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2 HISTÓRIA Professor Alcidélio Camelo A PRÉ-HISTÓRIA PERNAMBUCANA Apesar do árduo trabalho levado a cabo pelos arqueólogos, em especial da UFPE, da UNICAP e da UNIVASF em Pernambuco, um abismo de incompreensão ainda turva o que se sabe sobre período pré-duartino, isto é, anterior à chegada do donatário Duarte Coelho para tomar posse de sua Capitania, em 1535. A própria origem de nossos mais remotos ancestrais ainda não pôde ser satisfatoriamente esclarecida, com a tradicional teoria sobre a migração glacial via Estreito de Behring, há cerca de 12 mil anos, caindo por terra ante os novos indícios, encontrados pela pesquisadora Niède Guidon na Toca do Boqueirão (Serra da Capivara, Piauí), de que os paleoíndios possam ter aqui chegado há pelo menos 50 mil anos pela via marítima, após cruzarem o Pacífico. A datação das cinzas desenterradas em São Raimundo Nonato, mediante a inquestionável técnica do carbono 14, atribuiu-lhes 48 mil anos de idade, mas sobre elas paira a tese de que, ao invés de reportarem a fogueiras feitas por caçadores primitivos, correspondem a resquícios de queimadas naturais. Tesouros de giz na Chapada do Araripe O palco geológico de maior destaque no Estado é a Chapada do Araripe, com 8 mil km² de superfície e uma altitude média de 600m na divisa com o Ceará, consistindo em um dos principais sítios do Período Cretáceo do mundo. A região é especial pelos achados geológicos e paleontológicos desde os primeiros anos do Século XIX, com registros entre 110 e 70 milhões de anos, em excepcional estado de preservação e diversidade. No Araripe está mais de um terço de todos os registros de pterossauros descritos no mundo, mais de 20 ordens diferentes de insetos e a única notação da interação inseto-planta. Há similares destas mesmas espécies na África, vestígio de quando os continentes foram um só, formando a primaz Gondwanna (cerca de 36% do território brasileiro é constituído por maciços antigos que fizeram parte do supercontinente). Os fósseis da "Formação de Santana", um dos setores geológicos da Bacia do Araripe mais ricos em vestígios de peixes, evidenciam a época em que o Sertão era um imenso mar continental, entre 112 e 99 milhões de anos atrás. Nos diversos sedimentos da Formação são encontrados vestígios de peixes, crustáceos, tartarugas, rãs, insetos, sáurios da terra e do ar, únicos no mundo inteiro, bem como maravilhosas plantas. A conservação de partes moles, como a pele de vôo de sáurios e seu conteúdo estomacal, não encontra paralelo. Além dos sedimentos do Cretáceo, também existem depósitos jurássicos mais antigos, como troncos fossilizados de árvores. Há ainda sítios arqueológicos que atestam uma ocupação humana do período neolítico (utensílios de pedra, cerâmica, pinturas rupestres, já com 5 a 7 mil anos). A região, Pólo Gesseiro do Estado, respondendo por 95% da produção de gipsita no país, abriga atualmente o único geopark das Américas, o Geopark Araripe, aprovado e oficializado pela UNESCO em 2006 e formado por uma rede de 9 parques de proteção e preservação de registros geológicos, paleontológicos e paisagens naturais. Lá também está o excelente Museu de Palentologia da URCA, em Santana do Cariri (CE). A criação do Geopark e do Museu, bem como a atuação preventiva e repressiva da Polícia Federal, ajudou a inibir o contrabando internacional de fósseis nesta que é a maior reserva brasileira do tipo. Os “peixeiros”, como são conhecidos aqueles que exploram e comercializam clandestinamente os vestígios, a preços entre R$ 40 e 1.000 por peça, vendem-nos a atravessadores que os distribuem ao Primeiro Mundo, razão pela qual apenas 40% dos restos arqueológicos descobertos na Chapada permanecem no Brasil. Muitos deles estão em 3 museus europeus e são reivindicados pelo Governo Federal. Pré-história e misticismo no Vale do Catimbau Controvérsias à parte, o certo é que há mais ou menos 12 mil anos, durante a transição entre os períodos Pleistoceno e Holoceno, boa parte do território brasileiro já estava ocupado por grupos de caçadores e coletores pré-históricos. Tais grupos são divididos pelos arqueólogos em tradições, estabelecidas de acordo com os resquícios de sua cultura material. À tradição Nordeste pertenciam aqueles que possuíam indústria lítica refinada e faziam belas pinturas rupestres. Há mais ou menos 7 mil anos atrás, esse grupo foi substituído pelas tribos da tradição Agreste, que não dominava as artes, exceto a da guerra. É a esse período de transição que remonta a presença humana mais antiga de que se tem notícia no Parque Nacional do Vale do Catimbau, o 2º maior parque arqueológico do Brasil, perdendo apenas para a Serra da Capivara, no Piauí. Em 1970 foi descoberto um esqueleto datando 6.800 anos em um abrigo utilizado como cemitério pré-histórico, atualmente em exposição no Museu Municipal de Buíque. Com uma superfície de 90 mil ha, o Vale do Catimbau estende-se entre os Municípios de Buíque, Ibimirim, Inajá e Tupanatinga, fazendo fronteira com a reserva indígena federal Kapinawá, localizada na serra da Mina e onde vivem cerca de 400 índios. Primeiro Parque Nacional terrestre de Pernambuco e uma das oito unidades federais de conservação que preservam o bioma da Caatinga, é cortado por dezenas de trilhas que revelam elementos naturais exóticos e surpreendentes, em razão dos quais sempre esteve associado ao místico e ao sobrenatural. Suas formações geológicas constituem um verdadeiro espetáculo visual, com composições areníticas oscilando entre 50 colorações, as quais datam de mais de 100 milhões de anos, e rochas cujos formatos sugerem a silhueta de animais, pessoas e construções, como a Pedra do Cachorro, a do Elefante (próxima à reserva indígena) e a Serra das Torres. Na Vila do Catimbau, a Associação dos Guias disponibiliza profissionais aptos a acompanhar e orientar os visitantes durante o passeio. Segundo pesquisadores da UFPE, os antigos habitantes do lugar eram grupos caçadores-coletores do Período Holoceno que não apresentavam domínio da cerâmica e moravam em cavernas (tanto é que, das cerca de 200 grutas e cavernas existentes no Vale, pelo menos 28 guardam vestígios de sepultamentos). Dos 23 sítios arqueológicos com grafismos rupestres já catalogados pelo IPHAN no Parque, o maior e mais importante é o Alcobaça, situado em um paredão rochoso com configuração de anfiteatro. Lá foram encontradas pinturas rupestres em um painel de 60m, ocupando uma área de 50m de extensão com largura variando entre 2 e 3m. Já a pedra da Concha apresenta um painel de 2,3m por 1,5m, albergando inscrições com figuras humanas, animais e desenhos geométricos em tons ocre. São imagens isoladas que não compõem cenas, com predominância da tradição Agreste. Acredita-se que foram utilizados nas pinturas pigmentos metálicos e não metálicos misturados a pigmentos orgânicos, como genipapo e urucum. Cemitérios arqueológicos na Furna do Estrago Escavada pelos arqueólogos da UNICAP, a Furna do Estrago, abrigo sob rocha localizado no Município de Brejo da Madre de Deus, é um dos mais importantes sítios arqueológicos do Brasil. Formado pelo desabamento de um grande bloco de rocha granítica no sopé da Serra da Boa Vista durante as glaciações, o abrigo foi preenchido por blocos de rocha e sedimentos soltos pelo intemperismo físico, transportados em violentas precipitações torrenciais. Constituído por um único salão de 125m² de área coberta, com abertura voltada para nordeste, o abrigo é bastante arejado, seco e iluminado, e diante dele se estende um patamar delimitado por grandes blocos de rocha granítica, alguns contendo arte rupestre. Da sucessiva utilização do sítio como habitação por grupos caçadores-coletores numa sequência temporal de aproximadamente 10 mil anos, resultou uma estratigrafia em que predominam 4 aslentes de fogueiras superpostas, formando pacotes de cinzas, e sedimentos finos, soltos, secos, de cor parda, contendo restos alimentares e toscos artefatos de pedra e osso. Há cerca de 2 mil anos, a Furna passou a ser utilizada como cemitério. Os depósitos feitos pelo homem desde o início do Holoceno foram intensamente perturbados com a abertura de dezenas de fossas funerárias. Apenas uma área próxima do fundo do abrigo permaneceu intacta e foi tomada para estudos. Da ocupação do sítio como cemitério resgataram-se 83 esqueletos humanos encontrados em bom estado de conservação. As condições ambientais favoreceram a rápida desidratação da matéria orgânica e a preservação da pele, dos cabelos e do cérebro em alguns indivíduos, bem como do artesanato em palha utilizado no ritual funerário. É de notar a persistência de um padrão de sepultamento em que os corpos eram colocados na posição fletida (fetal), amarrados com cipós e embrulhados em esteiras de folhas de palmeira, compondo verdadeiros fardos funerários. Os recém- nascidos eram depositados em pequenos cestos ou em espatas de palmeiras e não levavam adornos, ao passo que os adultos estavam acompanhados de colares e alguns levavam flautas ósseas e tacapes. Estudos de antropologia biológica realizados sobre esses esqueletos revelaram tratar-se de uma população homogeneamente braquicéfala, de estatura média-baixa, robusta, com estado de nutrição satisfatório e boa adaptação às condições ambientais. O acentuado desgaste plano dos dentes e a ocorrência de poucas cáries nesses indivíduos indicam uma alimentação à base de vegetais não cozidos, característica observada em grupos caçadores coletores. Esse grupo humano pré-histórico era portador de patologias como a espinha bífida oculta, atribuída ao consumo de batatas tóxicas, variação numérica das vértebras (presença de uma vértebra a mais no sacro e na região lombar), consequência de casamentos consanguíneos, osteofitose e artrose, além de fraturas frequentes decorrentes de quedas sobre a bacia e os pés. Boa parte do material resgatado na Furna, bem como artefatos em cerâmica, fragmentos de pinturas rupestres e material lítico, encontram-se em exposição nos Museus Histórico do Brejo da Madre de Deus e de Arqueologia da UNICAP, no Recife. As sociedades indígenas da Pré-história Pernambucana Quando, em 1500, o português Pedro Álvares Cabral aportou na Bahia, praticamente todo o litoral brasileiro estava ocupado por tribos do grupo Tupi- guarani. Havia meio século, Tupinambás e Tupiniquins tinham assegurado a posse da costa, expulsando para o interior as tribos por eles consideradas "bárbaras", chamadas Tapuias. Entre a foz do Rio Paraíba e a Ilha de Itamaracá, compreendendo os atuais Litorais Sul da Paraíba e Norte de Pernambuco, viviam os Tabajaras, em número de 40 mil, os quais se aliaram aos portugueses. Já os Caetés, mais ou menos 75 mil indivíduos, povoavam a faixa de terra entre a Ilha de Itamaracá e as margens do São Francisco, no Litoral Sul pernambucano e em todo o alagoano. Deglutidores do Bispo Sardinha, foram considerados "inimigos da civilização" e exterminados. Apesar do grande genocídio em que se traduziu a colonização como um todo, aproximadamente 25 mil remanescentes dos primitivos habitantes de Paranampuka, que em tupi significa "o mar que bate nas pedras", ainda habitam o Estado, espalhando-se pelo interior e constituindo a 4ª maior população indígena do país, atrás apenas das do Amazonas, do Mato Grosso e do Pará. De todos os "costumes bárbaros" que possuíam os nativos de Pindorama, nenhum se revelou mais espantoso e odioso aos olhares europeus que o canibalismo. Na Capitania de Pernambuco, o assunto veio à tona de maneira impactante. Em 1556, a caravela que transportava para a Metrópole o 1º Bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, naufragou no atual Litoral Sul alagoano, e, após mil peripécias, os cerca de 100 sobreviventes - crianças, adultos e 5 idosos - que alcançaram a praia foram mortos e devorados pelos Caetés, que os aguardavam ansiosos. Apenas 1 português e 2 indígenas que compreendiam o idioma dos nativos conseguiram escapar. O Bispo foi, por assim dizer, o "prato principal" do banquete antropofágico, com sua carne trucidada sendo servida como uma especialidade. Curiosamente, consta que, desde então, o terreno no qual caíra o alto prelado da Igreja tornou-se estéril. A carnificina resultou na violenta perseguição aos Caetés, tradicionais aliados dos franceses e inimigos ferrenhos dos lusitanos, e em sua exterminação no intervalo de 5 anos. Até hoje, todavia, não há consenso sobre o assunto. Para alguns, a animosidade dos Caetés em relação aos portugueses era notória desde a destruição de sua aldeia Marim pelo donatário Duarte Coelho em 1535, lugar no qual viria a ser fundada Olinda. Empurrados para o Cabo de Santo Agostinho e, dali, cada vez mais para o sul, envolveram-se em inúmeras batalhas com os colonizadores lusos. Há quem defenda, porém, que a atribuição da carnificina aos Caetés foi uma farsa promovida pelos 3 sobreviventes de modo a motivar a perseguição à tribo, senhora das valiosas terras que posteriormente serviriam tão bem à próspera empresa açucareira nordestina. Assim, a autoria da tragédia envolvendo o Bispo recairia sobre os Tupinambás, tradicionais habitantes das terras para além da foz do Velho Chico. O fato é que o episódio chamou a atenção do Velho Mundo para o fenômeno da antropofagia, que tinha a vingança como principal objetivo e era praticada por quase todos os Tupi e Tapuia, com requintes tétricos que disseminaram espanto e horror entre os europeus. A nação Tapuia mais importante do interior do Nordeste era a Cariri, que contava com 22 grandes tribos na região e cerca de 20 mil indivíduos. Suas principais ramificações em Pernambuco eram os: Xucurus, na Serra do Ararobá (Pesqueira) os Garanhuns, na Serra homônima os Carnijós ou Fulni-ôs, no vale do Rio Ipanema (Águas Belas) os Pankararus, na Serra de Tacaratu. Em volta da capela de Nossa Senhora das Montanhas (1669), fundada pelos oratorianos na Serra do Ararobá, surgiu a povoação de Monte Alegre, futura Vila Real de Cimbres (1762). Cimbres foi um lugar de ensino direcionado aos índios durante mais ou menos dois séculos, contando, inclusive com o famoso "Colégio dos Índios do Ararobá", estabelecimento de ensino profissional. Com o decorrer dos anos, todavia, a outrora garbosa povoação foi entrando em declínio e viu a liderança regional passar à vizinha Pesqueira, localizada no sopé da Serra e, portanto, muito mais acessível. Em 1813, interrompeu-se a assistência aos cerca de 245 xucurus que viviam na Vila, já considerada muito pobre para seguir alimentando- os, e remontam daí os principais conflitos com a tribo, ainda hoje motivo de instabilidade na região. Em 1879 foi declarado extinto o aldeamento de Cimbres, cessando a tutela governamental sobre os índios, e suas terras foram entregues à Câmara para redistribuição a título de venda ou cessão a terceiros. Em retaliação, os nativos começaram a atritar-se com aqueles que promoveram o esbulho de seus domínios. Num lugar que se orgulha de haver surgido voltando-se à proteção dos silvícolas, persiste a vergonhosa situação de a demarcação das terras daqueles nunca haver sido efetuada. Tal demarcação vem sendo sistematicamente pleiteada desde 1980, bem como violentamente repreendida pelos cerca de 280 fazendeiros da região, havendo resultado em quase 30 mortes, dentre as quais a do famoso Cacique Chicão. As tribos indígenas atuais Hoje em dia, existem legalmente em Pernambuco 7 grupos indígenas, apesar de serem 10 as etnias remanescentes dos Cariris. As 7 são: os Xucurus (Pesqueira) os Fulni-ôs (Águas Belas) os Kapinawás (Buíque) os Pankararus (Petrolândia e Tacaratu), os Kambiwás (Ibimirim, Inajá e Floresta) os Atikuns (Carnaubeira da Penha) Trukás (Cabrobó). As outras 3 são os: 6 Tuxás (Inajá) os Pankarás (Itacuruba) Pipipãs (Floresta). PERÍODO PRÉ-COLONIAL (1500-1530) A tomada de posse dos portugueses sob os territórios coloniais brasileiros foi marcada por uma ocupação lenta e gradual. A urgência em obter lucro com a exploração mercantilista deixou o Brasil em segundo plano nos projetos econômicos do Estado Português, na época, bem mais preocupado em consolidar pontos comerciais na África e na Ásia. Paralelamente, a ausência de metais preciosos ou outros produtos de interesse no mercado europeu também inviabilizou a exploração imediata do território. O alto investimento exigido para o desenvolvimento de atividades exploratórias e o pequeno contingente populacional fizeram com que as expedições portuguesas se limitassem à investigação dos territórios, a coleta de recursos naturais e o combate aos contrabandistas estrangeiros. Em 1501, um grupo liderado por Gaspar de Lemos nomeou algumas regiões do Rio de Janeiro e Bahia, e confirmou a presença de pau-brasil no território. Dois anos mais tarde, o explorador Gonçalo Coelho criou feitorias no litoral fluminense que seriam utilizadas no armazenamento das toras de pau-brasil a serem transportadas para Europa. Em cada uma dessas feitorias havia a figura de um feitor responsável por assegurar os domínios da Coroa. Seguindo a lógica de exploração mercantil, Portugal tinha monopólio sob a exploração de pau-brasil. Somente uma pequena parcela de exploradores, como Fernando de Noronha, tinha concessão da Coroa para exploração. As populações indígenas foram utilizadas como mão-de-obra na extração do pau-brasil em troca de pequenas armas e mercadorias. Nesse primeiro momento, a parceria entre os colonizadores e indígenas era marcada por uma relação mais próxima e amigável. Contudo, na medida em que os colonizadores portugueses adentraram o território, encontraram outras populações nativas que lutavam contra a invasão promovida pelos europeus. Passadas as primeiras três décadas da incipiente colonização lusitana, o interesse de navegadores de outros países europeus ameaçava os domínios de Portugal no Atlântico Sul. Em 1526, o rei dom João III ordenou o envio de expedições punitivas incumbidas da missão de expulsar as embarcações e contrabandistas estrangeiros. A missão comandada pelo navegador Cristóvão Jacques afundou uma embarcação francesa e perseguiu vários de seus tripulantes. Nessa mesma época, a crise do comércio com os povos do Oriente acabou contribuindo para a ocupação efetiva das terras brasileiras. Com isso, em uma atitude completamente pioneira, o governo de Portugal decidiu destinar recursos, maquinário e mão- de-obra para o desenvolvimento de atividades que gerassem lucro e ocupassem a colônia. Em 1530, Martim Afonso de Souza foi enviado com o objetivo de iniciar as primeiras atividades de exploração. Entre outras tarefas, a expedição de Martim Afonso deveria percorrer o litoral e o interior em busca de metais preciosos; formar novos núcleos de povoamento; realizar a expulsão das expedições estrangeiras que aqui estivessem e estabelecer locais de exploração próximos às regiões do Rio da Prata. Chegando aqui, Martim Afonso formou dois grupos destinados para o norte e o sul do território. Em 1532, criou a vila de São Vicente, primeiro núcleo que deu origem à cidade de São Paulo. Com o declínio do comércio oriental, a preocupação portuguesa com a vinda dos franceses, a ausência de povoados e a ambição por metais preciosos tem-se a primeira expedição colonizadora, chefiada por Martim Afonso de Sousa, em 1530. Cabe a ele a fundação da primeira vila, São Vicente, em 1532 e o início da distribuição de sesmarias (lotes de terras) aos que se dispusessem a cultivá-las. HISTÓRIA DOS ÍNDIOS DE PERNAMBUCO A história dos povos indígenas de Pernambuco, como a dos demais índios brasileiros, é tarefa ainda a ser realizada. Ao pesquisador se oferecem, como ponto de partida, as dificuldades provocadas pelo fato de que nossos índios não tinham uma linguagem escrita, e que na história do Brasil os personagens indígenas aparecem como o quase animal a ser domado ou exterminado, e não como um semelhante que merecesse do europeu conquistador um tratamento semelhante ao dispensado pelos historiadores e antropólogos modernos. Assim, é na história da formação da sociedade brasileira que estão escritos, de forma nem sempre precisa, os poucos dados existentes da história indígena, e do processo que significou a quase extinção dos habitantes originais deste país. 7 Se por um lado, a sociedade brasileira assimilou, além da contribuição à sua formação étnica, usos e costumes indígenas, por outro, não lhe foi ensinado a valorizar a participação do elemento indígena na alimentação, no português aqui falado, na habitação pobre de milhões de brasileiros que vivem em casa de taipa, nos utensílios usados, etc. deixou-se de aprender que nomes como Gravatá, Caruaru e Garanhuns, para citar apenas alguns municípios de Pernambuco, assim como até mesmo bairros do Recife, como Parnamirim e Capunga, estão associados a antigos locais de moradia dos índios. Esta mesma contradição é encontrada no estudo da colonização portuguesa em terras pernambucanas que encerra por um lado aspectos de esforço e tenacidade por parte dos portugueses e apresenta ao mesmo tempo exemplo lastimável e brutal de extermínio do elemento indígena. Como em outras regiões do Brasil, a ocupação do território pernambucano se iniciou pela costa, nas terras apropriadas ao desenvolvimento da agroindústria do açúcar, empreendimento em cujo o início o indígena servia de braço escravo nos engenhos e no trabalho das lavouras principalmente nos estabelecimentos que não comportavam o dispêndio de capital exigido pelo elemento africano. Marcando o fim de um primeiro período de povoação caracterizado por aparente tranquilidade, a reação dos indígenas a tal regime de trabalho e exploração, cedo se fez sentir na forma de hostilidades, assaltos, devastações de engenhos e propriedades, promovidos principalmente pelos Caetés, temíveis ocupantes da costa de Pernambuco, e, posteriormente também pelos Potyguaras que habitavam no extremo norte de Pernambuco e pelos Tabajaras, estes antigos aliados dos portugueses. A ação violenta dos portugueses foi redobrada quando foi morto o primeiro bispo do Brasil, acontecimento que motivou a resolução régia estabelecendo escravidão perpétua aos Caetés. na prática, tal medida se estendeu a todos os demais indígenas do litoral e deu caráter legal ao regime primário de esbulho, escravidão e morte instituído pelos chamados nobres que aqui se instalaram. Desde então, a guerra contra os indígenas tomou caráter sistemático, atenuada apenas quando da aliança de muitas tribos com os franceses e os holandeses que disputavam aos portugueses o domínio da terra, exceto nessas ocasiões, restou aos índios sobreviventes o recurso de emigrar para mais longe da costa. A prosperidade do empreendimento colonial, entretanto, dependia enormemente do gado que, além de produto básico de alimentação servia como agente motor e meio de transporte, dando origem à primeira fase de expansão da pecuária que se transformaria rapidamente na forma mais generalizada de ocupação das terras do interior nordestino. No litoral, a agricultura e a criação de gado mostraram-se desde cedo incompatíveis, e, em defesa das plantações, promoveu-se a retirada dos currais para o interior, distante dos engenhos, dos canaviais e dos mandiocais. Nos fins do século XVIII, vastas extensões do médio São Francisco estavam ocupadas, e o estabelecimento de currais se faria também em direção ao norte, ao longo do vale do Rio Pajeú, atravessando Pernambuco e, em seguida a Paraíba,o rio grande do norte, e a oeste, o Piauí. Iniciou-se também nas novas áreas ocupadas a distribuição da sesmarias para as quais eram atraídas vastas populações para fundar os currais. As relações entre criadores e indígenas eram bem menos hostis que entre estes e os senhores de engenho, os grupos mais acessíveis ao convívio com os novos donos da terra e ao trabalho mais ameno nas fazendas de criação permitiu a aliança entre brancos e índios embora isto não impedisse que várias guerras fossem necessárias para expulsar ou exterminar as muitas tribos que se opuseram tenazmente à invasão do seu território, para reforçar a ação dos criadores contra as nações rebeldes, convocaram-se inclusive os serviços dos paulistas, experientes exterminadores de índios, muitos dos quais permaneceram como povoadores das terras que foram desocupadas. A sobrevivência das tribos que não procuravam refúgio em locais remotos, era possível apenas quando a serviço dos interesses dos criadores contra outros proprietários ou mesmo contra outros povos indígenas, e não assegurou às tribos aliadas a posse de suas terras. Nos dois primeiros séculos da colônia, as missões religiosas foram à única forma de proteção de que dispunham os índios. Após a expulsão dos jesuítas em 1759, os aldeamentos por eles criados, e de cujo início quase nada se sabe, permaneceram sob a orientação de outros religiosos e foram posteriormente entregues a órgãos especiais. Entretanto, o trabalho desempenhado pelas juntas de missões e pelos governadores de índios e as atenções dispensadas aos primitivos habitantes do nordeste durante o império em nada contribuíram para impedir as explorações e injustiças de que continuaram sendo alvo as tribos que conseguiram alcançar o século XIX. 8 Das nações que originalmente povoaram o estado, salvo poucos sobreviventes, quase além dos nomes daquelas aldeadas por missionários religiosos está registrado na história de Pernambuco. Embora a atividade missionária se tivesse iniciado desde o século XVI, até os fins do século seguinte apenas sobre cerca de vinte aldeamentos existem referências, destes, os cinco mais ou menos localizados são: o de são Miguel ou serigi, fundado em 1591 em terras do atual município de Paudalho, um aldeamento Caeté em Ipojuca, o aldeamento de são Miguel de Iguna e dois no Recife, um na estrada do Parnamirim e outro na localidade de Salinas, no atual bairro de Santo Amaro. Nos séculos XVIII e XIV uma quantidade indeterminada de índios foi aldeada sem, aparentemente, nenhum registro dos seus locais de procedência, são os aldeamentos: dos índios Garanhuns, próximo à cidade de mesmo nome, dos Carapotó ou Carnijó ou Fulni-ô, em Águas Belas, dos Xukuru, em Cimbres, na Serra do Ororubá, dos Porcás, em Nossa Senhora do Ó, a aldeia dos Paratiós, próxima de Cimbres, diversas aldeias dos índios Argus que se espalhavam desde a serra do limoeiro na atual cidade de mesmo nome, a aldeia de Arataqui na Freguesia de Tacoara, a aldeia de Barreiros ou do Umã, a aldeia de Escada, o aldeamento terras do rei, em Altinho, a aldeia da tribo Arapoá-assu nas ribeiras dos rios Jaboatão e Gurjaú, a aldeia do Brejo dos Padres, de índios Pankaru ou Pankararu, e finalmente aldeamentos em Taquaritinga, Brejo da Madre de Deus, Caruaru e Gravatá. Ainda no século XIX, duas áreas do estado se destacavam pelo grande número de aldeamentos encontrados: a região do atual município de Floresta e diversas ilhas do rio São Francisco. Estas foram exatamente as primeiras áreas interioranas que mais sofreram com o processo de despovoamento decorrente da expansão pastoril no nordeste, e se constituíam o habitat natural das tribos que ali permaneceram sob a proteção missionária. Na primeira encontram-se os índios Umãs e Vouvês no Olho d’água da Gameleira, em Cabrobó, os índios Pi-pi-pã e Avis num local indeterminado entre os rios Moxotó e Pajeú e a Serra do Periquito, os índios Xocó nas cabeceiras dos rios Piancó e Terra Nova, o aldeamento da baixa verde composto de índios Vouvês, Carateus, Umãs e Pipães e a Serra Negra, local que durante muitos anos serviu de refúgio a inúmeras tribos não identificadas e perseguidas por fazendeiros das vizinhanças. No rio São Francisco, as aldeias localizadas são as de Nossa Senhora da Conceição, na Ilha do Pambu, de São Félix, de índios Tuxá na ilha do Cavalo, a de são Francisco, de índios Aracapás, a de santo Antônio, na ilha irapuã, a de N.S.ª da piedade, na ilha do Inhamum, a de N. Senhora do Pilar, de índios Tamaquéus, a de Santa Maria, em três ilhas contíguas no município de Boa Vista e a de Assunção, na ilha de mesmo nome, no município de Cabrobó. O levantamento é incompleto e calcado apenas parte de fontes ainda a serem extensivamente exploradas, esta informação torna-se particularmente significativa ao se considerar que, segundo relatório do governo da província de Pernambuco publicado em 1873, dos aldeamentos acima citados restavam apenas 07 na segunda metade do século passado: o de escada, o do riacho do mato, o de barreiros, o de cimbres, o de Águas Belas, o do brejo dos padres e o da ilha de assunção desaparecimento de tantas tribos é explicado pelas diversas formas de alienação de terras indígenas postas em prática no nordeste, ou da resolução do governo em determinada época de extinguir os aldeamentos existentes. destas últimas 7 aldeias algumas não alcançaram nossos dias; os povos que compõem as restantes, os Xucuru, os Fulni-ô, os Pankararu e os Truká, foram acrescidos os Atikum, os kambiwá e os kapinawá, identificados mais recentemente, como grupos indígenas ainda existentes em Pernambuco. SISTEMA COLONIAL NO BRASIL A constituição do Sistema Colonial no Brasil, como no restante da América, é um desdobramento da implantação de uma ordem capitalista na Europa Ocidental. No caso brasileiro, o interesse da metrópole é mais intenso pela cana e pelo ouro, devido à valorização desses produtos no mercado externo e à crescente situação de dificuldades financeiras e econômicas de Portugal. Vê-se, aqui, o Colonialismo tradicional, baseado no monopólio (Pacto Colonial) e na escravidão negra, com uma organização política marcada por um grau cada vez mais elevado de centralização, em Lisboa. Destaca-se também a ação dos jesuítas católicos no trabalho de catequização (submissão) dos nativos e imposição dos padrões culturais europeus à terra. Apesar de tudo, a acumulação de capitais em Portugal não permite um desenvolvimento estrutural da metrópole, o que leva à dependência com a Inglaterra. As necessidades portuguesas refletem-se no Brasil, onde o fiscalismo e a tributação chegam a níveis insuportáveis, sobretudo no século XVIII, época da mineração, levando a exploração da Colônia ao grau máximo. Essa situação provoca o 9 questionamento da própria existência do sistema colonial, por parte da população brasileira. CAPITANIA DE PERNAMBUCO A Capitania de Pernambuco foi uma das subdivisões do território brasileiro no período colonial. Abrangia os territórios dos atuais estados de Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Rio Grande do Norte, Ceará e a porção ocidental da Bahia (a oeste do Rio São Francisco) possuindo, deste modo, fronteira ao sul com Minas Gerais. À época do Brasil Colônia, as únicas capitanias que prosperaram foram esta de Pernambuco e a de Capitania de São Vicente, graças ao cultivo de cana- de-açúcar. De acordo com a Carta de Doação passada por D. João III a 10 de março de 1534, o capitão donatário de Pernambuco foi Duarte Coelho Pereira, fidalgo que se destacara nas campanhas portuguesas na Índia. A capitania se estendia entre o rio São Francisco e o rio Igaraçu, compreendendo: "Sessenta léguas de terra (…) as quais começarão no rio São Francisco (…) e acabarão no rio que cerca em redondo toda a Ilha de Itamaracá, ao qual ora novamenteponho nome rio *de+ Santa Cruz (…) e ficará com o dito Duarte Coelho a terra da banda Sul, e o dito rio onde Cristóvão Jacques fez a primeira casa de minha feitoria e a cinquenta passos da dita casa da feitoria pelo rio adentro ao longo da praia se porá um padrão de minhas armas, e do dito padrão se lançará uma linha ao Oeste pela terra firme adentro e a terra da dita linha para o Sul será do dito Duarte Coelho, e do dito padrão pelo rio abaixo para a barra e mar, ficará assim mesmo com ele Duarte Coelho a metade do dito rio de Santa Cruz para a banda do Sul e assim entrará na dita terra e demarcação dela todo o dito Rio de São Francisco e a metade do Rio de Santa Cruz pela demarcação sobredita, pelos quais rios ele dará serventia aos vizinhos dele, de uma parte e da outra, e havendo na fronteira da dita demarcação algumas ilhas, hei por bem que sejam do dito Duarte Coelho, e anexar a esta sua capitania sendo as tais ilhas até dez léguas ao mar na frontaria da dita demarcação pela linha Leste, a qual linha se estenderá do meio da barra do dito Rio de Santa Cruz, cortando de largo ao longo da costa, e entrarão na mesma largura pelo sertão e terra firme adentro, tanto, quanto poderem entrar e for de minha conquista. (…)." (Carta de Doação) As Primeiras Capitanias Hereditárias A metade da barra Sul do canal de Itamaracá, que o soberano denominou de "rio" de Santa Cruz, até 50 passos além do local onde existira a primitiva feitoria de Cristóvão Jacques, demarcava o limite Norte; ao Sul, o limite da capitania era o rio São Francisco, em toda sua largura e extensão, incluindo todas suas ilhas da foz até sua nascente. O território da capitania infletia para o Sudoeste, a acompanhar o curso do rio, alcançando suas nascentes no atual Estado de Minas Gerais. Ao Norte, o soberano estabelecia o traçado de uma linha para o Oeste, terra adentro, até os limites da conquista, definidos pelo Tratado de Tordesilhas ou seja, as terras situadas além das 370 léguas ao oeste das ilhas do Cabo Verde. As fronteiras da capitania abrangiam todo o atual Estado de Alagoas e terminavam ao Sul, no rio São Francisco, fazendo fronteira com o atual Estado de Minas Gerais. Graças à posse deste importante rio, em toda sua extensão e largura, Pernambuco crescia na orientação Sudoeste, ultrapassando em largura em muito as 60 léguas estabelecidas na carta de doação. Na observação de Francisco Adolfo de Varnhagen possuía a capitania 12 mil léguas quadradas, constituindo-se na maior área territorial entre todas que o rei distribuiu. Ao receber a doação, Duarte Coelho Pereira partiu para o Brasil com a esposa, filhos e muitos parentes. Ao chegar ao seu lote, fixou-se numa bela colina, construindo uma fortificação (o Castelo de Duarte Pereira), uma capela e moradias para si e para os colonos: seria o embrião de Olinda, constituída vila em 1537. Pioneiros na terra foram o seu próprio engenho, o do Salvador, e o do seu cunhado, o de Beberibe. 10 Tudo estava por fazer e o donatário organizou o tombamento de terras, a distribuição de justiça, o registro civil, a defesa contra os índios Caetés e Tabajaras. Ao falecer, em Lisboa, em 1554, legou aos filhos uma capitania florescente. O seu cunhado, Jerônimo de Albuquerque, em correspondência com a Coroa, pedia autorização para importar escravos africanos. Em Olinda, sede administrativa da capitania, se instalaram as autoridades civis e eclesiásticas, o Colégio dos Jesuítas, os principais conventos e o pequeno cais do Varadouro. Em fins do século XVI, cerca de 700 famílias ali residiam, sem contar os que que viviam nos engenhos, que abrigavam de 20 a 30 moradores livres. O pequeno porto de Olinda era pouco significativo, sem profundidade para receber as grandes embarcações que cruzavam o Oceano Atlântico. Por sua vez, Recife, povoado chamado pelo primeiro donatário de "Arrecife dos navios", segundo a Carta de Foral passada a 12 de março de 1537, veio a ser o porto principal da capitania. O ENGENHO, O CANAVIAL E SUA ESTRUTURA A casa-grande foi casa de morada, vivenda ou residência do senhorio nas propriedades rurais do Brasil colônia a partir do século XVI. Tudo no engenho girava em torno da casa-grande, sendo ela uma espécie de centro de organização social, política e econômica local. No Brasil colonial, a casa-grande era estrategicamente construída próxima ao engenho propriamente dito (fábrica), a senzala, a casa de farinha e a capela. Alguns sociólogos acreditam que a distribuição espacial das construções nos engenhos possibilitava maior convivência entre as diferentes classes sociais, o que teria tornado a experiência da colonização brasileira diferente de outras. Naquela época, o poder e a riqueza dos donos de engenhos eram demonstrados através de luxuosas vestimentas e do grande número de escravos que possuíam. Havia uma preocupação maior com a aparência do que com a moradia ou a alimentação. As casas-grandes dos primeiros engenhos eram modestamente mobiliadas. Usavam-se redes e colchões para dormir, tamboretes e bancos para sentar. Na cozinha, os utensílios eram cerâmicas indígenas, objetos de estanho, prata e vidro. O colonizador português não reproduziu no Brasil o estilo das casas portuguesas, preferindo criar uma casa que correspondesse ao ambiente físico brasileiro e que, ao mesmo tempo, atendesse as necessidades de trabalho e pessoais dos residentes. As casas-grandes eram erguidas visando à segurança e não à estética. Os donos de engenhos, chamados posteriormente de senhores de engenhos, sentiam-se inseguros com a possibilidade de ataques dos índios e dos negros, já que essas casas representavam o poderio feudal brasileiro. O senhor de engenho em sua propriedade, tinha poder total sobre a vida de seus escravos, empregados e moradores. Por esse motivo, as casas eram construídas com alicerces profundos utilizando óleo de baleia e grossas paredes de taipa (barro amassado para preencher os espaços criados por uma espécie de gradeado de paus, varas ou bambus); pedra e cal; teto de palha, sapê ou telhas com o máximo de inclinação para servir de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais; piso de terra batida ou assoalho; poucas portas e janelas e alpendres na frente e dos lados. Todavia essas quase fortalezas, feitas para durarem séculos, não seriam suficientes para impedir que ainda “na terceira ou quarta geração”, começassem a desmoronar por falta de conservação. Estudiosos em arquitetura consideram possível que as casas-grandes tenham assimilado elementos típicos das habitações indígenas, como os grandes espaços sem divisão, semelhante às ocas coletivas. A casa-grande, além de fortaleza, serviu de escola, enfermaria, harém, hospedaria, e foi também banco, pois dentro de suas paredes ou no chão, guardavam-se e enterravam-se dinheiro, joias e ouro. Até nas capelas deixavam-se joias enfeitando os santos (naquela época os ladrões não se atreviam, pelo menos não tanto quanto os de hoje, a entrar nas capelas para roubar os santos). Outra particularidade das casas-grandes era o costume de enterrarem seus mortos dentro das capelas, que a partir do século XVIII, principalmente na Bahia e em Pernambuco, passaram a ser construídas como uma espécie de anexo da casa. Em algumas havia até um acesso privado para os familiares do senhor de engenho. Um exemplo desse tipo de construção era a casa-grande do engenho Poço Comprido, na Mata Norte de Pernambuco. Os santos eram considerados parte da família, tanto quanto os familiares mortos. Em muitas casas- grandes conservavam-se os retratos dos familiares mortos no santuário, entre as imagens dos santos. É interessante observar que algumas igrejas resistiram mais a ação do tempo do que algumas das casas- 11 grandes, como foi o caso da capelinha de São Mateus do Engenho Massangana,onde Joaquim Nabuco viveu oito anos da sua infância. A preocupação dos senhores de engenhos com a segurança foi se dissipando ao longo dos séculos XVII e XVIII. Com a chegada da corte portuguesa para o Brasil, no início do século XIX, começaram as mudanças nas condições gerais das casas-grandes. Elas se tornaram maiores e mais luxuosas, seus donos passaram a gastar mais dinheiro em móveis, objetos de arte, decoração e utensílios domésticos. Nesse período, o material de construção também ficou mais diversificado. Além do material já existente, passou-se a usar também alvenaria de pedras e tijolos nas paredes; madeira recoberta com telhas cerâmicas nas coberturas; lajotas de barro e/ou assoalhos de madeira nos pisos. Usava-se também um tipo de tijolo circular que servia para construção de colunas para alpendres de capelas, casas-grandes, senzalas e, eventualmente, de fábricas. Tudo dependia das condições financeiras do senhor de engenho e da disponibilidade de material na região. O início do uso da máquina a vapor nos engenhos, da Bahia e Pernambuco, em 1815 e 1817, respectivamente, promoveu grandes mudanças, principalmente quanto ao aumento da produção. Todavia, por ser um investimento caro, nem todos os senhores de engenho tinham disponibilidade financeira para instalar as inovações em suas fábricas. Em decorrência disso, muitos engenhos acabaram sendo incorporados por outros cujos donos tinham maior poder aquisitivo. Assim, um único senhor de engenho ou uma única família passou a ser proprietário de vários engenhos, através da compra, herança ou pelo casamento. O fato é que o número de senhores de engenho diminuiu, mas os que sobreviveram ficaram mais ricos e poderosos. A riqueza mudou a vida dos senhores de engenho e de seus familiares, possibilitando a construção de novas casas-grandes e a reforma de outras. Nesse período surgiram três tipos de casas de engenho: o bangalô, o sobrado neoclássico e o chalé. A sociedade agrária, patriarcal, escravocrata do açúcar passou a ocupar a mais alta classe social da época. A imagem de riqueza era evidenciada através de bonitas e confortáveis casas, devidamente equipadas com móveis em madeira de lei, louça de porcelana da melhor qualidade, títulos de nobreza, brasões gravados sobre os portais e outros objetos. As mulheres passaram a frequentar salões de festas, teatros e a viajar para capital da Província. Filhos eram mandados para estudar na Europa. A GUERRA DOS BÁRBAROS A resistência dos nativos e a interiorização da colonização Devido ao avanço das frentes pastoris, com o objetivo de expandir a pecuária, a ocupação do Sertão se intensificou. Entretanto, chegou o momento que a presença indígena se tornou um empecilho e essa a essa expansão. As autoridades coloniais utilizaram, então, a estratégia de desocupação das terras pela eliminação dos nativos que resistissem aos interesses colonizadores. Os portugueses cobiçavam as grandes extensões de terras dos silvícolas e tentavam se apossar delas através do extermínio dos nativos, que se obrigavam a irem cada vez mais para o interior do território. Por outro lado, é bem possível que, enquanto ainda se arrastavam as negociações com os portugueses, os holandeses tivessem animado o povo tarairiu a se rebelar no interior da colônia. Provavelmente havia um clima de revanchismo, pois os nativos teriam defendido os holandeses e deveriam se sentir ameaçados com o avanço dos portugueses, que sempre foram seus inimigos. As tribos não possuíam um comando único que todos obedecessem; poderiam se aliar ou lutar sozinhas, de acordo com as circunstâncias. Na maioria das vezes, tratou-se mais de uma reação contra as perseguições dos brancos do que uma guerra com objetivos próprios. Os colonos provocavam os nativos para que atacassem e, assim, justificariam a guerra justa, que levaria à escravização dos nativos derrotados. Era uma forma de expansão sem respeito às posses ancestrais dos indígenas, que havia saído de http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=256&Itemid=184 http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=373&Itemid=1 12 um período de violência, vilipêndio e rapinagem, mergulhou em um conflito contra os indígenas, que, no espaço de cinquenta anos, exterminou as tribos do território. Esse conflito ficou supostamente conhecido como a “Guerra dos Bárbaros” ou “Confederação dos Cariris” e envolveu várias etnias indígenas, no interior das capitanias do Nordeste. Os índios avançaram e, para se defenderem, os colonos construíram casas fortes e paliçadas. Em face dos pedidos de socorro, o governo-geral do Brasil, decidiu requisitar bandeirantes de São Paulo e de São Vicente. Os indígenas, além das armas europeias, adotaram o uso de cavalos e incendiavam fazendas, matavam o gado e os vaqueiros. A resistência desses nativos foi um elemento surpresa e a presença dos bandeirantes, que foram eficientes no quilombo de Palmares, não conseguiu debelar a revolta. Ao contrário, o conflito dilatou-a para outras regiões, provocando a adesão das tribos dos anacés, jaguaribaras, acriús, canindés, jenipapos, tremembés e dos baiacus, que se mostraram muito violentos na defesa de seus direitos. Enquanto isso a guerra era alimentada pela ambição de uma parte dos colonos, que desejavam as terras que pertenciam aos nativos. Quando Antônio de Albuquerque reassumiu o comando da guerra, seu objetivo era exterminar os guerreiros indígenas e escravizar mulheres e crianças. Por outro lado, Bernardo Vieira, governando a capitania na época, habilidosamente atraiu os nativos para um acordo de paz. Essa pacificação terminou servindo muito bem para os colonos, pois o genocídio já havia sido iniciado e os colonos poderiam tomar posse das terras. Os grupos nativos que se submeteram a essa pacificação tiveram o direito a uma légua quadrada de terra, devidamente demarcada para viver. As mulheres trabalhariam na agricultura, enquanto as crianças seriam educadas nos moldes cristãos e de acordo com os interesses dos dominadores. A guerra ainda não havia terminado, em 1715, quando o governador de Pernambuco determinou que se extinguissem ou se afugentassem completamente os bárbaros que ainda habitavam os sertões nordestinos, entregando o uso da terra para os sesmeiros. O que se diz é que, depois de 1720, não houve mais registro de sublevação. SOCIEDADE COLONIAL Pode-se, de forma esquemática, apresentar um paralelo entre as principais sociedades da Colônia, a açucareira e a mineratória, como se segue: ESCRAVISMO NEGRO Os escravos africanos representam a mão-de- obra mais numerosa da Colônia. A razão fundamental está no extraordinário lucro que o tráfico negreiro representa para a Metrópole. Muitos negros trazidos para o Brasil já haviam passado pela experiência da escravidão na África, dominados nas lutas inter-tribais. Aprisionados, são trocados por tabaco, cachaça, rapadura, armas, etc. e chegam em péssimas condições de transporte, nos navios negreiros, onde muitos morrem antes do desembarque. NÃO-ESCRAVIZAÇÃO DO NATIVO Um conjunto de fatores leva à não-escravização do indígena do Brasil, diferentemente do que ocorre na América Espanhola. Podem ser mencionados: o caráter nômade e livre da vida do nativo, o tipo físico mais fragilizado, a dificuldade de captura, além de todas as “vantagens” apresentadas pelo tráfico do africano. Além disso, deve se destacar a “proteção” dada ao índio pelos 13 padres, que não permitiam a sua escravização, o que, paradoxalmente, não vale para o negro. Deve-se salientar que a não adaptação do índio ao trabalho escravo não pode ser considerado, pois ninguém se adapta à escravidão, sendo o negro obrigadoa ela. AÇÃO JESUÍTICA Os jesuítas tinham a incumbência, na Colônia, de: - chefiar as missões – aldeamento de índios; - converter os nativos à cultura europeia; -controlar a educação, o ensino e a cultura dos índios; - submeter o índio à dominação branca. HISTÓRIA DOS QUILOMBOS No período de escravidão no Brasil (séculos XVII e XVIII), os negros que conseguiam fugir se refugiavam com outros em igual situação em locais bem escondidos e fortificados no meio das matas. Estes locais eram conhecidos como quilombos. Nestas comunidades, eles viviam de acordo com sua cultura africana, plantando e produzindo em comunidade. Na época colonial, o Brasil chegou a ter centenas destas comunidades espalhadas, principalmente, pelos atuais estados da Bahia, Pernambuco, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais e Alagoas. Na ocasião em que Pernambuco foi invadida pelos holandeses (1630), muitos dos senhores de engenho acabaram por abandonar suas terras. Este fato beneficiou a fuga de um grande número de escravos. Estes, após fugirem, buscaram abrigo no Quilombo dos Palmares, localizado em Alagoas. Esse fato propiciou o crescimento do Quilombo dos Palmares. No ano de 1670, este já abrigava em torno de 50 mil escravos. Estes, também conhecidos como quilombolas, costumavam pegar alimentos às escondidas das plantações e dos engenhos existentes em regiões próximas; situação que incomodava os habitantes. Esta situação fez com que os quilombolas fossem combatidos tanto pelos holandeses (primeiros a combatê-los) quanto pelo governo de Pernambuco, sendo que este último contou com os serviços do bandeirante Domingos Jorge Velho. A luta contra os negros de Palmares durou por volta de cinco anos; contudo, apesar de todo o empenho e determinação dos negros chefiados por Zumbi, eles, por fim, foram derrotados. Os quilombos representaram uma das formas de resistência e combate à escravidão. Rejeitando a cruel forma de vida, os negros buscavam a liberdade e uma vida com dignidade, resgatando a cultura e a forma de viver que deixaram na África e contribuindo para a formação da cultura afro-brasileira. Comunidades quilombolas na atualidade Muitos quilombos, por estarem em locais afastados, permaneceram ativos mesmo após a abolição da escravatura em 1888. Eles deram origens às atuais comunidades quilombolas (quilombos remanescentes). Existem atualmente cerca de 1.500 comunidades quilombolas certificadas pela Fundação Palmares, embora as estimativas apontem para a existência de cerca de três mil. Grande parte destas comunidades está situada em estados das regiões Norte e Nordeste. Os integrantes das comunidades quilombolas possuem fortes laços culturais, mantendo suas tradições, práticas religiosas, relação com o trabalho na terra e sistemas de organização social próprio. DOMÍNIO HOLANDÊS A batalha de Guararapes, segundo Vítor Meirelles Nove anos após a expulsão dos franceses, o território colonial brasileiro sofreu uma invasão holandesa, em 1624. Os motivos que traziam os holandeses ao Brasil eram muito diferentes. Para compreendê-los, é necessário fazer algumas considerações sobre o período em que Portugal (União Ibérica) esteve sob o domínio espanhol, bem como sobre as relações internacionais da Espanha. Após ter emergido como potência europeia, a Espanha perseguiu o objetivo de unificar toda a península ibérica, incorporando Portugal ao seu território. Os portugueses resistiram enquanto puderam. Mas, no século 16, alguns acontecimentos contribuíram para a Espanha concretizar seus objetivos. Em 1578, o rei dom Sebastião, último monarca da dinastia de Avis, morreu e não deixou herdeiros. Então, o cardeal dom Henrique, único sobrevivente masculino da linhagem de Avis, assumiu a regência. Com sua morte, em 1580, o rei da Espanha, Felipe 2º; da mesma linhagem familiar, 14 achou-se no direito de ocupar o trono português e invadiu Portugal. O domínio espanhol sobre Portugal duraria 60 anos, até 1640. Espanha e Holanda Contudo, antes disso, Portugal já havia estabelecido relações comerciais com os ricos negociantes holandeses, que passaram a financiar a produção açucareira no Brasil e a controlar toda a sua comercialização no mercado europeu. Por outro lado, no mesmo período, a Espanha pretendia dominar todo o território dos Países Baixos, na qual a Holanda estava situada, pois a circulação de mercadorias naquela região contribuía significativamente para abastecer os cofres do tesouro espanhol. Não obstante, em 1581, sete províncias do Norte dos Países Baixos, incluindo a Holanda, criaram a República das Províncias Unidas e passaram a lutar por sua autonomia em relação aos espanhóis. Ao incorporar Portugal, aproveitando-se do seu controle sobre o Brasil, a Espanha planejou impedir que os holandeses continuassem a comercializar o açúcar brasileiro. Era uma tentativa de sufocar economicamente a Holanda e impedir sua independência. As invasões holandesas Os holandeses reagiram rapidamente, concentrando seus esforços no controle das fontes dos produtos que negociavam. Surgiu assim, em 1602, a Companhia das Índias Orientais. Essa empresa, de porte enorme, se apossou dos domínios coloniais portugueses no Oriente. Em decorrência dos êxitos desse empreendimento, os holandeses criaram, em 1621, a Companhia das Índias Ocidentais. Esta ficou encarregada de recuperar o controle do açúcar brasileiro e monopolizar o seu comércio nos mercados europeus. Para controlar a produção e comercialização do açúcar era necessário ocupar e se apoderar de partes do território colonial brasileiro onde ele era produzido. Desse modo, contando com uma frota composta de 26 navios e 500 canhões, os holandeses iniciaram sua primeira invasão do Brasil em 1624. Atacaram a cidade de Salvador, na época o centro administrativo da colônia. Mas, um ano após terem chegado, foram expulsos, sem grandes dificuldades. Uma segunda tentativa de invasão se deu em 1630, dessa vez em Pernambuco. Os holandeses conseguiram conquistar as vilas de Olinda e Recife. Houve combates, mas os invasores holandeses resistiram e estabeleceram o controle de uma extensa parte do litoral brasileiro que ia do Sergipe ao Maranhão. A Companhia das Índias Ocidentais nomeou um governador para administrar o domínio recém conquistado, que ficou conhecido como o Brasil-holandês. Maurício de Nassau Para o cargo de governador, foi nomeado o conde João Maurício de Nassau, que chegou ao Recife em janeiro de 1637. No período em que governou o Brasil-holandês, entre 1637 a 1644, Nassau procurou estabelecer uma administração eficiente e um bom relacionamento com os senhores de engenho da região. Desse modo, foram colocados a disposição dos proprietários de engenho recursos financeiros, para serem utilizados na compra de escravos e de maquinário para o fabrico do açúcar. Nassau também criou as Câmaras dos Escabinos, que eram órgãos de representação municipal, a fim de estimular a participação política da população nas decisões de interesse local. Durante o governo de Nassau, as vilas de Recife e Olinda passaram por um intenso processo de urbanização e melhoramentos que mudaram completamente a paisagem local. Com o fim do domínio espanhol sob Portugal, em 1640; o novo rei português, D. João 4º, decidiu recuperar o Nordeste brasileiro retirando-o do domínio holandês. Esse período coincidiu com o descontentamento dos senhores de engenho do Nordeste brasileiro diante dos holandeses. Nassau já havia partido e, para explorar ao máximo a produção do açúcar brasileiro, a Holanda adotou inúmeras medidas impopulares, em especial o aumento dos impostos, o que contrariava os interesses dos proprietários de engenho. Batalhas contra os holandeses A luta contra os holandeses no Nordeste brasileiro foi iniciada pelos próprios senhores de engenho da região e durou cerca de dez anos. Sob iniciativa dos senhores,os colonos da região foram mobilizados e travaram várias batalhas contra os holandeses. As mais importantes foram a de Guararapes e Campina de Taborda. Mas a expulsão definitiva dos holandeses teve início em junho de 1645, em Pernambuco, através da eclosão de uma insurreição popular liderada pelo paraibano André Vidal de Negreiros, pelo senhor de engenho João Fernandes Vieira, pelo índio Felipe Camarão e pelo negro Henrique Dias. A chamada 15 Insurreição Pernambucana, chegou ao fim em 1654, tendo libertado o Nordeste brasileiro do domínio holandês. Porém, a expulsão dos holandeses do território brasileiro teria um impacto negativo sobre a economia colonial. Durante o período em que estiveram no Nordeste, os holandeses tomaram conhecimento de todo o ciclo da produção do açúcar e conseguiram aprimorar os aspectos técnicos e organizacionais do empreendimento. Quando foram expulsos do Brasil, dirigiram-se para as Antilhas, ilhas localizadas na região da América Central. O fim de um ciclo açucareiro Lá montaram uma grande produção açucareira que, em pouco tempo, passou a concorrer com o açúcar do Brasil e logo se impôs no mercado europeu. Consequentemente, provocou a queda das exportações brasileiras. Já na segunda metade do século 17, os engenhos brasileiros estavam em decadência. Era o fim do chamado ciclo da cana-de-açúcar na história econômica do Brasil. Restava a Portugal encontrar outros meios para explorar economicamente a Colônia. Um novo ciclo de exploração colonial teria início com a descoberta de riquezas minerais como o ouro, a prata e os diamantes, na região que ficaria conhecida como a das Minas Gerais. CRISE DO SISTEMA COLONIAL NO BRASIL A exemplo do restante da América, o processo de emancipação é conduzido pela elite nativa que, detentora do poder econômico almeja o poder político, no pós-independência. No caso brasileiro existem algumas especificidades se comparada ao processo no restante da América Latina, como, por exemplo, a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil. Várias são as razões que levam à decadência do colonialismo tradicional, dentre elas: - A ideologia liberal imposta pela burguesia, contestando o Absolutismo e o Mercantilismo; - A expansão do capitalismo após a Revolução Industrial; - A contestação do escravismo pelo capitalismo internacional; - A ambição política da burguesia colonial; - A insatisfação da população colonial com a excessiva exploração metropolitana. Esses aspectos, típicos do fim do século XVIII e início do século XIX se transformam em movimentos armados de contestação à dominação política metropolitana nas colônias. No Brasil, tais movimentos podem ser Nativistas e Coloniais (Emancipacionistas). MOVIMENTOS BRASILEIROS DE CONTESTAÇÃO MOVIMENTOS NATIVISTAS São movimentos de contestação a aspectos do domínio português no Brasil, sem desejo de emancipação colonial. Têm também por característica o caráter local e a não influência estrangeira. Como exemplo tem-se: Aclamação de Amador Bueno (SP - 1641); Revolta de Beckman (MA - 1684); Revolta dos Emboabas (MG - 1708-09); Revolta dos Mascates (PE - 1710) e Sedição de Vila Rica (MG - 1720). GUERRA DOS MASCATES – 1710 A partir de 1654, a expulsão definitiva dos holandeses de Pernambuco provocou uma grande mudança no cenário econômico daquela região. Os grandes produtores de açúcar que anteriormente usufruíram dos investimentos holandeses, agora viviam uma crise decorrente da baixa do açúcar no mercado internacional e a concorrência do açúcar produzido nas Antilhas. Contudo, esses senhores de engenho ainda possuíam o controle do cenário político local por meio do poder exercido na câmara municipal de Olinda. Em contrapartida, Recife – região vizinha e politicamente subordinada à Olinda – era considerado o principal polo de desenvolvimento econômico de Pernambuco. O comércio da cidade trazia grandes lucros aos portugueses, que controlavam a atividade comercial da região. Essa posição favorável tinha 16 como motivação as diversas melhorias empreendidas na cidade com a colonização holandesa, que havia transformado a cidade em seu principal centro administrativo. Com o passar do tempo, a divergência da situação política e econômica entre os fazendeiros de Olinda e os comerciantes portugueses de Recife criou uma tensão local. Inicialmente, os senhores de engenho de Olinda, vivendo sérias dificuldades para investirem no negócio açucareiro, pediram vários empréstimos aos comerciantes portugueses de Recife. Contudo, a partir da deflagração da crise açucareira, muitos dos senhores de engenho acabaram não tendo condições de honrar seus compromissos. Nessa mesma época, a complicada situação econômica de Olinda somava-se ao completo sucateamento da cidade, que sofreu com as guerras que expulsaram os holandeses. Com isso, a câmara de Olinda decidiu aumentar os impostos de toda a região, incluindo Recife, para que fosse possível recuperar o centro administrativo pernambucano. Inconformados, os comerciantes portugueses, pejorativamente chamados de “mascates”, buscaram se livrar da dominação política olindense. Para tanto, os comerciantes de Recife conseguiram elevar o seu povoado à categoria de vila, tendo dessa maneira o direito a formar uma câmara municipal autônoma. A medida deixou os latifundiários de Olinda bastante apreensivos, pois temiam que dessa forma os comerciantes portugueses tivessem meios para exigir o pagamento imediato das dívidas que tinham a receber. Dessa forma, a definição das fronteiras dos dois municípios serviu como estopim para o conflito. A guerra teve início em 1710, com a vitória dos olindenses que conseguiram invadir e controlar a nova cidade pernambucana. Logo em seguida, os recifenses conseguiram retomar o controle de sua cidade em uma reação militar apoiada por autoridades políticas de outras capitanias. O prolongamento da guerra só foi interrompido no momento em que a Coroa Portuguesa indicou, em 1711, a nomeação de um novo governante que teria como principal missão estabelecer um ponto final ao conflito. O escolhido para essa tarefa foi Félix José de Mendonça, que apoiou os mascates portugueses e estipulou a prisão de todos os latifundiários olindenses envolvidos com a guerra. Além disso, visando evitar futuros conflitos, o novo governador de Pernambuco decidiu transferir semestralmente a administração para cada uma das cidades. Dessa maneira, não haveria razões para que uma cidade fosse politicamente favorecida por Félix José. DICAS!!! ECONOMIA PERNAMBUCANA NO SÉCULO XVIII Existem divergências quanto à forma de poder exercida na América Portuguesa do Séc. XVIII no que se refere às formas de governo - levando em consideração inúmeros fatores, como a não institucionalização estatal no território colonizado, a influência exterior do Estado Absolutista Português, além de incursões individuais no que se refere a sublevações de poder. A primeira parte do presente texto busca apresentar e discutir alguns conceitos referentes a arte de governar (levando em consideração os que mais se adequam a realidade da Colônia) para o desenvolvimento, a posteriori, da mentalidade política de Pernambuco no início do Séc. XVIII, que é o foco do trabalho. Dito isto, os conceitos aqui tratados serão estamento, patrimonialismo e patriarcalismo, nas definições weberianas dos termos. Porém, uma ressalva aqui será feita: nem mesmo Max Weber fechou seus conceitos a ponto de torná-los ortodoxos e privados de uma dinâmica analítica; portanto, pensar em um estamento único e grupos agindo de forma idêntica é uma ideia limitada a ponto de ser ingênua. Assim, o conceito de estamento aqui empregado será entendido na questão relacionada ao status na hierarquia política daadministração da Colônia Lusitana. Já os conceitos de patrimonialismo e patriarcalismo serão baseados no argumento de Rubens Goyatá Campante (cf. CAMPANTE, 2003: 153 a 193), procurando focar na mentalidade conservadora e tradicional que procura legitimar sua supremacia através de tais formas de poder. O cenário de estudo aqui abordado possui como referência à região de Pernambuco, com recorte histórico feito no início do Século XVIII, e o objeto de análise aqui apresentado é a mentalidade política do senhor de engenho que viveu no período nesta região Diversas obras, como a de Gilberto Freyre (1973), mencionam uma espécie de genealogia dos senhores de engenho na época da colônia, 17 salientando a adaptabilidade em meio a inúmeras adversidades enfrentadas por estes desbravadores e um perfil com traços autoritários marcantes. Nesta linha de raciocínio, o senhor de engenho conquista uma autonomia que em determinados momentos chega a preocupar a Coroa Portuguesa, adquirindo uma autoridade legitimada pelo seu prestígio. Porém, deve ser salientado que este prestígio não se refere a meras atribuições honoríficas, mas a imagem de um poder que invadia o imaginário popular e regimentava-se como status de “senhor da terra”. O modelo estamental que se cria com esse status pode ser entendido por meio da premissa de Max Weber (1974): o círculo que se forma no estamento gera uma endogamia, fechando-se e contrapondo-se ao próprio governo - no caso a Coroa portuguesa - onde o parâmetro que se deseja alcançar seria o status de senhor de engenho. Por outro lado, devido à crise do açúcar no Século XVIII, a capital Olinda entra em declínio por causa de fatores como o aumento do preço e levantes de escravos. Além disso, a sombra que pairava a respeito da expulsão dos holandeses ocorrida em 1654 que favorecia o clima de insegurança somava-se a epidemias e inúmeros outros fatores. Concomitantemente a isso, os mascates (comerciantes portugueses que se instalaram em Recife), beneficiados pela estruturação urbana feita pelos holandeses, enriqueceram com o comércio e empréstimo pecuniário em detrimento à endividada nobreza olindense (cf. MELLO, 1995). O poder local dos senhores de engenho rivalizava contra esta suposta burguesia mascate favorecida pela Coroa Portuguesa. Tal fato ocasionou animosidade entre os senhores de engenho e a Coroa Lusitana - aquilo que Edvaldo Cabral Mello chama de “poder local contra o Estado” - fazendo com que os mascates conseguissem apoio da Corte Portuguesa. Estes fatores, aliados a questões de ordem política e econômica, ao final de tal disputa geraram a conhecida Guerra dos Mascates, com a vitória dos comerciantes, apoiados pela Coroa Portuguesa devido aos interesses econômicos em comum (cf. MELLO, op. cit.). A análise deste trabalho não irá voltar-se para as conclusões acima mencionadas, mas é necessário apresentá-las para que se possa compreender o contexto e elucidar a perspectiva política da época, além das relações sociais que permeavam este contexto. Em um primeiro momento observa se a ascensão de uma burguesia mascate que ameaçava a ordem estamental dos senhores de engenho ao lado da economia agrícola que até então dominara, desenvolve-se a mobiliária: o comércio e o crédito. E com ela surge uma rica burguesia de negociantes, que, por seus haveres rapidamente acumulados, começa a pôr em xeque a nobreza dos proprietários rurais, até então a única classe abastada e, portanto, de prestígio da colônia. É por obra dela que as cidades do litoral, onde se fixa, se transformam em centros populosos e ricos. Recife, que antes da ocupação holandesa não passava de um ajustamento de choças habitadas quase exclusivamente por humildes pescadores, vai ofuscar a capital de Pernambuco, Olinda, a cidade da nobreza. (PRADO JR, 1970: 38 e 39) Por outro lado, devido à ameaça de cobrança das dívidas que os senhores de engenho contraíram com empréstimos feitos aos mascates, havia a preocupação destes senhores de terra endividados, preocupados em se resguardar junto à Coroa Portuguesa que por nenhuma dívida, ainda que seja da fazenda real, assim que estão contraídas como das que ao diante se contraírem, se façam execuções aos senhores de engenho lavradores de cana, ou roça em nenhuns bens seus assim móveis como de raiz, outros de qualquer qualidade que sejam, mas somente nos rendimentos se possam executar, e que os açúcares se não rematem, por nenhumas dívidas, e o receberão pelo preço que sair, pois Sua Majestade o manda dar, e isto será sem limitação de tempo e para sempre.(Calamidades de Pernambuco – Reivindicações feitas por grandes proprietários de terras na Guerra dos Mascates, pela qual se deviam processar as execuções e cobranças)". (PRADO JR, op. cit.: 41). A Coroa Portuguesa até então não apresentava nenhum tipo de hostilidade para com os senhores de engenho, que demonstravam, inclusive, subordinação efetiva nas imposições do governo, criando uma aliança contrabalançada por interesses mútuos: até meados do século XVII, a Coroa não temia a autonomia dos colonos, seu ímpeto sertanista e seus excessos armados. A organização administrativa seria suficiente para conter os ânimos mais ardentes ou insubordinados. Preocupava-o, ao contrário, o estímulo, nos engenhos e latifúndios, do aparelhamento militar, com falcões, berços, arcabuzes e espingardas, como se lê no regimento de Tomé de Sousa. Os senhores de engenho e os 18 moradores se entrosavam na rede de governo, como auxiliares e agentes. (FAORO, 1975: 149). O cenário descrito nas passagens acima ilustra uma posição desfavorável aos senhores de engenho, favorecendo aos mascates e, até então, proporcionando uma posição confortável a Coroa Lusitana. Mas, é na política que as divergências se tornam acirradas. Os senhores de engenho sentem sua honra afrontada e o “sagrado estamento” mostra- se violado pelo elemento invasor denominado mascate. Ampliando o problema, os Mercadores do Recife conseguem direito à eleição, o que demonstra um grave risco a hierarquia até então arregimentada pelos senhores de engenho em 1703 alcançam os mercadores de Pernambuco o direito de concorrer às eleições da Câmara de Olinda. E finalmente, em 1707, obtêm a ereção de Recife, onde dominavam pelo número, como vimos, à categoria de vila independente da capital. No resto do país foi-se dando idêntica infiltração da burguesia mercantil na administração municipal. (PRADO JR, op. cit.: 42). A passagem acima demonstra um marco na história do Recife (sua elevação à vila), o que a torna uma rival direta de Olinda. Contrastava uma burguesia embrionária mascate com um conservadorismo dos senhores da terra, isso porque, em Pernambuco, principalmente desde a época dos holandeses, Olinda havia decaído, à medida que levantara o Recife, crescendo muito em população. Entretanto, essa colônia, a antiga corte do príncipe da casa de Orange, de Nassau-Siegen, a cidade Maurícia, a praça de guerra e de comércio mais importante do Norte do Brasil, no princípio do século passado [XVIII], contando já umas oito mil almas, nem sequer era vila; e se aí moravam às vezes alguns governadores e outras autoridades era por abuso: - a capital da capitania era a Olinda de Duarte Coelho, habitada pelas principais e mais antigas famílias da terra, quando no Recife os habitantes eram pela maior parte comerciantes portugueses, de humilde nascimento, vindos ali pobres, e agora donos ou caixeiros de armazéns de secos e molhados, casas de comissão, etc. – Olinda era a cabeça de todo o conselho, e estava desde tempos remotos avezada a ver os cargos dele exercidos por indivíduos de algumas dessas principais famílias. Como, porém, a tais cargos correspondiam votos para certos impostos municipais, que recaíam também nos do Recife, quiseram ter nas eleições; e desde que a isso se propuseram,fácil era de prever que sairiam vencedores, sendo tão superiores em número, apesar de uma provisão anterior, de 8 de Maio de 1705, que dispunha que na Câmara da mesma vila não poderiam servir mercadores, entendendo-se por tais os que assistissem em loja aberta, medindo, pesando e vendendo ao povo qualquer gênero de mercadoria. Ressentiram-se os de Olinda, e se queixaram de que forasteiros vindos de ‘suas terras a tratar dos seus negócios’, conseguisse ‘ter na alheia o governo da república, o que em nenhuma daquelas em que nasceram se consente. Para evitar conflitos, resolveu prudentemente a corte, depois de algumas hesitações e incoerências, declarar o Recife vila independente, devendo o juiz de fora de Olinda fazer as audiências alternadas nessa vila e na do Recife, segundo se praticava em várias terras do Reino, e sendo cometida a erecção do pelourinho e a fixação dos limites das duas jurisdições ao governador Sebastião de Castro e Caldas, e ao ouvidor da capitania Dr. Luís de Velenzuela Ortiz. (VANHAGEM, 1970: 314). Diante do conflito político, ficam evidentes características marcantes dos senhores de engenho, pois, observa-se que primeiramente fez-se notório a concretização de um estamento em que as relações ocorrem de forma vertical, onde a honra do cargo que ocupa dentro da esfera política é o fator determinante do grau de importância dentro da Monarquia Portuguesa (perpassando as relações sociais dentro da colônia). Externa-se uma outra característica patente, a saber, a visão dos senhores de engenho de que os cargos públicos seriam de sua propriedade - o que nos remete ao patrimonialismo -, ficando evidente o tamanho da afronta dos mascates que não apenas estavam se infiltrando e usurpando o status estamental, mas também violando a propriedade alheia (na visão dos senhores da terra), ou seja, tomando posse do bem público que se tornara particular em meio às relações patrimoniais. Tal afirmação é justificada pela definição de patrimonialismo, que é a substantivação de um termo de origem adjetiva: patrimonial, que qualifica e define um tipo específico de dominação. Sendo a dominação um tipo específico de poder, representado por uma vontade do dominador que faz com que os dominados ajam, em grau socialmente relevante, como se eles próprios fossem portadores de tal vontade, o que importa, para Weber, mais que a obediência real, é o sentido e o grau de sua aceitação como norma válida - tanto pelos dominadores, que afirmam e acreditam ter autoridade para o mando, 19 quanto pelos dominados, que creem nessa autoridade e interiorizam seu dever de obediência. (CAMPANTE, op. cit.) Os senhores de engenho, devido à ameaça que se apresentava no cenário, não apenas observam a aliança da Coroa Portuguesa com os mascates, como também fortalecem seu poder de forma autônoma, criando uma autarquia, como forma de precaver-se contra esta união política bipolar. Assim, o patrimonialismo se faz notório com seu alto grau de prestígio, favorecendo um egocentrismo que transforma o senhor de engenho em detentor da autoridade local, exercendo sua força com mão-de- ferro, melhor dizendo, “mão-de-terra” (já que lhe atribuíram o título de senhor da terra), neste momento de declínio da elite olindense. O desprestígio dos senhores de engenho com relação à Coroa Portuguesa fica patente, quando o senhor de engenho e o fazendeiro não eram mais os aliados do soberano, voltado este para o comércio, na sua tradicional política. Os mascates levariam a melhor parte das atenções públicas, perdidos os privilégios antigos, próximos, perigosamente próximos, dos usos aristocráticos. O rei queria súditos e não senhores, soldados e não caudilhos. (FAORO, op. cit.: 164). Com a separação entre Olinda e Recife ocorreu uma bipartição do governo local, fazendo com que fosse necessário um fortalecimento administrativo de ambos os lados, até mesmo devido às disputas políticas, pois, a divisão da cabeça (poder central), ao contrário da “Hidra de Lerna”, tornou as partes separadas ineficazes, sem possibilidade de regeneração. O momento dessa necessidade de um governante é apontado por Varnhagen: A capitania ficou acéfala e toda se deu por sublevada. Tratou, pois, de ter um chefe. Foi primeiro eleito um juiz do povo; porém, acerca da escolha do novo governo variaram muito os pareceres, filhos alguns das ambições pessoais; como às vezes sucede entre certos políticos, aos quais tanto cega a paixão, que julgam bem da pátria o que é apenas satisfação dos seus interesses. (VANHAGEM, op. cit.: 316). Como consequência das disputas de poder administrativo aparece um outro fator característico e determinante do perfil do senhor de engenho pernambucano do início do Século XVIII: o patriarcalismo. Percebe-se uma personalidade criada de forma fragmentada que surge a partir de uma tripartição da mentalidade do senhor de engenho onde ocorre harmonia e, ao mesmo tempo, rivalidade em meio a três estados distintos que se integram em prol de interesses comuns. Cria-se o perfeito arquétipo de Cérbero, formando assim a trilogia: estamento, patrimonialismo e patriarcalismo. Sobre o patriarcalismo, Rubens Goyatá Campante esclarece: a dominação tradicional subdivide-se em patrimonial e feudal. A dominação patrimonial tem sua legitimidade baseada em uma autoridade sacralizada por existir desde tempos antigos, longínquos. Seu arquétipo é a autoridade patriarcal. Por se espelhar no poder atávico, e, ao mesmo tempo, arbitrário e compassivo do patriarca, manifesta-se de modo pessoal e instável, sujeita aos caprichos e à subjetividade do dominador. A comunidade política, expandindo-se a partir da comunidade doméstica, toma desta, por analogia, as formas e, sobretudo, o espírito de "piedade" a unir dominantes e dominados. (CAMPANTE, op. cit.). Nesse prisma, pode-se observar o senhor de engenho legitimando seu poder sob um patrimonialismo que resgata os valores patriarcais das antigas famílias dos proprietários de terra de Pernambuco, perpetuando a hegemonia do “senhor” através das gerações. O legado do senhor de engenho é uma herança tradicional de uma ascendência patriarcal de natureza orgânica. Ocorreram diversas insurreições e tanto Olinda quanto Recife depauperavam-se em conflitos frequentes - o que agravava o quadro político, econômico e social. Mas, deve-se ressaltar que pelos fatores tradicionalistas que formavam este “Cérbero” (senhor de engenho), os mascates não pareciam tão homogêneos quanto os senhores da terra e necessitavam de medidas que os resguardassem das investidas olindenses como, por exemplo, o apoio da Coroa Portuguesa. Os mascates também procuraram reforçar sua administração e optaram pelo critério de confiabilidade, baseado em relações de dependência do administrador com a elite recifense, criando um comprometimento arbitrário: Os do Recife obrigaram o bispo a expedir uma circular a todos os povos da capitania desculpando a insurreição, contando como Bernardo Vieira, causa dela, ficava preso, recomendando a paz, prometendo 20 esquecimento do passado, e ordenando que não impedissem a vinda de mantimentos para a praça. – Essa circular assinou o bispo no dia que se devia passar para estes; e assim o efectuou, embarcando-se no dia 21, em um escaler, com o ouvidor, e reassumindo logo aí as funções de governador. Passou a intimar aos do Recife que lhe prestassem obediência: resistiram, porém, estes, proclamando seu mandante o capitão João da Mota, que se preparou para se opor qualquer ataque. (VANHAGEM, op. cit.: 318). MOVIMENTOS EMANCIPACIONISTAS São movimentos de contestação ao domínio no Brasil, com desejo de independência, tendo o caráter regional com ideologia de libertação nacional, sofrendo influência estrangeira do Liberalismo e suas manifestações. Como exemplo tem-se: - A Inconfidência Mineira(1789), de caráter elitista e de pouca profundidade social (não se preocupa, por exemplo, com a questão abolicionista), sofrendo influência das ideias liberais da Revolução Americana; -A Inconfidência Baiana (1798), de caráter mais popular e com maior profundidade social (defende o fim da escravidão), sofrendo influência das ideias liberais da Revolução Francesa, traduzidas para a realidade local. PERÍODO JOANINO - 1808 A 1821 A principal etapa do processo de independência do Brasil é a transferência da Família Real Portuguesa para o Brasil, a partir da desobediência ao Bloqueio Continental imposto por Napoleão Bonaparte à Inglaterra (1806) e posterior invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas (1807), uma vez que D. João prefere se manter fiel e dependente do comércio inglês. Ao período de permanência da Corte no Brasil chama-se Período Joanino. Principais ocorrências do período: - 1808 - Abertura dos Portos Brasileiros às nações amigas, medida que leva ao fim do Pacto Colonial. - 1808 - Revogação do alvará de 1785, liberando a atividade industrial na Colônia. - 1810 - Tratados com a Inglaterra - Paz e Amizade e Comércio e Navegação, determinando que: • os produtos ingleses vendidos no Brasil sofrem uma taxa alfandegária de 15%; • os súditos ingleses no Brasil, em caso de processo, têm o direito de escolher um juiz inglês para julgá-los - direito de “extraterritorialidade”; • Portugal se compromete a não mais permitir a atuação do Tribunal de Inquisição no Brasil; • Portugal se compromete a abolir gradualmente a escravidão no Brasil, entretanto, tal medida só é tomada a partir de 1850; • proibição da retomada do Pacto Colonial. - 1815 - Elevação do Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves, determinando maior autonomia política e aprofundamento da “Inversão Brasileira” em relação à metrópole. As instituições eclesiásticas O processo de colonização portuguesa no continente americano foi acompanhado de perto pelas instalações de instituições europeias, como forma de repetir na colônia uma administração, justiça e religião similares às metropolitanas. A título de exemplo, as câmaras eram órgãos emergidos nas vilas e cidades coloniais com o intuito de implantar e reproduzir os ditames administrativos portugueses na colônia, com o funcionamento gerido, sobretudo, pela “nobreza colonial”. A primeira instalada em Pernambuco foi em Olinda no século XVI e, apenas no XVIII, o Recife conseguiu autorização para estabelecer sua câmara. Os representantes da igreja tridentina também se fizeram presentes na conquista portuguesa. A própria justificativa da colonização esteve atrelada à necessidade de catequizar os homens do Novo Mundo, ensinando-lhes o caminho da salvação e aumentando a quantidade de fiéis católicos no processo de conversão dos indígenas. Os jesuítas eram os missionários por excelência, responsáveis não apenas pela catequização, mas, também, pelo ensino básico. A proliferação de igrejas, capelas e irmandades mostra a preocupação em educar a população nos moldes eclesiásticos católicos portugueses. O ensino tridentino era a chave para organização da população nativa aos preceitos e valores europeus, incluindo a exploração e trabalho forçado. Vale destacar a criação do órgão de repressão e coerção máximo aos hereges, em função de seus pecados e “crimes de fé”, que era a Inquisição, também conhecido como o tribunal do Santo Ofício. Ele tinha a função de punir os que estivessem envolvidos em casos heréticos, como sodomia, bigamia, além dos casos de judaísmo na América. As punições eram amplas, desde degredo 21 até a morte do acusado. No Brasil, não existiu efetivamente um tribunal da Inquisição, mas sim visitações de representantes do Santo Ofício que ouviam as confissões e denunciações para o julgamento final. Elas ocorreram em períodos esporádicos nos séculos de colonização. Neste período, a Inquisição prendeu mais de mil pessoas e mandou 29 para a fogueira. Seu maior alvo eram os cristãos-novos. REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817 Para sustentar o luxo da corte portuguesa no Rio de Janeiro, o governo aumentava os impostos. Em Pernambuco, o sentimento nativista aumentava e, com ele, o desejo de que houvesse um governo brasileiro para substituir o governo português. Para agravar ainda mais a situação, em 1816 ocorreu uma grande seca em Pernambuco que afetou a lavoura da cana-de-açúcar e do algodão. A ideologia iluminista também havia se espalhado pelo mundo e provocado revoluções como a Francesa, a Independência dos Estados Unidos e a independência de algumas colônias espanholas na América do Sul. Todos esses fatores acabaram por influenciar e a provocar a Revolução Pernambucana de 1817 que ultrapassou a fase de conjuração e chegou a atingir o poder. Na Revolução Pernambucana houve a participação sociedades secretas, intelectuais, padres e militares; no entanto os escravos estavam excluídos. O objetivo era proclamar uma república brasileira e expulsar o governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro. A Revolução eclodiu em março de 1817 e obrigou o governador a buscar refúgio no forte do Brum que, por não oferecer condições de defesa, levou o governador a render-se. Os revoltosos permitiram que ele partisse para o Rio de Janeiro e, em seguida formaram o governo provisório que apresentou as seguintes propostas: proclamar a República, abolir alguns impostos e elaborar uma constituição que permitisse liberdade religiosa e a igualdade de todos perante a lei. Em relação aos escravos, a Revolução Pernambucana estabeleceu que a abolição seria “lenta, regular e legal”, para não prejudicar os interesses dos senhores de engenho. Essa parte não era compatível com as ideias iluministas. O governo provisório durou 75 dias, isto é, até que D. João mandasse suas tropas para cá com grande quantidade de armas, munições e navios. Os revolucionários renderam-se e seus líderes, como Domingos Teotônio Jorge, o padre João Ribeiro Pessoa e José Luís de Mendonça, foram condenados à morte. Portugal mantinha seu poder a qualquer custo. Mesmo assim, outras revoluções surgiriam em Pernambuco, mais tarde. A Revolução Pernambucana de 1817 teve centros de debates políticos de onde partiram os ideais revolucionários. Um deles foi o Areópago de Itambé, dirigido pelo padre Arruda Câmara, que proibia a presença de estrangeiros nos seus debates internos. Outro importante foco divulgador das ideias emancipacionistas foi o Seminário de Olinda, onde um de seus principais membros era o padre Miguel Joaquim de Almeida Castro, conhecido como padre Miguelinho, que participou da Revolução de 1817, sendo fuzilado pelas tropas do rei. - 1820 - Revolução do Porto, em Portugal, na qual os portugueses têm os seguintes objetivos: • exigir a volta imediata de D. João VI a Lisboa uma vez que a Metrópole está livre dos domínios napoleônicos desde 1814. • Estabelecer para Portugal uma Monarquia Constitucional, reduzindo as atribuições políticas de D. João, agora subordinado a uma Constituição liberal e burguesa. • Recolonizar o Brasil, dada a insatisfação com a condição de “Reino Unido” bastante “perigosa” aos olhos de Lisboa. - 1821 - Anexação da província espanhola da Cisplatina ao Brasil. - 1821- Retorno de D. João VI a Lisboa, deixando em seu lugar, no Brasil, seu filho D. Pedro, como Príncipe Regente. As etapas do processo de independência, descritas a seguir, não vão além de pretextos e causas imediatas para formalizar o que já está amadurecido: o rompimento definitivo. A INDEPENDÊNCIA A independência é fruto sobretudo da conjugação de interesses da Inglaterra, desejosa de 22 ampliar seus poderes econômicos e da burguesia nativa (aristocracia rural), desejosa de obter poderes políticos. O Príncipe Regente D. Pedro se encaixa no processoapenas como instrumento dos verdadeiros interessados. São peças significativas no processo: a imprensa, divulgadora das ideias liberais, a maçonaria, pois nas suas lojas tramam-se os diversos caminhos da independência e o povo, que representa a massa de sustentação (ideológica e armada, se preciso) do movimento, embora sem idealizá-lo ou liderá-lo. Com o risco de recolonização e a exigência do retorno de D. Pedro para Portugal, os brasileiros, sentindo-se ameaçados em sua autonomia, redigem um abaixo assinado para que o mesmo permanecesse no Brasil. Assim, D. Pedro decide permanecer no país. Este acontecimento ficou conhecido como “Dia do Fico” (janeiro de 1822). Ficou também estabelecido que nenhuma lei portuguesa vigore no Brasil sem o consentimento de D. Pedro e, em setembro, após decretos vindos de Portugal para recolonizar o país e com a atuação de José Bonifácio e Princesa Leopoldina, D. Pedro formaliza a independência do Brasil. Em dezembro é coroado como 1º Imperador do Brasil, fazendo nascer o início de uma nova era política: o 1º Império ou 1º Reinado. DICAS: A burguesia nacional logra a sua vitória: a ruptura com Portugal pode dar à classe condições de ascensão política até então inatingíveis; há um grande interesse no contato comercial com a burguesia europeia, especialmente a inglesa – na prática, tal medida significa a continuidade da dependência econômica em relação à Inglaterra; é preciso, porém, não alterar internamente o status socioeconômico dessa burguesia: a adoção de uma monarquia como forma de Governo e a manutenção da escravidão, são exemplos de tal situação. APROFUNDAMENTO!! FREI CANECA Joaquim da Silva Rabelo, depois Frei Joaquim do Amor Divino Rabelo, mas popularmente conhecido apenas como Frei Caneca (Recife, 20 de agosto de 1779 — Recife, 13 de janeiro de 1825), foi um religioso e político brasileiro. Esteve implicado na Revolução Pernambucana (1817) e na Confederação do Equador (1824). Como jornalista, esteve à frente do Typhis Pernambucano. A seu respeito, refere Evaldo Cabral de Melo: "O homem que, na história do Brasil, encarnará por excelência o sentimento nativista era curiosamente um lusitano 'jus sanguinis'." “Quem bebe da minha "caneca" tem sede de liberdade! ” Movimento em Pernambuco e prisão na Bahia Participou ativamente da chamada Revolução Pernambucana (1817), que proclamou uma República e organizou o primeiro governo independente na região. Não há referência a participação sua, diz Cabral de Mello, "nos acontecimentos inaugurais da sedição de 6 de março, como a formação do governo provisório. Assim é que da relação dos eleitores que o escolheram, não consta seu nome. Sua presença só se detecta nas últimas semanas de existência do regime, ao acompanhar o exército republicano que marchava para o sul da província a enfrentar as tropas do conde dos Arcos, ocasião em que, segundo a acusação, teria exercido de capitão de guerrilhas." Era conselheiro do exército republicano do sul, comandado pelo coronel Suassuna. Com a derrota do movimento, foi preso e enviado para Salvador, na Bahia. Ali passou quatro anos detido, dedicando-se à redação de uma gramática da língua portuguesa. Retorno a Pernambuco Libertado em 1821, no contexto do movimento constitucionalista em Portugal, Frei Caneca voltou a Pernambuco e retomou as atividades políticas. Durante a sua viagem, chegou a ser detido ainda na antiga cadeia de Campina Grande. Em 1821 esteve implicado no chamado movimento de Goiana, uma segunda sedição emancipacionista que, com apoio dos principais proprietários da mata norte e algodoeira da província, proclamou adesão às Cortes de Lisboa. Um exército de milícias rurais e da tropa de primeira linha marchou contra o Recife, sem ocupar a cidade. Os goianistas tampouco conseguiram adesão substancial na mata sul. A "Convenção do Beberibe" consagrou em setembro o "status quo", prevendo que as juntas de Recife e de Goiana continuariam a atuar nas áreas sob seu controle, à espera de decisão das Cortes. Estas determinaram a eleição de uma Junta 23 Provisória e foi instalado o primeiro governo autônomo da província em outubro de 1821. A Junta Governativa de Gervásio Frei Caneca apoiou a formação da primeira Junta Governativa de Pernambuco, presidida por um comerciante, Gervásio Pires Ferreira, que o nomeou para a cadeira pública de geometria da vila do Recife. Foi uma Junta muito recifense, em que o poder veio ao clero, às camadas urbanas, ao comércio, às Forças Armadas, às profissões liberais - as forças derrotadas em 1817. Gervásio foi a figura dominante de um governo que atuou para buscar o consenso, líder de um setor do comércio português já nacionalizado pela residência, pelo nascimento, por laços de família com a terra. E tinha pertencido ao governo do movimento de 1817, companheiro de Frei Caneca nas prisões da Bahia. Em 1822 Frei Caneca, que apoiou com entusiasmo a Junta, redigiu a "Dissertação sobre o que se deve entender por pátria do cidadão e deveres deste para com a mesma pátria". Queria dar formulação teórica a um dos principais objetivos de Gervásio, conciliar o comércio português da província com a nova ordem de coisas. Sua principal tese é a de que os portugueses domiciliados na terra e a ela ligados por vínculos de família e dos interesses deviam ser considerados tão pernambucanos quanto os naturais da terra. O dilema era, entretanto, grande. Diz Evaldo Cabral de Mello, página 25 da obra citada: «As Cortes de Lisboa, por um lado, e a regência de d. Pedro, por outro, encarnavam, em termos das aspirações de 1817, opções igualmente legítimas, se bem que incompletas e contraditórias. Por um lado, o Soberano Congresso oferecia um regime liberal, sob uma monarquia constitucional, muito embora, a partir de fevereiro de1822, ficasse claro no Brasil que elas cobrariam o preço da não restauração pura e simples do monopólio comercial, que era impossível ressuscitar, mas de um sistema preferencial para o comércio e a navegação portugueses. Por sua vez, a regência do Rio prometia a liberdade de comércio e a Independência, mas com a fatura previsível da construção de um regime autoritário baseado no centro-sul. O governo de Gervásio tentou ganhar tempo, à espera de uma conjuntura que lhe permitisse salvar ambas opções, sem descartar inteiramente a separação tanto de Lisboa quanto do Rio. (A Junta será anatemizada de Varnhagen a José Honório Rodrigues, acusada de carecer de sentimento nacional; sua defesa será feita por Barbosa Lima Sobrinho). Sob a pressão de um motim castrense, a junta de Gervásio Pires Ferreira foi coagida a aderir à causa do Rio de Janeiro e terminou deposta por uma quartelada, formando-se um governo denominado «governo dos matutos», em outubro de 1822. A Junta dos Matutos Em 23 de setembro de 1822 foi eleita a chamada «Junta dos Matutos», que substituiu a Junta gervasiana. Seu governo se estenderia até dezembro de 1823. Era dominado por representantes da grande propriedade territorial. Membros eleitos da Junta foram, como presidente, Afonso de Albuquerque Maranhão, como secretário José Mariano de Albuquerque, e como membros Francisco Pais Barreto, o morgado do Cabo; Francisco de Paula Gomes dos Santos, Manuel Inácio Bezerra de Melo, Francisco de Paula Cavalcanti de Albuquerque e João Nepomuceno Carneiro da Cunha. É ao tempo do governo dos Matutos que verdadeiramente frei Caneca ingressou na liça ideológica. Datam de então, diz Cabral de Mello, sua polêmica com José Fernandes Gama e seu sobrinho, o Desembargador Bernardo José da Gama, cabeças da conspiração que derrubara Gervásio, e as «Cartas de Pítia a Damão. Tendo ficado comprometidos na ´Pedrosada´, tentativa frustrada de derrubar a Junta dos Matutos, os Gamas tentaram recuperar-se na corte e delataram o que chamavam facção republicanada província, elaborando uma lista de pessoas na qual figurava o frade. Frei Caneca passou à oposição, sem combatê- la, porém, frontalmente, preferindo empenhar-se contra o grupo que, no Rio de Janeiro, pretendia ditar a sorte da província. Frei Caneca pronunciou mesmo a oração gratulatória por ocasião da cerimônia de ação de graças, na igreja do Corpo Santo, pela aclamação de Pedro I como imperador. Só a partir da constituição do governo de Manuel de Carvalho Pais de Andrade que, sete meses depois da posse proclamará a Confederação do Equador, há sinais de colaboração estreita do frade com o poder, mas ainda sob a forma de atividade jornalística e, esporadicamente, dando seu parecer sobre algumas das grandes decisões que deveria tomar o governo. 24 A primeira de suas Cartas saiu a 17 de março de 1823, logo após a ´Pedrosada´. Eram publicadas no Correio do Rio de Janeiro, periódico de propriedade de João Soares Lisboa, que participaria da Confederação do Equador, morrendo em 30 de setembro de 1824, ferido em combate durante sua fuga pelo interior de Pernambuco ao lado de frei Caneca e seus demais companheiros. Este Pedrosa, ou Pedro da Silva Pedroso, era o governador das armas da província que refez contra Pais Barreto a aliança que derrubara Gervásio, sem que se pudesse destitui-lo, pelo apoio recebido dos Gama, na corte. Frei Caneca nunca combateu a Junta dos Matutos, composta de representantes da mata norte e sul da província, cujos interesses eram divergentes. Preferiu centrar fogo contra a facção pernambucana da Corte que endossava a política pessoal do imperador, seja sob José Bonifácio, seja sob seus sucessores. Quanto à Pedrosada, a devassa instaurada pronunciou Pedrosa e Paula Gomes, membro do governo, e José Fernandes Gama, mas a proteção imperial fez com que nenhum fosse punido. Dividida e desmoralizada, a Junta dos Matutos arrastou uma triste resistência até dezembro de 1823 quando renunciou. Enfrentava de um lado a oposição dos antigos gervasistas reunidos ao redor do intendente da Marinha Manuel de Carvalho Pais de Andrade e de Cipriano Barata, que regressara das Cortes de Lisboa; do outro, as pressões do Rio de Janeiro, que exigia de Pernambuco as quantias mensais do tempo do rei e ainda mais dois milhões, equivalentes às remessas feitas para Portugal após a partida do rei. A INDEPENDÊNCIA A independência é fruto sobretudo da conjugação de interesses da Inglaterra, desejosa de ampliar seus poderes econômicos e da burguesia nativa (aristocracia rural), desejosa de obter poderes políticos. O Príncipe Regente D. Pedro se encaixa no processo apenas como instrumento dos verdadeiros interessados. São peças significativas no processo: a imprensa, divulgadora das ideias liberais, a maçonaria, pois nas suas lojas tramam-se os diversos caminhos da independência e o povo, que representa a massa de sustentação (ideológica e armada, se preciso) do movimento, embora sem idealizá-lo ou liderá-lo. Com o risco de recolonização e a exigência do retorno de D. Pedro para Portugal, os brasileiros, sentindo-se ameaçados em sua autonomia, redigem um abaixo assinado para que o mesmo permanecesse no Brasil. Assim, D. Pedro decide permanecer no país. Este acontecimento ficou conhecido como “Dia do Fico” (janeiro de 1822). Ficou também estabelecido que nenhuma lei portuguesa vigore no Brasil sem o consentimento de D. Pedro e, em setembro, após decretos vindos de Portugal para recolonizar o país e com a atuação de José Bonifácio e Princesa Leopoldina, D. Pedro formaliza a independência do Brasil. Em dezembro é coroado como 1º Imperador do Brasil, fazendo nascer o início de uma nova era política: o 1º Império ou 1º Reinado. DICAS: A burguesia nacional logra a sua vitória: a ruptura com Portugal pode dar à classe condições de ascensão política até então inatingíveis; há um grande interesse no contato comercial com a burguesia europeia, especialmente a inglesa – na prática, tal medida significa a continuidade da dependência econômica em relação à Inglaterra; é preciso, porém, não alterar internamente o status socioeconômico dessa burguesia: a adoção de uma monarquia como forma de Governo e a manutenção da escravidão, são exemplos de tal situação. ORDEM IMPERIAL BRASILEIRA I - REINADO - 1822 - 1831 Período de Governo de D. Pedro I no Brasil. 25 Principais Ocorrências 1823: D. Pedro I veta o projeto de constituição do Deputado Antônio Carlos de Andrada (“Constituição da Mandioca”) e fecha a Assembleia demitindo os deputados (“Noite da Agonia”). 1824: 1ª Constituição do Brasil - Em vigor durante todo o período imperial. -Outorgada por D. Pedro I -Voto censitário (os eleitores votam apenas mediante uma renda mínima anual, o que possibilita a participação de apenas 5% da população no processo eleitoral). -Igreja dependente do Estado, o que se denomina regime de Padroado. -Surgimento do 4º poder: o Poder Moderador, exercido pelo Imperador e símbolo de seu autoritarismo. - Manutenção do Conselho de Estado, órgão de assessoria do rei no exercício do Poder Moderador, criado por D. João Vl para ser um órgão consultivo do governo. As ocorrências anteriores demonstram as mais importantes características políticas do 1º Reinado: 1º) Excessivo autoritarismo do Imperador; 2º) Incompatibilidade entre o rei e a aristocracia agrária brasileira, articuladora da independência, excluída das decisões políticas e, portanto, do poder; 3º) Nomeação de portugueses (e não brasileiros) para os principais cargos políticos nacionais (o próprio imperador é um português), o que faz com que o processo de independência ainda não seja consolidado. Não só as elites brasileiras, mas também as massas populares são excluídas do controle da vida política nacional. Sua união no Nordeste leva à rebelião, vista a seguir. 1824: Confederação do Equador A Confederação do Equador contou com a participação de diversos segmentos sociais, incluindo os proprietários rurais que, em grande parte, haviam apoiado o movimento de independência e a ascensão de D. Pedro I ao trono, julgando que poderiam obter maior poder político com o controle sobre a província de Pernambuco. Dessa maneira as elites agrárias da região pretendiam preservar as estruturas socioeconômicas e ao mesmo tempo chegar ao poder, até então manipulado pelos mercadores e militares de origem portuguesa, que se concentravam em Recife. No entanto esse movimento não foi protagonizado apenas pelas elites. A necessidade de lutar contra o poder central fez com que a aristocracia rural mobilizasse as camadas populares. Se as camadas populares não tinham até então sua própria organização, isso não significa que não tivesse condição para organizar suas reivindicações e caminhar com as próprias pernas, questionando não apenas o autoritarismo do poder central, mas da própria aristocracia da província. A Manutenção do Clima Revolucionário A Confederação do Equador pode ser considerada como um desdobramento da Revolução de 1817, marcada pelo liberalismo radical e que fora reprimida por D. João VI. No entanto, apesar da violenta repressão, as ideias republicanas e autonomistas estavam fortemente arraigadas em parcelas significativas da sociedade pernambucana. Essas ideias haviam se desenvolvido ao longo do século XVIII, devido às influências do iluminismo 26 europeu e principalmente á decadência da lavoura canavieira associada à política de opressão fiscal do governo do Marquês de Pombal, e se manifestaram principalmente na Revolução Pernambucana de 1817 e no Movimento Constitucionalista de 1821. Em outros momentos da história, as ideias liberais encontraram terreno para expansão, como durante a Revolução do Porto e nos primeiros momentos pós independência. A Independênciade Pernambuco Em 1821 iniciou-se um novo movimento emancipacionista em Pernambuco, quando foi organizada a "Junta Constitucionalista", antecipando em 1 ano a independência. Nesse ano, era possível encontrar na região uma série de elementos ainda relacionados com a revolução de 1817; ainda subsistiam as condições objetivas da crise e os elementos subjetivos, iluministas, expressos na Revolução do Porto, em andamento em Portugal, que difundia idéias constitucionalistas e liberais, apesar de suas contradições. O governo de Pernambuco estava nas mãos de Luís do Rego Barreto, responsável pela repressão em 17, muitos líderes da Revolução se encontravam em liberdade. A "Junta Provisória" foi formada em outubro de 1821, na cidade de Goiana, organizada principalmente por proprietários rurais - organizados na maçonaria- e por parcelas das camadas urbanas de Recife. Na prática era um poder paralelo, na medida em que, com um discurso liberal, condenavam o governo de Luís do Rego e defendiam sua deposição. O movimento, de caráter político, transformou-se rapidamente em uma luta armada, que impôs a Convenção de Beberibe, determinando a expulsão do governador para Portugal e a eleição pelo povo, de uma nova junta de governo. O novo governo foi formado principalmente por ex-combatentes da revolução de 1817, predominando, porém, os elementos da camada mais rica da sociedade local. Uma das medidas mais importantes do novo governo foi a expulsão das tropas portuguesas do Recife, que na prática representou o rompimento definitivo da província de Pernambuco com Portugal. A Reação Conservadora O movimento pernambucano representava uma ameaça aberta tanto aos interesses portugueses de recolonização, expresso nas cortes de Lisboa, como principalmente à elite tradicional brasileira e a seu projeto moderado de independência política. O regionalismo e o sentido de autonomia que se manifestava na região nordeste contrariavam as intenções da aristocracia rural, organizada principalmente no Rio de Janeiro. Para essa elite, a independência deveria conservar as estruturas socioeconômicas e promover mudanças políticas apenas no sentido de romper com Portugal e garantir a soberania do Brasil, possibilitando dessa forma, que essas elites exercessem com maior liberdade, seus interesses econômicos. A manutenção da unidade territorial (ao contrário do que ocorria na América Espanhola) era a forma de garantir que os interesses predominantes no Rio de Janeiro fossem igualmente predominantes em todo o Brasil. A repressão ao movimento foi articulada por José Bonifácio, articulado com alguns fazendeiros de Pernambuco, que depôs a Junta em 17 de setembro de 1822. Um novo governo formou-se na província, do qual participava Francisco Paes Barreto e outros ricos proprietários, o que fez com que o governo ficasse popularmente conhecido como "Junta dos Matutos". Em 8 de dezembro de 1822 D. Pedro I foi reconhecido imperador em Recife e a elite pernambucana passou a participar da elaboração de uma constituição brasileira. A historiografia tradicional encara a "Formação do Estado Nacional" de forma elitizada, desprezando as guerras de independência que ocorreram em várias províncias do país. Enquanto movimentos antilusitano se desenvolviam no Nordeste, reunia-se no Rio de Janeiro uma Assembleia Constituinte, concentrando as atenções das elites, incluindo as de Pernambuco. As discussões políticas na Assembleia deixavam antever a organização das primeiras tendências que se desenvolveriam mais tarde no país. No entanto, naquele momento, a tendência predominante foi a centralizadora, vinculada principalmente aos interesses lusitanos e apoiada principalmente pelos portugueses residentes no Brasil, em sua maioria comerciantes, que pretendiam reverter o processo de independência. O fechamento da Constituinte foi o primeiro passo concreto para a realização desse objetivo, seguido da imposição da Constituição em 1824, autoritária e centralizadora, fazendo com que as elites provinciais vissem ruir qualquer possibilidade de autonomia. A Confederação do Equador Além dos elementos já analisados, na organização do movimento foi de grande importância o papel da imprensa, em especial dos jornais "A Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco", de Cipriano Barata e do "Tífis Pernambucano" de Frei Caneca. A eclosão do movimento está diretamente associada as demonstrações de autoritarismo do 27 imperador na província de Pernambuco, nomeando Francisco Paes Barreto como presidente da província, em lugar de Pais de Andrade, apoiado pelo povo. As Câmaras Municipais de Recife e Olinda não aceitaram a substituição. Em 2 de Junho de 1824 foi proclamada a Confederação do Equador. O caráter separatista do movimento pretendia negar a centralização e o autoritarismo que marcavam a organização política do Brasil. A consolidação dessa situação dependia em grande parte da adesão das demais províncias do nordeste, que viviam situação semelhante tanto do ponto de vista político como econômico. Dessa maneira, as idéias republicanas e principalmente federalistas assimiladas dos EUA serviram como elemento de propaganda juntas às elites de cada província. O governo da Confederação deslocou homens para outras províncias a fim de obter a adesão de seus governantes. Foi convocada uma Assembléia Legislativa e Constituinte, cuja abertura estaria marcada para o dia 7 de agosto de 1824. Do ponto de vista político, pais de Andrade elaborou um projeto de Constituição, tendo como modelo a Constituição Colombiana, vista como a mais liberal na América Latina; do ponto de vista social, o projeto elaborado por Frei Caneca determinou a extinção do tráfico negreiro para o porto do Recife. Essa medida é considerada como a primeira e mais importante fissura do movimento, uma vez que atingia diretamente os interesses dos proprietários rurais. No entanto os trabalhos preparatórios da Assembleia Constituinte foram suspensos devido a ameaça das forças de repressão. O governo provisório encabeçado por Pais de Andrade procurou adquirir armas nos Estados Unidos, garantir a adesão das demais províncias e organizar milícias populares para fazer frente as tropas monárquicas de D. Pedro I Os presidentes das províncias do Ceará e do Rio Grande do Norte aderiram ao movimento e organizaram tropas para defende-lo. Na Paraíba, o apoio veio das forças contrárias ao presidente Filipe Néri, fiel ao imperador, que acabou deposto. Confronto e Derrota A organização de tropas para defender o Confederação permitiu a grande participação popular. Setores da camada popular já estavam organizados em "brigadas" desde 1821, compostas por mulatos, negros libertos e militares de baixa patente. Em 21, quando do movimento Constitucionalista, essas brigadas foram organizadas pelos líderes do movimento e acionadas em determinados situações, porém, sob o controle das elites locais. No entanto, em vários momentos na história das brigados houve insubordinação e radicalização, expressando não o sentimento nativista, mas a radicalização contra proprietários ou ainda a população branca. Em 1823 ocorreram ataques diretos aos portugueses, que ficaram conhecidos como "mata-marinheiro" e protestos raciais, marcados pelo exemplo haitiano. Esse processo de radicalização amedrontava as elites e por várias vezes foram responsáveis por seu recuo na luta contra o poder central. As divisões internas ao movimento, entre as elites haviam tendências diferenciadas, assim como o distanciamento destas em relação a massa popular contribuiu para a derrota do movimento. Por outro lado, havia a presença de tropas mercenárias contratadas pelo poder central, comandadas por Lord Cochrane que cercavam a província. Essa situação foi responsável pela política vacilante de Pais de Andrade, que não aceitou os termos de rendição propostos pelo mercenário, devido principalmente,a forte pressão que sofria das camadas baixas da população. Essa situação é reforçada quando, depois da tomada de Recife pelas tropas mercenárias, Pais de Andrade refugiou-se em um navio inglês, enquanto os elementos mais radicais resistiam em Olinda, liderados por Frei Caneca. A violenta repressão, financiada pelo capital inglês, foi responsável por debelar o movimento, prender seus principais líderes, que foram executados, dentre eles o próprio Frei Caneca. 1824: Os Estados Unidos é o primeiro país a reconhecer a independência do Brasil, inspirado na Doutrina Monroe (“A América para os americanos”) - traços iniciais da influência do país no continente latino americano. 1825: Portugal reconhece a nossa independência exigindo em troca, dentre outros, o pagamento de uma indenização a Lisboa. 1826: D. João Vl morre em Portugal e D. Pedro, seu herdeiro, se coloca na curiosa situação de rei de duas nações (em Portugal, com o título de D. Pedro IV) - situação inaceitável para os brasileiros. Em 1828, D. Pedro renuncia ao trono de Lisboa em favor de sua filha D. Maria da Glória. 1827: Renovação dos tratados comerciais de 1810 com a Inglaterra por mais 15 anos (assim os baixos preços dos produtos ingleses continuam a prejudicar o crescimento da indústria nacional). 1828: Independência da Província da Cisplatina, que passa a constituir a República do Uruguai, desligando- 28 se do Brasil após conflito armado de 3 anos, com o qual o império se endivida ainda mais. 1831: Várias manifestações contra D. Pedro culminam na “Noite das Garrafadas”, no Rio de Janeiro. 1831: D. Pedro I demite um ministério liberal em 5 de abril, convocando em seu lugar o Ministério dos Marqueses, de tendência absolutista. A população não aceita e o Imperador abdica do trono, em 7 de abril, em favor de D. Pedro II, então com 5 anos de idade. 1831: As manifestações contra o 1º Império, que culminam com a Abdicação de D. Pedro I, revelam o quadro de insatisfação geral da população brasileira. Ao lado da já mencionada situação política, na qual as elites e massas populares brasileiras estão excluídas do poder em detrimento do grupo português, tem-se a crise econômica e social, exemplificada a partir do que se segue: • Péssimas condições sociais de vida para a maior parte da população. Note-se aqui a manutenção das estruturas socioeconômicas tradicionais da Era Colonial, como o latifúndio, a monocultura e a escravidão. • Desinteresse da parte governamental (portugueses) e da elite agrária (brasileiros) de possibilitar as melhorias para a classe baixa. • Ausência de um canal reivindicador de mudanças para a classe menos favorecida, pois as rebeliões são abafadas às vezes de forma violenta e o voto censitário a exclui totalmente do processo político. • Declínio das lavouras tradicionais como o algodão (devido à concorrência com os Estados Unidos), a cana (devido à concorrência com as Antilhas e com o açúcar de beterraba da Europa) e o tabaco (devido às crescentes pressões contra o tráfico - o produto é, muitas vezes, trocado pelos escravos na África). • Ausência de capital nacional. • Restrito mercado interno. • Intensa e progressiva dependência com a Inglaterra, presente antes mesmo da independência (Tratados de 1810), mas intensificada logo depois (Renovação dos Tratados de 1810 e contração de empréstimos.). • Impossibilidade de grande crescimento industrial. Por isso, compreende-se a pouca duração do 1º Reinado. A abolição de D. Pedro I é fruto de sua incapacidade de conduzir as distorções que afloram nas crises políticas, econômicas e sociais. PERÍODO REGÊNCIAL - 1831 - 1840 Período de Governos Provisórios, enquanto se aguarda ser completada a maioridade de D. Pedro II. A partir de 1831, tem-se pela primeira vez a ascensão do grupo brasileiro (aristocracia rural) ao poder político. Forma-se o Estado Brasileiro e consolida-se o processo de independência, embora as massas populares permaneçam à margem do poder. Com a exclusão dos portugueses, emerge ao poder a elite agrária, finalmente tornando possível o seu ideal de controle político da nação, presente desde antes da independência. Com as Regências, tem-se ainda a escolha dos regentes (em alguns casos) pelo voto, o que permite ao país, em plena vigência do Império, o contato com uma experiência eleitoral republicana – contradição da monarquia brasileira. As regências e suas principais realizações 1831 - Regência Trina Provisória • Anistia aos presos políticos do 1º Império; • Marcação de eleições para a Regência Permanente. 1831 a 1835 - Regência Trina Permanente • Criação da Guarda Nacional - tropas de defesa da aristocracia rural para manutenção de seu poder político e sua influência econômica, pela via militar. • Criação do Código do Processo Criminal, que descentraliza o Poder Judiciário e coloca os juízes sob a tutela dos fazendeiros de grande poder local (Os juízes são eleitos pelo voto manipulador das elites e apenas estas controlam a “Justiça” eleitoral). • Elaboração do Ato Adicional de 1834 com as seguintes determinações: -Maior autonomia às províncias (descentralização política). -Criação do Município Neutro do Rio de Janeiro. -Substituição da Regência Trina pela Una nas eleições seguintes. -Eliminação do Conselho de Estado (que retorna no 2º Império), o que demonstra um caráter liberal do documento apesar da manutenção do Poder Moderador. As medidas descentralizadoras expostas não conferem à época, entretanto, uma característica tipicamente liberal, uma vez que a Guarda Nacional, o 29 Código de Processo Criminal e o Ato Adicional não alteram a estrutura elitista do poder e sim a fortalecem, pois são documentos ou determinações que servem para a manutenção do poder local dos aristocratas latifundiários. 1835 a 1837 - Regência Una de Feijó • Revoltas, analisadas mais adiante, obrigam o regente a renunciar antes do término do seu mandato. 1837 a 1840 - Regência Una de Araújo Lima • Novas revoltas no país; • O ministro Bernardo Pereira de Vasconcelos (notável político) nomeia o “Ministério das Capacidades” de tendência conservadora; • Surgimento, em 1840, da Lei de Interpretação do Ato Adicional de 1834, enfraquecendo o poder político das províncias (maior centralização de governo); • Aprovação da Lei da Maioridade em 1840, que antecipa no Brasil a maioridade de 18 para 15 anos, num golpe dos liberais para pôr fim à Regência conservadora de Araújo Lima e colocar no trono, com 15 anos, o Imperador D. Pedro II. Principais Revoltas Regenciais • cabanada- PE/AL • Cabanagem - PA • Balaiada - MA • Sabinada - BA • Farroupilha (Farrapos) - RS A Guerra dos Cabanos ou Cabanada (1832-1835) Foi inicialmente um movimento restaurador cujo objetivo era restituir ao trono do Brasil, o Imperador D. Pedro I, que renunciara ao posto após a morte de D. João VI. Entretanto, a revolta desenvolveu uma feição popular sob a liderança de Vicente Ferreira de Paula, caracterizando-se como uma luta anti-escravagista. Em 1831 o imperador D. Pedro I abdicara da coroa do Brasil em nome de seu filho D. Pedro II, e viajara para a Europa com o objetivo de manter os direitos dinásticos de sua filha, Maria da Glória em Portugal. Para garantir a manutenção do poder real, a Constituição definia a nomeação de uma Regência Trina. Descontentes com as decisões da corte no Rio de Janeiro, os grupos populares aproveitaram o momento de instabilidade política do período regencial para expor suas inquietações. Num primeiro momento, a revolta foi capitaneada por proprietários de terras como Domingos Lourenço Torres Galindo e Manuel Afonso de Melo. Alguns participaram do levante de abril do mesmo ano em Recife, a “Abrilada”, defendendo a restauração de D. Pedro I ao trono do império. Esse grupo era vinculado à sociedade lusitana “Coluna do Tronodo Altar”. O movimento sob comando de Vicente Ferreira de Paula, no entanto, rompeu as “alianças” com os senhores-de-engenho e transformou-se numa revolta anti-escravagista. A insurreição ocorreu na região que compreende o norte de Alagoas e o sul de Pernambuco e iniciou-se entre maio e junho de 1832, com os levantes de Antônio Timóteo de Andrade, em Panelas de Miranda, no agreste pernambucano, e João Batista de Araújo, na praia de Barra Grande, hoje povoado do município de Maragogi / AL. Os rebeldes formados por índios, brancos e mestiços lavradores, moradores nas periferias dos engenhos, além de negros fugidos passaram a ser identificados como “cabanos”, em alusão às pequenas cabanas no meio do mato em que viviam. Em 1834, D. Pedro I faleceu na Europa, o que acabou desanimando os cabanos a enfrentarem o governo. Os governadores das províncias de Pernambuco e Alagoas, Manoel de Carvalho Paes de Andrade e Antônio Pinto Chichorro da Gama, decidiram cercá-los na mata, com um exército de mais de 4.000 homens. Eles se reuniram no Teatro de Operações, em 13 maio 1834, e estabeleceram uma área dentro da qual os cabanos seriam sitiados. Foi dado um prazo para a população evacuar o espaço, o que reduziu o número de integrantes dos grupos, limitados, agora, aos mais comprometidos com a revolta e os escravos negros, por preferirem a luta à escravidão. Outra tática utilizada pelos governadores foi a promessa de anistiar os dissidentes que se entregassem. Eles conseguiram com a armadilha capturar um grande número de combatentes. Em Japaramduba, em 29 maio 1835, se renderam os derradeiros cabanos de Alagoas e Pernambuco, mas Vicente de Paula foge para o sertão. O líder envolveu-se posteriormente na política pernambucana e participou da Revolução Praieira em http://www.infoescola.com/geografia/agreste/ 30 1849 em Pernambuco. Capturado em 1850, foi preso em Fernando de Noronha, onde permaneceu até 1861, quando contava 70 anos de idade. Em geral, nota-se nas revoltas acima citadas um caráter social e popular (as camadas baixas da população lutam por melhores condições - empregos, habitação, saúde, alimentação, etc.). Exceção é feita para a Farroupilha, movimento mais longo ocorrido em toda a História do Brasil (10 anos) de caráter econômico e elitista, no qual estancieiros gaúchos reivindicam do governo regencial e, posteriormente, imperial, a compra de gado nacional e não estrangeiro como vinha ocorrendo. A luta se estende também até Santa Catarina e as duas províncias do extremo sul se desligam do Brasil, vindo a se constituírem nas repúblicas independentes de Piratini (ou Rio- grandense) e Juliana ou (Catarinense). Em vários movimentos regenciais, as lutas cessam somente graças às intervenções armadas das tropas governamentais e poucas foram as concessões feitas aos revoltosos (*) Mudança na denominação dos partidos, sem alteração de suas tendências básicas. As disputas partidárias intensas, que contribuem para a instabilidade político-social das Regências, não colocam o povo na luta pelo poder. São, portanto, disputas entre as elites, que alternam no poder liberais e conservadores (Maré Liberal e, logo após a Maré Conservadora). II- REINADO - 1840 - 1889 Período de governo de D. Pedro II no Brasil. Fases: POLÍTICA INTERNA Revoltas de 1842 - MG e SP Minas Gerais e São Paulo não aceitam, em 1842, a decisão do Imperador de substituir o gabinete liberal, até então no governo, por um conservador. Revoltam-se sob a liderança de Teófilo Otoni (MG) e Feijó (SP). Em 1844, com a demissão dos conservadores e a readmissão do gabinete liberal, a revolta chega ao fim. Na verdade, a alternância de gabinetes entre liberais e conservadores, com predomínio dos últimos, é uma característica política marcante do governo do 2º Império, numa clara tentativa de D. Pedro II em amenizar as disputas políticas entre ambos. (Apenas na metade do século XIX forma-se um gabinete misto, de curta duração, é o “Ministério da Conciliação”.) REVOLUÇÃO PRAIEIRA Revolução Praieira: o levante que se pôs contra o governo de Dom Pedro II. No começo do Segundo Reinado, a ascensão dos liberais que apoiaram a chegada de Dom Pedro II ao poder foi logo interceptada após os escândalos políticos da época. As “eleições do cacete” tomaram os noticiários da época com a denúncia das fraudes e agressões físicas que garantiriam a vitória da ala liberal. Em resposta, alguns levantes liberais em Minas e São Paulo foram preparados em repúdio às ações políticas centralizadoras do imperador. 31 Nesses dois estados os levantes não tiveram bastante expressão, sendo logo contidos pelas forças militares nacionais. Entretanto, o estado de Pernambuco foi palco de uma ação liberal de maior impacto que tomou feições de caráter revolucionário. Ao longo da década de 1840, setores mais radicais do partido liberal recifense manifestaram seus idéias através do jornal Diário Novo, localizado na Rua da Praia. Em pouco tempo, esses agitadores políticos ficaram conhecidos como “praieiros”. Entre as principais medidas defendidas por esses liberais estavam a liberdade de imprensa, a extinção do poder moderador, o fim do monopólio comercial dos portugueses, mudanças socioeconômicas e a instituição do voto universal. Mesmo não tendo caráter essencialmente socialista, esse grupo político era claramente influenciado por socialistas utópicos do século XIX, como Pierre–Joseph Proudhon, Robert Owen e Charles Fourier. Em 1847, o movimento passou a ganhar força com a nomeação de um presidente de província conservador mineiro para conter a ação dos liberais pernambucanos. Revoltados com essa ação autoritária do poder imperial, os praieiros pegaram em armas e tomaram conta da cidade de Olinda. A essa altura, um conflito civil contando com o apoio de grandes proprietários, profissionais liberais, artesãos e populares tomou conta do estado. Em fevereiro de 1849, os rebelados tomaram a cidade de Recife e entraram em novo confronto com as forças imperiais. Nesse período, o insurgente Pedro Ivo surgiu como um dos maiores líderes dos populares. Entretanto, a falta de apoio de outras províncias acabou desarticulando o movimento pernambucano. No ano de 1851, o governo imperial deu fim aos levantes que contabilizaram cerca de oitocentas baixas. DICAS!! Os revolucionários liderados por Luis Roma, Inácio de Abreu e Lima, Pedro Ivo e outros, publicaram um documento chamado Manifesto ao Mundo com as seguintes propostas: 1. O voto, para o povo brasileiro, terá de ser livre e universal. 2. O cidadão terá plena liberdade de comunicar seus pensamentos por meio da imprensa. 3. O trabalho deverá ser a garantia de vida para o povo brasileiro. 4. O comercio de retalho será apenas para os cidadãos brasileiros. 5. Os poderes do Estado terão inteira e efetiva independência. 6. O poder moderador será extinto. 7. A nação deverá conter o elemento federal. 8. O poder judiciário será reformado de forma a assegurar as garantias e direitos individuais do cidadão. 9. A lei do juro será extinta. 10. Será reformulado o sistema de recrutamento. Parlamentarismo: 1840 a 1889 O modelo inglês: (vigente desde a Revolução Gloriosa do século XVII). Funcionamento: Através do voto, a população escolhe seus representantes na Câmara (Parlamento). O partido que obtiver a maioria desses votos (Majoritário) elege o 1º Ministro, chefe do Parlamento, nomeado simbolicamente pelo rei. O 1º Ministro constitui o seu Gabinete e o submete à aprovação do Parlamento. Nesse modelo, o rei, como Chefe de Estado, é figura secundária. As funções legislativas cabem ao Parlamento e as executivas ao Gabinete; o 1º Ministro, Chefe de Governo é o mandatário, de fato, da nação.O modelo brasileiro: Funcionamento: O Rei, no exercício do Poder Moderador e assessorado (se necessário) pelo Senado Vitalício e pelo Conselho de Estado (recriado em 32 1840) escolhe o 1º Ministro (Presidente do Conselho de Ministros) que nomeia o seu Gabinete (funções executivas). Esse Gabinete determina as eleições, através do voto censitário, para a escolha dos membros do legislativo, que constituirão o Parlamento. O modelo Parlamentarista brasileiro é criado pelo próprio Imperador, mediante o Ato Adicional de 1847 (não está previsto pela Constituição em vigor, de 1824) numa tentativa de preservar a sua imagem e transferir as atribuições de Chefe de Governo para o presidente do Conselho de Ministros. Além disso, D. Pedro II alterna liberais e conservadores no poder (houve predomínio dos últimos) a fim de superar as disputas políticas tão típicas do 1º Império e do período Regencial. Tais disputas políticas, entretanto, não demonstram divergências ideológicas, mas apenas choques de interesses pessoais, uma vez que tanto liberais quanto conservadores representam somente a elite agrária dominante no país e não a população em geral. Diferenças do Modelo Brasileiro em Relação ao Modelo Inglês 1ª). No caso inglês, as eleições populares precedem e determinam a escolha do Parlamento. É do partido Majoritário, escolhido a partir das eleições, que surge o 1º Ministro. No caso brasileiro, o 1º Ministro é nomeado pelo Rei antes das eleições parlamentares. Esse 1º Ministro, em combinação com o Rei, marca as eleições para o Parlamento. 2ª) O Estado Brasileiro, apesar de parlamentarista, é forte e centralizado. D. Pedro II cria o modelo e mantém o Poder Moderador para si. Tal situação jamais ocorreu na Inglaterra. A afirmativa “O Rei reina, mas o parlamento governa”, característica do modelo inglês, não pode ser observada no Brasil. ECONOMIA CAFÉ As Fases do Café no II- Reinado Razões da ascensão da lavoura cafeeira: - Quadro natural favorável; clima satisfatório e fertilidade da terra-roxa; - Contribuição técnica dos imigrantes (sobretudo vindos da Itália). - Ausência de países concorrentes no mercado internacional. - Ausência de produtos concorrentes no mercado interno. - Proximidades das regiões produtoras com o porto exportador de Santos. - Ligação das fazendas produtoras do Oeste com o porto de Santos do leste através das ferrovias. - Lei Eusébio de Queirós, de 1850, proibindo a entrada de escravos no Brasil e liberando os capitais anteriormente empregados no tráfico negreiro para atividades cafeeira e industrial. INDÚSTRIA Razões da ascensão: - Lei Eusébio de Queirós, pelo motivo anteriormente explicado. Além disso, com essa lei, os preços dos escravos se elevam, estimulando a vinda dos imigrantes. - Contribuição dos imigrantes (mão-de-obra mais qualificada e assalariada, o que amplia o mercado consumidor). - Não-Renovação, em 1843, dos Tratados de Comércio e Navegação de 1810, com os ingleses; assim, os preços dos produtos da Inglaterra se elevam, dando margem aos produtos nacionais no mercado interno. - Elevação das taxas alfandegárias sobre produtos estrangeiros no Brasil, a partir de 1844 (Tarifas Alves Branco). - Expansão da lavoura cafeeira, liberando capitais para a atividade industrial, fazendo crescer os centros urbanos, multiplicando as ferrovias (progresso nos setores siderúrgico e madeireiro), etc. - Utilização do capital inglês, sobretudo nos setores bancário, de transportes (bondes e ferrovias) e de serviços gerais (correio, por exemplo), fornecedores 33 de uma infraestrutura adequada ao crescimento inicial da indústria. - Atuação de Irineu Evangelista de Souza (Barão de Mauá), sobretudo de 1845 a 1863 (Era Mauá). Sua capacidade empresarial e visão capitalista são responsáveis, dentre outras, pelas seguintes realizações: 1ª) Primeira ferrovia do país: Rio-Petrópolis 2ª) Iluminação pública a gás, no Rio de Janeiro 3ª) Fundação de Bancos (Casas Bancárias Mauá) 4ª) Construção de estaleiros 5ª) Estímulo à navegação no Rio Amazonas 6ª) Ligação telegráfica Brasil-Europa Não se deve, entretanto, supervalorizar a indústria nacional. É uma atividade ainda incipiente no século XIX. Destacam-se as indústrias de moagem e torrefação de café, sacarias (para embalagem do café), tecidos, chapéus, farinhas, etc. Dentre os vários problemas enfrentados pelo setor, que justificam essa fragilidade, podem ser citados: - Ausência de capital em larga escala; - Ausência de mentalidade empresarial-capitalista (explicada, em parte, pela própria posição portuguesa no passado colonial, proibindo a instalação de indústrias); - Deficiente rede de transporte nas várias regiões brasileiras; - Concorrência, sobretudo com a Inglaterra, no mercado internacional; - Incipiente mercado consumidor nacional; - Falta de mão-de-obra qualificada, pela tradição rural-exportadora-escravista, vigente ainda no país. SOCIEDADE Questão imigratória - Fatores que estimulam a imigração, sobretudo na 2ª metade do século passado: • Expansão da lavoura cafeeira; • Início do processo de industrialização do país; • Aumento do preço dos escravos, com o combate ao tráfico a partir de 1850; • Processo externo de unificação da Alemanha e da Itália em 1870, através de vários conflitos, que forçam a saída de alemães e italianos insatisfeitos com a situação em seus países; • Esgotamento de terras europeias; • Propagandas no exterior procurando atrair os imigrantes; • Crises econômicas europeias, gerando desempregos e subempregos. Os imigrantes procuram as fazendas de café de São Paulo (em especial os italianos) e as províncias do Sul (caso dos alemães, por uma questão de semelhança climática com o país de origem). A partir de 1850, o fluxo migratório torna-se mais significativo, com a entrada aproximada de 117 mil imigrantes naquela década e chegando a cerca de 527 mil na década de 1880. O ponto máximo registra- se na década de 90, com a entrada de mais de 1.200 mil estrangeiros. Esses estrangeiros, especialmente quando trabalham na lavoura, vivem em precária situação sócio econômica. O trabalho dos colonos no sistema de parceria é um exemplo: cultivam terras das quais não são donos, fornecendo parte do cultivo ao proprietário e ficando com o restante. Esse sistema provoca, em 1857, violenta revolta dos imigrantes alemães em São Paulo (Revolta de Ibicaba), levando o governo alemão a proibir a vinda de imigrantes para o Brasil. Principais contribuições dos imigrantes: 1º) Mão-de-obra e mercado consumidor para os setores agrícola e industrial; 2º) Fundação de núcleos de povoamento (1ª colônia: Nova Friburgo, fundada por suíços); 3º) Desenvolvimento do trabalho assalariado no país. 4º) Proprietários de minifúndios (“Desmistificação” do latifúndio tradicional). Questão abolicionista As origens do processo abolicionista remontam às primeiras décadas do século XIX, quando os ingleses iniciam a pressão pelo fim do tráfico de escravos da África para o Brasil. O término do tráfico é uma primeira etapa para se acabar com a própria escravidão posteriormente. Por que o interesse inglês em combater a escravidão? - longe dos motivos “sociais” tão apregoados na época, a Inglaterra é a primeira nação a perceber os entraves representados pelo escravismo ao desenvolvimento do capitalismo. O escravo, sem renda, não representa mercado consumidor; se livre, torna-se um assalariado e um consumidor (inclusive, é claro, dos produtos ingleses, já em plena Revolução Industrial). 34 Daí, em 1845, ter surgido na Inglaterra o Bill- Aberdeen, que dá direito a qualquer navio inglês de aprisionar e até naufragar navios negreiros. O objetivo é dificultar ao máximo o tráfico África-Brasil.Na prática, porém, o resultado é outro: o risco do negócio eleva substancialmente o preço do escravo, tornando seu comércio a atividade de maior lucro do país, na época. A entrada de escravos se multiplica: se em 1845 o número dos que entram no país é de 20 mil aproximadamente, no ano seguinte chega a 50 mil, indo para 60 mil em 1848. Clube do Cupim Na história dos movimentos abolicionistas em Pernambuco, o Clube do Cupim tem um lugar de destaque, apesar de pouco ter sido escrito sobre ele. A partir de 1880, multiplicaram-se no Brasil as sociedades contra a escravidão, que tinham como objetivo básico angariar fundos para comprar cartas de alforria de escravos. Em Pernambuco existiram mais de trinta dessas sociedades, que foram a gênese do Clube do Cupim, pois muitos dos seus sócios fundadores já participavam ativamente de algumas delas. Em 24 de março de 1884, o Ceará decretou a libertação de todos os escravos daquela Província. Intensificou-se a campanha contra a escravidão em todo o País. João Ramos, um maranhense que se mudou para o Recife aos 14 anos, idealizador e fundador do Clube do Cupim, sonhava em realizar também em Pernambuco o mesmo que fizeram os cearenses. Passou a proteger escravos recomendados a ele, tornou-se conhecido dos negros que o procuravam pedindo ajuda para comprar suas cartas de alforria, prometendo pagá-las com o seu trabalho. Em 1883, com o auxílio de amigos, João Ramos já havia estabelecido uma rota segura para os escravos fugidos, enviando-os para Mossoró, no Rio Grande do Norte, de onde eram transferidos para Aracati e Fortaleza, no Ceará. No dia 8 de outubro de 1884, João Ramos reuniu-se com mais onze amigos, na casa de um deles, o cirurgião dentista Numa Pompílio, na Rua Barão da Vitória, 54 (atual Rua Nova) para fundar uma sociedade não emancipadora, mas abolicionista e secreta denominada Relâmpago, que depois mudou o nome para Clube do Cupim. A sociedade não tinha estatuto e seu único lema era a libertação dos escravos por todos os meios. Como era uma sociedade secreta, seus sócios adotavam um “nome de guerra”, utilizando-se dos nomes das províncias brasileiras da época (atuais estados). Foram seu fundadores: João Ramos, presidente (“Ceará”); Guilherme Ferreira Pinto, tesoureiro (“Goiás”); Alfredo Pinto Vieira de Melo, secretário (“Minas Gerais”); Fernando de Paes Barreto, o orador do Clube (“Maranhão”); Numa Pompílio (“Mato Grosso”), João José da Cunha Lajes (“Amazonas”); Barros Sobrinho (“São Paulo”), Antônio Faria (“Rio Grande do Sul”); Gaspar da Costa (“Rio de Janeiro”); Nuno Alves da Fonseca (“Alagoas”); Alfredo Ferreira Pinto (“Bahia”); Manoel Joaquim Pessoa (“Rio Grande do Norte”) e Luís Gonzaga do Amaral e Silva (“Pernambuco”). O Clube do Cupim passou depois a ter vinte sócios efetivos. Cada sócio tinha sob suas ordens um capitão, este um sub-capitão que, por sua vez, comandava vinte auxiliares. Todos tinham que adotar um “nome de guerra” utilizando os nomes de localidades brasileiras. Dessa maneira, sempre com vinte sócios efetivos, o Clube do Cupim chegou a contar com mais de trezentos auxiliares. Além dos fundadores, o Clube passou a contar depois com os seguintes sócios efetivos: Venceslau Guimarães (“Paraná”); Salles Barbosa (“Paraíba”); José Manoel da Veiga Seixas (“Sergipe”); Mendes Guimarães (“Pará”), que por medo de comprometer- se pediu para sair, sendo substituído por Joaquim de Oliveira Borges; Pedro da Costa Rego (“Santa Catarina”), que também foi substituído por Antônio Ferreira Baltar Sobrinho. Por último, ainda em 1885, entraram José Mariano (“Espírito Santo”), o mais notável dos seus membros e Argemiro Falcão (“Piauí”). Em junho de 1885, o Recife preparou-se para receber Joaquim Nabuco. O Clube do Cupim, apesar da sua discrição colocou um anúncio no Jornal do Recife (dias 14 e 16): Clube do Cupim: ‘‘A diretoria deste patriótico clube, convida seus numerosos consócios e a todos os homens de cor, que quiserem acompanhar ao Dr. Joaquim Nabuco no dia de sua chegada, a comparecerem no Largo do Arsenal da Marinha, a seis e trinta da manhã”. http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=307&textCode=852&date=currentDate http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=307&textCode=887&date=currentDate 35 Foram realizadas, no total, 21 sessões na sede do Clube, até que no dia 1º de novembro de 1885, resolveram dissolvê-lo por causa das perseguições. Não tinham mais um local fixo para suas reuniões, porém os cupins, como eram conhecidos os abolicionistas, continuavam a atuar clandestinamente. Evitando ajuntamento, a comissão executiva encontrava-se em diversos locais: sob as árvores da Rua do Imperador, no meio das pontes, nos fundos de armazéns ou vendas, na Praça da República e até na Rua da Aurora, em frente à chefatura de polícia. Discutia, deliberava, dava as suas ordens aos capitães que por ali rondavam e estes iam repassando para os companheiros, que as executavam com brevidade, fielmente e na íntegra. Todo o trabalho era facilitado porque possuíam adeptos e simpatizantes em todo lugar. Havia uma grande quantidade de “panelas”, como eram conhecidos os esconderijos dos escravos que a sociedade ajudava a libertar. Suas atividades eram cada vez mais intensas. Os escravos fugiam dos engenhos aos bandos, deixando alguns quase vazios. O termo “cupim” passou a ser usado até pelos abolicionistas do Rio de Janeiro que pretendiam “libertar os centros populosos e fazer roer o cupim no interior”. Aqui no Recife, os carregamentos e envios de escravos clandestinos para outros locais, passaram a ser mais numerosos e frequentes. Os escravos eram enviados também para Camocim, Natal, Macau, Macaíba, Belém, Manaus, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e até Montevidéu, no Uruguai. A última façanha do Clube do Cupim foi o embarque de 119 escravos, realizado no dia 23 de abril de 1888. Desceram à noite, do Poço da Panela, da casa de José Mariano em uma canoa de capim até a Capunga, sendo depois rebocados por dois botes que fundearam em frente à casa de banhos, passando daí para o barco Flor de Liz e, na manhã seguinte, para um rebocador que os levou para a liberdade. No dia 13 de maio, a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. FONTE: DOWBOR, LADISLAU. A FORMAÇÃO DO CAPITALISMO DEPENDENTE NO BRASIL. LISBOA, PRELO, 1977. P. 103 Daí as pressões de nossos abolicionistas para que o governo brasileiro interceda. Por essa época nota-se a composição de dois grupos divergentes no Brasil: os Abolicionistas, que não enxergam em D. Pedro II alguém capaz de pôr fim à escravidão e tornam-se assim republicanos; e os Escravistas, grandes proprietários rurais, politicamente Monarquistas. O primeiro grupo aos poucos se transforma na maioria, englobando até cafeicultores do oeste paulista, com uma mentalidade mais capitalista e modernizadora, defensora do trabalho assalariado. O segundo grupo, porém, detém o controle político da nação. A solução encontrada pelo governo imperial é a conciliação de interesses através da abolição gradativa da escravidão. (A abolição satisfaz aos abolicionistas e a forma gradativa não pune com rigor os escravistas). Assim, compreende-se a sucessão de leis abolicionistas: - 1850: Lei Eusébio de Queirós, proibindo a entrada de escravos no Brasil. - 1854: Lei Nabuco de Araújo, com as mesmas determinações da anterior e punições mais severas para os infratores. - 1871: Lei Rio-Branco (Ventre-Livre), suprimindo o trabalho escravo dos filhos de escravos nascidos a partir dessa data. - 1885 - Lei Saraiva - Cotegipe (Sexagenário), pondo fim ao cativeiro para os escravos com mais de 65 anos. Apesar da profundidade aparente das leis anteriores,elas têm na prática pouca valia para os escravos, e reduzidas são as alforrias provenientes de http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=312&textCode=841&date=currentDate http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=316&textCode=769&date=currentDate http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=312&textCode=943&date=currentDate http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=300&textCode=893&date=currentDate http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=300&textCode=962&date=currentDate 36 tais leis. Em 1888, quando D. Pedro II se encontra na Europa, as pressões dos abolicionistas-republicanos sobre a Princesa Isabel são, então, tamanhas que, se o Império Brasileiro não decreta o fim da escravidão, a república seria, nesse ano mesmo proclamada. Assim, diante desse contexto bem mais político que social, compreende-se a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, resguardando-se a monarquia por mais um ano e meio. Os escravistas- monarquistas, ao perderem seus escravos, aderem à campanha republicana: são os “Republicanos de 13 de maio”. Sem o apoio da aristocracia agrária, o Império não sobrevive por falta de bases e a República é proclamada em 1889 como uma decorrência natural da abolição. 4. POLÍTICA EXTERNA Questão Christie Em 1861, o navio inglês “Prince of Walls” naufraga na costa do Rio Grande do Sul e seu carregamento levado à praia é saqueado pelos gaúchos. O embaixador inglês no Brasil, William Christie, exige de Pedro II o pagamento de uma indenização, conseguindo seu intento. Em 1863, alguns oficiais ingleses, à paisana, se envolvem em desordens no Rio de Janeiro e são levados a uma delegacia local. Uma vez identificados são imediatamente soltos, mas apesar disso Christie exige do governo imperial a punição dos soldados da capital que levaram os oficiais a tamanha “humilhação”. Como o Imperador se nega a puni-los, a Inglaterra rompe relações com o Brasil até 1865. Deve-se considerar, porém, que tal fato é apenas um pretexto para ruptura, pois as relações Brasil- Inglaterra há muito não andam bem: desde 1810 os ingleses pressionam pelo fim do tráfico negreiro e em 1845 publicam o Bill Aberdeen já explicado nesta unidade. A reação dos brasileiros foi violenta, diante da intromissão inglesa. Em 1843, D. Pedro II se nega a renovar os tratados de 1810 com a Inglaterra. Em 1844, as tarifas alfandegárias Alves Branco encarecem os produtos estrangeiros (inclusive ingleses) no país. Por tudo isso, o episódio do roubo da carga do navio inglês e da prisão temporária dos oficiais britânicos são apenas pretextos para o rompimento das relações diplomáticas (as relações econômicas prosseguem normalmente, o que demonstra a superficialidade do acontecido). Em 1865, graças à mediação do Rei belga Leopoldo II a nosso favor, os ingleses se desculpam formalmente e as relações são restabelecidas. Questões Platinas Razões das tensões na Região Platina, sobretudo na 2ª metade do século XIX: - Ausência de fronteiras definidas entre as nações platinas (Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina). - Grande importância econômica da região (solos e climas adequados à criação e a lavoura e navegabilidade do Rio da Prata). - Grande importância estratégico-geográfica da região (proximidade de Buenos Aires e Montevidéu). - Temor brasileiro pela reconstituição do Vice-Reino do Prata envolvendo Argentina, Paraguai e Uruguai. - Temor das demais nações platinas e da Inglaterra, pela formação do “Paraguai Maior” - o presidente paraguaio Solano Lopez ameaça os vizinhos com conquistas militares de seus territórios (velho sonho de obtenção de uma saída para o mar) e a grandeza desse país ameaça os interesses econômicos – brasileiros, argentinos e ingleses – na região. - Constantes intromissões de brasileiros e argentinos na política interna do Uruguai, quando de suas eleições presidenciais envolvendo aspectos políticos e militares - veja a seguir: Guerra do Paraguai (1864 a 1870) Essa guerra, mais longo e complexo conflito ocorrido na América Latina, é ocasionada pelo conjunto de fatores responsáveis pelas tensões na Bacia Platina, explicados anteriormente. Entretanto, o aprisionamento do navio brasileiro Marquês de Olinda pelos paraguaios, na fronteira dos países, é o pretexto para o início do conflito, em 1864. Dada a superioridade inicial do Paraguai - mais desenvolvida nação sul-americana de então, demonstrada na força e organização do exército do presidente Solano Lopez, - o temor pela formação do “Paraguai Maior” se alastra até a Argentina e o 37 Uruguai, que entram na guerra em 1865, e constituindo, ao lado do Brasil, a Tríplice Aliança, também auxiliada pela Inglaterra, interessada na destruição do concorrente paraguaio. Observa-se gradualmente, a partir daí um recuo de tropas paraguaias e a invasão e destruição do seu território, após violentas batalhas travadas ao longo de todo o conflito (Tuiuti, Itororó, Ivaí, etc.). O próprio Solano Lopez morre em combate, em 1870, ano da rendição paraguaia. Consequências do conflito para o Paraguai e o Brasil •Para o Paraguai: a guerra representa a total destruição do país, a ponto de jamais recuperar sua condição de grande nação no continente. Perde terras, dinheiro, armas, e, sobretudo, vidas. Sua população, em relação ao início do conflito se reduz para 1/4, numa das mais expressivas perdas humanas registradas em toda a história universal. Sua reconstrução, nunca concluída, é difícil e ajudada pelo próprio Brasil. • Para o Brasil: dos países vencedores é o que menos lucra. Adquire uma pequena porção do território paraguaio (no atual estado do Mato Grosso), mas sua dívida de guerra é enorme. Arca também com a essência da campanha militar e auxilia a reconstrução do Paraguai. Principais alterações históricas para a vida brasileira 1ª) Dadas as dificuldades no desenrolar do conflito, o exército nacional recruta centenas de escravos que lutam nos campos de batalha. Ao final da guerra, como recompensa, o exército pressiona o governo imperial para conceder a abolição da escravatura. Como D. Pedro II se nega, sofre a oposição dos oficiais, que fazem crescer a campanha abolicionista. 2ª) Terminado o conflito, o exército nacional retorna ao país convencido pela oficialidade dos países vizinhos que está lançada a oportunidade de derrubar o Imperador e assumir o controle político da nação. A ambição política do exército e sua adesão à campanha republicana se explica também por ser o Brasil a única monarquia do continente e várias repúblicas vizinhas já serem governadas por militares. A vitória na guerra do Paraguai é motivo de engrandecimento dos militares que julgam ser este o momento adequado para o seu golpe republicano. REPÚBLICA VELHA 1889 – 1930 Entende-se por República Velha o período da História do Brasil que vai da Proclamação da República, em 1889, até a Revolução de 1930. Apesar da mudança na forma (República) e no sistema de governo (Presidencialista), além da adoção de uma nova Constituição (1891), mantém-se a tradição agrário-latifundiária-exportadora, com o predomínio das oligarquias rurais (coronéis) e as acentuadas disparidades sociais – quadro típico do Império, cujas origens remontam à Colônia. Algumas alterações, porém, se fazem notar nessa Primeira República: a maior presença do grande capital, a intensificação da industrialização, a entrada mais maciça de imigrantes, a marginalização do negro e do nascente operariado, o surgimentode novas ideologias nascidas principalmente das precárias condições de trabalho nas fábricas, além de diversos choques, no campo e na cidade, que demonstram o questionamento do poder dominante. A República Oligárquica é um arranjo de forças opostas, novas e tradicionais, em conflito: de um lado, sertanejos, operários, ex-escravos, imigrantes marginalizados e militares de baixa patente, e de outro, as forças dominantes, representadas pela aristocracia agrária, militares de alta patente e a nascente burguesia urbano-industrial. Assim como a Proclamação da República não pode ser considerada um marco transformador das estruturas do Império, a Revolução de 1930 também deve ser entendida bem mais como uma rearticulação de novas forças, representadas pela burguesia industrial em ascensão, em convívio com as oligarquias rurais até então predominantes. A CRISE DA MONARQUIA E AS ORIGENS DA REPÚBLICA A partir da segunda metade do século XIX, aproximadamente, a monarquia brasileira não responde satisfatoriamente às necessidades de transformação e aos grandes questionamentos levantados por uma parcela cada vez mais significativa das classes médias e altas. São questionados, dentro do Império: • o unitarismo, que centraliza as decisões na figura do imperador; • o voto censitário, que exclui a maior parte da população dos direitos políticos, 38 • o Senado vitalício, que perpetua em torno do monarca elementos da elite agrário-escravista; • o regime de Padroado, que submete a Igreja ao Estado; • o escravismo, que se torna incompatível com as condições impostas pelo Capitalismo do século XIX; • a Constituição de 1824, que prevê todas as características acima. Reivindica-se um novo sistema e uma nova forma de governo, respectivamente, o Presidencialismo e a República, para tornar possível: O federalismo; o fim do voto censitário; o fim da vitaliciedade do Senado; a independência da Igreja ao Estado; o estímulo ao trabalho assalariado e ao crescimento econômico; uma nova Constituição, formalizadora de tudo isso. É significativo, ainda, o fato de o Brasil ser, em fins do século XIX, a única monarquia das Américas e um dos últimos redutos do escravismo no continente. Todo esse questionamento da estrutura da monarquia explica a existência das questões, principalmente a partir de 1870, vistas a seguir, que conduzem à Proclamação da República. 1 - QUESTÃO MILITAR Terminada a Guerra do Paraguai (1864-70), o Exército Nacional retorna vitorioso e consciente de sua força política. O contato com a oficialidade das nações vizinhas, Repúblicas governadas por militares, amplia a ambição política e o sonho republicano entre as altas patentes. O exército reclama ainda da interferência do poder civil em assuntos especificamente militares e dos baixos soldos. A insatisfação com a monarquia expressa-se na adoção do positivismo, filosofia de origem europeia, baseada na defesa “da ordem e do progresso”. Nesse contexto, o exército passa a defender o desenvolvimento econômico com base na industrialização, no estímulo à imigração e no fim da escravidão, incompatíveis com os interesses dos grupos latifundiários e escravistas dominantes do Império. A defesa do abolicionismo prende-se ainda a um desejo de recompensar aos escravos pela participação dos mesmos na Guerra do Paraguai. Por tudo isso, a Questão Militar representa o fim do apoio do exército à Monarquia e sua consequente adesão à República. 2 - QUESTÃO RELIGIOSA O regime do Padroado, que submete a Igreja ao Estado, previsto pela Constituição Imperial de 1824, causava crescente insatisfação entre os clérigos. No início dos anos 70, bispos do Rio de Janeiro, Olinda e Belém não aceitam a presença de padres em lojas maçônicas e de membros da maçonaria em irmandades religiosas. Essas irmandades recorrem ao Imperador D. Pedro II, que condena os bispos à prisão. Tal fato é o culminar da Questão Religiosa, mediante a qual a Igreja retira o apoio à Monarquia. O clero defende a República, condicionado à separação entre Igreja e Estado no regime posterior. 3 - MANIFESTO REPUBLICANO E PARTIDOS REPUBLICANOS A publicação do “Manifesto Republicano”, em 1870, explicita a indesejável condição do país de única monarquia das Américas (“Somos da América e queremos ser americanos”). Expressa as concepções republicanas de liberalismo e federalismo inexistentes na Monarquia. Condena o escravismo, o que faz com que duas correntes passem a defender os mesmos interesses: a abolicionista e a republicana. O desejo de maior autonomia às províncias (federalismo) leva a adesão de grandes proprietários rurais à causa da República. Muitos desses são responsáveis pela fundação de Partidos Republicanos em todo o país, com destaque para o Partido Republicano Paulista (PRP), surgido na Convenção de Itu (1873) e aglutinando os cafeicultores da província, em especial do Oeste, de grande poder econômico. O Manifesto Republicano e os PR’s formalizam as bases políticas para o questionamento da Monarquia. 4 - QUESTÃO ABOLICIONISTA Sem o apoio do Exército, da Igreja, dos cafeicultores do oeste paulista, das classes médias e de parcela significativa da imprensa, restava ao Imperador o apoio de um único reduto: dos tradicionais “barões do café”, latifundiários e escravistas. Entretanto, ao longo da segunda metade do século XIX, D. Pedro II vem sendo insistentemente pressionado, interna e externamente, para o fim do 39 trabalho escravo, o que contraria os interesses dos monarquistas tradicionais. É significativa a participação da Inglaterra, em plena Revolução Industrial, lutando pelos seus interesses capitalistas de ampliação dos mercados consumidores no Brasil, incompatíveis com o escravismo. Acuado diante dos interesses antagonistas dos escravistas-monarquistas e dos abolicionistas- republicanos, o monarca promove a abolição gradual da escravidão, com leis de pouco significado prático para o escravo. As insuportáveis pressões pelo fim do escravismo levam à Lei Áurea de 1888, sem as esperadas indenizações aos senhores de terra pela perda de seus escravos. É o ápice da Questão Abolicionista, que conduz até mesmo tradicionais latifundiários à causa da República, numa atitude de represália ao Imperador (são chamados de “Republicanos do 13 de maio”). Sem qualquer ponto de sustentação política, D. Pedro II deixa o país, possibilitando o golpe de implantação da República, em 15 de novembro de 1889, numa pacífica transição de regimes. INSTABILIDADE INICIAL DA REPÚBLICA Com a Proclamação, formalizada pelo Marechal Deodoro da Fonseca, é instalado o primeiro Governo da República, ainda provisório, chefiado pelo mesmo marechal. No Governo Provisório de Deodoro (1889 a 1891) extingue-se a vitaliciedade do Senado e separa-se a Igreja do Estado. O Presidente convoca a Assembleia Constituinte que promulga, em 1891, a primeira Constituição da República, baseada na Carta dos Estados Unidos. São destaques da Constituição de 1891: • Forma de Governo: República • Sistema de Governo: Presidencialismo • Federalismo - maior autonomia aos Estados, sem extinguir a força da União. •Independência dos três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário. • Voto direto, mas não secreto, masculino, para maiores de 21 anos. Estão excluídos: mulheres, menores, padres, soldados e analfabetos. • Separação Igreja / Estado, oficializando o registro e o casamento civil. • Riquezas do subsolo pertencem ao dono do solo e não à nação. A Proclamação da República satisfaz aos interesses elitistas de pequena parcela da população. Tais interesses estão expressos na Constituição, sobretudo, na questão do voto: elimina-seo voto censitário, mas proíbe-se o voto do analfabeto, o que significa, a exemplo do período imperial, a exclusão política da imensa maioria de brasileiros, sem o direito da cidadania. A ausência do voto secreto também traduz a existência de mecanismos nada éticos para perpetuação do domínio político das minorias. A Constituição de 1891 traduz o próprio significado da República: liberal em sua forma, mas oligárquica em seu funcionamento, garantindo apenas às elites fundiárias, sobretudo cafeicultores, o controle político do Brasil, ao longo da República Velha. Eleito indiretamente pela Assembleia Constituinte, o Governo Constitucional de Deodoro (1891) é marcado por grande instabilidade, exemplificada pela (o): • oposição dos cafeicultores, sobretudo de São Paulo – Deodoro é eleito graças ao apoio do exército; • fracasso da política financeira do ministro Rui Barbosa – assunto visto adiante; • dissolução do Congresso pelo Presidente; • primeira Revolta da Armada (RJ), provocando cisões dentro das Forças Armadas. Esse quadro leva à renúncia de Deodoro e à ascensão do Governo de Floriano Peixoto (1891 a 1894), cuja posse é amplamente questionada, uma vez que o titular não havia completado a metade de seu mandato, o que deveria provocar nova eleição, de acordo com a Constituição (Floriano alega que tal dispositivo é válido apenas quando o titular se elege pelo voto direito). Apesar da reabertura do Congresso, o Presidente enfrenta dois movimentos armados, os quais reprime com violência: a nova Revolta da Armada (RJ), em 1893 e a Revolta Federalista (RS), de 1892 a 1895. Essas rebeliões expressam uma cisão dentro do exército, um descontentamento de setores da marinha (sem grande participação no poder político nacional) e as pressões dos setores agroexportadores. Tais setores elegem, em 1894, Prudente de Morais, iniciando seu controle efetivo sobre o país, o que se estende por toda a República Velha. É o fim da chamada República da Espada (1891-94) e a eleição do primeiro civil à presidência. 40 Principais Governos da República Velha PRUDENTE DE MORAES (1894/1898) Prudente de Moraes foi o primeiro Presidente civil do Brasil. Com ele, iniciou-se, na República, o domínio político dos fazendeiros, isto é, das oligarquias agrárias, e terminou o domínio dos militares. Durante o seu governo estourou a Guerra de Canudos, no Sertão da Bahia. Durante o governo de Prudente, o Barão de Rio Branco resolveu uma questão diplomática com a Argentina. Foi à questão do território das Palmas ou das Missões, território disputado pelo Brasil e Argentina. Serviu como árbitro o Presidente Cleveland, dos Estados Unidos, que deu ganho de causa ao Brasil. CAMPOS SALES (1898/1902) Campos Sales herdou as consequências da Crise do Encilhamento e, por isso teve que negociar a dívida externa brasileira com banqueiros ingleses e pedir novos empréstimos. Ao negociar essa dívida com os banqueiros ingleses, Campos Sales conseguiu que o Brasil só começasse a pagá-la 03 anos depois do acordo. Além disso, o Brasil teria 60 anos de prazo para liquidar toda a dívida externa. A este acordo que Campos Sales fez com os credores do Brasil, isto é, a esta negociação da dívida externa brasileira chamamos de Funding-Loan. Para fazer este acordo, os credores exigiram, entre outras coisas, que o governo brasileiro iniciasse o combate à inflação. A agitação dos negócios nos dias do Encilhamento A política de combate à inflação foi feita pelo Ministro da Fazenda Joaquim Murtinho. Campos Sales e Joaquim Murtinho conseguiram salvar o Brasil da Crise do Encilhamento, combater em grande parte a inflação e valorizar a moeda brasileira. Desta maneira, Campos Sales deixou para o seu sucessor, Rodrigues Alves, um país em melhores condições do que quando assumiu o governo, em 1898. A Política do governadores foi criada e concretizada no seu governo. No Campo da política externa, o Brasil ganhou da França a Questão do Amapá. A França reivindicava para ela uma grande área Norte do Brasil. Serviu como árbitro Walter Hauser, que nos deu ganho de causa. A decisão de Walter Hauser confirmou o rio Oiapoque com a fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. Mais uma vez, o Brasil foi defendido pelo Barão do Rio Branco. As principais realizações foram: Saneamento e Urbanização do Rio de Janeiro. Combate a febre amarela, peste bubônica e a varíola (Osvaldo Cruz). Resolução da questão do Acre (Tratado de Petrópolis - 1903) O Convênio de Taubaté (1906) AFONSO PENA (1906/1909) Afonso Pena foi o primeiro Presidente mineiro. A partir dele, foi mais ou menos comum, até 1930, o revezamento entre paulistas e mineiros na Presidência da República. O Presidente Afonso Pena tinha um lema: governar é povoar. Por isso ele estimulou a imigração e durante o seu governo entraram no Brasil, aproximadamente, 1.000.000 de estrangeiros. Este Presidente continuou a Política do Café e colocou em prática as determinações do Convênio de Taubaté. Afonso Pena deveria governar até 1910, porém morreu durante o mandato, em 1909. Foi substituído pelo Vice-Presidente Nilo Peçanha. NILO PEÇANHA (1909/1910) Com a morte de Afonso Pena, Nilo Peçanha, que era o Vice-Presidente, completou o mandato. Quem marcou presença nessa época foi o Marechal Rondon. Cândido Mariano da Silva Rondon percorreu os sertões do Brasil, demarcou fronteiras, ergueu milhares de postes telegráficos, ligando o Brasil de norte a sul. Sua obra de pacificação do índio, respeitando-lhes os hábitos, é um exemplo até hoje para todos nós. Morrer se preciso, matar nunca era o lema da missão Rondon, que percorreu todo o sertão brasileiro. Criou o Serviço de Proteção do Índio. 41 HERMES DA FONSECA (1910/1914) Além dos soldados do Exército, os camponeses rebeldes do Contestado tinham que combater também as milícias particulares dos grandes fazendeiros da região. Na fase final da luta, essas milícias chegaram a reunir mais de mil jagunços bem armados. Na foto, grupo de jagunços mobilizados pelos coronéis para combater a rebelião exibe suas armas. O Presidente Hermes da Fonseca criou, em seu governo, a Política das Salvações, que consistia na substituição de velhos governadores nomeados pelo Presidente da República. Com esta política, o Presidente derrubou do poder alguns governadores e nomeou, para governar aqueles estados, homens de sua confiança. No Rio de Janeiro explodiu a Revolta da Chibata, liderada pelo marinheiro negro João Cândido. Foi uma revolta ocorrida na Marinha contra o uso dos castigos corporais nos marinheiros. Outro fato marcante da sua política interna foi a Guerra do Contestado. Este movimento de serta- nejo, ocorridos nas fronteiras do Paraná e Santa Catarina, chegou ao final em 1916, com a morte de milhares de sertanejos e soldados. REPÚBLICA EM PERNAMBUCO No dia 15 de novembro de 1910, quando Hermes da Fonseca assumia a Presidência da República, os militares apoiaram Dantas Barreto - na época, o Ministro da Guerra - para concorrer, politicamente, com Rosa e Silva. Quando o militar resolveu disputar o Governo de Pernambuco, em 1911, surgia um dos períodos mais agitados da política estadual, Rosa e Silva era apoiado pelas forças políticas e Dantas Barreto pelas tropas do Exército - o 49º Batalhão de Caçadores - sob o comando do General Carlos Pinto. Este último, era o encarregado de enfrentar os combates de ruas, travados entre "rosistas" e "dantistas". No dia 18 de outubro de 1911, em frente a um teatro (o Helvética) existente na rua Imperatriz, ocorria um confronto sangrento entre os populares e a cavalaria do Exército, vindo a falecer o Capitão José de Lemos, comandante da tropa. Esse incidente dava margem a que o Chefe de Polícia suspendesse todos os comícios e passeatas seguintes.Depois das eleições, o Diário de Pernambuco anunciava Rosa e Silva como o vencedor, com 21.613 votos, ficando Dantas com 19.585 votos. Mas, os partidários do militar não se conformaram com o resultado das urnas, e o Recife passava a viver uma série de incidentes violentos, que convergiram para a paralisação dos bondes, o fechamento de cinemas e casas comerciais, e o grande temor da população em sair às ruas. No dia 12 de novembro de 1911, ocorria um tiroteio na rua da Aurora, nas ruas das Flores, Barão da Vitória e Imperador e na Praça da Independência. Um dos principais alvos desse confronto era, precisamente, a redação do Jornal Diário de Pernambuco, uma empresa de propriedade de Rosa e Silva. Posteriormente, houve um incidente ainda mais grave: com o apoio das tropas do Exército, os grupos populares atacaram os quartéis da Polícia. O Palácio do Governo também era atacado e os tiros, partindo do Cais do Apolo e do Forte do Brum, quase matavam Estácio Coimbra - na época, o Governador de Pernambuco e uma pessoa de total confiança de Rosa e Silva. Um dos tiros perfurara, inclusive, o gabinete de Estácio, indo alojar-se em uma parede a um palmo de sua cabeça. O Governador, após o incidente, passava a despachar na própria Chefatura de Polícia. Depois do dia 24 de novembro, a polícia voltava a revistar os transeuntes que circulavam pelas ruas; os trens da Great Western foram paralisados (com pedidos de garantias à Guarnição para as estações do Brum, Cinco Pontas e Central); as escolas de Direito e de Engenharia suspendiam as provas; ocorria um tiroteio contra o Ginásio Pernambucano, enfim, a cidade tornava a passar por horas de muita angústia. Do Rio de Janeiro, nessa época, José Mariano, já doente, enviava o seguinte telegrama que o jornal A Província vinha a divulgar: Impossibilitado fisicamente de achar-me ao lado do povo pernambucano no dia da reconquista de sua liberdade, tenho esperança de que êle sacudirá o domínio ignominioso da oligarquia que nos avilta e me dará a consolação, se estiver terminada minha carreira política, de deixar livre a terra que tanto tenho amado. O Povo não precisará que eu o estimule, porque tem a consciência da responsabilidade que lhe cabe no atual momento histórico de nossas reivindicações. 42 Os incidentes locais se tornavam notícia internacional, ainda, em jornais de Lisboa - como O Século e A Ilustração Portuguesa - e de Paris - o Le Matin. Somente quando Estácio Coimbra solicitou uma intervenção federal para o Recife, é que a situação se normalizava, e o Congresso era convocado, então, para reconhecer o candidato eleito. Dessa vez, no entanto, o General Dantas Barreto era apontado como o legítimo Governador do Estado, tendo vencido Rosa e Silva por uma diferença de 1.164 votos. Isto selou o desfecho do predomínio do rosismo, uma forte oligarquia que permanecera no poder de 1896 a 1911, e que, através das alianças, dominara a polícia, o Tesouro, o fisco. Dantas era recebido de maneira apoteótica pela população que cantava o seguinte coco: O pau rolou, caiu. Rosa murchou, Dantas subiu. Como governador de Pernambuco, uma de suas inúmeras ações, foi a de decretar a mobilização da polícia, a fim de conter os imensos prejuízos causados pelos bandoleiros que se engajavam no cangaço. Neste sentido, despachava para o interior inúmeras forças volantes, com o intuito de combater Antônio Silvino e o seu bando. Além de uma vertiginosa carreira militar e política, Dantas Barreto também redigiu diversas obras científicas, estudos militares e romances históricos. Ele representou, ainda, o primeiro autor a escrever uma obra sobre Canudos, além de ser o que mais deixou informações acerca das campanhas militares. Dentre os seus trabalhos, destacam-se A condessa Hermínia (1883), Margarida nobre (1886), Última expedição a Canudos (1898), Impressões militares (1909), Destruição de Canudos (1912) e Acidentes da guerra (1914). Por conta de sua valiosa produção literária, o escritor Dantas Barreto era eleito, em 1911, membro da Academia Brasileira de Letras, vindo a ocupar a cadeira que pertencera a Joaquim Nabuco. O general Emidio Dantas Barreto vem a falecer no dia 1º de outubro de 1931. Em sua homenagem, a Prefeitura deu o nome do militar e político pernambucano a uma das principais avenidas do centro do Recife. Essa enorme avenida se estende da Praça da República até a Praça Sérgio Loreto (o antigo viveiro do Muniz), no bairro de Afogados. VENCESLAU BRÁS (1914/1918) O governo do Presidente Venceslau Brás coincidiu com o período da Primeira Guerra Mundial (1914/ 1918). O Brasil participou da guerra ao lado dos Estados Unidos, França e Inglaterra, fornecendo alimentos e matérias-primas aos aliados, enviando um grupo de médico e aviadores para a Europa e colaborando no patrulhamento do oceano Atlântico. A guerra provocou a diminuição das importações e o crescimento das exportações brasileiras. As importações diminuíram porque os países de quem comprávamos produtos industrializados estavam na guerra. Com a redução das importações, ou seja, com a diminuição da compra de produtos estrangeiros, passamos a produzir mais e com isso cresceu a indústria brasileira. EPITÁCIO PESSOA (1919/1922) Em 1918 houve eleições para Presidente e saiu vitorioso o ex-Presidente Rodrigues Alves. Entretanto, Rodrigues Alves morreu antes de tomar posse e foi substituído pelo Vice-Presidente Delfim Moreira, que convocou novas eleições para Presidente em 1919 e delas saiu vitorioso o paraibano Epitácio Pessoa. Epitácio foi eleito com o apoio de São Paulo e Minas Gerais, portanto, dentro do velho esquema “café-com-leite”. Entretanto, apesar de ser um Presidente “café-com-leite”, Epitácio Pessoa foi coerente com sua origem nordestina e fez uma política de combate às secas do Nordeste, onde construiu açudes e estradas. Em 1920 foi inaugurada a primeira universidade do Brasil, a Universidade do Rio de Janeiro, e em 1922 ocorreu, no Teatro Municipal de São Paulo, a Semana de Arte moderna. Neste mesmo ano de 1922, ocorreu a Revolta do Forte de Copacabana, primeiro movimento armado tenentista da história do Brasil. Os 18 do Forte de Copacabana marchando pela praia para enfrentar as tropas do governo 43 ARTUR BERNARDES (1922/1926) O governo de Artur Bernardes foi muito severo. Os movimentos operários eram controlados por um rígido esquema policial e Lei de Imprensa censura violentamente os jornais. Eleito num momento de profundas agitações sociais e políticas, Artur Bernardes governou quase totalmente sob o estado de sítio. Em seu governo ocorreram várias revoltas tenentistas, tais como: a Revolução Paulista de 1924 e a Coluna Prestes. Estas revoluções justificam, em parte, o quase permanente estado de sítio. Nestes novos movimentos tenentistas, a jovem oficialidades do Exército já pensava em repre- sentar os interesses nacionais e propunha a criação de uma sociedade democrática para o bem da coletividade brasileira. WASHINGTON LUÍS (1926/1930) Washington Luís é considerado paulista, apesar de ter nascido em Macaé, no Estado do Rio de Janeiro. É considerado paulista porque a sua carreira política foi feita em São Paulo e porque era membro do PRP (Partido Republicano Paulista). O Presidente Washington Luís afirmava que governar é abrir estradas e em seu governo foram construídas as rodovias Rio - São Paulo e Rio - Petrópolis. Washington Luís tentou fazer uma política de combate à inflação e de estabilidade do valor da moeda brasileira. Porém, a sua tentativa não teve êxito devido principalmente à crise mundial de 1929. A Política dos Governadores A tentativa de criação do Partido Republicano Federal findara em fracasso. E nesse contexto que os partidos regionais de tendências oligárquica, passarão a exercer o domínio político da nação. Minas Gerais e São Paulo,os dois principais Estados, vão ocupar o cenário político brasileiro e determinar seus rumos até a Revolução de 1930. Esse sistema político oligárquico ficou conhecido como “política dos governadores” ou política dos Estados”, cujas bases foram lançadas pelo Presidente Campos Sales, sucessor de Prudente de Morais. Com isso, reforçou- se o presidencialismo, tendo tal regime sua sustentação política nos poderes estaduais. Os partidos dominantes nos Estados asseguravam, por meio de suas bancadas na Câmara e no Senado, o apoio ao Poder Executivo Federal. Este, em troca, comprometia-se a reconhecer automaticamente a legitimidade das oligarquias estaduais favorecendo o atendimento de seus interesses e a consolidação de seu poder regional. Em cada Estado, o poder político era exercido e mantido, a ferro e fogo se preciso pelos “coronéis”, em geral grandes proprietários que controlavam a vida dos municípios. Esses donos de terras eram donos do poder, controlavam as eleições, designavam os candidatos a serem eleitos (chamado voto de cabresto), sufocavam oposições e dissidências, praticando sem escrúpulos e fraude eleitoral. O coronelismo influenciava a política dos governadores, e esta determinava os rumos políticos do país. Nesse quadro, Minas e São Paulo tiveram um só peso determinante. São Paulo era o primeiro produtor de café do Brasil, produto base da economia nacional. Minas era o segundo produtor de café e o primeiro de leite. Com base em seus poderes econômicos respectivos, as oligarquias dos dois estados aliaram-se para exercer a hegemonia política junto ao Poder Executivo Federal, configurando a “política do café-com-leite”. A Coluna Prestes (1925/1927) A mais significativa expressão do tenentismo. Em fins de 1924 a maré tenentista chegava ao Rio Grande do Sul. Em pouco tempo guarnições de várias regiões do Estado rebelavam-se abertamente. A jovem oficialidade novamente se faz ouvir. Entre os tenentes destacava-se a figura de Luís Carlos Prestes. Em 1925, o rebeldes gaúchos seguiram para o norte e juntavam-se às forças de Isidoro Dias. Parte-se então para a guerra de movimentos, cujo objetivo, era o de minar as bases das oligarquias dominantes. É dentro deste contexto que se enquadra a famosa Coluna Prestes, liderada por Luís Carlos Prestes e Miguel Costa, que percorreu os sertões brasileiros, numa jornada de 24.000 quilômetros. As tropas rebeldes enfrentaram forças federais, milícias estaduais e, até mesmo, cangaceiros contratados. Entretanto, no dizer de Edgar Carone, elas fizeram vibrar as expectativas populares, num país amordaçado pelo estado de sítio e pela censura. A INDÚSTRIA Apesar da existência da indústria estrangeira no país, formada com capital externo, a indústria brasileira na República Velha é marcada pela subordinação do capital industrial ao capital cafeeiro e não ao capital externo. 44 Como também se mencionou, a produção de bens de capital é insignificante, produzindo-se quase somente bens de consumo não-duráveis. Os resultados do censo industrial de 1919 dão- nos uma ideia da estrutura produtiva da indústria de transformação no Brasil: 30,7% do valor bruto da produção naquele ano provinham das indústrias alimentícias; 29,3% da têxtil e 6,3% das fábricas de bebidas e cigarros. Apenas 4,7% tinham sua origem na metalurgia e indústrias mecânicas juntas: 2,0% na indústria química! Com exceção de certas máquinas utilizadas no beneficiamento do café - produzidas no Brasil desde o século XIX - e de algumas poucas ferramentas e equipamentos, a indústria nacional não produzia bens de capital, só bens de consumo. Esse fato é grave em suas consequências, pois foi tornando a nação cada vez mais dependente do exterior em mais esse aspecto - a tecnologia industrial. BIBLIOGRAFIA: MENDES, JR. ANTÔNIO, E MARANHÃO, RICARDO. BRASIL HISTÓRIA. 2. ED. BRASILIENSE, SÃO PAULO, 1981. V.3, P.212. Tal situação, porém, não impede o surgimento da burguesia brasileira, desde o século XIX, constituída por imigrantes, banqueiros, comerciantes e cafeicultores-industriais. A grande diferença em relação à burguesia europeia está no fato de que a nossa nasce associada ao capital externo e dependente do mesmo. Além disso, o nosso mercado já se apresenta como parte integrante de uma divisão entre as potências imperialistas, não possuindo, portanto, acesso direto ao mercado mundial. Muitos fatos explicam a retração da grande indústria desde fins do século XIX: falta de ação protecionista incisiva por parte do Governo; reduzida organização do trabalho e concorrência estrangeira. As pequenas siderúrgicas do século passado, por essas razões mencionadas, malogram em seu crescimento e não se transformam em grande indústria. Esta, quando chega ao país, em meados do século XX, já se encontra pronta, implantada pelo capital externo ou capital estatal. O mesmo ocorre com outros ramos (química, metalúrgica, mecânica, etc.), inclusive com os tradicionais alimentícios, que não crescem a partir de uma evolução do que há no país. Essa é uma diferença fundamental em relação às grandes indústrias do exterior, que evoluem a partir do próprio crescimento e, depois disso, se expandem até as nações periféricas. Um exemplo do citado é a implantação da Cia. Belgo Mineira, em Sabará (MG), em 1921, com capital franco-belgo-luxemburguês, para exploração de minério em grande escala. Simultaneamente, diversas pequenas siderúrgicas mineiras vão à falência e são fechadas. Uma das grandes consequências do crescimento da atividade industrial na República Velha é o surgimento do proletariado industrial, bem como dos movimentos operários analisados a seguir. MOVIMENTOS OPERÁRIOS AS ORIGENS DO PROLETARIADO NO BRASIL A longa permanência do escravismo no país representa um entrave à consolidação da forma assalariada de trabalho e ao próprio desenvolvimento industrial, uma vez que significa retração à expansão consumista, necessária ao capitalismo. O trabalho assalariado surge aos poucos, ainda na Colônia e, sobretudo, no Império, estimulado pelos imigrantes. Com esse trabalho, aparecem os operários das primeiras fábricas, fazendo coexistir no Brasil escravos, imigrantes e operários. Estes últimos se originam, principalmente, das camadas pobres e urbanas. O que se observa do movimento operário, desde sua origem e ao longo da República, é uma evolução não linear, e sim marcada por fluxos e refluxos, em razão do caráter ainda embrionário de tal movimento, bem como da repressão patronal, ligada ao Estado –nesse sentido, menciona-se a Lei Adolfo Gordo, expulsando do país os estrangeiros envolvidos nas ações operárias. O ANARQUISMO E O ANARCO-SINDICALISMO NO BRASIL O Anarquismo, numa definição simples, é a ideologia que prega a ausência de autoridade, o que valoriza a liberdade individual a ponto de rejeitar qualquer forma de organização política. Uma corrente do Anarquismo, chamada de Anarco-Sindicalismo, é a tendência dominante do movimento operário brasileiro nas duas primeiras décadas deste século e ainda em parte dos anos 20. Inspira-se em Bakunin, um dirigente da I internacional dos Trabalhadores que defende a greve geral como 45 via de conquistas, valorizando o Sindicato “como meio e fim da ação libertária da classe”. Dentre as razões da ascensão do Anarco- Sindicalismo no Brasil estão: a presença de imigrantes de países onde tal corrente é expressiva, como Itália, Portugal, Espanha e França e a existência predominante de pequenas unidades produtivas, onde a organização operária é mais facilitada. Aqui, chama-se a atenção para duas diferenças fundamentais em relação aos socialistas e comunistas: A descentralização do movimento operário e a valorização da liberdade individual emrelação à organização do Estado. (A característica básica do movimento comunista é a união das classes operárias, sob orientação de um Estado centralizado e autoritário). Os anarquistas apregoam ainda uma ruptura com os valores tradicionais da sociedade, atacando o clero e a atividade militar (anticlericalismo e antimilitarismo). Colocam-se contra o serviço militar obrigatório e a 1ª Guerra Mundial, atacando a participação do Brasil no conflito. Defendem, porém, a ação revolucionária do proletariado russo no movimento de 1917, se solidarizando com as classes trabalhadoras externas (internacionalismo) reprimidas pela ação da burguesia e do Estado. A ação dos anarquistas possui dois tipos fundamentais de manifestação: as greves e os congressos. Indubitavelmente, o apogeu do movimento grevista na República Velha se encontra na Greve Geral de 1917, que mobiliza cerca de 50 mil ativistas em São Paulo, colocando em cheque direto burguesia e operários, sobretudo na capital, numa autêntica “Revolta Popular”. 1917: Exigências dos operários em São Paulo: “35% de aumento salarial, proibição para o trabalho de menores de 14 anos, abolição do trabalho noturno de mulheres e menores de 18 anos, jornada de oito horas, congelamento do preço dos alimentos, redução de 50% nos aluguéis. ” FONTE: (1904 A 1929). 100 ANOS DE REPÚBLICA, VOL. I, II E III. S. PAULO, NOVA CULTURAL, 1989. Dentre as conquistas operárias, destacam-se: a garantia de não dispensa dos grevistas, um aumento salarial de 20% e a promessa do Estado de ampliar a fiscalização das condições de trabalho nas fábricas. No período de 1917 a 1920 já se percebem os sinais de declínio da ideologia. Explicam a queda do Anarco-Sindicalismo: - Negativa de constituição de um partido; - Superestimação do papel dos sindicatos e da ação individual; - Ausência de questionamentos importantes como a questão agrária e o imperialismo externo. Explorando esses pontos frágeis dos anarquistas, os comunistas ganham espaços importantes no seio do operariado, a ponto de se tornar a principal ideologia do movimento, a partir de meados dos anos 20, trazendo alternativas às classes baixas, até então não oferecidas. A CONSTITUIÇÃO DO PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO A influência da Revolução Russa de 1917 é inegável na sedimentação da ideologia comunista no Brasil. O primeiro Partido Comunista é fundado em 1919, dissolvendo-se rapidamente. A partir de 1920, os comunistas seguem um caminho independente dos anarquistas, sob influência da separação desses grupos no exterior, inclusive na Rússia. A divisão entre as duas tendências é fruto também da ausência de conquistas significativas do Anarquismo até 1920. Os princípios comunistas fundamentais são opostos aos defendidos pelos anarquistas. São eles: a unidade sindical, o centralismo político, a exaltação do partido único para os trabalhadores e a rigidez da disciplina. Com base nessas ideias é fundado o Partido Comunista Brasileiro (PCB), em março de 1922. Com a decretação do estado de sítio no Brasil, em julho, o partido é colocado na ilegalidade. Somente com o fim do estado de sítio, retorna, em janeiro de 1927, com o nome de Bloco Operário e Camponês (BOC), para concorrer às eleições. Não se pode perder de vista, uma vez mais, a ação do aparato repressivo oficial. Exemplifica-se com 46 o surgimento da Lei Celerada, de 1927, que justifica a repressão a lideranças políticas e sindicais de oposição, ligadas aos operários. A ação dos comunistas na década de 30 será analisada em unidade posterior, assim como suas implicações. POLÍTICA OS GRUPOS DOMINANTES A Constituição de 1891 possui caráter federalista – satisfazendo as elites agrárias limitadas pelo unitarismo do Império. Além disso, prevê o voto direto. Esses aspectos favorecem os estados mais fortes economicamente, mais populosos e com mais eleitores - como Minas e São Paulo. Analise-se a seguir, o gráfico ao lado sobre a evolução do eleitorado/população no mesmo período. A grande discrepância população/ eleitorado deve-se, sobretudo, às restrições ao direito de voto a determinados segmentos do eleitorado, como mulheres e analfabetos. A partir do quarto Presidente da República, Campos Sales (1898-1902), organiza-se um acordo político entre os estados federados e a União: é a Política dos Governadores, mediante a qual o presidente apoia a oligarquia dominante em cada estado, com favorecimentos “eleitoreiros” às suas elites (coronéis), que por sua vez garantem as eleições dos candidatos oficiais. A base de sustentação desse “arranjo” político é o Coronelismo, fenômeno político-social que expressa o poder dos coronéis e que se faz presente através de meios pouco “louváveis”: pressões sobre os eleitores, manobras dos cabos eleitorais e, sobretudo, fraudes eleitorais, facilitadas pela ausência do voto secreto e pelo controle da justiça eleitoral exercido apenas pela situação (os próprios coronéis) e não pela oposição. Como se percebe, são falhas contidas na Constituição em vigor e que favorecem as injustiças políticas. Para o Legislativo, que era controlado pelo Governo Federal, só eram “eleitos” os candidatos que se enquadrassem no esquema da política estadual dominante, para que houvesse o continuísmo da política oligárquica. O mecanismo utilizado para afastar a oposição foi a “degola”, isto é, mesmo eleitos, não eram empossados ou diplomados. Ora, o órgão responsável pela contagem dos votos – Comissão Verificadora dos Poderes (ou de Reconhecimento), cujos membros eram recrutados dentro do próprio Congresso, só reconhecia ou diplomava os deputados ligados aos interesses da elite agrária dominante. Assim, os candidatos da oposição eram “degolados”. A partir das eleições de 1914, outra tendência se faz notar na política nacional, decorrente da situação anterior: a alternância de mineiros e paulistas na presidência. É a Política do Café-com- leite. Em 1910, o Eixo MG-SP sofreu uma cisão provisória, quando MG (e RS) apoiou o candidato militar Marechal Hermes da Fonseca e SP (e BA) o candidato civil Rui Barbosa. Tal episódio é a Questão Civilista e marca a vitória do Mal. Hermes, fato que gerou conflitos e dissidências entre a oligarquia agrária. Para reagrupar em torno do poder essa oligarquia, Hermes da Fonseca instituiu a “Política das Salvações”, que consistia na substituição, nos Estados, da oligarquia dissidente pela oligarquia situacionista. O pretexto para as intervenções federais nos Estados foi o de “salvar a pureza das instituições republicanas”. Mesmo nas primeiras décadas da República, a estabilidade das oligarquias dominantes, embora não abalada, vem sendo questionada através de episódios esporádicos, mas significativos se tomados no conjunto. (Não se faz referência, aqui, à Questão Civilista, uma vez que essa é uma ruptura temporária entre as elites.) Tais episódios representam um questionamento das estruturas do poder pelas camadas populares. 47 OS MOVIMENTOS DE CONTESTAÇÃO AO PODER O Cangaço, através de sua luta armada no nordeste, canaliza, de forma radical, as submissões políticas e a total miséria e abandono das populações de baixa renda. Os cangaceiros, cuja ação vem do princípio do século até os anos 30, utilizam a chacina, a destruição e os saques para expressar sua insatisfação, espalhando o terror por onde passam. Durante muitos anos, somente seus atos violentos são divulgados e a análise do Cangaço, feita superficialmente apenas, os aponta como criminosos comuns. Mas a partir de uma análise mais recente e profunda do fenômeno, sob a ótica das populações submissas e humildes,percebe-se um forte cunho político-social em suas ideias e atitudes. O bando de Lampião e Maria Bonita (1918 a 1938) se torna o símbolo do Cangaço, que marca o nordeste da República Velha, chegando ainda aos primeiros anos da República Nova, época em que é destruído. A Revolta de Canudos, ocorrida no sertão da Bahia (1893/97) e a de Contestado, entre Santa Catarina e Paraná (1912/1915) são exemplos de lutas que, apesar de um fundo religioso (messiânico) têm enfoque para o social, voltando-se, por exemplo, para a distribuição de terras. “Canudos foi, sob a capa de misticismo religioso em torno de Antônio Conselheiro, fundamentalmente uma luta de classes - uma luta aguerrida contra o latifúndio, contra a miséria e a exploração terríveis que o monopólio da terra engendra e mantém secularmente no Brasil. (...) Canudos foi assim um dos momentos culminantes da luta de libertação dos pobres do campo. Sua resistência indomável mostra o formidável potencial revolucionário existente no âmago das populações sertanejas e a enorme importância do movimento camponês no Brasil, cuja população rural constitui, ainda hoje, a principal parcela das massas laboriosas do país. A epopeia de Canudos ficará em nossa história como um patrimônio das massas do campo e uma glória do movimento revolucionário pela sua libertação. ” FACÓ. RUI. CANGACEIROS E FANÁTICOS. PP. 123 E 126. O movimento de Canudos, sob a liderança do beato Antônio Conselheiro, mostra a insatisfação da população do sertão da Bahia diante de uma política opressiva, como a cobrança de impostos e exploração da mão-de-obra. Mostra também uma elite agrária que, diante da perda de mão-de-obra, usa da força como forma de coação. Todo o movimento começa a ser acompanhado pelas tropas municipais, regionais e federais, com o intuito de acabar com a aglomeração de aproximadamente 15.000 pessoas (alguns defendem que este número chegava entre 25 a 30 mil pessoas). Cria-se a ideia de que os conselheiristas queriam promover motins e acabar com a recente República, desejando o retorno da Monarquia. Ao fim de quatro expedições militares, Canudos foi completamente destruída e, como lembra Euclides da Cunha em “Os Sertões”: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5/10/1897, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5.000 soldados. ” Contestado ocorre numa região limítrofe entre Paraná e Santa Catarina. A partir de 1911, a empresa norte-americana Brazil Rail Way Company expulse camponeses de terras valorizadas e os submete a um trabalho sub-humano para exploração de madeira, com a finalidade de construção de uma ferrovia ligando o Rio Grande do Sul a São Paulo. Sob as lideranças místicas de João Maria e José Maria, são organizadas resistências das populações locais. A morte de José Maria e a crença em sua ressurreição dão ao movimento as dimensões de religiosidade características do messianismo. Em 1915, tropas estaduais e federais liquidam os rebeldes. No início do século, em 1904, deve-se mencionar a Revolta da Vacina (ou Revolta contra a Vacina Obrigatória) no Rio de Janeiro. O movimento, inicialmente um protesto diante da política sanitarista de Oswaldo Cruz, a serviço do governo do presidente Rodrigues Alves, se transforma numa violenta rebelião. A vacina contra a febre amarela é decretada obrigatória, as residências são invadidas para garantia do cumprimento da lei. Essa intromissão, bem explorada pelas lideranças do movimento, é associada às várias manobras políticas abusivas da época e considerada mais uma humilhação para as classes submissas. 48 A revolta, não tanto contra a vacina obrigatória, mas, sobretudo, contra o Governo, conta ainda com a adesão de militares descontentes, sendo, porém, dominada pelas tropas governamentais. Outro movimento a ser mencionado é a Revolta da Chibata (ou Revolta contra a Chibata), em 1910, no Rio de Janeiro, que expressa o descontentamento de marinheiros (classe baixa) diante dos maus tratos a que vinham se submetendo, como o castigo de chibatadas. Novamente, sabe-se que as chibatadas representam apenas o estopim de um processo de descontentamento das classes baixas diante das elites e governos repressores. A luta armada conta com a liderança do marinheiro João Cândido (“Almirante Negro”) e a mobilização dos encouraçados “São Paulo” e “Minas Gerais” que ameaçam bombardear a capital federal. As promessas do governo aos revoltosos os fazem depor as armas, mas não são cumpridas na prática. É violenta a repressão aos revoltosos, com prisões e mortes. Mas é a partir da 1ª Guerra, com as transformações socioeconômicas no plano interno e a crise do sistema capitalista, que a estrutura política no Brasil começa a sofrer os maiores abalos. A oposição sistematizada e crescente à situação vigente surge somente nos anos vinte, quando nasce o Tenentismo, refletindo a insatisfação do Exército e da população urbana ligada à classe média, que não são absorvidos pelo contexto político nacional. “.... Com a insatisfação generalizada da jovem oficialidade militar em relação ao governo do presidente Artur Bernardes, eclodiram (...) vários movimentos rebeldes, unidos em torno de um ideal comum: basicamente, a necessidade do voto secreto, a moralização do regime e a limitação das atribuições do poder executivo. É o movimento tenentista...” “100 ANOS DE REPÚBLICA”. VOL. III. 1919-1930. SÃO PAULO, NOVA CULTURAL. 1989. PP. 33. Tal movimento – que traduz a indignação diante do predomínio das oligarquias cafeeiras e suas manobras político-econômicas – nasce e se desenvolve a partir de fatores diversos, tais como: a) “Episódio dos 18 do Forte”, em 1922, quando 18 tenentes se insurgem no Forte de Copacabana, são duramente reprimidos, e 16 deles são mortos. É o primeiro episódio de protesto radical contra a política da República Velha aos anos 20. b) “Semana da Arte Moderna”, em 1922, na cidade de São Paulo. Movimento cultural, artístico e literário, cujas obras desenvolvem uma temática nacional (libertação dos valores culturais europeizados), expondo os problemas e a miséria do sertão nordestino e da região amazônica, por exemplo, numa denúncia aos governos nacionais (dos coronéis) voltados apenas para os principais centros. Ao atacar a política nacional, contribui indiretamente para o crescimento do Tenentismo. c) “Episódio das Cartas Falsas”, atribuídas ao presidente Arthur Bernardes (1922 a 1926), onde constam ataques a determinados grupos de políticos, inclusive a certas alas do Exército, indispondo o presidente com tais grupos. d) Coluna Prestes (Coluna Fênix), de caráter militar, percorre 25 mil quilômetros em todo o país, de 1925 a 1927, liderada por Luiz Carlos Prestes, denunciando os abusos existentes. Durante sua longa marcha, por diversas ocasiões defronta-se com as tropas dos coronéis (53 no total), saindo vitoriosa em todas elas – o que justifica o apelido de “Coluna Invicta”. e) Crise de 1929, causando a ruína do mundo capitalista, em especial dos Estados Unidos, e a falência da cafeicultura nacional (os prejuízos financeiros decorrentes da crise impedem a compra do nosso café). O abalo do poder econômico dos coronéis do café desestabiliza seu poder político. 49 O movimento tenentista se alastra, sobretudo, junto à classe média urbana e recebe em suas fileiras civis, militares, sindicalistas, socialistas, estudantes, profissionais liberais, etc., compondo um grupo heterogêneo, unido no combate às injustiças políticas da República Velha, mas sem uma ideologia definida de ação.Síntese dos movimentos de contestação à ordem vigente: A REVOLUÇÃO DE 1930 – O COLAPSO DA REPÚBLICA OLIGÁRQUICA O presidente do último quadriênio da República Velha, Washington Luís (1926-1930), apoiado por São Paulo, indica para sua sucessão o paulista Júlio Prestes. Esse rompimento da Política do Café-com- leite pelos paulistas desagrada aos mineiros, que esperavam o lançamento da candidatura de Antônio Carlos de Andrade, então Governador de Minas, na chapa da situação, nas eleições de 1930. Minas Gerais, por isso, passa a apoiar o candidato oposicionista Getúlio Vargas, indicado pelo Rio Grande do Sul e pela Paraíba (Getúlio Vargas é gaúcho e seu vice, João Pessoa, paraibano). Os três Estados passam a constituir a Aliança Liberal. Apurados os votos, o candidato paulista termina vencedor. Como as eleições são cercadas por um clima de grande tensão, inclusive com o assassinato de João Pessoa, a Aliança Liberal não aceita o resultado e se lança na Revolução de 1930, visando ao afastamento de Júlio Prestes. Assim, a Revolução de 30 determinou para o contexto histórico da época: - O impedimento da posse de Júlio Prestes; - A ascensão de Getúlio Vargas à Presidência; - A cisão definitiva do Eixo MG-SP; - A vitória do Tenentismo (pela vitória de seu candidato Vargas e pelo fim da Política do Café-com- Leite – um de seus objetivos); - O fim da República Oligárquica, com o início da Era Vargas. A vitória do Tenentismo não representa o fim do Coronelismo. Este vigora até os presentes dias, embora numa intensidade menor; e na própria Era Vargas, os coronéis – mesmo os de São Paulo – não são excluídos do poder político por controlarem o café, base da nossa economia. A hegemonia das oligarquias tradicionais será substituída pela sua convivência com outra facção no poder: a nascente burguesia industrial - urbana, com apoio das camadas médias e a participação das oligarquias dissidentes (de outros centros do país). REPÚBLICA NOVA - POPULISMO, MILITARISMO E DEMOCRACIA - O BRASIL DE 1930 AOS DIAS ATUAIS A República Nova ou Segunda República compreende o Brasil de 1930 aos dias atuais. O período comporta uma subdivisão: a Era do Populismo, de 1930 a 1964, na qual destaca-se o Governo Vargas, de 1930 a 1945; a Era dos Militares, de 1964 a 1985 e a Nova República, de 1985 aos dias de hoje. Na República Nova, consolida-se a posição brasileira na ordem capitalista internacional, como nação em desenvolvimento, embora periférica. Há momentos de uma política econômica nacionalista, mas prevalece a dependência ao capital externo. No plano político, o Estado alterna períodos de ditadura e golpismos com ensaios de democracia, está só consolidada recentemente ao longo da Nova República. As desigualdades sociais persistem, representando um grave e permanente desafio. Essas disparidades são explicadas, em parte, pela excessiva concentração da renda e da terra – a questão fundiária, aliás, está longe de ser solucionada. As manifestações culturais, ricas e diversificadas, refletem esse processo, ainda que, por vezes, obscurecidas pela censura, presente em vários momentos. Embora com seus particularismos, a realidade do Brasil insere-se no contexto latino-americano, 50 sobretudo sul-americano, também marcado pelo domínio das oligarquias, pelo populismo, golpes militares e a retomada da democracia. A recente abertura política é, sem dúvida, uma conquista, embora não acompanhada da democracia do capital, do poder e do social. REPÚBLICA POPULISTA–O BRASIL DE 1930 - 1964 O período do Populismo é tradicionalmente considerado como aquele que vai da Revolução de 1930 ao Golpe de 1964, sendo que de 1930 a 1945 observa-se o Governo de Vargas, o mais expressivo representante populista. O populismo pode ser entendido como um pacto entre segmentos diversos da sociedade, da burguesia ao proletariado, rurais e urbanos, rumo a um crescimento industrial do tipo nacionalista – ressalte-se que nem todos os presidentes do período identificam-se por esses traços. Em geral, os governos são marcados por figuras carismáticas, capazes de, simultaneamente, satisfazer aos anseios das elites dominantes e fazer concessões, não raro “eleitoreiras”, às camadas menos favorecidas, para angariar seu apoio, controlando-as. ERA VARGAS - 1930 - 1945 Governo Provisório - 1930 a 1934 A ascensão de Getúlio Vargas à presidência não se dá pela via legal (é derrotado nas eleições de 1930), e sim através da Revolução daquele ano. Sua chegada ao poder determina uma fase de mudanças profundas em nossa História. Do ponto de vista político, assiste-se a uma nova composição de poder, conjugando tenentes que apoiam Vargas nas eleições e Revolução de 1930 e coronéis, mesmo os das tradicionais oligarquias de Minas e São Paulo, dominantes na República Velha, pois são estes os tradicionais “caciques” da política e os responsáveis pelo controle de nossa economia, sobretudo a cafeicultora. (Embora seriamente afetada pela Crise de 1929, é ainda a atividade dominante no país. Na Era Vargas, o Brasil conhece um grande surto industrial, mas sem perder a tradição agrário- exportadora). Esses coronéis recebem muito mais concessões que privilégios concretos – o que não invalida o raciocínio anterior da formação de nova estrutura política. Quanto às classes média e operária, seria exagero mencionar qualquer forma de poder para as mesmas, mas é inegável que concessões também são feitas, bem mais que em períodos anteriores. Ao conjugar numa só estrutura de poder interesses de civis e militares, campo e cidade, café e indústria, Vargas demonstra sua notável habilidade e crescente poder político. Aliás, a centralização (que de 1937 a 1945 assume a declarada forma de ditadura) é uma expressiva característica política de seu governo. Dentre as realizações do Governo Provisório, destacam-se: 1º - Nomeação de interventores para os Estados, o que fortalece o caráter autoritário e centralizador do Governo. 2º - Reforma Ministerial, com a criação de dois novos ministérios: Educação e Saúde Pública e Trabalho, Indústria e Comércio. (Note-se a importância do Ministério do Trabalho: com ele, o Estado faz crescer os seus poderes, colocando-se como intermediário nas disputas entre patrões e empregados; além disso, os sindicatos são legalizados, mas colocados sob controle estatal). 3º - Reforma Eleitoral, com a criação do voto secreto e voto feminino. Em 1932, a oligarquia cafeeira de São Paulo insurge contra o Governo na Revolução Constitucionalista, na qual exige as prometidas eleições presidenciais e nova Constituição. A população paulista é fortemente reprimida, mas Vargas cede às pressões, em 1934, marcando eleições das quais sai vitorioso através de votação indireta do Congresso, para um novo mandato presidencial. Governo Constitucional - 1934 - 1937 Medidas adotadas: • Constituição de 1934: - Promulgada. - Inspirada na Constituição da República Weimar (Alemanha), de tendência liberal. - Adoção de medidas trabalhistas de grandes simpatias junto à classe trabalhadora: jornada diária de trabalho de oito horas; férias anuais obrigatórias e 51 proposição do salário-mínimo, embora esse último só vá se efetivar em 1940. - Nacionalização das riquezas do solo e subsolo. • Oficialização de novos partidos: - Ação Integralista Brasileira (A.l.B.), liderada por Plínio Salgado, de tendência fascista e apoio a Vargas (o presidente inspira seu governo em Benito Mussolini, da Itália). O movimento integralista cresce rapidamente no país, sobretudo nos meios urbanos e junto à classe média e aos intelectuais e profissionais liberais. Apoia-se no nacionalismo, no militarismo, noEstado forte e corporativista, no antiliberalíssimo e no anticomunismo. Essa organização de extrema direita possui símbolos e rituais próprios: camisas verdes; saudação com o braço estendido e a mão espalmada; uso da letra grega sigma maiúscula (Σ) e o grito de saudação tupi-guarani “Anauê”. - Aliança Nacional Libertadora (A.N.L.), liderada por Luís Carlos Prestes, de tendência comunista, que, em 1935, tenta, sem êxito, um golpe contra Vargas - é a Intentona Comunista. A A.N.L., partido de extrema esquerda, congrega em geral comunistas e socialistas, e sua tentativa de Golpe ocorre sobretudo em três cidades: Natal, Recife e Rio de Janeiro. Após o fracasso da Intentona, seus líderes são presos (inclusive Luís Carlos Prestes e sua mulher Olga Benário), julgados e quase todos condenados sumariamente por Vargas, recebendo severas penas. • Em 1937, Vargas divulga o Plano Cohen – nova tentativa comunista de destituí-lo do poder. Sob a alegação de preservar a Nação das investidas comunistas, cancela as eleições presidenciais de 1938 e se mantém no poder com um governo declaradamente ditatorial. Sabe-se atualmente que, se os esquerdistas de fato tentam um golpe em 1935, não o fazem em 1937, sendo o Plano Cohen forjado por Vargas para justificar um Golpe de Estado, prolongar o seu mandato e impor uma ditadura à nação. O Golpe é apoiado por setores conservadores, como o Exército, representado pelos Generais Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, e o Plano Cohen é de autoria do Capitão Olímpio Mourão Filho. Governo Ditatorial (Estado Novo) - 1937 - 1945 A existência de um estado autoritário e corporativista é, segundo Vargas, uma necessidade face à presença de grupos dominantes heterogêneos. O estado, simultaneamente, chama para si a responsabilidade de “amarrar” os interesses conflitantes, arbitrando-os e resguardando as posições das elites, mediante participação controlada das camadas populares. Ocorrências do período: • Constituição de 1937: - Outorgada pelo presidente, após o fechamento do Congresso. - Influência da Constituição da Polônia (“Polaca”). - Pena-de-morte, instituída pela primeira vez no Brasil. - Censura (criação do D.I.P. - Departamento de Imprensa e Propaganda - órgão de censura governamental). - Ausência de vice-presidente. - Eliminação das bandeiras estaduais. - Ausência de partidos, inclusive a A.I.B., o que explica a Intentona Integralista de 1938 - golpe fracassado contra Vargas. A repressão ao movimento é mais branda que a praticada aos comunistas, explicada em parte pela simpatia de Vargas por alguns dos ideais dos “camisas-verdes”. - Consolidação das Leis do Trabalho (C.L.T.), de grande alcance junto à classe trabalhadora. • Desenvolvimento industrial devido à: - Política pessoal do presidente com a concessão de incentivos à atividade industrial. - Crise de 1929, que, prejudicando as exportações de café do país (o mundo capitalista, sem recursos, não mais importa o produto nacional), abre espaço para o crescimento da indústria como nova opção econômica. - 2ª Guerra Mundial (1939 a 1945), pelas razões expostas na unidade anterior a respeito da 1ª Guerra Mundial – a economia das grandes nações se fecha às exportações, dada a necessidade de abastecimento interno decorrente do conflito: assim, ocorre no país uma “substituição de importações” por produtos nacionais. O desenvolvimento varguista possui um caráter nacionalista, exemplificado no grande número de empresas nacionais criadas no seu governo: Cia. Siderúrgica Nacional (C.S.N. - Volta Redonda), Instituto Brasileiro do Café (I.B.C.), Instituto do Açúcar e do Álcool (I.A.A.), Conselho Nacional do Petróleo 52 (base da futura PETROBRÁS, criada pelo presidente, em 1953), idealização da ELETROBRÁS (embora a mesma só tenha sido criada de fato no Governo João Goulart), dentre outras. • O Brasil e a participação na 2ª Guerra: O Governo Getulista vive uma grande contradição quanto à sua participação no 2º Conflito Mundial: de um lado a simpatia pessoal do presidente pelos países do Eixo e o desenvolvimento de uma política de grande identificação com o fascismo, ao longo do Estado Novo; de outro lado, os fortes laços comerciais com os E.U.A., além da posição do continente americano favorável aos aliados (incluindo-se aí a opinião pública). Assim, num primeiro instante, a posição governamental é de “distância e neutralidade”. A partir de 1941, com o ataque japonês a Pearl Harbor, a presença dos E.U.A. no conflito é fator decisivo para que várias nações latino-americanas (Brasil inclusive) rompam relações com o Eixo, o que ocorre em janeiro de 1942. A proximidade com os EUA fica caracterizada quando, em 1941, os EUA financiam para o Brasil parte da construção da Cia. Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda (RJ), diante da possibilidade de os alemães assumirem tal financiamento. Logo após a posição brasileira ser decretada, navios comerciais brasileiros são torpedeados por submarinos alemães (num episódio até hoje pouco esclarecido), o que leva o Brasil a declarar guerra ao Eixo, em agosto de 1942. Somente em 1944, os contingentes da F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira) desembarcam na Europa para os confrontos armados em território italiano. Até 1945, aproximadamente 25 mil brasileiros vão a combate, sob comando dos Generais Mascarenhas Morais e Zenóbio da Costa, obtendo um saldo de algumas vitórias que auxiliam a expulsão dos nazistas da Itália e um total de 454 baixas. • Razões da deposição de Vargas: 1º - a política nacionalista do presidente, afetando os interesses estrangeiros do país. 2º - a Segunda Guerra Mundial, que provoca, ao seu final, um abalo às ditaduras numa consequência das derrotas nazifascistas. Contra a ditadura varguista, aliás, é redigido, em 1943, o Manifesto dos Mineiros. Diante das pressões internas e externas para sua renúncia, Vargas anuncia a redemocratização do país, com liberdade partidária (são criados vários novos partidos, dentre eles: PTB, PSD e UDN), convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, visando à substituição da Constituição de 1937 e marcação de eleições presidenciais. O presidente se apoia em suas bases populares – reflexo de suas realizações trabalhistas – que lutam pela sua permanência. Do slogan “Queremos Getúlio”, nasce o movimento denominado Queremismo. A redemocratização não se completa e o Queremismo não atinge seus principais objetivos: em outubro de 1945, Getúlio Vargas é deposto pelas forças armadas, encerrando seu longo período de 15 anos de presidência. O período pós-Vargas (1946 a 1964) que se segue em nossa História traz em seu bojo muito do ‘’Getulismo” – os partidos que ajuda a criar, PTB e PSD, coligados, obtêm expressivas vitórias eleitorais e o mesmo Vargas retorna à presidência, de 1951 a 1954. AGAMENON MAGALHÃES Agamenon Magalhães foi um dos mais habilidosos políticos da História de Pernambuco. Criador de frases que viraram clássicos entre os políticos (“ao diabo o poder que não pode” ou “em política o feio é perder”), ganhou projeção nacional ao lado do presidente Getúlio Vargas, de quem foi ministro duas vezes (trabalho e justiça). No Ministério do Trabalho, foi ele quem criou o salário-mínimo; quem elaborou o anteprojeto do decreto criando a Justiça do Trabalho; quem consolidou a instalação dos institutos de previdência e quem implantou a chamada Lei de Nacionalização do trabalho, obrigando que no mínimo dois terços dos trabalhadores das empresas fossem brasileiros de nascimento. Quando ocupou o Ministério da Justiça, Agamenon também teve uma atuação marcante. Foi o autor da Lei Eleitoral (que traria o País novamente ao regime democrático após o período de exceção instaurado em novembro de 1937) e redigiu a primeira LeiAntitrust do Brasil, o Decreto-Lei 7.666, sancionado por Getúlio a 22 de junho de 1945. A Lei dava poderes ao governo para expropriar organizações vinculadas aos trustes e cartéis cujos negócios lesassem os interesses nacionais e através dela foi criada a ainda hoje existente Comissão 53 Administrativa de Defesa Econômica (CADE). Depois que assinou o Decreto, Vargas não permaneceu mais cinco meses no poder, seria deposto a 29/10/1945. De Serra Talhada para o Brasil Filho do bacharel em Direito Sérgio Nunes de Magalhães e de Antônia Godoy Magalhães, Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães nasceu a 05 de novembro de 1894, na cidade de Serra Talhada, sertão de Pernambuco, onde frequentou os primeiros anos de escola. De Serra Talhada, Agamenon saiu direto para o Seminário de Olinda, mas logo reconheceu não ter vocação para o clero e passou a estudar no Colégio Arquidiocesano, também em Olinda. Em 1912, ingressou na Faculdade de Direito do Recife, onde concluiu o curso de Ciências Políticas e Sociais na turma de 1916 e, em seguida, foi nomeado promotor público da comarca de São Lourenço da Mata. Redator do jornal recifense “A Província” e deputado estadual em 1922, pelo PSD, Agamenon Magalhães foi primeiro secretário da Assembleia Legislativa de Pernambuco durante todo o mandato. Em 1924, tornou-se professor de geografia da Congregação do Ginásio Pernambucano (depois Colégio Estadual de Pernambuco). Representante de Pernambuco na Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 1932 para a elaboração da Constituição que sucederia a de 1891, Agamenon deixou o Ginásio Pernambucano e, em 1934, tornou-se professor de Direito Constitucional na Faculdade de Direito do Recife, onde só chegou a dar uma aula: convidado por Getúlio Vargas, tornou- se Ministro do Trabalho. Em novembro de 1937, Agamenon foi nomeado por Getúlio interventor federal em Pernambuco, cargo que deixaria em 1945 para tornar- se Ministro da Justiça de Vargas. Em 1946, Agamenon voltou ao Congresso Nacional, como deputado constituinte, dali saindo para ser governador de Pernambuco, eleito pelo povo. Na madrugada de 24 de agosto de 1952, em pleno exercício do poder, Agamenon morreu, no Recife. Trabalhadores à sombra da indigência econômica Os jovens de hoje sabem perfeitamente o que significa cartel. Até porque, em várias ocasiões nestes últimos anos, a televisão mostrou que os donos de postos de gasolina costumam se utilizar dessa prática para aumentarem os seus lucros. O que a maioria dos nossos jovens talvez não saiba é quem foi o autor da primeira lei brasileira de combate aos trustes e cartéis. Isto porque, em que pese a importância desse político pernambucano para a História do Brasil, não é nenhuma novidade que, neste País, nós damos pouca importância a nossa memória. A lei que dava ao governo brasileiro suporte legal para impedir os abusos dos poderosos grupos econômicos foi criada em junho de 1945 e, na época, sofreu violenta pressão do capital estrangeiro, a ponto de provocar a queda de Getúlio. Hoje, os princípios dessa mesma lei que pretendia defender a economia nacional são difundidos através de cadeia de televisão, para tentar inibir a formação de cartéis que massacram o consumidor. Não seria uma prova de que Agamenon estava certo e tinha visão de futuro? Veja, abaixo, a exposição de motivos da lei, escrita por Agamenon. “Excelentíssimo senhor doutor Getúlio Dornelles Vargas, presidente dos Estados Unidos do Brasil, O surto do nosso progresso industrial e a situação criada pela guerra na sua faina paradoxal de tirar dos que não têm, exigem do governo medidas de proteção às atividades econômicas sadias. O acúmulo de riquezas, pela especulação e não pelo trabalho, é fator de desequilíbrio não só da ordem moral, mas também da ordem econômica. Essa riqueza de facilidades e aventuras, de supérfluo e luxo, vem desvirtuando e desumanizando a ação da máquina, cuja intervenção no campo econômico tem contribuído, as mais das vezes, para aumentar as dificuldades da vida social e piorar a condição das classes trabalhadoras. A concentração do poder econômico gerou o capitalismo financeiro. A paixão pelo lucro substituiu o senso da utilidade e do serviço. Os valores, em vez de servirem ao homem, passaram a contribuir para o seu aniquilamento. Os “trusts”, desorganizando a pequena indústria, colocaram as classes médias e as classes trabalhadoras à sombra da indigência econômica. Os “trusts” de casa e os de fora, em luta entre si, ou reunidos para a destruição dos mais fracos, fizeram desaparecer, entre nós, indústrias prósperas, como aconteceu, por exemplo, com as indústrias das linhas no Nordeste; com a do fósforo e das sedas; 54 com as empresas elétricas. Apareceram laboratórios que, para açambarcar mercados, dominaram redes de propaganda, não escolhendo processo, não parando nem mesmo nas barreiras da calúnia. Em seu magnífico discurso aos jornalistas, vossa excelência teve oportunidade de reafirmar a orientação do governo em defesa da economia nacional. E da ação sempre inspirada em princípios da justiça econômica e da justiça social, constitui salutar exemplo à política de proteção à açucaro-canavieira. Novas medidas se impõem. Lucros extraordinários provocados de nossos latifúndios. Acelera-se o êxodo dos campos em benefício das cidades, onde se levantam faustosos arranha-céus, com dinheiro arrancado, muitas vezes, da zona rural depauperada. E os latifúndios não vão formar-se nas zonas desertas. Não vão beneficiar as regiões áridas. Invadem centros mais populosos e prósperos. Desmantelam as pequenas propriedades criando para os trabalhadores uma situação moral e econômica inferior à dos escravos do tempo do império. Esses fenômenos constituem consequências fatais do exercício abusivo do poder econômico contra o qual se tem sistematicamente insurgido a opinião pública leiga ou técnica, conforme poderá verificar nos anais das conferências econômicas, ultimamente realizadas, e do pronunciamento unânime dos especialistas e estudiosos do assunto. Vale salientar, a este propósito, as conclusões votadas pelo I Congresso Brasileiro de Economia, reunido no Rio de Janeiro, em 1943, pela Conferência das Comissões de Desenvolvimento Interamericano, realizada no mesmo ano, recomendando aos governos providenciar no sentido de impedir a formação de “trusts” e outras formas de agrupamentos prejudiciais ao comércio e à população. Particularmente significativo é o fato de que economias bem mais sólidas do que a nossa já se têm valido de medidas legislativas de defesa contra os efeitos desastrosos do abuso do poder econômico, em todas as suas variadas formas. Os Estados Unidos vêm se aparelhando, desde 1890, para o combate a essas instituições de opressão econômica, através do seu Federal Anti-Trust Act (Lei Sherman), cujos resultados preceitos têm sido completados com diversas leis posteriores, tais como as leis de 1903 (criação do Bureau of Corporation), 1913 (relativa ao Canal do Panamá), 1914 (Lei Clayton e Federal Trade Comission Act). A este respeito, poderiam ser alinhados ainda o Combines Investigation Act, de 1923, do Canadá; o Industries Preservation Act australiano, de 1910; o Board of Trade Act, da Nova Zelândia; a lei norueguesa de 12 de março de 1926, que deu ao assunto extenso tratamento, criando dois órgãos de execução, a saber, o Serviço de Controle e o Conselho de Controle; a lei de 1923, da Alemanha republicana e anterior ao nazismo, em virtude da qual os trusts e cartéis foram sujeitos a um regime de publicidade e registro e submetidos ao controle do Ministério da Economia e do Tribunal Econômico do Reich; a lei sueca de 1925. Outros países há que, não dispondo de uma legislação especial, de natureza econômica, sobre as coalizões nocivas ao interesse público, se limitam a dar ao assunto tratamento penal.Partindo do fato, unanimemente reconhecido de que nem todos os agrupamentos são contrários ao interesse público, de vez que os há inofensivos e, até mesmo, benéficos à economia nacional, as legislações existentes, via de regra, têm procurado caracterizar a nocividade das coalizões ou dos agrupamentos, com base na natureza ilícita, imoral ou prejudicial dos objetivos ou intenções que as uniram. Esse critério subjetivista criou as maiores dificuldades práticas, no momento da aplicação da lei e determinou oscilações e indecisões da jurisprudência, altamente perturbadoras dos intuitos dos legisladores, conforme o atesta a crítica unânime dos estudiosos do assunto. Ora, parece evidente que, sob o ponto de vista econômico, o aspecto lícito ou ilícito da intenção animadora dos ajustes ou coalizões é, muitas vezes, irrelevante. Neste particular o que importa, realmente, é a nocividade do resultado, ainda mesmo quando não desejado ou não previsto, no momento da celebração do ajuste. Por isso, o projeto que ora tenho a honra de submeter à apreciação de vossa excelência procurou afastar-se, no que tange à caracterização da nocividade das coalizões, dos critérios seguidos pelas leis similares estrangeiras, baseando as suas distinções na natureza dos efeitos alcançados por tais entendimentos. O projeto distingue os acordos, ajustes ou entendimentos lícitos (Art. 11), dos ilícitos (Arts. 1 e 5). 55 Todavia, como julgamento sobre a natureza lícita ou ilícita do ajuste se inclui entre as funções privativas do Executivo, porque decorre da política econômica por ele seguida, a validade dos entendimentos lícitos fica na dependência da aprovação do Poder Público. A distinção das atividades ilícitas, no campo econômico, em atos contrários ao interesse da economia nacional e atos nocivos ao interesse público, corresponde à necessidade de graduar a ação repressiva do Governo, a fim de torná-la mais enérgica naqueles casos em que o ato possa constituir ameaça à segurança das instituições ou à soberania do estado. A complexidade e a natureza altamente especializadas de questões relacionadas com a constituição e funcionamento desses agrupamentos torna imprescindível a criação de um órgão particularmente incumbido da fiscalização e controle desses agrupamentos. Daí a criação pelo projeto anexo, de um órgão especial, dotado da ampla autonomia de ação que lhe é indispensável para o perfeito cumprimento das suas atribuições. A colaboração do projeto que ora tenho a honra de submeter à apreciação de vossa excelência foi feita sob o estímulo das circunstâncias presentes da vida nacional e sob a inspiração das diretrizes políticas que têm norteado a ação de vossa excelência, no setor econômico e no intuito de pôr um enérgico paradeiro aos excessos e desatinos derivados do abuso do poder econômico, exercido de maneira despótica contra a população obreira do País e em detrimento dos mais legítimos interesses públicos. Aproveito a oportunidade para renovar a vossa excelência os protestos do meu mais profundo respeito. Agamenon Magalhães. REPUBLICA LIBERAL (POPULISMO) 1946 - 1964 Esse período de dezoito anos é considerado como o mais liberal e democrático da História do Brasil de até então, com a presença de eleições diretas, liberdade econômica e partidária, etc., embora tal afirmativa não deva ser considerada em sua totalidade: na maior parte do período, tem-se uma considerável dependência do capital externo, proíbe-se a atuação do Partido Comunista a partir de fins da década de 40 e ocorre, por vezes, a intervenção dos militares em associação com a burguesia externa na política vigente. Apresentam-se, a seguir, as principais ocorrências de cada um dos governos dessa época. Eurico Gaspar Dutra 1946 - 1951 - Após um curto período de governo de transição de José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal, necessário para o transcurso do processo eleitoral, as eleições diretas levam à presidência o General Eurico Gaspar Dutra, do PSD. Sua eleição, entretanto, se deve ao apoio recebido pelo PTB. Aliás, a coligação PTB-PSD domina o cenário político da Era do Populismo, constituindo-se a UDN o principal foco oposicionista. Os três partidos surgem ainda no final do governo de Vargas, em 1945. A coligação representa o próprio Varguismo, sendo o PSD oriundo de meios rurais e da elite governante do Estado Novo e o PTB uma aglutinação dos interesses dos trabalhadores, de caráter urbano. Já a UDN representa o principal partido contrário ao Estado Novo, com um programa de apelo ao liberalismo burguês, tradicionalmente urbano. - Promulgação da Constituição de 1946, que vigorará em todo o Período Populista e é considerada como a mais liberal de até então. Baseada nos princípios do Liberalismo e da Democracia, prevê eleições diretas e várias medidas bem diversas da política ditatorial do Estado Novo. - No campo econômico, observa-se a adoção de um Estado Liberal (não-interventor na economia) e a abertura ao capital externo (internacionalização da economia). Veem-se novamente, aí, dois aspectos distintos em relação à Era Vargas. - Metas básicas de governo definidas através do Plano SALTE (Saúde, Alimentação, Transporte e Energia), primeira experiência de planejamento governamental realizada no país, embora com fracasso no cumprimento de suas diretrizes básicas. - A cassação do PCB (Partido Comunista Brasileiro) colocado na clandestinidade em 1947, demonstra que a democracia política do período possui restrições. Os deputados comunistas, a partir de 1948, também têm os seus mandatos cassados. - Demonstrando a forte dependência política e econômica em relação aos Estados Unidos, o Brasil rompe relações diplomáticas com a URSS, em 1947. 56 Ainda nesse contexto, em 1948, é criada a Escola Superior de Guerra (ESG), destinada a cuidar dos problemas da segurança nacional, de inspiração e orientação norte-americana. Getúlio Vargas 1951 - 1954 - O ex-ditador retorna à presidência, desta vez pelo voto direto, com a arrasadora marca de 48,7% dos votos. Apoiado pelo seu partido, o PTB, obteve uma coligação com o PSP, do paulista Adhemar de Barros, importante para sua vitória. Demonstra, assim, uma inquestionável força pessoal, capaz de continuar sensibilizando, sobretudo, a classe trabalhadora. - A exemplo do seu governo anterior, de 1930 a 45, devolve ao Brasil o desenvolvimento apoiado no capital nacional. Justifica a afirmativa a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e da PETROBRÁS. - A política nacionalista desenvolvida gera a insatisfação da burguesia internacional, canalizada aqui pelo partido da UDN, muito apegada à inflação que se inicia no país e às lembranças do período da ditadura Varguista para fazer crescer a oposição. - Em razão da oposição crescente, Vargas se suicida (1954), deixando à nação uma carta-testamento, onde exalta seus feitos, procurando sensibilizar a população, o que de fato ocorre, uma vez que nas eleições presidenciais seguintes a coligação partidária que o apoia (PTB-PSD) obtém nova vitória, deixando a UDN uma vez mais na oposição. Governos Provisórios 1954 a 1956 Com a morte de Getúlio, assume seu vice Café Filho. As novas eleições presidenciais marcam em 1955 a vitória de Juscelino Kubitschek, apoiado pela coligação PTB-PSD, ligada a Vargas e ao seu ideal populista. As oposições, canalizadas sobre a UDN, tentam um golpe para impedir a posse de JK, sem resultados, pois a ordem legalista e democrática é garantida pelos militares nacionalistas, com destaque para o Marechal Lott. Como Café Filho, vitimado por problemas de saúde, deixa o governo, este é ocupado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz, acusado de participação na tentativa do golpe contra o presidente eleito e, por isso, deposto a seguir.Assume, finalmente, a presidência da República, encerrando o conturbado período de governos provisórios, o presidente do Senado Nereu Ramos, que dá posse, a seguir, a Juscelino. 1956 a 1961 - Juscelino Kubitschek de Oliveira - Eleito pela coligação PTB-PSD. - Período de tranquilidade política apesar de dois pequenos levantes militares contra seu governo (Aragarças e Jacareacanga), logo debelados. - Plano de Metas anunciando um crescimento de “50 anos em 5” e tendo como destaque um conjunto de medidas desenvolvimentistas, dentre as quais a construção de Brasília. - Desenvolvimento apoiado no capital externo, com o que já concorda significativa parcela de nossa própria burguesia. Cresce sobretudo o setor de bens de consumo, principalmente o automobilístico. - Significativas obras: hidrelétricas (como Furnas e Três Marias), rodovias (Belo Horizonte-Brasília, por exemplo), além de Brasília, inaugurada como capital em 21.04.1960. - O legado da Era JK é, entretanto, penoso: para o financiamento de suas obras, recorre ao endividamento externo e emissões elevadas, provocadores do crescimento inflacionário. Além disso, o salário-mínimo no país não acompanha a inflação, o que ocorre, aliás, desde o governo Vargas. - Rompimento com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que condiciona novos empréstimos ao Brasil à adoção de uma política econômica de austeridade, com a contenção de salários de forma mais drástica, fim dos subsídios às importações e corte nos gastos públicos, com o que não concorda o governo. - O desgaste do período, à tona em seu final, possibilita à UDN, oposicionista, eleger seu único presidente nas eleições seguintes. A ele cabe também o duro legado de JK sobretudo na esfera econômica. Cumpre destacar aqui o papel crescente do sindicalismo urbano no país, reflexo da própria expansão da atividade industrial, gradativamente adquirindo feições próprias, não tão atreladas ao aparelho de Estado. Torna-se mais descentralizado, atingindo centros diferentes do Rio de Janeiro e São Paulo, além de incorporar trabalhadores das indústrias mais modernas. Do ponto de vista político, tende à unificação, a ponto de fazer surgir uma grande central sindical no início dos anos 60 – o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT). Ao mesmo tempo, os anos 50 e 60 são marcados pelo aparecimento de organizações 57 sindicais de trabalhadores rurais. As bases de suas reivindicações são a extensão da legislação trabalhista ao campo e a reforma agrária. Destaca-se o surgimento das Ligas Camponesas, em 1955, por Francisco Julião, advogado pernambucano. Típicas do Nordeste, embora presentes em todo o Brasil, congregam pequenos camponeses (fora dos sindicatos) e lutam pelo objetivo maior: a reforma agrária a partir da expropriação da terra, sem indenização. Jânio Quadros 1961 Eleito com o apoio da UDN e do PDC e com uma grande expressão popular, Jânio Quadros imprimiria aos seus sete meses de governo uma concepção política totalmente diferente aos quadros nacionais. O presidente primaria pela ambiguidade e personalismo excêntrico. Apesar da ambiguidade, durante sua presidência, destacaram-se propostas político- econômicas: 1 - No plano interno, a adoção de uma política de austeridade pessoal, simbolizada pela “vassoura”, destinada a varrer do país a corrupção e outros crimes. Acabou por vitimar renomados vultos da política nacional, como o ex-presidente JK e o seu vice, João Goulart, sendo este ligado ao PTB. Adotou também uma política de austeridade econômica, implantando a contenção salarial e o fim dos subsídios às importações (Instrução 204), sem conseguir, entretanto, deter a espiral inflacionária. 2 - No plano externo, buscou uma política externa independente, diminuindo as relações com os EUA e procurando uma reaproximação com os países socialistas e com o Terceiro Mundo, o que desagradou ao governo americano. Uma demonstração clara da independência política foi a condecoração com a Ordem do Cruzeiro do Sul a Ernesto “Che” Guevara, um dos líderes da Revolução Cubana e Ministro das Relações Exteriores de Cuba, fato que propiciou aos conservadores acusar o presidente de “comunista”. Ao mesmo tempo que adotava uma política internacional independente, Jânio Quadros enviava ao Congresso um projeto de taxação dos lucros nacionais ou estrangeiros, de 30%, sendo que já existia uma taxação de 20% sobre as exportações. O objetivo era obrigar as empresas a reinvestir no país e evitar a concentração de capital e a remessa desordenada de lucros pelas multinacionais. Assim perde o apoio da burguesia nacional e internacional, além de diversos segmentos da sociedade vítimas do rigor de seu governo. Bastante pressionado, Jânio surpreende a nação com uma renúncia após sete meses de governo, em razão de “forças terríveis que se desencadeiam”. Jânio Quadros, na verdade, espera, com a renúncia, uma intensa manifestação nacional a favor de sua volta, o que não ocorre. A colocação do presidente “acima” de partidos e de segmentos sociais o deixa sem bases de sustentação e a renúncia não se reverte. João Goulart (“Jango”) 1961 - 1964 Com a renúncia de Jânio Quadros, o seu vice João Goulart, do PTB, que se encontrava na China em missão diplomática, deveria ser empossado legalmente. Mas a ameaça do continuísmo do governo anterior leva diversos segmentos da sociedade, sobretudo a burguesia nacional e internacional, com o apoio das forças armadas, a não aceitarem o seu desembarque. A postura desses setores em não aceitar e tentar impedir a posse do presidente configurou, na realidade, uma tentativa golpista. Para combater a ameaça golpista e a inconstitucionalidade, formou-se a Rede da Legalidade constituída pela maioria da população e articulada pelo então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para que a Constituição fosse cumprida e Jango, como sucessor legal fosse empossado. Entre legalistas e golpistas, cria-se uma situação intermediária: o “Estado de Compromisso”, como alternativa à crise política. O “Estado de Compromisso” adotou no Brasil, entre 1961 e 1963, o Parlamentarismo, permitindo, assim, a posse de João Goulart, mas com poderes limitados pelo 1º Ministro (um deles, Tancredo Neves). Ficou decidido que, em 1963, através de um plebiscito, a população optaria pela continuidade ou não desse regime. O resultado do plebiscito, em 1963, refletiu o desejo popular pelo fim do Parlamentarismo (74% dos votos). Na verdade, as constantes intromissões de Jango nas questões a serem decididas pelo Gabinete Parlamentarista demonstravam a fragilidade do 58 sistema e retornou-se, assim, ao Presidencialismo (1963 a 1964). No seu curto tempo de governo, João Goulart tentou colocar em prática o Plano Trienal, elaborado por Celso Furtado, propondo: • combate à inflação, com manutenção do crescimento econômico; • contenção de lucros e salários; • continuidade da política externa independente. O resultado foi uma violenta onda oposicionista desencadeada pelos setores médios urbanos, em função da perda do poder aquisitivo (a inflação atingia a casa dos 73%); pela burguesia, insatisfeita com as reformas de base; pelos militares, desejosos de assumirem o controle político da nação e pelos EUA, que forneceram apoio político, financeiro e militar para uma intervenção armada. No Brasil, a trama oposicionista foi articulada por empresários e militares do IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais). Jango defende a radicalização da situação, via reformas de base, num programa nacionalista e reformista. Em 13 de março de 1964, Jango comanda um gigantesco comício das esquerdas pelas reformas, propondo a nacionalização das refinarias e a reforma agrária. A consequência foi o Golpe Militar de 31 de março de 1964,contra o governo Goulart e a suposta “ameaça comunista”. Apenas os governadores Leonel Brizola (RS) e Miguel Arraes (PE) apoiam o Governo Federal. O Golpe conta com a participação dos governadores Carlos Lacerda (RJ), Magalhães Pinto (MG) e Ademar de Barros (SP) e com a liderança militar dos generais Amauri Kruel e Olímpio Mourão Filho, comandando tropas que partem, respectivamente, de São Paulo e Minas Gerais. O presidente sem apoio popular e sem base de sustentação, exilou-se no Uruguai. Sua queda assinala o fim do populismo e o início da Era dos Militares no país. REPÚBLICA DOS MILITARES – O BRASIL DE 1964 - 1985 Logo após o Golpe de 1964 que depõe o Governo João Goulart encerrando o modelo populista, inicia-se o regime militar. A “República dos Militares” é caracterizada pelo trinômio autoritarismo político, miséria social e crescimento econômico dependente. Não deve ser compreendida de forma homogênea pois: a ditadura dos dois primeiros terços do período contrasta com a abertura, lenta e gradual a partir do final do Governo Geisel; além disso, o desenvolvimento econômico do “Milagre” (1968 a 1973), é antecedido e sucedido por graves anos de recessão. A força do Executivo em todo o período pode ser exemplificada pela ausência de civis na presidência e uso abusivo do aparato repressor pelos governos federais, sempre escolhidos pela via indireta. Com o final do Governo Figueiredo, em 1985, encerra-se a Era dos Militares, com o retorno dos civis à presidência (Tancredo/Sarney), ainda que escolhidos, uma vez mais, pelo colégio eleitoral de Brasília. Os presidentes militares são: • 1964 a 1967 - Humberto de Alencar Castello Branco • 1967 a 1969 - Arthur da Costa e Silva • 1969 a 1974 - Emílio Garrastazu Médici • 1974 a 1979 - Ernesto Geisel • 1979 a 1985 - João Batista de Oliveira Figueiredo Logo após o golpe, os ministros da área econômica estabeleceram os cinco primeiros pontos a serem atacados: “1 - Acelerar o ritmo de desenvolvimento do país. A economia nacional está parada desde 1962. É urgente retomar o desenvolvimento econômico. 2 - Ainda neste ano de 1964, a inflação deverá ser colocada sob controle. 3 - Os desníveis econômicos setoriais e regionais funcionaram como combustível da fogueira esquerdista que ardeu no tempo de Jango presidente. 59 Exige-se vultosa inversão de recursos para aplainar esses desníveis. 4 - Estimular o mercado interno de bens de consumo duráveis. Como subproduto principal, esse estímulo contribuirá para gerar novos empregos. 5 - Corrigir o descontrole da balança de pagamentos”. (100 ANOS DE REPÚBLICA. VOL. VII 1959-1964. SÃO PAULO, NOVA CULTURAL, 1989, PÁG. 54.) Essa distorção, segundo o poder, “uma imprevista necessidade, para o curso dos anos 60 e 70”, provoca cisões no interior das próprias Forças Armadas, além de toda uma decepção de diversos segmentos da sociedade que em 64 apoiam (ou não se manifestam contra) o Golpe, como a Igreja, as classes médias e setores da burguesia (outros setores dessa burguesia permanecem ligados aos militares mesmo com as distorções mencionadas – e, justamente, por causa delas). POLÍTICA A primeira medida política foi a promulgação do Ato Institucional nº 1 (1964), para deter a ação do Congresso, que se movimentava e articulava a eleição – pelo próprio Congresso – do novo presidente da República. Antecipando-se aos civis, os militares se auto outorgaram poderes políticos, esvaziando política e fisicamente o Congresso, através das cassações. Ampliaram o “poder revolucionário” ao estender a cassação de direitos a outros setores da sociedade, como no caso da extinção da CGT (Central Geral dos Trabalhadores), das Ligas Camponesas e da UNE (União Nacional dos Estudantes). Ao AI nº 1, seguiram-se muitos outros documentos de mesma natureza política, como o (a): • AI nº 2 - Editado em 1965, permitia ao governo federal legislar em forma de Decretos-lei e extinguia os partidos políticos, permitindo apenas o bipartidarismo, com a ARENA e o MDB, além da eleição indireta para a presidência. • AI nº 3 - Editado em 1966, determinava eleições indiretas para governadores de Estados. • AI nº 5 - Editado em 1968, autorizava o recesso parlamentar nos planos federal, estadual e municipal; o direito a intervenções nos Estados, Municípios e Territórios; ampliava o direito às cassações políticas, além de suspender mandatos por dez anos; permitia a decretação do estado de sítio; o confisco de bens; eliminava o direito de habeas-corpus (aguardar processo em liberdade) para os acusados de crimes políticos. • Constituição de 1967, que, em síntese, confirmava os decretos-lei, isto é, conferia ao Executivo poderes ilimitados, “institucionalizando a ditadura”. • Lei da Imprensa e a Lei da Segurança Nacional, inspirada no modelo americano. • Emenda Constitucional nº 1, de 1969, outorgada pelos militares, fortalecia ainda mais o poder Executivo, em detrimento do Legislativo e do Judiciário. Na verdade, as causas do AI-5 são muitas “O AI-5, que radicalizou o regime militar até as últimas consequências, foi na verdade uma resposta ao clima de agitação social que assolou o país em 1968: a morte do estudante Edson Luís provocara uma onda de passeatas no Brasil inteiro; em Minas (Contagem) e São Paulo (Osasco), eclodiram duas greves operárias; populares atacaram com pedras o governador de São Paulo, na festa do 1º de Maio; os estudantes realizaram um congresso proibido da UNE e, no âmbito parlamentar, a oposição ensaiava uma atuação mais intensa, que culminou com o caso Moreira Alves. Enquanto isso, a “linha dura” das Forças Armadas insistia em que a ordem deveria ser estabelecida, pois o combate ao comunismo “em todas as suas formas” deveria ter prioridade sobre as aspirações democráticas. Entre essas forças conflitantes, o presidente Costa e Silva declarava que “as Forças Armadas constituem uma de nossas classes produtoras. Produzem aquilo que mais vale, pois é a base sem a qual nada se poderia fazer de útil, ordenado e permanente: a segurança nacional”. E foi o que prevaleceu: a segurança nacional tutelada pelas armas”. (100 ANOS DE REPÚBLICA. VOL. III - 1965/1973. S. PAULO, NOVA CULTURAL, 1989, PÁG. 29). Obs.: O caso Márcio Moreira Alves foi um discurso que o deputado do MDB (Rio) fez pregando à população sua não participação nas comemorações do 7 de setembro, em sinal de protesto à ditadura militar. O Congresso não concordou com o pedido de licença para processar o deputado. Sem respaldo legal para puni-lo, o governo federal edita então o AI-5. Em síntese, os governos militares caracterizavam-se, no plano político, por: • Fortalecimento ilimitado do Executivo; • Direito ao Executivo de legislar através dos Decretos-lei, em defesa da “segurança nacional”, 60 demonstração feita através dos Atos Institucionais (AIs) e Atos Complementares (ACs). • Completo esvaziamento do Legislativo, tornando-o, com raras exceções, comprometido com o regime, pelo terror ou pelos casuísmos; • Perda, por parte dos cidadãos, de seus direitos e garantias individuais ou coletivas; • Institucionalização da ditadura militar, com censura à Imprensa, impondo à nação o “silêncio” pela via do terror/censura/tortura. Paralelo entre os dois momentos distintos Considera-se 1978 como o início formal da abertura política no país porque nele encerra-se o período de vigência do Ato Institucional nº 5 (AI-5), após 10 anos, por decisão do então presidente Ernesto Geisel. O processo de abertura, desde o início do governo Geisel, é marcado pela forma “lenta, gradual e segura”, por iniciativa e controle dos próprios militares. A distensão do regime apresenta alguns retrocessos, o que demonstra o controle do processo pelo Executivomilitar. O Pacote de Abril de 1977 cria o Senador Biônico, ou seja, de cada três senadores por estado, um deles (o “Biônico”) é indicado pelo Governo Federal; limita a propaganda eleitoral através da Lei Falcão e amplia o mandato presidencial para seis anos, a partir do sucessor de Geisel. Elementos de direita tentaram, durante a presidência Figueiredo, comprometer o processo de abertura política, ao incendiar bancas de revistas e ao praticar atentados terroristas como os das explosões de bombas, uma na OAB e outra na Câmara Municipal do RJ. Em 1981, o “Caso Rio-Centro” (RJ) viria, mais uma vez, tentar criar animosidades entre a “transição democrática” e os militares. Um sargento e um capitão (Serviço Secreto do I Exército) estavam, ao que se sabe, prontos para explodirem bombas numa comemoração oposicionista pelo Dia do Trabalho. Entretanto, a bomba explodiu antes do esperado, matando o sargento e ferindo o capitão. Aberto o inquérito, julgou-se o atentado como sendo da esquerda. Posteriormente, a CPI foi arquivada. A própria extinção do bipartidarismo é considerada pelas oposições como uma tentativa do governo de dividi-las, fragmentando-as em diversos partidos, o que, de fato, ocorre. Os situacionistas (ex- ARENA) permanecem fiéis ao governo, unidos no PDS. Em 1984, já melhor articulada, a oposição, juntamente com o povo, saiu às ruas na “Campanha das Diretas-Já”, a favor da Emenda Dante de Oliveira, que, dada ainda a existência de mecanismos continuístas, frustrou a vontade popular na tentativa do voto direto para presidente em 1985. Dos 479 votos totais, 298 votos foram a favor, 65 contra e 116 membros do Congresso não compareceram. As Diretas-Já não foram aprovadas por uma diferença de apenas 22 votos. Restou, porém, a marca histórica de ter sido o maior movimento de mobilização popular de toda a história do Brasil. ECONOMIA Até 1967: “Depressão Econômica” • Progressiva concentração de renda nacional nas mãos de poucos privilegiados (situação está presente também ao longo dos anos 70,80 e 90); • Fim da substituição de importações, presente nos últimos governos populistas, cedendo espaço às crescentes importações; • Dependência do capital externo; • Elevação da dívida externa e da inflação; • Diminuição da capacidade de compra da população; • Medidas de ajuste econômico com o PAEG (Plano de Ação Econômica Governamental), de Castello Branco. 1968 a 1973: “Milagre Econômico” • Substancial crescimento do PIB (Produto Interno Bruto), atingindo índices de 10% ao ano; • Crescimento, sobretudo, do setor de bens de consumo duráveis (automóveis, eletrodomésticos, por exemplo), voltados para a classe alta com a dependência do capital externo, bem como a remessa de lucros para o estrangeiro; • Restrição ao crescimento do setor de bens não duráveis (têxteis e alimentos), vinculados ao capital nacional; 61 • Expansão do setor de base (bens de produção), graças ao capital estatal (siderúrgicas, petroquímicas, hidroelétricas); • Participação da classe média no processo de consumo através dos instrumentos de crédito ao consumidor; • Inflação presente, mas controlada; • Queda do salário-mínimo real, mostrando a perda do poder aquisitivo dos trabalhadores; • Divulgação da imagem de “Brasil Grande”, através dos veículos de comunicação, com propagandas ufanistas (“Brasil: ame-o ou deixe-o”) exibindo as obras do período: Transamazônica, Embratel, Itaipu (primeiros contatos), Mobral, etc.; • Ampliação dos gastos públicos e da dívida externa; • Progressiva concentração de renda nas mãos das elites. Não se pode desvincular o crescimento econômico nacional realizado de acordo com as determinações do governo federal, do “Silêncio” político imposto pelo mesmo, sobretudo no período Médici (69 a 74), eliminando qualquer possibilidade de crítica à forma como se processa tal crescimento. A estrutura do modelo político-econômico, defendido e aplicado pelos militares, pode ser resumida na expressão: MILITARES + CAPITAL ESTATAL + CAPITAL EXTERNO + TECNOCRATAS Pós-1973: “Novas Crises Econômicas” • As crises econômicas demonstram o esgotamento do “Milagre”; na verdade os gastos em suas obras tornam-se elevadíssimos, bem como a dependência externa, e questiona-se a concentração excessiva de renda e terras em contraste com a miséria social. • Crescimento da inflação e da dívida externa; • Empréstimos junto ao FMI, com a adoção de medidas recessivas impostas pelo mesmo, como o corte dos gastos com salários e obras públicas; • Crises do Petróleo, com o aumento dos preços do produto de forma intensa, em 1973 e 1979, forçando o governo a adotar uma nova política energética (Itaipu, Angra dos Reis, Proálcool) e, ao mesmo tempo, ampliar os gastos com importações. O fim do Milagre e a incapacidade de viabilizar novo crescimento econômico ajudam a colocar em xeque o próprio regime político, contribuindo para a já referida distensão, lenta e gradual, a partir de Geisel. 1964 O presidente da República João Goulart, que assumiu com a renúncia de Jânio Quadros (em 1961), planejava implantar as Reformas de Base. 13 de março, Jango realiza um grande comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, onde defende as Reformas de Base nas estruturas agrícolas, sociais e educacionais. 19 de março - foi realizada a "Marcha da Família com Deus da Liberdade", que era composto por opositores de Jango que não concordavam com as Reformas de Base. 31 de março, tropas de Minas Gerais e São Paulo saem às ruas. Para evitar uma guerra civil, Jango deixa o país e se refugia no Uruguai. 1º de abril, com a saída de Jango do país, os militares tomam o poder. Em Pernambuco, Miguel Arraes é preso pelo IV Exército por se negar a renunciar o cargo de governador. 2 de abril - Marechal Castelo Branco é escolhido pela junta militar como presidente interino do Brasil. 9 de abril - é decretado o Ato Institucional Número 1 (AI-1), que tira a estabilidade dos funcionários públicos, cassa os direitos políticos dos opositores por dez anos e classifica como clandestinas as "legendas subversivas". 11 de abril - General Marechal Castelo Branco é eleito como presidente da República. A votação aconteceu no Congresso Nacional com 361 votos à favor e 71 abstenções. 15 de abril - Marechal Castelo Branco é empossado presidente. O seu governo inicialmente tinha pretensões de terminar o mandato de Jango. 13 de junho - Presidente Castelo Branco cria o Sistema Nacional de Informação (SNI), que tem o objetivo de investigar qualquer cidadão ou movimento que possa conspirar contra o governo militar. 30 de novembro - Castelo Branco institui o "Estatuto da Terra" através da Lei Nº 4504. 1965 27 de março - Os presidentes Marechal Castelo Branco (Brasil) e Alfredo Stroessner (Paraguai) inauguram a Ponte da Amizade. 25 de maio - Após 11 meses de prisão em Fernando de Noronha, Miguel Arraes é libertado e exilado na Argélia. No mês de julho os governadores Magalhães Pinto (Minas Gerais) e Carlos Lacerda (Rio de Janeiro) rompem com o presidente Castelo Branco. 3 de outubro - são eleitos 11 governadores através do voto direto. Já a eleição para o Congresso é suspensa 62 por um ano pelo presidente Castelo Branco que prorroga o tempo do seu governo até 1967. 27 de outubro - Instaurado o Ato Institucional Número Dois (AI-2), que dissolve o Congresso, extingue os 13 partidos. Os parlamentares têm que se dividir em dois blocos, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), que representava a situação, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), oposição. Também legitima as eleições indiretas, a cassação dos mandatos políticos de opositores, a intervenção federal no Legislativo e a perda dos direitos dos funcionários públicos. 1966 5 de fevereiro - O Ato Institucional Número Três (AI-3) é decretado. Oficializa as que eleições degovernadores e vice-governadores passam a ser indiretas. O AI-3 também confirma as eleições dos prefeitos das capitais e de outras cidades através da indicação realizada pelos governadores eleitos. 5 de junho - O governador Adhermar Barros é afastado e cassado pelo presidente Castelo Branco com a acusação de corrupção. 6 de junho - Apesar de exilado na União Soviética, o presidente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Luís Carlos Prestes, é condenado a 14 anos de prisão pelo crime de "subversão". 22 de julho - Os ministros das Relações Exteriores do Brasil (Jurancy Magalhães) e do Paraguai (Sepena Pastor) assinam a "Ata Iguaçu", que determina os estudos para a construção da Usina Itaipu. 25 de julho - Acontece no Recife o "Atentado do Aeroporto Internacional dos Guararapes". A ação tinha como alvo o presidente Marechal Castelo Branco. 13 de setembro - O presidente Castelo Branco sanciona a lei que estabelece o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) Costa e Silva 1966 3 de outubro - O Congresso elege com 294 votos o Marechal Costa e Silva, que iria substituir Castelo Branco no próximo ano. Durante a eleição indireta, o MDB não votou em protesto. 15 de novembro - Ocorre as eleições dos membros do Congresso Nacional. Um terço <f><f>das vagas para deputado foi ocupada através do voto direto. 19 de novembro - Carlos Lacerda e Juscelino Kubistchek emitem a "Carta de Lisboa", que visava criar a "Frente Ampla" contra o Regime Militar. 7 de dezembro - É decretado o Ato Institucional Número Quatro (AI-4), que convocou o Congresso Nacional para revogar a Constituição de 1946 e garantir a promulgação da nova Constituição que seria votada em 1967. 1967 18 de janeiro - O Congresso rejeita a emenda que estabelece a eleição direta para presidente e vice- presidente da República. 24 de janeiro - É promulgada a Constituição de 1967. 9 de fevereiro - Decretada a Lei de Imprensa, que restringe a liberdade de expressão dos meios de comunicação da época. A sua revogação aconteceu no dia 30 de abril de 2009 pelo Superior Tribunal Federal (STF). 2 de março - O Conselho Pernambucano de Justiça da 7ª Região Militar condena o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes a 23 anos de prisão pelo crime de subversão. 13 de março - Promulgada a Lei de Segurança Nacional pelo presidente Castelo Branco. 15 de março - Marechal Costa e Silva é empossado presidente sucedendo o Marechal Castelo Branco. 15 de março - Entram em vigor a Lei Nacional de Segurança e a nova Constituição Brasileira. 18 de julho - Morre o ex-presidente militar Marechal Castelo Branco em um acidente aéreo em Fortaleza. 2 de agosto - Dos 133 parlamentares do MDB, 120 deles se negam a participar da Frente Ampla. O principal motivo alegado seria que Lacerda daria um golpe para ficar com a Presidência. 24 de setembro - Lacerda viaja para se encontrar com o ex-presidente João Goulart no Uruguai. O encontro com Jango irritou "a linha dura" que decidiu ficar contra Lacerda. Neste mesmo ano começa o período conhecido como "Milagre Econômico Brasileiro" que se estende até 1973. 1968 28 de março - O estudante secundarista Edson Luís é morto com um tiro no peito durante a passeata relâmpago contra a alta do preço dos alimentos no Rio de Janeiro. 29 de março - 50 mil pessoas protestam nas ruas do Rio de Janeiro contra a repressão exercida pela "linha dura" do governo militar. 2 de abril, a UNE e movimentos ativistas organizam diversas manifestações em todo o país para relembrar a morte do estudante Edson Luís. 63 5 de abril, o movimento político denominado de "Frente Ampla" é proibida pelo ministro da Justiça, Luís Antônio Gama e Silva. 6 de abril - Diversos comícios são realizados diante da "ilegalidade" da Frente Ampla. 20 de abril - Atentado a bomba destrói a frente do jornal Estado de São Paulo. 15 de maio - Bomba explode na entrada da Bolsa de Valores de São Paulo. 12 de junho - Acontece o caso "Para-sar". O militar Carlos Ribeiro Miranda denuncia o brigadeiro Paulo Burnier que pretendia explodir bombas nas vias públicas do Rio de Janeiro para culpar os movimentos esquerdistas. 26 de junho - Membros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) lançam um carro-bomba contra o quartel-general do II Exército em São Paulo. Um sentinela morre e seis militares ficam feridos; 26 de junho - Ocorre a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro. Na ocasião houve confronto com a polícia e os estudantes. 1° de julho - Membros do Comando de Libertação Nacional (Colina) assassinam a tiros o major do Exército alemão Edward Ernest Tito Maximillian von Westerhagen. 2 de outubro - A Universidade de São Paulo (USP) é fechada por militares após o confronto entre estudantes de esquerda (da USP) e de direita (da Universidade Mackenzie). 12 de outubro - Membros do Dops e do DOI-CODI prendem estudantes que participavam do XXX Congresso Nacional da UNE, em Ibiúna, São Paulo. 21 de novembro - O presidente Costa e Silva emite o Decreto Nº 5536/68, conhecido como a "Lei da Censura"; 22 de novembro - É criado o Conselho Superior de Censura. 13 de dezembro - Editado o Ato Inconstitucional Número Cinco (AI-5), que se sobrepõe à Constituição de 1967, dando poderes extraordinários ao presidente da República e suspendendo diversas garantias constitucionais. O Congresso Nacional é fechado por quase um ano, cassa mandatos de políticos e institui a repressão. 2 de dezembro - O Comando de Caça aos Comunistas (CCC) realiza um atentado à bomba no Teatro Opinião. Na época o Governo Militar culpou os próprios "subversivos" pela autoria do ataque. 22 de dezembro - Gilberto Gil e Caetano Veloso são presos no Rio de Janeiro após protestarem contra a Ditadura. Em 1969, Chico Buarque se exilaria na Itália para fugir da repressão. 1969 16 de janeiro - Mário Covas e mais 42 deputados são presos sobre a alegação de pertencerem a movimentos comunistas. 25 de janeiro - Carlos Lamarca, capitão do Exército, foge fortemente armado do Regimento de Infantaria do Rio de Janeiro e organiza uma guerrilha armada junto com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). 1º de fevereiro - Editado o Ato Institucional Número Seis (AI-6), que tinha a função de reduzir de 16 para 11, o número de ministros no Superior Tribunal Federal (STF). 26 de fevereiro - Editado o Ato Institucional Número Sete (AI-7), que complementa o AI-6 suspendendo todas as eleições para novembro de 1970. 2 de abril - Editado pelo presidente Costa e Silva o Ato Institucional Número Oito (AI-8), que tinha como base estabelecer reformas administrativas nos estados, o Distrito Federal e as cidades com mais de 200 mil habitantes. 25 de abril - Editado o Ato Institucional Número Nove (AI-9), que estabelece as regras para a Reforma Agrária. 16 de maio - O Ato Institucional Número Dez (AI-10) foi editado determinando a cassação, demissão e suspensão dos direitos políticos dos funcionários públicos que forem contra os Atos Institucionais. 26 de maio - O padre Henrique, braço direito de dom Helder Câmara, é assassinado no Recife. 1º de julho - O governador de São Paulo, Abreu Sodré cria a Operação Bandeirantes (Oban), que teria como objetivo caçar os comunistas no estado. 18 de julho - Militantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) roubam US$ 2,8 milhões (equivalentes hoje US$ 16,2 milhões) do ex-governador de São Paulo, Adhermar Barros. 14 de agosto - O presidente Costa e Silva edita o Ato Institucional Número Onze (AI-11), que impôs um novo calendário eleitoral, cujo o pleito aconteceria no dia 15 de novembro; 31 de agosto - Por conta de um derrame, Costa e Silva se afasta da Presidência, que substituído por uma Junta Militar. 1º de setembro - Editado o Ato Institucional Número Doze (AI-12) que tem como objetivo oficializar o afastamento do presidente Costa e Silva e impedir que o seu vice, Pedro Aleixo, seja empossado na Presidência.4 de setembro - O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) sequestra o embaixador norte- americano Charles Buck Elbrinck. Os militantes do MR-8 pediram a libertação de 15 prisioneiros políticos. 64 5 de setembro - O Ato Institucional Número Treze (AI- 13) é editado pela Junta Militar. Nele, os militares assumem definitivamente o governo Federal. 7 de setembro - O governo militar liberta 15 prisioneiros políticos em troca do embaixador norte- americano Charles Buck Elbrinck. 10 de setembro - Decretado o Ato Institucional Número Quatorze (AI-14), que estabelece a modificação do artigo 150 da Constituição de 1967. 11 de setembro - Decretado o Ato Institucional Número Quinze (AI-15), que impôs as eleições municipais sobre intervenção do Estado Militar no dia 15 de novembro de 1970. Garrastazu Médici 1969 7 de outubro - A Junta Militar é desfeita e anuncia o general Emílio Garrastazu Médici como candidato do regime à Presidência da República. 8 de outubro - Militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) sequestram um avião da Cruzeiro do Sul que realizava a rota Rio- Manaus. 43 passageiros e sete tripulantes foram levados para Cuba. 15 de outubro - O Congresso Nacional é reaberto. Dez dias depois, são realizadas eleições indiretas e Médici é eleito presidente com 293 votos, sendo 75 abstenções. 30 de outubro - General Médici assume a Presidência da República. 4 de novembro - Carlos Marighella, um dos fundadores da Ação Libertadora Nacional (ALN), é morto em uma emboscada. 17 de dezembro, falece o general Costa e Silva. Ele já tinha sofrido um derrame cerebral meses antes e tinha sérios problemas de saúde. 1970 11 de março - O cônsul japonês Nobuo Okuchi é sequestrado pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). 14 de março - O governo militar solta cinco presos políticos em troca da garantia da vida do cônsul japonês Nobuo Okuchi. 15 de março - A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) liberta o cônsul japonês Nubuo Okuchi. 1º de julho - Um avião da Cruzeiro do Sul com 34 passageiros e sete tripulantes é sequestrado por quatro terroristas da Dissidência Estudantil de Niterói. 11 de julho - O embaixador alemão Ehrenfried von Holleben é sequestrado no Rio de Janeiro por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Por conta da mobilização internacional contra o sequestro, 40 prisioneiros são liberados e seguem exilados para a Argélia. 31 de julho - O cônsul brasileiro Aloísio Mares Dias Gomide é sequestrado por ativistas de esquerdas uruguaios. 7 de setembro - O embaixador suíço Giovanni Bücher é sequestrado por membros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Em troca de sua vida, a VPR exige o congelamento dos preços por 90 dias, a liberação das roletas das estações de trem do Rio e a libertação de 70 presos políticos. 1971 13 de janeiro - Atendendo a pedidos dos militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), o governo militar libera 70 presos políticos. Estes foram exilados para o Chile. 16 de janeiro - O embaixador suíço Giovanni Bücher é libertado pela manhã nas proximidades da Igreja da Penha, no Rio de Janeiro. 5 de agosto - O governo militar deflagra a Operação Mesopotâmia, que aconteceu nos estados do Maranhão e Goiás e tinha como objetivo lutar contra as "guerrilhas subversivas" que ameaçavam o regime ditatorial. 21 de agosto - 215 homens pertencentes ao DOI- CODI, Policia Militar da Bahia e ao Exército deflagram a Operação Pajussara, que tem como objetivo caçar Carlos Lamarca no Sertão baiano. 17 de setembro - Carlos Lamarca é assassinado pelas forças de repressão na cidade de Pintada, no interior da Bahia. 1972 12 de abril - A Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) começa a atacar postos militares na região do rio Araguaia. 21 de abril - Deflagrada a Operação Papagaio, no Rio Araguaia, que teve a participação de 1.500 homens com o objetivo de acabar com a guerrilha. 1973 23 de abril - O presidente do Brasil (Emílio Médici) e do Paraguai (Alfredo Stroesser) assinam o "Tratado de Itaipu", que permite a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, localizada no Rio Paraguai. 7 de outubro - Deflagrada a Operação Marajoara, que aconteceu novamente no Araguaia, desta vez com 400 homens disfarçados e fortemente armados. A 65 ação durou um ano e exterminou todos os militantes das guerrilhas. Ernesto Geisel 1974 15 de janeiro - Ernesto Geisel (Arena) vence as eleições internas disputadas contra o deputado Ulisseis Guimarães (MDB). 15 de março - O general Emílio Geisel assume a Presidência do Brasil, com a missão de tentar "abrir" politicamente o Brasil. 27 de maio - O general Sylvio Couto Coelho Frota assume o Ministério do Exército. Ele enfraquece a "linha dura" do regime com a intenção de conseguir se candidatar ao cargo de presidente e sucessor de Geisel. 1975 Em janeiro - Militares deflagram a Operação Limpeza, que tem como objetivo apagar qualquer registro dos rastros da batalha e dos corpos deixados para trás durante o confronto entre a guerrilha e os militares. 24 de outubro - Os jornalistas Vladimir Herzog, George Benigno Duque Estrada e Rodolfo Konder são presos e torturados pelo DOI-CODI de São Paulo. 25 de outubro - Herzog foi encontrado morto na cela do DOI-CODI. A entidade militar tenta simular uma tentativa de suicídio. 1976 19 de janeiro - por conta da repercussão sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog, o comandante do II Exército Ednardo D'Ávila Mello foi exonerado pelo próprio presidente Ernesto Geisel. 24 de junho - O Congresso Nacional aprova a Lei Falcão, que regula a propaganda eleitoral no rádio e na televisão. 22 de agosto - O ex-presidente Juscelino Kubitschek morre em um acidente automobilístico na Rodovia Presidente Dutra, na cidade de Resende, no Rio de Janeiro. 26 de outubro - Militares entram em conflito com 173 posseiros no Pará. O caso ficou conhecido como "II Guerrilha do Araguaia" e durou até 1980. 15 de novembro- Ocorrem as eleições para vereadores municipais. 16 de novembro - Ocorre a chacina da Lapa, quando três dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCB) são assassinatos em tiroteio contra policiais políticos do DOI-CODI. 1977 1° de abril - O presidente Ernesto Geisel fecha o Congresso Nacional. 13 de abril - O presidente Ernesto Geisel outorga o Pacote de Abril, que além de fechar o Congresso Nacional, reserva dois terços das vagas do Senado para as eleições de 1978. 14 de abril - O presidente Ernesto Geisel reabre o Congresso Nacional. 12 de outubro - Geisel exonera o general Fernando Belfort Bethlem do comando do Exército. O motivo do afastamento foi a descoberta de movimentações de Sylvio Frota para conseguir derrubar Geisel do poder. Movimentos estudantis ampliam manifestações pedindo a "Anistia" para todos os exilados políticos do Brasil. 1978 4 de agosto - O presidente Ernesto Geisel assina o decreto de lei que proíbe a greve nos setores de segurança nacional e serviços públicos do país. 1º de setembro - São eleitos os primeiros senadores biônicos. Quase todos eram pertencentes à Aliança Renovadora Nacional (Arena). O único senador eleito pelo MDB foi Amaral Peixoto, do Rio de Janeiro. 13 de outubro - O Ato Institucional Número Cinco (AI- 5) é extinto através da promulgação da emenda nº 11 da Constituição de 1967. 15 de outubro - São realizadas eleições indiretas para presidente do Brasil. João Figueiredo 1978 16 de outubro - A Arena elege o seu candidato, o general João Figueiredo, com 61% dos votos contra os 39% do candidato do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o general Euler Bentes. 27 de outubro - A Justiça responsabiliza a União pela morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida nas dependências do DOI-CODI de São Paulo. 1979 15 de março - João Figueiredo assume a Presidênciada República como sucessor de Ernesto Geisel. Figueiredo segue com o conceito de redemocratização e abertura política do Brasil. 28 de agosto - É promulgada a Lei da Anistia (ampla, geral e irrestrita), que concede anistia a todos que cometeram crimes políticos e eleitorais entre as datas de 2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979. 66 27 de novembro - O bipartidarismo é extinto. A Aliança Renovadora Nacional (Arena) é rebatizada com o nome de Partido Democrático Social (PDS). O Movimento Democrático Brasileiro (MDB) se fragmenta em Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Brizola volta do exílio e oficializa a criação do Partido Democrático Trabalhista (PDT). 1980 10 de fevereiro - Dirigentes sindicais, esquerdistas e católicos ligados à Teologia da Libertação fundam o partido dos Trabalhadores (PT) durante seminário no Colégio Sion, em São Paulo. O PT fica na ilegalidade até 1983. 27 de agosto - Uma carta-bomba é detonada no Rio de Janeiro. Tinha como alvo o vereador Antônio Carlos Carvalho que escapou ileso. 28 de agosto - Carta-bomba explode, desta vez na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O alvo do atentado seria o presidente da instituição, Eduardo Seabra Fagundes. 6 de agosto - O general Golbery do Couto e Silva pediu demissão do Gabinete Civil da Presidência. Ele foi acusado pela imprensa como o principal articulador dos atentados. 13 de novembro - O Congresso Nacional aprova por unanimidade a emenda constitucional que restabelece as eleições diretas para governadores nos estados. 1981 25 de fevereiro - Luís Inácio Lula da Silva e outros sindicalistas vinculados ao Partido dos Trabalhadores (PT) são condenados a três anos de prisão por incitamento à desordem coletiva. 30 de abril - Ocorre o atentado do Riocentro, quando duas bombas explodem dentro de um carro durante a Festa do Trabalhador. O governo inicialmente culpa movimentos de esquerda pela ação. 1982 11 de fevereiro - O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concede registro definitivo ao Partido dos Trabalhadores (PT) por unanimidade de votos. 22 de março - Os candidatos ao governo de São Paulo, Franco Montoro (PMDB) e Reinaldo Barros (PDS), realizam o primeiro debate em TV após a queda da Lei Falcão. 22 de junho - Os padres franceses Aristides Camio e François Gouriou e posseiros de São Geraldo do Araguaia são condenados pela Lei de Segurança por não saírem das terras que eram utilizadas pelas antigas guerrilhas. 15 de novembro - São realizadas eleições diretas para governadores, senadores, prefeitos, deputados federais e estaduais. 13 de dezembro - São presos 91 membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB) por participarem do 7º Congresso da própria legenda, em São Paulo. 1983 2 de março - Recém-empossado, o deputado federal Dante de Oliveira apresenta a Proposta Emenda Constitucional (PEC) Nº 5 que visa mudar a Constituição de 1967 e garantir o voto direto para presidente. 22 de março - Tomam posse os 22 governadores eleitos diretamente após o Golpe de 1964. Em Pernambuco, Roberto Magalhães (PDS) assume o governo do estado junto com o seu vice, Gustavo Krause. 31 de março - Ocorre a primeira manifestação da campanha Diretas Já, que pedia votos diretos para presidente. Ela foi organizada por membros do PMDB no município de Abreu e Lima, em Pernambuco. 15 de junho - A segunda manifestação pelas Diretas Já foi realizada em Goiana. Cinco mil pessoas participaram do evento. 26 de junho - Três mil pessoas se reúnem em manifestação de apoio a iniciativa das Diretas Já em Teresina, no Piauí. 12 de agosto - Diversas cidades pernambucanas realizam comícios de apoio às Diretas Já pedindo a votação direta para presidente. 26 de novembro - Dez governadores da oposição (nove do PMDB e um do PDT) exigem ao governo federal que restabeleça as eleições diretas para presidente da República. Diante das manifestações pelas Direta Já, o presidente João Figueiredo anuncia a inflação de 239% e classifica os militantes do Direta Já como subversivos. 7 de dezembro - Governadores do PMDB e o governador Leonel Brizola (PDT) declaram apoio ao oposicionista Tancredo Neves (PMDB). 1984 5 de janeiro - Militantes de partidos políticos realizam a 7º passeata pedindo voto direto para presidente através do movimento Diretas Já. A manifestação aconteceu na cidade de Olinda, Pernambuco. 67 20 de janeiro - A Pastoral da Terra, marxistas e camponeses realizam em Cascavel (PR), o 1º Encontro Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e fundam o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). 25 de janeiro - 300 mil pessoas de diversos segmentos da população saem na rua apoiando as Diretas Já. Sobre a liderança do governador Tancredo Neves, a população sofre pressão por meio da repressão política. 27 de janeiro - 30 mil pessoas saem apoiando o movimento das Diretas Já nas ruas de Olinda, Pernambuco. 17 de fevereiro - 17 mil pessoas realizam uma passeata na capital pernambucana apoiando a iniciativa das Diretas Já. 24 de fevereiro - 400 mil pessoas participam da manifestação pelas Diretas Já em Belo Horizonte (MG). 21 de março - 200 mil pessoas realizam a segunda passeata da Candelária à Cinelândia pedindo as Diretas Já. 7 de abril - Em Petrolina, no Sertão pernambucano, 30 mil pessoas participam de mais um comício pedindo eleições diretas. 10 de abril - Em comício no Rio de Janeiro, a cantora Fafá de Belém consegue fazer com que o deputado Dante de Oliveira discurse durante o evento pelas Diretas Já para 1 milhão de pessoas. 16 de abril - Acontece o último grande comício das Direitas Já no Vale do Anhagabaú, em São Paulo. O evento reuniu 1,5 milhão de pessoas que caminharam com ponto de partida na Praça da Sé. 25 de abril - A emenda Dante de Oliveira é rejeitada pela Câmara Federal. Para a sua aprovação, seria preciso o voto de 320 deputados. Mas na prática, 298 votaram a favor, 65 contra, 3 abstenções e 116 ausências no plenário. 12 de agosto - O PMDB realiza convenção e escolhe o governador Tancredo Neves e o senador José Sarney (PFL) para concorrer como presidente e vice- presidente nas eleições indiretas de 1985. 1985 15 de janeiro - Tancredo Neves (PMDB) é eleito como o primeiro presidente civil do Brasil. A eleição foi indireta com 489 a favor e 180 contras. Tancredo teve como concorrente Paulo Maluf (PSD) que tinha o apoio de João Figueiredo. 14 de março - O presidente eleito Tancredo Neves (PMDB) é internado no Pronto-Socorro do Hospital de Base em Brasília. 15 de março - O vice-presidente José Sarney (PFL) toma posse na Presidência da República. 21 de abril - Morre o presidente eleito Tancredo Neves (PMDB) no Instituto do Coração em São Paulo. No laudo oficial, Tancredo foi vítima de uma diverticulite. 8 de maio - O Congresso Nacional aprova a Emenda Constitucional que estabelece as eleições diretas para presidente da República. LIGAS CAMPONESAS As Ligas Camponesas surgiram em 1946 e foram importantes defensores da reforma agrária no país antes da Ditadura Militar. O Partido Comunista do Brasil (PCB) iniciou um movimento rural ainda na vigência do regime autoritário de Getúlio Vargas, quando, no cenário internacional, ocorria a Segunda Guerra Mundial. Naquela ocasião o partido ainda existia legalmente e possuía articulação suficiente para criar Ligas Camponesas unindo trabalhadores rurais em várias cidades do Brasil. Assim, o PCB buscava aumentar seu número de eleitores e também revelar os interesses dessa classe de trabalhadores, podendo organização a luta por seus direitos. Mas, apesar da legalidade do partido, as ligas já sofriam com a repressão das autoridades. Com a queda do governo ditatorial de Getúlio Vargas e a eleição de Eurico Gaspar Dutra para presidente uma nova Constituição foi promulgada em 1946. Entre outras coisas, o Brasil alinhava-se com osEstados Unidos no contexto internacional da nascente Guerra Fria e se posicionava contra os socialistas da União Soviética. A nova postura do Estado colocou o PCB na ilegalidade. As Ligas Camponesas foram abafadas e só voltaram a agir em 1954 na cidade de Vitória de Santo Antão. Desta vez, os objetivos eram auxiliar os camponeses com despesas funerárias, prestar assistência e formar uma cooperativa de crédito. Essa liga em específico foi nomeada como Sociedade Agrícola e Pecuária de Plantadores de Pernambuco (SAPPP). Tão logo foi acusada de objetivos políticos socialistas, foi proibida de agir na região e atacada para ser dissolvida à força. Seus integrantes resistiram e encontraram apoio jurídico para institucionalizar a associação, atuando legalmente a partir de 1955. A SAPPP foi logo identificada como uma Liga Camponesa e, aos poucos, foi se espalhando pelo interior do estado de Pernambuco. Aumentava, assim, o coro pela reforma agrária. A ação da SAPPP conquistou muitos seguidores e militantes por todo o nordeste brasileiro, com direito a repercussão 68 nacional e internacional. O movimento foi rapidamente associado aos eventos que vinham ocorrendo na época em Cuba. As Ligas Camponesas foram importantes representantes dos interesses dos trabalhadores rurais, unindo grande parte deles e apresentando propostas para o futuro do país. Suas ideias reformistas, contudo, eram associadas ao temor socialista que os países opositores tinham na época. Na década de 1960 as tensões aumentaram no país e culminaram com o Golpe Militar de 1964. O novo regime promoveu intensa caça aos partidários ou simpatizantes dos movimentos identificados como de esquerda. Vários membros de Ligas Camponesas foram presos ou assassinados, juntamente com lideranças do PCB. 1. HERANÇA AFRODESCENDENTE A forma de colonização do Brasil criou condições para um mundo mestiço e plural em suas significações. Encontramos uma sociedade marcada pela diversidade de expressões culturais, com gestos de espontaneidade e próprio da sociedade brasileira. Mas isso é o reflexo da formação do nosso país e dos caminhos trilhados pelos séculos passados resultantes dos intensos contatos, encontros e desencontros entre povos. Pode-se afirmar que a partir de 1500, o que hoje se entende como território brasileiro passou por intensas ressignificações, em função das condições impostas e das lutas, negociações, acomodações geradas no descobrimento do Brasil pelos europeus. A aproximação de índios, portugueses e africanos estabeleceu recortes que foram muito além da necessidade da mão de obra e das relações de trabalho (escravidão) ou econômica (comércio) e forçaram milhões de pessoas a recomeçarem suas respectivas vidas em meio a condições muitas vezes adversas ou distantes de suas antigas realidades sociais. Foi o caso dos escravos, sujeitos que, muito longe de terem sido submissos ou coniventes com sua situação, dispuseram-se em inúmeras revoltas que colocaram o Estado português em cheque, revelando formas de resistências violentas e abruptas. Mas elas também se desenvolveram a partir da manutenção de valores e símbolos próprios de sua cultura nativa do além do mar, ou seja, despejaram na América práticas culturais e rituais africanos que, embora caracterizassem a necessidade dos cativos em preservar certas tradições, na prática esses contatos provocaram a mistura com valores indígenas e europeus, criando uma sociedade plenamente mestiça em sua origem, processo intensificado com o aumento na quantidade de europeus e africanos deslocados ao Brasil. Pernambuco juntamente com a Bahia e o Rio de Janeiro foram as principais regiões no tráfico de escravo, circuito comercial que permitiu o encontro de culturas tão distintas, mas que se reinventaram diante de suas situações regionais. Nelas, é possível sentir o fervor de africanos em suas diferentes etnias, como o nome de ruas e lugares, os formatos de construções arquitetônicas, costumes locais através de gírias ou práticas medicinais. O reflexo desses encontros culturais é percebido com atividades que hoje os brasileiros compram para si em função de suas características peculiares, como o caso do carnaval e seus cortejos alegóricos. As irmandades negras, comidas, vestimentas, formas de falar, andar, a cor da pele, tudo isso é fruto de valores culturalmente construídos e reformados ao longo dos anos. O século XIX passou como um período problemático ao ambiente criado no Brasil, onde a miscigenação era algo negativo, sobretudo o contato e reprodução com o negro, denegrindo o ser humano a partir de concepções como cor de pele ou origem social. Essa forma de situar os seres humanos ainda hoje tem seus reflexos negativos, com o índice de pobreza concentrado nos negros, além de variadas formas de preconceito presentes em nossa sociedade. Porém, como já percebia Gilberto Freyre, a presença de africanos foi positiva para a originalidade do povo brasileiro, com suas formas de viver, companheirismo e apreciação da vida. Sem dúvida, a herança afrodescendente do Brasil precisa ser mais valorizada, não apenas pelos aspectos culturais e valores facilmente identificados no nosso cotidiano, mas, sobretudo, valorizar as lutas contra a discriminação racial e colocar os mestiços e negros na posição em que eles nunca deveriam ser retirados: formadores do Brasil. NOVA REPÚBLICA – O BRASIL DE 1985 AOS DIAS ATUAIS Denomina-se Nova República ao período da História do Brasil de 1985 aos dias atuais, caracterizado pelo retorno dos civis à presidência da República, após 21 anos de governos militares. Em 15 de janeiro de 1985, através de eleições indiretas, o candidato da Aliança Democrática, Tancredo Neves, derrota o candidato do PDS, Paulo Maluf. O resultado final no Colégio Eleitoral de Brasília, de 480 votos contra 180, expressa a realidade brasileira do momento: Tancredo congrega em torno 69 de si grande parte das oposições ao desgastado regime militar. Assim, a Nova República, marcada pela consolidação da ordem liberal-democrática nos anos seguintes, não se inicia com as eleições diretas, mas com o retorno dos civis à presidência. Na véspera de sua posse, datada para 15 de março, Tancredo Neves adoece, vindo a falecer em 21 de abril, sem assumir a presidência. O país, consternado e em luto, assiste ao vice José Sarney tornar-se, subitamente, de mero coadjuvante a presidente da República, sem possuir em seu passado político o comprometimento com as conquistas democráticas exigido para o momento pela maioria da sociedade. As principais medidas e ocorrências da Nova República são vistas a seguir, divididas de acordo com os governos do período. APROFUNDAMENTO As pressões da direita militar e o combate à esquerda armada levaram à construção de uma máquina de repressão política feroz e serviram de pretexto para o endurecimento progressivo do regime autoritário inaugurado pelos golpistas em 1964 Os militares chegaram ao poder sem saber direito o que fazer. Alcançado o objetivo principal, que era afastar João Goulart e seus amigos, a prioridade dos golpistas passou a ser promover uma limpeza nas instituições, para expurgar comunistas e outros adversários de quartéis e repartições públicas e do Congresso. Quem começou a dar ordens foi o general Arthur da Costa e Silva. Chefe de um departamento inexpressivo e sem tropas, ele se autonomeou comandante-em-chefe do Exército no dia 1º de abril e assumiu a frente do Comando Supremo da Revolução, que também incluía um representante da Marinha e um da Aeronáutica. A junta baixou um ato institucional que deu aos militares poderes excepcionais para perseguir seus inimigos e convocou o Congresso Nacional a se reunir em dois dias para eleger um novo presidente que concluísse o mandato de Jango. PODERES EXCEPCIONAIS Atos institucionaisderam aos governos militares poderes para perseguir opositores AI-1 9 de abril de 1964 Convocou o Congresso a se reunir em dois dias para escolher o presidente da República, em eleição indireta. Deu ao novo presidente, durante 60 dias, poderes para cassar mandatos legislativos e suspender direitos políticos por dez anos. Durante seis meses, funcionários públicos e militares puderam ser demitidos, aposentados, reformados ou transferidos para a reserva por decreto, após investigação sumária. Nas duas primeiras semanas depois do golpe, a junta liderada por Costa e Silva cassou o mandato de 40 membros do Congresso Nacional, suspendendo seus direitos políticos por dez anos, e transferiu 146 militares para a reserva. Outras 87 pessoas tiveram direitos políticos suspensos nesses dias, incluindo Jango e o principal dirigente do PCB, Luís Carlos Prestes. O velho comunista encabeçou a primeira lista de punições, à frente do presidente deposto. O governador de Pernambuco, Miguel Arraes, principal aliado de Jango no Nordeste, foi deposto por tropas do Exército, que o levaram direto do palácio de governo para a prisão. Milhares de pessoas foram presas em todo o país, de acordo com as estimativas da época. No Recife, um veterano militante comunista, Gregório Bezerra, foi amarrado pelo pescoço, espancado por um coronel do Exército em praça pública e arrastado pelas ruas da cidade até a cadeia. Castello Branco, o oficial moderado que se juntara aos conspiradores semanas antes do golpe, logo se impôs como favorito para liderar a formação de um novo governo. Dono de grande prestígio nas Forças Armadas e fora dos quartéis, ele era visto como uma opção confiável, que garantiria uma rápida devolução do poder aos civis. Políticos que haviam incentivado o golpe, como Carlos Lacerda e o governador mineiro, Magalhães Pinto, chegaram rapidamente à conclusão de que esse era o caminho mais prudente a seguir. Castello foi eleito no Congresso no dia 11 de abril, com o apoio das principais lideranças políticas que haviam sobrevivido à primeira onda de cassações. O ex-presidente Juscelino Kubitschek, senador pelo PSD e favorito para as eleições presidenciais de 1965, votou a favor de Castello. O general se reunira com ele e outros caciques do PSD poucos dias antes, quando prometeu manter o calendário eleitoral e transmitir o cargo a quem vencesse as eleições. “Se 70 eu tivesse vetado seu nome, Castello não teria sido eleito”, afirmou Juscelino dez anos mais tarde, numa entrevista ao historiador americano John W. Foster Dulles. Para Castello, a legitimidade do novo regime dependia da manutenção de uma fachada democrática convincente, em que o Congresso e outras instituições continuassem funcionando. Mas muita gente continuava inquieta nos quartéis. Centenas de inquéritos foram abertos após o golpe, e os coronéis encarregados de conduzi-los achavam que o governo não se empenhava o suficiente para garantir que os inimigos do regime fossem punidos. Queriam que Castello fosse mais duro. O comportamento do presidente era ambíguo. Em junho de 1964, Castello cedeu à linha dura cassando o mandato de Juscelino, que logo se tornou alvo de um dos inquéritos. Em abril de 1965, após ficar um ano preso na ilha de Fernando de Noronha, o ex-governador Miguel Arraes conseguiu um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal para ser solto e embarcou para o exílio na Argélia. Os coronéis tentaram impedir sua libertação, mas Castello interveio para que a decisão fosse cumprida. PODERES EXCEPCIONAIS Atos institucionais deram aos governos militares poderes para perseguir opositores AI-2 27 de outubro de 1965 Instituiu as eleições indiretas para presidente, cancelando as eleições diretas previstas para 1966 Extinguiu os partidos políticos existentes, autorizando a criação de dois novos, Arena (Aliança Renovadora Nacional) e MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Deu ao presidente o poder de fechar o Congresso, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais Restabeleceu temporariamente poderes para o presidente aplicar punições a funcionários, cassar mandatos parlamentares e suspender direitos políticos O resultado das eleições estaduais de 1965, em que os candidatos do governo foram derrotados na Guanabara e em Minas Gerais, aumentou as pressões da linha dura e levou Castello a promover uma guinada. Com o Ato Institucional nº 2, o general extinguiu os 13 partidos políticos existentes, cancelou as eleições diretas para presidente e abriu nova temporada de perseguições, restabelecendo os poderes que o primeiro ato institucional lhe dera em caráter temporário. Castello não só rompeu os compromissos que assumira depois do golpe como aproveitou o embalo para erguer alguns dos pilares que sustentaram a feição mais autoritária do regime nos anos seguintes, fazendo o Congresso aprovar em pouco tempo uma nova Constituição, a Lei de Imprensa e a Lei de Segurança Nacional. “VIVAMENTE APLAUDIDO” Veja como a eleição de Costa e Silva foi noticiada pelo governo na época Fonte: Arquivo Nacional O cancelamento das eleições presidenciais fez aliados de primeira hora se afastarem. Castello ainda despachava no Palácio do Planalto quando Lacerda começou a articular uma frente de oposição com seus dois antigos adversários, Juscelino e Jango. A iniciativa deu em nada, mas mostrou o tamanho do descontentamento que a guinada autoritária provocara. A linha dura colheu outra vitória logo depois, quando chegou a hora de escolher o sucessor de Castello e Costa e Silva, que se tornara seu ministro da Guerra, conseguiu impor seu nome. Castello morreu num acidente aéreo três meses após a posse do novo presidente. Muitas pessoas hoje olham com simpatia o período em que ele governou, ao compará- lo com fases mais repressivas do regime militar. Mas no fim de seu mandato os resultados de seu governo eram considerados decepcionantes. GOVERNOS DE PERNAMBUCO (2001-2015) Jarbas de Andrade Vasconcelos, Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) Jarbas Vasconcelos 1º de janeiro de 2003 31 de março de 2006 Governador reeleito em 2002, renunciou para disputar mandato eletivo. Com Miguel Arraes de novo em evidência, as alianças políticas de Jarbas Vasconcelos se voltam para seus antigos adversários pefelistas, formando uma coligação partidária entre o PMDB e o PFL, chamada de "União por Pernambuco". A nova coligação o consultar sobre uma possível candidatura ao governo do estado em 1994, porém o mesmo decide permanecer no cargo de prefeito. Nessa eleição a "União por Pernambuco" lança o ex- governador e deputado federal Gustavo Krause que disputou a eleição pelo PFL, que perde a eleição para o ex-governador e deputado federal Miguel Arraes. 71 Ciente quanto a necessidade de alterar os rumos do jogo político apoia a candidatura do também pefelista Roberto Magalhães à sua sucessão na prefeitura e assim mantém uma aliança com o então PFL (hoje DEM) nas eleições para o governo do estado tanto em 1998 (impedindo a reeleição de Arraes) quanto em 2002 (nesse ano chegou a ser cotado como candidato a vice-presidente na chapa de José Serra, convite do qual declinou). Disputa a reeleição em 2002 vencendo com mais de 60% dos votos. Após sete anos no comando do estado renunciou ao mandato em 31 de março de 2006 para disputar, com sucesso, uma cadeira no Senado Federal. Jarbas Vasconcelos passou o governo para Mendonça Filho que perdeu a reeleição para o então deputado federal Eduardo Campos no 2 turno. Esse fato, bem como a perda da Prefeitura do Recife após as eleições do ano 2000 e a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em outubro de 2006, colocou o grupo político de Jarbas Vasconcelos na oposição aos dirigentes de Recife, do estado de Pernambuco e também em relação à Presidência da República. José Mendonça Bezerra Filho Democratas (DEM) Mendonça Filho31 de março de 2006 1º de janeiro de 2007 Vice-governador, concluiu o mandato Entre os projetos criados na gestão Mendonça Filho estão o Universidade Democrática, que garantiu gratuitamente o acesso de jovens da rede pública estadual à Universidade de Pernambuco, o Jovem Campeão, com construção de quadras poliesportivas nas escolas da rede estadual e o Ação Integrada pela Segurança, para promover a juventude, estimular a cidadania e aumentar a segurança no Estado com um conjunto de ações de prevenção e repressão policial. Disputou a reeleição em 2006, vencendo o 1 turno com quase 40% dos votos, porém, perde o 2 turno com a união dos opositores. Eduardo Henrique Accioly Campos Partido Socialista Brasileiro (PSB) Eduardo Campos 1º de janeiro de 2007 1º de janeiro de 2011 Governador eleito Em 2006, lançou-se candidato ao governo do estado de Pernambuco, tendo como coordenadores o ex-deputado estadual José Marcos de Lima, também ex-prefeito de São José do Egito. Também contou com o apoio de importantes lideranças do interior do estado, como o deputado federal Inocêncio Oliveira e o então prefeito de Petrolina, Fernando Bezerra Coelho. O primeiro turno apresentou um fato curioso: o presidente Lula manifestou apoio para dois candidatos à sucessão estadual: Eduardo Campos, do PSB, e Humberto Costa, do PT. Tal posicionamento foi encarado pelos críticos políticos como uma estratégia dos partidos de esquerda do estado para quebrar a hegemonia do ex-governador Jarbas Vasconcelos (PMDB), que apoiava a reeleição de Mendonça Filho PFL, governador que assumiu o poder após Jarbas renunciar em abril de 2006, para disputar uma vaga de senador, visando a levar as eleições estaduais para o segundo turno. Lula e Hugo Chávez visitam o canteiro de obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, acompanhados do governador Eduardo Campos. Eduardo Campos iniciou a campanha eleitoral, de acordo com as pesquisas eleitorais, na terceira colocação. Mas a coligação que apoiava Mendonça Filho utilizou extensivamente denúncias de corrupção que pesavam sob o candidato Humberto Costa quando ocupou o cargo de Ministro da Saúde, no governo Lula. Os aliados de Mendonça Filho e Jarbas Vasconcelos acreditavam que os votos dos potenciais eleitores de Humberto poderiam migrar naturalmente para Mendonça. Afirmavam que, mesmo as eleições sendo levadas para um segundo turno, o candidato Eduardo Campos seria um alvo mais fácil para ser atacado na campanha por causa do seu envolvimento, como secretário da Fazenda, nas operações dos precatórios no último governo de Miguel Arraes, porém ele e o governo do avô foram inocentados sobre o caso na justiça, em última instância. Humberto Costa, que saiu da campanha do primeiro turno na terceira colocação, manifestou de imediato apoio a Eduardo Campos. O candidato do PSB conseguiu aglutinar em seu palanque quase todas as forças sociais e partidos opositores a Mendonça Filho e Jarbas Vasconcelos. O governador candidato à reeleição, Mendonça Filho, não conseguiu se eleger e Eduardo Campos foi eleito com mais de 60% dos votos válidos para governador no segundo turno. Reeleição 72 Com o governo bem avaliado e a popularidade em alta, Eduardo Campos concorreu à reeleição em 2010. Assim como em 2007, contou com o apoio do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Campos foi reeleito, desta vez como o governador mais bem votado do Brasil: mais de 80% dos votos válidos no primeiro turno, derrotando o senador Jarbas Vasconcelos. A gestão de Eduardo Campos Eduardo Campos ocupou o Governo de Pernambuco durante sete anos (2007–2014). Na primeira gestão, destacam-se projetos e obras estruturadoras do governo Federal como a ferrovia Transnordestina, a Refinaria de Petróleo Abreu e Lima, a fábrica de hemoderivados Hemobrás e a recuperação da BR-101. Eduardo durante o lançamento do Forma SUS. O socialista colocou as contas públicas na internet com o Portal da Transparência do Estado, considerado pela ONG Transparência Brasil o segundo melhor do país, entre os vinte e seis estados da federação e o Distrito Federal. O estado de Pernambuco cresceu acima da média nacional (3,5% em 2009) e os investimentos foram de mais de R$ 2,4 bilhões em 2009, contra média histórica de R$ 600 milhões/ano. A administração foi premiada pelo Movimento Brasil Competitivo. Na segurança pública, houve redução dos índices de violência com a implantação do programa Pacto pela Vida. O número de homicídios no estado sofreu uma queda 39,10% desde o início do programa. Além disso, 88 municípios pernambucanos chegaram a uma taxa de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) menor que a média nacional, que é de 27,1 por 100 mil habitantes. A redução também ocorreu com crimes como roubos e furtos. Entre 2007 e 2013, houve uma diminuição de 30,3% neste tipo de delito no estado. Esse prêmio é um reconhecimento muito especial, porque é o maior prêmio de gestão pública do mundo. Vamos recebê-lo com muita alegria em nome de tantos, que no anonimato, diariamente nos ajudam no Pacto Pela Vida. Estamos no caminho certo para transformar Pernambuco no lugar mais seguro do País —Sobre o prêmio conquistado pelo Pacto pela Vida Em 2013, Eduardo anunciou o rompimento com o governo Dilma, saindo da base aliada junto com seus correligionários, orientando-os a entregarem os cargos de confiança nos vários escalões. Entre os motivos do rompimento, Campos apontou a manutenção da aliança do governo Dilma com setores políticos tradicionais, entre os quais, com o PMDB. Aproximou-se de Marina Silva e a acolheu, com seus aliados, no PSB, chamando o novo movimento de "Nova Política". Este rompimento provocou uma rachadura entre a PSB e os aliados à presidente Dilma Rousseff do PSB do Ceará, com seu líder Ciro Gomes. Saúde Eduardo discursa na inauguração do bloco anexo do Hospital do Câncer de Pernambuco. Foram construídos três novos hospitais na Região Metropolitana do Recife (RMR) e 14 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), além da expansão do número de leitos de UTI e UCI. Entre 2006 e 2013, Pernambuco se firmou como o estado nordestino com o maior ganho de anos na expectativa de vida (3,72 anos), superando a média da região. Houve também redução de 9,6% na taxa de mortalidade por causas evitáveis. Em 2011, Pernambuco alcançou a média nacional em relação à mortalidade infantil, reduzindo em 47,5% o seu coeficiente. Educação Entre 2007 e 2011, Pernambuco registrou um crescimento de 14,8% no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica – IDEB. O número é mais de duas vezes superior à média nacional de 6,2%. Os alunos das escolas técnicas pernambucanas apresentaram um desempenho médio 47% superior em relação aos estudantes de outras partes do Brasil, como São Paulo e Santa Catarina, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP). Pernambuco tem hoje a maior rede de escolas de referência do Brasil, com 260 unidades. De acordo com pesquisa do INEP, somente em 2012 mais de 85 mil alunos foram matriculados – o que corresponde a 10 vezes mais que a média nacional de 8 509. Em 2013, foram 163 mil alunos matriculados. A educação profissional foi ampliada e atualmente 26 escolas técnicas estão em funcionamento no estado. O Programa Ganhe o Mundo levou mais de 2 270 alunos para intercâmbio em países como Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, Chile, Argentina e Espanha. Emprego 73 Entre 2007 e 2013, foram gerados 560 mil empregos formais, sendo 150 mil apenas no interior do estado – o que representa uma expansão de 48% no mercado formal de Pernambuco. O governo também atraiu mais de R$ 78 bilhões de investimentos privados. Empresas como Sadia (Vitória de Santo Antão), Perdigão (Bom Conselho), Novartis (Goiana), Kraft Foods (Vitória de Santo Antão) e Fiat Chrysler (Goiana) se instalaram no estado. Eleiçãopresidencial em 2014 Ver artigo principal: Eleição presidencial no Brasil em 2014 Campos e Marina Silva, em 2013. Nota oficial de pêsames da morte de Campos, emitida pelo Governo do Piauí. Oficialmente confirmada como pré-candidata à reeleição, Dilma Rousseff teve inicialmente entre seus principais adversários Eduardo Campos e o senador do PSDB por Minas Gerais, Aécio Neves. Aécio Neves depois confirmou a sua candidatura pelo PSDB, tendo como vice o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP). Em outubro de 2013, o então governador Eduardo Campos anunciou a aliança programática com a Rede Sustentabilidade, liderada por Marina Silva, cujo pedido de registro do novo partido havia sido negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A aliança foi formalizada em 4 de fevereiro de 2014, no evento que lançou as bases para elaboração do programa de governo do PSB-Rede. Na mesma data, o Partido Popular Socialista (PPS), através do deputado federal Roberto Freire, formalizou a entrada do partido na aliança. As diretrizes para elaboração do programa de governo foram: Estado e democracia de alta densidade; Economia para o desenvolvimento sustentável; Educação, cultura e inovação; Políticas sociais e qualidade de vida e Novo urbanismo e o pacto pela vida. Eduardo Campos anunciou, em 14 de abril de 2014, em um evento realizado em Brasília, a pré- candidatura à Presidência do Brasil, tendo como vice a líder da Rede Sustentabilidade, Marina Silva. Após a morte de Eduardo Campos, Marina Silva assumiu a candidatura à presidência em seu lugar e Beto Albuquerque foi apontado como seu vice. João Soares Lyra Neto Partido Socialista Brasileiro (PSB) João Soares Lyra Neto 3 de abril de 2014 1º de janeiro de 2015 Vice-governador, concluiu o mandato Sua trajetória política teve início em 1988, quando, seguindo os passos do pai, João Lyra Filho, foi eleito prefeito de Caruaru, cargo que voltou a assumir em 1997, para um segundo mandato. Foi líder do governo Miguel Arraes na Assembleia Legislativa durante seu mandato de deputado estadual. Ao lado de Eduardo Campos, foi eleito vice- governador em 2006. Em 2008, assumiu a Secretaria de Saúde. Comandou o processo de mudança de gestão da pasta em Pernambuco, cuidando particularmente da regionalização da Saúde. João Lyra também coordenou duas outras áreas, Segurança e Educação. Após a renúncia de Campos, em abril de 2014 para concorrer a presidência da república, João Lyra assumiu o comando do estado. Paulo Henrique Saraiva Câmara Partido Socialista Brasileiro (PSB) Paulo Câmara eleição 2014 1º de janeiro de 2015 em exercício Governador eleito Carreira profissional Paulo Câmara sempre foi servidor público. Aos 20 anos foi escriturário concursado do Banco do Brasil, em Ribeirão, na Zona da Mata. Em 1995, foi para o Tribunal de Contas do Estado, onde exerceu o cargo de auditor das contas públicas também teve a oportunidade de passar pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco (2003), pela Câmara de Vereadores do Recife (2005) e, a partir de 2007, fez parte da gestão do governador Eduardo Campos. Governo de Pernambuco Secretaria de Administração Em 2007, Paulo Câmara assumiu a Secretaria de Administração do Estado (SAD). Em sua gestão à frente da SAD, destaque para os benefícios direcionados para os Servidores do Governo. Dentre 74 outras ações, Paulo Câmara instituiu o Calendário Semestral de Pagamento dos Servidores, a recuperação das perdas salariais dos servidores, com reajustes expressivos para todas as categorias e com ganhos reais acima da inflação e a construção do Centro de Formação do Servidor. Em 2008, a secretaria criou o Curso Superior Sequencial de Formação Específica em Administração Pública. Trata-se de uma graduação exclusiva para servidores estaduais, ministrada pela Faculdade de Ciências e Administração da UPE, através da Escola de Governo de Pernambuco, com o objetivo de formar gestores públicos. Secretaria de Turismo Em 2010, Paulo Câmara assumiu a pasta de Turismo. Durante a sua gestão, desenvolveu alguns projetos focados na especialização dos serviços oferecidos aos turistas, entre eles o programa "Taxista Amigo do Turista", que promovia qualificação em inglês e espanhol para os profissionais. Na sua gestão, também foram realizadas obras de infraestrutura, como o acesso às praias dos Litorais Sul e Norte, e a ampliação do sistema de abastecimento de água e tratamento de esgoto sanitário da Praia dos Carneiros e da cidade de Rio Formoso, no Litoral Sul do Estado. Secretaria da Fazenda de Pernambuco Paulo Câmara assumiu a secretaria da Fazenda em 2011. Entre as ações desenvolvidas, destaque para a criação do Fundo Estadual dos Municípios, o FEM, que viabilizou R$ 228 milhões a prefeituras de Pernambuco em 2013. Eleição ao governo de Pernambuco Ver artigo principal: Eleições estaduais em Pernambuco em 2014 Paulo Câmara com Leda Nagle à sua direita e a primeira-dama de Pernambuco, juíza Ana Luiza Câmara, à sua esquerda, entre outras personalidades durante a Fliporto 2014 em Olinda. Naquela eleição Paulo Câmara era estreante na política, filiado ao PSB desde outubro de 2013. Foi indicado para concorrer à sucessão estadual, que tinha como integrantes da chapa o deputado federal Raul Henry do PMDB como vice e o ex-ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho do PSB para concorrer ao Senado. Naquele ano foi o candidato a governador mais bem-votado do país, ele obteve 68% dos votos em Pernambuco deixando para trás o então candidato do PTB Armando Monteiro, que ficou com um pouco mais de 31% dos votos válidos. Foi eleito governador de Pernambuco no primeiro turno, com mais de 3.000.000 votos. Carregava o peso de dar continuidade ao governo de seu padrinho político, Eduardo Campos, ex- governador do estado e candidato a presidência do Brasil, que morreu em um acidente aéreo em 13 de agosto de 2014 no meio da disputa eleitoral daquele ano. Aliado à comoção que tomou o Estado na tragédia que matou Campos, o forte palanque composto de 21 partidos resultou na vitória de Marina Silva em Pernambuco. Terceira colocada na disputa ao Planalto, ela obteve 48% dos votos no Estado. Em 8 de outubro de 2014, o PSB anunciou seu apoio ao candidato Aécio Neves (PSDB) no segundo turno da corrida à Presidência. Contudo o tucano obteve uma votação pouco maior que a de José Serra nas eleições de 2010; Dilma venceu com 70,20% dos votos válidos no estado, contra 29,80% do mineiro - uma diferença de quase dois milhões de votos. Câmara e seu partido decidiram adotar uma postura independente em relação ao governo federal, com vetos a qualquer possibilidade de integrantes da legenda ocuparem cargos durante o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Governador de Pernambuco Paulo Câmara foi empossado no cargo de governador em 1º de janeiro de 2015. Em 2016 enquanto estava a frente do executivo estadual entrou em uma polêmica ao nomear os filhos do ex-governador Eduardo Campos, a cargos na prefeitura e governo do estado. João Campos, que tinha então 22 anos foi indicado como chefe de Gabinete do governador, a mesma função que o pai ocupou no segundo governo de Miguel Arraes (1987-1990). A classe artística do estado organizou protestos contra a indicação, afirmando que Paulo Câmara estava reproduzindo os "padrões antigos da política Nordestina". 75 EXERCITANDO... 1. Quais as características dominantes da economia colonial brasileira? a) propriedade latifundiária, trabalho indígena e produção monocultura; b) propriedades diversificadas, exportação de matérias-primas e trabalho servil; c) monopólio comercial, latifúndio e trabalho escravo de índios e negros; d) pequenas vilas mercantis, monocultura de exportação e trabalho servil; e) propriedade minifundiária, colônias agrícolas e trabalho escravo. 2. A divisãodo Brasil em capitanias hereditárias não seria apenas a primeira tentativa oficial de colonização portuguesa na América, mas também a primeira vez que europeus transportaram um modelo civilizatório para o Novo Mundo. A esse respeito é correto afirmar que: a) o modelo implantado era totalmente desconhecido dos portugueses e cada donataria tinha reduzidas dimensões. b) representava uma experiência feudal em terras americanas, sem nenhum componente econômico mercantilista. c) atraiu sobretudo a alta nobreza pelas possibilidades de lucros rápidos. d) a Coroa, com sérias dívidas, transferia para os particulares as despesas da colonização, temendo perder a colônia para os estrangeiros que ameaçavam nosso litoral. e) o sistema de capitanias fracassou e não deixou como conseqüências a questão fundiária e a estrutura social excludente. 3. A respeito da Independência do Brasil, pode-se afirmar que: a) consubstanciou os ideais propostos na Confederação do Equador; b) instituiu a Monarquia como forma de governo, a partir de amplo apoio popular; c) propôs, a partir das idéias liberais das elites políticas, a extinção do tráfico de escravos, contrariando os interesses da Inglaterra; d) provocou, a partir da constituição de 1824, profundas transformações nas estruturas econômicas e sociais do país; e) implicou a adoção da forma monárquica de governo e preservou os interesses básicos dos proprietários de terras e de escravos. 4. A respeito da independência do Brasil, é valido concluir que: a) as camadas senhoriais, defensoras do Liberalismo Político, pretendiam não apenas a emancipação política, mas a alteração das estruturas econômicas. b) o liberalismo defendido pela aristocracia rural apoiava a emancipação dos escravos. c) a independência brasileira se caracterizou por ter sido um processo revolucionário com participação popular. d) a independência brasileira foi um arranjo político que preservou a monarquia como forma de gover-no e também os privilégios da classe proprietária. e) a independência brasileira resultou do receio de D. Pedro I de perder o poder, aliado ao seu espírito de brasilidade. A independência do Brasil, cuja data oficial é 7 de setembro, constitui tema de profundas controvérsias. A hipótese mais expressiva é a de a independência estar no futuro, e não no passado. (Carlos Guilherme Mota) 5. O ano de 1848 assistiu a várias revoluções na Europa como, por exemplo, na França e na Itália. O espírito "quarenta e oito", como se chamou este período, também atingiu o Brasil e, particularmente, Pernambuco. Esta questão diz respeito à Revolução Praieira. ( ) A concentração da propriedade fundiária e o monopólio do comércio a retalho pelos portugueses foram fatores que provocaram a Revolução Praieira. ( ) O Partido da Praia, integrado por liberais pernambucanos, tinha no jornal o DIÁRIO NOVO um instrumento de veiculação de suas idéias políticas. ( ) Joaquim Nabuco, líder abolicionista, logo se tornou um correligionário do jornalista praieiro Borges da Fonseca. ( ) Os revolucionários praieiros pretendiam que o Governo interviesse nos fenômenos de produção, distribuição e comércio. ( ) Os revolucionários de Pernambuco lançaram um "Manifesto ao Mundo" esclarecendo suas posições no que diz respeito ao voto universal do povo brasileiro, ao trabalho como garantia de vida para o cidadão brasileiro, ao comércio de retalhos, à reforma do poder judicial dentre outras. 6. Na manhã de 13 de fevereiro de 1825, na porta da Igreja do Pátio do Terço, em Recife, Frei Caneca foi despojado de suas ordens e executado. Considera(m)-se atividade(s) revolucionária(s) do Frei: 76 ( ) jornalista, redator de O DIÁRIO NOVO jornal praieiro, responsável pela agitação intelectual da Revolução de 1848 em Pernambuco; ( ) Frei Caneca participou da revolução de 1817 cujo ideário republicano era semelhante ao da Revolução de 1824; ( ) Frei Caneca dirigiu, durante o Primeiro Reinado, um período revolucionário intitulado "Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco"; ( ) Frei Caneca insurge-se contra a Constituição Outorgada, logo após a dissolução da Constituinte em 1823; ( ) Dirigiu e foi redator principal do jornal O TÍFIS Pernambucano que combatia o absolutismo do Imperador Pedro I e incitava à rebelião. 7. Após a Revolução Praieira de 1848 em Pernambuco, o reinado de D. Pedro II foi marcado por uma paz que se prolongou por algumas décadas. Todas as alternativas apresentam afirmações corretas sobre o segundo Império no Brasil, EXCETO: a) A Conciliação, ao amenizar as lutas partidárias, funcionou como fator importante na contenção da idéia republicana. b) D. Pedro II impôs-se como imperador não tanto por sua seriedade e moral impecáveis, mas pelo fato de a elite latifundiária e escravista considerar a Monarquia como poderoso fator de estabilidade. c) O Brasil permaneceu isolado do resto da América, não só na forma de governo, mas também economicamente, ao desprezar os países latino- americanos e ao permanecer voltado para o Atlântico. d) O crescimento da produção cafeeira e a Era Mauá dinamizaram a economia nacional, a qual criou bases internas sólidas e deixou de depender do mercado externo. e) O fortalecimento do governo central garantiu a repressão às idéias republicanas da esquerda liberal no período das Regências. 8. O golpe político-militar de 1964 acarretou transformações na economia brasileira originadas das mudanças nas relações de trabalho, das novas necessidades do desenvolvimento capitalista no país e das mudanças na conjuntura internacional. Todas as alternativas apresentam indicadores corretos das transformações na economia brasileira pós-64, EXCETO: a) A abertura do país às empresas multinacionais a partir da abolição das restrições à remessa de lucros para o exterior. b) A adoção de uma nova política salarial e a implantação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) substituindo o sistema de estabilidade no emprego. c) A consolidação do setor industrial nacional através da elevação dos salários urbanos e do aumento da oferta e do consumo de bens não duráveis. d) A elevação do volume de impostos e a conseqüente falência de um grande número de pequenas e médias empresas. e) A expansão da indústria petroquímica, siderúrgica e do alumínio, realizada sob o patrocínio do Estado, com a participação de conglomerados nacionais e estrangeiros. 9. A reforma partidária, que implantou o pluripartidarismo no Brasil, no governo Figueiredo, tinha por objetivo a) consolidar os resultados das eleições de 1974 que deram ampla vitória ao partido do governo, o PDS. b) levar os liberais, concentrados no PP, para engrossar as fileiras do PRS e fortalecer o apoio ao governo. c) quebrar o monopólio que o MDB exercia na oposição fragmentando-o em inúmeros partidos e evitando a sua ascensão ao poder. d) revigorar o PDT para que esse pudesse enfrentar o PT nas eleições majoritárias. e) utilizar os antigos militantes da UDN nos quadros da ARENA para que essa, fundindo-se com o PDS, vencesse as eleições para governadores. 10. A base da economia brasileira durante a Primeira República foi o café e isto se deveu: a) À mudança de regime político, à liberdade de ação dada aos proprietários pela Constituição e aos assalariados italianos; b) Ao incentivo dado aos plantadores de café, á aceitação do nosso produto pela Inglaterra e à libertação dos escravos; c) À decadência da industrialização, à Guerra de Secessão dos Estados Unidos e à decadência da mineração; d) À qualidade das terras, ao clima favorável, à imigração européia e à aceitação do nosso produto no mercado externo. e) n.d.a. 11. Sobre a Revolução Pernambucana de 1817, é INCORRETO afirmar que a) os diversos grupos sociais envolvidos na revolta tinham como consenso o objetivo de proclamar a república. b) o movimento se inspirou na luta pela implantaçãode ideais democráticos no Estado Polonês, a qual se solidificou com a carta constitucional polonesa, que ficou conhecida como “A Polaca”. 77 c) os rebeldes, que tomaram o poder em Pernambuco, construíram um governo provisório, que decidiu extinguir alguns impostos e elaborar uma constituição, decretando a liberdade religiosa e de imprensa e a igualdade para todos, exceto para os escravos. d) apesar de ter fracassado, a Revolução Pernambucana foi o movimento mais importante de todos os outros precursores da independência, porque ultrapassou a fase de conspiração, e os revoltosos chegaram ao poder. e) tropas reais, enviadas por mar e terra, ocuparam a capital de Pernambuco, desencadeando intensa repressão. Os principais líderes foram presos e sumariamente executados. 12. Em 1888, o Brasil aboliu a escravidão em todo o território nacional. Foi um dos últimos países a libertar os escravos. Sobre a libertação dos escravos, analise as proposições abaixo. I. A abolição de quase 800 mil escravos foi fundamental para a modernização da economia brasileira, embora a modernização tenha demandado algum tempo para começar. II. Os escravos tiveram grandes dificuldades para se incorporarem ao mercado de trabalho livre. Muitos deles continuaram com seus antigos senhores. III. Do ponto de vista jurídico, os escravos libertos passaram a ser considerados cidadãos com todos os direitos concedidos pela constituição. IV. A escravidão institucionalizada foi rompida, porém muitas das relações da época do escravismo se mantiveram. O preconceito contra o trabalho, sobretudo o manual, foi um dos vestígios mais marcantes do tempo da escravidão. Está CORRETO o que se afirma em a) I, II e III, apenas. b) I e IV, apenas. c) I, III e IV, apenas. d) II, III e IV, apenas. e) I, II, III e IV. 13. Sobre a Revolução Pernambucana de 1817, considere as afirmativas a seguir. I. Tinha como objetivo proclamar uma República e abolir, imediatamente, a escravidão no Nordeste. II. Foi organizada, conforme os ideais da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, que inspiravam a Revolução Francesa. III. Teve como principais causas o aumento dos impostos, a grande seca de 1816, que provocou muita fome no Nordeste, e a crise da agricultura, afetando a produção do açúcar e do algodão. IV. Foi a única rebelião anterior à independência política do Brasil que ultrapassou a fase da conspiração. Os rebeldes tomaram o poder e permaneceram no governo por mais de 70 dias. Assinale a alternativa que contém as afirmativas corretas. a) Somente I, II e III. b) Somente I, II e IV. c) Somente I, III e IV. d) Somente II, III e IV. e) I, II, III e IV. 14. Em 1964, os militares tomaram o poder e implantaram uma ditadura no Brasil. Durante os governos militares, podemos constatar: I. Os golpistas procuraram definir esse assalto à democracia como uma revolução; II. O golpe militar de 1964 representou a culminância do processo de crise do populismo, iniciado com a renúncia de Jânio Quadros em 1961; III. Uma das características dos governos militares foi o autoritarismo, visto que membros do governo não se mostravam dispostos a dialogar com os diversos setores da sociedade; IV. Tortura, prisão e expulsão do país foram instrumentos utilizados pelos governos militares contra alguns cidadãos, para manterem seu poder inabalado. Os itens corretos são a) somente I, III e IV. b) somente II, III e IV. c) somente I, II e IV. d) somente I, II e III. e) I, II, III e IV. 15. A abolição da escravidão no Brasil foi instituída com a Lei Áurea, em 1888. A respeito dos embates políticos e sociais das últimas décadas anteriores à abolição, pode-se afirmar que a) por pressão da Inglaterra a Lei Eusébio de Queirós, de 1850, proibiu o tráfico negreiro. b) o café e o ouro tornaram-se os principais produtos de exportação do Brasil. c) a Lei Rio Branco defendia os direitos dos escravos incapacitados para o trabalho. d) a Lei Saraiva-Cotegipe ao ser implantada ameaçou o sistema escravista. e) a primeira província a libertar, por conta própria, seus escravos foi a Paraíba. 78 16. A denominação de “Costa do Pau-Brasil”, dada ao trecho do litoral brasileiro compreendido entre o Cabo de São Roque e Cabo Frio, demonstra a importância que a exploração dessa madeira tintorial desempenhou durante o chamado Período Pré-Colonizador. Sobre este período são corretas as afirmações abaixo, Com exceção de uma: A) O estabelecimento do escambo entre nativos e portugueses, a utilização do trabalho indígena nas tarefas de corte e transporte do pau-brasil. B) A ocupação esparsa do litoral brasileiro, restrita à construção de feitorias, possibilitando a presença de contrabandistas estrangeiros. C) A devastação dos recursos naturais e a consequente eliminação das populações nativas que ocupavam as áreas de ocorrência do pau-brasil. D) O papel secundário da nova colônia no conjunto do circuito mercantil controlado pelos portugueses. E) O estabelecimento de contratos de arrendamento da exploração do pau-brasil entre o rei e comerciantes portugueses, garantindo-lhes o monopólio. 17. Nas primeiras décadas posteriores ao descobrimento, até a de 1530, as atividades portuguesas no Brasil se caracterizaram principalmente por: A) estabelecimento de um sistema de produção agroexportador. B) extração de especiarias. C) instalação de um aparelho burocrático destinado a organizar a administração da colônia. D) realização de expedições para o conhecimento do litoral e combate ao contrabando. E) entrega da colonização à iniciativa particular, através da divisão do território em capitanias. 18. No período colonial, o Foral constituía-se em um documento que estabelecia: A) o número mínimo de escravos negros necessários para a instalação de um engenho de açúcar. B) a obrigatoriedade de os bandeirantes oferecerem índios cativos para o trabalho de mineração. C) os direitos e os deveres dos donatários, os quais atuavam como administradores reais. D) o compromisso de as ordens religiosas defenderem os interesses da Coroa portuguesa. E) o princípio do “utipossidetis”, o qual consagrou a superfície aproximada do Brasil atual. 19. A colonização do Brasil se fez sob forte impulso da economia europeia, então em ritmo acelerado de expansão. Sob esse prisma, a economia açucareira: A) permitiu o início da ocupação efetiva do Brasil e gerou lucros para a metrópole, que passou a colocar o produto brasileiro em larga escala nos mercados europeus; B) veio retardar o desenvolvimento da economia portuguesa interessada exclusivamente no comercio proveniente das feitorias asiáticas; C) foi um momento inicial da exploração colonial, logo abandonado pela mineração aurífera descoberta no sertão centro-sul do Brasil; D) nunca rendeu a Portugal o que a metrópole desejava, por ter sido o litoral brasileiro invadido por holandeses durante grande parte do período colonial; E) iniciou-se no Sul criando uma sociedade baseada em duas classes. 20. O sistema de Capitanias Hereditárias, estabelecido no Brasil por D. João III, teve por finalidade principal A) favorecer a nobreza portuguesa, limitando o crescimento da burguesia, uma vez descoberto o caminho das Índias. B) povoar o litoral em toda a sua extensão, utilizando a iniciativa privada, para assegurar a posse do território brasileiro contra estrangeiros. C) incentivar o desenvolvimento da lavoura algodoeira, em virtude dos altos preços do produto no mercado europeu. D) utilizar a costa brasileira como entreposto e centro de abastecimento das expedições que se encaminhavam à África em busca de especiarias. E) povoar a faixa litorânea e o interior do território, podendo assim desenvolver povoados além da linha de Tordesilhas. 21. A divisão do Brasil em capitanias hereditárias não seria apenas a primeira tentativa oficial de colonização portuguesa naAmérica, mas também a primeira vez que europeus transportaram um modelo civilizatório para o Novo Mundo. A esse respeito, é correto afirmar que: A) o modelo implantado era totalmente desconhecido dos portugueses e cada donataria tinha reduzidas dimensões. B) representava uma experiência feudal em terras americanas, sem nenhum componente econômico mercantilista. C) atraiu sobretudo a alta nobreza pelas possibilidades de lucros rápidos. D) a Coroa, com sérias dívidas, transferia para os particulares as despesas da colonização, temendo perder a colônia para os estrangeiros que ameaçavam nosso litoral. E) o sistema de capitanias fracassou e não deixou como consequências a questão fundiária e a estrutura social excludente. 79 22. A expulsão dos holandeses do Brasil alterou a vida econômico-financeira da Metrópole portuguesa por que: A) Permitiu aos portugueses retomar o controle técnico, do progresso de refinação do açúcar, dominado pelos holandeses; B) Permitiu que Portugal retomasse o total controle da produção açucareira brasileira; C) Favoreceu o consumo do açúcar, tendo em vista a quebra do monopólio de distribuição no mercado internacional; D) Assegurou ao governo português a ampliação de suas rendas, pela estatização dos engenhos holandeses em Pernambuco; E) Permitiu maiores lucros pela introdução de novas técnicas de produção nos engenhos do Nordeste. 23. A crise da lavoura canavieira no Brasil em meados do século XVII pode ser explicada: A) pela descoberta de metais preciosos no interior; B) pelo declínio do consumo de açúcar de cana na Europa, graças ao advento do açúcar de beterraba; C) pela implantação de uma área concorrente na Antilhas, após a expulsão dos holandeses; D) pelas dívidas excessivas dos senhores – de – engenhos; E) pela decadência da Metrópole, inteiramente dependente, do capital inglês. 24. A Guerra dos Mascates (Pernambuco, 1710-12) exprime: A) um movimento coordenado em busca da independência. B) um sentimento de animosidade contra os holandeses invasores. C) a insatisfação com a política do marquês de Pombal. D) o interesse da burguesia agrária em alcançar os cargos dos Conselhos Municipais. E) o declínio das lavouras canavieiras. 25. A chamada Guerra dos Mascates, ocorrida em Pernambuco em 1710, deveu-se: a) ao surgimento de um sentimento nativista brasileiro, em oposição aos colonizadores portugueses. b) ao orgulho ferido dos habitantes da vila de Olinda, menosprezados pelos portugueses. c) ao choque entre comerciantes portugueses do Recife e a aristocracia rural de Olinda pelo controle da mão-de-obra escrava. d) ao choque entre comerciantes portugueses do Recife e a aristocracia rural de Olinda, cujas relações comerciais eram, respectivamente, de credores e devedores. e) a uma disputa interna entre grupos de comerciantes, que eram chamados depreciativamente de mascates. 26. A chamada Guerra dos Mascates decorreu, entre outros fatores, do fato de: a) Recife não possuir prestígio político, apesar de sua expressão econômico-financeira. b) Pombal promover a derrama, para a cobrança de todos os quinhões atrasados. c) Olinda não se conformar com o papel que a aristocracia rural exercia na capitania. d) Portugal intervir na economia das capitanias, isentando os portugueses do pagamento de impostos. e) Pernambuco não apoiar a política de tributação fiscal do governador Félix José Machado de Mendonça. 27. A nação independente continuaria subordinada à economia colonial, passando do domínio português à tutela britânica. A fachada liberal construída pela elite europeizada ocultava a miséria e a escravidão da maioria dos habitantes do país. (Emília V. da Costa) A interpretação correta do texto anterior sobre a independência brasileira seria: A) a nossa independência caracterizou-se pelo processo revolucionário que rompeu socialmente com o passado colonial. B) a preservação da ordem estabelecida, isto é, escravidão, latifúndios e privilégios políticos da elite, seria garantida pelo novo governo republicano. C) a rápida transformação da economia foi comandada pela elite política e econômica interessada na superação da ordem colonial. D) o espírito liberal de nossas elites não impediu que elas mantivessem as estruturas arcaicas da escravidão e do latifúndio, sendo a monarquia a garantia de tais privilégios. E) o rompimento com a dependência inglesa foi inevitável, já que, após a independência, o governo passou a incentivar o mercado interno e a industrialização. 28. Podemos afirmar que tanto na Revolução Pernambucana de 1817, quanto na Confederação do Equador de 1824, 80 A) o descontentamento com as barreiras econômicas vigentes foi decisivo para a eclosão dos movimentos. B) os proprietários rurais e os comerciantes monopolistas estavam entre as principais lideranças dos movimentos. C) a proposta de uma república era acompanhada de um forte sentimento antilusitano. D) a abolição imediata da escravidão constituía-se numa de suas principais bandeiras. E) a luta armada ficou restrita ao espaço urbano de Recife, não se espalhando pelo interior. 29. A Confederação do Equador, movimento que eclodiu em Pernambuco em julho de 1824, caracterizou-se por: A) ser um movimento contrário às medidas da Corte Portuguesa, que visava favorecer o monopólio do comércio. B) uma oposição a medidas centralizadoras e absolutistas do Primeiro Reinado, sendo um movimento republicano. C) garantir a integridade do território brasileiro e a centralização administrativa. D) ser um movimento contrário à maçonaria, clero e demais associações absolutistas. E) levar seu principal líder, Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, à liderança da Constituinte de 1824. 30. Na manhã de 13 de fevereiro de 1825, na porta da Igreja do Pátio do Terço, em Recife, Frei Caneca foi despojado de suas ordens e executado. Considera(m)-se atividade(s) revolucionária(s) do Frei: ( ) jornalista, redator de O DIÁRIO NOVO jornal praieiro, responsável pela agitação intelectual da Revolução de 1848 em Pernambuco; ( ) Frei Caneca participou da revolução de 1817 cujo ideário republicano era semelhante ao da Revolução de 1824; ( ) Frei Caneca dirigiu, durante o Primeiro Reinado, um período revolucionário intitulado "Sentinela da Liberdade na Guarita de Pernambuco"; ( ) Frei Caneca insurge-se contra a Constituição Outorgada, logo após a dissolução da Constituinte em 1823; ( ) Dirigiu e foi redator principal do jornal O TÍFIS Pernambucano que combatia o absolutismo do Imperador Pedro I e incitava à rebelião. 31. (UFPE) O segundo reinado no Brasil ocorreu sem as muitas instabilidades políticas que marcaram os primeiros anos da independência. Pernambuco, que mantinha uma tradição liberal, decorrente de movimentos como a Revolução de 1817 e a Confederação do Equador, mostrou seu descontentamento com o governo central na Revolução Praieira de 1848. Com relação ao movimento praieiro, podemos afirmar que: A) tinha a liderança das elites políticas liberais e expressava também o radicalismo político dos grupos socialistas pernambucanos. B) foi cenário de confrontos militares, que obrigaram o governo a reforçar suas tropas e a julgar os rebeldes presos com rigor. C) foi um movimento político socialista, que expressou ideais de liberdade e de socialização das riquezas. D) ameaçou o governo central, pois contou com o apoio militar de várias províncias do Norte e do Nordeste. E) não passou de uma rebelião local, sem grandes repercussões políticas, restringindo-se a uma disputa por cargos administrativos. 32. “E eu piso onde quiser, você está girando melhor, garota Na areia onde o mar chegou, a ciranda acabou de começar, e ela é! E é praieira!!! Segura bem forte a mão E é praieira !!! Vou lembrando a revolução, vou lembrando a Revolução Mas há fronteiras nos jardins da razão” O trecho acimada música Praieira, de Chico Sciense, remete brevemente à Revolução Praieira de 1848- 1850, ocorrida em Pernambuco. Essa revolução de caráter liberal tinha uma série de reivindicações, exceto: A) a liberdade de imprensa. B) a instituição do voto universal. C) o fim do monopólio comercial dos portugueses. D) o fim da propriedade privada dos meios de produção. E) a extinção do poder moderador. 33. Durante os anos finais da década de 1840, Pernambuco viveu uma verdadeira guerra civil em decorrência da eclosão da Revolução Praieira, que tinha dentre seus objetivos colocar fim ao poder moderador exercido pelo Imperador e garantir a liberdade de imprensa. A Revolução recebeu esse nome pelo fato: A) de o jornal Diário Novo, órgão de divulgação dos revolucionários, localizar-se na Rua da Praia, em Recife. 81 B) de as ações dos revolucionários restringirem-se à faixa litorânea do estado de Pernambuco. C) de o movimento alastrar-se por todo o litoral nordestino, criando inúmeras dificuldades para a repressão das forças imperiais. D) de a sede do novo governo revolucionário localizar-se na Rua da Praia, em Recife. 34. “Outros deram à minha política a denominação de Política dos Governadores. Teriam talvez acertado se dissessem – a Política dos Estados. Essa denominação exprimiria melhor o meu pensamento.” (Campos Salles) De acordo com o texto, assinale as opções que marcaram o governo de Campos Salles: 1. A Política dos Governadores constituiu na troca de apoio político entre as oligarquias estaduais e o governo central; 2. Campos Salles consolidou a oligarquia cafeeira no poder, garantindo pelo apoio nos estados dos Governadores; 3. Campos Salles retirou a autonomia dos estados e centralizou o poder afetando a oligarquia cafeeira; 4. Campos Salles não recebeu apoio dos estados que preferiram ligar-se aos cafeicultores; 5. Os Estados apoiaram o governo central e desligaram-se da oligarquia cafeeira. a) 1 e 3 b) 1 e 4 c) 2 e 4 d) 1 e 2 e) 4 e 5 35. Durante a República Velha, a estabilidade dos governos acabou sendo assegurada pela vigência da Política dos Governadores. Na pratica, essa política traduzia-se: A) na alternância entre paulistas e mineiros do governo federal; B) nas atribuições econômicas concedidas aos governos estaduais pela Constituição de 1891; C) na criação das milícias estaduais, base política das oligarquias dominantes nos Estados; D) no compromisso de apoio mútuo firmado entre o governo federal, o estadual e os chefes políticos municipais; E) na substituição dos Governadores eleitos por interventores militares, comprometidos com uma política de equilíbrio entre os Estados. 36. São afirmativas verdadeiras sobre o Estado Novo, EXCETO: A) O Estado Novo foi um período de ditadura exercida por Getúlio Vargas, de 1937 a 1945; B) Durante o Estado Novo os recursos externos, principalmente norte-americanos, se fizeram presentes, inclusive por motivos políticos: evitar que o Brasil apoiasse o Eixo e se posicionasse ao lado dos Aliados, durante a Segunda Guerra Mundial; C) A Segunda Guerra Mundial, mostrou a incoerência do Governo Brasileiro, que declarou guerra ao Eixo, formado por países fascistas, sendo que o fascismo era uma das sustentações do Estado Novo; D) Quando o Estado Novo anunciou a realização de eleições para a Presidência da República, para os governos estaduais e para uma Assembleia Constituinte, a oposição organizou o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB); E) Em fins de 1943, foi divulgado o Manifesto dos Mineiros, exigindo a redemocratização do país. 37. Sobre o Estado Novo, é falso afirmar que: A) DIP, DASP e Polícia Secreta constituíram órgãos de sustentação do regime; B) A centralização política e a indefinição ideológica caracterizaram esta fase; C) A legislação trabalhista garantia o direito de greve e a autonomia sindical, mantendo o Estado afastado das relações capital e trabalho; D) O crescimento industrial se fez em parte graças a concentração de rendas, baixos salários e desemprego; E) As oligarquias apoiavam o governo já que este garantia a grande propriedade e não estendia as leis trabalhistas ao campo. 38. Sobre o Estado Novo (1937-1945), período ditatorial encabeçado por Getúlio Vargas, é correto afirmar que: A) Tinha no DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda – um importante veículo de propaganda ideológica que sustentava o regime e censurava manifestações contrárias a ele. B) Caracterizou-se pela montagem de um projeto de Estado liberal e não-intervencionista. C) Foi marcado por uma orientação econômica de cunho agrarista, não possibilitando o desenvolvimento industrial do país. D) Teve clara influência dos ideais socialistas, alinhando-se politicamente à União Soviética. E) Teve uma grande preocupação em integrar os trabalhadores rurais, já que estes eram a base de sustentação de Vargas. 39. No período de 1964 a 1985, o Brasil foi governado por militares. Sobre esse período, considere as 82 proposições a seguir. I. Os militares tomaram o poder e implantaram um regime marcado pela repressão política, tortura e morte dos opositores. II. A organização política, implantada no Brasil, pelo Regime Militar, caracterizou-se pela crescente concentração de poderes para o executivo com os Atos institucionais, legitimando a manutenção de um Estado Forte. III. A vitória do golpe militar de 1964 foi fruto da decisão dos militares para implementar o programa nacionalista e reformista, proposto pelo Governo Goulart, desde que o povo não participasse ativamente das decisões políticas. IV. Para evitar protestos da sociedade, o regime militar cassou o direito de voto e calou as oposições por meio da censura ou pela violência da repressão policial. Assinale a alternativa que apresenta as proposições corretas. A) Somente I, II e III. B) Somente I, II e IV. C) Somente I, III e IV. D) Somente II, III e IV. E) I, II, III e IV. 40. Analise as afirmativas referentes ao Governo João Baptista Figueiredo (1979-1985). I. Pressionado por grande parte da sociedade brasileira, o Presidente Figueiredo assumiu o compromisso de realizar a abertura política e reinstalar a democracia no Brasil. II. A anistia foi concedida, de forma ampla, geral e irrestrita, a todos que foram punidos pela ditadura, tanto civis como militares. III. Promoveu uma reforma partidária que determinou o fim do bipartidarismo e possibilitou a pluralidade dos partidos. IV. "Brasil ame-o ou deixe-o" foi o slogan da campanha política do General Figueiredo à Presidência da República. Assinale a opção que contém as afirmativas corretas. a) Somente I e II. b) Somente II e III. c) Somente II e IV. d) Somente I e III. e) Somente I e IV. 41. Em 1964, os militares tomaram o poder e implantaram uma ditadura no Brasil. Durante os governos militares, podemos constatar: I. Os golpistas procuraram definir esse assalto à democracia como uma revolução; II. O golpe militar de 1964 representou a culminância do processo de crise do populismo, iniciado com a renúncia de Jânio Quadros em 1961; III. Uma das características dos governos militares foi o autoritarismo, visto que membros do governo não se mostravam dispostos a dialogar com os diversos setores da sociedade; IV. Tortura, prisão e expulsão do país foram instrumentos utilizados pelos governos militares contra alguns cidadãos, para manterem seu poder inabalado. Os itens corretos são A) somente I, III e IV. B) somente II, III e IV. C) somente I, II e IV. D) somente I, II e III. E) I, lI, III e IV. PROVA PM-PE 2016 (42 A 52) 42. As primeiras décadas do século XIX foram marcadas pelo chamado ciclo das insurreições liberais em Pernambuco, com a Insurreição de 1817, a Confederação do Equador e a Revolução Praieira. Essas insurreições se constituíram em movimentos federalistas e, com exceção da InsurreiçãoPernambucana, se contrapunham ao projeto de independência implantado em 1822 por José Bonifácio e D. Pedro I, a partir do Rio de Janeiro. No que concerne especificamente à Confederação do Equador, assinale a alternativa CORRETA. A) Diferindo da Revolução Praieira, que defendia a bandeira da abolição, os principais líderes da Confederação do Equador eram antiabolicionistas. B) Os líderes da Confederação do Equador, liberais e republicanos, contestavam o poder centralizado e autoritário de D. Pedro I e propunham a abolição da escravidão assim como a República Federalista. C) Frei Caneca, um dos intelectuais responsáveis pelas ideias basilares da Confederação do Equador, era um veterano de outras insurreições liberais, como a Praieira. D) Apesar da derrota das forças da Confederação do Equador para as forças do Império, a Província de Pernambuco que, a partir dessa revolta, consolidaria uma imagem de província rebelde, conseguiu assegurar um novo território, a comarca do São Francisco, agregada a partir da Bahia. E) A Confederação do Equador foi um movimento republicano e federalista, proposto por integrantes da 83 elite pernambucana, entre os quais se destacavam intelectuais, militares e políticos liberais, que se espalhou pelas províncias da Paraíba, do Rio Grande do Norte e Ceará. 43. O “desembarque de Sirinhaém”, em 1855, em Pernambuco, teria sido apenas mais um dos vários episódios de contrabando de escravos, caso não tivesse dado errado. Tudo começou quando o comandante do palhabote (espécie de embarcação também utilizada para o tráfico atlântico de escravos), invés de ancorar no engenho de João Manuel de Barros Wanderley, acabou parando nas terras do seu vizinho. Este, por sua vez, prontamente denunciou o caso às autoridades. A notícia acabou ganhando grande destaque na imprensa, por ter sido o último negreiro apreendido na costa brasileira com cativos africanos a bordo. (CARVALHO, M.J.M de. O desembarque nas praias: o funcionamento do tráfico de escravos depois de 1831. Revista de História, São Paulo, n° 167, julho/dezembro 2012. pp. 223-260). Em relação ao tráfico de escravos em Pernambuco, assinale a alternativa CORRETA. A) O desembarque de cativos africanos nos portos naturais das diversas praias que ficavam na Província de Pernambuco, mas distante o suficiente para dificultar a vistoria das autoridades imperiais, foi uma estratégia desenvolvida pelos atores que participavam do contrabando de africanos, para continuar fornecendo cativos para a capitania. B) Embora conhecida como “Lei para Inglês ver”, a Lei de 1831 contribuiu bastante para frear o ímpeto dos traficantes. Exemplo disso é que, em finais da década de 1830 e durante a década de 1840, o número de escravos que ingressaram na Província de Pernambuco diminuiu de forma vertiginosa. C) Embora a lei antitráfico tenha entrado em vigor desde 1831, as autoridades imperiais nada fizeram para deter o comércio ilegal nos portos das capitais provinciais. Exemplo disso foi o porto do Recife, que não teve seu cotidiano alterado, no que tange ao comércio atlântico de escravos. D) Embora muito alarmado pela imprensa provincial e nacional, o “Desembarque de Sirinháem” pode ser considerado uma exceção, pois a forte fiscalização da coroa impedia que fatos como este fossem corriqueiros. E) Por ser, à época do “Desembarque de Sirinhaém”, uma província com forte tendência abolicionista, Pernambuco quase não recebia mais escravos. Além disso, os políticos e as elites latifundiárias estavam mais interessados em fomentar a vinda de mão de obra livre do exterior, principalmente a dos chineses. 44. “Pena! Com tudo isso de 1964, matou a nossa liderança camponesa toda. O que foi encontrado de cadáveres, de corpos na estrada entre Caruaru e Campina Grande, inclusive mutilados para ninguém conhecer quem era *…+ pouca gente sobrou daquele tempo no campo, pouquíssima gente. Sobrou quem a gente escondeu, uma parte, uns que resistiram porque eram fortes, como Joaquim Camilo, que eu te falei, mas Zé Eduardo e Gessino tiveram que se ausentar, mas o resto... Manoelzinho sumiu, ninguém sabe aonde foi que acabou Manoelzinho. Ele era aqui da Mirueira, trabalhava aqui nesse Litoral Norte todo; Igarassu, Goiana, Paulista.” O personagem que relata a história acima era médico, membro do Partido Comunista e das Ligas Camponesas e concedeu entrevista no ano de 2011 à equipe de Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco, integrantes do Projeto Marcas da Memória. Em relação aos movimentos sociais e à repressão durante a Ditadura Civil-Militar em Pernambuco, assinale a alternativa CORRETA. A) Além dos camponeses, que estavam integrados em algumas associações classistas, trabalhadores urbanos, profissionais liberais e até membros da igreja católica também participaram da resistência contra as tropas governamentais. B) Por mais que haja depoimentos versando sobre a violência empregada pelo governo, quase nada foi provado contra os militares. A falta de um número maior de provas acaba ratificando a versão de que, em Pernambuco, o regime civil-militar foi moderado. C) A resistência ao golpe e à ditadura civil-militar ficou restrita ao meio rural, não sendo possível se verificarem focos de resistência nas zonas urbanas. Dentre as suas principais causas, destaca-se a pouca influência que o Partido Comunista possuía no Recife e em sua região metropolitana bem como a falta de organização da sociedade para ações de resistência, fossem elas individuais ou coletivas. D) Ao contrário do que aconteceu no restante do país, em Pernambuco, não houve qualquer ingerência do regime civil-militar no sistema educacional recém- modificado pelo então governador Miguel Arraes. Pelo contrário, percebendo a importância das transformações realizadas por Arraes e Paulo Freire, os militares deram continuidade ao trabalho, percebendo as estratégias do Movimento de Cultura Popular como benéficas para o senso crítico dos cidadãos. E) Um dos personagens mais destacados das Ligas 84 Camponesas foi Francisco Julião, personagem fulcral para a repressão dos militares contra os camponeses, uma vez que ele acabou traindo seus companheiros em troca da sua liberdade e permanência no Brasil, após 1964. 46. “...não se pode ignorar o NE na hora de se discutir a antiguidade do homem na América e as vias de dispersão por ele percorridas, não importando se foi há 20, 30 ou 40 mil anos... É conhecida de todos a longa sequência estratigráfica lograda no Sítio do Boqueirão da Pedra Furada, que pode significar a permanência do homem pré-histórico nesse sítio, a partir de 48 mil anos. Mas a Pedra furada não é um caso único.” (MARTIM, G. Pré-História do Nordeste: pesquisas e pesquisadores. Clio Arqueológica, Recife: UFPE, n° 12, p. 7-15. ano 1997. p.11. Adaptado. Em Pernambuco, por exemplo, localizado no município de Buíque, o sítio de “Alcobaça” possui um dos maiores e mais representativos painéis de figura rupestre do estado, que, por seu tamanho e complexidade, é de grande relevância para o entendimento da pré-história local e nacional. Em relação ao estudo do período pré-colonial sobre o atual estado de Pernambuco, assinale a alternativa INCORRETA. A) O sítio “Furna do Estrago”, localizado no município do Brejo da Madre de Deus, é de grande importância para o entendimento dos grupos que habitaram o atual agreste nordestino, uma vez que permite se entender um pouco mais sobre os rituais funerários da época. B) O material arqueológico, encontrado nos sítios que remontam ao período pré-colonial do estado, é fundamental para se entender o povoamento da região, bem como parte das características socioculturais daqueles que os utilizaram. C) As figuras rupestres, encontradas em vários sítios de Pernambuco, são de grande relevância para a compreensão das populações que habitaram as terras pertencenteshoje a esse estado. D) Embora a região da Zona da Mata também possua vestígios da presença dos Homo Sapiens Sapiens, o Agreste e o Sertão pernambucano, durante o longo período pré-colonial, são os locais onde pode ser encontrado o maior número de sítios arqueológicos do Estado. E) Embora “Alcobaça” possua grande representatividade entre os arqueólogos, o estado de Pernambuco, como um todo, tem pouca importância para o entendimento do período pré-colonial. Isso se deve, dentre outras coisas, ao pequeno número de sítios encontrados em seu território. 47. Leia os textos a seguir: Texto I “A cultura Afrodescendente tem sido muitas vezes reificada, apresentada como um repertório inerte de tradições, como se não estivesse enraizada em processos culturais dinâmicos e em ambientes sociais desiguais...”. LIMA, I. M. de F.; GUILLEN, I. C. M. Cultura afro- descendente no Recife: maracatus, valentes e catimbós. Recife: Bagaço, 2007. p. 39. Texto II “A cultura e o folclore são meus / Mas os livros foi você quem escreveu... / Perseguidos sem direito nem escolas / Como podiam registrar as suas glórias / Nossa memória foi contada por vocês / E é julgada verdadeira como a própria lei / Por isso, temos registrado em toda a história / Uma mísera parte de nossas vitórias / Por isso, não temos sopa na colher / E sim, anjinhos para dizer que o lado mau é o Candomblé...”. Texto III “O preconceito racial a que são submetidos não só os maracatuzeiros e maracatuzeiras mas toda a população negra desta cidade está oculto nas falas, nos procedimentos, nos gestos...”. LIMA, I. M. de F.; GUILLEN, I. C. M. Cultura afrodescendente no Recife: maracatus, valentes e catimbós. Recife: Bagaço, 2007. p. 11. Com base nos textos, analise aspectos das manifestações culturais Afro-Brasileiras em Pernambuco e assinale a alternativa CORRETA. A) O livre exercício dos cultos religiosos bem como a proteção dos locais onde são realizados, garantidos pela Constituição de 1988, foram decisivos para que não houvesse, nos últimos anos, casos de intolerância religiosa em Pernambuco. B) A permanência da cultura Afro-brasileira em Pernambuco demonstra que os afrodescendentes, após a abolição da escravatura, tiveram suas condições sociais alteradas, sendo reconhecidos e respeitados pelo Estado brasileiro bem como por sua sociedade. C) Embora muito praticada em Pernambuco nos 85 tempos de hoje, a capoeira só chegou a esse Estado graças ao desenvolvimento da capoeira regional e capoeira de angola na Bahia. D) A permanência da herança cultural afrodescendente no estado de Pernambuco só foi possível devido às táticas estabelecidas pelos sujeitos históricos, que partilhavam e partilham esses códigos culturais, constituindo-se em uma atitude de resistência em defesa da identidade e do respeito à diversidade cultural. E) A herança cultural afrodescendente em Pernambuco, como o maracatu, são verdadeiras reproduções dos costumes africanos. No caso, o maracatu era a antiga coroação dos reis e rainhas do congo. 48. Durante os três séculos, nos quais vigorou a escravidão no Brasil, a resistência de escravos tanto de origem africana quanto de origem indígena foi constante e tomou as mais diversas formas. No século XIX, quando a escravidão brasileira viveu seu apogeu com o maior afluxo de escravos africanos, o crescimento das cidades fez multiplicar nelas não apenas o número de escravos mas também as formas de resistência, que se diversificavam cada vez mais. E, se as fugas sempre foram as mais famosas e emblemáticas dessas formas de resistência, nunca foram as únicas. Sobre elas, diz o historiador Marcus Carvalho: “Nunca faltaram fugas de escravos no Recife. Alguns se aproveitavam dos cortes que o Capibaribe fazia entre os bairros para se evadirem dentro da própria cidade em busca de dias melhores. Existem ainda casos mostrando o outro lado da história: fugas do Recife para o interior, ou até para fora da Província, buscando a distância do senhor ou a proximidade de parentes, amores, amigos e pessoas da mesma etnia ou nação.” (CARVALHO, M. J. M. Liberdade: Rotinas e Rupturas do Escravismo no Recife, 1822-1850. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2010. P. 176) Tendo em vista esse cenário, assinale a alternativa INCORRETA. ) O quilombo do Catucá, situado nas margens do Recife, na primeira metade do século XIX, caracterizou-se por ser um espaço de resistência contra a escravidão, que cresceu beneficiando-se dos muitos conflitos internos das próprias elites escravistas, principalmente nas chamadas insurreições liberais. B) O quilombo do Catucá, situado nas margens do Recife, na primeira metade do século XIX, cresceu associado a esse centro urbano, beneficiado das fugas de escravos do Recife e canaviais da região, chegando também a se expandir sobre toda a região antes dominada por seu predecessor, o quilombo de Palmares. C) Com o crescimento da escravidão urbana no Recife do século XIX, começaram a se desenvolver novas formas de fugas, como as chamadas „fugas de portas a dentro‟, quando um escravo urbano fugia de seu dono, mas permanecia na mesma cidade, agora servindo a um novo senhor com o qual havia estabelecido um processo de negociação. D) Construções culturais, como a capoeira, o maracatu, e mesmo o culto a determinados santos católicos, como São Benedito e Nossa Senhora do Rosário, foram importantes formas de resistência cotidiana, elaboradas por escravos e ex-escravos nas margens da sociedade escravista e mesmo em suas instituições mais importantes, como a Igreja Católica E) O trabalho escravo nos canaviais também gerava resistência, fosse na forma de revoltas e assassinatos de feitores, fosse na forma de sabotagens da produção. 49. Segundo a historiadora Graça Ataíde, no seu livro A construção da Verdade Autoritária, a “...vigilância e o controle sobre a imprensa em Pernambuco garantiam ao Estado a propaganda e o doutrinamento político... utilizando-se da persuasão e do doutrinamento diário, a Folha da Manhã, veiculava, por meio de suas mensagens, valores que compunham a ideologia estadonovista”. (ALMEIDA, M. das G. A. A., A construção da Verdade Autoritária. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2001. p. 181.) Em relação aos valores e à ideologia defendidos pelo Estado Novo, do qual Agamenon Magalhães, em nível estadual, era um de seus maiores representantes, assinale a alternativa CORRETA. A) Igualdade, Liberdade Política, Xenofobismo, Anticomunismo. B) Liberdade Política, Igualdade, Estado Mínimo, Descentralização Política. C) Anticomunismo, Educação Libertária, Xenofilismo, Nacionalismo. D) Estado Mínimo, Educação Libertária, Xenofilismo, Antissemitismo. E) Nacionalismo, Xenofobismo, Anticomunismo, Antissemitismo. 50. Com relação ao tipo de organização social predominante entre os grupos indígenas que 86 habitavam o litoral do atual estado de Pernambuco no momento dos primeiros contatos com os europeus, assinale a alternativa CORRETA. A) As tribos tupi do litoral de Pernambuco pré- colonial possuíam uma população de algumas centenas de indivíduos, divididos em pequenas aldeias espalhadas pelos quilômetros da costa entre o Rio São Francisco e o Canal de Santa Cruz. B) A maioria dos grupos indígenas que habitava a atual costa de Pernambuco no período da conquista era de língua Tupi, organizava-se em aldeias de milhares de indivíduos, cujos laços sociais principais eram firmados em linhagens e parentescos, e onde a divisão de trabalho baseava-se, principalmente, em quesitos de gênero e idade. C) Os grupos tupi que ocupavam o território do atual estado de Pernambuco no momento da conquista se organizavam em tribos de caçadores nômades que cultuavam divindades representando espíritos da natureza, como Tupã. D) Todos os grupos indígenas que ocupavam o atual estado do Pernambuco no momento da conquista praticavamrituais antropofágicos, associados com o culto às divindades bélicas. E) Os grupos indígenas tapuia que ocupavam todo o litoral do atual estado de Pernambuco durante o processo de conquista tinham suas estruturas sociais baseadas em linhagens e parentescos, divisão de trabalho por gênero e idade, praticavam a agricultura sazonal e possuíam uma cultura na qual os principais valores sociais giravam em torno da guerra. 51. A chamada Guerra dos Mascates, episódio ocorrido em Pernambuco, entre 1710 e 1711, foi um conflito entre diferentes elites político-econômicas, localizadas em Olinda e Recife, resultando na ascensão da elite mercantil de Recife. Sobre isso, assinale a alternativa CORRETA. A) Em 1711, as autoridades coloniais puseram fim ao conflito, reafirmando o status de Recife enquanto vila, o que conferiu à elite dessa povoação os meios para consolidar seu poder político na capitania, mediante cargos na câmara municipal da nova vila. B) Os mercadores do Recife foram politicamente apoiados, em sua revolta contra o poderio dos senhores olindenses, por diversos grupos sociais livres de Recife e Olinda assim como por um pequeno número de escravos. C) A Guerra dos Mascates foi um conflito político entre senhores de engenho e mercadores de grande porte em Pernambuco do início do século XVIII que se estendeu por outras províncias do atual Nordeste, como o Ceará e o Rio Grande do Norte. D) Os mercadores do Recife, em sua ânsia por liberdade, proclamaram a República em 1711, proclamação, entretanto, revogada pelas autoridades coloniais. E) Em 1711, as autoridades coloniais puseram fim ao conflito, elevando o Recife à categoria de vila, mas dando à elite olindense a primazia sobre os cargos da nova câmara municipal do Recife. 52. Segundo o historiador Pedro Puntoni, no livro „A Guerra dos Bárbaros’, “Sem dúvida alguma, a compreensão dos povos ditos tapuias como uma unidade histórica e cultural, em oposição não só ao mundo cristão europeu mas aos povos tupis, habitantes do litoral, foi um dos elementos mais importantes na caracterização coeva da unicidade dos conflitos ocorridos no Nordeste, ao longo das décadas finais dos Seiscentos e início dos Setecentos, no contexto específico do processo de expansão da pecuária e, portanto, da fronteira. De fato, a extensa documentação colonial refere-se ao conjunto de confrontos e sublevações dos grupos tapuias do sertão nordestino como uma „Guerra dos Bárbaros‟, unificando, dessa maneira, situações e contextos peculiares. Por isso, tal como no episódio da chamada Confederação dos Tamoios, inventada pela intuição de Gonçalves de Magalhães, a Guerra dos Bárbaros foi igualmente tomada pela historiografia como uma confederação das tribos hostis ao império português, um genuíno movimento organizado de resistência ao colonizador. (...) Câmara Cascudo, que conhecia bem a documentação colonial do Rio Grande, criticou em sua História aqueles que, „lembrando a dos tamoios‟, chamavam a Guerra dos Bárbaros, „romanticamente‟, de confederação dos cariris „Não houve plano comum nem unidade de chefia.” (PUNTONI, Pedro. A Guerra dos Bárbaros - Povos Indígenas e a Colonização do Sertão Nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo, Hucitec, 2002, p. 77;79). A partir do texto acima, assinale a alternativa CORRETA. A) O autor defende que a existência de uma confederação dos cariris, ou mesmo, de uma Guerra dos Bárbaros generalizada são criações dos historiadores que mal interpretaram a documentação colonial. B) O autor associa a Guerra dos Bárbaros à Confederação dos Tamoios, defendendo que ambas foram movimentos sociais indígenas contra a colonização. C) O autor defende a existência de um confronto entre as forças da colonização e as populações 87 indígenas sertanejas, organizadas em uma frente comum. D) O texto defende que nunca existiu um levante indígena sertanejo contra a colonização, tendo sido a Guerra dos Bárbaros apenas uma invenção da historiografia. E) Segundo o autor, por não haver unidade na resistência indígena contra a colonização, essa resistência não teria existido. 53. Sobre a Restauração Pernambucana e o fim do domínio holandês podemos afirmar que: I. A substituição de Nassau na administração da Nova Holanda, em 1644, pelo Supremo Conselho, acirrou conflitos entre devedores (luso-brasileiro) e credores (holandeses). II. André Vidal de Nogueira e João Fernandes Vieira, senhores de engenho e aliados dos holandeses, apoiaram a nova política financeira do Supremo Conselho. III. Vários combates foram travados pelas tropas luso- brasileira e holandesas. Os mais importantes foram: o do Monte das Tabocas, o da convenção de Beberibe e o do Monte Guararapes. IV. A partir de 1651, a guerra naval entre Inglaterra e Holanda possibilitou a diminuição do auxílio dos Estados Gerais aos holandeses em Pernambuco. V. Os ingleses que haviam excluído a Holanda do seu comércio, auxiliaram os luso-brasileiros na restauração. Estão corretas a) I, IV e V b) apenas I c) I, II e IV d) I, III e V e) apenas IV 54. Sobre a Guerra dos Bárbaros, marque a opção correta: a) Caracterizou-se por conflitos entre escravos africanos e índios pela posse de terras. b) Ocorreu apenas na Capitania de Pernambuco e questionou a autoridade portuguesa. c) Agregou um conjunto de batalhas envolvendo de um lado os índios e, de outro, os colonos pela conquista de terras no interior. d) Movimento de escravos contra seus senhores. e) Teve seu período áureo no século XVIII, no governo do Marquês de Pombal. 55. A Guerra dos Bárbaros representou a tentativa dos nativos em impedir o avanço dos colonos por regiões ainda não exploradas. Sobre esse contexto, responda a alternativa correta. A) O conflito destacou-se pela luta armada encabeçada por escravos. B) A guerra arrastou-se por décadas, tendo os índios como um dos principais protagonistas envolvidos na defesa de seus territórios. C) As tropas oficiais do governo foram suficientes para vencer o bloqueio criado pelos nativos. D) O que impulsionou os colonos a adentrarem o interior foi a busca por pau-brasil. E) As únicas regiões atingidas pela guerra foram as capitanias da Bahia e Pernambuco. “A fé deveria ser sempre invencível como o raio de luz, ao passo que o amor, como o calor, deveria expandir-se e cobrir as necessidades dos nossos irmãos. ” (Martinho Lutero) 88 DIREITO CONSTITCIONAL Professora Cristiana Costa 1. DIREITOS E GARANTIAS INDIVIDUAIS E COLETIVOS Direitos e garantias fundamentais – a CF agrupa os direitos fundamentais em: - direitos individuais e coletivos (capítulo I); - direitos sociais (capítulo II); - direitos de nacionalidade (capítulo III); - direitos políticos (capítulo IV); - direitos relacionados à participação em partidos políticos e sua existência e organização (capítulo V); Distinção entre direitos e garantias fundamentais Direitos fundamentais – são os bens em si mesmo considerados, declarados como tais no texto constitucional (ex.: direito à vida); Garantias fundamentais – são estabelecidas pelo texto constitucional como instrumentos de proteção dos direitos fundamentais. As garantias possibilitam que os indivíduos façam valer, frente ao Estado, os seus direitos fundamentais (ex.: habeas corpus); Características dos direitos fundamentais (sintetização feita por Alexandre de Moraes): imprescritibilidade – os direitos fundamentais não desaparecem com o decurso de tempo; inalienabilidade – não há possibilidade de transferência dos direitos fundamentais a outrem; irrenunciabilidade – em regra, os direitos fundamentais não podem ser objeto de renúncia; inviolabilidade – impossibilidade de sua não observância por disposições infraconstitucionais ou por atos das autoridades públicas; universalidade – devem abrangertodos os indivíduos, independentemente de sua nacionalidade, sexo, raça, credo ou convicção político-filosófica; efetividade – a atuação do Poder Público deve ter por escopo garantir a efetivação dos direitos fundamentais; interdependência – as várias previsões constitucionais, apesar de autônomas, possuem diversas intersecções para atingirem suas finalidades. Assim, a liberdade de locomoção está intimamente ligada à garantia de habeas corpus; complementaridade – os direitos fundamentais não devem ser interpretados isoladamente, mas sim de forma conjunta com a finalidade de alcançar os objetivos previstos pelo legislador constituinte. Natureza relativa dos direitos fundamentais – os direitos fundamentais dispõem de um caráter relativo (não absoluto), visto que encontram limites nos demais direitos igualmente consagrados pelo texto constitucional. Conflito ou colisão entre direitos fundamentais – ocorre conflito ou colisão entre direitos fundamentais quando, em um caso concreto, uma das partes invoca um direito fundamental em sua proteção, enquanto a outra se vê amparada por outro direito fundamental. Inexistência de hierarquia entre direitos fundamentais – não existe hierarquia entre direitos fundamentais, o que o impossibilita cogita-se de invariável aplicação integral de um deles, resultando na aniquilação total de outro. Princípio da harmonização, ou da relativização, ou da concordância prática – havendo conflito entre direitos fundamentais, o intérprete deverá realizar um juízo de ponderação, consideradas as características do caso concreto. Conforme as peculiaridades da situação concreta com que se depara o aplicador do direitos, um ou outro direito fundamental deverá prevalecer. Haverá assim a redução proporcional do âmbito de alcance de cada qual, sempre em busca do verdadeiro significado da norma e da harmonia do texto constitucional com suas finalidades precípuas. DIREITOS E GARANTIAS INDIVIDUAIS E COLETIVOS 89 Art. 5º - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo–se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: Princípio da igualdade ou isonomia - A principal disposição do caput deste art. 5º é o Princípio Igualdade, segundo o qual “todos são iguais perante a lei”. Não significa que todas as pessoas terão tratamento igual pelas leis brasileiras, mas que terão tratamento diferenciado na medida das suas diferenças. O que a Constituição exige é que as diferenças impostas sejam justificáveis pelos objetivos que se pretende atingir pela lei. Assim, por exemplo, diferençar homem e mulher num concurso público será, em geral, inconstitucional. Mas, por exemplo, é possível tratar homens e mulheres de forma diferenciada em concurso público no teste físico posto que homens e mulheres fisicamente estão em situação de desigualdade. Igualdade formal – todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza; Igualdade material – deve-se tratar de forma igual, os iguais e de forma desigual, os desiguais. Direito à vida - o direito individual fundamental é vida possui duplo aspecto: um biológico, que diz respeito à integridade física e psíquica (desdobramento do direito à saúde, à vedação à pena de morte, à proibição do aborto etc.); um outro prisma é o sentido mais amplo, que significa condições materiais e espirituais mínimas necessárias a uma existência condigna à natureza humana (direito a uma vida digna). I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição; Neste inciso trata-se do princípio da isonomia ou da igualdade também, porém voltado especificamente para homens e mulheres. Este inciso impõe uma igualdade entre homens e mulheres, mas é uma igualdade relativa, não absoluta, posto que homens e mulheres serão tratados de forma desigual quando estiverem em situação de desigualdade. A Lei nº 9.029/95, proíbe a exigência de atestados de gravidez e esterilização, e outras práticas discriminatórias, para efeitos admissionais ou de permanência de relação jurídica de trabalho. II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude da lei; Tal princípio visa combater o poder arbitrário do Estado. Só por meio das espécies normativas devidamente elaboradas conforme regras de processo legislativo constitucional podem-se criar obrigações para o indivíduo. Este é o chamado princípio da legalidade. Diferença entre o princípio da legalidade do art. 5º (aplicável ao particular) e o do art. 37, caput (aplicável à Administração Pública): princípio da legalidade do art. 5º - somente a lei pode criar obrigações e, por outro lado, a inexistência de lei proibitiva de determinada conduta implica ser ela permitida. princípio da legalidade da Administração Pública (art. 37, caput) – pelo princípio da legalidade aplicável à Administração Pública, tem-se que o Estado está sujeito às leis. Assim, tem-se que o Estado não pode atuar, nem de forma contrária à lei, nem na ausência de lei. Assim, sendo a lei omissa o Estado não poderá atuar. III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante; Esse inciso visa, dentre outras coisas, proteger a dignidade da pessoa humana contra atos que poderiam atentar contra ela. Tratamento desumano é aquele que sem tem por contrário à condição de pessoa humana. Tratamento degradante é aquele que, aplicado, diminui a condição de pessoa humana e sua dignidade. Tortura é sofrimento psíquico ou físico imposto a uma pessoa, por qualquer meio. A Lei n.º 9.455/97, veio definir, finalmente, os crimes de tortura, até então não existentes no Direito brasileiro. Com essa lei de 1997 passou a ter definição legal, qual seja o constrangimento a alguém, mediante o emprego de violência ou grave ameaça, física ou psíquica, causando-lhe sofrimento físico ou mental. A palavra “ninguém” abrange qualquer pessoa, brasileiro ou estrangeiro. IV - É livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; A liberdade de manifestação do pensamento é o direito que a pessoa tem de exprimir, por forma e meio, o que pensa a respeito de qualquer coisa. A única exigência da Constituição é de que a pessoa que exerce esse direito se identifique, para impedir que ele seja fonte de leviandade ou que seja usado de 90 maneira irresponsável. Sabendo quem é o autor do pensamento manifestado, o eventual prejudicado poderá usar o próximo inciso, o V, para defender-se. Os abusos porventura ocorridos no exercício indevido da manifestação do pensamento são passíveis de exame e apreciação pelo Poder Judiciário com a consequente responsabilidade civil e penal de seus autores. O direito à manifestação do pensamento não autoriza toda e qualquer manifestação, como, por exemplo, a apologia de fatos criminosos ou a propaganda do nazismo. Vedação ao anonimato – essa vedação abrange todos os meios de comunicação e tem o intuito de possibilitar a responsabilização de quem cause danos a terceiros em decorrência da expressão de juízos ou opiniões ofensivos, levianos, caluniosos etc. Denúncias anônimas – a vedação ao anonimato impede o acolhimento de denúncias anônimas. Entretanto, de acordo com o posicionamento do STF, “nada impede que o Poder Público, provocado por delação anônima (‘disque-denúncia’, p. ex.), adote medidas informais destinadas a apurar, previamente, em averiguação sumária, ‘com prudência e discrição’, a possível ocorrência de eventual situação de ilicitude penal, desde que o faça com o objetivo de conferir verossimilhança dos fatos nela enunciados, em ordem de promover, então, em caso positivo, a forma instauração da ‘pesecutio criminis’, mantendo-se assim completa desvinculaçãodesse procedimento estatal em relação às peças apócrifas”; (Inquérito 1.957/PR) V - é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; O direito de resposta impõe um limite à liberdade de expressão, procurando evitar que o uso abusivo e leviano da mesma possa redundar em agressões à honra de terceiros (pessoas físicas ou jurídicas). É uma garantia de eficácia do direito à privacidade. A norma pretende a reparação da ordem jurídica lesada, seja por meio de ressarcimento econômico, seja por outros meios, por exemplo, do direito de resposta. A consagração constitucional do direito de resposta proporcional ao agravo é instrumento democrático moderno previsto em vários ordenamentos jurídico-constitucionais, e visa proteger a pessoa de imputações ofensivas e prejudiciais a sua dignidade humana e sua honra. O desagravo deverá ter o mesmo destaque, a mesma duração (no caso de rádio e televisão), o mesmo tamanho (no caso de imprensa escrita) que a notícia que gerou a relação conflituosa. VI - é inviolável a liberdade de consciência de crença, sendo assegurado o livre exercício de cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias; A abrangência do preceito constitucional é ampla, pois sendo a religião o complexo de princípios que dirigem os pensamentos, ações e adoração do homem para com Deus, acaba por compreender a crença, o dogma, a moral, a liturgia e o culto. O constrangimento à pessoa humana de forma a renunciar sua fé representa o desrespeito à diversidade democrática de ideias, filosofias e a própria diversidade espiritual. A liberdade religiosa abrange inclusive o direito de não acreditar ou professar nenhuma fé, devendo o Estado respeito ao ateísmo. É assegurado o livre exercício do culto religioso, enquanto não for contrário à ordem, tranquilidade e sossego públicos, bem como compatível com os bons costumes. A liberdade religiosa não atinge grau absoluto, não sendo, pois, permitidos a qualquer religião ou culto atos atentatórios à lei, sob pena de responsabilização civil e criminal. Obs.: Estado laico - a Constituição Federal de 1824 consagrava a religião Católica Apostólica Romana como a religião oficial do país. Atualmente, a Constituição Federal de 1988 consagra o Estado como sendo laico, ou seja, sem religião oficial, consagrando, ainda, a liberdade religiosa. VII - é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva; Encerra um direito subjetivo daquele que se encontra internado em estabelecimento coletivo. Trata-se de norma assecuratória que garante o livre exercício da liberdade de crença ao detento, paciente, servidor, hóspede, interno, a fim de que possa exercer, ou ser assistido por sua crença, independentemente da eventual orientação religiosa do estabelecimento de internação coletiva em que se encontre. Assim, ao Estado, cabe, nos termos da Lei, a materialização das condições para prestação dessa assistência religiosa, que deverá ser de tantos credos quanto aqueles solicitados pelos internos. 91 Não se poderá obrigar nenhuma pessoa que se encontrar nessa situação, seja em entidades civis, militares, a utilizar-se da referida assistência religiosa, em face da total liberdade religiosa vigente no Brasil. VIII - Ninguém será privado dos direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; O texto atual criou a possibilidade da prestação alternativa, fixada em lei, para aquele que se eximir da obrigação primária a todos imposta. Essa alternatividade não é fruto da discricionariedade da autoridade pública, pois deve estar previamente estabelecida em lei. A recusa injustificada de cumprir obrigação legal ou prestação alternativa implicará perda ou suspensão dos direitos políticos positivos. Alguns autores defendem ser o caso de perda dos direitos políticos, seguindo a doutrina clássica de Alexandre de Morais. Outros entendem ser o caso de suspensão de direitos políticos. O direito à escusa de consciência não está adstrito simplesmente ao serviço militar obrigatório, mas pode abranger quaisquer obrigações coletivas que conflitem com as crenças religiosas, convicções políticas ou filosóficas, como, por exemplo, o dever de alistamento eleitoral aos maiores de 18 anos e o dever de voto aos maiores de 18 anos e menores de 70 anos (CF, art. 14, § 1o, I e II), cujas prestações alternativas vêm previstas nos arts. 7o e 8o do Código Eleitoral (justificação ou pagamento de multa pecuniária). A prestação alternativa, porém, terá que ser compatível com as crenças ou convicções do indivíduo. Se o sujeito cumprir a prestação alternativa, não poderá ele ser privado de seus direitos. Serviço militar obrigatório - O art. 143 da Constituição Federal prevê que o serviço militar é obrigatório nos termos da lei (Lei n° 4.375/64, regulamentada pelo Decreto n° 57.654/66), competindo às Forças Armadas, na forma da lei, atribuir serviços alternativos aos que, em tempo de paz, após alistados, alegarem imperativo de consciência, entendendo-se como tal o decorrente de crença religiosa e de convicção filosófica ou política, para eximirem-se de atividade de caráter essencialmente militar. Entende-se por serviço militar alternativo o exercício de atividades de caráter administrativo, assistencial filantrópico ou mesmo produtivo, em substituição às atividades de caráter essencialmente militar. IX - É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; A liberdade de expressão e de manifestação do pensamento não pode sofrer nenhum tipo de limitação prévia, no tocante a censura de natureza política, filosófica, ideológica e artística. Caráter relativo – este princípio não tem caráter absoluto, visto que encontra limites em outros valores protegidos constitucionalmente, sobretudo, na inviolabilidade da privacidade e da intimidade do indivíduo e na vedação do racismo. Caso esta manifestação ato ilícito, será a pessoa que a manifestou responsabilizada civil e penalmente pelo ato praticado, sendo resguardado o direito à indenização por danos morais e materiais. O texto constitucional repele frontalmente a possibilidade de censura prévia. Essa previsão, porém, não significa que a liberdade de imprensa é absoluta, não encontrando restrições nos demais direitos fundamentais, pois a responsabilização do autor e/ou responsável pelas notícias injuriosas, difamantes, mentirosas sempre será cabível, em relação a eventuais danos materiais e morais. X - São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; Os direitos à intimidade e à própria imagem formam a proteção constitucional à vida privada, salvaguardando um espaço íntimo intransponível por intromissões ilícitas externas. A proteção constitucional refere-se tanto a pessoas físicas quanto a pessoas jurídicas, abrangendo, inclusive, à necessária proteção à própria imagem frente aos meios de comunicação em massa (televisão, rádio, jornais, revistas, etc.). A intimidade relaciona-se às relações subjetivas e de trato íntimo da pessoa, suas relações familiares e de amizade, enquanto a vida privada envolve todos os demais relacionamentos humanos, inclusive os objetivos, tais como relações comerciais, de trabalho, de estudo, etc. A proteção constitucional em relação àqueles que exercem atividade política ou ainda em relação aos artistas em geral deve ser interpretada de uma 92 forma mais restrita, havendo necessidadede uma maior tolerância ao se interpretar o ferimento das inviolabilidades à honra, à intimidade, à vida privada e à imagem, posto que devido ao próprio exercício de suas atividades profissionais se exige maior e constante exposição à mídia. Esta necessidade de interpretação mais restrita, porém, não afasta a proteção constitucional contra ofensas desarrazoadas, desproporcionais, e principalmente, sem qualquer nexo causal com a atividade profissional realizada. Pessoas jurídicas – as pessoas jurídicas também têm direito à indenização por danos morais, em razão de fato ofensivo à sua honra e à imagem. Porém, não podem ser sujeitos passivo de crime de calúnia ou injúria. XI - A casa é asilo inviolável do indivíduo ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial; Violação de domicílio legal, sem consentimento do morador, é permitida, porém, somente nas hipóteses constitucionais: Dia: flagrante delito ou desastre ou para prestar socorro, ou, ainda, por determinação judicial. Somente durante o dia, a proteção constitucional deixará de existir por determinação judicial (cláusula de reserva jurisdicional). Noite: flagrante delito ou desastre ou para prestar socorro. OBS.: Apesar de a Constituição se utilizar da palavra “casa” deve-se entender a mesma no sentido de “domicílio” o que engloba tanto a residência e a habitação com intenção definitiva ou temporária de estabelecimento, como também o local onde se exerce a profissão ou atividade, desde de que constitua um ambiente fechado ou de acesso restrito ao público, como é o caso típico dos escritórios profissionais e consultórios. Horários da violação – para cumprir ordem judicial, só durante o dia; para prestar socorro, diante de desastre ou flagrante delito, pode-se adentrar a qualquer hora do dia ou da noite. Obs.: parte da doutrina entende que dia é de 06:00 as 18:00. Já o STF se filia a corrente que entende que dia é da aurora ao crepúsculo (dos primeiros aos últimos raios de sol do dia). Cláusula de reserva jurisdicional – consistente na expressa previsão constitucional de competência exclusiva dos órgãos do Poder Judiciário, com total exclusão de qualquer outro órgão estatal, para a prática de determinados atos. Assim, nem a Polícia Judiciária, nem o Ministério Público, nem a Administração Tributária, nem a Comissão Parlamentar de Inquérito ou seus representantes, agindo por autoria própria, podem invadir domicílio alheio com o objetivo de apreender, durante o período diurno, e sem ordem judicial, quaisquer objetos que possam interessar ao Poder Público. Obs.: o STF admite, excepcionalmente, a violação de domicílio profissional durante a noite por ordem judicial para fins de instalação de escuta ambiental. XII - É inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução processual penal; Posicionamento jurisprudencial – embora a Constituição Federal não tenha previsto a possibilidade de quebra de sigilo de correspondência, das comunicações telegráficas e de dados, a jurisprudência do STF é assente no sentido de ser possível a quebra desses sigilos sempre que tais liberdades públicas estiverem sendo utilizadas como instrumento de salvaguarda de práticas ilícitas. Quebra de sigilo de correspondência – de acordo com o STF o sigilo de correspondência pode ser quebrado por ordem judicial e da administração penitenciária. Agentes que estão autorizados a quebrar o sigilo bancário – a garantia da inviolabilidade do sigilo bancário pode ser afastada: por determinação judicial; por determinação das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). por determinação da autoridade fiscal – o STF, em 24/02/2016, julgando as ADIs 2.390, 2.386, 93 2.397 e 2.859, bem como o RE 601.314, determinou constitucional a LC 105/2001 que permite às autoridades tributárias e agentes fiscais da União, dos Estados, do DF e dos Municípios, a examinar documentos, livros e registros de entidades financeiras, inclusive referentes a contas de depósitos e aplicações financeiras, quando houver procedimento administrativo instaurado ou procedimento fiscal em curso e tais exames sejam considerados indispensáveis pela autoridade administrativa competente, devendo tais informações ser mantidas em sigilo, observada a legislação tributária. No entendimento do STF não se trata propriamente de uma quebra de sigilo de dados bancários, mas de uma transferência desse sigilo da órbita bancária para a órbita fiscal. Quebra de sigilo fiscal – entende o STF julgou constitucional a LC 104/2001 que dispõe ser possível a transferência de sigilo fiscal, mediante solicitação da autoridade administrativa no interesse da Administração Pública, desde que seja comprovada a instauração regular de processo administrativo, no órgão ou na entidade respectiva, com o objetivo de investigar sujeito passivo a que se refere a informação, por prática de infração administrativa. Requisitos para a interceptação telefônica – a Constituição Federal permitiu a interceptação telefônica, desde que obedecidos alguns requisitos: deve haver uma lei que preveja as hipóteses e a forma em que pode ocorrer a interceptação telefônica, obrigatoriamente no âmbito da investigação criminal ou instrução processual penal; tem que haver uma efetiva investigação criminal ou instrução processual penal; tem que haver ordem judicial específica no caso concreto (trata-se da denominada “reserva jurisdicional”; nem mesmo a CPI pode determinar quebra de sigilo telefônico. Sendo deferida a interceptação telefônica, a prova colhida por meio desta permanecerá em segredo de justiça. Escuta telefônica (ou interceptação parcial) é a captação realizada por um terceiro de uma comunicação telefônica alheia, mas com o conhecimento de um dos comunicadores. XIII - É livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer; A regra é simples. Se não houver lei dispondo sobre determinada profissão, trabalho ou ofício, qualquer pessoa, a qualquer tempo, e de qualquer forma, pode exercê-la (por exemplo, artesão, marceneiro, carnavalesco, detetive particular, ator de teatro). Ao contrário, se houver lei estabelecendo uma qualificação profissional necessária, somente aquele que atender ao que exige a lei pode exercer esse trabalho, ofício ou profissão (casos do advogado, do médico, do engenheiro, do piloto de avião). XIV - É assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional; Defende abertamente o acesso à informação de forma ampla e autoaplicável. Traz, em si, liberdade de informação jornalística como expressão mais sensível de sua concretização. O resguardo do sigilo da fonte tem por escopo garantir uma espécie de segredo profissional, necessário em alguns casos para proteger o informante. Note-se que não se confunde com o anonimato, pois o jornalista ou a autoridade policial serão direta e legalmente responsáveis pelas notícias e/ou diligências que protagonizarem. XV - É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo qualquer pessoa nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair com seus bens; Consagrado aqui um dos direitos mais imediatos e inalienáveis do ser humano: o direito de ir, vir, permanecer, ficar ou sair; direito à livre locomoção. Qualquer cerceamento da liberdade de locomoção com ilegalidade ou abuso de poder será coibido pela impetração do habeas corpus. A partefinal diz que qualquer pessoa (inclusive estrangeiro) poderá entrar, ficar ou sair do Brasil, nos termos da lei, lei está que pode dispor sobre passaporte, registro, tributos e coisas do 94 gênero. Qualquer bem móvel está compreendido na proteção do dispositivo. XVI - Todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente; Conceito de reunião – o direito de reunião é meio de manifestação coletiva da liberdade de expressão, em que pessoas se associam temporariamente tendo por objeto um interesse comum. Requisitos – são requisitos do direito de reunião: finalidade pacífica – não há direito à realização de reuniões que tenham por fim praticar quaisquer espécies de atos de violência. ausência de armas – os participantes da reunião não podem usar armas. Entretanto, se algum participante estiver portando arma, o fato não autoriza a dissolução da reunião. Nesse caso, a autoridade policial competente deverá desarmá-lo ou desarmar o indivíduo infrator, permitindo que a reunião tenha andamento; é realizada locais abertos ao público – deve ser realizada em locais abertos ao público, ainda que de percurso móvel, evitando com isso a perturbação da ordem pública, ou mesmo a lesão de eventual direito de propriedade; não pode frustrar outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local – uma reunião não pode atrapalhar outra anteriormente convocada para o mesmo local. Irá prevalecer sempre aquela que primeiro comunicou à autoridade competente. independe de autorização – as autoridades públicas não dispõem de competência para e discricionariedade para decidirem pela conveniência, ou não, da realização da reunião, tampouco para interferirem indevidamente nas reuniões lícitas e pacíficas, em que não haja lesão ou perturbação da ordem pública. necessidade de prévio aviso à autoridade competente – o prévio aviso tem por finalidade dar conhecimento à autoridade competente sobre a realização da reunião, para que esta adote as providências que se fizerem necessárias, tais como a regularização do trânsito, a garantia da segurança e da ordem públicas, o impedimento de realização de outra reunião no mesmo local. XVII - É plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar; É plena a liberdade de associação, de tal forma que ninguém poderá ser compelido a associar- se ou mesmo permanecer associado, desde que para fins lícitos, vedada a de caráter militar. A associação de caráter paramilitar ou facção é uma sociedade armada, dotada de hierarquia, disciplina e com ideologia própria que, ao contrário do partido político, objetiva atingir o poder e desestabilizá-lo, através de quaisquer meios, inclusive pela força. XVIII - A criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento; Se é plena a liberdade de associação, nada mais lógico do que o direito de criá-las ser independente de autorização de quem quer que seja. Quem determina como vai ser a associação são os seus membros, e o Estado não pode interferir, por nenhum de seus órgãos no funcionamento da entidade. Quanto a cooperativas a disciplina é um pouco diferente. A sua criação também não depende de autorização de ninguém, e nenhum órgão estatal poderá interferir na sua gestão. No entanto, a Constituição determina que se obedeça a uma lei que vai dispor sobre a criação dessas entidades especiais. XIX - As associações só poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter suas atividades suspensas por decisões judiciais, exigindo-se, no primeiro caso, o trânsito em julgado; A dissolução voluntária de associação depende do que os associados decidirem a respeito, ou da disciplina do assunto dado pelo regimento interno, se houver um. O que a Constituição trata é como se fará a dissolução compulsória de associação, isto é, quando ela tiver que ser dissolvida contra a vontade dos sócios. Tanto para a suspensão das atividades quanto para dissolução compulsória, exige a Constituição uma decisão judicial, o que importa dizer que ordens administrativas ou policiais sobre o assunto são inconstitucionais. Entretanto, a suspensão das atividades da associação não depende do trânsito em julgado da decisão, já a sua dissolução compulsória depende. XX - Ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer-se associado; Ninguém será privado de exercício de um direito por não pertencer a qualquer espécie de associação. O direito individual de associar-se é exatamente isso: um direito. Ninguém pode ser obrigado à associação, nem a permanecer em uma. 95 XXI - As entidades associativas, quando expressamente autorizadas, têm legitimidade para representar seus filiados judicial ou extrajudicialmente; Uma das funções das associações é representar seus associados em ações judiciais ou administrativamente. Porém, para tanto as mesmas necessitam de uma autorização expressa. Representação processual x substituição processual – vejamos a diferença entre representação processual (art. 5º, XXI) ou substituição processual (art. 8º, III): Representação processual (art. 5º, XXI) – usualmente, aquele que pode ajuizar uma ação, isto é, aquele que tem legitimidade ativa, é o próprio titular do direito. O titular do direito pode, ele próprio, buscar a tutela do direito ou pode conferir a alguém a atribuição de representá-lo. Se o titular do direito for representado, o representante, ao ajuizar a ação, estará atuando em nome do representado, e na defesa de alegado direito do representado (portanto, em nome alheio e na defesa de direito alheio). Nesse caso, é necessário que o representado expressamente autorize o representante a ajuizar a ação. substituição processual (art. 8º, III) – em alguns casos, o ordenamento jurídico prevê a possibilidade da denominada legitimidade ativa extraordinária também chamada de substituição processual. Nessas situações, o substituto ajuíza a ação em seu nome próprio, mas na defesa de alegado direito alheio (direito do substituído). Quando isso ocorre, não é necessário que o substituído autorize expressamente o substituto a ajuizar a ação. Dualidade de tratamento em relação à legitimidade das associações (RMS 23.566-DF, Rel. Min. Moreira Alves) – o STF firmou o entendimento de que as associações, em algumas situações, atuam na qualidade de representante e em outras na qualidade de substituto processual: Representação processual (art. 5º, XXI) – na hipótese genérica do inciso XXI do art. 5º, temos o caso de representação processual, sendo, portanto, indispensável a autorização expressa e específica para a atuação da associação (a autorização pode ser firmada individualmente ou em assembléia); substituição processual (art. 8º, III) – na hipótese específica do inciso LXX do art. 5º (mandado de segurança coletivo) temos o caso de substituição processual, em que a associação defende em nome próprio interesse alheio, não se exigindo, portanto, autorização expressa e específica dos associados para a impetração da ação coletiva, bastando para tal a autorização genérica constantes dos atos constitutivos das associações. XXII - é garantido o direito de propriedade; Este dispositivo assegura as mais variadas espécies de propriedade, desde a imobiliária ou mobiliária até a intelectual e de marcas. É um dispositivo pelo qual se reconhece à pessoa, no Brasil, o direito de ser proprietário de algo, em contraponto com exclusividade da propriedade estatal de outros regimes. A CF, portanto, acaba indiretamente dispondo que o Brasil é um país capitalista. XXIII - A propriedade atenderá a sua