filosófico, encontramos a Geografia 
Idealista: representando uma tendência para valorizar a compreensão das ações 
envolvidas nos fenômenos, procurando focalizar seus aspectos inferiores, que são os 
pensamentos subjacentes às atividades humanas. O idealismo é uma alternativa ao 
positivismo30. 
 
30 Para complementar sua leitura: CHRISTOFOLETTI, A. - “As Características da Nova 
Geografia” In CHRISTOFOLETTI, A. (org.) – “Perspectiva da Geografia”, 2ª edição. 
São Paulo: DIFEL, 1985. 
MORAES, A. C. Robert de - “A sistematização da Geografia Moderna” In: A gênese da 
geografia moderna . São Paulo : Ed. Hucitec, 1989, pp. 15-25. 
 58 
A Geografia estabelece como objeto de estudo o Espaço. Porém, existem 
vários espaços conforme mencionado anteriormente. O mais interessante, é que 
nenhum destes determinam com exatidão sua concreta e irrefutável alegação de ser o 
objeto de estudo da Geografia. Pois o geógrafo atua enfocando a natureza que se 
resume em duas coisas (o que faz parte e é natureza): 
 Seres abruptos: Que são elementos encontrados em todo o universo e são 
conhecidos ou nomeados como: átomo, moléculas, estrelas, sóis, planetas, 
luas, minerais, rochas, montanhas, vulcões, ventos, solos, mares, rios, água, 
chuva, cristais de neve, cristais minerais, sombra, vales, neve, gelo, fogo e 
etc. 
 Seres Orgânicos ou Bio orgânicos: São elementos orgânicos vivos e 
mortos (corais e conchas, por exemplo). Sendo que os elementos mortos se 
preservam em estruturas. E os vivos formam sociedades, comunidades ou 
individualismo. Dentro deste grupo enquadram-se os seres humanos e suas 
sociedades. 
A sociedade humana estabelece, cria, transforma, regenera, convive, 
desenvolve, integra e interage na natureza, concretizando novos ambientes e 
modificandoas paisagens naturais, estabelecendo paisagens artificiais, sempre 
reajustando estas duas paisagens para o seu conforto e sustento. Esta observação 
estabelece uma natureza artificial criada pelo ser humano. Pois o homem não gosta 
do que é natural, ele gosta da natureza humana. Sendo assim exemplificado: 
 
______________________– “Geografia Pequena História Crítica”, 14ª edição. São 
Paulo: Ed. Hucitec, , 1987. 
_____________________“O Positivismo como fundamento da Geografia” In Geografia: 
pequena história crítica. São Paulo: Ed. Hucitec, 1981, pp. 21-31. 
_____________________ et COSTA, W. Messias da – “Geografia crítica - a 
valorização do espaço”, 2ª edição. São Paulo: Ed. Hucitec, , 1987. 
 
 59 
Vamos preservar o mico-leão-dourado! Para quê? Para que no futuro eles 
existam, para que nossos filhos possam ver! 
Para que nossos filhos possam ver!...Não porque a natureza necessita 
deles. 
Vamos preservar a natureza! “Eba...Vamos!” Mas e os mosquitos da 
dengue? Matamos todos, porque transmitem doenças para os seres humanos! - Mas 
eles não fazem parte da natureza? Não temos que preservar a natureza? - Temos que 
manter nossa maior criação a cidade sem um foco de dengue ou outra doença 
causada por seres vivos, sejam doenças fabricadas pelo homem31 ou pela natureza. A 
natureza pode ser pura32 ou antrópica. Exemplo de natureza antrópica: Elevação 
topográfica com cobertura pedológica embasada em resíduos descartáveis33, seres 
vivos clonados, diamantes forjados em laboratórios e etc. Tendo ainda, o exemplo 
de natureza pura34: Nascimento de celacanto35 (latimeria chalumnae) – uma espécie 
de peixe muito raro e que existe em nosso planeta desde a éra mesozóica36. 
A cidade é de natureza antrópica, no entanto, não é um espaço construído 
pelas mãos humanas. É um ambiente artificial, montado, fixado e formado na 
superfície terrestre (espaço terrestre), pois se fosse na lua, seria no espaço lunar”. 
Mas como a cidade interage e se encaixa no âmbito da proposta de Nitsche? 
Vários ambientes formam um ecossistema, pois na verdade, o ecossistema 
é constituído de micro-ambientes que se integram e se correlacionam, estabelecendo 
um sistema visivelmente único, porém ao se analisar particulados destes, observa-se 
 
31 Armas biológicas. 
32 Definição de hartshorne (1979). 
33Morro formado por entulho de lixo (sendo recoberto por camada de terra). Feição antrópica 
geomorfológica. 
34 Criado ou destruído sem a intervenção/realização humana. 
35 Descoberto em 1938 na África do Sul. 
36 Termo que significa vida média – sua duração foi de aproximadamente 248 milhões de anos 
à 65 milhões de anos, que se divide em três períodos: Triássico, Jurássico e Cretáceo. 
 60 
várias camadas de ambientes. Pois cada ambiente é um sistema ou vários sistemas 
justapostos. 
O ecossistema marinho, por exemplo, é formado por estratificação de 
camadas e colunas d’água, onde se consideram a priore a profundidade, pressão, 
salinidade e a intensidade do alcance da luz. As formas de vidas e os objetos não 
viventes, existentes em cada camada, especificam um modo de vida e suas relações 
biomotoras. O que não se percebe de imediato, é que este ambiente aquático é 
formado por vários micro-ambientes, conforme demonstrado anteriormente, pois 
cada estratificação representa um ambiente único. Para a pessoa de Nistche (2000), 
ambiente se define como o local que estabelece condições de vida a um ser vivo, 
propiciando-o o modo de vida e suas conseqüências. Ou seja: É onde uma criatura 
pode viver, seja ele anaeróbico ou não. Um peixe que vive em um ambiente de alta 
pressão, isto é, que desempenha suas funções vitais em grandes profundidades e 
temperaturas baixas, não pode viver se trazido a 100 metros da superfície. Este 
exemplo mostra que este peixe, mesmo estando em seu “ambiente aquático”, não 
suportaria a temperatura mais aquecida da água e nem a baixa pressão, pois ele está 
fora dos limites de seu ambiente ou do local que propicia a vida deste ser. 
Para realçar tal afirmação, lembrar-te-ei que existem locais de visitação 
pública criadas especificamente para atender as condições climáticas e 
características similares às condições de vida das espécies que lá se encontram. 
Como é o caso do parque temático “SEA WORD”, localizado em Orlando - Florida 
(EUA). Nessa referida área destinada ao lazer, encontramos ambientes que atendem 
aos padrões reguladores que propiciam a vida animal. A característica de maior 
importância para este caso seria o ambiente criado para os pingüins37, que possui um 
sistema de precipitação de cristais de gelo (neve) e temperaturas equivalentes ao seu 
domínio austral. 
 
37 Pertence a família dos esfeniscideos, ave endêmica do hemisfério sul, que possui asas 
modificadas em aletas e pés munidos de nadadeiras. 
 61 
Mas a cidade é ou não um ecossistema? 
Para alguns autores, como ODUM (1988), consideram a cidade um 
ecossistema incompleto (heterotrófico), que dependem de grandes áreas, pois seus 
ambientes de entrada e saída são dependentes de fatores externos e influencias 
sócio-políticas. Odum não considera ser possível um sistema autotrófico porque as 
relações políticas não permitem tal desenvolvimento. 
 Atualmente as cidades não devem ser analisadas em seu núcleo, mas sim 
em sua área de abrangência, suas influencias e relações - comerciais/econômicas, 
culturais, religiosas e políticas. Diante de tais anotações, observa-se que as cidades 
na atual circunstância histórica refletem um sistema autotrófico, pois além das 
regiões metropolitanas vinculadas ao campo e/ou ao processo de conurbação, 
evidenciamos uma unificação de áreas, que estão diretamente ligadas e 
administradas pelo núcleo, além de influências de políticas internas e externas. 
Sabendo-se que vários ambientes formam um ecossistema. Poderia, 
Nitsche, nos dar um exemplo de como isso é possível em uma cidade? 
Como todo sistema complexo depende de inter-relações dinâmicas externas 
e internas de sub-sistemas, tais como, fatores variáveis condicionantes38 que 
desempenham o equilíbrio e/ou desequilíbrio do funcionamento do sistema global 
e/ou maior, citar-se-á um exemplo de uma das várias estratificações recorrentes nas 
cidades como: a malha viária, que é formada por vias e ruas, que se integram e 
geram uma característica modal daquilo que se entende como um fenômeno e/ou 
atributo urbano, que complementa outros contextos de características físicas e 
 
38 Exemplos mais conhecidos: Clima - abundância ou escassez de precipitação (chuva), 
variância de temperaturas médias anuais, eventos climáticos atípicos em uma determinada 
região urbana e/ou regional física. Variações não corriqueiras no âmbito econômico - quebra 
de sistema financeiro, falência de várias empresas ou negócios, alternância e/ou imposição 
política de reação antiterrorista, manifestação pública com distúrbio civil e/ou controle de 
massa, corrupção ativa e impunível, guerras e epidemias. Estes fatores,podem ser 
responsáveis pela extinção de atividades que geram a riqueza local. 
 62 
sociais, tais como: pessoas, veículos, sinalização, normas e jurisprudência. Todos 
estes, desenvolvem e criam o denominado ambiente de tráfego. Este sistema permite 
o fluxo de pessoal, mercadorias, documentos e dinheiro, dando origem ao ambiente 
de trânsito, permitindo que outros sistemas possam funcionar, como a coleta, 
reciclagem e manutenção do lixo, setor financeiro, previdenciário, judiciário, 
legislativo e executivo, de segurança, educação e saúde pública. Cada sub-
sistema/sistemas descritos se interagem e se complementam comoutros, originando 
todos os componentes responsáveis para que existam os ambientes que integrados 
aos demais, formam e desenvolvem as cidades. Sendo que o sistema viário ficaria 
comprometido caso houvesse um “apagão” energético ou acontecesse uma 
calamidade pública e/ou climática, desestabilizando completamente este ambiente. 
Logo, temos um ecossistema (artificial autotrófico) urbano39. E a principal fonte de 
energia que sustenta ou é responsável pela manutenção existencial das cidades é a 
economia (global ou local), pelo menos até o momento atual. E esta economia é 
criada pela força de trabalho da sociedade e do fomento e/ou das determinações 
políticas, gerando o desenvolvimento, tanto da sociedade em geral, bem como, da 
cidade em si. Pois a cidade é um ambiente controlado e criado por nós. Porém, caso 
haja um fator variável, o desenvolvimento da cidade fica comprometido, podendo 
 
39 Deve-se salientar que o campo e a cidade estão intimamente ligados, pois as decisões 
do uso do solo, aspectos econômicos de produção e manutenção do meio ambiente, são 
tomadas no âmbito urbano. Inclusive as questões indígenas. Sendo que atualmente, toda a 
produção “camponesa” é voltada ao lucro, principalmente quando se visualiza o mercado 
internacional. Pois a tendência é a agricultura e/ou as atividades agropecuárias serem de 
precisão. Lógico, que ainda existe a produção de subsistência, porém este tipo de cultura 
deve ser suplantado devido aos avanços tecnológicos e determinações administrativas 
governamentais futuras. E toda a produção agrária visa o abastecimento das cidades, que no 
momento presente, só é possível graças aos investimentos econômicos fornecidos pelas 
cidades, além do fluxo de mercadorias campo/cidade-cidade/campo. 
 
 63 
gerar as chamadas cidades fantasmas e/ou dependência tutelar política regional 
distrital, municipal ou federal. 
Em um futuro próximo, não teremos apenas navios, mas haverá cidades 
flutuantes40, pois existem rios, mares e oceanos, além de tecnologias que propiciam 
tal ideologia. 
Os conceitos aqui postulados podem ferir a percepção de alguns 
profissionais que estão ligados aos preceitos acadêmicos do Século XX, pois a 
geografia carece de novas abordagens, principalmente ao fato de se confirmar e 
defender com vigor o espaço como sendo a fonte vital dos estudos e da existência da 
geografia. Sendo assim, faz-se necessário desenvolver diálogos abertos em eventos 
acadêmicos, que possibilitem novas concepções ao tratado geográfico. 
Nas linhas seguintes, realizaremos uma incursão analítica aos padrões que 
norteiam a geografia espacial, respaldando os principais aspectos e seus pensadores 
mais influentes, segundo, vivenciado por Nitsche. 
 
A GEOGRAFIA ESPACIAL EM ANÁLISE 
 
Antigamente, mais especificamente nas décadas de 1960 até o final de 
1970, a Geografia apenas descrevia a natureza, e os professores em sala de aula, 
administravam as aulas desenvolvendo trabalhos em que os alunos pintavam, 
desenhavam e decoravam mapas com rios, montanhas, países e outros aspectos 
físicos, associados as decorebas dos aspectos humanos. Porém, nunca fizeram uma 
correlação e nem uma explicação do por que de se decorar todos aqueles aspectos 
geográficos. E todo este processo vinha da academia, estabelecendo um ritmo 
 
40 Tenho a convicção de que alguma cidade holandesa ou a italiana Veneza serão 
experimentais ao se tratar deste assunto. Porém, o mais provável, é que as mãos humanas 
construa suporte flutuante auto-sustentável, que propicie condições de vida a uma 
aglomeração de pessoas e suas atividades. 
 64 
desenfreado de termos “espaciais”, enquanto que os alunos sofriam com os “espaços 
decorebáticos”. Porém, o que realmente os alunos necessitavam saber não era 
explicado, sendo que ainda hoje encontramos pessoas que não sabem identificar no 
mapa as nascentes, qual o curso do rio e a importância disto, e até mesmo, nem 
sabem a que estado pertence seu município e como surgem os municípios, estados e 
países41. 
Até que surge a visão do Espaço Geográfico, estabelecido por Santos 
(1978), sendo desenvolvidos vários trabalhos que complementavam as análises 
espaciais, como as obras de sua autoria: “O Espaço Geográfico como categoria 
filosófica” (1983), “Espaço e Método” (1985) e “O Espaço Interdisciplinar” (1986). 
Suas análises se contrapõem a teoria do comportamento, que se fundamenta em 
parâmetros psicológicos, criando a idéia de que o ser humano é produto de seu 
ambiente. Para Milton Santos, o ser social é que desempenha a função de criador do 
espaço, fundamentando-se em teorias de cunho sociais e não psicológicas. Graças a 
este grande pensador, a Geografia inicia uma nova corrente de pensamento e 
enriquece sua maneira de atuar na comunidade mundial. Porém, os geógrafos não 
possuem um estabelecimento de paradigma único, defrontando-se com duas 
vertentes completamente opostas ao método e aos estabelecimentos de sua 
abordagem científica e profissional. Dentro de cada área geográfica, mais 
especificamente dentro da visão humanística, geram-se “várias geografias”. E todas 
estas Geografias estabelecem o Espaço como objeto de estudo. Mas o quê de fato é 
estudado? O espaço? Não! O que sempre foi estudado pela Geografia, por mais que 
não se aceitem isso, foram as relações sociais e suas influencias na natureza e vice-
versa. Sendo que atualmente, deve-se observar as relações do Homo-sapiens-
sapiens, ou como diz Nitsche: Homo-lucrum (onde ele está) simultaneamente com 
as relações ambientais/físicas planetárias. Ou seja: Que tipo de influência a 
 
41 Conforme visto por Nitsche no Município de Três Barras do Paraná. 
 
 65 
sociedade humana exerce sobre a paisagem e no espaço, ao mesmo tempo em que 
estes citados (paisagem e espaço) influenciam as sociedades e/ou o indivíduo 
humano. 
Quando se fala em aspectos geográficos associados à economia, 
implicitamente se calca o impacto ambiental, pois a humanidade transforma matéria 
prima (petróleo, madeira, água, gás, e outros) em bens de consumo (móveis, 
canetas,tintas, tapetes, borracha e etc.). 
Cada ramo científico possui sua especificidade, porém somente a geografia 
estabelece a relação SOCIEDADE/NATUREZA como foco de estudo. E quando 
não mais o fizer, não será Geografia. Transformar-se-á em Sociologia, Geologia e 
outras áreas afins. 
Outro problema evidenciado recai na maneira de como alguns trabalhos 
geográficos são elaborados. Em sua maioria, é quase uma ramificação das ciências 
sociais e econômicas, transformando a Geografia em um ramo destas citadas. 
De outro lado, temos a Geografia Física, que muitas vezes enfoca o relevo, 
a hidrografia e todos os aspectos geográficos pertinente a esta ramificação, porém 
dentro de uma análise mais próxima do social. Tendo como expoentes os Ilmos. 
geógrafos Aziz Nacib Ab'Saber e Helmut Troppmair, mas ainda existem 
pesquisadores que se esquecem da sociedade humana e suas relações. Quando se 
desencaixa a sociedade dos aspectos físicos geográficos, estamos sobrepondo áreas 
de cunho geológico, pedológico e áreas afins. 
Para Corrêa (1982), a Geografia não existe se não houver teoria espacial, 
estabelecendo sempre o espaço como objeto de estudo da Geografia. 
Corrêa (1995, p. 15 a 45) tenta especificar ou conceituar o espaço 
abordando as várias definições dentro de cada corrente filosófica (pensamento 
geográfico), finalizando com uma não conclusão. Na página 16 o autor menciona: 
“No presente texto considerar-se-á o conceito de espaço tal como os geógrafos 
entendem”. 
 66 
Primeiramente o geógrafo não conceituou espaço ainda, ficando este debate 
em aberto até os dias de hoje. 
E a Geografia segue seu caminho criandosubdivisões dentro de sua própria 
ramificação científica. Sempre estabelecendo novos “Espaços”. 
Palavras de Milton Santos (1996) “Um sistema de realidade, ou seja, um 
sistema formado pelas coisas e a vida que as anima, supõe uma legalidade: Uma 
estruturação e uma lei de funcionamento. Uma teoria, isto é, uma explicação, é um 
sistema construído no espírito, cujas categorias de pensamento reproduzem a 
estrutura espacial, organização do espaço, estrutura espacial que assegura o 
encadeamento dos fatos (...) O problema é encontrar as categorias de análise que 
nos permitem o seu conhecimento sistemático, isto é, a possibilidade de propor uma 
análise e uma síntese cujos elementos constituintes sejam o mesmo. (...) Quando 
Armando Corrêa (1982) enuncia que não há Geografia sem teoria espacial 
consistente, afirma também que esta “teoria espacial consistente” só é válida se 
dispuser de um conceito referente a natureza do espaço.” 
Na página 73, sub-capítulo 12, Milton Santos discursa: “O espaço é o 
resultado da soma e da síntese, sempre refeita, da paisagem com a sociedade 
através da espacialidade. A paisagem tem permanência e a espacialidade é um 
momento. A paisagem é coisa, a espacialização é funcional e o espaço é estrutural. 
A paisagem precede a história que será escrita sobre ela ou se modifica para 
acolher uma nova atualidade, uma inovação. A espacialização é sempre o presente, 
presente fugindo, enquanto a paisagem é sempre o passado, ainda que presente. O 
Espaço é igual a paisagem mais a vida nela existente; é a sociedade encaixada na 
paisagem, vida que palpita conjuntamente com a materialidade. A espacialidade 
seria um momento das relações sociais geografizadas, o momento da incidência da 
sociedade sobre um determinado arranjo espacial. A espacialização não é o 
resultado do movimento da sociedade apenas, porque depende do espaço para se 
realizar.” 
 67 
As idéias de Milton Santos estabelecem que o espaço é criado pela 
sociedade, sendo sua tese formulada em base de teorias sociais, divergindo-se de 
teorias psicológicas, como a teoria do comportamento, amplamente utilizada na 
Geografia alemã, até os idos de 1999. Porém, a Geografia deve manter sua 
independência, criando e desenvolvendo suas próprias teorias, embasadas no campo 
observacional e experimental e ao mesmo tempo, nos limites históricos e 
metafísicos. Evitando adentrar em campos de teorias puramente sociais, biológicos, 
geológicos e/ou de cunhos específicos ao físico terrestre. 
Vários trabalhos geográficos foram estabelecidos com visão de Milton 
Santos. Cita-se como exemplo: Palavras de Kozel42 (1999, p. 28) “É imprescindível 
adquirir uma visão de conjunto, de mundo, de sociedade e natureza. Pensando a 
cidadania como participação, integração a um todo maior estabelecido e vivido na 
realidade através da relação sociedade natureza, na produção do espaço. E a 
Geografia é o veículo que elegemos esse estar no mundo. Viver, pensar, participar, 
localizar-se neste espaço dinâmico e contraditório é o que denominamos de espaço 
geográfico. A terra é o lugar de múltiplas relações e a Geografia é uma das lentes 
que permite a sua leitura. O olhar geográfico sobre o mundo se projeta através 
destas múltiplas relações, onde o aluno é produtor do espaço e o espaço é o 
produto. Os homens criam seus espaços. (...)”. 
O espaço é conceituado e definido por Nitsche (2001) como: 
 Espaço: é a estrutura morfodinâmica que sustenta as paisagens e os 
ambientes. E só existem dois espaços que são: O Espaço Cósmico e o Espaço 
Planetário, sendo que o mais importante no momento (para a Geografia), é o espaço 
terrestre. Pois é aqui no Planeta Terra que a sociedade humana estabelece suas 
relações, compactuando, correlacionando, impactando de maneira positiva e ao 
mesmo tempo negativa, integra-se e interage com a natureza (seja ela pura ou 
 
42 Ilma Prof. Dra. Salete Kozel – UFPR, a quem dedico meu carinho e estima a tudo que me 
ensinou e me mostrou da Geografia, do mundo e de minha própria pessoa. 
 68 
artificial), pois o ser humano estabelece relações com a natureza pura e com a sua 
própria natureza. E são estas relações que os geógrafos estudam ou devem se 
preocupar. 
A paisagem pode ser artificial ou natural, pois uma paisagem artificial é 
aquela que foi modificada ou construída pela ação antrópica (ação do homem e sua 
sociedade). Este fato está evidenciado no trabalho “Três Barras do Paraná”. Dentro 
da perspectiva abordada nesta citada obra, a sociedade humana criava e construía 
espaço, porém, este espaço era construído de forma sistêmica e suas relações são 
todas interligadas. A contribuição maior foi demonstrar que a sociedade e o 
indivíduo modificam a paisagem e restabelecem novas paisagens, ao mesmo tempo 
em que criavam novos ambientes. E que toda esta relação está calcada em um 
conjunto de sistemas complexos, formados por sub-sistemas. Posteriormente, se 
verificou que todos os componentes paisagísticos naturais e artificiais são 
sustentados e construídos em espaço concreto e definido. Pois, o ato ou fato, de se 
delimitar uma área não significa construir espaço, pois se está apenas 
dimensionando uma porção do espaço. Porém, o que se irá construir dentro deste 
perímetro é o ambiente. Muitas pessoas entendem que ao se realizar um limite 
municipal, estadual ou internacional, está se criando ou desenvolvendo um espaço. 
O que ocorre, na realidade, é uma marcação/demarcação territorial espacial. Mais 
nada! E esta fronteira estabelece que aquele perímetro pertence a alguém. Ou seja: a 
porção espacial demarcada é o lugar onde um grupo de pessoa irá desenvolver seus 
ambientes, modificando as paisagens, consecutivamente interferindo parcialmente 
ou completamente no sistema que mantinha o antigo ambiente. Observe, que ao se 
modificar a paisagem e interferir no meio, você estará desenvolvendo um ambiente 
propício ou não a vida de alguns seres vivos, possibilitando ainda, a geração de 
novas espécies e/ou compactuando com mudança comportamental ao modo de vida 
de animais43 e plantas. Mas toda esta intervenção está voltada para duas metas 
 
43 Estamos inseridos nesta classificação. 
 69 
principais: A primeira é o lucro que se pode adquirir e a segunda é o bem estar de 
alguns indivíduos ou da sociedade em geral. Pois no mundo em que vivemos, a ação 
humana visualiza apenas o valor que engendra mais valor, arriscando a própria vida 
humana, bem como do planeta em si. 
O Homo-sapiens-sapiens44 não constrói estruturas morfodinâmicas, ou seja: 
o ser humano não forja ou cria planetas ou espaço cósmico. Talvez daqui a 1000 
anos o homem possa criar o projeto Gênesis (Jornada nas Estrelas II e III), porém 
necessita de uma matriz ou um espaço pré-estabelecido (planetas ou grandes corpos 
celestes), que se caracterizam como estruturas morfodinâmicas para atingir tal 
propósito. Criando posteriormente um ambiente. Posso citar como exemplo a 
criação de ilhas artificiais com o objetivo de expansão territorial para 
empreendimentos imobiliários, como se evidencia atualmente na cidade de Dubai. A 
configuração geográfica de Dubai limita seu desenvolvimento, pois sua costa possui 
apenas 59,5 km e os condomínios e hotéis dominam a costa do Golfo Pérsico de 
Dubai. Por este motivo, em 1993 iniciou-se a primeira construção da ilha artificial 
de Dubai, onde o famoso hotel Burj Al Arab foi construído. Sendo este referência 
para um projeto de cunho “mega-ambiental-artificial”, que se caracteriza como a 
criação de ilhas artificiais. Observe que tal operação exige recursos naturais, tais 
como rochas, areia, água potável e alimentos para os trabalhadores/empregados. 
Além de outras fontes de materiais e energia. 
Formar-se-ão lagos e/ou planificação topográfica devido ao encerramentodas atividades exploratórias de mineração de rochas (granito e calcário). Ainda 
dentro deste tema, pode-se inferir que haverá mudanças de correntes marinhas locais 
e as massas de ar serão influenciadas pela nova topografia, sendo que estas 
modificações proporcionarão alterações no complexo sistema local e até mesmo 
 
44 Utilizei este termo porque me lembrei de um fato joco-sério! Apresentava um trabalho em 
um simpósio e disse a seguinte expressão: “O homem está impactando o meio ambiente (...)”. 
E fui interrompido por uma ouvinte que disse: Mas e a mulher? Porque é só o homem? 
 70 
global, perfazendo novos ambientes45. Esta mudança propiciará uma adaptação aos 
novos padrões ambientais, desencadeando uma série de conseqüências positivas e 
negativas às espécies que hoje habitam tal localidade46, inclusive para a espécie 
humana, no que diz respeito a economia local e global (visando turismo, novas 
atividades comerciais e empreendimentos imobiliários), modo de vida, 
oportunidades financeiras e tecnológicas. 
Entende-se por espaço morfodinâmico, um corpo ou objeto celeste sólido, 
que sofra ao longo do tempo mutações e deformações, devido aos fatores e 
processos naturais de erosividade característicos e existentes naquele espaço, 
sofrendo ainda as influencias das forças geradas e/ou estabelecidas pelo espaço 
cósmico (irradiações, deslocamentos planetários e/ou estrelares, planetas, asteróides 
e satélites naturais e etc.). 
O espaço47 nos fornece materiais e os meios para criarmos os ambientes, 
bem como materiais para forjarmos ferramentas48. A sociedade humana vai utilizar 
sempre os recursos naturais, para inventar recursos artificiais. 
A paisagem é modificada, recriada e estabelecida pela ação humana 
constantemente, porém esta paisagem está moldada e fixada em um espaço concreto 
e defino (que no caso do momento presente é o nosso planeta Terra). 
Quando Milton Santos refere que paisagem é coisa, sua análise não afirma 
ser moral ou metafísica. Pois do ponto de vista moral, coisa é tudo o que não é uma 
pessoa; ou seja, os animais e os objetos inanimados.Dentro da metafísica, coisa é o 
ser enquanto essência. Analiso desta forma, que Milton Santos caracterizou a 
 
45 Observe que não estamos construindo espaço, estamos preenchendo ou ocupando um 
espaço já existente. Crie várias ilhas que preencham todos os rios, oceanos e mares. Logo, 
você terá ocupado todo o espaço onde havia água disponível no planeta. Temos todo o espaço 
do mundo para conquistarmos! 
46 Deixo aqui esta proposta de pesquisa aos interessados em comprovar tal fenômeno. 
47 Referindo-se ao Espaço Planetário – estruturas morfodinâmicas. 
48 Microscópios, martelo, luneta, computador, óculos, veículos, canetas, etc...etc. 
 71 
paisagem dentro de uma visão moral. Dentro desta visão, a sociedade não pode ser 
considerada coisa. Desta forma, a sociedade não está inserida na paisagem e no 
espaço ao mesmo tempo, pois se assim fosse, a sociedade seria parte integrante 
paisagística natura-artificial. 
Palavras de Hume (1949 n. 10 pp. 167-188): “Cada um admitirá 
prontamente que há uma diferença considerável entre as percepções do espírito, 
quando uma pessoa sente a dor do calor excessivo ou o prazer do calor moderado e 
quando depois recorda em sua memória esta sensação ou a antecipa por meio de 
sua imaginação. Estas faculdades podem imitar ou copiar as percepções dos 
sentidos, porém nunca podem alcançar integralmente a força e a vivacidade da 
sensação original. O máximo que podemos dizer delas, mesmo quando atuam com 
seu maior vigor, é que representam seu objeto de um modo tão vivo que quase 
podemos dizer que o vemos ou que o sentimos. Mas, a menos que o espírito esteja 
perturbado por doença ou loucura, nunca chegam a tal grau de vivacidade que não 
seja possível discernir as percepções dos objetos. Todas as cores da poesia, apesar 
de esplêndidas, nunca podem pintar os objetos naturais de tal modo que se tome a 
descrição pela paisagem real. O pensamento mais vivo é sempre inferior à sensação 
mais embaçada.” 
A nossa sociedade renova a paisagem e cria novas feições paisagísticas, 
porém não se caracteriza como um elemento paisagístico. Na verdade, a sociedade 
humana desenvolve o papel de elemento completivo do espaço (Planeta Terra) e da 
paisagem, assim como os outros animais. Esta explanação exige a definição de 
paisagem, sendo assim apresentada: 
Primeiramente recorreremos ao dicionário Aurélio (2001), onde se expressa 
a seguinte definição: Espaço de terreno que se abrange num lance de vista. 
Conforme Milton Santos (In: Metamorfose do espaço habitado, Cap.5, p. 
61, 1996), “Tudo aquilo que nós vemos, o que nossa visão alcança, é a paisagem. 
Esta pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que a vista abarca. Não é 
formada apenas de volumes, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc.” 
 72 
Nas palavras deste que vos escreve, ao se eleger a sociedade como 
paisagem, atribuímos uma característica não plausível ao termo paisagem49. Porém, 
se observarmos o espaço terrestre (planeta Terra) de uma altitude que nos permita 
visualizar as pessoas se movimentando e atuando na superfície do nosso planeta, 
temos a percepção ou idéia de uma paisagem única, composta de seres vivos e seres 
abruptos, formando desta maneira a paisagem terrestre. Observando ao mesmo 
tempo, que a representatividade dos atributos observável forma um conjunto, 
contudo, um sistema justo posto, gerando um sistema maior inserido na própria 
paisagem. Tal afirmação nos redireciona para as bases teóricas da Teoria Geral dos 
Sistemas (BERTALANFFY, 1973). Desta forma, podemos concluir que a paisagem 
recai na maneira de como visualizamos algo, sendo uma feição observacional ocular 
instintiva. E cada ser vivo observa a paisagem diferentemente de outrem. Por 
exemplo: Uma pessoa daltônica não vê a mesma coisa que um indivíduo que não 
possui discromopsia. E tal exemplificação, não se estabelece apenas no campo 
visual, mas também no campo de nossos sentidos ou na falta de algum deles. Logo, 
algumas pessoas podem não visualizar os conjuntos sistêmicos que a paisagem nos 
mostra, nem mesmo ter a consciência de que as pessoas estão encaixadas nela e que 
não pertencem a ela (não somos paisagens). 
Mas pôr quê os seres vivos, mais especificamente os que se locomovem50 
(principalmente os humanos) não podem ser parte integrante da paisagem? 
Como citado anteriormente, a paisagem tem uma característica estrutural, 
não sendo estática, pois a natureza (antrópica ou natural) está sempre se 
desenvolvendo ou evoluindo devido aos processos naturais ou por processos 
 
49 A sociedade não é uma estrutura natural física (coisa). É a organização de um aglomerado 
de pessoas ou grupos que ocupam uma determinada porção do espaço planetário, produzindo 
com suas forças de trabalho, o ambiente propício às necessidades, tanto pessoais, bem como 
sociais. 
50 Permeantes, conforme proposto por Shelford (1911). 
 73 
antrópicos. Além deste fato, todos os corpos estão em movimento, pois o espaço 
planetário está inciso e é parte integrante do espaço cósmico, e este se encontra em 
constante movimento. 
Os seres vivos, mais especificamente os humanos (que também estão em 
constante desenvolvimento, movimento e evolução), não possuem atributos 
paisagísticos, porque podem se deslocar e podem ir para fora de nosso planeta. Tal 
propriedade nos permite complementar a paisagem deste e/ou de um outro planeta 
ou de outros corpos celestes, logo, de outros espaços. E animais que pertenciam a 
uma determinada paisagem, podem se deslocar para nichos ou locais não 
característicos, devido a atuação antrópica (envio de cães e macacos para o espaçosideral, desmatamento, queimadas, poluição, ocupação territorial, exposição cultural 
e/ou preservação (zoológico) e outros motivos correlatos) e/ou por imposição de 
ocorrências catastróficas de natureza pura. 
É importante estabelecer, que a visão de espaço de Nitsche foge dos 
paradigmas que regem a Geografia atualmente, tendo um agravante maior: que a 
ciência em evidencia possui o atributo de ser única, não havendo uma dicotomia 
expressiva que conflui e estabelece um sub-ramo social-humano, de uma sub-
ramificação física. Este simples fato cria um problema epistemológico, remontando 
o momento histórico do grande divisor paradigmático que se estabeleceu tal 
dicotomia. Porém, esta nova maneira de se trabalhar com um novo enfoque sobre o 
objeto de estudo da Geografia e suas praxes, estabelecem um novo divisor 
paradigmal e filosófico, onde se estabelece novo procedimento metodológico e 
estimulam novos conceitos para atribuir tarefas em uma ciência reunificada. 
Neste momento, a Geografia passa por um período de transição, onde as 
forças se divergem em um trabalho extremamente voltado aos processos físicos da 
natureza e outros que se identificam com os processos extremamente sociais. Ambos 
os lados lutam para preservar e manter este divisor paradigmal, mas ainda não 
observei alguém tentando estabelecer uma corrente de pensamento que estabeleça 
uma singularidade e exclusividade científica, que torna a geografia como única 
 74 
dentro deste aspecto. Pois é graças a esta relação que é possível organizar algo no 
espaço51, bem como, analisar fenômenos que ocorram simultaneamente no que seria 
conhecido por SANTOS (1996), como espaço geográfico. Porém, estes fenômenos 
são gerados por duas forças naturais, uma estabelecida no âmbito ambiental físico 
natural e outra no âmbito ambiental antrópico natural (social e natura-artificial), 
sendo ambos responsáveis pelas causas e efeitos de ação e reação que se 
estabelecem no espaço físico52 (uma porção de área e/ou terreno da superfície 
terrestre). Sendo assim, o leitor duvidante observa que todas as colaborações e/ou 
interferências humanas é a concretização de um espaço originário pela sociedade 
humana. Mas não considera que tais criações e interferências/influências antrópicas, 
são na verdade ambientes desenvolvidos por nós seres humanos. 
Destas questões postas, percebe-se que a geografia está circunscrita em 
processos metodológicos e psicológicos voltados a persistência do tempo, espaço e 
nossa sociedade. Sendo assim, as formulações geográficas devem atender 
fenômenos naturais de ambas as naturezas conjuntamente. E suas análises não se 
desprendem do âmbito científico, conforme podemos averiguar nas frases de 
Nitsche, nesse texto que está por vir. 
 
GEOGRAFIA...FERRAMENTA DE ANÁLISE OU CIÊNCIA? 
 
 
51 Organizar algo no espaço não implica em eleger o próprio como objeto de estudo da 
Geografia. Pois esta organização se dá graças a relação sociedade/natureza e não o contrário. 
Observe que estamos falando em organização no espaço e não do espaço. Pois não se 
organiza o espaço, tal possibilidade somente é possível se for em um espaço virtual (realidade 
virtual computacional ou imaginário mental). 
52 Uso este termo para que seja interpretado de forma proximal à realidade dos geógrafos da 
atualidade e que compreendem a Geografia com a visão mais conservadora, se comparada a 
do autor deste. 
 75 
A Geografia deve ser científica e não apenas uma ferramenta de análise, 
pois todas as ciências são em sua essência uma ferramenta de análise53. Pois existem 
bases teóricas e práticas metodológicas concretamente formadas e evidenciadas, 
caracterizando uma abordagem empírica, isto é: que se descarta o metafísico, baseia-
se apenas na experiência pura, com possibilidade de falseamento e aplicação de 
métodos para teste direto ou indireto. 
Porém, observamos que tais processos estão cognitivamente ligados a uma 
abordagem não empirista, ou em que, num dado momento não há como estabelecer 
um padrão concreto de abordagem empírica. Tal análise condiciona a Geografia 
como sendo uma ciência histórico/empírica54. Histórica quando não há a 
possibilidade de recriar ou verificar uma característica repetitiva de um determinado 
fenômeno, portanto é uma ocorrência ou fato único. Um exemplo disto: As 
condições climáticas do Período Devoniano. E empírica, quando se pode testar, 
analisar e verificar, direta ou indiretamente um fenômeno que se constata no 
momento, podendo ou não ter um padrão histórico evolucionário (seja ele natural ou 
não). Exemplo: Êxodo rural municipal. 
A Geografia enfoca esta relação e ainda descreve e prescreve estas relações 
e suas feições naturais ou artificiais. Porém cada pesquisador desenvolve este 
enfoque de maneira específica, dentro de uma análise paradigmática, estabelecendo 
um enfoque puramente sócio-econômico ou puramente relevando aspectos físicos. 
 
53 Todo e qualquer ramo científico se estabelece ou é criado para analisar algo, um efeito ou 
um fato. Pode-se analisar uma doença, um ferimento, uma anomalia estrutural arquitetônica 
ou biológica, anomalias climáticas, e outras que possam surgir ao longo deste comentário. A 
ciência por si só, estabelece um processo analítico de todas as coisas e objetos, sejam 
biológicos ou abruptos, funcionais ou não. Desta forma, todos os ramos científicos são 
ferramentas de análises contínuas; e apenas deixará de ser, quando o ser vivo que aplica e 
desenvolve a ciência, cessar sua existência (não me refiro aos cientistas apenas, refiro-me a 
espécie humana). 
54 Descartando a idéia de que a geografia é uma ciência de síntese. 
 76 
Assim posto, pergunta-se: A Geografia é realmente que tipo de ciência: 
Social ou Física? 
O que faz gerar esta dúvida, recai no objeto de estudo da Geografia que até 
o presente momento não foi caracterizado concretamente. Nenhuma outra ciência 
enfoca as relações sociais humanas com as relações naturais físicas conjuntamente. 
Por este motivo a Geografia deve estabelecer este conceito e parar de teorizar 
espaço. 
Quando o geógrafo não mais possuir dúvidas com relação ao seu objeto de 
estudo, e quando adquirir coragem e se unir com seus colegas geógrafos para se 
impor no mercado científico (mercado de trabalho), estas dúvidas não mais serão 
cogitadas. 
O espaço terrestre é o mais importante para o contexto geográfico (no 
momento), pois o próprio nome da ciência Geografia advém do entendimento de 
descrever a Terra. Porém, apenas descrever, não condiciona a área de estudo como 
uma ciência, sendo necessário desenvolver teorias e encontrar respostas aos 
questionamentos que equacionam e expressam o funcionamento da dinâmica dos 
elementos físicos terrestres, associados à dinâmica dos elementos extraterrestres, 
vinculando e correlacionando estes citados, a nossa sociedade e sua participação nas 
alterações e/ou influências diretas e indiretas, tanto destes elementos, quanto dos 
elementos sociais, estabelecendo a dinâmica antrópica, desenvolvendo-se esta, em 
base da RELAÇÃO SOCIEDADE/NATUREZA. 
Quando acontecer de os pesquisadores desenvolverem pesquisas 
conjuntamente, a sociedade científica, bem como a sociedade em geral, irão receber 
muito mais informação e a ciência avançará muito mais rápido. Pois no atual estágio 
de desenvolvimento humano, o individualismo atrasa o progresso científico. 
Às vezes um pesquisador está desenvolvendo um trabalho semelhante ao 
do colega ao lado (ambos pertencem à mesma instituição), porém não se unem para 
expor as idéias e juntamente publicarem os conhecimentos adquiridos. E mesmo que 
as idéias sejam opostas, mas se objetivo ou o enfoque for o mesmo, deve-se 
 77 
trabalhar da mesma forma e publicar o trabalho como um diálogode contra pontos, 
que irá adicionar conhecimento e gerar interpretações positivas aos seus leitores. 
Pode-se citar como exemplo, a obra “Modernização Reflexiva” (1995). 
A Geografia se preocupa com as atividades e relações humanas no meio, 
sendo este o ponto fundamental. Desta maneira, observa-se que são as relações 
humanas e suas influências ao ambiente e vice-versa - onde o homem está55, que é 
estudado pela ramificação científica ora analisada. E tal estudo condiciona ao 
expoente das profissões voltadas ao planejamento urbano/rural e/ou se preferir 
planejamento ecológico-econômico, que para Nitsche é representado apenas pela 
concepção de PLANEJAMENTO AMBIENTAL56. Pois a bagagem intelectual do 
profissional geógrafo57 capacita o indivíduo a atuar de forma mais significativa e 
vicinal no âmbito de elaboração de planos de desenvolvimento governamentais que 
visem o aprimoramento do uso dos recursos humanos e naturais. Sendo estes, 
estudados conjuntamente, buscando o equilíbrio entre as disposições e necessidades 
humanas e das exigências mínimas para se manter o nosso Planeta vivo. Qualquer 
ação de desenvolvimento social/econômico, deve respaldar uma confluência às 
questões naturais puras e vice-versa (caso ainda queira desenvolver projetos 
voltados à natureza pura). Empregando-se métodos científicos que se enquadrem no 
bojo deste discurso e/ou tema. 
As etapas e todo o procedimento metodológico empregado na área 
geográfica de tem que ser de cunho científico e não apenas analítico ou descritivo. 
Porém, a noção de que "tudo o que é científico elabora-se na experimentação" 
 
55 Planeta Terra, Marte, Lua, nave espacial, estação espacial e Espaço Cósmico. 
56 Pois em sua concepção, ao criarmos e desenvolvermos atividades que alteram e criam 
ambientes naturais e artificiais, estamos dentro de uma perspectiva psicológica que respalda 
um ambiente único (ecológico rural/urbano e ecológico natural puro). Descartando a idéia de 
que ambiental é referência para a natureza pura. Conforme era tratado pelas geografias 
(planejamento ambiental e planejamento urbano/rural). 
57 Bacharel. 
 78 
retrata o compromisso do cientista em mostrar-se fiel ao método científico. Por 
outro lado, apoiar-se na experimentação não retém o raciocínio intuitivo ou mesmo 
transcendental. Esta é uma análise própria dos empiristas ou dos positivistas dos 
séculos XIX e XX, não devendo ser supervalorizada. É equivocado pensar que 
novas idéias surgem graças exclusivamente à experimentação. Novas idéias, mesmo 
no campo das ciências, surgem através do livre pensar58, ou até mesmo de uma 
manifestação do subconsciente (sonho), que direta ou indiretamente está ligado as 
suas necessidades. 
Um fato óbvio deste cizaniar tal conceito, recai na simples questão 
funcional das coisas criadas pelo homem. Por quê foram criadas? 
Exemplo: Vamos imaginar que você leitor, está nascendo neste momento, 
sem pai, nem mãe. Não há uma civilização, não existem ferramentas, nem utensílios 
domésticos, você está sozinho em um mundo formado por plantas, animais, rochas, 
e todo os outros objetos paisagísticos encontrados no espaço terrestre. Logo, você 
sente fome, tem que se alimentar. Mas tudo o que vê são pequenos roedores 
correndo e se escondendo entre as rochas. O que você faz? Intuitivamente, sua 
primeira ação será correr atrás do alimento. Então, se cansa de ir e vir sem resultado. 
Qual sua segunda ação? Arremessar uma pedra no roedor com uma atiradeira! Desta 
maneira, você criou um método para caçar roedores, com o auxílio de uma 
ferramenta que sua intuição criou, embasada na experimentação e associado com a 
sua necessidade pessoal. Porém, você pode observar este pequeno ser indo e 
voltando, mas ao contrário do primeiro exemplo, ao invés de você correr atrás do 
alimento, sua atitude será de elaborar uma armadilha, pensando em cercá-lo com 
pedras. Desta maneira, seu intelecto organizou e deduziu algo sem a 
experimentação. E as melhorias de sua armadilha virão somente depois de analisar 
os acontecimentos ocorridos após a construção de seu artifício. Ou seja: Suas 
 
58 Podemos citar como exemplo: As conjecturas de Albert Einstein (1879-1955) que 
resultaram em sua teoria da relatividade especial (1899). 
 79 
observações experimentais se iniciam quando você constata que os roedores estão 
saltando sobre o amontoado de rocha utilizado para cercar os roedores. Sua mente 
reage de imediato e o obriga a elevar a altura, criando um muro com apenas uma 
saída. Depois de algum tempo, começa a surgir uma hipótese: Será que esta 
armadilha pode ser usada para apanhar outros animais? Você deduz que é possível, 
pois se consegue aprisionar roedores, pode-se encurralar outras espécies. 
Palavras de Mesquita Filho (1993): “Nada impede que uma idéia venha a 
ser aceita até mesmo quando não há experiência alguma a comprová-la. 
Inadmissível, a princípio, seria a aceitação de um conceito a contrastar com a 
existência de dados experimentais consistentes a falseá-lo. 
Porta (1999), retrata o conhecimento "a priori", a embasar as ciências 
empíricas, com as seguintes palavras: "Se há um conhecimento que tenha as 
qualidades de necessário e universal então ele não pode ser empírico e, em 
conseqüência, é, por oposição, 'a priori'." 
 O caráter universal da ciência empírica está explícito na regra científica 
fundamental. Por paradoxal que possa parecer, universalidade implica em 
apriorismo e conhecimento "a priori" é aquele que não pode ser suficientemente 
fundamentado pela experiência. Logo, a regra científica fundamental não é 
justificável pela experimentação e nem passível de falseabilidade. Não obstante, o 
paradoxo se desfaz pela própria regra, pois ao afirmar que os demais princípios 
"também" são universal num contexto espaço-temporal, a regra garante-nos que 
tais princípios possam ser enunciados em decorrência de observações particulares 
(rigorosamente falando, deixam de ser princípios, transformando-se em leis). Ou 
seja, a regra científica fundamental assume todo o apriorismo inerente à ciência. 
Por exemplo, Galileu ao reduzir o atrito chegou à conclusão que o movimento dos 
corpos terrestres se conserva (inércia), falseando o argumento de Aristóteles. Longe 
de ir contra a experimentação, a regra científica fundamental dá suporte à 
experimentação, como que a garantir a evolução de um idealismo transcendental 
(teorização) para um realismo experimental (prática”). 
 80 
Estes argumentos foram descritos aqui, devido ao fato de muitos estudantes 
acadêmicos registrarem suas idéias de que a Geografia não é uma ciência, e sim, 
uma ferramenta que auxilia outras áreas do conhecimento. Sendo a ciência um corpo 
único; a Geografia e todos os outros ramos científicos são ferramentas para se 
alcançar o conhecimento e a busca pelo saber. 
As estruturas que sustentam as bases de criação e existência da Geografia, 
estão calcadas em um complexo discernimento filosófico da realidade observada 
pelo pesquisador, das relações humanas, das leis que regem um ou mais sistemas, 
ordem de elaboração existencial de paradigmas, fundamentação epistemológica, 
aquisição da experiência, metodologia dedutiva ou inconsciente, posicionamento das 
idéias de vivacidade de um argumento idealizador dos parâmetros que sustentam 
uma hipótese ou uma teoria, compartimentos distintos ao que se refere a subdivisões 
da ciência, imposição política administrativa, influências de poder e por fim, 
elaboração de conceitos que determinam o objeto de estudo de uma ciência e/ou 
ramo científico. 
Todos os seres vivos exercem um papel importante na estruturação da 
paisagem e são influenciados direta ou indiretamente pelos processos naturais 
responsáveis pela manutenção da vida, tanto destes seres, quanto do espaçoplanetário em si. Desta forma, a Geografia se enquadra dentro das ciências 
ambientais e/ou ciências da terra. Tal análise somente é possível no campo limite, 
entre as questões físicas e as questões humanas, entendendo que o equilíbrio 
ecológico se mantém graças às pesquisas propícias ao desenvolvimento e 
estabelecimento do bem estar social, bem como do bem estar natural. Pois 
atualmente é o ser humano e sua sociedade que estabelece e decide o que vive e o 
que deixa de viver no planeta. Estabelecendo ainda, o que se mantém natural ou não. 
(Sendo que os fenômenos naturais têm pouca influencia, se comparado ao final do 
 81 
Século XIX, mas que muitas vezes são decisivas e definitivas59). Quando cito que a 
geografia deve se estabelecer dentro das Ciências Ambientais, é porque nos 
concentramos a estudar o impacto (positivo ou negativo) que a sociedade causa ao 
meio físico e vice-versa. A sociedade humana é uma característica natural antrópica 
e o ser humano é natural60 (próprio da natureza pura). O que se estuda não é a 
atuação da sociedade no meio apenas, mas esta interação conjunta da natureza pura, 
natureza humana e nós – ser social. Estabelecendo desta maneira um conjunto 
sistêmico e dinâmico, que não pode ser separado, sendo que este conjunto de 
fenômenos se estabelece na crosta terrestre61. Por exemplo: O geógrafo estuda as 
influencias/mudanças climáticas e suas conseqüências à sociedade, estabelecendo 
ainda, as influencias que a sociedade exerce aos aspectos climáticos (poluição 
atmosférica – chuva ácida e outras proposições que surgirem em sua mente). Desta 
forma, não se avalia um aspecto social puro, ou um aspecto físico in sito62, mas um 
fenômeno natural - gerados pela natureza pura63 e antrópica ao mesmo tempo. As 
análises e seus resultados gerados por este tipo de abordagem, propiciarão um 
diagnóstico interativo que possibilitará ações de planejamento governamentais e/ou 
de cunho particular científico/empresarial. Mencionando como exemplo: O estudo 
das transgressões marinhas causadas pela mudança climática em uma determinada 
região, onde ocorre a redução da faixa litorânea, comprometendo as estruturas de 
moradias e/ou comerciais, bem como, intervindo nas atividades sócio-econômicas 
e/ou particulares de cada indivíduo. Mas seja lá qual for a atitude tomada, haverá 
com certeza, uma mudança significativa na paisagem. Nesse momento, surge a 
 
59 Exemplo: Impacto de corpos celestes, implosão solar, terremotos, maremotos, ou qualquer 
outra catástrofe de cunho imprevisível e de grande poder de destruição em massa. 
60 Pelo menos até este momento do início do Século XXI (2009). 
61 Nesse momento de nossa história. 
62 Não relevando apenas os fenômenos atmosféricos, caso contrário, estaria sobrepondo o 
campo da meteorologia. 
63 Hartshorne (1979). 
 82 
necessidade de se realizar um monitoramento constante dos processos previstos e 
identificar os não previstos, após as realizações das obras e implementações 
mitigadoras, bem como, as efetivas determinantes definitivas. 
Em um único trabalho científico geográfico pode apresentar questões de 
cunhos testáveis e não testáveis, mesclando postulados históricos e empíricos64. 
Graças a esta particularidade, é que se torna possível estabelecer união entre a 
Geografia Física e a Humana, desencadeando uma nova perspectiva ao contexto 
geográfico. Mas para que tal proposta obtenha sucesso, é necessário refutar o espaço 
como objeto de estudo65. Além de visualizar que a ciência é um corpo único, o 
conjunto global formado por grandes áreas do conhecimento, sendo estas 
constituídas de grupos de especialização profissional que possui várias sub-
ramificações. Para exemplificar esta afirmação, observe esta configuração a seguir: 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
64 Nitsche (1999, 2000 e 2001) 
65 Exclua o espaço das questões geográficas...e você terá uma Geografia. Pois o espaço 
sempre fica em segundo plano quando se trata destas, tanto físicas como humanas. 
 83 
Observação pessoal + Matemática + física + química + história + 
filosofia. 
 
 
 
 
Ciência = Ciências Naturais / Ciências humanas 
 
 
 Biologia Sociologia 
 
Zoologia Educação 
Botânica Civismo 
 
 Sendo que a Geografia (atualmente) não deixa de se ramificar dessa forma: 
 
GEOGRAFIA 
 
 
 
 FÍSICA HUMANA 
 
 
 Estrutura do Planeta Terra Sociedade 
 
 
 
 ESPAÇO 
 84 
Na concepção de Nitsche, a Geografia deve abranger os principais 
conhecimentos de relevância social e os ambientais, enfocando não o espaço, mas as 
relações entre as dinâmicas exercidas pelo papel individual de cada um (elemento), 
que irá resultar na complexa inter-relação dos elementos sociais e ambientais, 
originando a perspectiva proximal, que irá respaldar o resultado final dos estudos 
geográficos. Tal interpretação nos leva ao novo contexto estrutural do tronco 
científico geográfico, sendo este ramificado desta forma: 
 
 
 GEOGRAFIA 
 
 
 Sociedade Natureza 
 
Influências sociais no meio natural Influências naturais no meio social 
 
 
RELAÇÃO SOCIEDADE/NATUREZA 
 
 
 
 Geomorfologia, Climatologia, Hidrografia, Biogeografia. Estes são os 
principais arcabouços da Geografia, conforme identificado por Nitsche. Mas não se 
pode visualizar e/ou interpretar que estes componentes do conhecimento científico-
geográfico sejam conceituados e utilizados da mesma maneira que vem sendo, desde 
1990. Logo, faz-se necessário expor as idéias e os conceitos atribuídos por ele. 
 
 Geomorfologia: Dentro dessa visão de Nitsche, esta sub-ramificação se 
subdivide em quatro ramos: 
 85 
 
 
1- Geomorfologia Geral: Responsável por estudar a formação, o 
modelado do relevo e seus aspectos globais, do planeta habitado pelos 
seres humanos. 
2- Geomorfologia Evolutiva: Tem por objetivo descrever as grandes 
formas de relevo de uma determinada área e/ou região, visando 
compreender a história da compartimentação geomorfológica, 
pesquisando sua evolução cronológica. 
3- Geomorfologia Antrópica: Objetiva estudar e analisar os processos, 
as causas e seus efeitos no modelado de relevo criado e/ou modificado 
pela atuação da sociedade humana. 
4- Geomorfologia Corretiva: Visa o estudo de aplicações e praticas 
metodológicas para sanar problemas de cunho sócio-ambiental, 
geralmente ligado às áreas de risco e de pleito econômico. 
 
Climatologia ramifica-se em duas principais áreas: 
 
1- Geoclimatologia, responsável pelo estudo, descrição e classificação 
das condições climáticas do planeta habitado pelo ser humano e suas 
relações com o próprio e os demais seres vivos. 
2- Antropoclimatologia: Trata das questões climáticas diretamente 
ligadas às atividades socioeconômicas (Ex. ilhas de calor – área 
urbana). 
 
Hidrografia; subdivide-se em duas principais: 
 
1- Geohidrografia; presta-se ao entendimento das relações entre a litologia 
e o fluido e/ou substância (H2O) do planeta ocupado. 
 86 
2-Hidrogeografia: Estudo das relações sociais com os vários tipos de 
águas existentes em um planeta habitado. 
 
Biogeografia; preocupa-se com as relações sociais humanas com todas as 
demais espécies existentes em um determinado planeta. Limita-se a 
responder a seguinte questão: Como a sociedade humana interfere na vida 
individual e/ou social dos demais seres vivos. E vice-versa. Para Nitsche, 
fica assim dividido: 
 
1- Geoecologia:Estudo global das interelações humanas com os demais 
seres. 
2- Ecologia: dedica-se ao estudo dos ecossistemas. 
3- Biogeografia Aplicada: Aplicação dos conhecimentos biogeográficos, 
visando o desenvolvimento de metodologia e práxis para atenuar e/ou 
resolver questões de cunho sócioambientais e econômicos. Caro leitor 
observe que estes conceitos não se desprendem do corpo científico 
geográfico, muito menos extrapolam para outras áreas do saber. Sendo 
assim, as interpretações aqui postuladas, nos levam ao conceito 
proposto por Nitsche neste momento: 
 
 87 
 
Com esta idéia pode-se criar e desenvolver trabalhos acadêmicos voltados a 
uma visão única de inter-relação geográfica, unindo as duas ramificações que 
compõem a Geografia, bem como, estabelecendo vínculos metodológicos com as 
ciências afins e/ou distintas, que caracterizam 
transdisciplinalidade/interdisciplinaridade. Podendo ainda trabalhar com diversas 
teorias e métodos. Estas afirmações podem ser confirmadas nos trabalhos realizados 
por alunos do Curso de Geografia Magister da Universidade do Vale do Itajaí 
(UNIVALI-SC) em parceria com a Universidade do Contestado-Mafra/SC (UnC-
Mafra), no ano de 2005, que foram embasados nas formulações anteriormente 
citadas, com a finalidade de estabelecer um elo de ligação entre a Geografia Física e 
 88 
Humana, estabelecendo um diagnóstico ambiental interativo66. Sendo assim 
apresentado67: 
Estas atividades que se seguem, foram sugeridas com base nos primeiros 
parâmetros metodológicos seguidos por NITSCHE (1999), sendo este, a primeira 
tentativa de se estabelecer uma conexão entre a Geografia Humana e Geografia 
Física. Tal obra possibilitou realizar as pesquisas, que ora vos são apresentadas: 
 Trabalho de pesquisa desenvolvido pelos professores-
alunos: Marilei T. M. Heleodoro, Alberto Manoel Rodrigues e Rita de 
Cássia Plácido. Este projeto visa auxiliar as prefeituras municipais, com a 
participação das escolas, no planejamento de cidades, mais especificamente 
ao que se refere a criação de áreas verdes68, sendo assim transcrito: 
 
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 
 
 O projeto em si iniciou-se sem grandes pretensões, o que era pra ser 
observado e analisado, tornou-se de grande vulto envolvendo alunos compondo de 
equipes trabalhando de maneira dinâmica e prática, exigindo uma resposta em que o 
meio-social pudesse ser modificado a favor da escola e da comunidade. 
 A partir deste momento, sob o olhar crítico e com empolgação das 
equipes, obteve-se a idéia de ocupar a área em frente à escola, pertencente ao 
Governo Municipal. 
 Entre várias apresentações uma das equipes elaborou com ajuda das 
Oficinas de Marcenaria sob a orientação do Professor Alberto M. Rodrigues e da 
Professora Rita de Cássia Plácido, responsável pela Oficina de Artesanato, a 
maquete com a principal idéia de transformação e recuperação da área, constando de 
 
66 Denominação dada por Nitsche (2000). 
67 Com autorização dos alunos. 
68 Parques municipais. 
 89 
um parque infantil, pista de bicicross, e áreas para preservação e recuperação da 
mata ciliar do arroio de Matadouro. 
 Diante de tal perspectiva, iniciou-se o levantamento no dia 15 de 
novembro de 2004, por esta equipe que vos escreve, realizando incursão à área foco, 
com a finalidade de realizar a demarcação delineadora dos limites do futuro e 
pretendido parque. Além de estabelecer quais as ações a serem tomadas quanto à 
realização do projeto de pesquisas. Munidos de dois GPS Garmim de 24 canais e 
outro de 12 canais, foram plotados os pontos ao longo da área em estudo. 
 
 As coordenadas em UTM, sendo os pontos: 
 A: 0618939/7112979; 
 B: 0618903/7113090; 
 C: 0618847/7113240; 
 D: 0618 823/7113132. 
 
 Havendo na área uma edificação, onde se localiza a sede da Associação 
de Moradores Vila das Flores, surgindo a hipótese de implementar junto ao local 
uma Biblioteca Pública, para atender a população, em pesquisa, leitura e 
entretenimento. 
Foi realizada uma reunião com as atuais Presidentes da Associação de 
Moradores da Vila das Flores e Vila Solidariedade, Mafra-SC, no dia 05 de 
fevereiro de 2005, para expor o projeto e pedir a colaboração, através de suas 
representantes, para o engajamento da comunidade. Obtendo-se êxito nesta reunião, 
onde ficou esclarecida às dúvidas, sobre a ocupação da área por pessoas moradoras 
desses bairros. 
Além deste fato, os autores deste projeto, solicitaram apoio na realização de 
um abaixo-assinado, requerendo ao poder público o uso da área localizada em frente 
à unidade escolar, e auxílio no levantamento de dados ambiental e social das 
comunidades que norteiam a escola. Abordando o assunto sobre a implementação da 
 90 
biblioteca na sede da associação a qual foi aceita imediatamente pelas dirigentes, 
sendo de grande valia para a comunidade em geral. Neste mesmo dia cogitou-se o 
lançamento de uma campanha de arrecadação de livros novos e usados, onde 
posteriormente a campanha ganhou ênfase com a divulgação na mídia falada e 
escrita, através do jornalista Edwardes J. Sartori, que detém na Rádio São José um 
Programa diário intitulado de J. Sartori, onde os acadêmicos, solicitaram aos 
ouvintes a doação de livros, deixando endereço e telefones para contato e também 
no Jornal Tribuna da Fronteira onde o público respondeu prontamente. A escola 
através da oficina de marcenaria projetou e executou a montagem de estantes e 
materiais, colaborando para a concretização da biblioteca, sendo o 1º bairro a ter 
uma; servindo de exemplo a outros bairros que quiserem aderir a idéia. 
 Além do estabelecimento da área e da elaboração da biblioteca, 
surge a necessidade de preservação da mata ciliar, objetivando o controle de cheias, 
bem como, a preservação ambiental realizada pelos alunos de todas as idades. Sendo 
assim, realizou-se a coleta de folhas para análise, seguindo a metodologia 
desenvolvida por SANCHES e BENEDETO apub, Josué Camargo Mendes (1988). 
Pois seja qual for a faixa etária do indivíduo, poderá colaborar nas investigações 
fitoflorísticas, sem saber do processo de classificação e sistematização das espécies, 
sejam elas animais e/ou vegetais. Com este método, pode-se trabalhar em vários 
níveis de aprendizado, iniciando-se no pré até o último ano do Ensino Médio. Sendo 
que os professores de ciências, geografia e biologia podem realizar tarefas escolares 
que se caracterizam dentro de cada faixa etária, optando em apenas coletar amostras 
e/ou até mesmo classificar as espécies que compõem a mata ciliar do futuro e 
pretendido parque. 
 Enfocando a metodologia anteriormente descrita, estabeleceu-se 
quatro áreas ou táxons de 6m x 6m, distantes 6 metros uma das outras, usando uma 
trena, quatro (4) balizas de 2 metros de altura, e os 2 GPS anteriormente citados, 
estabelecendo desta maneira os pontos de amarração do terreno. Estes se localizam 
em uma altitude de 774 metros aproximadamente, portanto abaixo da cota de 
 91 
enchentes que é de 779 metros no município de Mafra-SC, fixado por lei nº 1431 de 
11 de junho de 1986. 
Para o levantamento de cunho social, elaborou-se um questionário e os 
dados pesquisados serão apresentados em forma de tabelas. Indicando amostras de 
pesquisas do espaço geográfico denominação de Santos (1996) e/ou como denomina 
Nitsche (2001), ambiente social, professores, alunos e famílias das comunidades que 
rodeiam a Unidade Escolar, divididos em partes de acordo com a pretensão da 
pesquisa, contendo perguntas relevantes ao que se destina. 
Chegou-se a conclusão que em 350 questionários distribuídos para famílias 
de alunos C.E.M. “Beija-Flor”, bem como para a comunidade local, somente 160 
questionários foram preenchidos e devolvidos,tornando assim nosso universo de 
pesquisa, equivalendo ao percentual de 45,7%. 
Com o intuito de não repetir questionários a uma mesma família, foi 
pesquisado com antecipação; classificando números de irmãos, a série e a professora 
regente, tornado-se a pesquisa mais próxima da realidade. 
Através de cobranças e pedidos repetitivos não voltaram 190 questionários, 
num total de 54,2%, o que chamou a atenção por ser um número significativo e sem 
justificativa para tal acontecimento. (In: HELEODORO, RODRIGUES e 
PLÁCIDO. A Participação da Escola no Planejamento Ambiental Urbano. Mafra, 
2005. Monografia (Graduação) – Setor de Geografia da Universidade do Contestado 
– Mafra/SC.). 
Ao analisar o procedimento metodológico deste trabalho anteriormente 
mencionado, pode-se perceber que existe a concretização do processo de 
transdisciplinalidade/interdisciplinalidade, pois muito se discursa sobre tal 
aplicação, mas pouco é praticado e feito. Logo, observa-se a união de três ciências, 
sendo estabelecido relação harmoniosa entre a Geografia Física, Geografia Humana 
e a Paleontologia, tendo ainda a participação da História, que embasa este 
diagnóstico, no que se refere aos processos do desenvolvimento urbano/rural local. 
Além de estabelecer tais vínculos, nota-se que há aplicação para todas as disciplinas 
 92 
que compõem a grade do currículo escolar69, podendo surgir n. possibilidades para 
as práxis educacionais acadêmica, embasadas em fatos científicos gerados por 
procedimentos geográficos, estabelecendo a relação sociedade natureza como objeto 
de estudo e não o espaço. Pois não se analisa o espaço apenas70, mas as relações que 
ocorrem nele. 
Após as avaliações deste projeto, pode-se analisar a próxima pesquisa, 
observando as diferenças modelar do procedimento metodológico e suas aplicações: 
 Esta pesquisa que ora vamos ler, refere-se ao impacto 
causado pelo cultivo e reflorestamento de pinus71, na região de Rio 
Negrinho – SC, sendo desenvolvido pela professora-aluna Marli Stoeberl 
Fernandes, que descreve seu rol metodológico como se segue: 
 
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 
 
“Seguindo as observações de NITSCHE (1999, 2000 e 2001), observa-se 
que sua estruturação monográfica e suas análises atende as duas áreas da Geografia, 
logo, segue-se este procedimento na pesquisa ora apresenta”. 
Para que este trabalho alcançasse seus objetivos foi necessária a busca de 
informações destas empresas com relação às questões sociais e ambientais, através 
de telefonemas, e-mails e entrevistas pessoais com os responsáveis pelo 
departamento do meio ambiente de cada empresa. 
 A pesquisadora também recorreu de dados referentes às empresas 
Moveleiras atuantes no Município, e leis ambientais vigentes no órgão responsável 
da Prefeitura Municipal de Rio Negrinho-SC. 
 
69 Dos Ensinos: Fundamental, Médio e Superior 
70 Ao observar e estudar apenas o espaço, você, tornar-se-á astrônomo ou geólogo. 
71 gênero pinus da classe Gimnospermas. 
 93 
 As bibliografias que foram consultadas, durante todo o processo de 
trabalho de campo, bem como, o de escritório, fizeram parte dos acervos de 
bibliotecas, museus, universidade, aquisição pessoal de livros e busca na internet. 
 Os levantamentos das características fisiográficas do Município 
tais como as geológicas, geomorfológica, hidrográficas, climáticas e pedogenéticas, 
foram realizadas através de consultas à projetos elaborados pela Battistella (EIA-
RIMA) 1988 e Tese de mestrado “APAs de Rio Dos Bugres” da autora Dalagnoll 
(2001). 
 Para os dados referentes aos aspectos econômicos e demográficos 
foram fornecidos pela Prefeitura Municipal de Rio Negrinho (SENSO 2000) e 
Sindicatos Dos Trabalhadores de São Bento do Sul. Tendo ainda, dados obtidos por 
questionários formulados e emitidos pela própria autora, aos órgãos competentes 
administrativos das empresas anteriormente citadas. 
 Para a aquisição de foto aérea panorâmica, teve 
participação de diversos setores como as empresas pesquisadas, 
Prefeitura Municipal do Município, Câmara de Vereadores do 
Município, acervo histórico do Museu Carlos Lampe, colegas e 
fotógrafos autônomos e profissionais. Além de fotografias tiradas pela 
própria autora. Estas fotos desempenham um papel fundamental para a 
visualização das áreas pesquisadas, bem como dos impactos 
causados72. Ainda, graças ao uso do programa Corel Draw 5, pode-se 
delimitar áreas de interesse e/ou fenômenos nas próprias fotografias.
 A Secretaria do Planejamento e Infra-estrutura da Prefeitura 
Municipal de Rio Negrinho-SC, forneceu todo o material cartográfico, 
 
72 Os impactos podem ser positivos e negativos. 
 94 
sendo utilizados o Mapa Municipal Estatístico em escala 1:50.000 e 
Mapa Rodoviário com escala de 1:50.000. 
Estes dados foram analisados e correlacionados a fim de estabelecer um 
diagnóstico interativo (Nitsche, 1999), que se preza auxiliar no estabelecimento de 
decisões que envolvam o desenvolvimento sustentável da região, o enriquecimento 
de material técnico/bibliográfico para a prefeitura do Rio Negrinho; e ainda, prestar 
assistência ao projeto (Plano Diretor da Cidade de Rio Negrinho) desenvolvido pela 
Prefeitura do Município, tendo a frente a bióloga Leoni Furts. O embasamento 
teórico e empírico faz parte deste projeto, o primeiro destina-se a busca no 
pensamento e idealização do processo de construção do projeto, sendo que o 
segundo, faz-se no procedimento do trabalho de campo, pois cada ponto citado foi 
visitado e analisado por quem manuscrita esta divulgação”. (In: FERNANDES, 
Marli Stoeberl. Diagnóstico dos Impactos Ambientais/Sociais Causados pelas 
Madeireiras no Município de Rio Negrinho – SC. Mafra, 2005. Monografia 
(Graduação) – Setor de Geografia da Universidade do Contestado – Mafra/SC.). 
Nota-se que os próprios alunos ainda não concretizam as idéias de Nitsche 
em sua plenitude, pois ainda estão ligados aos padrões geográficos que os 
formaram/capacitaram. 
Após exposição destas pesquisas, tem-se a impressão aparente de um 
“saladão” esta maneira de se trabalhar com uma geografia única, pois quem tem 
visão geográfica humana vai identificar linhas que se enquadra neste campo do 
saber, o mesmo acontecendo com os geógrafos físicos.. É uma salada que não pode 
ser servida a duas classes distintas, pois seu sabor é homogêneo e não permite ser 
apreciado por paladares dicotômicos. 
 
 
 95 
 
 
 
PENSAMENTOS QUE NÃO FORAM UTILIZADOS EM SEUS 
TRABALHOS 
 
 
 Nestas páginas seguintes, exponho pensamentos e reflexões que não foram 
contextualizadas e/ou descartadas no projeto Três Barras, pois Nitsche, preferiu não 
adentrar nos temas que ora exponho, mas deixou suas anotações expostas em sua 
pasta de pesquisa sobre a região. 
Devo salientar que este projeto surgiu de uma simples idéia: realizar um 
panfleto explicativo sobre o Município em questão. Porém, o secretário de educação 
pediu para que fosse elaborado um livro que abordasse os aspectos mais relevantes 
desta área territorial. Nitsche respondeu: “Não posso desenvolver um livro, pois 
estou no 2o ano do curso de Geografia.” – Não se preocupe, daremos todo o apoio 
necessário, disse o secretário. Com estas palavras de incentivo, este geógrafo iniciou 
o projeto um mês depois desta conversa e se dedicou aos estudos, servindo este, 
como objetivo e tema de sua monografia. Não sei se alguém realizou algo parecido 
na UFPR e/ou em outras instituições. Mas que foi algo corajoso e merecedor de 
reconhecimento...Isso foi! 
O problema é que quando Nitsche terminou o trabalho, a Prefeitura local 
não quis pagar a editoração e publicação do referido livro, alegando falta de verbas. 
Desta forma, para baixar o valor do manuscrito, começaram a reduzir o conteúdodidático, descartando mapas e fotografias que seriam de suma importância para o 
aprendizado, tanto dos alunos, bem como para a população em geral. Assim sendo, o 
livro foi lançado da maneira que se encontra hoje nas bibliotecas da UFPR, UEL, 
UEM, UEPG, Biblioteca Pública do Paraná, algumas bibliotecas do Saber e outras. 
 96 
Ao conhecer um pouco desta história, decidi procurar escritos e 
pensamentos que Nitsche realmente não utilizou em seu manuscrito. E tentar 
descobrir a razão de não tê-lo feito. Logo, encontrei os seguintes apontamentos, que 
transformei em cinco perguntas, pois as anotações eram dispersas, aleatórias e 
formuladas em um contexto único, como um livro sem capítulos. 
 
 
1- O que é Geografia? 
 
Definir geografia na atual conjuntura política geográfica é algo 
extremamente complicado e difícil, pois muitos ideólogos e geógrafos que seguem 
uma linha partidária socialista, comunista, liberalista, enfim, que se prendam aos 
parâmetros partidários políticos, verão uma maneira de atuação do geógrafo e de 
uma geografia mais voltada para as questões sociais. Esta visão, reflete a impressão 
de que o geógrafo é um sociólogo ou economista que trabalha com auxílio de 
mapas, recaindo naquilo que se ensina nas salas de aula dos ensinos fundamental e 
médio, como sendo a matéria que só fala de ricos e pobres. Atualmente isso mudou 
um pouco, mas muito falta para desenvolver uma geografia que realmente 
corresponda e responda aos apelos do que se deve expor e ensinar nas aulas e/ou 
sala de aula! Tendo ainda, os profissionais que se desprendem dos focos partidários 
políticos, atuando de uma maneira mais voltada às questões ambientais naturais 
puras, enfatizando o clima, o solo, a vegetação, o relevo e a hidrografia, gerando no 
âmbito estudantil um capítulo à parte dos fenômenos econômicos e sociais. Dessa 
forma, os autores de livros escolares (voltados especificamente a Geografia) tentam 
correlacionar essa diversidade de idéias e atuação, desenvolvendo uma linguagem 
adaptativa correlativa das questões geográficas, geológicas, econômicas, sociais e 
históricas. Que muitas vezes abordam textos marxistas, socialistas, comunistas, e 
liberalistas, tentando explicar o desenvolvimento econômico e social brasileiro, bem 
como territórios e ocupações. Este cenário nos leva ao que hoje é denominado de 
 97 
espaço socioeconômico. As explicações e abordagens nos livros, guia-nos para a 
falsa convicção de que o geógrafo tem a capacidade e/ou obrigação de saber tudo. E 
ninguém sabe tudo! Um ramo científico que engloba tudo...Não é ciência e/ou 
científico. Os geógrafos, atualmente, se detêm aos enunciados de outras áreas , 
remodelando-as para explicar suas análises geográficas. Não porque querem, mas 
sim, por se acostumarem com a linha evolutiva geográfica, que vem enraizada (esta 
maneira de se fazer geografia) desde 1947. Sendo remodelada e adaptada até os dias 
atuais, porém, sem a preocupação de se desvincular das teorias sociais, psicológicas, 
econômicas e históricas. Os geógrafos se preocupam em explicar movimentos de 
excluídos, questões econômicas que geram pobreza e riqueza das massas sociais, 
sempre se respaldando em mapas para diferenciar suas análises das outras áreas do 
conhecimento que abordam o mesmo tema. Pode parecer superficial esta resposta, 
mas por mais que se tente rebuçar ou florear...O resultado final é a mesma 
conclusão! 
A geografia deveria seguir seu próprio caminho, enfocando questões de 
cunho estratégicos ao desenvolvimento territorial, preservação dos recursos, 
provendo a sustentabilidade socioecológica local e/ou regional. Assim declarado, 
posso afirmar que geografia é a ciência que se encarrega das questões de 
planejamento ambiental. Não se esquecendo que o ambiental, refere-se ao ambiente 
que nós construímos, criamos e/ou modificamos (físico e humano conjuntamente, 
não podendo ser separado). 
 
 
2- Que tipo de ambientes criados pelo ser social se encaixa no que é 
proposto? 
 
Pode-se citar algumas cidades, como: Brasília (BR) e Las Vegas (EUA), 
ambientes criados e desenvolvidos em uma porção da crosta terrestre, sendo 
totalmente modificada em suas características primárias e possuindo uma paisagem 
 98 
única, com a criação de lagos, piscinas artificiais, inclusão de espécies alóctones 
(animais e vegetais), edificações voltadas para moradias, assistência social, 
militares, políticas, religiosas, voltadas para o divertimento pessoal e social, 
construção de ruas, avenidas, estradas, e outras estruturas que surgirem em sua 
mente. 
 
3- Quais os locais que os geógrafos poderiam atuar, ou que falta sua 
presença? 
 
Esta questão é a mais importante no que se reflete a atuação do geógrafo no 
mercado de trabalho, pois muitos reclamam dos limites e/ou barreiras profissionais 
enfrentados pelos profissionais desta área do saber. “Ou é sala de aula, ou é um 
gabinete que atende ao complemento de atividades de outros”. 
Basta querer ir até onde se faz necessário a presença do geógrafo. E todos 
os municípios nacionais necessitam de respaldo tecnológico e didático que somente 
o geógrafo é capaz de exercer e fornecer. 
A Amazônia brasileira sempre necessitou dos serviços e atenção dos 
geógrafos, desde a década de 50 (1950). Mas esperamos sempre os engenheiros, 
biólogos, historiadores, arqueólogos e novas ramificações científicas e tecnológicas 
surgirem, para que os geógrafos (“principalmente os sociólogos e partidários 
políticos”) iniciem as críticas ao que é feito. Pois não vi nenhum representante da 
Geografia em Três Barras do Paraná, quando se iniciava o desenvolvimento do 
projeto da Usina de Salto Caxias, quem dirá do acompanhamento de todo o processo 
que circundava e norteava a construção ora citada. Depois de tudo feito é fácil 
criticar ou apontar erros! 
 
 
 
 
 99 
 
4- Reflexões sobre a Amazônia? 
 
Muitos dizem que a Amazônia pertence ao Brasil, como sendo um território 
ou uma área que está dentro dos limites de diviso brasileiro, rica em biodiversidade, 
minerais e de grande potencial econômico (abrangendo todos os tipos de exploração, 
serviços e atividades lícitas e ilícitas, que de uma forma ou de outra, contribui para a 
economia global e local). Sempre observei a Amazônia como sendo brasileira, que é 
do Brasil, faz parte de nosso País. Não é uma área ocupada como se fosse uma 
colônia reivindicada por uma nação e/ou país. Muitos estrategistas brasileiros têm a 
mesma visão, porém, não conseguiram impor na prática, projetos para o 
desenvolvimento ambiental desta região. Pois existem vários fatores que 
impossibilitam um planejamento ambiental eficiente, pois temos: políticos 
corruptos, atuação de empresas comerciais73 voltadas para a exploração de recursos 
(madeira, minerais e outros), OnGs estrangeiras, nacionais e “trambiqueiras” (ONGs 
que não exercem atividades que deveriam), tráfico de armas e drogas, biopirataria, 
falta de contingente fiscalizador e controlador, aceitação de subornos (referente aos 
fiscais de várias instituições que lá atuam), a colaboração positiva ou negativa dos 
políticos locais, bem como, dos que estão em Brasília, além das interferências 
políticas internacionais, a questão dos povos nativos (indígenas), prostituições 
infanto-juvenis e várias outras questões e percepções que possam surgir ao longo 
desta temática. Mas a primordial tarefa de se mudar este cenário e poder 
implementar na integra um projeto de planejamento e desenvolvimento ambiental, 
está na liberação de recursos financeiros. E mais um problema se desponta: Quando 
se fala em recursos do governo (recursos que virão dos cofres públicos, ou seja, do 
bolso do povo brasileiro), imediatamente nos defrontamos com a supervalorização, 
tanto dos produtos industriais (manufaturados), e dos mais variados custos que73 Legitimadas e ilegais. 
 100 
envolvem materiais e pessoal (transportes, mão-de-obra, alimentação, estadia, 
maquinário, equipamentos de sondagem, utilização de radares, e vários outros 
equipamentos técnicos de campo) e outros serviços correlatos. Bem como, da 
produção científica, mental e literária. 
O desenvolvimento amazônico é possível, desde que, haja: (a) a injeção de 
recursos e principalmente, fiscalização e controle destes. (b) Cumprimento das leis 
de todos os âmbitos (ambientais, criminais, civil e outras) seja a quem for, (c) 
continuidade das obras (“custe o que custar”), (d) vontade política e vergonha na 
cara. 
E quem deve atuar na Amazônia? – Excluindo as ONGs estrangeiras e as 
“trambiqueiras”, e até mesmo as nacionais, pois elas existem graças ao descaso do 
governo que não exerce seu papel de integrador e fomentador do desenvolvimento 
ambiental,. Ressalvando que alguns estrategistas militares não se incomodam com a 
presença destas ONGs, mas se preocupam com aquelas que não exercem atividades 
legais. 
Para o governo é cômodo acolher as diversas organizações que lá estão, 
pois é um gasto a menos no orçamento. E nas palavras desta que transcreve estes 
pensamento (Valéria C.V. Nitsche), complemento dizendo: “Sobra mais para gastar 
com as Olimpíadas, emprestar dinheiro para os países mais pobres e com a Copa do 
Mundo!” Enquanto isso, possuímos estradas com longos trechos intransitáveis e/ou 
que afetem a segurança dos condutores de veículos que por lá são obrigados a rodar, 
caindo em buracos e quebrando peças, sistema único de saúde deficitário, segurança 
pública...o quê é isso? E outras áreas que todos nós sabemos necessitar dos recursos 
que são gastos pelo nosso riquíssimo país que se desponta no G7, G8 e no Conselho 
de Segurança Internacional. Somos tão ricos que estamos resolvendo problemas de 
outros países, como Honduras e Haiti. 
 E Nitsche continua... 
Devemos implementar uma ação conjunta com as Forças Armadas 
(Exército, Marinha e Aeronáutica), as universidades federais, com a população local 
 101 
indígena e engendrar projetos que viabilizem o processo de desenvolvimento 
amazônico, pois desta forma, não será necessário terceirizar serviços e/ou 
contingente de pessoal. Sendo que muitos desses serviços são prestados por 
teóricos74 que nunca pisaram na floresta e/ou mata adentro. Nunca mergulharam nos 
rios, ou lavaram seus pés nas águas de alguns dos canais amazônicos. 
Mas não podemos ser ingênuos ao acreditar que teremos um 
desenvolvimento sustentável na integra, ou que é possível realizar um processo 
100% sustentável desta região. Pois nada atualmente é realmente sustentável! 
Espero que pelo menos façam redes de esgoto ecológicas! 
Nós temos a falsa convicção que ao se utilizar biocombustível estamos 
fazendo um favor ao planeta, pois combatemos o efeito estufa. Mas e os outros 
efeitos? O etanol é algo maravilho para os veículos e para a Terra. Quantas 
monoculturas existem para atender ao mercado nacional e mundial? Até quando 
estes solos serão produtivos? Ah...mas fazemos o ciclo vernal! E o óleo de mamona 
também é maravilhoso! Os carros elétricos que carregam as baterias em sua casa. De 
onde vem tanta eletricidade? E as vestimentas e revestimentos feitos de Rattus 
norvegicus...São bem interessantes. Não? E as bombas atômicas que foram 
lançadas, os mísseis que estão sendo projetados e disparados todos os dias, seja em 
treinamento ou em emprego de forças armadas e/ou revolucionárias/terroristas. Os 
vários foguetes (de vários países) lançados para o espaço...São feitos como e de quê 
material? Quantos satélites orbitantes há e quanto lixo há em nossa órbita terrestre? 
Falamos tanto em não usar plásticos, materiais que prejudiquem a natureza, 
economizar água e luz, além de controlar o efeito estufa. Mas o que foi feito 
juridicamente e o quê o legislativo fez para que as fábricas de automóveis 
diminuíssem seu ritmo de fabricação, que tipo de tinta (pigmentação) automotiva foi 
desenvolvida para não agredir o meio ambiente, quantos materiais, além de plástico, 
 
74 Geógrafos, sociólogos, pedagogos, advogados, ecólogos e outros profissionais 
necessários ao processo que ora descrevo. 
 102 
são gastos para se fazer (apenas) o protótipo de um molde de um determinado 
projeto automobilístico e quantos são necessários para se fazer centenas de veículos? 
E por quê não fazem veículos que não ultrapassem 140 Km/h? Qual o custo 
ambiental de se fazer apenas o modelo mais simples (mais barato) de uma fábrica de 
veículos? Além dos veículos (fabricados no mundo todo), ainda temos, os aviões, 
helicópteros, embarcações (canoas, barcos, iates, navios, submarinos, veleiros e 
outros), bicicletas, motocicletas, patins, skate, televisores, geladeiras, equipamentos 
de som, computadores, equipamentos médico-hospitalares, seringas e injeções, 
sacolas, pulseiras, relógios, calculadoras, canetas, todos os tipos de tinturas e 
pigmentos (cabelo, automotiva, imobiliárias, mobiliárias, corporais e outras tantas), 
calçados, chaves, chaveiros, bonés, cosméticos, remédios, etc...e etc. 
 Por mais ecológicos que tentamos ser, não há como usufruir sem impor um 
custo ambiental (físico e humano). E quem paga a conta é o nosso planeta! Mas 
como amenizar isto? – O ser humano tem que parar de ser ganancioso, acomodado e 
preguiçoso! 
Ao ler estas exposições, pode-se perceber o do por quê não foram utilizadas 
em seus manuscritos e artigos. Nitsche não consegue admitir uma geografia 
puramente voltada aos preceitos teóricos que embasam a geografia humana e a 
politização fervorosa nas linhas de pensamento humanístico/social. Não questiona as 
fundamentações geográficas físicas, porque não é observada uma rigorosa defesa das 
idéias e ideais partidários. A preocupação recai em desenvolver teorias e ações de 
cunho natural físico. Porém, deixa claro que a geografia deve se ater ao conjunto 
físico e humano, relevando sempre uma relação entre o objeto físico (exemplo: 
classificação do solo) e a sociedade. Pois muitos geógrafos físicos ainda não 
estabelecem tal conduta. E muito dos geógrafos humanos não gostam de trabalhar 
com questões físicas. 
 
 
 
 103 
 
4- O quê dizer sobre a transferência de tecnologia? 
 
É importante observar que o país detentor da tecnologia, deve ser 
compreendido como o transmissor e/ou dispersor tecnológico, sendo que o país que 
capta esta transmissão, deve ser entendido como receptor tecnológico. Porém, não 
haverá transferência de informação se o receptor não possui massa critica pensante 
para compreender o que está sendo repassado. Quantos engenheiros e geógrafos são 
formados anualmente no Brasil? Garanto que se você pesquisou esta informação, 
verá que o número é extremamente inferior e infenso aos países detentores de 
tecnologia e de um sistema educacional avançado. Deixo aqui a oportunidade de 
nosso caro leitor realizar uma pesquisa: Aponte no mapa-múndi os países que 
possuem os maiores índices de massa crítica intelectual e faça uma comparação com 
os índices brasileiros. Depois, faça uma correlação dos estados brasileiros que 
possuem condições de se estabelecer como receptor tecnológico. Ficarão surpresos 
com a representativa gráfica que surgirá diante de seus olhos. E não basta possuir 
um efetivo intelectual voltado apenas para as questões de tecnologias avançadas 
(aeroespacial, robótica, informática e informação), necessitar-se-á de um programa 
social-profissional que possibilite o avanço tecnológico recebido em uma área do 
conhecimento. Sendo que particulados desta tecnologia, deve ser repassado para 
outras áreas, impedindo desta forma, que haja uma especialização estagnada, 
provendo e fomentando alternativas para novas aplicações tecnológica e pessoal 
capacitado paraentender, controlar e administrar. O mais simples exemplo que 
posso cambiar, seria: O joystick, que foi criado para jogos computacionais, depois 
foi transferida e sofisticada (a tecnologia) para o uso em aviões e cadeiras de rodas 
motorizadas. 
A única maneira de se alcançar este patamar intelectual, está no 
melhoramento do ensino de base público e privado, além de implementar novamente 
o valor cívico e comportamental social. Pois não basta apenas ensinar as matérias 
 104 
(por parte dos professores) e os alunos fingirem que estão aprendendo ou estudando. 
Tem de haver educação comportamental, tanto para os alunos e professores, quanto 
para os pais. As pessoas deixaram de respaldar o valor patriótico, as questões éticas 
e o respeito próprio. Pois se você não respeita a si mesmo e seu País ou se acha bom 
demais para ambos...Como pode respeitar o próximo? E isso implica, também, na 
maneira como o Estatuto da Criança e do Adolescente é moldado e estabelecido. 
Protegeu-se demasiadamente esta porção da camada social, que muitos pais e 
professores não atuam mais por medo de levar um tiro, temor que seu filho ou aluno 
cometa suicídio, ou simplesmente se acomodaram passando-se por bonzinhos e 
amigos, não tendo pulso para impor o NÃO! Com certeza, tal atitude influenciará na 
atuação deste indivíduo na sociedade (escola, convívio social, bem como no 
mercado de trabalho e várias outras que seu julgo permitir). 
Estamos em pleno Século XXI e ainda nos deparamos com professores 
lecionando para classes distintas de alunos na mesma sala de aula, onde estudantes 
da 2a e 3a série dividem o aprendizado com educandos da 4a série, seja por falta de 
estrutura e/ou material. Traduzindo...Falta investimento e fiscalização do governo 
federal75 ao que se refere ao repasse, controle e administração do dinheiro destinado 
aos estabelecimentos públicos e privado. Não apenas exigindo a documentação e 
comprovantes, mas indo ao local para ter certeza que aquela quantia está sendo 
empregada, de fato, ao que se destina. Mas isso parece ser impossível de ser feito! É 
só parar de salvar bancos, repassar verbas para ONGs, doar dinheiro ao mundo, 
deixar de bancar políticos corruptos e pagar salários astronômicos. 
 
 
 
75 Cabendo ao governo federal, pois se deve fiscalizar as instâncias municipais, 
estaduais e incluindo as federais. 
 105 
DESABAFO GEOGRÁFICO: INFLUENCIA PESSOAL/SOCIAL 
 E POLÍTICA NA CIÊNCIA 
O prego que se desponta 
é o que recebe martelada (Prov. Japonês). 
 
Ainda está para nascer o cientista ou 
pesquisador que tenha coragem de 
admitir críticas ao seu trabalho, e ainda, 
mostrar falhas em suas teorias ou 
trabalhos científicos para seus próprios 
alunos ou colegas. E se algo não for 
explicado de forma clara...HIPÓTESE 
AD HOC! 
(Diálogos entre Ferigolo e Nitsche) 
 
 
Estas palavras que vamos ler, foram escritas por Nitsche, demonstrando 
como é o mundo vivido por ele e o que esta mundividência nos revela. 
 “Ainda observamos dentro de qualquer ramificação científica, a inveja, 
orgulho e a mesquinhez de pesquisadores, mostrando o quanto evoluímos 
negativamente aos próprios processos de transformação cultural, social e humano. 
Tais atitudes levam a ciência ao abarrotamento de pensamentos não construtivos. E 
isso é expresso dentro das academias, quando um professor tenta prejudicar um 
aluno que possui idéias mais dinâmicas. Ou quando um colega pesquisador descreve 
ou transcreve trabalhos de alguém (que ele não gosta) e não cita ou referencia tal 
fonte. Ou ainda, não lê o trabalho de seu “rival”, ou rouba-lhe as idéias e publica 
antes de seu “algoz” ou colega. Tal conduta insere na reformulação do que é ético. 
Outro problema, e até mesmo podemos denominar de preconceito ou 
etnocentrismo científico, expressa-se no que seria o “abismo” existente entre o 
 106 
profissional licenciado em Geografia e o profissional bacharel em Geografia. Para 
muitos, o geógrafo é aquele que possui o bacharelado, desta forma e única, são os 
verdadeiros geógrafos. E aqueles que possuem a licenciatura, são apenas professores 
de geografia. 
Diante deste dilema, pergunto: Se o professor de geografia (que não possui 
o bacharelado) adquiri todo o seu conhecimento dentro do Curso de Geografia e 
toda sua formação foi embasada pelos conhecimentos transmitidos por bacharéis 
(pois antes de serem mestres e doutores, tiveram que ser alunos e adquirir o título de 
bacharel), então a que classe pertence estes professores de Geografia? Logo se 
conclui que são geógrafos! A alegação dos bacharéis é sustentada por uma 
interpretação funcional do procedimento das atividades dos professores de 
Geografia: O professor não executa atividades de pesquisa, não realiza incursões à 
campo, logo não é geógrafo. Outro motivo seria: Que os professores não são 
obrigados a realizar monografias desenvolvidas em procedimentos metodológicos 
científicos (em algumas instituições). 
Porém o que se observa, é que o professor desta área do conhecimento 
sempre realizou pesquisas, direta ou indiretamente, ao contrário de muitos 
professores universitários, que usam folha de acetato amarelada, queimada pelo uso 
contínuo e por longo período do retro-projetor e/ou dados de datashow/media com 
assuntos que foram elaborados em uma de suas primeiras aulas. Ou ainda, que 
executam suas atividades em laboratórios, sem ao menos ir ao campo para avaliar 
suas reflexões, que foram embasadas na literatura. Os professores das redes de 
ensino estão sempre aperfeiçoando seus conhecimentos, improvisando materiais, 
realizam cursos, freqüentam cursos e desenvolvem pesquisas (particulares ou não), 
principalmente os mais jovens ou recém chegados. Claro que há exceções! Na 
realidade, o Bacharel em Geografia realiza e desenvolve pesquisa, detendo o 
conhecimento e retendo o saber; logo, o professor de geografia apenas transmite os 
conhecimentos adquiridos pelo saber de outros. Mas nada impede que o licenciado 
desenvolva pesquisas, tudo depende se sua vontade pessoal. Assim posto, pode-se 
 107 
dizer que os professores são responsáveis pela transmissão dos conhecimentos e pela 
introdução dos alunos ao mundo do conhecimento. Logo, não são cientistas, porém, 
são geógrafos76! 
Uma outra questão deve ser levantada, a, de que ainda estamos vivendo 
uma rivalidade étnica científica, forjada77 pelo etnocentrismo de alguns países. Uma 
exemplificação sem ornato seria expressa desta maneira: 
Certa vez Nitsche assistiu um documentário sobre dinossauros carnívoros, 
no programa televisivo denominado “Paleo-World”, que foi elaborado pela 
Discovery Channel (2001). Neste documentário, alguns paleontólogos americanos 
realizaram algo tão jocoso e que ao mesmo tempo demonstrava uma idiolatria norte-
americana tão consistente, pois, se esqueceram que os dinossauros nunca foram 
norte-americanos ou sul-americanos. Ocorreu o seguinte: 
O Tyrannosaurus rex sempre foi o mais espetacular dinossauro de todos os 
tempos (para algumas pessoas), devido ao seu tamanho e possível ferocidade, 
descoberto em 1902 e desenhado pela primeira vez pelo norte-americano Henry 
Fairfield Osborn. Até que no ano de 1995 foi descoberto o giganotosaurus 
(Giganotosaurus carolinii), por uma equipe de cientistas argentinos, Rodolfo Coria 
e Leonardo Salgado, do Museu Argentino de Ciências Naturais em Neuquén, perto 
dos Andes (Argentina), medindo 15m de comprimento por 7m de altura. Considera-
se que o Tyrannosaurus, em média, tem 13 m de comprimento por 5 m de altura. 
Com estas diferenças de tamanho entre um fóssil e outro, os americanos 
realizaram uma comparação de superioridade e agilidade destes seres, comparando-
os como se existissem no mesmo Período. Além disto, ainda fizeram um 
comparativo entre estes dinossauros com lutadores de boxe,sendo que o lutador de 
calção vermelho e azul representava os EUA - América do Norte, e o outro lutador 
representava a América do Sul. Claro, estes lutadores estavam também 
 
76 Há o geógrafo licenciado e o geógrafo cientista, ou se preferir pesquisador. 
77 Não possui o significado de falso! 
 108 
representando os “dinos” ora citados. Na conclusão e parte final deste documentário, 
disseram que o Giganotossaurus não era páreo para o indestrutível T. Rex. 
Este fato hilário mostra um quadro sombrio aos quesitos científicos e até 
mesmo ético para a ciência. Pois o pesquisador deve, antes de qualquer coisa, ser 
neutro e expor os fatos de maneira a não tomar partido nas questões pertinentes a 
sua pesquisa. Um cientista deve registrar os fatos e concluí-los com seriedade e 
cientificismo, sem expor suas opiniões pessoais que possam demonstrar uma 
rivalidade, preconceito ou desilusão, mas apresentar os resultados integralmente 
conforme foram adquiridos durante o processo de investigação. Neste caso, a 
opinião pessoal terá que retratar uma hipótese ou teoria, mas não conotar algo 
irrelevante ao conhecimento, como é o caso da conclusão e a visão destes que 
realizaram o tal vídeo. 
E por falar em desenvolver uma hipótese, muitos autores e pesquisadores 
tentam induzir a pesquisa para que alcance o resultado de sua idéia quanto a um 
fenômeno, ocultando informações que poderiam contradizer sua hipótese, para que 
não seja reprovada sua tese. Este procedimento mostra que não há o 
amadurecimento do pensamento, de que, mesmo reprovada sua hipótese o trabalho 
foi concretizado e mostrou um novo rumo ao conhecimento científico. Logo, não 
interessa se sua idéia primária (hipótese original) estava errada, o que importa é a 
contribuição de sua pesquisa que retrata uma nova realidade, pois surge uma nova 
hipótese e/ou fato científico. Porém, deve-se ponderar e pensar muito bem se em sua 
pesquisa deve ou não ocultar um fato histórico, tal como: se foi ou não realizada 
uma obra pública (asfaltamento de estradas), ou que envolva nomes de pessoas e/ou 
famílias. Nitsche, em sua pesquisa do Município de Três Barras do Paraná, esteve 
diante deste dilema. Pois naquela região aconteceram revoltas e chacinas, devido à 
posse de terras. E em sua concepção, o melhor seria relatar o fato, mas ocultar os 
 109 
nomes das pessoas envolvidas. Desta maneira, preserva-se a harmonia e convivência 
social, evitando rivalidades entre as famílias envolvidas78. 
Ainda dentro desta análise, observa-se que existem problemas étnicos 
históricos, que são mais percebidos na área da arqueologia, mas que existe em todos 
os ramos científicos. Pode-se citar como exemplo o caso do povo de Clovis (data de 
11. 500 a.C.), sendo estes os primeiros colonizadores da América. Esta teoria está 
em “Xeque” atualmente, pois existem fatos e atos científicos que comprovam que 
existiram povos ancestrais aos de Clovis, sendo estes datados de 20.000 anos, 
portanto 8.500 anos antes do que se entendia como sendo a primeira colonização. 
Mas o problema não está apenas em descartar a “Teoria da Passagem do Estreito de 
Bering” (Beringea), mas recai em um dilema de etnia relacionada aos índios 
americanos, que sempre aceitaram serem de descendência asiática79. Assim posto, 
pergunto: Quais são os reais motivos para não aceitar esta teoria? Questão étnica ou 
o medo de contrapor uma ideologia norte americana? Quanto a questão étnica, é 
fácil de compreender, pois se os filhos da terra não forem de descendência asiática, 
todos os indícios levam a crer que são de origem européia. Ou seja: os mesmos 
povos que os dizimaram. Este fato por si só, desencadeia entraves a confirmação da 
Teoria Beringeana. 
 Ainda enfatizando este tema, deve-se expor que muitos cientistas que 
escavaram além da linha de 11.500 anos, foram caracterizados de loucos pela 
comunidade científica, além de conotarem, que estes mesmos pesquisadores 
forjaram fatos históricos, científicos e arqueológicos. E toda esta discussão surgiu 
porque alguém, como Niède Guidon (arqueóloga brasileira) resolveu realizar 
ciência, escavando além do limite de Clovis. Descobrindo vestígios dos primeiros 
 
78 Dedico à Ilma. Prof. Dra. Jônia (minha professora de Geografia Rural-UFPR) este 
importante aprendizado. 
79 Isto é o que defendem os contrários a esta nova teoria, embasados nas entrevistas com os 
próprios filhos da terra (os índios). 
 110 
habitantes americanos, que datam, de no mínimo, aproximadamente 60.000 anos 
atrás (entrevista com a própria pesquisadora, na TVCâmara, na data de 15/06/2008 
(Fonte: 
>http://www.camara.gov.br/internet/TVcamara/default.asp?selecao=MAT&velocida
de=100k&Materia=50995<)). Sendo que muitos cientistas não tinham coragem de 
expor suas novas descobertas (que retratavam ancestralidade a linha estipulada), por 
medo de serem excluídos, debochados ou ridicularizados por seus colegas que se 
dizem cientistas. Cito Darwin como um dos que sofreram com esta ignorância e 
arrogância expressa por membros das sociedades científicas em geral e as cúpulas 
sociais que não desejam a ciência etérea. 
Devemos refutar e desprezar aqueles “cientistas” que pagam para adquirir 
suas monografias de graduação, dissertação de mestrado ou tese de doutorado, pois 
há muito tempo se constata tal atividade, principalmente depois da criação e 
desenvolvimento da internet, onde é possível encontrar páginas de pessoas que 
prestam serviços de elaboração de trabalhos científicos/acadêmicos. Não sei quem é 
mais desprezível, se os que cobram para realizar tais atividades, ou se aqueles que 
pagam e pedem tal “prestígio”. 
Uma maneira de se atenuar tal atividade, seria a realização de bancas 
científicas de avaliação. Pois atualmente muitas instituições não aderem tal conduta, 
devido ao tempo e aos custos. Alguns acham que é desnecessário formar uma banca 
para avaliar um trabalho de doutorado, mestrado ou de graduação. Esta perspectiva 
facilita e viabiliza o comércio monográfico científico. Com a imposição da banca, 
pelo menos o falso profissional/cientista deve se dar ao trabalho de ler o que os 
outros fizeram por ele. Devemos ainda, menosprezar àqueles professores que 
plagiam trabalhos de alunos e os consultores (parceiros) de conselhos editoriais, que 
avaliam uma obra, adquirem (pajeiam) as informações mais importantes e 
desenvolvem seus próprios artigos e/ou obras literárias, reprovando o manuscrito 
antecedente. 
 111 
“Canudo” não significa nada, pois muitos recebem diplomas universitários 
e medalhas, mas obtiveram tais horarias graças às idéias e trabalhos de outros. Além 
de existirem livre-docentes que não possuem postura educável e de bons modos, 
sendo totalmente deseducados. Pois o diploma e títulos são símbolos que 
representam, não apenas a instituição, mas a capacidade intelectual do indivíduo 
possuidor deste. Mas este título não delega ao seu detentor o poder de ser mal 
educado ou de desrespeitar qualquer semelhante80. 
Encontra-se ainda no meio acadêmico, pessoas que realizam pós-
graduação, com o intuito de obter uma aposentadoria remunerada ao nível que se faz 
jus e não se preocupam com a representatividade de sua titularidade. Além daqueles 
que ingressam no ensino superior apenas para receberem o veículo automotor 
prometido pelos pais e/ou por imposição da família. 
“A Ciência está se tornando cada vez mais corrupta, graças ao 
intelecto macaco humano!” 
Outro problema dentro da ciência e das análises geográficas, recai na visão 
política de cada pesquisador. Sendo assim, existem os petistas81 e os representantes 
ou adeptos de outros partidos políticos. Enfocando tal situação, nota-se que a 
Geografia deixa de ser uma ciência para se transformar em um patamar político. 
Pois muitos dostrabalhos científicos e/ou acadêmicos são moldados dentro da visão 
de cada pesquisador partidário. 
Este problema foi observado vividamente no ano de 1995 e 1998, quando 
representantes e organizadores dos Encontros de Estudantes de Geografia (nos anos 
citados), promoveram passeatas em apoio aos “Sem Terras” e outros grupos que 
 
80 Semelhante...SIM! Só porque você possui diploma, não significa que é o Presidente do 
Brasil! Principalmente ao que se refere à pessoa de Luiz Inácio Lula da Silva – presidente de 
nosso País. 
81 Que são adeptos do partido dos trabalhadores. 
 112 
empunhavam bandeiras de partidos políticos, além das bandeiras que representavam 
os grupos de desencaixados82 e seus movimentos. 
A Geografia, como todos os outros ramos científicos, faz parte da 
CIÊNCIA, e a ciência não deve estabelecer concordância ou discordância política. A 
ciência existe para desenvolver trabalhos e buscar soluções para amenizar problemas 
sociais e ambientais, independente de ações ou respaldo político, promovendo um 
equilíbrio e bem estar para ambos os lados (sociedade/político/natureza). A ciência 
tem de trabalhar para encontrar o equilíbrio entre as ações governamentais e as ações 
sociais, vinculadas aos desejos de ambas as partes. Responsabilizando-se ainda, em 
fornecer as diretrizes para as atuações e determinações políticas para o caso 
estudado e/ou analisado cientificamente. Muito diferente do que ocorre nos dias 
atuais. 
 Aos detentores dos poderes, legislativos, executivos e judiciários, devem 
se lembrar que trabalham para o povo. Sendo que este mesmo povo é quem paga 
seus honorários, soldos, diárias, horas extras, viagens e etc. Este balanceamento de 
forças estabelecerá uma melhoria na qualidade de vida dos indivíduos, bem como do 
próprio Planeta. 
O pesquisador tem de ser partidário, pois o regime governamental impõe tal 
posição, pois ele (o pesquisador) é um cidadão eleitor e pode se candidatar, sendo 
que as leis de nosso País o obrigam a votar. Mas a ciência tem de ser apolítica e não 
servir de patamar político. Logo, o pesquisador deve ser cientista e não servir aos 
interesses políticos, quando prestigia apenas um lado e/ou um grupo minoritário de 
oportunistas. 
Vivemos em um mundo capitalista, desta forma, imediatizamos o suporte 
científico-político em nossa postura de trabalho. E as atuações governamentais 
influenciam as ações científicas, pois as verbas de uma pesquisa ou de uma área 
 
82 Conotação e descrição de Giddens (1991), neste caso específico são os Sem Terras e Sem 
Tetos. 
 113 
científica, muitas vezes são geradas por chaves partidárias e seus adeptos. Esta 
postura se estabelece em todos os setores de vivencia e de trabalho, desde o regime 
interno de uma instituição até os alicerces da comunidade em geral (nosso próprio 
lar). 
O sistema político administrativo de qualquer entidade ou país exerce uma 
pressão no desenvolvimento de pesquisas, muitas vezes atrasando a evolução 
positiva científica. Quando um determinado laboratório ou instituição, não apoiou 
um membro do partido ou chapa, muitas vezes é desencaixado ou excluso das 
atividades e do elemento que agora está no controle. Desta forma, este representante 
atual do poder público ou privado veta as verbas pertinentes. Por outro lado, libera 
verbas para vários setores que o apoiou, mesmo que estes setores desenvolvam 
trabalhos irrelevantes ao desenvolvimento científico e social. 
Este tipo de atitude mostra que a sociedade (que paga os impostos para ver 
e ter o desenvolvimento científico) fica desfalcada, enquanto que o “intelecto-
macaco-humano brinca de para quem vai o dinheiro”. 
No momento atual, lutamos pelo capital e suas virtudes, sendo assim, 
deflagramos guerras, revoltas e revoluções, simplesmente para ganharmos mais 
dinheiro, reivindicar direitos ou obter riquezas naturais (petróleo, madeira, etc.). 
Vivemos em um mundo capitalista! 
As estruturas governamentais e/ou particulares devem ver a ciência como 
apolítica e apóia-la, para que o nosso planeta, as instituições governamentais ou não 
e a sociedade como um todo, possam receber informações/ações benéficas ao 
processo evolutivo construtivo de um mundo melhor para todos. 
O indivíduo social (uma pessoa) não consegue separar o profissional do 
pessoal, além de que todos os campos científicos estão presos aos limites políticos. 
A dificuldade de se exercer tal função dentro das ciências, é que não há como se 
desvincular das relações pessoais entre o político e o representante do grupo 
científico (que acaba se transformando em político). Desta forma, um fica devendo 
favores ao outro ou sempre reivindicando algo. E como estes representam (direta ou 
 114 
indiretamente) a ciência, de imediato a ciência se torna política por imposição de 
favores prestados, pela labuta de conquistas de direitos e concessões, e/ou 
simplesmente por imposição governamental. Devemos nos lembrar que muitos 
projetos científicos necessitam de verbas públicas, privadas e ou privada/pública. 
Tais verbas, somente são concedidas dentro de uma análise sócio-política e com 
manobras políticas. Porém não devemos levantar bandeiras, mas sim, trabalhar para 
encontrar soluções e propiciar um equilíbrio social/ambiental responsável e justo. 
Desta forma, a ciência respaldará projetos administrativos sócios-políticos, 
sustentando as ações políticas e não o contraditório, como muito se apresenta 
atualmente. 
Não vos esqueceis de mais um obstáculo, este denominado de “ignorância 
religiosa”; cito apenas um exemplo: Existem escolas norte-americanas que não 
admitem a teoria evolucionista de Darwin, proibindo os professores de divulgar, 
comentar ou ensinar as descobertas científicas deste renomado intelectual. Não 
esqueçamos de Galileu Galilei e Nicolau Copérnico, que também foram severamente 
castigados por não acatar as palavras dos deuses papais e a divindade religiosa (a 
igreja). 
Este exemplo demonstra que muitos estudiosos teólogos e religiosos (não 
importa a qual religião pertença) ainda não estão preparados para a ciência, pois 
duas forças extrapolam a vontade pessoal e moral destas pessoas. Uma dessas forças 
seria a compenetração aos votos monásticos, que exerce uma relevante coação ao 
desempenho racional, gerando conflitos no âmago espiritual e imortal do homem. A 
segunda força, recai na maneira de expor um sentimento reprimido existente em 
alguns grupos de pessoas, que não suportam a idéia de que nossos ancestrais foram 
ou são primatas. Mais especificamente...macacos! Sendo assim, se eqüivalem do 
pressuposto de que nós, os seres mais perfeitos do universo fomos criados à imagem 
e semelhança de Deus. Espero que Deus não seja nem um pouco parecido com estes 
seres imaculados que deflagram guerrilhas, mentem, corrompem, vendem e 
compram seus semelhantes, roubam-lhes as idéias, humilham e matam as pessoas. 
 115 
Se assim for, então realmente estamos no patamar mais alto de toda a divindade 
espiritual desprovida de alma sã. Logo, estamos no inferno! E Gandi, mais que 
ninguém, conheceu e combateu a ignorância humana e suas “virtudes” regidas nos 
Séculos XIX e XX. Porém, jamais recebeu o realmente merecido “PREMIO 
NOBEL DA PAZ”. Pois este prêmio, somente foi oferecido aos pacificadores que 
empunhavam armas e conquistaram a paz com sangue, opressão e medo. 
Um cientista pode ter fé e crer em uma entidade divina, sem se 
comprometer com suas análises científicas. Porém, não há como ser cientista crendo 
em religião ou sendo fanático religioso e/ou acerbar crendices e instituições (time de 
futebol, partido político e outras inferências que surgirem em sua mente). A religião 
repele e isola um grupo de indivíduos, declina o cientificismo e a evolução positiva 
dassociedades. A crença e a fé em algo ou alguém propõe a união das pessoas e 
auxilia a concretizar ideais e coisas. 
Mas por quê algumas vezes no texto ora lido, aparece a palavra “evolução 
positiva/negativa”? 
Nitsche entende que não existe involução, como muitos falam e o 
dicionário descreve como: movimento regressivo, processo de regredir. Involução, 
para Nitsche significa: Não mutável, que não modifica, que não se transforma. E 
tudo na natureza se transforma para algo melhor ou pior83. E quando o dicionário se 
refere a palavra processo, conota-se a idéia de ação continuada. Assim sendo, pode-
se afirmar que evolução negativa refere-se a uma mudança inferior, ruim, 
inadequada e/ou regressiva (que pode ser bom ou não)84. 
 
83 Este termo é relativo, pois o que é pior para alguns/algumas espécies, pode ser bom ou 
melhor para outras. 
84 Para medicina: um carcinoma que regrediu ou se estabilizou (evoluiu negativamente, sendo 
bom para o paciente). Para a Geografia: Um solo rico que perdeu seus nutrientes graças as 
atividades sociais (é ruim para a agricultura). 
 116 
Voltando ao assunto especificado, faz-se necessário expor todos os 
relevantes conhecimentos adquiridos pelas pesquisas científicas, para que possamos 
evoluir positivamente e prosperamente, caminhando para o futuro e não mais para 
uma idade das trevas. 
Palavras de Morus85 (Utopia, p.13) “Não somos profetas para saber, antes 
de experimentar, se a legislação polilerita convém ou não ao nosso país. Todavia, 
parece-me que depois do pronunciamento da sentença de morte, o príncipe poderia 
decretar o sursis, a fim de experimentar este novo sistema de repressão, abolindo, 
ao mesmo tempo, os privilégios dos lugares de asilo. Se a experiência desses bons 
resultados, adotaríamos o sistema; se não, que os condenados continuem a ser 
levados ao suplício. Essa maneira de proceder apenas suspende o curso da justiça e 
não oferece nenhum perigo no intervalo. Irei mesmo além, creio que seria muito útil 
tomar medidas igualmente moderadas e sábias para reprimir e acabar com a 
vagabundagem. Temos acumulado leis sobre leis contra este flagelo e o mal é hoje 
pior do que nunca. Apenas terminara o cardeal, os louvores mais exagerados 
acolheram as opiniões expendidas por Sua Eminência, as quais não tinham 
encontrado senão desprezo e desdém quando sozinho as sustentara.”” 
 
85 São Tomás Morus, ex-lorde chanceler do Reino da Inglaterra, foi decapitado porque se 
opôs ao divórcio de Henrique VIII e não aceitou o ato pelo qual aquele monarca rompeu com 
o Papado. Essa obra descreve um Estado imaginário sem propriedade privada nem dinheiro, 
preocupado com a felicidade coletiva e a organização da produção, mas de fundamento 
religioso. Seu modelo é a República e As leis de Platão. Além de lançar as bases do 
socialismo econômico, Morus cunhou a palavra utopia, que significa literalmente o não-lugar 
de nenhum lugar. 
 
 
 117 
 
 
PALAVRAS FINAIS 
 
"A história da ciência é a história das substituições de 
paradigmas após uma situação de crise à qual pode se 
seguir uma revolução científica". 
(I. L. ARAÚJO) 
 
 
Temos que concordar! “A Geografia não está em crise...Os geógrafos 
estão!” Palavras de Milton Santos, transcrita na reportagem da Revista Scientific 
American, nº 4, ano 1. p. 24-26. Ed. Duetto. São Paulo, 2002. 
As palavras de uma aluna (do ensino fundamental) da cidade de Rio Claro 
no Estado de São Paulo, “Geografia é aquela matéria que só mostra coisas de ricos 
e pobres” (frase descrita na Revista Galileu, nº 134, ano 12. p. 86-87. Ed. Globo. 
São Paulo, 2002), demonstra bem esta sobreposição dos enfoques sociais e o 
desencaixe geográfico. 
A Geografia não é uma ciência restrita ao social, pois se assim fosse, se 
estabeleceria no campo da sociologia, e outras ciências sociais. A observação desta 
aluna do ensino fundamental esclarece muito bem o que se desenvolve em sala de 
aula durante a disciplina de Geografia. Os professores não têm muita culpa, pois 
suas praxes se voltam ao que foi aprendido nas academias. E os geógrafos que 
desenvolvem os livros didáticos ou apostilas, enfocam muitas vezes uma geografia 
fora de seu objeto de estudo. 
Além de realizar pesquisas voltadas à natureza, os geógrafos devem 
trabalhar para desenvolver projetos e propostas que auxiliem no desenvolvimento, 
crescimento e prosperidade de todas as camadas sociais, inclusive políticas e 
militares. Podendo ser estas globais (mundialmente falando) ou locais. Tendo 
 118 
sempre a visão de que estudamos os fenômenos físicos e humanos como uma 
relação mutualística estreita e indefinidamente fundamental e funcional, devendo ser 
analisadas cientificamente, comparando-as e correlacionando-as conjuntamente. Tal 
propriedade de análise impõe um estudo simultâneo das ocorrências físicas e sociais. 
Ou seja: Como a sociedade contribui para aquele fenômeno? E como este fenômeno 
interfere no meio social? Este tipo de enfoque somente é observado e analisado pela 
Geografia. Nenhuma outra ciência possui esta característica e/ou enfoque. 
Realizar um levantamento populacional e elaborar uma pirâmide de classes, 
não é de cunho geográfico. Porém, quando se faz tais procedimentos enfocando a 
sustentabilidade ecológica das duas naturezas, então este é um trabalho 
exclusivamente do geógrafo. 
Desde o surgimento do primeiro hominídeo na superfície terrestre, 
estabeleceu-se a relação individual e social deste ser com os demais componentes da 
natureza. E a ciência que melhor visualiza esta relação é a Geografia. Não a 
Geografia Humana e não a Geografia Física, mas a Geografia que estabelece a 
relação sociedade/natureza na íntegra. 
A Geografia é e sempre foi a Ciência das relações humanas com a natureza 
(relação do homem/sociedade onde ele(a) está). O que os geógrafos objetivam são as 
relações, fluxos, dinâmica desenvolvimentista, correlações e interações que se 
estabelece entre a sociedade humana e seus impactos (positivos e negativos) com a 
natureza e vice-versa. Logo, o espaço por si só, é irrelevante aos questionamentos 
geográficos. 
Este é o “Mundo Geográfico de Nitsche”, criado pela ciência e 
vivido/dividido pelos geógrafos, que são os habitantes deste ambiente controlado 
por eles mesmos. Um mundo repleto de vales encaixados na formulação do pensar, 
com uma rica hidrografia com redes de pensamentos mistos e relevo moldado na 
estruturação filosófica da ciência e aplicação de métodos. 
 
A Geografia deve conceber suas próprias teorias! 
 119 
 
E a você que chegou a ler até aqui, agora tem algo novo para analisar e 
discutir com seus colegas ou com sigo mesmo. Você pode até desenvolver uma 
atividade acadêmica, familiar ou social, criando um tribunal para julgar estas 
questões aqui postuladas. 
 Afinal...nós criamos espaços ou ambientes? 
Espero que este trabalho de meu irmão tenha alcançado seu 
objetivo de mostrar novas perspectivas aos questionamentos 
geográficos. Aproveito para agradecer aos nobres leitores por esta 
oportunidade de explanar tais pensamentos e por sua espontânea 
leitura deste memorial. 
 
 
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