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Tecnologia Assistiva e Comunicação Alternativa W B A 0 19 3 _ v1 .3 2/274 Tecnologia Assistiva e Comunicação Alternativa Autor: Augusto Dutra Galery Como citar este documento: GALERY, Augusto Dutra. Tecnologia Assistiva e Comunicação Alternativa. Valinhos: 2016. Sumário Apresentação da Disciplina 03 Unidade 1: Introdução à tecnologia assistiva 05 Unidade 2: Ajudas técnicas 37 Unidade 3: Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão 71 Unidade 4: Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa 103 2/274 Unidade 5: O uso de recursos digitais 136 Unidade 6: Acessibilidade e design universal 169 Unidade 7: Sala de recursos multifuncionais 202 Unidade 8: Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais 236 3/274 Apresentação da Disciplina A tecnologia assume um papel essencial diante do fato de que a educação está em um momento de mudança de paradigma. De uma educação industrial, passa-se a um modelo inclusivo. A educação industrial é aquela que segue o modelo das fábricas do começo do século XX, nas quais o objetivo era a produção de peças padronizadas, regulares, em ritmo crescente. Para tanto, era necessário domesticar os corpos dos trabalhadores, moldá-los ao trabalho. Na educação, esse paradigma levou à burocratização da sala de aula em procedimentos didáticos que colocavam o conteúdo curricular como “produto” e os estudantes como os corpos a serem domesticados. Todo estudante deveria se comportar da mesma forma: guardar o seu silêncio, sentar-se em carteiras padronizadas, copiar as palavras da lousa. E, no final desse processo, todos deveriam ser capazes de repetir um mesmo conteúdo nas avaliações bimestrais. O aluno que não se comportasse da maneira correta ou não fosse capaz de se adaptar à avaliação convencional era punido – pela repetência – ou excluído – pela expulsão. E aquele estudante que, devido à presença de uma dificuldade específica, como um transtorno mental ou uma deficiência, não se encaixasse nesse modelo? A escola industrial simplesmente não o receberia. Ele era confinado em sua casa, numa escola especial ou, no melhor dos casos, numa classe especial dentro de uma escola regular. 4/274 À medida que o paradigma industrial está sendo superado e a diversidade é cada vez mais aceita e encorajada, a pedagogia se esforça em repensar seus modelos, a fim de construir uma escola capaz de atender a todos os estudantes, independentemente de suas peculiaridades. Para tanto, o avanço da tecnologia torna-se fundamental. A tecnologia possibilita, atualmente, que diversas barreiras antes impostas pela educação industrial sejam transpostas, como questões ligadas à comunicação, à coordenação motora, à adequação dos mobiliários etc. Ela é um importante suporte que visa garantir tanto a qualidade de vida, quanto a autonomia do estudante, podendo dar assistência ao professor no desafio de estabelecer um processo de ensino + aprendizagem compatível com as necessidades de todos os envolvidos. O objetivo desta disciplina é proporcionar a você uma visão de como os novos formatos de tecnologia podem auxiliar o professor e seus educandos a compartilharem uma sala de aula regular, dirigida a todos. Assim, você poderá entender os princípios que existem por trás de diversos métodos que estão à disposição do professor, incluindo como escolher uma ajuda técnica, quando saber se ela é necessária e a quem ela pode assessorar. 5/274 Unidade 1 Introdução à tecnologia assistiva Objetivos 1. Introduzir o conceito de tecnologia assistiva. 2. Relacionar tecnologia assistiva com inclusão escolar e autonomia. 3. Apresentar as propostas básicas das políticas inclusivas e as exigências legais relacionadas à tecnologia assistiva. Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva6/274 Introdução Uma das características que fez com que o ser humano pudesse transpor o reino animal e criar uma cultura foi sua capacidade de transformar o meio ambiente a sua volta para servir a propósitos específicos que o auxiliassem em suas mais variadas necessidades. Dominar o fogo, cultivar vegetais, lascar as pedras para fazer pontas de lanças ou flechas são exemplos das primeiras manipulações que fizemos e podem ser definidos como os primeiros usos de tecnologia pelo ser humano. Techné, palavra de origem grega, pode ser entendida como a capacidade humana de modificar materiais e produzir objetos1. 1 Exatamente por essa razão, a palavra techné hoje designa “arte”, no grego contemporâneo. Opõe-se a um conhecimento em estado puro (chamado de episteme), que não tem aplicação prática imediata alguma. Logus, por outro lado, refere-se ao uso da racionalidade. Tecnologia, portanto, junção das palavras Techné e Logus, pode ser entendida como a capacidade humana de produzir objetos por meios racionais. Não há época da humanidade em que a tecnologia não tenha se desenvolvido, embora, em alguns períodos, o estímulo às ciências tecnológicas tenha se acentuado, como no Iluminismo e, em especial, na época contemporânea. Mesmo na considerada “Idade das Trevas” (Séculos V a IX) houve grande avanço da tecnologia, em especial na agricultura. Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva7/274 A tecnologia sempre foi criada buscando a satisfação de alguma necessidade ou desejo humano e com o intuito de dominar a natureza. O melhor exemplo desse fato foi o domínio do fogo, pelos nossos antepassados neandertais. Pode- se considerar o fogo como uma das primeiras tecnologias produzidas pelo homem, de acordo com a nossa definição, porque os neandertais compreenderam a maneira de criar o fogo a partir de recursos naturais, bem como a mantê-lo e utilizá-lo (para defesa, iluminação, cozimento dos alimentos etc.). Além disso, através de uma tradição oral, passaram a ser capazes de registrá-lo culturalmente e compartilhar o conhecimento adquirido. Hoje, costumamos, vulgarmente, reduzir o termo tecnologia às inovações eletrônicas ou às do campo da informática, mas o termo mantém-se com sua amplitude. Podemos considerar como novas tecnologias aquelas técnicas e instrumentos que, mesmo sendo totalmente mecânicos, são baseados na aplicação de novos conhecimentos. Desde a antiguidade, a tecnologia foi utilizada para auxiliar em dificuldades específicas dos seres humanos, buscando superar obstáculos e compensar incapacidades inatas (características do nascimento) ou incapacidades adquiridas ao longo da vida. Muletas e apoios, Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva8/274 provavelmente, foram os primeiros instrumentos utilizados dessa maneira. Com a evolução da mecânica, mais e mais assistências puderam ser inventadas, incluindo as órteses e próteses produzidas desde o Império Romano, destinadas a substituir partes do corpo de soldados amputadas durante batalhas (como pernas e mãos de madeira e olhos de vidro). Para saber mais M. Jaques (JAQUES, Marceline E. Rehabilitation: historical origins. In: Patterson, C.H. Readings in rehabilitation counseling. Illinois: Stipes, 1960) cita um baixo relevo encontrado em uma tumba faraônica, por volta de 1580 a.C., que mostra um príncipe egípcio que utilizava uma espécie de muleta para compensar a atrofia de sua perna esquerda, provavelmente causada por ele ter sido vítima de poliomielite. É uma das mais antigas amostras de tecnologia assistiva retratadas na humanidade. A eletroeletrônica e a informática trouxeram um novo avanço no sentido de expandir as possibilidades de tecnologia assistiva, permitindo a construção de Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva9/274 membros biônicos, implantes cocleares, sintetizadores de voz e diversos outros aparatos que auxiliaram a reduzir as barreiras para a participação plena das pessoas com deficiência na sociedade. Atualmente, vivemos numa sociedade que valoriza muito o uso da tecnologia. Uma das consequências positivas dessenovo estilo de vida é termos cada vez mais opções de ajudas técnicas. Um exemplo disso é a norma internacional ISO 9999:2011. Com uma ampla gama de opções, essa norma traz nada menos que 980 exemplos de ajudas técnicas nas mais diversas categorias, que vão desde o apoio à saúde até a autonomia no lazer. Link No Brasil, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação lançou, com base na norma internacional ISO 9999:2011, o Catálogo Nacional de Produtos de Tecnologia Assistiva, que você pode encontrar no endereço <https:// assistivaitsbrasil.wordpress.com/catalogo/>. Numa escola que pretende ser inclusiva, o uso desses apoios torna-se fundamental para possibilitar a permanência dos estudantes com deficiência, assim como um processo de ensino + aprendizagem de qualidade. O uso da tecnologia pode criar novas formas de interação entre aluno e professor, possibilitando maneiras https://assistivaitsbrasil.wordpress.com/catalogo/ https://assistivaitsbrasil.wordpress.com/catalogo/ Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva10/274 diferentes de comunicação, flexibilização, didática e avaliação. No entanto, para que o potencial da tecnologia seja atingido, é necessário compreender o campo do saber que se abriu e tem se desenvolvido para permitir que o conhecimento acumulado pela humanidade possa auxiliar às pessoas com deficiência. O nome desse campo é Tecnologia Assistiva. 1. Tecnologia assistiva: conceito Romeu Sassaki, importante autor na área da inclusão, traduziu o termo “assistive technology” para o português como “tecnologia assistiva”, criando o neologismo (palavra que não existia na língua portuguesa) “assistivo”. O autor queria manter a ideia de uma tecnologia que fornecesse assistência às pessoas, no sentido de que está presente na vida do indivíduo, acompanhando-o e lhe dando suporte e apoio. Para saber mais A definição de assistência, no Dicionário Houaiss, é “ato ou efeito de proteger, de amparar, de auxiliar”. Já assistir é definido como “estar presente; prestar auxílio ou assistência a alguém”. O verbete assistiva, por ser neologismo, ainda não aparece na maioria dos dicionários. O termo “Tecnologia Assistiva” tem sido usado de diferentes formas, no Brasil. Por vezes, refere-se a cada uma das Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva11/274 ferramentas, métodos e técnicas utilizadas para dar apoio às pessoas com deficiência. Outras vezes, é entendido como todo e qualquer estudo que vise à inclusão de pessoas com deficiência na sociedade. No senso comum, a palavra “tecnologia” faz com que grande parte das pessoas pensem em sofisticados sistemas robóticos e computacionais. Para que você tenha clareza do conceito, utilizaremos, nesse curso, a definição dada pelo Comitê de Ajudas Técnicas, instituído em 2006, no âmbito da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. A partir de análise de documentos nacionais e internacionais, esse comitê propôs que Tecnologia Assistiva deva ser o nome preferencialmente utilizado e definido como: Tecnologia assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (BRASIL. Comitê de Ajudas Técnicas, 2009, p. 9). Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva12/274 Assim, a Tecnologia Assistiva é, antes de tudo, uma área do conhecimento. Ela é um campo de pesquisa no qual se estudam as barreiras presentes na sociedade para a participação de todos e se buscam soluções que removam ou diminuam tais barreiras. Pesquisa-se, ainda, os métodos para aplicação de tais soluções, que podem ser produtos físicos, como uma prótese ou uma cadeira de roda; recursos, como um aplicativo de computador; metodologias, como as técnicas utilizadas por auxiliares de vida; estratégias, como as inovações pedagógicas e didáticas; práticas, como as promovidas pelo atendimento especializado às pessoas com deficiência e serviços, como os serviços telefônicos para pessoas com deficiência auditiva. É um campo interdisciplinar, pois exige saberes de diferentes setores, que vão do campo da engenharia de computação à pedagogia, passando pelas áreas da saúde, psicologia, terapia ocupacional, letras, arquitetura e urbanismo, robótica e cibernética, química, física etc. A capacidade de inter-relação desses campos para produzirem saberes conjuntos é essencial, a fim de possibilitar novos olhares sobre as deficiências. A Tecnologia Assistiva está na interseção de diversas disciplinas. Ela é um campo de aplicação das inovações produzidas em cada uma dessas áreas. É importante você notar que a própria concepção do que é uma tecnologia de apoio se alterou nas últimas décadas, com Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva13/274 uma ênfase cada vez maior na modificação do ambiente. Antes vistas como uma “compensação de um corpo imperfeito”, as ajudas criadas agora concentram- se na questão da redução das barreiras, numa visão biopsicossocial de saúde que se foca na funcionalidade, ao invés de voltar-se para a incapacidade. Dessa forma, a Tecnologia Assistiva não irá incidir apenas sobre o sujeito com deficiência. Ela buscará mudar o entorno para permitir a participação de todos. Ao mesmo tempo, são reforçados vários aspectos da autonomia e da qualidade de vida das pessoas com deficiência, como princípios que dirigem o uso da Tecnologia Assistiva. 2. Tecnologia assistiva, inclusão escolar e autonomia A essa altura, você já deve ter ouvido falar sobre educação inclusiva ou inclusão escolar. A ideia de inclusão resulta da superação do paradigma médico em relação à deficiência, que se prendia aos limites e sintomas impostos por cada condição. Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva14/274 Link A visão da Organização Mundial de Saúde tem caminhado no mesmo sentido do movimento de inclusão, ao abranger o conceito de determinantes sociais em seu conceito de saúde. Atualmente, a OMS define “saúde” como o estado de bem-estar físico, mental e social, somado à ausência de afecções e enfermidades. Sobre o tema, vale a pena conferir o artigo de Scliar, disponível em: <http://www.scielo.br/ pdf/physis/v17n1/v17n1a03.pdf>. O paradigma da inclusão refere-se à necessidade de se identificar e eliminar ou reduzir as barreiras presentes na sociedade, a fim de permitir a participação de todos os que nela vivem. Para tanto, é necessária uma atuação proativa dos agentes sociais, que devem se preparar para o acolhimento, recepção e convívio das pessoas com quaisquer necessidades específicas que possam precisar de seus serviços. Para as escolas, por exemplo, isso significa adequar o espaço escolar não só do ponto de vista arquitetônico, mas modificar também o formato da educação, de forma a permitir que todos aprendam. Passa a ser papel da escola – assim como de toda http://www.scielo.br/pdf/physis/v17n1/v17n1a03.pdf http://www.scielo.br/pdf/physis/v17n1/v17n1a03.pdf Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva15/274 a sociedade – promover a autonomia da pessoa com deficiência. Por autonomia, entende-se a capacidade de dirigir a própria vida e determinar as suas ações. Não é possível uma autonomia radical: todo ser humano depende da vida em sociedade para sobreviver. No entanto, a nossa saúde mental, a construção de nossa identidade e a possibilidade de uma vida com qualidade requer que alcancemos um grau de autonomia que permita que nos reconheçamos como atores de nossas vidas, ao invés de simplesmente espectadores. Este é o trinômio que serve de suporte à Escola Para Todos: educação – inclusão – autonomia. Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva16/274 Figura1. Trinômio dos princípios da escola para todos Fonte: O autor. Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva17/274 Para possibilitar que esses três princípios sejam postos em prática, entra em cena a Tecnologia Assistiva, como o campo de estudo que permitirá encontrar novas soluções para se ultrapassar as atuais barreiras existentes no modelo de educação mais amplamente adotados. Embora muitos avanços estejam acontecendo na forma com que se vê a instauração do processo de ensino + aprendizagem, a comunidade escolar ainda vive um momento anterior, com ênfase no “aprender o conteúdo”, ao invés de investir no “aprender a aprender”. Por esta razão, as ajudas técnicas provenientes desse campo se fazem ainda mais necessárias. Mas é preciso modificar a ideia de que tais ajudas são de incidência apenas sobre o estudante com deficiência. Elas são uma responsabilidade social de toda a comunidade. Se lembrarmos da amplitude da definição de T.A. poderemos compreender que existirão soluções do ponto de vista pedagógico e didático para serem utilizadas pelos educadores. O uso de materiais, meios e métodos inovadores de aprendizagem vão, portanto, ser apoiados pela Tecnologia Assistiva. 3. A tecnologia assistiva na legislação A Constituição Federal de 1988 dispõe, a respeito da educação, em seu artigo 206, que: Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva18/274 Art. 206º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; [...]. Retomando o conceito de equidade – no qual a igualdade de condições será dada por um tratamento diferenciado, que contemple a diversidade – para um estudante com deficiência ter garantido seu acesso e sua permanência na escola, é preciso suprir-lhe das ajudas técnicas necessárias para tanto. Você só terá igualdade de condições para todos os estudantes se aqueles que necessitam de recursos específicos os receberem. É importante notar que, em nossa Constituição, não há menção à educação especial fora do ensino regular, sugerindo-se, portanto, que toda criança deve estar na escola regular para o ensino básico, conforme determina o Artigo 208 da Carta Magna: Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva19/274 Art. 208º O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria. Ou seja, a educação básica nos modelos nacionais para os indivíduos entre 4 e 17 anos é obrigatória, independentemente de presença ou não de deficiência. O que se torna opcional é o local onde será realizado o Atendimento Educacional Especializado de oferta obrigatória, conforme registra o mesmo artigo, em seu parágrafo III: III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. Em 2009, a Presidência da República, por meio do Decreto nº 6.949, promulgou a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, após Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva20/274 aprovação no Congresso Nacional. Este tratado, elaborado pela Organização das Nações Unidas, tem força no Brasil de emenda constitucional. Link Pelo Artigo 5º, parágrafo III, da Constituição Federal: Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência foi o primeiro tratado internacional a ser aprovado nestes termos, tendo, portanto, força de subjugar toda e qualquer lei nacional. Vale a pena conferir o Decreto nº 6.949/2009 para saber mais sobre estes direitos. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/ D6949.htm>. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D6949.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Decreto/D6949.htm Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva21/274 Essa convenção (Artigo 24º, Parágrafo 2, alínea D), preconiza que: As pessoas com deficiência recebam o apoio necessário, no âmbito do sistema educacional geral, com vistas a facilitar sua efetiva educação. O mesmo documento afirma que é obrigação dos Estados-Partes (aqueles que ratificaram a convenção) pesquisar e disponibilizar tecnologias assistivas e ajudas técnicas às pessoas com deficiência. Esses princípios irão influenciar a legislação posterior, tanto as direcionadas aos direitos das pessoas com deficiência, quanto aquelas relacionadas à educação. Assim, a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) fomenta a pesquisa na área da Tecnologia Assistiva voltada para a educação, assim como o planejamento para sua utilização pelas escolas, o acesso a ajudas técnicas e sua ampla oferta “de forma a ampliar habilidades funcionais dos estudantes, promovendo sua autonomia e participação” (BRASIL, 2015). Texto semelhante é encontrado na Lei do Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014), na qual a meta 4 se volta à universalização da educação para as pessoas com deficiência (em especial nos pontos 4.6 e 4.10). Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva22/274 Em nível federal, a principal política relativa às pessoas com deficiência ficou conhecida como Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Este documento coloca o uso da tecnologia assistiva como parte das atribuições do Atendimento Educacional Especializado (AEE). 4. A tecnologia assistiva nas políticas públicas Para fazer cumprir a lei, cada município e cada estado brasileiro montaram suas próprias políticas de acesso e distribuição à Tecnologia Assistiva, posto que a educação é descentralizada no Brasil. Para saber mais De acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu Artigo 211, aos municípios fica, prioritariamente, a responsabilidade pela educação infantil e ensino fundamental (em geral os anos iniciais) e os estados atuam, prioritariamente, no ensino fundamental e médio (em geral, anos finais), sempre de forma colaborativa entre si e com a União. Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva23/274 É no AEE que se encontram os especialistas capazes de indicar possibilidades para auxiliar o aprendizado dos alunos com deficiência, adequar as ajudas técnicas e treinar estudantes e professores para seu uso. Ao professor cabe o papel de identificar os alunos que, a seu ver, podem se beneficiar ao utilizar um recurso de Tecnologia Assistiva e interagir com os profissionais de AEE que, em geral, estarão locados numa Sala de Recursos Multifuncionais, de forma a possibilitar o melhor arranjo didático e pedagógico na relação entre educador, educando e ajuda técnica específica. Link O documento que define a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva traz um histórico da educação especial no Brasil, o diagnóstico da educação das pessoas com deficiência à época (2008), a definição do público a ser atendido pela educação especial e as diretrizes nacionais que guiam as políticas de educação especial. Pode ser encontrado em <http://portal. mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=16690- politica-nacional-de-educacao-especial- na-perspectiva-da-educacao-inclusiva- 05122014&Itemid=30192>. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=16690-politica-nacional-de-educacao-especial-na-perspectiva-da-educacao-inclusiva-05122014&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=16690-politica-nacional-de-educacao-especial-na-perspectiva-da-educacao-inclusiva-05122014&Itemid=30192http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=16690-politica-nacional-de-educacao-especial-na-perspectiva-da-educacao-inclusiva-05122014&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=16690-politica-nacional-de-educacao-especial-na-perspectiva-da-educacao-inclusiva-05122014&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=16690-politica-nacional-de-educacao-especial-na-perspectiva-da-educacao-inclusiva-05122014&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=16690-politica-nacional-de-educacao-especial-na-perspectiva-da-educacao-inclusiva-05122014&Itemid=30192 Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva24/274 Glossário Atendimento Educacional Especializado (AEE): Serviço que garante os direitos à educação dos estudantes com deficiência, através de oferta de atendimento complementar ou suplementar ao ensino regular. Equidade: é a garantia de oportunidades e direitos iguais, através de um tratamento diferenciado a pessoas diferentes, que vai ao encontro das necessidades específicas de um indivíduo. Nesse sentido, diferencia-se do mero conceito de igualdade. Sala de recursos multifuncionais: é o espaço destinado ao atendimento educacional especializado, munido das ajudas técnicas necessárias a esse serviço. Questão reflexão ? para 25/274 Você conhece as políticas e leis específicas da sua cidade ou estado sobre o acesso à Tecnologia Assistiva? Pesquise-as nos sites das Secretarias de Educação, da Assembleia Legislativa ou da Câmara Municipal da sua cidade. 26/274 Considerações Finais • A Tecnologia Assistiva é o campo de estudos que visa remover barreiras para a participação das pessoas com deficiência na sociedade. • A Escola Para Todos repousa no tripé: educação – inclusão – autonomia e é papel da Tecnologia Assistiva facilitar esses três princípios. • A legislação nacional privilegia a educação inclusiva e o uso das tecnologias assistivas como forma de inclusão. • As políticas de inclusão escolar veem a aplicação da Tecnologia Assistiva como parte do atendimento educacional especializado. Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva27/274 Referências BERSCH, R. Introdução à tecnologia assistiva. Porto Alegre: Assistiva, 2013. Disponível em: <http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf>. Acesso em: 8 dez. 2016. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. 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Brasília: Comitê de Ajudas Técnicas, 2009. http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva28/274 BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Portal de Ajudas Técnicas, 2013. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12681>. Acesso em: 8 dez. 2016. ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Assistive Technology Act of 1998. Washington: Congresso dos Estados Unidos, 1998. Disponivel em: <https://en.wikisource.org/wiki/Assistive_Technology_ Act_of_1998#Sec._3.>. Acesso em: 26 Out. 2016. 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Referências http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12681 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12681 https://en.wikisource.org/wiki/Assistive_Technology_Act_of_1998#Sec._3. https://en.wikisource.org/wiki/Assistive_Technology_Act_of_1998#Sec._3. http://www.galvaofilho.net/TA_dequesetrata.htm http://www.galvaofilho.net/TA_dequesetrata.htm http://www.cvi.org.br/martagil.asp http://assistiva.mct.gov.br/ http://www.assistiva.com.br/tassistiva.html http://www.assistiva.com.br/tassistiva.html Unidade 1 • Introdução à tecnologia assistiva29/274 TORNAGHI, A. J. D. C.; PRADO, M. E. B. B.; ALMEIDA, M. E. B. D. Tecnologias na Educação: ensinando e aprendendo com as TIC. Brasília: Secretaria de Educação a Distância, 2010. Disponível em: <http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/materiais/0000011620.pdf>. Acesso em: 8 dez. 2016. Referências http://portaldoprofessor.mec.gov.br/storage/materiais/0000011620.pdf 30/274 1. O termo “Tecnologia Assistiva” tem sido usado de diferentes formas, no Brasil. Assinale a alternativa que não se relaciona ao campo da Tecnologia Assistiva: a) Cada uma das ferramentas utilizadas para dar apoio às pessoas com deficiência. b) Todo e qualquer estudo que vise à inclusão de pessoas com deficiência na sociedade. c) Métodos e técnicas utilizadas para dar apoio às pessoas com deficiência. d) Soluções para eliminação de barreiras à inclusão das pessoas com deficiência. e) Conhecimento em estado puro (epistemológico) sobre autonomia e qualidade de vida. Questão 1 31/274 2. Qual é o trinômio que serve de suporte à Escola Para Todos? a) Educação – Exclusão – Autonomia. b) Educação – Ajudas técnicas – Autonomia. c) Educação – Tecnologia assistiva – Autonomia. d) Educação – Inclusão – Autonomia. e) Educação – Autonomia – Bem-estar. Questão 2 32/274 3. Analise as frases a seguir e marque aquela que está incorreta em relação ao conteúdo exposto no texto: a) A educação básica no Brasil, para os indivíduos entre 4 e 17 anos, é obrigatória, independentemente de presença ou não de deficiência. O que se torna opcional é o local onde será realizado o Atendimento Educacional Especializado. b) A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, apesar de aprovada pelo Estado Brasileiro, não tem eficácia de emenda constitucional no Brasil. c) Por autonomia, entende-se a capacidade de dirigir a própria vida e determinar as suas ações. Não é possível uma autonomia radical: todo ser humano depende da vida em sociedade para sobreviver. d) O termo “Tecnologia Assistiva” refere-se a cada uma dasferramentas, métodos e técnicas utilizadas para dar apoio às pessoas com deficiência. Outras vezes, é entendido como todo e qualquer estudo que vise à inclusão de pessoas com deficiência na sociedade. e) A Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, caracterizando-se por ser um campo de pesquisa no qual se estudam as barreiras presentes na sociedade para a participação de todos e se buscam soluções que removam ou diminuam tais barreiras. Questão 3 33/274 4. A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015) busca incentivar várias ações, exceto: a) A matrícula do aluno com deficiência em escola especial com Sala de Recurso Multifuncional. b) O planejamento da TA para sua utilização pelas escolas. c) O acesso dos estudantes às ajudas técnicas. d) A pesquisa na área da Tecnologia Assistiva voltada para a educação. e) Ampla oferta de ajudas técnicas, de forma a ampliar habilidades funcionais dos estudantes, promovendo sua autonomia e participação. Questão 4 34/274 5. Assinale, nas opções a seguir, aquilo que não pode ser considerado como uma solução de Tecnologia Assistiva, conforme o texto: a) Barras de apoio no banheiro para minimizar acidentes. b) Software sintetizador de voz. c) Domínio do fogo pelos homens. d) Implantes cocleares para surdos. e) Ajudas técnicas. Questão 5 35/274 Gabarito 1. Resposta: E. Tecnologia pode ser entendida como a capacidade humana de produzir objetos por meios racionais. Opõe-se a um conhecimento em estado puro (chamado de episteme), que não tem aplicação prática imediata. “Tecnologia Assistiva” refere-se a cada uma das ferramentas, métodos e técnicas utilizadas para dar apoio às pessoas com deficiência. Portanto, conhecimento em estado puro (epistemológico) sobre autonomia e qualidade de vida não tem relação com TA. 2. Resposta: D. O trinômio que serve de suporte à Escola Para Todos é Educação – Inclusão – Autonomia. A Exclusão é o oposto de Inclusão e inviabiliza a Escola Para Todos. As ajudas técnicas, Tecnologia Assistiva e bem-estar são importantes para viabilizar a Escola Para Todos, mas o tripé é composto pelos princípios básicos de Educar e Incluir, com autonomia. 3. Resposta: B. A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, aprovada pelo Estado Brasileiro, tem eficácia de emenda constitucional no Brasil por força do que dispõe o artigo 5º, parágrafo III, da Constituição Federal, segundo o qual “Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos 36/274 Gabarito que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais”. 4. Resposta: A. Na Lei Brasileira de Inclusão, não há menção à escola especial. Ao contrário, incentiva-se o sistema inclusivo de ensino em todos os níveis e modalidades. 5. Resposta: C. A palavra “Tecnologia” deriva da junção das palavras Techné e Logus, podendo ser entendida, de forma ampla, como a capacidade humana de produzir objetos por meios racionais. Já a Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços para promover a funcionalidade, atividade e participação de pessoas com deficiência, incapacidades ou mobilidade reduzida. Dominar o fogo é exemplo de tecnologia criada pelo homem, mas não de TA. 37/274 Unidade 2 Ajudas técnicas Objetivos 1. Apropriar-se das nomenclaturas utilizadas no campo da Tecnologia Assistiva, a saber: tecnologia assistiva, ajuda técnica e tecnologia de apoio. 2. Compreender quais são os principais recursos e serviços da Tecnologia Assistiva. 3. Compreender os princípios e função do Atendimento Educacional Especializado. 4. Compreender o que são e quais as principais ajudas técnicas presentes nas Salas de Recursos Multifuncionais. Unidade 2 • Ajudas técnicas38/274 Introdução O termo “Tecnologia Assistiva” é tradução da expressão inglesa “Assistive Technology” e foi popularizada no país a partir da década de 1990. Na comunidade acadêmica, tornou-se a palavra-chave mais comum para estudos que remetem ao assunto dos serviços e recursos voltados para a eliminação de barreiras às pessoas com deficiência. Por essa razão, o Comitê de Ajudas Técnicas (CAT), órgão brasileiro voltado ao tema no âmbito público e ligado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, sugere sua adoção na legislação e nos documentos oficiais no país. Para saber mais A expressão Assistive Technology surgiu nos Estados Unidos, em 1988, e faz parte da lei Assistive Technology Act, de 1998, referindo-se aos dispositivos de tecnologia para “aumentar, manter ou melhorar a capacidade funcional de um indivíduo com deficiência” ou a serviços “que auxiliam diretamente um indivíduo com deficiência na seleção, aquisição ou uso de uma ajuda técnica” (ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, 1998). No entanto, dois outros termos têm sido encontrados em referência ao tema. O primeiro deles é Tecnologia de Apoio. Essa foi a tradução feita para “Assistive Technology” em Portugal e alguns outros Unidade 2 • Ajudas técnicas39/274 países de língua portuguesa. Apesar de ser uma tradução que não utiliza o neologismo “assistiva”, essa expressão tem sido adotada por outras áreas, como a engenharia civil, levando a confusões sobre seu escopo. O outro termo é “ajudas técnicas”, bastante utilizado em países de língua espanhola (“ayudas tecnicas”), sendo também amplamente difundido em português. Tanto o termo “tecnologia assistiva” quanto “ajudas técnicas” têm sido usados indistintamente em diversos documentos. Na tradução oficial da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (BRASIL, 2009), os dois termos são adotados sem que se proponha uma distinção clara entre eles, mas reservando o termo “ajudas técnicas” para os recursos de mobilidade (“ajudas técnicas para locomoção”). A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (BRASIL, 2015) propõe que os termos sejam utilizados como sinônimos, definindo-os como: Produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social. Unidade 2 • Ajudas técnicas40/274 Assim, esses termos poderão ser usados como sinônimos, sem prejuízo algum do entendimento. No entanto, propomos para você uma divisão didática entre esses dois conceitos, devido a outra confusão que vem acontecendo neste campo, como veremos em seguida. Atualmente, Tecnologia Assistiva tem sido entendida tanto como um campo de estudo quanto como cada um dos recursos e serviços produzidos por esse campo. Assim, quando você lê um texto sobre Tecnologia Assistiva, fica difícil distinguir se o texto será sobre 1) os métodos de pesquisa que visam produzir soluções para reduzir as barreiras que impedem a participação ou 2) um determinado recurso ou serviço que será implementado num caso específico. O primeiro caso refere- se ao campo metodológico e teórico, o segundo, às aplicações práticas. Grande parte dos documentos oficiais (vindos dos poderes executivo ou legislativo) definem Tecnologia Assistiva como o campo de estudo, seguindo a recomendação do CAT, mas a Lei Brasileira de Inclusão a define como produtos, equipamentos, dispositivos etc. Vejamos esta diferença em duas definições: Unidade 2 • Ajudas técnicas41/274 1. Comitê de Ajudas Técnicas (CAT) Tecnologia Assistiva é uma área do conhecimento, de característica interdisciplinar, que engloba produtos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivam promover a funcionalidade, relacionada à atividade e participação, de pessoas com deficiência, incapacidadesou mobilidade reduzida, visando sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (BRASIL, 2009). 2. Lei Brasileira de Inclusão: Tecnologia assistiva ou ajuda técnica: produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços que objetivem promover a funcionalidade, relacionada à atividade e à participação da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, visando à sua autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social (BRASIL, 2015). Unidade 2 • Ajudas técnicas42/274 Para evitar tal ambiguidade, vou sugerir que entendamos, neste curso, Tecnologia Assistiva como o campo de pesquisa, que produzirá as ajudas técnicas, ou seja, os recursos e serviços específicos no campo aplicado. 1. Ajudas técnicas Ajudas técnicas são, portanto, as diversas possibilidades práticas de atuação criadas pelo campo da Tecnologia Assistiva. Sua função é a de reduzir ou eliminar uma barreira à plena participação de uma pessoa com deficiência, permitindo- lhe o acesso à vida social da forma mais autônoma possível. A Lei Brasileira de Inclusão divide as barreiras em seis tipos, que apresentamos no Quadro 1. Unidade 2 • Ajudas técnicas43/274 Quadro 1: Tipos de barreiras que podem exigir ajudas técnicas Tipo de barreira Exemplos de ajudas técnicas Urbanísticas Cadeiras de rodas, auxiliar de vida diária, pisos táteis. Arquitetônicas Mapas táteis, mobiliário adaptado. Nos transportes Elevador veicular para cadeiras de rodas, veículo adaptado para pessoas com deficiência. Nas comunicações e na informação Intérprete de Libras, audiodescrições de imagens, sinalização em Braille, pranchas de comunicação. Atitudinais Capacitação para inclusão, leis que protejam as pessoas contra a discriminação e leis de cotas. Tecnológicas Colmeias para teclado, comandos de voz, aplicativos de reconhecimento facial. Fonte: Adaptado de Brasil, 2015. Queremos que você note que as ajudas técnicas são específicas para as pessoas com deficiência. Embora o campo da Tecnologia Assistiva possa investigar as condições particulares que levem à acessibilidade ou utilizar os princípios de Design Universal, as ajudas técnicas serão Unidade 2 • Ajudas técnicas44/274 dirigidas para aumentar a funcionalidade de pessoas que tenham necessidades específicas. Nesse sentido, a construção de rampas de acesso em prédios não é uma ajuda técnica, pois se volta ao uso comum e beneficiará várias pessoas. Já os elevadores reservados às cadeiras de rodas, que são instalados ao lado de escadas, de uso muitas vezes exclusivo, poderão ser considerados ajudas técnicas, uma vez que beneficiarão especificamente os cadeirantes. O mesmo acontece na escola: materiais pedagógicos acessíveis e que utilizem os princípios do Design Universal para Aprendizagem são estudados pela Tecnologia Assistiva, mas não necessariamente serão ajudas técnicas. Contudo, o intérprete de Libras presente em sala de aula será um serviço prestado dentro da TA, ou seja, uma ajuda técnica. Link O Ministério da Educação disponibiliza, em seu site, um banco de ideias de ajudas técnicas para recursos pedagógicos no Portal de Ajudas Técnicas. Esse guia está disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/rec_ adaptados.pdf>. A escolha da ajuda técnica, em geral, deve envolver, no mínimo, a pessoa que será afetada por ela e os especialistas em TA, que podem promover uma avaliação da funcionalidade desejada, da incapacidade atual e das barreiras a serem superadas. Unidade 2 • Ajudas técnicas45/274 Tais especialistas deverão analisar o(s) ambiente(s) onde a ajuda será utilizada e planejar sua implementação. Eles também precisam considerar a potencialidade e os interesses da pessoa a ser beneficiada. Sabe-se, hoje, que pessoas com uma mesma condição e/ou limitação podem preferir soluções diferentes, que se adequem mais às suas necessidades específicas, assim como às suas destrezas já adquiridas. Por exemplo, é comum que duas pessoas com deficiência visual prefiram modos diferentes de acesso a textos. Algumas preferirão livros em Braille, outras terão mais facilidade com audiolivros, sendo cada vez mais comum, atualmente, aquelas que preferem um meio digital, de forma que o texto possa ser lido por um sintetizador de voz. Quando pensamos no ambiente educacional, uma terceira pessoa necessariamente deve estar envolvida na escolha da ajuda técnica: o educador, que precisa interagir com o aluno de forma a proporcionar o processo de ensino + aprendizagem. Por um lado, o educador pode auxiliar no processo, ao estabelecer as necessidades pedagógicas que deverão ser endereçadas na escolha. Por outro, ele deve conhecer o potencial da ajuda técnica, assim como as suas limitações. 2. Categorias das ajudas técnicas Existem diversas fontes que classificam as ajudas técnicas. Muitas partem dos Unidade 2 • Ajudas técnicas46/274 modelos médicos, indicando soluções a partir da lógica da compensação da limitação. Essas classificações são importantes porque guiam as políticas públicas de distribuição gratuita de ajudas técnicas. Outros modelos, que se voltam a uma visão biopsicossocial, dividem as ajudas em componentes técnicos, humanos e socioeconômicos. Para saber mais Os documentos mais citados sobre as categorias das ajudas técnicas são: • ISO 9999/2011, da International Standards Organization. • Classificação HEART, do Empowering Users Through Assistive Technology. • Normas Técnicas Brasileiras (NBR), da Associação Brasileira de Normas Técnicas (são diversos documentos, com destaque para a NBR 15.599/2008 e a NBR 9.050/2015). • Catálogo Nacional de Produtos de Tecnologia Assistiva, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Unidade 2 • Ajudas técnicas47/274 No Brasil, muitos teóricos, entre eles a autora Bersch (2013), vêm adaptando as classificações sugeridas nos Estados Unidos, que divide os recursos e serviços da Tecnologia Assistiva em doze tópicos: 1. Auxílios para a vida diária e para a vida prática (talheres modificados, roupas com velcro, barras de apoio etc.). 2. Comunicação aumentativa e alternativa (pranchas de comunicação, softwares de comunicação, vocalizadores etc.). 3. Recursos de acessibilidade ao computador (teclado expandido, colmeia, impressoras e teclados em Braille etc.). 4. Sistemas de controle de ambiente (controles remotos, sistemas de segurança para acidentes, acionadores por pressão etc.). 5. Projetos arquitetônicos para acessibilidade (elevadores para cadeiras de rodas, barras de apoio nos banheiros etc.). 6. Órteses e próteses (peças que melhoram a função de um segmento do corpo ou as substituem, respectivamente). 7. Adequação postural (poltrona postural, calça de contenção etc.). 8. Auxílios de mobilidade (cadeiras de rodas, andador etc.). Unidade 2 • Ajudas técnicas48/274 9. Auxílios para qualificação da habilidade visual e recursos que ampliam a informação para pessoas com baixa visão ou cegas (lupas, aplicativos texto-para-voz etc.). 10. Auxílios para pessoas com surdez ou déficit auditivo (aparelhos para baixa audição, aplicativos voz-para- texto, softwares tradutores para Libras, função closed caption etc.). 11. Mobilidade em veículos (facilitadores de embarque e desembarque, adequações veiculares em volantes e câmbios de marcha etc.); 12. Esporte e lazer (bola com guizo, prótese para corrida etc.). Em cada uma dessas categorias, podem constar recursos e serviços de Tecnologia Assistiva. Enquanto os recursos são os bens, físicos ou digitais, que podem auxiliar as pessoas com deficiência, os serviços são prestados por outro indivíduo (BERSCH, 2013). Desta forma, uma bengala é um Link Existem diversos materiais disponíveis que ilustram cada uma dessas categorias. Sugerimos que você veja o livro digital “Introdução à tecnologia assistiva”, de Rita Bersch, para fotos desses materiais. O livroestá disponível em <http://www.assistiva.com.br/Introducao_ Tecnologia_Assistiva.pdf>. http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf Unidade 2 • Ajudas técnicas49/274 recurso, enquanto a interpretação de Libras é um serviço. Na educação, o Ministério da Educação propõe que as ajudas técnicas se dividam em seis categorias de recursos (BRASIL, 2013): 1. Recursos pedagógicos adaptados. 2. Adaptadores manuais. 3. Informática. 4. Mobiliário adaptado. 5. Mobilidade. 6. Recursos para comunicação alternativa. Existem muitos profissionais que prestam serviços às pessoas com deficiência, com destaque para fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, pedagogos, enfermeiros, arquitetos, engenheiros, médicos, entre outros. Na educação, um serviço especial é cumprido pelos profissionais do Atendimento Educacional Especializado (AEE), que veremos logo a seguir. 3. Serviços de tecnologia assistiva Os serviços em Tecnologia Assistiva são definidos como: “desenvolver ações práticas que garantam ao máximo os resultados funcionais pretendidos pela pessoa com deficiência, no uso da tecnologia apropriada” (BRASIL, 2009, p. 28). Na educação, os serviços têm sido Unidade 2 • Ajudas técnicas50/274 oferecidos privilegiadamente através do Atendimento Educacional Especializado e das Salas de Recurso Multifuncionais. 3.1. Atendimento Educacional Especializado O Atendimento Educacional Especializado (AEE) é herdeiro da educação especial, ou ainda, sua evolução. Durante sua atuação, os profissionais da educação especial tornaram-se verdadeiros especialistas nas diversas didáticas que poderiam auxiliar a instauração do processo de ensino + aprendizagem junto às pessoas com deficiência. No novo processo de educação inclusiva, esses profissionais têm o potencial de auxiliar as escolas a sair da atual lógica industrial, na qual todos os estudantes são vistos como iguais, e ajudá- la a trabalhar com a diferença e a equidade. Para saber mais O movimento de segregação, que criou as escolas especiais, é considerado um avanço em relação ao período anterior, no qual as pessoas com deficiência não recebiam tipo de educação algum. Foi graças à vitória desse movimento que a sociedade pôde avançar para o paradigma inclusivo. As escolas segregadas existem, no Brasil, desde o Império e acumularam um grande saber em relação à educação de pessoas com as mais diversas deficiências. Muitas dessas instituições hoje oferecem parcerias para disponibilizar esse conhecimento para as instituições regulares. Unidade 2 • Ajudas técnicas51/274 Há, no entanto, uma grande modificação: o atendimento educacional especializado não pode ser mais substitutivo da educação regular, ou seja, a pessoa com deficiência deve estar matriculada na escola comum. O AEE funcionará do ponto de vista complementar ou suplementar. Complementar, quando traz técnicas que atuam paralelamente à sala de aula regular, auxiliando o estudante a participar das atividades dessa última. É o caso do ensino do uso do Braille para que estudantes cegos possam acompanhar as leituras em classe, por exemplo. O ensino é suplementar quando vai além do que é dado em classe regular, o que acontece, na maior parte das vezes, no caso de alunos com altas capacidades. É importante frisar, ainda, que o AEE não deve ser confundido com reforço escolar. Suas atividades são específicas, provenientes de uma pedagogia especializada que abordará as pessoas com deficiência. É por essa razão que se entende o AEE como um serviço em Tecnologia Assistiva. Da mesma forma, o AEE não se confunde com práticas clínicas, como as da Terapia Ocupacional, Fisioterapia ou outras. O AEE é um serviço pedagógico que tem os seguintes objetivos, conforme dispõe o Decreto nº 7.611, de 2011 (BRASIL, 2011): Unidade 2 • Ajudas técnicas52/274 I. prover condições de acesso, participação e aprendizagem no ensino regular e garantir serviços de apoio especializados de acordo com as necessidades individuais dos estudantes; II. garantir a transversalidade das ações da educação especial no ensino regular; III. fomentar o desenvolvimento de recursos didáticos e pedagógicos que eliminem as barreiras no processo de ensino e aprendizagem; e IV. assegurar condições para a continuidade de estudos nos demais níveis, etapas e modalidades de ensino. Link Vale a pena conhecer o conteúdo da Lei nº 7.611, de 2011, que define o AEE, pois ela esclarece sua função e seus objetivos. Ela está disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm>. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm Unidade 2 • Ajudas técnicas53/274 3.2. Salas De Recursos Multifuncionais As Salas de Recursos Multifuncionais (SRM) foram elaboradas de forma a possibilitar a união, no espaço da escola, entre o atendimento educacional especializado e o ensino regular. Como essas duas modalidades – antes separadas em escola especial e escola comum, respectivamente – agora precisam se relacionar para possibilitar a inclusão, fez-se necessário pensar um espaço que permitisse tal interação. Para saber mais Apesar de as salas de recursos multifuncionais serem o espaço privilegiado pelas políticas públicas para a oferta do AEE, ele não é o único espaço possível. Em muitas localidades, as antigas escolas especiais se converteram em espaços de AEE, atendendo às demandas das escolas de suas regiões nos contra turnos escolares. Em outros casos, as secretarias de educação montaram espaços propícios para o atendimento das suas unidades educacionais. As SRM recebem diversos recursos de TA para possibilitar os serviços de TA necessários à inclusão. Esses recursos serão geridos pela escola, em parceria com os profissionais de AEE, cabendo à Unidade 2 • Ajudas técnicas54/274 escola, inclusive, “efetivar a articulação pedagógica entre os professores que atuam na sala de recursos multifuncionais e os professores das salas de aula comuns, a fim de promover as condições de participação e aprendizagem dos alunos” (BRASIL, 2010, p. 4). Os recursos presentes nestes espaços podem – e devem – variar para atender aos casos específicos de cada escola, mas a política nacional de educação especial definiu uma composição padrão que poderá servir de ponto de partida para a organização destas salas. Quadro 2: Composição das salas de recursos multifuncionais Equipamentos 2 Computadores 1 Impressora multifuncional 1 Roteador wireless 1 Mouse com entrada para acionador 1 Acionador de pressão 1 Teclado com colmeia 1 Lupa eletrônica 1 Notebook Mobiliários 1 Mesa redonda 4 cadeiras para mesa redonda 2 Mesas para computador 2 Cadeiras giratórias 1 Mesa para impressora Unidade 2 • Ajudas técnicas55/274 1 Armário 1 Quadro branco Materiais didáticos pedagógicos 1 Software para comunicação aumentativa e alternativa 1 Esquema corporal 1 Sacolão criativo 1 Quebra-cabeças superpostos – sequência lógica 1 Bandinha rítmica 1 Material dourado 1 Tapete alfabético encaixado 1 Dominó de associação de ideias 1 Memória de numerais 1 Alfabeto móvel e sílabas móveis 1 Caixa tátil 1 Kit de lupas manuais 1 Alfabeto Braille 1 Dominó tátil 1 Memória tátil 1 Plano inclinado – suporte para livro Fonte: MEC (2010). Em relação aos serviços de AEE e SRM, cabe à escola planejar seu desenvolvimento, prevendo em seu Projeto Político Pedagógico: Unidade 2 • Ajudas técnicas56/274 I. salas de recursos multifuncionais: espaço físico, mobiliário, materiais didáticos, recursos pedagógicos e de acessibilidade e equipamentos específicos; II – matrícula no AEE de alunos matriculados no ensino regular da própria escola ou de outra escola; III – cronograma de atendimento dos alunos; IV – plano do AEE: identificaçãodas necessidades educacionais específicas dos alunos, definição dos recursos necessários e das atividades a serem desenvolvidas; V – professores para o exercício da docência do AEE; VI – profissionais da educação: tradutores e intérprete de Língua Brasileira de Sinais, guia intérprete e outros que atuem no apoio, principalmente às atividades de alimentação, higiene e locomoção; VII – redes de apoio no âmbito da atuação profissional, da formação, do desenvolvimento da pesquisa, do acesso a recursos, serviços e equipamentos, entre outros que maximizem o AEE (BRASIL, 2010, p. 3). Unidade 2 • Ajudas técnicas57/274 Glossário Acessibilidade: pode ser definida como a possibilidade e condição de alcance para utilização do meio físico, de produtos e serviços, incluindo os serviços de transporte e os dispositivos, sistemas e meios de comunicação e informação, por pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, caracterizando-se como a possibilidade de percepção e entendimento para a utilização, com segurança e autonomia, de edificações, espaços, mobiliários, equipamentos urbanos e elementos por essas pessoas (ABNT 15599, 2008). Design universal: concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem utilizados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva. O conceito de desenho universal tem como pressupostos: equiparação das possibilidades de uso, flexibilidade no uso, uso simples e intuitivo, captação da informação, tolerância ao erro, mínimo esforço físico, dimensionamento de espaços para acesso, uso e interação de todos os usuários (ABNT NBR 16537, 2016). Unidade 2 • Ajudas técnicas58/274 Glossário Design universal para aprendizagem: possibilidade de aplicação dos princípios do desenho universal à área educacional, sendo um importante instrumento para permitir uma educação para todos, pois leva em conta os diversos perfis de estudantes. Os princípios do desenho universal para a aprendizagem podem auxiliar os educadores a atender a todos os estudantes, mediante a adoção de objetivos de aprendizagem, materiais e métodos adequados. Questão reflexão ? para 59/274 Ao pensar em sua trajetória profissional, você já utilizou alguma ajuda técnica no manejo com os alunos? Reflita como o uso de um material pedagógico adaptado poderia ter impacto na atuação de um professor. 60/274 Considerações Finais • A Tecnologia Assistiva é um campo de estudos que busca diminuir ou eliminar barreiras à inclusão das pessoas com deficiência. • As ajudas técnicas são os recursos ou serviços advindos das pesquisas da Tecnologia Assistiva. • As ajudas técnicas mais utilizadas no ambiente escolar são recursos pedagógicos adaptados; adaptadores manuais; informática; mobiliário adaptado; mobilidade e recursos para comunicação alternativa. • Os serviços de Tecnologia Assistiva mais comuns nas escolas são o atendimento educacional especializado e as salas de recursos multifuncionais. Unidade 2 • Ajudas técnicas61/274 Referências ABNT. NBR 16.537. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2016. ABNT. NBR 15.599. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2008. BERSCH, R. Introdução à tecnologia assistiva. Porto Alegre: Assistiva, 2013. Disponível em: <http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf>. Acesso em: 24 out. 2016. BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, Brasília, 2011 – Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, 2009. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949. htm>. Acesso em: 1 abr. 2015. BRASIL. Nota Técnica – SEESP/GAB/nº 11/2010. Brasília: SEESP, 2010. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9937-nota-tecnica- 11-2010&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192>. Acesso em: 25 out. 2016. BRASIL. Decreto nº 7.611, de 17 de novembro de 2011. Dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências, Brasília, 2011, 17 nov. 2011. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611. htm>. Acesso em: 31 mar. 2015. http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9937-nota-tecnica-11-2010&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9937-nota-tecnica-11-2010&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9937-nota-tecnica-11-2010&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm Unidade 2 • Ajudas técnicas62/274 BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 – Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília: Congresso Nacional, 2015. BRASIL. Comitê de ajudas técnicas. Tecnologia Assistiva. Brasília: Comitê de Ajudas Técnicas, 2009. BRASIL. Ministério da educação. Portal de Ajudas Técnicas, 2013. Disponível em: <http://portal. mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12681>. Acesso em: 31 out. 2014. ONU. Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência. Nova Iorque: United Nations, 2006. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12681 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12681 63/274 1. O termo “Tecnologia Assistiva” tornou-se a palavra-chave mais comum para estudos que remetem ao assunto dos serviços e recursos voltados para a eliminação de barreiras às pessoas com deficiência. Há outros dois termos muito ligados à área e que também se confundem com TA. Marque a opção que os contempla: a) Tecnologia de apoio e desenho universal. b) Tecnologia de apoio e ajudas técnicas. c) Ajudas técnicas e acessibilidade. d) Ajudas técnicas e desenho universal. e) Tecnologia de apoio e acessibilidade. Questão 1 64/274 2. A Lei Brasileira de Inclusão divide as barreiras à acessibilidade em seis tipos diferentes. Marque a opção que apresente uma barreira não definida especificamente nessa lei: Questão 2 a) Urbanísticas. b) Arquitetônicas. c) Tecnológicas. d) Nas comunicações e na informação. e) No turismo. 65/274 3. Marque a opção com exemplos de ajudas técnicas: Questão 3 a) Elevador veicular para cadeiras de rodas, veículo adaptado para pessoas com deficiência. b) Mapas táteis, mobiliário adaptado. c) Colmeias para teclado, comandos de voz, aplicativos de reconhecimento facial. d) Intérprete de Libras, audiodescrições de imagens, sinalização em Braille, pranchas de comunicação. e) Todas as alternativas anteriores. 66/274 4. Sobre o Atendimento Educacional Especializado, é correto afirmar que: Questão 4 a) O AEE pode ser confundido com reforço escolar, por ter semelhanças com as aulas de reforço. b) O AEE se confunde com práticas clínicas, como as da terapia ocupacional, fisioterapia ou outras. c) O AEE pode ser considerado como um serviço em Tecnologia Assistiva. d) Suas atividades não são específicas, provenientes de uma pedagogia não especializada em pessoas com deficiência. e) Pode ser considerado substitutivo da aula regular. 67/274 5. Os seguintes materiais didáticos pedagógicos fazem parte da composição padrão das Salas de Recursos Multifuncionais definidas pelo MEC, exceto: Questão 5 a) Material dourado. b) Caixa tátil e Memória de numerais. c) Dominó de associação de ideias. d) Alfabeto móvel e sílabas móveis. e) Mesa redonda e quadro negro. 68/274Gabarito 1. Resposta: B. Os dois outros termos que têm sido encontrados com referência à Tecnologia Assistiva são tecnologia de apoio e ajudas técnicas. São expressões semelhantes e que têm sido usadas como sinônimos de TA, levando a confusões sobre a área de incidência de cada termo. A expressão “tecnologia de apoio” tem sido adotada por outras áreas, como a engenharia civil, aumentando a divergência entre os conceitos. Tanto o termo “tecnologia assistiva” quanto “ajudas técnicas” têm sido usados indistintamente em diversos documentos. Para evitar tal ambiguidade, neste curso, “tecnologia assistiva” será considerada como o campo de pesquisa, que produzirá as ajudas técnicas, ou seja, os recursos e serviços específicos no campo aplicado. 2. Resposta: E. A Lei Brasileira de Inclusão divide as barreiras em seis tipos, que são as urbanísticas; arquitetônicas; nos transportes; nas comunicações e na informação; atitudinais e tecnológicas. Embora, em tese, possam existir barreiras às pessoas com deficiência no turismo, dificultando o acesso a essa área, tal categoria não consta especificamente do texto da lei. 69/274 Gabarito 3. Resposta: E. Todas as opções são exemplos de ajudas técnicas, ou seja, de recursos e serviços específicos no campo aplicado, correspondendo às diversas possibilidades práticas de atuação criadas pelo campo da tecnologia assistiva. A função das ajudas técnicas é a de reduzir ou eliminar uma barreira à plena participação de uma pessoa com deficiência, permitindo- lhe o acesso à vida social da forma mais autônoma possível. 4. Resposta: C. O Atendimento Educacional Especializado não pode ser confundido com reforço escolar, não tendo semelhanças com as aulas de reforço. Também não se confunde com práticas clínicas, como as da terapia ocupacional, fisioterapia ou outras. Ele pode, na verdade, ser considerado como um serviço em tecnologia assistiva, sendo caracterizado por atividades específicas, provenientes de uma pedagogia especializada em pessoas com deficiência. Por esses motivos, o AEE não pode ser considerado substitutivo da aula regular. 5. Resposta: E. O material dourado, a caixa tátil e memória de numerais, o dominó de associação de ideias, o alfabeto móvel e sílabas móveis são materiais didáticos pedagógicos que fazem parte da composição padrão das 70/274 Gabarito salas de recursos multifuncionais definida pelo MEC. A mesa redonda faz parte do mobiliário e não dos materiais didáticos e o quadro negro não está lista. 71/274 Unidade 3 Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão Objetivos 1. Introduzir o conceito de barreira e explicitar sua centralidade para o entendimento da deficiência. 2. Apresentar o conceito de acessibilidade e suas relações com a Tecnologia Assistiva. 3. Apresentar o conceito de funcionalidade. 4. Mostrar que os conceitos de funcionalidade, acessibilidade e barreira contribuem para a mudança de um paradigma médico para um social. 5. Mostrar a contribuição da Tecnologia Assistiva para a consolidação do paradigma social de inclusão. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão72/274 Introdução A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, elaborada pela ONU e promulgada no Brasil (BRASIL, 2009), com status de emenda constitucional, traz a seguinte definição de deficiência: A deficiência resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas. A deficiência, portanto, não é uma característica pessoal, mas uma relação entre certas pessoas e as barreiras impostas pelo fato da sociedade não estar preparada para acolher todos os que nela nascem e vivem. A questão da exclusão da diferença foi uma constante na história da humanidade, intencionalmente ou não. Já na antiga Grécia cultivava-se o ideal de corpo perfeito, aquele que estaria pronto para a batalha. Também na Roma dos Césares, desejava-se mens sana in corpore sano. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão73/274 O ideal de perfeição migrou do corpo para a alma, durante a Idade Média (mas o corpo era reflexo da alma e um corpo “deformado” seria, portanto, consequência de uma alma desvirtuada). Ainda assim, a manufatura artesã, feita sob encomenda, e a proximidade entre quem construía e quem usufruía permitiam uma certa adequação aos sujeitos. Essa lógica Para saber mais Mens sana in corpore sano é uma citação do poeta Juvenal, que viveu em Roma, por volta do Século I d.C. Em sua sátira poética, Juvenal afirmava que não se deviam fazer orações vãs, mas somente pedir a Deus “uma mente saudável em corpo saudável”. iria modificar-se radicalmente com a entrada da era industrial. Para se permitir a fabricação em escala, era necessário eliminar a variabilidade e assumir-se um ser humano “universal”, padronizado. A sociedade atual ainda colhe os frutos dessa normatização dos corpos, sendo incapaz de lidar com a diversidade e, consequentemente, excluindo a diferença. Durante o século XX, principalmente, a tecnologia se voltou a produzir iguais, devido aos próprios limites da tecnologia. Não era possível modificar as grandes máquinas das fábricas para se admitir produtos variados. Como afirmava Henry Ford, em 1909: “Qualquer comprador pode ter um carro pintado da cor que ele quiser, desde que seja preto”. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão74/274 Mas a tecnologia vem se desenvolvendo em uma velocidade espantosa. E uma das principais direções para a qual essas mudanças caminham é a possibilidade de atender às necessidades específicas de cada indivíduo. Se, como afirmamos acima, as deficiências são a interação entre as características específicas de uma pessoa e as barreiras impostas pela sociedade, o avanço da tecnologia é o que permite que essas barreiras sejam transpostas, ao criar inovações que possibilitem a todos participar da sociedade. Conforme afirma Sassaki (2011), temos hoje barreiras de caráter quantitativo e qualitativo que precisam ser tratadas pela tecnologia. Barreiras quantitativas, pois a implantação de soluções encontradas pela Tecnologia Assistiva sofre com a falta de abrangência das ações de inclusão. Elas não estão sendo universalmente implementadas. Barreiras qualitativas, porque a sociedade ainda não se adequou ao paradigma inclusivo, recusando-se a avançar para o novo século e mantendo-se numa lógica segregadora e excludente. Link Romeu Sassaki, um dos mais renomados autores brasileiros na área de inclusão, discute as barreiras quantitativas e qualitativas na educação inclusiva e sugere soluções para tais barreiras, no texto Educação Inclusiva: barreiras e soluções, que pode ser encontrado em: <http://diversa.org.br/artigos/educacao- inclusiva-barreiras-e-solucoes/>. http://diversa.org.br/artigos/educacao-inclusiva-barreiras-e-solucoes http://diversa.org.br/artigos/educacao-inclusiva-barreiras-e-solucoes Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão75/274 Desta forma, a tecnologia passou a ter uma importância cada vez maior no combate à exclusão. Neste tema, buscaremos compreender como a tecnologia está ocupando um papel tão relevante na redução das barreiras à participação das pessoas com deficiência. No entanto, para que isto aconteça, é necessário entendermos o papel social da construção das deficiências e guiarmos as pesquisas e aplicações da tecnologia para o rumo certo, utilizando-a como facilitadora do processo de inclusão, o que significa colocá-la à disposição da diversidade. 1. Do paradigma médico para o paradigma social O paradigma médico passou a ser o reinante nas ações e nas representações das pessoas com deficiência a partir da Renascença. Foi nessa época quese instauraram novos modelos e práticas na forma com que fazemos ciência que irão guiar o modo como compreendemos as funcionalidades do corpo e suas limitações. Citaremos três dessas características que tiveram um imenso impacto em como a sociedade enxergará a deficiência: 1. O corpo-máquina 2. A individualização 3. A universalidade Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão76/274 Por corpo-máquina, entendemos a visão de corpo que funciona como uma máquina industrial. Metaforicamente, o corpo seria como um relógio: diversas peças que interagem e cumprem suas funções. A medicina, portanto, buscaria o funcionamento dessa máquina e as alterações seriam vistas como defeitos a serem reparados, função que também caberia à medicina. A individualização aconteceu ao se perceber o corpo como fronteira que isola o sujeito dentro de seu corpo, “separando-o do cosmos, dos outros e de si mesmo” (ALVES, 2015, p. 35). A medicina, então, trata o corpo de forma isolada. As consultas são individualizadas. Como consequência, cada um deve cuidar de seu próprio corpo, para mantê-lo apto à participação social. Por fim, na ciência iluminista, busca-se o universal: a lei única que rege todos os fenômenos de um determinado campo. O que não está na regra universal, está sofrendo forças contrárias. A saúde passa a ser definida como a ausência de doenças, ou seja, das forças contrárias que afastam o corpo de seu estado natural, normal e universal: Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão77/274 Toda noção de doença faria implicitamente referência a um estado de saúde tido como norma do bom funcionamento fisiológico [...]. Curar, então, significaria restaurar um certo modelo de saúde tido como normal, degradado pela doença (ALVES, 2015, p. 38). Assim, a pessoa com deficiência era vista, dentro desse modelo, como um sujeito fora da norma, que precisava buscar sua cura para poder participar da sociedade. Da mesma forma, a Tecnologia Assistiva investia em produzir ajudas técnicas individualizadas, com a função de fazer o corpo retornar ao seu padrão. O modelo social utiliza outra lógica de saúde, diferente do paradigma médico. A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) nos explica que: Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão78/274 O modelo social de incapacidade, por sua vez, considera a questão principalmente como um problema criado pela sociedade e, basicamente, como uma questão de integração plena do indivíduo na sociedade. A incapacidade não é um atributo de um indivíduo, mas sim um conjunto complexo de condições, muitas das quais criadas pelo ambiente social. Assim, a solução do problema requer uma acção social e é da responsabilidade colectiva da sociedade fazer as modificações ambientais necessárias para a participação plena das pessoas com incapacidades em todas as áreas da vida social. Portanto, é uma questão atitudinal ou ideológica que requer mudanças sociais que, a nível político, se transformam numa questão de direitos humanos. De acordo com este modelo, a incapacidade é uma questão política (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2015, p. 21). O modelo social e o médico não são excludentes, mas têm aplicações diversas. Eles compõem, em conjunto com a saúde mental, o paradigma chamado biopsicossocial, adotado pela CIF. E, nesse modelo, fortalece-se a visão de que, para se falar em equidade para as pessoas com Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão79/274 deficiência, é necessário remover as barreiras sociais. 2. Barreiras sociais para a inclusão e acessibilidade Imagine uma pessoa que more no seu prédio ou no mesmo quarteirão que você e que não pode, em uma determinada situação, mover as pernas. Pode ser que ela tenha tido uma paraplegia espástica infantil, durante o parto, ou uma doença infecciosa como a tuberculose óssea ou, ainda, ter sofrido um acidente no qual tenha lesionado a medula espinhal. Ou essa pessoa pode simplesmente ter fraturado um osso da perna e estar com a mesma engessada. Essa pessoa poderá se locomover? Digamos que ela tenha acesso a uma cadeira de rodas. A pergunta permanece: Ela poderá sair de casa e ir para o trabalho ou para a escola, ou desfrutar de lazer? Se a resposta for negativa, você já encontrou barreiras sociais em seu ambiente. A impossibilidade dessa pessoa se locomover já não depende apenas dela, posto que a cadeira de rodas deveria suprir sua incapacidade individual. O problema passa a ser mais amplo: as calçadas malfeitas, escadas e degraus do prédio, ausência de elevador, espaços muito exíguos, empecilhos e obstáculos colocados no caminho etc. Essa situação pode passar desapercebida para os chamados “andantes”, que conseguirão desviar dos obstáculos, mas constituirão barreiras para os cadeirantes. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão80/274 Tais barreiras só existem porque, ao se construir os ambientes sociais, não foram consideradas todas as pessoas, mas somente aquelas definidas dentro da normalidade do modelo médico. Qualquer pessoa que se desviasse desse modelo deveria ir ao médico para se tratar. Dessa forma, a barreira definia a doença. No modelo social, a diversidade determina a barreira, por se colocar entre o cidadão e seus direitos. Podemos então definir barreiras como: Qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa, bem como o gozo, a fruição e o exercício de seus direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e de expressão, à comunicação, ao acesso à informação, à compreensão, à circulação com segurança, entre outros (BRASIL, 2015). Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão81/274 2.1. Classificação das barreiras As barreiras têm sido classificadas a partir de seis dimensões (BRASIL, 2015): 1. Urbanísticas. 2. Arquitetônicas. 3. Nos transportes. 4. Nas comunicações e na informação. 5. Atitudinais. 6. Tecnológicas. Para saber mais No Brasil, tem-se tomado do modelo médico a classificação das deficiências, a saber: visual, auditiva, motora, mental ou intelectual e múltipla. Essa classificação é utilizada, por exemplo, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para fins de censo. Não há uma relação direta entre elas e as seis dimensões das barreiras. Ou seja, uma mesma barreira pode ser obstáculo para diferentes deficiências – por exemplo, os degraus, que são barreiras arquitetônicas, podem dificultar o acesso tanto de pessoas com deficiência física quanto visual. As barreiras urbanas são aquelas encontradas nos espaços públicos ou abertos ao público, mesmo que privados. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão82/274 Incluem as barreiras nas calçadas, praças, shopping centers, parques etc. Podem ser, por exemplo, as calçadas mal construídas e esburacadas, os locais públicos nos quais as pessoas não possam passar com cadeiras de rodas ou que não tenham pisos táteis para que os cegos possam se guiar, entre outros. As barreiras arquitetônicas aparecem quando os edifícios e construções, públicas ou privadas, não têm a acessibilidade necessária para permitir a circulação e o uso por pessoas com deficiência. Prédios que não tenham rampas, que tenham banheiros sem barra de apoio, espaços de circulação estreitos e falta de sinalização adequada são alguns dos exemplos de barreiras arquitetônicas. Nos transportes, as barreiras aparecem quando as pessoas com deficiência não podem se locomover de forma autônoma pela cidade, utilizando, inclusive, o transporte público. Ônibus sem elevadores para cadeiras de rodas e nos quais os nomes das linhas estejam disponíveis só por escrito são exemplos desse tipo de barreira. Qualquer impossibilidade de se receber ou transmitir informaçõespode ser considerada uma barreira na comunicação e na informação, seja pelo desconhecimento de formas alternativas de comunicação ou por atitudes e comportamentos que impeçam a utilização dos sistemas de comunicação. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão83/274 funções assistivas e utilizar princípios do design universal em seus aparelhos, o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) por esse grupo humano ainda é muito baixo e marcado pela desigualdade econômica. A opinião das pessoas e seus preconceitos afetam a forma como elas se comportam e interagem com outras pessoas. Elas podem, por conta de suas atitudes, impedir ou dificultar a participação social das pessoas com deficiência, criando barreiras atitudinais, em geral expressas através do preconceito, mas também do assistencialismo, infantilização, da piedade e do descrédito na capacidade de realização. Por fim, as barreiras tecnológicas estão relacionadas à exclusão digital das pessoas com deficiência, abarcando a falta de acesso a computadores, dispositivos portáteis (como celulares, smartphones e tablets) e uso da internet. Apesar do esforço de diversos fabricantes para introduzir Para saber mais O modelo médico classifica as deficiências a partir da normalidade do corpo; o social, a partir das barreiras no ambiente. Há outra forma de classificação, que é a partir dos lugares da exclusão. Stoer, Magalhães e Rodrigues (2004) definem cinco lugares a partir dos quais a sociedade exclui qualquer pessoa: exclusão do corpo; do trabalho; da cidadania; do direito à identidade e do território. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão84/274 O conceito de barreira, portanto, tem como um de seus objetivos possibilitar, na prática, planos de intervenção, permitindo que se elaborem análises do ambiente e se implementem estratégias de mudança com vistas à inclusão. Em conjunto com tal conceito, fortalecem-se os conceitos de acessibilidade e funcionalidade. 3. Acessibilidade O conceito de acessibilidade surgiu na década de 1940, com o esforço de reabilitar os veteranos da Segunda Guerra Mundial. Os profissionais de reabilitação percebiam que seus esforços eram dificultados pela forma como eram construídos os prédios e espaços urbanos (SASSAKI, 2006). Assim, surgiu, dentro da arquitetura, um campo de pesquisa que pretendia abordar as estruturas que poderiam facilitar ou dificultar o acesso de pessoas com deficiência às edificações. A partir de sua criação, percebeu-se que a acessibilidade não era benéfica apenas para as pessoas com deficiência e os reabilitados, mas para diversos grupos que dependiam, permanente ou provisoriamente, de reformas estruturais para sua mobilidade. Carrinhos de bebê e pessoas que estão com pernas imobilizadas, por exemplo, poderão usufruir melhor de um prédio que seja acessível, assim como idosos e obesos. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão85/274 Link O laboratório ADAPTSE, da Universidade Federal de Minas Gerais, tem uma página em seu website dedicada à literatura sobre acessibilidade, com destaque para os textos do Prof. Marcelo Pinto Guimarães, que discutem as relações entre inclusão e acessibilidade. Os textos podem ser encontrados em: <http://www.adaptse. org/17>. A Tecnologia Assistiva e a acessibilidade são campos que se intercruzam todo o tempo. A acessibilidade, no entanto, sempre será de impacto social (e não individual), pois refere-se aos princípios de universalidade de uso aplicados na construção dos espaços públicos, prédios, transportes etc. Trata-se, portanto, de alterar a forma com que são pensados, planejados e produzidos tais espaços. O quadro a seguir sintetiza as diferenças entre esses dois campos: http://www.adaptse.org/17 http://www.adaptse.org/17 Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão86/274 Quadro 1: Diferenças entre acessibilidade e tecnologia assistiva Acessibilidade Tecnologia Assistiva Modificação dos projetos de construção dos espaços. Princípio da universalidade do uso a partir da diversidade. Alcance sempre social. Recursos e serviços que complementam os espaços. Princípio da remoção de barreiras específicas para cada indivíduo. Alcance individual, coletivo ou social. Fonte: O autor. A acessibilidade é, muitas vezes, pensada a partir da ajuda técnica que será utilizada, por isso considera não só as características pessoais, mas também os recursos de Tecnologia Assistiva disponíveis. Por exemplo, ao se pensar em espaços de circulação em sala de aula, é necessário lembrar que uma pessoa com paraplegia (característica pessoal que provoca perda de controle nos membros inferiores) provavelmente utilizará uma cadeira de rodas (ajuda técnica). Portanto, as passagens devem ter pelo menos 90 cm de largura (acessibilidade), possibilitando que a cadeira se desloque adequadamente. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão87/274 4. Funcionalidade e tecnologia assistiva Se você é um professor, um fisioterapeuta ou um parente de uma pessoa com deficiência, provavelmente se sentiu desapontado ao sair de uma consulta médica, na qual esse profissional expôs o diagnóstico e passou as recomendações Para saber mais A norma técnica NBR 9050:2015 define os padrões de acessibilidade a edificações, mobiliários, espaços e equipamentos urbanos, sendo essencial sua observância para se planejar as reformas e adequações de escolas e outros lugares públicos. dos cuidados de que essa pessoa precisará, além de uma provável lista de restrições para as quais ela deverá se preparar. A lógica da funcionalidade é a reversa: ao invés de se focar nas condições do corpo e sintomas da deficiência, sua ênfase estará nas atividades que um indivíduo deve desenvolver para conquistar sua autonomia e ter qualidade de vida. Assim, funcionalidade é uma mudança de estratégia em relação ao desenvolvimento das pessoas com deficiência, na qual são planejadas que funções são necessárias para garantir sua participação na sociedade e são criadas estratégias para que elas as alcancem. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão88/274 Para que isso seja possível, devem ser investigadas as possíveis incapacidades que essa pessoa possua, devido às suas características pessoais, assim como as características das atividades que se buscam desenvolver e as características do ambiente que possam atuar como barreiras ou facilitadores para a atividade. Para termos um exemplo histórico: Na lógica da deficiência como limitante, os cegos não podiam ler, pois o registro da língua – o alfabeto escrito – dependia da visão. Na lógica da funcionalidade, a aquisição da leitura é a função que precisamos buscar. A barreira é o uso do alfabeto escrito. É preciso, então, modificar-se o ambiente para permitir a participação. Que outros sentidos podem ser usados, então, para eliminar essa barreira? A solução encontrada por Louis Braille, por volta de 1820, foi utilizar o tato e montar um alfabeto que poderia ser lido com os dedos, ao invés dos olhos, mundialmente conhecido como Alfabeto Braille. Dessa forma, a funcionalidade pôde ser alcançada. Quadro 2: Exemplo de uso do modelo de funcionalidade Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão89/274 Funcionalidade Incapacidade Barreira ambiental Solução • Ler • Uso da visão • Letras escritas • Uso do tato Fonte: O autor. Assim, a funcionalidade torna-se o objetivo a ser alcançado e se permitem soluções inovadoras para os desafios colocados. Como você já deve ter percebido, a funcionalidade tem muita afinidade com o campo da Tecnologia Assistiva, podendo ser utilizada como referencial para que as ajudas técnicas sejam construídas. Trata-se de construir ajudas que possam auxiliar um indivíduo a adquirir uma funcionalidadedesejada. Link A CIF é um dos documentos de maior usabilidade para profissionais de áreas não médicas que trabalhem com pessoas com deficiência. Há uma versão em português europeu disponibilizada pelo Instituto Nacional de Reabilitação, no endereço: <http://www.inr.pt/uploads/docs/cif/CIF_ port_%202004.pdf>. http://www.inr.pt/uploads/docs/cif/CIF_port_%202004.pdf http://www.inr.pt/uploads/docs/cif/CIF_port_%202004.pdf Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão90/274 Glossário Paraplegia espástica infantil: É uma doença congênita da primeira infância que surge devido a lesões do córtex cerebral ocorridas durante o parto, em razão de hemorragias cerebrais obstétricas ou alterações no desenvolvimento do cérebro. Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs): podem ser definidas como um conjunto de recursos tecnológicos, utilizados de forma integrada, mediante a adoção de recursos digitais para transmitir dados e informações. As TICs podem ser usadas em vários setores, como a indústria (no processo de automação), o comércio (no gerenciamento, nas diversas formas de publicidade), o setor de investimentos (informação simultânea, comunicação imediata) e a educação (no processo de ensino-aprendizagem, na Educação a Distância). Uma das áreas mais favorecidas pelas TICs é, sem dúvida, a educacional. Na educação presencial, as TICs são vistas como potencializadoras dos processos de ensino-aprendizagem, trazendo possibilidade de maior comunicação e aprendizado pelas pessoas com deficiência. As TICs representam também um avanço na educação a distância. Com a criação de ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), os alunos têm a possibilidade de se relacionar, trocando informações e experiências. Os professores e/ou tutores têm a possibilidade de realizar trabalhos em grupos, debates, fóruns etc. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão91/274 Glossário Braille: Sistema, inventado por Louis Braille (1809-1852), de representação das letras do alfabeto, sinais matemáticos e de pontuação, números, notas musicais, simbologia química etc., formado por arranjos de pontos em relevo, dispostos em duas colunas de três pontos na Cella Braille (ABNT NBR 15599, 2008). Questão reflexão ? para 92/274 É muito importante tentar modificar nossa atitude frente às deficiências em relação a nossos alunos, saindo do paradigma médico e passando a vê-lo a partir da funcionalidade. Reflita sobre suas próprias atitudes: você acha que se deixaria paralisar pelos diagnósticos médicos? Busque praticar a ideia de inovação a partir da relação entre: funcionalidade necessária + características pessoais + barreiras a serem removidas. 93/274 Considerações Finais • É necessário sair do paradigma médico para se pensar no potencial de aprendizagem de estudantes com deficiência. • O paradigma biopsicossocial sugere que utilizemos a relação entre as características pessoais, as funcionalidades necessárias para a atividade e a participação e as barreiras impostas pelo ambiente. • As barreiras impedem a participação social porque se colocam entre o cidadão e os ambientes, dificultando o acesso aos seus direitos. • A acessibilidade requer a construção de ambientes que permitam a universalidade de uso na diversidade. Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão94/274 Referências ABNT. NBR 15.599. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2008. ALVES, N. C. R. A construção sociopolítica dos transtornos mentais e do comportamento relacionados ao trabalho. São Paulo: Tese – Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2015. BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, Brasília, 2011 – Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, 2009. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949. htm>. Acesso em: 9 dez. 2016. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 – Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília: Congresso Nacional, 2015. GUIMARÃES, M. P. A acessibilidade da sociedade inclusiva. Laboratório ADAPTSE, 2000. Disponível em: <http://www.adaptse.org/1727>. Acesso em: 9 dez. 2016. GUIMARÃES, M. P. Municípios construindo acessibilidade: o que todo prefeito deve saber. Laboratório ADAPTSE, 2009. Disponível em: <http://www.adaptse.org/172>. Acesso em: 9 dez. 2016. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://www.adaptse.org/1727 http://www.adaptse.org/172 Unidade 3 • Tecnologia, funcionalidade e barreiras para a inclusão95/274 ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF). World Health Organization, 16 dec. 2015. Disponível em: <http://apps.who. int/classifications/icf/en/>. Acesso em: 9 dez. 2016. SASSAKI, R. Educação inclusiva: barreiras e soluções. Diversa, 19 dez. 2011. Disponível em: <http://diversa.org.br/artigos/educacao-inclusiva-barreiras-e-solucoes/>. Acesso em: 9 dez. 2016. SASSAKI, R. K. O conceito de acessibilidade. Bengala Legal, 2006. Disponível em: <http://www. bengalalegal.com/romeusassaki>. Acesso em: 9 dez. 2016. STOER, S.; MAGALHÃES, A.; RODRIGUES, D. Os lugares da exclusão social. São Paulo: Cortez, 2004. http://apps.who.int/classifications/icf/en http://apps.who.int/classifications/icf/en http://diversa.org.br/artigos/educacao-inclusiva-barreiras-e-solucoes/ http://www.bengalalegal.com/romeusassaki http://www.bengalalegal.com/romeusassaki 96/274 1. O paradigma médico passou a ser predominante a partir da Renascença. Ele guiou a compreensão das funcionalidades do corpo e suas limitações. Podem ser citadas algumas características desse período. Assinale a alternativa que não contempla uma característica ligada ao paradigma médico: a) O corpo-máquina. b) A individualização do corpo. c) A universalidade do corpo. d) Corpo como máquina industrial. e) Modelo social de incapacidade e barreiras no ambiente. Questão 1 97/274 2. Podem ser definidos como barreiras à acessibilidade os seguintes exemplos, exceto: a) Qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a participação social da pessoa. b) Qualquer obstáculo que impeça o gozo, a fruição e o exercício dos direitos à acessibilidade. c) Obstáculos à liberdade de movimento e de expressão, bem como à comunicação. d) Entraves ao acesso à informação, à compreensão e à circulação com segurança. e) Elevadores para cadeiras de rodas, mapas táteis e pisos táteis. Questão 2 98/274 3. O modelo médico classifica as deficiências pressupondo a normalidade do corpo. Há outras formas de classificação, como a partir dos lugares da exclusão. Stoer, Magalhães e Rodrigues são autores que definem alguns lugares a partir dos quais a sociedade exclui as pessoas. São exemplos desses lugares, com exceção de: a) Exclusão do corpo; do trabalho. b) Exclusão da cidadania. c) Exclusão do direito à identidade. d) Exclusão do território. e) Exclusão médica. Questão 3 99/274 4. Qual das opções a seguir, conforme o texto, é uma diferença entre acessibilidade e tecnologia assistiva? a) A acessibilidade busca a modificação dos espaços e a TA dos serviços que complementam os espaços. b) A acessibilidade tem alcance sempre social e a TA tem alcance sempre individual. c) A acessibilidade prega o princípio da universalidade do uso a partir da diversidade e a TA busca o princípio da remoção de barreiras específicas para cada indivíduo. d) A acessibilidade é feita por engenheiros e a TA por tecnólogos. e) A acessibilidade visa às necessidades especiais e a TA as pessoas especiais. Questão 4 100/274 5. Qual é o paradigma de inclusão utilizado na Classificação Internacional de Funcionalidade (CIF)? Assinale a alternativa correta:a) O paradigma médico. b) O paradigma biopsicossocial. c) O paradigma social. d) O paradigma psicológico. e) O paradigma educacional. Questão 5 101/274 Gabarito 1. Resposta: E. O paradigma médico privilegia a compreensão das funcionalidades do corpo e suas limitações, classificando as deficiências a partir da normalidade do corpo. Nesse paradigma, o corpo é tratado como uma máquina industrial, individual e universal, porque não se pensa nas diversas possibilidades de corpos existentes. O Modelo social tem foco diferente, pois parte da incapacidade e do conceito de barreiras no ambiente, não se centralizando apenas no indivíduo. 2. Resposta: E. Barreiras são os entraves, os obstáculos, atitudes ou comportamentos que limitem ou impeçam a participação social da pessoa e o acesso à educação, direitos, serviços, bens, produtos etc. Os elevadores para cadeiras de rodas, os mapas táteis e os pisos táteis são exemplos de ajudas técnicas que pretendem eliminar as diversas barreiras existentes. 3. Resposta: E. O modelo médico classifica as deficiências pressupondo a normalidade do corpo. Há outras formas de classificação, como a que é feita considerando os lugares da exclusão. Os autores Stoer, Magalhães e Rodrigues definem alguns lugares a partir dos quais a sociedade exclui as pessoas. A exclusão médica não está listada pelos autores como um lugar de exclusão, mesmo porque não se trata de um espaço, mas de um serviço de saúde prestado às pessoas. 102/274 Gabarito 4. Resposta: C. A tecnologia assistiva e a acessibilidade são campos que se relacionam todo o tempo. Porém, a acessibilidade sempre será de impacto social (e não individual), pois refere-se aos princípios de universalidade de uso aplicados na construção dos espaços públicos, prédios, transportes etc. Assim, a resposta correta é que a Acessibilidade prega o princípio da universalidade do uso a partir da diversidade e a TA busca o princípio da remoção de barreiras específicas para cada indivíduo, tendo em vista que a TA pode ter alcance apenas individual. 5. Resposta: B. O paradigma adotado pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) é chamado de biopsicossocial, uma vez que considera que a incapacidade não é um atributo de um indivíduo, mas sim um conjunto complexo de condições, muitas das quais criadas pelo ambiente social. A solução do problema, segundo a CIF, requer uma ação social e é de responsabilidade coletiva da sociedade. Portanto, é uma questão atitudinal ou ideológica que requer mudanças sociais que, em nível político, se transformam numa questão de direitos humanos. 103/274 Unidade 4 Ajudas técnicas para Comunicação Aumentativa e Alternativa Objetivos 1. Conhecer os componentes do sistema de comunicação e as barreiras que podem interferir nesse sistema. 2. Entender o que é Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA). 3. Apresentar os mais importantes modelos de CAA. 4. Abordar os símbolos ligados às pessoas com deficiência. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa104/274 Introdução A comunicação é uma das capacidades humanas mais especializadas. Ela define a possibilidade de transmissão de informações, fenômeno que permite a instauração da cultura. Sem comunicação, não há cultura e, portanto, não há humanidade. O linguista Noam Chomsky (1998) é um dos mais importantes estudiosos da comunicação. Para ele, a capacidade de se comunicar é inata ao ser humano, ou seja, todo ser humano é capaz de construir os esquemas e estruturas internas necessárias para a compreensão e transmissão de mensagens e acúmulo de informações. A ideia não é que nasçamos com uma língua pré-determinada, mas com o potencial de aprender a se comunicar. Para saber mais Avram Noam Chomsky é um dos mais reconhecidos pensadores contemporâneos. Linguista, filósofo, cientista cognitivo e ativista político norte-americano, seus trabalhos na área de linguística lhe renderam fama internacional. Chomsky é professor de linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT/EUA) e teve seu nome associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. Defende a tese de que a linguagem é uma propriedade inata do ser humano. Essa noção de Chomsky modificou a forma com que se enxergavam aqueles que não podiam se comunicar pelos meios convencionais de comunicação, como a Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa105/274 fala e a audição. O fato dessas pessoas não terem acesso à língua falada não significa que elas não tenham potencial de se comunicar, de dar sentido e significado às informações que recebem e, inclusive, de formular mensagens, desde que sejam fornecidos meios e métodos que elas possam manejar. Tal potencial tem sido frequentemente confirmado. Grupos populacionais anteriormente excluídos do conhecimento puderam participar da comunicação, ao se propiciarem estruturas linguísticas adequadas. É o caso das Línguas de Sinais (como a Libras), que permitiram a comunicação com as pessoas surdas, e das pranchas de comunicação, que fizeram o mesmo por pessoas com paralisia cerebral. Link A Língua Brasileira de Sinais é conhecida como Libras. A política nacional de educação garante aos estudantes surdos direito ao intérprete nas escolas. O documento “O tradutor e intérprete de língua brasileira de sinais e língua portuguesa”, organizado pelo MEC, esclarece seu papel na escola, como serviço de Tecnologia Assistiva. Está disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ tradutorlibras.pdf>. Algumas características são essenciais para que possamos instituir o processo de comunicação. Partiremos de um esquema consagrado, proposto por Roman Jakobson http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/tradutorlibras.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/tradutorlibras.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/tradutorlibras.pdf Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa106/274 (1992), para quem o processo linguístico tem seis fatores constitutivos, conforme a Figura 1 mostra: Figura 1: Esquema de comunicação Fonte: Adaptado de Jakobson (1992). O contexto refere-se ao ambiente e à situação em que a mensagem é transmitida, incluindo questões ligadas à época e ao local. São as influências sociais sobre a linguagem e os meios de comunicação. É certo que o contexto define os significados dos símbolos e signos, que só Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa107/274 fazem sentido a partir de um ambiente sociocultural que sirva como referente. Não haverá comunicação se não houver compartilhamento de significados e tal compartilhamento só é possível dentro de um grupo humano. O emissor e o receptor são os dois protagonistas da comunicação. A comunicação é, portanto, uma relação entre esses dois participantes e, comumente, esses dois papéis se alternarão: o emissor se tornará receptor e vice-versa. Mesmo que a mensagem seja de um grupo ou de uma empresa, ou ainda uma mensagem gravada como a dos teleatendimentos atuais, ela partirá de um sujeito (cuja mensagem foi aceita pelo grupo como sua ou gravada e programada para o atendimento), que vislumbrou um ou mais receptores para essa mensagem. Não há comunicação sem sujeitos. A mensagem parte do emissor e, idealmente, chega ao seu destino, o receptor. Ela transporta o conteúdo que o primeiro quer fazer chegar ao segundo. É através da mensagem que a cultura e o conhecimento se transmitem. Para fazer chegar a mensagem, o emissor escolherá um canal e um código. O código refere- se ao conjunto de signos e símbolos que ele utilizará para codificar a mensagem. O código representa um vínculo cultural entre esses dois sujeitos, pois a mensagem só poderá ser transmitida se ambos compartilharem o código. Já o canal de comunicação refere-se aomeio material Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa108/274 – físico ou virtual – escolhido pelo emissor para a transmissão da mensagem. É através da comunicação que se transmite a cultura e se torna possível tanto o conhecimento quanto a cidadania, já que não existe cidadania se os direitos não forem amplamente transmitidos e conhecidos. Se considerarmos que são funções da educação tanto a transmissão da cultura (“o que já fizemos”) quanto à criação de conhecimento (“o que faremos”), concluiremos facilmente que não existe educação sem cultura. Assim, se um indivíduo se encontra excluído dos processos de comunicação, ele não poderá participar da sociedade ou fazer parte da cultura. Mas é fato que muitas pessoas encontram barreiras para se comunicar e, neste capítulo, você poderá refletir sobre tais barreiras, que podem ocorrer em qualquer um dos elementos do esquema de comunicação. Você também será convidado a pensar sobre alguns modelos para superá-las, através da comunicação aumentativa e alternativa. 1. Barreiras na comunicação A Lei Brasileira de Inclusão define as barreiras na comunicação e informação como: Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa109/274 Qualquer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que dificulte ou impossibilite a expressão ou o recebimento de mensagens e de informações por intermédio de sistemas de comunicação e de tecnologia da informação (BRASIL, 2015). Se considerarmos a comunicação a partir do esquema de Jakobson, tais barreiras podem incidir sobre quaisquer uns dos elementos da comunicação. Devido a características pessoais, como a presença de uma deficiência auditiva, visual, mental ou mesmo física (como a paralisia cerebral), tanto o emissor quanto o receptor da imagem podem não estar aptos a transmitir as mensagens. Quando se toma o meio oral (a língua falada) como parâmetro, o emissor pode ser incapaz de emitir sons ou organizar seu discurso coerentemente. O receptor pode ser inapto a escutar tais sons ou a decifrar a fala do outro. Utilizar unicamente o meio da escrita para a comunicação pode igualmente afetar emissores e receptores, seja por problemas de coordenação motora, seja pela dificuldade em adquirir as habilidades para ler e escrever e assim por diante. Consideraremos especialmente importantes, nesse sentido, modificar e diversificar o canal, o código e o contexto, para possibilitar que qualquer emissor seja capaz de enviar sua mensagem Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa110/274 a qualquer receptor. É cada vez mais claro que, ao se variar esses três elementos – canal, código e contexto – se beneficia a comunicação para a inclusão. As principais barreiras que podem acontecer em relação ao canal de comunicação e ao código são sua restrição a um único formato. A junção do potencial humano para aprender a se comunicar e o fato de podermos utilizar os cinco sentidos (visão, audição, tato, paladar e olfato), a fim de construir códigos de comunicação, deveriam bastar para garantir esquemas comunicacionais amplos o suficiente para todos. Tais possibilidades já estão desenvolvidas, aliás: são as línguas de sinais, os alfabetos táteis, as técnicas de descrição de imagens, a Libras tátil, os diversos recursos tecnológicos e vários outros. Essa constatação nos leva à conclusão de que o contexto tem atuado como barreira maior, posto que são contingentes sociais os que mais interferem no direito à comunicação. Mesmo que se argumente que tais questões não são de fácil resolução – como a falta de recursos para comunicação alternativa, por exemplo – mantém-se o fato de que já é possível eliminar a maioria das barreiras comunicacionais, desde que se modifique o ambiente social que as circunda. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa111/274 2. Comunicação Aumentativa e Alternativa A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é uma área da Tecnologia Assistiva que tem como objetivo eliminar as barreiras de comunicação, a partir da modificação do contexto de comunicação por meio da elaboração, implementação e divulgação de canais e códigos diversos que possibilitem a todos os sujeitos participarem dos processos de comunicação. Afirmam Sartoretto e Bersch (2010) que a CAA se destina à ampliação das habilidades de comunicação, sendo destinada “a pessoas sem fala ou sem escrita funcional ou em defasagem entre sua necessidade comunicativa e sua habilidade em falar e/ou escrever”. Conforme explica Verzoni (2011), a diferença entre a comunicação aumentativa e a alternativa é que a primeira complementa a fala (gestos, expressões, linguagem corporal etc.), facilitando seu entendimento, enquanto a segunda a substitui. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa112/274 Sugerem Marra e Mendes (2014) que se classifiquem as possibilidades de comunicação pelo canal e não pela deficiência (ou seja, não se falaria em comunicação para surdos e sim em comunicação visual). Dessa forma, pode- se ter uma visão da comunicação a partir da funcionalidade que se deseja alcançar, e não derivada da deficiência. Outra vantagem é que, cada vez mais, certifica-se o fato de que uma comunicação alternativa não atinge apenas um tipo de deficiência. Por exemplo, os aplicativos que leem textos (texto-para-voz) auxiliam as pessoas com baixa visão, mas também podem auxiliar pessoas com distúrbios de atenção, dislexia e deficiência intelectual (HOLLAND, 2014). Marra e Mendes recomendam que, em Para saber mais Algumas pessoas conseguem articular a fala de uma maneira que não é suficiente para que os outros a entendam com clareza. A comunicação aumentativa é utilizada com essas pessoas. Casos comuns são os de algumas pessoas com paralisia cerebral e de surdos que fizeram implante coclear. Nessas situações, ao invés de substituir a fala por outros sistemas de comunicação, as ajudas técnicas poderão auxiliá-lo a desenvolver a fala ou a complementar, com gestos, expressões ou mesmo pranchas de comunicação. Os recursos não são basicamente diversos dos da comunicação alternativa, o que se diferencia é o objetivo do seu uso. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa113/274 especial para a preparação de materiais didáticos, deve-se ter em mente a possibilidade de utilizar comunicações alternativas para cada tipo de canal, conforme quadro a seguir. Quadro 1: Alternativa de materiais didáticos Material Comunicação Alternativa Material impresso Versão visual Versão sonora Versão tátil Versão digital Material audiovisual Versão com audiodescrição Versão com legendas ocultas Versão dublada Versão com interpretação em Libras Material eletrônico Versão acessível sem o uso do mouse Versão acessível sem o uso do teclado Versão acessível sem o uso do monitor Versão acessível sem o uso de áudio Fonte: Adaptado de Marra e Mendes, 2014. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa114/274 Desse modo, respeita-se o chamado princípio da redundância, “que requer múltiplos meios de transmissão, vias alternativas e atalhos, para a recepção da mensagem”, não se devendo restringir jamais a emissão da mensagem a um único tipo de comunicação (ABNT, 2008). 3. Funcionalidade e CAA A Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) reserva o Capítulo 3, da divisão voltada para atividades e participação, à questão da comunicação (OMS, 2015). Dessa forma, ela possibilita refletir sobre as principais funções que permitirão o acesso à comunicação e que devem ser perseguidas pelos educadores. As atividades que a CIF define são Link Para saber mais sobre o princípio da redundância e suas aplicações na comunicação pública e na prestação de serviços, veja a NBR 15.599:2008, disponível em: <http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/arquivos/%5Bfield_generico_imagens-filefield-description%5D_21.pdf>. http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/arquivos/%5Bfield_generico_imagens-filefield-description%5D_21.pdf http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/arquivos/%5Bfield_generico_imagens-filefield-description%5D_21.pdf Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa115/274 as seguintes: • Comunicar e receber mensagens. • Comunicar e produzir mensagens. • Conversação e utilização de dispositivos e de técnicas de comunicação. Assim, você pode guiar suas estratégias de Comunicação Aumentativa e Alternativa para possibilitar essas três atividades. Dependendo das características dos sujeitos, a CIF recomenda as seguintes alternativas de atividades para se alcançar a comunicação como funcionalidade: • Comunicar e receber mensagens: • Orais. • Não verbais: • Usando linguagem corporal. • Usando sinais e símbolos gerais. • Usando desenhos e fotografias. • Usando linguagem gestual. • Mensagens escritas. • Comunicar e produzir mensagens: • Falar. • Produzir mensagens não verbais: • Usando linguagem corporal. • Usando sinais e símbolos. • Usando desenhos e fotografias. • Usando linguagem gestual. • Escrever mensagens. • Conversação e utilização de Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa116/274 dispositivos e de técnicas de comunicação: • Conversação (troca de pensamentos ou ideias): • Iniciar uma conversa. • Manter uma conversa. • Terminar uma conversa. • Conversar com uma pessoa; • Conversar com muitas pessoas. • Discussão (análise de um assunto com argumentação e debate): • Discussão com uma pessoa. • Discussão com várias pessoas. • Utilização de dispositivos e de técnicas de comunicação: • Dispositivos de comunicação (telefones e outros). • Máquinas para escrever (incluindo computadores e máquinas de Braille) • Técnicas de comunicação. A partir dessas atividades, é possível planejar a funcionalidade que se quer atingir, sempre considerando o sujeito e suas características, assim como as barreiras e facilitadores presentes no ambiente. Por exemplo, você precisa que o sujeito seja capaz de receber mensagens? Ou que ele seja capaz de manter uma discussão sobre um assunto? Em cada um desses casos, que características pessoais influenciam essa função? Como você Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa117/274 pode considerar as funções mentais que permitem o reconhecimento de sinais e símbolos? Para tanto, você pode considerar a divisão sobre as funções do corpo, também presentes na CIF, que considera as funções da voz e da fala (Tópicos b310 a 399 da CIF), assim como as funções mentais da linguagem (Tópico b167) e ainda as funções sensoriais do corpo (tópicos b210 a 279). Entre as ajudas técnicas mais comuns que podem auxiliar a atingir essas funcionalidades estão: a construção de objetos concretos e miniaturas, o uso de símbolos gráficos, uso de figuras temáticas, de fotos e figuras sequenciais, uso de gestos e expressões faciais. Desses, merece destaque o uso de figuras e símbolos, cujos sistemas mais conhecidos são o Sistema de Comunicação Pictórica (PCS) e o Sistema Bliss de Comunicação. 3.1. Sistemas de comunicação por símbolos e figuras O Blissymbolics foi um sistema desenvolvido por Charles Bliss, que desejava elaborar uma linguagem que pudesse ser compreendida por todos os homens e que pudesse, portanto, ser um instrumento de comunicação universal. Criado entre as décadas de 40 e 60, foi só na década de 70 que esse sistema foi aplicado para a comunicação por pessoas com paralisia cerebral e, a partir daí, expandiu-se para o uso como CAA. É um Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa118/274 sistema bastante sofisticado, baseado em formas geométricas que podem interagir e num sistema de cores que dividem o vocabulário. Figura 3: Exemplos de uso do Blyssymbols Fonte: O autor. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa119/274 Já os Símbolos de Comunicação Pictórica (PCS) foram desenvolvidos pela fonoaudióloga Roxane Mayer Johnson, na década de 90, especificamente para o uso como CAA. Com cerca de 5.000 símbolos, o PCS é uma espécie de catálogo de figuras cujo objetivo é formar pranchas de comunicação, quadros, chaveiros e outros recursos a serem utilizados por pessoas com impedimentos de fala. Ele é especialmente eficiente em sujeitos com deficiências múltiplas e que não possam, como alternativa, utilizar a Língua de Sinais. Esclarece Verzoni (2011): O PCS é um sistema gráfico visual que contém desenhos simples, podendo-se acrescentar, na medida do necessário, fotografias, figuras, números, círculos para as cores, o alfabeto, outros desenhos ou conjuntos de símbolos. A mensagem é transmitida pela escolha das figuras que o usuário fará. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa120/274 A principal vantagem de sistemas como o PCS é sua facilidade de uso, já que as figuras remetem, de forma bastante concreta, aos objetos e ações que simbolizam. Assim, não é preciso muito tempo de treinamento, sendo bastante indicado para crianças. Para selecionar os símbolos da prancha de comunicação, é necessário envolver o usuário que irá utilizá-la, avaliando suas habilidades cognitivas e motoras. É essencial, por exemplo, avaliar a capacidade do usuário para indicar as figuras, o que pode acontecer por gesto manual, mas, no caso de impedimento motor dos membros superiores, pode ser por outros estímulos, como a varredura com os olhos e uso de expressões faciais.W Para saber mais Existem, hoje, softwares capazes de montar pranchas de comunicação utilizando sistemas como o PCS. Tais aplicativos, em geral, vêm com milhares de símbolos e possibilitam a impressão de pranchas de comunicação. Eles têm interface em português e contam, inclusive, com sintetizador de voz. Entre os mais conhecidos, estão o Boardmaker <http://www.clik.com.br/mj_01.html>, que é pago, e os gratuitos: o Amplisoft <http://www.ler.pucpr.br/amplisoft/> e Prancha Fácil <https://sites.google. com/a/nce.ufrj.br/prancha-facil/>. http://www.clik.com.br/mj_01.html https://sites.google.com/a/nce.ufrj.br/prancha-facil/ https://sites.google.com/a/nce.ufrj.br/prancha-facil/ Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa121/274 Link Sartoreto e Bersch (2014) escreveram uma detalhada introdução ao uso dos sistemas de símbolos gráficos, incluindo orientações para o uso de aplicativos para elaboração de pranchas de CAA. Vale a pena conferir em: <http://www.assistiva.com.br/ca.html>. http://www.assistiva.com.br/ca.html Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa122/274 Glossário Libras: é a denominada Língua Brasileira de Sinais, reconhecida como meio legal de comunicação e expressão, pela Lei nº 10.436, de 2002. Segundo a lei, entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras – a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideais e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. Paralisia cerebral: corresponde à lesão de uma ou mais partes do cérebro, acarretando prejuízos, sobretudo, motores à pessoa. Não é uma doença e sim um quadro ou estado patológico, pois, nesse caso, a lesão é irreversível. Essa patologia designa um grupo de afecções do Sistema Nervoso Central que não tem caráter progressivo e que apresenta clinicamente distúrbios da motricidade, isto é, alterações do movimento, da postura, do equilíbrio, da coordenação com presença variável de movimentos involuntários. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa123/274 Glossário Dislexia e dislalia: dislexia é um transtornona área da leitura, escrita e soletração, que pode também ser acompanhado de outras dificuldades, como, por exemplo, na distinção entre esquerda e direita, na percepção de dimensões (distâncias, espaços, tamanhos e valores), na realização de operações aritméticas (discalculia) e no funcionamento da memória de curta duração. A dislexia costuma ser identificada nas salas de aula durante a alfabetização, sendo comum provocar uma defasagem inicial de aprendizado. Já a dislalia é um distúrbio da fala, caracterizado pela dificuldade em articular as palavras. Basicamente consiste na má pronúncia das palavras, seja omitindo ou acrescentando fonemas, trocando um fonema por outro ou ainda os distorcendo ordenadamente. Questão reflexão ? para 124/274 Qual é a importância da comunicação em sua vida? Se você já visitou um país diferente, como a China, o Japão ou a Rússia, por exemplo, sem conhecer a língua, já deve ter notado como é complexo ter acesso a todas as informações que nos são necessárias. O que você faria nessa situação? Que tipo de estratégia utilizaria? A linguagem corporal? É possível comparar essa situação à da pessoa com deficiência dentro de uma escola que não se comunica com ela? 125/274 Considerações Finais • A comunicação é essencial para a participação na cultura e aquisição do conhecimento. • As barreiras sociais que impedem a participação das pessoas com deficiência estão principalmente no contexto da comunicação, ou seja, no ambiente social. • Para superar essas barreiras, é necessário pensar em sistemas alternativos ou aumentativos de comunicação, a partir da funcionalidade que se busca para a pessoa com deficiência. • A Comunicação Aumentativa e Alternativa corresponde a importantes ferramentas desenvolvidas no campo da Tecnologia Assistiva. • Entre as CAAs destacam-se os sistemas de comunicação por símbolos ou gráficos, como o PCS e o Blyssymbol. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa126/274 Referências ABNT. NBR 15.599. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2008. BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 – Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília: Congresso Nacional, 2015. CHOMSKY, N. Linguagem e mente. Brasília: UnB, 1998. HOLLAND, B. Pequenas mudanças tecnológicas – Grandes impactos na aprendizagem. Diversa, 4 nov. 2014. Disponível em: <http://www.diversa.org.br/artigos/artigos.php?id=3469>. Acesso em: 9 dez. 2016. JAKOBSON, R. Linguística e comunicação. São Paulo: Cultrix, 1992. MARRA, A. C. G.; MENDES, R. H. Guia para produção de material didático inclusivo. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2014. OMS, ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF). World Health Organization, 16 Dec. 2015. Disponível em: <http://apps.who. int/classifications/icf/en/>. Acesso em: 9 dez. 2016. SARTORETTO, M. L.; BERSCH, R. Comunicação alternativa. Assistiva, 2014. Disponível em: <http://www.assistiva.com.br/ca.html>. 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Segundo afirma o linguista Noam Chomsky, um dos mais importantes estudiosos da comunicação: a) Nós já nascemos com uma aptidão preestabelecida para determinada língua, não sendo uma experiência adquirida social e culturalmente. b) A capacidade de se comunicar é inata ao ser humano, ou seja, todo ser humano é capaz de construir os esquemas e estruturas internas necessárias para a compreensão e transmissão de mensagens e acúmulo de informações. c) Os surdos de nascença não têm possibilidade de aprender uma língua, por não possuírem capacidade auditiva, não tendo condições de dar sentido e significado às informações que recebem. d) Os mudos não conseguirão se comunicar com outras pessoas, por não terem capacidade de falar. O fato dessas pessoas não terem acesso à língua falada significa que elas não têm potencial de se comunicar. e) Nem todos têm capacidade/possibilidade de aprender novas línguas e signos, pois o potencial de aprender a se comunicar é restrito a poucos. Questão 1 129/274 2. De acordo com Roman Jakobson, algumas características são essenciais para que possamos instituir o processo de comunicação. Os seis fatores constitutivos do processo linguístico, para o autor, são: a) Contexto – Libras – Braille – emissor – receptor – mensagem. b) Contexto – fala – audição – receptor – emissor – mensagem. c) Contexto – audição – emissor – receptor – mensagem – ouvinte. d) Contexto – mensagem – receptor – emissor – canal – código. e) Contexto – Língua – Signo – emissor – receptor – mensagem Questão 2 130/274 3. Marque exemplos de barreiras que podem incidir em alguns elementos da comunicação: a) Atitudes discriminatórias, ausências de intérpretes, paralisia cerebral. b) Libras, Libras tátil. c) Alfabeto Braille. d) Pranchas de comunicação. e) Códigos alternativos de comunicação aumentativa e ampliativa. Questão 3 131/274 4. As ajudas técnicas mais comuns que podem auxiliar a atingir as funcionalidades que permitirão o acesso à comunicação são: a) A construção de objetos concretos e miniaturas. b) O uso de símbolos gráficos. c) Uso de figuras temáticas. d) Uso de gestos e expressões faciais. e) Todas as anteriores. Questão 4 132/274 5. São considerados objetivos dos Símbolos de Comunicação Pictórica (PCS) formar os seguintes objetos, com exceção de: a) Pranchas de comunicação. b) Quadros. c) Língua de Sinais. d) Recursos a serem utilizados por pessoas com impedimentos de fala. e) Chaveiros. Questão 5 133/274 Gabarito 1. Resposta: B. Para Chomsky, a capacidade de se comunicar é inata ao ser humano, ou seja, todo ser humano é capaz de construir os esquemas e estruturas internas necessárias para a compreensão e transmissão de mensagens e acúmulo de informações. A ideia não é que nasçamos com uma língua predeterminada, mas com o potencial de aprender a se comunicar. O fato de algumas pessoas não terem acesso à língua falada não significa que elas não tenham potencial de se comunicar, de dar sentido e significado às informações que recebem e, inclusive, de formular mensagens, desde que sejam fornecidos meios e métodos que elas possam manejar. 2. Resposta: D. As características essenciais para que possamos instituir o processo de comunicação, segundo o esquema proposto por Roman Jakobson, tem seis fatores constitutivos, que são o contexto, o emissor, o receptor, a mensagem, o código e o canal. O contexto refere-se ao ambiente e à situação em que a mensagem é transmitida. O emissor e o receptor são os dois protagonistas da comunicação. A mensagem parte do emissor e, idealmente, chega ao seu destino, o receptor. Para fazer chegar a mensagem, o emissor escolherá um canal e um código. O código refere-se ao conjunto de signos e símbolos que ele utilizará para codificar a mensagem. Já o 134/274 Gabarito canal de comunicação refere-se ao meio material – físico ou virtual – escolhido pelo emissor para a transmissão da mensagem. 3. Resposta: A. Exemplos de barreiras que podem incidir em alguns elementos da comunicação são as atitudes discriminatórias, ausências de intérpretes, paralisia cerebral e outros fatores que dificultam o acesso de pessoascom deficiência ou alguma particularidade à comunicação. As Libras, Libras tátil, o alfabeto Braille, as pranchas de comunicação e os códigos alternativos de comunicação aumentativa e ampliativa não são barreiras, mas sim exemplos de elementos que possibilitam e facilitam a comunicação por pessoas com deficiência. 4. Resposta: E. Todas as opções (construção de objetos concretos e miniaturas; uso de símbolos gráficos; uso de figuras temáticas; uso de gestos e expressões faciais) são hipóteses de ajudas técnicas comuns que podem auxiliar a atingir as funcionalidades que permitirão o acesso à comunicação. 5. Resposta: C. A Língua de Sinais não é objeto dos Símbolos de Comunicação Pictórica (PCS), mas meio legal de comunicação e expressão, pela Lei nº 10.436, de 2002. Segundo a lei, entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras – a forma de comunicação e expressão, em que o 135/274 Gabarito sistema linguístico de natureza visual- motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. 136/274 Unidade 5 O uso de recursos digitais Objetivos 1. Compreender as vantagens dos usos de recursos digitais na educação inclusiva. 2. Entender como a inclusão escolar e a inclusão digital se relacionam. 3. Compreender as relações entre recursos digitais e comunicação aumentativa e alternativa. 4. Conhecer alguns dos recursos de acessibilidade facilitados por dispositivos móveis e computadores. Unidade 5 • O uso de recursos digitais137/274 Introdução A história das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) começa em 1959, quando o primeiro circuito integrado, que substituiria as válvulas dos primeiros computadores, foi produzido por Robert Noyce (GALERY, 2004, p. 31). Os microprocessadores foram o passo seguinte e, em 1977, começou a produção em série dos microcomputadores. Cada vez menores, esses componentes puderam sair de seus grandes “gabinetes” e se infiltrar nos mais diversos aparelhos, como televisões, máquinas de lavar, calculadoras e telefones celulares. A grande revolução tecnológica, que começou em 1959, modificou radicalmente o acesso que as pessoas têm a dados, informações e ao conhecimento como um todo. Especial papel nesta história tem a internet, criada em 1969 e disponibilizada ao público em geral na década de 80. Nosso período histórico, não sem razão, ganhou a alcunha de Sociedade da Informação, possibilitada pelas tecnologias digitais. O acesso a tais tecnologias torna-se, assim, primordial para o desenvolvimento social, ou, como afirma Castells (1999, p. 26): Unidade 5 • O uso de recursos digitais138/274 Sem dúvida, a habilidade ou inabilidade de as sociedades dominarem a tecnologia e, em especial, aquelas tecnologias que são estrategicamente decisivas em cada período histórico, traça o seu destino a ponto de podermos dizer que, embora não determine a evolução histórica e a transformação social, a tecnologia (ou a sua falta) incorpora a capacidade de transformação das sociedades, bem como os usos que as sociedades, sempre em um processo conflituoso, decidem dar ao seu potencial tecnológico. Hoje temos computadores pessoais portáteis leves e pequenos que cabem em nossas bolsas e mochilas (laptops) e telefones celulares minúsculos (smartphones), com os quais acessamos redes sociais diversas, conversamos com pessoas do mundo todo, temos várias possibilidades de baixar e de usar aplicativos dos mais diferentes tipos e para as mais variadas necessidades. Conseguimos fazer transações bancárias com nossos celulares e computadores, ter reuniões de trabalho em tempo real e com chamadas em vídeo, fazemos cursos de educação à distância etc. Vivemos conectados o tempo todo, somos a geração on-line, prática inimaginável acerca de vinte anos atrás. É a tecnologia possibilitando altos níveis de acesso e comunicação a um grande número de pessoas, inclusive para as pessoas com deficiência. Unidade 5 • O uso de recursos digitais139/274 Se podemos compreender como tecnologia toda a produção humana baseada na sua capacidade de criar objetos a partir de sua racionalidade, as Tecnologias Digitais ou Tecnologias de Informação e Comunicação serão aquelas que utilizam a lógica binária, registrada a partir de circuitos eletrônicos, para armazenar e manejar dados e informações. Para saber mais Os códigos binários expressam valores, transformando-os em sequências de 0 (zeros) e 1 (um), de forma a serem interpretados pelos circuitos eletrônicos. Uma placa de memória, um DVD ou um hard disk (HD) são formados por milhões de pontos que podem estar ligados (1) ou desligados (0) e que podem ser interpretados e decodificados para se recuperar valores. Por exemplo, a palavra “ensinar”, em código binário, fica assim: 01100101 01101110 01110011 01101001 01101110 01100001 01110010 E N S I N A R É chamado de código binário porque usa apenas 2 valores (bi = 2). Tanto o código Morse (pontos e traços), quanto o Braille (ponto em relevo, espaço sem relevo) são também códigos binários. A diferença entre eles e as TICs é o canal de comunicação. No código Morse, o dado é enviado sonoramente; o Braille é registrado em uma superfície para ser decodificado pelo tato e as TICs utilizam os meios eletrônicos, como os circuitos. Unidade 5 • O uso de recursos digitais140/274 O acesso a essas novas tecnologias tem sido considerado por muitos como essencial para que um indivíduo ou comunidade possa ter acesso ao conhecimento humano e, através dele, as oportunidades iguais de exercício da cidadania (como, por exemplo, acesso a sites de utilidade pública, educação on- line, oportunidades e busca por vagas de trabalho, acesso a informações sobre saúde, enfim, amplo acesso a direitos individuais e coletivos etc.). Por sua relevância social, a Organização das Nações Unidas coloca o acesso às TICs como parte dos objetivos das metas globais, movimento lançado em 2015: “Aumentar significativamente o acesso às tecnologias de informação e comunicação e empenhar-se para prover acesso universal e módico à internet nos países menos desenvolvidos até 2020” (ONU, 2015). A universalização do acesso às TICs é tema da inclusão digital, que estuda as relações entre exclusão social e acesso à tecnologia. A inclusão digital pode ser definida como: “Adoção, em massa, pelos indivíduos de uma dada sociedade, de uma determinada tecnologia digital, que promova o desenvolvimento social e econômico dessa sociedade” (GALERY, 2004, p. 64). Unidade 5 • O uso de recursos digitais141/274 É especialmente importante que os esforços de inclusão digital atinjam as classes que mais podem se beneficiar com as novas tecnologias e, entre essas classes, estão as pessoas com deficiência. Ao mesmo tempo, este mesmo público é um dos mais excluídos das escolas, no país. Assim, é essencial unir inclusão escolar e digital para atender a essa população. Sobre inclusão digital, vamos citar um exemplo interessante de política efetivada pelo poder público. Trata- se dos telecentros, unidades onde se disponibilizam acesso gratuito a computadores e internet à população. Em 2001, em São Paulo, esse serviço surgiu como o primeiro programa de inclusão digital da cidade, momento em que 90% Link O Brasil tinha, em 2012, 33% de sua população com acesso à internet. No entanto, considerando-se as classes sociais, a diferença é de 90% com acesso na classe A, para 2,5% com acesso na classe E. Este retrato da desigualdade socioeconômica no país é apresentado no Mapa da Exclusão Digital, que ainda traz o dado de que apenas 33,51% dos estudantes brasileiros têm acesso domiciliar à internet. Se você quiser saber mais sobre o assunto, acesse o relatório completo: <http://www.cps.fgv.br/cps/ bd/mid2012/MID_FT_FGV_CPS_Neri_ TextoPrincipal_Fim_GRAFICA_fim.pdf>. http://www.cps.fgv.br/cps/bd/mid2012/MID_FT_FGV_CPS_Neri_TextoPrincipal_Fim_GRAFICA_fim.pdfhttp://www.cps.fgv.br/cps/bd/mid2012/MID_FT_FGV_CPS_Neri_TextoPrincipal_Fim_GRAFICA_fim.pdf http://www.cps.fgv.br/cps/bd/mid2012/MID_FT_FGV_CPS_Neri_TextoPrincipal_Fim_GRAFICA_fim.pdf Unidade 5 • O uso de recursos digitais142/274 da população não tinha acesso à internet. Desde então, o acesso aos computadores, celulares e outros equipamentos foi propagado. Os telecentros complementam outros programas sociais de Inclusão Digital da cidade (Coordenadoria de Conectividade e Convergência Digital da Secretaria de Serviços). Se o munícipe não tem computador em casa e precisa fazer a impressão de um currículo ou mesmo acessar as redes sociais, ele pode contar com esse equipamento público (GALERY, 2004). Há outros projetos públicos de inclusão digital na cidade de São Paulo, como o Edital Redes e Ruas e a Oficina Livre SP. O “Redes e Ruas” fomenta projetos de cultura digital que são replicados nas praças WiFi Livre e FabLabs; e a “Oficina Livre SP” tem renovado o conteúdo dos telecentros, com novas oficinas que contemplam diversas áreas como Democratização da Comunicação Digital e Midialivrismo; Interdisciplinaridade e Cultura Digital; Ensino e Produção com Software Livre e Desenvolvimento tecnológico e Inovação (MUNICÍPIO DE SÃO PAULO, 2015). Além disso, há projetos de distribuição de computadores gratuitos nas escolas públicas, de inclusão digital nas escolas públicas e privadas etc. Vários espaços públicos, como bibliotecas municipais e estaduais e a própria Câmara Municipal de São Paulo, por exemplo, disponibilizam WiFi gratuito para a população. Unidade 5 • O uso de recursos digitais143/274 1. Recursos digitais na educação inclusiva O quarto ano da Escola Bill Henderson, na cidade estadunidense de Boston, começava suas aulas, todos os dias, com vinte minutos destinados à prática nos computadores. Alguns dos educandos de nove a dez anos exercitavam digitação, os mais avançados pesquisavam na internet, outros eram treinados em recursos de tecnologia digital assistiva. Seis dos vinte e dois alunos da turma tinham deficiências ou Transtorno do Espectro Autista (TEA), quatro não tinham o inglês como primeira língua e dois exibiam altas habilidades (MALPASS, 2011). A classe, altamente diversificada, beneficiava-se da tecnologia de múltiplas formas. O uso de tablets e laptops na escola auxiliava alunos com diversas características: • Estudantes com dificuldade de leitura, dislexia ou déficit de atenção utilizavam softwares que auxiliam na leitura, marcando as palavras que estavam sendo ditas para permitir o acompanhamento visual, ao mesmo tempo que permitiam que o aluno controlasse a velocidade da leitura. • Outro software permitia adequar o vocabulário de textos paradidáticos, permitindo que crianças com diferentes habilidades literárias estudassem um mesmo texto, mas em seu próprio ritmo. Unidade 5 • O uso de recursos digitais144/274 • Tablets com telas controladas pelo toque (touchscreen) eram usados por pessoas com paralisia cerebral para auxiliar na aprendizagem e comunicação com os alunos. • O uso da internet potencializava a aprendizagem dos estudantes com altas habilidades. As professoras da sala também percebiam que o uso dos recursos digitais atraía a atenção dos estudantes, despertando mais interesse pelas aulas e disponibilizando diferentes possibilidades de aprendizado. Link Para saber mais sobre a experiência da Escola Henderson, considerada como uma referência em inclusão nos Estados Unidos, acesse o Caso da Escola William Henderson no website Diversa: <http://diversa.org.br/estudos-de-caso/ o-caso-da-escola-william-henderson- boston-ma-eua/>. A experiência de Boston mostrou o potencial de utilização das TICs na educação inclusiva. No entanto, a realidade tem mostrado que existem resistências e desafios a serem superados no uso de recursos digitais em sala de aula, que vão desde a falta de recursos financeiros para aquisição de material tecnológico até a http://diversa.org.br/estudos-de-caso/o-caso-da-escola-william-henderson-boston-ma-eua http://diversa.org.br/estudos-de-caso/o-caso-da-escola-william-henderson-boston-ma-eua http://diversa.org.br/estudos-de-caso/o-caso-da-escola-william-henderson-boston-ma-eua Unidade 5 • O uso de recursos digitais145/274 resistência dos professores, que encaram tais recursos como uma complicação de seu trabalho (RODRIGUES, 2012, p. 34). Uma das principais dificuldades que se apresentam residem no fato de que os ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) desenvolvidos foram criados a partir de uma concepção antiga de aprendizagem, com ênfase excessiva na apresentação de conteúdos e pouca flexibilidade nos processos avaliativos. Além disso, a ênfase na construção de aplicações individualizadas, utilizadas isoladamente pelo usuário, dificultam o trabalho colaborativo dos alunos. Todas essas características vão em direção oposta aos esforços de inclusão escolar. As TICs são ferramentas importantes que podem auxiliar o professor, mas precisam estar de acordo com os princípios inclusivos. Rodrigues (2012, p. 36) faz algumas sugestões de como as TICs podem ser usadas a favor da inclusão nas escolas: 1. Modelos interativos e de redes sociais que incentivem a comunicação entre os alunos. 2. A possibilidade de apresentações em meios diferentes e disponibilização de apresentações para os alunos, após a aula. 3. O armazenamento compartilhado de documentos, permitindo trocas e colaborações entre os estudantes; e Unidade 5 • O uso de recursos digitais146/274 4. Acesso a meios de comunicação e à internet, ampliando as bases de conhecimento que podem ser usadas para a construção de um ambiente inclusivo. Dentro da lógica inclusiva, as TICs fornecem possibilidades de implementar processos de adequação curricular, ampliar o acesso ao material didático, flexibilizar os tempos, conteúdos e avaliações e melhorar o processo de comunicação entre os alunos e deles com o professor. Mas, para que as TICs possam cumprir seu papel, os próprios educadores nas salas de aula regulares precisam ser capacitados para utilizar tais recursos, ou poderão sentir-se ameaçados ou incapazes diante deles. Convida-se o professor, portanto, a aproximar-se da tecnologia: Se o professor não tem ciência do que seja tecnologia e de que tecnologias estão disponíveis para a educação; se ele não utiliza suportes tecnológicos além dos tradicionais disponibilizados nas salas de aula; se ele não é usuário das tecnologias digitais; como ele poderá saber quais são as aplicabilidades dessas tecnologias como mediadoras no ensino, na aprendizagem, na reelaboração de conhecimentos existentes, e na construção de novos conhecimentos? (CORTELAZZO, 2012, p. 99). Unidade 5 • O uso de recursos digitais147/274 Por outro lado, cabe ao profissional de atendimento educacional especializado conhecer o potencial do uso das TICs como ajudas técnicas e auxiliar o professor a explorar todo seu potencial com os alunos. Para saber mais As salas de recursos multifuncionais criadas pelo Ministério da Educação disponibilizam recursos digitais para os profissionais de AEE, a saber: Os equipamentos de tecnologia assistiva que compõem as salas de recursos multifuncionais – tipo I são: mouse com entrada para acionador, acionador de pressão, teclado com colmeia, lupa eletrônica e software para comunicação alternativa e aumentativa. E para as salas de recursos – tipo II: impressora braille, scanner com voz, máquina de datilografia braille e calculadora sonora (MEC, 2011). Unidade 5 • O uso de recursos digitais148/274 O especialista em AEE deve dominar tais recursos para atender aos objetivos da educação especial e para possibilitar formas alternativas de aprendizado às pessoas com deficiência. Toda criança e toda pessoa aprende. O que varia é a forma como ela vai lidar e registrar esse conteúdo. Devemos adotar recursos digitais e meios alternativospara ampliar as possibilidades desse aprendizado. E abrir mão da noção de que todo aprendizado precisa, necessariamente, ser conteudista e convencional. 2. Recursos digitais e formação de professores Cortelazzo (2012) sugere algumas ações transformadoras ao se implantar novas tecnologias por um gestor escolar: • Realizar um levantamento das competências da comunidade escolar (educadores, equipe pedagógica, alunos, famílias etc.) para o uso das TICs, de forma a se aproveitar as melhores práticas que já ocorrem na comunidade. • Mapear as necessidades de capacitação básicas e de formação aprofundada e continuada dos professores para utilizar as TICs. Unidade 5 • O uso de recursos digitais149/274 • Envolver a comunidade escolar nos objetivos, na formação e na utilização dos recursos digitais. • Elaborar um projeto com objetivos, metas e ações definidas da utilização dos recursos, alinhado com o projeto pedagógico escolar. Para saber mais A adoção de tecnologia pode ser promovida pelo acesso fácil às TICs, capacitação para seu uso e uma atitude favorável em relação a elas. Atitude favorável significa ver seus potenciais, mesmo considerando os riscos de sua utilização. O mapeamento das competências deve considerar que as TICs podem auxiliar o professor em suas funções de expositor de conhecimento, orientador de rotas de aprendizagem, estímulo para a autonomia e avaliador do desenvolvimento (IDEM). Nesse sentido, é necessário contemplar pelo menos os seguintes conteúdos: • Informática básica (visão geral de hardware, uso de sistemas operacionais e aplicativos, em especial processadores de texto e navegadores de internet). • Informática aplicada à educação (integração da informática ao projeto pedagógico, uso do computador e da internet na escola, uso didático de dispositivos móveis, aplicativos educacionais, inclusão digital e escolar). Unidade 5 • O uso de recursos digitais150/274 • Tecnologias digitais assistivas (uso do computador sem mouse, sem monitor, sem som e sem teclado, leitores de tela, aplicativos de texto- para-voz e voz-para-texto, softwares de comunicação aumentativa e alternativa, uso do computador como caderno eletrônico etc.). 3. TICs como ajuda técnica As TICs oferecem uma gama de opções de ajudas técnicas para as pessoas com deficiência, que podem ser divididas em quatro grandes grupos (adaptados de Damasceno e Galvão Filho, 2002, p. 2): 1. TIC como sistema auxiliar e/ou prótese para comunicação. 2. Utilização das TICs para controle do ambiente. 3. TIC como ferramenta de aprendizagem ou ambiente virtual. 4. Capacitação em TIC para auxiliar na atividade profissional. Você encontrará mais sobre as TICs como auxiliares para a comunicação no próximo tópico. Diversas TICs foram criadas para aumentar a autonomia das pessoas com deficiência frente ao ambiente escolar, auxiliando-as a controlar melhor o ambiente. Extensões robóticas, cadeiras de rodas motorizadas, acionadas por joysticks manuais ou orais e controles remotos ou acionados por voz são exemplos dessa categoria. Outro Unidade 5 • O uso de recursos digitais151/274 exemplo são os programas como MyTobii e PCeye Go, que permitem comandar um computador através do olhar. Pesquisas também têm mostrado que a aprendizagem virtual e a educação à distância podem oferecer alternativas importantes para a educação de pessoas com deficiência. São beneficiados alunos com sério comprometimento de mobilidade (incluindo aqueles hospitalizados) e as pessoas cegas, entre outros. Para tanto, é óbvio, os Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) devem ser completamente acessíveis. Link O World Wide Web Consortium (W3C) elaborou um protocolo para a acessibilidade digital com as diretrizes a serem seguidas para obter um programa, página web ou AVA que sejam acessíveis. O protocolo recebeu o nome de Web Content Accessibility Guidelines (WCAG) 2.0, ou seja, Guia para Acessibilidade de Conteúdo Web. O conhecimento dessas regras pode ajudar a pensar em soluções que não sejam digitais, pois os princípios são bastante gerais e trazem insights importantes. Uma versão em português do WCAG 2.0 está disponível em: <https://www.w3.org/Translations/WCAG20-pt-PT>. É possível, ainda, verificar se um conteúdo web foi criado de acordo com os princípios do WCAG usando um validador de conteúdos, como o AChecker: <http://achecker.ca/checker/index.php>. https://www.w3.org/Translations/WCAG20-pt-PT http://achecker.ca/checker/index.php Unidade 5 • O uso de recursos digitais152/274 Dentro da ideia de que a educação também deve qualificar para o trabalho, conforme afirma nossa Constituição Federal (BRASIL, 1988), o treinamento em TICs que pode auxiliar na execução das atividades profissionais também deverá ser parte dos objetivos da educação. 4. Recursos digitais e Comunicação Aumentativa e Alternativa A Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA) é uma área da Tecnologia Assistiva que tem como objetivo eliminar as barreiras de comunicação, a partir da modificação do contexto de comunicação, por meio da elaboração, implementação e divulgação de canais e códigos diversos que possibilitem a todos os sujeitos participarem dos processos de comunicação. Os recursos digitais podem facilitar a adoção de novas formas de comunicação, alterando o canal e o código de transmissão da mensagem, para permitir acesso tanto ao emissor quanto ao receptor. As TICs dedicadas a essa tarefa são chamadas de Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação (SAAC). Para saber mais Os Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação podem também ser chamados de Sistemas Suplementares e Alternativos de Comunicação. Unidade 5 • O uso de recursos digitais153/274 Os SAACs podem ser utilizados em quatro situações (VERZONI, 2011): • Meio temporário de comunicação, até que se obtenha uma fala funcional. • Meio permanente de comunicação quando há comprometimento severo de fala. • Meio facilitador no desenvolvimento da comunicação oral. • Meio facilitador para o desenvolvimento de habilidades, conceitos, estruturas linguísticas e a leitura-escrita. Assim, é necessário avaliar se os SAACs serão necessários temporariamente (devido a uma incapacidade temporária, como uma doença), permanentemente ou como parte do desenvolvimento e da aquisição da fala. Também é necessário compreender quais são as características do usuário, tanto em relação à limitação presente quanto às suas preferências e desejos e suas habilidades (cognitivas, perceptuais, visuais e auditivas). É preciso ainda considerar com quem essa pessoa irá interagir através do SAAC (familiares, colegas, educadores, funcionários etc.). Por fim, os recursos financeiros para a aquisição de um SAAC Unidade 5 • O uso de recursos digitais154/274 acabam se impondo como um componente a ser ponderado. Entre os SAACs mais comuns se encontram: • softwares para criação de pranchas de comunicação, como o BoardMaker; • os vocalizadores, em geral utilizados com pranchas de comunicação e com vocabulário pré-gravado, como o GoTalk20+; • os sistemas de tradução para Libras, como o ProDeaf Web e o Hand Talk; • Os aplicativos e funções de voz-para- texto (transcrevem áudios diretos ou gravados), como o Speech to Text Notepad e o Google Keyboard; • Os aplicativos e funções de texto- para-voz (convertem textos escritos em áudio), como o DosVox e as funções presentes nos sistemas operacionais, como a função Narrador, do Windows, e o aplicativo TTS, no Ubuntu e nos sistemas Android. Unidade 5 • O uso de recursos digitais155/274 Glossário Transtorno do Espectro Autista (TEA): a partir do Manual de Saúde Mental – DSM-5, que é um dos mais utilizados guias de classificação diagnóstica, o autismo e outros distúrbios, incluindo o transtorno autista, transtorno desintegrativo da infância, transtorno generalizado do desenvolvimento não especificado e Síndrome de Asperger,fundiram-se em um único diagnóstico chamado Transtornos do Espectro Autista – TEA. O TEA é uma condição geral para um grupo de desordens complexas do desenvolvimento do cérebro, que podem ocorrer antes, durante ou logo após o nascimento. Esses distúrbios se caracterizam pela dificuldade na comunicação social e comportamentos repetitivos. Embora todas as pessoas com TEA partilhem essas dificuldades, o seu estado irá afetá-las com intensidades diferentes. O TEA pode ser associado com deficiência intelectual, dificuldades de coordenação motora e de atenção e, às vezes, as pessoas com autismo têm problemas de saúde física (AUTISMO E REALIDADE, [s.d]). Unidade 5 • O uso de recursos digitais156/274 Glossário Déficit de atenção: o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e frequentemente acompanha o indivíduo por toda a vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade. Ele é chamado às vezes de DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção). Em inglês, também é chamado de ADD, ADHD ou de AD/HD. Sociedade da informação: a sociedade da informação pode ser vista como uma organização geopolítica dada a partir da Terceira Revolução Industrial, com impacto direto no uso da informação e das tecnologias da informação e comunicação (TICs). O termo surge como uma mudança de paradigma tecnossocial presente na sociedade pós-industrial, visando ao uso da informação como moeda para a sociedade em constituição naquele momento. Seu conceito passa por questões como a inclusão-exclusão digital até o uso dos recursos informacionais digitais. Questão reflexão ? para 157/274 As tecnologias digitais modificaram o mundo, mas ainda são objeto de muita resistência. Reflita sobre sua inserção no mundo digital. Você vê a tecnologia como um facilitador ou como uma barreira para suas atividades? Utiliza ou já utilizou tecnologias que auxiliaram na comunicação? Participa de redes sociais e grupos virtuais? Como avalia a inclusão digital e o amplo acesso ao mundo virtual atualmente? Essa inclusão aumentaria o acesso à educação das pessoas com deficiência? 158/274 Considerações Finais • As Tecnologias Digitais ou Tecnologias de Informação e Comunicação constituem recursos essenciais para a educação das pessoas com deficiência. • Utilizar tais TICs proporciona maior acesso ao conhecimento, diminuindo a exclusão digital desse grupo. • As TICs fornecem importantes ajudas técnicas no campo da Comunicação Aumentativa e Alternativa, através de Ambientes Virtuais de Aprendizagem, para auxiliar na autonomia em relação aos ambientes e como qualificação para o trabalho. • No entanto, para uma inclusão efetiva, é necessário que os educadores e os profissionais de atendimento educacional especializado estejam capacitados para o uso das TICs. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa159/274 Referências AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental disorders - DSM-5. Washington: American Psychiatric Association, 2013. AUTISMO E REALIDADE. O que é autismo ou transtorno do espectro autista? Autismo e Realidade, [s.d]. Disponível em: <http://autismoerealidade.org/informe-se/sobre-o-autismo/o- que-e-autismo/>. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao. htm>. Acesso em: 28 out. 2014. CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999. CORTELAZZO, I. B. Formação de professores para uma educação inclusiva mediada pelas tecnologias. In: GIROTO, C.; POKER, R.; OMOTE, S. As tecnologias nas práticas pedagógicas inclusivas. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012. p. 25-40. Disponível em: <http://www.marilia. unesp.br/Home/Publicacoes/as-tecnologias-nas-praticas_e-book.pdf>. Acesso em: 28 out. 2014. DAMASCENO, L.; FILHO, T. G. As novas tecnologias como tecnologia assistiva: utilizando os recursos de acessibilidade na educação especial. 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Telecentros. Prefeitura de São Paulo, 2015. Disponível em: <http:// www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/servicos/inclusao_digital/telecentros/>. Acesso em: 10 dez. 2016. NERI, M. Mapa da exclusão digital. Pesquisas – Centro de Políticas Sociais, 2012. Disponível em: <http://www.cps.fgv.br/cps/bd/mid2012/MID_FT_FGV_CPS_Neri_TextoPrincipal_Fim_ GRAFICA_fim.pdf>. Acesso em: 28 out. 2014. ONU. Goal 9: Industry, innovation and infrastructure. Sustainable Development Goals, 2015. Disponível em: <http://www.un.org/sustainabledevelopment/infrastructure-industrialization/>. Acesso em: 10 dez. 2016. RODRIGUES, D. As tecnologias de informação e comunicação em tempo de educação inclusiva. In: GIROTO, C.; POKER, R.; OMOTE, S. As tecnologias nas práticas pedagógicas inclusivas. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012. p. 25-40. Disponível em: <http://www.marilia.unesp.br/Home/ Publicacoes/as-tecnologias-nas-praticas_e-book.pdf>. Acesso em: 28 out. 2014. VERZONI, L. D. N. 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Marque a alternativa correta em relação à definição de tecnologia no sentido mais amplo e geral possível: a) Toda a produção humana baseada na sua capacidade de criar objetos a partir de sua racionalidade. b) Tecnologias de Informação e Comunicação, ou seja, aquelas que utilizam a lógica binária, registrada a partir de circuitos eletrônicos, para armazenar e manejar dados e informações. c) As tecnologias digitais. d) As ajudas técnicas. e) As tecnologias assistivas. Questão 1 163/274 2. As TICs oferecem opções de ajudas técnicas para as pessoas com deficiência e podem ser divididas em quatro grandes grupos. São eles, com exceção de: Questão 2 a) TIC como sistema auxiliar e/ou prótese para comunicação. b) Capacitação em TIC para auxiliar na atividade profissional. c) TIC como ferramenta de aprendizagem ou ambiente virtual. d) Utilização das TICs para controle do ambiente. e) Transtorno do espectro autista. 164/274 3. São exemplos comuns de Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação (SAAC): Questão 3 a) Softwares para criação de pranchas de comunicação, como o BoardMaker. b) Os vocalizadores, em geral utilizados com pranchas de comunicação e com vocabulário pré-gravado, como o GoTalk20+. c) Os sistemas de tradução para Libras, como o ProDeaf Web e o Hand Talk, bem como os aplicativos e funções de texto-para-voz (convertem textos escritos em áudio), como o DosVox e as funções presentes nos sistemas operacionais, como a função Narrador, do Windows e o aplicativo TTS, no Ubuntu e nos sistemas Android. d) Os aplicativos e funções de voz-para-texto (transcrevem áudios diretos ou gravados), como o Speech to Text Notepad e o Google Keyboard. e) Todas as alternativas anteriores. 165/274 4. Marque a frase correta, de acordo com o texto: Questão 4 a) A inclusão digital é suficiente para garantir a inclusão escolar. b) Os professores já têm ampla capacitação no uso das TICs no ambiente escolar. c) As TICs podem auxiliar estudantes com deficiência a controlar melhor o ambiente escolar no qual estão inseridos. d) Os recursos digitais facilitam a troca de informações ao alterar a mensagem e o contexto de comunicação. e) Os sistemas aumentativos e alternativos de comunicação substituem permanentemente a fala. 166/274 5. É exemplo de ação transformadora a ser tomada ao se implantar novas tecnologias por um gestor escolar, conforme o texto: Questão 5 a) Realizar um levantamento das competências apenas dos estudantes com deficiência para o uso das TICs, de forma a se aproveitar as melhores práticas que já ocorrem na comunidade. b) Mapear as necessidades de capacitação básicas e de formação aprofundada e continuada dos profissionais de atendimento educacional especializado para utilizar as TICs. c) Envolver setores privados, como empresas de software, nos objetivos, na formação e na utilização dos recursos digitais. d) Elaborar um projeto com objetivos, metas e ações definidas da utilização dos recursos, alinhado com o projeto pedagógico escolar. e) Criar projetos individuais, específicos para cada aluno com deficiência, sem considerar as possibilidades de aprendizado coletivo e a integração desse aluno ao grupo e à escola a que pertence. 167/274 Gabarito 1. Resposta: A. A tecnologia no sentido mais amplo e geral possível é toda a produção humana baseada na capacidade do ser humano de criar objetos a partir de sua racionalidade. Os outros exemplos são de tecnologias específicas, como as TICs; as Tecnologias Digitais; as Ajudas Técnicas e as Tecnologias Assistivas. 2. Resposta: E. Transtorno do espectro autista é um distúrbio e não uma opção de ajudas técnicas para as pessoas com deficiência. A pessoa com autismo precisa de ajudas específicas para superar suas dificuldades de aprendizagem. 3. Resposta: E. Todas as alternativas citadas são exemplos comuns de Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação (SAAC), tais como softwares para criação de pranchas de comunicação; sistemas de tradução para Libras; os aplicativos e funções de voz-para-texto. 4. Resposta: C. As Tecnologias da Informação e Comunicação são frequentemente usadas como ajudas técnicas para que pessoas com deficiência possam controlar melhor os ambientes escolares, através de recursos como extensões robóticas, cadeiras de 168/274 Gabarito rodas motorizadas, acionadas por joysticks manuais ou orais, controles remotos ou aqueles acionados por voz, softwares para uso de computadores, entre outros. 5. Resposta: D. Ações transformadoras a serem tomadas ao se implantar novas tecnologias por um gestor escolar têm como objetivo projetos coletivos, de realização de levantamento das competências da comunidade escolar para o uso das TICs; mapeamento das necessidades de capacitação básicas e de formação aprofundada e continuada dos professores para utilizar as TICs; envolvimento da comunidade escolar etc. Não é seu objetivo criar projetos individuais, específicos para cada aluno com deficiência, sem considerar as possibilidades de aprendizado coletivo e a integração desse aluno ao grupo e à escola a que pertence. 169/274 Unidade 6 Acessibilidade e design universal Objetivos 1. Entender as relações entre acessibilidade e Tecnologia Assistiva. 2. Apresentar o conceito de design universal e suas interfaces com as ajudas técnicas. 3. Apresentar o conceito de design universal para a aprendizagem e suas interfaces com as ajudas técnicas. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal170/274 Introdução O conceito de universalidade é bastante antigo. Encontrar as formas universais já era uma preocupação da civilização grega pré-Império Romano. A própria filosofia era vista como a busca por um saber universal. Este conceito é retomado na ciência positivista do século XIX: buscar fórmulas universais e teorias que pudessem explicar o todo. A visão da época é a de que haveria leis imutáveis que governavam o tempo, o espaço e, também, o homem. O positivismo visava encontrar um homem universal que seria perfeito, tanto em relação ao corpo, quanto em relação à inteligência e mesmo às suas emoções. A universalidade afetou a todas as ciências, mesmo as estéticas, como a arquitetura. Também ficou impregnada no urbanismo e no planejamento urbano, como é o exemplo das cidades planejadas. Como pano de fundo para a ciência, a universalidade acabou por impor-se como condição, ao invés de busca. Cientistas, para validar suas teorias como universais, passaram a encaixar nelas os fenômenos reais, deixando de lado aquilo que não poderia ser compreendido e explicado por elas. O universal, de uma busca teórica, passou a ser uma representação social da realidade. Tal fato afetou a arquitetura, o urbanismo, a indústria e mesmo a educação. Com os movimentos sociais por inclusão da segunda metade do século XX em diante, a visão sobre a universalidade vem se Unidade 6 • Acessibilidade e design universal171/274 modificando. A criação de campos teóricos como o da Ergonomia, que visa adequar os equipamentos às pessoas, é marca desta mudança. A Acessibilidade e a Tecnologia Assistiva também vieram nesse sentido, buscando um novo conceito de Todo, numa visão sistêmica que possibilitasse aos espaços sociais mais flexibilidade, adaptação e respeito à diversidade. Foi necessário, portanto, rever o que era universal. O conceito vem se deslocandode uma única verdade que exclui para uma realidade ampla o bastante para comportar a todos. Assim, aumenta-se a complexidade do que é universal. Caem por terra os mitos de simplicidade industriais, que vêm sendo lentamente substituídos pela ideia de que um objeto, para ser universal, deve ser pensado para todos. A evolução da tecnologia tem um papel importante na possibilidade da universalização: novos materiais que permitem maior flexibilidade, avanços na tecnologia digital e sua possível integração com edifícios e objetos são exemplos. Link Para se ter uma ideia sobre as críticas da visão de diversidade sobre a educação positivista e universalista, sugere-se a leitura do texto “Educação pelo outro: singularidades e diferenças no ensinar” (PEREIRA, 2015). Disponível em: <http://177.135.198.140/ online/index.php/psicologioemfoco/article/ view/239/256>. http://177.135.198.140/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/239/256 http://177.135.198.140/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/239/256 http://177.135.198.140/online/index.php/psicologioemfoco/article/view/239/256 Unidade 6 • Acessibilidade e design universal172/274 Mas, mesmo tais avanços só se tornam possíveis a partir de uma mudança na visão do cientista. A principal tecnologia, que permite um mundo acessível, é a da inovação e criatividade humanas, que se propõe a dedicar-se a novos métodos necessários para se chegar a tal objetivo. Você conhecerá, nesse capítulo, alguns desses métodos, em especial, ligados à ideia de design universal. Para saber mais O Prof. Marcelo Guimarães propõe uma diferenciação entre os termos design universal e desenho universal. Apesar de essa última ser a forma que aparece na legislação brasileira e em muitas publicações, o autor defende que design universal remete à definição original, que é mais ampla “pois se aplica na maneira como soluções de acessibilidade podem alcançar uma ênfase global e distinta de ideias especializadas para grupos isolados de público incomum” (GUIMARÃES, 2008, p. 89). 1. Design universal A denominação design universal foi cunhada pelo arquiteto estadunidense Ron Unidade 6 • Acessibilidade e design universal173/274 Mace. Ele queria distinguir seu campo de atuação das adaptações específicas para pessoas com deficiência, no campo da tecnologia assistiva, e das obrigações de mobilidade para pessoas com deficiência impostas pela legislação de seu país. O arquiteto define o design universal como a busca pela produção de produtos e ambientes que sejam utilizados por todas as pessoas, na maior extensão possível, sem que precisem de ajudas técnicas ou de uma adaptação especializada (MACE, 2008). Desta forma, é um método ou um conjunto de técnicas utilizado por campos como a arquitetura e o design de produtos para guiar suas ações e inovações. Para saber mais Mace (2008) afirmou, em sua última palestra, na universidade Hofstra, em Nova Iorque: “Eu nunca vi um prédio ou edificação que eu diria que é universalmente funcional. Eu não sei se é possível criar um. Não tenho certeza que seja possível criar algo que seja universalmente usável. Isto não demonstra uma fraqueza do termo. Nós o usamos porque é o que melhor descreve qual o nosso objetivo: algo com que as pessoas possam viver e que possam adquirir”. A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) estabelece parâmetros e critérios técnicos de acessibilidade a serem observados nas edificações, construções, salas de aula etc., de acordo com os Unidade 6 • Acessibilidade e design universal174/274 preceitos do design universal, visando proporcionar acessibilidade ao maior número de pessoas possível, nas mais amplas áreas da nossa vida em sociedade, inclusive a educacional. O design universal, segundo a ABNT, envolve a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem utilizados por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico, incluindo os recursos de tecnologia assistiva (ABNT, 2016). O Artigo 2 da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 6949, de 2009, com status de emenda constitucional, traz como definição de design universal: A concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico. O “desenho universal” não excluirá as ajudas técnicas para grupos específicos de pessoas com deficiência, quando necessárias (BRASIL, 2009). Unidade 6 • Acessibilidade e design universal175/274 O design universal, como técnica, propõe que produtos e ambientes, para serem amplamente acessíveis às diversas necessidades humanas, devem atender a alguns critérios (SÃO PAULO, [s.d]; CONNELL et al., 1997): 1. Uso equitativo Por uso equitativo, entende-se a capacidade de um ambiente ou espaço ser utilizado por pessoas com diferentes capacidades, na máxima extensão possível. As capacidades humanas variam não apenas em relação à presença ou não de deficiência, mas em relação a diversas outras questões, como: peso, altura, formato do corpo etc. Esse princípio tem como diretrizes: a. Prover a mesma forma de uso: idêntica sempre que possível, equivalente quando não o for. b. O uso não deve segregar ou estigmatizar quaisquer usuários. c. O uso deve proporcionar o mesmo grau de segurança, proteção e privacidade para todos os usuários. d. Os produtos e ambientes devem ser considerados esteticamente agradáveis por todos os usuários. 2. Flexibilidade no uso Por flexibilidade, entende-se a capacidade do produto de ser usado da forma que o usuário preferir. As pessoas utilizam um mesmo produto de diferentes formas, Unidade 6 • Acessibilidade e design universal176/274 como por exemplo, o jeito com que cada pessoa segura um lápis para a escrita: como segurar, qual a inclinação da ponta etc. As diretrizes que regem esse princípio são: a. Providenciar escolhas de métodos para uso. b. Ser utilizável por canhotos e destros, tanto no acesso quanto no uso. c. Facilitar o uso com exatidão e precisão. d. Possibilitar que o usuário aprenda a utilizar no seu próprio ritmo. 3. Uso simples e intuitivo Objetos e ambientes que facilitam o entendimento para serem utilizados, independentemente das experiências anteriores dos usuários, seu conhecimento ou uso anterior. Quanto mais “natural” o usuário perceber o uso, maior será a conformidade a esse item. Por exemplo, poder tocar na tela de um monitor para acessar um aplicativo é mais simples e intuitivo do que o uso do mouse. São diretrizes para este princípio: a. Eliminar qualquer complexidade desnecessária. b. Ser consistente com as expectativas do usuário. c. Prover diferentes níveis de linguagem para acomodar pessoas numa ampla extensão de capacidade de leitura. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal177/274 d. Organizar a informação de forma que fique consistente com sua importância para o usuário. e. Solicitar ações e responder a essas razões de forma efetiva durante e depois da conclusão da tarefa. 4. Informações perceptíveis O design de produtos e construções é capaz de comunicar as informações necessárias de forma que o usuário possa recebê-las independentemente das suas capacidades sensoriais. a. Apresentar informações essenciais com redundância, através de vários meios e canais (visual, verbal, tátil etc.). b. Possibilitar a fácil e rápida distinção entre as informações essenciais e o ambiente em torno. c. Maximizar a clareza das informações essenciais. d. Facilitar a distinção dos elementos do ambiente, permitindo sua fácil descrição (para facilitar explicações que permitam a localização e a movimentação pelos espaços). e. Proporcionar uso compatível com as diversas técnicas e instrumentos utilizados por pessoas com limitações sensoriais. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal178/2745. Tolerância ao erro É necessário considerar que pessoas com diferentes habilidades utilizarão os produtos e ambientes que devem, portanto, minimizar as consequências de usos pouco precisos. a. Escolher materiais e elementos os mais acessíveis, eliminando os que possam causar danos ou elevar riscos de acidentes. b. Na impossibilidade de eliminar os riscos, providenciar avisos claros sobre o perigo de acidentes e erros. c. Fornecer recursos de segurança contra acidentes e falhas de uso. d. Desencorajar ações por desatenção em tarefas que requeiram vigilância. 6. Esforço físico minimizado O design valoriza o uso confortável e eficiente com o mínimo de cansaço para o usuário. a. Permitir que a posição do corpo seja neutra para o usuário. b. Permitir a utilização sem a necessidade de uso excessivo da força física. c. Minimizar a necessidade de movimentos repetitivos. d. Minimizar a necessidade de esforço contínuo. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal179/274 7. Tamanho e espaço para acesso e uso O espaço para se acessar o produto ou ambiente e o espaço disponível para seu uso são adequados, permitindo o alcance, manipulação e uso independentemente das características corporais do usuário ou de sua mobilidade. a. Dar visibilidade clara aos elementos importantes para usuários em qualquer postura ou altura. b. Tornar todos os componentes manipuláveis de acesso fácil e confortável, para usuários em qualquer postura ou altura. c. Possibilitar o uso por pessoas com empunhaduras variadas. Link A cartilha “Desenho universal: um conceito para todos” (CARLETTO; CAMBIAGHI, [s.d]) traz um resumo da teoria do design universal com muitos exemplos. Para conferir, vá ao endereço <http:// www.vereadoramaragabrilli.com.br/files/ universal_web.pdf>. O design universal inspirou pesquisadores de educação estadunidenses a formarem o Centro de Tecnologia Especial Aplicada, que buscava dar novas experiências de aprendizagem para estudantes com deficiência. Em 1986, eles publicaram suas primeiras experiências com o Design Universal para Aprendizagem. http://www.vereadoramaragabrilli.com.br/files/universal_web.pdf http://www.vereadoramaragabrilli.com.br/files/universal_web.pdf http://www.vereadoramaragabrilli.com.br/files/universal_web.pdf Unidade 6 • Acessibilidade e design universal180/274 8. Design Universal para a Aprendizagem A origem do Design Universal para a Aprendizagem deve-se ao surgimento do conceito de design universal na arquitetura, urbanismo e engenharia, áreas em que esse conceito foi pioneiro, quando começaram a ser projetados edifícios e espaços públicos e urbanos mais acessíveis, de modo a que todos pudessem neles ficar e permanecer. Esse conceito passou a ser adotado também nos processos de ensino-aprendizagem, para possibilitar acesso a todos os estudantes ao conteúdo escolar e a várias possibilidades e modos de se aprender. David Rose, Anne Meyer e outros pesquisadores estadunidenses do Centro de Aplicação de Tecnologia Especial (CAST), em Wakefield, Massachusetts (EUA), inspirados nos princípios do Desenho Universal da arquitetura para acessibilidade física, desenvolveram o conceito de Desenho Universal para Aprendizagem (DUA), também conhecido como Universal Design for Learning (UDL). O DUA ou UDL foi proposto a partir de pesquisas sobre a acessibilidade para todos, seja em termos físicos, seja em termos de serviços, seja em termos de ensino, visando propor recursos e soluções educacionais, para que todos pudessem ter acesso, sem barreiras, à educação. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal181/274 Além das barreiras físicas, sabe-se que também existem muitas barreiras pedagógicas. As pessoas que ocupam as salas de aula são diversificadas e apresentam particularidades, características resultantes da heterogeneidade dos estudantes. Os professores, ao reconhecer essas diferenças na sala de aula, precisam conduzir o ensino de forma que todos possam ter acesso aos conteúdos propostos. Para saber mais Howard Gardner, psicólogo cognitivo e educacional norte-americano, desenvolveu a Teoria das Inteligências Múltiplas, teoria que muito influenciou o UDL. A teoria se tornou conhecida em seu livro Frames of mind, de 1983. O assunto foi aprofundado em outro livro, Inteligências múltiplas: teoria na prática, de 1993. Nos estudos sobre educação que se seguiram, ele enfatizou a importância de trabalhar a formação ética simultaneamente ao desenvolvimento das inteligências. Ele questionou o conceito de inteligência, como tradicionalmente definido, considerando que não era suficiente para descrever a grande variedade de habilidades cognitivas humanas. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal182/274 Para Marra e Mendes (2014, s.p.): Um projeto orientado pelo desenho universal considera a diversidade humana, respeitando as diferenças existentes entre as pessoas e garantindo a acessibilidade de todos [...] Ele também se aplica a outras áreas, como a educacional, sendo um importante instrumento para possibilitar uma educação para todos, pois leva em conta os diversos perfis de estudantes. Os princípios do desenho universal podem auxiliar os educadores a atender todos os estudantes, mediante a adoção de objetivos de aprendizagem, materiais e métodos adequados. Assim, o planejamento da acessibilidade nas salas de aula e os conteúdos a serem passados aos alunos devem partir dos princípios inclusivos e dos conceitos do design universal. Nesse sentido, a didática inclusiva é aquela que valoriza a diversidade humana, respeitando as diferenças existentes entre as pessoas e garantindo oportunidades de aprendizagem para todos os estudantes. O design universal para aprendizagem envolveria, portanto, não só a elaboração de materiais e conteúdos acessíveis, mas também a construção e adaptação dos espaços, para que todos os alunos tenham possibilidade de chegar à sala de aula, com Unidade 6 • Acessibilidade e design universal183/274 segurança e livre acesso. As salas de aula devem ser acessíveis, assim como os materiais e conteúdos destinados à educação e aprendizagem dos alunos com deficiência. Para Bersch (2013, s.d.): Precisamos também ultrapassar o entendimento de que o Desenho Universal se destina exclusivamente à concepção e desenvolvimento de espaços e artefatos. Ele se aplica devidamente à ação educacional, quando esta é preparada e exercida levando-se em conta a diversidade existente na escola e o seu valor, na qualificação da educação para todos (BERSCH, 2013). O design universal para a aprendizagem pode auxiliar os educadores a atender todos os estudantes, mediante a adoção de objetivos de aprendizagem, materiais e métodos adequados. Um exemplo de adoção do design universal para aprendizagem seria a utilização de computadores com teclado, mouses e programas do tipo “dosvox”. Podemos citar também uma tesoura que se adaptaria a destros e canhotos, entre outros materiais e métodos de aprendizagem. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal184/274 Segundo Rose e Meyer, 2002 (apud Bersch, 2013, s. p.): O Desenho Universal para Aprendizagem (Universal Design for Learning - UDL), é um conjunto de princípios baseados na pesquisa e constitui um modelo prático para maximizar as oportunidades de aprendizagem para todos os estudantes. Os princípios do Desenho Universal se baseiam na pesquisa do cérebro e mídia para ajudar educadores a atingir todos os estudantes a partir da adoção de objetivos de aprendizagem adequados, escolhendo e desenvolvendo materiais e métodos eficientes, e desenvolvendo modos justos e acurados para avaliar o progresso dos estudantes. Link O site Movimento Down traz um manual de como elaborar um livro didático sob a perspectiva do desenho universal. Nele, há conteúdos sobre o design universal para a aprendizagem e estudos de caso, nos quais foram avaliados livros didáticosinfantis sob a ótica da inclusão. Para acessar o manual do Desenho Universal para Aprendizagem, em <http://www.movimentodown.org.br/educacao/ desenho-universal-para-aprendizagem/>. http://www.movimentodown.org.br/educacao/desenho-universal-para-aprendizagem/ http://www.movimentodown.org.br/educacao/desenho-universal-para-aprendizagem/ Unidade 6 • Acessibilidade e design universal185/274 São basicamente três os princípios centrais e orientadores do design universal para a aprendizagem: (1) Proporcionar múltiplos meios e modos de representação ou apresentação. (2) Proporcionar múltiplos meios e modos de ação e expressão. (3) Proporcionar múltiplos meios e modos de envolvimento e autoenvolvimento. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal186/274 Os Princípios do Desenho Universal na Aprendizagem visam oferecer múltiplos meios de representação, de apresentação dos conteúdos e informação através de diferentes e múltiplos tipos de mídia, permitindo aos alunos demonstrarem o que sabem de diferentes maneiras, além de possibilitar que sejam criadas condições para os alunos se envolver e manter o interesse nas atividades educativas. Portanto, os princípios do Design universal também devem ser aplicados à área educacional, sendo um importante instrumento para permitir uma educação inclusiva, pois levarão em conta os diversos perfis de estudantes e as mais variadas particularidades. O Design Universal para a Aprendizagem exige a reestruturação dos conteúdos e currículos escolares. Uma adaptação posterior dos conteúdos, materiais e estratégias não seriam adequadas ao Design Universal. O processo de construção do conteúdo escolar deve contemplar, previamente, os princípios do Design Universal e da educação para todos. Quanto mais universal o material, menores as necessidades de adaptação posterior. A tendência geral em direção a políticas de educação mais inclusivas busca resolver integralmente as necessidades de pessoas com deficiências e particularidades de vários tipos. Para tal objetivo, é ideal o uso do Desenho Universal para Aprendizagem, a fim de que todos os alunos tenham iguais oportunidade de aprender. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal187/274 Para saber mais Há vários projetos aliando a aprendizagem ao design universal. Entre eles, há aqueles que adotam os princípios do desenho universal como fundamento para a Educação Matemática Inclusiva, além de práticas pedagógicas inclusivas mediadas por jogos matemáticos com regras, desenvolvidos e utilizados na perspectiva do desenho universal. Unidade 6 • Acessibilidade e design universal188/274 Glossário Ergonomia: é uma ciência multidisciplinar que envolve aspectos ligados à anatomia, fisiologia, biomecânica, antropometria, psicologia, engenharia, desenho industrial, informática e administração, de maneira a proporcionar ao homem mais conforto, segurança e eficiência em qualquer atividade. A ergonomia visa a uma segurança e eficiência ideais no modo como homem e máquina interagem. A tríade básica da ergonomia relaciona-se ao conforto, segurança e eficiência. Redundância: o chamado “princípio da redundância” requer o uso de múltiplos meios de transmissão, vias alternativas e atalhos, para a recepção da mensagem, propondo que não se restrinja jamais a emissão da mensagem a um único tipo de comunicação (ABNT, 2008). Unidade 6 • Acessibilidade e design universal189/274 Glossário Barreiras pedagógicas: são obstáculos e dificuldades impostas aos alunos no processo educacional, dificultando o livre acesso dos estudantes aos conteúdos didáticos, aos materiais usados em sala de aula e ao próprio espaço escolar, comprometendo o processo de ensino- aprendizagem. Questão reflexão ? para 190/274 A UDL propõe três princípios para uma aula com design universal. Em suas turmas ou trabalho, você já pensou em utilizar meios e modelos diferentes para apresentar os conteúdos? Já utilizou ajudas técnicas que possibilitassem aos estudantes se expressar de formas diferentes? Já refletiu sobre como os alunos se engajam de forma diferente nas atividades e como você pode facilitar esse envolvimento? 191/274 Considerações Finais • Compreende-se a universalidade, hoje, não como uma regra que pode ser aplicada a todos, mas como a variabilidade de regras que possam atender a todos, em sua diversidade. • O design universal tem por objetivo a produção de produtos, ambientes e espaços que sejam utilizados por todas as pessoas, na maior extensão possível. • Os princípios do design universal devem ser aplicados à área educacional, sendo um importante instrumento para permitir uma educação inclusiva. • O design universal para a aprendizagem exige a reestruturação dos conteúdos e currículos escolares, para atender o maior número possível de alunos. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa192/274 Referências ABNT. NBR 16.537. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2016. ABNT. NBR 15.599. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Normas Técnicas, 2008. BERSCH, Rita. Introdução à tecnologia assistiva. Porto Alegre, 2013. Disponível em: <http:// www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf>. Acesso em: 12 nov. 2016. BETTYE ROSE CONNELL ET AL. The principles of universal design. The Center for Universal Design, Raleigh, 1997. Disponível em: <https://www.ncsu.edu/ncsu/design/cud/about_ud/ udprinciplestext.htm>. Acesso em: 12 nov. 2016. BRASIL. Decreto nº 6.949, de 25 de agosto de 2009, Brasília, 2011 – Promulga a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo, 2009. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949. htm>. Acesso em: 12 nov. 2016. CARLETTO, A. C.; CAMBIAGHI, S. Desenho universal: um conceito para todos. São Paulo: Instituto Mara Gabrili, [s.d]. Disponível em: <http://www.vereadoramaragabrilli.com.br/files/ universal_web.pdf>. Acesso em: 12 nov. 2016. CAST (2011). Disponível em: <http://www.udlcenter.org/sites/udlcenter.org/files/ Guidelines_2.0_Portuguese.pdf>. Acesso em: 12 nov. 2016. http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf https://www.ncsu.edu/ncsu/design/cud/about_ud/udprinciplestext.htm https://www.ncsu.edu/ncsu/design/cud/about_ud/udprinciplestext.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm http://www.vereadoramaragabrilli.com.br/files/universal_web.pdf http://www.vereadoramaragabrilli.com.br/files/universal_web.pdf http://www.udlcenter.org/sites/udlcenter.org/files/Guidelines_2.0_Portuguese.pdf http://www.udlcenter.org/sites/udlcenter.org/files/Guidelines_2.0_Portuguese.pdf Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa193/274 CONNELL, B. R. et al. Universal design principles: the center for universal design environments and products for all people. Raleigh: NC State University, The Center for Universal Design, 1997. DESENHO UNIVERSAL PARA APRENDIZAGEM, 2016. Disponível em: <https:// desenhouniversalparaaprendizagemdotcom.wordpress.com/>. Acesso em: 12 nov. 2016. EDUCAR PARA CRESCER, 2011. Disponível em: <http://educarparacrescer.abril.com.br/ aprendizagem/howard-gardner-307909.shtml>. GUIMARÃES, M. P. Uma abordagem holística na prática do design universal. In: PUCMINAS, S. I. Avanços e desafios na construção de uma sociedade inclusiva. Belo Horizonte: PUCMINAS, 2008. p. 88-104. Disponível em: <http://proex.pucminas.br/sociedadeinclusiva/arquivos/ avancosedesafiosnaconstrucaodeumasociedadeinclusiva.pdf>. Acesso em: 12 nov. 2016. MACE, R. About UD. The Center for Universal Design. 2008. Disponível em: <https://www.ncsu. edu/ncsu/design/cud/about_ud/about_ud.htm>. Acesso em: 12 nov. 2016. MARRA, A. C. G.; MENDES, R. H. Guia para produção de material didáticoinclusivo. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2014. MOVIMENTO DOWN. Desenho universal para livros didáticos. [s.l]: Movimento Down, [s.n]. Disponível em: <http://www.movimentodown.org.br/wp-content/uploads/2015/08/Manual- FINAL-bibliografia.pdf>. Acesso em: 12 nov. 2016. https://desenhouniversalparaaprendizagemdotcom.wordpress.com https://desenhouniversalparaaprendizagemdotcom.wordpress.com http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/howard-gardner-307909.shtml http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/howard-gardner-307909.shtml http://proex.pucminas.br/sociedadeinclusiva/arquivos/avancosedesafiosnaconstrucaodeumasociedadeinclusiva.pdf http://proex.pucminas.br/sociedadeinclusiva/arquivos/avancosedesafiosnaconstrucaodeumasociedadeinclusiva.pdf https://www.ncsu.edu/ncsu/design/cud/about_ud/about_ud.htm https://www.ncsu.edu/ncsu/design/cud/about_ud/about_ud.htm http://www.movimentodown.org.br/wp-content/uploads/2015/08/Manual-FINAL-bibliografia.pdf http://www.movimentodown.org.br/wp-content/uploads/2015/08/Manual-FINAL-bibliografia.pdf Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa194/274 MUNDO DA ERGONOMIA. Disponível em: <http://www.mundoergonomia.com.br/website/ conteudo.asp?id_website_categoria_conteudo=6355>. Acesso em: 10 dez. 2016. PEREIRA, F. D. D. S. Educação pelo outro: singularidades e diferenças no ensinar. Psicologia em Foco, Aracaju, v. 5, n. 1, p. 1-11, jan-jun 2015. Rose e Meyer, 2002 (apud BERSCH, Rita. Introdução à Tecnologia Assistiva. Porto Alegre, 2013. Disponível em: <http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf>. Acesso em: 12 nov. 2016). SÃO PAULO. Desenho universal – habitação de interesse social. São Paulo: Secretaria do Estado da Habitação, [s.d]. Disponível em: <http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/ Cartilhas/manual-desenho-universal.pdf>. Acesso em: 12 nov. 2016. http://www.mundoergonomia.com.br/website/conteudo.asp?id_website_categoria_conteudo=6355 http://www.mundoergonomia.com.br/website/conteudo.asp?id_website_categoria_conteudo=6355 http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/Cartilhas/manual-desenho-universal.pdf http://www.mpsp.mp.br/portal/page/portal/Cartilhas/manual-desenho-universal.pdf 195/274 1. O design universal deve atender a certos critérios. Qual das opções a seguir não corresponde a um dos critérios de design universal? Questão 1 a) Uso equitativo. b) Flexibilidade no uso. c) Uso simples e intuitivo. d) Informações perceptíveis. e) Esforço físico maximizado. 196/274 2. Assinale a frase correta, de acordo com o exposto sobre universalidade: Questão 2 a) A universalidade começou a ser estudada no século XIX, a partir do positivismo. b) A visão atual de universalidade é a de que existe uma única regra que pode classificar todas as pessoas. c) Os movimentos sociais forçaram a revisão do conceito de universalidade. d) A universalidade desde a antiguidade relacionava-se com o estudo do universo. e) O principal avanço das tecnologias em direção a uma nova forma de perceber a universalidade foi o das tecnologias industriais. 197/274 3. “A concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a serem usados, na maior medida possível, por todas as pessoas, sem necessidade de adaptação ou projeto específico”. Esta é a definição de design universal apresentada: Questão 3 a) Pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. b) Pela ISO 14.000. c) Pelo Plano Nacional de Educação. d) Pela Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. e) Pelo Centro de Aplicação de Tecnologia Especial. 198/274 4. É um dos princípios do Design Universal para Aprendizagem: Questão 4 a) Tamanho e espaço para acesso e uso. b) Esforço físico minimizado. c) Evolução da tecnologia. d) Múltiplos meios e modos de representação ou apresentação. e) Tolerância ao erro. 199/274 5. Qual das frases a seguir está correta, em relação ao design universal para a Aprendizagem: Questão 5 a) O UDL faz parte da ciência positivista. b) O UDL exige a reestruturação dos conteúdos e currículos escolares. c) O UDL se dirige às questões arquitetônicas, criando espaços que podem ser utilizados por todos. d) O UDL parte do princípio de que apenas um tipo de inteligência deve ser trabalhado na escola, conforme afirma Howard Gardner. e) O UDL entende que o professor não precisa se preocupar com a diversidade, pois a aprendizagem é universal. 200/274 Gabarito 1. Resposta: E. O design universal exige que o esforço físico do usuário seja minimizado, e não maximizado. 2. Resposta: C. Como o texto explica, os movimentos sociais que buscavam a inclusão das minorias forçaram uma mudança de visão para uma realidade mais ampla, capaz de comportar a todos. 3. Resposta: A. A Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência traz essa definição de desenho universal, ou design universal, no parágrafo II de seu artigo 3º. 4. Resposta: D. Os princípios propostos pelos pesquisadores do CAST para o UDL são estes: (1) Proporcionar múltiplos meios e modos de representação ou apresentação. (2) Proporcionar múltiplos meios e modos de ação e expressão. (3) Proporcionar múltiplos meios e modos de envolvimento e autoenvolvimento. 201/274 Gabarito 5. Resposta: B. A única forma de se garantir a aplicação dos princípios da UDL de múltipla apresentação é repensando os conteúdos e currículos escolares, que atualmente são excludentes, pois não permitem variar nem a apresentação dos conteúdos, nem os modos de expressão pelos alunos, além de não contemplar a questão do envolvimento e autoenvolvimento. 202/274 Unidade 7 Sala de Recursos Multifuncionais Objetivos 1. Rever brevemente a história da educação especial até o conceito de Atendimento Educacional Especializado (AEE). 2. Entender o conceito de Sala de Recursos Multifuncionais e suas relações com o AEE. 3. Compreender as relações entre Sala de Recursos e Ensino Regular. 4. Conhecer os princípios do Plano de Desenvolvimento Individual. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais203/274 Introdução “A educação especial, como campo do conhecimento, foi inaugurada pelo italiano J-J. Itard” (RODRIGUES; MARANHE, 2008, p. 12), no século XIX. Por volta da metade desse século, surgiram as primeiras escolas especiais, como as fundadas por Guggenbuhl e Pestallozzi. Essas primeiras experiências vão servir de base para o aprofundamento da área, que atrairá novos estudiosos, como Froebel e Montessori. Consolidam-se, assim, os primeiros métodos e teorias para o ensino das pessoas com deficiência. Numa lógica positivista, a Educação Especial se especializou cada vez mais, criando suas subdivisões, como a educação para pessoas com deficiência intelectual, educação para surdos e outras. No Brasil, as escolas especiais existem desde o Império, mas a chamada “Escola Nova”, vertente da educação que depositava na escolarização as esperanças de redução das desigualdades e de transformação social, vai possibilitar uma contínua evolução do conceito de educação para as pessoas com deficiência, a partir do século XX. Na década de 30, H. Antipoff chega ao país, fundando a Sociedade Pestalozzi e estimulando a criação de outras instituições com a finalidade de educar esse público em ambiente segregado. O movimento de institucionalização da pessoa com deficiência verá seu ápice na política pública e no surgimento de associações (públicas e filantrópicas) na década de 70 Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais204/274 (MENDES, 2010, p. 99). Em 1978, surgirá o primeiro programa de pós-graduação em Educação Especial do país, na Universidade Federal de São Carlos. Os movimentos sociais ligados às pessoas com deficiência são os principais veículos que, a partir da década de 80, demandam e impulsionam a educação inclusiva (ou seja,não segregada). Mas é no avanço das pesquisas e no desenvolvimento do conhecimento relacionado à Educação Especial que vão se desenvolver os saberes sobre os processos de ensino+aprendizagem das pessoas com deficiência. Este crescimento da área possibilitará a formação de um corpo teórico-técnico para o atendimento desse público. Para se ter uma ideia da evolução desse campo, pode-se tomar como exemplo de produção acadêmica a defesa de teses sobre o assunto: na década de 80, foram defendidas seis teses sobre o tema em São Paulo; na década de 90, foram 46; e na primeira década do ano 2000, 176 teses (SILVA, 2016). Esses estudos tiveram como principais temas: • Ensino-aprendizagem da pessoa com deficiência. • Processos de integração/inclusão escolar. • Formação de recursos humanos para atuação na área da educação especial. • Atitudes e percepção de familiares e profissionais sobre a pessoa Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais205/274 com necessidades específicas de aprendizagem. Com o incentivo à educação inclusiva, o conhecimento produzido pela Educação Especial passou a ter um novo foco, visando possibilitar a educação não mais em ambiente segregado. Todo o saber acumulado foi, então, colocado a serviço da educação regular, através da concepção do Atendimento Educacional Especializado (AEE) na Escola para Todos. Por um lado, essa escola ainda sofre com a falta de preparo de seus profissionais para atuar junto aos estudantes com deficiência. Por outro, a educação especial, que se enxergava como substitutiva à escola regular, agora necessita atuar em parceria com ela. Assim, o conhecimento produzido precisa ser repensado, aprimorado e mesmo desconstruído para possibilitar o novo arranjo inclusivo. São necessárias propostas inter e transdisciplinares que ultrapassem o saber isolado das especialidades. Para tanto, a Tecnologia Assistiva também deve rever seus princípios, a fim de dar apoio a essas duas disciplinas, quais sejam, educação especial e educação regular. Você verá, a seguir, como os espaços privilegiados para o atendimento educacional especializado permitem reavaliar os conceitos da Educação Especial e aplicá-los à Educação Inclusiva. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais206/274 1. Salas de recursos: espaços de AEE O direito das pessoas à inclusão na educação se baseia, por um lado, no princípio segundo o qual as pessoas não serão excluídas, sob nenhuma justificativa, do sistema educacional geral. Por outro lado, ele se sustenta no princípio de que elas receberão o apoio necessário para desenvolver seu potencial de aprendizagem, de forma a garantir tal inclusão, (ONU, 2006). No Brasil, a nossa Constituição Federal (CF/88) já prevê esse apoio na forma de “atendimento educacional especializado aos portadores [sic] de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino” (BRASIL, 1988, inc. III do art. 208). Conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, o atendimento educacional especializado é uma das atribuições da Educação Especial, tendo como função “identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que Link A concepção atual da Sala de Recursos no conceito da educação inclusiva está sendo desenvolvida há pelo menos uma década. Em 2006, um primeiro manual sobre o assunto foi divulgado pelo MEC. Este material ainda é atual e está disponível em: <http://www. dominiopublico.gov.br/download/texto/ me002991.pdf>. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me002991.pdf http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me002991.pdf http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/me002991.pdf Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais207/274 dentro das escolas. Tais espaços receberam o nome de Salas de Recursos Multifuncionais (SRM). eliminem as barreiras para a plena participação dos estudantes, considerando suas necessidades específicas” (BRASIL, 2008). O AEE é, então, o instrumento metodológico que possibilita que a educação especial saia do ambiente segregado e perpasse o ensino regular, permitindo o compartilhamento dos saberes construídos pela primeira para a produção de uma nova prática nos ambientes escolares que permita a redução das barreiras aí existentes. Pretende-se, através dele, aproximar esses dois campos – Educação Especial e Regular – e, para que tal possibilidade se dê, uma das principais políticas de que se lançará mão é a de criar espaços de planejamento e atendimento Para saber mais As salas de recursos diferem das classes especiais. Essas últimas são substitutivas à educação regular, mantendo um ambiente segregado de educação, mesmo estando fisicamente dentro de uma escola regular. Já as primeiras têm características de complementaridade e suplementariedade das ações da sala regular e seu atendimento se dá no contraturno, ou seja, em período contrário ao da atividade regular. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais208/274 As SRM são espaços de natureza pedagógica, nos quais o especialista “organiza serviços para o atendimento educacional especializado, disponibiliza recursos e promove atividades para desenvolver o potencial de todos os alunos, a sua participação e aprendizagem” (ALVES, 2006, p. 12). Como importante parte do AEE, as salas de recursos auxiliam a organização do atendimento aos estudantes que são público-alvo da educação especial, apoiando as diferentes partes da comunidade escolar envolvidas, como os alunos, os professores e as famílias. São salas dotadas de recursos e serviços de Tecnologia Assistiva, nas quais acontece o trabalho dos profissionais de AEE, que se especializaram no uso pedagógico dessas ajudas técnicas. Link O Ministério da Educação preparou um manual de orientação para a implantação de salas de recursos (BRASIL, 2010), que está disponível em: <http://portal. mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=9936- manual-orientacao-programa- implantacao-salas-recursos- multifuncionais&category_slug=fevereiro- 2012-pdf&Itemid=30192>. As atividades realizadas na SRM podem ser divididas em três grandes áreas: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais209/274 1. Planejamento e coordenação do atendimento educacional especializado. 2. Atividades complementares e suplementares junto aos estudantes. 3. Desenvolvimento profissional e participação da comunidade escolar. Essas atividades têm sempre como pano de fundo o objetivo de eliminar (ou reduzir) as barreiras para a aprendizagem. As atividades de planejamentoe coordenação do AEE incluem: • Planejar os recursos a serem adquiridos, o modo de funcionamento da sala, os momentos de articulação com o projeto pedagógico e a equipe da escola. • Levantar as necessidades de atendimento na escola (ou na região) e prever a capacidade de atendimento dos profissionais de AEE e a necessidade de ajudas técnicas e a oferta de vagas. • Diagnosticar as barreiras existentes na escola, sejam elas físicas, pedagógicas, atitudinais etc. e coordenar o planejamento de sua remoção. • Organizar a carga horária e calendário, o espaço físico, os serviços técnicos (por exemplo, auxiliares de vida diária, intérpretes de Libras etc.). Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais210/274 • Vincular o projeto de AEE ao projeto pedagógico da escola. As atividades junto aos estudantes incluem: • Planejar em conjunto com a equipe pedagógica as metas e funcionalidades a serem atingidas pelo aluno, no período de atendimento. • Definir cronograma e atividades a serem realizadas com o aluno. • Organizar, junto com os professores da sala regular, as estratégias pedagógicas, incluindo a produção dos recursos pedagógicos acessíveis. • Elaborar, sempre que se fizer necessário, um Plano de Desenvolvimento Individual. • Ensinar, como atividade complementar, as técnicas próprias do AEE (por exemplo, ensino de Libras e Braille, uso do Sorobã, uso de Comunicação Aumentativa e Alternativa, atividades de estímulo de habilidades superiores, como coordenação motora fina, treinamento em uso de ajudas técnicas etc.). • Propor atividades suplementares para alunos com altas habilidades. • Auxiliar o professor na preparação de recursos acessíveis (idealmente Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais211/274 das ajudas técnicas e compartilhar informações sobre os alunos. • Articular-se com serviços especializados externos à escola que se fizerem necessários para atendimentos específicos. Como se pode perceber, as atividades da sala de recursos são transversais às atividades escolares e devem considerar as diversas atividades escolares, assim como as diferentes áreas do conhecimento. 2. Quem frequenta a sala de recursos? A Lei nº 7.611, de 2011, define, em seu Art. 2, quem são os estudantes que aparecem como público-alvo da educação utilizando os princípios do Design Universal para Aprendizagem), na capacitação para o uso deles, na preparação de avaliações e atividades de flexibilização. As atividades de desenvolvimento profissional e participação da comunidade incluem: • Articular a proposta pedagógica com as áreas da saúde, assistência social e outras que se fizerem necessárias. • Receber, articular-se e orientar as famílias em relação às questões de inclusão. • Orientar as famílias de estudantes que são público-alvo do AEE no uso Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais212/274 especial: 1) as pessoas com deficiência, 2) com transtornos globais do desenvolvimento e 3) com altas habilidades ou superdotação (BRASIL, 2011). Esses três grupos são os mais citados em leis, decretos e políticas, assim como nos artigos acadêmicos. Apesar de sua importância, o atendimento especializado pode e deve ir além na interpretação de quem são seus usuários. Antes, no entanto, vamos definir esses três públicos. As pessoas com deficiência são aquelas que, de acordo com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: Têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas (ONU, 2006). O Brasil tem considerado, para fins de censo populacional, cinco classes de deficiência: auditiva, física, intelectual, visual e múltipla. Assim, a Sala de Recursos deve estar preparada para receber, se comunicar e dispor de ajudas técnicas para qualquer uma dessas formas de deficiência. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais213/274 Embora ainda presente na legislação como Transtorno Global de Desenvolvimento (TGD), tem-se preferido usar a terminologia pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) para definir o segundo público-alvo da educação especial. Se compararmos a caracterização do estudante com TGD na Política Nacional de Educação Especial (BRASIL, 2008) e a que aparece na Lei de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (BRASIL, 2012), perceberemos que a segunda contém a primeira, sendo mais abrangente. A pessoa com TEA, conforme essa última lei, é aquela que apresenta: I - deficiência persistente e clinicamente significativa da comunicação e da interação sociais, manifestada por deficiência marcada de comunicação verbal e não verbal usada para interação social; ausência de reciprocidade social; falência em desenvolver e manter relações apropriadas ao seu nível de desenvolvimento; II - padrões restritivos e repetitivos de comportamentos, interesses e atividades, manifestados por comportamentos motores ou verbais estereotipados ou por comportamentos sensoriais incomuns; excessiva aderência a rotinas e padrões de comportamento ritualizados; interesses restritos e fixos. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais214/274 Por fim, o grupo dos estudantes com altas habilidades e superdotação são definidos como aqueles que “demonstram potencial Para saber mais A Lei de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista afirma, no § 2 de seu Artigo 2º, que “a pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência, para todos os efeitos legais” (BRASIL, 2012), igualando em direitos as pessoas com deficiência e com TEA. Por essa razão, muitos autores têm sugerido que não é mais necessário separar esses dois grupos na definição do público-alvo da educação especial, pois os estudantes com TEA já estariam incluídos dentre os estudantes com deficiência. elevado em qualquer uma das seguintes áreas, isoladas ou combinadas: intelectual, acadêmica, liderança, psicomotricidade e artes, além de apresentar grande criatividade, envolvimento na aprendizagem e realização de tarefas em áreas de seu interesse” (BRASIL, 2008, s.p.). Tornaram-se lugar comum as histórias de pessoas com altas habilidades que eram consideradas estudantes de comportamento difícil ou mesmo com déficit de atenção. Ao mesmo tempo, identificar esses alunos para suplementar sua formação deve ser objetivo da escola, já que seu papel é auxiliar no desenvolvimento do máximo potencial de cada aluno. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais215/274 Historicamente, esses grupos têm sido privilegiados no suporte oferecido pelas SRM. No entanto, o AEE é um serviço pedagógico e, assim sendo, tem potencial para beneficiar diversas pessoas. Os princípios de redundância da informação, por exemplo, já se mostraram eficazes para melhorar o processo de ensino+aprendizagem da maior parte dos alunos, com ou sem deficiência. Da mesma forma, ações normalmente associadas a práticas inclusivas também contribuem para a educação como um todo, como é o caso de atividades em grupos heterogêneos, nos quais alunos de diferentes níveis de conhecimento em áreas diversas se ajudam mutuamente. Link Embora sejam consideradas alvo da educação especial, as pessoas com altas capacidades são frequentemente menos priorizadas que os outros públicos, pelas dificuldades de identificação e pela falta de profissionais com especialização no tema. Você pode se familiarizar mais com o tema acessando o Guia do MEC “Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos com altas habilidades/ superdotação” (BRASIL, 2006). Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/ pdf/altashabilidades.pdf>. http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/altashabilidades.pdfhttp://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/altashabilidades.pdf Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais216/274 A decisão de quais estudantes serão encaminhados para a sala de recursos cabe à equipe pedagógica da escola, mesmo que eles não tenham laudos médicos ou similares. O principal critério para que uma pessoa possa participar do AEE é a compreensão de que ele pode usufruir deste serviço. Ou seja, frequenta a sala de recursos todo aluno que pode se beneficiar, em sua trajetória escolar, do uso de ajudas técnicas, sejam elas individuais, coletivas ou sociais. 3. Plano Individualizado de Educação do aluno O Plano Individualizado de Educação (PIE) é uma das principais ferramentas para o AEE. É um instrumento de flexibilização escolar que permite à equipe atender às necessidades educacionais do estudante e desenvolver suas habilidades e interesses, possibilitando que o processo pedagógico se dê na interação entre o ambiente escolar e social e as características individuais de cada estudante. Para saber mais O Plano de Ensino Individualizado surgiu nos Estados Unidos, tendo sido introduzido lá como política educacional pela Lei de Educação das Pessoas com Deficiência. Ainda aparecem mais de uma versão de sua tradução, como Plano de Educação Individualizado, Plano Educacional Individualizado, Plano de Ensino Individual, entre outras variações. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais217/274 O PIE pode ser usado em conjunto com os objetivos pedagógicos da escola, ao mesmo tempo em que permite um planejamento mais próximo, que possibilita organizar as atividades em classe regular e na sala de recursos e flexibilizar os tempos, espaços e conteúdos, se isso se fizer necessário e servir como parâmetro de avaliação para os progressos do estudante. O PIE também expande a noção de pedagógico para além dos conteúdos acadêmicos. Propõe-se que pelo menos seis áreas de habilidades sejam contempladas no PIE, a saber: 1. Habilidades acadêmicas: leitura, escrita, matemática etc. 2. Habilidades de vida diária: vestir- se, higiene pessoal, organização de pertences etc. 3. Habilidades motoras/atividades físicas: coordenação motora, equilíbrio, prática de esporte e educação física etc. 4. Habilidades sociais: atitudes, comportamentos etc. 5. Habilidades de recreação e lazer: jogos, brincadeiras, passeios etc. 6. Habilidades pré-profissionais e profissionais: capacitação para o trabalho, uso de ferramentas, organização e planejamento etc. Cada uma dessas habilidades deve ser analisada em relação às inteligências Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais218/274 individuais, ou seja, o grau de facilidade do aluno para um determinado conteúdo, a partir do qual se devem definir as metas de aprendizagem. Em seguida, é necessário definir os métodos pedagógicos e os recursos didáticos a serem utilizados e, por fim, é preciso planejar a avaliação, definindo o que deverá ser registrado em termos de avanços no desenvolvimento, a partir da descrição de situações significativas para o estudante. Link Para o download de um modelo de PIE adaptado por R. Sassaki (1999) do modelo da Northern California Coalition for Parent Training and Information, acesse: <http://www.diversa.org. br/wp-content/uploads/2012/02/modelo- pei-plano-educacional-individualizado. pdf>. 4. A escola particular deve montar uma SRM? Pesquisas realizadas (como ASSONI et al., 2006) têm mostrado que, apesar de a biblioteca escolar estar disponível para todos, apenas um pequeno número de estudantes a utiliza regularmente, http://www.diversa.org.br/wp-content/uploads/2012/02/modelo-pei-plano-educacional-individualizado.pdf http://www.diversa.org.br/wp-content/uploads/2012/02/modelo-pei-plano-educacional-individualizado.pdf http://www.diversa.org.br/wp-content/uploads/2012/02/modelo-pei-plano-educacional-individualizado.pdf http://www.diversa.org.br/wp-content/uploads/2012/02/modelo-pei-plano-educacional-individualizado.pdf Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais219/274 tomando diversos livros emprestados por ano. Estes estudantes deveriam pagar uma taxa extra pelo uso da biblioteca? Todos parecem concordar que não, pois a biblioteca é um recurso básico da estrutura escolar que deve ser disponibilizado pela escola. E a diferença de recursos gastos pelos estudantes que utilizam diariamente as quadras e materiais de esporte (por diversão ou por fazer parte da equipe esportiva daquela escola, por exemplo) e aqueles que preferem não praticar esportes nas dependências escolares? Deve ser cobrado um valor extra na mensalidade dos esportistas escolares? Essa também não é uma prática usual e causaria estranhamento a qualquer um. A mesma lógica vale para os serviços da Sala de Recursos Multifuncional. Se bem utilizados, esses serviços podem auxiliar diferentes estudantes, em diferentes momentos, sendo que alguns deles necessitarão de seu uso constante. Afirma o Ministério da Educação (BRASIL, 2015): Assim como os demais custos da manutenção e desenvolvimento do ensino, o financiamento de serviços e recursos da educação especial [...] devem contar na planilha de custos da instituição de ensino. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais220/274 No entender do MEC, por ser parte da infraestrutura pedagógica escolar obrigatória, a SRM deve ter seus recursos planejados em conjunto com o restante dos custos da instituição de ensino, sem cobrança de taxas adicionais pelo seu uso. Já a Lei Brasileira de Inclusão expõe claramente os serviços que devem estar disponíveis nas instituições privadas em qualquer nível de ensino, incluindo: II - aprimoramento dos sistemas educacionais, visando a garantir condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem, por meio da oferta de serviços e de recursos de acessibilidade que eliminem as barreiras e promovam a inclusão plena; III - projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado [...]; VII - planejamento de [...] plano de atendimento educacional especializado, de organização de recursos e serviços de acessibilidade e de disponibilização e usabilidade pedagógica de recursos de tecnologia assistiva; [...] XII - oferta de ensino da Libras, do Sistema Braille e de uso de recursos de tecnologia assistiva [...] (BRASIL, 2015). Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais221/274 Assim, embora a legislação não cite a necessidade da instalação de uma SRM na escola, ela deixa claro que os recursos e serviços prestados por ela devem estar disponíveis na escola, “sendo vedada a cobrança de valores adicionais de qualquer natureza em suas mensalidades, anuidades e matrículas no cumprimento dessas determinações” (BRASIL, 2015, §1° do Art. 28). Existem alternativas à SRM, como os convênios com instituições especializadas e a organização de pools (acordos temporários para execução de projetos) de escolas para a contratação de serviços de Atendimento Educacional Especializado, sempre sem cobrança de taxas extras. É importante lembrar, no entanto, que a presença do AEE no projeto pedagógico e no dia a dia da escola devem ser garantidos. Unidade 7 • Sala de recursos multifuncionais222/274 Glossário Educação especial: campo do conhecimento que se volta à educação de pessoas com necessidades específicas de educação em virtude da presença de uma característica pessoal que torne seu processo de aprendizagem diferenciado. Historicamente, se voltou ao ensino de pessoas com deficiência, mas seu público alvo foi ampliado, abarcando também as pessoas com transtorno de espectro autista e com altas habilidades ou superdotação. Educação regular: é aquele oferecida de forma regular pelas escolas, regrada pelos objetivos constitucionais de educação e submetida aos princípios da Base Nacional Curricular Comum (BRASIL, 2016). Educação inclusiva: campo do conhecimento que se volta à construção de um modelo de educação para todos,no qual se respeite a singularidade de cada um ao mesmo tempo em que promove a participação social e os vínculos comunitários. Questão reflexão ? para 223/274 Pense em seu local de trabalho. O atendimento educacional especializado requer um trabalho interdisciplinar, no qual o profissional da sala de recursos interferirá no seu plano de aula para auxiliar você a adequá-lo para todos os alunos. Como você se sentiria ao participar dessa proposição? É reconfortante saber que você terá ajuda ou é incômodo ter que compartilhar sua organização de aula? 224/274 Considerações Finais • As salas de recursos multifuncionais são os espaços dentro das escolas que permitem a organização e atuação do atendimento educacional especializado. • Nestas salas encontram-se as ajudas técnicas que estarão disponíveis para os estudantes público-alvo da educação especial. • Outros estudantes podem se beneficiar desses recursos e serviços. • As principais atividades que acontecem na sala de recursos são: Planejamento e coordenação do Atendimento Educacional Especializado; Atividades complementares e suplementares junto aos estudantes; e Desenvolvimento profissional e participação da comunidade escolar. • Um dos principais instrumentos para planejar as atividades junto aos alunos é o plano individualizado de educação (PIE). • As escolas particulares também estão obrigadas a oferecer os serviços de atendimento educacional especializado. Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa225/274 Referências ALVES, D. D. O. Sala de recursos multifuncionais: espaços para atendimento educacional. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2006. Disponível em: <http:// www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=28820>. Acesso em: 11 dez. 2016. ASSONI, F. F. et al. O uso da biblioteca escolar segundo alunos e professores de uma escola estadual de Curitiba-PR. Anais. Curitiba: PUCPR. 2006. p. 2186-2195. BATISTA, C. A. M. Educação inclusiva: atendimento educacional especializado para a deficiência mental. Brasília: MEC/SEESP, 2006. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/ arquivos/pdf/defmental.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2016. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Senado Federal, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao. htm>. Acesso em: 28 out. 2014. BRASIL. Saberes e práticas da inclusão: desenvolvendo competências para o atendimento às necessidades educacionais especiais de alunos com altas habilidades/superdotação. Brasília: SEESP/MEC, 2006. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/ altashabilidades.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2016. http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=28820 http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=28820 http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/defmental.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/defmental.pdf http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/Constituicao.htm http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/altashabilidades.pdf http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/altashabilidades.pdf Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa226/274 BRASIL. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Especial, 2008. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf>. Acesso em: 15 dez. 2014. BRASIL. Manual de orientação: Programa de Implantação de Sala de Recursos Multifuncionais. Brasília: MEC, 2010. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_ docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas- recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192>. Acesso em: 11 dez. 2016. BRASIL. Nota Técnica – SEESP/GAB/nº 11/2010. Brasília: SEESP, 2010. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9937-nota-tecnica- 11-2010&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192>. Acesso em: 25 out. 2016. BRASIL. Decreto nº 7.611, de 17 de novembro de 2011. Dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências, Brasília, 2011, 17 nov. 2011. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611. htm>. Acesso em: 31 mar. 2015. BRASIL. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012. Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília: Congresso Nacional, 2012. http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9936-manual-orientacao-programa-implantacao-salas-recursos-multifuncionais&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9937-nota-tecnica-11-2010&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9937-nota-tecnica-11-2010&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9937-nota-tecnica-11-2010&category_slug=fevereiro-2012-pdf&Itemid=30192 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/decreto/d7611.htm Unidade 4 • Ajudas técnicas para comunicação aumentativa e alternativa227/274 BRASIL. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Brasília: Congresso Nacional, 2015. BRASIL. Nota Técnica nº 15 / 2010 / MEC / CGPEE / SEESP. In: BRASIL Orientações para implementação da política de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. Brasília: SEESP, 2015. p. 140-146. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index. php?option=com_docman&view=download&alias=17237-secadi-documento-subsidiario- 2015&Itemid=30192>. Acesso em: 11 dez. 2016. BRASIL. Base Nacional Curricular Comum. Ministério da Educação, 2016. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/inicio>. Acesso em: 11 dez. 2016. LOPES, N. O que é o projeto político-pedagógico (PPP). Gestão Escolar, janeiro 2011. Disponível em: <http://gestaoescolar.org.br/aprendizagem/projeto-politico-pedagogico-ppp- pratica-610995.shtml>. Acesso em: 11 dez. 2016. MENDES, E. G. Breve histórico da educação especial no Brasil. 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Disponível em: <http://www2.fc.unesp.br/educacaoespecial/material/Livro2.pdf>. Acesso em: 11 dez. 2016. SASSAKI, R. K. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997. SILVA, R. H. D. R. Características e tendências das teses em educação especial desenvolvidas nos programas de pós-graduação em educação do Estado de São Paulo. Revista Brasileira de Educação Especial, Marília, v. 22, n. 1, p. 125-144, Jan-Mar 2016. Disponível em: <http://www. scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382016000100125&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 11 dez. 2016. http://www2.fc.unesp.br/educacaoespecial/material/Livro2.pdf http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382016000100125&lng=en&nrm=iso http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382016000100125&lng=en&nrm=iso 229/274 1. O direito das pessoas com deficiência à educação inclusiva se baseia em quais princípios? Assinale a alternativa correta. Questão 1 a) No princípio da igualdade entre homens e mulheres presente na nossa Constituição Federal. b) No princípio segundo o qual as pessoas não serão excluídas, sob nenhuma justificativa, do sistema educacional geral e no de que elas receberão o apoio necessário para desenvolver seu potencial de aprendizagem. c) No princípio que garante uma educação especial e diferenciada às pessoas com deficiência, em instituições separadas das escolas regulares. d) No princípio de que o ideal é a proteção das pessoas com deficiência, que devem estudar em escolas criadas especialmente para elas. e) Na falta de preparo das escolas regulares para receber os estudantes com deficiência. 230/274 2. O Plano Individualizado de Educação (PIE) contempla uma série de habilidades a ser incentivada nos alunos com deficiência. Qual das alternativas não reflete corretamente uma dessas habilidades? Questão 2 a) Habilidades acadêmicas: leitura, escrita, matemática etc. b) Habilidades de vida diária: vestir-se, higiene pessoal, organização de pertences etc. c) Habilidades motoras/atividades físicas: coordenação motora, equilíbrio, prática de esporte e educação física etc. d) Habilidades sociais: atitudes, comportamentos etc. e habilidades de recreação e lazer: jogos, brincadeiras, passeios etc. e) Habilidades manuais para oficinas protegidas: artesanato, culinária, confecção. 231/274 3. Qual serviço a seguir está assegurado pela Lei Brasileira de Inclusão, necessitando, obrigatoriamente, de estar disponível nas instituições privadas em qualquer nível de ensino? Questão 3 a) Oferta de educação bilíngue, em Libras como primeira língua e na modalidade escrita da língua portuguesa como segunda língua, em escolas e classes bilíngues e em escolas inclusivas. b) Promoção de pesquisas voltadas para o desenvolvimento de novos métodos e técnicas pedagógicas, de materiais didáticos, de equipamentos e de recursos de tecnologia assistiva. c) Incorporação do atendimento educacional especializado no projeto pedagógico escolar. d) Orçamento pormenorizado que justifique taxa extra a ser adicionada à mensalidade de usuários do atendimento educacional especializado. e) Implantação de modelos de tutoria. 232/274 4. Conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, o atendimento educacional especializado é: Questão 4 a) Uma das atribuições da Educação Especial, tendo como função identificar, elaborar e organizar recursos pedagógicos e de acessibilidade que eliminem as barreiras para a plena participação dos estudantes, considerando suas necessidades específicas. b) Um serviço paradidático e, assim sendo, sem potencial específico para beneficiar diversas pessoas. c) Um serviço que se mostra eficaz apenas para melhorar o processo de ensino+aprendizagem dos alunos com deficiência. d) Um serviço que envolve ações associadas a práticas de integração, contribuindo para a educação no ambiente menos restritivo, seja ele a escola especial ou regular. e) Um serviço adequado para atividades em grupos homogêneos, pois a semelhança entre alunos que estão num mesmo nível de conhecimento facilita que se ajudem mutuamente. 233/274 5. Quais classes de deficiências o Brasil tem considerado para fins de censo populacional? Questão 5 a) Auditiva, paralisia, cognitiva, visual e mental. b) Sonora, física, intelectual, tátil e neurológica. c) Auditiva, física, intelectual, visual e múltipla. d) Sonora, física, intelectual, visual e sensorial. e) Auditiva, paralisia, intelectual, tátil e educacional. 234/274 Gabarito 1. Resposta: B. O direito das pessoas com deficiência à educação inclusiva se baseia no princípio segundo o qual as pessoas não serão excluídas do sistema educacional geral e ainda receberão o apoio necessário para desenvolver seu potencial de aprendizagem. 2. Resposta: E. O Plano Individualizado de Educação (PIE) não sugere habilidades manuais para oficinas protegidas para as pessoas com deficiência, e sim habilidades pré- profissionais e profissionais: capacitação para o trabalho, uso de ferramentas, organização e planejamento etc. 3. Resposta: C. A Lei Brasileira de Inclusão afirma que devem estar disponíveis nas instituições privadas em qualquer nível de ensino um projeto pedagógico que institucionalize o atendimento educacional especializado. Já o ensino de Libras deve ser disponibilizado, mas não há obrigação de educação bilíngue nas escolas particulares. 4. Resposta: A. Conforme a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, o atendimento educacional especializado é uma das atribuições da 235/274 Gabarito Educação Especial, sendo um serviço pedagógico com potencial específico para beneficiar diversas pessoas, além de se mostrar eficaz para melhorar o processo de ensino+aprendizagem da maior parte dos alunos, com ou sem deficiência, envolvendo ações associadas a práticas inclusivas, contribuindo, assim, para a educação como um todo. Portanto, é um serviço adequado para atividades em grupos heterogêneos, pois contribui para que alunos de diferentes níveis de conhecimento se ajudem mutuamente. 5. Resposta: C. As deficiências que o Brasil tem considerado, para fins de censo populacional, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são cinco: a auditiva, física, intelectual, visual e múltipla. 236/274 Unidade 8 Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais Objetivos 1. Compreender a relação entre funcionalidade e atividades de vida diária. 2. Refletir sobre o conceito de auxílio a vida diária. 3. Explorar o uso da Tecnologia Assistiva para auxílio na vida diária. 4. Entender a classificação das ajudas técnicas individuais que podem ser utilizadas como auxílio à vida diária. Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais237/274 Introdução A lógica da funcionalidade parece mais adequada para abordar a questão da participação da pessoa com deficiência na educação, pois, ao invés de colocar seu foco nas condições do corpo, doenças e sintomas da deficiência, põe ênfase nas atividades que um indivíduo deve desenvolver para conquistar sua autonomia e ter qualidade de vida. Assim, a funcionalidade é uma mudança de estratégia em relação ao desenvolvimento das pessoas com deficiência, na qual são planejadas quais funções são necessárias para garantir sua participação na sociedade, criando-se estratégias para que elas as alcancem. A fim de que isso seja viabilizado, devem ser investigadas as possíveis incapacidades que essa pessoa possua, devido às suas características pessoais, assim como as características das atividades que se buscam desenvolver e as características do ambiente em que possam atuar como barreiras ou facilitadores para a atividade.Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais238/274 Para saber mais Conforme estabelece a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde – CIF – as “Funções do Corpo” podem ser definidas como aquelas funções fisiológicas dos sistemas orgânicos (incluindo as funções psicológicas), necessárias ao seu funcionamento; as “Estruturas do Corpo” podem ser conceituadas como as partes anatômicas do corpo, como, por exemplo, os órgãos, os membros e seus componentes e as “Deficiências” não seriam doenças em si, mas, sim, problemas nas funções ou na estrutura do corpo, tal como um desvio importante ou uma perda (OMS, 2015, item 4.1). Para o documento, ainda, as “limitações de atividades” são as dificuldades que um indivíduo pode encontrar na execução de determinadas atividades e as “restrições de participação” são os problemas que um indivíduo pode ter que enfrentar no envolvimento em situações reais da vida (OMS, 2015, item 4.2). A funcionalidade tem muita afinidade com o campo da Tecnologia Assistiva, podendo ser utilizada como referencial para que as ajudas técnicas sejam construídas e utilizadas pelas pessoas com deficiência. Esta relação aparece na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), que traz a tecnologia como a primeira análise de contexto ambiental a ser realizada para promover a funcionalidade. A CIF explicita, para termos de análise do ambiente, que: Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais239/274 Os produtos e tecnologias de apoio são definidos [...] como qualquer produto, instrumento, equipamento ou tecnologia adaptado ou especialmente concebido para melhorar a funcionalidade de uma pessoa com incapacidade (OMS, 2015). Nessa definição, a CIF considera que os produtos e tecnologias para uso pessoal na vida diária são aqueles utilizados nas atividades do dia a dia e que tenham sido concebidos, utilizados diretamente ou deixados à disposição da pessoa com deficiência. Eles podem ser gerais (produzidos a partir dos princípios do design universal, por exemplo), adaptados (aqueles que sofreram modificações para tornarem-se utilizáveis) ou especialmente concebidos para essa pessoa. Link Utilizar a CIF em contextos educacionais é um dos temas do manual “Como usar a CIF” (OMS, 2013, p. 66-74), que está disponível em <http://www.fsp.usp.br/cbcd/wp-content/uploads/2015/11/ Manual-Pra%CC%81tico-da-CIF.pdf>. http://www.fsp.usp.br/cbcd/wp-content/uploads/2015/11/Manual-Pra%CC%81tico-da-CIF.pdf http://www.fsp.usp.br/cbcd/wp-content/uploads/2015/11/Manual-Pra%CC%81tico-da-CIF.pdf Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais240/274 Ao propor uma funcionalidade como relação entre as funções e estruturas do corpo e as atividades que se pretende atingir, clarifica-se o objetivo a ser cumprido no desenvolvimento da Tecnologia Assistiva, facilitando seu planejamento. Trata-se de efetivar ajudas que possam auxiliar um indivíduo a superar barreiras, sejam elas limitações nas atividades ou restrições na participação, a partir da análise do contexto (fatores ambientais e pessoais) no qual a situação está inserida. Desse modo, “A Tecnologia Assistiva visa melhorar a FUNCIONALIDADE de pessoas com deficiência. O termo funcionalidade deve ser entendido num sentido maior do que habilidade em realizar tarefa de interesse” (SARTORETO; BERSCH, 2014, s.p.). De acordo com as mesmas autoras, são objetivos da tecnologia assistiva: Proporcionar à pessoa com deficiência maior independência, qualidade de vida e inclusão social, através da ampliação de sua comunicação, mobilidade, controle de seu ambiente, habilidades de seu aprendizado, trabalho e integração com a família, amigos e sociedade (SARTORETO; BERSCH, 2014, s.p.). Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais241/274 Para estabelecer as ajudas técnicas individuais necessárias e o auxílio para a vida diária, tomaremos como ponto de vista as funções do corpo, ao invés de considerar simplesmente os sintomas das doenças e deficiências. Dessa forma, você poderá perceber o vínculo entre essas duas áreas. 1. Auxílios para a vida diária Auxílios para a vida diária podem ser definidos, de um modo geral, como os materiais e produtos que dão suporte a tarefas rotineiras, tais como alimentar- se, cozinhar, tomar banho, se vestir, ir ao banheiro, cuidar da casa etc. (SARTORETTO; BERSCH, 2014). Bersch ainda complementa o conceito e cita exemplos de auxílios para a vida diária, explicando que eles favorecem o desempenho autônomo e independente das tarefas rotineiras ou facilitam o cuidado das pessoas que precisam de apoio: Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais242/274 São exemplos os talheres modificados, suportes para utensílios domésticos, roupas desenhadas para facilitar o vestir e despir, abotoadores, velcro, recursos para transferência, barras de apoio, etc. Também estão incluídos nesta categoria os equipamentos que promovem a independência das pessoas com deficiência visual na realização de tarefas como: consultar o relógio, usar calculadora, verificar a temperatura do corpo, identificar se as luzes estão acesas ou apagadas, cozinhar, identificar cores e peças do vestuário, verificar pressão arterial, identificar chamadas telefônicas, escrever etc. (BERSCH, 2013, s.p.). Um comprometimento das funções psicomotoras e das funções mentais globais, conforme classificação na CIF, podem requerer, além de recursos de ajuda técnica, os serviços de um auxiliar de vida diária (indivíduo treinado para ajudar as pessoas na execução de tarefas do dia a dia e manutenção da vida), de modo a permitir que a pessoa com deficiência seja auxiliada na execução de tarefas rotineiras, como ir ao banheiro, escovar os dentes, se alimentar, se limpar, se vestir etc. Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais243/274 Para saber mais A CIF propõe as seguintes categorias de produtos e tecnologias para a vida diária (OMS, 2015, s.p.): Produtos e tecnologias gerais para uso pessoal na vida diária: equipamentos, produtos e tecnologias utilizados pelas pessoas nas atividades diárias, tais como, roupas, tecidos, móveis, aparelhos, produtos de limpeza e ferramentas, não adaptados nem especialmente concebidos. Produtos e tecnologias de apoio para uso pessoal na vida diária: equipamentos, produtos e tecnologias adaptados ou especialmente concebidos para auxiliar as pessoas na vida diária, tais como, dispositivos protéticos e ortopédicos, próteses neurais (e.g. dispositivos de estimulação funcional que controlam os intestinos, bexiga, respiração e frequência cardíaca), e unidades de controle ambiental que visam facilitar o próprio controle dos indivíduos sobre os espaços interiores (scanners, sistemas de controle remoto, sistemas controlados por voz, temporizadores). Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais244/274 O comprometimento das funções relacionadas com o aparelho digestivo, tais como as funções de ingestão, as funções digestivas, as funções de assimilação, as funções de defecação e as sensações associadas ao aparelho digestivo, como também as funções de controle dos movimentos voluntários e involuntários, todas elas descritas na CIF, vão requerer os cuidados de auxiliares de vida, sejam pessoas treinadas para tal função, sejam materiais e produtos que favoreçam a autonomia de pessoas com deficiência e possibilitem a execução de tais funções. 2. Ajudas técnicas individuais Para estabelecer as ajudas técnicas individuais necessárias, tomaremos como ponto de vista as funções do corpo, ao invés de considerar simplesmente as incapacidades das pessoas com deficiência. A CIF apresenta uma série de funções necessárias à manutenção da vida e da saúde de uma pessoa. Para cada comprometimento de umadeterminada função haverá uma ajuda técnica individual específica. Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais245/274 O uso de órteses e próteses, a adequação postural e os auxílios de mobilidade poderão melhorar o desempenho de várias das funcionalidades do corpo catalogadas na CIF, como por exemplo, as funções neuromusculoesqueléticas e relacionadas com os movimentos: as Para saber mais Interessante registrar que a CIF se transformou, de uma classificação de “consequência da doença” (versão de 1980), numa classificação de “componentes da saúde”. Os “componentes da saúde” identificam o que constitui a saúde, enquanto as “consequências” se referem ao impacto das doenças na condição de saúde da pessoa (OMS, 2015). funções da mobilidade das articulações, as funções da estabilidade das articulações, as funções da mobilidade dos ossos, as funções musculares, de força muscular, tônus muscular, as funções da resistência muscular, funções de reflexos motores etc. 2.1 Órteses e próteses As peças que substituem eventuais partes ausentes do corpo, como membros superiores ou inferiores, permitindo que determinada função do corpo seja exercida são conhecidas como próteses. Já as órteses são peças utilizadas junto a uma parte do corpo, garantindo-lhe uma melhor funcionalidade, pois ajudam no posicionamento, melhoram a estabilidade Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais246/274 e/ou função daquele segmento ao qual se fixam. Ambas permitem a substituição ou o ajuste de partes do corpo faltantes ou que tenham funcionamento comprometido, por meio de membros artificiais ou outros recursos ortopédicos, tais como talas, apoios etc. Os membros mecânicos, protéticos e robóticos, tanto superiores (mãos e braços) quanto inferiores (pernas e pés), são exemplos de próteses. Entre as órteses utilizadas em salas de aula, são exemplos aquelas que permitem o maior controle dos movimentos, como as munhequeiras estabilizadoras de movimento, que permitem uma melhoria na empunhadura do lápis. Link O progresso da tecnologia tem permitido o desenvolvimento cada vez mais acessível e personalizado de produção de órteses e próteses. Um exemplo é a construção de próteses em impressoras 3D, capazes de imprimir em materiais de alta resistência. O projeto Mao3D, da Unifesp, é um bom exemplo dessa nova realidade. Conheça o projeto e saiba mais sobre o assunto acessando: <http://www.unifesp. br/campus/sjc/366-ext/programas-e- projetos-de-extensao/mao-3d.html>. 2.2. Adequação postural A importância de uma postura adequada, que seja confortável e permita que o corpo http://www.unifesp.br/campus/sjc/366-ext/programas-e-projetos-de-extensao/mao-3d.html http://www.unifesp.br/campus/sjc/366-ext/programas-e-projetos-de-extensao/mao-3d.html http://www.unifesp.br/campus/sjc/366-ext/programas-e-projetos-de-extensao/mao-3d.html Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais247/274 obtenha estabilidade, seja em casa, no trabalho, no trânsito, nos ambientes e transportes públicos etc. é relevante, pois a adequação postural é essencial para que se obtenha um bom desempenho das funções do corpo. A eficácia das práticas de tarefas diárias pode ficar impossibilitada quando a pessoa está insegura, com receio de cair ou sentindo algum desconforto. Um projeto de adequação postural envolve a seleção de recursos que garantam posturas alinhadas, estáveis, confortáveis e com boa distribuição do peso corporal. Indivíduos que permanecem muito tempo sentados, deitados ou em uma mesma posição, como os usuários de cadeiras de rodas e os acamados, podem se beneficiar da utilização adequada de assentos e encostos de cabeça que levem em consideração suas características pessoais de corpo, como sua altura e peso, sua atual funcionalidade e incapacidade musculoesqueléticas. Recursos que colaboram e estabilizam a postura deitada e de pé também estão incluídos na adequação postural. Assim, os estabilizadores ortostáticos, o uso de encostos e apoios acolchoados para membros e coluna, entre outros, fazem parte do grupo de recursos para adequação postural. Quando utilizados precocemente, os recursos de adequação postural auxiliam na prevenção de deformidades corporais e outros problemas de postura (BERSCH, 2013). Além desses, outros exemplos de adequação postural seriam a poltrona postural, a calça de contenção etc., entre Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais248/274 outros. A adequação postural, além de auxiliar na prevenção de deformidades e problemas corporais e ósseos, poderá oferecer mais conforto e qualidade de vida à pessoa com deficiência. 2.3. Auxílios de mobilidade Para a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), o comprometimento das funções motoras, das funções neuromusculoesqueléticas e daquelas relacionadas com o movimento, mobilidade e estabilidade das articulações e dos ossos e das funções relacionadas com os movimentos voluntários e involuntários, por exemplo, afetam a mobilidade dos membros, requerendo o uso de auxílios de mobilidade, como cadeiras de rodas, muletas, andadores, etc. Segundo Marra e Mendes (2014, s.p.): Tendo em vista que o aprendizado dos estudantes com deficiência pode ficar comprometido diante da falta de recursos e soluções que eliminem as barreiras existentes no ambiente escolar, é fundamental que a escola e os educadores invistam continuamente na aquisição e no uso desses recursos. Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais249/274 Um dos exemplos citados pelos autores é a disponibilidade de mobiliário adaptado para os estudantes com dificuldades motoras, outro recurso facilitador da mobilidade dos alunos com deficiência. 2.4. Auxílios para cegos ou para pessoas com visão subnormal Vários auxílios podem ser pensados para qualificação da habilidade visual, assim como recursos que ampliam a informação para pessoas com baixa visão ou cegas. Para as pessoas com comprometimento das funções da visão e funções relacionadas, um exemplo de ajuda técnica seria o uso de livros em Braille, softwares especiais (de reconhecimento de voz etc.), que permitem as pessoas com deficiência visual de usarem o computador (BERSCH, 2013). Marra e Mendes (2014) citam os seguintes equipamentos e ajudas técnicas para possibilitar o aprendizado de pessoas cegas ou com visão subnormal: • disponibilidade de equipamentos para o ensino de estudantes cegos (ex.: reglete para escrita em Braille, soroban, laptops com sintetizador de voz, softwares especializados para deficiência visual, tais como leitores de tela etc.). • disponibilidade de equipamentos para o ensino de estudantes com baixa visão (ex.: lupa). Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais250/274 2.5. Auxílios para pessoas com surdez ou com déficit auditivo O comprometimento das funções auditivas e vestibulares e das funções mentais da linguagem, por outro lado, vai demandar o uso de recursos, eletrônicos ou não, que permitam a comunicação expressiva e receptiva dessas pessoas, como, por exemplo, o ensino de Libras (Língua Brasileira de Sinais) nas escolas, o uso de janela de libras nos materiais audiovisuais e a presença de intérprete de Libras nas aulas. Outros auxílios para pessoas com surdez ou déficit auditivo são: os aparelhos para baixa audição, aplicativos voz-para- texto, softwares tradutores para Libras, função closed caption etc. 3. Tecnologia assistiva como apoio à avaliação Aproveitando o paradigma da funcionalidade e da relação desse tema com a TA, vale notar também a importância da mudança de paradigma nas avaliações escolares, registrando-se como as ajudas técnicas podem criar modelos não tradicionais de avaliações que auxiliem, efetivamente, os alunos com deficiência. Aavaliação na educação inclusiva tem um viés muito diverso do que aquele empregado na educação tradicional. Nessa última, a avaliação centra-se essencialmente na aquisição e repetição de conteúdos ministrados. Seu principal elemento é a ‘prova’, instrumento que Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais251/274 tem como lógica a padronização do nível de conteúdo assimilado pelos estudantes, ou seja: todos serão capazes de responder a uma mesma questão, pois todos têm capacidades iguais. Além disso, usualmente, a prova é ministrada em um único formato e a resposta deverá ser registrada num mesmo formato (em geral, através da escrita). Embora não seja o objetivo deste capítulo discutir a avaliação, é importante remarcar que os estudos mais recentes têm mostrado que o processo avaliativo contribui mais para a educação quando é processual e tem como principal objetivo analisar os avanços dos estudantes para permitir a reestruturação da didática empregada pelo professor. Independentemente do formato em que a avaliação é aplicada, é importante sempre considerar que determinados estudantes podem necessitar de ajudas técnicas – no formato de recursos ou serviços – para poder participar ativamente do processo. Em geral, essas ajudas técnicas serão de uso individual, em especial se a avaliação for individualizada. Link Para saber mais sobre a avaliação de estudantes com deficiência, sugerimos a leitura do texto “Como avaliar o aluno com deficiência” (SARTORETTO, 2010). Disponível em: <http:// assistiva.com.br/Como_avaliar_o_aluno_ com_defici%C3%AAncia.pdf>. http://assistiva.com.br/Como_avaliar_o_aluno_com_defici%C3%AAncia.pdf http://assistiva.com.br/Como_avaliar_o_aluno_com_defici%C3%AAncia.pdf http://assistiva.com.br/Como_avaliar_o_aluno_com_defici%C3%AAncia.pdf Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais252/274 Dentre os serviços mais comuns de apoio à avaliação estão o auxílio para leitura e o auxílio para registro de respostas. Quando o estudante, por alguma razão, é incapaz de ler (por incapacidade visual, por exemplo), um auxiliar pode fazer esta atividade por ele. Se sua dificuldade é no registro (no caso de um estudante com deficiência física dos membros superiores, por exemplo), ele pode ditar as respostas para que alguém faça esse registro. O aluno também por dar respostas orais às perguntas formuladas, na impossibilidade de escrevê-las. As ajudas técnicas citadas acima, nesse tema, também podem ser utilizadas para dar apoio à avaliação. Ajudas técnicas de comunicação alternativa e aumentativa também são exemplos importantes. Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais253/274 Glossário Análise de contexto ambiental (CIF): A CIF relaciona os fatores ambientais que interagem com todas as funções do corpo e suas incapacidades, atividades e participação. Nesse sentido, a classificação permite ao utilizador registrar perfis úteis da funcionalidade, incapacidade e saúde dos indivíduos em vários domínios. Para facilitar o estudo dos determinantes ou dos fatores de risco, a CIF inclui uma lista de fatores ambientais que descrevem o contexto em que o indivíduo vive. Funções neuromusculoesqueléticas e relacionadas com o movimento: conforme a CIF são as características do corpo que englobam as seguintes funções: articulações e ossos (mobilidade das articulações, encaixe ósseo etc.); musculares (força, tônus muscular etc.); e relacionadas com o movimento (relações neuromusculares, músculos, movimento etc.). Mobilidade: capacidade de um indivíduo inserido em uma sociedade de deslocar-se de um lugar a outro com autonomia, sem ter que enfrentar barreiras impostas pelas estruturas arquitetônicas, urbanísticas ou outras similares. Quando se trata de mobilidade nos grandes centros urbanos, usa-se o termo “mobilidade urbana”. Questão reflexão ? para 254/274 O desejo de ajudar o próximo, assim como a piedade, muitas vezes nos leva a desconsiderar a autonomia de outras pessoas. Uma das regras básicas no trato das pessoas com deficiência é sempre perguntar se ela necessita de ajuda, antes de fazer algo por ela, mesmo que ela pareça ter dificuldades na realização daquela tarefa. Reflita sobre como os professores e auxiliares podem, desavisadamente, dificultar a autonomia da pessoa com deficiência. Você já esteve nessa situação? Que estratégias usa para oferecer ajuda a alguém que aparentemente precise? 255/274 Considerações Finais • A funcionalidade tem afinidade com a Tecnologia Assistiva, podendo ser utilizada como referencial para que as ajudas técnicas sejam construídas e utilizadas. • Ao contrário do que diz o senso comum, o papel do auxiliar de vida não é o de realizar as tarefas pela pessoa com deficiência. • O principal objetivo do auxiliar de vida diária é zelar pela autonomia dos indivíduos. • Para tanto, ele deve estar sempre atento às inovações tecnológicas, ao desenvolvimento do sujeito e às possibilidades de treinamento nas tarefas rotineiras. • As ajudas técnicas também podem ser utilizadas para dar apoio às avaliações escolares dos alunos com deficiência. Unidade 8 • Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais256/274 Referências BERSCH, R. Introdução à tecnologia assistiva. Porto Alegre: Assistiva, 2013. Disponível em: <http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf>. Acesso em: 24 out. 2016. MARRA, A. C. G.; MENDES, R. H. Guia para produção de material didático inclusivo. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 2013. OMS. Como usar a CIF: um manual prático para o uso da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF). Genebra: Organização Mundial de Saúde, 2013. Disponível em: <http://www.fsp.usp.br/cbcd/wp-content/uploads/2015/11/Manual- Pra%CC%81tico-da-CIF.pdf>. Acesso em: 24 out. 2016. OMS. International Classification of Functioning, Disability and Health (ICF). World Health Organization, 16 Dec. 2015. Disponível em: <http://apps.who.int/classifications/icf/en/>. Acesso em: 24 out. 2016. SARTORETO, M. L.; BERSCH, R. Tecnologia assistiva. Assistiva, 2014. Disponível em: <http:// www.assistiva.com.br/tassistiva.html>. SARTORETTO, M. L. Como avaliar o aluno com deficiência. Assistiva, 2010. Disponível em: <http://assistiva.com.br/Como_avaliar_o_aluno_com_defici%C3%AAncia.pdf>. Acesso em: 24 out. 2016. http://www.assistiva.com.br/Introducao_Tecnologia_Assistiva.pdf http://www.fsp.usp.br/cbcd/wp-content/uploads/2015/11/Manual-Pra%CC%81tico-da-CIF.pdf http://www.fsp.usp.br/cbcd/wp-content/uploads/2015/11/Manual-Pra%CC%81tico-da-CIF.pdf http://apps.who.int/classifications/icf/en/ http://www.assistiva.com.br/tassistiva.html http://www.assistiva.com.br/tassistiva.html http://assistiva.com.br/Como_avaliar_o_aluno_com_defici%C3%AAncia.pdf 257/274 1. A funcionalidade tem muita afinidade com o campo da Tecnologia Assistiva. Qual é a razão dessa afinidade, de acordo com o texto? a) A funcionalidade foi desenvolvida a partir do paradigma dos recursos e serviços da Tecnologia Assistiva. b) A funcionalidade pode ser utilizada como referencial para que as ajudas técnicas sejam construídas e utilizadas pelas pessoas com deficiência. c) Ambas se baseiam amplamente em tecnologias da informação e comunicação. d) A funcionalidade permite que ajudas técnicas sejam empregadas sem a consulta de um médico. e) As pessoas com deficiência precisam de aparelhos criados pela Tecnologia Assistiva para alcançar as funcionalidades. Questão 1 258/274 2. A CIF considera que os produtos e tecnologias para uso pessoal na vida diária são: Questão 2 a) Recursos exclusivos das salas de recursos multifuncionais. b) Recursos a serem adquiridos a baixo custo pelas pessoas com deficiência. c) Aqueles utilizados nas atividades do dia a dia e que tenham sido concebidos, utilizados diretamente ou deixados à disposição da pessoa com deficiência.d) As próteses e órteses. e) Todos os apoios que uma pessoa com deficiência utilizará durante sua vida, em qualquer ocasião, de forma a compensar sua deficiência ou possibilitar um benefício. 259/274 3. Quais equipamentos e ajudas técnicas citados são empregados no aprendizado de pessoas cegas ou com visão subnormal? Questão 3 a) Reglete, soroban e lupa. b) Livros e cadernos comuns. c) Símbolos visuais de acesso e placas indicativas. d) Língua Brasileira de Sinais (Libras). e) Óculos escuros e bengala branca. 260/274 4. Entre os serviços mais comuns de apoio nas avaliações oferecidas às pessoas com deficiência estão: Questão 4 a) Auxílio à vida diária. b) Escolas especiais. c) Prova escrita. d) O auxílio para leitura e o auxílio para registro de respostas. e) Nenhum; as pessoas com deficiência não devem ser avaliadas. 261/274 5. São exemplos de uso de ajudas técnicas individuais: Questão 5 a) As órteses e próteses. b) Adequação postural. c) Auxílios de mobilidade. d) Auxílios para pessoas com deficiência visual e auditiva. e) Todas as anteriores. 262/274 Gabarito 1. Resposta: B. Por sua característica de ênfase nas atividades a serem desenvolvidas, a funcionalidade torna-se um bom referencial para o desenvolvimento das ajudas técnicas criadas pela Tecnologia Assistiva. 2. Resposta: C. De acordo com a CIF, os produtos e tecnologias são aqueles utilizados nas atividades rotineiras, podendo ter sido concebidos diretamente para aquela pessoa, utilizados diretamente por ela ou simplesmente disponibilizados a ela. 3. Resposta: A. Conforme Marra e Mendes (2013), os seguintes objetos podem ser usados para o aprendizado de pessoas com deficiência visual: reglete, soroban, laptops com sintetizador de voz, softwares especializados para deficiência visual, tais como leitores de tela etc. e equipamentos para o ensino de estudantes com baixa visão (ex.: lupa), entre outros. 4. Resposta: D. Disponibilizar serviços de auxiliar de leitura e registro de respostas para alunos com essas necessidades específicas são alternativas que permitem avaliar o conteúdo que eles aprenderam, sendo 263/274 Gabarito bastante utilizadas como estratégia de avaliação inclusiva. 5. Resposta: E. Todas as opções trazem exemplos de ajudas técnicas individuais. Unidade 8: Auxílio para a vida diária e as ajudas técnicas individuais