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Monografia- A ATUAÇÃO DO ADVOGADO DIANTE OS MEIOS ADEQUADOS DE RESOLUÇÃO DE CONFLITOS

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dos litígios: 
 
Tal postura evidencia a cultura da terceirização dos litígios, em que as pessoas pouco se 
esforçam para resolver por si mesmas seus conflitos, terceirizando essa solução ao Poder 
Judiciário. Parecem assumir sua incapacidade de superar suas desavenças, transferindo 
essa função ao Estado. 
Tanto isso é verdade que as outras formas de solução dos litígios, que não a judicial, muitas 
vezes são tratadas como “meios alternativos de solução de conflitos”, colocando o Judiciário 
na posição de “meio tradicional”. Os demais, portanto, seriam os “meios alternativos”, vistos 
inclusive como de menor relevância.75 
 
71 CABRAL, Marcelo Malizia. Opcit. p. 73. 
72 Ibidem. p.138. 
73 MAZZEI, Rodrigo; CHAGAS, Bárbara Seccato Ruis. Breve ensaio sobre a postura dos 
atores processuais em relação aos métodos adequados de resolução de conflitos. In. ZANETI 
JR, Hermes; CABRAL, Trícia, Navarro Xavier (coords). Justiça multiportas: Mediação, conciliação, 
arbitragem e outros meios de solução adequada pra conflitos. DIDIER JR, Fredie. Coleção grandes 
temas do novo CPC. Salvador: JusPodvim, 2017. p. 69-70. 
74 DELLORE, Luis; SOUZA, André Pagani de; CARACIOLA, Andrea Boari. Op. cit., p 11. 
75 Idem. 
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Tradicionalmente as partes atuam no processo por intermédio de seus 
advogados, que utilizam de discursos com linguagem técnica, ao final o magistrado 
decide o mérito, e as partes em nada convergem para a solução do caso.76 
Já nos métodos autocompositivos, em especial da mediação, as partes são 
protagonistas do procedimento, em que são levados a identificar os motivos das 
controvérsias e buscar um diálogo. Dessa forma, se vislumbra de forma prospectiva a 
situação, uma visão futura, as partes não apenas resolvem o conflito, mas através das 
habilidades desenvolvidas são capazes e evitar conflitos futuros e novas demandas 
judiciais.77 
No entanto, a prática dos meios não adjudicatórios para solução de conflitos 
não pode ser desprovida de técnica jurídica, pois somente a existência da prática não 
torna seus efeitos legítimos, se faz de suma importância saber, com base em 
arcabouço jurídico existente, quais são as possibilidades aplicadas em cada meio de 
solução de conflito e quais são seus limites para produzir os resultados desejados.78 
O CPC busca disciplinar a prática dos meios não adjudicatórios entre os 
artigos 165 a 175, determinando a criação dos centros judiciários de solução 
consensual de conflitos bem como, sua composição, orientando a atuação do 
mediador e conciliador além de destacar os princípios norteadores do sistema. 
Para buscar a melhor solução para cada caso concreto, primeiramente é 
necessária a criação uma cultura que compreenda que o conflito pode ser resolvido 
pela via mais adequada, não necessariamente a jurisdicional. Essa mudança deve se 
iniciar pelo operador do direito, que deverá identificar a natureza do conflito, causas, 
forma, para que lhe seja apresentada uma solução particular, diferente do modelo 
generalizado que habitualmente sempre lhe foi imposto. 
Neste sentido, GUERREIRO atribui ao advogado o papel de oferecer a 
maneira de solucionar o conflito: 
 
É por isso que se fala em sistema multiportas, visto que a parte interessada poderá ter acesso 
a diferentes formas de solução de conflitos, sendo o advogado responsável por oferecer e 
discutir com o seu cliente as maneiras de solução adequadas, de modo que este possa definir 
o que quer da solução de conflitos e qual seria a melhor maneira de atingir este objetivo. 
 
76 MAZZEI, Rodrigo; CHAGAS, Bárbara Seccato Ruis. Op. cit., p. 70. 
77 Idem. 
78 GUERRERO, Fernando, L. Op. cit., p. 12. 
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“Como nos sentiríamos se um médico sugerisse uma cirurgia sem explorar outras 
possibilidades?” 79, 
 
O que se entende pelo Sistema multiportas é a tendência de se buscar formas 
de solucionar conflitos, que possam fazer às vezes daquela tradicional que é o sistema 
judicial, as partes poderão ter acesso a diferentes formas de solucionar aquela 
situação, a melhor maneira de atingir o objetivo, seja pela via judicial ou pela via 
alternativa. 
Quanto ao sistema multiportas, TARTUCE o conceitua como: 
 
Sistema multiportas é o complexo de opções que cada pessoa tem à sua disposição para 
buscar solucionar um conflito a partir de diferentes métodos; tal sistema (que pode ser ou não 
articulado pelo Estado) envolve métodos heterocompositivos (adjudicatórios) e 
autocompositivos (consensuais), com ou sem a participação estatal. 
Como exemplo, pense em alguém que, ao buscar o Poder Judiciário, encontre um leque de 
opções em que a solução “sentença judicial” passa a ser uma dentre outras; nesse cenário, 
aberta a porta do Judiciário, “haveria como que uma antessala em que novas portas estariam 
à disposição, cada uma representando um método diferente” 80 
 
O sistema jurídico brasileiro propõe um amplo panorama de meios de 
abordagem das controvérsias, o que precisa ficar bem esclarecido é o fato de que, 
uma vez garantida a instância jurisdicional, as partes deverão ser encaminhadas para 
compor o conflito pela via mais adequada a ao seu caso.81 
Imperioso destacar que os métodos adequados de solução de conflitos 
somente poderão ser utilizados quando a questão se tratar de direitos patrimoniais 
disponíveis, como por exemplo, disciplina o caput do artigo 1º da Lei 9.307/199682, o 
artigo 3º da Lei da mediação n.º 13.140/201583 e ainda os artigos 334 e 359 do 
CPC/2015 que trata da conciliação e mediação. 
Quanto os critérios de escolha dos métodos, TARTUCE aponta os mais 
importantes: “Na escolha da forma de lidar com a disputa, costumam ser cotejados 
fatores como custos financeiros, celeridade, sigilo, manutenção de relacionamentos, 
 
79 Idem. 
80 TARTUCE, Fernanda. Mediação nos conflitos civis. 4 ed. Rio de Janeiro: Método, 2018. 
p. 71. 
81 Ibidem, p. 70. 
82 Art. 1º da Lei 9.307/1996: caput: “Art. 1º As pessoas capazes de contratar poderão valer-
se da arbitragem para dirimir litígios relativos a direitos patrimoniais disponíveis.” 
83 Art. 3o da lei 13.140/2015: “Pode ser objeto de mediação o conflito que verse sobre direitos 
disponíveis ou sobre direitos indisponíveis que admitam transação.” 
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flexibilidade procedimental, exequibilidade da solução, desgastes emocionais, 
adimplemento espontâneo do resultado e recorribilidade, entre outros.” 84 
Quanto aos limites impostos à utilização dos meios autocompositivos pode- 
se dizer que envolvem todos aqueles direitos que podem ser objetos de contrato, 
abrangendo todos os bens e direitos que a partes podem dispor para criar obrigações, 
interpretando-se a lei com base na patrimonialidade e disponibilidade destes direitos 
dependendo ainda da capacidade dos agentes em respeito a autonomia da vontade 
das partes.85 
No Brasil a aplicação de meios não adjudicatórios ainda é muito sutil, os mais 
utilizados ainda são a conciliação e mediação, no entanto, com pouca adesão, 
conforme será demonstrado adiante, no entanto se faz necessário descrever de forma 
sucinta as possibilidades existentes em nosso ordenamento. 
 
2.1 CONCILIAÇÃO 
 
A conciliação é prevista no CPC no art. 3º, §§ 2º e 3º e entre os artigos 165 a 
175 do mesmo diploma legal, além de disciplinada pela Resolução 125/2010 do CNJ, 
que trata dos meios adequados dos conflitos de interesses. 
Dispõe ainda o artigo 165, § 2º do CPC: “O conciliador, que atuará 
preferencialmente nos casos em que não houver vínculo anterior entre as partes, 
poderá sugerir soluções para o litígio, sendo vedada a utilização de qualquer tipo de 
constrangimento ou intimidação para que as partes conciliem.” 
Uma terceira pessoa, neutra na situação, que será o conciliador, aproxima e 
orienta as partes em busca de um acordo, o principal objetivo será fazer com que os 
litigantes