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Brasília-DF. Planejamento energético, conservação e Fontes alternativas de energia Elaboração Alessander Sá do Carmo, M.Sc. Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 4 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 5 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 7 UNIDADE I RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO........................................................... 9 CAPÍTULO 1 PLANEJAMENTO INTEGRADO DE RECURSOS (PIR): CONCEITO E SUA IMPORTÂNCIA ................... 9 CAPÍTULO 2 GERENCIAMENTO PELO LADO DA DEMANDA (GLD) ................................................................ 17 CAPÍTULO 3 ANÁLISE DE DEMANDA, MODELAGEM E BALANÇO DE OFERTA E DEMANDA ........................... 25 CAPÍTULO 4 ANÁLISE DE IMPACTOS ........................................................................................................... 32 CAPÍTULO 5 TÉCNICAS DE ANÁLISE ........................................................................................................... 38 UNIDADE II MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA .................................................................... 46 CAPÍTULO 1 MARKETING E COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR ............................................................. 46 CAPÍTULO 2 APRESENTAÇÃO DE SOLUÇÕES DE COMBATE AO DESPERDÍCIO E DE AUMENTO DE EFICIÊNCIA ENERGÉTICA EM CONDOMÍNIOS E EMPRESAS COMERCIAIS E INDUSTRIAIS ............................. 50 CAPÍTULO 3 APRESENTAÇÃO DE PROJETOS GLD ........................................................................................ 56 CAPÍTULO 4 EXPOSIÇÃO DE CASOS BEM SUCEDIDOS DE PROJETOS DE CONSERVAÇÃO ........................... 60 CAPÍTULO 5 TÉCNICAS DE RACIONALIZAÇÃO E CONSERVAÇÃO DE ENERGIA ........................................... 64 REFERÊNCIAS .................................................................................................................................. 71 4 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 5 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam a tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta, para aprofundar os estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Praticando Sugestão de atividades, no decorrer das leituras, com o objetivo didático de fortalecer o processo de aprendizagem do aluno. 6 Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Exercício de fixação Atividades que buscam reforçar a assimilação e fixação dos períodos que o autor/ conteudista achar mais relevante em relação a aprendizagem de seu módulo (não há registro de menção). Avaliação Final Questionário com 10 questões objetivas, baseadas nos objetivos do curso, que visam verificar a aprendizagem do curso (há registro de menção). É a única atividade do curso que vale nota, ou seja, é a atividade que o aluno fará para saber se pode ou não receber a certificação. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 7 Introdução x Objetivos » 8 9 UNIDADE I RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO CAPÍTULO 1 Planejamento Integrado de Recursos (PIR): conceito e sua importância Nos países em desenvolvimento, o crescimento econômico tem provocado um aumento de acesso à energia comercial devido a um processo paralelo decorrente do aumento da urbanização e da industrialização, que exige um padrão intenso de energia. A população demanda transporte, seja de pessoas ou de bens materiais, novos produtos industriais e demais serviços públicos, como a saúde, que dependem de energia. Desse modo, construir e operar equipamentos de infraestrutura urbana, industrial e comercial requerem muita energia, principalmente a elétrica, pois é dela que todo conforto e um elevado padrão de vida resultam de uma demanda elevada por novos serviços que consomem energia. Contudo, o dramático aumento do preço do barril do petróleo, a partir dos anos 1970 do século XX, agregado ao aumento das taxas internacionais de juros, foi a principal causa da queda da economia dos países emergentes, bem como do término da distribuição de energia barata, o que levantou o questionamento do modelo de desenvolvimento adotado até então. A energia tornou-se uma fonte limitante para o progresso econômico de vários países emergentes. Ainda hoje, ela representa um fator de preocupação na área econômica e, mais adiante, na área ambiental. Os problemas nas balanças de pagamento dos países importadores de petróleo têm sido menos graves naquele período, não por causa dos baixos preços dos barris de petróleo vigentes no mercado, mas pelo aumento contínuo de dependência de capital internacional para o aumento da produção de energia e sua distribuição nos países em desenvolvimento. A crescente percepção ambiental vem oferecendo importantes resistências ao desenvolvimento e ao emprego de algumas fontes energéticas (exemplo: energia nuclear), assim como com a liberação de empréstimos de órgãos multilaterais ou governamentais. 10 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO Enquanto a população dos países desenvolvidos foi menos afetada pelo choque do preço do barrilde petróleo, o que permitiu superar seus problemas com maior agilidade, nos países emergentes o efeito foi contrário, uma vez que tiveram que promover cortes necessários de combustível para realização de atividades essenciais como, por exemplo, cocção e calefação. Apesar de o atual estágio do mercado mundial de petróleo ser estável, essa pode ser uma situação temporária. A perspectiva de elevação maior do preço do barril de petróleo torna a situação energética de muitos países vulnerável. A área de energia gera grandes investimentos de capital. Alguns países emergentes destinam cerca de 30% de seu orçamento total em empreendimentos energéticos, com é o caso da China, que tem investido na construção de mais de 20 usinas nucleares para geração de energia elétrica limpa em detrimento do emprego do carvão para geração de eletricidade em usinas termoelétricas, que são mais poluentes e têm causado sérios problemas de saúde e ambientais. O Banco Mundial investe cerca de 25% de seus empréstimos para projetos energéticos, em sua maioria para geração de eletricidade. Vale ressaltar que todo esse investimento é destinado à aquisição de equipamentos e à prestação de serviços internacionais. A importância dos empréstimos para investir em energia nos países emergentes é um fator significativo nas crises da dívida externa, pois a cada dólar investido em uma usina geradora de energia não se investe o mesmo em algumas áreas, como educação, saúde, saneamento básico. Questão ambiental O rápido crescimento econômico, a produção mal planejada e o consumo energético levam a impactos ambientais que podem comprometer o desenvolvimento de um país. O emprego de qualquer fonte geradora de energia elétrica provoca os mais severos impactos ambientais, tais como poluição atmosférica, emissão descontrolada de monóxido de carbono, sedimentação de bacias fluviais, desmatamento florestal, erosão do solo. O assunto ambiental era considerado secundário e acessório à necessidade contínua do crescimento econômico de cada país. Atualmente, os impactos ambientais globais e regionais têm sido identificados como restrição potencial ao desenvolvimento. Para isso, houve mudanças para agregar Ecologia e Economia Global sob novas formas, pois antes havia uma preocupação com os impactos econômicos em detrimento do meio ambiente. O que se pretende, neste momento, é dirigir o foco na questão do impacto ambiental em relação às perspectivas de desenvolvimento econômico. Com o advento da Convenção Climática e, consequentemente, da sua aplicabilidade, mais de 20 nações industrializadas organizaram comitês para estabelecer ou reduzir 11 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I emissões futuras de carbono na atmosfera por conta dos impactos causados pelas instalações geradoras de energia elétrica. Para que essa meta fosse alcançada, as emissões globais de carbono deveriam ser reduzidas em 60 % ou mais, o que significaria uma redução drástica por parte dos países desenvolvidos e, eventualmente, uma limitação de emissão de gases estufa nos países emergentes. Seria necessário fazer investimento em novas tecnologias para diminuir a intensidade do uso de combustíveis fósseis para geração de energia, entendidas como ações do lado da oferta, e melhorar a eficiência no uso de combustíveis alternativos e de eletricidade, entendidas como ações do lado da demanda ou do mercado de energia. Há instrumentos políticos que estimulam essas mudanças. Em nível internacional, a maioria das discussões está concentrada nas várias formas de aplicação de impostos sobre a emissão de carbono e, para algumas regiões do Globo, no balanço de emissões negociadas ou permitidas como, por exemplo, mecanismos de implementação conjunta. Em nível nacional, em que, na verdade, a maioria das mudanças reais da política energética é, de fato, implementada, os outros mecanismos devem ser colocados em prática. A regulamentação ou a agregação de regulamentações e de incentivos financeiros, legislação, certificação e normas são as opções mais comuns, sendo que alguns desses mecanismos já estão sendo difundidos e colocados em prática, enquanto outros, mais inovadores, só recentemente foram implementados às tecnologias de energia. Eles incluem padrões de desempenho energético, programas institucionais ou governamentais de aquisição de tecnologia, gerenciamento do lado da demanda pela companhia de eletricidade, bem como atividades de pesquisa energética conhecidas, desenvolvimento e demonstração. Em grande escala, essas medidas são aplicadas por programas que têm por objetivo de captar o potencial de melhorias na eficiência energética para uso final. Entretanto, a busca de melhorar a eficiência energética tem seus efeitos colaterais, que vão desde a poluição local e emissão de gases poluentes à atmosfera até os riscos na segurança nuclear e de suficiência energética. No momento, as medidas não se refletem nos custos de oferta de energia e nos esforços de planejamento. A fim de reduzir esses problemas com a otimização das técnicas que possuam custo competitivo com a oferta convencional de energia, há programas inovadores de eficiência energética que tendem a oferecer soluções adequadas. Essas oportunidades técnicas também são economicamente atrativas em países emergentes. 12 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO Eficiência energética Por definição, eficiência energética consiste na relação entre a quantidade de energia empregada em uma atividade e aquela disponibilizada para sua realização. Em outras palavras, consiste em obter o melhor desempenho na produção de um serviço com o menor gasto de energia. A promoção da eficiência energética abrange a melhoria das transformações do transporte e do emprego dos recursos energéticos, a partir das suas fontes primárias até o seu aproveitamento. Como pressupostos básicos, adota-se a manutenção das condições de conforto, segurança e produtividade dos usuários, contribuindo para a melhoria da qualidade dos serviços de energia e para a mitigação dos impactos ambientais. Um exemplo dessa ação está na modernização de equipamentos e processos no sentido de reduzir o consumo. Já os programas voltados para o consumo consciente também dão a sua contribuição para a economia de energia elétrica. Na indústria, boa parte da energia elétrica é empregada na produção industrial como, por exemplo, papel, alumínio, vidro e aço. Logo, as ações de reutilização e reciclagem também passam a ser usadas para a economia de energia elétrica. Um exemplo disso é o aproveitamento de energia elétrica que foi poupada para o bombeamento de água, desde que a água seja devidamente poupada em seu reservatório. Como todo país em desenvolvimento, o Brasil tem uma grande demanda reprimida de energia, uma vez que os índices nacionais de perda e desperdício de eletricidade são também elevados. O total de desperdício de energia, de acordo com o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (PROCEL), chega a cerca de 40 GW, ou US$ 2.8 bilhões/ano. Os consumidores, por sua vez, desperdiçam 22 GW. As concessionárias de energia, com perdas técnicas e problemas na distribuição, colaboram com o desperdício de 18 GW restantes. Com o intuito de incentivar a redução drástica de desperdícios, dos custos e investimentos setoriais, o Governo Federal, por meio do Ministério das Minas e Energia, elaborou, em 1993, o Selo PROCEL, que orienta o consumidor na compra de produtos, sinalizando aqueles que apresentam melhores níveis de eficiência energética, tais como geladeiras, freezers, chuveiros elétricos e aparelhos de ar condicionado, além de estimular o desenvolvimento tecnológico de produtos mais eficientes e, consequentemente, a preservação ambiental. Outro exemplo foi a troca de lâmpadas usadas na iluminação pública por modelos mais eficientes em vários municípios brasileiros, como medida de conservação de energia para redução de custos como sistema, e na rede elétrica de escolas, postos de saúde e demais setores da administração pública. Mais recentemente, Portaria assinada pelos Ministérios de Minas e Energia e de Ciência, Tecnologia e 13 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I Inovação determinou que as lâmpadas incandescentes de uso geral, responsáveis por 80 % da iluminação residencial no Brasil, sejam retiradas do mercado por lâmpadas fluorescentes compactas até o ano de 2016. Essa medida se deve à preocupação com a falta de energia e a busca por soluções que abrangem a boa iluminação, equipamentos mais eficientes e formas inteligentes de uso. As lâmpadas fluorescentes compactas podem fornecer quantidade maior de luz com custo de consumo energético inferior às incandescentes. Apesar de serem caras, há um esforço conjunto entre setores governamentais e fabricantes para otimizar o processo produtivo das lâmpadas fluorescentes visando, assim, a redução dos preços para o consumidor. Os contratos de concessão firmados pelas empresas concessionárias do serviço público de distribuição de energia elétrica com a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estabelecem obrigações e encargos perante o poder concedente. Uma dessas obrigações se refere à aplicação anual de um montante de 0.5%, no mínimo, de sua receita operacional líquida em ações que têm por objetivo combater o desperdício de energia elétrica, o que consiste no Programa de Eficiência Energética (PEE). O que se discute, nesse sentido, é a adoção de normas para tornar as construções mais eficientes em seu consumo energético mediante o aproveitamento de fontes alternativas, como a energia solar e a energia eólica, que dispensam, em muitos casos, a necessidade de iluminação artificial e de sistemas de ar condicionado. Um estudo de planejamento setorial de longo prazo, recém-publicado, indica que o Plano Nacional de Energia sinaliza a meta de conservação anual de energia equivalente a 10% do mercado de 2030. Entretanto, pelo próprio Plano, as principais limitações ao pleno desenvolvimento da eficiência energética nacional demandam um esforço governamental no sentido de aperfeiçoar o marco legal e regulatório, além de estrutura operacional capaz de articular a diversidade de agentes envolvidos e implementar ações efetivas entre os inúmeros segmentos consumidores. Planejamento Integrado de Recursos (PIR) Os fatores apresentados até o momento começam a exigir o suprimento das necessidades de energia da população de modo mais barato e com menor impacto ambiental. Nesse contexto, as iniciativas de eficiência energética podem ser implementadas de modo mais efetivo a partir de um Planejamento Integrado de Recursos (PIR). O PIR é o desenvolvimento combinado da oferta de eletricidade e de opções de gerenciamento do lado da demanda, a fim de fornecer serviços de energia a custo baixo, incluindo os custos sociais e ambientais. Esse planejamento incorpora o esforço de se contabilizar 14 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO o potencial de recursos para otimização do emprego da energia com o mesmo rigor empregado para se inventariar os recursos de oferta de energia. O Planejamento Integrado de Recursos pode ser entendido como uma ferramenta no processo de planejamento que leva em consideração opções de utilização de recursos do lado da oferta e da demanda, em termos qualitativos e quantitativos, visando o desenvolvimento sustentável e contando com a participação dos órgãos ou elementos da sociedade, se não em todo o processo pelo menos na parte de identificação das metas e dos objetivos do PIR. O processo do PIR compreende várias etapas (Figura 1), quais sejam: » identificação dos objetivos: em que fica claro o que se pretende com o processo de planejamento; » estabelecimento da previsão da demanda: em que se identifica, ou se prevê, a demanda existente (por energia, eletricidade, ensino-aprendizado, atendimento de saúde, moradia); » identificação dos recursos de oferta e demanda: em que se levantam quais os recursos, externos e internos, de oferta e de demanda, estão disponíveis para o atendimento da demanda segundo a meta estabelecida; » valoração dos recursos de oferta e demanda: em que se atribui, qualitativa e quantitativamente, atributos aos recursos, de tal forma que se permita uma comparação entre eles. Nem sempre é necessário, possível ou desejável, que essa valoração se dê apenas em termos de custo. Os objetivos podem levar à atribuição de outros critérios, até mesmo subjetivos; » desenvolvimento de carteiras de recursos integrados: em que, de acordo com as metas, se agrupam os recursos, de oferta e demanda, em carteiras, de modo que haja diversas opções integradas, segundo o mesmo período de previsão; » avaliação e seleção de carteiras de recursos integrados: em que se escolhem, entre as opções de carteiras, os recursos que atendem, segundo os critérios objetivos definidos (menor custo, maior satisfação etc.), à demanda prevista, de acordo com as metas estabelecidas; » plano de ação: é onde se definem, a partir dos recursos já escolhidos, quais os passos que devem ser dados no curto prazo para que a meta definida no PIR seja atingida. 15 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I » o plano integrado de recursos preferencial deve prever instâncias avaliativas que permitem o monitoramento do plano de ação ao longo do tempo e o seu ajuste à realidade constantemente mutável. Figura 1. Fluxograma de um Planejamento Integrado de Recursos (RIBEIRO et al., 2014). Dentro dessas etapas, há necessidade, de acordo com o entendimento do ente que lidera ou dirige o processo do PIR, da interação com a sociedade, com os órgãos reguladores do setor e com outras inter-relações público-privadas. O fluxograma apresentado na Figura 1 ilustra um processo PIR. O planejamento energético, necessariamente, implica riscos e incertezas que, por sua vez, têm ligações com as suposições assumidas para sua construção, dando lugar a cenários, objetivos e metas a serem alcançadas. Contudo, não se tem uma metodologia de planejamento que possa responder com certeza às necessidades energéticas locais e/ou globais. Nesse sentido, a principal ideia é a consideração e, consequentemente, a busca do desenvolvimento sustentado na abordagem da análise teórica e na aplicação do PIR, a partir da premissa de que todos os envolvidos devam obter um ganho específico e definido. 16 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO As estratégias de produção, transmissão, distribuição e emprego da energia têm um papel relevante na busca do desenvolvimento sustentado. As necessidades de uma visão completa do problema e de métodos de avaliação que ponderem completamente os vários aspectos técnicos, ambientais, socioeconômicos e sociopolíticos envolvidos, requerem mudanças na forma tradicional de estudar e planejar essas estratégias. O PIR se diferencia do planejamento tradicional, tanto em classe quanto na abrangência de recursos, na participação real dos proprietários e não proprietários dos recursos e dos órgãos envolvidos no plano de recursos, assim como nos critérios da seleção de alternativas. 17 CAPÍTULO 2 Gerenciamento pelo Lado da Demanda (GLD) Um Programa de Gerenciamento pelo Lado da Demanda (GLD) corresponde à intervenção deliberada de uma empresa de energia elétrica no mercado consumidor (demanda) com o intuito de promover alterações no perfil e na magnitude da curva de carga. Em outras palavras, o GLD é qualquer atividade adotada por uma empresa (ou concessionária) de energia elétrica para alterar o padrão de consumo de energia de seus consumidores. A História do GLD surgiu em meados dos anos 70 do século XX, tendo como pioneiro Clark W. Gellings. Embora o GLD fosse uma metodologia inovadora, já havia o gerenciamento de sua aplicabilidade a partir do início da indústria da eletricidade no final do séculoXIX. Basicamente, a eletricidade era usada exclusivamente para iluminação noturna nas cidades. Mas foi a partir de 1890, em Nova Iorque, que a Thomas A. Edison Pearl Street deu início à promoção de desenvolver aparelhos e serviços elétricos de uso diário. Essa iniciativa tinha por objetivo aumentar o emprego e o fator de carga das matrizes geradoras e reduzir, assim, os custos do provimento de energia elétrica. Com a crise do petróleo, no ano de 1973, deu-se uma mudança drástica na economia no setor de eletricidade devido ao aumento no custo de energia mais a imprevisibilidade da oferta e do custo elevado de capital. Nos países desenvolvidos, a indústria de eletricidade tinha que buscar caminhos alternativos à tradicional visão de provimento pela oferta. Com o passar do tempo, a prática de gerenciamento da demanda passou a ser um hábito comum e incorporado ao planejamento integrado nesses países. No Brasil, o PROCEL vem atuando não apenas diretamente nas atividades de gerenciamento da demanda, mas nas ações direcionadas à conservação de energia elétrica por meio da racionalização do uso e incentivo ao desenvolvimento de produtos mais eficientes com menor consumo. Seu objetivo é reduzir desperdícios de consumo energético e de custos, além de promover investimentos em novas tecnologias e novas unidades geradoras. Em vários países, as empresas de energia elétrica vêm utilizando recursos pelo lado da demanda e tradicionais ações pelo lado da oferta de energia, na procura de soluções de problemas operacionais e de planejamento. Com o GLD, tem-se a execução de atividades que, de algum modo, envolvem os consumidores na operação e no planejamento dos sistemas de energia. 18 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO As dificuldades crescentes de alocação de faixas de passagem para a construção de novas linhas de transmissão de energia, os elevados custos de ampliação de parques geradores e, em geral, a dificuldade de ampliar a capacidade de um sistema de energia elétrica em operação foram os motivos que levaram as empresas de energia elétrica a programar as atividades de GLD, visando postergar as instalações de geração, transmissão e distribuição. No que diz respeito aos problemas operacionais, o GLD permite realizar uma operação melhor e mais eficiente do sistema, melhorar o fator de potência, reduzir os requisitos de reserva girante e reduzir os custos de produção de energia. Outras alterações almejadas de um GLD são variadas, como a redução da potência no horário de pico, o preenchimento de vales, as mudanças na carga, a conservação estratégica, o crescimento estratégico e a construção de curvas de carga flexíveis (Figura 2). Sendo um campo de estudo e pesquisa separado de outros métodos de gerenciamento energético, o GLD tem de ser tomado, no contexto de PIR, pelo lado do consumidor final, isto é, da demanda. A partir das análises de custo x benefício, alternativas de gerenciamento pelo lado da oferta podem ser comparadas com as opções pelo lado da oferta, derivando qual o caminho mais eficiente com menor custo para o provimento desejado de potência e energia. Figura 2. Alterações básicas nas curvas de carga, atendendo aos programas de GLD (GELLINGS, 1985). 19 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I A Figura 2 descreve cada variação nas curvas de carga, com vistas ao atendimento nos programas de GLD: » Rebaixamento de pico (peak clipping): é definido como a redução da carga de ponta, obtido geralmente por controle direto, pela empresa de energia, de um aparelho de uso final. Várias empresas consideram essa opção apenas para momentos absolutamente críticos de pico no sistema. Entretanto, o controle direto de carga pode ser usado para reduzir os custos de operação e a dependência de fatores, tais como combustíveis para geração térmica e água para geração hidrelétrica; » Preenchimento de vales (valley filling): é outra forma clássica de gerenciamento da carga. Tem-se o desejo de preencher os vales existentes fora do horário de pico, pois se dá em períodos do ano em que o custo marginal supera o custo médio; » Mudanças na carga (load shifting): é a última forma clássica de gerenciamento de carga, pois envolve o deslocamento da carga do horário de pico para o de fora do pico. Uma aplicação interessante é o deslocamento do horário de uso do chuveiro elétrico, que é o principal elemento causador do horário de pico no Brasil, segundo o Departamento Nacional de Energia Elétrica (DNAEE); » Conservação estratégica (strategic conservation): trata-se de uma mudança na curva de carga que ocorre pelo incentivo à troca de aparelhos de uso final por modelos mais novos e eficientes. Na implementação dessa modalidade, a empresa deve considerar que a conservação deve ocorrer normalmente, fazendo uma avaliação das possibilidades de custo efetivo para permitir sua aceleração e estímulo; » Crescimento estratégico (strategic load growth): trata-se de um crescimento global de vendas estimulado pela empresa e do preenchimento de vales supracitados. Esse crescimento pode ocorrer, por exemplo, por meio de incentivos para substituição do óleo combustível por eletricidade em caldeiras industriais. No futuro, com o avanço tecnológico, a propensão é criar uma tendência de crescimento geral da carga; » Curva de carga flexível (flexible load shape): trata-se de um conceito relacionado à confiabilidade. No planejamento futuro, em que deverão ser englobados o estudo da oferta e da demanda, a carga poderá ser flexível se forem dadas aos consumidores as opções de qualidade do serviço, que 20 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO variam de acordo com o preço oferecido. Esse programa envolve carga interruptível, gerenciamento integrado da energia e aparelhos individuais de controle. Em face dos objetivos, os programas de GLD tentam estimular o consumo nos períodos mais favoráveis e reduzi-lo nos períodos mais críticos. Em muitas situações, o consumo pode ser deslocado de um período para outro em que as condições de atendimento da demanda sejam as mais favoráveis. Existem diversas formas para implementação de programas de GLD, as quais se destacam: » a adoção de processos e tecnologias eficientes para promoção da eficiência energética do sistema e a concessão de incentivos ao emprego de fontes energéticas alternativas ou cogeração e autogeração por parte dos consumidores; » a adoção do Gerenciamento de Carga (GC) como uma forma de ação que visa modificar a curva de carga de uma dada empresa de energia, cujo projeto deve estar concentrado como modalidade de interesse do GLD. Algumas atividades de GC procuram induzir um dado comportamento nos consumidores com o emprego de vários tipos de incentivos tarifários. Com isso, se usam valores tarifários distintos para sinalizar o deslocamento desejado de consumo energético como, por exemplo, as tarifas para demanda coincidente e as tarifas variáveis no tempo. No Brasil, o uso das tarifas horossazonais é um exemplo de tarifa variável no tempo. Em outros casos, o GC vem sendo empregado para solucionar problemas pontuais de operação relacionados, geralmente, à falta de capacidade do sistema ou a problemas de confiabilidade e de segurança. Neles, se estabelece um contrato entre a empresa de energia e os consumidores, em que se têm as condições para que a empresa solicite reduções de carga dos consumidores. A empresa pode desconectar diretamente as cargas, bem como solicitar ao consumidor uma redução de consumo de energia. Em outras situações, são empregados sinais econômicos para induzir as modificações desejadas, uma vez que os consumidores respondem com a modificação da sua própria curva de demanda. Observe-se que o consumidor vem oferecendo um serviço à empresa de disponibilizar parte de sua demanda para fins de redução, devendo receber em troca algum benefício econômico. 21 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTOE GERENCIAMENTO│ UNIDADE I Alternativas de Programas de GLD Um dos maiores problemas no planejamento dos programas de GLD é o grande número de alternativas existentes para sua consecução. A questão inicial é como uma empresa pode avaliar todas as opções disponíveis de GLD para, em seguida, determinar qual é a melhor e a mais adequada para um caso específico. Não se tem um guia padrão para responder essa e outras questões, uma vez que cada empresa de energia desenvolve individualmente seu próprio programa, conforme as suas necessidades de momento. Contudo, é provável que se desenvolva uma classificação genérica dos tipos de alternativas de GLD possíveis. Algumas matrizes foram desenvolvidas para classificar a criação de referências cruzadas e menus com os pontos a serem atacados em um programa GLD. Entre essas matrizes, têm-se: » objetivo de modificação da curva de carga x uso final nas residências; » uso final residencial x opções tecnológicas; » adoção de técnicas de conservação de energia x tecnologias alternativas; » modificações na curva de carga x usos finais e opções tecnológicas. Uma tabela de classificação de alternativas de GLD e suas aplicabilidades foi desenvolvida pelo Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (Tabela 1), cuja descrição se encontra a seguir. Tabela 1. Classificação de Alternativas de GLD ALTERNATIVA POSSIBILIDADES Controle de equipamento de uso final Controle da operação de equipamentos individuais Ar condicionado central em consumidores industriais e comerciais Aquecedores de água residencial ou comercial Bombas em geral Aquecedores de ambiente Controle de equipamentos da própria empresa de energia Redução da tensão Controle do alimentador Controle do fator potência Estocagem de energia Estocagem de frio Estocagem de calor Estocagem de água quente Utilização de calor residual 22 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO Incentivos tarifários Tarifa diferenciada no tempo Tarifa interruptível Uso final Contratos de controle de carga Tarifa de demanda Devoluções e incentivos Programas especiais Geração dispersa Eólica Solar (térmica ou fotocélula) Células combustíveis Geradores de espera Cogeração Pequena central hidrelétrica Outros tipos Promoção de GLD junto ao consumidor Melhoria de desempenho de equipamentos e sistemas Equipamentos de alta eficiência energética Prédios eficientes Melhorias nos sistemas da empresa de energia Adaptada de Delgado, R.M., 1985. Sistemas e equipamentos para um programa de GLD Quais são os sistemas e equipamentos necessários para o funcionamento de um programa de GLD? É certo que um programa de GLD que conduza os consumidores ao controle voluntário da carga não necessite de equipamentos e de sistemas, além de não haver necessidade de utilizar equipamentos especiais em programas que promovam a adoção de tecnologias mais eficientes de aparelhos para usos finais ou da distribuição de energia gerada. A instalação e o controle de equipamentos e sistemas, conforme determina a definição do GLD, cabem à própria empresa elétrica responsável pelo programa. O equipamento pode possuir um controle local ou pode ser ativado remotamente, necessitando, neste caso, de canais de comunicação com uma central de operações. Para esse tipo de equipamento remoto, a empresa tem maior controle sobre o funcionamento e, na sua maioria, problemas e falhas durante o funcionamento são imediatamente diagnosticados. Por outro lado, o equipamento com controle local possui um sistema que se encerra por si mesmo. A empresa elétrica não possui informações em tempo real sobre as condições 23 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I de funcionamento, sendo considerada uma desvantagem em relação ao equipamento de ativação remota. Para evitar problemas, devem ser mantidos os programas de manutenção periódica e preventiva. Independentemente do tipo de controle do equipamento, o que se pretende fazer são as alterações na carga, as quais ocorrem de modo similar em ambos os casos. Os sistemas utilizados para o controle de carga no programa GLD, podendo o controle ser local ou remoto, são: » interruptores horários (time clock ou switching): quando em funcionamento, esse tipo de controlador simplesmente desliga uma carga elétrica por um dado período de tempo, cujas aplicações vão desde o simples uso em aquecedores até o bloqueio de algum aparelho para evitar coincidência de carga; » limitadores de corrente (current limitter): esse controlador tem a função de limitar a demanda máxima de consumo proveniente dos consumidores, cujo sistema ajuda, de modo direto, a melhorar o fator de carga, sendo muito empregado no Norte da Europa, principalmente para áreas residenciais e pequenas unidades comerciais; » controladores cíclicos (cyclic): nesse tipo de sistema de controle, um equipamento de uso final permanece ligado por um dado período de tempo até que seja desligado, permanecendo assim por outro período. Um exemplo prático é o controle cíclico do funcionamento de um aparelho de ar condicionado em que se faça a programação de seu funcionamento por 5 minutos, permanecendo o tempo restante desligado por 5 minutos seguintes; » termostatos (thermostat): esse dispositivo fica conectado a um controle que liga ou desliga o aparelho quando se tem o alcance da temperatura indicada. Definem-se, para isso, as temperaturas máxima e mínima, que são distintas ao longo de um dia ou ao longo de uma estação; » seletores de circuito (interlock): esse dispositivo tem por objetivo impedir que duas ou mais cargas elétricas distintas ocorram ao mesmo tempo. Apesar de ser pouco difundido, por meio de tarefas é possível induzir o uso desse tipo de sistema; » controladores de demanda (demand control): sua função básica é monitorar e limitar toda a demanda de um consumidor. É um aparelho 24 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO muito sofisticado e de custo elevado, sendo usado principalmente por grandes consumidores industriais ou residenciais. Por conta de seu custo, o aumento do preço da energia vai, pouco a pouco, o tornando mais atraente. Os controladores de demanda possuem microprocessadores e podem ser objeto de programação computacional, tornando-se, assim, verdadeiros sistemas de gerenciamento de energia. Os sistemas de comunicação via remota para o controle de carga são instalados em equipamentos sem a influência nos resultados, independentemente do meio de comunicação a ser empregado. Entretanto, esses sistemas de comunicação possuem seus custos e benefícios, devendo levar em consideração uma avaliação criteriosa de cada um antes de se fazer a seleção final para instalação no equipamento. Entre esses sistemas de comunicação remota, cuja apresentação de seus métodos, vantagens, desvantagens e demais itens avaliados se encontram na Tabela 2, têm-se: » uso da própria linha de transmissão de energia; » por telefone; » por rádio. Tabela 2. Principais meios para comunicação remota em um programa de GLD. ATRIBUTOS RÁDIO TELEFONE LINHA DE TRANSMISSÃO Direção e tecnologia Mão única Duas mãos Digital ou tone Mão única Duas mãos Digital Mão única Duas mãos Digital Método Sinal de radiofrequência Linha de telefone dedicada Sinal colocado na linha de transmissão pela empresa Vantagens Flexibilidade Segurança Grande cobertura espacial Manutenção mínima Segurança Flexibilidade Desvantagens Dificuldade de cobertura em certas áreas Canal compartilhado Códigos de segurança Limites em duas mãos Envolvimento de uma segunda parte Potencial restrito Problemas com o consumidor Problemas com o aparelho Características da eletricidade Limites em duas mãos Custos Baixo custo incremental Conhecido pela empresa Alto custo incremental Conhecimento pela empresa Baixo custo incremental Custo de duas mãos indeterminado Estações As mesmas existentes As mesmas existentes Asmesmas existentes Status comercial Pronto Pronto Mão única pronta Fonte: Gellings; Chamberlin, 1993. 25 CAPÍTULO 3 Análise de demanda, modelagem e balanço de oferta e demanda A análise de demanda de energia elétrica se dá em duas óticas, expressas nos conceitos de carga e de consumo, cujos significados são apresentados a seguir. A carga é medida a partir da saída dos pontos de geração, sendo apurada e divulgada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e se refere ao Sistema Integrado Nacional (SIN), excluindo, portanto, os Sistemas Isolados. A carga possui duas vertentes: » carga de energia: corresponde ao valor médio solicitado aos geradores durante um intervalo de tempo relativamente longo, sendo medido em dias e até em anos e é expressa em MW; » carga de demanda: corresponde ao requisito de geração no SIN em determinado instante por conta da demanda máxima instantânea dada em MW, ou em intervalo de tempo curto, por conta da demanda máxima integrada dada em MWh/h. O consumo é medido pelos agentes de comercialização e distribuição, próximo ao ponto onde a energia é usada, e é apurado e divulgado em pesquisa mensal junto com as empresas e concessionárias de distribuição, com registro dos dados dos consumidores livres. A diferença entre os valores de carga e os de consumo de energia elétrica se dá principalmente pelas perdas técnicas, na rede de transmissão e distribuição, e comerciais, seja por furto ou por erros de medição. Também se destaca o consumo referente a todo mercado nacional, enquanto que a carga divulgada pelo ONS se refere exclusivamente ao SIN. É importante perceber a diferença entre os conceitos de carga e consumo para se fazer uma análise em curso. Por exemplo, um indicador mais relevante para relacionar a energia elétrica à atividade econômica é o consumo, e não a carga, uma vez que as perdas técnicas e comerciais não têm sentido econômico. As medições de carga de demanda são importantes para o correto dimensionamento elétrico do sistema, na medida em que a geração e a transmissão tendem a estar preparadas para responder corretamente às solicitações extremas. A carga de energia, por seu turno, está diretamente relacionada ao consumo esperado dos insumos energéticos, seja na forma de combustíveis fósseis ou na forma de água. 26 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO Projeção do Consumo de Energia Elétrica As projeções para o consumo de energia elétrica levam em consideração as indicações do acompanhamento e da análise do mercado e da conjuntura econômica. A avaliação é que as medidas para contornar a crise econômica têm surtido efeito, com sinais de recuperação rápida da atividade econômica, com reflexo direto e positivo sobre o consumo de eletricidade. A Tabela 3 apresenta a projeção de consumo energético na rede, em todo o Território Nacional, para o período 2010 – 2014, cuja taxa média de crescimento de consumo é de 5.4%. Tabela 3. Projeção de consumo de energia elétrica na rede para o período 2010 – 2014, em GWh 2010 2011 2012 2013 2014 Projeção por classe de consumo Residencial 103 272 108 724 115 548 120 912 126 425 Industrial 180 687 191 840 202 862 214 074 223 147 Comercial 67 983 72 161 77 746 82 516 87 598 Outras classes 57 413 59 868 63 333 65 792 68 382 Projeção por subsistema interligado Norte 28 813 41 906 58 686 41 051 43 318 Nordeste 59 015 62 272 65 444 68 825 72 372 Sudeste/Centro-Oeste 250 503 264 335 278 184 193 024 306 125 Sul 71 024 74 079 77 175 80 393 83 737 Consumo Total 409 355 432 592 459 489 483 293 505 552 Fonte: Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 2010. Projeção da carga de Energia Elétrica São apresentadas as previsões de aumento da carga de energia e de demanda integrada e instantânea. As estimativas levam em consideração a projeção do consumo e as indicações do acompanhamento e análise de carga. As projeções de carga são essenciais para avaliar as condições futuras de atendimento, sobretudo no que diz respeito ao dimensionamento da necessidade de capacidade adicional de geração. Para projeção de carga, são consideradas, junto com o consumo, as perdas totais observadas no sistema. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo representa 85% da carga total de energia elétrica e as projeções não prevêm alterações significativas nesse nível de perdas. Existem, contudo, perdas técnicas de transmissão, 27 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I de subtransmissão e de distribuição, junto com as perdas comerciais como furtos, deficiência e erros na medição, “efeito calendário”. Com o aprimoramento dos programas de medição e controle das empresas e concessionárias, tem-se a expectativa de uma redução gradual das perdas comerciais, uma vez que elas se darão tanto nos furtos quanto no processo de medição que, ao ser convertido para medição eletrônica, eliminará o “efeito calendário”; contudo, não se tem previsão de alteração no nível de perdas técnicas em cabos e equipamentos elétricos, seja na distribuição, seja na transmissão, em boa parte devido à dimensão continental do sistema elétrico brasileiro. A Tabela 4 apresenta as projeções da carga média de energia no período de 2010 – 2014. Tabela 4. Projeção da carga média de energia elétrica para o período 2010 – 2014, em MW Subsistema 2010 2011 2012 2013 2014 Norte 3 950 4 411 5 529 5 856 6 188 nordeste 8 242 8 683 9 110 9 566 10 043 sudeste/centro-oeste 34 064 35 914 37 763 39 741 41 483 sul 9 189 9 583 9 982 10 397 10 828 total 55 445 58 591 62 384 65 560 68 542 Fonte: Empresa de Pesquisa Energética (EPE), 2010. Modelagem e balanço de oferta e demanda Um estudo desenvolvido pelo Ministério de Minas e Energia para o Plano Nacional Energético 2030, em conjunto com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), apresenta uma estrutura integral de quatro grandes grupos modulares para a oferta e a demanda energética nacional: » Módulo macroeconômico: esse modelo compreende a formulação de cenários de longo prazo para as economias nacional e internacional; » Módulo de demanda: esse modelo corresponde ao estabelecimento de premissas setoriais, demográficas e de conservação de energia, resultando nas projeções do consumo final de energia; » Módulo de oferta: esse modelo corresponde, principalmente, ao estudo dos recursos energéticos, envolvendo aspectos relacionados à tecnologia, aos preços, ao meio ambiente, à avaliação econômica da competitividade das 28 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO fontes e dos impactos da regulação, o que permite formular alternativas para expandir a oferta frente a uma evolução esperada da demanda; » Estudos finais: esse modelo corresponde à integração dos estudos de oferta e de demanda, inclusive à reavaliação das projeções iniciais de consumo dos energéticos, de aspectos de natureza política, estratégica, institucional e de segurança energética, que culminam com as projeções finais de consumo e de oferta interna de energia. A inter-relação entre cada um desses modelos é representado na Figura 3. Vale ressaltar que os estudos de oferta e de demanda foram realizados de forma integrada, incluindo a incorporação do processo interativo de ajuste entre oferta e demanda, resultando na reavaliação das projeções iniciais de consumo por meio de restrições de oferta ou da concorrência entre diferentes setores energéticos. Figura 3. Fluxograma para metodologia dos estudos energéticos do PNE 2030 Fonte: Ministério de Minas e Energia, 2007. Por meio do fluxograma apresentado na Figura 3, cada um desses modelos de quantificação foi desenvolvido internamente ou alterado de acordo com os objetivos dos estudos previstos no PNE 2030. Ao se fazer a análise quântica dos cenários macroeconômicos nacionais, cada trajetória do modelo, associada a cada um dos cenários, teve sua consistência verificada por meio da aplicação do Modelo de Consistência Macroeconômica de Longo Prazo (MCMLP),adaptado pela EPE mediante o modelo proposto pelo Banco Mundial. Os principais 29 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I elementos caracterizadores desses cenários foram fornecidos exogenamente ao modelo, cujos resultados permitiram medir a consistência macroeconômica de cada hipótese formulada. Entre esses dados, têm-se: » taxa de crescimento do produto interno bruto (PIB); » crescimento demográfico; » crescimento do comércio mundial, vinculado à taxa de crescimento da economia global; » política fiscal e monetária, a partir do superávit primário e taxa real de juros básicos; » investimento externo direto, como proporção do PIB; » evolução da produtividade total dos fatores. Com relação aos principais resultados gerados por esse modelo, usado para verificação da consistência macroeconômica dos cenários, e que teve como indicadores dados relativos à proporção do PIB, são mencionados: » a taxa de investimento; » o saldo da balança comercial; » a dívida líquida; » o saldo da conta-corrente. Na quantificação do cenário demográfico, foi aplicado o Modelo de Estimativa de Parâmetros Demográficos (MEDEM), desenvolvido pela EPE, a partir da modelagem proposta pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Por meio dessa projeção da população, disponibilizada pelo IBGE, com a cobertura do horizonte que se estende até o ano de 2050, foi discretizado o crescimento demográfico conforme a requisição de estudos do PNE 2030, com a regionalização da população pelo método da tendência, ajustando-se as curvas logísticas para efeito das projeções regionais da taxa de urbanização e da população por domicílio. Na projeção do consumo final (demanda), foi desenvolvido e empregado o Modelo Integrado de Planejamento Energético (MIPE) pela Coordenadoria de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPE/ UFRJ). O uso e a adequação desse modelo às condições de estudo foram viabilizados por meio de acordo entre a EPE e a COPPE/UFRJ. A aplicação do MIPE garantiu o 30 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO vínculo das projeções de demanda aos cenários macroeconômicos e a desejada visão integrada do consumo energético de todas as fontes de cada setor da economia, de acordo com a abertura ofertada pelo Balanço Energético Nacional (BEN). Para a demanda de energia elétrica em áreas residenciais, foi desenvolvido e aplicado o Modelo de Projeção da Demanda Residencial de Energia (MSR), pela EPE. Trata-se de um modelo em que a demanda de um consumidor residencial é obtida mediante a posse e o uso de equipamentos eletrodomésticos. A calibração desse modelo foi feita por meio de pesquisas de posse e uso disponibilizadas pelo PROCEL, sob a coordenação da Eletrobras. Sua aplicação permitiu a incorporação de premissas relativas à eficiência energética nesse segmento de consumo. Pelo lado da oferta, existem dois modelos específicos aplicados para avaliação da conversão energética primária: » Modelo de Estudo do Refino (MRef), desenvolvido pela EPE por meio da modelagem proposta pela COPPE/UFRJ, cuja aplicação se dá no dimensionamento da expansão do parque de refino de petróleo adequado à demanda projetada de derivados; » Modelo de Expansão de Longo Prazo (MELP), desenvolvido pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (CEPEL), sendo considerado um modelo de otimização que permite encontrar soluções de expansão da oferta de energia elétrica minimizando o custo da expansão e de operação e considerando os custos de investimento na expansão das interligações entre os subsistemas. A sua importância se dá em face das características do sistema elétrico brasileiro e, principalmente, diante da localização do potencial hidrelétrico a ser aproveitado. Todos os resultados obtidos nos estudos da oferta e da demanda foram consistidos e integrados com a aplicação do modelo MESSAGE, desenvolvido pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA/IAEA). Como resultado final do estudo da PEN 2030, tem-se uma visualização para evolução da composição da oferta interna de energia, o que permite fazer formulações hipotéticas da Matriz Energética Brasileira (Figura 4). 31 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I Figura 4. Fluxograma para modelagem de cálculos usados para demanda e oferta de energia elétrica Fonte: Ministério de Minas e Energia, 2007. 32 CAPÍTULO 4 Análise de impactos A análise de impactos está relacionada à avaliação dos impactos que a oferta e a demanda de energia podem sofrer, tais como os sociais, econômicos, políticos e ambientais. Cada análise de impacto merece ser discutida de modo resumido para que eventuais problemas relacionados sejam resolvidos. Impactos socioeconômicos O crescimento demográfico afeta o porte e a própria estrutura da demanda de energia, seja direta (crescimento vegetativo), seja pelos impactos decorrentes ou associados ao crescimento econômico e ao desenvolvimento, gerando uma alteração na distribuição da renda e redução das desigualdades regionais. O estudo apresentado pelo PNE 2030 indica uma taxa de crescimento demográfico baseado no Censo realizado no ano de 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A projeção populacional para o Brasil, no ano de 2030, é superior a 238 milhões de habitantes, com uma taxa média de crescimento anual de 1.1% desde o ano 2000. É importante observar que a trajetória desse ritmo de crescimento é continuamente decrescente, como indica o IBGE nos últimos dois censos demográficos. Entre os anos 2000 e 2010, estimou-se uma taxa de expansão demográfica anual de, aproximadamente, 1.4%, com quedas previstas para 1.1% ao ano entre os anos de 2010 e 2020, e 0.8% entre os anos 2020 e 2030. O crescimento demográfico brasileiro deve ser ampliado para cerca de 53 milhões de habitantes no período de 25 anos (2005-2030), valor esse comparável atualmente à população da Região Nordeste, com cerca de 51 milhões de habitantes, ou mesmo da Espanha, com cerca de 40 milhões de habitantes, e da França, com cerca de 61 milhões de habitantes. A evolução da população e sua taxa de crescimento a partir de 1950 até o ano de 2030 é mostrada na Figura 5. A Tabela 5 apresenta a repartição da população por região geográfica, uma vez que os fluxos migratórios afetam a distribuição espacial da população. As Regiões Norte e Centro-Oeste, vistas como as regiões de fronteira do desenvolvimento nacional, aumentam sua participação de 15.1% no ano de 2005 para 16.7% em 2030. Outro ponto importante a ressaltar é a taxa de urbanização da população brasileira, cuja evolução é apresentada na Tabela 6. 33 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I Figura 5. Gráfico ilustrativo para o crescimento demográfico em função do impacto social relacionado à demanda de consumo energético no Brasil Fonte: Ministério de Minas e Energia, 2007. Tabela 5. Projeção de distribuição regional da população brasileira (em milhões de habitantes) 2005 2010 2020 2030 Brasil 185.4 198.1 220.1 238.5 Crescimento (% ao ano) -x- 1.3 1.1 0.8 Região Norte 14.9 16.4 19.2 21.5 Região Nordeste 51.3 54.2 59.2 63.4 Região Sudeste 79.0 84.3 93.6 101.4 Região Sul 27.1 28.8 31.6 34.0 Região Centro-Oeste 13.1 14.4 16.5 18.2 Fonte: Ministério de Minas e Energia (MME), 2007. Tabela 6. Taxa de urbanização da população brasileira (em valores percentuais) 2005 2010 2020 2030 Brasil 83.2 84.7 86.8 88.0 Região Norte 71.7 73.2 75.3 76.4 Região Nordeste 71.6 73.7 76.7 78.5 Região Sudeste 91.8 92.8 94.1 94.9 Região Sul 83.7 85.7 88.3 89.7 Região Centro-Oeste 89.0 90.6 92.5 93.3 Fonte: Ministério de Minas e Energia (MME), 2007. 34 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO Por conta desse cenário demográfico gerado pela formulação de hipóteses para expansão da economia brasileira, tem-se que a renda média per capita do País tende a evoluir,no período de 2005 a 2030, de 1.2% a 4.1% ao ano; porém, isso vai depender unicamente do cenário econômico do momento. A renda média per capita cresce bem mais que a das últimas três décadas em função da implantação das políticas internas de modo eficaz na direção do aproveitamento das vantagens comparativas importantes e da remoção de obstáculos ao desenvolvimento sustentado. Essa renda média elevada não implica uma melhor distribuição de renda, pois depende de outros fatores já mencionados para que possam surgir novos cenários de maior crescimento econômico. Os estudos relacionados à geração e conservação de energia são assumidos por extenso com o GLD. Entretanto, é evidente que a conservação de energia deve ser orientada para as atividades que preconizam evitar desperdícios do setor energético como um todo. A energia elétrica pode ser conservada e os picos de carga reduzidos por alterações de procedimentos que não requerem nenhum investimento, ou por investimentos em eficiência de energia ou medidas de GLD, sendo esse último determinado se o investimento for de custo efetivo. Embora alguns critérios para determinar a efetividade de custo serem amplamente usados, esses tendem a ser arbitrários, pois vão depender especificamente do investidor. A ideia central para o uso final de energia é desenvolver uma estratégia de suprimento energético com custo menor, na qual se podem comparar racionalmente os custos e benefícios do suprimento crescente com a melhoria da eficiência de energia ou na redução de demanda. Deve-se observar que o impacto econômico da conservação energética e do gerenciamento de carga pode ser visto em várias perspectivas: consumidor, sociedade e empresas. Em geral, são desenvolvidas metodologias em que o custo efetivo das medidas de economia de energia elétrica seja avaliado e comparado. O custo efetivo depende da quantidade de investimento adicional, da magnitude da economia de energia, do valor da unidade energética conservada, da vida útil do investimento e do fator de desconto que relaciona benefícios futuros com o investimento presente. Impactos Políticos Nos últimos vintes anos, em função do Plano Real, o Brasil passou a conviver com uma nova realidade por conta do crescimento econômico. Mas, para isso, deveria haver um planejamento de infraestrutura para atender a demanda e a oferta de mercado, tanto na reforma e expansão de portos, aeroportos, rodovias e ferrovias quanto na expansão do setor energético. Contudo, a pretensão do País de assumir papel de destaque no 35 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I ordenamento mundial não poderia vir desacompanhada de uma política energética eficaz. Há exemplos que indicam os impactos causados pela falta de um projeto político- econômico e que resultaram em prejuízos por conta do descuido no setor energético, tais como os apagões ocorridos nos anos de 1999, 2001 e 2009. Mesmo com os avanços em alguns segmentos no campo energético, nos últimos anos, há episódios que expõem a fragilidade do planejamento do setor no País. Aqui, merecem destaque os seguintes casos: » a debatida elevação dos preços do etanol, com uma taxa de 75% em um ano, deixa clara a falta de coordenação entre as políticas econômica e energética; » o estímulo à atividade econômica pelo Governo Federal após a crise econômica de 2008, com a redução do imposto sobre produtos industrializados (IPI) sobre as vendas de automóveis, causa uma elevação expressiva na venda de veículos de passeio, com 10.6% no ano de 2010. Porém, o crescimento da frota de veículos automotores não vem acompanhado por uma política de estímulo à ampliação da oferta de etanol, resultando, portanto, no aumento dos preços dos combustíveis. Outros fatores considerados críticos, que fizeram do Brasil refém da falta desse planejamento, se dão pelo fato de a política dos combustíveis fósseis da Petrobras levar o País a enfrentar uma situação de escassez de recursos de outras fontes, o que compromete o desenvolvimento industrial. Um exemplo disso se dá pela escassez de água nos reservatórios, em bacias hidrográficas, o que compromete a geração de energia nas usinas hidrelétricas. Isso se deve ao clima, pois há uma dependência de chuvas para que os reservatórios fiquem cheios, permitindo, assim, o seu uso por parte das usinas hidrelétricas. A escassez de chuva faz com que sejam ativados outros modelos de geração de energia elétrica, como as termoelétricas, cujos combustíveis são mais caros e poluentes. Há discussões intensas por especialistas sobre a necessidade e a conveniência de se ter um planejamento energético integrado, pois representa um grande avanço conceitual e metodológico. Todavia, se tenta imaginar que esse processo possa ocorrer sob uma única coordenação e com todos os seus componentes se desenvolvendo de modo sincronizado. Essa concepção é fortemente idealizada e difícil de ser concretizada na prática. As relações e interdependências entre diversos níveis de planejamento são complexas no aspecto político. Os acoplamentos dos mais diversos graus de resolução estrutural espaço-temporal estão longe de ser evidentes. A melhoria das interações 36 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO entre esses níveis de planejamento com abordagem mais integrada é uma área que o planejamento energético mal tem dado ainda os primeiros passos. Impactos ambientais O impacto ambiental produzido durante a geração de energia vem sendo discutido mundialmente, mediante a conscientização da gravidade em questão. As concentrações de gases do efeito estufa vêm sendo discutidas desde as últimas décadas do século XX. Foi estabelecido, a partir do Protocolo de Kyoto, em 1997, que parte dos países desenvolvidos deveria atingir a redução média de 5% nas emissões dos gases entre os anos de 2008 e 2012, uma vez que os países emergentes deveriam apenas seguir o princípio de responsabilidade comum, uma vez que o aquecimento global era responsabilidade de todos os países que assinaram o referido pacto. Porém, durante a Conferência sobre o Clima de Copenhague, em 2009, esse pacto não foi ratificado (muito menos prorrogado para vigorar até o ano de 2020), pois os países desenvolvidos não foram capazes de chegar ao consenso para redução drástica das emissões dos gases emitidos na atmosfera. A busca por sustentabilidade requer planejamento e inserção de novas fontes renováveis para geração de energia elétrica e que tenham menor impacto possível no meio ambiente. Isso ocorre devido à conscientização por conta de pesquisas científicas em que o impacto ambiental promovido para o desenvolvimento das Nações seja o limiar desse mesmo desenvolvimento, bem como a causa dos danos, tanto reversíveis e de custos elevados a longo prazo quanto irreversíveis ao homem e ao meio ambiente. A sustentabilidade abrange várias dimensões, sejam elas políticas, sociais, econômicas e ambientais, uma vez que o setor energético está conectado a todas essas dimensões, pois nelas gera impactos benéficos ou maléficos. A possibilidade de desenvolvimento energético sustentável é dinâmica e implica respostas das dimensões socioeconômicas, políticas e ambientais, cujos aspectos, para uma política energética baseada nesse modelo de desenvolvimento sustentável, são: » garantia de suprimento por conta da diversificação de fontes, novas tecnologias e descentralização da produção de energia; » uso, adaptação e desenvolvimento racional de recursos; » custo mínimo de energia; » valor agregado a partir dos usos gerados na otimização dos recursos; 37 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I » custos reais de energia, contemplando impactos ambientais e sociais, devido a represamento, extração, produção, transmissão e distribuição, armazenamento e uso das energias negociadas no mercado, inclusive na definição de métodos específicos de internalização das extremidades. Os impactos ambientaisgerados pela obtenção de energia elétrica interferem no desenvolvimento sustentável e o seu entendimento se faz primordial para a análise de implementação de projetos e planejamentos energéticos. O PRI está inserido no contexto de sustentabilidade, sendo uma ferramenta poderosa para a mitigação de impactos ambientais. Contudo, antes de discutir o papel do PIR no setor energético, em relação aos impactos ambientais, é necessário fazer uma apresentação sobre algumas formas de obtenção de energias renováveis e não renováveis, com foco em seus impactos ambientais. 38 CAPÍTULO 5 Técnicas de análise As técnicas de análise são utilizadas para relacionar a oferta e a demanda energética com os cenários econômicos, ambientais, sociais e políticos. Com base nisso, são apresentados exemplos dessa relação por meio da utilização de algumas fontes utilizadas para a produção e distribuição de energia em função da expansão econômica e, portanto, do desenvolvimento nacional. A disponibilidade de energia elétrica na quantidade e qualidade adequadas, com custos competitivos, se dá por ser um dos mais importantes pré-requisitos para o desenvolvimento econômico de um país. A energia é tratada como um bem de natureza estratégica e não é, por acaso, um dos temas mais relevantes da agenda mundial. O Brasil apresenta-se com nível de desenvolvimento insuficiente, o qual está associado a um baixo consumo específico de energia, à carência de infraestrutura de energia e à concentração do emprego de riquezas naturais. O seu posicionamento no cenário mundial é um fator essencial para o esforço de reverter esse quadro. O País apresenta, historicamente, uma vantagem comparativa no setor energético, devido à abundância de recursos naturais a baixos custos, em termos relativos. Existem desafios a enfrentar para que se empreenda a manter essa vantagem, pois o Brasil assume esse papel essencial na condução dos rumos do setor energético, principalmente em relação às barreiras de mercado e aos conflitos de interesses entre agentes que atuam nesse mercado. Essa ação é empreendida na direção de reduzir a pobreza e de ampliar o acesso à energia para as camadas sociais mais pobres. Recentemente, a preocupação com os impactos ambientais da produção e do emprego da energia, em virtude das emissões de gases e seus efeitos sobre o clima da Terra, tem reforçado a necessidade de regular e definir políticas especificamente orientadas para assegurar a sustentabilidade do desenvolvimento econômico, exigindo planejamento e ação governamental. Nesse cenário, a importância de desenvolver estudos para planejar o setor energético em longo prazo, mediante diagnóstico do quadro econômico e energético nacional e internacional, está na identificação das tendências e dos elementos que permitem orientar a definição de políticas públicas voltadas para assegurar a disponibilidade energética adequada, a universalização de acesso à energia, o emprego mais eficiente dos recursos disponíveis, a minimização de custos e a sustentabilidade ambiental. O setor energético brasileiro não pode prescindir de processos contínuos de conhecimento, sistemático e dinâmico, em face dos desafios de criar condições para a rápida expansão 39 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I de oferta que se aproxima e implementar o processo de diversificação da matriz energética, fundamental para a sua posição estratégica diante do panorama energético mundial. O processo de privatização do setor elétrico brasileiro impôs a necessidade do exame dos instrumentos de planejamento que poderiam contribuir para redução dos problemas enfrentados pelo setor sob a égide do Estado. Porém, um dos problemas mais evidentes detectados foi o descompasso verificado entre a expansão da oferta e as previsões de carga, de médio a longo prazos, elaboradas por um planejamento de caráter impositivo. O caráter indicativo do planejamento energético recomenda que as previsões de mercado e os investimentos para a garantia do atendimento sejam conduzidos em condições adequadas, implicando a redução de incertezas e a adoção de novos parâmetros e métodos de que dão conta essa complexidade envolvendo a indústria energética. Elaboração de cenários O cenário caracteriza-se como uma base fundamental para qualquer exercício de planejamento, na medida em que congrega um conjunto coerente e plausível, não sendo necessário o número exagerado de acontecimentos endógenos e exógenos, envolvendo determinados atores como grupos, corporações, instituições, e, ainda, uma escala cronológica. Os principais propósitos para um cenário são os de organizar, sistematizar e delimitar as incertezas, explorando sistematicamente os pontos de mudança ou manutenção dos rumos de uma evolução de eventos. As técnicas para elaboração de um cenário se dão por meio dos principais instrumentos de trabalho, que são a análise estrutural e a investigação morfológica. A análise estrutural consiste em um esforço de compreensão do objeto, a partir da identificação das variáveis-chave e das relações de causalidade diferenciada, estabelecendo os elos de dependência e motricidade com a articulação de um sistema lógico de determinações do futuro. A investigação morfológica é um recurso simples de combinação de um conjunto reduzido de hipóteses coerentes e consistentes que convergem para a configuração dos cenários, tendo como referência o estudo das estruturas e dos costumes da vida social. Para a elaboração de um cenário, é importante frisar a antecipação das prováveis trajetórias para o período em análise, com a verificação das tendências mais marcantes 40 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO junto com os avanços técnico-científicos e com o crescimento demográfico, o que reforça o reconhecimento dos atores envolvidos. Uma sociedade evoluída é acompanhada por mudanças que ocorrem cada vez mais rápido, envolvendo todos os setores econômicos, cujo futuro não é mais quantificável devido à simples extrapolação de tendências históricas. Há, ao menos, duas formas de atenuação do impacto das incertezas sobre o processo de planejamento: compreensão das relações sociais e delimitação de danos causados pela incerteza. Esta última está relacionada a estratégias que venham garantir resultados que satisfaçam dentro de uma incerteza tolerável, com flexibilidade às decisões a serem tomadas, de forma a adaptá-las às condições plausíveis. A procura de um aprimoramento constante das técnicas de previsão de consumo de eletricidade visa reduzir os desvios entre o mercado previsto e o realizado, notadamente por ser do setor elétrico caracterizado por investimentos de grande porte e lenta maturação. Um exemplo de modelo de eficiência e gerenciamento de energia elétrica foi desenvolvido pelo governo da Bulgária, baseado nos objetivos políticos de competitividade de um Programa de Operações que: » melhore a eficiência e a produtividade de uma tecnologia que seja ambientalmente amigável usada por pequenas e médias empresas; » reduza a intensidade de energia e quaisquer impactos ambientais adversos para promoção de investimentos em ambientes amigáveis, baixa produção de resíduos, tecnologias de produção com economia de energia e uso de fontes de energias renováveis. Ao combinar subsídios, empréstimos e assistência técnica em um instrumento, o programa búlgaro supera barreiras e restrições por meio de planejamento, implementação e execução de projetos de financiamento de energia sustentável, em que as pequenas e médias empresas podem se submeter tanto aos projetos de eficiência energética quanto aos projetos de energias renováveis. Dependendo da escala e da complexidade do projeto, dois principais subtipos de projetos escolhidos no programa são: » projetos orientados para a tecnologia, que são projetos de medidas simples e de escala reduzida, usando tecnologia e equipamentos definidos em uma lista de escolha para materiaise equipamentos; 41 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I » projetos centrados na auditoria energética, cujos projetos são maiores e mais complexos, sendo baseados nos resultados de uma auditoria de energia, que deve ser realizada por uma empresa certificada na área de auditora de energia. A assistência técnica mencionada no programa búlgaro tem a função de fornecer dois consultores assistentes: » um assistente de projeto que assessora a elegibilidade das aplicações do projeto, a observância da regulamentação dos contratos aplicáveis, o fornecimento de informações e aconselhamento para potenciais candidatos e a administração dos programas de bancos de dados e portais de internet; » um assistente de verificação que examina e comprova a implementação bem sucedida de todos os projetos a serem apresentados em relatórios de validação interinos e de realização, assim como na manutenção da lista de escolha para materiais e equipamentos. Há outros exemplos por meio de modelos que buscam aprimorar a otimização energética com base na necessidade metodológica de maior uso de recursos, seja na qualidade estatística, seja no emprego de recursos humanos, com a ajuda de especialistas capacitados na área de planejamento. Assim, torna-se factível desenvolver um grau de entendimento que envolva sensibilidade e capacidade crítica, permitindo uma interferência mais aprofundada nas diversas etapas do estudo. Modelos de previsão de mercado Para uma discussão de novos paradigmas de planejamento de mercado, é importante salientar que as metodologias empregadas no passado e os modelos usados hoje permitem a inserção de variáveis exógenas. A economia global apresenta um processo dinâmico. Assim, ao fazer a correlação do consumo de energia com o desempenho econômico, seja por elasticidade/renda, seja por elasticidade/preço, pode-se conduzir a graves desvios de previsão. Há de se considerar que o processo evolutivo das nações possui características distintas e que os agentes intervenientes de diversos mercados atuam de modo peculiar em cada país, conforme os aspectos socioeconômicos de cada região. 42 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO Modelos econométricos Esses modelos eram utilizados para fazer previsões de demanda, particularmente na previsão de energia. Contudo, eles não expressavam a complexidade da teoria econômica. Eram compostos de equações matemáticas de caráter estatístico, sem induzir a um quadro teórico em particular. Os modelos econométricos não conseguem decompor quantitativamente o peso dos principais agentes intervenientes. Supõe-se que as variáveis se mantenham inalteráveis. Esse fato reduz muito o grau de precisão do fundamento empírico e do valor explicativo das análises de correlação, assim como do emprego dos coeficientes de elasticidade, os quais apresentam uma precisão proporcional à influência simultânea dessas forças sobre o consumo de energia. Apesar desses problemas, esses modelos não devem ser totalmente descartados ou considerados obsoletos. Para um horizonte temporal compatível com base estatística e no contexto estável e regular no crescimento econômico, essas metodologias ainda possuem sua validade quando usadas no horizonte de curto prazo, visto que, em regra, em um intervalo de tempo relativamente curto, não deve haver transformações substanciais na estrutura econômica, social e tecnológica. Modelos técnico-econômicos Esses modelos se baseiam na identificação e representação numérica dos principais mecanismos que explicam os fundamentos do desenvolvimento da demanda de energia, uma vez que procuram expor as necessidades de energia útil de modo mais desagregado possível, incorporando na previsão da demanda de energia, mediante auxílio de cenários econômicos previamente elaborados por especialistas em planejamento, o elemento da incerteza quanto ao futuro. Trata-se de um modelo que visa associar os requisitos de energia útil a indicadores físicos de atividades consumidoras de energia, permitindo que haja isolamento de influências de substituição de energéticos que possuam diferentes graus de eficiência e preços, bem como referenciar os indicadores econômicos e o peso tecnológico no crescimento da demanda de energia. Modelos de insumos-produtos Esses modelos possuem um caráter eminentemente estático; contudo, não devem ser totalmente descartados pelos planejadores. O processo desse método foi concebido sob 43 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I bases sólidas da Matemática e abrange uma série de análises que combinam Estatística e Economia, bem como as demais ciências que contribuíram para a sua formulação. A evolução de diversos agentes intervenientes de uma sociedade passa por etapas de desenvolvimento, cujas mudanças combinam os avanços tecnológicos com hábitos de consumo. Dentro de um processo logístico, pode-se deduzir que, em longo prazo, as mudanças sejam mais sutis, sem que haja forte influência nas necessidades de insumos básicos para se produzir dado bem. Com o tempo, quando houver estabilidade entre vários setores da sociedade, pode-se aplicar esse modelo, pois os coeficientes técnicos de produção vão interagir de modo satisfatório, o que viabiliza o seu emprego nas áreas de planejamento dos principais segmentos da sociedade. Modelo MEDEE/C (Modele d’ Evolution de la Demande Energétique) Esse modelo, de origem francesa, normalmente é aplicado para os horizontes de médio e longo prazos, cujo processo básico está na análise técnico-econômica, do tipo contábil, tendo como principal foco o emprego de energia a ser aplicada à técnica de cenários. Nele, a análise procura identificar os determinantes econômicos, demográficos, sociais e técnicos da demanda de energia final por uso e por setor de atividade, com base nas estatísticas disponíveis. Por meio dessas identificações, é possível fazer a simulação das tendências por meio de cálculos implícitos no modelo, utilizando-se de variáveis exógenas e de cenários econômicos. Essa técnica permite incluir variáveis sob várias óticas, inúmeros impactos sobre as necessidades de energia de todos os setores da sociedade, o que possibilita adequar os recursos por meio de fontes hídricas ou térmicas, por exemplo, de modo a reduzir tanto os custos quanto os impactos ambientais. O grande mérito desse método está na transparência do processo, que permite explorar ações sobre a estrutura da demanda. As maiores dificuldades que recaem sobre o seu emprego está na definição das evoluções e comportamentos socioeconômicos, além da complexidade de manter coerência das relações entre os vários setores. Modelo de requerimentos Esse modelo tem a função de analisar, em separado, cada um dos setores de consumo (residencial, rural, industrial, comercial e transporte). Neles, há uma preocupação de identificar os grupos de consumidores que são homogêneos do ponto de vista energético, isto é, os grupos que tenham consumos específicos, com a mesma estrutura por usos e 44 UNIDADE I │RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO por fontes similares, sendo denominados módulos homogêneos. Porém, não se tem a homogeneidade absoluta, sendo necessário, portanto, definir limites de variação para que esses módulos possam ser considerados homogêneos. O modelo de requerimentos consiste em analisar de forma sequencial os setores de consumo, definindo uma série de estratificações hierarquizadas que permitem a determinação desses módulos homogêneos, respeitando as características do requerimento energético e as possibilidades de seu aproveitamento em função das particularidades setoriais, sendo muito flexível tanto para o usuário definir a configuração dos setores a serem analisados quanto para as suas características próprias do sistema observado. Modelo Message Esse modelo trata de eleger os meios de produção energética que permitem abastecer uma demanda de fontes secundárias,de forma a minimizar os custos de operação e a manutenção ao longo do período observado, permitindo prever o controle das emissões ao meio ambiente por meio de atividades vinculadas ao abastecimento da demanda e ao volume de níveis de concentração de diversos tipos de elementos nocivos. Ele analisa as possíveis substituições entre as fontes de energia existentes em diferentes centros de transformação por meio do nível de consumo final. A técnica empregada nesse modelo está na sua resolução, que é a programação linear contínua dinamizada, sendo que o período de análise é dividido em sub-períodos, de igual duração, e a otimização é feita sobre eles, de forma simultânea, o que corresponde às variáveis do modelo e às quantidades anuais médias de cada sub-período. As demandas são subdivididas regionalmente. No caso da energia elétrica, é possível representar uma curva monótona de duração das cargas, em que uma dada fonte de energia primária pode ser dividida em um número opcional de classes tendo, em conta, o preço da extração, a qualidade da fonte e a localização dos depósitos. Modelo Markal (MARKet ALlocation Model) Esse modelo representa os fluxos de energia que vêm da extração de fontes primárias até a utilização da energia em cada uso final. Ele requer consumo de energia útil para todos os usos em cada um dos setores do consumo em análise. O modelo MARKAL é aplicado para o estudo dos impactos de novas tecnologias a partir da demanda de energia útil, valendo-se de programação linear multiperiódica. Toma 45 RECURSOS ENERGÉTICOS – PLANEJAMENTO E GERENCIAMENTO│ UNIDADE I como objetivo o valor real dos custos do sistema energético por meio da energia útil, além de fazer cálculos do custo marginal de um dado recurso por meio de informações do preço-sombra. Para isso, sua aplicação implica que sejam aventados os custos reais das tarifas e dos preços relativos, incluindo as diversas relações interativas no processo de alocação temporal dos recursos. Ele serve, ainda, como importante instrumento auxiliar nas políticas ambientais, a fim de minimizar a poluição, de acordo com os padrões nacionais ou internacionais, em um horizonte temporal previamente definido. 46 UNIDADE II MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA CAPÍTULO 1 Marketing e comportamento do consumidor O conceito de marketing diz que, para atingir seus objetivos, a organização deve determinar as necessidades e os desejos de seus mercados-alvo e satisfazê-los de modo mais eficiente do que os concorrentes. Na literatura, o objetivo final de toda a atividade de marketing é influenciar o comportamento do consumidor, de modo que sejam acrescentadas as vendas de um produto ou de uma marca. É desse setor de marketing a responsabilidade de influenciar e entender o comportamento daqueles que consomem seus produtos e serviços. O comportamento do consumidor é definido como sendo perceptível a ele, que espera satisfazer seus desejos e necessidades por meio de compras, usos, avalias, descarte de produtos, serviços e ideias. Logo, torna-se claro, por mais que se tenham esforços despendidos, para melhor compreender os motivos que levam alguém a comprar (ou não) um dado bem, pois se trata de um caso de sucesso e sobrevivência para as corporações. Cabe ao profissional de marketing pesquisar a compreensão do processo de decisão e seus fatores influenciadores na resolução final do comprador, para que se possa atingir sobre esses aspectos e gerar um comportamento favorável, por parte do consumidor, para os seus produtos. Todo comprador deve possuir suas próprias características que vêm sendo adquiridas ao longo do processo social de sua vida por meio de inter-relacionamento com grupos de referência. Essas características foram adquiridas pela exposição a uma dada realidade, constituída por fatores sociais, pessoais, psicológicos e culturais. Os consumidores aprendem pela experiência passada e seu comportamento futuro é condicionado pela aprendizagem, que é definida como uma mudança de comportamento ocorrida pelos resultados dessa experiência. À medida que os consumidores adquirem experiência na compra e, consequentemente, no consumo dos produtos, aprendem sobre marcas e características que os levam à preferência de uma marca ou outra. 47 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II O foco do marketing sofreu mudanças com o passar dos tempos. Sua evolução se deu por meio de diferentes focos (institucionais, funcionais, administrativos e sociais). Cada foco tem seus defensores e críticos, e o marketing sempre emergiu com conceitos novos, ampliados e renovados. Pelo marketing, a ideia de satisfazer as necessidades dos consumidores para obter resultados positivos está sendo desafiada; seus argumentos se dão especificamente nos benefícios que um dado bem possa causar na concepção do consumidor e na sociedade como um todo. Entre os tipos de marketing existentes, o social, surgido há mais de 40 anos, permite promover uma mudança nas questões relacionadas ao consumo de bens e serviços, sendo diretamente relacionado em campanhas sociais. A produção de mudanças sociais é difícil com qualquer estratégia, principalmente quando se exige uma resposta voluntária. O marketing social é aplicado no planejamento familiar, na proteção ambiental, na economia de energia, na melhoria da saúde e da educação, da infraestrutura e dos transportes públicos. Ele é a aplicação de tecnologias desenvolvidas no setor comercial para as soluções de problemas sociais, cuja base se dá principalmente na mudança de comportamento dos consumidores com objetivo de melhorar a qualidade de vida, sendo uma tarefa de difícil aplicabilidade do ponto de vista comportamental. A preocupação de evitar desperdício de recursos que são considerados escassos, em especial a energia elétrica, está relacionada ao marketing social, isto é, a um projeto e à implementação e controle de programas que procuram aumentar a aceitação de uma ideia, causa ou prática social em um dado grupo-alvo. Por sua vez, o marketing ortodoxo visa, principalmente, compreender as necessidades e desejos do público-alvo para que ofertas condizentes sejam feitas. Na literatura, há três diferenças entre os dois tipos de marketing mencionados, seja por objetivos, resultados ou produtos (Tabela 7). Tabela 7. Diferença entre o Marketing Ortodoxo e o Marketing Social Marketing Ortodoxo Marketing Social Objetivos Atender às necessidades e aos desejos identificados nos mercados-alvo Modificar as atitudes ou os comportamentos dos mercados-alvo Resultados Principal resultado: o lucro. Atende aos interesses do mercado-alvo Resultado principal: atendimento. Atende aos interesses do mercado-alvo ou da sociedade Produtos Produtos e serviços Ideias (concretizadas por meio de objetivos e serviços) Adaptada de Ikeda, A. A. et al. 1999. 48 UNIDADE II │MARKETING DE COMB ATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA No marketing ortodoxo, tem-se como objetivo primordial tornar a relação de troca lucrativa, tanto para a organização quanto para o consumidor. Já no marketing social, o objetivo primordial é promover uma mudança social planejada, por meio da perspectiva de troca. Quando se tem uma observação de resultados procurados, essa diferença se torna mais evidente, pois a empresa está interessada em obter lucro, como elemento final da gestão de negócios. Por sua vez, a instituição social está preocupada com o atendimento aos interesses da sociedade ou dos grupos adotantes. Por fim, quanto ao produto/serviço, tem-se o caso de empresas de negócios na comercialização de produtos e serviços. Na instituição social, tem-se, normalmente, a ideia social como o produto, que é tangida por objetos e serviços. Programa de combate ao desperdício O programa de combate ao desperdício e do uso racional de energia elétrica tem por objetivo, dentro da filodoxia de programa de gerenciamento de demanda, atuar no setor elétrico pelo lado do consumidor,colaborando para melhorar a expansão desse sistema com vistas a atender a crescente demanda de eletricidade. O sucesso do programa é condicionado à efetiva adesão dos consumidores às alternativas de medidas. Nesse contexto, foram analisadas três alternativas, observando a demanda de energia residencial, principalmente no que se refere ao consumo do chuveiro elétrico, sendo considerado um dos vilões do consumo doméstico de energia, junto com o consumo excessivo dos aparelhos de ar condicionado e de ventiladores no período do verão. A seguir, são apresentadas as alternativas para que os consumidores tenham a consciência de se utilizar adequadamente a energia elétrica, seja em ambiente familiar, seja em ambiente de trabalho: » instalação de um limitador de demanda que, como o próprio nome diz, limita a demanda máxima de energia fornecida para o consumidor durante um período pré-determinado, no horário crítico do sistema elétrico, entre as 14h e as 21 h, chamado de horário de pico. Com esse dispositivo, os consumidores podem usar, simultaneamente, naquele período, só os equipamentos elétricos cuja soma das potências, dadas em watts (W), não ultrapasse um nível pré-estabelecido. Na prática, os chuveiros elétricos não podem ser ligados naquele horário; » instalação de um aquecedor solar de baixo custo, que substitui o chuveiro elétrico, o que permite aquecer a água por meio de painéis de captação de raios solares; 49 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II » implantação de uma tarifa diferenciada a partir do horário de uso de eletricidade, conhecida como binômia-horária, porém que tenha custo elevado no horário de pico, a exemplo das tarifas telefônicas. Pesquisa sobre consumo e combate ao desperdício Pesquisas que relacionam o consumo de energia elétrica da população têm por finalidade investigar as preferências e as considerações de consumidores a respeito das três alternativas mencionadas, cujos objetivos, características, metodologia e resultados são: » Objetivos: identificar as atitudes dos consumidores em relação à reciclagem e ao combate ao desperdício; identificar as atividades e os valores dos consumidores associados à energia elétrica, à sua utilização racional e à sua conservação; verificar o nível de absorção dos conceitos sobre controlador de demanda, tarifa diferenciada e substituição de equipamentos, levantando os pontos considerados favoráveis e desfavoráveis; » Características: consumidores residenciais em uma dada área urbana, estratificada por faixas de consumo médio mensal, com um período para realizar a coleta de dados de consumo energético; » Metodologia: tipo de pesquisa (abordagens quantitativas ou qualitativas), formação e composição de grupos por meio da dinâmica e condução; » Resultados: atitudes e valores relacionados à reciclagem e ao combate ao desperdício de energia elétrica, assim como atitudes e valores relacionados à energia elétrica – vantagens e desvantagens das três alternativas apresentadas. 50 CAPÍTULO 2 Apresentação de soluções de combate ao desperdício e de aumento de eficiência energética em condomínios e empresas comerciais e industriais Em um mundo globalizado, a redução de custos é um fator primordial para aumentar a competitividade. Logo, a administração dos recursos energéticos e a implantação de projetos de eficiência energética são fatores essenciais para se atingir esses objetivos, com foco na redução de custos de produção e de investimento em infraestrutura e energia, otimizando o desempenho econômico das empresas. Desse modo, conhecer a energia que se consome, controlar seu consumo e consumir com eficiência são conhecimentos fundamentais não apenas para uma determinada empresa, mas para todos os usuários de energia que desejam produzir mais, gastando menos com energia e promovendo, ainda, ações de sustentabilidade. Como foram expostas nas informações relacionadas ao marketing social para promover a conscientização da sociedade sobre a importância de evitar o desperdício de energia elétrica por meio de ações planejadas e de aplicações de modelos que permitem o seu uso racional, foram elaboradas várias soluções mediante discussão entre os especialistas da área energética. Entre as vertentes para o combate ao desperdício de energia, destacam-se a Vertente Humana e a Vertente Tecnológica. A Vertente Humana se dá pela captação dos cidadãos comuns e da formação dos profissionais da área tecnológica, induzindo-os a mudança de hábitos e atitudes e habilitando-os a atuar como disseminadores da cultura do combate ao desperdício. A Vertente Tecnológica trata de novas tecnologias (equipamentos e materiais) e suas aplicações na produção e manutenção. Tais inovações, apesar de desempenharem o mesmo papel nos processos, resultam em um consumo menor de energia, sendo responsáveis pela redução dos custos de uma instalação, produzindo mudanças no processo produtivo, na arquitetura das edificações e nas relações entre a concessionária e o consumidor, podendo até ter perspectivas de co-geração e geração própria. Com base nessas duas vertentes, as tendências para que o consumo de energia elétrica seja bem gerenciado, e para que todos os envolvidos nesse cenário (fornecedor, cliente, meio ambiente) ganhem, decorrem: » da união de toda a sociedade; » da consciência ecológica, pois o planeta deve ser preservado das eventuais emissões de carbono ao meio ambiente, oriundas do consumo de energia elétrica; 51 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II » do combate ao desperdício de energia, que tem que fazer parte dos princípios da política das empresas; » da melhoria contínua (qualidade total). A apresentação de um projeto de combate ao desperdício de energia se dá a partir de sua execução por uma Comissão Interna de Eficiência Energética, constituída por um presidente e seus respectivos membros e por uma equipe de apoio administrativo (Figura 6), cujas atribuições são: » participação de licitações que envolvam consumo de energia; » realização de diagnóstico energético; » análise do custo da energia; » proposição de medidas de combate ao desperdício de energia; » conscientização e motivação de todos os colaboradores; » estabelecimento de metas de redução de consumo; » divulgação dos resultados. Figura 6. Composição de uma Comissão Interna de Eficiência Energética Laboratório de Eficiência Energética da Universidade Federal de Juiz de Fora, 2007. Ainda dentro do projeto de combate ao desperdício de energia, os responsáveis por sua execução realizam campanhas educativas periódicas junto à sociedade com o objetivo de promover a conscientização da importância de economizar energia, principalmente quando se têm situações de extrema calamidade causadas por fenômenos naturais 52 UNIDADE II │MARKETING DE COMB ATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA (exemplo: redução dos níveis de água em reservatórios por conta dos períodos de seca e falta de chuvas). Para fazer uma campanha educativa que tenha impacto na sociedade (Figura 7) deve-se: » ter criatividade; » ter o público que se quer atingir; » ter motivação para que todos os membros da comunidade participem do programa de combate ao desperdício de energia; » criar um mascote (forma de marketing para atrair o público infantil e trabalhar nesse público para criar, desde cedo, uma cultura de conscientização ambiental e sustentável); » criar folders, cartazes, slogans, portais na internet para divulgação, entre outros. Figura 7. Divulgação de campanhas educativas de combate ao desperdício de energia elétrica Entre os exemplos de mudanças de hábito e atitudes que fazem a diferença no combate ao desperdício de energia elétrica por meio de divulgação de campanhas educativas, destacam-se: 53 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II » evitar o uso de aparelhos elétricos durante o horário de pico, pois gera maior consumo de energia entreas 16h e as 21h; » evitar que os aparelhos fiquem em stand-by (modo de espera, cujo consumo pode representar 12% do consumo energético de energia), desligando-os da tomada quando não estiverem sendo usados; » adquirir aparelhos elétricos que tenham o selo Procel, do Instituto Nacional de Metrologia (INMETRO), de preferência os de marcação com a letra A, que são os mais aconselhados por serem mais econômicos (consomem menos energia elétrica); » não usar benjamins, pois o acúmulo de ligações da mesma tomada pode causar o seu aquecimento e aumentar as perdas elétricas; » aquecer a água com aquecedores solares, que são os mais recomendados, gerando uma economia na conta de luz e, consequentemente, na preservação do meio ambiente. Quanto aos aparelhos de ar condicionado, têm-se as seguintes orientações para redução de consumo energético: » desligar o aparelho quando o ambiente estiver desocupado; » manter as janelas e as portas fechadas quando o ar condicionado estiver funcionando; » evitar o calor do sol no ambiente, fechando as cortinas e as persianas; » não tapar a saída de ar insuflado do aparelho; » proteger a parte externa do ar condicionado da incidência do sol, sem bloquear as grades de ventilação. Quanto às lâmpadas e aos sistemas de iluminação, são as seguintes as orientações para redução de consumo energético: » evitar o acendimento das lâmpadas durante o dia (usar melhor a luz solar com a abertura de janelas, cortinas e persianas); » apagar as lâmpadas dos ambientes desocupados; » pintar os tetos e as paredes internas com cores claras para refletir melhor a luz, reduzindo a necessidade de iluminação artificial; » substituir lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes, pois estas são mais econômicas e resistentes. 54 UNIDADE II │MARKETING DE COMB ATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA Em relação aos aparelhos de televisão, têm-se as seguintes orientações para redução de consumo energético: » desligar imediatamente o aparelho se não houver ninguém assistindo; » evitar dormir com a televisão ligada; caso tenha recursos de programação, usar o timer. Relativamente aos computadores, são orientações para redução de consumo energético: » utilizar os recursos de economia de energia para desligar o monitor e colocar o computador em estado de espera se eles permanecerem sem uso após um determinado tempo; » não deixar o monitor, impressora, caixa de som, estabilizador e outros acessórios do computador desnecessariamente ligados. Quanto aos telefones celulares móveis, smartphones, tablets, câmeras e notebooks, não se deve deixar que esses aparelhos “durmam” carregando. Basta retirar da tomada quando a bateria estiver totalmente carregada. Em relação ao chuveiro elétrico, têm-se as seguintes orientações para redução de consumo energético: » não usar o chuveiro elétrico em horários de pico (das 14h às 21h), pois é um dos aparelhos que mais consomem energia elétrica; » quando não estiver fazendo frio, deixar a chave na posição verão; » fechar a torneira quando se ensaboar e procurar reduzir o tempo do banho, pois é importante economizar também a água. Quanto ao ferro elétrico, são as seguintes orientações para redução de consumo energético: » evitar ligar o ferro elétrico nos horários em que muitos outros aparelhos estejam ligados simultaneamente, o que ocasiona uma sobrecarga da rede elétrica; » juntar sempre a maior quantidade de roupa possível e passar todas de uma vez; » regular a temperatura, no caso dos ferros elétricos automáticos, passando primeiro as roupas delicadas por precisarem de menos calor; em seguida, 55 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II as roupas mais pesadas, que exigem mais calor, e, após desligar o ferro, aproveitar o seu calor para passar algumas roupas leves. Para geladeiras e freezers, têm-se as seguintes orientações para redução de consumo energético: » não deixar a porta aberta sem necessidade ou por tempo prolongado; » arrumar os alimentos para que sejam rapidamente encontrados e deixar o espaço entre eles para permitir a circulação de ar; » esperar o alimento esfriar antes de guardar e evitar o uso de recipientes sem tampa; » não forrar as prateleiras, pois dificulta a circulação de ar; » não usar as serpentinas atrás do aparelho para secar panos de prato, roupas e calçados. 56 CAPÍTULO 3 Apresentação de Projetos GLD Recapitulando o que foi tratado no Capítulo 2 deste Caderno de Estudos e Pesquisa, o Gerenciamento pelo Lado da Demanda tem como propósito promover mudanças no padrão de consumo de energia entre os consumidores a partir da procura de solução de problemas operacionais e de planejamento, envolvendo-os na operação e no planejamento dos sistemas de energia. Na Tabela 1, desse mesmo Capítulo, foram mencionadas as principais alternativas a serem apresentadas para elaboração de projetos GLD. Aqui, será mencionada, de forma mais detalhada, cada uma das alternativas e suas respectivas possibilidades. Controle de equipamentos de uso final Essa alternativa é considerada uma das áreas com desenvolvimento mais ativo na tecnologia de GLD, cujo principal crescimento está no segmento residencial. Embora contenha cargas menores, esse segmento é o que apresenta maiores possibilidades para gerenciamento de energia elétrica, principalmente por conter a carga inelástica. Para a maioria das empresas, controle de equipamentos de uso final é o segmento com o maior número de clientes. Entre as possibilidades desse segmento, pode-se destacar o controle individual de aparelhos de grande consumo, de uso local ou remoto, mais o incentivo de instalar equipamentos de ar condicionado central, uma vez que seu uso demanda grande potência para climatizar os ambientes de uma residência. Outras possibilidades estão no controle de bombas d’ água para irrigação e abastecimento de reservatórios para consumo familiar e para aquecedores ambientais, muito comuns em países com climas mais frios. Quanto ao aquecimento de água, tanto em áreas residenciais quanto em áreas comerciais, ele é considerado um dos melhores meios para o controle pelo lado da demanda, uma vez que o sistema de aquecimento é uma opção importante em regiões onde o aquecimento de água em chuveiros elétricos responde a um percentual maior de carga nos horários de pico. 57 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II Controle de equipamentos da empresa de energia Muito se pensou que um programa de GLD apenas seria possível com o controle de equipamentos do consumidor final. Porém, há outros tipos de controle de equipamentos da própria empresa de energia elétrica que podem ser tidos como um programa de GLD, tais como os controladores dos alimentadores e os controladores dos fatores de potência. Apesar disso, há questões polêmicas sobre esses tipos de controles envolvendo empresas responsáveis pela geração e distribuição de energia elétrica: há empresas que podem usar com sucesso a redução da tensão para gerenciar a demanda; há outras que a consideram impraticável, pois o argumento usado é que afeta a qualidade do serviço. Sob a ótica dessas duas distinções, o controle e o gerenciamento de seus próprios equipamentos vêm de cada empresa que pode ou não ser considerada um programa GLD. Armazenamento de energia O armazenamento de energia sob a forma de calor foi considerado como uma das primeiras técnicas de gerenciamento de carga e conservação de energia. Essa técnica consiste em utilizar equipamentos fora do horário de pico para armazenar a energia na forma de calor (estando a temperaturas altas ou baixas). Esse estoque de energia será, então, usado para o horário de pico. Um exemplo prático é com um sistema de ar condicionado que, fora do horário de pico, resfria o ambiente, bem como trabalha na produção e no armazenamento de gelo. No horário de pico, o aparelho de ar condicionado é, então, desligado e o seu sistema utiliza o gelo armazenadopara continuar o trabalho de resfriamento do ambiente. Tarifas incentivadas São consideradas as mais importantes entre os programas de GLD, podendo ser o programa em si ou serem usadas tarifas incentivadas em conjunto com outras alternativas. Nesse último caso, essas alternativas dão o direcionamento econômico e a motivação necessários para implementar com sucesso outra alternativa. Desde a gênese do movimento GLD, várias inovações no desenho tarifário foram desenvolvidas, cujas implantações resultaram em sucesso, tais como tarifas diferenciadas no tempo e tarifas de demanda. 58 UNIDADE II │MARKETING DE COMB ATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA Geração distribuída A geração distribuída é outra alternativa de GLD que pode tomar várias formas, tais como geração eólica, solar, geradores de espera, co-geração, pequenas centrais hidrelétricas e demais tipos de geração independentes, desconectadas do sistema. Essa metodologia pode ser implementada e coordenada por empresas para a consecução dos objetivos estabelecidos dentro do programa de GLD. Em vários casos, as alternativas da geração distribuída são levadas a cabo, inicialmente, fora do escopo de um programa de GLD, por vezes por consumidores individuais ou empresas que desejam competir com as empresas de eletricidade. De acordo com a definição dada, a geração distribuída é apenas um programa de GLD em que é a própria empresa de eletricidade quem exerce o controle, sendo direto (quando a própria empresa elétrica opera o sistema de geração distribuída, com acionamento remoto de um gerador da empresa, e quando a configuração de carga do sistema for exigida) ou indireto (é quando se dá por um contrato). Apesar disso, a geração de energia a ser distribuída em forma de carga de base não deve ser entendida como um programa de GLD. Promoções junto aos consumidores As promoções junto aos consumidores são atividades planejadas pelas empresas para motivar as ações dos consumidores na direção dos objetivos propostos por um programa GLD. Essas atividades devem buscar a transformação do programa GLD em um programa da comunidade, envolvendo-a inteiramente com o objetivo de reconfigurar a curva de carga, em especial no que diz respeito à redução da carga de pico. Esse programa leva em conta a premissa de que a maioria das pessoas tem baixa consciência dos conceitos de gerenciamento de carga, mas deverá responder a incentivos indiretos em níveis locais, desde que haja um esforço coletivo entre a empresa e a comunidade. Em um programa de promoções, as comunidades deverão planejar e implantar suas próprias campanhas para encorajar uma redução do emprego da eletricidade. Caso a comunidade tenha êxito, ela recebe, como contrapartida da empresa, incentivos na forma de bens e serviços, que logo resultarão por beneficiar a todos. Cabe às empresas coordenar e aconselhar a comunidade por meio de programas específicos, provendo informações e indicando potenciais alvos, deixando a campanha específica apenas para a comunidade. 59 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II Cada comunidade desenvolve um programa único, requerendo um processo educacional de aprendizagem, podendo ser levado a cabo mediante reunião de grupos e de discussões estruturadas. Programas desse tipo, implantados nos Estados Unidos, resultaram em sucesso, com reduções de até 16% na carga de pico de uma comunidade depois de dois anos de sua implantação. Melhora no desempenho de equipamentos e sistemas O desenvolvimento de equipamentos e sistemas mais eficientes de melhor desempenho impulsionou na viabilização de novas tecnologias no final da década de 1970 do século XX, coincidindo com o aumento dos custos de energia por conta da crise mundial do petróleo. Por conta das inovações tecnológicas com equipamentos mais avançados e mais caros que os tradicionais, tem-se uma análise simples de payback por conta da hipótese de se obter uma energia mais barata, o que ocasiona um desinteresse de desenvolver um equipamento mais moderno e eficiente para tal fim. Todavia, o alto custo da energia se torna um grande incentivo para adotar tecnologias mais eficientes a partir do momento em que leva a uma redução no tempo de payback. 60 CAPÍTULO 4 Exposição de casos bem sucedidos de projetos de conservação Tratar-se-á, neste Capítulo, da publicação no portal da Eletrobras sobre casos de sucesso dos Projetos da Chamada Pública de Conservação e Uso Racional de Energia Elétrica e Água no Setor de Saneamento, implementados pela PROCEL SANEAR, com a divulgação dos resultados obtidos e comprovados por meio da execução das ações previstas. Aqui será apresentado um desses projetos (COPASA/MG), que servirá, para fins didáticos, de referência para análise de cada caso bem sucedido de empresas preocupadas com a redução de desperdícios de energia elétrica e de conservação do meio ambiente. A Companhia de Saneamento de Minas Gerais (COPASA) apresentou um projeto desenvolvido para o sistema de abastecimento de água, que atendia o Município de Lagoa Santa, devido às suas características de baixa eficiência energética, com elevado índice de perdas de água, de perspectiva de expansão no futuro e de possuir uma malha não integrada a outros sistemas de abastecimento da região. Antes da implantação desse projeto, o sistema de abastecimento de água da COPASA para o referido município era realizado mediante o aproveitamento de mananciais subterrâneos no local, usando vários poços profundos, tendo como fonte de alimentação uma bomba de água de poços oriunda do Sistema de Produção de Confins, com capacidade de produzir uma vazão aproximada de 170 l/s, como a unidade mais importante do sistema. Esse sistema também era responsável pelo abastecimento de água do Aeroporto Internacional de Confins, do Distrito Industrial de Lagoa Santa, via derivações da autora de água tratada próximas ao ponto de travessia sob a Rodovia MG 10 (Belo Horizonte-Aeroporto), e de adução e distribuição de água tratada para Estação Elevatória de Água Tratada de Confins e Unidades Reservatórias de Aeroporto, Várzea e Lundcéia, bem como dos demais reservatórios de distribuição, adutoras de água tratada e de redes distribuidoras e alimentadoras, de boosters e elevatórias de menor porte existentes, no total de 15 unidades consumidoras de energia elétrica. A Figura 8 apresenta a ilustração do sistema. Ele foi implementado no período compreendido entre janeiro de 2005 e dezembro de 2007, tendo como principais objetivos: 61 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II » incrementação e multiplicação de ações de conservação de energia e água no âmbito da COPASA, por intermédio de Planos de Revestimento dos recursos economizados após a implementação do projeto; » difusão de conceitos, posturas e tecnologias referentes à conservação de energia elétrica e água, para os profissionais da COPASA, com vistas à redução de custos e aceleração do processo de universalização desses serviços no âmbito da empresa; » estímulo à elaboração e implementação de projetos de conservação de energia elétrica e água, com ênfase em eficiência energética para o setor de saneamento. Figura 8. Layout do Sistema de Produção e Distribuição de Água de Confins pela COPASA Fonte: Eletrobras S.A., 2009. Entre as medidas adotadas pela COPASA, para redução de perdas de água e de energia, foram destacadas: » a aplicação de um sistema de telemetria, controle e supervisão, para melhoria do controle, que possibilitou o melhor controle da operação do abastecimento a fim de evitar situações de intermitência, extravasamentos de reservatórios e demais anomalias decorrentes da falta de controle sobre o processo em geral, sendo fundamental na otimização do controle operacional para redução do consumo específico de energia elétrica e do índice de perdas de água; 62 UNIDADE II │MARKETING DE COMB ATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA » a redução de perdas de água que, por meiode um diagnóstico no sistema com o auxílio de modelo hidráulico, permitiu identificar oportunidades de redução de perdas reais de água ao longo das adutoras, subadutoras e redes de distribuição, além das perdas por extravasamento nos principais centros de reservação da localidade de Lagoa Santa. Pelo diagnóstico, chegou-se à conclusão de que era necessário trabalhar na redução das perdas reais de água na região de Vila Maria, em paralelo com o trabalho de análise das possíveis causas das perdas aparentes, tais como fraudes e imprecisão da micromedição/hidrometração de todo o sistema. A companhia realizou uma pesquisa de vazamentos não visíveis em duas varreduras, e, na área com ocorrência de elevados vazamentos, a vazão no período noturno sofreu uma queda significativa de 13,6 l/s para 4,9 l/s. O fator de pesquisa foi corrigido de 0,57 para 0,27. A equipe de pesquisa da companhia localizou 35 vazamentos em uma extensão total de 30 km de rede, com uma média de 1,16 vazamento/km, sendo que 25 deles eram não visíveis e 10 eram visíveis. Por conta desse trabalho de pesquisa de levantamentos de pontos de vazamentos e identificação de fraudes, foram implantadas medidas destinadas a manter a tendência de redução das perdas de água em níveis mais baixos que os registrados na tabela, com a inclusão de válvulas redutoras de pressão na entrada de setores críticos da região, e à revisão da política de hidrometração adotada. A Figura 9 apresenta o decréscimo do indicador conhecido como ANCR (Água Não Convertida em Receita), cujo patamar foi de 450 l/ligação/dia para 300 l/ligação/dia, cuja redução volumétrica foi de, aproximadamente, 55 m3/ano/ligação. Figura 9. Gráfico ilustrativo do comportamento da ANCR após a implantação de medidas de redução e desperdício de água pela COPASA Fonte: Eletrobras S.A., 2009. 63 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II A redução do consumo energético refletiu-se nos indicadores de consumo específico de energia elétrica, com redução próxima de 1,1 kWh/m3 de água distribuída para 1,0 kWh/ m3, resultando na economia de, aproximadamente, 146.000 kWh/ano (ver Figura 10). Figura 10. Gráfico ilustrativo da evolução do custo mensal de energia elétrica no Sistema de Lagoa Santa Fonte: ELETROBRAS S.A., 2009. Apesar de as metas quantitativas, inicialmente propostas, não terem sido atingidas na plenitude, a continuidade das ações iniciadas com o projeto e a incorporação de melhorias implantadas com os resultados do projeto (reinvestimento) possibilitaram ao sistema obter resultados cada vez mais eficientes em médio e longo prazos. Quanto aos benefícios adicionais, a partir dos resultados obtidos no projeto, a COPASA constatou a necessidade e investiu no sistema e em outros sistemas similares, no que diz respeito aos principais fatores causadores de perdas de água e ineficiência energética observados, como a redução de pressões na rede com a instalação de válvulas redutoras de pressão, a melhoria do controle operacional e a melhoria da eficiência de bombeamentos não incluídos inicialmente no projeto. 64 CAPÍTULO 5 Técnicas de racionalização e conservação de energia As unidades armazenadoras de energia são grandes complexos que consomem elevadas quantidades de energia elétrica, principalmente no uso de motores elétricos do sistema de iluminação. A adoção de equipamentos novos mais eficientes, a substituição de lâmpadas ineficientes e seus acessórios, as análises das demandas de energia elétrica de contrato e da qualidade do seu fornecimento podem levar à racionalização no seu uso. O Brasil dispõe de mais de 7000 unidades armazenadoras convencionais, com capacidade estática acima de 25 milhões de toneladas, junto com outras mais de 7000 unidades armazenadoras a granel, com capacidade estática de mais de 75 milhões de toneladas. Logo, a capacidade total de armazenamento é acima de 100 milhões de toneladas. Entre as várias cargas existentes nas unidades armazenadoras, em termos de consumo de energia elétrica, as mais significativas são aquelas que demandam tração, seguidas de cargas que demandam calor ou frio e iluminação. As cargas mais comumente encontradas são as forças motrizes (49%), fornos elétricos (32%), caldeiras (10%), eletroquímicos (7%) e iluminação (2%). Nas unidades armazenadoras, têm-se as cargas de força motriz, as caldeiras, a iluminação, a correção do fator de potência, a adequação de aparelhos de ar condicionado, refrigeradores, compressores e tarifas que podem contribuir para a racionalização no uso de energia elétrica. Há um grande potencial de economia de energia em unidades armazenadoras em que, em todas as etapas do processo de armazenamento, realizam-se procedimentos que tornam o processo mais eficiente do ponto de vista técnico e econômico. Nesse processo de racionalização, cita-se o exemplo de um motor elétrico, cujo conhecimento dos dados de placa para esse tipo de motor vai possibilitar ao usuário inferir sobre as condições otimizadas de seu funcionamento. Nela, é possível verificar se o motor elétrico é do tipo padrão ou de alto rendimento, valor de corrente máxima em regime de operação para as respectivas tensões de alimentação de rede, potência, número de fases, classe de isolamento, categoria, grau de proteção, tipo de carcaça, fator de serviço, entre outros. Diversas informações sobre o desempenho, em regime de trabalho, do motor elétrico também são disponibilizadas junto com rendimento nominal e fator de potência. Com base nas informações contidas na placa, é possível 65 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II verificar se o motor elétrico é mais ou menos eficiente. Um exemplo é um motor elétrico de alto rendimento, que é mais eficiente que um motor elétrico tipo padrão, em todas as faixas de potência. Nesse caso, a variação no índice de rendimento, para um motor de mesma potência, pode ser de 2 a 8% somente com a substituição de um motor elétrico. A substituição de motores elétricos, tipo padrão, por modelos de alto rendimento, bem como o aumento no número de horas de funcionamento anual, pode apresentar taxas internas de retorno superiores a 60% para situações em que o número de horas de funcionamento anual seja acima de 2000 horas. Os dados citados indicam o grande potencial de viabilidade técnica e econômica da racionalização na utilização de energia elétrica por meio da adequação de força motriz. Quanto à demanda maior de energia elétrica no sistema elétrico brasileiro, devido à entrada conjunta da iluminação pública e dos chuveiros elétricos do sistema residencial, ela se deve à curva de carga típica por conta da sua elevação nos horários de pico, entre as 18 h e as 21 h, com o objetivo de adequar a oferta de energia. Por conta da solicitação de carga do sistema elétrico, foi concebida a estrutura tarifária horossazonal por meio de duas tarifas (azul e verde), de modo a compreender a sistemática de aplicação de tarifas a preços diferenciados, conforme o horário do dia e períodos do ano. Com essa estrutura tarifária, o principal objetivo é prorrogar a necessidade de melhorar a infraestrutura do sistema elétrico nacional, cujos recursos hídricos representam cerca de 97% de todos os recursos para geração de energia no Brasil. A iluminação é responsável por cerca de 23% do consumo em áreas residenciais, 44% no setor comercial e serviços públicos e 1% no setor industrial. Vários estudos indicam que os projetos de iluminação não contemplam soluções de modo correto. A combinação do uso inteligente de iluminação natural, de projetos arquitetônicos eficientes e de uso de lâmpadas, reatores e refletores eficientes nas luminárias, associados a hábitos saudáveis em seu uso, podem e devem ser aplicados no sentido de reduzir o consumo de energia elétrica. Quanto ao planejamento de conservação de energia elétrica, por tudo o que foi exposto neste Caderno de Estudos e Pesquisa, tem-se uma discussão sobre os obstáculosque esse planejamento encontra, de ordem cultural e institucional. Por parte das concessionárias, tem-se uma estratégia empresarial que prioriza o crescimento em detrimento da conservação, o que resulta em uma cultura voltada para a execução e operação de instalações para suprimento de energia. Entre esses obstáculos, destaca-se a impossibilidade de as concessionárias alocarem no custo do serviço os investimentos em conservação e a operação de compra de “blocos de energia” por elas que, no caso de redução de consumo, teriam prejuízo com a distribuição, desestimulando a conservação 66 UNIDADE II │MARKETING DE COMB ATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA nos períodos em que não se tem risco de racionamento. Por parte do usuário, há uma despreocupação quanto à redução do consumo, embora parte da sociedade indiretamente tenha arcado com os custos da energia elétrica muito superiores à tarifa. As estratégias a serem adotadas para superar esses obstáculos devem resultar em dois sistemas de planejamento: um sistema de planejamento integrado, no sentido de contemplar todas as alternativas de conservação viáveis nos seus aspectos técnicos, econômicos e institucionais, e um sistema de planejamento flexível, no sentido de se ajustar às mudanças de cenários interiores, como tarifas e custos marginais, e exteriores, como taxas de inflação e de desconto ao sistema energético. Um sistema de planejamento de conservação de energia é baseado em seis módulos (Figura 11): Figura 11. Fluxograma de um Sistema de Planejamento para Conservação de Energia (LINS; PINHEL, 2007). Modelo de Demanda por Uso Final: A filosofia de modelos de demanda de energia mais desagregados, que representaram melhor as necessidades do mercado consumidor, foi apresentada pelos modelos MEDEE, no ano de 1974. Contudo, a sua implementação deixou muito a desejar, em termos de flexibilidade e operacionalidade, pois não tirou partido das características matriciais do balanço energético e poderiam 67 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II ser mais exploradas pelas planilhas eletrônicas. No início dos anos 80 do século XX, foram produzidos vários trabalhos abrangentes de modo modelado, que utilizaram a metodologia de uso final. Esse modelo teve sua importância em demonstrar a necessidade de uma base de dados que permitia traçar cenários e explicitar estratégias políticas orientadas para priorizar um dado uso final da energia em detrimento de outros, como, por exemplo, a responsabilidade da eletrotermia comparativamente à exportação de eletrointensivos e à ineficiência do uso final de eletricidade na duplicação da intensidade de energia elétrica sobre o Produto Interno Bruto (PIB), ocorrida no Brasil entre os anos de 1975 e 1985. Os níveis de desagregação e a quantificação dos cenários pelo modelo de demanda servirão de inputs fundamentais para a elaboração das curvas de suprimento dos recursos de conservação. Para cada cenário, será elaborada uma curva de suprimento dos recursos de conservação, podendo incluir recursos de custo mais elevado à medida que o custo marginal de expansão do sistema elétrico seja elevado. » Bancos de Dados: Os bancos de dados devem ser sistemáticos e funcionais, de modo a dar o melhor suporte possível aos módulos do sistema de planejamento. A confiabilidade do sistema de informações é fundamental no processo, tornando uma etapa muito importante a definição da estrutura e a origem dos dados. Em um sistema de planejamento de uso final, os dados necessários podem ser divididos em três grupos: » Bancos de Dados Socioeconômicos: Dará suporte na elaboração dos cenários, fornecendo dados como características demográficas, estrutura de produção industrial, composição do PIB. Devem conter, ainda, os custos marginais de demanda e energia elétrica, necessários para definir o portfólio de recursos e a avaliação econômica; » Bancos de Dados de Usos Finais: Servem diretamente para dar suporte na elaboração dos cenários, sendo os dados desagregados por setor e subsetor econômicos e por equipamentos de uso final, na medida do possível. Eles consistem, basicamente, em informações sobre o número de equipamentos, potência e horas de uso. Na obtenção de dados, ocorrem dificuldades importantes como a inexistência de pesquisas em decorrência dos altos custos envolvidos e da falta de pessoal qualificado. 68 UNIDADE II │MARKETING DE COMB ATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA » Bancos de Dados de Características Técnico-Econômicos das Medidas de Conservação: Esses bancos contêm dados como preços de equipamentos menos e mais eficientes, custos de implementação de medidas, eficiência, vida útil. As principais dificuldades para obter esses dados se dão na falta de colaboração de alguns fabricantes, dados sobre vendas e eficiências de diferentes modelos e diferenciais de custos. » Seleção Preliminar de Recursos: Trata-se de uma base de dados preliminares, nos quais são identificados os recursos de conservação passíveis de serem utilizados em um plano de ação. Para isso, esses recursos devem utilizar uma tecnologia comercialmente disponível, com um desempenho e potencial técnico conhecidos, com um custo competitivo frente ao custo de fornecimento de eletricidade no horizonte de planejamento. Esses dados devem ser institucionalmente executáveis e de boa aceitabilidade ambiental. Os levantamentos dos recursos são feitos, ainda, sem uma metodologia que permita uma implementação integralmente confiável. Usa-se uma base de dados composta de pesquisas regionais e de estudos internacionais. » Curvas de Suprimento de Recursos de Conservação: Cada uso final de eletricidade em um dado setor de consumo está associado a um ou mais equipamentos. O estudo do potencial unitário de melhoria de eficiência de cada equipamento leva à identificação de várias medidas de conservação a serem implementadas; cada qual contribui com uma parcela para o potencial unitário de conservação e incorre em um custo associado. Pelas projeções de equipamentos implícitas nos cenários de demanda, é possível determinar a quantidade de energia que será conservada no país a partir da adoção de cada medida de conservação em cada equipamento. Quanto aos custos associados, as despesas com capital, operação e manutenção, que incorrem durante a vida útil na medida de conservação, devem ser consideradas. A curva de suprimento pode ser traçada para uso final por um setor e para um sistema de energia elétrica como um todo. Consiste na representação dos potenciais de conservação do país segundo os custos associados, para cada medida de conservação. No caso de usos finais em setores em que existe grande dificuldade em obter informações em nível de medida de conservação, pode ser necessário plotar segmentos da curva em função de equipamentos ou de uso final, tratando as medidas de conservação de forma agregada. 69 MARKETING DE COMBATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA │ UNIDADE II » Balanço do Consumo Final: A viabilização econômica dos projetos de conservação não depende apenas da demonstração teórica dos seus custos inferiores aos da expansão do sistema, mas do retardamento na execução do cronograma de obras da geração, transmissão e distribuição de eletricidade que esses possam proporcionar. Todavia, a simples demonstração dos potenciais ou metas de conservação, mesmo com base numa metodologia bem estruturada, não são suficientes para provocar uma redução na projeção da demanda e da oferta de energia elétrica. Assim, apesar de o balanço do consumo final não poder servir para redimensionar a oferta de energia e rever o cronograma de obras, ele é um módulo em que se dá um fechamento das projeções do mercado e da conservação. Estabelece, ainda, uma redução, em princípio teórico, da projeção da capacidade instalada e dos custos marginais. Esses últimos são dados fundamentais para determinar o corte superior dos custos dos recursos de conservação e na alimentação do modelo desupervisão econômica. Na medida em que os recursos de conservação estejam classificados segundo os usos finais em cada setor de consumo e que os custos de fornecimento dependem do fator de carga e da tensão de suprimento, é preciso investir na elaboração de uma metodologia que relacione o fator de carga e a tensão de suprimento aos setores de consumo e usos finais, a fim de estabelecer relações de custos realistas entre conservação e fornecimento de energia. Como resultado do balanço do consumo final, tem-se o portfólio final de recursos, apresentando todos os recursos de conservação economicamente competitivos, quantificados anualmente até o horizonte de planejamento. » Análise dos Instrumentos Disponíveis: É uma análise qualitativa feita a partir do portfólio final de recursos, devendo sugerir para cada recurso energético as medidas institucionais viáveis que impliquem transferência de recursos econômicos entre os membros do sistema energético. Essas informações serão fornecidas ao modelo de supervisão econômica. Existe uma diversidade de instrumentos que podem ser analisados, juntos ou isoladamente, de modo a se estimular os agentes envolvidos na implementação das medidas de conservação. Entre esses instrumentos, têm-se: 70 UNIDADE II │MARKETING DE COMB ATE AO DESPERDÍCIO DE ENERGIA › legislação e normas técnicas; › política tarifária; » marketing; » fomento à pesquisa e ao desenvolvimento; » financiamentos, incentivos fiscais, subsídios. » Supervisão Econômica: Consiste num modelo essencialmente quantitativo que tem por objetivo avaliar a rentabilidade de cada projeto de conservação, sob as óticas dos diversos membros do sistema energético envolvidos, e simular a implementação de medidas de ordem institucional (como incentivos fiscais, linhas de financiamento, descontos etc.) necessárias para tornar o projeto atrativo a todos eles. Sendo alimentado pelo banco de dados econômico-sociais e pelo banco de dados de características técnico-econômicas dos equipamentos, o modelo, a cada atualização de dados (tarifas de eletricidade, taxas de desconto do mercado, preço ou vida útil dos equipamentos, por exemplo), poderá indicar a necessidade de alteração das estratégias. » Estratégias de Ação: As estratégias a serem seguidas serão selecionadas a partir da análise econômica à luz dos instrumentos disponíveis para a viabilização dos recursos de conservação. Como há uma grande variedade de parâmetros que influenciam na viabilização dos projetos de conservação, a montagem das estratégias deve ser um processo dinâmico e contínuo, de modo que se possa alcançar os resultados desejados. O intervalo de tempo entre a implementação das estratégias e a obtenção dos resultados é de difícil avaliação, na medida em que não se pode mensurar a inércia dos agentes envolvidos para adotar a racionalidade econômica – depende de fatores psicológicos e culturais. Entretanto, a estrutura de planejamento proposta fornece todos os subsídios para balizar e orientar o estabelecimento das metas de conservação e do cenário de demanda com conservação. 71 Referências BAJAY, Sérgio Valdir. Planejamento Energético: Necessidade, Objetivo e Metodologia (Artigo). Revista Brasileira de Energia. Vol. 1, no 1. Sociedade Brasileira de Planejamento Energético. 2007. BRASIL. MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Eficiência energética e conservação de energia. Portal do MMA. Disponível em: <http://www.mma.gov.br/clima/energia/ eficiencia-energetica>. Acesso em: junho de 2014. BRASIL. MINISTÉRIO DE MINAS E ENERGIA. Plano nacional de energia 2030. 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