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CONCILIAÇÃO DA ÉTICA CRISTÃ COM A ERA DA GLOBALIZAÇÃO - um olhar reflexivo

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a não visibilidade e as facilidades desses meios tecnológicos para cometer crimes (e corrupção) fugindo do controle estatal, pois o Estado nacional não é capaz de controlar e conter todos os atos;
· Enfraquecimento do poder dos Estados nacionais: devido a não territorialidade, o Estado perde sua soberania ao abrir mão do seu controle para privilegiar a nova ordem mundial e novo Estado surge como uma máquina dependente dos processos produtivos abalando o poder econômico (“o tripé da soberania: militar, cultural e econômico”). Segundo Bauman (1999, p. 69 e 73) “a globalização impõe seus preceitos de forma totalitária e indissolúvel, sendo o Estado incapaz de suportar a pressão, ou seja, alguns minutos bastam para que as empresas e a Nação entrem em colapso”.
Cabe enfatizar que, de acordo com o filósofo, diante da incerteza do mercado e da frágil promessa do livre comércio, se está também diante de um Estado “diminuto e fraco” que tem como única função a manutenção do interesse das grandes organizações empresariais. Hoje as megaempresas desfrutam de toda a liberdade para realizarem “manobras econômicas” que tornam o Estado um mero espectador, dominado e sem poder de reação. Para Carvalho (2008, p. 3) esta é a “globalização do capital, das condições de produtividade, do mercado, do lucro e das exigências desse mesmo mercado”.
Nessa linha de pensamento, Beck (1999, p. 27e 47) distingue globalização, fenômeno complexo, plural e irreversível, de “globalismo”, pois a globalização se reduz à dimensão econômica, e exige a integração dos Estados Nacionais para facilitar as transações dos agentes econômicos, impedindo a participação democrática (“ditadura neoliberal do mercado mundial”). Com isso, “a especulação financeira faz o dinheiro reproduzir-se por si, desvinculando o trabalho dos pobres ao aumento da riqueza dos ricos” (BECK, 1999, p. 109-110).
Para o sociólogo o homem vive em uma “sociedade de risco”, os riscos são gerados pelo desenvolvimento científico e tecnológico. Contudo, essa mesma sociedade se debruça sobre os problemas em busca de soluções. Daí a denominação de ‘Modernidade Reflexiva’ para época atual, no sentido de que a sociedade se conscientiza dos riscos da modernidade e reflete sobre eles. Nessa perspectiva, Habermas (2004b) salienta que assim como o homem moderno constrói o progresso com novas tecnologias terá também capacidade pela reflexão de revisar seus erros e propor novas metas sendo mais crítico.
A fim de contrabalançar e controlar o processo de globalização, principalmente no setor econômico, Beck (1999, p. 92) propõe a criação de ‘Estados Transnacionais’, os quais limitariam os riscos mundiais em níveis de tolerância a fim de garantir a sustentabilidade da vida no planeta: “apenas a cooperação entre os Estados nacionais a nível transnacional, pode regular a globalização e suas consequências”.
Desse modo, Stiglitz (2002) chega a apontar que o processo da globalização não é ruim, mas tem sido acompanhado de políticas que causam mais danos do que benefícios aos países em desenvolvimento, entre as quais austeridade fiscal, altas taxas de juros, liberalização do comércio, dos mercados de capitais e privatização e reestruturação do mercado financeiro. Segundo Abdala (2002, p. 14), “as potências mundiais dominam o poder cristalizado nas megacorporações donas do controle do mercado e do capital e não nos Estados Nacionais”;
· Desordem das relações sociais: a pobreza leva ao processo de degradação social que nega as condições mínimas de vida humana. Da soma do resultado “fome-pobreza” outros fatores surgem e que enfraquecem os laços sociais e passam a destruir também, os laços afetivos e familiares (BAUMAN, 1999). A globalização não beneficia todas as pessoas (não existe partilha mais igualitária da riqueza como se pensava), mas aumenta a desigualdade socioeconômica entre os ricos e os pobres. Os ricos adquirem novos produtos, novas tecnologias, enquanto que os pobres não partilham dos mesmos benefícios como comentam Beck (1999), Bauman (1999) e Lévinas (2010a). Assim, os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. Percebe-se que a globalização não resultou nos benefícios diversificados e prometidos para algumas nações mais pobres do mundo como os benefícios econômicos; 
· Aumento da exclusão social e o redimensionamento do conceito de bem-estar social: “Este novo mundo proposto é o da fome, pobreza e miséria absoluta, onde 800 milhões de pessoas estão em condições de subnutridas e quatro bilhões de pessoas vivendo na miséria” (BAUMAN, 1999, p. 81). Diante desse cenário, uma comparação se faz necessária: se em 1990 havia um bilhão de famintos, e em 1999, este era o quadro da miséria citado, já em 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU) para a Alimentação e a Agricultura (FAO), apresentou um relatório onde anuncia que o número de pessoas que são atingidas pela fome em nível mundial diminuiu em mais de 100 milhões na última década, mas denuncia que há ainda cerca de 805 milhões (um em cada nove habitantes do planeta) que sofrem com a fome no mundo. São ainda 795 milhões de pessoas desnutridas. Segundo a ONU (2014) a insegurança alimentícia e a desnutrição são problemas complexos que devem ser resolvidos de maneira coordenada e pedem aos governos para trabalhar em estreita colaboração com o setor privado e a sociedade civil.
As imensas desigualdades da globalização permitem conceber essa nova ordem sob a marca da economia política da incerteza definida como “o conjunto de regras para pôr fim a todas as regras”. Para Bauman (1997, 1999, 2005, 2008) e Bittar (2007) a globalização deu mais oportunidades aos ricos de ganhar dinheiro mais rápido. Esses indivíduos utilizam a recente tecnologia para movimentar largas somas de dinheiro mundo afora com extrema rapidez e especular com eficiência cada vez maior. Infelizmente, a tecnologia não tem causado impactos nas vidas dos pobres do mundo.
Liderada pelas instituições internacionais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), a globalização ainda não cumpriu a promessa de melhorar o mundo. Segundo afirma o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD (2010, p. 38)): “enquanto muitos milhões de pessoas têm demasiado pouco para comer, milhões comem em demasia”. [...] “O problema não é tanto a globalização em si, mas a maneira como está sendo promovida e administrada”. 
Por conseguinte, Carvalho (2008, p. 5) ressalta que:
a globalização divide o mundo simbólico em ricos e pobres, vencedores e perdedores, miseráveis e bem sucedidos, afetando todos os países, encerrando-os em um único mundo desigual, no qual investidores individuais podem transferir quantidades de capital, de um lado para outro do mundo, num piscar de olhos, com um simples clicar de um mouse.
· Impactos agressivos para o meio ambiente: os interesses das corporativas capitalistas baseiam-se nas explorações de matérias primas da natureza de maneira insustentável, poluindo e contaminando os ambientes naturais. As consequências globais dessa falta de ética ecológica já não são futuras como, por exemplo, as formas de produção e fabricação que geram elevado índice de poluentes, lixo e resíduos decorrentes de um processo industrial sem controle.
Sobre o drama da exploração da Terra, Boff (2000, p. 9) chama a atenção:
(...) A este drama é preciso acrescentar a ameaça que pesa sobre o sistema Terra. A aceleração do processo industrial faz com que a cada dia desapareçam 10 espécies de seres vivos e 50 espécies de vegetais. O equilíbrio físico–químico da Terra, construído sutilmente durante milhões e milhões de anos, pode romper-se devido à irresponsabilidade humana. A mesma lógica que explora as classes oprime as nações periféricas e submete a Terra à pilhagem. Não são somente os pobres que gritam, grita também a Terra sob o esgotamento sistemático de seus recursos não renováveis e sob a contaminação do ar, do solo e da água.
Nessa linha, também Singer (2004, p. 45-46) indica possíveis consequências do “efeito estufa” em escala global