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Livro do Professor Filosofia Volume 5 ©Editora Positivo Ltda., 2015 Presidente: Ruben Formighieri Diretor-Geral: Emerson Walter dos Santos Diretor Editorial: Joseph Razouk Junior Gerente Editorial: Júlio Röcker Neto Gerente de Arte e Iconografia: Cláudio Espósito Godoy Autoria: Alexandre Martins; reformulação dos originais de: Michele Czaikoski Silva Supervisão Editorial: Jeferson Freitas Edição de Conteúdo: Lysvania Villela Cordeiro (Coord.) e Michele Czaikoski Silva Edição de Texto: Kathia Gavinho Paris, Paulo Cezar Migliozzi Paiva e Chisato Watanabe Revisão: Willian Marques Supervisão de Arte: Elvira Fogaça Cilka Edição de Arte: Cassiano Darela Projeto Gráfico: YAN Comunicação Ícones: ©Shutterstock/Sashkin, ©Shutterstock/rangizzz, ©Shutterstock/ericlefrancais, ©Shutterstock/Georgejmclittle, ©Shutterstock/Blinka, ©Shutterstock/Goritza, ©Shutterstock/Popartic e ©Shutterstock/Lightspring Imagens de abertura: ©Shutterstock/Arthimedes e ©Shutterstock/Stokkete Editoração: Debora Cristina Vilar Scarante Ilustração: DKO Estúdio Pesquisa Iconográfica: Janine Perucci (Supervisão) e Juliana de Cássia Câmara Engenharia de Produto: Solange Szabelski Druszcz Produção Editora Positivo Ltda. Rua Major Heitor Guimarães, 174 – Seminário 80440-120 – Curitiba – PR Tel.: (0xx41) 3312-3500 Site: www.editorapositivo.com.br Impressão e acabamento Gráfica e Editora Posigraf Ltda. Rua Senador Accioly Filho, 431/500 – CIC 81310-000 – Curitiba – PR Tel.: (0xx41) 3212-5451 E-mail: posigraf@positivo.com.br 2018 Contato editora.spe@positivo.com.br Todos os direitos reservados à Editora Positivo Ltda. Dados Internacionais para Catalogação na Publicação (CIP) (Maria Teresa A. Gonzati / CRB 9-1584 / Curitiba, PR, Brasil) M386 Martins, Alexandre. Filosofia : ensino médio / Alexandre Martins ; reformulação dos originais de Michele Czaikoski Silva ; ilustrações DKO Estúdio. – Curitiba : Positivo, 2015. v. 5 : il. Sistema Positivo de Ensino ISBN 978-85-467-0213-8 (Livro do aluno) ISBN 978-85-467-0214-5 (Livro do professor) 1. Filosofia. 2. Ensino médio – Currículos. I. Silva, Michele Czaikoski. II. DKO Estúdio. III. Título. CDD 373.33 Ética: da Antiguidade à Modernidade ........ 4 Virtude, bem, justiça e autocontrole .............................................................. 8 Eudaimonia e mediania ................................................................................. 10 Autarquia e ataraxia ou apatia ....................................................................... 13 Prazer, aponia e ataraxia ................................................................................ 15 Vontade, livre-arbítrio e graça ....................................................................... 17 Beatitude ....................................................................................................... 20 Moral provisória ............................................................................................. 21 Conatus e paixões .......................................................................................... 23 Sentimento moral .......................................................................................... 25 05 Sumário Acesse o livro digital e conheça os objetos digitais e slides deste volume. Ponto de partida 05 1. Você age do mesmo jeito quando está sendo observado pelos outros e quando não está? 2. Em que situações, no seu dia a dia, você utiliza a palavra ética? 3. O que você entende por ética? 4. É necessário agir eticamente quando se está sozinho? Ética: da Antiguid ade à Modernidade 1 ©Shutterstock/Ollyy 4 A Ética é a área da Filosofia que se dedica aos aspectos relacionados à con- vivência humana, tais como os princípios, as normas, os conceitos e os valores que orientam as condutas das pessoas. Nesta unidade, você conhecerá as reflexões de diferentes filósofos sobre temas relacionados à Ética, desde a An- tiguidade até a Modernidade. A Ética é a área da Filosofia que se dedica aos aspectos relacionados à con- Nascemos indefesos e dependemos dos mais velhos para nos alimentar, vestir e proporcionar cuidados. No de- correr do tempo, adquirimos alguma independência. Po- rém, como seres sociais, todas as etapas de nossas vidas são marcadas pela interação com outras pessoas, que observam e julgam nossos atos. Algumas delas podem até mesmo nos corrigir quando agimos em desacordo com certas normas. Ao refletir sobre as relações que estabelecemos com os outros, ao longo de nossas vidas, deparamo-nos com os temas e os problemas abordados no campo da Ética. A palavra ética é derivada de dois termos gregos: éthos, que significa hábito, uso, costume; e êthos, que significa índole, caráter. No dia a dia, essa palavra é utilizada como um sinônimo para moral ou para a boa conduta de profis- sionais, políticos e cidadãos. Porém, no sentido filosófico, Ética designa a reflexão crítica e sistemática sobre os princípios que norteiam a moral humana. A própria moral é um objeto de estudo da Ética, porque se caracteriza como um sistema de conduta fundamentado em regras ou normas. Sendo assim, a Ética constitui uma área da Filosofia que investiga diversos temas ligados à vida social, entre os quais: as condutas dos indivíduos, suas finalidades e motivações; as normas que dirigem as ações humanas; o conceito de virtude, os valores e sua hierarquia; as diferentes compreensões dos conceitos de bem e justiça, além de suas conse- quências. Para entender a relação entre os temas da Ética e a convivência social, marcada pela presença do outro na vida de cada indivíduo, imagine-se em uma ilha deserta. Além de você, não há nenhuma outra pessoa nesse local. Sendo assim, reflita e responda às questões. Sozinho na ilha, você se perguntaria, antes de agir, se a atitude desejada seria certa ou errada, boa ou má, justa ou injusta? Por quê? Pessoal. O objetivo da questão é promover uma reflexão sobre a alteridade, ou seja, a percepção do outro como elemento-chave da ação ética. Sendo assim, inicie a atividade com a reflexão e o registro pessoal de uma resposta à questão. Em seguida, proponha uma troca de ideias a respeito dela, priorizando a argumentação para sustentar as diferentes opiniões apresentadas. Conceito Reflexão em ação G et ty Im ag es /W al la ce G ar ris on 5 Para ler e refletir Observe a imagem a seguir. Depois, reflita e responda à questão. Quando se sentem protegidas de olhares alheios, que poderiam julgar e disciplinar seus atos, algumas pessoas consideram-se livres para agir como desejam, ignorando elementos da Ética, tais como os conceitos de certo e errado, bem e mal, justiça e injustiça. Se pudesse ficar invisível, o fato de não ser visto por ninguém alteraria a forma como você age, tornando-lhe mais ou menos ético? Por quê? O tema dessa questão está presente em uma obra de Platão, denominada A República. Nela, Sócrates, mestre de Platão, aparece como personagem, afirmando que a justiça é um bem desejável em si mesmo, e não por favorecer a realização de outros interesses. Essa afirmação é rebatida pelo personagem Glauco, para quem não agimos somente de acordo com nossos interesses pessoais, indiferentes à possibilidade de prejudicar ou não outras pessoas, porque estamos cercados pela sociedade, por olhares que nos julgam e repreendem. Para explicar esse ponto de vista, Glau- co utiliza uma narrativa, a “alegoria do anel”, apresentada no texto a seguir. [...] Perceberíamos melhor que quem pratica a justiça só a pratica de má vontade, por incapacidade de cometer injustiça, se imaginássemos algo como isso... Deixaríamos que aos dois, ao justo e ao injusto, fosse permitido fazer o que quisessem; depois iríamos atrás deles observando para onde a paixão conduziria cada um. Em flagrante apanharíamos o homem justo a buscar o mesmo alvo que o injusto, por causa da ambição de possuir sempremais, ambição que toda natureza busca como um bem e da qual, à força, a lei a desvia para levá-la ao respeito da equidade. A permissão de que falo seria mais ou menos a que teriam, se tives- sem o poder que, segundo dizem, teve um dia Giges [...]. Ele era um pastor que servia o então governante da Lídia. Tendo havido grande chuva e terremoto, o solo rachou e formou-se uma grande fenda no local onde Giges pastoreava. Espantado com o espetáculo, desceu e viu, além de outras coisas espantosas [...], um cavalo de bronze que era oco e tinha pequenas portas. Espiando através delas, viu lá dentro um cadáver cujo tamanho, ao que parecia, era maior que o de um ser humano e estava nu, mas tinha na mão um anel de ouro. Ele pegou o anel e foi embora. Quando houve a assembleia habitual dos pastores para que dessem ao rei as notícias relativas ao rebanho, para lá foi ele com seu anel. Então, quando estava sentado junto com os outros, aconteceu que ele fez o engaste do anel girar, passando-o do lado de fora para a palma de sua mão. Feito isso, Giges ficou invisível para os que estavam ao seu lado e dele falavam como se não estivesse mais lá. Ficou espantado e, de novo, tocando o anel, girou o engaste para o lado de fora e, depois de girá -lo, tornou-se visível. Notando isso, tentou ver se era o anel que tinha esse poder, e o que lhe aconteceu 2 Orientação didática. equidade: reconhecimento da igualdade entre os direitos de cada um. Lídia: região da Grécia. engaste: peça de metal que mantém uma pedra fixa a uma joia. © Sh u tt er st oc k/ fiz ke s 6 Volume 5 foi que, se ele girava o engaste para a palma da mão, ficava invisível, se para o lado de fora, visível. Tendo percebido isso, imediatamente tratou de ser um dos mensageiros que iriam até o rei. Lá chegando, seduziu a mulher do rei e junto com ela atacou-o e, depois de matá-lo, assumiu o governo. Se, portanto, houvesse dois anéis como esse e um deles o homem justo colocasse em seu dedo, e o outro o injusto, não haveria ninguém tão pertinaz que perseverasse na justiça e tão resistente que se mantivesse longe dos bens alheios e neles não tocasse, estando livre para, sem nada temer, tomar o que quisesse no mercado, entrar nas casas e aí conviver com quem quisesse, matar e livrar dos grilhões quem quisesse e fazer tudo o mais, já que, entre os homens seria igual a um deus. Agindo assim, nada faria de diferente do outro, mas, ao contrário, ambos percorreriam o mesmo caminho. Ora, diria alguém, isso é indício de que ninguém é justo de bom grado, mas sob coerção, já que para ele pessoalmente isso não é um bem, já que cada um, quando crê que será capaz de cometer injustiça, comete. Todo homem crê, no que está certo, aliás, que para ele pessoalmente a injustiça traz mais vantagem que a justiça, como dirá quem defende essa posição. É que se alguém, de posse dessa permissão, não quisesse jamais cometer um ato injusto nem tocar nos bens alheios, os que disso se apercebessem o teriam como muito infeliz e insensato, mas o elogiariam diante dos outros, enganando-se mutuamente por medo de sofrer injustiça. É assim que isso acontece. 1. Escreva um texto argumentativo, posicionando-se criticamente em relação às seguintes ideias, apresentadas por Glauco no texto anterior: a) A natureza do homem o inclina a buscar o próprio interesse. b) Quando alguém pode cometer injustiças sem ser notado, ele as comete. c) Ninguém é justo por vontade própria, mas, sim, sob coerção. 2. Analise a charge. 3 Objetivo das questões e sugestões de respostas. Em forma de texto, apresente sua interpretação para a cena retratada na charge e relacione-a com a sua própria concepção de justiça. DAHMER, Andre. Malvados. Disponível em: <http://malvados.com.br/>. Acesso em: 10 jan. 2015. PLATÃO. A República. Tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 49-51. Reflexão em ação pertinaz: que demonstra muita persistência. A n d ré D ah m er Filosofia 7 Para ler e refletir Virtude, bem, justiça e autocontrole Sócrates viveu no século V a.C. De acordo com os registros de Platão e de outros contemporâneos, ele dedicou particular atenção às questões éticas. Julgava que o ser humano era dotado de uma natureza racional e, portanto, voltada para o bem. Assim, afirmava que ele deveria agir conforme suas capacidades essenciais, as quais denominava virtudes. Sócrates tentava compreender a essência do bem e das virtudes – como justiça, coragem, prudência, tem- perança e outras. Acreditava, por exemplo, que, para sermos justos, precisamos compreender a ideia de justiça, e para sermos bons, precisamos compreender a ideia de bem. Platão, que foi discípulo de Sócrates, seguiu essa mesma linha de pensamento: De acordo com a valorização socrática da razão, Platão dividia a alma humana em três partes: concupiscível – responsável pelos desejos do corpo, visando à nutrição dele; irascível – responsável pelas habilidades de defesa para a autoconservação humana; racional – considerada superior às outras duas partes e responsável pelo controle das atividades de ambas. Segundo Platão, a alma racional apresentava quatro capacidades que receberam a designação de virtudes cardeais. São elas: a temperança, a prudência, a justiça e a coragem (ou fortaleza). Além disso, ele acreditava que se as pessoas não submetessem seus próprios desejos e emoções – também chamados de paixões ou apetites – ao controle da razão, ficariam perdidas, como um barco à deriva em plena tempestade. Sendo assim, caberia ao filósofo despertá-las das ilusões e dos excessos gerados pelos sentidos e conduzi-las às certezas inteligíveis, ao conhecimento das virtudes e ao autocontrole, alcançados por meio da razão. 4 Encaminhamento metodológico. O texto a seguir, escrito por Platão, fala sobre a justiça, considerada uma das principais virtudes no pensamento socrático-platônico. Trata-se de um diálogo entre os personagens Sócrates e Polo, em que o primeiro tenta convencer o segundo de que praticar uma injustiça e não pagar por isso é o maior dos males. Quem não for capaz de definir com palavras a ideia de bem, separando-a de todas as outras, e, como se estivesse numa batalha, exaurindo todas as refutações, esforçando-se por dar provas, não através do que parece, mas do que é, avançar através de todas estas objeções com um raciocínio infalível, não dirás que uma pessoa nestas condições conhece o bem em si, nem qualquer outro bem... PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 8. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 348. D KO E st ú d io . 2 01 5. D ig ita l. 8 Volume 5 PERUGINO, Pietro Vannucci. Prudência e Justiça com seis sábios antigos. 1497. 1 afresco, color., 293 cm × 418 cm. Collegio Del Cambio, Perugia. Sócrates é o segundo sábio (da esquerda para a direita) retratado nessa obra. Acima, estão as imagens personificadas da prudência e da justiça, virtudes que ele defendeu com veemência. Durante séculos, Sócrates foi retratado em inúmeras obras, sobre seu julgamento e sua morte. Nesse episódio, ele levou às últimas consequências suas teses sobre a justiça: ela é um bem desejável em si mesmo; é preferível sofrer uma injustiça a praticá-la. Afinal, optou pela condenação não merecida para não agir contra a Filosofia, entendida por ele como a busca do bem e da verdade. S – Porque o maior dos males consiste em praticar uma injustiça. P – Esse é o maior? Não é o maior sofrer uma injustiça? S – Absolutamente não. P – Preferirias então sofrer uma injustiça a praticá-la? S – Não preferiria uma coisa nem outra; mas se fosse inevitável sofrer ou praticar uma injustiça, preferi- ria sofrê-la. [...] Considerando-se dois doentes, seja do corpo ou da alma, qual o mais infeliz: o que se trata e obtém a cura, ou aquele que não se trata e permanece doente? P – Evidentemente, aquele que não se trata. S – Cometer uma injustiçaé então o segundo dos males, sendo o primeiro, e maior, não pagar pelos crimes cometidos. P – Sim, ao que parece. S – Mas, meu amigo, não era disso que discordávamos? [...] Será sempre mais infeliz o autor da injustiça do que a vítima, e mais ainda aquele que permanece impune e não paga por seus crimes. Não era isso que eu dizia? P – Sim. S – [...] Bater-me e ferir a mim e aos meus, escravizar-me, assaltar a minha casa, ou, em suma, causar a mim e aos meus algum dano é pior e mais desonroso para quem o faz do que para mim, que sofro esses males. Discuta as questões a seguir, relacionadas aos pensamentos de Sócrates e Platão. Depois, registre as conclusões a que você chegou, justificando-as. 1. Conhecer racionalmente o bem é suficiente para agir de acordo com ele? 2. Até que ponto a razão e o conhecimento interferem na forma como agimos? 3. Cometer uma injustiça corresponde a um mal maior do que sofrê-la? 4. O maior dos males é praticar uma injustiça e não ser punido por isso? Sugestão de atividade para aprofundar o conhecimento: questão 1 da seção Hora de estudo. 5 Sugestões de respostas. C ol le g io D el C am b io /F ot óg ra fo d es co n h ec id o Diálogos extraídos de: MARCONDES, Danilo. Textos básicos de Ética: de Platão a Foucault. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 22-23. Troca de ideias Filosofia 9 Eudaimonia e mediania De modo diferente da concepção ética socrático-platônica, Aristóteles não julgava que conhecer o bem fosse su- ficiente para praticá-lo. Considerava a visão platônica da virtude excessivamente teórica e abstrata. Numa nova pers- pectiva, defendia a possibilidade de adquiri-la por meio do hábito, ou seja, da prática repetida e constante de ações virtuosas. Mas como saber que atitudes seriam essas, a fim de habituar-se a praticá-las? Mundo do trabalho As normas sociais vivenciadas no dia a dia baseiam-se em princípios éticos e constituem a moral de uma sociedade. Muitas delas fundamentam as normas jurídicas, ou seja, as leis. Portanto, em certa medida, viver eti- camente é também viver de acordo com as leis. Além disso, atos que ferem os princípios éticos e legais podem acarretar punições estabelecidas por profissionais e instituições que representam a Justiça. As leis fazem parte do Direito, campo de atuação de diferentes profissionais e, entre eles, o advogado. Trata- -se de um ofício que visa garantir a correta aplicação das normas jurídicas, tendo em vista o bom funcionamento social sob a ótica da Justiça. Esse profissional pode se especializar e atuar em diferentes áreas do Direito: adminis- trativa, civil, comercial, criminal, trabalhista, tributária, entre outras. 6 Encaminhamento metodológico. 7 Orientação didática. Reflexão em ação NATTIER, Jean-Marc. Alegoria da justiça combatendo a injustiça. 1737. 1 óleo sobre tela, color., 138 cm × 105 cm. Coleção particular, França. Nessa pintura, a justiça combate a injustiça, demonstrando superioridade sobre ela. Para a filosofia socrático- -platônica, cometer uma injustiça era um mal, e um mal ainda maior era não receber punição por isso. C ol eç ão p ar tic u la r/ Fo tó g ra fo d es co n h ec id o Elabore um cartaz com imagens e nomes de personalidades, de diferentes épocas e lugares, cujas ações demons- trem, respectivamente, acordo e desacordo com o pensamento socrático-platônico sobre a justiça. 10 Volume 5 Para ler e refletir Leia o texto a seguir, que esclarece os principais aspectos da Ética aristotélica. E o homem? Que conduta deve adotar, uma vez que vive no mundo sublunar, marcado pela imperfeição e pela violência? Para Aristóteles, a causa final do homem, seu objetivo supremo, é a felicidade. Ela não é um forte prazer que se esvai logo em seguida; ao contrário, deve ser algo perene e tranquilo, sem excessos, pois o excesso faz com que uma boa ação torne-se o oposto. Uma pessoa amável em demasia, por exemplo, não passa de um incômodo bajulador. Atingir a felicidade depende de uma conduta moral moderada, sem excesso, baseada no “meio-termo” (equivalente à justa medida dos pitagóricos). Tal conduta deve ser forjada pelo hábito, de modo análogo ao atleta que se forma por repetidos exercícios. Habituar-se a uma boa conduta é ter bons costumes, e isso vale muito mais do que praticar uma série de boas ações isoladas. Tal hábito é adquirido, sobretudo, pelo exercício do intelecto que, no campo moral, aspira ao que é razoável. A felicidade, em suma, obtém-se por meio da vida contemplativa, uma vida intelectual sossegada, longe das perturbações do cotidiano. ABRÃO, Bernadete Siqueira. História da Filosofia. São Paulo: Abril, 2004. p. 63. (Os pensadores). VERMEER, Johannes. Mulher segurando uma balança. 1665. 1 óleo sobre tela, color., 42 cm × 35,5 cm. Galeria Nacional de Arte, Washington (D.C.). Na imagem, uma mulher segura uma balança, representando o equilíbrio, ideia fundamental para a Ética aristotélica, a qual se baseava na noção de mediania, também conhecida como justo meio ou justa medida. A resposta de Aristóteles apontava para a virtude como o meio-termo entre duas atitudes extremas, as quais se caracterizariam como vícios por excesso ou deficiência (falta). Esse meio-termo, também conhecido como mediania, justo meio ou justa medida, correspondia a um modo de agir marcado pelo equilíbrio e pela moderação. Ao apresentar a mediania como virtude e submetê-la ao há- bito, Aristóteles não apenas abordou de um modo mais prático a questão do controle das paixões pela razão, como ainda destacou a possibilidade de aperfeiçoamento do caráter, a fim de conduzir o ser humano ao seu objetivo mais importante: a felicidade. Ainda assim, ele também associou a virtude e a conduta ética à natureza ou essência humana, caracterizada pela racionalida- de. Nesse sentido, a ética aristotélica é eudaimonista (ou eude- monista), ou seja, marcada pelos fins, que devem ser alcançados para que o ser humano atinja a eudaimonia (felicidade). Aristóteles utilizava a expressão eudaimonia, que foi traduzi-da como felicidade. Ele representava essa felicidade como a realização das potencialidades da vida racional, uma vez que entendia a razão como a própria essência humana. Logo, apenas os seres humanos poderiam ser felizes, porque a feli-cidade dependia da alma racional, exclusivamente humana. mundo sublunar: o mundo em que nos encontramos e que difere do supralunar, onde se encontram os astros. causa final: finalidade, objetivo pelo qual algo existe. pitagóricos: grupo de filósofos pré-socráticos, seguidores das ideias de Pitágoras, que valorizavam o conhecimento dos números e das proporções matemáticas, bem como a disciplina em relação à vida cotidiana. © W ik im ed ia C om m on s/ N at io n al G al le ry o f A rt Filosofia 11 RATTNER, Rachael. Pathological Internet use may cause teen depression. 2010. Tradução livre. Disponível em: <http://www.livescience. com/6828-pathological-internet-teen-depression.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+Lives- ciencecom+%28LiveScience.com+Science+Headline+Feed%29&utm_content=Google+Reade>. Acesso em: 18 jan. 2015. RATTNER R h l P h l l I d 2010 T d l D l h // l Além dos vários perigos que a internet já oferece aos usuários, cientistas descobriram mais um: o uso excessivo da internet pode causar depressão em adolescentes. Os resultados da pesquisa feita na China mostram que jovens que navegam excessivamente na internet têm 2,5 vezes a mais de chances de se tornar depressivos em comparação aos que utilizam a rede, mas com moderação. Apesar da descoberta, os cientistas apontam que a ligação entre o uso intensivo da internet e a depressão pode não ser tão simples e direta assim. O uso desregulado da rede mundial de computadores pode desenvolver comportamentos patológicos, o que, por sua vez, periga virar depressão. http://www.livescience.com/6828-pathological-internet-teen-depression.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+Livesciencecom+%28LiveScience.com+Science+Headline+Feed%29&utm_content=Google+ReadeSugestão de atividade para aprofundar o conhecimento: questão 2 da seção Hora de estudo. a) O que leva grande parte dos adolescentes da atualidade a usarem a internet de um modo excessivo? b) Levando em consideração o conteúdo da notícia, seria possível aplicar o justo meio aristotélico em relação ao uso da internet? De que maneira? Pessoal, com base em um debate. 1. Leia este texto e responda à questão. Está, pois, suficientemente esclarecido que a virtude moral é um meio-termo, e em que sentido devemos entender esta expressão; e que é um meio-termo entre dois vícios, um dos quais envolve excesso e o outro deficiência, e isso porque a sua natureza é visar à mediania nas paixões e nos atos. Do que acabamos de dizer, segue-se que não é fácil ser bom, pois em todas as coisas é difícil encontrar o meio-termo. [...] Por isso a bondade tanto é rara como nobre e louvável. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Nova Cultural, 1987. p. 37. Livro II. (Os pensadores). Considerando o texto, aplique a noção aristotélica de meio-termo, ou mediania, e escreva os vícios corresponden- tes às virtudes éticas listadas pelo filósofo e apresentadas no quadro a seguir. Para realizar a atividade, utilize a sua própria compreensão do significado de cada virtude e, em caso de dúvida, consulte o dicionário. Virtude Vício por excesso Vício por deficiência Coragem Pessoal Pessoal Temperança Pessoal Pessoal Liberdade Pessoal Pessoal Magnanimidade (ou justo orgulho) Pessoal Pessoal Calma (ou mansidão) Pessoal Pessoal Veracidade (ou franqueza) Pessoal Pessoal Justiça Pessoal Pessoal 2. Leia a notícia e responda às questões a seguir. 8 Encaminhamento metodológico. Reflexão em ação Pessoal, com base em um debate. 12 Volume 5 Levando uma vida simples, Diógenes e os demais cínicos buscavam estar em harmonia com a natureza e os instintos humanos, livres das convenções e das instituições sociais. A virtude que eles almejavam era identificada como autarquia, que significa comando de si mesmo. Para chegar a ela, julgavam necessário conquistar a apatia, deixando de atormentar-se com as doenças, a morte, o próprio sofrimento ou o dos outros. Durante a ascensão do Império Romano, o cinismo foi difundido em novos territórios, tornando-se comum a presença de filósofos cínicos em cidades dominadas por Roma. Autarquia e ataraxia ou apatia Entre os séculos V e IV a.C., um filósofo grego chamado de Antístenes desen- volveu reflexões éticas de grande repercussão na Antiguidade. Propondo um novo modelo de atitudes para a vida prática, ele fundou uma corrente de pen- samento que ficou conhecida pelo nome de cinismo. A tese fundamental dessa corrente era a afirmação de que o único alvo humano seria a felicidade decor- rente da virtude. Segundo os cínicos, fora da virtude não existiria o bem. Por isso, eles desprezavam comodidades, riquezas, prazeres e as convenções huma- nas, acreditando que isso tudo afastava o ser humano de sua condição natural. O mais famoso representante do pensamento cínico, na Grécia, foi Diógenes. Conta-se que ele vivia nas ruas, e que sua casa era um barril. Conta-se, ainda, que certa vez ele encontrou Alexandre, o Grande, que indagou o que poderia fazer por ele. A resposta de Diógenes teria sido que o conquistador não poderia lhe dar o que não possuía, querendo dizer com isso que desejava apenas usufruir do Sol, encoberto pela figura do guerreiro à sua frente. A lenda prossegue e diz que, tempos depois, ao perguntarem quem Alexandre gostaria de ser, ele respondeu convicto: Diógenes. © W ik im ed ia C om m on s/ G ra fis ch e Sa m m lu n g A lb er tin a/ Ze n o. or g CORINTH, Lovis. Alexandre e Diógenes. 1894. 1 grafite sobre papel, 34,8 cm × 42,3 cm. Graphische Sammlung Albertina, Viena. Essa imagem representa o encontro do líder do Império Macedônico, Alexandre, o Grande, com Diógenes, que teria impressionado o conquistador com sua maneira despojada de encarar a vida. 9 Orientação didática. É possível que o termo cinismo derive do nome do ginásio em que Antístenes lecionava, o Cinesargo, ou, então, do ter- mo grego para nomear os cães, kynon, pois muitos consideraram o ideal de vida simples dos cínicos semelhante à vida levada por esses animais. A autarquia (do grego autárkeia) corresponde à autossuficiência do indivíduo que p ercebe dispor de tudo o que necessita para viv er, sem depender de bens materiais ou do reco nheci- mento social. Condição do sábio que en tende a felicidade como consequência da virtud e e não de riquezas, honras ou prazeres. A apatia (do grego apátheia) corresponde ao es- tado imperturbável, de quem não se deix a afetar emocionalmente pelas circunstâncias à su a volta. convenção: procedimento estabelecido e transmitido por meio de acordo recíproco ou de aceitação tácita da parte dos envolvidos. Filosofia 13 Outra escola filosófica que se destacou na Grécia, por volta do século III a.C., foi o estoicismo. Seus membros eram conhecidos como “estoicos”, designação que deriva da palavra grega stoa, cujo significado é pórtico ou, ainda, portal. Fundada por Zenão, de Cítio, que, pela condição de estrangeiro, não podia adquirir imóveis em Atenas, essa escola reunia seus discípulos sob um pórtico dessa cidade. Os estoicos entendiam a Filosofia como vida contemplativa, distante da in- fluência das paixões, pautada pela ataraxia e pela autarquia. Acreditavam que uma pessoa era um microcosmo, ou seja, uma espécie de mundo em miniatura, que refletia o mundo maior – chamado de macrocosmo – e sua ordem necessá- ria, garantida por uma razão divina. Segundo essa visão, processos como a enfermidade e a morte seriam igualmente regidos pelas leis da natureza. Portanto, o ser humano deveria aprender a aceitar o seu destino. Além disso, os estoicos viam, na razão humana, a capacidade de forne- cer normas de ação infalíveis, que constituiriam o direito natural. Este, por sua vez, deveria ser respeitado em relação a todos os seres humanos, inclusive às pessoas escravizadas e aos estrangeiros. Afinal, os estoicos defendiam o cosmopolitismo, ou seja, o reconhecimento universal do outro pela sua humanidade, e não pelo seu pertencimento a este ou àquele povo, a esta ou àquela cidade, como ocorria na Grécia. Dessa maneira, acolhiam homens e mulheres, ricos e pobres, escravizados e livres, cidadãos gregos e estrangeiros. Vale destacar o desenvolvimento do estoicismo também entre os romanos, que legaram à posteridade importantes obras sobre moral e outros temas filosóficos. 1. Leia, a seguir, o trecho de uma música do segmento chamado “funk ostentação”. 10 Sugestões de respostas. Ostentação, palavra que eu gosto de ouvir [...] Gosto de gastar, isso não é novidade Hoje eu já torrei mais de 10 mil com a minha vaidade [...] POCAHONTAS, Mc. Mulher do poder. Disponível em: <http://letras.mus.br/mc- pocahontas/mulher-do-poder/>. Acesso em: 20 jan. 2015. Sugestão de atividade para aprofundar o conhecimento: questão 3 da seção Hora de estudo. Em forma de texto, estabeleça distinções entre a ideia de felicidade implícita nos versos da música e aquela que os cínicos e os estoicos buscavam. 2. Você concorda com a ideia de que a felicidade consiste na autarquia e na ataraxia, conquistadas por meio do despren- dimento dos bens materiais, das convenções e das instituições sociais? Justifique. A ataraxia ou apatia (do grego ataraxía ou apátheia) corresponde ao estado da pessoa constante- mente imperturbável diante das emoções. Uma condição de tranqui- lidade, na qual, independentemente dos fatos, o indivíduo permanece inabalável, sem se deixar arrastar por alegrias e prazeres, nem por do- res e tristezas. Era considerada uma conquista possível e equivalente à própria felicidade humana. Zenão. Cópia augusta de uma estátua grega do século III a.C. Museu Arqueológico Nacional de Nápoles, Itália. Zenão de Cítio é considerado o fundadordo estoicismo, que se fundamentava em uma vida simples, contemplativa, livre das paixões e apegos mundanos. Reflexão em ação © W ik im ed ia C om m on s/ Sa ilk o 14 Volume 5 Prazer, aponia e ataraxia Os epicuristas (ou epicureus) eram também chamados de “filósofos do jardim” em razão da existência de um jardim em torno do prédio da escola filosófica fundada em Atenas no século IV a.C., por Epicuro, que viera da cidade de Samos. Enquanto cínicos e estoicos defendiam a possibilidade de suportar a dor e o sofrimento, os epicuristas procuravam um caminho para evitá-los, tanto quanto possível. CARDOSO, Nelson. A gula. 2012. 1 óleo sobre tela, color. Coleção particular. A imagem representa a gula, excesso na fruição dos prazeres gerados pelo paladar. Associa o instinto humano ao animal, colocando-os lado a lado. No entanto, para Epicuro, antes de entregar-se aos desejos e aos prazeres, as pessoas deveriam refletir sobre as consequências de suas atitudes, julgando-as convenientes ou não. 11 Orientação didática. Epicuro defendeu a busca do prazer num contexto de doutrinas filosófi- cas voltadas à procura da felicidade, compreendida como realização racional. Foi acusado de hedonismo (valorização do prazer individual imediato acima de tudo). Porém, não pregava a entrega sem limites ao prazer, mas a ponde- ração das consequências antes de agir, para evitar causar dores a si mesmo e aos outros. Segundo ele, o prazer consistia na ausência de dores físicas e de inquietações emocionais, sendo, portanto, acessível a qualquer pessoa, inde- pendentemente da sua condição social. © W ik im ed ia C om m on s/ M ag n u s M an sk e Os epicuristas enfatizavam o aspecto material da natureza humana, a ponto de julgarem as sensações de prazer e dor como critérios confiáveis para distinguir o verdadeiro do falso e o bom do mau. Defendiam, portanto, que o maior bem a ser buscado pelo ser humano era o prazer. Além disso, afirmavam que, antes de optar por uma ação, era preciso ponderar racionalmente as dores ou os prazeres decor- rentes dela, bem como sua intensidade, duração e possíveis efeitos colaterais. Afinal, as pessoas deveriam escolher sempre os prazeres mais duradouros e que não trouxessem consequências dolorosas no futuro. Na visão dos epicuristas, o prazer estava longe dos excessos a que, muitas vezes, as pessoas se entregam. Consistia na ausência de dores no corpo (aponia) e de perturbações na alma (ataraxia). Além disso, eles defendiam uma autar- quia radical, acreditando que o indivíduo se bastava a si mesmo, não necessitando sequer da cidade ou dos deuses para se sentir bem. Entretanto, consideravam a amizade desinteressada como algo muito valioso. Assim como os estoicos, eles eram cosmopolitas, aceitando de bom grado no jardim a presença de mulheres, estrangeiros, pessoas escravizadas ou não pertencentes à aristocracia grega. Epicuro. Escultura romana. Século II. Museu Britânico, Londres. © N el so n C ar d os o Filosofia 15 ponderado: examinado atentamente, medido, pesado. coroa: unidade monetária da Noruega (país do autor). Para ler e refletir O texto a seguir exemplifica a visão epicurista a respeito do prazer e do critério para alcançá-lo, isto é, a avaliação das consequências que ele pode trazer ao indivíduo e às demais pessoas. Epicuro ensinava que o resultado prazeroso de uma ação sempre deve ser ponderado em relação a seus eventuais efeitos colaterais. Se você já comeu chocolate demais, então você entende o que digo. Se não, vou lhe propor uma tarefa: pegue todas as suas economias e gaste cem coroas em chocolate. (Estou partindo do pressuposto de que você gosta de chocolate.) O importante nesta tarefa é que você coma todo o chocolate de uma só vez. Mais ou menos meia hora depois de ter comido todo esse delicioso chocolate você vai entender o que Epicuro queria dizer quando falava em “efeitos colaterais”. GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da História da Filosofia. Tradução de João Azenha Jr. 9. reimpr. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 150. Com base na leitura do texto, reflita e discuta com seus colegas sobre as questões a seguir. Lembrem-se de justificar suas opiniões. a) Conhecer os efeitos secundários negativos da satisfação de um prazer é o suficiente para se renunciar a ele? b) Todos os prazeres humanos têm efeitos secundários negativos? 12 Orientação didática. 13 Sugestões de respostas. 1. Tomando como referência o exemplo do chocolate, presente no texto anterior, explique como um cínico ou um estoico agiria diante da vontade de comê-lo desregradamente. Justifique sua opinião. 2. Cite um exemplo de uma ação que seria condizente com a ética epicurista. Em seguida, justifique sua escolha, expli- cando a relação entre esse exemplo e o epicurismo. O período alexandrino foi marcado pela conquista de cidades gregas, além do Eg ito e da Pérsia, pelo Império Macedônico, s ob o comando de Alexandre, o Grande, por volta do século IV a.C. Nesse mome nto político tão conturbado, a Ética deixou de enfatizar a vida coletiva na pólis, como era comum na Grécia, para priorizar a interio ri- dade do indivíduo. O epicurismo tinha em comum com outras correntes filosóficas do período alexandrino a preocupação em subordinar a investigação filosófica à exigência de garantir a tranquilidade do indivíduo. Para tanto, fundava-se em três princípios. Sensacionismo: a sensação é o critério da verdade e do bem, sendo este último identificado com o prazer. Atomismo: a formação e a transformação das coisas ocorrem por meio da união e da separação dos átomos. As sensações decorrem da ação dos átomos das coisas sobre os átomos da alma do indivíduo. Semiateísmo: aceitação da crença nos deuses, porém considerando que eles não interferem na formação e no governo do mundo. Atividades 16 Volume 5l teólogos: a palavra teologia significa o estudo (logos) de Deus (theos). Portanto, teólogos são aqueles que desenvolvem um estudo sistemático acerca da divindade. Sagradas Escrituras: a Bíblia cristã, composta de diversos livros, divididos em dois grupos: o Antigo Testamento, anterior a Jesus Cristo, e o Novo Testamento, escrito pelos discípulos dele. Contexto Vontade, livre-arbítrio e graça Durante a Idade Média, a Filosofia recebeu de pensadores cristãos contri- buições que tiveram grande repercussão no campo da Ética. Esse processo co- meçou com os primeiros padres da Igreja, por isso, o período inicial do novo pensamento foi chamado de Patrística. Nesse grupo de pensadores, destacou- -se Agostinho de Hipona, que recebeu influências greco-romanas, em especial do neoplatonismo e do estoicismo. Além disso, na juventude, ele seguiu uma doutrina persa denominada maniqueísmo. Porém, uma vez convertido ao cris- tianismo, dedicou-se à construção de uma Filosofia cristã. neoplatonismo: conjunto de doutrinas e escolas de inspiração platônica que se de - senvolveram entre os séculos III a.C. e III d.C ., com grande influência até o século VI. maniqueísmo: doutrina fundada pelo profeta persa Mani, no século III, segund o a qual existiriam no Universo duas força s ou substâncias primordiais: o bem e o ma l. O problema do mal Uma vez convertido ao cristianismo, Agostinho adotou a concepção de Deus como ser perfeito, sumamente bom e criador de todas as coisas. No entanto, ele se defrontou com um problema: se Deus, que é perfeito, criou todas as coisas, como justificar a existência do mal? Procure explicar, com base no seu entendimento de mundo, qual a origem do mal. Para Agostinho, a criação do mal era incompatível com a bondade e a perfeição do Deus cristão. Assim, o pensador buscou a sua origem na ação humana, concluindo que o mal não era uma substância existente (como pensavam os maniqueus), mas uma manifestação de carência e desvio em relação ao bem. Para explicar a possibilidade desse desvio, o filósofo recorreu ao conceitode vontade, elemento que, assim como a razão, ele entendia como parte da essência humana. Apresentou a razão como a faculdade de conhecer, e a vontade como a faculdade de escolher. Agostinho destacou, ainda, o conceito de livre-arbítrio, entendido como a liberdade de escolha dada por Deus aos seres humanos para que pudessem direcionar a vontade à busca dos bens mais importantes. No entanto, o uso incorreto do livre-arbítrio, desviando-se dos bens espirituais em favor dos bens materiais, seria a causa do mal moral, ou seja, do pecado humano. Para compreender a possibilidade do mal moral no pensamento agostiniano, é preciso considerar sua crença na existência de inúmeras manifestações do bem, de diferentes graus, uma vez que ele entendia a criação como obra de amor de um Deus perfeito. Nessa visão, o pecado seria justamente o uso inadequado do livre-arbítrio, o desvio da vontade, ou seja, um ato de soberba da criatura que se afastaria de forma voluntária do Criador, optando pelos bens da vida material, inferiores aos bens espirituais. Debater a questão, garantindo respeito a todas as opiniões, que devem ser argumentadas. A partir do século IV d.C., o Império Romano adotou o cristianismo como religião oficial em seus domínios, o que impulsionou a formação de um pensamento filosófico em consonância com a nova religião. Ampliou-se, assim, o es- forço dos teólogos da Igreja para adaptar as teorias gregas, principalmente as de Platão e Aristóteles, aos ensinamentos das Sagradas Escrituras, apesar de existirem contradições entre esses conteúdos. Portanto, conceitos centrais para as diferentes áreas da reflexão filosófica, inclusive a Ética, foram reinterpretados. O bem, por exemplo, encontrou em Deus a sua personificação, de modo que a ação moral se tornou o meio para a união do ser humano com ele. Nesse contexto, verificou-se uma grande aproximação entre reflexões éticas e teológicas. Filosofia 17 Para ler e refletir Segundo Agostinho, males físicos, como as doenças e a morte, eram efeitos do pecado original, representado pela soberba de Adão e Eva, por meio da qual a alma pecadora corrompera a carne. Depois desse delito, o ser humano pas- sou a necessitar da graça divina para se redimir. Contudo, em um segundo ato de amor, Deus lhe concederia a graça, como meio de proporcionar-lhe a salvação, libertando-o da escravidão das paixões e direcionando seu livre-arbítrio ao verdadeiro bem, para o qual ele fora criado. Assim, o indivíduo se tornaria incapaz de fazer o mal. Logo, segundo Agostinho, a liberdade humana consistia na aceitação da graça, para o correto direcionamento do livre-arbítrio. Após converter-se ao cristianismo, Agostinho abdicou da visão maniqueísta do mal como uma substância, passando a vê-lo como carência e desvio em relação ao bem. Atualmente, o adjetivo maniqueísta continua sendo utilizado para se referir a uma visão dualista do mundo. Agostinho refletiu sobre uma espécie de “doença da alma”, que provocava uma divisão da vontade, fazendo com que, mesmo sendo iluminada pela verdade, ela padecesse por causa dos vícios e dos hábitos que resultariam em erros e maldades. Ele também afirmou que a vontade é livre, por sermos dotados de livre-arbítrio. Essas são as temáticas dos textos a seguir, extraídos de suas obras. A vontade em guerra [...] Donde provém esse prodígio? Qual a causa? A alma manda ao corpo, e este imediatamente lhe obede- ce; a alma dá uma ordem a si mesma, e resiste! Ordena a alma à mão que se mova, e é tão grande a facilidade, que o mandado mal se distingue da execução. E a alma é alma, e a mão é corpo! A alma ordena que a alma queira; e, sendo a mesma alma, não obedece. [...] Mas não quer totalmente, portanto, também não ordena terminantemente. Manda na proporção do querer. Não se executa o que ela ordena enquanto ela não quiser, porque a vontade é que manda que seja vontade. Não é outra alma, mas é ela própria. Se não ordena plenamente, logo não é o que manda, pois, se a vontade fosse plena, não ordenaria que fosse vontade, porque já o era. Portanto, não é prodígio nenhum em parte que- rer e em parte não querer, mas doença da alma. Com efeito, está sobrecarregada pelo hábito, não se levanta totalmente, apesar de socorrida pela verdade. [...] SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 2004. Livros VII e VIII. p. 217. (Os pensadores). Livre-arbítrio [...] Se é verdade que o homem em si é bom, mas não poderia agir bem exceto por querer, seria preciso que tivesse vontade livre para que pudesse agir desse modo. De fato, não é porque o homem pode usar a vontade livre para pecar que se deve supor que Deus a concedeu para isso. Há, portanto, uma razão pela qual Deus deu ao homem esta carac- terística, pois, sem ela, não poderia viver e agir corretamente. Pode-se compreender, então, que ela foi concedida ao homem para esse fim, con- siderando-se que, se um homem a usar para pecar, recairão sobre ele as punições divinas. [...] Quando Deus pune o pecador não te parece que lhe diz o seguinte: “Estou te punindo porque não usaste de teu livre-arbítrio para fazer aqui- lo para o que eu o concedi a ti”? Ou seja, para agires corretamente. SANTO AGOSTINHO. De libero arbitrio. In: MARCONDES, Danilo. Textos básicos de Ética: de Platão a Foucault. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. p. 53. © W ik im ed ia C om m on s/ M u se u F itz w ill ia m MARTINI, Simone. Santo Agostinho. [ca. 1320- -1325]. 1 têmpera sobre madeira, color., 59 cm × 35 cm. Museu Fitzwilliam, Cambridge. Detalhe. 18 Volume 5 ConexõesConexões Leia a reportagem a seguir e responda às questões propostas. Sergio Cezar faz versões em miniatura de favelas brasileiras de papelão e materiais reciclados O “Gigante do Papelão” é assim: está sempre criando, montando, construindo. Nunca para. De suas mãos nascem favelas, casarões coloniais, bairros e cidades. Tudo em miniatura, de papelão e material reciclado. Seu poder de provocar mudanças em tudo o que vê chega até as favelas cariocas, onde ele tem o dom de transfor- mar os participantes de suas oficinas, ministradas gratuitamente. Um deles é Robson Alves de Sousa, um ex-detento que se reintegrou à sociedade graças ao trabalho com papelão e hoje é seu assistente. No momento, Robinho está dirigindo oficinas nas favelas da Maré, Dona Marta e Nova Holanda. “Nosso trabalho é feito com o reaproveitamento do lixo”, explica o “Gigante do Papelão”. Este exercício de criação, garante, contribui para que os participantes recuperem a autoestima e comecem eles pró- prios a passar o que aprenderam para outros, estabelecendo um efeito multiplicador. “Passamos uma semana trabalhando em comunidades comandadas pelo fuzil e ao terminar sabemos que deixamos uma semente; as pessoas sempre querem mais.” [...] só o fato de atrair rapazes que poderiam trabalhar para o tráfico, caso não estivessem em uma oficina, já tem um significado muito importante para ele. [...] 15 Sugestões de respostas. SERGIO Cezar faz versões em miniatura de favelas brasileiras de papelão e materiais reciclados. Revista Black Brasil, 2014. Disponível em: <http:// revistablacklifebrasil.blogspot.com.br/2014/05/sergio-cesar-faz-versoes-em-miniatura.html#.VLzgW9LF9tw>. Acesso em: 19 jan. 2015. a) Qual é o benefício social da arte de Sergio Cezar? b) É possível estabelecer alguma relação entre o conceito de livre-arbítrio e as mudanças oportunizadas pela arte de Sergio Cezar? Explique. Sugestão de atividade para aprofundar o conhecimento: questão 4 da seção Hora de estudo. 14 Sugestões de respostas e orientações didáticas. 1. Que relações podem ser estabelecidas entre o conceito agostiniano de graça e os conteúdos dos textos citados anteriormente? 2. Você concorda com a tese de que a liberdade humana consiste em direcionar a vontade para o bem, tornando-se incapaz de desejar o mal? Por quê? Is ab el le C ab ra l O trabalho desenvolvido por Sergio Cezarpromove a autoestima de algumas pessoas, devolvendo-lhes a dignidade e possibilitando-lhes a integração social (como no caso das moças que passaram a confeccionar enfeites para festas), ou sua reintegração à sociedade (como no caso do ex-detento Robson Alves de Souza, que se tornou responsável por oficinas ligadas a esse trabalho). Além disso, ele favorece escolhas positivas dos jovens, afastando-os do tráfico de drogas e da criminalidade. Filosofia 19 Beatitude Tomás de Aquino representa um segundo momento do pensamento medieval, posterior à Patrística e que ficou co- nhecido como Escolástica. Unindo o pensamento cristão ao filosófico, refletiu sobre questões éticas, como a virtude e a felicidade. Nesse aspecto, aproximando a Filosofia da Teologia, ele afirmava que, em razão do pecado, não teríamos condições de nos sentir plenamente realizados em nossas vidas terrenas. Um dos grandes empecilhos para isso seria a certeza de nossa finitude, a qual limitaria nossas alegrias a instantes provisórios e passageiros. Por isso, Aquino afirmava que somos inquietos e descontentes com aquilo que alcançamos. Segundo ele, essa insatisfação permanente, própria da condição humana, apenas poderia ser superada por meio da beatitude, a felicidade tranquila, serena e eterna decorrente da contemplação de Deus. No entanto, a beatitude não poderia admitir a presença do mal. Logo, Aquino afirmava que era necessário viver uma vida ordenada por um amplo conjunto de virtudes, as quais somente a iluminação divina poderia proporcionar. Para ler e refletir 16 Orientação didática. O texto a seguir mostra que Tomás de Aquino concebia a felicidade plena como resultado da salvação em Deus, momento último, no qual estaríamos livres desta vida passageira e inconstante. Questão V. Da consecução da beatitude Artigo III. Se a beatitude pode ser obtida nesta vida O terceiro discute-se assim: parece que a beatitude pode ser realizada nesta vida. Primeira objeção. Pois, diz a Escritura: Bem-aventurados os que se conservam sem mácula no caminho, os que andam na lei do Senhor. Ora, isto se dá nesta vida. Logo, nela se pode ser feliz. Segunda objeção. Demais, a participação imperfeita do sumo bem não elimina a essência da beatitude; do contrário um não seria mais feliz que o outro. Ora, nesta vida, os homens podem participar do sumo bem, conhecendo e amando a Deus, embora imperfeitamente. Logo, nesta vida, o homem pode ser feliz. Terceira objeção. Demais, o que é dito por muitos não pode ser totalmente falso; pois se considera natural o que existe em muitos, porque a natureza não falha totalmente. Ora, muitos põem a beatitude nesta vida, como se vê claramente na Escritura: “Bem-aventurado chamarão ao povo que tem estas cousas”, isto é, os bens da vida presente. Logo, pode-se nesta vida ser feliz. Mas, em contrário, diz a Escritura: “O homem nascido da mulher, que vive breve tempo, é cercado de muitas misérias”. Ora, a beatitude exclui a miséria. Logo, o homem não pode ser feliz nesta vida. Solução. Podemos alcançar, nesta vida, uma certa participação da beatitude; beatitude perfeita, porém, não pode ser obtida. E isso podemos prová-lo de dois modos. Primeiro, pela essência comum da beatitude. Pois, sendo ela o bem perfeito e suficiente, exclui todo mal e satisfaz todo desejo. Ora, nesta vida, não podemos excluir todo mal. Pois, a vida presente está sujeita a muitos males, que não podem ser evitados: à ignorância da inteligência, à afeição desordenada do apetite; e a muitos 17 Orientação didática. Para Tomás de Aquino, a felicidade plena era a beatitude, alcançada pela contemplação divina, com base em uma conduta correta e virtuosa. © Sh ut te rs to ck /R id o 20 Volume 5 incômodos que Agostinho diligentemente enumera. Semelhantemente, também o desejo do bem não pode ser saciado nesta vida. Pois naturalmente o homem deseja a permanência do bem que possui. Ora, não só os bens da vida presente são transitórios, mas ainda passa a própria vida, que naturalmente desejamos e quereríamos permanecesse perpetuamente, porque naturalmente ao homem lhe repugna a morte. Por onde, é impossível nesta vida obter-se a verdadeira beatitude. Segundo, se se considerar em que especialmente consiste a beatitude, a visão da essência divina, a que o homem não pode chegar nesta vida, como já se demonstrou na primeira parte. Donde manifestamente resulta que ninguém nesta vida pode alcançar a verdadeira e perfeita beatitude. [...] 1. Explique o que é felicidade para você. 2. Aponte semelhanças e/ou divergências entre a sua concepção pessoal de felicidade e a que foi defendida por Tomás de Aquino. Sugestão de atividade para aprofundar o conhecimento: questão 5 da seção Hora de estudo. 19 Orientações didáticas. AQUINO, Tomás de. Suma teológica. Porto Alegre: Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes, 1980. p. 1071-1072. (1ª. parte da 2ª. parte). Registre, com suas palavras, a principal ideia expressa em cada objeção do texto e a tese defendida por Tomás de Aquino na solução. Moral provisória Durante a Antiguidade e a Idade Média, não houve, da parte dos filósofos, a preocupação de distinguir a moral pública, exercida no âmbito da política, e a moral privada, exercida por meio de ações e escolhas individuais. Julgava- -se que ambas deveriam caminhar juntas. O primeiro pensador de que temos notícia a estabelecer essa distinção foi Nicolau Maquiavel. Sua obra, produzida no século XVI, é considerada um marco na passagem ao pensamento moderno e será abordada posteriormente, nos estudos sobre Filoso- fia Política. Porém, desde já, é importante destacar uma das teses defendidas por Maquiavel: a de que é preciso governar as pessoas considerando sua tendência às más paixões, em vez de supor uma natureza virtuosa e ideal, que não seria encon- trada na prática. Nos séculos seguintes, a ética racionalista continuou predominante, mas a po- lêmica instaurada por Maquiavel foi um dos fatores que contribuíram para pro- mover novas reflexões filosóficas em torno da relação entre a moral e as paixões. Nesse contexto, destacou-se, no século XVII, a obra de René Descartes. Esse filósofo reconheceu o papel biológico das paixões para a autopreservação humana, mas recomendou um controle racional sobre elas, a fim de que não comprometessem o conhecimento e a convivência. BARTOLINI, Lorenzo. Nicolau Maquiavel. 1 escultura. Galeria Uffizi, Florença. Maquiavel distinguia a ética pessoal, privada, e a ética pública, esta última regida por interesses políticos, como a conquista do poder e sua conservação. 18 Sugestão de respostas. Reflexão em ação © iS to ck p h ot o. co m /c a2 h ill Filosofia 21 O projeto filosófico de Descartes era o de construir fundamentos para uma nova ciência, mais rigorosa, precisa e abrangente do que a de sua época. Por isso, dedicou-se à elaboração de um método para conduzir a razão em sua busca pelo conhecimento. Ele acreditava que uma abordagem adequada de todos os problemas que interessavam à humanidade se subordinava justamente à validade do método utilizado para alcançar o conhecimento. Apenas por meio dele seria possível fundamentar ciências voltadas a novos objetos, entre eles a moral, denominada pelo filósofo como moral perfeita. Contudo, antes de alcançar esse método, não seria desejável permanecer sem referências para decidir entre o certo e o errado no momento de agir. Pensando nisso, o filósofo propôs quatro regras para compor uma moral provisória, pautada pelo acordo com as leis e os costumes relacionados à autopreservação. As regras dessa moral provisória eram as seguintes: Regra 1: Obedecer às leis e aos costumes nacionais, à religião e à moderação, evitando excessos. Regra 2: Ser firme e decidido nas ações, seguindo as opiniões provisórias com o mesmo rigor que se teria em relação às mais seguras. Regra 3: Vencer a si mesmo, e não ao destino, buscando mudar os própriosdesejos, e não a ordem do mundo. Regra 4: Adotar a melhor das ocupações: cultivar a razão para alcançar o conhecimento verdadeiro, seguindo o método cartesiano. Para ler e refletir No texto a seguir, o autor reflete sobre a moral provisória cartesiana. Para que uma atitude tão radical fosse possível e tivesse coerência, Descartes não poderia apenas se livrar de todas as verdades que possuía, já que duvidava delas e não queria mais se iludir com falsas certezas. Essa ati- tude, se fosse possível, o paralisaria totalmente, pois antes de se certificar de alguma certeza nada haveria para que pudesse levar a cabo uma investigação e encontrar algu- ma. Como viajar e meditar sobre a verdade sem nenhuma verdade nas mãos? Aquele que duvida, de maneira radical, está duvidando, necessariamente, dos princípios que regem a moral, as leis, os hábitos. Mas não é possível viver, nem fi- losofar, sem uma moral. Descartes recorre [...] à metáfora do edifício que simboliza o conhecimento. Para reconstruí-lo, seu dono precisa de uma morada provisória onde possa se alojar comodamente durante o tempo que trabalha na cons- trução da morada definitiva. Surge, assim, a moral provisória que Descartes postula para si mesmo, a fim de viabilizar a consecução de sua filosofia. OLIVEIRA, Rodrigo Cássio. O discurso do método de René Descartes. In: LIMA, Maria de Fátima G. et al. Literatura para PAS/UnB – 2ª. etapa/2007: análise das oito obras indicadas com exercícios resolvidos. Goiânia: Kelps/Leart, 2007. p. 120-121. Para Descartes, até que chegássemos a uma moral perfeita, resultante de um método preciso, deveríamos adotar uma moral provisória fundamentada na autopreservação. © W ik im ed ia C om m on s/ M u se u d o Lo u vr e 20 Orientação didática. BOURDON, Sébastien. Possível retrato de René Descartes. Século XVII. 1 óleo sobre tela, color., 88 cm × 71 cm. Museu do Louvre, Paris. R R R R m 22 Volume 5 1. Como você avalia as quatro regras propostas por Descartes para orientar a ação na ausência de uma moral definitiva? O aluno deverá explicar e avaliar as quatro regras propostas por Descartes, além de justificar a expressão moral provisória, já que, para o filósofo, essas regras serviriam para sustentar a sociedade até que a moral perfeita fosse metodologicamente arquitetada. 2. Descartes comparou sua moral provisória a uma morada provisória, utilizada durante a construção de um edifício. Por que seria necessário utilizá-la antes de alcançar a moral perfeita? De acordo com a analogia cartesiana, assim como um construtor precisa de uma moradia provisória para se abrigar, durante a construção de um grande edifício, o filósofo necessita de uma moral provisória, antes de poder fundamentar a moral perfeita. A necessidade da moral provisória está relacionada à autopreservação e à importância do controle racional das paixões, bem como da existência de normas para possibilitar um desenvolvimento individual e uma convivência social razoáveis. 3. Existem pessoas que agem sem recorrer a nenhuma referência moral? Justifique sua resposta. A resposta pode levar em conta o fato de haver pessoas que agem contra determinadas normas morais, por desconhecê-las ou por discordar delas. Porém, é necessário aprofundar a reflexão, a fim de avaliar se é possível afirmar que elas não recorrem a nenhuma referência moral e por quê. A atividade pode ser enriquecida com a análise de um fato antiético noticiado recentemente. Conatus e paixões Na perspectiva racionalista da moral provisória cartesiana, as virtudes e o dever permaneceram como critérios de moralidade, e as paixões, como algo a ser controlado. Diante disso, a Europa do século XVII recebeu com assombro a teoria ética do filósofo de origem judaica Baruch de Espinosa. Dedicado a estudos matemáticos, assim como Descartes, ele escreveu uma obra denominada Ética demonstrada à maneira dos geômetras. Afinal, em sua época, a Geometria de Euclides era considerada um modelo ri- goroso para o pensamento e as ciências. Seguindo esse modelo, a obra de Espinosa apresentava afirmações de acordo com a classificação utilizada no método geométrico: iniciava com definições e axiomas, em seguida procurava explicitá-los por meio de proposições e demonstrações, examinando, por fim, as consequências dessas demonstrações, em corolários e escólios. Além disso, frequentemente abria parênteses para se referir a afirmações demonstradas em momentos anteriores. Geometria de Euclides: sistema matemáti- co postulado por Euclides de Alexand ria. Seu método consiste em assumir um p equeno conjunto de axiomas intuitivos e, então , expe- rimentar várias outras proposições (teo remas) para verificar até que ponto são validad as, por meio de um sistema dedutivo. Reflexão em ação axioma: na Lógica e na Matemática, axioma é uma sentença (ou proposição) que não é provada ou demonstrada, mas é considerada como óbvia ou como uma verdade provisória que serve como base para verificação de um sistema. corolário: consiste em uma afirmação (proposição) deduzida de uma verdade que já foi submetida à demonstração. escólio: anotação sobre um texto ou uma ideia que tem a finalidade de explicá-los, tornando-os mais claros e compreensíveis. Filosofia 23 Para ler e refletir O texto a seguir corresponde a uma das proposições da obra Ética, de Espinosa, e à sua demonstração. Acompanhe o que ele diz sobre as paixões (ou afecções), relacionadas à sua original concepção de vícios e virtudes. Espinosa foi um grande defensor da liberdade e sofreu com a falta de liberdade de expressão. Por conceber a Deus como Natureza, foi excomungado da comunidade judaica, sob a suspeita de ateísmo. Depois disso, ele se especializou no polimento de lentes para lunetas e participou intensamente da vida cultural da Holanda, onde vivia. © W ik im ed ia C om m on s Proposição VII O conhecimento do bem e do mal não é outra coisa senão a afecção de alegria ou de tristeza, na medida em que temos consciência dela. Demonstração Chamamos bem ou mal àquilo que nos é útil ou prejudicial à conservação do nosso ser, isto é, o que au- menta ou diminui, favorece ou entrava a nossa potência de agir. E, assim, na medida em que percebemos que uma coisa qualquer nos afeta de alegria ou tristeza, chamamo-la boa ou má e, por conseguinte, o conhecimen- to do bem e do mal não é outra coisa senão a ideia de alegria ou de tristeza, que resulta necessariamente da afecção de alegria ou de tristeza, mas esta ideia está unida à afecção da mesma maneira que a alma está unida ao corpo; isto é, esta ideia não se distingue, de fato, da própria afecção, ou seja, da ideia de afecção do corpo, a não ser tão somente pelo conceito; logo, este conhecimento do bem e do mal não é outra coisa senão a própria afecção, na medida em que dela temos consciência. ESPINOSA, Baruch de. Ética demonstrada à maneira dos geômetras. São Paulo: Nova Cul- tural, 2005. p. 349. (Os pensadores). (Fragmentos dos quais foram excluídos parênteses com referências a afirmações demonstradas anteriormente). RETRATO de Baruch de Espinosa. 1665. 1 óleo sobre tela, color. Biblioteca Herzog August, Alemanha. A ética de Espinosa é considerada uma teoria sobre a natureza humana. Nesse contexto, ele afirmou que as paixões não eram boas nem más, e sim impulsos naturais, já que por natureza o ser humano sofreria sempre a ação de causas exteriores a si próprio. O filósofo também apresentou a alegria, a tristeza e o desejo como as paixões originais e responsáveis pelo surgi- mento das outras, as quais poderiam ser alegres ou tristes (do desejo, por exemplo, poderiam nascer tanto a gratidão quanto a avareza). Segundo ele, as paixões alegres aumentavam o conatus, ou seja, a capacidade de ser, preservar-se e agir; já as paixões tristes o diminuíam. Portanto, Espinosa não definia o vício como um mal e a virtude como um bem, no sentido tradicional desses ter- mos,mas como fraqueza e força para ser, preservar-se e agir de acordo com a liberdade e a autonomia garantidas pela razão. Nessa perspectiva, o vício correspondia à fraqueza de quem se submetia às paixões, deixando-se governar pelas causas exteriores. A virtude, por sua vez, correspondia à ação e à força de quem se tornava a causa interna dos seus próprios sentimentos, atos e pensamentos, ao se deixar guiar pela razão. 24 Volume 5 Considerando a teoria de Espinosa sobre as paixões, as virtudes e os vícios, responda às questões. a) Qual o papel das paixões na busca da felicidade? b) Você concorda com a tese de que a tristeza diminui a capacidade humana de ser, preservar-se e agir? Por quê? c) Explique a compreensão de Espinosa a respeito dos vícios e das virtudes. Sentimento moral Nos séculos XVII e XVIII, surgiram teorias de grande relevância para a Ética e a Filosofia Política. Nesse contexto, inúmeros filósofos apresentaram suas reflexões a respeito da ação moral, bem como da legitimidade do poder e das leis. Em relação à política, destacaram-se pensadores atualmente conhecidos como contratualis- tas, cuja produção será estudada em outro momento. Jean-Jacques Rousseau es- tava entre eles e também enfatizou, em sua obra, um conceito que influenciou as reflexões da Ética no século XVIII: o conceito de sentimento natural. Em um cenário marcadamente racionalista, Rousseau defendeu o senti- mento como caminho para a interioridade. Por meio dele, o ser humano po- deria alcançar a consciência da liberdade e de sua unidade com a natureza e com os outros seres humanos. Segundo esse filósofo, a compreensão da natureza e de si mesmo nasceria do sentimento, e não da razão. Sendo assim, Rousseau descreveu um estado hipotético da vida humana, anterior à civilização, e nele destacou a presença de dois sentimentos ou paixões originários e complementares: uma espécie de amor-próprio, ou instinto de autopreservação, e a compaixão, ou piedade perante o sofrimento alheio. Além disso, criticou a civilização por afastar o ser humano dessa condição natural, corrompendo a sua moralidade. No mesmo período, o filósofo inglês David Hume – que foi amigo de Rousseau e depois se tornou um dos seus desafetos – desenvolveu uma nova concepção ética, entendendo as paixões, e não a razão, como fundamentos da ação humana. Segundo essa teoria, o agir humano seria motivado por impulsos e senti- mentos, e não por princípios racionais. Assim, Hume associava a moralidade a sentimentos como benevolência, compaixão e simpatia. Além disso, defendia a tese de que a distinção entre virtudes e vícios não seria resultado de uma avaliação racional, mas da presença ou ausência dos sentimentos de desapro- vação e culpa diante de uma ação. Portanto, ele concluiu que a moralidade não constituía objeto da razão, mas do sentimento. 21 Sugestões de respostas. Sugestão de atividade para aprofundar o conhecimento: questão 6 da seção Hora de estudo. RAMSAY, Allan. Retrato de Jean-Jacques Rousseau. 1766. 1 óleo sobre tela, color., 75 cm × 62 cm. Galeria Nacional da Escócia, Edimburgo. © W ik im ed ia C om m on s/ G al er ia N ac io n al d a Es có ci a DAVID Hume. 1 grafite. Coleção David Hume, Universidade McGill, Montreal. Sugestão de atividades para aprofundar o conhecimento: questões 7 e 8 da seção Hora de estudo. Atividades U n iv er si d ad e M cG ill /C ol eç ão D av id H u m e/ Fo tó g ra fo d es co n h ec id o Filosofia 25 Registre, no quadro a seguir, os principais aspectos das concepções éticas dos filósofos e das correntes filosóficas abordados nesta unidade. Filósofo ou corrente filosófica Concepção ética Sócrates e Platão A ação ética decorre da razão, por meio do conhecimento racional das ideias do bem e de virtudes como a justiça, entre outras. As paixões e os apetites devem ser submetidos ao controle da razão. Aristóteles A ação ética baseia-se na concepção de virtude e justiça como mediania, ou justo meio, e no hábito de agir conforme as virtudes. Cínicos A vida ética é uma vida simples, em harmonia com a natureza e com os instintos, livre das convenções e instituições sociais, baseada na autarquia e na apatia. Estoicos A vida ética baseia-se na autarquia e na ataraxia, por meio da aceitação do destino, já que ele é governado por uma razão divina. Epicurismo O prazer e a dor são critérios confiáveis para distinguir o verdadeiro do falso e o bom do mau. Porém, todo prazer deve ser submetido à avaliação de suas consequências para se decidir buscá-lo ou não. Agostinho de Hipona A vontade corrompida pelo pecado e o uso inadequado do livre-arbítrio originam o mal. A graça divina garante a salvação humana e a liberdade. Tomás de Aquino A verdadeira felicidade consiste na beatitude, a contemplação divina oportunizada por uma vida em conformidade com as virtudes. René Descartes A “moral perfeita” resultaria de um método racional. Porém, até que fosse implementada, o filósofo defendia uma moral provisória, fundamentada na autopreservação. Baruch de Espinosa A ação ética baseia-se em paixões que fortalecem o conatus, dando força ao sujeito para agir racionalmente. O conatus é a capacidade de ser, preservar-se e agir. Jean-Jacques Rousseau O sentimento é o caminho para a interioridade, por meio do qual o indivíduo pode alcançar a consciência da liberdade e de sua unidade com a natureza e os outros seres humanos. David Hume A moralidade fundamenta-se em sentimentos como compaixão, benevolência e simpatia, os quais determinam os sentimentos de culpa ou aprovação perante uma ação. Organize as ideias 26 Volume 5 b) A virtude consiste no governo das paixões para cumprir uma tarefa ou uma função, tendo em vista a sabedoria prática. c) A virtude tem como fundamento os excessos, com base no caráter prático das ações, tendo em vista o convívio em sociedade. d) A virtude é a obediência aos próprios instintos, ge- rando a avaliação do bem ou do mal por meio do prazer e da dor. e) A virtude realiza-se no mundo das ideias, já que, no mundo sensível, sua aplicação é limitada. 3. De acordo com o pensamento dos cínicos, é correto afirmar: a) Ataraxia significava a busca pelo prazer, de acordo com a natureza humana. Afinal, os cínicos conside- ravam as sensações de dor e prazer critérios para distinguir o bem e o mal. b) A ataraxia é o princípio filosófico que fundamenta a busca dos cínicos por uma vida simples, pau- tada pela renúncia aos prazeres e pelo cuidado mútuo. X c) A base da ataraxia era o desapego, pois ela consis- tia em não se importar com o sofrimento, próprio ou alheio, representado pelas dores do corpo, doenças, morte, etc. Com base nesse princípio, os cínicos buscavam um estilo de vida simples, livre das con- venções e instituições sociais. d) Apesar de viver um estilo de vida simples e desape- gado, de acordo com a natureza e os instintos, os cínicos consideravam importante respeitar as con- venções e as instituições sociais. e) A ataraxia representava um estilo de vida desapega- do, simples e sereno que dependia da renúncia aos instintos humanos, pois os cínicos acreditavam que a razão deveria nortear suas vidas. 4. Na tentativa de compreender a origem do mal, Agosti- nho afirmou: I. O ser humano é dotado de livre-arbítrio e pode optar entre o bem e o mal. Porém, a vontade corrompida pela soberba tende a inclinar as ações humanas ao pecado, fazendo-se necessária a graça. 22 Gabaritos. Hora de estudo C ol eç ão S ér g io F ad el /F ot óg ra fo d es co n h ec id o A resolução das questões discursivas desta seção deve ser feita no caderno. 1. Observe a imagem e leia o texto a seguir. JAMES, Gustave. A borrasca. 1875. 1 óleo sobre tela, color., 77 cm × 127 cm. Coleção Sérgio Fadel, Rio de Janeiro. Não é, portanto, sem razão que considera- remos que são dois elementos, distintos um dooutro, chamando aquele pelo qual ela ra- ciocina o elemento racional da alma, e aquele pelo qual ama, tem fome e sede e esvoaça em volta de outros desejos, o elemento irracional e da concupiscência, companheiro de certas satisfações e desejos. PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 8. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996. p. 197. Escreva um texto estabelecendo uma relação entre a imagem, a citação da obra de Platão e a visão des- se filósofo a respeito de uma vida ordenada pelas paixões humanas. 2. Leia o texto. A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consiste numa me- diania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. 4. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1991. p. 33. Com base no texto citado e em seus conhecimentos sobre a concepção aristotélica de virtude, assinale a alternativa correta. X a) A virtude é o equilíbrio, a justa medida entre o ex- cesso e a falta. 27Filosofia II. O livre-arbítrio inclina o ser humano de modo natural para Deus, indiferentemente da sua vontade, já que, tendo em vista a salvação, a graça age limitando a liberdade humana. III. A vontade humana, corrompida pelo pecado, leva as pessoas a praticarem o mal. No entanto, a graça pode tornar o indivíduo incapaz de fazer o mal, e a aceitação da graça constitui a liberdade humana. IV. A liberdade humana consiste em poder optar pelo pecado, apesar da graça, pois Deus não interfere, em nenhum momento, sobre a vontade humana, que é pecadora. V. A vontade, por si só, leva o ser humano a buscar a graça, porque, apesar do livre-arbítrio, toda criatura anseia por retornar ao seu criador. Por isso, todos seriam salvos. Estão corretas: a) II e III. b) I e IV. X c) I e III. d) IV e V. 5. Assinale a afirmação condizente com o que Tomás de Aquino entendia por felicidade plena. a) Podemos alcançar plenamente a beatitude nesta vida, mesmo conscientes da finitude de nossa existência. b) Como seres humanos, tendemos a buscar a felici- dade, já que somos naturalmente tranquilos e nos contentamos com aquilo que conquistamos. c) A felicidade é incompleta nesta vida, pois, apesar da contemplação divina, o desejo humano não se satisfaz. d) Não há relação entre uma vida ordenada e a felicida- de, pois a beatitude independe da prática da virtude. X e) A felicidade somente é completa como beatitude, já que o pecado corrompeu a humanidade, impossi- bilitando a realização plena do indivíduo nesta vida, finita e passageira. 6. Assinale a afirmativa que está de acordo com a con- cepção ética de Espinosa. a) O vício corresponde ao mal, e a virtude, ao bem. Portanto, o indivíduo deve abdicar dos vícios, forta- lecendo seu conatus, ou seja, seu instinto de preser- vação e de força. X b) A virtude e o vício não têm relação com os conceitos de bem e mal, mas com o de fraqueza e os de ação e força quanto às determinações exteriores. c) Uma vez que a alegria, a tristeza e o desejo, pai- xões originais, não interferem no conatus, ou seja, na capacidade de ser, preservar-se e agir, pode-se afirmar que, na visão de Espinosa, a ação ética não passa pelos sentimentos. d) O sentimento de alegria aumenta o conatus, en- quanto o de tristeza o diminui. Afinal, a virtude é uma força, diretamente relacionada aos conceitos de bem e mal. e) A virtude não tem relação com os sentimentos, pois o conatus depende unicamente da razão. 7. Leia o texto e responda às questões. Onde estaria o fundamento da moral se caracteres particulares não tivessem nenhum poder seguro ou definitivo de produzir senti- mentos particulares, e se esses sentimentos não operassem de forma constante sobre as ações? HUME, David. Investigações sobre o entendimento humano e sobre os princípios da moral. Tradução de José Oscar de Almeida Mar- ques. São Paulo: UNESP, 2004. p. 130. A respeito da moral, Hume: a) diferenciando-se de Rousseau, afirmava que não havia nas pessoas nenhum sentimento de autopre- servação ou compaixão, e é justamente por isso que as paixões deveriam ser submetidas à razão. b) afirmava que a moralidade resultava da razão, capaz de controlar os impulsos das paixões, pois, ao man- terem-se no campo dos sentimentos, os seres hu- manos se desvirtuariam de seus impulsos originais. c) associava a moralidade a sentimentos, mas não concordava em distinguir virtudes e vícios com base em desaprovação e culpa diante de uma ação. X d) desenvolveu uma nova concepção ética, segundo a qual o sentimento era apresentado como o funda- mento da moralidade nas ações humanas. e) entendia que a Ética deveria distinguir a moralidade dos sentimentos, baseando-se na distinção entre virtudes e vícios. Isso seria possível com base em uma avaliação racional das ações cometidas. 8. Explique as divergências entre a concepção ética de Hume e as concepções racionalistas. 28 Volume 5