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MICROBIOLOGIA GERAL BACILLUS ANTRACIS Bacillus anthracis é um patógeno zoonótico; é o microrganismo causador de antraz, ou carbúnculo hemático. Bacillus cereus causa intoxicação alimentar e Bacillus thuringiensis é um patógeno de insetos lepidópteros. Estudos genômicos, inclusive hibridização DNADNA, comparações de sequências 16S rRNA e 23S rRNA, tipagem de sequência multilócus, eletroforese de enzimas multilócus e análise do polimorfismo do comprimento do fragmento amplificado, têm revelado alto grau de parentesco entre esses microrganismos, levando a propor que Bacillus anthracis, Bacillus cereus e Bacillus thuringiensis podem ser considerados como uma única espécie. Suas virulências e variações de hospedeiros são determinadas pelo seu conteúdo de plasmídio codificador do gene de virulência. Por exemplo, a virulência de B. anthracis requer a presença dos plasmídios pXO1 e pXO2, necessários para a produção da toxina e da cápsula de B. anthracis, respectivamente. MORFOLOGIA E COLORAÇÃO B. anthracis são bastonetes grampositivos grosseiramente retangulares, não móveis, com extremidades em ângulo reto (medindo cerca de 1 µm × 3 a 5 µm) (Figura 29.1). É comum verificar cadeias de bastonetes. Acreditase que a formação de cadeias contribua para a capacidade da bactéria em resistir à morte opsonofagocítica. Os esporos são produzidos no interior das células durante condições de privação de nutrientes e não causam tumefação da célula bacteriana. Uma cápsula é formada in vivo ou in vitro, em meio de cultura suplementada com bicarbonato e mantida em atmosfera com alta concentração de CO2 . COMPOSIÇÃO CELULAR B. anthracis apresenta uma parede celular típica de microrganismos grampositivos. Recobrindo a parede celular há uma estrutura paracristalina proteinácea denominada camada S. Embora não se tenha demonstrado que a camada S seja essencial para a virulência, relata-se que as cepas mutantes que não apresentam camada S são mais sensíveis à ligação ao componente C3 do sistema complemento. Os esporos são as variações infectantes de B. anthracis. São imunogênicos e tem se mostrado que a adição de esporos inativados aumenta o grau de imunidade contra cepas altamente virulentas de B. anthracis, em modelos de infecção em animais. Os esporos contêm várias camadas. O núcleo do esporo é a célula bacteriana inerte. É circundado pelo córtex, uma camada de peptidoglicano modificado, que é envolvida pelas camadas de revestimento interna e externa, camadas de proteínas que conferem a maioria das propriedades de resistência do esporo. A camada mais externa do esporo é a camada exósporo, que é separada da camada de revestimento por uma camada interespaço. O exósporo é constituído de uma camada basal paracristalina, e sua superfície externa é recoberta por filamentos de pelos semelhantes a fios de cabelo, composta de uma glicoproteína semelhante ao colágeno BclA. Como o exósporo é a estrutura mais externa do esporo, é provável que tenha importante participação nas interações com o ambiente e com o sistema imune do hospedeiro. Relata-se que o exósporo de B. anthracis participa na limitação de acesso a indutores de respostas de citocinas, in vitro, nos macrófagos. Tem-se mostrado que a fagocitose de esporos pelos macrófagos envolve interações entre BclA e integrina Mac1 (CR3). Os esporos que não apresentam a glicoproteína BclA não alcançam especificamente tais células e, mais comumente, ligam-se às células epiteliais. Relata-se que os esporos que não contêm BclA se ligam aos componentes da matriz extracelular, como laminina e fibronectina. As fibras de BclA da superfície do esporo podem promover fagocitose pelos “fagócitos profissionais” e inibir as interações inespecíficas dos esporos de B. anthracis com os fagócitos “não profissionais”, na fase inicial da infecção. PRODUTOS CELULARES DE INTERESSE MÉDICO Toxina letal (LeTx): B. anthracis produz duas toxinas codificadas por pXO1, associadas à virulência do microrganismo. A LeTx é uma toxina binária composta de “antígeno protetor” (PA) e “fator letal” (LF). O PA é responsável pela ligação de LeTx às “célulasalvo”, enquanto o LF é responsável por sua atividade tóxica. PA e LF se associam apenas após a ligação de PA a seu receptor e, em seguida, são submetidos à proteólise pelas endopeptidases da família furina. O PA processado forma um anel homoeptamérico (ou homoctomérico) na superfície da célulaalvo. O PA pode, então, atuar como um componente de ligação à proteína LF ou à toxina do edema. A toxina sofre endocitose e, na redução de pH no endossomo, ocorrem alterações de sua conformação e o PA forma um canal transmembrana para liberar LF no citosol. LF é uma metaloprotease composta de zinco que inibe proteinoquinases ativadas por mitógeno (quinases MAPK), mediante a clivagem de suas sequências N- terminais, resultando no comprometimento das vias sinalizadoras no interior das células infectadas e na inibição da proliferação celular e, por fim, na apoptose das células acometidas. Relata-se que macrófagos de várias espécies reagem à exposição à LeTx, mediante apoptose contínua. O termo LeTx se deve a seus efeitos letais em modelos de infecção animal, inclusive em porquinhosdaíndia, ratos e camundongos. A LeTx ocasiona colapsovascular (edema pleural e choque agudo); ademais, a exposição à LeTx purificada frequentemente resulta na ausência de achados histopatológicos. Acredita-se que a atividade da toxina no tecido cardíaco ocasione edema pulmonar. Em algumas cepas de camundongo, a exposição à LeTx resulta em rápida lise de macrófagos e produção de citocinas inflamatórias. No entanto, outras cepas não mostram tal propriedade. A lise de macrófago não é uma ocorrência comum em outros modelos animais. A exposição à LeTx resulta em apoptose de diversos tipos celulares e morte celular, independentemente da perda da função de barreira das células epiteliais e endoteliais, in vitro. A produção de LeTx é controlada pelo produto do gene regulatório AtxA (anthrax toxin activator, ou seja, ativador da toxina de antraz), o qual responde a fatores ambientais ainda desconhecidos; AtxA também é codificado por pXO1. A produção LeTx por células cultivadas in vitro é suprarregulada pela presença de bicarbonato no meio de cultura e pela atmosfera com alto teor de CO2 , por um mecanismo dependente de AtxA, sugerindo que esta possa ser a condição reconhecida pelo AtxA. A toxina letal é produzida em concentração 5 vezes maior que a da toxina do edema. Toxina do edema: o fator do edema (EF), o componente enzimaticamente ativo da toxina edema (EdTx), também é codificado pelo pXO1. EdTx é uma toxina binária que contém o receptor PA, o qual liga a subunidade e o EF. O PA libera EF no citoplasma das célulasalvo pelo mesmo mecanismo da toxina letal. EF é uma adenilil ciclase dependente da calmodulina que aumenta o teor de cAMP nas células acometidas. Isso altera as vias de sinalização celulares, resultando em alterações fisiológicas específicas ao tipo celular. Em modelos de infecção animal, a EdTx purificada causa lesões hemorrágicas em múltiplos órgãos, acompanhadas de hipotensão e bradicardia. A EdTx não se mostrou citotóxica em vários tipos de células. Relata- se que a EdTx suprime a agregação plaquetária induzida pela trombina e a coagulação. A produção de EdTx também é controlada pela AtxA. Cápsula: a variante vegetativa de B. anthracis produz uma cápsula constituída de um polímero do ácido poliγ- Dglutâmico. Os genes que codificam essa estrutura encontramse no plasmídio pXO2. A expressão dos genes que codificam a cápsula é controlada por dois produtos de genes reguladores,AtxA e AcpA (anthrax toxin activator e anthrax capsule activator, ou seja, ativador da toxina de antraz e ativador de cápsula de antraz, respectivamente), os quais respondem aos fatores ambientais. As cápsulas capacitam a forma vegetativa, de modo a evitar a fagocitose. A virulência da cepa da vacina Sterne é atenuada porque carece do plasmídio pXO2, que codifica a cápsula. PRODUTOS DIVERSOS ASSOCIADOS À VIRULÊNCIA: Vários homólogos de proteínas se mostraram importantes na virulência de outros microrganismos descobertos na sequência de DNA do genoma de B. anthracis. Esses incluem genes que codificam importantes proteínas envolvidas na sobrevivência da bactéria no interior dos fagolisossomos e nas superfícies mucosas (InhA e MprF) e no escape de fagolisossomos e células fagocíticas (antrolisinas). InhA: o inibidor imune A (InhA) é uma metaloprotease semelhante à produzida por B. cereus. Contribui na patogenicidade por meio de vários mecanismos, inclusive clivagem de proteínas antibacterianas, escape da bactéria da ação dos macrófagos, controle da coagulação sanguínea e degradação de proteínas associadas à matriz. Recentemente aventouse a possibilidade de que o InhA tenha participação crescente na permeabilidade da barreira hematencefálica e que contribua na incidência de hemorragias cerebrais. MprF: o genoma de B. anthracis contém o gene que codifica o homólogo de MprF (multiple peptide resistance factor, ou seja, fator de resistência a múltiplos peptídios) de Staphylococcus aureus. Temse mostrado que é conferida resistência às defensinas (presentes no interior dos fagolisossomos e nas secreções que revestem as superfícies mucosas), mediante a lisinilação de fosfolipídios da membrana da célula bacteriana. Antrolisinas: o genoma de B. anthracis contém genes que codificam antrolisinas (também denominadas antralisinas), três das quais são homólogas à fosfolipase C, além da antrolisina O, que é uma citolisina formadora de poro ligadora de colesterol. Embora essas antrolisinas sejam dispensáveis para a virulência, a perda de todas as quatro resulta em atenuação da patogenicidade. Supõe- se que elas sejam importantes no escape dos microrganismos da ação dos fagolisossomos, após a germinação dos esporos nos macrófagos. A antrolisina O é fracamente expressa por B. anthracis (motivo por que B. anthracis não é hemolítico). Isso acontece porque seu regulador, PIcR, é inativo em decorrência do truncamento de sua sequência de codificação. A antrolisina O recombinante é letal para monócitos, neutrófilos, macrófagos e linfócitos de pacientes humanos. Óxido nítrico sintase: bacilos e endósporos de B. anthracis exibem atividade de óxido nítrico sintase, que pode proteger a germinação de esporos da produção de óxido nítrico pelos macrófagos das células hospedeiras, pelo uso de substrato composto de um pool de arginina disponível. CONTROLE DE PRODUTOS CELULARES DE INTERESSE MÉDICO Há duas proteínas, AtxA e AcpA, que são produzidas em resposta aos fatores ambientais. Não se sabe quais são esses fatores, in vivo. No entanto, em condições apropriadas, a AtxA aumenta a produção de LeTx, EdTx e de proteínas envolvidas no escape da bactéria da ação de fagolisossomos e macrófagos. A produção de AcpA é exacerbada em atmosfera com maior teor de CO2 (5% ou mais). Nesse aspecto, a AtxA atua de modo sinérgico com a AcpA. Os genes que codificam AtxA e AcpA encontramse nos plasmídios pXO1 e pXO2, respectivamente. O regulador da transcrição de B. anthracis CodY ativa a expressão do gene da toxina mediante a regulação pós- translação do acúmulo do regulador do gene de virulência AtxA. O CodY também é necessário para a utilização do radical heme com uma fonte de ferro. CARACTERÍSTICAS DE CRESCIMENTO B. anthracis é um anaeróbico facultativo que se multiplica em meio de cultura comum, em temperatura de 15°C a 40°C. As colônias alcançam o diâmetro de 2 mm, ou mais, em 24 h, em 37°C. As colônias que se multiplicam em ambiente aeróbico apresentam superfície opaca e margens irregulares formadas por fileiras de cadeias de bactérias (colônias do tipo “cabeça de Medusa”). As células não apresentam cápsula, a menos que as bactérias se multipliquem em ambiente com mais de 5% de dióxido de carbono em meio contendo 0,7% de bicarbonato, no qual as colônias se apresentam mucoides. As bactérias não produzem zona de hemólise. Constata-se esporulação em condições de privação de nutrientes, in vitro. A esporulação requer oxigênio e não ocorre enquanto presente em um animal hospedeiro vivo. Nos tecidos ou fluidos infectados expostos ao ar (ou seja, carcaça aberta), os microrganismos esporulam após várias horas. RESISTÊNCIA Embora geralmente sensíveis a antibióticos, todas as cepas de B. anthracis sequenciadas contêm um gene de betalactamase latente, cuja transcrição é silenciosa. Foram identificadas cepas nas quais esse gene é ativado e induz resistência à penicilina. Em carcaças fechadas, as bactérias na variante vegetativa podem sobreviver por até 1 a 2 semanas, mas os esporos podem permanecer em ambiente estável seco durante décadas. Os esporos são mortos em autoclave (121°C, por 15 min) e em calor seco (150°C, por 60 min), mas não pela fervura (100°C) por menos que 10 min. Não são muito sensíveis aos desinfetantes fenólicos, alcoólicos e aos à base de amônio quaternário. Aldeídos, desinfetantes oxidantes e clorados, b- propiolactona e óxido etileno são mais efetivos. Os esporos são eficientemente inativados pela exposição à solução de cloro a 10%. A fixação de esfregaço da amostra ao calor não mata os esporos. VARIABILIDADE A natureza hiperaguda da doença infecciosa e o ciclo biológico com base nos esporos indicam que B. anthracis passa por uma quantidade limitada de divisões nos hospedeiros infectados e que não se replicam enquanto dormentes no solo. Desse modo, esses microrganismos têm sido submetidos a um número muito menor de ciclos de replicação que outras formas de bactérias patogênicas. Isso resulta em alteração mutacional de suas sequências genômicas muito menor e variação muito limitada entre as cepas. O genoma é mais homogêneo que com outros patógenos. RESERVATÓRIO O solo é a fonte de infecção de antraz para herbívoros. Outras espécies, inclusive as pessoas, são expostas por meio de animais e produtos de origem animal infectados. TRANSMISSÃO O esporo é o modo de infecção, a qual geralmente ocorre após ingestão de alimento ou água contaminado. Pode ocorrer exposição por meio de ferimentos infectados e picadas de artrópodes. Infecções humanas sucedem a exposição aos esporos de pele infectada ou de outros produtos animais e ao solo ou a exposição ao sangue ou ao tecido animal infectado. PATOGÊNESE MECANISMO Os esporos são adquiridos do ambiente (p. ex., do solo e de produtos animais) e são fagocitados por macrófagos ou por células dendríticas (neutrófilos polimorfonucleares não parecem participar no processo da doença). Os esporos germinam no compartimento do fagolisossomo. As bactérias na variante vegetativa escapam da ação dos fagolisossomos e, posteriormente, das células fagocíticas. Durante a replicação intracelular, as células fagocíticas se deslocam para os linfonodos regionais. A liberação da bactéria possibilita o acesso dos microrganismos na corrente sanguínea. PATOLOGIA Nos tecidos, os esporos germinam e a variante vegetativa prolifera, causando edema gelatinoso. As reações inflamatórias são mínimas. A infecção se dissemina a locais reticuloendoteliais, e, quando estes se saturam, ocorre bacteriemia terminal, com grande quantidade de microrganismos na circulação sanguínea. Não se constata lesãopatognomônica consistente e observamse lesões com semelhanças consideráveis com as de outras causas tóxicas e infecciosas de morte aguda. Os achados pós-morte incluem hemorragias disseminadas; baço friável, congesto e escuro; sangue com aspecto de alcatrão, sem coagulação; e ausência de rigor mortis. É comum notar hemorragia nos orifícios naturais do corpo. A transmissão experimental de B. anthracis mostrou que os bovinos são resistentes à inoculação parenteral de esporos, mas são sensíveis a esporos introduzidos por via oral. Possivelmente, a DL50 é inferior a 10 7 esporos. No caso de ovinos, a DL50 situase entre 50 e 250 esporos, quando inoculados por via subcutânea. Os suínos são resistentes às infecções letais por esporos de B. anthracis. Também, outras espécies, inclusive cães, coelhos e frangos, são muito resistentes à infecção por antraz. Ruminantes O mecanismo de doença descrito no texto anterior é típico para a maioria das espécies suscetíveis – bovinos e ovinos. A progressão da enfermidade, após um período de incubação de 1 a 5 dias, varia desde algumas horas até 2 dias. Alguns animais morrem sem manifestar sinais clínicos evidentes. Outros desenvolvem febre alta, agalaxia e pode ocorrer aborto. Observa-se congestão de membranas mucosas, hematúria, diarreia hemorrágica e, com frequência, edema regional, as quais, em geral, são apresentações fatais da doença. Ocasionalmente, alguns animais são acometidos de edema apenas localizado ou lesão cutânea ulcerativa e se recuperam. Equinos Os equinos manifestam cólica e diarreia. Também, desenvolvem edema, especialmente de partes dependentes e nos locais de infecção (p. ex., intestino ou garganta), podendo provocar morte por asfixia. De modo alternativo, a progressão da doença pode ser septicêmica, como acontece em ruminantes. Suínos Em suínos, a instalação das bactérias nos tecidos faringianos é típica. Uma lesão ulcerativa na porta de entrada do microrganismo está associada a linfadenite regional. Edema obstrutivo pode provocar morte. Às vezes, é possível notar enterite ulcerativa hemorrágica e linfadenite mesentérica. Carnívoros Carnívoros (inclusive martas) raramente são infectados. Quando infectados, o padrão da doença é semelhante ao verificado em suínos, embora a ingestão de grande quantidade de carne estragada possa ocasionar septicemia. EPIDEMIOLOGIA Um solo rico em cálcio e nitrato, com pH de 5 a 8, favorece a esporulação e a proliferação das bactérias em temperatura acima de 15,5°C, especialmente após inundações. A geografia e a sazonalidade dos surtos refletem tais condições. Em bovinos, ovinos e, possivelmente, equinos, os surtos se iniciam com alguns casos cuja contaminação foi oriunda do solo. Após a disseminação da contaminação do local com excreções e secreções, depois da morte do animal, surgem novos casos da doença. Enchentes e efluentes industriais de fábricas que industrializam carcaças de animais, curtumes, tecelagem de carpetes, fábricas de escovas, ou onde quer que haja manipulação de carcaças, podem contaminar as áreas. Farinha de osso, um suplemento alimentar de origem animal, é um veículo comum de contaminação em áreas não endêmicas. Carnívoros (martas) geralmente são contaminados pelo consumo de carne contaminada. Contaminações humanas ocorrem em atividades que lidam com animais e seus derivados como, couro, lã e ossos. A ocorrência de antraz em condições industriais frequentemente é a apresentação letal da doença transmitida pelo ar. Contaminações não industriais recentemente foram associadas a produtos como tambores de percussão decorativos. A manifestação usual de contaminação não industrial é o antraz cutâneo. CARACTERÍSTICAS IMUNOLÓGICAS O emprego de soro hiperimune pode impedir e reduzir a gravidade da doença. Acredita-se que haja envolvimento de fatores antibacterianos e antitóxicos. Na maioria das espécies, a imunidade é direcionada contra o antígeno protetor (PA). O polipeptídio capsular falha na estimulação da produção de anticorpo protetor. Na imunização de animais pecuários têm-se empregado, principalmente, vacinas de esporo vivo modificado, as quais, atualmente, são produzidas com mutantes avirulentos (não encapsulados). A de utilização mais ampla é a vacina Sterne (uma cepa de B. anthracis que não contém o plasmídio pXO2). Em pacientes humanos expostos ao antraz industrial, em pesquisadores que trabalham com B. anthracis ou em vítimas de acontecimentos com suspeita de bioterrorismo envolvendo B. anthracis, tem-se utilizado uma vacina livre de célula, constituída de um filtrado de cultura concentrado. São recomendadas cinco aplicações por via intramuscular, ao longo de um programa de 18 meses. Vacinas recombinantes que têm por base o PA se mostram promissoras. COLETA DE AMOSTRAS Na coleta de amostras, é importante tomar precauções em relação à contaminação do ambiente. É possível se obter a amostra de sangue de um vaso superficial. O humor aquoso tem a vantagem de estar distante das fontes de contaminação no período pós- morte inicial. Para o exame direto, coletam-se amostras de secreções sanguinolentas presentes nos orifícios naturais do organismo. Se a carcaça foi aberta, pode-se coletar material do baço. B. anthracis é classificado como um microrganismo de notificação obrigatória às agências de saúde oficiais norteamericanas; uma vez identificado, é submetido a normas rígidas de posse ou transporte. Apenas instalações e pessoas registradas podem ter posse de ou trabalhar com patógenos ou toxinas de microrganismos de notificação obrigatória. EXAME DIRETO Esfregaços de sangue e de órgãos são corados com o corante de Gram e com um corante de cápsula, como o azul de metileno de McFadyean. As cadeias de bastonetes encapsulados grampositivos, não formadores de esporos, são sugestivas de B. anthracis. As espécies de Bacillus contaminantes geralmente não apresentam cápsula, tampouco a aparência retangular do bacilo de antraz. A pesquisa de anticorpo fluorescente auxilia na diferenciação. ISOLAMENTO E IDENTIFICAÇÃO B. anthracis cresce em meio de cultura laboratorial comum. Não há evidência de zonas de hemólise ao redor das colônias, embora essa característica seja verificada em alguns outros Bacillus contaminantes, tampouco do teste de “colar de pérolas” (o arredondamento celular peculiar do contato de B. anthracis com penicilina, que origina uma cadeia de células esféricas. A identificação definitiva é realizada pela sensibilidade ao γbacteriófago. Inoculase o material suspeito por via subcutânea, em animais experimentais (camundongos, porquinhos da índia). A morte por antraz ocorre 24 h após a inoculação. As lesões incluem hemorragias, exsudato gelatinoso próximo ao local de inoculação e congestão do baço. A bactéria encapsulada é verificada no sangue e nos tecidos. IMUNODIAGNÓSTICO Os antígenos de B. anthracis podem ser detectados em extratos de produtos contaminados por meio de um teste de precipitação que utiliza antissoro preparado em coelhos mediante a imunização subcutânea, com a cepa Sterne (teste de Ascoli). O teste não apresenta alta especificidade, pois os antígenos termoestáveis de B. anthracis também são comuns a outras espécies de Bacillus; ademais, o teste depende da probabilidade de que haja proliferação de apenas B. anthracis por todo o organismo e que ocorra deposição de antígeno em quantidade suficiente para propiciar reação positiva. Atualmente, parece ser utilizado somente na Europa Oriental. TRATAMENTO, PREVENÇÃO E CONTROLE B. anthracis normalmente não apresenta resistência aos antibióticos. O tratamento deve ser mantido por,pelo menos, 5 dias. Em algumas regiões, administra-se antissoro, simultaneamente. Nos EUA, não há disponibilidade de antissoro. No caso de antraz agudo, o tratamento antimicrobiano, com frequência, não é efetivo. Populações em risco são vacinadas anualmente. Quando ocorre um surto ou um caso de antraz, as autoridades de saúde animal são notificadas para supervisionar as medidas de controle. O descarte de carcaças envolve incineração (preferida) ou enterramento profundo (> 2,0 m) sob uma camada de cal virgem (óxido de cálcio anidro). Os animais sobreviventes são isolados e tratados. O rebanho suscetível é vacinado. As propriedades ficam sob quarentena durante as 3 semanas subsequentes ao último caso diagnosticado. O leite de fêmeas infectadas é descartado, adotando-se cuidados apropriados. Celeiros e cercas são desinfetados com barrela (hidróxido de sódio a 10%). A fervura de utensílios durante 30 min mata os esporos. A descontaminação da superfície do solo com esporos é realizada pelo tratamento com solução de ácido peracético a 3%, no volume de 8 l/m 2 . Alguns outros materiais podem ser esterilizados a gás, com óxido de etileno. A prevenção de exposição ao antraz por contato com produtos de origem animal importados de regiões endêmicas requer a desinfecção desses artigos, como pelos e lã, com formaldeído. Farinha de osso é esterilizada por calor seco (150°C durante 3 h) ou por vapor (115°C durante 15 min). Carbunculo hemático – bacillus antracis - Doença infecciosa aguda causada por uma bactéria com distribuição mundial e afeta os animais e o homem. - Família Bacillaceae, Gênero Bacillus. - Do grego carvão preto, úlcera negra necróticas. - Carbunculo hemático – doença primária de animais domésticos e selvagens particularmente de herbívoros, bovinos, búfalos, eqüinos, mulas, cabras. - Forma de apresentação cutânea, intestinal e respiratória. PROPRIEDADES GERAIS - Produz esporos que podem sobreviver por muitos anos em alguns casos até 120 ou mais. - Forma vegetativa sensível a radiações ultravioletas, clorados, iodados, pasteurização. - Forma esporulada resistente a fervura, cozimento, conservação em refrigeradores. - No homem não muito comum, a doença pode ocorrer de forma acidental com o contato com animais doentes ou fômites, inalando, contato com a pele ou ingerindo carcaças ou produtos frescos de animais, como medula óssea, pelo, couro e excrementos. - Sem penetração ativa – tem que fagocitar. Forma esporulada transportada. Depende de plasmídios dispersos que codificam as toxinas. CÁPSULA Corado com azul de toluidina PATOGENIA - Potente e complexa endotoxina, composta por 3 frações termolábeis que além do caracter antigênico, determinam a potência de amostra em função de suas combinações: - Fator I ou Fator edematoso EF: é uma adenilase-ciclase sendo responsável pela formação de edemas. - Fator II ou Fator antígeno protetor PA: enzimas que potencializam as outras frações, sendo inativa quando sozinhas. - Fator III ou Fator letal LF: que é essencial para o efeito letal da toxina do B. anthracis sobre o organismo animal. Para o animal morrer precisa ter fator 1 e 3 no plasmídeo. Para vacina proteger precisa ter fator 2 e 3. DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL - Carbunculo sintomático - Envenenamento por herbicidas/ inseticidas - Raio - Enterotoxemias - Intoxicação por fosforados, clorados - Rúmen: ração a base de farinhas, não ajuda na ruminação, permanecendo na mucosa, não sendo digerida, formando gases, causando aumento de volume.