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Abelhas nativas sem ferrão - Jerônimo Vilas-Boas

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os países latinos existem evidências da 
relação de povos indígenas com produtos das colmeias, principalmente por explo-
ração extrativista, mas também por meio de técnicas rústicas de criação.
Não existe um único fator res-
ponsável por essa crise, mas sim 
um conjunto de fatores, todos 
associados ao sistema agrícola 
que predomina no agronegócio: 
o desmatamento, catalisado pela 
expansão das fronteiras da agri-
cultura de larga escala, que destrói 
os habitats naturais das abelhas e 
limita suas áreas de sobrevivência; 
a homogeneização das paisagens, 
resultado das monoculturas, que 
restringe a diversidade e abundân-
cia de flores; e, principalmente, o 
uso indiscriminado de agrotóxi-
cos, que envenena e extermina as 
populações destes insetos. Trata-
-se de um sistema absolutamente 
contraditório. A mesma agricultura 
que tanto depende do serviço de polinização para a produção de alimentos é ba-
seada em um sistema que proporciona o seu extermínio.
Se por um lado a adoção de práticas agrícolas amigáveis às abelhas é pré-
-requisito para sua existência em médio e longo prazos, há um fator relevante, de 
curto prazo, que tem retardado o processo de extinção: o manejo sustentável de 
algumas espécies.
Abelha Uruçu-Nordestina ( Melipona scutellaris ) na flor 
de cosmos.
Manual Tecnológico14
Na América Central, por exemplo, a relação dos descendentes Mayas e Azte-
cas com os meliponíneos transcende o uso alimentar. Algumas espécies de abelhas 
sem ferrão ocupam lugar de destaque na cosmologia e medicina tradicional. Lá as 
abelhas nativas foram efetivamente domesticadas pelos povos pré-colombianos e 
os sistemas tradicionais de criação até hoje são utilizados.
No México: sistema 
tradicional de 
meliponicultura Maya, 
onde as abelhas 
são criadas nestes 
segmentos de troncos 
chamados jobones 
Sistema tradicional de 
meliponicultura Azteca 
em caixas, ou ollas, 
de barro 
O universo das abelhas e das colônias 15
No Brasil, por sua vez, praticamente não existem relatos de criação tradicio-
nal. Com exceção de práticas de semi-domesticação, registradas pelo antropólogo 
Darrel A. Posey na aldeia Gorotire em meados da década de 1980 – onde eventual-
mente os Kayapó extraíam o mel das árvores sem matar as abelhas, podendo assim 
acessar o produto sucessivas vezes –, a exploração extrativista e predatória das 
colônias foi a prática mais comum. Antes da introdução da abelha Apis mellifera 
ou da exploração da cana para fabricação de açúcar, o mel das abelhas nativas era 
o principal adoçante natural, fonte de energia disponível nas longas caminhadas 
e caçadas que os povos indígenas realizavam – e ainda realizam – na busca por 
alimento.
A Meliponicultura no Brasil é justamente o resultado da fusão entre o conheci-
mento tradicional sobre os recursos naturais dos povos indígenas com a predileção 
europeia de domesticar animais incorporada pelos colonizadores. Gradativamen-
te, a criação das abelhas nativas se difundiu, tornando-se uma tradição popular 
principalmente nas regiões Norte e Nordeste do Brasil. 
A herança indígena presente na atual lida com as abelhas é evidenciada pelos 
nomes populares de muitas espécies, como Jataí, Iraí, Uruçu, Tiúba, Mombuca, 
Arapuá, Tataíra, Jandaíra, Guaraipo, Manduri e tantas outras.
A meliponicultura, portanto, é uma atividade historicamente desenvolvida por 
comunidades tradicionais – como caboclos, ribeirinhos, caipiras, açorianos e ser-
tanejos – para subsistência, em escala artesanal, sem destaque na agricultura do 
país. Nas últimas duas décadas, entretanto, a atividade ganhou visibilidade, impul-
sionada pela acessibilidade das tecnologias de comunicação. O que antes era coisa 
de matuto, nas redes sociais já passa de 20 mil adeptos.
Vale destacar, ainda, que o mel das abelhas sem ferrão é valiosíssimo para a 
gastronomia, dada a maior presença de acidez e belas nuances de aromas e sabor. 
Em um cenário de resgate e va-
lorização dos ingredientes bra-
sileiros, os produtos das nativas 
já foram adotados por grandes 
chefs e gradativamente buscam 
espaço na casa dos brasileiros. 
Essa abertura representa signi-
ficativa oportunidade para os 
meliponicultores: tem poten-
cial para gerar renda, promover 
identidade cultural e fortalecer 
a conservação das espécies.
Ceviche de flores e mel de abelhas nativas: 
um dos pratos servidos pelo chef Alex Atala 
no Restaurante D.O.M (Foto: Sergio Coimbra).
Manual Tecnológico16
Classificação e distribuição
As abelhas sem ferrão são insetos sociais de grande diversidade e ampla dis-
tribuição geográfica. Nas últimas décadas, diversas propostas de classificação zo-
ológica destas abelhas foram propostas. A classificação considerada neste manual 
(que não adota uma linguagem estritamente científica), embora não seja a mais 
atualizada, é a mais didática, e separa essas abelhas em dois grupos distintos: as 
Meliponini e as Trigonini. Essa separação é importante para o entendimento de 
características específicas do manejo que serão apresentadas mais adiante.
De maneira geral, as Meliponini – espécies unicamente do gênero Melipona – 
são abelhas maiores, com aspecto robusto, de tamanho médio a grande (variando 
de 7 à 15 mm). São as uruçus, jandaíras, tiubas, mandaçaias e equivalentes. Já as 
Trigonini – espécies de todos os outros gêneros que não são Melipona – são abe-
lhas menores, de aspecto mais esbelto, de tamanho pequeno a médio (variando 
de 2 a 11 mm). São as jataís, iraís, mirins, canudos e outras tantas. A principal dife-
rença entre os dois grupos, entretanto, reside no processo de formação de rainhas.
Classificação mais atual 
(Michener, 2007)
Classificação utilizada no 
manual (Moure, 1961)
Classe INSECTA INSECTA
Ordem HYMENOPTERA HYMENOPTERA
Superfamília APOIDEA APOIDEA
Família APIDAE APIDAE
Subfamília APINAE MELIPONINAE
Tribo MELIPONINI MELIPONINITRIGONINI
As abelhas sem ferrão, ou meliponíneos, estão distribuídas nas regiões tro-
picais e subtropicais da Terra: com exceção do Chile, ocupam todos os países da 
América Latina; as florestas tropicais e savanas africanas; o extremo sul da Ásia, 
inclusive as ilhas do Pacífico; e norte da Oceania, incluindo o nordeste australiano. 
Entretanto, é nas Américas que grande parte da diversidade de espécies ocorre – 
são aproximadamente 350 tipos descritos, 250 só no Brasil – e que a cultura de 
criação destes insetos se manifesta de forma mais abrangente.
O universo das abelhas e das colônias 17
Meliponicultor tradicional de Cuetzálan, México
Meliponicultor de Boa Vista do Ramos, AM
Manual Tecnológico18
Biologia
Entender um pouco da biologia das abelhas é fundamental para orientar sua 
criação. A seguir serão apresentadas características gerais desses insetos, em espe-
cial os elementos que o meliponicultor encontra quando abre as suas colmeias e 
deve saber lidar para o bom manejo do dia-a-dia.
Os tipos de abelha (ou castas)
Os meliponíneos, assim como outros insetos sociais (vespas, formigas e cupins), 
possuem suas famílias divididas em castas. Existem nas colônias três tipos básicos 
de abelha: as rainhas (poedeiras ou virgens) e as operárias – ambas fêmeas – e os 
machos.
A rainha poedeira é responsável pela postura dos ovos que dão origem a todas 
as castas. São também responsáveis pela organização da colônia, comandada por 
um complexo sistema de comunicação baseado no uso de feromônios1 . Normal-
mente uma colônia possui apenas uma rainha poedeira, mas existem relatos da 
existência de colônias e espécies com duas ou mais. Antes de serem fecundadas 
e assumirem essa responsabilidade reprodutiva, as rainhas são chamadas rainhas 
virgens. A grande maioria das rainhas virgens nasce e morre sem nunca se tornar 
uma rainha poedeira, mas estão sempre presentes na colônia caso seja necessário 
assumir esse papel. Isso pode

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