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CEDIME Informa Fevereiro 2021, N.º 196 1 O USO DE IVERMECTINA NA COVID-19 A ivermectina é uma substância ativa com propriedades antiparasitárias e, também, anti- inflamatórias. A atividade antiviral da ivermectina tem sido estudada (in vitro), nos últimos anos, contra vírus como VIH, Influenza A e outros vírus RNA (incluindo SARS-CoV) – a ivermectina parecer interferir no mecanismo de replicação de vários vírus, podendo contribuir, consequentemente, para uma diminuição da carga viral. O que se sabe sobre o possível uso da ivermectina na COVID-19? Um estudo recente1 veio comprovar a eficácia in vitro da ivermectina contra o SARS-CoV-2, no entanto, não foi possível provar este efeito antiviral direto em modelos animais e é, ainda, incerto se se verifica com o uso humano. Tal deverá resultar do facto de as concentrações antivíricas serem muito superiores às obtidas com as doses orais atualmente aprovadas de ivermectina, mesmo admitindo alguma acumulação do fármaco no tecido pulmonar. Apesar deste facto, desde Abril de 2020, o número de estudos sobre a potencial eficácia da ivermectina contra a COVID-19, não tem parado de aumentar. Existem várias razões pelas quais não é possível fazer inferências diretas sobre a eficácia clínica da ivermectina a partir dos resultados de experiências in vitro ou modelos farmacocinéticos. Estas incluem o papel potencial dos metabolitos de ivermectina, o papel imunomodulador potencial do fármaco, e questões sobre os rácios vírus/células.2 A severidade da COVID-19 parece dever-se, não só à infeção, mas também à resposta imune e inflamatória do hospedeiro, podendo esta ter por base uma desregulação da resposta imunológica que pode traduzir-se, nos casos mais graves, numa resposta exagerada conhecida como tempestade de citocinas. Uma das hipóteses em estudo, na avaliação da eficácia da ivermectina na gestão da COVID-19 é, precisamente, a sua ação como agente imunomodulador que pode prevenir esta hiperativação imunológica. Uma avaliação retrospetiva da evolução de doentes de Covid-19 sob terapêutica com e sem ivermectina (ensaio ICON) da Universidade Internacional da Florida sugere que a ivermectina pode reduzir a mortalidade. Os autores da publicação preliminar, que ainda não foi revista, apontam para a necessidade de estudos prospetivos para confirmar ou refutar este facto.3 No Bangladesh, um ensaio clínico testou a combinação ivermectina/doxiciclina, e mais uma vez os resultados sugerem que a combinação é eficaz. A validação destes resultados requer a realização de ensaios clínicos randomizados e controlados, de maiores dimensões.4 CEDIME Informa Fevereiro 2021, N.º 196 2 E o perfil de segurança da ivermectina na COVID-19? Quando administrada por via oral, como antiparasitário, em doses até 400 mcg/kg, a ivermectina tem um bom perfil de segurança. Num estudo, em indivíduos adultos saudáveis, utilizando doses até 2 mg/Kg, foi bem tolerada. No entanto, há preocupações quanto ao risco de neurotoxicidade grave associada à ivermectina, em doentes com um estado hiperinflamatório associado à COVID- 19. Também o uso em doentes pediátricos <2 anos ou <15 kg, é contraindicado pelo risco acrescido de encefalopatia devido à maior permeabilidade da barreira hemato-encefálica. Além disso, as interações medicamentosas com inibidores potentes de CYP3A4 (por exemplo, ritonavir – utilizado na terapêutica farmacológica da COVID-19) justificam uma consideração cuidadosa dos medicamentos coadministrados No atual contexto e à data, considera-se que a utilização da ivermectina no tratamento da COVID não tem evidência de boa qualidade para justificar o seu uso em doentes infetados com SARS‐ CoV‐2. Globalmente, este tratamento parece, em certas populações, promissor, mas não há estudos suficientes que permitam a seleção dos subgrupos a tratar, os riscos de base para tratamento, as dosagens eficazes, os timings, entre outros. Há necessidade de se realizarem ensaios clínicos randomizados e controlados, de grandes dimensões, cobrindo todos os níveis de risco e outcomes relevantes na COVID‐19.6 Informação adicional Apesar do exposto, há já vários países a utilizar a ivermectina como parte dos protocolos de tratamento da COVID-19, tendo-se a Eslováquia tornado a primeira nação da UE a aprovar formalmente a ivermectina, no passado dia 26 de janeiro, tanto para a profilaxia como para o tratamento de doentes com COVID-19. Esta, é uma autorização condicional, válida por um período de seis meses para utilização em contexto hospitalar e ambulatório – o medicamento estará disponível em farmácias para dispensa mediante receita médica. A MSD, titular do medicamento Stromectol® - ivermectina 3 mg, para administração oral – disponível nos Estados Unidos, Canadá, Austrália e em alguns países da União Europeia, como em França, e aprovado para uso humano, como anti-helmíntico, divulgou, no passado dia 4 de fevereiro, a sua posição sobre a utilização de ivermectina durante a Pandemia da COVID-19. Neste, a empresa afirma que continua a examinar cuidadosamente os resultados de todos os estudos disponíveis e emergentes sendo que, até à data, não identificou qualquer base científica CEDIME Informa Fevereiro 2021, N.º 196 3 para um potencial efeito terapêutico contra a COVID-19 a partir de estudos pré-clínicos ou qualquer evidência significativa de atividade clínica ou eficácia clínica do uso de ivermectina em doentes com COVID-19. Adicionalmente, a empresa sublinha a falta de dados de segurança na maioria dos estudos. Em conclusão, defende que os dados disponíveis não apoiam a segurança e eficácia da ivermectina no tratamento de doentes com COVID-19. O CEDIME, como centro de informação do medicamento e intervenções em saúde, continuará a divulgar informação técnico-científica baseada em evidência sobre o tema se, e quando, pertinente. Com a crescente divulgação de informação na comunicação social sobre o uso de diversas substâncias para o tratamento da COVID-19 importa que o farmacêutico, como especialista do medicamento, contribua para o esclarecimento da população e reforce junto dos seus utentes que: • Existem inúmeras moléculas em estudo, contra a COVID-19. Bons resultados pré-clínicos nem sempre se traduzem em medicamentos eficazes quando passamos para ensaios clínicos. Muitas das notícias que têm surgido alegando que um medicamento é eficaz baseiam-se apenas em testes in vitro. • A aprovação de um medicamento por parte das autoridades de saúde pressupõe sempre que não só o uso do medicamento é seguro, mas que existe evidência científica robusta para a utilização do medicamento para um fim específico. • Mesmo o uso off-label de um medicamento depende da existência de evidência clínica que o suporte. IVERMECTINA Em Portugal, à data, a ivermectina é comercializada no segmento dos medicamentos de uso veterinário, como antiparasitário. No segmento dos medicamentos de uso humano, o medicamento está autorizado e comercializado para tratamento da rosácea (Soolantra® 10mg/g creme (MRSM)). https://extranet.infarmed.pt/INFOMED-fo/detalhes-medicamento.xhtml https://extranet.infarmed.pt/INFOMED-fo/detalhes-medicamento.xhtml CEDIME Informa Fevereiro 2021, N.º 196 4 A ivermectina é ainda utilizada na preparação de medicamentos manipulados (fórmulas magistrais) pelas farmácias comunitárias, para uso, por via oral, no tratamento de parasitoses e particularmente no tratamento da escabiose (sarna) recorrente ou para uso tópico na pediculose e rosácea. Perante uma receita médica de um medicamento manipulado de ivermectina, a farmácia deve ter em consideração: - o medicamento manipulado é sujeito a receita médica, prescrito de forma individualizadapara um doente, pelo que deverá existir uma receita médica por doente, mesmo quando existe um grupo de pessoas a quem foi prescrito o mesmo manipulado (Ex.: família, utentes institucionalizados, etc.); - a responsabilidade de verificar a segurança do medicamento manipulado prescrito é partilhada pelo médico prescritor e pelo farmacêutico que o prepara, devendo ser verificada a segurança do medicamento, no que concerne às doses da ou das substâncias ativas e à existência de interações que ponham em causa a ação do medicamento ou a segurança do doente; - a preparação de medicamentos manipulados respeita os cuidados de manuseamento das matérias-primas utilizadas, a proteção do operador e a minimização do risco de contaminação cruzada, bem como dos riscos ambientais (para mais detalhe consultar sempre as Fichas de Dados de Segurança das matérias-primas ou contactar o CIMPI (cimpi@anf.pt ); - no mercado, é comercializada a ivermectina de uso humano e a ivermectina de uso veterinário; - na preparação de medicamentos manipulados para uso humano, apenas poderá ser utilizada a ivermectina de uso humano; - pode ser apresentada uma receita veterinária, se o medicamento efetivamente se destina a ser administrado a um animal e nesses casos poderá ser utilizada a ivermectina de uso veterinário; - se para uso humano, a dose e esquema terapêutico previsto varia conforme a indicação terapêutica, mas de uma forma geral diz respeito a uma dose de 200 mcg/Kg, em toma única ou em tratamento de curta duração, com tomas em dias | semanas intercaladas; - no tratamento da escabiose, a ivermectina é mais comummente prescrita na dose de 200 mcg/Kg, em toma única, podendo ser seguida por uma segunda dose 1 ou 2 semanas depois. A sua toma oral é frequentemente associada ao tratamento tópico; - na escabiose complicada ou sarna crostosa, a ivermectina é também associada ao tratamento tópico mas num tratamento de curta duração mantendo-se a dose de 200 mcg/Kg/dose, em 3 a 5 tomas (por ex.: nos dias 1, 2 e 8). Considerando a falta de solidez dos dados de que se dispõe relativamente ao uso da ivermectina na profilaxia ou tratamento da COVID-19, o seu uso pode promover uma falsa sensação de segurança, podendo levar a que não sejam mantidas as medidas preventivas que se sabe serem eficazes – higiene das mãos, uso de máscara, distanciamento social, etiqueta respiratória – ou que, por outro lado, se atrase perigosamente a procura de cuidados médicos em caso de doença. Por outro lado, a procura elevada da matéria-prima, tem levado a falhas no mercado, podendo assim comprometer o acesso ao medicamento nas indicações aprovadas e nos usos off-label para os quais existe evidência clínica. É, ainda, parte integrante do papel da farmácia incentivar o reporte de qualquer reação adversa (mesmo que já descrita) à ivermectina, independentemente do contexto de utilização no Portal RAM. mailto:cimpi@anf.pt https://www.infarmed.pt/web/infarmed/submissaoram CEDIME Informa Fevereiro 2021, N.º 196 5 Fontes Bibliográficas: 1. Caly L, Druce JD, Catton MG, Jans DA, Wagstaff KM. The FDA-approved drug ivermectin inhibits the replication of SARS-CoV-2 in vitro. Antiviral Res. 2020:104787. https://doi.org/10.1016/j.antiviral.2020.104787 2. Chaccour C, Casellas A, Matteo A, Pineda I, Fernandez-Montero A, Ruiz-Castillo P, et al., The effect of early treatment with ivermectin on viral load, symptoms and humoral response in patients with non-severe COVID-19: A pilot, double-blind, placebo-controlled, randomized clinical trial. EClinicalMedicine_The Lancet. 2021 jan 19. https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2020.100720 3. Rajter, Juliana & Sherman, Michael & Fatteh, Naaz & Vogel, Fabio & Sacks, Jamie & Rajter, Jean- Jacques. (2020). ICON (Ivermectin in COvid Nineteen) study: Use of Ivermectin is Associated with Lower Mortality in Hospitalized Patients with COVID19. https://doi.org/10.1101/2020.06.06.20124461 4. S. Ahmed, M.M. Karim, A.G. Ross et al. A five-day course of ivermectin for the treatment of COVID- 19 may reduce the duration of illness. Int. J. Inf. Dis. 103 (2021)214-216 https://doi.org/10.1016/j.ijid.2020.11.191 5. Guzzo CA, Furtek CI, Porras AG, Chen C, Tipping R, Clineschmidt CM, Sciberras DG, Hsieh JY, Lasseter KC. Safety, tolerability, and pharmacokinetics of escalating high doses of ivermectin in healthy adult subjects. J Clin Pharmacol. 2002 Oct;42(10):1122-33. doi: 10.1177/009127002401382731. PMID: 12362927. 6. Vaz Carneiro, A. Não existe evidência de qualidade sobre o uso da ivermectina para o tratamento da COVID‐19: análise de estudos experimentais e observacionais (big data) [acesso em fevereiro de 2021]. ISBE, Instituto de Saúde Baseada na Evidência. Newsletter 4 de fevereiro 2020 – nº 85 Disponível em: https://portugal.cochrane.org/sites/portugal.cochrane.org/files/public/uploads/newsletter_85_i sbe-cp_20210204.pdf https://doi.org/10.1016/j.antiviral.2020.104787 https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2020.100720 https://doi.org/10.1101/2020.06.06.20124461 https://doi.org/10.1016/j.ijid.2020.11.191 https://portugal.cochrane.org/sites/portugal.cochrane.org/files/public/uploads/newsletter_85_isbe-cp_20210204.pdf https://portugal.cochrane.org/sites/portugal.cochrane.org/files/public/uploads/newsletter_85_isbe-cp_20210204.pdf