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Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR PROBLEMA 1 – ABERTURA: ASPECTOS BIOPSICOSSOCIAIS DA VIDA SEXUAL NA ADOLESCÊNCIA: ADOLESCÊNCIA E SEXUALIDADE: A adolescência, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é descrita como o período que se estende dos 12 aos 18 anos de idade, ao passo que para a Organização Mundial da saúde, esta fase contempla toda a segunda década de vida (dos 10 aos 19 anos), sendo sucedida pela juventude, que se inicia ainda aos 15 anos, perdurando até os 24. Esse é um momento de crescimento em várias esferas, física, psicológica, social e espiritual que está intimamente relacionado à puberdade, etapa de alterações biológicas que refletem a maturação reprodutiva humana. Se a mudança do corpo é o principal eixo da puberdade, a adolescência apresenta como seu ponto-chave as crises de identidade, nas quais o indivíduo começa a distanciar-se da família em prol de relacionamentos significativos com seus pares, tendo suas perspectivas de mundo ampliadas. Existem cinco dimensões de relacionamentos que evoluem ao longo da adolescência: o envolvimento romântico (engajamento em relações sociais como o namoro), a identidade com o parceiro (estabelecimento das características de seus interesses amorosos), a relação de conteúdo (atividades desempenhadas pelos parceiros), a qualidade (positiva, de apoio, ou experiências benéficas dos relacionamentos) e os processos cognitivos e emocionais envolvidos no relacionamento. As interações entre adolescentes evoluem de relacionamentos curtos, caracterizados por uma interação física limitada e pouco investimento emocional, para conexões mais íntimas e profundas, com elevado apego. Dessa forma, tais indivíduos passam a ser reconhecidos como seres sexuados e dotados de certa autonomia (aumentando sua vulnerabilidade), um importante passo para a transição rumo à vida adulta. Para compreender o comportamento sexual da adolescente é importante conhecer o processo de construção da sexualidade na infância, que fundamenta as bases para as vivências e expressões manifestadas durante essa fase. Ainda que os conceitos de sexualidade e função sexual sejam muitas vezes tratados como sinônimos, o último está diretamente associado às relações sexuais, ao passo que o primeiro se refere à energia motriz para a busca do amor, da intimidade e do contato. A construção da sexualidade se inicia logo com o nascimento, sendo influenciada por características biológicas e psíquicas da pessoa, favorecendo ou desfavorecendo suas interpretações em relação ao ambiente no qual vive. A relação da criança no ambiente familiar é fundamental nesse processo, e a sexualidade vai sendo consolidada na medida em que a criança amplia seu convívio social a partir de sua vivência nos diferentes contextos culturais e econômicos. A maneira de ser da pessoa está, portanto, ligada à sua sexualidade e influenciará sua relação com os outros nos planos profissional e afetivo. Dessa forma, a relação sexual saudável é associada à sexualidade saudável, que irá depender do valor dado pelo indivíduo a suas experiências positivas e negativas, na interação com os outros, desde a infância. O interesse de crianças por questões atreladas ao sexo é paralelo ao aumento dos androgênios a partir dos três anos de idade, produzidos por meio do sulfato de dehidroepiandrosterona (DHEA-S). Antes dessa idade, a criança não manifesta comportamento sexual compartilhado nem Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR preferências por brinquedos estáticos (associados ao feminino) ou móveis (tipificados como masculinos), sugerindo que essas características surgem com o início da adrenarca. Mesmo com essa influência hormonal, os fatores socioculturais, educacionais, econômicos e o ambiente escolar têm forte influência sobre o comportamento sexual da criança e do adolescente, sendo a participação dos pais fundamental para mediar os efeitos externos sobre o comportamento geral e sexual nessa fase. A existência de comportamentos sexuais ao longo da infância deve ser considerada como normal, desde que eles apresentem práticas e frequências diversificadas. Os eventos mais comuns são a masturbação, olhar a genitália do outro e o envolvimento oportuno em brincadeiras sexuais com outras crianças. Com o avançar da idade, determinadas manifestações da sexualidade tornam-se menos frequentes, sugerindo que a autocensura se torna evidente quando se inicia a fase da adolescência. A interpretação de tais atitudes por parte dos adultos é deturpada pelo tabu que permeia suas próprias experiências em relação ao sexo, podendo afetar de forma negativa as crianças tuteladas por ele. Nesse sentido, a atitude correta a ser tomada frente à experimentação sexual deve ser a manutenção da tranquilidade, evitando comentários que possam envergonhar a criança, tolhendo sua curiosidade. No entanto, caso essas práticas se tornem constantes e levem ao isolamento do indivíduo, faz-se necessário uma investigação para afastar quadros de depressão, hipersexualidade, negligência ou exposição a qualquer tipo de violência. Uma boa assistência à saúde sexual e reprodutiva da adolescente envolve o conhecimento das vivências sexuais nessa fase, que ocorrem nos mais diversos formatos, relações homoafetivas, heteroafetivas, ambas, ou interações diferentes, que podem ser transitórias ou permanentes, de acordo com o estado de tolerância da sociedade em que a adolescente vive. A heteronormatividade e a inadequação a essa conduta podem afetar negativamente a saúde mental das jovens elevando o risco para o desenvolvimento de ansiedade, depressão, distorção da autoimagem e baixa autoestima. Todos esses fatores, quando presentes, podem predispor o indivíduo a comportamentos de risco, como o consumo de álcool e substâncias ilícitas, e a iniciação sexual precoce e desprotegida. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR As alterações biológicas no sistema reprodutor e nas estruturas encefálicas (áreas pré-óptica e amígdala) envolvidas no comportamento sexual, juntamente com os hormônios ovarianos, promovem o aparecimento do impulso sexual, que impele a adolescente para interações íntimas. Entretanto, a decisão de iniciar a vida sexual é determinada por fatores ambientais relacionados com a cultura, os costumes, a educação e a religião, bem como pelo comportamento do círculo de convivência da adolescente (iniciação sexual de suas amigas e pressão do parceiro). Algumas condições patológicas também podem adiantar a sexarca, como a violência física e sexual na infância, o uso de álcool e de substâncias ilícitas e o convívio em lares conflituosos e com pais negligentes ou separados. As meninas afetadas por essas situações têm maior risco de tentativa de suicídio, autoagressão e de sofrerem violência pelo companheiro. A resposta sexual da menina nos primeiros anos da adolescência pode ser descrita como análoga ao modelo linear e fisiológico proposto por Masters e Johnson e expandido por Kaplan, que introduziu nesse modelo a fase do desejo sexual, primeira fase dessa resposta. Rosemary Basson redimensionou a resposta sexual feminina (RSF), que passou a ser representada como um modelo circular que move o foco do desejo sexual espontâneo, acreditando que a maioria das mulheres perde tal desejo após algum tempo de relacionamento. A RSF se inicia por um estado de neutralidade sexual e se alterará dependendo de motivação da mulher, baseada na intimidade. A neutralidade aconteceria em relacionamentos de longo tempo de duração, em que a mulher perde o desejo sexual espontâneo,mas, quando estimulada sexualmente, ela fica excitada e passa a sentir desejo de se engajar na relação sexual. Assim, retira-se o foco da genitalidade e valoriza-se a satisfação sexual e a intimidade emocional. PROTEÇÃO CONTRA A SEXARCA PRECOCE E O DESENVOLVIMENTO DE COMPORTAMENTOS SEXUAIS SAUDÁVEIS: A OMS considera como sexarca precoce a ocorrência de relações sexuais pênis-vagina com idade ≤ 15 anos, porém atualmente já se é indicado postergar essa iniciação até ao menos os 16 anos de idade. As adolescentes que começam cedo sua vida sexual não utilizam métodos contraceptivos eficazes e Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR tendem a empregar menos o preservativo em relações posteriores. Fatores protetivos para o início precoce da vida sexual e para comportamentos de risco na adolescência englobam a religiosidade da jovem, a educação sexual na escola e o monitoramento dos pais. A atitude restritiva ou permissiva familiar em forma de conselhos ou conversas abertas sobre sexo não influenciam as vivências dos adolescentes, independentemente da cultura e de sua condição socioeconômica. As medidas educativas instituídas em escolas, assim como as políticas públicas, visando à promoção da saúde sexual e reprodutiva de adolescentes, são eficazes para prevenir ambos os comportamentos supracitados, bem como para evitar os agravos relacionados com as práticas sexuais na adolescência. O médico apresenta papel importante ao fornecer informações sobre a função sexual para adolescentes que buscam os serviços de atendimento à saúde. Graças a essa participação relevante, é imprescindível que o olhar do profissional sobre a sexualidade seja direcionado para a expressão natural da feminilidade, que motiva a paciente a buscar o sexo como uma forma de obter prazer físico e emocional, representando uma ponte em direção às intimidades do parceiro. Tais “impulsos” não podem ser impedidos por restrições ou conselhos que sugiram o adiamento da iniciação sexual, fazendo com que as orientações sejam direcionadas para as implicações da sexarca precoce e das práticas sexuais desprotegidas, buscando informar a adolescente para que ela realize suas escolhas de forma consciente. O conhecimento do risco real de contrair HIV, o maior comprometimento na escola, o monitoramento dos pais e a oferta de orientações sobre saúde sexual e reprodutiva pelos educadores e por profissionais de saúde são medidas que auxiliam a reduzir tais comportamentos de risco, sendo que a participação familiar na educação sexual pode também postergar a primeira relação, mesmo que um grande número de jovens ainda se engaje em tais atividades sem discussões prévias com os pais sobre controle de natalidade, ISTs e preservativos. A escola representa um local no qual adolescentes se reúnem para trocar relatos sobre suas experiências sexuais, por vezes incentivando as práticas precoces. Caso a educação sexual nessas instituições seja executada mais cedo, para alunos do 5º e 6º ano, sua eficácia para reduzir o comportamento sexual de risco seria mais elevada, definido conceitos como iniciação sexual precoce, múltiplos parceiros, sexo casual, e relações sexuais desprotegidas. Os programas de políticas públicas mais efetivos para retardar a iniciação sexual são aqueles que oferecem informações práticas acerca do autocontrole e da negociação diante de situações de risco, aumentando a capacidade de comunicação dos adolescentes por meio de grupos que atuam por meio de discussões e debates, além de encenações de situações associadas ao cotidiano da faixa etária. Os programas que vinculam as ações nas escolas juntamente com serviços de saúde reprodutiva e ações comunitárias são os que mais contribuem para a redução das taxas de gravidez na adolescência. É nesse contexto que se insere o projeto Saúde e Prevenção nas Escolas (SPE), que dentre outras funções, é responsável por oferecer estímulos para o debate e a apropriação de saberes sobre a sexualidade, favorecendo a identificação das diversas dimensões (biológicas, afetivas e socioculturais) da expressão da sexualidade, e fomentando o respeito à diversidade Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR humana em suas interações pessoais e sociais. Outros pontos de fundamental importância enfocados pelo SPE são os Direitos sexuais e reprodutivos, que se referem ao poder sobre o próprio corpo, à liberdade para vivenciar a sexualidade e à maternidade, porém, correlacionam-se principalmente aos acordos para a vida em sociedade. O objetivo da afirmação desses direitos é a redução das violações à autonomia pessoal e à integridade física e psicológica, e a garantia dos meios necessários para o ser humano alcançar seu bem-estar sexual e reprodutivo. Alguns desses direitos são a possibilidade de decidir sobre reprodução sem sofrer discriminação, coerção, violência ou restrição ao número de filhos e intervalo entre seus nascimentos, o direito de ter acesso à informação e aos meios para o exercício saudável e seguro da sexualidade, o direito a ter controle sobre o próprio corpo, e o direito de exercer a orientação sexual sem sofrer discriminações ou violência. INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS NA ADOLESCÊNCIA: A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PenNSE), que foi realizada pela última vez em 2015, apontou que 27,5% dos escolares brasileiros cursando o 9º ano do Ensino Fundamental já tiveram sua primeira relação sexual. Dentre os alunos entrevistados, 36% daqueles com vida sexual ativa eram do sexo masculino, ao passo que esse grupo representa 19,5% das meninas. Nota-se que nesse grupo, o percentual de indivíduos que utilizaram preservativos no primeiro intercurso chega a 61,2%, com prevalência maior entre mulheres. A adesão a esse método parece continuar, com 66,2% dos entrevistados apontando o uso do condom na última relação sexual. Nessa pesquisa, o acesso a informações sobre sexualidade, ISTs e AIDS alcançou 87,3% dos estudantes, sendo pouco mais frequente entre as alunas. As ISTs são causadas por vírus, bactérias ou outros microrganismos, transmitidos principalmente por contato sexual desprotegido com uma pessoa que esteja infectada. A transmissão pode ainda acontecer de forma transplacentária, durante o parto ou a amamentação, e pela utilização de seringas, agulhas ou outro material perfurocortante compartilhado. No Brasil, as informações sobre a prevalência de ISTs entre adolescentes são escassas e pontuais. Apenas a AIDS, a sífilis e as hepatites virais estão presentes na lista nacional de doenças e agravos de notificação compulsória, não havendo obrigatoriedade do relato de todas as infecções sexualmente transmissíveis. Há um aumento na ocorrência de ISTs em pacientes assintomáticos, que não recebem orientações ou tratamento adequados, carreando infecção subclínica e representando elos fundamentais na cadeia da transmissão dessas condições. As ISTS podem ser classificadas em bacterianas (gonorreia, clamídia, vaginose bacteriana, sífilis, cancroide, linfogranuloma venéreo e donovanose), virais (herpes, HIV, HPV, hepatites B e C), fúngicas (candidíase) e outras (molusco contagioso, escabiose e amebíase genital). Alguns outros patógenos não tão usuais podem ser transmitidos por via sexual, causando quadros como pediculose, oxíuriase, hepatite A, shigelose, dermatofitose, entre outros. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Por diversas vezes é possível observar lesões genitais em pacientes com algum desses quadros, porém diversas outras doenças podem acometer essa região, sendo necessária atenção para o diagnósticodiferencial. EPIDEMIOLOGIA DAS ISTS EM ADOLESCENTES: A coinfecção por outras infecções sexualmente transmissíveis representa um dos principais facilitadores para a transmissão do HIV, cuja via de contágio é predominantemente sexual, e atualmente a faixa etária dos portadores desse vírus tem se expandido para limites cada vez mais baixos. O Ministério da Saúde aponta que em indivíduos maiores de 13 anos, a transmissão do HIV pelo intercurso correspondeu a 94,9% dos casos notificados em homens e 97,4% em mulheres. Dentre as hepatites virais, monitoradas no Brasil por meio do registro de casos no SINAN, destaca-se a o HBV, que tem como principal forma de transmissão o contato sexual. Desde 1999, a taxa de incidência desse vírus enfrenta grande crescimento, partindo de 0,3% para 6,9% em 2010. No ano seguinte, registrou-se que o percentual de infectados na faixa etária de 10 a 19 anos corresponde a 1,1% do número total de ocorrências. A transmissão da hepatite C (HVC) por relações sexuais, por sua vez, é menos frequente, ocorrendo principalmente em indivíduos com comportamentos de risco, como prática sexual desprotegida e múltiplos parceiros. Segundo o Ministério da Saúde, em 2011, a soroprevalência do HCV na população geral foi de 1,38%, sendo 0,75%, na faixa etária entre 10 e 19 anos. Dessa forma, nota-se que os adolescentes apresentam risco elevado para a infecção por ambas as formas dessa doença, o que aponta a necessidade de instituir programas preventivos que busquem interferir na cadeia de transmissão da hepatite viral. O HPV enquadra-se como uma IST de destaque graças a sua prevalência e repercussão a nível mundial. As adolescentes sexualmente ativas apresentam as taxas mais altas de infecções por esse vírus, variando entre 50 e 80%, a partir de dois a três anos do início da atividade sexual. Atualmente, na tentativa de impedir a transmissão desse patógeno e refrear os impactos nocivos deste à saúde (principalmente feminina) à longo prazo, é realizada a vacinação de meninas de 9 a 13 anos e de meninos, estes com idade de 10 a 14 anos. Os rapazes enquadram-se como os principais veículos carreadores do vírus, que raramente causa agravos em homens, podendo, no entanto, gerar verrugas genitais e aumentar o risco de desenvolvimento de câncer de colo uterino em mulheres. Nos trópicos, a sífilis representa a segunda ou terceira causa de úlcera genital, sendo as outras principais o cancroide e a herpes genital). Em 1999, foi realizado um estudo com adolescentes do sistema correcional de Vitória, no qual foram incluídos 103 Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR adolescentes, predominantemente do sexo masculino, apresentando prevalência da infecção pelo Treponema de 7,8%. A infecção pelo vírus herpes simples HSV-1 (principal agente do herpes extragenital) tem-se tornado cada vez mais precoce na população, estando presente na forma latente em indivíduos cada vez mais jovens. O aumento na incidência de contágio pelo vírus é uma tendência mundial, tendo ele sido demonstrado como agente causal de 28,5% das ulcerações genitais de certas populações amazônicas. O HSV-2 é o agente principal nas formas perigenitais, com prevalência que aumenta de forma cumulativa após a adolescência. O herpes simples genital, como esperado para uma IST, tem alta prevalência em pacientes com vida sexual de risco. O contato com lesões clinicas do herpes é a forma usual de contágio. Esta moléstia tem ganhado destaque com o aumento do número de indivíduos infectados pelo HIV em faixas etárias menores, com manifestações clínicas atípicas. As vulvovaginites mais comuns na adolescência são a vaginose bacteriana, a infecção por clamídia, gonorreia e candidíase. A vaginose bacteriana é a mais frequente causa de corrimento genital, responsável por 40 a 50% dos casos, com metade das portadoras sendo assintomáticas. Trabalhos demonstram predomínio dessa afecção entre os 15 a 19 anos (41,1%), seguido da faixa dos 10 aos 14 anos (33,3%). Infecções por Chlamydia trachomatis podem desencadear diversas síndromes, compondo uma das principais ISTs de origem bacteriana. As estimativas para a prevalência desse quadro nas adolescentes oscilam entre 8 e 35% naquelas sintomáticas e 8 a 20% nas assintomáticas. Esse crescimento no número de casos pressiona os profissionais para manterem a infecção por essa bactéria como um critério para diagnósticos diferenciais e investigação clínica. Os dados referentes ao contágio da gonorreia são difusos não só no Brasil como também em diversos outros países, dificultando a coleta de dados atualizados. Em 2003, registraram-se 1,54 milhões de casos da doença em território nacional, com maior prevalência em indivíduos dos 15 aos 30 anos (mesmo que ultrapasse a adolescência, indica que indivíduos jovens eram frequentemente acometidos pelo quadro). As ISTs que apresentam quadros clínicos menos expressivos, como a tricomoníase, não devem ser menosprezadas, uma vez que ainda apresentam elevada prevalência dentre jovens. Mesmo que essa seja uma doença clássica e curável, estima-se que ocorrem 170 milhões de casos a cada ano no mundo em pessoas entre 15 e 49 anos, sendo as mulheres as mais afetadas. MANEJO INICIAL DE INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS NA ADOLESCÊNCIA: A abordagem sobre sexualidade deve ser abordada em qualquer consulta realizada com um adolescente, seja qual for a queixa principal, uma vez que é nesse período que geralmente se inicia a vida sexual. Nas situações nas quais o indivíduo já teve sua sexarca, é necessário que se investigue e que se esclareça todas as dúvidas apresentadas pelo paciente, oferecendo orientações sobre ISTs, gravidez e sexo seguro. Na coleta de informações para a construção da história clínica, alguns dados podem direcionar a uma suspeita diagnóstica de ISTs, como comportamento sexual de risco, múltiplos parceiros, ausência do uso de preservativo, parceiros sexuais com comportamento sexual de risco e/ou Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR usuários de drogas, lesões perianais e genitais como queixa, ocorrência de secreção uretral ou vaginal, dor pélvica, dispareunia, prurido genital, disúria, polaciúria, urgência miccional, lesões de pele e mucosas, adenite inguinal, artrite e hepatite. Alguns jovens comparecem aos centros de atendimento em saúde com sintomatologia fortemente associada a tais infecções, porém negam o início da vida sexual, o que torna imprescindível a investigação sobre a possibilidade de abuso sexual. A abordagem das ISTs nos adolescentes não está restrita ao trato genital. Isso implica em sempre incluir na anamnese questionamentos sobre sinais e sintomas extragenitais. Além disso, o exame físico deverá ser completo, incluindo a avaliação de todo tegumento e mucosas, além da palpação de linfonodos de todos os segmentos corporais. As seguintes lesões elementares devem ser consideradas suspeitas para as ISTs no exame dermatológico, principalmente se localizadas na região genital: eritema, pápulas, vesículas, úlceras, nódulos, cicatrizes e verrugas. GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: A gestação é o sonho de diversas mulheres, inclusive na adolescência. No entanto, a gravidez precoce pode acarretar vários riscos e crises não só para a jovem mãe como também para o recém-nascido (RN) e sua família, podendo inclusive impactar sobre a manutenção da pobreza e nos índices de mortalidade infantil. Salienta-se, no entanto, que o prognóstico desse quadro depende da comunicação entre fatores biológicos, sociais, culturais, econômicos e psicológicos. A gravidez precoce no Brasil é alta para aAmérica Latina, com 400 mil casos por ano. Quanto à faixa etária, dados do Ministério da Saúde indicam que em 2014 nasceram 28.244 filhos de meninas entre 10 e 14 anos e 534.364 crianças de mães com idades entre 15 e 19 anos, sendo necessárias medidas urgentes em planejamento e ações preventivas. Em 2015, 18% dos brasileiros nascidos vivos eram filhos de mães adolescentes. Quanto à distribuição demográfica, a região com maior número de mães adolescentes é a região Nordeste, concentrando 180 mil nascidos ou 32% do total. Em seguida encontram-se a região Sudeste, com 32%, a região Norte (14%), a região Sul (11%) e a Centro Oeste (8%). Vários são os fatores que contribuem para a ocorrência da gravidez precoce, no entanto a desinformação acerca da sexualidade e dos direitos sexuais/reprodutivos representa o principal fator. Questões emocionais, psicossociais e contextuais também influenciam nesse processo, inclusive para a falta de acesso à proteção social e ao sistema de saúde, incluindo o uso inadequado de contraceptivos, como métodos de barreira e preservativos. A falta de um projeto de vida e expectativas de futuro, o acesso precário à educação, a pobreza, inserção em famílias disfuncionais e vulneráveis, o abuso de álcool e outras drogas, além de situações de abandono, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR abuso, violência e a falta de proteção efetiva às crianças e aos adolescentes, também fazem parte desse quadro de etiologias da gravidez na adolescência. Como a gestação é um fenômeno que requer muita responsabilidade dos indivíduos envolvidos, é recorrente a entrega do recém- nascido a um abrigo ou a adoção do bebê pelos avós ou familiares, atuando como substitutos da maternagem do RN e retirando esse direito dessas adolescentes. Muitas vezes, a gravidez é desejada pela jovem, inclusive em resposta ao meio que a circunda ou como forma de exercer a sexualidade, de ser incluída e aceita socialmente. Ou até por gerar benefícios futuros para a família em programas de transferência de renda, fatores estes que colaboram para a reincidência do ocorrido antes dos 19 anos de idade. Além dos possíveis riscos à saúde maternofetal, a gestação na adolescência apresenta diversas implicações de cunho social, destacando-se principalmente a interrupção da vida escolar, que ocorre em 68,3% dos casos, aumentando para 85,7% no terceiro trimestre. Essa evasão não afeta somente a continuidade da educação, mas também resulta em menor qualificação profissional e maior dificuldade em conquistar independência financeira. No entanto, a gravidez na adolescência não é um fenômeno homogêneo e depende do contexto social no qual a garota está inserida. Nas camadas sociais média e alta, a ocorrência de gestação na jovem tende a não prejudicar tanto o percurso de escolarização e profissionalização. Por outro lado, em classe social baixa, a adolescente tem maior dificuldade em continuar e finalizar os estudos, encontrando mais obstáculos na sua profissionalização, até porque, na maioria das vezes, não pode contar com o apoio familiar e social. O suporte do parceiro e da família também é um aspecto importante no contexto da gravidez precoce, sendo dependente do cenário cultural, econômico e financeiro da jovem. A consolidação da paternidade nesses casos pode ser dificultada por meio do acúmulo de responsabilidades pelos pais dos jovens, porém os companheiros apresentam boa aceitação após um período inicial de dificuldade. Quando às relações intrafamiliares, por vezes a adolescente não consegue criar canais de diálogo viáveis, tendo que enfrentar a rejeição familiar, porém esse desfecho não é universal, havendo diversos casos de cooperação entre diversas gerações nesse momento de transição. Os desafios múltiplos enfrentados pelas mães adolescentes, suas famílias e companheiros justificam maior compreensão do acolhimento, de acompanhamento do pré-natal e das medidas de promoção e prevenção de saúde destas mães. Mudanças nas políticas de atenção à saúde, favorecendo o apoio a esse grupo e a abordagem das causas da gravidez na adolescência, das desvantagens sociais, risco à saúde das adolescentes e aos bebês podem ajudar a melhorar a vidas dessas meninas e dos indivíduos em seu convívio familiar. FATORES DE PROTEÇÃO CONTRA A GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A educação representa um dos mais importantes fatores de prevenção contra a gravidez precoce, sendo imprescindível não só para a saúde individual como para a coletividade. Nesse contexto, as medidas devem incorporar tanto a sexualidade quanto a saúde reprodutiva, no âmbito doméstico e escolar, estendendo-se para além das Unidades de Saúde. A educação sexual integrada e compreensiva faz parte da promoção do bem-estar dos adolescentes e jovens, realçando o comportamento sexual responsável, o respeito pelo outro, a igualdade e equidade de gênero, assim como a proteção da gravidez inoportuna, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis/HIV, e a defesa contra violência sexual e outros abusos. Ao se comunicar com adolescentes, não se deve utilizar somente a perspectiva negativa da sexualidade, no sentido de doenças, infecções ou gravidez inesperada, muitas vezes envolvendo estereótipos das mídias, inclusive das redes sociais e digitais. É necessário empregar exemplos que facilitem a compreensão da função sexual individual e de suas formas de expressão, de modo a proporcionar a tomada consciente de decisões. CONTUTA MÉDICA EM CONSULTAS GINECOLÓGICAS COM ADOLESCENTES: A presença cada vez mais frequente de adolescentes nos consultórios ginecológicos traz consigo o desafio do estabelecimento e manutenção da relação médico-paciente, uma vez que esse último se encontra num grande momento de transição no seu desenvolvimento biopsicossocial. Diferente da paciente adulta, a adolescente apresenta diferenças no seu modo de agir e pensar, de acordo com a fase da adolescência que ela está vivendo. O estabelecimento de uma boa relação entre profissional e paciente, garantindo a privacidade e respeitando a confidencialidade, é um aspecto fundamental para que a consulta transcorra de forma bem-sucedida e para que a adolescente estabeleça um vínculo com o ginecologista, cujo objetivo é promover a saúde sexual e reprodutiva desse indivíduo. Entre os motivos de consulta mais frequentes observam-se a avaliação de rotina do desenvolvimento da puberdade, problemas relacionados aos ciclos menstruais, cólicas, corrimento e desejo de iniciar o uso de métodos contraceptivos. A relação entre confidencialidade e adolescentes ainda não apresenta uma conduta estabelecida, dada a escassez de pesquisas que abordam esse tema e a ambiguidade nos resultados, pois certos trabalhos apontam que os pais associam a confidencialidade a comportamentos de risco e queda na qualidade dos relacionamentos, enquanto outros consideram-na favorável, desejando ser informados apenas sobre tópicos específicos como saúde mental, atividade sexual e gravidez, mesmo que os filhos requisitassem sigilo. Independentemente da situação, o ginecologista deve ter empatia para perceber como a adolescente está se sentindo naquele momento e tentar vencer a resistência da paciente que insiste em ficar em silêncio apontando para a mãe sempre que fazemos alguma pergunta como sinal de protesto. O maior medo das adolescentes é com relação ao exame ginecológico, assim, é muito importante assegurar que nada será feito sem a sua permissão. Essas atitudes tranquilizam a paciente no primeiro contato. A anamnese ginecológica da adolescente nãodifere da de uma adulta, entretanto alguns aspectos não podem ser esquecidos, como a situação vacinal da paciente (resgate de vacinas desatualizadas), alergias medicamentosas (anti-inflamatórios como Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR primeira opção no tratamento de dismenorreias), uso de anticonvulsivantes (interferências com contraceptivos orais), tabaco, drogas e álcool (presença de comportamentos de risco), porém esses últimos tópicos podem ser deixados para quando a paciente estiver sozinha. A história menstrual deve ser detalhada, e para tal as adolescentes devem ser orientadas a marcarem seus períodos menstruais, podendo ser oferecido um calendário menstrual ou podem ser sugeridos aplicativos de controle do ciclo, disponíveis para smartphones. Muitas dúvidas surgem com relação aos ciclos irregulares no período da pós-menarca, e a orientação sobre imaturidade do eixo, comum nesta fase, tranquiliza a paciente e a sua mãe, muitas vezes preocupadas com o futuro reprodutivo. Uma das maiores dificuldades na anamnese é abordar assuntos ligados à sexualidade, uma vez que estamos frente a pacientes menores de idade, o que gera preocupação aos profissionais sobre aspectos ligados ao sigilo e privacidade. Perguntas sobre vida sexual na presença da mãe são consideradas não apropriadas, mesmo que seu relacionamento seja aparentemente positivo. Essa abordagem só é recomendada se a adolescente diga espontaneamente que deseja falar sobre contracepção pois possui ou quer iniciar sua vida sexual, evitando assim promover situações de conflito entre mãe e filha. Pedir à adolescente acompanhada para que ela fique sozinha pode ser um momento de tensão, porém indaga-la com “Você faz questão da presença de sua mãe no momento do exame?” pode dar a chance à jovem para que ela se sinta segura em continuar o atendimento por conta própria, dispensando o apoio de forma harmoniosa. Uma vez a sós com a adolescente, os aspectos de sigilo devem ser abordados, garantindo a confidencialidade. Essa informação é muito importante, já que as adolescentes se sentem inseguras, principalmente quando o ginecologista foi escolhido pela sua mãe. Ao ser tranquilizada que o sigilo será preservado, será possível orientar a respeito de contracepção e cuidados para se prevenir de infecções sexualmente transmitidas, além de evitar o uso indiscriminado da contracepção de emergência. A confidencialidade, a privacidade e a autonomia são direitos da adolescente que recebe atendimento médico. Em relação ao sigilo em consultas com pacientes menores de 18 anos, o Código de Ética Médica, em seu artigo 74º, determina que é proibida a revelação de segredos profissionais de pacientes menores de idade, mesmo a seus pais ou guardiões, desde que esse indivíduo tenha capacidade de avaliar seus problemas e conduzir-se por conta própria para resolvê-los. Colegas de trabalho e auxiliares do profissional responsável pelo atendimento também são vetados a compartilhar essas informações, penalizando o médico por meio do art. 78º. Essa limitação só deve ser ignorada em situações nas quais a guarda do sigilo possa vir a causar danos ao paciente. Nas situações em que a quebra do sigilo é justificada e não havendo anuência da adolescente, mesmo após a equipe profissional encorajá-la a envolver a família e oferecer apoio na comunicação, a jovem será esclarecida dos motivos para tal atitude, antes do repasse da informação aos seus responsáveis. É necessário reforçar, no entanto, que os códigos de conduta médica são subordinados ao Código Penal Brasileiro (CPB) e à Constituição Federal. O último documento não aborda de forma explícita os direitos reprodutivos dos jovens, porém o primeiro regimento postula como estupro de Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR vulnerável as práticas libidinosas ou de conjunção carnal com indivíduos de idade inferior a 14 anos, sendo o profissional obrigado a fazer a denúncia de violência sexual quando lhe for relatada situação que se configure nesses autos. O exame físico da adolescente deve contar com a anotação de todos os dados biométricos, dada a continuidade do desenvolvimento físico. O exame ginecológico na adolescente que já menstrua e não apresenta nenhuma queixa no dia da consulta pode ser adiado para uma segunda visita, caso ela se mostre relutante em ser examinada na primeira consulta, mostrando para a adolescente o respeito à sua autonomia. Nas pacientes sexualmente ativas, o exame ginecológico não difere do da paciente adulta, e a importância da sua realização deve ser enfatizada para a adolescente, para pesquisa de infecções de transmissão sexual. Naquela adolescente que mantém sua vida sexual em sigilo, poderá ocorrer dificuldade com relação aos exames complementares, seja por impossibilidade de arcar com o custo, seja por questões de convênios médicos, por ela ser dependente dos pais. É importante discutir previamente com a adolescente sobre quem vai levar o material ao laboratório, se a adolescente vai acompanhada ou não para a coleta de material ou mesmo para os exames de imagem, quem vai buscar os resultados previamente, evitando deste modo quebra inadvertida de sigilo. Todos os dados coletados na anamnese e exame físico devem ser cuidadosamente registrados, inclusive o dado se a vida sexual é mantida em segredo para evitar quebra inadvertida de sigilo numa conversa com a mãe. Nas consultas subsequentes, nas adolescentes que eram virgens na primeira consulta, é importante sempre perguntar se ela já iniciou atividade sexual, e, para aquelas que já eram sexualmente ativas, se ainda mantém sua vida sexual em segredo. O Conselho Federal de Medicina emitiu, em 1998, um parecer sobre o controle das ISTs na população adolescente e da realização de testes sorológicos. Esse registro determina que nenhum paciente, independentemente da idade, é obrigado a realizar o teste de HIV, exceto em situações de doação de sangue, órgãos ou esperma, assim como não existe a obrigatoriedade da revelação da sua soropositividade a ninguém. No entanto, é caracterizado como crime a omissão da condição ao parceiro caso esteja tendo relações sexuais sem preservativo. A adolescente tem direito à educação sexual, ao acesso à informação sobre contracepção, à confidencialidade e sigilo sobre sua atividade sexual e à prescrição de métodos contraceptivos, desde que respeitadas as restrições previstas pela Lei do Planejamento Familiar. Segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, a prescrição de métodos anticoncepcionais para menores de 14 anos deverá levar em conta a solicitação delas, respeitando-se os critérios médicos de elegibilidade, o que não constitui ato ilícito. Por fim, em relação ao abortamento, é necessária a autorização do responsável legal tão somente para a realização do Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR procedimento, caso um episódio de violência sexual resulte em gravidez. Nos casos que apresentarem divergências entre a opinião da jovem e de sua família, inicialmente deve ser preservada a vontade da primeira, não sendo realizado nenhum encaminhamento que vá de encontro a suas escolhas. Se o desacordo permanecer, os profissionais de saúde devem garantir o acionamento do Conselho Tutelar para que a questão seja resolvida pelo Poder Judiciário, que buscará a garantia da autonomia da adolescente. Também é de responsabilidade dos serviços de atendimento o acompanhamento psicossocial para ambas as partes envolvidas. CONTRACEPÇÃO NA ADOLESCÊNCIA: Adolescentes entre 15 e 19 anos apresentamtaxas menores de conhecimento e utilização de métodos contraceptivos, configurando índices elevados de necessidades não atendidas no atendimento médico. O aconselhamento contraceptivo nessa faixa etária deve ser holístico, levando em consideração aspectos da saúde reprodutiva e sexual, possibilitando a oferta de todos os métodos disponíveis. Nenhuma estratégia anticoncepcional (exceto as definitivas) deve ser contraindicado baseando-se unicamente na idade. Várias barreiras são interpostas em relação ao uso correto dos contraceptivos por adolescentes, motivadas pelo desconhecimento, aconselhamento ineficaz, atitudes moralistas e tabus quanto à sexualidade, afetando até mesmo as jovens que desejam ou escolhem fazer uso de tais métodos. Embora os LARCs (Long Acting Reversible Contraceptives) sejam priorizados por algumas entidades médicas, dificuldades no acesso e na aceitabilidade pela adolescente mostram que métodos tradicionais, como os contraceptivos orais combinados (COCs) e preservativos, devem ser o foco principal de orientação por profissionais de saúde, visando à melhora das taxas de continuidade e à redução da possibilidade de gestações não planejadas. Frente a esse cenário de desinformação, o aconselhamento contraceptivo na adolescência tem papel crucial, devendo ter como componentes: Acolhimento: deve reforçar a confidencialidade do atendimento, reconhecendo que a adolescente difere de uma mulher adulta. O médico deve criar um ambiente aberto, tratando a paciente com empatia. Além disso, é necessário reforçar que não há necessidade de exame ginecológico inicial. o Tópicos que devem ser questionados na entrevista: Histórico sexual e uso prévio de contraceptivos; Histórico médico; Expectativas da jovem sobre o método contraceptivo desejado; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Motivação e habilidades para o uso adequado da contracepção; Opinião sobre injetáveis e métodos reversíveis de longa duração; Apoio familiar e do companheiro; Necessidade de manter o método em segredo. Checagem: o profissional deve ajudar a escolher o método contraceptivo e avaliar o conhecimento (e a qualidade deste) e as preferências individuais da paciente (investigando medos e preocupações), a adequação das estratégias às expectativas da jovem, e as opções acessíveis a ela. Cabe ao médico também verificar se há a necessidade de realização de exames para rastreio de ISTs. o Nesse ponto, devem ser abordados o mecanismo de ação, eficácia, forma de iniciar o uso e dicas para a administração correta do medicamento, o impacto deste sobre o ciclo menstrual, os efeitos adversos que podem surgir, os benefícios não contraceptivos e a necessidade de consultas de seguimento. Reforço positivo (tranquilizar a paciente): o médico deve reafirmar que os benefícios da contracepção são maiores que os riscos, enfatizando a necessidade de uso constante, interrompendo-o somente com anuência profissional. Também deve ser pontuado que esse é o primeiro passo a ser tomado para uma vida sexual segura, sanando eventuais dúvidas e anseios não explorados. TIPOS DE CONTRACEPTIVOS: Os métodos contraceptivos podem ser divididos de forma ampla em hormonais e não hormonais. Nesse primeiro grupo encontram-se as estratégias comportamentais, as mecânicas e as de barreira, ao passo que no último são descritos os contraceptivos orais combinados, adesivos, anéis vaginais e medicações injetáveis. CONTRACEPTIVOS NÃO HORMONAIS: Métodos comportamentais: Essas estratégias incluem a amamentação (amenorreia lactacional), a curva de temperatura basal, avaliação do muco cervical, a tabela de Ogino-Knauss (“tabelinha”), o método sinto-térmico e o coito interrompido. Tais métodos requerem determinação do período fértil, situação complexa na adolescência, uma vez que exige disciplina e o conhecimento das mudanças físicas puberais, resultando em eficácia média-baixa. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Ressalta-se que nos três primeiros anos após a menarca, a ocorrência de ciclos anovulatórios é frequente, causando irregularidade menstrual, que pode interferir ainda mais no uso desses métodos. Porém, no início da vida sexual estes podem ser os únicos recursos disponíveis, apresentando consigo algumas vantagens, como educar a adolescente sobre seu ciclo reprodutor, respeitando preceitos religiosos ou filosóficos que impeçam o emprego de outras modalidades de contracepção, e a ausência de custo. Idealmente sempre deve ser alertada a necessidade sistemática e concomitante do preservativo para aquelas jovens que optarem por esses métodos. Métodos de barreira: Compõem essa categoria os preservativos masculino e feminino, o diafragma e o espermicida. O uso do preservativo é recomendado devido à sua ação preventiva contra ISTs e o HIV, independentemente de sua função contraceptiva. As versões masculinas (maioria feita de látex) e femininas (compostas por poliuretano) são os únicos métodos que oferecem comprovadamente essa dupla proteção. Sua eficácia depende da técnica de colocação e da constância de uso, com índices de falha do preservativo masculino em 15% na população adulta, com taxa dez vezes maior entre adolescentes. O preservativo feminino tem falha entre 5% e 21%, é mais caro e de distribuição limitada, mas protege a genitália externa, sendo necessária a orientação adequada da jovem quanto a seu uso. Métodos mecânicos: O DIU, o implante subdérmico e o SIU compõem o grupo dos LARC, métodos contraceptivos reversíveis de longa duração. Estas ferramentas apresentam eficácia elevada por não dependerem da adesão e monitorização por parte da usuária, minimizando falhas por esquecimento. Menos de uma mulher dentre 100 engravidam no primeiro ano de uso. Os LARC são apropriados para adolescentes obesas, nulíparas, primíparas, diabéticas, hipertensas, com mutações trombogênicas, portadoras de HIV, doenças hepáticas, doenças cardiovasculares ou imunossuprimidas. Não afetam o ganho de massa óssea, mas podem induzir o aumento da acne. O uso de dispositivos intrauterinos é contraindicado se existe doença inflamatória pélvica ou malformações uterinas. Em adolescentes com anemia falciforme é recomendado anticonceptivo oral somente com progestagênios ou DIU com levonorgestrel ou o implante subdérmico. A contracepção de longo prazo evoluiu a partir do conhecimento da fisiologia reprodutiva e seus efeitos colaterais são mínimos comparáveis com outros anticoncepcionais, sendo considerados métodos seguros e práticos, com excelente custo-benefício para grupos especiais, como as adolescentes. Os LARC podem ser inseridos a qualquer etapa do ciclo menstrual, desde que haja segurança de que a adolescente não esteja grávida e num período mínimo de 5 dias após o último coito desprotegido, mesmo que esta tenha sido a sexarca. O período pós- parto e pós aborto imediatos devem ser evitados, devido à fragilidade da parede uterina. Logo antes da inserção do DIU, a paciente deve fazer uso de algum método contraceptivo, para garantir que não há possibilidade de gestação. o Dispositivo Intrauterino (DIU): No Brasil, há dois tipos principais de DIU, um hormonal e outro não. O não hormonal, também conhecido como T de Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR cobre ou T380A, está disponível na rede pública e pode ser utilizado por adolescentes, independente de paridade. Dois grandes mitos circundam a ação do DIU, um sendo a sua suposta ação abortiva e outro, o aumento da incidência de doença inflamatória pélvica aguda (DIPA). O funcionamentodo DIU de cobre ocorre, no entanto, pela promoção da inflamação endometrial, gerando um ambiente hostil à função dos espermatozoides. Em relação à DIP, o risco é baixo, predominantemente após o período inicial de inserção. Mesmo nos casos de diagnóstico da doença após a colocação do dispositivo, inicialmente não se recomenda sua retirada, sendo o tratamento apenas medicamentoso. o Implante subdérmico de etonorgestrel (ISE): Esse método consiste numa haste flexível com cerca de 4 cm de comprimento, feitas de etileno vinil com acetato de etonorgestrel, um progestágeno, que deve ser implantado, sob anestesia local, na camada subdérmica da porção medial do braço com a companhia de um profissional capacitado. O aparelho não é biodegradável, portanto deve ser substituído a cada três anos ou quando a paciente solicitar a interrupção do método, o que é feito por meio de uma incisão pequena no local do implante. Sua ação contraceptiva se dá pela inibição da ovulação, espessamento do muco cervical e atrofia endometrial, dificultando a fixação da mórula. Aproximadamente 40% das pacientes com tal implante evoluem com amenorreia, porém sangramentos irregulares não são raros. Com alta eficácia, sua taxa de continuação entre adolescentes que já têm filhos é maior quando comparada à das pílulas. o Sistema intrauterino liberador de levonorgestrel (SIU): O SIU, conhecido como Mirena, é um dispositivo intrauterino com levonorgestrel, com formato similar ao do DIU de cobre. A contracepção ocorre por uma reação intrauterina ao corpo estranho, além do espessamento do muco cervical e atrofia endometrial. Graças a essa alteração na dinâmica das secreções uterinas, acredita-se que esse método possa reduzir a possibilidade de infecções ascendentes por Chlamydia e Neysseria. Sua duração é de cinco anos. Entre os efeitos colaterais estão o sangramento uterino irregular, alterações de humor e acne. MÉTODOS HORMONAIS: Anticonceptivos hormonais combinados: Essas medicações contêm estrogênio e progestagênio, abrangendo o anel vaginal, adesivo contraceptivo e anticonceptivo hormonal combinado oral. Cerca de 9 a cada 100 mulheres engravidam no primeiro ano de uso desses métodos. As adolescentes podem empregar esses métodos para o controle de natalidade desde a menarca, utilizando seus benefícios para além da anticoncepção, como o auxílio no tratamento da tensão pré-menstrual, na regularização de ciclos em casos de anovulação crônica e demais irregularidades menstruais, a redução da dismenorreia, controle da endometriose e dos sinais do hiperandrogenismo. Na avaliação que antecede a prescrição do contraceptivo, deve-se observar a data da última menstruação, o padrão menstrual da jovem, a presença ou não de tensão pré- menstrual e/ou a dismenorreia primária. É Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR fundamental investigar por contraindicações absolutas dos estrogênios como hepatopatias graves, tireoideopatias descompensadas, doenças tromboembólicas, gestação confirmada ou suspeita e avaliar o histórico de cefaleia com aura. Como rotina, deve-se realizar o exame físico geral com verificação de mucosas e escleróticas, pressão arterial, peso corporal, palpação da tireoide e do abdome (procurando por visceromegalias). o Anel vaginal: Esse equipamento consiste num anel flexível que libera dose diária de etinilestradiol e de etonorgestrel, suprimindo a ovulação. É inserido e retirado pela própria adolescente, devendo permanecer em contato com a mucosa vaginal por três semanas seguidas por uma de intervalo. Não interfere com a flora vaginal, tendo falha real de 8%. É discreto e com bom controle de ciclo. O manuseio da genitália para sua colocação pode dificultar o uso no início da vida sexual. o Adesivo transdérmico: Esse equipamento fixo à pele libera uma dose diária de etinilestradiol e de norelgestromina, suprimindo a ovulação. A troca é feita semanalmente por um período de duas a três semanas, após o qual há um intervalo de 7 dias. A presença do adesivo pode dificultar, ou não, sua aceitação entre adolescentes. Pode ocorrer desconforto mamário como nos demais métodos hormonais, além de reações dermatológicas locais. Sugere-se que a eficácia declina em pacientes com peso igual ou maior que 90 kg. o Contraceptivo oral combinado (COC): Para a OMS, o consenso quanto a prescrição desses medicamentos para adolescentes recomenda versões de baixa dosagem, considerando a adesão da paciente ao tratamento, falhas por esquecimento ou abandono e os benefícios para além do controle de natalidade. O índice de falha real gira em torno de 8%. Ao prescrever os COC, deve-se orientar às pacientes que sangramentos irregulares podem ocorrer, principalmente no curso da primeira cartela. Se a paciente apresentar cefaleia com aura é contraindicado o uso desses medicamentos. Na maioria dos anticonceptivos hormonais combinados de uso oral, o componente estrogênico é o etinilestradiol, em doses de 15μg a 30μg, associados a diferentes progestagênios, em regimes de 21/7, 24/4 ou 28 dias, com maior eficácia dos regimes sem intervalo. As apresentações podem ser uni ou multifásicas. As primeiras contam com comprimidos de mesma dosagem, ao passo que as últimas apresentam composição variada, sendo necessário atentar-se à ordem dos comprimidos. Fármacos e drogas podem interagir com os contraceptivos orais por meio de alteração na ligação a proteínas séricas e aumento do metabolismo hepático pela indução das enzimas do citocromo P-450, podendo diminuir a eficácia do outro e vice-versa. Anticonceptivos orais apenas com progestagênio: Esses medicamentos não estão associados ao estrogênio e são utilizados de maneira ininterrupta, com taxa de falha de 9%. Não interferem na densidade mineral óssea, apresentam poucos efeitos adversos e poucas contraindicações. Produtos com acetato de noretindrona ou levonorgestrel têm em comum a inibição inconstante da ovulação, efeitos androgênicos variáveis e sangramento uterino imprevisível. Os produtos com Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR desogestrel podem ser utilizados além do período de aleitamento, promovendo uma inibição da ovulação eficiente, baixa ação androgênica, com tendência a amenorreia ou sangramentos infrequentes e melhora da dismenorreia. o Anticonceptivos hormonais injetáveis (trimestrais ou mensais): A primeira injeção deve ser feita a qualquer momento, desde que a paciente não esteja grávida, nos sete primeiros dias de início do sangramento, ou após episódio de aborto, parto ou uso de outros contraceptivos, sendo necessário aguardar uma semana para a administração da medicação. As injeções trimestrais podem causar aumento de peso (varia de 2kg a 3 kg), mastalgia, depressão, alterações no fluxo menstrual, amenorreia e atraso no retorno da fertilidade em até um ano após a interrupção do uso. Há evidências de diminuição da densidade mineral óssea ao longo do tempo de uso em adolescentes, além de prejudicar o crescimento daquelas meninas que ainda não completaram seu pico de crescimento. Ainda não há conclusão definitiva sobre os efeitos crônicos, o que faz com que para pacientes maiores de 18 anos, não exista restrição para sua prescrição, ao passo que para pacientes entre a menarca e 18 anos, seu uso continuado depende de avaliação individual de riscos e benefícios. ANTICONCEPÇÃO DE EMERGÊNCIA: A “pílula do dia seguinte” é indicada como método emergencial após relação sexual sem proteção, falha potencial de método contraceptivo em uso ou em casos de violência sexual. O seu uso deve ser feito em até 5 dias após o coito, sendoque a eficácia aumenta para 75% em usos até 72 horas após o ato. Sugere-se que tanto o levonorgestrel como comprimidos associados com etinilestradiol (Método Yuzpe) sejam oferecidos tão logo ocorra a relação desprotegida. O uso isolado de levonorgestrel (em dose única de 1,5mg) é mais efetivo, sem os efeitos adversos do estrogênio. O mecanismo de ação varia de acordo com a fase do ciclo menstrual da mulher: se utilizada na primeira fase, impede a ovulação; se o uso é na segunda fase, atua principalmente pelo espessamento do muco cervical. Atualmente não há registros de que tenha efeitos teratogênicos, de que interfira na implantação ou de que altere o endométrio. PARTICULARIDADES E DÚVIDAS SOBRE A CONTRACEPÇÃO NA ADOLESCÊNCIA: A fisiologia reprodutiva da adolescente difere daquela de uma mulher adulta, o que faz com que indagações distintas surjam no processo de aconselhamento contraceptivo. Uma questão comum a mulheres de todos os grupos etários dentro do período fértil refere- se ao ganho de peso, porém não há evidências que comprovem relações causais entre métodos contraceptivos (sejam eles hormonais ou não) e o aumento da massa corporal. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR USO DE CONTRACEPRIVOS ORAIS ANTES DA MENARCA: Adolescentes que iniciaram a vida sexual antes da primeira menstruação podem necessitar de algum tipo de método contraceptivo, uma vez que é a fecundação é possível nesse período. No entanto, mesmo com a menarca, é comum a presença de ciclos anovulatórios, com elevação da ovulação após 20 episódios menstruais regulares. Dessa forma, não existem evidências que respaldem o uso de contraceptivos hormonais orais precocemente à menarca, sendo avaliada a ocorrência de possíveis interferência desses esteroides sobre o eixo hipotálamo-hipófise-ovariano (HHO). Nessa situação, recomenda-se a orientação para o uso de preservativos, inócuos à saúde reprodutiva a longo prazo. IMPACTO DOS CONTRACEPTIVOS HORMONAIS SOBRE A DENSIDADE MINERAL ÓSSEA: A supressão gonadotrófica característica dos métodos hormonais determina a redução dos níveis de estrogênio produzidos pelo organismo, porém seu impacto sobre a Densidade Mineral Óssea é positivo, não havendo restrições ao seu uso. Essas estratégias podem até induzir o ganho de massa óssea, sendo possibilidades para uso na adolescência. ACNE: A acne é um quadro bastante comum entre adolescentes, que frequentemente procuram por contraceptivos para o tratamento, que se baseia na possibilidade de haver redução da oferta androgênica ou seu total bloqueio junto às unidades pilossebáceas. A administração oral do etinilestradiol é seguida por aumento significativo da SHBG (sex hormone-binding globulin), promovendo maior captação de androgênios livres. A supressão gonadotrófica, evento relacionado ao progestagênio, propicia menor produção androgênica ovariana. A somatória desses efeitos caracteriza o efeito antiandrogênico comum a todos os anticoncepcionais orais. Em condições normais, a manutenção da pele sem excessiva oleosidade ou acne ocorre com o uso de todos os contraceptivos orais, incluindo os de baixa dose, ainda que contenham progestagênios derivados da 19- nortestosterona. Para o tratamento da acne severa ou hirsutismo, no entanto, frequentemente se utilizam progestagênios antiandrogênicos, cujo efeito é amplificado pela ação direta desses compostos bloqueando os receptores na unidade pilossebácea. ESPECIFICIDADES DO CICLO MENSTRUAL NA ADOLESCÊNCIA: O CICLO MENSTRUAL NORMAL: O ciclo menstrual humano reflete as alterações hormonais e morfológicas endometriais que afetam a organização endometrial. Esse processo é mediado pelo eixo HHO que produz diversos hormônios numa cadeia de retroalimentação, como o FSH, que favorece a secreção de estrogênio, o LH, que deflagra o processo final de amadurecimento e liberação do ovócito, e os hormônios ovarianos (estrogênios e progestagênios), formados pela conversão da androstenediona. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Dois segmentos podem ser decompostos, a depender de qual órgão está sendo examinado: o ciclo ovariano e o ciclo uterino. O primeiro pode ser ainda dividido em fases folicular e lútea, enquanto o último é dividido em fases proliferativa e secretora correspondentes. Sobre a organização do ciclo ovariano, é possível caracterizá-la da seguinte forma: Fase folicular: O mecanismo de feedback hormonal promove o desenvolvimento de um folículo dominante, que se torna maduro e pronto para a ovulação na metade do ciclo. A extensão desse período gira em torno de 10 a 14 dias, sendo a principal determinante da extensão total do ciclo; Fase lútea: Representa o período que se estende desde a ovulação até o início da menstruação, durando cerca de 14 dias. As fases do ciclo uterino, que correspondem ao desenvolvimento e posterior descamação endometrial podem ser descritas também em duas fases, a saber: Graças à combinação dessas etapas, é possível perceber que um ciclo menstrual normal tem duração de 21 a 35 dias, com 2 a 6 dias de fluxo e perda sanguínea de 20 a 60 ml. Os extremos da vida reprodutiva, como a pós-menarca e a perimenopausa, são marcados por maior porcentagem de ciclos irregulares ou anovulatórios. As variações hormonais presentes no organismo feminino são, como mencionado anteriormente, cíclicas, e afetam diretamente não só o amadurecimento do gameta como também a arquitetura uterina e as interações entre outros hormônios. De forma resumida, essa dinâmica pode ser descrita em oito etapas: No início de cada ciclo menstrual, os esteroides gonadais encontram-se em baixa, com diminuição desde a fase lútea do ciclo prévio; Com a involução do corpo lúteo, os níveis de FSH se elevam, estimulando o recrutamento de uma série de folículos em crescimento. Cada folículo irá secretar dosagens crescentes de estrogênio, o que induz a proliferação endometrial; O FSH hipofisário começa a declinar próximo à metade da fase folicular em decorrência das correntes de retroalimentação negativa. Além disso, os folículos em crescimento produzem inibina-B, que suprime a secreção desse hormônio pela hipófise. De maneira oposta, o LH inicialmente diminui em resposta a níveis de estradiol elevados, mas, em um momento mais tardio na fase folicular, suas taxas são dramaticamente aumentadas (resposta bifásica); Ao final da fase folicular, pouco antes da ovulação, receptores de LH/FSH- induzidos estão presentes na superfície de células da granulosa e, com a estimulação do LH, modulam a secreção de progesterona; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Depois de uma determinada carga de estimulação estrogênica ocorre um aumento repentino de LH, desencadeando a ovulação, que ocorre após 24 a 36 horas desse pico. A partir desse momento é iniciada a fase lútea (ou secretora); O nível de estrogênio é reduzido pouco antes da ovulação até o meio da fase lútea, quando começa a se elevar outra vez como resultado da secreção do corpo lúteo, que também produz inibina-A; Os níveis de progesterona sobem após a ovulação, podendo ser utilizados como sinal presuntivo da ocorrência desse fenômeno; A progesterona, o estrogênio e a inibina- A agem de forma central (sobre o hipotálamo e a hipófise) para frear a secreção de gonadotrofinas e o consequente crescimento de mais um folículo. Esse período de aumento se mantém até o início da involução do corpo lúteo, marcando o próximo ciclo. A análise do endométrio também permite monitorar os estágios do ciclo reprodutivo feminino, avaliandoa espessura e a nutrição desse tecido. Os dois terços superficiais dessa estrutura correspondem à zona que prolifera e é descartada a cada ciclo (na ausência de gravidez). Essa porção do endométrio que passa pelo ciclo é conhecida como decidua funcionalis, composta por uma zona intermediária situada profundamente (stratum spongiosum) e uma zona compacta superficial (stratum compactum). A decidua basalis é a região mais profunda do endométrio, não sofrendo proliferação significativa mensalmente, mas atua como fonte para a constante regeneração endometrial. Nesse cenário, as fases dividem-se em: Fase proliferativa: Por convenção, o primeiro dia de sangramento vaginal é chamado de dia 1 do ciclo menstrual. Após as menstruações, a decídua basal é composta por brotos glandulares e estroma denso escasso na sua localização adjacente ao miométrio. A fase proliferativa é caracterizada pelo crescimento mitótico progressivo da decídua funcional, no preparo para a implantação do embrião em resposta à elevação dos níveis circulantes de estrogênio. A mudança notada predominantemente durante esse período é a evolução das glândulas endometriais, a princípio, retas, estreitas e curtas, em estruturas mais longas e tortuosas. Por todo esse período, o estroma é uma camada compacta densa, e estruturas vasculares não são vistas com frequência. Fase secretora: Dentro de 48 a 72 horas após a ovulação, o início da secreção de progesterona produz uma mudança na histologia do endométrio ao passar para a fase secretora, assim denominada pela presença evidente de produtos eosinofílicos ricos em proteína secretados na luz glandular. Em contraposição à fase proliferativa, a fase secretora do ciclo menstrual é caracterizada pelos efeitos celulares da progesterona, além dos efeitos do estrogênio, geralmente Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR antagônicos. Como resultado da diminuição gradual do estradiol, durante a segunda metade do ciclo, a síntese de DNA induzida pelo hormônio e a mitose celular são bloqueadas. Durante a fase secretora, as glândulas endometriais formam vacúolos característicos contendo glicogênio, migrando gradualmente para a luz glandular, o que ocorre por volta do 19º ou 20º dia do ciclo. No sexto ou no sétimo dia pós- ovulatório, é comum a atividade secretora das glândulas ser máxima e o endométrio estar plenamente preparado para a implantação do blastocisto. O estroma da fase secretora permanece sem modificações histológicas até aproximadamente o décimo sétimo dia pós- ovulatório, quando há o aumento progressivo do edema. As artérias espiraladas tornam-se claramente visíveis e, então, alongam-se de maneira progressiva, espiralando-se ainda mais durante o restante da fase secretora. Menstruação: Na ausência de implantação, a secreção glandular cessa, e ocorre o colapso irregular da decídua funcional. A descamação resultante dessa camada do endométrio é chamada menstruação. A destruição do corpo lúteo com consequente queda da produção de estrogênio e progesterona é a causa presumida dessa degradação. Com a retirada dos hormônios sexuais, há um intenso espasmo vascular das artérias espiraladas, que, por fim, leva à isquemia endometrial. De maneira simultânea, lisossomos se rompem, causando liberação de enzimas proteolíticas, que promovem destruição tecidual local. Essa camada do endométrio é então descamada, deixando a decídua basal como a fonte subsequente do crescimento endometrial. CONDIÇÕES RELACIONADAS AO ATRASO MENSTRUAL EM ADOLESCENTES: A menstruação normal, como descrita anteriormente, requer constante interação hormonal, mediada por um sistema de retroalimentação intrincado. Se não houver gravidez, a secreção de hormônios ovarianos diminui, e se inicia o sangramento por privação. No entanto, em caso de inatividade de qualquer um dos componentes desse maquinário (fatores endócrinos, ginecológicos ou metabólicos), não há sangramento. Com a redução da idade média para a menarca, a amenorreia passou a ser definida como ausência de menstruação aos 13 anos de idade, não havendo caracteres sexuais secundários, ou aos 15 anos de idade, havendo caracteres sexuais secundários normais. Mulheres que já menstruaram podem ter amenorreia secundária, definida como a ausência de menstruação por três ciclos menstruais normais. O teste de gravidez pode ser indicado para mulheres com ciclos regulares que enfrentam atrasos, mesmo que de apenas uma semana. É conveniente avaliar pacientes que têm menos de nove ciclos por ano. Com algumas Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR exceções, as causas de amenorreia primária e secundária são semelhantes. As pacientes podem apresentar alterações pequenas no eixo hipotalâmico-hipofisário- ovariano, que por vezes não são graves para causar amenorreia, mas levam a quadros de irregularidade menstrual (oligomenorreia) associada à ausência ou baixa frequência de ovulação. É possível esses indivíduos apresentarem sangramento excessivo durante a menstruação, pois não há oposição ao estrogênio. As causas de oligomenorreia superpõem-se às de amenorreia, exceto pelo fato de algumas anormalidades anatômicas e do cariótipo estarem mais associadas à última. A OMS determina três classes de amenorreia: o grupo I inclui mulheres sem evidências de produção endógena de estrogênio, que apresentam níveis normais ou baixos de FSH, níveis normais de prolactina e ausência de lesão do eixo hipotalâmico-hipofisário; o grupo II está associado a pacientes com evidências de produção de estrogênio e níveis normais de prolactina e FSH; o grupo III, por sua vez, inclui mulheres com altos níveis séricos de hormônio folículo estimulante, indicativos de insuficiência ou falência gonadal. Na investigação da causa da amenorreia, é relevante verificar a presença de caracteres sexuais secundários. Caso não sejam encontrados, a mulher não foi exposta ao estrogênio. AMENORREIA PRIMÁRIA: HIPOGONADISMO HIPERGONADOTRÓFICO ASSOCIADO À AUSÊNCIA DE CARACTERES SEXUAIS SECUNDÁRIOS: A disgenesia gonadal é um termo frequentemente empregado para descrever alterações no desenvolvimento das gônadas, que em geral assemelham-se a fitas. Esse quadro está relacionado com elevados níveis de FSH e LH circulantes, uma vez que os ovários não produzem estrogênio e inibina, hormônios que, por meio de feedback inibem a produção desses compostos hipofisários. Tal condição é comum em mulheres com cariótipo anormal, sendo a maior parte delas portadoras da Síndrome de Turner (45, X). Outros distúrbios associados à amenorreia primária são anormalidades estruturais dos cromossomos X, mosaicismo, disgenesia gonadal pura (46,XX e 46,XY com ovários em fita decorrentes da ausência de desenvolvimento das gônadas), deficiências enzimáticas que impedem a produção normal de estrogênio e mutações inativadoras do receptor de gonadotrofina. A maioria das pacientes com esses distúrbios tem amenorreia primária e não apresenta caracteres sexuais secundários. Por vezes, pacientes com deleção parcial do cromossomo X, mosaicismo ou disgenesia gonadal pura podem sintetizar quantidade suficiente de estrogênio no início da puberdade para induzir o desenvolvimento das mamas e alguns episódios de sangramento uterino, tendo, portanto, amenorreia secundária. É possível haver ovulação e, às vezes, gravidez. A lesão grave dos ovários antes do início da puberdade pode causar insuficiência ovariana e ausência de caracteres sexuais secundários. É possível que essa disfunção esteja relacionada a irradiação dos ovários, quimioterapia com alquilantes ou combinações de radioterapia e outrosJúlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR quimioterápicos. É válido salientar, no entanto, que outras causas para essa insuficiência ovariana primária podem causar ausência de menstruação mesmo após o surgimento dos caracteres sexuais secundários. HIPOGONADISMO HIPOGONADOTRÓFICO SEM CARACTERES SEXUAIS SECUNDÁRIOS: A amenorreia primária causada por hipogonadismo hipogonadotrófico se dá quando o hipotálamo não secreta quantidades adequadas de GnRH ou em caso de distúrbio hipofisário associado à produção inadequada de FSH e LH. O atraso fisiológico ou constitucional da puberdade é a manifestação mais comum de hipogonadismo hipogonadotrófico. A amenorreia pode ser resultante da ausência de desenvolvimento físico causada pela reativação tardia do gerador de pulsos de GnRH. Há deficiência funcional desse hormônio em relação à idade cronológica, mas os níveis são normais em termos de desenvolvimento fisiológico. A segunda causa hipotalâmica mais comum para a amenorreia primária associada ao hipogonadismo hipogonadotrófico é a insuficiente secreção pulsátil de GnRH (conhecida também como síndrome de Kallmann), que apresenta vários mecanismos de propagação genética. A deficiência na secreção do GnRH resulta, graças ao feedback hormonal, menor produção de FSH e LH. Muitas vezes, a síndrome de Kallmann está associada à anosmia, embora a mulher possa não estar ciente do comprometimento do olfato. O hipogonadismo e a anosmia são consequência de falha da migração neuronal durante o desenvolvimento fetal. Fatores genéticos também se fazem presentes como possíveis causadores dessa forma de amenorreia. As pacientes com deficiência de FSH costumam buscar tratamento para puberdade tardia e amenorreia primária associada ao baixo volume de estrogênio circulante. Elas são distinguidas de outras pacientes hipoestrogênicas por apresentarem níveis diminuídos de FSH e taxas elevadas de LH. Essas pacientes têm baixos níveis séricos de androgênios, apesar da razão LH/FSH anormal, indicando que o desenvolvimento folicular estimulado por FSH é um pré- requisito para a produção de androgênios pelas células tecais. Em algumas dessas mulheres foram identificadas alterações cromossômicas que afetaram a expressão de uma subunidade hormonal que, quando ausente impede o seu acoplamento ao receptor. AVALIAÇÃO DE QUADROS DE AMENORREIA ASOCIADA A AUSÊNCIA DE CARACTERES SEXUAIS SECUNDÁRIOS: Para o diagnóstico e tratamento adequado da amenorreia primária associada ao hipogonadismo, a anamnese e o exame físico detalhados são imprescindíveis, principalmente em pacientes com síndrome de Turner. História de baixa estatura com velocidade de crescimento regular, história familiar de puberdade tardia e achados físicos normais (incluindo avaliação do olfato, discos ópticos e campos visuais) podem sugerir atraso fisiológico. A presença de cefaleias, distúrbios visuais, baixa estatura, sintomas de diabetes insipidus e fraqueza de um ou mais membros sugerem lesões do SNC. Em suma, o processo de formulação de hipóteses diagnósticas consiste em: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Solicitar a dosagem de FSH e LH de acordo com a história clínica, permitindo assim diferenciar o hipogonadismo como de origem hipo ou hipergonadotrófica. Caso os níveis de FSH sejam elevados, será preciso fazer o cariótipo; o Pacientes que forem diagnosticadas com síndrome de Turner (FSH elevado + cariótipo 45, X) devem ser acompanhadas com provas anuais de função tireoidiana e ecocardiograma a cada 3 a 5 anos. Se o cariótipo for anormal e contiver o cromossomo Y, como na disgenesia gonadal, as gônadas devem ser removidas para que se evitem tumores; O baixo nível de FSH no exame de rastreamento confirma o diagnóstico de hipogonadismo hipogonadotrófico. As lesões do SNC devem ser excluídas por tomografia computadorizada ou ressonância magnética (identificam calcificações típicas de craniofaringiomas), sobretudo se houver galactorreia, cefaleia ou problemas do campo visual; O diagnóstico de atraso fisiológico deve ser feito por exclusão, havendo dificuldade em distingui-lo da secreção insuficiente de GnRH. O respaldo diagnóstico se dá por meio de uma história clínica sugestiva associada a radiografia do punho que ateste retardo na idade óssea da paciente. TRATAMENTO DA AMENORREIA PRIMÁRIA: Pacientes com amenorreia primária associada a todos os tipos de insuficiência gonadal e hipogonadismo hipergonadotrófico devem fazer uso de um tratamento cíclico com estrogênio e um progestágeno para deflagrar o amadurecimento e a manutenção dos caracteres sexuais secundários. A prevenção da osteoporose é outro benefício dessa terapia, uma vez que o hormônio incrementa a deposição de cálcio nos ossos. Sempre que possível, o tratamento deve corrigir a causa da amenorreia primária, seja por meio de radioterapia (craniofaringiomas), antagonistas da dopamina, de correções nutricionais ou até mesmo da tranquilização da paciente (em caso de atraso fisiológico). AMENORREIA CAUSADA POR ANORMALIDADES PÉLVICAS: A amenorreia secundária também pode afetar mulheres que já passaram pela menarca e apresentam caracteres sexuais desenvolvidos. Uma das possíveis causas desse distúrbio são anormalidades nas estruturas reprodutivas, como bloqueio no trato de saída, agenesia deste ou não existência de um útero funcional. Para a ocorrência de menstruação, o endométrio deve ser ativo, com suas mudanças cíclicas, e o colo do útero e a vagina devem ter patência. Todo bloqueio transversal do sistema mülleriano causa amenorreia. Essas Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR obstruções da saída incluem hímen imperfurado e septo vaginal transverso, bem como hipoplasia e ausência de colo do útero ou vagina. Com frequência, o bloqueio transversal do trato de saída com endométrio intacto causa dor cíclica sem sangramento menstrual em adolescentes. Quando o fluxo sanguíneo torna-se obstruído, há risco de se desenvolverem diversas complicações, como hemoperitônio e endometriose. A ausência de atividade endometrial também pode causar amenorreia. Quando os achados ao exame físico são normais, devem-se cogitar anormalidades anatômicas da cavidade uterina, podendo ser causas para amenorreia primária (ex.: agenesia do endométrio). A síndrome de Asherman, mais comum em quadros secundários da disfunção menstrual, pode ocorrer em pacientes com fatores de risco para sinéquias endometriais ou cervicais (colo do útero), incluindo história de cirurgia uterina ou cervical, infecções relacionadas com o uso de um dispositivo intrauterino e doença inflamatória pélvica (DIP) grave. Indivíduos com fenótipo feminino com insensibilidade androgênica congênita completa (conhecida anteriormente como feminização testicular) desenvolvem caracteres sexuais secundários femininos, mas não menstruam. Seu genótipo é masculino (XY), mas há um defeito que impede a função normal do receptor androgênico, ocorrendo o desenvolvimento do fenótipo feminino. Os níveis séricos de testosterona estão na faixa masculina normal. É possível que não haja vagina ou que ela seja curta. Os déficits de receptor androgênico são diversos e podem ser decorrentes da diminuição da função ou da concentração dessa estrutura. É possível que a diversidade de mutações esteja relacionada com a diversidade do fenótipo. Como o hormônio anti-mülleriano está presente e tem atividade normal nesses pacientes, não há estruturas femininas internas como útero, vagina e tubas uterinas. Do contrário, há testículos, em vez de ovários, no abdome ou em hérniasinguinais em virtude dos genes com atividade normal no cromossomo Y. As pacientes têm fundo de saco vaginal cego e pelos axilares e pubianos escassos ou ausentes. Essas pacientes têm bom desenvolvimento mamário na puberdade, entretanto, as papilas são imaturas, e as aréolas, pálidas. O hermafroditismo verdadeiro é um distúrbio raro, que deve ser considerado dentre os possíveis causadores de amenorreia. Esses pacientes têm tecido gonadal masculino e feminino, sendo encontrados genótipos XX, XY e mosaico. Dois terços menstruam, mas nunca houve relato de menstruação em genótipos XY. Em geral, os órgãos genitais externos são ambíguos, e o desenvolvimento mamário é frequente. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR AVALIAÇÃO DA AMENORREIA COM SUSPEITA DE ANOMALIAS ANATÔMICAS: A maior parte das anormalidades anatômicas congênitas podem ser diagnosticadas por meio do exame físico, como a distensão da membrana himenal durante manobra de Valsalva. Outras condições, por sua vez, dependem de exames e testes, como é o caso da detecção da Síndrome de Asherman, que emprega a histerossalpingografia, histerossonografia ou a histeroscopia na tentativa de observar obstruções por sinéquias. A ausência de endométrio, ainda que rara, pode ser verificada pelo teste provocativo da progesterona, no qual são administradas doses elevadas de estradiol e progestagênios por um período de 25 dias, sendo confirmada quando não há sangramentos em pacientes com amenorreia primária sem alterações anatômicas. TRATAMENTO DA AMENORREIA COM SUSPEITA DE ANOMALIAS ANATÔMICAS: O manejo das anomalias congênitas é feito de forma específica para cada acometimento, a saber: O tratamento do hímen imperfurado consiste numa incisão em cruz para formar o óstio da vagina; A remoção dos septos vaginais transversos é cirúrgica, sendo necessário cuidado no pós-operatório para evitar a formação de aderências e manter a viabilidade reprodutiva; Em quadros de ausência de colo com útero normal, por vezes é mais simples fazer uma histerectomia, principalmente pela possibilidade de desenvolver endometriose. Os óvulos podem ser coletados e congelados para posterior fertilização in vitro; Se a vagina estiver ausente ou for curta, a dilatação progressiva costuma ser capaz de torná-la funcional; Em pacientes com insensibilidade androgênica completa, os testículos devem ser removidos após a conclusão do desenvolvimento puberal para que se evite degeneração maligna; As sinéquias da síndrome de Asherman podem ser ressecadas por meio de eletrocautério. AMENORREIA SECUNDÁRIA: A lista possível de causas para essa disfunção é extensa, porém destacam-se a gravidez, síndrome do ovário policístico (SOP), hiperprolactinemia, insuficiência ovariana primária (IOP) e disfunção hipotalâmica. É necessário sempre ter a gravidez como diagnóstico diferencial em mulheres com amenorreia que tenham vida sexual ativa. SÍNDROME DO OVÁRIO POLICÍSTICO: A SOP se trata de um distúrbio associado a hiperandrogenismo, disfunção ovulatória, e ovários policísticos com diversas etiologias, ainda não totalmente esclarecidas, sendo considerada um dos principais fatores que levam à amenorreia. Dois dos três critérios de diagnóstico de SOP de Rotterdam já são suficientes para se diagnosticar a patologia: anomalias do ciclo menstrual (amenorreia ou oligomenorreia), Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR hiperandrogenismo clínico ou bioquímico e a observação de ovários policísticos por ultrassonografia após a exclusão de todos os outros diagnósticos. Outras doenças capazes de causar um fenótipo semelhante à SOP são a neoplasia suprarrenal ou ovariana, a síndrome de Cushing, distúrbios hipo ou hipergonadotrófico, hiperprolactinemia e doenças da tireoide. Todas as outras manifestações frequentes são menos constantes e, portanto, enquadram-se somente como critérios menores de diagnóstico de SOP. Elas incluem elevação da relação LH-FSH, resistência à insulina, surgimento de hirsutismo no período perimenarca e obesidade. O hiperandrogenismo clínico abrange hirsutismo, alopecia de padrão masculino e acne. A disfunção menstrual que ocorre na SOP decorre da anovulação ou oligovulação, variando da amenorreia à oligomenorreia. O distúrbio clássico é permanente, caracterizado por anormalidades menstruais desde a puberdade. O tratamento dessa síndrome depende dos objetivos da paciente, porem inicialmente é sempre orientada a perda de peso, reduzindo assim o risco de desenvolvimento futuro de síndrome metabólica. Algumas necessitam de contracepção hormonal, enquanto outras desejam indução da ovulação. Em todos os casos de disfunção ovulatória importante, é necessário interromper, pela ação progestacional, os efeitos estrogênicos sem oposição no endométrio. Isso pode ser obtido pela função lútea periódica resultante da indução da ovulação, pela contraposição progestacional dos contraceptivos ou pela administração intermitente de progestágenos para “controle” do endométrio ou da menstruação. HIPERPROLACTINEMIA: A hiperprolactinemia é uma causa comum de anovulação em mulheres. A elevação da prolactina leva à secreção anormal de GnRH, que, por sua vez, pode acarretar em distúrbios menstruais. As elevações da prolactina podem causar amenorreia, galactorreia, ambas ou nenhuma delas. A amenorreia sem galactorreia está associada à hiperprolactinemia em cerca de 15% das mulheres. A interrupção dos processos ovulatórios normais decorrente de níveis elevados de prolactina é causada, sobretudo, pelos efeitos inibidores da prolactina, via mediação hipotalâmica, sobre a liberação pulsátil de GnRH. Além de induzir o estado hipogonadotrófico, as elevações da prolactina podem causar comprometimento secundário dos mecanismos de ovulação, de forma análoga àquela encontrada fisiologicamente na lactação. Os níveis de prolactina podem ser elevados por adenomas hipofisários produtores de prolactina, por outras lesões do SNC que perturbam o transporte normal de dopamina ao longo do pedículo hipofisário e por medicamentos que interferem na secreção normal de dopamina (como antidepressivos, antipsicóticos, alguns anti-hipertensivos, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR opiáceos e bloqueadores dos receptores de H2). INSUFICIÊNCIA OVARIANA PRIMÁRIA: A IOP é caracterizada quando há amenorreia por 4 meses ou mais em uma mulher com menos de 40 anos, acompanhada por dois níveis séricos de FSH na faixa correspondente à menopausa. O termo “insuficiência” ovariana é considerado mais apropriado que “falência”, tanto porque a função ovariana pode variar, como também porque a sua atividade pode ser retomada mesmo após a mulher estar aparentemente na menopausa. A IOP pode ser causada por diminuição da população folicular ou aceleração da atresia destes. Mais de 75% das mulheres com esse quadro apresentam sintomas constantes, entre eles calor intenso, sudorese noturna e labilidade emocional. Se o ovário não se desenvolver ou interromper sua produção de hormônios antes da puberdade, a paciente não desenvolve caracteres sexuais secundários sem terapia hormonal exógena. Caso a insuficiência ovariana se inicie mais tarde, a mulher tem caracteres sexuais secundários normais. A IOP é um distúrbio heterogêneo com muitas causas possíveis, entre elas distúrbios dos cromossomos sexuais, mutações e pré-mutações de genes isolados. Também pode ser causada por radio ou quimioterapia, bem como por mecanismos autoimunes. Na maioria das vezes, porém, a causa é desconhecida. LESÕES HIPOFISÁRIAS OU HIPOTALÂMICAS:Para haver menstruação normal, o hipotálamo deve secretar GnRH, e a hipófise precisa responder adequadamente por meio da produção e liberação de FSH e LH. Os tumores do hipotálamo ou da hipófise, como craniofaringiomas (mais comuns, localizados na região suprasselar), podem impedir que essa regulação se dê adequadamente. Pacientes com esses distúrbios são capazes de apresentar anormalidades neurológicas e secreção anormal de outros hormônios hipotalâmicos e hipofisários. As pacientes com tais tumorações apresentam cefaleias e alterações no campo visual. O hipopituitarismo é raro, pois é preciso que grande parte da glândula seja degradada para a diminuição da secreção hormonal causar problemas clínicos. A hipófise pode ser destruída por tumores (inativos ou secretores de hormônio), infartos ou lesões infiltrativas, lesões granulomatosas e ablações cirúrgicas ou radiológicas. A síndrome de Sheehan está associada à necrose pós-parto da hipófise decorrente de um episódio hipotensivo que, quando grave, causa choque. A paciente pode apresentar cefaleia retro-orbital intensa e localizada, bem como anormalidades dos campos visuais e da acuidade visual. Pacientes com um tipo leve de necrose hipofisária pós-parto não conseguem amamentar e apresentam perda dos pelos pubianos e axilares, além de não menstruarem após o parto. DISTÚRBIOS NA SECREÇÃO DE GNRH: Um terço dos casos de amenorreia são causados pela secreção insuficiente de GnRH, quadro que, por sua vez, pode ser resultante de um grande conjunto de possibilidades, como desnutrição, transtornos psiquiátricos, estresse e exercício físico. Outras condições que promovem a secreção excessiva de outros hormônios hipofisários, como a doença de Cushing e a acromegalia, também podem contribuir para o desequilíbrio do hormônio liberador de gonadotrofina. É raro haver amenorreia hipotalâmica funcional sem causa secundária. Quando a diminuição da pulsatilidade do GnRH é intensa, ocorre amenorreia, ao Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR passo que em quadros menos agravados pode haver anovulação e oligomenorreia. A secreção de GnRH em intervalos é modulada por interações com neurotransmissores e esteroides gonadais periféricos. Opioides endógenos, hormônios liberadores de corticotrofina (CRH), melatonina e ácido α-aminobutírico (GABA) inibem a liberação de GnRH, enquanto as catecolaminas, a acetilcolina e o peptídeo intestinal vasoativo (VIP) estimulam pulsos de GnRH. Reduções nos níveis séricos de leptina também podem induzir a ocorrência de amenorreia hipotalâmica. TRANSTORNOS ALIMENTARES: A anorexia nervosa é um transtorno alimentar que afeta 5 a 10% das adolescentes nos EUA. Seus critérios diagnósticos são a recusa em manter o peso corporal acima de 15% abaixo do normal, medo exagerado de engordar, percepção alterada da própria imagem e amenorreia. As pacientes tentam manter o baixo peso corporal por meio de restrição alimentar intensa, uso abusivo de laxantes e prática de exercícios vigorosos. Esse distúrbio coloca em risco a vida, com uma taxa de mortalidade de até 9%. A amenorreia pode surgir em qualquer fase do distúrbio. Há alteração de vários padrões hormonais: padrões de FSH e LH em 24 horas podem mostrar níveis constantemente baixos, conforme observado na segunda infância, ou aumento da pulsatilidade do LH durante o sono compatível com o padrão observado no início da puberdade. Há hipercortisolismo, apesar de níveis normais de ACTH, que apresenta resposta reduzida ao CRH. A triiodotironina (T3) circulante é baixa, porém as concentrações de T3 reverso inativo circulantes são altas. As pacientes podem desenvolver intolerância ao frio e ao calor, lanugem, hipotensão, bradicardia e diabetes insipidus. A pele pode estar amarelada por causa da elevação dos níveis séricos de caroteno decorrente da alteração do metabolismo da vitamina A. Mesmo que a perda de peso seja de 10% em um ano (menos extrema que na anorexia), ela ainda pode induzir a ocorrência de amenorreia, porém o prognóstico é positivo, desde que a jovem retorne a seu peso de origem. ATIVIDADE FÍSICA: Em pacientes com amenorreia induzida por exercício, há diminuição da frequência dos pulsos de GnRH, identificada por meio da menor frequência de liberação de LH. Em geral, essas pacientes são hipoestrogênicas, mas alterações menos acentuadas podem causar disfunção menstrual mínima (anovulação ou defeito da fase lútea). A diminuição da pulsatilidade do GnRH pode ser causada por alterações hormonais, como baixos níveis de leptina ou altos níveis de grelina, neuropeptídio Y e hormônio liberador de corticotrofina. Sugeria-se a necessidade de se ter, no mínimo, 17% de gordura corporal para o início da menstruação e 22% de gordura corporal para sua manutenção, no entanto, estudos sugerem que a ingesta calórica muito reduzida é mais importante que o conteúdo de gordura corporal. Treinamentos de grande intensidade, a desnutrição, o estresse da competição e os transtornos alimentares associados aumentam o risco de disfunção menstrual em atletas. A osteoporose pode acarretar fraturas de estresse durante o treinamento e aumento vitalício do risco de fratura. As fraturas por estresse são mais comuns nos ossos corticais com sustentação de peso, como a tíbia, o metatarso, a fíbula e o fêmur. Essas atletas não alcançam a massa óssea máxima e têm mineralização óssea anormal. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR ESTRESSE: A amenorreia por estresse segue padrões semelhantes àqueles observados na interrupção do fluxo menstrual em decorrência de transtornos alimentares e exercícios intensos, podendo também ser desencadeada pelo excesso de opioides endógenos e de CRH, que inibe a secreção adequada do GnRH. OBESIDADE: A maioria das pacientes obesas tem ciclos menstruais normais, embora apresentem maior risco de desenvolverem disfunções nesse mecanismo. Na maioria das vezes, o distúrbio menstrual é o sangramento uterino irregular com anovulação, e não a amenorreia. As mulheres obesas têm número excessivo de adipócitos, nos quais ocorre aromatização extraglandular de androgênio em estrogênio. Elas têm menores níveis circulantes de globulina de ligação dos hormônios sexuais, o que possibilita a conversão de uma maior proporção de androgênios livres em estrona. Por apresentarem maior concentração sérica de estrogênio, pacientes obesas encontram- se em maior risco para a ocorrência de câncer endometrial. A diminuição da globulina de ligação dos hormônios sexuais possibilita um aumento dos níveis de androgênio livre, eliminados inicialmente pelo aumento da taxa de depuração metabólica. Esse mecanismo compensatório diminui com o tempo e pode haver hirsutismo (crescimento de pelos no rosto, típico de quadros de hiperandrogenismo). Muitas vezes, tais pacientes são classificadas como portadoras de SOP. HIPERANDROGINISMO: Na maioria das vezes, a manifestação inicial do hiperandrogenismo é o hirsutismo, que decorrente do excesso de androgênios relacionado com anormalidades da função ovariana ou suprarrenal, do aumento da expressão de efeitos androgênicos na unidade pilossebácea ou de uma combinação de ambos. A virilização, por sua vez, é rara e indica elevação acentuada dos níveis de androgênios. Uma causa comum de virilização é a neoplasia ovariana ou suprarrenal, que pode ser benigna ou maligna. O hirsutismo, a manifestação mais frequente de excesso de androgênio em mulheres, é definido como o excesso de pelos terminais em uma distribuição tipicamente masculina. Trata-se, sobretudo, de pelos na linha média, nas costeletas, no bigode, na barba, no tóraxou na linha intermamária, na face interna da coxa e na região média lombar até a área interglútea. A resposta da unidade pilossebácea aos androgênios nessas regiões sensíveis transforma os pelos velosos (finos, curtos e não pigmentados), normalmente presentes, em pelos terminais (espessos, rígidos, pigmentados e longos). A virilização é uma transformação masculina acentuada e global que abrange aspereza da voz, aumento da massa muscular, clitoromegalia e características de desfeminização (perda do volume mamário e da gordura corporal, responsáveis pelo contorno feminino do corpo). Embora o hirsutismo esteja associado à virilização, a ocorrência desta evidencia alta probabilidade de distúrbios mais graves do que o habitual quando há apenas hirsutismo, além de indicar a necessidade de avaliação para que se descartem neoplasias ovarianas Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR ou suprarrenais. Esses diagnósticos, embora raros, tornam-se prováveis quando o início dos efeitos androgênicos é rápido ou intenso o suficiente para que se produza o quadro de virilização. Os androgênios e seus precursores são produzidos tanto pelas glândulas suprarrenais quanto pelos ovários em resposta a seus respectivos hormônios estimulantes, hormônio adrenocorticotrófico (ACTH) e hormônio luteinizante (LH). A secreção de cetosteroides suprarrenais intensifica-se no período pré-puberal, havendo ou não a maturação do eixo HHO. Essa alteração na secreção de esteroides suprarrenais é denominada adrenarca, a qual é caracterizada por alteração drástica da resposta do córtex suprarrenal ao ACTH e por secreção preferencial de esteroides, incluindo 17- hidroxipronenolona, DHEA e sulfato de desidroepiandrosterona (DHEAS). Independentemente de a secreção ovariana de androgênios que acompanha a puberdade se intensificar, a elevação na taxa de androgênios suprarrenais na adrenarca pode aumentar consideravelmente a quantidade de pelos pubianos e axilares, bem como a produção de suor pelas unidades pilossebáceas axilares. Em estados hiperandrogênicos, uma maior produção de testosterona não se reflete em aumento proporcional dos níveis totais desse hormônio em virtude da queda dos níveis de SHBG concomitante ao aumento dos efeitos androgênicos no fígado. Portanto, quando há hiperandrogenismo moderado, característico de muitos estados funcionais, as elevações dos níveis totais de testosterona podem permanecer na faixa normal, e apenas os níveis livres de testosterona evidenciam o quadro. O hiperandrogenismo grave, presente na virilização e decorrente da produção neoplásica de testosterona, é detectado de modo confiável por dosagem da testosterona total. Pacientes com hirsutismo acentuado, virilização ou sinais recentes e rapidamente progressivos de excesso de androgênio necessitam de avaliação cuidadosa para pesquisa de neoplasia secretora de androgênios. As duas origens mais comuns de tumores secretores de androgênios são as glândulas suprarrenais e os ovários. A avaliação dos sintomas requer a dosagem de androgênios e seus metabólitos no soro e na urina, além de modernas técnicas de diagnóstico por imagem abdominal. DISTURBIOS DA TIREOIDE: A amenorreia por vezes representa a primeira manifestação clínica de quadros de hipotireoidismo, estando associada a outros sintomas como fadiga crônica, constipação intestinal, sonolência, lentidão e retenção de líquidos, o que permite que o próprio ginecologista faça a avaliação inicial do quadro. O mecanismo que associa esse distúrbio endócrino a alterações menstruais deve-se à sensibilização das células hipofisárias produtoras de prolactina de forma secundária ao aumento da concentração de hormônio liberador da tireotrofina (TRH). Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A dosagem do TRH deve ser indicada em quadros de amenorreia mesmo que seja improvável fazer o diagnóstico de uma portadora de hipotireoidismo não identificado, pois esse é um exame de fácil execução que pode rastrear um quadro facilmente tratável, melhorando a qualidade de vida da paciente e suas chances de sucesso reprodutivo (hipotireoidismo está associado a quadros de abortamentos de repetição). AVALIAÇÃO DA AMENORREIA SECUNDÁRIA: Deve-se fazer o teste de gravidez em mulheres em idade reprodutiva com amenorreia, caracteres sexuais secundários normais e exame pélvico normal. Se os resultados desse exame forem negativos, a avaliação desse sintoma deve englobar os seguintes aspectos: Avaliação clínica do estado estrogênico (coleta de secreções vaginais, é associada à avaliação da espessura do endométrio para determinar hipogonadismo); TSH sérico; Prolactina sérica; Dosagem de FSH: nível circulante de FSH acima de 25 a 40 mUI/ml em pelo menos duas amostras de sangue indica amenorreia hipergonadotrófica; Ultrassom intravaginal (pode sugerir IOP ou auxiliar no diagnóstico de SOP, caso mais de 12 cistos forem achados); Exames de imagem da hipófise e avaliação hipotalâmica em caso de elevação da prolactina. DISMENORREIA: O termo “dismenorreia” é usado para denominar as cólicas menstruais dolorosas, ocorrendo durante ou algumas horas antes do início do fluxo, com sinais e sintomas representados por náuseas, vômitos, diarreia, fadiga, dor lombar, nervosismo, tonturas e cefaleia. Caracteriza-se por dores abdominais relacionadas ao ciclo menstrual, que surgem principalmente em jovens, também designada algomenorreia, menalgia ou odinomenorreia. Sua incidência não é bem estabelecida, já que a dor é de nterpretação subjetiva, sendo em geral referida espontaneamente pela paciente. É estimado que 52% das adolescentes são Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR afetadas e cerca de 10% delas ficam incapacitadas para o trabalho por 1 a 3 dias todo mês. Classifica-se dismenorreia em primária, essencial, intrínseca, funcional ou idiopática, e em secundária, sintomática, extrínseca, adquirida ou orgânica. A primária ocorre em pacientes com ausência de lesões orgânicas, com etiologia ainda não definida. Destacam-se a miometrial, a psicogênica, a endócrina e a influência exercida pelas prostaglandinas e leucotrienos. A maior liberação de prostaglandinas no fluxo menstrual causa contração uterina e dor. Ela ocorre nos ciclos ovulatórios e começa 6 a 12 meses após a menarca, com 88% delas ocorrendo nos primeiros 2 anos após o primeiro ciclo. O estado civil “casada” e a paridade atuam como um fator protetor, sendo o casamento muito mais frequente entre as mulheres sem dismenorreia. Já o número de mulheres nulíparas chegou a ser de 84% entre as que haviam sido diagnosticadas com dismenorreia primária. A dismenorreia secundária origina-se de um processo orgânico que determina congestão pélvica ou espasmo do útero. Dentre as causas congestivas, destacam-se as inflamações subagudas e crônicas, como as anexites, parametrites e pelviperitonites, e os tumores pélvicos que tornam difícil a circulação sanguínea. Dentre as enfermidades orgânicas, citam-se a endometriose pélvica, leiomioma do útero, distopias uterinas, malformação genital, estenose do canal do colo do útero e outras afecções. A presença de DIU não medicamentoso para contracepção também pode ser um potencial causador da dor menstrual. As prostaglandinas também estão presentes na dismenorreia secundária, porém o fator desencadeante é anatômico, e a dor provocada pela liberação das prostaglandinas está relacionada a outros sintomas patológicos de base.O processo inflamatório da doença e o fator psicológico potencializam os sintomas, tornando a dor mais duradoura eintensa, diminuindo a eficácia dos inibidores das prostaglandinas. Na anamnese, deve-se atentar para a idade da paciente. Adolescentes têm um quadro mais doloroso do que o da mulher adulta. Deve-se dar destaque ao início da sintomatologia e da duração. O exame físico é importante para diferenciar uma dismenorreia primária de uma manifestação secundária. O toque vaginal só deve ser realizado se a paciente já mantém atividade sexual, e o retal somente em necessidades. Na dismenorreia secundária, o exame físico pode diagnosticar diversas patologias que causam útero aumentado. A forma assimétrica geralmente caracteriza miomas ou tumores, enquanto útero móvel direciona o raciocínio para aderências e processos inflamatórios. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR FLUXOGRAMA DE ATENDIMENTO PARA ATRASO MENSTRUAL EM ADOLESCENTES: Ao atender uma adolescente na Unidade de Saúde, sempre é necessário proporcionar um acolhimento adequado, com escuta qualificada, favorecendo a aproximação ente paciente e equipe de saúde. O primeiro passo na avaliação de uma jovem com queixa de amenorreia é avaliar se ela já passou pela menarca, encaminhando-a para um ginecologista em caso de suspeita de amenorreia primária (se a paciente for maior de 15 anos, independentemente da presença de caracteres sexuais, ou com idade superior a 13 anos sem indícios de telarca ou pubarca). Caso a resposta seja positiva, indaga-se sobre a possibilidade de gestação, com a realização de um teste rápido. Descartada a hipótese de gravidez, a investigaçaõ prossegue, com novas perguntas e passos no exame físico direcionando para detectar causas específicas, podendo ser solicitado o acompanhamento por três meses para verificar a ocorrência de novos ciclos ovulatórios. Se mesmo após um trimestre de retorno ao serviço de saúde não houver um episódio de menstruação, o quadro pode ser classificado como amenorreia secundária. Nessas situações, o médico solicita exames laboratoriais para detectar possíveis etiologias, como hipotireoidismo SOP, lesões hipotalâmico-hipofisárias ou hiperprolactinemia. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Sendo identificadas as causas, a propedêutica deve envolver não somente a resolução da amenorreia como também da disfunção inicial, com a reposição de hormônios tireoidianos, encaminhamento cirúrgico ou mudanças no estilo de vida. PROBLEMA 1 – INTERMEDIÁRIA: ISTS E CONDIÇÕES QUE ALTERAM O CORRIMENTO VAGINAL: SECREÇÃO VAGINAL FISIOLÓGICA: A secreção vaginal é composta por produtos das glândulas sebáceas e sudoríparas da vulva, transudato da parede vaginal, células esfoliadas da mucosa da vagina e do cérvix, muco cervical, secreções das glândulas de Bartholin e de Skene, e líquidos endometriais e tubários, além de microrganismos e seus metabólitos. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Há uma grande correlação entre os níveis hormonais e a conformação do corrimento vaginal, que pode se intensificar no meio do ciclo menstrual devido à maior quantidade de muco produzido pelo útero. Essas mudanças não são observadas em mulheres que utilizam contraceptivos orais que impedem a ovulação. O tecido vaginal descamado é formado por células sensíveis a estrogênio e progesterona em quantidades variáveis. As células superficiais, principal tipo celular encontrado nas mulheres em idade fértil, predominam quando há estimulação estrogênica, as células intermediárias são mais observadas durante a fase lútea, devido à estimulação progestogênica, enquanto as células parabasais predominam na ausência de um desses hormônios, o que pode ocorrer em mulheres na pós-menopausa que não façam reposição hormonal. Os microrganismos que compõem a flora vaginal são majoritariamente aeróbios, tendo como principais representantes os lactobacilos produtores de peróxido de hidrogênio. Alterações no pH e na disponibilidade de glicose afetam de forma importante a composição desse sistema. A produção de ácido lático por meio da conversão do glicogênio é responsável por manter a vagina com pH inferior a 4,5. Em condições normais, essa secreção apresenta consistência flocular e cor esbranquiçada, geralmente na porção inferior da vagina (fórnx posterior). O material pode ser coletado e analisado a fresco no microscópio, sendo observadas várias células superficiais do epitélio, poucos leucócitos e poucas ou nenhuma célula-alvo (clue cell), estruturas do epitélio superficial da vagina que se juntam a bactérias (normalmente Gardnerella vaginalis), cobrindo a borda celular ao exame. A coloração de Gram aponta células normais e bacilos predominantemente Gram-positivos (lactobacilos), ao passo que a adição de hidróxido de potássio fornece resultados negativos para presença de fungos em mulheres saudáveis (o resultado positivo gera odor desagradável, o que justifica o nome do exame como WHiff-Test). ALTERAÇÕES DO CORRIMENTO VAGINAL: O corrimento vaginal representa uma queixa frequente nos consultórios ginecológicos, principalmente dentre mulheres em idade fértil, sendo o principal sintoma relatado por pacientes com casos de IST. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Esse sintoma pode apresentar causas não infecciosas, como excesso de muco fisiológico, vaginite inflamatória descamativa, vaginite atrófica (ocorre após a menopausa) ou a presença de um corpo estranho. O corrimento também pode ser decorrente de infecções do trato reprodutivo (ITRs), que se dividem em: Infecções endógenas (causadas por desequilíbrio na microbiota vaginal): candidíase vulvovaginal e vaginose bacteriana; Infecções iatrogênicas (pós-aborto e pós- parto); Infecções sexualmente transmissíveis (ISTs): tricomoníase, infecções por C. trachomatis e N. gonorrhoeae. As mulheres com queixa de corrimento vaginal devem ser bem orientadas acerca das diferenças entre as ITR, uma vez que o diagnóstico de ISTs apresenta implicações que não são observadas em quadros de origem endógena ou iatrogênica, como a necessidade de orientação e tratamento de parcerias sexuais. É importante também avaliar a percepção da mulher quanto à existência de corrimento vaginal fisiológico, elucidando as diferenças entre esse e aquele presente em quadros patológicos. INFECÇÕES QUE ALTERAM A SECREÇÃO VAGINAL: VAGINOSE BACTERIANA: A vaginose bacteriana (VB) é a desordem mais frequente do trato genital inferior entre mulheres em idade fértil e representa a causa mais prevalente de corrimento vaginal com odor fétido. Esse quadro está relacionado à alteração da flora vaginal típica, com perda de lactobacilos e crescimento de vários organismos Gram- negativos anaeróbicos, com predomínio de Gardnerella vaginalis, seguida de Atopobium vaginae, Mobiluncus spp., Mobiluncus curtesii, Mobinculus mulieris, Bacteroides spp., Prevotella spp., Mycoplasma hominis, Ureaplasma urealyticum e Streptococcus agalactie. O fator desencadeante desse desequilíbrio ainda não é totalmente conhecido, porém especula-se que a alcalinização constante da vagina, resultante de coitos frequentes ou do uso de duchas tenha um papel relevante nesse processo. O reestabelecimento da biota vaginal fisiológica é difícil, fazendo com que sejam comuns casos de recorrência da VB. A secreção vaginal de uma mulher que apresenta essa disfunção apresenta-se acinzentada, pouco espessa e abundante, com mau odor característico (“cheiro de peixe”), que se torna mais intenso com a alcalinização do muco. Não são comuns prurido, eritema, irritação e edema locais. A vaginose bacteriana aumentao risco para o desenvolvimento de ISTs (incluindo o HIV), e pode acarretar em problemas durante a gravidez ou após cirurgias ginecológicas, estando associada a ruptura prematura de membranas, corioamnionite, prematuridade e endometrite pós-cesárea. Eleva-se também a possibilidade de surgimento da Moléstia Inflamatória Pélvica quando está presente durante procedimentos invasivos, como a curetagem uterina e a inserção do DIU. CONDUTA EM CASOS DE VAGINOSE BACTERIANA: O diagnóstico de vaginose bacteriana é feito por meio da observação de ao menos três critérios de Amsel: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Corrimento vaginal homogêneo; o No exame físico, é possível observar que o corrimento acinzentado recobre as paredes da vagina. pH vaginal > 4,5 (geralmente oscila entre 4,7 e 5,7); Clue cells evidentes no exame microscópico a fresco; Teste de Whiff positivo (conhecido também como teste das aminas, a adição de hidróxido de potássio à amostra causa mau odor). Em caso de impossibilidade da realização da microscopia do fluido vaginal, a coloração de Gram é empregada, representando o padrão-ouro para a detecção da doença. Será quantificado o número de bactérias e lactobacilos patogênicos, que ao ser organizado no escore de Nugent, determina se há a VB. Valores maiores que 7 confirmam o diagnóstico, entre 4 a 6 representam alterações da microbiota não relacionadas à vaginose, e entre 0 e 3 indicam um resultado negativo. Mulheres assintomáticas não devem ser submetidas ao rastreamento para VB. O tratamento deve ser aplicado à todas as mulheres sintomáticas e àquelas grávidas sem sintomas, principalmente quando há histórico de parto prematuro ou se possuem alguma comorbidades ou risco de complicações decorrentes dessa infecção. Essa terapêutica busca inibir o crescimento de microrganismos anaeróbios, permitindo que apenas os lactobacilos fisiológicos se proliferem, fazendo uso dos seguintes medicamentos: Metronidazol: é o tratamento de escolha para a vaginose bacteriana, devendo ser administrado em doses de 500 mg por via oral (VO) duas vezes por dia, ao longo de 7 dias. O uso de cremes vaginais com essa substância também pode ser recomendado; o O mecanismo de ação do metronidazol consiste na interação com o DNA bacteriano, inibindo a síntese de ácidos nucleicos, com ação citotóxica temporária. Clindamicina: é eficaz no combate à VB em esquemas de 300 mg VO, duas vezes por dia durante 7 dias. Pode também ser encontrada sob a forma de cremes. o O tratamento intravaginal é recomendado por evitar a ocorrência de efeitos colaterais sistêmicos, como gosto metálico e ulcerações estomacais leves a moderadas. O tratamento do parceiro não melhora a eficácia terapêutica, não sendo recomendado; o O mecanismo de ação da clindamicina baseia-se na sua ligação à subunidade 50S do ribossomo bacteriano, inibindo a ligação de peptídeos e a síntese proteica. Além disso, esse composto, quando aplicado de forma tópica, reduz a concentração de ácidos graxos livres na pele e suprime o crescimento do Propionibacterium acnes, anaeróbico encontrado nas glândulas sebáceas e folículos que, produzindo proteases, hialuronidases, lipases e fatores quimiotáticos, originam os componentes da inflamação. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Cerca de 15 a 30% das mulheres apresentam VB sintomática entre 30 a 90 dias após a terapia com antibióticos, percentual esse que se eleva para 70% em até 9 meses. Algumas causas podem justificar a falta de resposta terapêutica aos esquemas convencionais, como a atividade sexual desprotegida frequente, o uso de duchas vaginais, a utilização de DIU, resposta imune inadequada e resistência bacteriana aos medicamentos. CANDIDÍASE VULVOVAGINAL: A candidíase vulvovaginal (CVV) é causada pelo fungo Candida albicans em 80 a 92% dos casos, com o restante se dividindo entre espécies não albicans (glabrata, tropicalis, krusei, parapsilosis) e Saccharomyces cerevisae. Ao longo da vida reprodutiva, quase 45% das mulheres terão dois ou mais episódios infecciosos, e de 10 a 20% delas serão colonizadas pela Candida de forma assintomática, não sendo necessário tratamento. Candida é um gênero de fungos dimórficos que existem na forma de blastosporos, presentes nas fases de transmissão e colonização assintomática, e de micélios, produzidos pela germinação dos blastosporos e estimulam a colonização, além de facilitarem a invasão tecidual. As extensas áreas pruriginosas e inflamadas frequentemente associadas à invasão das células epiteliais do sistema genital inferior sugerem a participação de uma toxina ou enzima extracelular na patogenia dessa doença. Fenômenos de hipersensibilidade podem ser responsáveis pelos sintomas irritativos associados à CVV, principalmente nas pacientes com doença recorrente. Em geral, as pacientes com doença sintomática apresentam maior concentração desses microrganismos que as assintomáticas. Alguns dos fatores que predispõem as mulheres ao desenvolvimento da candidíase são a gravidez e a diabetes, situações nas quais a imunidade celular sofre diminuição qualitativa, e o uso de antibióticos, que podem alterar a composição da flora vaginal. Os sintomas apresentados num quadro clássico de candidíase são prurido, ardência, corrimento (normalmente grumoso, sem odor), dispareunia e disúria intensa. Sinais característicos encontrados no exame físico são eritema e fissuras na vulva, presença de placas brancas de secreção vaginal aderidas à mucosa, edema vulvar, e lesões/escoriações satélites, que podem formar pústulas devido à coceira. A candidíase vulvovaginal classifica-se em CVV não complicada e CVV complicada. O quadro é considerado como não complicado Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR quando estão presentes todos os critérios a seguir: sintomas leves ou moderados, frequência esporádica, etiologia por C. albicans e ausência de comorbidades. Por outro lado, considera-se complicada a manifestação de candidíase quando pelo menos um dos seguintes aspectos é encontrado: sintomas intensos, frequência recorrente (CVVR), agente etiológico não albicans e presença de comorbidades ou gestação. Um pequeno número de mulheres tem candidíase recorrente (CVVR), definida como quatro ou mais episódios em 1 ano. Essas pacientes apresentam sintomas irritativos constantes no vestíbulo da vagina e na vulva, com a queixa principal sendo representada pela queimação local. CONDUTAS EM CANDIDÍASE VULVOVAGINAL: O diagnóstico da candidíase é realizado por meio da análise dos sinais e sintomas típicos, como a presença de corrimento esbranquiçado, podendo ser aquoso ou espesso homogêneo, formando grumos semelhantes a queijo coalho. O colo uterino é normal, mas o exame da vulva pode mostrar lesões agravadas pelo prurido. Para a citologia a fresco, utiliza-se soro fisiológico e hidróxido de potássio a 10% a fim de evidenciar a presença de hifas ou esporos dos fungos. Além disso, a CVV está associada à pH normal vaginal (pH = 4,5). O teste das aminas é negativo. Caso a citologia seja negativa, mas a suspeita de candidíase seja forte, o material pode ser encaminhado para cultura em meios específicos. Se todos esses exames forem normais (citologia cultura e pH), mas a paciente apresentar aumento do eritema vulvovaginal, pode ser feito o diagnóstico presuntivo do quadro (no entanto, o tratamento só deve ser iniciado em caso de cultura positiva para leveduras). Para o diagnóstico diferencial da CVVR, é necessário considerar líquen escleroso, vulvovestibulite, dermatitevulvar, vulvodínea, vaginite citolítica, vaginite inflamatória descamativa, formas atípicas de herpes genital e reações de hipersensibilidade. O tratamento da CVV pode ser realizado das seguintes formas: Aplicação tópica de fármacos do grupo dos azóis, que aliviam os sintomas e promovem culturas negativas em 80 a 90% das mulheres que concluíram o tratamento. o O esquema terapêutico dura cerca de três dias, período no qual ocorre o desaparecimento dos sintomas. Mesmo que o período de uso seja curto, as dosagens elevadas do princípio ativo antifúngico criam concentrações inibitórias vaginais persistentes; o Esse esquema tópico pode se estender por até 10 a 14 dias em mulheres com complicações. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Dose única de fluconazol em 150 mg por via oral em casos leves a moderados. Os sintomas podem persistir por até 3 dias após o início do tratamento. o Esse medicamento é também empregado em casos de CVV complicada, sendo feita a administração de uma dose complementar 72 horas após a primeira. Cremes esteroides, como hidrocortisona a 1% podem ajudar a aliviar os sintomas irritativos. O tratamento de pacientes com CVVR é a indução de remissão dos sintomas crônicos com fluconazol (150 mg a cada 3 dias por 3 doses). As pacientes devem ser mantidas com uma dose supressora desse fármaco (fluconazol, 150 mg/semana) durante 6 meses. Nesse esquema, 90% das mulheres com quadros crônicos permanecerão em remissão. Após terapia supressora, cerca de metade continuará assintomática, ao passo que a outra metade apresentará recorrência, que deve levar à reinstituição da terapia supressora. O mecanismo de ação dos antifúngicos empregados no combate a candidíase envolve a inibição da biossíntese do ergosterol, maior componente da membrana celular dos fungos, sendo essencial para regular sua fluidez e integridade. O medicamento também estimula a acumulação de peróxido de hidrogênio, que danifica as organelas da Candida albicans. VAGINITE INFLAMATÓRIA: A vaginite inflamatória descamativa é uma síndrome clínica marcada por vaginite exsudativa difusa, com esfoliação de células epiteliais e consequente corrimento vaginal abundante e purulento. A causa dessa condição ainda não é conhecida, porém à coloração de Gram é observado um número reduzido de lactobacilos, que são substituídos por cocos (normalmente estreptococos) Gram-positivos). A sintomatologia desse quadro conta com queimação/irritação vulvar ou vaginal, secreções locais purulentas e dispareunia, com a ocorrência ocasional de prurido. CONDUTAS EM CASOS DE VAGINITE INFLAMATÓRIA: Ao exame físico de uma paciente com suspeita de vaginite inflamatória, há eritema vaginal e pode haver eritema vulvar associado, bem como manchas equimóticas vulvovaginais e colpite macular. O pH das secreções vaginais é sempre maior que 4,5 nessas pacientes. O tratamento inicial é feito por meio de cremes com clindamicina a 2%, com administração de um aplicador cheio (5 g) por via intravaginal, uma vez ao dia por 7 dias. Cerca de 30% apresentam recidivas, sendo tratadas com a mesma medicação, dessa vez por duas semanas. Para mulheres com quadro recorrente no período pós- menopausa, recomenda-se a terapia de reposição hormonal. VAGINITE ATRÓFICA: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A vaginite atrófica é uma condição desenvolvida em mulheres pós-menopausa (seja ela natural ou induzida pela remoção dos ovários), decorrente da desregulação da microbiota vaginal causada pela redução da dosagem sérica de estrogênio. Os sintomas desse quadro envolvem corrimento vaginal purulento e intenso, dispareunia e sangramento após o intercurso, resultante da atrofia do epitélio vaginal e vulvar. CONDUTAS EM CASOS DE VAGINITE ATRÓFICA: O exame especular mostra atrofia genital externa, bem como perda das pregas vaginais, om mucosa que pode apresentar- se friável. Quando analisado no microscópio, o material revela predomínio de células epiteliais parabasais e elevação do número de leucócitos. O tratamento da vaginite atrófica é feito por meio da aplicação de cremes vaginais com estrogênio (1 g durante uma ou duas semanas), que proporcionam alívio. A terapia de reposição de estrogênio deve ser considerada de forma a evitar reincidência dos sintomas. O uso de sabonetes e irritantes deve ser evitado, e lubrificantes podem ser empregados para reduzir o incômodo durante o sexo. ISTS QUE AFETAM AS SECREÇÕES VAGINAIS: TRICOMONÍASE (VULVOVAGINITE POR TRICHOMONAS): A tricomoníase é causada pelo Trichomonas vaginalis, um protozoário flagelado transmitido por meio de relações sexuais desprotegidas. Mesmo que seja uma manifestação pouco frequente na contemporaneidade, segue com alta taxa de transmissão, sendo que 70% dos homens contraem a doença após uma exposição a uma parceira contaminada, o que indica que a possibilidade de contágio de mulheres é ainda maior (isso reflete a preferência do protozoário para o sistema genital feminino). Esse parasita, existente somente sob a forma de trofozoíto, é um ser anaeróbio produtor de hidrogênio, que se combina ao oxigênio para formar um ambiente favorável ao seu desenvolvimento. Por vezes a tricomoníase pode estar associada a quadros de VB, uma vez que essa alteração no meio vaginal é suficiente para induzir o crescimento de uma microbiota anormal. Os sinais e sintomas característicos dessa IST consistem em corrimento vaginal intenso, de coloração amarelo-esverdeada ou acinzentada, bolhoso e espumoso, acompanhado de mau odor, que na maior parte dos casos é associado a peixe, e prurido ocasional, que pode também ser sinal de uma reação alérgica à infecção em curso. Em caso de inflamação intensa, o Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR corrimento aumenta de volume, podendo haver sinusiorragia (sangramento durante o coito) e dispareunia (dor na relação sexual). Também é possível ocorrer edema vulvar e sintomas urinários, como disúria. Cerca de 30% das infectadas são assintomáticas. As complicações da tricomoníase geralmente não são graves, porém a doença pode favorecer a transmissão de outros patógenos, que por sua vez desenvolvem quadros mais severos, como a DIP. Se não for tratada durante a gestação, a mulher é mais susceptível à rotura prematura de membranas. CONDUTAS EM CASO DE TRICOMONÍASE: No exame especular de uma mulher com suspeita de tricomoníase, percebem-se microulcerações no colo uterino, que dão a ele um aspecto de morango ou framboesa (teste de Schiller apresenta-se com aspecto tigroide). A secreção inflamatória das paredes vaginais eleva o pH para 6,7 a 7,5, potencializando o desenvolvimento de bactérias anaeróbias, que configuram diagnóstico de VB associada, responsável pela liberação de aminas no corrimento vaginal (o teste de Whiff se torna positivo). O diagnóstico laboratorial microbiológico mais comum é o exame a fresco, mediante a combinação entre uma amostra do conteúdo vaginal e soro fisiológico, com observação do parasita ao microscópio. Habitualmente visualiza-se o movimento do protozoário e um grande número de leucócitos. Na coloração pelo método de Gram, observa-se o parasita Gram-negativo, de morfologia característica. A cultura pode ser requisitada nos casos de difícil diagnóstico. O tratamento da vaginite por Trichomonas é feito por meio da administração de metronidazol, tanto em dose única (2 g VO) quanto em doses múltiplas de 500 mg VO duas vezes ao dia por 7 dias, com taxa de cura de 95%. O parceiro sexual também deve ser tratado. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DAMULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Nos casos de mulheres que não respondem ao tratamento inicial, será feita a administração do metronidazol em dose de 500 mg. Caso essa tentativa falhe novamente, será fornecida a dose única desse medicamento por 5 dias, havendo também a possibilidade de substituí-lo por tinidazol, em tomada diária única, com dose de 2 g por cinco dias. Casos incomuns de insucesso a essas medidas, quando descartada a possibilidade de reinfecção, devem ser encaminhados a um especialista. CERVICITE: O colo é formado por dois tipos diferentes de células epiteliais, o epitélio escamoso e epitélio glandular, sendo que a infamação de cada tipo celular produz reações distintas. A inflamação do epitélio escamoso pode ser causada pelos mesmos microrganismos responsáveis pela vaginite, uma vez que essa área é uma extensão do epitélio vaginal e é contínua a ele. Trichomonas, Candida e herpes-vírus simples (HSV) causam inflamação da ectocérvice. Por outro lado, N. gonorrhoeae e C. trachomatis infectam apenas o epitélio glandular. Os seres humanos são o único reservatório natural de N. gonorrhoeae. Esse patógeno é altamente exigente, e sua propagação requer o contato direto com a mucosa de uma pessoa infectada, o que geralmente durante a atividade sexual. As bactérias inicialmente se fixam ao epitélio da mucosa, particularmente as do tipo transicional ou colunar, usando uma variedade de moléculas e estruturas de aderência associadas à membrana, chamadas pili (pelos), o que evita que os organismos sejam carregados pelos fluidos corporais, como a urina e o muco endocervical. Em seguida, esses organismos penetram as células epiteliais e invadem os tecidos mais profundos do hospedeiro. A C. trachomatis é uma pequena bactéria Gram-negativa e um patógeno intracelular obrigatório, existente em duas fases de desenvolvimento. Na forma infecciosa, o corpo elementar é capaz sobreviver de forma limitada em ambiente extracelular. Essa estrutura é captada pelas células do hospedeiro, principalmente por meio de um processo de endocitose mediada por receptor. Uma vez dentro da célula, o corpo elementar se modifica em uma forma metabolicamente ativa, chamada corpo reticulado. Usando fontes de energia da própria célula, o corpo reticulado se replica e gera novos organismos infectantes capazes de tomar outras células, principalmente aquelas do epitélio colunar. As cervicites são frequentemente assintomáticas, em torno de 70% a 80% dos casos. Nos quadros sintomáticos, as principais queixas são corrimento vaginal, sangramento intermenstrual ou pós-coito, dispareunia, disúria, polaciúria e dor pélvica crônica. Além disso, a dor à manipulação do colo, presença de muco cervical turvo ou amarelado e friabilidade cervical também encontram-se presentes, porém, esse diagnóstico “sindrômico” não pode ser aplicado de forma universal, já que a quadros assintomáticos podem até 93,3% dos casos. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Alguns fatores que influenciam a prevalência de cervicites são vida sexual ativa, idade inferior a 25 anos, parcerias sexuais recentes ou múltiplas, história prévia ou concomitante de IST (na paciente ou em seu parceiro) e o uso irregular de preservativo. A infecção disseminada por N. gonorrhoeae é muito menos comum do que a infecção local, ocorrendo em apenas em 0,5 a 3% dos casos de gonorreia, acometendo mais mulheres que homens. As manifestações incluem, mais comumente, tenossinovite (inflamação da bolsa que contorna os tendões), artrite e lesões cutâneas hemorrágicas ou pustulares. As cepas que causam a infecção disseminada geralmente são resistentes à ação lítica do sistema complemento, mas raros pacientes com deficiências de complemento herdadas são suscetíveis à disseminação sistêmica, independentemente da cepa infectante. As infecções gonocócicas ou por clamídia durante a gravidez poderão estar relacionadas a partos pré-termo, ruptura prematura de membrana, perdas fetais, retardo de crescimento intrauterino e endometrite puerperal, além de conjuntivite e pneumonia do RN. A conjuntivite por clamídia pode resultar m dano visual em recém-nascidos (oftalmia neonatal), sendo bem menos severa em adultos. Seu período de incubação varia de cinco a 14 dias. A frequência relativa da infecção pelos dois agentes etiológicos depende da prevalência dessas IST em gestantes e do uso da profilaxia ocular na primeira hora após o nascimento, efetiva contra N. gonorrhoeae, mas frequentemente não o é contra C. trachomatis. Na ocasião do parto vaginal, o risco de transmissão vertical é de cerca de 30% a 50% para ambos os patógenos. CONDUTAS EM CASO DE CERVICITE: O diagnóstico laboratorial da cervicite causada por C. trachomatis e N. gonorrhoeae pode ser feito por pela detecção do material genético dos agentes infecciosos por biologia molecular, método de escolha para todos os casos, sintomáticos e assintomáticos. Para os casos sintomáticos, a cervicite gonocócica também pode ser diagnosticada pela identificação do gonococo após cultura em meio seletivo. Após a remoção das secreções ectocervicais com um swab grande, insere-se um swab pequeno de algodão no canal endocervical para que se extraia o muco. O equipamento é então examinado contra um fundo branco ou preto com o objetivo de se detectar a cor verde ou amarela do mucopus. Além disso, o epitélio glandular friável pode ser avaliado por meio do toque com uma espátula, sendo por vezes notado sangramento. A análise do mucopus sobre uma lâmina, corada pelo método de Gram, revela aumento de neutrófilos e possível presença de diplococos Gram-negativos indicadores de infecção gonocócica. Se os resultados da coloração pelo Gram forem negativos para gonococos, o diagnóstico presuntivo é de cervicite por clamídia. Testes de amplificação de ácido nucleico (identificação de RNA) devem ser realizados, mas cerca de 50% dos casos de cervicite não apresentam etiologia definida. O tratamento da cervicite é feito com um esquema antibiótico recomendado para tratamento de infecção não complicada do sistema genital inferior por clamídia e gonorreia. A resistência à fluoroquinolona é comum em isolados de Neisseria Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR gonorrhoeae, portanto, esses fármacos não são mais recomendados para o tratamento de mulheres com cervicite gonocócica. É fundamental que todos os parceiros sexuais serem tratados com esquema antibiótico semelhante. É comum a associação de cervicite e VB, que, se não tratadas ao mesmo tempo, causam acentuada persistência dos sinais e sintomas de cervicite. A cefitriaxona tem como mecanismo de ação a alteração da síntese de mucopeptídeos da parede celular bacteriana, que se torna defeituosa, promovendo a morte celular. Apresenta amplo espectro de ação contra microrganismos Gram-negativos. A azitromicina age por meio da inibição da síntese proteica bacteriana através de sua ligação com a subunidade ribossômica 50S, impedindo assim, a translocação dos peptídeos. A doxiciclina também atua na contenção da síntese proteica bacteriana, com lipossolubilidade elevada que garante meia- vida prolongada (12 a 15 horas). O medicamento é eficaz contra um amplo espectro de bactérias, Gram-positivas ou negativas. FLUXOGRAMA DE MANEJO PARA CORRIMENTO VAGINAL: OUTRAS INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS: ISTS QUE CAUSAM ÚLCERAS GENITAIS: As úlceras genitais contemplam uma síndrome clínica, causadas principalmente por ISTs, e se manifestam como lesões ulcerativas erosivas, precedidas ou não por pústulas ou vesículas, acompanhadas ou não dedor, ardor, prurido, drenagem de material mucopurulento, sangramento e linfadenopatia regional. Mesmo que essas formas de lesão estejam frequentemente associadas a ISTs nas mulheres com vida sexual ativa (com destaque para adolescentes e jovens adultos), a queixa de úlcera genital pode estar ligada a infecções diversas por fungos, vírus ou bactérias, além de processos traumáticos ou neoplasias. As ISTs mais comuns que apresentam ulcerações vaginais em alguma fase do Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR acometimento são a sífilis, a herpes genital, o cancroide, o linfogranuloma venéreo e a donovanose, porém é necessário salientar que infecções concomitantes podem ocorrer, formando uma só úlcera que apresenta tipos distintos de patógenos. A prevalência dos agentes etiológicos sofre influência de fatores geográficos, socioeconômicos e de gênero, além do número de parcerias sexuais, uso de drogas, circuncisão e atuação como profissional do sexo. A presença de ulcerações genitais está associada a um maior risco de transmissão e aquisição do HIV, sendo considerada o principal fator de disseminação desse vírus entre grupos vulneráveis. Nesse contexto, o diagnóstico e tratamento imediato dessas lesões constitui uma medida de prevenção e controle da epidemia de HIV. HERPES GENITAL: Os herpesvírus (HSV) 1 e 2 pertencem à família Herpesviridae, havendo parentesco om o citomegalovírus e o vírus da varicela- zoster. Todos são DNA-vírus que variam quanto à composição química e podem ser diferenciados por técnicas imunológicas. Embora os HSV-1 e HSV-2 possam provocar lesões em qualquer parte do corpo, há predomínio do tipo 2 nas lesões genitais e do tipo 1 nas lesões perorais. As manifestações da infecção pelo HSV podem ser divididas nas de primoinfecção herpética e dos surtos recorrentes. Cerca de 13 a 37% dos indivíduos que tiverem contato com esse vírus não irão desenvolver manifestações sintomáticas da doença. Em pacientes soropositivos para o HIV, entretanto, as lesões tendem a ter padrão atípico, serem dolorosas e se estenderem por períodos mais duradouros. A primoinfecção herpética tem um período médio de incubação de seis dias. Em geral, é uma manifestação mais severa, caracterizada pelo surgimento de lesões eritemato-papulosas na mucosa ou pele da genitália e regiões adjacentes, que rapidamente evoluem para vesículas sobre base eritematosa, bastante dolorosas e de localização variável na região genital. O conteúdo dessas vesículas é geralmente citrino, raramente turvo. Outros sintomas associados são a disúria (simulando infecção urinária), corrimento uretral, aumento e amolecimento dos linfonodos (50% dos casos), febre, dor de cabeça e mialgia. Essas manifestações podem durar por várias semanas nessa fase. A transmissão do vírus é intensa durante esse período, permanecendo até a cura completa das lesões na mucosa. Após a infecção genital, o HSV ascende pelos nervos periféricos sensoriais, penetra nos núcleos das células dos gânglios sensitivos e entra em um estado de latência, processo que não consegue ser reduzido por nenhuma medida terapêutica. Episódios de recorrência são bem mais frequentes entre pacientes que apresentam primoinfecção pelo herpesvírus tipo 2. Após a infecção genital primária por HSV-2 ou HSV-1, respectivamente, 90% e 60% dos pacientes desenvolvem novos episódios nos primeiros 12 meses, por reativação viral. Essa reincidência deve-se a quadros infecciosos, exposição à radiação ultravioleta, traumatismos locais, menstruação, estresse físico ou emocional, antibioticoterapia prolongada ou imunodeficiência. O quadro clínico das recorrências é menos intenso que o da primoinfecção e pode ser precedido de sintomas prodrômicos típicos, como prurido leve ou sensação de queimação local, mialgias e “fisgadas” nas pernas, quadris e região anogenital. Os locais acometidos pela reativação da herpes são os mesmos afetados pelas ulcerações iniciais, geralmente, em zonas inervadas pelos nervos sensitivos sacrais. As Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR lesões podem ser cutâneas ou mucosas, caracterizadas como vesículas agrupadas sobre base eritematosa, que evoluem para pequenas úlceras arredondadas. Por vezes não é possível visualizar a forma vesiculosa em acometimentos da mucosa vaginal, pois o teto das lesões se rompe rapidamente. O acompanhamento das manifestações cutâneas por sintomas sistêmicos é raro. As lesões regridem espontaneamente em sete a dez dias, com ou sem a formação de cicatrizes. A tendência natural dos surtos é se tornarem menos intensos e menos frequentes com o passar do tempo. As gestantes acometidas por herpes simples apresentam risco elevado de complicações fetais e neonatais, principalmente quando a infecção ocorre no final da gestação. O maior risco de transmissão do vírus acontece no momento da passagem do feto pelo canal de parto. A infecção pode ser ativa (em aproximadamente 50% dos casos) ou assintomática. Recomenda-se a realização de cesariana sempre que houver lesões herpéticas ativas. Nos pacientes imunodeprimidos, podem ocorrer manifestações atípicas, com lesões ulceradas ou hipertróficas de maior dimensão, que persistem na ausência de tratamento local ou até mesmo sistêmico. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA HERPES GENITAL: O diagnóstico laboratorial do herpes genital se baseia na cultura do vírus. Salienta-se, no entanto, que a sensibilidade desse método é baixa, diminuindo mais à medida que as lesões se curam e em quadros recorrentes. Testes diagnósticos moleculares também estão disponíveis, mas são usados principalmente no diagnóstico do herpes extragenital, particularmente quando há infecções do sistema nervoso central. Os diagnósticos diferenciais incluem o cancroide, a sífilis, o LGV, a donovanose e as ulcerações traumáticas. O tratamento da primoinfecção pelo herpes vírus é feito por meio da administração dos seguintes medicamentos: Aciclovir, 400 mg, VO, 3 vezes por dia durante 7 a 10 dias ou até a resolução do quadro; Fanciclovir, 250 mg VO, 3 vezes por dia a 10 dias ou até a resolução do quadro; Valaciclovir, 1,0 g, VO, 2 vezes por dia, durante 7 a 10 dias ou até a resolução do quadro. O mecanismo de ação comum a todos esses compostos é a inibição da DNA polimerase, impedindo que a replicação viral ocorra. Embora esses fármacos proporcionem controle parcial dos sinais e sintomas do herpes clínico, eles não erradicam vírus latentes nem afetam o risco subsequente de recorrências após sua interrupção. A terapia supressora diária (aciclovir, 400 mg, VO, 2 vezes por dia, fanciclovir, 250 mg, 2 vezes por dia ou valaciclovir, 1,0 g, por VO, 1 vez por dia) reduz a frequência de novas ocorrências de HSV em, no mínimo, 75%. Essa forma de tratamento causa redução parcial da excreção viral sintomática e Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR assintomática, bem como do potencial de transmissão. CANCROIDE: O cancroide é uma infecção provocada pelo cocobacilo Haemophilus ducreyi, acometendo principalmente habitantes de regiões tropicais. Denomina-se também como cancro mole, cancro venéreo ou cancro de Ducrey. O período de incubação estende-se geralmente por três a cinco dias, podendo chegar até duas semanas. O risco de infecção em uma relação sexual é de 80%, sendo mais frequente em homens. As lesões produzidas por essa bactéria são dolorosas e comumente múltiplas, disseminadas por meio da autoinoculação do parasita. A borda é irregular, apresentando contornos eritemato-edematosos e fundo heterogêneo, coberto por secreções necróticas de tom amarelado,com forte mau odor, que, quando removidas, revelam tecido de granulação que sangra com facilidade. As localizações mais comuns para essas lesões em mulheres são a fúrcula e a face interna dos pequenos e grandes lábios. Em quase 50% dos pacientes, principalmente do sexo masculino, há invasão bacteriana nos linfonodos inguinais, gerando o bubão, normalmente unilateral e inicialmente sólido, tornando-se intumescido e macio após a primeira semana de contato com a bactéria. Se não tratados, os bubões podem erodir a pele adjacente a eles, criando úlceras crônicas. É improvável que uma a três úlceras extremamente dolorosas, acompanhadas por linfadenopatia inguinal dolorosa, tenham outra causa além de cancroide, principalmente quando o acometimento linfático for flutuante. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DO CANCRO MOLE: Ao exame microscópico, a úlcera do cancroide contém uma zona superficial de resíduos neutrofílicos e fibrina, com uma zona subjacente de tecido de granulação que contém áreas de necrose e de vasos trombosados. Uma infiltração inflamatória linfoplasmocitária densa está presente debaixo dessa região. Organismos cocobacilares podem ser visíveis com preparos de coloração Gram, mas frequentemente estão obscurecidos pelo crescimento bacteriano encontrado na base da úlcera. Um diagnóstico definitivo do cancroide requer a identificação do H. ducreyi por meios especiais de cultura que Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR não são amplamente disponíveis, o que, em conjunto com a baixa sensibilidade desse método (80%), faz com que o diagnóstico dessa doença seja principalmente clínico. Outras possíveis hipóteses para o quadro são cancro duro (sífilis primária), herpes genital, LGV, donovanose e erosões traumáticas infectadas. Os esquemas recomendados para o tratamento do cancroide são: Azitromicina, 1 g, VO, em dose única; Cefitriaxona, 250 mg, por via intramuscular em dose única; Ciprofloxacino, 500 mg VO, 2 vezes por dia, durante 3 dias; o Esse medicamento age sobre um grande número de bactérias Gram- positivas ou Gram-negativas, inibindo a topoisomerase bacteriana do tipo II (chamada de DNA girasse, altera a conformação topográfica da cadeia de nucleotídeos) e a topoisomerase IV, fundamentais para os processos de replicação do DNA bacteriano. Eritromicina base, 500 mg VO, 4 vezes por dia, durante 7 dias. o Sua ação decorre da inibição da síntese proteica patogênica por efeito na translocação ao ligar-se à subunidade 50S do ribossomo bacteriano, responsável pelo agrupamento de aminoácidos. A aspiração, com agulha de grosso calibre, dos gânglios linfáticos regionais comprometidos é indicada para alívio de linfonodos tensos e com flutuação. São contraindicadas a incisão com drenagem ou excisão dos linfonodos acometidos. O médico deve reavaliar as pacientes entre 3 a 7 dias após o início do tratamento a fim de que se assegure a resolução gradual da úlcera, cuja cicatrização ocorre em 2 semanas, a menos que seja muito grande. Por vezes esse processo é desfigurante. LINFOGRANULOMA VENÉREO (LGV): O LGV é causado pela Chlamydia trachomatis, em seus sorotipos L1, L2 e L3. A manifestação clínica mais comum é a linfadenopatia inguinal ou femoral, já que essas formas bacterianas são altamente invasivas aos tecidos linfáticos. A evolução dessa doença se dá em três fases, descritas a seguir: Fase de inoculação: é iniciada com uma pápula, pústula ou ulceração primária indolor, que desaparece sem sequelas, podendo não ser notada pelo paciente (e por isso é raramente observada por profissionais da saúde). Na mulher, essas lesões acometem a parede vaginal posterior, o colo uterino, a fúrcula e outras partes da genitália externa; Fase de disseminação linfática regional: nas mulheres, a localização da adenopatia depende do local de inoculação, se desenvolvendo após uma a seis semanas da transmissão. Representa o principal motivo para a procura dos serviços de saúde; Fase de sequelas: o comprometimento dos gânglios evolui com supuração e drenagem espontânea por orifícios múltiplos, que correspondem a linfonodos individualizados, parcialmente fundidos Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR em uma grande massa. A lesão da região anal pode levar a proctite e proctocolite hemorrágica. O contato orogenital pode causar glossite ulcerativa difusa, com linfadenopatia regional. Podem ocorrer sintomas gerais, como febre, mal-estar, anorexia, artralgia, sudorese noturna e meningismo. A obstrução linfática crônica leva à elefantíase genital, que na mulher é denominada estiomene. Além disso, podem ocorrer fístulas retais, vaginais e vesicais, além de estenose retal (mais comum em mulheres). Recomenda-se a pesquisa por C. trachomatis em praticantes de sexo anal que apresentem úlceras anorretais. Mulheres com prática de coito anal podem apresentar proctocolites como manifestação inicial. O uso de métodos de barreira durante o sexo oral, vaginal e anal previnem a LGV. Outra forma de romper a cadeia de transmissão é a higienização adequada de acessórios sexuais antes do uso, que deve ser individual. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO PARA LGV: Nas lesões ativas, o diagnóstico de LGV pode ser feito por demonstrações do organismo em materiais coletados para biópsia ou por esfregaços de exsudato. Em casos mais crônicos, o diagnóstico pode se se basear na demonstração dos anticorpos para os sorotipos apropriados de clamídia no sangue do paciente, porém esse teste não é difundido no Sistema Único de Saúde. Dada a ausência de métodos diagnósticos específicos e acessíveis, o diagnóstico do linfogranuloma venéreo é feito por exclusão para as mulheres negativas para sífilis e cancroide, que apresentem perfil condizente com os critérios de risco para a doença. A LGV deve ser sempre considerada em todos os casos de adenite inguinal, elefantíase genital e estenose uretral ou retal. O tratamento implementado em caso de linfogranuloma venéreo se dá por meio de duas estratégias, a saber: Doxiciclina 100mg, VO, 1 comprimido, 2 vezes por dia, durante 21 dias (primeira escolha); Azitromicina 500mg, 2 comprimidos, VO, 1 na semana, por 21 dias (preferencial para gestantes). Os parceiros sexuais da paciente devem ser notificados e tratados para a LGV, repetindo o mesmo esquema terapêutico supracitado quando sintomáticos, e fazendo ciclos mais curtos (7 dias e dose única, respectivamente). DONOVANOSE: A donovanose, ou granuloma inguinal, é uma IST progressiva crônica pouco frequente (preferência por climas tropicais e subtropicais) causada pela bactéria Klebsiella granulomatis. Acomete preferencialmente pele e mucosas das regiões genitais, perianais e inguinais. Ainda que seja relacionada principalmente à transmissão por meio sexual, não são conhecidos os mecanismos de disseminação dessa bactéria, que apresenta baixa transmissibilidade. O quadro clínico começa com uma ulceração de bordas planas ou hipertróficas, bem delimitadas, com fundo granuloso, de aspecto vermelho vivo e de sangramento fácil. Essa lesão evolui lenta e progressivamente, podendo tornar-se Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR vegetante ou úlcerovegetante. As feridas costumam ser múltiplas, sendo frequente a configuração em “espelho” nas bordas cutâneas ou mucosas. Há predileção bacteriana pelas regiões de dobras e pela região perianal. Não ocorre adenite, embora raramente possam se formar pseudobubões (formações granulosas subcutâneas) na região inguinal, predominantemente unilaterais. Na mulher, a elefantíase genital é uma sequela tardia, observadaquando há abundância de obstruções linfáticas. Lesões extragenitais são pouco comuns, decorrendo de feridas genitais ou perigenitais primárias. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DA DONOVANOSE: O diagnóstico direto do granuloma inguinal é difícil, pois a cultura da bactéria é complexa, e mecanismos de identificação do material genético patogênico por meio da reação em cadeia da polimerase ainda não são disponíveis. O exame microscópico das lesões ativas revela hiperplasia epitelial acentuada nas margens da úlcera, podendo assemelhar-se a um carcinoma. Uma mistura de neutrófilos e células inflamatórias mononucleares se faz presente na base da úlcera e debaixo do epitélio circundante. Os organismos são demonstráveis nos esfregaços dos exsudatos corados como diminutos cocobacilos dentro dos vacúolos nos macrófagos (corpos de Donovan). O diagnóstico diferencial de donovanose inclui sífilis, cancroide, tuberculose cutânea, amebíase cutânea, neoplasias ulceradas, leishmaniose tegumentar americana e outras doenças cutâneas com manifestações ulcerativas e granulomatosas. SÍFILIS: A sífilis é uma infecção bacteriana sistêmica causada pelo Treponema pallidum, crônica, curável e exclusiva do ser humano. Quando não tratada, evolui para estágios de diversos graus de gravidade, podendo acometer diversos órgãos e sistemas do corpo, com destaque para o sistema nervoso e o cardiovascular. Sua transmissão se dá principalmente por contato sexual com parceiros apresentando lesões típicas (a bactéria penetra no indivíduo saudável por meio de microfissuras na pele ou nas membranas da mucosa), contudo, pode também ser transmitida verticalmente para o feto durante a gestação de uma mulher não tratada ou tratada de forma não adequada. Em relação à epidemiologia, foram notificados no Brasil, entre 2010 e junho de 2019, um total de 650.258 casos de sífilis adquirida, dos quais 53,5% ocorreram na Região Sudeste, 22,1% no Sul, 12,9% no Nordeste, 6,5% no Centro-Oeste e 4,9% no Norte. Desse valor, 158.051 foram notificados apenas no ano de 2018, período Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR no qual houve um aumento de 28,3% em relação ao ano anterior. A unidade federativa com maior número de casos em 2018 foi Santa Catarina, e a com menor índice, Alagoas. Dez estados apresentaram taxas superiores à média nacional, Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul, Espírito Santo, Roraima, Rio de Janeiro, Paraná, Tocantins, São Paulo, Amazonas e Pernambuco. Em 2018, a maior parte das notificações de sífilis adquirida ocorreu em indivíduos entre 20 e 29 anos (35,1%), seguidos por aqueles na faixa entre 30 e 39 anos de idade (21,5%), porém houve um aumento nas taxas gerais de detecção da doença. Observa-se ao analisar a série histórica de notificações de casos de sífilis, que 347.064 (40,6%) ocorreram em homens e 506.873 (59,4%) em mulheres, seno que destas, 235.664 (46,5%) foram notificadas como sífilis adquirida e 271.209 (53,5%) como sífilis em gestante. Em 2010, a razão de sexos (M:F) era de 0,2, elevando-se, em 2018, para 0,7, razão que vem se mantendo estável desde 2014 A maioria das pessoas com sífilis são assintomáticas, e quando apresentam sinais e sintomas, muitas vezes não os percebem, podendo, sem saber, transmitir a infecção às suas parcerias sexuais. A transmissibilidade da sífilis é maior nos estágios iniciais (primário e secundário), diminuindo gradualmente com o passar do tempo (sífilis latente). No primeiro ano de latência, 25% dos pacientes apresentam recrudescimento do secundarismo, sendo assim possível a ocorrência de transmissão. Essa maior transmissibilidade explica-se pela riqueza de Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR treponemas nas lesões, comuns na sífilis primária (cancro duro) e secundária (lesões mucocutâneas). Em gestantes, a taxa de transmissão vertical intraútero chega a 80%. O desenvolvimento da sífilis congênita ainda pode ocorrer durante o parto vaginal, se a mãe apresentar alguma lesão sifilítica. A infecção fetal é influenciada pelo estágio da doença na mãe (maior nos estágios primário e secundário) e pelo tempo em que o feto foi exposto. Após a entrada no corpo humano, o T. pallidum dissemina-se rapidamente por meio de vasos linfáticos e sanguíneos para locais distantes, mesmo antes do aparecimento de lesões no lugar de inoculação primária. Essa ampla propagação é responsável pelas manifestações cíclicas da doença, que podem ser divididas, nos adultos, em estágios primário, secundário, latente e terciário. Em 9 a 90 dias após o contágio (média de 3 semanas), a primeira lesão, denominada cancro, aparece no ponto de entrada da espiroqueta. O processo de replicação e disseminação continua durante esse período, enquanto o hospedeiro monta uma resposta imune. Dois tipos de anticorpos são formados: anticorpos que estabelecem uma reação cruzada com os constituintes do hospedeiro (anticorpos não treponêmicos) e anticorpos para antígenos treponêmicos específicos. Essa resposta humoral, contudo, é insuficiente para a erradicação bacteriana. A estratificação da sífilis em estágios favorece a determinação do tratamento e do monitoramento necessário para a paciente. Dessa forma, os grupos empregados são: Sífilis primária: Como mencionado anteriormente, essa fase se desenvolve após um período de incubação variável. A primeira manifestação é denominada cancro, caracteristicamente endurecido, sendo assim denominado como “cancro duro” para evitar confusões com as lesões causadas pelo cancroide. Nas mulheres, múltiplos cancros podem aparecer, geralmente na vulva, vagina, colo uterino ou ânus (pode também se desenvolver na mucosa oral). Essa lesão começa como pequena pápula firme que cresce até causar uma úlcera indolor com margens endurecidas e bem definidas, e uma base úmida e com fundo limpo. Os linfonodos regionais com frequência estão ligeiramente aumentados e firmes, porém são indolores. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A duração desse quadro varia amplamente, com média de 3 a 8 semanas, desaparecendo independentemente da instituição do tratamento, o que geralmente não ocorre, visto que essa lesão não incomoda o paciente. O exame histológico da úlcera revela infiltração inflamatória linfocítica e plasmacítica, além de alterações vasculares proliferativas. Sífilis secundária: Essa manifestação ocorre após cerca de 6 semanas a 6 meses da cicatrização do cancro, mesmo com possíveis manifestações recorrentes podendo surgir num período de um ano da infecção. Inicialmente, surge uma erupção macular eritematosa pouco visível (roséola), principalmente no tronco e raiz dos membros. Nessa fase, são comuns as placas mucosas, assim como lesões acinzentadas e pouco visíveis nas mucosas. As feridas cutâneas progridem para lesões mais evidentes, papulosas eritemato- acastanhadas, que podem atingir todo o tegumento, sendo frequentes nos genitais. Habitualmente, atingem a região plantar e palmar, com um colarinho de escamação característico, em geral não pruriginosa. Posteriormente, podem ser identificados condilomas planos nas dobras mucosas, especialmente na área anogenital e na mucosa oral, e em áreas úmidas da pele, como axilas. Alopecia em clareiras e madarose são achados eventuais. São comuns sintomas inespecíficos como febre baixa, mal-estar, cefaleia e adinamia. A sintomatologia desaparece em algumas semanas, independentemente de tratamento, trazendo a falsa impressão de cura. O exame histológico das lesões mucocutâneas durante essa fase revela a endarterite (inflamação endotelialnuma artéria) proliferativa característica, acompanhada pela infiltração inflamatória linfoplasmocitária. As espiroquetas estão presentes em grande número nessas lesões mucocutâneas, que são, portanto, contagiosas. O aumento dos linfonodos é mais comum no pescoço e nas áreas inguinais. Sífilis latente: Esse é um período em que não se observam sinais ou sintomas, fazendo com que o diagnóstico se dê exclusivamente pela reatividade dos testes laboratoriais. É nessa fase que ocorre o maior número de detecções. A sífilis latente é dividida em latente recente (até um ano de infecção) e latente tardia (mais de um ano após o contágio). Aproximadamente 1/4 dos pacientes não tratados intercalam lesões de secundarismo com os períodos de latência, evidenciando a possibilidade de transmissão. Sífilis terciária: Essa manifestação ocorre aproximadamente em 15% a 25% das infecções não tratadas, após um período variável de latência, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR podendo surgir entre 1 e 40 anos depois do início da infecção. A inflamação causada pela sífilis nesse estágio provoca intensa destruição tecidual, sendo comuns acometimentos neurológicos (neurossífilis) e cardiovasculares (aortite sifilítica). Além disso, em casos de “sífilis terciária benigna”, verifica-se a formação de gomas sifilíticas (tumorações com tendência a liquefação) na pele, mucosas, ossos ou qualquer tecido. As lesões podem causar desfiguração, incapacidade e até morte. DIAGNÓSTICO E MANEJO DA SÍFILIS: Para o diagnóstico da sífilis, dois grandes grupos de métodos podem ser aplicados, a saber: Exames diretos: Essa categoria de testes diagnósticos busca evidenciar a presença do T. pallidum de forma direta em amostras coletadas das lesões, podendo indicar resultados positivos mesmo antes do aparecimento de anticorpos. Podem ser utilizados os métodos de campo escuro, no qual a amostra fresca é inserida para observação, e de esfregaço, que emprega lâminas preparadas para avaliar a presença do patógeno de acordo com a coloração do material. Exames imunológicos: Os testes imunológicos são as ferramentas diagnósticas mais utilizadas na prática clínica. Caracterizam-se pela realização da pesquisa de anticorpos em amostras de sangue total, soro ou plasma. Esses testes são subdivididos em duas classes: o Testes treponêmicos: Esses são os testes que detectam anticorpos específicos produzidos contra os epítopos de T. pallidum. São os primeiros a se tornarem reagentes, podendo ser utilizados como primeiro teste ou teste complementar. Em 85% dos casos, permanecem reagentes por toda vida, mesmo após o tratamento, não sendo assim indicados para o monitoramento da resposta terapêutica. Existem vários tipos de metodologias para realização desse teste: Teste rápido: utilizam a imunocromatografia de fluxo Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR lateral ou plataforma de duplo percurso, sendo distribuídos pelo Ministério da Saúde a todas as unidades federativas para uso no diagnóstico inicial, ainda no consultório. Sua execução é fácil, e a leitura fica pronta em no máximo 30 minutos; Teste de hemaglutinação (TPHA) e de aglutinação de partículas (TPPA), ensaios de micro- hemoaglutinação (MHA-TP); Teste de imunofluorescência indireta (FTA-Abs); Ensaios imunoenzimáticos (ELISA) e suas variações, como a quimiluminescência (CMA), que apresentam como vantagens a elevada sensibilidade e a alta capacidade de processamento de amostras. o Testes não-treponêmicos: Esses testes detectam anticorpos anticardiolipina não específicos para o T. pallidum. Permitem a análise qualitativa e quantitativa do material em busca do patógeno. Sempre que um teste não treponêmico é realizado, é fundamental analisar a amostra pura e diluída, em virtude do fenômeno prozona (ausência de reação devido a um número muito elevado de anticorpos). Uma vez observada reatividade no teste, a amostra deve ser diluída em um fator dois de diluição, até a última diluição em que não haja mais reatividade no teste. O resultado final, portanto, deve ser expresso em títulos (1:2, 1:4, 1:8). Os testes não treponêmicos são utilizados para o diagnóstico (como primeiro teste ou teste complementar) e também para o monitoramento da resposta ao tratamento e controle de cura, avaliando a queda da titulação. Os testes mais comumente utilizados no Brasil são o VDRL, o RPR e o USR. Resultados falso-reagentes, ainda que raros, podem ocorrer, já que anticorpos anticardiolipinas podem estar presentes em outras doenças. Por isso, é sempre importante realizar testes treponêmicos e não treponêmicos para a definição laboratorial do diagnóstico. Os testes não treponêmicos tornam-se reagentes cerca de uma a três semanas após o aparecimento do cancro duro. Se a infecção for detectada nas fases tardias da doença, são esperados títulos baixos (inferiores a 1:4) nesses testes, valores que podem perdurar por meses ou anos. Pessoas com títulos baixos em testes não treponêmicos, sem registro de tratamento e sem data de infecção conhecida, são consideradas como portadoras de sífilis latente tardia, devendo ser tratadas. O diagnóstico de sífilis exige uma correlação entre dados clínicos, resultados de testes laboratoriais, histórico de infecções passadas e investigação de exposição Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR recente. Apenas o conjunto de todas essas informações permitirá a correta avaliação diagnóstica de cada caso e, consequentemente, o tratamento adequado. A presença de sintomatologia sugestiva para qualquer uma das fases da doença irá direcionar a suposição clínica, porém, como não há sinais patognomônicos para a sífilis, é necessário solicitar os testes supracitados. Quando sintomático, é possível submeter o paciente a um exame direto, ao passo que testes imunológicos não apresentam restrições. Considerando a sensibilidade dos fluxos diagnósticos, recomenda-se, sempre que possível, iniciar a investigação por um teste treponêmico, preferencialmente o teste rápido. A combinação de dois métodos de testagem distintos permite que o valor preditivo deles seja aumentado, elevando a acurácia diagnóstica. A benzilpenicilina benzatina (inibidora da biossíntese do mucopeptídeos da parede celular bacteriana) é o medicamento de escolha para o tratamento de sífilis, sendo a única droga com eficácia documentada durante a gestação. Outras opções para não gestantes, como a doxiciclina e a cefitriaxona, devem ser usadas somente em conjunto com um acompanhamento clínico e Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR laboratorial rigoroso, para garantir resposta clínica e cura sorológica. Graças ao atual contexto epidemiológico brasileiro, recomenda-se o tratamento imediato com penicilina após um teste positivo em gestantes, vítimas de violência sexual, pessoas com risco de baixa adesão terapêutica, indivíduos com sintomatologia de sífilis primária ou secundária, e pacientes com primeiro diagnóstico. Essa estratégia terapêutica não invalida a necessidade de realizar um segundo teste, pois ele fornece maior análise do diagnóstico, nem do monitoramento laboratorial e do imprescindível tratamento das parcerias sexuais. A benzilpenicilina benzatina dever ser administrada exclusivamente por via intramuscular em dose única de 2,4 milhões de unidades. A região ventro-glútea é a via preferencial, por ser livre de vasos e nervos importantes, sendo tecido subcutâneo de menor espessura, com poucos efeitos adversos e dor local. Outras possibilidadessão a região do vasto lateral da coxa e o dorso glúteo. A resolução dos sinais e sintomas após o tratamento, caso estes tenham estado previamente presentes, é indicativa de resposta à terapia. No entanto, o monitoramento pós tratamento com teste não treponêmico é recomendado a todos os pacientes para determinar se ocorreu resposta imunológica adequada. A reação de Jarisch-Herxheimer é um evento que pode ocorrer durante as 24 horas após a primeira dose de penicilina, em especial nas fases primária ou secundária. Caracteriza-se pela exacerbação das lesões cutâneas, com eritema, dor ou prurido, mal-estar geral, febre, cefaleia e artralgia, que regridem espontaneamente após 12 a 24 horas. Pode ser controlada com o uso de analgésicos simples, conforme a necessidade, sem ser preciso descontinuar o tratamento. A pessoa tratada com sucesso pode ser liberada de novas coletas após um ano de seguimento pós tratamento. Entretanto, a aquisição de uma nova IST, especialmente sífilis, é um fator de risco para outras IST, o que favorece a realização do rastreamento de acordo com o histórico sexual e o risco potencial para contágio por outras infecções. A eficácia do tratamento é analisada pela redução constante da titulação em testes não treponêmicos, que pode apresentar-se não reagente ou ter queda de duas diluições em até seis meses (sífilis recente) ou em até 12 meses (sífilis tardia). FLUXOGRAMA DE MANEJO PARA ÚLCERAS GENITAIS: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR HPV: O HPV (papilomavírus humano) é um DNA- vírus de cadeia dupla, não encapsulado, membro da família Papovaviridae, infectante de epitélios escamosos e capaz de induzir uma grande variedade de lesões cutaneomucosas. A transmissão desse vírus se dá por qualquer atividade sexual e, de forma excepcional, durante o parto, com a formação de lesões de lesões cutaneomucosas em recém-nascidos ou papilomatose recorrente de laringe. O risco geral estimado para a exposição a essa infecção é de 15% a 25% a cada nova parceria sexual, sendo consenso que a quase totalidade das pessoas sexualmente ativas adquirirá a infecção em algum momento de suas vidas. As infecções são tipicamente assintomáticas, com aproximadamente 1% a 2% da população infectada apresentando verrugas anogenitais e 2% a 5% das mulheres expressando alterações no exame de colo de útero decorrentes dessa infecção. A prevalência é maior em mulheres abaixo dos 30 anos, e a maioria das infecções nesse grupo (sobretudo quando adolescentes) tem resolução espontânea, em um período aproximado de até 24 meses. Os tipos de HPV dividem-se de acordo com o potencial oncogênico e às características das lesões com as quais estão comumente associados: Baixo risco oncogênico: tipos 6, 11, 40, 42, 43, 44, 54, 61, 70, 72 e 81; Alto risco oncogênico: tipos 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58, 59, 68, 73 e 82. A infecção por um determinado tipo viral não impede a infecção por outros tipos de HPV, podendo ocorrer infecção múltipla. Os tipos que causam verrugas genitais são quase sempre diferentes daqueles que causam câncer. O tempo médio entre a infecção pelo HPV de alto risco e o desenvolvimento do câncer cervical é de aproximadamente 20 anos, de acordo com o tipo do vírus, sua carga viral, sua capacidade de persistência e o estado imunológico do hospedeiro. Alguns fatores predisponentes para esses agravos são o tabagismo e deficiências imunológicas, incluindo as causadas pela infecção pelo HIV, desnutrição, cânceres e drogas imunossupressoras. A maioria das pessoas infectadas não apesenta nenhuma manifestação. O período de latência pode se estender por meses a anos e, quando há sinais e sintomas, estes podem se apresentar de forma subclínica. Essas alterações subclínicas são detectadas pelo exame preventivo de câncer de colo do útero, realizado por meio de lupas, corantes e colposcopia, acompanhada ou não de biópsia. Os tipos virais de baixo risco oncogênico são geralmente associados a padrão de lesões escamosas de baixo grau (LSIL), equivalendo ao quadro histopatológico de displasia leve ou Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR neoplasia intraepitelial cervical grau 1 (NIC 1). Os tipos de alto potencial oncogênico são associados a lesões intraepiteliais escamosas de alto grau (HSIL), presentes em quadros de displasia moderada, também denominadas neoplasias intraepiteliais cervicais grau 2 (NIC 2) ou grau 3 (NIC 3), esta última considerada carcinoma in situ. Como mencionado, outros epitélios podem sofrer a ação oncogênica do vírus, originando neoplasias intraepiteliais vaginais (NIVA), vulvares (NIV), perineais (NIPE), e anais (NIA). As feridas clínicas da infecção pelo HPV são polimórficas, sendo as lesões pontiagudas denominadas condiloma acuminado. Costumam ser únicas ou múltiplas, achatadas ou papulosas, mas sempre papilomatosas. Por essa razão, a superfície é frequentemente fosca, aveludada ou semelhante à da couve-flor, com coloração que varia entre a tonalidade da pele, a hiperpigmentação e o eritema. Em geral são assintomáticas, mas podem estar ligadas ao prurido e a dor, sendo friáveis ou sangrantes. Quando são formadas verrugas anogenitais, a infecção é, quase certamente, causada por uma modalidade não oncogênica do vírus. A ocorrência de neoplasias anogenitais em pessoas vivendo com HIV é maior que em indivíduos soronegativos. Na mulher, as lesões costumam ser observadas na vulva, vagina, cérvice uterino, regiões inguinais ou próximas ao ânus (principalmente em praticantes de sexo anal). Menos frequentemente, podem estar presentes em áreas extragenitais, como conjuntivas e mucosas nasal, oral e laríngea. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DO HPV: O diagnóstico das verrugas e lesões anogenitais é feito de forma predominantemente clínica, porém em algumas situações, como dúvida diagnóstica (suspeita de outras doenças e neoplasias), manifestação atípica das feridas, e acometimento em pessoas com imunodeficiências variadas, é recomendada a realização de uma biópsia histopatológica. As mulheres com verrugas anogenitais devem ser submetidas a um exame ginecológico completo, incluindo o exame preventivo de câncer de colo do útero e, quando indicado pelas alterações citológicas, colposcopia, acompanhada ou não de biópsia. Pacientes com lesões anais, idealmente, devem ter um exame Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR proctológico com anuscopia e toque retal. O estudo do material coletado nesse último exame ainda tem estudo citológico debatido, porém pode ser de grande ajuda em grupos especiais (praticantes de sexo anal), devido à incidência de neoplasias regionais. A realização de testes que determinam sorotipos específicos do vírus não é recomendada como mecanismo diagnóstico na prática clínica diária, sendo empregada para o rastreamento de câncer genital. A vacinação é uma opção segura e eficaz para a prevenção da infecção pelo HPV, evitando assim suas possíveis complicações. A eficácia dessa estratégia aumenta se a imunização ocorrer antes do primeiro contato sexual do jovem, com tempo suficiente para induzir a produção de anticorpos numa concentração até dez vezes maior que aquela desenvolvida naturalmente ao longo de dois anos com a doença. O tratamento das lesões anogenitais busca erradicar as lesões identificáveis. Apesar de haver recomendação para tal, não há evidência de que as terapêuticas disponíveis modifiquem a história natural da infecção pelo HPV. Independentemente da instituição de tratamentos, as lesões podem desaparecer, permanecer inalteradas ou aumentarem número e volume. Recidivas são frequentes em tempo bastante variável, podendo ocorrer após meses ou anos. A terapêutica deve ser individualizada, considerando as características das lesões, a disponibilidade de recursos, os efeitos adversos e a experiência do profissional. Como essa doença geralmente é autolimitada, devem ser evitados tratamentos que gerem cicatrizes desfigurantes. Recomenda-se considerar a mudança de opção terapêutica quando não houver melhora significativa após três sessões, ou se as verrugas não desaparecerem após seis sessões de tratamento. Existe a possibilidade de combinação de tratamentos, com estrito controle dos efeitos inflamatórios sobre os tecidos normais. Pacientes com imunodeficiências não necessitam de recomendações distintas para o tratamento sendo necessário apenas reforçar que sua resposta pode ser menos eficaz ou mais lenta, o que torna necessário um esquema de monitoramento para complicações. Os tratamentos para o HPV são divididos em domiciliares e ambulatoriais, a saber: Tratamento domiciliar: As medidas domiciliares são mais convenientes por serem autoaplicadas, o que reduz o número de idas aos serviços de saúde. É necessário orientar o paciente de forma detalhada sobre o processo de Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR aplicação e as possíveis complicações de cada medicamento. Os dois fármacos regulamentados para essa forma de tratamento são o imiquimode e a podofilotoxina, que diferem entre si pelo tempo de duração do tratamento (quatro meses e quatro semanas, respectivamente) e pela maior ocorrência de efeitos colaterais no primeiro: o Imiquimode creme 50 mg/g: é uma medicação moduladora da resposta imunológica, induzindo a secreção de interferon alfa e outras citocinas inflamatórias. O vírus não é destruído, portanto novas verrugas podem surgir, principalmente ao longo do ciclo terapêutico. O tratamento deve ser feito em dias alternados por um período máximo de 16 semanas a cada episódio cutâneo; o Podofilotoxina: possui propriedades antimitóticas, inibindo a metáfase ao evitar a polimerização dos microtúbulos, suspendendo assim a divisão das células infectadas. A aplicação desse medicamento deve ser feita duas vezes ao dia, por três dias consecutivos, seguidos por um intervalo de 4 dias. Caso haja qualquer verruga remanescente após sete dias de aplicação, outro ciclo de tratamento pode ser feito. Recomenda-se, no máximo, quatro ciclos de tratamento. Tratamento ambulatorial: o Ácido tricloroacético (ATA) 80% a 90% em solução: esse é um agente cáustico que promove a destruição dos condilomas pela coagulação química de seu conteúdo proteico. Deve-se evitar o contato com a mucosa normal e permitir que a solução seque, tornando-se esbranquiçada como uma porcelana. A frequência e número de sessões deve variar conforme a resposta, sendo adequado iniciar com aplicações semanais. É um tratamento que pode ser utilizado durante a gestação. Não deve ser prescrito para uso domiciliar, frente ao potencial dano tecidual; o Podofilina 10%-25% (solução): derivada de plantas, tem ação antimitótica, podendo trazer dano ao tecido lesado e ao tecido normal. A frequência e o número de sessões dependem da resposta ao tratamento, sendo adequado iniciar com aplicações semanais. Além de irritação local, a absorção de grande quantidade da substância pode acarretar cardio, neuro e nefrotoxicidade. É contraindicada na gestação; o Eletrocauterização: exige equipamento específico e anestesia local. É apropriada para o caso de lesões exofíticas, pedunculadas e volumosas, apresentando como vantagem a possibilidade de remover todos os focos numa só sessão. Os resultados dependem da experiência do operador, e o uso inadequado da técnica pode resultar em cicatrizes desfigurantes e, de forma rara, fístulas e estenose na uretra, canal vaginal e ânus; o Exérese cirúrgica: requer anestesia local. A exérese tangencial (shaving) com uma lâmina ou tesoura é um excelente método, pois além da remoção completa das lesões, permite o estudo histopatológico dos fragmentos. É adequada para lesões volumosas, especialmente as pedunculadas. Geralmente, apenas a compressão do local operado é suficiente para garantir o controle da hemostasia, sem necessidade de suturas; o Crioterapia: o nitrogênio representa a substância mais utilizada para a remoção de verrugas em ambulatório, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR promovendo a destruição das lesões por meio de sua temperatura de ebulição muito baixa. Pode ser utilizado por meio de sondas, aplicadores de algodão ou, em sua forma mais prática, em spray, mediante equipamento específico. Esse é um procedimento atóxico, podendo ser empregado na gestação. É muito apropriada em caso de lesões isoladas e queratinizadas. Geralmente bem tolerada, pode, excepcionalmente, requerer anestesia. HEPATITES VIRAIS: As hepatites virais causadas pelos vírus hepatotrópicos (vírus das hepatites A, B, C, D e E) são doenças que têm em comum o tropismo primário pelo tecido hepático. Essas infecções são responsáveis por cerca de 1,4 milhão de óbitos anualmente em todo o mundo, como consequência de suas formas agudas graves e, principalmente, pelas complicações crônicas ou por hepatocarcinoma. A fisiopatologia desses distúrbios se baseia na reação inflamatória hepática ao vírus. De 1999 a 2019, foram notificados 673.389 casos confirmados de hepatites virais no Brasil. Desse total, 168.036 (25,0%) são referentes aos casos de hepatite A, 247.890 (36,8%) aos de hepatite B, 253.307 (37,6%) aos de hepatite C e 4.156 (0,6%) aos de hepatite D. A região Nordeste concentra a maior proporção das infecções pelo vírus A (30,1%). Na região Sudeste verificam-se as maiores proporções dos vírus B e C, com 34,5% e 59,3%, respectivamente. Por sua vez, a região Norte acumula 74,4% do total de casos de hepatite D. De 2000 a 2018, foram identificados 74.864 óbitos por causas básicas e associadas às hepatites virais dos tipos A, B, C e D. Desses, 1,6% foram associados à hepatite viral A, 21,3% à hepatite B, 76,02% à hepatite C e 1,0% à hepatite D. Devido às suas taxas de prevalência, cronicidade e potencial de transmissibilidade e complicações, as hepatites virais B e C são agravos relevantes para a saúde pública. Embora possuam características clínicas semelhantes, os agentes etiológicos dessas infecções têm diferentes ciclos replicativos e formas de transmissão, o que resulta em epidemiologias distintas. HEPATITE B: O HBV é transmitido por meio de contato com fluidos corporais infectados, sendo o Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR sangue o veículo mais importante. Outras substâncias também podem transmitir o vírus, como sêmen e saliva. Os meios de transmissão conhecidos são perinatal, sexual e parenteral/percutâneo. Em áreas com alta endemicidade para a doença, a via perinatal é a principal forma de transmissão do vírus. Entretanto, em áreas com baixa endemicidade, o contato sexual entre adultos com alta exposição de risco é a rota predominante. A capacidade do vírus em sobreviver fora do organismo humano por período prolongado facilita a transmissão por meio do contato direto ou por meio de fômites. No período de 1999 a 2019, foram notificados 247.890 casos confirmados de hepatite B no Brasil. Desses, a maioria está concentrada na região Sudeste (34,5%), seguida das regiões Sul (31,6%), Norte (14,6%), Nordeste (10,2%) e Centro-Oeste (9,0%). As taxas de detecção de hepatite B no Brasil vêm apresentando pouca variação nos últimos dez anos,com leve tendência de queda a partir de 2015, atingindo 6,6 casos para cada 100 mil habitantes no país em 2019. As taxas de detecção de hepatite B foram, em 12 estados brasileiros, superiores às observadas em suas capitais, a saber, da maior para a menor: Acre, Rondônia, Amazonas, Paraná, Mato Grosso, Santa Catarina, Goiás, Pará, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Amapá. Do total de casos de hepatite B notificados de 1999 a 2019, 135.535 (54,7%) ocorreram entre homens. Entre 2009 e 2019, a razão de sexos (M:F) variou em torno de 11 e 13 homens para cada dez mulheres. 60,2% dos casos acumulados (1999 a 2019) de hepatite B entre homens ocorreu em indivíduos de 25 a 49 anos de idade. Entre as mulheres, 52,9% dos casos foram observados entre aquelas de 20 a 39 anos. O grupo etário acima de 60 anos ou mais foi o único que apresentou aumento nas taxas de detecção nos últimos dez anos. A distribuição proporcional dos casos segundo raça/cor, em 2019, mostrou pela primeira vez uma alteração, com a maior concentração entre as pessoas autodeclaradas pardas e pretas (55,1%, com maior prevalência entre pardos), seguidas das brancas (42,5%), amarelas (1,4%) e indígenas (1,0%). Há tendência ascendente para a detecção do HBV na população negra, com comportamento oposto para brancos. Em relação à provável fonte de exposição, os registros da série histórica apontam grande volume de registros como “ignorado”, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR dificultando o rastreamento da infecção. Dentre os registros cujas informações foram preenchidas adequadamente, a maioria ocorreu por via sexual (21,3% do total de casos). A hepatite B é a segunda maior causa de óbitos entre as hepatites virais. De 2000 a 2018, foram registrados 15.912 óbitos relacionados a esse agravo. Desse número, 54,5% tiveram a hepatite B como causa básica, em sua maior parte na região Sudeste. Ao segmentar esses valores por sexo, nota-se que a mortalidade pelo HBV em homens é maior. A infecção é na maioria das vezes assintomática, sendo que menos de 5% das infecções adquiridas na fase adulta se tornam crônicas. O grande período de tempo transcorrido ara a manifestação desses sintomas dificulta o diagnóstico da lesão, o que faz com que a oferta da testagem rápida seja crucial para o acompanhamento do número de casos. As variações A e B da hepatite podem desenvolver quadros sintomáticos agudos, que dividem-se em: Período prodrômico: fase após a incubação do agente etiológico, precedendo o desenvolvimento da icterícia. Os sintomas são inespecíficos como anorexia, náuseas, vômitos, diarreia (raramente constipação), febre baixa, cefaleia, mal-estar, astenia e fadiga, aversão ao paladar ou olfato, mialgia, fotofobia, desconforto no hipocôndrio direito, urticária, artralgia ou artrite e exantema papular ou maculopapular; Fase ictérica: geralmente apresenta redução dos sintomas prodrômicos. Existe hepatomegalia dolorosa, com ocasional esplenomegalia. Ocorre hiperbilirrubinemia intensa e progressiva, com aumento da dosagem de bilirrubinas totais, principalmente de fração direta. A fosfatase alcalina e a gama-glutamil- transferase mantêm-se normais ou sofrem leve elevação, ao passo que as aminotransferase podem estar de 10 a 100 vezes além dos limites normais. Este nível retorna ao normal no prazo de algumas semanas, porém se persistirem alterados por um período superior a seis meses, deve-se considerar a possibilidade de cronificação da infecção; Período de convalescença: se segue ao desaparecimento da icterícia, com retomada gradual do bem-estar. Mesmo que a recuperação leve apenas algumas semanas, a fraqueza e o cansaço podem se estender por meses. Recomenda-se a vacinação contra hepatite B para todas as pessoas, independentemente de faixa etária. A vacina é composta por no mínimo três doses e deve ser oferecida em esquema completo (Ao nascer, 2, 4 e 6 meses). HEPATITE C: A forma mais eficaz de transmissão do vírus da hepatite C (HCV) ocorre por meio da exposição percutânea repetida ou pelo Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR contato grandes volumes de sangue infectado. Além desses fatores de risco, outras importantes fontes de transmissão do HCV são hemodiálise, procedimentos de manicure e pedicure, confecção de piercings e tatuagens, tratamentos odontológicos e procedimentos endoscópicos (caso não sigam as normas de esterilização e desinfecção de materiais reutilizáveis ou produtos descartáveis), além da transmissão vertical e transmissão sexual, principalmente em pessoas vivendo com HIV e em indivíduos que pratiquem sexo anal. A transmissão sexual do HCV é menos frequente que a transmissão da infecção pelo HBV, ocorrendo em pessoas com múltiplas parcerias sexuais e que têm relações sem uso de preservativo. A história natural da hepatite C é marcada pela evolução silenciosa. Muitas vezes, a doença é diagnosticada décadas após a infecção, e os sinais e sintomas são comuns às demais doenças parenquimatosas crônicas do fígado, manifestando-se apenas em fases mais avançadas da doença. De 1999 a 2019, foram notificados no Brasil 384.284 casos de hepatite C, com um aumento na taxa de detecção da doença a partir de 2015, ano no qual os métodos de inclusão se tornaram mais sensíveis, com o processamento de amostras se tornando positivo quando ao menos um dos marcadores era considerado reagente. A taxa de detecção dos casos em 2019, foi maior na região Sul, com 23,9 casos para cada 100 mil habitantes, seguida pelo Sudeste (13,2), Norte (5,9), Centro-Oeste (5,9) e Nordeste (3,2). Em 2019, a lista das capitais com as maiores taxas de detecção de HCV apresentou dez capitais com taxas superiores à média nacional (10,8 casos por 100 mil habitantes). São elas: Porto Alegre (84,4 casos por 100 mil habitantes) com a maior taxa entre as capitais, seguida de São Paulo, Curitiba, Rio Branco, Boa Vista, Florianópolis, Manaus, João Pessoa, Maceió e Vitória. Os menores valores entre as capitais foram observados em Salvador, com 3,3 casos para cada 100 mil habitantes. Dentre os 253.307 casos confirmados de hepatite C desde 1999, 145.718 (57,6%) ocorreram em indivíduos do sexo masculino e 107.491 (42,4%) em indivíduos do sexo feminino. Mesmo que o número de casos em homens seja maior, essa razão entre os sexos vem diminuindo, passando de 2,2 em 1999 para 1,3 em 2019. Ao longo de todo o período, o maior número de casos notificados ocorreu em indivíduos com mais de 60 anos, tendência que se repete em ambos os sexos. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Em 2019, entre os casos que incluíram a informação referente à raça/cor, 56,1% foram referidos como brancos, 32,7% como pardos, 9,9% como pretos, 1,1% como amarelos e 0,2% como indígenas. Em todo período, observa-se que a provável fonte de infecção foi o uso de drogas, correspondendo a 12,1% do total de casos, seguido de transfusão sanguínea (10,3%) e de relação sexual (8,9%), porém esses registros não representam o panorama geral da doença no Brasil, visto que esse item ainda não é preenchido de forma satisfatória. A forma crônica da hepatite ocorre principalmente em seus subtipos B, C e D, com a permanência do vírus no corpo do hospedeiro por mais de seis meses após o início da infecção. Os indivíduos com infecção crônica funcionam como reservatórios do respectivo patógeno, tendo relevância epidemiológica por serem os principais responsáveis pela perpetuação da transmissão. Hepatite crônica: ocorre em indivíduos com infecção crônica que apresentam sinais histológicos de atividadeda doença (inflamação, com ou sem deposição de fibrose) e que do ponto de vista virológico caracterizam-se pela presença de marcadores de replicação viral, podendo ou não apresentar sintomas na dependência do grau de dano hepático (deposição de fibrose) já estabelecido. São mais propensos a uma evolução desfavorável, com desenvolvimento de cirrose e suas complicações. DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DAS HEPATITES VIRAIS: O diagnóstico das hepatites virais baseia-se na detecção dos marcadores presentes no sangue, soro, plasma ou fluido oral da pessoa infectada, por meio de imunoensaios, ou na detecção do ácido nucleico viral, empregando técnicas de biologia molecular. Os testes rápidos são testes de triagem disponibilizados amplamente pelo SUS e, uma vez que apresentem resultados reagentes, deverão ser confirmados com a realização da carga viral para hepatite C (HCV-PCR), carga viral para hepatite B (HBV-DNA) e outros marcadores, conforme a disponibilidade de cada serviço. Para a hepatite B, são marcadores de triagem o ABsAg (antígeno de superfície), primeiro marcador a ser positivado, presente em infecções agudas e crônicas, e o anti- HBc (anticorpos IgG contra o antígeno do núcleo do HBV), indicativos de contato prévio com o vírus, permanente por toda a vida dos infectados, mesmo os que não cronificaram a doença. Na hepatite C, os marcadores mais empregados são o anti-HCV (anticorpos contra o vírus HCV), indicando contato prévio com o patógeno, porém não determinando o grau da infecção, e o HCV-RNA (material genético do vírus), primeiro sinal laboratorial Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR específico a aparecer, confirmando a infecção crônica e a resposta ao tratamento. A testagem para o HCV é recomendada para todos os indivíduos do grupo de risco, como maiores de 40 anos, pessoas vivendo com HIV, pacientes prestes a iniciar o PrEP ou em uso regular de PEP, transexuais, pessoas com múltiplas parcerias sexuais, trabalhadores do sexo, imunossuprimidos, em diálise, previamente transfundidos, com histórico de uso de drogas injetáveis ilícitas, pessoas privadas de liberdade, em crianças filhas de mães com o vírus ou em casos de pessoas com contato sexual com indivíduos portadores. Não existe tratamento específico para as formas agudas. Se necessário, apenas tratamento sintomático para náuseas, vômitos e prurido. Como norma geral, recomenda-se repouso relativo até a normalização das aminotransferases. Dieta pobre em gordura e rica em carboidratos é de uso popular, porém seu maior benefício é ser mais agradável ao paladar ao paciente anorético, sendo a única restrição absoluta em relação ao consumo de álcool, que deve ser interrompido por ao menos seis meses. As formas crônicas da hepatite B e C têm diretrizes clínico-terapêuticas definidas por meio de portarias do Ministério da Saúde, baseando-se em critérios específicos que favoreçam mau prognóstico. Devido à alta complexidade do tratamento, acompanhamento e manejo dos efeitos colaterais, deve ser realizado em serviços especializados (média ou alta complexidade do SUS). Após a indicação terapêutica, deverá ser feito exame de genotipagem para definir o tipo de tratamento (interferon convencional ou peguilado) e duração (6 ou 12 meses). HIV: A infecção pelo HIV (vírus da imunodeficiência humana) envolve diversas fases, com durações variáveis, que dependem da resposta imunológica do indivíduo e da carga viral presente. A primeira fase da infecção (infecção aguda) é o período do surgimento de sinais e sintomas inespecíficos da doença, que ocorrem entre a primeira e terceira semana após a infecção. A fase seguinte (infecção assintomática) pode se estender por anos, até o aparecimento de infecções oportunistas (tuberculose, neurotoxoplasmose, neurocriptococose) e algumas neoplasias (linfomas não Hodgkin e sarcoma de Kaposi). A presença desses eventos define a AIDS, forma cronificada do acometimento viral. De 2007 até junho de 2018, foram notificados 300.496 casos de infecção pelo HIV no Brasil, sendo 136.902 (45,6%) na região Sudeste, 60.470 (20,1%) na região Sul, 55.090 (18,3%) na região Nordeste, 26.055 (8,7%) na região Norte e 21.979 (7,3%) na região Centro-Oeste. No período de 2007 a junho de 2019, foram registrados 207.207 (69,0%) casos em homens e 93.220 (31,0%) casos em mulheres. A razão de sexos para o ano de 2018 foi de 2,6 (M:F), ou seja, 26 homens para cada dez mulheres. No período de 2007 a junho de 2019, no que se refere às faixas etárias, observou-se que a maioria dos casos de infecção pelo HIV encontra-se na faixa de 20 a 34 anos, com percentual de 52,7% dos casos. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Em relação à categoria de exposição ao vírus em maiores de 13 anos de idade, entre os homens, verificou-se que 51,3% dos casos foram decorrentes de exposição homossexual ou bissexual, 31,4% heterossexual, e 2% se deram entre usuários de drogas injetáveis. Entre as mulheres, nessa mesma faixa etária, nota-se que 86,5% dos casos se inserem na categoria de exposição heterossexual e 1,4% na de uso de injetáveis. A maior concentração dos casos de AIDS no Brasil se dá nos indivíduos com idade entre 25 e 39 anos, em ambos os sexos. Os casos nessa faixa etária correspondem a 52,4% dos casos do sexo masculino e, entre as mulheres, a 48,4% do total de casos registrados de 1980 a junho de 2019. No período de 2008 a 2018, verificou-se uma queda de 24,1% no coeficiente de mortalidade brasileiro para a AIDS, que passou de 5,8 para 4,4 óbitos por 100.000 habitantes. No mesmo período, no Norte e Nordeste, observou-se aumento de 26,0% e 2,8% nesse índice, respectivamente. Nas demais regiões, registrou-se diminuição do coeficiente de mortalidade, sendo que entre 2008 e 2018 o Sudeste apresentou queda de 43,8%, o Sul de 41,5% e o Centro-Oeste de 26,4%. A maioria das infecções pelo HIV-1 ocorre por meio das mucosas do trato genital ou retal durante a relação sexual. Nas primeiras horas após a infecção pela via sexual, o HIV e células infectadas atravessam a barreira da mucosa, permitindo que o vírus se estabeleça no local de entrada e continue infectando linfócitos T CD4+, além de macrófagos e células dendríticas. Após a transmissão do vírus, há um período de aproximadamente dez dias, denominado fase eclipse ou janela imunológica, antes que o RNA viral seja detectável no plasma. A homogeneidade do vírus, dito fundador, indica que o estabelecimento da infecção é resultado de um único foco de linfócitos T- CD4+ infectados da mucosa. A resposta imunológica inata que se estabelece no foco da infecção atrai uma quantidade adicional de células T, o que, por sua vez, aumenta a replicação viral. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A partir dessa pequena população de células infectadas, o vírus é disseminado inicialmente para os linfonodos locais e depois sistemicamente, em número suficiente para estabelecer e manter a produção de vírus nos tecidos linfoides, além de criar um reservatório viral latente em linfócitos T CD4+ de memória. A replicação viral ativa e a livre circulação do vírus na corrente sanguínea causam a formação de um pico de viremia por volta de 21 a 28 dias após a exposição ao HIV. Essa viremia está associada a um declínio acentuado no número de linfócitos T CD4+. Na fase de expansão e disseminação sistêmica, há a indução da resposta imunológica, mas esta é tardia e numericamente insuficiente para erradicar a infecção. A ativação imune, por outro lado, produz uma quantidade adicional de linfócitos T CD4+ ativados que servem dealvo para novas infecções. Ao mesmo tempo, o número crescente de linfócitos T CD8+ exerce um controle parcial da infecção, mas não suficiente para impedir, na ausência de terapia, a lenta e progressiva depleção de linfócitos T-CD4+ e a eventual progressão para a síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS). As estratégias para testagem do HIV têm o objetivo de melhorar a qualidade do diagnóstico da infecção pelo vírus e, ao mesmo tempo, assegurar que esse diagnóstico seja realizado o mais precocemente possível, de forma segura e com rápida conclusão. Os testes para detecção da infecção pelo HIV são empregados para a triagem sorológica do sangue doado e garantia da segurança transfusional, hemoderivados e órgãos para transplante, para os estudos de vigilância epidemiológica, e para realizar o diagnóstico da infecção pelo HIV. Atualmente, os testes moleculares são os mais eficazes para a confirmação diagnóstica, por permitirem o diagnóstico de infecções agudas e apresentarem melhor custo-efetividade. Existem, no entanto, grupos de pessoas que mantém a viremia em níveis baixos, indetectáveis nesses modelos de testagem, sendo necessária a realização de testes complementares, como o Western-Blot, menos sensíveis e ineficazes para o diagnóstico universal da doença. Os imunoensaios mais empregados em laboratórios são: Imunoensaios de segunda geração: indiretos, utiliza antígenos recombinantes ou peptídeos sintéticos derivados de proteínas do HIV que atuam como alvos principais para a resposta imune. Em comparação com os ensaios de primeira geração, os de segunda geração são mais sensíveis e específicos, por conterem uma maior concentração de proteínas (epítopos imunodominantes) relevantes. Em média, a janela de soroconversão dos ensaios de segunda geração é de 25 a 35 dias; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Imunoensaios de terceira geração: faz uso do formato “sanduíche”, usando os antígenos virais tanto na fase sólida como na forma de conjugado, detectando anticorpos anti-HIV dos tipos IgM e IgG. Devido à valência múltipla desses anticorpos, eles ficam ligados entre duas apresentações antigênicas. A possibilidade de detectar anticorpos da classe IgM torna esse ensaio mais sensível do que os de gerações anteriores e, ao mesmo tempo, há aumento da especificidade, pois o conjugado liga-se apenas à valência livre do anticorpo que está no complexo imune. A janela de soroconversão é de 20 a 30 dias; Imunoensaios de quarta geração: detecta simultaneamente o antígeno p24 e anticorpos específicos anti-HIV. O componente de detecção de anticorpo tem o formato de sanduíche, detectando assim todas as classes de imunoglobulinas contra proteínas recombinantes ou peptídeos sintéticos. Em média, a janela diagnóstica dos ensaios de quarta geração é de aproximadamente 15 dias, dependendo do ensaio utilizado. Na fase crônica, o diagnóstico pode ser feito de forma bastante acurada por meio de imunoensaios de 3ª ou 4ª geração associados a algum método complementar, como o já citado Western-blot. O tratamento do HIV se dá por meio do uso de medicamentos antirretrovirais, que inibem a multiplicação do vírus e afetam a expressão das proteínas que compõem a estrutura que protege seu material genético, poupando assim o enfraquecimento do sistema imunológico. Existem 21 medicamentos em diversas apresentações, divididos nas seguintes classes: Inibidores nucleosídeos da transcriptase reversa (NRTI): são fosforilados em metabólitos que competem pela incorporação ao DNA viral. Inibem a enzima transcriptase reversa do HIV de forma competitiva e eliminam a síntese de suas cadeias de DNA; Inibidores nucleotídeos da transcriptase reversa (nRTI): inibem a enzima transcriptase reversa da mesma forma que os NRTI, mas não necessitam de fosforilação inicial; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Inibidores não nucleosídios da transcriptase reversa (ITRN): ligam-se diretamente à enzima transcriptase reversa; Inibidores da protease (PI) inibem a enzima protease viral, a qual é crucial para a maturação das variantes do HIV após a saída da célula hospedeira; Inibidores de entrada (EI): algumas vezes denominados inibidores de fusão, interferem com a ligação do HIV aos receptores de linfócitos CD4+ e correceptores de quimiocina, evitando que o vírus penetre na célula; Inibidores da integrase: impedem a integração do DNA do HIV ao DNA humano. Os esquemas terapêuticos geralmente envolvem a combinação de dois a quatro fármacos de classes distintas, escolhidos com base nos possíveis efeitos adversos, na simplicidade do tratamento, na presença de doenças simultâneas e de acordo com possíveis interações medicamentosas. A adesão é maximizada quando os esquemas são acessíveis e toleráveis e quando se utilizam doses únicas por dia (preferível) ou 2 vezes por dia. O emprego de medicações antirretrovirais também é considerado, junto ao uso de preservativos em todas as relações sexuais, como uma medida de proteção contra o desenvolvimento da doença, dividindo-se em PEP, profilaxia pós-exposição para indivíduos que vivenciaram situações de violência sexual, acidente ocupacional ou relação sexual desprotegida, devendo ser administrado nas primeiras 72 horas após o evento, e PrEP, profilaxia pré-exposição, indicada para populações-chave, como homens que fazem sexo com homens trabalhadoras do sexo e parceiros sorodiferentes (nesse caso evitando contaminação cruzada). EXAMES GINECOLÓGICOS NA SUSPEITA DE ISTS: ANAMNESE: A anamnese representa o momento inicial de consolidação de vínculos entre o médico e a paciente, sendo recomendado que o primeiro mantenha uma postura amigável, cordial e empática, inspirando confiança. A consulta inicia pela identificação da paciente (nome, idade, estado civil, grau de instrução, naturalidade e procedência, profissão). Seguem-se, como no processo clássico da entrevista clínica, a pesquisa da queixa principal, sua evolução e o comportamento da patologia que traz a paciente ao consultório. Os passos da anamnese são comuns aos de qualquer consulta clínica e devem ser sempre observados de forma completa, pois a paciente tem de ser vista como um todo, não apenas como portadora de uma doença ginecológica. Devem, entretanto, ser enfatizados os seguintes pontos: Na revisão de sistemas, indagar sobre alterações no hábito intestinal (podem ser úteis para o diagnóstico da causa da dor pélvica), alterações urinárias (infecções), mudança no apetite e insônia; Durante os antecedentes patológicos, verificar doenças da infância, realização prévia de cirurgias (curetagens, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR cesariana, ooforectomia, histerectomia, etc.), obesidade, uso de álcool/tabaco/drogas ilícitas, medicamentos de uso contínuo, HAS, DM e tromboembolismo; Dentre os antecedentes familiares, explicitar possível histórico de câncer de mama ou ginecológico, outras neoplasias (principalmente câncer colorretal), diabetes, hipertensão, distúrbios de tromboembolismo, osteoporose e doenças tireoidianas; No perfil psicossocial, não esquecer de averiguar condições de higiene e habitação, nível socioeconômico (da paciente e de seus pais), situação familiar, presença de animais em casa, grau de instrução e hábitos de vida atuais e pregressos. ANTECEDENTES GINECO-OBSTÉTRICOS: Esse segmento corresponde ao cerne da consulta ginecológica, e deve contar com a coleta de dados nos seguintes aspectos: Data de ocorrência da menarca, sexarca e da menopausa. Velocidade de crescimento durantea puberdade (comparação com colegas), presença de hirsutismo e acne; Data da última menstruação (DUM), comportamento dos ciclos, número médio de dias (quando irregular, explorar qual o mínimo e o máximo), duração e intensidade do fluxo menstrual, sintomas perimenstruais, ocorrência de ciclos anovulatórios, alterações na dinâmica menstrual e atrasos; Contracepção: qual o tipo, dados sobre uso de contraceptivos hormonais (idade de início e duração), métodos utilizados previamente (sendo avaliado o uso eficaz), satisfação e adaptação com o método atual, e conhecimento de outras opções; História obstétrica: indagar sobre o número de gestações, partos (vaginais e por cesárea) e abortos, anormalidades durante o pré-natal, complicações durante o parto, peso dos recém- nascidos, duração da amamentação, intervalo entre partos, ocorrência de infecções, partos prematuros, gestações ectópicas e molares; Fluxos genitais: tipo de corrimento, se com ou sem odor, coloração, prurido (oportunidade para orientar quanto à normalidade e às características da leucorreia fisiológica e do muco cervical). O uso de jeans apertado, roupa íntima de material sintético, sabão em pó (não neutro) na lavagem das roupas e desodorante íntimo estão frequentemente relacionados a queixas de prurido vulvar, podendo causar alterações no corrimento; Vida sexual: indagar sobre atividade, satisfação, libido, orgasmo. Pesquisar anorgasmia, frigidez, dispareunia (profunda ou à penetração), posições menos dolorosas, vaginismo, sangramento pós-coital. Também se devem aferir os riscos de exposição a ISTs (uso de preservativo, número de parceiros sexuais); Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Sintomas climatéricos: fogachos, atrofia urogenital (dispareunia, secura vaginal, perda de urina), perda de libido, alterações cutâneas. É importante determinar o padrão menstrual na perimenopausa, pois alterações caracterizadas pelo aumento de fluxo (em quantidade de sangramento ou número de dias) geralmente exigem avaliação endometrial; Queixas mamárias: necessário averiguar a presença de nódulos palpáveis, mastalgia (perimenstrual ou não), derrame papilar (espontâneo ou somente à expressão intencional, além de sua característica, sanguinolento, amarelado e espesso, água-de-rocha). Fumo, idade na primeira gravidez a termo e número de gestações, uso de anticoncepção hormonal, idade na menopausa e antecedentes familiares são fatores epidemiológicos importantes a serem investigados; Queixas de cunho urinário: incontinência (de esforço, de urgência ou mista), sensação de prolapso genital (“peso” na vagina), hábito miccional; Realização de tratamentos ginecológicos prévios, como uso de cremes vaginais, cauterizações e cirurgias (como a himenectomia). Deve-se perguntar sobre o último exame citopatológico de colo e os resultados deste. EXAME FÍSICO: O exame físico deve ser completo, assim como em outras especialidades clínica, porém especial atenção deve ser direcionada ao abdome (presença de cicatrizes, assimetrias e irritação, além de ascite), à pressão arterial (verificar variação ortostática), peso, altura e impressão geral (humor, postura, estado geral, atitude, estado nutricional e autocuidado). EXAME DAS MAMAS: O exame das mamas se inicia com a inspeção estática, com paciente sentada, com colo desnudo e braços ao longo do corpo. Em seguida, observam-se as mamas enquanto a paciente ergue os braços acima da cabeça, depois com as mãos na cintura e fazendo uma contratura contra esta (momento de inspeção dinâmica). Essa parte do exame é relevante para se detectarem retrações e abaulamentos, simetria entre as mamas, tumorações evidentes, secreção papilar espontânea e anormalidades nos mamilos. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Ainda com a paciente sentada, ocorre a palpação das cadeias de linfonodos mais propensas a serem atingidas por um tumor. Palpam-se as regiões supraclavicular e cervical e, então, a cadeia axilar bilateral, procurando deixar o braço da paciente relaxado. O exame continua com a palpação de cada mama. A paciente fica em decúbito dorsal, e o examinador deve ficar do lado da mama a ser examinada. O exame compreende dois momentos, ora com a mão espalmada e dedos juntos, realizando uma exploração completa da mama, ora com as polpas digitais para avaliar detalhes. Além de nódulos e massas, é necessário investigar a presença de sinais inflamatórios, alterações na vascularização superficial e edema da pele da mama (peau d’orange ou mama em casca de laranja). Aso a paciente se queixe de derrames papilares espontâneos, é realizada a expressão do mamilo, feita de forma centrípeta, seguindo um movimento similar ao dos ponteiros do relógio, delimitando o foco do derrame, o que será útil em eventuais abordagens cirúrgicas. EXAME PÉLVICO: Quando a consulta chega ao exame pélvico, é importante o posicionamento correto da paciente. O ideal é a posição de litotomia em mesa ginecológica: decúbito dorsal, nádegas junto à borda da mesa de exame, com coxas e joelhos fletidos, descansando os pés ou a fossa poplítea nos estribos (também chamados de perneiras). É importante que a paciente esteja despida e, de preferência, coberta com um avental de abertura posterior e um lençol para cobrir parcialmente o abdome e os membros inferiores. Além da “posição ginecológica”, pode também ser usada a posição de Sims, que permite a realização do toque em uma gestante em trabalho de parto e a visualização da vulva, mas depende de maior manipulação. Se a mesa adequada não estiver disponível, o médico deve orientar a paciente a colocar seus calcanhares juntos e abrir o máximo possível seus joelhos. EXAME DA VULVA E DO PERÍNEO: Esse momento do exame é realizado basicamente com a inspeção. Observam-se a distribuição e as características dos pelos, o trofismo vulvar, as lacerações no períneo, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR a secreção exteriorizada, os condilomas e outras lesões cutâneas (erosões, ulcerações, alterações na pigmentação), a presença ou ausência de hímen, o tamanho dos pequenos lábios e o clitóris. Na região anal, procura-se por plicomas, hemorroidas, fissuras ou prolapsos. Quando há áreas suspeitas na vulva, pode-se utilizar o teste de Collins, que colore com mais força as áreas com maior replicação celular, marcando assim o local para biópsia. O vestíbulo e o introito vaginal devem ser avaliados também sob esforço, solicitando que a paciente realize a manobra de Valsalva, para verificar se ocorre descida da mucosa vaginal para próximo do vestíbulo, ou mesmo além dele (exteriorização). Com dois dedos introduzidos na entrada da vagina, solicita-se o esforço, e se observa que parte da vagina prolapsa: parede anterior (cistocele), uretra (uretrocele, ocorrendo retificação progressiva do seu ângulo), parede posterior (retocele) ou colo uterino/útero (prolapso uterino), ou mesmo a cúpula vaginal, nas histerectomizadas (elitrocele). Na presença de retocele, é importante realizar o toque retal e vaginal unidigital simultaneamente, para avaliar a presença de alça intestinal entre o reto e a vagina (enterocele), o volume de tecido interposto entre eles. Palpando-se o vestíbulo e solicitando que a paciente contraia o ânus, avalia-se quanta força exercem os músculos perineais e os elevadores do ânus. Quando há rotura perineal ou diástase desses músculos, sente-se pressão mínima ou nula sobre os dedos, geralmente associada a uma menor quantidade de tecido entre a vagina e o reto. EXAME ESPECULAR:O espéculo bivalve é inserido na vagina num percurso oblíquo que tem como objetivo desviar da uretra, afastando os pequenos lábios e movendo-se delicadamente em direção posterior, mudando a posição do equipamento para transversal (inicialmente era longitudinal). O médico deve sempre avisar antes de introduzir o espéculo na vagina da paciente, tranquilizando-a em relação a dor, mas mantendo-a ciente de um possível desconforto. Após a abertura do espéculo, busca-se individualizar o colo do útero e avaliar o pregueamento e trofismo da mucosa vaginal, analisando a presença e o tipo das secreções, lesões, condilomas, cistos de retenção e ectopia, além da existência de septos vaginais. Após a coleta de material para o exame a fresco, é necessário limpar as secreções alojadas à frente do colo (podendo usar soro fisiológico), e somente após essa remoção, proceder com a aplicação de ácido ascético de 1 a 5%, que após 2 a 4 minutos pode destacar lesões leucoacéticas, que se tornam brancas e brilhantes. Depois dessa análise, é aplicada a solução de lugol para realização do teste de Schiller, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR que identifica a presença de células escamosas ricas em glicogênio. Nele, se o colo se corar uniformemente, ganhando tom escuro, o procedimento é considerado normal (pode ser visto como iodo positivo ou Schiller negativo); porém, se algumas áreas se mantiverem descoradas, o teste é classificado como alterado (iodo negativo ou Schiller positivo). No teste de Schiller em mulheres com vaginite atrófica, a reatividade ao iodo pode ser mais baixa, com resultados normais designados como “iodo-claro”. Somente a mucosa escamosa deve se corar, portanto não se deve esperar pigmentação da endocérvice (glandular) e da mucosa de transição. A análise da secreção vaginal é importante para o diagnóstico de vulvovaginites. O exame a fresco é realizado por meio da coleta da secreção vaginal com a extremidade arredondada da espátula de Ayre e se espalha o material sobre dua gotas numa lâmina previamente preparada, uma com hidróxido de potássio a 10%, e a outra com soro fisiológico. Após o Whiff test (verificação de mudança de odor para cheiro de peixe indica liberação das aminas), essa lâmina vai para o microscópio. A outra extremidade da espátula de Ayre (em rabo-de-peixe) é utilizada para coleta de raspado cervical para o exame de Papanicolau (ou exame preventivo do câncer de colo). A parte maior da espátula deve ser colocada no orifício cervical e depois girada em 360°, para coletar células de toda a circunferência da zona de transição. O objetivo dessa raspagem é destacar células da junção escamocolunar (JEC), área em que a mucosa escamosa e a glandular se encontram, uma vez que essa é a sede da maioria das alterações celulares neoplásicas e pré-neoplásicas. O material, depois de colhido, deve ser imediatamente espalhado sobre a lâmina e fixado para posterior análise citopatológica. O Instituto Nacional de Câncer do Brasil (INCA) recomenda oferecer rastreamento organizado para mulheres de 25 a 60 anos por meio do exame preventivo. Pacientes com vida sexual ativa, independentemente da idade, devem realizar o teste. A periodicidade desse rastreamento deve ser anual, podendo ocorrer a cada 3 anos após dois exames normais consecutivos com intervalo de 1 ano. Mulheres em grupos de risco (HIV-positivo ou imunodeprimidas) devem continuar a realizá-lo anualmente, vista a maior chance de desenvolver neoplasias decorrentes da infecção por HPV. Esse exame também requer um colposcópio, instrumento semelhante a uma lente de aumento, utilizado para visualizar melhor o colo uterino, uma sala ampla, com mesa adequada e um eletrocautério, além de pinças e lâminas para coleta do material. O exame colposcópico deve ser feito, preferencialmente, em tempo diferente da coleta de material para colpocitologia, mas Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR não necessariamente. A Colposcopia pode ser realizada em mulheres gestantes sem restrições, mas a partir do sétimo mês, o exame é mais desconfortável e, de maneira geral, deve ser evitado para prevenir sangramentos. Não existe uma época melhor do ciclo menstrual para executar o exame, mas de preferência, deve-se evitar o período menstrual, pois o fluxo de sangue afeta a visibilidade do colo. Os resultados da análise desse material podem ser estratificados em: Achados normais: epitélio escamoso original, epitélio colunar e zona de transformação; Achados anormais: epitélio acetobranco plano, epitélio acetobranco denso (*), mosaico fino, mosaico grosseiro (*), pontilhado fino, pontilhado grosseiro (*), iodo parcialmente positivo, iodo negativo (*) e vasos atípicos (*); Alterações sugestivas de câncer invasivo (marcadas com *); Colposcopia insatisfatória: JEC não visível, inflamação ou atrofia severas, trauma, e cérvice não visível; Miscelânea: condiloma, queratose, erosão, inflamação, atrofia, pólipos e deciduose. TOQUE VAGINAL: O toque é realizado após enluvar a mão, com um ou dois dedos lubrificados (médio e indicador), introduzidos no canal vaginal, tentando avançar no sentido posterior, com pressão uniforme para trás. Para introduzir os dedos, afastam-se os grandes e os pequenos lábios com o polegar e o dedo mínimo. Às vezes, é necessário orientar a paciente a relaxar o assoalho pélvico, pedindo-lhe que faça um breve esforço para baixo ou tossindo, de forma a facilitar a penetração. Os dedos devem explorar a musculatura pélvica, as paredes vaginais, a cérvice, o fundo-de-saco anterior e posterior. A outra mão é colocada sobre o baixo ventre, e as mãos são comprimidas delicadamente uma em direção a outra, com o objetivo de “segurar” o útero e explorar sus características (forma, o tamanho, o posicionamento, a consistência, a sensibilidade e a mobilidade). A retroversão Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR do útero pode prejudicar a avaliação, especialmente do tamanho. Durante o toque bimanual, o ovário direito costuma ser palpável numa mulher não obesa, ao passo que o ovário esquerdo é dificultado pelo cólon. Trompas e ligamentos redondos são palpáveis quase somente quando estão aumentados de volume, por inflamação ou infiltração, com sua presença indicando alerta. Procuram-se detectar também nódulos e tumorações no fundo-de- saco de Douglas, os quais podem significar endometriose, desencadeando tenesmo ou dor quando tocados. TOQUE RETAL: Essa porção do exame não é costumeiramente realizada na prática clínica, mas não deve ser dispensada face a sintomas intestinais, suspeita de endometriose profunda, neoplasias ou sangramentos retais. O toque bimanual (uma mão examinando a vagina, enquanto a outra apalpa o reto) pode ser de grande valia para descartar enterocele em casos de distopias pélvicas. ULTRASSONOGRAFIA GINECOLÓGICA: A ultrassonografia (USG) é a primeira escolha como método de imagem para a avaliação da pelve. São empregadas as vias transabdominal (TAB) e transvaginal (TVG) de forma combinada para aumentar a capacidade de detecção do exame. As vias TAB, perineal e transretal são utilizadas nos casos de avaliação pélvica de pacientes virgens e como pontos complementares para análise da presença de miomas no fundo uterino e visibilização global do trato urinário e do abdome. AVALIAÇÃO DO ÚTERO: Desde a vida fetal até a idade adulta, as dimensões uterinas diferem, sendo um órgão de comportamento dinâmico. São realizadas três medidas: comprimento do útero, medido da cérvice ao fundo (serosa); largura da maior medidalateral; e maior diâmetro anteroposterior (AP). Para o cálculo do volume uterino, utiliza-se a seguinte regra: volume = comprimento x largura x diâmetro AP 0,45 (nos úteros de formato piriforme) e 0,52 (nos outros formatos). As malformações congênitas mais comuns são as anomalias fusionais, principalmente as do útero, da cérvice e da vagina. As principais manifestações dessas condições são: Útero didelfo, formado por útero e cérvice duplos, podendo haver vagina única ou também dupla; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Útero bicorne: possui dois cornos uterinos, com um ou dois colos; Útero septado. Em cerca de 50% das malformações uterinas, há outras alterações associadas, especialmente do sistema urinário. A principal forma de avaliar tais anomalias e descartar a presença de massas (simuladas pelo útero bicorne) é por meio da ressonância magnética. Ao longo de toda a vida, o endométrio é submetido à ação dos hormônios e, durante a idade reprodutiva, sua camada funcional (parte esponjosa + parte compacta) sofre intensas alterações morfológicas cíclicas, o que não ocorre com a camada basal. A espessura endometrial é medida na dimensão AP (corte sagital), de uma camada basal à outra. Habitualmente, a interface endometrial em corte longitudinal apresenta- se como duas fitas ecogênicas com densidade maior do que o miométrio, podendo-se perceber o aspecto trilaminar na fase periovulatória. A ultrassonografia não pode distinguir condições endometriais benignas de malignas, sendo necessária uma investigação complementar com curetagem uterina, biópsia ou histeroscopia, quando houver suspeita de alterações. Nas mulheres pós-menopáusicas, a imagem endometrial é de uma linha ecogênica, homogênea, bem delimitada e refringente. Eventualmente, pode mostrar diminutas áreas císticas (1 a 2 mm), representando endométrios atrofiados císticos. O grande papel da ultrassonografia transvaginal na pós-menopausa é definir quais pacientes necessitam de uma investigação complementar, mesmo quando apresentam sangramento pós-menopáusico. A espessura endometrial superior a 5 mm está associada ao desenvolvimento de carcinoma local, com risco que cresce conjuntamente a essa medida. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR As sinéquias intrauterinas aparecem na ultrassonografia como irregularidades da cavidade uterina, com perdas focais ou difusas do endométrio, e também interessam ao miométrio, afetando a junção endometrial- miometrial. Os miomas estão presentes em cerca de 20% das mulheres com mais de 35 anos, principalmente na população negra. Na ultrassonografia, essas massas aparecem como discos arredondados ou ovais, de aparência sólida, com ecogenicidade moderada e, quanto maior for a fibrose, maior será a ecogenicidade. Os submucosos distorcem a linha central do endométrio. A presença de degeneração cística é caracterizada pelo achado de áreas anecoides irregulares no interior do mioma. No que se refere à pesquisa de endometriose ovariana e pélvica, a US transvaginal pode ser usada como método de investigação de primeira linha, quando houver suspeita da doença. As imagens ecográficas de acúmulo de líquido no interior da cavidade uterina têm relação direta com a idade. Antes da menarca e logo após esta, são relacionadas a anomalias congênitas. Após a menopausa, têm sido associadas à malignidade do colo uterino ou endométrio, estenose cervical e uso de TRH, entretanto, uma pequena lâmina pode ser compatível com o processo de atrofia senil. Uma pequena quantidade de líquido na cavidade endometrial durante a menstruação é normal, porém, na presença de moléstia inflamatória pélvica, pode significar endometrite associada, que se caracteriza também por aumento da espessura endometrial. A ultrassonografia é útil no estadiamento de neoplasia maligna de colo uterino, avaliando a extensão do tumor para o colo e para os paramétrios. Podem-se também analisar áreas hipo ou hiperecoicas para observar as regiões de degeneração ou necrose. A ultrassonografia transvaginal e a transabdominal podem localizar o dispositivo intrauterino com precisão. Normalmente, identifica-se o DIU pela visão das hastes como dois pontos refringentes, na forma de T. AVALIAÇÃO DE TUBAS E OVÁRIOS (ANEXOS): Os ovários estão localizados na pelve, lateralmente ao útero e medialmente aos vasos ilíacos internos. Apresentam parênquima homogêneo com densidade semelhante ao miométrio e uma região Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR central, medular, mais ecogênica, variando de tamanho conforme a idade da paciente e seu estado endocrinológico. Após a menopausa, a USG torna-se mais sensível que o exame físico para a avaliação do tamanho dos ovários. Cálculo do volume ovariano = diâmetro longitudinal x AP x transversal x 0,45 (em ovários de aspecto normal). As principais variações anatômicas da gônada feminina são os ovários policísticos e o ovário em fita. Os ovários policísticos representam uma das mais comuns variantes anatômicas e podem estar associados à SOP, tendo forma arredondada, em geral maior do que a habitual, na maioria das vezes bilateralmente, e contendo mais de 10 folículos imaturos de até 9 mm de diâmetro, visualizados como pequenas áreas anecoicas bem definidas na periferia. O ovário rudimentar ou em fita está associado à síndrome de Turner e se apresenta, na USG, pequeno, tubular e de difícil definição. Entretanto, sua identificação confirma a síndrome. Ovários localizados muito cranialmente podem não ser vistos pela técnica transvaginal, enquanto a via abdominal pode não ter sensibilidade suficiente para distinguir estruturas tão pequenas quanto os ovários atróficos da pós- -menopausa. Outro fator que dificulta a visualização dos ovários é a ausência do útero nas mulheres histerectomizadas, pois se perdem as relações anatômicas. No que se refere às tubas uterinas, a ultrassonografia consegue diagnosticar as duas principais complicações relacionadas: a MIPA é a gravidez ectópica. Na MIPA, podemos identificar a sua forma crônica, a hidrossalpinge (coleção líquida, cilíndrica, no interior tubário). É possível avaliar e monitorar o desenvolvimento de folículos ovarianos e determinar o momento em que ocorre a ovulação. O início desse processo é caracterizado por folículos com ecos cheios, espessamento da parede folicular e desaparecimento seguido de formação do corpo lúteo. Ecos de baixa densidade característicos do cumulus oofurus dentro dos folículos podem ser visualizados no folículo maduro pré-ovulatório. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR O rastreamento ecográfico deve iniciar 5 ou 6 dias antes do dia esperado da ovulação. Em geral, a ovulação ocorre quando a medida do diâmetro folicular médio varia de 18 a 28 mm, e é interessante conhecer o estado hormonal da paciente, pois 1 ou 2 dias após o pico de LH, o folículo cheio desaparece e se identifica líquido livre no fundo-de-saco. O rastreamento folicular pode ser feito em dias alternados até que se detecte um folículo de 16 a 18 mm e, a partir desse momento, o seguimento deve ser diário até ocorrer a ovulação. A ecografia é parte essencial da fertilização in vitro, sendo utilizada para o seguimento do desenvolvimento folicular e da coleta de oócitos. O maior risco consiste na punção de vasos sanguíneos e do intestino. O ultrassom melhora os resultados da transferência de embriões, pois possibilita a visualização em tempo real da localização do cateter dentro da cavidade uterina. ULTRASSONOGRAFIADAS MAMAS: A USG mamária tem papel importante, auxiliando no esclarecimento de mamografias alteradas, especialmente na avaliação de massas assimétricas e na diferenciação das massas sólidas e císticas. Esse exame não deve ser utilizado como único método de rastreamento populacional de câncer de mama, mas é útil em casos especiais, como em gestantes e mulheres com menos de 30 anos e sintomas ou achados focais. Os cistos mamários podem ser simples, complicados ou complexos. Os cistos simples são bem circunscritos, com parede lisa, anecoicos, com sombra posterior e ausência de componentes sólidos, enquanto os complexos têm ecos internos, misturam componentes sólido e cístico e sempre devem ser investigados. O risco de malignidade nos simples é inferior a 1% e pode chegar a 40% nos complexos. A US mamária também pode ser útil na determinação da extensão local do câncer de mama, auxiliando no planejamento pré- operatório e inclusive detectando outros locais com tumoração, e também na verificação da integridade das cápsulas de implantes de silicone, diagnosticando prematuramente uma ruptura em caso da presença de microgrânulos locais. HISTEROSSONOGRAFIA: A histerossonografia é uma técnica alternativa para o exame da cavidade uterina, da superfície endometrial e do miométrio. O exame também é estendido ao estudo das tubas uterinas e da cavidade pelviperitoneal. Os problemas clínicos cujo diagnóstico é facilitado por esse exame incluem fibromiomas, sangramento uterino anormal, investigação de abortamento habitual e infertilidade e status pós- operatório do útero, devendo ser realizada apenas após o término da menstruação ou do sangramento irregular. Ésse um método efetivo para detectar pequenas massas uterinas e anormalidades endometriais que foram diagnosticadas pelo ultrassom transvaginal convencional e não puderam ser distinguidas de lesão Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR endometrial ou miometrial, nem ter sua localização exata na cavidade. Permite também a ótima visualização das malformações uterinas e das sinéquias e a correta identificação de pólipos endometriais, miomas e alterações da espessura endometrial patológicas, favorecendo a escolha mais acertada da técnica cirúrgica para investigação complementar ou tratamento. DOR PÉLVICA E SEUS DIAGNÓSTICOS DIFERENCIAIS NA PRÁTICA DIAGNÓSTICA: A dor pélvica aguda tem início rápido, com aumento abrupto de intensidade e episódios de curta duração, muitas vezes associada à instabilidade dos sinais vitais e a anormalidades tanto ao exame físico quanto à avaliação laboratorial. A dor cíclica é aquela intima e definitivamente relacionada ao ciclo menstrual, sendo principalmente representada pela dismenorreia. A dor pélvica crônica (DPC), por sua vez, representa o quadro álgico com duração maior que 6 meses, com intensidade suficiente para causar incapacidade funcional ou exigir atenção médica. Embora a dor aguda esteja frequentemente associada a reflexos autônomos profundos como náuseas, vômito, transpiração e apreensão, tais sintomas não são observados em mulheres com DPC. A dor aguda está relacionada com sinais de inflamação ou infecção, como febre e leucocitose, ausentes em estados crônicos. A fisiopatologia da dor pélvica aguda conta com a participação de mediadores da inflamação presentes em alta concentração em virtude de infecção, isquemia ou irritação química. Por outro lado, a etiologia da DPC muitas vezes está associada a alterações na modulação ou à “intensificação” de estímulos normalmente indolores, tornando a dor desproporcional ao grau de lesão dos tecidos Portanto, a dor crônica é caracterizada por respostas fisiológicas, afetivas e comportamentais diferentes daquelas associadas à dor aguda. ASPECTOS DA DOR PÉLVICA AGUDA: As dores agudas não cíclicas exigem diagnóstico e tratamento rápidos, uma vez que retardos nesse processo aumentam a morbidade e a mortalidade nas pacientes afetadas. A primeira percepção de dor visceral é uma sensação vaga, profunda e mal localizada, a associada a respostas reflexas autônomas. A dor na região da parede abdominal é denominada referida. Essa é bem localizada e mais superficial, ocorrendo na distribuição do nervo ou no dermátomo do segmento da medula espinal que inerva a víscera acometida, permitindo assim que a causa primária seja delimitada. A parte superior da vagina, o colo do útero, o útero e os anexos compartilham a inervação visceral com o intestino grosso, o reto, a bexiga, a parte inferior do ureter e a do intestino delgado, o que amplia as possibilidades diagnósticas, uma vez que um mesmo ponto referido pode se indicar um número amplo de órgãos. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A anamnese se mostra de fundamental importância, pois a definição do caráter da dor auxilia a direcionar as hipóteses diagnósticas de forma mais eficiente. O início rápido da dor é mais compatível com perfuração ou ruptura de alguma víscera oca ou isquemia após torção de um pedículo vascular, ao passo que manifestações tipo cólica ou espasmódicas intensas estão muitas vezes associadas a contrações musculares ou à obstrução de alguma víscera oca, como o intestino, o ureter ou o útero. A dor em todo o abdome indica reação generalizada a um líquido irritante na cavidade peritoneal, como sangue, secreções purulentas ou o conteúdo de algum cisto ovariano. É preciso perguntar à paciente a data e as características dos dois últimos períodos menstruais, bem como se apresentou sangramento anormal ou corrimento atípico. As histórias menstrual, sexual e contraceptiva, bem como a ocorrência prévia de ISTs e distúrbios ginecológicos são importantes. A anamnese da dor deve incluir as circunstâncias e o momento em que ela se inicia, bem como sinais de infecção (febre, calafrios, pus na secreção vaginal) e a presença de sintomas sugestivos de gravidez (amenorreia, sangramento irregular, náuseas, mamas doloridas), de distúrbios gastrintestinais (anorexia, náuseas, vômito, constipação intestinal, não estar evacuando, ausência de flatos, hematoquezia), urinários (disúria, urgência, polaciúria, hesitação, hematúria), e atribuíveis ao hemoperitônio (hipotensão ortostática, distensão abdominal e dor no quadrante superior direito ou no ombro). Todos os medicamentos em uso e cirurgias prévias devem ser registrados. Os exames laboratoriais iniciais incluem hemograma completo com contagem diferencial de leucócitos (leucograma), exame de urina de amostra do jato médio, teste de gravidez (análise de amostra de sangue ou urina), pesquisa de gonorreia e clamídia e ultrassonografia pélvica transvaginal. Outros exames como tomografia computadorizada com e sem contraste, exames bioquímicos ou tipo sanguíneo e pesquisa de anticorpos irregulares (se há história de transfusão prévia) podem ser indicados, dependendo dos sintomas da paciente e do diagnóstico diferencial. CAUSAS GINECOLÓGICAS PARA A DOR PÉLVICA AGUDA: GRAVIDEZ ECTÓPICA: A gravidez ectópica consiste na implantação do feto fora da cavidade uterina, frequentemente no percurso tubário, cuja dilatação aguda provoca dor. Caso essa estrutura se rompa, o quadro álgico abdominal localizado tende a ser aliviado temporariamente e substituído por dor pélvica ou abdominal difusa, não sendo incomuns episódios de tontura devido à formação de hemoperitônio. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A tríade sintomática clássica consiste em período de amenorreia seguido por sangramentos irregulares e início agudo de dor local. Caso uma massa esteja implantada no fundo de saco,pode surgir tenesmo. Dor no ombro direito também é um sintoma possível, pois o sangue retido na cavidade abdominal pode extravasar e irritar o diafragma (inervado pelas fibras de C3 a C5, com dermátomos no ombro). Os sinais vitais costumam indicar alterações ortostáticas na pressão arterial em caso de ruptura de gravidez ectópica. O diagnóstico desse sinal é feito por verificação do pulso e da pressão arterial da paciente durante o decúbito dorsal, depois de 3 minutos com a paciente sentada e, por fim, após 3 minutos de pé. Se a pressão arterial sistólica diminuir 20 mmHg ou se a pressão arterial diastólica diminuir 10 mmHg ao passar da posição de decúbito dorsal para a posição de pé, está confirmada a hipotensão ortostática. Em geral, não há aumento da temperatura na gravidez ectópica. Um algoritmo é empregado para diagnosticar a gravidez ectópica sem a necessidade de laparoscopia, devendo ser empregado sempre que possível. Suas principais ferramentas são a dosagem de β-hCG e a ultrassonografia transvaginal: Se houver um nível crescente de hCG superior a 2.000 mUI/ml e não for identificado saco gestacional intrauterino, considera-se que existe uma gravidez extrauterina e a paciente pode ser tratada sem outros exames; o A identificação de saco gestacional ou de gravidez intrauterina exclui definitivamente a gravidez extrauterina. A presença de batimentos cardíacos fetais nos anexos uterinos confirma a gravidez ectópica; A identificação de massas tubárias com mais de 3,5 cm com atividade cardíaca ou maior que 4 cm sem batimentos deve ser seguida de tratamento cirúrgico. O tratamento operatório é o método mais usado na gravidez ectópica, representando uma emergência quando rota. O acesso cirúrgico (laparotomia ou laparoscopia) e o procedimento (salpingectomia ou salpingostomia) usado no tratamento das gestações ectópicas dependem das circunstâncias clínicas da paciente, dos recursos disponíveis e do nível de habilidade do profissional. Caso haja hemoperitônio não drenado, a laparotomia é recomendada. A escolha entre a retirada ou a abertura da tuba uterina acometida depende da viabilidade dessa estrutura, sendo recomendada a salpingectomia em quadros de gestação rota. O desfecho reprodutivo após gravidez ectópica é avaliado por verificação da permeabilidade tubária por histerossalpingografia, da taxa de gravidez intrauterina subsequente e da taxa de gravidez ectópica recorrente. A permeabilidade tubária ipsilateral após conduta laparoscópica conservadora é de aproximadamente 84%. RUPTURA DE CISTO OVARIANO: Os cistos funcionais (folicular ou do corpo lúteo) são os cistos ovarianos mais comuns e são mais propensos à ruptura que as neoplasias, benignas ou malignas. A dor associada à ruptura do folículo ovariano no momento da ovulação é denominada mittelschmerz, que pode ser intensificada pela pequena quantidade de sangue que extravasa para a cavidade peritoneal e pela Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR alta concentração de prostaglandinas no líquido folicular. Em geral, a dor varia de leve a moderada e é autolimitada, com baixa chance de ocorrência de hemoperitônio em mulheres sem disfunções da coagulação. No desenvolvimento de um cisto do corpo lúteo hemorrágico na fase lútea do ciclo menstrual, a dor aguda é provocada pela rápida expansão da cápsula ovariana ou, no caso de ruptura, pelo sangue na cavidade peritoneal. A ruptura desse cisto pode causar um pequeno sangramento intraperitoneal ou hemorragia franca, com perda de sangue considerável e hemoperitônio. Na maioria dos casos, o cisto ovariano que não sofra torção, expansão rápida, infecção ou extravasamento não causa dor aguda. O cisto do corpo lúteo é aquele que, com maior frequência, sofre ruptura e causa hemorragia abdominal. Os sintomas do rompimento de um cisto do corpo lúteo são semelhantes aos da ruptura de uma gravidez ectópica, com atraso da menstruação em razão da atividade persistente do corpo lúteo. Em geral, a dor tem início súbito e está associada à dor pélvica crescente e, depois, à dor abdominal generalizada e à tontura ou síncope, com hemoperitônio considerável. A ruptura de um endometrioma ou de um teratoma cístico benigno (cisto dermoide) causa sintomas semelhantes, entretanto, não há tontura nem sinais de hipovolemia, uma vez que a perda de sangue é mínima. O sinal mais importante desse quadro é a dor intensa à palpação do abdome, principalmente à descompressão súbita no quadrante inferior localizada ou generalizada, provocada por irritação peritoneal. Pode haver distensão abdominal moderada com diminuição dos ruídos hidroaéreos. Ao exame pélvico, muitas vezes há massa palpável em caso de ruptura incompleta do cisto com extravasamento. O diagnóstico e o tipo de cisto roto são identificados por exames de sangue e ultrassom transvaginal. É preciso solicitar teste de gravidez, hemograma completo e, em caso de hipotensão ortostática, tipagem sanguínea e pesquisa de anticorpos irregulares. É incomum haver leucocitose, e o hematócrito só se altera se há perda ativa de sangue. A interpretação correta das imagens de US transvaginal ajuda a caracterizar uma estrutura cística na pelve como cisto dermoide, endometrioma, corpo lúteo ou abscesso pélvico, bem como a estimar a quantidade de líquido intraperitoneal. Há indicação de exploração cirúrgica se a ruptura do cisto causar hemoperitônio (corpo lúteo) ou peritonite química (endometrioma ou cisto dermoide) consideráveis, que poderiam comprometer a fertilidade no futuro, ou abdome agudo (abscesso), que pode ser fatal. A presença de hipotensão ortostática, anemia considerável, hematócrito do líquido uterino acima de 16% ou grande quantidade de líquido peritoneal livre na ultrassonografia sugere hemoperitônio importante e, em geral, requer tratamento cirúrgico por laparoscopia ou laparotomia. TORÇÃO DOS ANEXOS: A torção do pedículo vascular de um ovário, de uma estrutura com cistos, de uma tuba uterina, de um cisto paratubário ou de um mioma uterino pediculado provoca isquemia das estruturas distais ao pedículo torcido e início agudo de dor. O teratoma cístico Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR benigno é a neoplasia mais comum a sofrer torção. Em razão das aderências, o carcinoma ovariano e as massas inflamatórias, como endometriomas ou abscessos, raramente são afetados por torção. A torção é incomum nas tubas e nos ovários normais, embora possa ocorrer no ovário policístico. O diagnóstico de torção dos anexos é difícil, baseando-se na anamnese, no exame clínico e em outros exames, como a ultrassom transvaginal. Não há um tamanho específico ovariano para que torções possam ocorrer, mas nota-se que a maioria dos casos se dá em anexos com mais de 5 cm. A dor costuma ser intensa e constante, quando a torção é total, ou pode ser intermitente, caso seja parcial e intermitente. O início da crise álgica e do próprio fenômeno de torção muitas vezes coincidem com atividades físicas ou relação sexual. Em geral, há respostas reflexas autonômicas como náuseas, vômitos e agitação. Alguns sinais típicos desse quadro são uma pequena elevação da temperatura, taquicardia e leucocitose, que podem acompanhar a necrose tecidual. O teste de gravidez é negativo, a menos que haja gravidez coexistente. Deve-se suspeitar do diagnóstico em qualquer mulher com dor abdominal aguda e massa anexial unilateral. Ao exame, observa-se dor localizada local e dor à descompressão súbita na porção inferior do abdome. Outro sinal importante é a presença de grande massa pélvica ao exame bimanual. O diagnóstico da torção anexial é feitapela observação de uma elevação palpável no baixo ventre, uma vez que a região afetada aumenta de tamanho graças à impossibilidade de drenar o fluxo linfático e sanguíneo. Caso a ultrassonografia com Doppler indique presença de fluxo sanguíneo para a região, isso não invalida o diagnóstico. O tratamento dessa condição é cirúrgico, seja por laparotomia ou laparoscopia. É feita a reversão da torção, que pode preservar os anexos em suas funções hormonais e reprodutivas. DOENÇA INFLAMATÓRIA PÉLVICA (DIP): A DIP, atualmente denominada como Moléstia Inflamatória Pélvica ou MIPA, é uma síndrome clínica atribuída à ascensão de microrganismos do trato genital inferior rumo à endocérvice, espontânea ou devida à manipulação (inserção de DIU, biópsia de endométrio, curetagem, entre outros), comprometendo o endométrio (endometrite), tubas uterinas, anexos uterinos e estruturas contíguas. A maioria dos casos de MIPA (85%) é causada por agentes patogênicos sexualmente transmitidos ou associados à vaginose bacteriana. Classicamente reconhecidas como as principais etiologias da doença, a Chlamydia trachomatis e a Neisseria gonorrhoeae apresentam incidência decrescente, sendo encontradas em apenas 1/3 dos casos. As manifestações agudas dessas doenças estão associadas principalmente a bactérias entéricas, patógenos respiratórios ou microrganismos que colonizam a porção inferior do trato genital. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A ascensão dos microrganismos é favorecida por variações hormonais do ciclo menstrual. O muco cervical durante o fluxo menstrual apresenta menor efeito bacteriostático e a menstruação retrógrada pode favorecer a ascensão dos agentes. Esse processo também pode ser facilmente influenciado pela capacidade imunológica da paciente. A progressão da infecção por agentes aeróbios intensifica o consumo de oxigênio e diminui o potencial de oxirredução local que, aliados à desvitalização de tecidos, proporcionam ambiente anaerobiose. Nesse ambiente, os microrganismos normais passam a uma fase de crescimento lento e desenvolvem agentes oportunistas. Graças a essa relação, infecções multibacterianas podem ser evidentes. Os sinais/sintomas de sangramento vaginal anormal em pouca quantidade (spotting), dispareunia, corrimento vaginal, dor pélvica ou dor no abdome inferior, além de dor à mobilização do colo do útero ao toque, podem estar presentes na MIPA. A ocorrência de spotting em usuárias de anticoncepcional de baixa dosagem é comum e pode ser indicativa de DIP, devendo ser investigada. A endometrite (inflamação endometrial acompanhada por febre alta, sangramento vaginal anormal e corrimento alterado) é frequentemente a primeira manifestação clínica da MIPA. O processo infeccioso progride em direção às tubas, à cavidade peritoneal pélvica e, quando atinge o líquido peritoneal, o agente infeccioso pode progredir até o espaço infradiafragmático direito e promover a peri-hepatite ou síndrome de Fitz-Hugh-Curtis. Alguns fatores que potencializam o diagnóstico da moléstia inflamatória pélvica são: Condições socioeconômicas desfavoráveis; Início precoce da vida sexual (o número de casos é 3 vezes maior em indivíduos com menos de 25 anos); Comportamento sexual de risco; Uso de duchas e tampões vaginais; Recorrências de VB e vaginites; Uso de métodos contraceptivos (estudos analisam o risco de usuárias de CCO, para mulheres com DIU o risco é um pouco mais elevado, devido a possíveis lesões uterinas. Esse risco parece guardar relação inversa com o tempo desde a inserção do DIU, sendo mais alto nos primeiros 20 dias da inserção Os sinais mais importantes do acometimento inflamatório agudo são dor à mobilização cervical e dor bilateral à palpação dos anexos. A avaliação da pelve pode ser difícil em razão da dor e da defesa, mas a ausência de uma ou mais massas bem definidas diferencia a MIPA do abscesso tubo- ovariano ou da torção. A dor no quadrante superior direito pode ser um claro sinal de peri-hepatite gonocócica. O diagnóstico clássico de MIPA baseia-se em uma tríade de sinais e sintomas constituída por dor pélvica, dor à mobilização cervical e à palpação dos anexos e febre. Sabe-se que há grande variação de muitos sinais e sintomas entre mulheres com esse Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR distúrbio, o que dificulta o diagnóstico da doença em sua fase aguda. Muitas mulheres com a moléstia inflamatória pélvica apresentam sintomas sutis ou leves, os quais não são reconhecidos com facilidade. Logo, é provável que o atraso no diagnóstico e no tratamento contribua para as sequelas inflamatórias no trato genital superior. Nas formas sintomáticas da moléstia, o diagnóstico diferencial deverá ser feito mediante manifestações uroginecológicas, gastrointestinais e esqueléticas. Os critérios para esse diagnóstico clínico dividem-se em maiores e menores, sendo necessários três dos primeiros e um dos demais. Os esquemas de tratamento para MIPA devem proporcionar cobertura empírica de amplo espectro, abrangendo bactérias facultativas gram-negativas, anaeróbios e estreptococos. Um esquema ambulatorial com cefoxitina e E é tão eficaz quanto a internação para administração parenteral dos mesmos antimicrobianos. Portanto, a hospitalização somente é recomendada quando o diagnóstico é incerto, há suspeita de abscesso pélvico, a doença clínica é grave ou há dúvida sobre a adesão da paciente a determinado esquema ambulatorial. Pode-se considerar a alta das pacientes hospitalizadas quando a febre tiver cedido (temperatura corporal maior que 37,5°C por mais de 24 horas), o número de leucócitos tiver se normalizado, não houver dor à descompressão súbita e a repetição do exame mostrar acentuada melhora da dor à palpação dos órgãos pélvicos. ABCESSO TUBO-OVARIANO: Os abcessos tubo-ovarianos são complicações decorrentes da moléstia inflamatória pélvica, geralmente unilaterais e multiloculares. O repertório de sinais e sintomas são semelhantes ao da MIPA. A ruptura desses abcessos configura uma emergência cirúrgica, pois bactérias Gram- negativas presentes na região podem instalar quadros de choque. Os sinais vitais indicam febre, taquicardia e hipotensão arterial na paciente séptica. Na maioria dos casos, os abscessos podem ser palpados ao exame bimanual como massas fixas, de consistência firme, extremamente dolorosas e bilaterais, e observados no exame do fundo vaginal. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR O exame de imagem de escolha para o diagnóstico de abscessos tubo-ovarianos é a ultrassonografia, mas pode-se usar a tomografia com e sem contraste para confirmar o diagnóstico. O diagnóstico diferencial de uma massa unilateral inclui abscesso tubo-ovariano e torção anexial, gravidez ectópica, endometrioma, extravasamento de cisto ovariano e abscesso periapendicular ou diverticular. Se os resultados do exame físico e de imagem não forem definitivos, é preciso submeter a paciente a laparoscopia ou laparotomia. O tratamento desse quadro deve ser feito sempre com internação hospitalar, e é possível tentar uma abordagem conservadora inicial, por meio da antibioticoterapia de amplo espectro. Caso haja persistência da febre ou a paciente não apresente melhora clínica, deve-se proceder para a drenagem dos abscessos guiada por imagem, feita por via transabdominal ou transvaginal. A associação de drenagem e antibióticos intravenosos (IV) é considerada terapia de primeira linha. A ruptura de um abscesso tubo-ovariano causa rapidamente peritonite difusa, indicada por taquicardia e dor àdescompressão súbita nos quatro quadrantes do abdome. No choque endotóxico, há hipotensão e oligúria, e o desfecho pode ser fatal. Nessa situação, a laparotomia exploradora com ressecção do tecido infectado é obrigatória. LEIOMIOMAS UTERINOS: Os leiomiomas são tumores do músculo liso uterino, que causam desconforto quando comprimem a bexiga, o útero ou o reto, ou quando se fixam ao ligamento largo. Em geral, o desconforto é descrito como pressão ou dor acíclica e, com menor frequência, polaciúria, dismenorreia, dispareunia ou constipação intestinal. Não há associação entre o grau de dor e o volume ou o número de leiomiomas. Quadros agudos de dor causados por esses tumores são raros, mas podem acontecer em caso de torção ou degeneração da massa, essa última decorrente da redução do fluxo sanguíneo em situações de crescimento acelerado, como na gestação. Em mulheres não gestantes, o diagnóstico desse quadro pode ser confundido com o de MIPA. Um leiomioma subseroso pediculado pode sofrer necrose isquêmica por torção e causar dor semelhante à da torção anexial. Quando algum desses tumores torna-se pediculado na cavidade endometrial, há forte contração uterina, como se para expelir um corpo estranho, o que provoca dor semelhante à do trabalho de parto. Em geral, cólicas estão associadas à hemorragia vaginal. Com frequência, os sinais vitais estão normais, embora possa haver febre baixa e taquicardia leve em caso de degeneração. O Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR exame abdominal ou bimanual e a USG mostram uma ou mais massas sólidas irregulares que se originam no útero. O diagnóstico é feito pela associação de resultados de exames laboratoriais (presença de leucocitose) e de imagem (distinção entre massas anexiais e uterinas pelo exame ultrassonográfico). A ressonância magnética da pelve pode ser de grande valia em caso de dúvida. O leiomioma pode ser retirado por meio de cirurgia laparoscópica, que não é obrigatória. Quando a massa é submucosa e causa dor e hemorragia, no entanto, deve ser removida por histeroscopia transcervical. DISMENORREIA – DOR CÍCLICA: DISMENORREIA PRIMÁRIA: A dismenorreia é um distúrbio ginecológico comum que afeta até 60% das mulheres que menstruam. A dismenorreia primária é a dor menstrual sem doença pélvica, enquanto a dismenorreia secundária é a menstruação dolorosa associada a uma doença de base. Em geral, a dismenorreia primária surge 1 a 2 anos após a menarca, quando já se estabeleceram ciclos ovulatórios. O distúrbio afeta mulheres jovens, mas pode persistir até a faixa de 40 a 49 anos. Na maioria dos casos, a dismenorreia secundária surge anos após a menarca e pode ocorrer em ciclos anovulatórios. A dismenorreia primária tem como causa principal a secreção descontrolada de prostanoides pelo endométrio durante a menstruação, aumentando as contrações musculares uterinas com um padrão arrítmico, elevando o tônus basal e a pressão ativa, que reduz o fluxo sanguíneo e hipersensibiliza os nervos, causando assim dor. As prostaglandinas são encontradas em maior concentração no endométrio secretor que no endométrio proliferativo. A diminuição dos níveis de progesterona no final da fase lútea deflagra ação enzimática lítica, resultando na liberação de fosfolipídios com a produção de ácido araquidônico e ativação da via da ciclo-oxigenase (COX). Uma teoria afirma que as mulheres com dismenorreia têm aumento da atividade da enzima COX e da atividade da prostanoide sintase, o que induziu ao uso de antiinflamatórios não esteroides (AINE), inibidores da enzima COX, para tratamento. Em geral, a dor da dismenorreia primária começa algumas horas antes ou logo após o início de um período menstrual e pode durar até 48 a 72 h. A dor é semelhante à do trabalho de parto, com cólicas suprapúbica que melhoram com a movimentação do corpo, e pode ser acompanhada por dor lombossacra, dor que se irradia para a face anterior da coxa, náuseas, vômitos, diarreia e, em casos raros, episódios de síncope. O exame bimanual no momento do episódio de dismenorreia costuma mostrar dor à palpação do útero, mas não há dor intensa à mobilização do colo ou à palpação das estruturas anexiais. O diagnóstico da dismenorreia primária requer a exclusão de doença pélvica de base e a confirmação do caráter da dor. Hemogramas e testes de detecção para gonococos e clamídia auxiliam a descartar possíveis infecções bacterianas, inflamações do endométrio e manifestações subclínicas da MIPA. Caso não existam alterações ao exame ginecológico, o diagnóstico pode ser feito provisoriamente como dismenorreia primária, sem necessidade imediata de cirurgia. Os AINES são eficazes no tratamento dessa modalidade de dismenorreia, sendo tomados entre 1 a 3 dias antes do início do fluxo menstrual ou, em casos de ciclos irregulares, ao primeiro indício de dor ou sangramento, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR passando a uma administração contínua durante os primeiros dias do fluxo (6 em 6 ou 8 em 8 horas) para evitar que novos produtos da prostaglandina sejam criados. É indicado um ciclo de 4 a 6 meses de tratamento para que se analise a resposta individual a ele, modificando a posologia e o tipo de medicamento caso a proposta inicial não tenha êxito. Em caso de nova resposta negativa, medicamentos opioides podem ser prescritos para uso máximo de dois ou três dias. Os contraceptivos hormonais são indicados na dismenorreia primária resistente aos AINE ou em pacientes com dismenorreia primária sem contraindicações ao uso de contraceptivo hormonal e que não desejam contracepção. Os contraceptivos hormonais inibem a ovulação, diminuem a proliferação endometrial e criam um ambiente endócrino semelhante à fase proliferativa inicial do ciclo menstrual, quando os níveis de prostaglandinas são mínimos. O controle não farmacológico da dor, em particular por acupuntura ou estimulação nervosa elétrica transcutânea (TENS), também pode ser útil, bloqueando impulsos de dor por meio da interação direta com mediadores, sem de fato conter a cólica uterina. DISMENORREIA SECUNDÁRIA: A dismenorreia secundária é a dor menstrual cíclica decorrente de uma doença pélvica de base. A dor costuma surgir 1 a 2 semanas antes do fluxo menstrual e persiste até alguns dias após o fim do sangramento. As causas incluem endometriose, adenomiose, endometrite e moléstia inflamatória pélvica, uso de DIU de cobre, cistos do ovário, malformações pélvicas congênitas e estenose cervical. Embora o diagnóstico de dismenorreia primária seja baseado na anamnese e na presença de um exame pélvico normal, o diagnóstico de dismenorreia secundária pode exigir a análise de um diário da dor para que se confirme o caráter cíclico, e, além de ultrassonografia transvaginal, pode haver indicação de laparoscopia ou histeroscopia. É menos provável que haja alívio da dor por AINE e contraceptivos hormonais em mulheres com dismenorreia secundária do que naquelas com dismenorreia primária. A conduta empregada para solução da dismenorreia é tratar o distúrbio de origem. ADENOMIOSE: A adenomiose é definida como a presença de estroma e glândulas endometriais no miométrio, distantes da base do endométrio (difere da endometriose pois essa última apresenta tecido endometrial no peritônio). Muitas vezes há coexistência de adenomiose, endometriose e leiomiomas uterinos. Embora às vezes seja observada em mulheres no início da idade reprodutiva, a maior prevalência de quadros sintomáticos costuma ser acima de 40 anos. A maior paridade, a menarca precoce e os ciclos menstruais mais curtos são possíveis fatores de riscopara o desenvolvimento dessas massas. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Os sintomas referidos em quadros de adenomiose são o sangramento menstrual intenso ou prolongado, dispareunia e dismenorreia, iniciando-se cerca de 2 semanas antes do início do fluxo e perdurando até o fim da menstruação. Ao exame ginecológico, o útero apresenta aumento difuso, contudo não ultrapassa os 14 cm. No período menstrual, sua consistência torna-se amolecida e a palpação é dolorosa. Os anexos encontram- se normais, bem como a mobilidade do colo. O diagnóstico desse quadro é clínico, com exames de imagem apresentando resultados que não são definitivos. Em mulheres com queixa de aumento difuso do útero e teste de gravidez negativo, a dismenorreia secundária pode ser atribuída à adenomiose, no entanto, a confirmação da suspeita só pode ser feita com a histerectomia. A conduta adotada para uma paciente com adenomiose depende de sua idade e do interesse em manter a fertilidade, uma vez que o alívio da dismenorreia pode ser conseguido por meio de uma histerectomia, mas também pode decorrer de procedimentos menos invasivos, como AINES, contraceptivos orais combinados, e inibição da menstruação. ENDOMETRIOSE: Em casos de endometriose, glândulas e estroma do endométrio se proliferam para além do útero, podendo se acumular sobre os ovários ou no peritônio. Esse quadro ocorre em cerca de 10% da população feminina geral, acometendo 15 a 20% daquelas consideradas inférteis, e 30% das pacientes com dor pélvica crônica. As pacientes normalmente queixam-se de dismenorreia intensa e dor pélvica cíclica, que começa até 2 semanas antes da menstruação. A dor pode ser aguda ou compressiva, localizada na linha média ou abranger a parte inferior do abdome, o dorso e o reto. Outros sintomas são dispareunia profunda, infertilidade, sangramento irregular, mesmo com ciclos ovulatórios, e sintomas não ginecológicos, como disquezia (dor ao defecar) cíclica, urgência urinária, polaciúria, distensão abdominal e, raramente, hematoquezia ou hematúria. Os exames bimanual e retovaginal podem mostrar nódulos nos ligamentos uterossacros e volume compatível com endometrioma ovariano, e as pacientes podem sentir dor localizada à palpação do ligamento uterossacro ou do ligamento largo. A fibrose resultante da endometriose pode causar retroversão fixa do útero ou desvio lateral do colo uterino ou do útero. A acurácia do diagnóstico clínico de endometriose é de aproximadamente 50%. Mesmo que não seja possível fazer um diagnóstico definitivo em exames de imagem, geralmente é possível distinguir o endometrioma do corpo lúteo hemorrágico pelo aspecto na ultrassonografia. Cistos homogêneos de aparência hemorrágica que não desaparecem depois de um ou dois ciclos menstruais devem levantar suspeita de endometrioma. O diagnóstico definitivo é feito sob observação direta das lesões por meio da Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR laparoscopia ou laparotomia. Pontos avermelhados ou vesículas ativas, vermelhas ou incolores, geralmente indicam doença inicial, enquanto lesões fibróticas e pontos escuros semelhantes a tiro de pólvora sugerem lesões mais antigas. Os achados suspeitos devem ser biopsiados para confirmação. Lesões infiltrativas profundas e janelas peritoneais são mais frequentes no fundo de saco posterior, sobretudo nos ligamentos uterossacros, e podem causar dor por invasão de muitas terminações nervosas nessa área. O tratamento clínico pode ser indicado como primeira opção para mulheres com endometriose, fazendo uma prova com anti- inflamatórios não esteroides que podem ou não ter formulações estrogênicas ou progestágenas combinadas. O uso de contraceptivos orais combinados ou exclusivamente de progesterona também pode ser indicado, seja em ciclos ou de forma contínua. Para mulheres que mesmo nesse esquema terapêutico ainda continuam com sintomas de dismenorreia secundária com o uso cíclico, uma alternativa é instituir o uso de pílulas contínuas, com uma menstruação a cada 3 meses. O tratamento clínico de segunda linha é feito com altas doses de progestágenos ou análogos do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH). Pode ser iniciado em caso de sintomas refratários ou de pacientes com contraindicação ao uso de estrogênio. Os progestágenos isolados estão associados a poucas alterações metabólicas e são opções seguras e de baixo custo à intervenção cirúrgica. Esses hormônios controlam, de maneira efetiva, os sintomas de dor em cerca de três quartos das mulheres com endometriose. Para o tratamento cirúrgico, tanto a laparotomia quando a laparoscopia pode ser realizada, removendo as áreas de endometrioma por ablação ou ressecção, não esquecendo de sua cápsula. Em mulheres que não desejam mais engravidar, a histerectomia com salpingo-ooferectomia bilateral e a retirada de lesões é o tratamento com maior preferência. O risco de endometriose recorrente com terapia de reposição hormonal é pequeno se forem usadas preparações de estrogênio- progestágeno combinados e se evitado o uso de estrogênio sem oposição da progesterona. DOR AGUDA RELACIONADA À ENDOMETRIOSE: Em mulheres com endometriose, as glândulas e o estroma do endométrio implantam-se fora da cavidade uterina. A cada ciclo menstrual pode haver maior proliferação, com consequente inflamação, formação de tecido cicatricial, fibrose e surgimento de aderências. A dor aguda atribuível à endometriose geralmente é pré-menstrual e menstrual. Em caso de dor generalizada aguda não menstrual, é necessário considerar a possibilidade de ruptura de endometrioma (“cisto de chocolate” no ovário). CAUSAS NÃO-GINECOLÓGICAS PARA A DOR PÉLVICA AGUDA: APENDICITE: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A apendicite é a causa intestinal de dor pélvica mais comum entre mulheres, representando também o motivo mais frequente de cirurgia abdominal de emergência. Os sinais e sintomas desse quadro podem ser confundidos com a MIPA, porém náuseas e vômitos são mais presentes na apendicite. Em geral, o primeiro sintoma de apendicite é a dor abdominal difusa, principalmente na região periumbilical, seguida por anorexia, náuseas e vômito. Dentro de algumas horas, a dor costuma migrar para o quadrante inferior direito. Em seguida, pode haver febre, calafrios, vômito e constipação intestinal (retenção de flatos e fezes). Entretanto, muitas vezes esse padrão clássico de sintomas está ausente. A dor abdominal pode ser atípica quando o apêndice é retrocecal ou está totalmente dentro da pelve verdadeira. Nessa situação, pode haver tenesmo e dor suprapúbica difusa. Na maioria das vezes há febre baixa, mas a temperatura pode ser normal. A febre alta é comum quando há perfuração do apêndice. Em geral, há dor à palpação do quadrante inferior direito (ponto de McBurney). A presença de defesa muscular generalizada intensa, rigidez abdominal, dor à descompressão súbita, massa no lado direito, dor ao exame retal, sinal do psoas positivo (dor à flexão forçada ou à extensão passiva do quadril) e sinal do obturador (dor à rotação interna passiva da coxa fletida) indicam apendicite. Ao exame pélvico, não é comum encontrar dor à mobilização cervical ou à palpação bilateral dos anexos, mas pode haver dor à palpação dos anexos no lado direito. A observação de enchimento normal do apêndice à tomografia com contraste oral exclui apendicite. A laparoscopia diagnóstica ajuda a excluir outras causas de doença pélvica, mas pode ser difícil ver o apêndice o suficiente para que se exclua uma inflamação incipiente, portanto, a apendicectomiapode ser indicada quando há dúvidas sobre o diagnóstico. O tratamento inicial consiste na administração intravenosa de líquidos, restrição rigorosa da ingestão oral e uso de antibióticos pré-operatórios seguidos por laparoscopia ou laparotomia. A cirurgia com uma taxa de falso-positivo é aceitável e preferível à observação prolongada com risco de ruptura e peritonite. A ruptura do apêndice não só implica em risco de vida, mas também pode ter profundas consequências para a fertilidade de mulheres em idade reprodutiva. Com o surgimento dos exames de imagem, as taxas negativas de apendicectomia (laparotomia branca) são menores que 10%. DIVERTICULITE AGUDA: A diverticulite aguda é um distúrbio no qual há inflamação de um divertículo ou evaginação da parede do cólon, em geral, com acometimento do cólon sigmoide. O grupo mais acometido por esse distúrbio é o de mulheres na pós-menopausa, porém também é observada na faixa dos 30 a 49 anos. A dor intensa no quadrante inferior esquerdo da diverticulite pode suceder uma longa história de sintomas da síndrome do intestino irritável, com distensão, constipação intestinal e diarreia, embora, na maioria dos casos essa condição é assintomática. A probabilidade de perfuração e peritonite é menor na diverticulite que na apendicite. Em geral, há febre, calafrios e constipação intestinal, mas é raro haver anorexia e vômito. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Os ruídos hidroaéreos estão hipoativos e diminuídos na peritonite relacionada com a ruptura de abscesso diverticular. O exame abdominal mostra distensão com dor à palpação do quadrante inferior esquerdo e dor localizada à descompressão súbita. É possível que os exames bimanuais do abdome e da vagina mostrem uma massa inflamatória pouco móvel, de consistência pastosa, no quadrante inferior esquerdo. Leucocitose e febre são comuns. Pode haver resultados positivos para sangue oculto nas fezes em consequência da inflamação ou microperfuração colônica. A tomografia (com contraste ou não) é um complemento crucial para a anamnese e o exame físico, mostrando o edema intestinal e podendo descartar a hipótese de abcessos. O tratamento inicial da diverticulite, assim como na apendicite, é clínico, com reidratação intravenosa, dieta oral restrita e antibioticoterapia de amplo espectro. Caso sejam detectados abcessos, fístulas, obstruções ou perfurações, a cirurgia é mandatória. OBSTRUÇÃO INTESTINAL: As causas mais comuns de obstruções intestinais em mulheres são aderências pós- cirúrgicas, doença intestinal inflamatória, carcinomas do ovário ou intestino, ou encarceramento de uma hérnia. O início da sintomatologia se dá por meio de dor abdominal em cólica, acompanhada por distensão abdominal e vômitos, constipação e a obstrução de fato. Oclusões mais altas e agudas causam episódios precoces de vômito, inicialmente com conteúdo alimentar, seguido por bile, culminando na expulsão de líquido com odor fecaloide, ao passo que bloqueios no cólon aumentam o grau da distensão. No início da obstrução mecânica, os ruídos intestinais são agudos e intensos durante episódio de dor em cólica. À medida que a obstrução avança, surge a febre e os ruídos intestinais diminuem, sugerindo isquemia intestinal. A radiografia abdominal, executada na rotina de atendimento ao abdome agudo, em posição ortostática mostra um padrão gasoso característico, alças intestinais distendidas e níveis hidroaéreos, auxiliando a identificar se a obstrução é parcial ou completa (nessa situação não se observa gás no cólon). Pacientes com isquemia intestinal apresentam leucocitose. A obstrução completa requer cirurgia, enquanto a obstrução parcial frequentemente pode ser tratada com hidratação intravenosa, restrição da dieta e uso seletivo de aspiração nasogástrica. A causa da obstrução deve ser identificada e tratada quando possível, podendo ser associada a neoplasias malignas do trato gastrointestinal ou dos órgãos genitais. DOR PÉLVICA AGUDA DE ORIGEM NO SISTEMA URINÁRIO: A cólica renal por litíase ureteral é provocada pelo aumento da pressão dentro do lúmen e pela inflamação do tecido local. A cistite e a pielonefrite são infecções urinárias que podem causar dor aguda, tendo como principais causadores a Escherichia coli, Proteus, Klebsiella e Pseudomonas. A dor da litíase se manifesta em cólica intensa, irradiando-se do ângulo costo- vertebral até a região inguinal, com hematúria frequente. A infecção urinária, por sua vez, acomete tanto a bexiga quanto os rins, associada a dor vaga na região suprapúbica, polaciúria, disúria, urgência Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR miccional e hematúria ocasional (esses sintomas podem também estar presentes em infecções por clamídia ou gonorreia). A pielonefrite está associada a dor no flanco e no ângulo costo-vertebral, embora às vezes haja dor abdominal baixa com irradiação lateral. O diagnóstico de litíase pode ser feito por exame da urina, que mostra hemácias, e por demonstração do cálculo por ultrassonografia, urografia por tomografia ou pielografia intravenosa. Há dor à compressão do ângulo costo-vertebral no caso de litíase ou pielonefrite. Não há sinais peritoneais. O diagnóstico de infecção urinária se baseia na observação de bactérias e leucócitos no exame de urina de rotina, com nitritos na ausência de células epiteliais escamosas, podendo ou não haver esterase leucocitária. Um número elevado de células escamosas na amostra de urina sugere contaminação da amostra por secreções vaginais e pode resultar em resultado falso-positivo da urocultura e urinálise. O tratamento expectante para a litíase consiste na hidratação da paciente (intravenosa ou oral) e controle da dor. Caso necessário, o tratamento cirúrgico contempla a litotripsia e a remoção endoscópica do cálculo, auxiliando a recuperação de casos com acometimento renal ou de ureteres. O tratamento da pielonefrite em mulheres não grávidas e gestantes afebris com leucócitos normais pode ser ambulatorial, com a administração de fluoroquinolona ou trimetoprima/sulfametoxazol por 14 dias. O antibiograma e a urocultura devem ser realizados de modo a evitar resistência microbiana. Caso o quadro não regrida ou a paciente apresente risco elevado de não adesão ou de complicações, recomenda-se o internamento dessa paciente, que será tratada com antibioticoterapia intravenosa. ASECTOS DA DOR PÉLVICA CRÔNICA (DPC): A dor pélvica crônica é definida como a dor que persiste na mesma localização por mais de 6 meses e causa incapacidade funcional ou requer tratamento. DPC é um termo guarda-chuva que abrange muitas outras causas específicas, que variam desde as etiologias do sistema reprodutivo, gastrintestinais e urinárias até a dor de origem nervosa e muscular. Causas não ginecológicas de dor, como síndrome do intestino irritável (SII), cistite intersticial/síndrome da dor vesical, síndrome miofascial, bem como a neuropatia, são causas muitas vezes negligenciadas, mas comuns, de DPC, o que explica o grande número de mulheres submetidas à laparoscopia que não apresentam nenhuma doença peritoneal. Pacientes com esses quadros álgicos são frequentemente ansiosas e deprimidas, sofrendo com déficits na vida conjugal e social, bem como nas interações de trabalho. A resposta desse grupo a outras medidas ginecológicas supracitadas é baixa, e por vezes são referidas a um grande número de procedimentos que buscam minimizar a dor, sem sucesso. A relação entre dor e doença, como endometriose, aderências ou congestão venosa, é fraca, e o tratamento está associado à recorrência da dor. A plasticidadedo sistema nervoso durante a cronificação do quadro físico inicial promove a mudança no processamento de sinais previamente indolores, causando alodinia, hiperalgesia (dor excessiva derivada de um estímulo), alargamento do campo receptivo e Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR anormalidade reflexiva na musculatura adjacente ao local lesado. Na primeira consulta, deve-se obter uma história completa da dor, levando-se em conta a natureza de cada sintoma, a localização, irradiação, intensidade, fatores de melhora e piora, efeito do ciclo menstrual, estresse, trabalho, exercício, relação sexual e orgasmo sobre a dor, o contexto no qual a dor surgiu e o custo social e ocupacional desse sintoma. A avaliação deve incluir um questionário abrangente que aborde a depressão, a ansiedade, o trauma emocional, físico e sexual, a qualidade de vida e os critérios que auxiliem no diagnóstico da síndrome do intestino irritável e da cistite intersticial ou síndrome de dor vesical. Diagramas do abdome, dorso e área genital femininos devem ser usados para ajudar a paciente a definir a localização da dor. A mulher deve também ser questionada sobre a ocorrência de sintomas específicos associados aos seguintes sistemas: Reprodutivo: sangramento vaginal anormal, corrimento vaginal anormal, dismenorreia, dispareunia, infertilidade, função sexual; Digestório: constipação intestinal, diarreia, flatulência, hematoquezia e relação entre a dor e os períodos de alteração da função intestinal ou aparência das fezes e alívio da dor com a defecação; Musculoesquelético e nervoso: traumatismo físico, exacerbação com o exercício físico ou alterações posturais, fraqueza, parestesia, dor lancinante local; Urológicos: urgência, polaciúria, noctúria, hesitação, disúria, hematúria, incontinência; Psicológicos: (diagnósticos, hospitalizações e medicamentos anteriores, depressão atual, ansiedade, pânico, inclusive ideais suicidas, traumas emocionais, físicos ou sexuais. Independentemente da causa base, quando a dor persiste por qualquer período de tempo, é provável que outros fatores psicossociais estejam contribuindo para sua continuidade. Muitas vezes, a dor é acompanhada por ansiedade e depressão, e esses distúrbios devem ser cuidadosamente avaliados e tratados para evitar retorno do desconforto. Deve-se fazer um exame físico completo, com atenção particular ao exame das regiões abdominal e lombossacra, da vulva, do assoalho pélvico e de órgãos internos por exame vaginal, bimanual e retovaginal. O exame deve incluir o teste de Carnett, uma avaliação dos pontos de dor na parede abdominal antes e depois de contrair os músculos abdominais (ou pela elevação da cabeça ou das duas pernas estendidas) para diferenciar entre a dor que tem origem na parede abdominal e a dor visceral. A dor na parede abdominal aumenta, e a dor visceral diminui ao palpar os pontos de dor durante essas manobras. Na posição de pé, a paciente deve ser examinada à procura de hérnias, tanto Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR abdominais como cistocele e enterocele. Deve-se tentar localizar por palpação os tecidos que causem a dor da paciente. Se forem observadas áreas de dor na parede abdominal, é útil bloqueá-las com anestésicos locais e, depois, realizar o exame pélvico. Nos sintomas neuropáticos deve ser identificado o nervo periférico que serve a área acometida. CAUSAS GINECOLÓGICAS PARA A DOR PÉLVICA CRÔNICA: ADERÊNCIAS PÉLVICAS: Aderências observadas durante a laparoscopia podem estar na mesma região do abdome que a origem da dor pélvica; entretanto, nem a localização nem a densidade desses achados têm correlação previsível com a dor. A maioria das mulheres com aderências já se submeteu a um procedimento cirúrgico com possível lesão de nervos da parede abdominal, como os nervos ilio-hipogástrico ou ilioinguinal, o que provavelmente é a causa da dor. Dessa forma, a parede do abdome deve ser avaliada com atenção à procura de lesão miofascial ou de compressão do nervo como causa da dor antes de se supor que as aderências são as responsáveis. A laparoscopia diagnóstica é recomendada se causas gastrintestinais, urinárias, miofasciais e neuropáticas somáticas forem excluídas ou tratadas e se os resultados da avaliação psicológica forem negativos. A minilaparotomia com anestesia local e sedação é usada para fazer o mapeamento consciente da dor, no qual se tracionam aderências específicas e registra-se a resposta da paciente ao estímulo. Como uma possível cirurgia reparadora pode acabar causando ainda mais aderências, a lise dessas só é recomendada caso a fibra cicatricial esteja causando obstruções intestinais ou problemas de fertilidade. CONGESTÃO PÉLVICA: A síndrome de congestão pélvica é a denominação utilizada para a congestão de plexos venosos uterinos ou ovarianos, inicialmente associados ao estresse, que poderia causar espasmos da musculatura lisa e consequente ingurgitamento venoso. Os sintomas típicos são dor abdominal baixa e nas costas, de extensão bilateral, intensificada por longos períodos na posição ortostática, dismenorreia secundária, dispareunia, sangramento uterino anormal, fadiga crônica e sintomas digestórios associados à síndrome do intestino irritáveI. Em geral, a dor inicia-se com a ovulação e persiste até o fim da menstruação. Com frequência, o útero é volumoso, e os ovários estão aumentados com vários cistos funcionais. O útero, o paramétrio e os ligamentos uterossacros são dolorosos. A venografia transuterina representa a melhor forma de obter um diagnóstico de congestão pélvica, embora varicosidade possam ser evidentes na ultrassonografia, na ressonância magnética ou na Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR laparoscopia. A conduta implementada após o achado dessas veias ingurgitadas irá depender da ocorrência de sintomas, uma vez que o tratamento é custoso. A terapêutica instaurada às pacientes com essa congestão varia desde técnicas pouo invasivas de supressão hormonal e manejo da dor até métodos mais incisivos, como a embolização da veia acometida ou a retirada total do útero e de seus anexos. A supressão hormonal deve ser o mecanismo inicial de tratamento das mulheres com suspeita de congestão pélvica, sendo útil a administração de acetato de medroxiprogesterona, na dose de 30 mg por dia, de forma contínua. É de extrema importância que haja um tratamento multiprofissional capaz de incorporar a psicoterapia, o controle comportamental da dor ou ambos à vida diária da paciente. A embolização percutânea pode ser usada em mulheres que não respondem ao tratamento clínico ou hormonal. CAUSAS NÃO-GINECOLÓGICAS PARA A DOR PÉLVICA CRÔNICA: SÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL: A síndrome do intestino irritável (SII) é uma das causas mais comuns de dor abdominal baixa e pode ser responsável por até 60% das pacientes encaminhadas ao ginecologista por quadros de dor pélvica crônica. A fisiopatologia da SII parece ser influenciada por sensibilização do SNC e diminuição da inibição descendente, que, por fim, causa hipersensibilidade visceral. Essa sensibilidade exacerbada e os reflexos anormais provocam aumento da intensidade da dor, diminuição do limiar de sensibilidade e aumento da região viscerossomática de dor referida, causando assim os sintomas típicos da síndrome. O sintoma predominante de SII é a dor abdominal, que piora antes da defecação e melhora logo em seguida, com exacerbação do quadro em situações de maior motilidade intestinal (ex.: após as refeições ou em situações estressantes). Outras manifestaçõessão distensão abdominal, flatulência excessiva e alternância entre diarreia e constipação intestinal. Em geral, a dor é intermitente, algumas vezes constante, tipo cólica, e mais presente no quadrante inferior esquerdo. Pacientes com SII podem ser divididas em três categorias: predomínio de constipação intestinal, predomínio de diarreia e predomínio de dor (alternância do padrão de evacuação), dependendo dos sintomas principais. Os novos critérios de Roma III para diagnóstico incluem no mínimo 3 dias por mês de dor ou desconforto abdominal recorrente nos últimos 3 meses, com no mínimo duas das seguintes características: alívio com a defecação, início associado à mudança da frequência das defecações ou início associado à mudança da forma e aparência das fezes. Em geral, o diagnóstico da SII baseia-se na anamnese e no exame físico, e, embora sejam sugestivos, principalmente em mulheres jovens, os achados são inespecíficos. Com frequência, são necessários hemograma completo, amostra de fezes para pesquisa de leucócitos e sangue oculto, além de sigmoidoscopia ou colonoscopia, sobretudo em pessoas idosas Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR e em jovens que não responderam ao tratamento inicial. Nota-se que todos esses exames se apresentam normais em pacientes com a síndrome. O tratamento abrange a tranquilização, educação, redução do estresse, agentes formadores de volume intestinal e outros tratamentos sintomáticos, além de antidepressivos tricíclicos em baixas doses para o controle da dor. Programa multiprofissionais que forneçam abordagem clínica e psicológica também são indicados. As pacientes devem evitar alimentos desencadeantes, como aqueles que contêm lactose, sorbitol, álcool, gordura e frutose, além de produtos com cafeína, que podem causar distensão abdominal, cólica e aumento da frequência de evacuação. Se a paciente permanecer sintomática depois de experimentar essas mudanças de estilo de vida, podem-se administrar antiespasmódicos como diciclomina ou hiosciamina durante um curto período como prova terapêutica, de modo a verificar a resposta aos inibidores da motilidade gástrica. SÍNDROME URETRAL: A síndrome uretral é um complexo de sintomas que inclui disúria, polaciúria e urgência miccional, desconforto suprapúbico e, com frequência, dispareunia na ausência de anormalidade da uretra ou bexiga. A causa da síndrome uretral é incerta e foi atribuída a infecção subclínica, obstrução uretral e fatores psicogênicos e alérgicos, sendo considerada uma porta de acesso para o desenvolvimento da cistite intersticial. Ao exame físico, é necessário investigar anormalidades anatômicas como relaxamento pélvico, carnúcula ureteral e hipoestrogenismo, bem como a ocorrência de vaginites. Para o diagnóstico é necessário obter amostra de urina por técnica adequada ou por cateterismo para exame de rotina e cultura a fim de excluir infecção urinária. Quando indicado, devem ser feitos exames uretral e cervical para pesquisa de clamídia e uma preparação a fresco para vaginite. Deve-se considerar a possibilidade de síndrome uretral se a infecção for descartada, a avaliação não mostrar vulvovaginite e não for possível detectar fenômeno alérgico causador de dermatite de contato na uretra. Há vários tipos de tratamento sugeridos para síndrome uretral. Pacientes sem agente infeccioso, mas que apresentam piúria estéril, podem responder ao tratamento com doxiciclina ou eritromicina por 2 a 3 semanas. Muitas vezes, é usada profilaxia prolongada com pequenas doses de antimicrobianos em mulheres com sintomas de urgência e polaciúria e história documentada de infecções urinárias recorrentes. Recomenda-se que todas as mulheres na pós-menopausa com esse distúrbio sejam submetidas a uma prova de tratamento com estrogênio local durante no mínimo 2 meses. CISTITE INTERSTICIAL/SÍNDROME DA BEXIGA DOLOROSA: A síndrome da bexiga dolorosa (SBD), é descrita como uma síndrome clínica constituída por dor suprapúbica relacionada com o enchimento vesical, associada a outros sintomas, como aumento da frequência de micção diurna e noturna, na ausência de infecção comprovada ou de outra doença óbvia, acometendo principalmente mulheres de 40 a 60 anos. Por comparação, o termo “cistite intersticial” (CI) refere-se a pacientes com sintomas de SBD, mas que também apresentam Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR aspectos cistoscópicos e histológicos típicos de infecções por agentes conhecidos. A etiologia da CI/SBD é desconhecida, porém pressupõe-se que um defeito da camada epitelial de glicosaminoglicanos (GAG), por meio do qual substâncias irritantes da urina penetram no epitélio da bexiga até as terminações nervosas subepiteliais, pode ser responsável pela síndrome. O exame pélvico, em geral, mostra dor à palpação da parede anterior da vagina e suprapúbica. Os músculos do assoalho pélvico sempre são acometidos e há dor à palpação. O exame de urina pode mostrar micro-hematúria sem piúria, embora os resultados, na maioria dos casos, sejam normais. O diagnóstico é feito por exclusão, descartando pacientes com menos de 18 anos, ou com manifestações a menos de 9 meses, sem noctúria e com número de micções diárias inferior a 8, acometidas por infecções vulvovaginais e urinárias, com cálculos vesicais ou que apresentam alívio dos sintomas com antibióticos e/ou antiespasmódicos. Segundo os critérios do consenso dos National Institutes of Health para diagnóstico de CI, as pacientes devem atender no mínimo a dois destes critérios: dor ao enchimento da bexiga aliviada pelo esvaziamento; dor na região suprapúbica, pélvica, uretral, vaginal ou perineal; ou observação de glomerulações à endoscopia ou de diminuição da complacência à cistometria. Embora não haja cura definitiva da CI/SBD, as pacientes podem alcançar remissão com a terapia multiprofissional. Os tratamentos de primeira linha são basicamente a modificação do comportamento, como treinamento vesical e controle do estresse, terapia cognitivo-comportamental, modificações da alimentação ou restrição de alimentos ácidos, condimentados e fermentados, além de fisioterapia da musculatura do assoalho pélvico. A alcalinização da urina pode ser útil, assim como a administração de antidepressivos tricíclicos em baixa dosagem. FLUXOGRAMA DE ATENDIMENTO PARA DOR PÉLVICA: Ao atender uma mulher com dor na porção inferior do abdome, é necessário observar atentamente seu período de duração: se for inferior a três meses, trata-se de um quadro de dor pélvica aguda; se estiver associada ao ciclo menstrual, a dor é cíclica; e, por fim, se a dor persiste por mais de seis meses, esse quadro corresponde à dor pélvica crônica. As pacientes com quadro álgico agudo devem ser avaliadas e monitoradas atentamente, podendo ser considerado o encaminhamento para um serviço de emergência, dada a severidade de diversas de suas etiologias. O teste rápido de gravidez deve ser realizado no atendimento inicial, e caso seu resultado seja positivo, suspeita-se de causas obstétricas, como gravidez ectópica, cisto de corpo lúteo, abortamento ou torção ovariana. Quando negativo, serão investigadas as causas ginecológicas e não ginecológicas desse sintoma. Com o quadro de dor pélvica crônica, serão investigadas as características da dor quanto à localização, apresentação, intensidade e irradiação, momento a partir do qual o médico direcionará o atendimento para causas ginecológicas ou não ginecológicas. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR PROBLEMA 2 - abertura: conduta da consulta de pré-natal no 1ºtrimestre: A prescrição de exames ao longo da gravidez tem como objetivo promover o nascimento de um bebê saudável, com o menor risco para a mãe e o próprio concepto. Nesse contexto, é fundamental a detecção precoce de distúrbios, uma vez que permitem o desenvolvimento de múltiplas e eficazes medidas terapêuticas. Diversos são os exames laboratoriais e de imagem solicitados no primeiro trimestre de gestação. A hCG pode ser detectada tanto na urina quanto no sangue, entre 7 a 8 dias antes da menstruação esperada, representando o marcador bioquímico concepcional de aparecimento mais precoce. O crescimento exponencial desse hormônio, após a implantação, é caracterizado por duplicação em sua concentração a cada 30,9 horas (±3,7). Esse intervalo pode ser usado para diferenciar a gravidez normal da anormal, como a gravidez ectópica, pois a impossibilidade de detectar uma gestação intrauterina por ultrassonografia endovaginal quando os níveis de hCG alcançam 1100- 1500 mLU/mL sugere possível localização ectópica. Níveis de hCG maiores do que o normal, por sua vez, indicam gravidez molar ou múltipla. Mesmo com índices comprobatórios de hCG, a idade gestacional deve ser avaliada de forma precisa, o mais breve possível, pois pode haver diferenças de pelo menos uma semana entre a data da última menstruação (DUM) e a real etapa de desenvolvimento fetal, o que pode ser ainda mais discrepante em mulheres que não se recordam da DUM. O período de registros mais acurados corresponde ao intervalo entre 7 e 11 semanas e 6 dias. Outros objetivos desse exame são a confirmação da gravidez, a determinação do local do desenvolvimento embrionário (refutando definitivamente a gravidez ectópica), a identificação do número de embriões e a análise da vitalidade fetal. Os principais exames complementares solicitados nesse período são: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Hemograma completo; Tipagem sanguínea e fator Rh; o Caso a mãe tenha fator sanguíneo negativo e o parceiro, positivo ou desconhecido, deve ser feito o Teste de Coombs Indireto. Glicemia de jejum; Sorologias para HIV, toxoplasmose (IgM e IgG), sífilis e hepatite B; o São também realizados testes de detecção rápida para HIV e sífilis. Exame de urina com urocultura; Ultrassonografia obstétrica (não é obrigatório); Citopatológico de colo de útero (se necessário); Parasitológico de fezes (se houver indicação clínica); Eletroforese de hemoglobina (caso a gestante for negra, tiver antecedentes familiares de anemia falciforme ou história de anemia crônica). interpretação dos resultados nos exames de primeiro trimestre: hemograma: A análise do hemograma na gestação tem por objetivo a detecção precoce da anemia, que pode ocorrer fisiologicamente nesse período. A dosagem de hemoglobina maior ou igual a 11g/dl indica ausência de anemia, entre 11 e 8 g/dl como anemia leve a moderada, e menor de 8 g/dl como anemia grave. Caso se enquadre nesse último grupo, é recomendado que a gestante seja encaminhada para serviços de pré-natal de alto risco. tipagem sanguínea (abo/rh): A determinação da tipagem sanguínea deve ser solicitada na primeira consulta do pré- natal, sendo crucial para identificar mulheres que tenham risco de isoimunização Rh e consequente ocorrência de doença hemolítica do recém-nascido. Caso o exame revele que a mulher apresenta fator Rh negativo e o parceiro, positivo (ou desconhecido), ela será encaminhada para a realização do teste de Coombs indireto, que avalia a presença de anticorpos anti-D (indica que há sensibilização). Um resultado negativo do teste significa que o sangue não possui anticorpos livres que possam atacar eritrócitos, devendo ser repetido após a 20ª semana de gestação. Laudos positivos, por sua vez, apontam que o processo de Isoimunização já ocorreu, requerendo assim acompanhamento em unidades especializadas. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Mulheres enquadradas no último grupo mencionado devem fazer uso de 100 mcg de imunoglobulina anti-D mais adiante na gestação (28 a 34 semanas), para que o risco de sensibilizações posteriores seja reduzido. glicemia de jejum: A glicemia de jejum representa o teste mais precoce para detecção e rastreamento da diabetes gestacional, distúrbio que também deve ser analisado sob a perspectiva de potenciais fatores de risco antes ou durante a gravidez. Frente à realização desse exame, há quatro possibilidades de resultado: Glicemia inferior a 85 mg/dl e sem fatores de risco: rastreamento negativos, sem necessidade de continuação da pesquisa dor diabetes; Glicemia de jejum inferior a 85 mg/dl com fatores de risco: rastreamento positivo, devendo ser feito o teste oral de tolerância à glicose (TOTG) entre 24 e 28 semanas de gestação: Glicemia entre 85 e 125 mg/dl com ou sem fatores de risco: rastreamento positivo, devendo ser realizado o TOTG entre 24 e 28 semanas de gestação; Glicemia de jejum maior ou igual a 126 mg/dl ou glicemia ao acaso maior ou igual a 200 mg/dl: diabetes melitus gestacional. sorologias: hiv: O Ministério da Saúde recomenda que seja feita ao menos uma sorologia para HIV ao longo do pré-natal, sendo considerada a repetição próxima ao fim da gestação ou antes do parto, uma vez que a mulher pode ter realizado o primeiro exame ainda durante a janela imunológica. toxoplasmose: A sorologia para toxoplasmose busca investigar a presença de anticorpos indicativos de infecções agudas (IgM) ou crônicas (IgG), avaliando assim a exposição da gestante ao Toxoplasma gondii. Os possíveis resultados são: IgM e IgG negativos: paciente susceptível à doença, devendo ser orientada acerca das formas de prevenção (evitar o consumo de peixe cru e o contato com fezes de gato). O exame deve ser repetido trimestralmente; IgM negativa e IgG positiva: gestantes com imunidade ao parasita; IgM positiva e IgG negativa: possível infecção recente. O exame deve ser repetido em 15 dias, com a confirmação da infecção ocorrendo quando ambos os anticorpos retornam positivos (a repetição do primeiro resultado não tem relevância clínica); IgM e IgG positivas; provável infecção em andamento. Para afastar a possibilidade de IgM residual, pode ser solicitado um teste de avidez para IgG. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR sífilis: Graças ao elevado potencial de acometimento fetal ao longo de toda a gestação, o rastreamento para a sífilis deve ser realizado a cada trimestre, bem como na admissão hospitalar para o parto. O diagnóstico pode ser feito com exames não treponêmicos, sendo o mais utilizado o VDRL, cujo resultado é expresso em forma de titulação, assim como testes treponêmicos, como o FTA-Abs, que são utilizados para confirmação da infecção. A realização do teste rápido na unidade não invalida a necessidade de coletar material para uma sorologia, uma vez que esses métodos são mais sensíveis e específicos. hepatite B: O rastreamento do vírus da hepatite B deve ser feito na primeira consulta de pré-natal, por meio da dosagem de HBsAg. Se o resultado for negativo, repete-se no terceiro trimestre. Caso seja positivo, faz-se a pesquisa dos outros antígenos e seus respectivos anticorpos, para comprovar o diagnóstico. Em relação a hepatite C, seu rastreamento se restringe a mulheres inclusa em grupos de risco, como usuárias de drogas injetáveis, presidiárias, mulheres HIV positivas ou com parceiros soropositivos, mulheres que receberam transfusão de sangue, bem como gestantes com alteração da função hepática, com múltiplos parceirosou tatuadas. exame de urina: A presença de proteinúria pode ser indicativa de hipertensão gestacional, assim como a cilindrúria, achado raro na gravidez. Sua constatação, sobretudo de cilindros gordurosos, cilindros de insuficiência renal ou corpos gordurosos birrefrigentes, requer investigação detalhada, seguida por encaminhamento ao pré-natal de alto risco. A urocultura pode ser solicitada em caso de hematúria, piúria ou bacteriúria presentes na análise da amostra, porém é remondado realizar esse exame como parte da rotina do pré-natal, uma vez que casos assintomáticos podem evoluir para pielonefrite em 30% das gestantes. ultrassonografia morfológica de 1º trimestre: A associação entre ultrassonografia morfológica e perfis bioquímicos deve ser realizada entre 11ª e 14ª semanas de gestação, de preferência na 12ª, visando detectar a síndrome de Down (89% de sensibilidade) e a trissomia do 18 (95% de sensibilidade). Nessa avaliação são incluídas a idade materna, a translucência nucal, o β-hCG no soro materno e a proteína A plasmática associada à gravidez (PAPP- A). A avaliação por ultrassonografia do osso nasal eleva o índice de detecção de síndrome de Down para cerca de 95%. A diabetes melitus gestacional: O diabetes melitus (DM) é um distúrbio do metabolismo de carboidratos que, se cronificada, pode resultar em alterações Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR vasculares diversas. Na gravidez, é preciso diferenciar os casos de diabetes pré- gestacional (seja de tipo 1 ou 2) dos de diabetes gestacional (DMG), porém nota-se que a prevalência por esse último grupo é maior, correspondendo a 90% dos casos. O diabetes mellitus gestacional é definido, de acordo com a OMS, como uma intolerância aos carboidratos de gravidade variável, que se inicia durante a gestação em curso e não preenche os critérios diagnósticos de diabetes mellitus “em si”, com prevalência em 3 a 25% das gestações, podendo causar complicações em 7% delas. A incidência de DMG tem aumentado em paralelo com o aumento do diabetes melitus tipo 2 e da obesidade na população. A gestação acarreta alterações significativas no processo de produção de energia e acúmulo de gordura. Esse depósito se faz principalmente nos dois terços iniciais da gestação, enquanto no seu trimestre final há aumento do gasto metabólico. Essas mudanças maternas são necessárias para alcançar as demandas decorrentes do rápido crescimento do feto, incluindo hipoglicemia de jejum, catabolismo exagerado dos lipídios com formação de corpos cetônicos e progressiva resistência à insulina, tudo comandado pelos hormônios placentários. O desenvolvimento de oposição à ação da insulina a partir do 2º trimestre da gestação é uma adaptação fisiológica que objetiva transferir o metabolismo de energia materna da oxidação dos carboidratos para a de lipídios, preservando a glicose a ser fornecida ao feto em seu constante processo de desenvolvimento. Na mulher com DMG, não é a resistência à insulina que está elevada, quando comparada à da gravidez normal, e sim o mau funcionamento das células β pancreáticas, que secretam insulina insuficiente para vencer esse aumento da resistência ao aporte hormonal. alterações metabólicas e a fisiopatologia do diabetes melitus gestacional: Dentre as múltiplas alterações decorrentes do ciclo gravídico ao corpo feminino, são notórias aquelas relacionadas ao metabolismo glicídico, que podem ser sumarizadas nos seguintes pontos: Parasitismo verdadeiro: a gestante se vê numa permanente demanda por glicose, já que mesmo nos períodos de jejum o concepto continua a extrair aminoácidos e carboidratos, em taxas que se igualam às observadas durante os momentos de alimentação da mãe; Para promover esse suprimento constante de nutrientes, a gestante realiza algumas modificações relevantes, de forma involuntária. Seu corpo para de consumir a glicose de forma desmedida e, à medida que a gravidez progride, o uso periférico dessa substância diminui, fato associado aos hormônios contrainsulares placentários; A taxa de difusão facilitada em direção ao feto é intensa, mesmo que o gradiente de concentração seja pequeno (a grande transferência de nutrientes torna os índices fetais apenas 20 mg/dl menores que os da mãe Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR O consumo contínuo de glicose pelo concepto e seu rápido transporte pela placenta influenciam profundamente o metabolismo dos carboidratos na gestante. Em todos os estágios da gestação, após uma noite de jejum, os valores de glicemia aferidos são 15 a 20 mg/dℓ inferiores aos sinalados fora da gravidez. Quando a gestação está na fase inicial, a progesterona e o estrogênio, antagônicos à ação da insulina, vão promover a hiperplasia das células pancreáticas, aumentando a resposta da insulina a uma quantidade de glicose. Isto favorece a lipogênese e glicogênese, que irá elevar o depósito de glicogênio, triglicerídeos e proteínas, repercutindo em uma condição de anabolismo facilitado. Níveis elevados de hormônio lactogênio placentário humano (hPL), hormônio do crescimento placentário humano (hPGH) e adipocinas (leptina, adiponectina, TNF-α e IL-6) estão envolvidos no processo, com principal destaque para os dois primeiros compostos. Os níveis de hPL elevam-se rapidamente no 1º e no 2º trimestres e alcançam o seu máximo nas últimas 4 semanas da gravidez. O efeito diabetogênico do hPL resulta na mobilização de lipídios na forma de ácidos graxos livres (AGL), que serviriam como fonte de energia, poupando glicose e aminoácidos, que estarão disponíveis para o feto. Em resposta ao aumento da resistência periférica à insulina (devido à diminuição da sensibilidade decorrente da ação dos hormônios placentários, que agem de forma semelhante ao GH ao estimular a secreção insulínica), a gestante, a partir do 2º trimestre, passa a elevar, gradualmente, a secreção de insulina em até 250% para compensar a redução de aproximadamente 50% na sensibilidade. O distúrbio metabólico nas mulheres com o DMG é a incapacidade de secretar insulina em níveis necessários para atender à demanda, que é máxima no 3º trimestre. Isso causa aumento na concentração da glicose pós-prandial, capaz de determinar efeitos adversos no feto pelo excessivo transporte transplacentário de glicose. classificação do diabetes melitus gestacional: Os casos de diabetes na gravidez são classicamente organizados em classes (estendem-se de A-H, formando a classificação de White), favorecendo a definição do prognóstico materno e fetal além de determinar as medidas terapêuticas de maior pertinência. Classe A: representa o DMG e corresponde a 90% dos casos. Nessa definição, a intolerância à glicose só é anormal durante a gestação, retornando à normalidade ao fim a gravidez. Caso precise de tratamentos insulínicos ao longo da gestação, a paciente pode ser incluída na classe “A2”; Classe B e C: representam pacientes com diabetes pré-gestacional prévia e recente, sem complicações vasculares. Na classe B, o início da doença ocorre com 20 anos ou mais e tem duração menor que 10 anos. Na classe C, o diabetes tem início entre 10 e 19 anos de idade ou tem duração entre 10 e 19 anos; Classes D-T: as mulheres presentes no grupo D já são diabéticas com complicações vasculares. A doença tem duração de 20 anos ou mais, ou início Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR antes dos 10 anos, ou exibe retinopatia benigna ou hipertensão. o A classe F apresenta nefropatia com proteinúria e redução da depuração da creatinina. A classe R mostra retinopatia malignaproliferativa, a H, doença cardíaca isquêmica e, por fim, a T, é encontrada em paciente sofreu transplante renal. Rastreamento e Diagnóstico diabetes MELITUS: Nos quadros de DMG, a ausência de sintomas é relevante, justificando assim a realização de exames de rastreamento ao longo do pré-natal, que permitem identificar pacientes de risco para o desenvolvimento da condição ou já acometidos por ela, instaurando assim terapêuticas precoces e efetivas. Na primeira consulta pré-natal, deve ser solicitada a realização da dosagem da glicemia de jejum, com o objetivo de detectar o diabetes preexistente. A hiperglicemia inicialmente detectada em qualquer momento da gravidez deve ser categorizada e diferenciada em diabetes diagnosticado na gestação ou em DMG. Caso o pré-natal seja iniciado tardiamente (após a 20ª semana), o teste oral de tolerância à glicose (TOTG) deverá ser feito o mais brevemente possível. Se o valor encontrado for igual ou superior a 126 mg/dL, será feito um novo exame que, ao apresentar os mesmos resultados, confirma o diagnóstico de DM diagnosticado na gestação (ausência de diagnóstico prévio de DM, com detecção de hiperglicemia na gravidez e níveis glicêmicos suficientes para satisfazer os critérios diagnósticos da DM extra-gestacional). Caso essa dosagem for maior ou igual a 92 mg/dL e menor que 126 mg/dL, o rastreamento terá sido positivo, e a gestante terá diagnóstico confirmado para a DMG (mulher com hiperglicemia na gestação, em níveis acima do normal, mas inferiores aos padrões para DM). Se a glicemia de jejum for inferior a 92 mg/dl e não houverem fatores de risco associados, o rastreamento foi considerado negativo, porém o TOTG deve ser realizado no sexto mês de gestação, para reavaliar o quadro. O TOTG consiste na ingestão de 75g de glicose anidra em 250 a 300ml de água, depois de um período de jejum que se estende por 8 a 14 horas. A glicose plasmática é determinada em jejum, após 1 hora e após 2 horas da ingestão dessa solução açucarada. Nesta curva, os pontos de corte são >92 mg/dl, >180 mg/dl e >153 mg/dl, respectivamente. Dois valores alterados confirmam o diagnóstico, enquanto apenas um desvio sugere a realização de um Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR outro teste oral, dessa vez na 34ª semana de gestação. Dessa forma, o rastreamento empregado pelo Sistema Único de Saúde em sua rotina de acompanhamento pré-natal pode ser representado pelo seguinte fluxograma: Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes, esse modelo de investigação do diabetes pode identificar 86% dos casos de DM relacionados à gestação A Sociedade Brasileira de Diabetes aponta, em suas diretrizes para o manejo de DMG, que, em situações de viabilidade financeira e técnica integrais, a taxa de detecção dos casos seria de 100%, pois ate mesmo as mulheres com dosagem inicial inferior a 92 mg/dl seriam submetidas ao TOTG. A hemoglobina glicada não está presente dentre as análises propostas para o rastreamento da DMG, porém representa um excelente fator preditivo para o desenvolvimento da condição. Mais de 10% das grávidas no 1º trimestre apresentam HbA1c entre 5,7 e 6,4% (resultado característico de pré-diabetes) com chance de desenvolverem DMG de 1 em 3 casos. Por outro lado, mulheres com HbA1c menor que 5,7% no início da gestação têm o seu risco reduzido para 1/10. Do mesmo modo, grávidas de alto risco para diabetes que apresentam no 1º trimestre concentrações de HbA1c maiores ou iguais a 6% têm elevado valor preditivo (podendo chegar a 100%) para DMG, enquanto aquelas com valor inferior a 4,5% não desenvolvem a condição. tratamento do diabetes mellitus gestacional: A intervenção adequada em gestantes com DMG podem auxiliar a diminuir a ocorrência de complicações na gravidez. Inicialmente, o tratamento dessa condição se baseia na orientação alimentar, focando no ganho de peso adequado e no controle metabólico. Para determinar qual o ganho de peso total indicado para a gestação, é necessário avaliar o IMC pré-gestacional ou aquele computado nas primeiras consultas do pré- natal. O valor calórico total prescrito deve ser sempre individualizado e conter 40 a 55% de carboidratos, 15 a 20% de proteínas e 30 a 40% de gorduras e 28 g de fibras. Deve-se dar preferência ao consumo de alimentos que contenham carboidratos com baixo Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR índice glicêmico, que se relacionam a menor necessidade de iniciar a insulinoterapia. O uso de adoçantes por gestantes ainda não foi alvo de estudos suficientes que comprovem seus benefícios ou malefícios, o que faz com que seu uso seja permitido, desde que em moderação. A prática de exercícios físicos também deve fazer parte do esquema terapêutico da DMG, respeitando-se os limites impostos por eventuais contraindicações obstétricas. Recomenda-se que a gestante realize o monitoramento das glicemias capilares pré e pós-prandiais quatro a sete vezes por dia, especialmente naquelas que fazem uso de insulina. Após 2 semanas de dieta, se os níveis glicêmicos permanecerem elevados (valor em jejum maior ou igual a 95 mg/dL, 1 hora pós-prandial maior ou igual a 140 mg/dL ou 2 horas pós-prandiais ≥ 120 mg/dL), deve- se iniciar tratamento farmacológico. O critério de crescimento fetal para início da insulinoterapia é uma alternativa quando a medida da circunferência abdominal fetal for igual ou superior ao percentil 75 em uma ecografia realizada entre a 29ª e a 33ª semanas de gestação. A dose inicial de insulina é de 0,5 U/kg, com ajustes para cada caso, recomendando-se preferencialmente mais de uma dose diária. Em geral, associam-se formulações de ação intermediária e rápida. Os análogos de insulina asparte e lispro têm vantagens sobre a insulina regular, promovendo melhor controle dos níveis de glicemia pós-prandiais com menor ocorrência de hipoglicemias. O objetivo da terapia com insulina é manter os níveis de glicemia capilar inferiores ou iguais a 95 mg/dL em jejum, a 100 mg/dL antes das refeições, a 140 mg/dL uma hora pós-prandial, e a 120 mg/dL após duas horas da refeição. Durante a noite, os níveis glicêmicos não podem ser menores que 60 mg/dL. As gestantes em uso de insulina e seus familiares devem ser orientados para o reconhecimento de sinais de hipoglicemia. Na ocorrência destes, deve ser realizada medição imediata da glicemia capilar se houver acesso a um glicosímetro. Na ocorrência ou sugestão de hipoglicemia, a gestante deve ingerir um copo de leite com açúcar. Principalmente nas portadoras de diabetes tipo 1, deve-se disponibilizar o glucagon para uso em casos mais graves. A insulina é a primeira escolha na terapêutica medicamentosa para controle glicêmico no período gestacional, devido à sua eficácia comprovada e à pequena passagem placentária. A terapia com antidiabéticos, no entanto, ainda não apresenta comprovação total da segurança, uma vez que os poucos estudos publicados sobre o assunto abordam somente um pequeno número de medicamentos. Nesse contexto, o uso de fármacos como a metformina deve ser feito de forma consciente, apenas nos casos em que o controle glicêmico não foi alcançado pela insulinoterapia, seja por baixa adesão, dificuldades na autoadministração do composto, estresse elevado quanto ao uso de insulina, necessidade de múltiplas doses diárias ou por ganho de peso exagerado. aconselhamentos pós-concepcional em diabetes melitus gestacional: O profissional de saúde deve orientar as mulheres acerca das implicações do diabetes para sua capacidade reprodutiva, uma vez que a recorrência do DMG em gestações futuras chega a 48%, com primíparastendo 40% e multíparas, 73%. Após 5 anos, cerca de 50% das mulheres com histórico de diabetes melitus gestacional se tornarão diabéticas tipo 2, muito embora a dieta, a prática de exercícios e o uso de metformina possam reduzir essa incidência. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A aderência a um padrão dietético saudável em mulheres com DMG prévia está associada a um risco 40 a 60% menor de desenvolverem diabetes tipo 2, e mulheres que amamentam por mais de 3 meses apresentam risco menor para o desenvolvimento dessa doença. Nota-se, portanto, que estabelecer o diagnóstico do DMG oferece a possibilidade não somente de melhorar o prognóstico da gravidez, mas também de reduzir os fatores de risco associados ao desenvolvimento subsequente do diabetes tipo 2. Organizações internacionais recomendam que toda mulher que teve diabetes melitus gestacional seja rastreada com 6 a 12 semanas de pós-parto pelo TOTG, sendo conduzida adequadamente de acordo com o resultado: repetição anual do teste na paciente com pré-diabetes e exame a cada 3 anos naquela sem alteração. riscos e complicações motivados pela diabetes gestacional: Muitas são as anomalias congênitas presentes nos filhos de mães diabéticas. As malformações fetais têm como principal etiologia o mau controle glicêmico durante o período da organogênese, entre a 6ª e a 8ª semana de gestação. A formas mais comuns dessas anomalias incluem alterações cardíacas complexas, anencefalia, espinha bífida, e distúrbios esqueléticas, como a agenesia do sacro. A difusão facilitada de glicose através da placenta determina hiperglicemia e hiperinsulinemia fetais, com consequências importantes para a vida do concepto. A insulina determina excessivo crescimento fetal, especialmente do tecido adiposo. O feto da mulher diabética mal controlada tem risco elevado de macrossomia (peso maior que 4.000 g), com concentração desproporcional de tecido adiposo nos ombros e no tórax, dobrando o risco de distocia no parto. Também é frequente a ocorrência de polidrâmnio, pois o feto macrossômico é poliúrico. O risco de abortamentos em mulheres com DMG mal controlada é duas vezes maior do que em gestantes sem essa condição. As chances de parto prematuro também aumentam, dessa vez em 5 vezes, principalmente quando há associação ao aumento do volume de líquido amniótico. A taxa de mortalidade perinatal no diabetes é aproximadamente o dobro da vigente na população não diabética. A morte fetal é observada mais frequentemente nas últimas semanas da gravidez em pacientes com controle glicêmico deficiente, polidrâmnio e macrossomia fetal. O mecanismo do óbito na gravidez complicada por macrossomia pode ser consequência da hiperinsulinemia fetal levando ao metabolismo anaeróbio, com acúmulo de ácido láctico e consequente hipóxia e acidose. A pré-eclâmpsia, distúrbio materno referente ao aumento da pressão arterial, ocorre em 30 a 50% dos casos de DMG com proteinúria, e em mais da metade daqueles com insuficiência renal. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR controle obstétrico e o parto em caso de diabetes melitus gestacional: Em relação ao seguimento das consultas de pré-natal com gestantes com DMG, ele é feito inicialmente em regime quinzenal, com o acompanhamento de mulheres com diabetes pré-gestacional ocorrendo de forma mais frequente, com os intervalos podendo aumentar de acordo com a evolução clínica. A partir da 36ª semana, com a iminência do parto, essas visitas devem passar a ocorrer ao menos semanalmente. O bem-estar fetal depende principalmente da manutenção da mãe em estado euglicêmico, com avaliações realizadas conforme a gravidade e as condições metabólicas da gestante. As gestantes com ótimo controle metabólico e sem intercorrências da gravidez podem aguardar a evolução espontânea para o parto, porém este pode ser antecipado naquelas com metabolismo descompensado, vasculopatia, nefropatia ou história de natimorto anterior, podendo ser empregados corticoides para induzir a maturação pulmonar fetal. Em mulheres insulinodependentes e vasculopatas, o parto deve ser realizado até a 38ª semana de gestação. A via do parto é uma decisão obstétrica, sendo necessário estimar o peso fetal por avaliação clínica e ultrassonográfica. Se o peso fetal estimado por imagem for maior ou igual a 4.500g, a realização de cesariana pode ser considerada. Durante o trabalho de parto, o profissional deve estar atento para a evolução no partograma, pois complicações podem surgir, diminuindo-se o limiar para realização de cesariana de forma a minimizar a ocorrência de distocia de ombro e outras lesões de parto. De forma geral, três cenários podem ser esperados: Trabalho de parto espontâneo: o Realizar uma dosagem de glicemia na admissão; o Suspender o uso de inulina; o Permitir ingestão de líquidos claros na fase de latência; o Iniciar solução salina; o Monitorar glicemia de 2 em 2 horas na fase de latência e de 1 em 1 hora na fase ativa; o Manter glicemia capilar entre 70 e 110 mg/dl no trabalho de parto; Se a glicemia estiver abaixo de 70 mg/dl, iniciar infusão de solução glicosada a 5% entre 100 e 150 ml/h; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Se a glicemia estiver acima de 110 mg/dl, infundir insulina intravenosa a 1,25 U/h. Indução programada do parto: o Esse processo não deve ser agendado para o início da manhã; o Se a indução for iniciada com algum método de preparação do colo (ex.: misoprostol), manter a dieta e o regime usual de insulina até início do trabalho de parto e depois seguir com protocolo de trabalho de parto espontâneo; o Se o parto for induzido com ocitocina, manter dose usual de insulina na noite anterior, suspender insulina no dia da indução e seguir com protocolo de trabalho de parto espontâneo. Cesariana programada: o Deve ser agendada para o início da manhã; o Suspender dieta na noite anterior, oferecendo um lanche reforçado e líquidos em maior quantidade antes do jejum; o Manter dose de insulina na noite anterior, suspendendo-a pela manhã; o Solução intravenosa de glicose a 5% em 100 a 150 ml/h até o parto; o Monitorar a glicemia de 4 em 4 horas até o parto. Após o parto, o aleitamento materno natural deve ser estimulado. O médico deve monitorar os níveis de glicemia nos primeiros dias, avaliando a regulação do metabolismo glicídico por meio de um TOTG. rede cegonha e o parto humanizado no brasil: A Rede Cegonha foi um programa lançado em 2011 pelo governo federal, configurando- se como uma rede de cuidados que visa assegurar à mulher e à criança, o direito à atenção humanizada durante o pré-natal, parto/nascimento, puerpério e atenção infantil em todos os serviços de saúde do Sistema Único de Saúde. Esse projeto é o atual fruto da Política Nacional de Humanização e do Plano de Qualificação de Maternidades e Redes Perinatais da Amazônia Legal e Nordeste Brasileiros, tendo como objetivo a transformação dos serviços de saúde vinculados ao parto em ambientes de integração entre gestantes e profissionais, aproximando-os e fomentando a consolidação da confiança e do vínculo. Uma das principais premissas é centralizar a mulher no processo de nascimento, removendo a estigmatização do parto como doença. A violência obstétrica manifesta-se na negligência na assistência à saúde, na discriminação, violência verbal (tratamento grosseiro, ameaças, gritos, humilhação intencional); na violência física, incluindo não uso de medicação analgésica quando tecnicamente indicada; na violência sexual, ou o abuso propriamente dito, e nopreconceito com certos grupos populacionais, como os negros. Os eventos são tão frequentes em maternidades públicas que as mulheres já esperam sofrer algum tipo de violência. A despeito da necessidade de sistematização das práticas de atenção e Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR gestão do cuidado, a maternidade é marcada por normatizações e mecanismos disciplinares para os empobrecidos, o que resultou na despersonalização da paciente internada. É nesse contexto, para impedir a violação dos direitos da mulher e evitar o rebaixamento profissional que atua a Rede Cegonha, em sua proposta de integração de práticas e saberes, de modo a compõe um sistema de assistência à saúde movido pela humanização e pelo respeito. Dentre os princípios desse projeto, estão: O respeito, a proteção e a realização dos Direitos Humanos; O respeito à diversidade étnica cultural e racial; A promoção de equidade; O enfoque de gênero; A garantia dos direitos sexuais e reprodutivos de mulheres, homens, jovens e adolescentes; A participação e mobilização social; A compatibilização com as atividades das redes de atenção à saúde materna e infantil em desenvolvimento em cada estado. Os objetivos da Rede Cegonha contemplam: Novo modelo de atenção à saúde da mulher e da criança, com foco na atenção ao parto, ao nascimento, ao crescimento e desenvolvimento da criança dos 0 aos 24 meses; Criar uma rede de atenção que garanta acesso, acolhimento e resolutividade das queixas; Redução da mortalidade materna e neonatal. Dentre as diretrizes desse programa, encontram-se a: Garantia do acolhimento com avaliação e classificação do risco e vulnerabilidade, ampliando o acesso e melhorando a qualidade do pré-natal; Garantia de vinculação da gestante a uma unidade de referência e ao transporte seguro; Garantia de boas práticas e segurança na atenção ao parto/nascimento; Garantia de atenção à saúde das crianças de 0 a 24 meses com qualidade e resolutividade; Garantia de acesso às ações do planejamento reprodutivo. Para assegurar o cumprimento de suas metas, a Rede Cegonha divide-se em quatro grandes frentes, cada uma sendo responsável por um dos pilares do funcionamento da instituição, a saber: Componente Pré-Natal: Essa instância deve promover a realização do pré-natal na UBS, buscando meios de captar gestantes de forma precoce. Nesse âmbito, os profissionais devem acolher as intercorrências gestacionais e realizar classificações de risco, promovendo acesso oportuno aos centros de maior complexidade e a exames. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A gestante seria vinculada a uma maternidade de referência desde o início de seu pré-natal, evitando superlotação e incentivando que ela conheça o local onde ocorrerá o parto, formando vínculos com a equipe. O encaminhamento da gestante a esse serviço também é de encargo da Rede. A prevenção e o tratamento de ISTs, a hepatite e do HIV também se inserem com importantes, uma vez que minimizam a chance de transmissão vertical e o surgimento de intercorrências na gestação. Componente Parto e Nascimento: A primeira meta para esse componente é a suficiência de leitos nas maternidades, tanto em alojamentos obstétricos quanto neonatais, havendo importante destaque para a ambiência (sinergia entre o ambiente, as pessoas nele inseridas e suas relações, e um projeto de saúde voltado para a atenção acolhedora e humana). A classificação de risco gestacional se insere como um ponto de destaque, uma vez que atua para reduzir o índice de mortalidade materna e fetal. A Rede também garante à gestante o direito a um acompanhante durante todo o processo de parto e puerpério, para fornecer apoio e tranquilidade à mulher. Componente Puerpério e Atenção Integral à Saúde da Criança: Dentre as atuações da Rede Cegonha para a garantia do cuidado integral à criança estão o incentivo e a orientação para o aleitamento materno, desmistificando e naturalizando esse processo para a puérpera, permitindo que ela pratique e conheça as particularidades de sua relação binomial com o bebê, a visita domiciliar na primeira semana após o parto e a busca ativa por crianças vulneráveis. Esse grupo pode ser formado por filhos de mulheres com alto risco gestacional ou com rede de suporte precária, sendo necessário monitorá-los atentamente. A atuação em prol do planejamento familiar também é de extrema relevância, sendo feita por meio de medidas educativas em saúde sexual e reprodutiva, prevenção contra ISTs e informação sobre métodos contraceptivos. Sistema Logístico: A logística de operação da Rede é responsável por fornecer transporte por meio do SAMU Cegonha, equipado com incubadoras e ventiladores que garantam a chegada segura ao centro de saúde. É também encargo desse setor garantir a vinculação das gestantes a locais habilitados para a realização de partos, garantindo um número constante de vagas disponíveis, que também devem ser reguladas por esse componente. aspectos emocionais e psicológicos na gesstação e puerpério: O avanço do conhecimento acerca dos fenômenos físicos em obstetrícia tem expandido habilidades fundamentais a médicos e enfermeiros, favorecendo práticas de atendimento que incitem um estado de confiança maior na mulher. No entanto, as condutas baseadas somente nos aspectos físicos não são suficientes, necessitando daa compreensão dos processos psicológicos que se relacionam ao período grávido- puerperal. Isso se faz ainda mais importante no caso de gestantes adolescentes que, pelas especificidades psicossociais desse Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR momento, vivenciam uma sobrecarga emocional ainda maior trazida pela gravidez. O profissional de saúde deve, portanto, acrescentar à sua avaliação clínica essencial uma avaliação da mulher, com sua história de vida, seus sentimentos e suas ansiedades. Nesse contexto, cada etapa da gestação implica em condutas distintas: Primeira consulta de pré-natal: mesmo que se pressuponha que a mulher já tenha tido temo para refletir e internalizar acerca do impacto de sua gravidez, múltiplas inseguranças devem surgir, e cabe ao profissional de saúde acolher tais dúvidas e receios. o Nessa fase inicial, a gestante quer ter um apoio para essa nova fase, desejando saber se seu corpo é “bom o suficiente” para gestar e se está tudo bem com o concepto; o O profissional deve reconhecer que a gravidez inspira sentimentos ambivalentes, com medos primitivos aflorando; o O rastreamento emocional dessa gestante é crucial, sendo necessário verificar se ela pode contar com apoio familiar ou do parceiro, se já teve algum abortamento, se planejou a gestação... o O ambiente deve ser aberto para a participação do parceiro, acolhendo ambos e suas dúvidas. Seguimento das consultas: cada etapa da gestação traz consigo novas ansiedades que devem ser monitoradas e abordadas pelo médico. o 1º trimestre: oscilação entre “querer e não querer a gravidez”, medo de abortar, aumento da irritabilidade, relação pessoal com as primeiras mudanças corporais e com os desconfortos iniciais da gestação (náuseas, aversões alimentares, sonolência). o 2º trimestre: marcado por introspecção e passividade, a mulher deve lidar com a redução da libido e conviver com as contínuas alterações físicas, ocorrendo a percepção concreta do concepto (movimentos fetais); O significado da ecografia para a Área da Saúde difere daquele criado pelos pais, que veem nas etapas do desenvolvimento embrionário a formação da personalidade do bebê, cabendoa orientação adequada pelo obstetra e pelo restante da queipe. o 3º trimestre: o parto iminente traz consigo novas ansiedades, como medo da dor, da morte e da insuficiência. As queixas físicas aumentam. Cabe ao profissional orientar a mulher antecipadamente sobre a evolução da gestação e o parto, explicando os sintomas que irão ocorrer e seu papel para o nascimento do bebê. Puerpério: é um período essencial e provisório de vulnerabilidade psíquica, que permite a ligação intensa ao recém- nascido, adaptando-se à sua presença e ao atendimento de suas necessidades. o Relação entre o binômio mãe e filho ainda é incipiente, mas muito emocional; o A mulher inicia a postergar suas necessidades em prol das do bebê; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR o O apoio e a proteção de uma rede de suporte emocional ainda são imprescindíveis para a transição da mulher para essa nova fase; o A puérpera sente-se insegura sobre o aleitamento, duvidando da qualidade do seu leite e de sua força para nutrir o bebê, além de surgirem preocupações estéticas; o Surgem algumas alterações emocionais de destaque: Baby blues: mais frequente (50 a 70% das puérperas), é definido como um estado depressivo brando e transitório que aparece no terceiro dia pós-parto e se estende por cerca de duas semanas. A mulher mostra-se frágil, pouco motivada, tendo oscilações emocionais, sentimentos de insuficiência e diminuição da autoestima; Depressão pós-parto: acomete cerca de 10 a 15% das mulheres, tem como sintomas relacionados a perturbação do apetite, mudanças na qualidade do sono, falta de energia, ideações suicidas, sentimentos de inadequação, culpa e rejeição ao bebê; Psicose puerperal: é marcada pela perda do senso de realidade, delírios e alucinações, havendo risco para a mãe e para o bebê. No caso da psicose a angústia é da ordem do insuportável, podendo aparecer rituais obsessivos e pensamento desconexo. o Necessidade de readaptação da dinâmica familiar em resposta ao novo membro; o Alterações no comportamento sexual, motivadas pelas demandas do bebê e pelas alterações corporais decorrentes do parto e da amamentação. conduta ética no atendimento à saúde: O código de Ética da Medicina (CEM) é o regimento moral máximo para os profissionais da área, abrangendo temas como a responsabilidade profissional, a relação com o paciente, a remuneração e o sigilo profissionais, e a produção de conhecimento, entre outros. Todas as recomendações e vetos presentes nesse documento representam apenas recomendações de valor ético, estando abaixo da Constituição Federal e do Código Penal. Nesse sentido, o desrespeito a alguma das regras postuladas no CEM implica somente em desvio de conduta profissional, não sendo necessariamente punido fora da área médica. da responsabilidade profissional: Essa seção do Código visa apresentar o profissional ao impacto causado pela sua prática, seja ele decorrente de intervenção ativa ou da omissão. Destacam-se os seguintes artigos: É vetado ao médico: o Art. 1º Causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência; o Art. 5º Assumir responsabilidade por ato médico que não praticou ou do qual não participou; da Relação com pacientes e familiares: Esse segmento busca evidenciar a importância da figura do médico para o paciente, tanto como detentor de Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR conhecimentos em saúde como também sob a óptica da confiança nele depositada. Destaca-se o artigo: É vetado ao médico: o Art. 32. Deixar de usar todos os meios disponíveis de diagnóstico e tratamento, cientificamente reconhecidos e a seu alcance, em favor do paciente. Da remuneração profissional: Esse capítulo tem como objetivo a definição de limites e regras para a compensação financeira do médico, evitando assim a comercialização da Medicina. Destacam-se os seguintes trechos: É vetado ao médico: o Art. 65. Cobrar honorários de paciente assistido em instituição que se destina à prestação de serviços públicos, ou receber remuneração de paciente como complemento de salário ou de honorários; o Art. 66. Praticar dupla cobrança por ato médico realizado. PROBLEMA 2 - INTERMEDIÁRIA: A FISIOLOGIA DO TRABALHO DE PARTO: Com a iminência do trabalho de parto, o útero, órgão que abriga o bebê durante a gestação, deve sofrer contrações musculares para desloca-lo ao longo do canal vaginal. Esse processo é de fundamental importância, com seu conhecimento auxiliando a inibir nascimentos prematuros, para induzir o parto quando for necessária sua resolução, e também permitindo maior compreensão sobre o miotamponamento e a regressão uterina puerperal. Os componentes clássicos da mecânica do parto são o feto e seus anexos, a passagem materna, representada pela bacia obstétrica, e o constituinte motor, que diz respeito às contrações. CONTRAÇÕES UTERINAS: A movimentação contrátil ritmada do útero só é possível frente à ocorrência de mudanças expressivas na estrutura miometrial, que determinam hipertrofia e hiperplasia das células. A unidade geradora de contração uterina é formada por um complexo proteico (actina-miosina) disposto em fuso dentro do citoplasma e envoltas por uma matriz de tecido conjuntivo composta por colágeno, cuja principal função é facilitar a transmissão da força para todos esses feixes musculares. A interação entre os componentes desse grupo se dá por meio da ação da cinase da cadeia leve de miosina, que é, por sua vez, influenciada por três sistemas reguladores: cálcio, calmodulina e monofosfato de adenosina cíclico (AMPc). Os dois primeiros formam complexos estimuladores da atividade enzimática, ao passo que o último apresenta papel inibitório. Quando ativada, a cinase modula a fosforilação da miosina, movendo sua cadeia leve de modo que entre em contato com a actina, possibilitando assim a contração muscular local. Esses sistemas são inter-relacionados e respondem a ações hormonais e a agentes farmacológicos. A progesterona, principal hormônio da gravidez, consolida as ligações do cálcio no retículo sarcoplasmático, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR reduzindo assim a fração livre disponível de cálcio intracelular e, consequentemente, elevando o limiar de excitabilidade da fibra miometrial, tonando o útero quiescente e compondo o bloqueio progestagênico. De forma inversa, ação das prostaglandinas leva ao aumento dos níveis intracelulares de cálcio, favorecendo a contração das fibras. Somado a isso, as células musculares comunicam-se entre si via conexões proteicas denominadas junções gap (conexinas). Essas relações facilitam a sincronização e a transmissão dos estímulos eletrofisiológicos, aumentando de número ao longo da gestação, sofrendo influência de hormônios placentários, com destaque para o estrogênio, principal responsável pela maior densidade dessas proteínas. As fibras musculares miometriais apresentam, dentre suas principais características, os seguintes aspectos: Baixa sensibilidade a estímulos dolorosos: dor discreta pode ser associada ao colo e ao corpo do útero. Queixas relatadas durante a cesariana dizem respeito ao manuseio do peritônio, ao passo que no parto vaginal, elas dizem respeito à projeção da apresentação fetal contra o segmento inferior e os órgãos a ele adjacentes; Excitabilidade: as fibras musculares uterinas podem ser excitadas por estímulos estressantes, que liberam catecolaminas (ex.: adrenalina e noradrenalina), desencadeando assim contrações, frequentemente associadasao parto prematuro; Elasticidade: a capacidade elástica do miométrio pode ser decomposta em: o Extensibilidade: uma vez que o contorno do útero se adapta facilmente às alterações sofridas com a gestação e o trabalho de parto; o Retratilidade: com a redução abrupta do volume de líquido amniótico, as fibras contráteis do miométrio se encurtam, aumentando sua espessura em detrimento do comprimento, o que mantém o tônus do órgão. Esse processo garante que, com a expulsão do feto, o útero consiga se readaptar aos contornos da placenta e quando essa se desquitar, ao formato dos vasos sanguíneos, garantindo a hemostasia local (globo vivo de Pinard). Tonicidade: esse conceito é representado como a pressão intrauterina entre duas contrações; Pode estar alterada tanto para mais quanto para menos (hiper e hipotonia, respectivamente). Esses valores normalmente não se alteram significativamente, mesmo com toda a variação de volume sofrido pelo útero ao longo da gestação; Contratibilidade: dois tipos de contrações podem acometer o útero ao longo de toda a gestação: o Contrações de alta frequência e baixa amplitude (tipo A): localizadas, com um episódio por minuto e intensidade de 2 a 4 mmHg; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR o Contrações de alta amplitude (tipo B ou de Braxton Hicks): são difusas de forma total ou parcial pelo útero, atingindo intensidades de 10 a 20 mmHg. A frequência dessas últimas tende a aumentar com o avanço da gravidez, atingindo seu pico nas quatro semanas que precedem a gestação. Antes da 28ª semana, esses movimentos são quiescentes, passando então a ter sua intensidade elevada de forma gradual e coordenada ao incremento da frequência. É possível afirmar que o trabalho de parto se inicia pela ocorrência de contrações de intensidade entre 20 a 40 mmHg, com dois episódios a cada 10 minutos. Para analisar o trabalho desempenhado pelo útero ao longo do trabalho de parto de forma simples, é necessário determinar a atividade uterina, produto da multiplicação entre a intensidade e a frequência das contrações em 10 minutos, medidas em Unidades Montevidéu (mmHg/10 minutos). Dessa forma, a análise da pressão do líquido amniótico permite mensurar a atividade contrátil quanto a sua intensidade e frequência, ao passo que a menor pressão nesse intervalo determinará o tônus muscular uterino. A intensidade de cada contração será o excesso pressórico sobre a pressão amniótica para além da tonicidade basal, e a frequência é expressa pelo número absoluto de contrações nesse período. É possível perceber uma contração por meio da palpação somente quando sua intensidade ultrapassa 10 mmHg, o que faz com que não seja possível identificar o começo e o fim dessas ondas, subnotificando-as. A duração clínica dos episódios (70 segundos, em média) também é menor que a real (cerca de 200 segundos). A dor é perceptível em intensidades superiores a 15 mmHg, valor suficiente para dilatar o útero, moldando o canal de parto, situação que se perdura, em sua forma palpável0 por cerca de um minuto. Em situações nas quais o tônus uterino é muito elevado (30 mmHg, quando o normal é oscilar em torno de 10 mmHg), podem ocorrer microcontrações, que por sua vez são capazes de causar o deslocamento prematuro da placenta, no qual não há indícios de tônus de repouso. CONTRAÇÕES SURANTE A GESTAÇÃO E O PUERPÉRIO: CONTRAÇÕES UTERINAS NA GESTAÇÃO: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Ao longo da gestação, o miométrio cresce de forma contínua, e graças ao bloqueio da ação progestagênico, as contrações apresentam baixa frequência, com predomínio daquelas do tipo A até a 28ª semana, quando se instalam principalmente episódios do tipo B, com maior recorrência nas últimas 4 semanas antes do parto. Sendo afetadas por esse controle hormonal, tais contrações não são dolorosas, podendo servir para estimular a circulação fetal. O período de intensificação das contrações de Braxton Hicks corresponde ao momento de maior aumento do peso fetal. Nas semanas finais da gestação, as contrações tipo B tem sua duração aumentada, gerando distensão do segmento inferior do útero e um pequeno encurtamento do colo, justificando assim a percepção de volume abdominal diminuído (queda do ventre). Esse quadro pode causar queixas dentre as gestantes, mesmo sendo totalmente fisiológicas. A conduta consiste somente na administração de antiespasmódicos e na indicação de repouso relativo, porém é necessário diferenciar bem essas contrações daquelas dolorosas, que de fato irão implicar em mudanças do colo. Dessa forma, para além da dor o que ajuda a distinguir as contrações de Braxton Hicks é a ausência de ritmicidade e sua cessação com as medidas terapêuticas supracitadas. CONTRAÇÕES UTERINAS NO PARTO: A presença de contrações regulares e de alterações progressivas no cérvix diagnosticam o trabalho de parto, período que se inicia quando a dilatação do colo uterino atinge 2 cm, com atividade uterina oscilando entre 80 e 120 Unidades Montevidéu. Essa movimentação começa na porção superior do abdome, onde é mais intensa, e progride até o segmento inferior por meio do corpo do útero, com uma intensidade que decresce gradualmente, conjunto de características que define a tríplice gradiente decrescente, que deve ser mantida para a evolução adequada do trabalho de parto. Durante o período de dilatação, as contrações ocorrem na frequência de duas ou três a cada 10 minutos, com intensidade média de 30 mmHg, ao passo que, na fase expulsiva, esse valor pode chegar a cinco contrações no mesmo espaço de tempo, dessa vez com intensidade de cerca de 50 mmHg. Nesse momento, somam-se às contrações do útero os movimentos da musculatura abdominal, chamados de “puxo”, visando aumentar a pressão interna do abdome e facilitar a expulsão do bebê. Cerca de 300 mL de sangue são ejetados do útero em direção ao coração a cada movimento contrátil, determinando assim um aumento do retorno venoso e, consequentemente, do volume sistólico de ejeção. Essa alteração, juntamente com a diminuição da pressão uterina sobre a veia cava inferior, deve ser observada com atenção, pois em mulheres hipertensas ou cardiopatas, essa súbita elevação na hemodinâmica corporal pode favorecer o desenvolvimento de edema pulmonar agudo. CONTRAÇÕES UTERINAS NO PUERPÉRIO: Mesmo após a expulsão do feto, o útero mantém um caráter rítmico de contrações que buscam a dequitação fisiológica. Em direta oposição aos episódios do parto, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR essas movimentações são indolores, com duas ou três contrações sendo suficientes para deslocar a placenta rumo ao canal de parto. Esse momento, o primeiro do secundamento, é chamado de tempo corpóreo, perdurando por 6 a 10 minutos. As contrações do puerpério imediato apresentam como principal função ajudar a eliminação da placenta e evitar hemorragias uterinas. Esse microtamponamento promove a “laqueadura viva” dos vasos e contrai a musculatura do útero (globo de segurança, por Pinard). Após 12 horas do parto, é registrada uma contração a cada 10 minutos, com diminuição do número e da intensidade das manifestações nos dias que se segue. Durante a amamentação, a sucção de leite pelo bebê libera ocitocina, que aumenta a frequência das contrações uterinas e pode causar desconforto na puérpera. Globo de segurança de Pinard (útero ao nível da cicatriz umbilical, fortemente contraído) DETERMINISMO DO PARTO: Ao longo da primeira metade da gestação, o útero se dilata por meio de hiperplasia e hipertrofia celular, momentoapós o qual a unidade fetoplacentária se acomoda na cavidade do órgão e ocorre o crescimento contínuo do concepto graças ao estiramento miometrial. Com a aproximação da gravidez, o útero sofre contrações com ausência de ritmo e de caráter não fúndico, o que muda com a iminência do nascimento, que induz episódios mais coordenados, comandados pelo fundo uterino. O amadurecimento do cérvix, que ocorre algumas semanas antes dessas mudanças no caráter das contrações, acontece devido à redução da concentração total de colágeno e na alteração da solubilidade deste, que também apresenta formação de fibras mais fracas, além do aumento da colagenólíse. Associada a esta situação existe uma franca resposta inflamatória caracterizada pela maior concentração de macrófagos, neutrófilos e eosinófilos e pelo aumento de interleucinas (ex.: IL-8) e prostaglandinas A ativação uterina é realizada pelas uterotrofinas, que apresentam como função tornar o útero responsivo aos estímulos contráteis determinados pelas uterotoninas. As uterotrofinas são representadas pelos receptores da ocitocina, receptores de prostaglandinas, junções gap, interleucinas (1-β, 6 e 8) e pela ciclogenase (COX). As uterotoninas, por sua vez, incluem as prostaglandinas e a ocitocina Dessa forma, nota-se que a origem do trabalho de parto não pode ser somente determinada de acordo com a contratilidade do miométrio, sendo necessário incluir essas alterações ao tecido conjuntivo, que geram o amadurecimento e o apagamento do colo. As teorias mais importantes para o esclarecimento desse processo são: Teoria ocitócica: A ocitocina, hormônio secretado pela neurohipófise e pela decídua (no período gravídico), ao se ligar num receptor de membrana nas células do miométrio, promove a produção de trifosfato de inositol (IP3), que por sua vez libera cálcio armazenado no retículo sarcoplasmático, deflagrando assim as contrações uterinas. Esse hormônio é facilmente inativado na circulação sanguínea graças a uma enzima denominada ocitocinase, cuja concentração atinge um pico na 36ª semana de gravidez, Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR mantendo-se elevada até o parto. Sua maior eficácia, no entanto, não ocorre até fases mais avançadas do trabalho de parto, uma vez que no início ocorre uma maior deposição de receptores miometriais. Mesmo que a ocitocina seja importante para o controle da efetividade das contrações, o seu surgimento não é determinado somente por maior liberação endógena do hormônio, que age de forma importante na expulsão fetal e na dequitação. Agonistas naturais da ocitocina, como o acetato de atosibana, podem ser empregados no retardo de contrações prematuras, tendo como mecanismo de ação a competição por receptores miometriais, com os quais formam ligações mais estáveis, e a inibição da secreção decidual da ocitocina, evitando assim a liberação de cálcio que estimula o movimento do útero. Teoria da gangorra: Nesse modelo, o parto seria resultante do crescimento miometrial determinado pelo desenvolvimento do concepto. Sob a interferência desse estímulo contínuo, o mecanismo de distensão/contração excessiva das fibras musculares seria freado pela concentração de progesterona elevada, que mantém o útero refratário às contrações. A partir do momento que esse hormônio tem sua distribuição reduzida, o parto é deflagrado, sob ação da prostaglandina. Como os valores de progesterona não se reduzem antes do trabalho de parto, essa teoria não apresenta suporte científico na literatura moderna. Referências atuais, no entanto, pontuam que alterações podem ocorrer a nível local nos receptores de progesterona, interferindo na quiescência uterina. Há uma elevação, no momento do parto, da expressão de IL-8 e de junções gap, inibidas pela ação progestagênica, e de um outro fator denominado Kappa B, que pode agir como um anti-progestágeno, anulando o efeito desta e permitindo a atividade da interleucina e da enzima COX-2. Teoria prostaglandínica: As prostaglandinas são formadas pela decídua, pelo miométrio e pelos anexos fetais, destacando-se o âmnio. O ácido araquidônico, percussor dessa classe de hormônios, é liberado a partir dos fosfolípides presentes nas membranas celulares. Em seguida, as cicloxigenases irão reduzir ou oxidar esse ácido, seja sob a ação da COX-1, produzida em toda a gestação, ou da COX-2, que se eleva graças a atividade sinérgica de outras citocinas nos momentos que antecedem o parto. Essa última liberará as prostaglandinas a partir dos anexos fetais. Além da ação específica das cicloxigenases 1 e 2, há evidências que apontam que o aumento da sensibilidade uterina a contrações esta também relacionado a uma maior expressão de receptores específicos para essas prostaglandinas. Teoria fetal: A ação do feto para a deflagração do trabalho de parto se mostra na modulação das membranas anexas a ele, que se tornam mais sensíveis à liberação de hormônios como prostaglandinas, produzidas a partir da ativação da 17-alfa-hidroxilase e da 17,20- Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR liase ambas dependentes da ação do citocromo p450 e resultantes da produção elevada de cortisol pela placenta durante o parto. FASES CLÍNICAS DO PARTO: O pano é caracterizado por contrações das fibras miometriais, que favorecem a dilatação cervical e a expulsão do feto pelo canal do parto. O processo de regulação fisiológica dessas alterações pode ser dividido em quatro etapas: quiescência (ou fase 1), ativação (fase 2), estimulação (fase 3) e involução (fase 4). A quiescência caracteriza-se como um período de relativa ausência de respostas a agentes contráteis, iniciada com a implantação do zigoto, perdurando ao longo de quase toda a gestação, mesmo quando ocorrem contrações de tipo B, já que elas não alteram nem a dilatação, nem a conformação do colo uterino. A fase de ativação é responsável por preparar o útero e o canal cervical para o trabalho de parto, durando cerca de 6 a 8 semanas. Tal adaptação implica em mudanças conformacionais sendo a de maior destaque a descida do fundo uterino. Esse processo é então sucedido pela estimulação, subdividida clinicamente em três períodos (dilatação, expulsão e dequitação), com principal evento sendo as contrações efetivas da parede muscular uterina. Para que o trabalho de parto seja adequado, esses episódios devem ocorrer de forma regular, com duas a cinco contrações a cada 10 minutos, com intensidade de, em média 40 mmHg (oscilando entre 20 e 60 mmHg) e duração de cerca de 60 segundos (podendo vaiar de 30 a 90 segundos). A involução, por fim, representa o retorno ao estado pré-gravídico, iniciando-se logo após a dequitação, e sendo responsável por episódios contráteis que regridem a musculatura uterina. FASE DE ESTIMULAÇÃO: DILATAÇÃO: A fase de dilatação, ou primeiro período, tem início com as primeiras contrações dolorosas, que agem modificando o cérvix, terminando somente com a dilatação completa do colo (10 centímetros), o que permite a futura passagem do feto pelo canal. Tais mudanças englobam dois fenômenos distintos, o esvaecimento (apagamento) cervical e a dilatação em si. Nas primíparas, essa é a ordem de ocorrência dos eventos, que se dão de forma sucessiva e “de cima para baixo”, culminando com a maior abertura cervical, processo que, nas multíparas, é simultâneo. O apagamento do cérvix baseia-se na inclusão do colo na cavidade uterina, culminando na formação de um “degrau” em direção ao centro da abóbada uterina. Tal Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR processo é o resultado dediversas alterações bioquímicas que reorganizam e fragmentam as fibras de colágeno (o que ocorre principalmente em decorrência das prostaglandinas) e a concentração de glicosaminoglicanas. Com a proximidade do termo, esse movimento de lise colágena e a maturação cervical promovem um aumento do infiltrado inflamatório no canal cervical. A ação da progesterona inibe o esvaecimento do colo, uma vez que tem papel anti- inflamatório. A dilatação do cérvice pode ser evidenciada por meio da ampliação do orifício interno dessa região, que irá expandir o canal vaginal e incentivar a comunicação entre útero e vagina. Enquanto esse processo ocorre, surge um espaço entre o polo cefálico do bebê e as membranas anexas ovulares, no qual será coletado o líquido amniótico, que auxiliará no deslocamento do istmo. O rompimento da bolsa causa a eliminação parcial de seu conteúdo líquido, ocorrendo, normalmente, no momento no qual essa dilatação já é superior a 6 centímetros. Esse rompimento pode, no entanto, ser precoce, presente já no início do trabalho de parto (RPMO – Rotura das membranas Ovulares Antes do Trabalho de parto), ou tardio, marcando assim a ocorrência de um parto empelicado Tal momento é descrito conforme uma curva segmentada em fases latente e ativa, com essa última apresentando mais três subdivisões: Aceleração: período de elevação da curva, ocorre simultaneamente aos momentos de modificação inicial do diâmetro cervical; Dilatação/aceleração máxima: mudança da dilatação inicial de 2 a 3 cm para cerca de 8 a 9 c; Desaceleração: pode desistir se esse processo antes da dilatação interna. A fase de latência apresenta contrações mais eficazes quanto à intensidade e à coordenação, porém não resulta em mudanças efetivas na dilatação cervical. Mesmo não sendo possível medir com exatidão a duração fisiológica do parto, o tempo representa um dos principais parâmetros para identificar alterações na evolução do parto. Essa fase inicial dura cerca de 8 horas, com dilatação de 0,35 cm/h, parâmetros que podem ser alterados de acordo com a história. Esse período será considerado como prolongado quando sua realização se estender por mais de 20 horas em primíparas e 14 horas em multíparas. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A fase ativa geralmente se inicia com dilatação cervical de 4 cm e dura em média 6 horas nas primíparas, com velocidade de dilatação de cerca de 1,2 cm/h, e 3 horas nas multíparas, com velocidade de dilatação de 1,5 cm/h. A curva de desenvolvimento do trabalho de parto pode ser seguida como forma de organizar um roteiro de procedimentos e expectativas, relação que sofre alterações quando a gestante é submetida à analgesia ou à ocitocina para estimulação do parto. O diagnóstico de trabalho de parto é condicionado à presença de contrações uterinas com ritmo, a alterações graduais no colo uterino, e à formação da bolsa das águas. Assim, a determinação do trabalho de parto não pode se restringir a avaliação de apenas um desses indícios, devendo, no entanto, avaliar todo esse conjunto, com contrações ritmadas em frequência de duas a cada 10 minutos, com dilatação uterina de pelo menos 2 cm e observação de esvaecimento cervical. EXPULSÃO: Na segunda fase do parto, o feto é expelido do útero pelo canal do parto, sofrendo a ação das contrações uterinas e da musculatura do abdome. A maior parte dos fenômenos mecânicos do parto ocorrem nesse período, e o segmento uterino se une ao canal vaginal, formando apenas uma cavidade. Dessa forma, tal período é delimitado pela expansão completa do cérvix e pelo nascimento do feto. Ao fim do processo de dilatação, o útero mantém-se imóvel pela ação de contenção dos ligamentos largo (lateral), redondo (superior) e uterossacro (posterior), ao passo que as forças de contração miometrial convergem para o orifício interno do colo do útero, impelindo a apresentação fetal para essa região. A descida do polo cefálico pelo canal de parto compreende duas fases bem definidas, a fase pélvica e fase perineal. A primeira caracteriza-se pela dilatação completa do colo uterino e pela apresentação acima do plano +3 de De Lee, enquanto a segunda apresenta a cabeça rodada e em um plano inferior a +3. A duração desse período está condicionada à proporção cefalopélvica e à eficiência contrátil do útero e da musculatura abdominal, durando em média 30 minutos nas multíparas e 60 minutos nas primíparas. A determinação do intervalo máximo em que é seguro aguardar o desenvolvimento natural do segundo período é difícil. Caso o bebê apresente boa vitalidade, essa duração pode se estender, passando a ser considerada quando ultrapassa, em primíparas, 3 horas sem analgesia e, em multíparas, 2 horas sem analgesia. Frente à administração de anestesia epidural, esse momento pode ser acrescentado a mais uma hora. DEQUITAÇÃO: Ao longo dessa fase, chamada também de secundamento ou dequitadura, a placenta e demais membranas anexas são expulsas pelo útero, após o nascimento do bebê, eliminadas pela rima vulvar. O motivador para esse descolamento é a redução do volume uterino, associada às contrações musculares vigorosas e indolores. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Dois tipos clássicos de descolamento podem ser observados, o central (conhecido também como descolamento de Baudelocque-Schultze), e o marginal ou periférico (também denominado como descolamento de Baudelocque-Duncan). Esses processos são definidos por, respectivamente, por se iniciarem no centro ou nas laterais uterinas. De forma clássica, no descolamento central, a primeira porção placentária vista na região vulvar é a parte fetal, enquanto que os acometimentos marginais contam com exibição inicial da face materna. O primeiro processo é mais comum, com sangramento após a dequitação, responsável pela formação de um hematoma retroplacentário, ao passo que o segundo, menos frequente, apresenta escoamento sanguíneo anteriormente à expulsão da placenta. O desenvolvimento da dequitação acontece entre 10 minutos a 1 hora após o parto. Fisiologicamente, no entanto, recomenda-se que o processo se desenvolva após 20 a 30 minutos do nascimento. PRIMEIRA HORA PÓS-PARTO: A primeira hora pós-parto, conhecida erroneamente pela denominação “quarto período de Greenberg”, se inicia logo após a dequitação, representando a primeira etapa do puerpério, na qual há estabilização dos sinais vitais maternos e a hemostasia do útero. Tal período se caracteriza pelos fenômenos de miotamponamento, trombotamponamento, pela indiferença miouterina e pelas contrações uterinas fixas. Com a redução do volume do útero, as artérias uterinas e ovarianas sofrem angulação, o que afeta a perfusão sanguínea local. A contração sequencial do miométrio promove a oclusão de seus vasos, fenômeno denominado como globo vivo por Pinard. O trombotamponamento é a segunda linha de defesa contra a hemorragia e tem como característica a formação de trombos nos grandes vasos uteroplacentários, que se prolongam pelos coágulos intrauterinos que recobrem o leito placentário, não devendo ser removidos. A indiferença miouterina é caracterizada pela contração e relaxamento das fibras miometriais e ocorre na primeira hora pós- parto. Dessa forma, pode ocorrer tanto o enchimento quanto o esvaziamento de sangue uterino ao longo desse período, requerendo fatores externos para garantir a hemostasia local. Esse estado de indiferença uterina pode ser prolongado nos trabalhos de pano complexos, nas grandes multíparas e quando há distensão excessiva do útero, como em gestações múltiplas ou com fetos macrossômicosou, ainda, na presença de polidrâmnio. A contração uterina fixa surge com o fim desse período e o maior tônus uterino mantém a hemostasia puerperal, auxiliando no retomo do útero ao estado pré- gravídico. MATURAÇÃO CERVICAL: A maturação cervical corresponde ao processo no qual o colo uterino se transforma de uma estrutura fechada, que tem como objetivo manter a gestação intra- útero, para uma região macia, complacente e capaz de se dilatar para acomodar a passagem do bebê, mudanças essas que ocorrem espontaneamente antes do trabalho de parto sem indução. Bioquimicamente, a maturação cervical é um processo complexo no qual estão envolvidos vários tipos de glicosaminoglicanas e outras substâncias Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR que agem na degradação do colágeno, como proteases e colagenases. Uma das formas de se quantificar a maturação cervical é a utilização do índice de Bishop. Nessa escala, considera-se que valores iguais ou superiores a 9 se associam a alta probabilidade de panos normais após a indução do trabalho de parto. Valores inferiores ou iguais a 6 denotam que a maturação cervical não foi completa, com baixa probabilidade de parto vaginal mesmo após a indução. Nesses casos, pode-se considerar a artificiais para alcançar a maturação, como o uso de ocitocina ou de prostaglandinas. Outra proposta para avaliar a maturação cervical tem sido a utilização da ultrassonografia com o objetivo de diminuir a subjetividade e a variação interobservador quando se usa o exame clínico de toque digital. São analisados principalmente o comprimem do colo e seu orifício interno, e o ângulo formado pelo eixo cervical e a parede do segmento inferior do útero, mas esses indícios não demonstram superioridade em relação à avaliação clínica. MECANISMO DE PARTO: O conjunto de movimentos e fenômenos realizados ativa ou passivamente pelo feto em sua passagem pelo canal vaginal é chamado de mecanismo de parto. Com a importância do concepto nesse processo, o trabalho de parto pode ser facilitado ou dificultado a depender das relações entre a forma e o diâmetro da pelve materna e o diâmetro e o posicionamento do concepto. Novamente são as contrações uterinas que impulsionam o feto em direção a vulva, concretizando o nascimento. As apresentações cefálicas fletidas com posição anterior são, além de mais comuns, as que apresentam maiores chances para a progressão normal do trabalho de parto. Outras possíveis apresentações, como fletidas transversas, defletidas e pélvicas são menos comuns, aumentando o risco de partos distócicos, porém não inviabilizando o nascimento por via vaginal, uma vez que esse fator depende tanto de características anatômicas da bacia e das contrações uterinas, quanto do feto. Assim, consideram- se essas posições como um fator limitante, mas não necessariamente determinante de um parto de evolução difícil. RELAÇÕES UTEROFETAIS: As relações uterofetais dizem respeito às interações espaciais entre o concepto e o organismo materno, utilizando nomenclaturas acordadas em convenção para descrevê-las, favorecendo assim a comunicação e o entendimento entre profissionais. ATITUDE: A atitude corresponde a relação entre diversas partes do feto entre si, dependendo da disposição dos membros e da coluna vertebral. Normalmente, o concepto se mantém em atitude de flexão ao longo de toda a gestação e durante o parto, com a coluna vertebral produzindo uma concavidade voltada para a face anterior do bebê, e os membros dispostos em posição anteriorizada, também fletidos. Nessa disposição, o feto assume um aspecto ovoide, com duas extremidades distintas sendo representadas pelos polos cefálico e pélvico. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Em algumas situações, pode ocorrer extensão da coluna vertebral associada a deflexão da cabeça, originando as posições defletidas de 1º, 2º e 3º graus. A ausência generalizada de flexão em todos os membros enquadra-se como anormal, podendo indicar quadro de grave sofrimento fetal decorrente da perda do tônus muscular. SITUAÇÃO: A situação consiste na relação entre o maior eixo da cavidade uterina e o maior eixo fetal, gerando assim três possibilidades de colocação fetal: longitudinal, transversa e oblíqua. APRESENTAÇÃO: A apresentação corresponde a região fetal que preenche a região do estreito superior e que irá se insinuar nesse local. Para que esse quesito possa ser avaliado, é necessário que o volume fetal encontre obstáculos na passagem pela pelve, o que justifica a ausência de apresentação antes do sexto mês de gestação ou quando são detectados membros, uma vez que seus diâmetros seriam inferiores aos da bacia materna. A apresentação se relaciona diretamente à situação fetal: Quando o feto se encontra em situação longitudinal, sua apresentação pode ser cefálica ou pélvica, dependendo de qual polo ocupa a parte inferior do útero; Apresentações cefálicas fletida (A) e defletida (B, C e D) E: apresentação pélvica completa / F: apresentação pélvica incompleta Em casos de situação transversa, a apresentação pode ser córmica (de ombro), na qual o dorso está inserido anterior ou posteriormente, e a apresentação dorsal superior ou inferior, em que o plano coronal do feto é perpendicular ao materno, sendo muito mais rara. G: apresentação córmica dorsoanterior /H: apresentação córmica dorsoposterior Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Em gestações a termo, a situação longitudinal é bem mais comum que a transversal ou a oblíqua, assim como a apresentação cefálica é mais prevalente. Esse fato se deve à teoria da acomodação formulada por Pajot (1870), que postula que “todo sólido de superfícies arredondadas e lisas contido em outro que apresente alternativas de contração e resolução, procura acomodar-se à forma e às dimensões do continente”. O feto, no período que antecede o nascimento, se orienta conforme essa lei ao coincidir seu maior eixo com o maior eixo uterino e ao acomodar o polo pélvico e os membros inferiores fletidos no fundo do útero, que apresenta maior volume, e o polo cefálico no segmento inferior, ambos de menores dimensões. Uma parte fetal menor, como um dos membros, pode também se antepor à apresentação geral, ocupando o canal vaginal ou se exteriorizando pela vulva, processo denominado prolapso ou procidência. Existe ainda a possibilidade do que se chama de laterocidência, em que essa parte de menor volume desce ao lado e junto de um dos polos fetais, dando origem a uma apresentação composta. A orientação fisiológica da cabeça fetal pressupõe que ela se mantenha fletida, com o queixo acompanhado o esterno, compondo a apresentação cefálica fletida (conhecida também como de vértice ou de occipício). Pode, no entanto, ocorrer um afastamento da cabeça em direção ao corpo, estando ela defletida ou até mesmo estendida, em graus variáveis: Deflexão de 1º grau: há a apresentação do bregma; Deflexão de 2º grau: há exposição da glabela como ponto de referência fetal, correspondendo à apresentação da fronte; Deflexão de terceiro grau: o mento torna- se o ponto de referência fetal ao toque, correspondendo à apresentação da face. Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR Frente à apresentação pélvica, a atitude fisiológica desse polo prevê que as coxas se mantenham fletidas contra o abdome, com as pernas fletidas junto às coxas. Nessa posição, o feto encontra-se em apresentação pélvica completa. Caso os membros inferiores assumam outras posições, é possível encontrar as seguintesapresentações: Modo de nádegas ou agripina: os membros inferiores estão estirados e rebatidos em direção ao ventre do feto; Modo de joelhos e pés: como essas partes apresentam volume insuficiente para comprimir o colo do útero ao longo do trabalho de parto, a mudança de posição dessas estruturas pode ser classificada como uma procidência. POSIÇÃO: A posição fetal é definida como a relação do dorso fetal com o lado materno, podendo ser esquerda (primeira posição) ou direita (segunda posição). O papel dessa classificação é determinar o melhor local para realização da ausculta cardíaca fetal durante o trabalho de parto, ponto que normalmente será ipsilateral ao dorso do bebê. A única exceção é feita em casos de deflexão de cabeça em 3º grau, situação na qual os batimentos são mais nítidos na região anterior do tronco. A variedade de posição complementa a orientação espacial do concepto ao relacionar um ponto de referência da apresentação fetal com uma estrutura óssea da bacia materna, considerando as faces anterior, posterior ou lateral da gestante. Assim, três letras determinam a apresentação, a posição e a variedade de posições fetais: A primeira letra corresponde ao ponto de referência para a apresentação fetal, podendo ser O (occipício), B (bregma), N (naso), M (mento), S (sacro) e A (acrômio); A segunda letra refere-se ao lado materno para o qual está voltado o ponto de referência fetal (posição), podendo ser D (direita) o E (esquerda). Essa letra é suprimida nas variedades anteroposteriores (sacral e púbica). De Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR modo geral, as posições esquerdas são mais frequentes; A terceira letra indica a variedade de posição, conforme o feto esteja voltado para o ponto de referência ósseo da bacia materna, sendo A (anterior) para a eminência ileopectínea, T (transversa) para a extremidade do diâmetro transverso, P (posterior ou púbis) quando aponta para a sinostose sacroilíaca ou púbis, ou S (sacro). Para a avaliação fetal durante o trabalho de parto, realiza-se o toque vaginal procurando identificar a variedade de posição, tendo por base a relação entre pontos de reparo matemos e fetais. Esses pontos são acidentes ósseos reais, enquanto os pontos de referência são convenções para nomeá- los. Além da variedade de posição, pode-se lançar mão de outras referências fetais como as linhas de orientação, formações lineares da superfície da apresentação fetal que coincidem com um dos diâmetros da bacia em determinado momento do trabalho de parto. Entre os possíveis pontos utilizados é muito importante diferenciar, durante o exame clínico de toque vaginal, a fontanela lambdoide (em forma de “V") e a fontanela bregmática (em forma de losango) para determinar corretamente a variedade de posição e a apresentação fetais. As estruturas utilizadas para determinar essa posição são: Sutura sagital: palpável em apresentações cefálicas fletidas; Sutura sagitometópica: apresentações cefálicas defletidas de 1º grau ou bregmáticas; Sutura metópica: apresentações cefálicas defletidas de 2º grau ou de fronte; Linha facial: apresentações cefálicas defletidas de 3º grau ou de face; Sulco interglúteo: apresentações pélvicas. APRESENTAÇÃO CEFÁLICA FLETIDA: Em situações de apresentação cefálica fletida, o parto se divide em seis tempos, divididos somente para fins didáticos, uma vez que essas fases se sobrepõem a todo o tempo, numa relação em espiral. Essas etapas são descritas de forma generalizada, podendo ocorrer em outros tipos de apresentação. INSINUAÇÃO: A insinuação corresponde à passagem do maior diâmetro da região apresentada, perpendicular à linha de orientação fetal, pela abertura superior da pelve materna. Nas apresentações cefálicas, essa medida é o diâmetro biparietal, e nas pélvicas, o bitrocantérico. Para a maioria das mulheres, quando ocorre a insinuação, o ponto de referência ósseo se encontra ao nível das espinhas isquiáticas da gestante, compondo o nível zero de De Lee (mais utilizado) ou terceiro plano de Hodge, sendo necessário atentar-se a exceções, como mulheres de pelve muito profunda ou rasa. Esse momento indica que o estreito Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR superior é adequado à passagem do feto, não sendo, no entanto, possível definir as características dos demais segmentos pélvicos. O tipo de bacia da mulher pode alterar a forma como se processa a insinuação. Em 60% delas, a sutura sagital do bebê se direciona de forma a alinhar-se com o diâmetro pélvico transverso; em 18,5%, no primeiro oblíquo (espaço entre a articulação sacroilíaca direita e a eminência ileopúbica esquerda); 16,6% no segundo oblíquo (articulação sacroilíaca direita a eminência ileopectínea direita); e 5,5% no diâmetro anteroposterior. As posições esquerdas são mais frequentes que as direitas, correspondendo a cerca de 2/3 das situações em cada variedade de posição. Inicialmente, a cabeça fetal apresenta-se em atitude semifletida ou indiferente, com o diâmetro occiptofrontal (12 cm) sendo oferecido à passagem pelo estreito superior da bacia. Com o aumento das contrações, esse polo é induzido à flexão por meio da pressão axial, permitindo que diâmetros menores sejam expostos, como o subocciptofrontal (10,5 cm) e o subocciptobregmático (9,5 cm). Nesse processo, a articulação entre cabeça e coluna vertebral atua como uma alavanca, contendo de um lado o occipício (braço menor) e, do outro, a fronte (braço maior). O processo de flexão será influenciado pelo movimento reverso à pressão uterina, que empurra o concepto para baixo, por meio da resistência do assoalho pélvico. A insinuação ocorre cerca de 15 dias antes do parto em primigestas, ao passo que, em multíparas, esse fenômeno pode surgir a qualquer momento, desde antes do início do trabalho de parto até após a dilatação uterina completa. A maioria dos casos, mesmo aqueles que não se insinuam, evoluirão para partos normais por via vaginal, porém, quando ocorre em multíparas, esse fato deve ser investigado para descartar possíveis obstruções (desproporção cefalopélvica ou presença de tumores). Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR ASSINCLITISMO E SINCLITISMO: Graças à mobilidade da articulação entre cabeça e coluna vertebral fetal, o polo cefálico irá se movimentar não somente em sentido anteroposterior, como também de forma latero-lateral. Durante o processo de insinuação, um dos ossos parietais irá atravessar o estreito superior da pelve antes do outro, aproximando a sutura sagital de um dos ossos do eixo anteroposterior da bacia materna (que pode ser o púbis ou o sacro). Assim, quando a sutura sagital se aproxima da pube e o parietal posterior desce até ultrapassar o promontório materno, se diz que há assinclitismo posterior. Quando, por sua vez, a sutura sagital está mais próxima ao sacro, mais baixo está o parietal anterior, e o assinclitismo é chamado de anterior. Durante o trabalho de parto, existe um momento em que o osso parietal insinuado ultrapassa o ponto de referência da bacia óssea e, com o aumento da área abaixo do estreito superior, é possível mover lateralmente o polo cefálico. Isso traz a sutura sagital à mesma distância entre o púbis e o promontório, colocando a cabeça momentaneamente em sincretismo. O assinclitismo posterior é mais comum em primíparas, uma vez que o tempo entre as contrações uterinas e a prensa abdominal direcionam o bebê para uma posição posteriorixada. Graus moderados desse tipo de apresentação são comuns no parto vaginal, mas em situação de desproporçãocefalopélvica, principalmente nas bacias platipeloides, o assinclitismo é acentuado, mantendo-se ao longo de todo o período de descida, o que pode impedir a rotação interna e, assim, causar o que se denomina distocia de rotação. Esse fenômeno é também denominado como “obliquidade de Nãegele”. Além de flexão e assinclitismo, outro mecanismo que contribui para o andamento da insinuação é o cavalgamento dos ossos do crânio fetal, fenômeno que reduz as dimensões do polo cefálico, com o osso frontal e o occipital se colocando por debaixo das estruturas parietais, que apresentam bordas sobrepostas. Quanto menor a ossificação do polo cefálico e maior a deflexão sofrida por ele, mais elevado será o grau de disfunção, com exceção das apresentações de face. Devido à grande plasticidade da cabeça fetal, esse mecanismo torna possível “segmentar o crânio em duas metades” e, imprimi-las em direção ao canal de parto (teoria de Sellheim). DESCIDA: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A descida, conhecida também como progressão é o momento definido pela passagem do ponto de apresentação fetal em direção ao estreito inferior da pelve materna, podendo ocorrer juntamente à insinuação e/ou ao terceiro tempo. Nesse sentido, a descida da cabeça fetal pode ter ocorrido sem que a insinuação tenha se instalado, com o acontecimento concomitante da rotação interna. Para se analisar esse momento de forma didática, é possível segmenta-lo pelo esquema de De Lee, que determina posições separadas em centímetros, compondo os seguintes planos: Móvel: > -3; Ajustada ou fixa: -3, -2, ou -1 cm; Insinuada = 0 cm; Fortemente insinuada: + 1, +2, +3 cm; Baixa: +4 ou +5 (marca o afloramento na vulva). O canal de parto não é um canal reto, é com atendentes dispostos, mas possui sim, um eixo semelhante ao laranja. Levemente curvo em sua porção central. Para reduzir ainda mais os momentos de reação, fixação e rotação de membranas de forma a conhecermos os movimentos do estado, como a própria rotação e mecanismos de cavalgamentos ósseos. Em primíparas, mesmo que a insinuação possa ocorrer antes do desencadeamento do trabalho, a descida da cabeça fetal pode não ocorrer até que observe dilatação cervical completa. Contribuem para a descida um ou mais dos seguintes elementos: contração uterina, ação dos músculos abdominais, pressão do líquido amniótico, e tensão do ovoide fetal (que se transforma em cilindro). ROTAÇÃO INTERNA: A rotação interna tem como objetivo coincidir o diâmetro anteroposterior cefálico com o maior diâmetro da bacia materna, o que irá variar dependendo do estreito no qual se encontra o polo cefálico fetal (superior = sentido transverso / médio = sentido anteroposterior / inferior = sentido anteroposterior). Ao longo da descida do feto, ocorre uma movimentação rotatória de forma a adequar o polo cefálico sob o púbis, criando assim um movimento em espiral. A sutura sagital, linha de orientação do bebê, fica alinhada com o diâmetro anteroposterior do estreito inferior ao terminar a descida. Essa rotação normalmente desloca o ponto de referência do feto para a frente, em direção ao púbis, compondo assim a rotação anterior (ou púbica). Nas raras situações nas quais o feto roda para trás, determina-se que ocorreu rotação posterior ou sacra. A intensidade dessa mudança irá também depender da variedade das posições. Nesse contexto, com um feto em apresentação cefálica fletida terá sua região occipital utilizada como ponto de referência que irá percorrer a distância de um arco de circunferência para ser locado no supra púbis. As possíveis formas de rotação, em graus, são: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR 45º nas manifestações anteriores (occipitoesquerda anterior e occipitodireita anterior); 90º nas apresentações transversas (occipitoesquerda transversa e occipitodireita transversa); 135º nas apresentações posteriores (occipitoesquerda posterior e occipitodireita posterior). Nas variedades de posição posteriores (occipitoesquerda e direita posteriores) é possível a ocorrência mais frequente de rotações posteriores, em comparação com as variedades anteriores e transversas, descrevendo um arco curto de 45 º. Nessa condição, o occipício (ponto de referência) encontra-se na região sacral da bacia materna, tomando o desprendimento cefálico mais difícil e lento. As teorias que explicam a rotação interna invocam o princípio da mecânica segundo o qual um cilindro com zonas de flexibilidade desiguais (feto), deslizando dentro de outro cilindro encurvado (canal pelvigenital), executa rotações em torno de seu eixo longitudinal, para adaptar-se à curvatura do continente (eixo pélvico). No mecanismo de parto das apresentações cefálicas fletidas observa-se que a flexão da cabeça fetal é maior no sentido anteroposterior, enquanto a coluna vertebral apresenta maior flexibilidade no sentido lateral. A rotação interna é essencial para que ocorra a ultimação do pano, exceto quando o feto é muito pequeno. Para a maior parte das mulheres, esse período se completa no tempo que a cabeça chega ao assoalho pélvico. Os principais fatores que impedem que essa rotação ocorra são contrações de baixa intensidade, ausência de flexão cefálica e fetos grandes. A analgesia peridural pode predispor rotações incompletas, por diminuir a força da musculatura abdominal e relaxar a musculatura pélvica. DESPRENDIMENTO CEFÁLICO: O desprendimento cefálico corresponde à descida final da cabeça do feto em posição occipitopúbica até que seja possível a locação do suboccipício no subpúbis materno. Como o polo cefálico ainda está fletido, é necessário que ele faça movimentos de extensão para exteriorizar o maciço frontal. Nessa conformação, o diâmetro suboccipitobregmático, de 9,5 cm ocupa o diâmetro anteroposterior do estreito uterino inferior, com a fronte do feto rechaçando o cóccix e ampliando esse diâmetro para cerca de 11 cm, fenômeno denominado retropulsão coccígea. A região da cabeça do bebê que se encaixa no subpúbis como ponto de apoio para a expulsão, também conhecida como hipomóclio, é o suboccipício, localizado 7 cm abaixo da fontanela lambdoide (posterior). Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR A ação contrária das forças de contração uterina e resistência perineal promove o impulsionamento do feto para baixo e para fora do canal. Ao vencer essa oposição, o polo cefálico se estende de forma abrupta, expondo todos os diâmetros anteroposteriores da cabeça, o suboccipitobregmático (9,5 cm), o suboccipitofrontal (10,5 cm) e suboccipitomentoniano (9,5 cm). Assim, é possível observar que ocorreu, de forma sucessiva, a exteriorização do bregma, da fronte, do nariz e do mento do bebê. Nos casos de rotação posterior, quando o occipício se alinhou ao sacro materno, a extensão que deve ser vencida é a parede pélvica, que se estende por 10 a 15 cm, em comparação com a parede púbica, com apenas cerca de 4 ou 5 centímetros. Nessas situações, o diâmetro solicitado para comprimir a fenda vulvar é o suboccípio frontal, com diâmetro de 10,5 cm. Por esse motivo, o desprendimento cefálico em posição occipitossacra é lento, por vezes necessitando de auxílio instrumental com fórcipe. Nesses casos, a flexão cefálica acentua-se para que haja desprendimento do occipício com posterior deflexão do polo cefálico na direção do dorso materno, o que resulta no desprendimento do maciço frontofacial. O hipomódio é o ângulo anterior do bregma e, por veres, é impossível distinguir tal mecanismo com o desprendimento cefálico das apresentaçõesdefletidas de 1º grau. ROTAÇÃO EXTERNA: A rotação externa da cabeça fetal ou movimento de restituição, faz com que o occipício se volte para o lado materno ocupado por ele no início do parto. A sutura sagital encontra-se transversal à fenda vulvar. Em seguida a essa apresentação, as espáduas da criança rodam, trazendo o diâmetro biacromial para o diâmetro anteroposterior do estreito inferior. Os mecanismos que regem essa etapa são os mesmos que promovem a rotação interna do polo cefálico. DESPRENDIMENTO DO OVOIDE CÓRMICO: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR O processo de desprendimento do ovoide córmico é caracterizado pelo processo de exteorização das cinturas escapular e pélvica do feto, sendo subsequentes um ao outro. Após a rotação das espáduas, o ombro anterior se fixa. no subpúbis, apresentando a inserção braquial do deltoide como ponto de apoio, e desprende-se por movimento de abaixamento. Desprende-se então o ombro posterior por movimento de elevação e, em seguida, completa-se a expulsão da cintura escapular. Após o desprendimento dos ombros, o restante do ovoide é expulso prontamente, sem maiores resistências. Caso existam anormalidades na rotação e na flexão do polo cefálico, a apresentação pode tornar-se cefálica posterior ou defletida. VITALIDADE E MATURIDADE FETAL: A avaliação da vitalidade do concepto ainda no período intra-útero permitiu uma melhora significativa no prognóstico de gestações de alto risco, minimizando os riscos maternos e permitindo que a gestação seja mantida o mais próximo possível do termo, escolhendo o momento do parto de forma segura tanto para a mãe quanto para o bebê. As formas de avaliação empregadas com essa finalidade se estendem para além de métodos clínicos (a exemplo da verificação dos movimentos fetais), empregando a cardiotocografia, a ultrassonografia com Doppler e o perfil biofísico fetal. É necessário ressaltar que essas estratégias não são utilizadas em todas as gestações, para as quais são recomendados apenas o acompanhamento dos movimentos e dos batimentos cardíacos fetais. A realização desses exames de análise da vitalidade fetal irá atuar na predição do sofrimento fetal, porém não conseguem firmar seu diagnóstico, uma vez que essa condição depende de outros fatores, como o controle clínico de condições materna de base. Enquanto resultados normais permitem a aproximação da realização do parto com o termo, laudos alterados devem fomentar um raciocínio clínico que inclua os possíveis danos causados pela hipóxia e pela prematuridade. INDICAÇÕES DOS MÉTODOS DE ANÁLISE DA VITALIDADE FETAL: Três grandes grupos podem ser considerados como de alto risco para a organização maternofetal, lhes sendo recomendada a realização desses exames como medida de monitoramento, a saber: Doenças maternas (maior parte dos casos recomendados para avaliação): o Síndromes hipertensivas, como hipertensão arterial crônica, doença hipertensiva específica da gestação, síndrome HELLP ou eclâmpsia; o Endocrinopatias: distúrbios da tireoide e diabetes melitus; o Cardiopatias de caráter congênito ou adquirido; o Pneumopatias: asma e enfisema pulmonar; o Doenças do tecido conjuntivo: lúpus eritematoso sistêmico e artrite reumatoide; o Nefropatias: mulheres transplantadas ou com insuficiência renal crônica; o Hemopatias: anemias e coagulopatia; o Trombofilias congênitas ou adquiridas; o Desnutrição; Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR o Neoplasias. Intercorrências gestacionais: o Restrição do crescimento intrauterino; o Pós-datismo; o Antecedentes obstétricos desfavoráveis; o Mudanças no volume de líquido amniótico; o Rotura prematura de membranas ovulares; o Gemelaridade e suas intercorrências; o Placenta prévia. Doenças de acometimento fetal: o Anemias fetais por aloimunização Rh ou por hidropsia fetal não imune; o Cardiopatias fetais: malformações cardíacas, bloqueios totais ou arritmias; o Anomalias congênitas e infecções fetais. MECANISMOS BIOFÍSICOS PARA A AVALIAÇÃO DA VITALIDADE FETAL: Os principais métodos de avaliação biofísica para verificar a vitalidade fetal são a Dopplervelocimetria, a cardiotocografia e o perfil biofísico fetal. A Dopplervelocimetria tem por objetivo a avaliação indireta da função placentária (comprovando possível diagnóstico de insuficiência placentária) e da resposta fetal à hipoxemia. Quando se apresenta anormal, na maioria dos casos representa processo crônico desenvolvido no decorrer da gestação. As alterações na cardiotocografia e no perfil biofísico fetal representam diminuição da oxigenação do sistema nervoso central (SNC). Essa redução pode ser mais frequente em casos em que já está instalada a insuficiência placentária, mas pode também denotar quadros agudos, mesmo em situações nas quais a Dopplervelocimetria for normal. A DOPPLERVELOVIMETRIA: A Dopplervelocimetria consiste num estudo de imagens ultrassonográficas que monitoram a velocidade do fluxo de sangue pelos vasos do corpo, sejam eles arteriais ou venosos, baseando-se nos princípios do efeito Doppler. Essa prática vem sendo utilizada para avaliar tanto a circulação materna, por meio da observação das artérias uterinas, da circulação fetoplacentária, por meio das artérias umbilicais, quanto do bem-estar fetal, a partir da análise da artéria cerebral média, da aorta abdominal, das artérias renais, do ducto venoso e do seio transverso. Esse processo é considerado seguro durante a gestação, fazendo uso de tecnologias que disponibilizam de forma não invasiva, informações acerca da hemodinâmica fetal. A principal indicação de uso dessa ferramenta é durante possíveis casos de insuficiência placentária. O emprego da ultrassonografia Doppler na circulação uterina durante a gravidez baseia- se nas modificações hemodinâmicas que ocorrem no organismo materno, com o objetivo de proporcionar o crescimento fetal adequado. Dentre estas alterações fisiológicas, destaca-se o aumento do fluxo nas artérias uterinas, que passa de 40 mL/h nas mulheres que não estão grávidas para 400 mL/h, ao final da gestação. Para que este processo ocorra de forma satisfatória, há uma destruição do endotélio vascular com perda da camada musculoelástica das arteríolas espiraladas, tornando-as menos resistentes. Quando a invasão trofoblástica não ocorre de maneira satisfatória, o resultado são artérias uterinas de alta resistência, com aumento do risco de restrição de crescimento fetal e pré- eclâmpsia, formando as incisuras protodiastólicas. ASPECTOS FÍSICOS DA DOPPLERVELOCIMETRIA: Júlia Figueirêdo - SAÚDE DA MULHER, SEXUALIDADE HUMANA E PLANEJAMENTO FAMILIAR O efeito Doppler é um princípio físico a partir do qual se evidencia a alteração da frequência de ondas sonoras quando um corpo refletor se move em direção à fonte destas. No organismo, as hemácias, ao se depararem com uma onda sonora, irão se comportar tal qual um corpo refletor, sendo, portanto, possível avaliar toda a dinâmica da circulação sanguínea fetal a partir da diferença entre a frequência do dom emitido e a do som refletido, chamada de deslocamento de frequência Doppler. Nesse sistema, o som transmitido será submetido a um deslocamento proporcional à velocidade de movimentação das hemácias circulantes. Se o deslocamento de Doppler e o ângulo da incidência do feixe são conhecidos, e ao assumir que a frequência do transdutor e a velocidade do som no tecido permanecem relativamente constantes, a velocidade da circulação sanguínea pode ser determinada tomando como base a equação que determina a frequência Doppler, ou seja, 𝑣 = 𝑓𝑑 ∗ 𝑐 2