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1 www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ ES Estrutura Diafórica do Texto e Inferências INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS ESTRUTURA DIAFÓRICA DO TEXTO E INFERÊNCIAS ESTRUTURA DIAFÓRICA DO TEXTO E INFERÊNCIAS (E DEDUÇÕES LÓGICAS) • dia (palavra latina que significa passagem). • fórica tem formação adjetiva de "afórica", derivado de anáfora. • Anáfora: repetição, reiteração, retomada. • Inferências: deduções, depreensões, deduções lógicas. • Conteúdo do texto A Rotina e a Quimera Sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos que passam a hora do expediente escrevinhando literatura. Não sei se esse tipo de burocrata-escritor existe ainda. A racionaliza- ção do serviço público, ou o esforço por essa racionalização, trouxe modificações sensíveis ao ambiente de nossas repartições, e é de crer que as vocações literárias manifestadas à sombra de processos se hajam ressentido desses novos métodos de trabalho. Sem embargo, não se terão estiolado de todo tão forte é, no escritor, a necessidade de exprimir-se, dentro ou fora da rotina que lhe é imposta. Se não escrever no espaço de tempo destinado à produção de ofí- cios, escreverá na hora do sono ou da comida, escreverá debaixo do chuveiro, na fila, ao sol, escreverá até sem papel – no interior do próprio cérebro, como os poetas prisioneiros da última guerra, que voltaram ao soneto como uma forma que por si mesma se grava na memória. E por que se maldizia tanto o literato-funcionário? Porque desperdiçava os minutos do seu dia, reservado aos interesses da Nação, no trato de quimeras pessoais. A Nação pagava- -lhe para estudar papéis obscuros e emaranhados, ordenar casos difíceis, promover medidas úteis, ouvir com benignidade as “partes”. Em vez disso, nosso poeta afinava a lira, nosso romancista convocava suas personagens, e toca a povoar o papel da repartição com palavras, figuras e abstrações que em nada adiantam à sorte do público. É bem verdade que esse público, logo em seguida, ia consolar-se de suas penas na trova do poeta ou no mundo imaginado pelo ficcionista. Mas, sem gratidão especial ao autor, ou talvez separando neste o artista do rond de cuir, para estimar o primeiro sem reabilitar o segundo. O certo é que um e outro são inseparáveis, ou antes, este determina aquele. O emprego do Estado concede com que viver, de ordinário sem folga, e essa é a condição ideal para um bom número de espíritos: certa mediania que elimina os cuidados imediatos, porém não abre pers- 5m 2 www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ ES Estrutura Diafórica do Texto e Inferências INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS pectiva de ócio absoluto. O indivíduo tem apenas a calma necessária para refletir na medio- cridade de uma vida que não conhece a fome nem o fausto; sente o peso dos regulamentos, que lhe compete observar ou fazer observar; o papel barra-lhe a vista dos objetos naturais, como uma cortina parda. É então que intervém a imaginação criadora, para fazer desse papel precisamente o veículo de fuga, sorte de tapete mágico, em que o funcionário embarca, arre- batando consigo a doce ou amarga invenção, que irá maravilhar outros indivíduos, igualmente prisioneiros de outras rotinas, por este vasto mundo de obrigações não escolhidas. (Carlos Drummond de Andrade) A Rotina e a Quimera 1º parágrafo Sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos que passam a hora do expediente escrevinhando literatura. Não sei se esse tipo de burocrata-escritor existe ainda. A racionaliza- ção do serviço público, ou o esforço por essa racionalização, trouxe modificações sensíveis ao ambiente de nossas repartições, e é de crer que as vocações literárias manifestadas à sombra de processos se hajam ressentido desses novos métodos de trabalho. Sem embargo, não se terão estiolado de todo tão forte é, no escritor, a necessidade de exprimir-se, dentro ou fora da rotina que lhe é imposta. Se não escrever no espaço de tempo destinado à produção de ofí- cios, escreverá na hora do sono ou da comida, escreverá debaixo do chuveiro, na fila, ao sol, escreverá até sem papel – no interior do próprio cérebro, como os poetas prisioneiros da última guerra, que voltaram ao soneto como uma forma que por si mesma se grava na memória. • "burocrata" retoma a "funcionários". "escritor" retoma a "escrevinhando literatura" • "racionalização" = "serviço público" • "vocações literárias" • "processos" tem a ver com burocrata, com funcionários e com rotina. • Se "processos" tem a ver com burocrata, ambiente tem a ver com rotina: quando o autor usa "vocações literárias", "escritor", "escrevinhando literatura", ele quer fazer inferência à quimera. • "sem embargo" quer dizer "apesar disso" (apesar dessa racionalização): é concessivo. • "estiolado": enfraquecido de todo • "forte": antônimo = fraco • "burocrata-escritor" = é o funcionário que, apesar da rotina, não deixa de manifestar as suas vocações literárias. 10m 3 www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ ES Estrutura Diafórica do Texto e Inferências INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS • "ofícios" = "rotina" • "que" retoma a forma do soneto. • No 1º parágrafo, Carlos Drummond diz que há um tal burocrata-escritor, daquele que apesar da rotina (apesar da racionalização) do serviço público, não deixa de manifestar suas vocações literárias. • Só se deve passar para o próximo parágrafo, quando as ideias anteriores estivem real- mente no arquivo mental do candidato. • Quais ideias? As essenciais. • E como se descobre essas ideias? Pela exploração da estrutura diafórica, pela explora- ção da coesão lexical e da coesão gramatical. 2º parágrafo E por que se maldizia tanto o literato-funcionário? Porque desperdiçava os minutos do seu dia, reservado aos interesses da Nação, no trato de quimeras pessoais. A Nação pagava- -lhe para estudar papéis obscuros e emaranhados, ordenar casos difíceis, promover medidas úteis, ouvir com benignidade as “partes”. Em vez disso, nosso poeta afinava a lira, nosso romancista convocava suas personagens, e toca a povoar o papel da repartição com palavras, figuras e abstrações que em nada adiantam à sorte do público. • "literato-funcionário": para não repeti burocrata, o autor usa funcionário. Para não repe- tir escritor, o autor usa literato. • "interesses da Nação": reforça "funcionário" • "quimeras pessoais": reforça "literatura" • "quimeras" tem a ver com sonho/imaginação. • o "burocrata" está preocupado com os "interesses da Nação". • "em vez disso": em vez de corresponder a esses interesses da Nação. • "nosso poeta": nosso "burocrata", "literato", "escritor". • "repartição": "rotina". • No 2º parágrafo, o literato/funcionário, que na verdade é o burocrata-escritor, em vez de corresponder aos interesses da Nação (hiperônimo), recorre às quimeras pessoais (palavras, figuras e abstrações). 15m 4 www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ ES Estrutura Diafórica do Texto e Inferências INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS 3º parágrafo É bem verdade que esse público, logo em seguida, ia consolar-se de suas penas na trova do poeta ou no mundo imaginado pelo ficcionista. Mas, sem gratidão especial ao autor, ou talvez separando neste o artista do rond de cuir, para estimar o primeiro sem reabilitar o segundo. • "poeta": romancista, escritor, ficcionista (um show de coesão lexical) • "neste": cuidado com pronome (preposição em, pronome este). O pronome "este" pode ser catafórico (fazer referência ao que irá dizer), e também pode ser anafórico (desde que seu objetivo seja retomar o termo sintático próximo). • Se o "artista" retoma o "ficcionista", o que será então que quis dizer com o rond de cuir? • "para estimar o primeiro" = o artista. • "sem reabilitar o segundo" = rond decuir • "neste" = o autor 4º parágrafo O certo é que um e outro são inseparáveis, ou antes, este determina aquele. O emprego do Estado concede com que viver, de ordinário sem folga, e essa é a condição ideal para um bom número de espíritos: certa mediania que elimina os cuidados imediatos, porém não abre pers- pectiva de ócio absoluto. O indivíduo tem apenas a calma necessária para refletir na medio- cridade de uma vida que não conhece a fome nem o fausto; sente o peso dos regulamentos, que lhe compete observar ou fazer observar; o papel barra-lhe a vista dos objetos naturais, como uma cortina parda. É então que intervém a imaginação criadora, para fazer desse papel precisamente o veículo de fuga, sorte de tapete mágico, em que o funcionário embarca, arre- batando consigo a doce ou amarga invenção, que irá maravilhar outros indivíduos, igualmente prisioneiros de outras rotinas, por este vasto mundo de obrigações não escolhidas. • "rond de cuir" retoma "funcionário". • "funcionário" determina o "artista". • "fausto" = "riqueza" • "imaginação criadora": "quimera" • "fuga": da rotina • "por este vasto mundo": onde estamos 20m 5 www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br A N O TA ÇÕ ES Estrutura Diafórica do Texto e Inferências INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS • Carlos Drummond mostra nesse último parágrafo que a condição de funcionário deter- minada a condição de artista, porque ele foge da rotina, embarca num tapete mágico para fazer literatura, para se utilizar das palavras/figuras/abstrações. Por isso a rotina e a quimera mais uma vez. No que diz respeito ao conteúdo do texto, julgue os itens que se segue. 1. Somente o funcionário “burocrata-escritor” tem sido criticado pela população. Errado. • O texto começa: "sempre se falou mal de funcionários, inclusive dos que passam hora do expediente escrevendo literatura". • "Inclusive" e não "somente". 2. A verdadeira vocação literária só se manifesta no ambiente do serviço público. Errado. • Porque quando o autor disse que ele escreve em qualquer circunstância (debaixo do chuveiro, na fila, no sol), e pode se manifestar também no serviço público. 3. Infere-se do texto que, no Brasil, o Estado tem, indiretamente, subvencionado a lite- ratura nacional. • Quando o examinador diz "infere-se", quer dizer que está afirmando agora e que não está escrito no texto com todas as letras, mas quer saber se é uma dedução lógica que o candidato verifica no intertexto, com base nos indícios existentes no texto. • "estado" = "Nação" = "Brasil" • "subvencionado" significa patrocinado/custeado. • O Estado, diretamente, patrocina/subvenciona a rotina, mas para fugir da rotina, o lite- rato/funcionário apresentado durante todo o texto, recorre à quimera (literatura). • Então se é uma fuga, o Estado, diretamente, subvenciona a rotina. Mas se para fugir da rotina, o funcionário faz literatura, então é uma fuga, então indiretamente, o Estado subvenciona a literatura nacional. • Há todos esses indícios no texto. 25m 6 www.grancursosonline.com.br Viu algum erro neste material? Contate-nos em: degravacoes@grancursosonline.com.br Estrutura Diafórica do Texto e Inferências INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS 4. Infere-se do texto que a expressão francesa rond de cuir significa burocrata. • O rond de cuir é o funcionário/burocrata. 5. A condição de escritor determina a condição de funcionário público. • A condição de funcionário determina a condição de escritor, porque ele foge da rotina para fazer literatura. 6. Os vocábulos “este” e “aquele” têm como referentes “rond de cuir” e “artista”, respectiva- mente. • Este = rond de cuir • Aquele = artista. �Ob..:� o examinador não pediu a tradução da palavra em francês, e sim a inferência. ��������������������������������������������������������������������������Este material foi elaborado pela equipe pedagógica do Gran Cursos Online, de acordo com a aula preparada e ministrada pelo professor Fernando Moura. A presente degravação tem como objetivo auxiliar no acompanhamento e na revisão do conteúdo ministrado na videoaula. Não recomendamos a substituição do estudo em vídeo pela leitura exclusiva deste material.