Buscar

artigo VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER CICLO DA VIOLÊNCIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Faça como milhares de estudantes: teste grátis o Passei Direto

Esse e outros conteúdos desbloqueados

16 milhões de materiais de várias disciplinas

Impressão de materiais

Agora você pode testar o

Passei Direto grátis

Você também pode ser Premium ajudando estudantes

Faça como milhares de estudantes: teste grátis o Passei Direto

Esse e outros conteúdos desbloqueados

16 milhões de materiais de várias disciplinas

Impressão de materiais

Agora você pode testar o

Passei Direto grátis

Você também pode ser Premium ajudando estudantes

Faça como milhares de estudantes: teste grátis o Passei Direto

Esse e outros conteúdos desbloqueados

16 milhões de materiais de várias disciplinas

Impressão de materiais

Agora você pode testar o

Passei Direto grátis

Você também pode ser Premium ajudando estudantes
Você viu 3, do total de 8 páginas

Faça como milhares de estudantes: teste grátis o Passei Direto

Esse e outros conteúdos desbloqueados

16 milhões de materiais de várias disciplinas

Impressão de materiais

Agora você pode testar o

Passei Direto grátis

Você também pode ser Premium ajudando estudantes

Faça como milhares de estudantes: teste grátis o Passei Direto

Esse e outros conteúdos desbloqueados

16 milhões de materiais de várias disciplinas

Impressão de materiais

Agora você pode testar o

Passei Direto grátis

Você também pode ser Premium ajudando estudantes

Faça como milhares de estudantes: teste grátis o Passei Direto

Esse e outros conteúdos desbloqueados

16 milhões de materiais de várias disciplinas

Impressão de materiais

Agora você pode testar o

Passei Direto grátis

Você também pode ser Premium ajudando estudantes
Você viu 6, do total de 8 páginas

Faça como milhares de estudantes: teste grátis o Passei Direto

Esse e outros conteúdos desbloqueados

16 milhões de materiais de várias disciplinas

Impressão de materiais

Agora você pode testar o

Passei Direto grátis

Você também pode ser Premium ajudando estudantes

Faça como milhares de estudantes: teste grátis o Passei Direto

Esse e outros conteúdos desbloqueados

16 milhões de materiais de várias disciplinas

Impressão de materiais

Agora você pode testar o

Passei Direto grátis

Você também pode ser Premium ajudando estudantes

Prévia do material em texto

1
VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER - CICLO DA VIOLÊNCIA E SUAS CONSEQUÊNCIAS
Carmésia Virginia Mesquita e Silva
RESUMO
A Lei nº. 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, representou um marco no enfrentamento à violência doméstica, reconhecida como uma das melhores legislações do mundo no combate a violência contra a mulher. Trouxe mecanismos de prevenção, diretrizes de políticas públicas e possibilidades de aplicação de medidas protetivas como meio de garantia de proteção. A violência doméstica contra a mulher cada vez mais tem ocupado espaço nas mídias, revelando assim, uma necessidade urgente para reverter essa situação. Essa violência desmedida é explícita ou velada, ocorrendo literalmente dentro do lar, sendo o agressor o próprio companheiro. A violência doméstica inclui diversas práticas: violência física, violência sexual, violência psicológica, violência patrimonial e violência moral. Elas não ocorrem de uma só vez, é um ciclo vicioso de comportamento que se dá em três etapas, podendo variar no tempo e na intensidade. Ao longo do tempo, verificou-se que, apesar da mulher viver num inferno particular, num misto de violência, dor e esperança, ela permanece muito tempo convivendo com seu próprio agressor. Essa mulher enfrenta um constante dilema entre denunciar o próprio companheiro, em muitos casos, o pai dos seus filhos, se separar ou continuar sofrendo.É com o apoio da família, colaboração da sociedade e comprometimento das autoridades competentes que as mulheres conseguirão vencer essa batalha dissipando esse medo que tão de perto as rodeiam.
INTRODUÇÃO
A expressão Violência Doméstica tem sido utilizada para se referir a todas as formas de violência praticada no seio familiar, porém a maior vítima dessa crueldade tem sido a mulher, cuja violência tem sido perpetrada na maioria dos casos, por seu parceiro íntimo. A violência doméstica é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) um grave problema de saúde pública.
Essa violência contra a mulher é um fenômeno antigo e propagado ao longo da história, configurando-se o fator sociocultural como o fator determinante. Apesar de ser um fato antigo, é na atualidade que o assunto ganha força, consequência da evolução da mulher que não mais se cala para salvar a si própria e as demais. Essa “chaga” permanece latente devido a uma conduta machista que ainda é tão arraigada na nossa cultura, são pensamentos e atitudes “patriarcais”, parte da ideologia de que o homem detém todo o poder e autoridade, restringindo a mulher a um papel de submissão, onde só lhe cabe o papel de mãe, dona de casa e objeto sexual e, sobretudo, da discriminação persistente contra a mulher, numa relação de poder referente ao gênero tão propagada nas mídias.
Diante desse exposto, é real e perceptível a situação de muitas mulheres, que dentro dos seus próprios lares vivem a sombra do medo e à iminência da violência, sentindo-se frágeis e vulneráveis, pois o agressor é aquele que tem a condição de proteger e dar afeto, ou seja, membro da família, na grande maioria, o companheiro. Milhares de mulheres vivem essa relação de medo, violência e perdão junto ao seu companheiro. Após cada episódio de agressão, acabam perdoando o agressor acreditando que o mesmo irá mudar, gerando assim, um ciclo de sofrimento que pode levar a um desfecho trágico. Diante disso chega-se a um questionamento: Por que a mulher se submete a esse ciclo de violência permanecendo tanto tempo com o agressor?
Este artigo expõe a problemática referente à recorrente violência sofrida pela mulher no âmbito doméstico, analisando seu conceito, sua origem, as causas desencadeantes, as consequências à vítima e identificando os motivos pelos quais a mulher se submete a essa violência, permanecendo tanto tempo convivendo com o agressor. Para tanto, foi utilizado o método dedutivo, por meio de livros, artigos científicos e métodos históricos.
VIOLÊNCIA
Nunca se falou tanto em violência como nos tempos atuais, e nunca houve tanto empenho em torná-la visível e utilizar meios de enfrentamento para combatê-la de forma mais veemente. Não é fato novo a preocupação da sociedade brasileira com as diversas formas de violência que afligem a população. Mesmo tendo ela sempre existido, tudo levava a crer que, com a ascensão do feminismo, as coisas progrediriam a tal modo que uma maior igualdade entre homens e mulheres levaria, de maneira inevitável, a menos violência. Mas, não é o que acontece. 
Embora não seja recente, a questão atual centra-se nas expressivas proporções que o fenômeno vem assumindo, até porque a violência contra a mulher não desapareceu, e tornou-se mais sutil. Em toda parte, é condenada, contudo, essa condenação moral em termos de princípios atinge apenas sua parte mais visível. Ano após ano, observa-se que o país vem quebrando o recorde de suas próprias marcas, em uma espiral de violência manifesta sem precedentes. Isto fica evidente não só nas impactantes estatísticas periodicamente divulgadas sobre as variadas formas que a violência assume na vida cotidiana, mas também nas pesquisas de opinião que diversas instituições realizam, na crescente inclusão deste tema nos meios de comunicação, nas análises políticas, nas plataformas dos diversos operadores políticos, na quantidade de trabalhos acadêmicos abordando o tema sob diversos ângulos, e na ampliação de propostas públicas e privadas para enfrentar, limitar, diminuir ou erradicar a problemática. 
O termo violência deriva do latim “violentia” e significa “O uso intencional da força física ou poder, ameaça contra si próprio, outra pessoa, ou contra um grupo ou comunidade, que resulte ou tenha alta probabilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, mau desenvolvimento ou privação” (WHO, 2014). De acordo com Casique e Furegato (2006) a violência se classifica em violência física, violência psicológica, violência sexual e violência patrimonial.
Violência Física é a ação que coloca em risco ou causa dano à integridade física de uma pessoa. Essa violência ocorre das mais variadas formas: tapas, empurrões, socos, mordidas, chutes, queimaduras, cortes, estrangulamento, lesões por armas ou objetos, obrigar a tomar medicamentos desnecessários ou inadequados, dentre outros.
Violência Psicológica é a ameaça direta ou indireta, humilhação, isolamento ou qualquer outra conduta que implique prejuízo à saúde psicológica, à autodeterminação ou ao desenvolvimento pessoal. Essa violência inclui: insultos constantes, humilhação, chantagem, ridicularização, desvalorização, manipulação, exploração, ameaças, privação arbitrária da liberdade e etc.
Violência Sexual é a ação que obriga uma pessoa a manter contato sexual, físico ou verbal, ou a participar de outras relações sexuais com uso da força, intimidação, manipulação, ameaça ou qualquer outro mecanismo que anule ou limite a vontade pessoal.
Violência Patrimonial é qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades.
Violência Moral - É considerada qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria. Acusar a mulher de traição, emitir juízos morais sobre a conduta, fazer críticas mentirosas, expor a vida íntima, rebaixar a mulher por meio de xingamentos que incidem sobre a sua índole, desvalorizar a vítima pelo seu modo de se vestir
A VÍTIMA - A mulher é a maior vítima em potencial devido a diferença fundamental da força física em relação ao homem. A violência doméstica é passível a todas as classes sociais, ou seja, qualquer mulher está sujeita a ser vítima dessa conduta que corre essencialmente na esfera privada.
O AGRESSOR - De acordo com a pesquisa realizada pelo IPEA (2013), o agressor é em 49% o companheiro, 21% o cônjuge, 12% o ex-marido e 2% o namorado.
Não há um perfil específico do abusador. Em público ele assume uma postura atípica, pode pareceramigável com a parceira e a família, porém dentro do lar, na esfera privada as agressões são realizadas.
POR QUE O HOMEM AGRIDE A MULHER?
Segundo Maristela P. A., em seu artigo Violência contra a Mulher, quem é o verdadeiro inimigo, o homem no contexto social vem provando uma considerável perda de poder e prestígio social, onde muitos deles vêem seus sonhos, material e profissional frustrado e o relacionamento afetivo torna-se um “escape” onde o homem compensará essa perda de poder, sentindo-se novamente forte e importante. Ela afirma ainda que a violência é uma doença do relacionamento e que se manifesta no casal de forma crônica, pois cresce aos poucos a ponto de o homem adquirir dependência por tal conduta que gera prazer no momento da ira.
POR QUE A MULHER PERMANECE TANTO TEMPO COMO VÍTIMA DESSA VIOLÊNCIA?
Numa situação de violência, a mulher é julgada pela sociedade de ser “safada” por apanhar do marido, denunciá-lo e logo após retirar a queixa. Essas atitudes são consideradas, pela sociedade, como ações sem caráter ou covardes. Segundo Bárbara (2005), existem diversas razões pelas quais as mulheres vítimas dos seus companheiros agem dessa forma: Risco de romper a relação: Muitas mulheres sentem-se amedrontadas para romper o relacionamento, devido ameaças de morte diante da separação. O agressor, ao perceber que perdeu o controle sobre a mulher, passa a atentar contra a vida dela ou dos filhos como mecanismo de retomar o controle.
Vergonha e medo: não é fácil pra mulher denunciar seu próprio marido e muitas vezes o pai dos seus filhos, sem falar ainda, na vergonha em ter que reconhecer que seu relacionamento fracassou. 
Esperança de mudança de comportamento do agressor: Durante o ciclo da violência, na fase da lua-de-mel, o homem demonstra arrependimento e promete a vítima que não mais agirá de forma violenta, gerando assim na mulher, a esperança de mudança. 
Isolamento: Diante de um companheiro agressor, a mulher passa a ser controlada e ter os passos monitorados e restritos, causando assim, um afastamento social, principalmente da família e amigos.
Despreparo Social: A intolerância social ainda é predominante. Quando a mulher busca ajuda, muitas vezes é incompreendida devido ao despreparo das autoridades que deveriam prestar o socorro. Bárbara (2005), afirma “Quando isso acontece, as vítimas perdem a esperança de encontrar apoio externo e acabam se recolhendo novamente ao seu inferno particular”.
Dependência Econômica: Em muitos casos, por machismo, a mulher é proibida pelo companheiro de exercer atividade profissional ou devido a tantas agressões, a mesma não tem capacidade para tal.
Diante de tanta violência e obstáculos, a mulher vai perdendo a autoestima e autoconfiança tendo a capacidade de resolver o problema reduzido, e a violência tende a crescer ao ponto de se tornar devastadora. Quando um homem bate em uma mulher, ele faz muito mais do que espancar seu corpo. Ele destrói seus sonhos, sua dignidade e sua auto-estima, predispondo-a a inúmeras patologias psiquiátricas e psicológicas. (Candice). Portanto, uma mulher em situação de violência doméstica precisa de apoio e segurança, do contrário, será muito difícil escapar da violência.
O CICLO DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA CONTRA A MULHER
Segundo Bárbara M. S. em seu artigo Enfrentando a violência contra a mulher-orientações práticas para profissionais e voluntários (2005), uma mulher em situação de violência doméstica precisa de apoio e segurança, do contrário, será muito difícil escapar da violência. a violência doméstica, na maioria dos casos, segue uma dinâmica, um ciclo composto por três fases:
1º Fase da Tensão
O agressor vai acumulando tensões e frustrações com as quais não sabe lidar e transfere para a vítima toda a responsabilidade. Culpa a vítima por coisas simples e irrelevantes como ter chegado em casa 15 minutos após o horário habitual, por deixar a comida salgada, por não ter dinheiro pra “cobrir” as despesas, dentre outras. É justamente nessa fase que se inicia as diversas sortes de violências; verbal, psicológica, moral, sexual, patrimonial e física.
2º Fase da Explosão
A partir de um detalhe irrelevante o agressor perde o controle e inicia a agressão para mostrar quem manda na situação. Normalmente ocorre a agressão física que se intensificará ao longo dos anos. Após as agressões, ele sente-se culpado, sobretudo pela possibilidade de alguém ficar sabendo ou ele ser punido. Consequentemente, ele parte para culpá-la por sua atitude, com intuito de convencê-la que é realmente a culpada pelo seu comportamento agressor.
3º Fase da Lua de Mel
O agressor manipula seu comportamento em detrimento da sua imagem e reputação, faz de tudo para ser visto como um cavalheiro, proporcionando para a mulher momentos bons, um clima de “Lua de mel”. Dessa forma retoma o controle e cria na vítima uma falsa esperança em achar que ele está mudando. Em alguns casos, não existe comportamento amoroso, apenas ausência de violência. O agressor convence a sua companheira que pode se controlar e que não voltará a agredir-lhe mais. A mulher recorda-se dos momentos vividos juntos e de tudo que construíram, sente vergonha que sua família saiba das agressões. Ele usa de chantagem emocional para convencer-lhe da sua carência e arrependimento, diz não pode viver sem ela, fazendo-a sentir-se responsável por ele. Após algum tempo, faz acusações infundadas de traição, age com violência, gritos, desconfianças e ciúmes sem razão. Até que a agressão ocorre novamente, e tudo volta a acontecer num ciclo vicioso de violência contra a mulher.
TIPO DE MALTRATO
Os maus tratos mais frequentes são as lesões corporais, podendo ser de natureza leve ou grave, que se apresenta em empurrões, chutes, tapas, socos, cotoveladas, mordidas, queimaduras, marcas de tentativas de estrangulamento, estupro, tiro e etc.
De acordo com o código penal brasileiro art. 129, lesão corporal leve é aquela que não causa grande ofensa a integridade física. Sendo a lesão corporal grave, a que resulta incapacidade para as ocupações habituais por um período de mais de 30 dias; perigo de morte; debilidade permanente de membros, sentido ou função; aceleração do parto; incapacidade permanente para o trabalho; enfermidade incurável; perda ou inutilização de membros, sentido ou função; deformidade permanente; aborto. Segundo pesquisa realizada por Garbin (Cadernos de Saúde Pública), referente ao local das lesões, a região da cabeça e pescoço é a área onde recebe mais ferimento, independente da idade: No que se refere ao sitio das lesões, encontramos que a região da cabeça e pescoço é o local mais atingido, preponderando em 30% dos casos, seguidos pelos membros superiores em 24,4%, membros inferiores em 23,3% e tronco em 16,7%.
A preferência do agressor em ferir a face da vítima, reflete claramente a intenção de humilhá-la. De acordo com Jong (Dissertação), a intenção do agressor em lesionar a face da vítima é para que a mesma não seja valorizada ante a sua beleza, que é um atributo tão observado na sociedade, e que, a crescente no índice das lesões nos membros superiores, preferencialmente nas mãos, resulta de uma postura de defesa por parte da vítima, que luta com seu algoz com intuito de livrar-se dos golpes e ferimentos.
Essas lesões na área da cabeça resultam muitas vezes em perda de dentes, afundamento de ossos da face, fratura craniana, fratura na mandíbula ou maxilar, dentre outras.
A TOLERÂNCIA SOCIAL À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER
Ainda impera no Brasil a cultura machista que afirma que a mulher merece apanhar do marido ou que a mesma é culpada quando é estuprada. Podemos observar isso claramente no fato ocorrido recentemente no Rio de Janeiro, na barbárie sofrida por uma adolescente de 16 anos no dia 26 de maio, quando o próprio delegado de polícia, durante investigação pergunta à jovem se a mesma costumava manter relações sexuais em grupo, isso traz à tona a cultura do estupro, um conjunto de crenças que coloca a culpa na vítima. A atitude do delegado evidencia o quanto as mulheres estão desprotegidasquando buscam por ajuda e a pessoa que deveria prestar o socorro compartilha do mesmo ideal e pensamento paternalista do agressor.
É por essas e outras que, muitas mulheres deixam de prestar queixa nas delegacias devido ao despreparo das autoridades policiais que, em grande número são homens e que as julgam como causadoras da situação que gerou a violência. A cultura do estupro é um fato sociológico que explica a possibilidade de se colocar a culpa do estupro na própria vítima. Quando uma mulher é agredida, a família sofre e as consequências são sentidas a médio e em longo prazo, por toda a sociedade. Uma pesquisa da OMS, realizada em Pernambuco e São Paulo, no ano de 2001, revelou que os filhos das mulheres vítimas da violência doméstica, apresentavam diversas seqüelas: urinam na cama, chupam dedo, tem pesadelos, agressividade, repetência escolar, sendo na Zona da Mata de Pernambuco, os maiores índices de abandono escolar. (Violência contra a Mulher e Saúde no Brasil (2001). OMS/FMUSP/CFSS/SOS Corpo/FSPUSP/UFPE.)
COMO A MULHER VÍTIMA DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA PODE VENCER ESSA SITUAÇÃO 
A violência doméstica não afeta apenas a mulher que a sofreu, mas a toda a família e sociedade, pois as crianças e adolescentes que convivem num ambiente onde a violência doméstica é uma constante, tende a internalizar e reproduzir tal comportamento. Nessa perspectiva é importante e urgente o trabalho em conjunto da sociedade e dos órgãos competentes no que tange ao desenvolvimento eficaz de políticas públicas para defesa da mulher.
De acordo com a lei 11.340/2006, artigo 8, o papel das políticas públicas são diretrizes que se faz por meio de um conjunto articulado de ações, entre a União, os Estados, Distrito Federal e os Municípios e também de ações não-governamentais, cuja finalidade é coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Essas diretrizes visam a integração operacional dos poderes entre o Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública; promoção de estudos e pesquisas referentes às causas, para sistematização e unificação de dados; o respeito aos valores éticos e sociais nos meios de comunicação social; atendimento policial especializado; campanhas educativas de prevenção da violência contra a mulher; convênios, capacitação das polícias; programas educacionais que disseminem a igualdade da pessoa humana e direitos humanos, equidade e problema da violência doméstica nos currículos escolares.
A LEI MARIA DA PENHA
A lei 11.340 de 7 de agosto  de 2006, conhecida popularmente como Lei Maria da Penha (LMP), cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, representa um grande passo no enfrentamento do crime violento contra as mulheres.
Segundo Calazans e Cortes (2011), representa um dos mais interessantes exemplos de amadurecimento da democracia, pois na sua formulação contou com a participação de organizações não governamentais feministas, Secretaria de Políticas para Mulheres, operadores do direito e o Congresso Nacional. É um dos documentos legais que repercutiu profundamente na sociedade brasileira. É resultado de um Projeto de Lei que mobilizou a Câmara dos Deputados e inúmeras audiências públicas com diversos setores da sociedade, no sentido de produzir uma legislação que protegesse a mulher vítima de violência doméstica e familiar, e que acabasse com a impunidade dos agressores. 
Nesse cenário, a condenação da Corte Interamericana de Direitos Humanos ao Estado brasileiro no ano de 2001, no caso Maria da Penha Maia Fernandes, impulsionou a aprovação do Projeto de Lei nº 4.559/2004, em 2006, concedendo o nome de Lei Maria da Penha à legislação nacional no enfrentamento a violência doméstica. 
Essa Lei recebeu esse nome em homenagem à biofarmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, que padeceu agressões na maior parte da sua relação conjugal com Marco Antonio Heredia Viveiros. Ela sofreu duas tentativas de assassinato: foi atingida por um tiro em 1983, enquanto dormia, e desse ato violento resultou a perda dos movimentos das pernas, e a necessidade de viver em uma cadeira de rodas em razão de ter ficado paraplégica, aos 38 anos de idade. Semanas depois quando retornou do hospital, sofreu novo atentado por eletrocussão enquanto estava no banho. O autor das tentativas, seu marido e professor universitário, foi condenado e preso em 28 de outubro de 2002, mas cumpriu apenas dois anos de prisão. Maria da Penha tornou-se símbolo de luta, após seu divórcio, por ter denunciado o agressor a polícia, que passou a investigar o caso. Muitos desdobramentos aconteceram, desde indicativos de ação premeditada do agressor para assassiná-la, denúncias pelo Ministério Público por tentativa de homicídio doloso, até a remessa em 1998 do processo à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que, em 2001, recomendou ao Brasil, dentre outras ações, a reforma do seu sistema legal de modo a garantir ações judiciais mais céleres e eficazes no combate a este tipo de agressão. Isso contribuiu para a elaboração e promulgação da Lei nº 11.340/2006, para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, sendo também uma mudança de paradigma no direito internacional, por ter sido o primeiro país que aplicou a Convenção Interamericana para prevenir, erradicar e punir a violência contra a mulher (Convenção Belém do Pará ou CVM). 
A Lei Maria da Penha é específica no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher, resultado do trabalho e da mobilização dos movimentos de mulheres, potencializado pela criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Representa um grande avanço nas políticas públicas para as mulheres e um resgate da cidadania feminina. 
A Lei fundamenta-se em normas e diretivas consagradas na Constituição Federal, na Convenção da ONU sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher e na Convenção Interamericana para Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. A Lei Maria da Penha afirma que toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia ou orientação sexual, goza dos direitos fundamentais, e pretende assegurar a todas as mulheres oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar a saúde física e mental e o aperfeiçoamento moral, intelectual e social, assim como as condições para o exercício efetivo dos direitos à vida, à segurança e à saúde. Visa combater de forma rigorosa, os crimes praticados nos relacionamentos domésticos e familiares contra a mulher, aplicando punições mais severas aos agressores e garantindo à mulher o exercício dos seus direitos, protegendo-a de todas as formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. A violência que a Lei Maria da Penha trata é a que ocorre nos relacionamentos domésticos e familiares, baseada no gênero, que tem a mulher como vítima.
De acordo com essa Lei, o poder público deve desenvolver políticas que visem garantir os direitos das mulheres no âmbito das relações domésticas e familiares, resguardando-as de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. É dever da família, da sociedade e do poder público criar as condições necessárias para o efetivo exercício dos direitos enunciados no caput do § 1º e § 2º do art. 3º da Lei nº 11.340. A Lei vem romper com a dicotomia público-privado ratificada pelo dito popular de que em briga de marido e mulher ninguém deve se meter. A família era um espaço inatingível e essa ideia provocava uma sensação de impunidade pela violência doméstica, como se o que acontecesse dentro de casa não interessasse a ninguém.
O Art. 1º da Lei nos termos do § 8º do Art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil, dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher eestabelece medidas de assistência e proteção em situação de violência doméstica e familiar. Da mesma maneira, as Delegacias de Defesa da Mulher foram criadas para dar maior sustentação às reclamações da população feminina contra as agressões sofridas no âmbito doméstico, com Medidas Protetivas quando necessário se fizer.76
Mesmo não havendo crime, mas tomando conhecimento a autoridade policial acerca da prática de violência doméstica, essa deverá tomar as providências determinadas no art. 11 da Lei, para garantir proteção à vítima, encaminhá-la a um atendimento médico, conduzi-la a um local seguro ou acompanhá-la para retirar seus pertences. Além disso, deverá a polícia proceder ao registro da ocorrência e remeter ao Judiciário o expediente quando a vítima solicitar alguma medida protetiva (segundo o art. 12).
CONCLUSÃO
Conclui-se, que a violência doméstica contra a mulher ocorre em todo o mundo, com mulheres de todas as classes sociais e que a magnitude dessa violência tem trazido sérios danos à família e à sociedade, fazendo-se necessário o fortalecimento das ações previstas na Lei Maria da Penha e mais políticas voltadas ao enfrentamento da violência contra a mulher. Uma vez que essa violência resulta de uma mentalidade culturalmente machista, é importante estabelecer orientação a crianças no âmbito escolar, para que desde muito cedo desenvolva um pensamento e comportamento de respeito uns para com os outros, repudiando qualquer tipo de violência, sobretudo à mulher, para que em longo prazo essa cultura patriarcal seja fragilizada e definitivamente erradicada.
REFERÊNCIAS
BÁRBARA, M. S. Enfrentando a violência contra a mulher-orientações práticas para profissionais e voluntários. Brasília: Secretaria Especial de Políticas Públicas para as Mulheres,2005.
CALAZANS, M.; CORTES, I. O processo de criação, aprovação e implementação da Lei Maria da Penha. In: CAMPOS, C, H. (Org.). Lei Maria da Penha comentada em uma perspectiva jurídico-feminista. Rio de Janeiro: Editora Lumem Juris, 2011.
Candice, Patricia. Psicólogas pelo mundo – Violência Doméstica. Disponível em: http://www.brasileiraspelomundo.com/psicólogas-pelo-mundo-violencia-domestica-11119671 . Acesso em: 29 maio 2016.
CASIQUE, L.C.; FUREGATO, A.R.F. Violência contra mulheres: reflexões teóricas. Ver. Latino-Am. Enfermagem. Ribeirão Preto, v. 14, n. 6, 2006. Disponível em: http://www.scielo.br. Acesso em: 10 jun. 2016.
Garbin, Clea Adas Saliba et al. Violência doméstica: análise das lesões em mulheres. Cadernos de Saúde Pública. Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, v. 22, n. 12, p. 2567-2573, 2006.
Jong LC. Perfil epidemiológico da violência doméstica contra a mulher em cidade do interior paulista [Dissertação de Mestrado]. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo, 2000.
Lei Maria da Penha. Lei 11.340 de 7 de agosto de 2006. Coibe a violência doméstica e familiar contra a mulher. Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres. Presidência da República. Brasília, 2006.
Leila Posenato Garcia; Lúcia Rolim S. de Freitas; Gabriela Drummond M. da Silva; Doroteia A. Höfelmann. Violência contra a mulher: Feminicídios no Brasil. Instituto de Pesquisa Econômica, 2013.
Maristela, P. A. Violência contra a Mulher, quem é o verdadeiro inimigo. [artigo] Disponível em: www.cem.sc.gov.br. Acessado em: 30 maio 2016.
Organização Mundial de Saúde (OMS). World Report on Violence and Healt. Geneva: World Health Organization Press. Disponível em: http://www.who.int/violence_injury_prevention/violence/word_report/en//. Acesso em: 30 maio 2016.

Outros materiais