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ANGELO RICARDO DE SOUZA

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especial, de
encontrar os impactos promovidos por essas decisões. Para tanto, de pronto, percebeu-
se que era necessário o conhecimento sobre quem são essas pessoas que dirigem as
escolas brasileiras e como essas escolas são organizadas, pois aquela racionalidade tem
conexão com o perfil desses sujeitos e com os processos de gestão.
Nesta caminhada, ficou evidente que a construção desse perfil já seria, em si, um
esforço digno de uma tese de doutorado, especialmente considerando que há poucos
estudos que tenham tomado o perfil da gestão escolar como objeto de investigação. E a
rica base de dados produzida pelo MEC-INEP, a partir da aplicação dos questionários
aos diretores, professores e alunos (através do Sistema de Avaliação da Educação
Básica – SAEB – instrumentos de medidas de contexto) permitia a construção do perfil.
Assim, a soma entre a inexistência de muitos trabalhos sobre a temática, a necessidade
de se traçar os perfis dos diretores e dos processos de gestão escolar e a disponibilidade
do banco de dados, resultou na possibilidade da construção desta tese de doutorado.
Mas, a questão que inicialmente motivou o projeto de pesquisa, que ora se traduz
nesta tese, não havia sido esquecida. As muitas conversas com os orientadores (no
Brasil e em Portugal, por ocasião de estágio de doutorado no exterior), os debates com
os companheiros de doutorado nas atividades conjuntas de pesquisa e as sugestões da
banca de qualificação provocavam a pensar as possibilidades de se ir investigar os
dirigentes e os processos de gestão nas próprias escolas, cotejando aquela grande base
nacional de dados com a realidade encontrada no cotidiano da política escolar. Esta face
do objeto de pesquisa não foi possível de ser realizada, de um lado porque o tempo não
permitia, de outro lado pelas dificuldades em se cotejar aspectos um tanto distantes e
com os quais os recursos metodológicos seriam realmente diferentes. O conhecimento
sobre a realidade, olhando-a por dentro da escola, permite descobrir elementos
importantes sobre a organização escolar, mas que não são nem mais nem menos
importantes do que o conhecimento sobre a realidade a partir dos dados empíricos
fornecidos pelo SAEB. Assim, antes de procurar cotejar (e talvez contrapor) dados
sobre a organização e gestão escolar, a solução para a motivação inicialmente
apresentada para esta pesquisa foi encontrada na construção de um outro perfil: o perfil
das idéias sobre a gestão escolar. Ou seja, este perfil trata das concepções que têm os
autores dos diversos períodos da produção acadêmica no Brasil sobre a gestão escolar e
sobre os diretores e a sua função.
Esta solução, o cruzamento entre aqueles perfis, produziu o problema central da
investigação: as razões que levam os diretores e os processos de gestão serem e agirem
das formas que o são e fazem, atualmente, relacionam-se com as idéias dos estudiosos
do campo que desenham concepções sobre o papel do dirigente e sobre a própria gestão
escolar?
Para dar conta desta questão, outras anteriores eram necessárias: quais são as
principais idéias e concepções construídas ao longo do século XX que compõem a base
de conhecimentos sobre a qual o campo teórico da gestão escolar se edificou/edifica no
Brasil?
E de outro lado: quem são os dirigentes escolares? Sua formação, sua carreira?
Como são as escolas brasileiras em relação aos processos políticos e de organização e
tomada de decisões? Em que medida esses perfis dos dirigentes escolares e dos
processos de gestão têm relação com o rendimento estudantil?
E em síntese: há relação entre o perfil dos dirigentes escolares e dos processos
de gestão com o perfil das idéias sobre a gestão escolar? Como se dá esta relação?
Destarte, o objeto deste texto se centra na identificação e composição dos perfis
da gestão escolar no Brasil: perfil do diretor escolar; perfil dos processos de gestão
escolar; perfil das idéias sobre a gestão escolar.
Um elemento importante acerca deste objeto de pesquisa diz respeito ao fato de
que não se procura nesta tese um perfil da educação brasileira, mas da educação pública
brasileira. As escolas privadas e seus dirigentes foram propositalmente excluídos deste
trabalho, a despeito de não haver falta de dados empíricos sobre esse segmento, porque
mesmo se tratando de face importante e significativa da educação básica nacional, a
organização e gestão da educação privada é reconhecidamente sustentada em bases um
tanto diversas das que edificam a educação pública. Se os processos pedagógicos entre
as escolas de ambos os segmentos não são tão diversos, por outra parte, as formas de
gestão, como expressão executiva da política, são diferentes, porque as concepções e as
condições financeiras, materiais e legais de ambas as fazem assim. Esta tese trabalha,
portanto, com o perfil da gestão das escolas públicas e dos seus dirigentes.
As intenções na produção deste trabalho na busca pelas respostas àquelas
questões implicam diversas tarefas. A primeira delas é mapear a produção acadêmica no
campo da gestão escolar no Brasil, construindo o perfil das idéias e concepções que
embasaram o campo ao longo do século XX, com o intuito de conhecer as origens e os
caminhos percorridos pelos teóricos na busca pela construção de uma base de
conhecimentos. O período deste levantamento remonta aos anos 30 desse século,
período em que o campo da gestão escolar começou a se estruturar academicamente no
Brasil, e vai até o ano de 2004. A escolha desta data final decorre de duas razões: a) não
havia na base utilizada (Banco de Teses da Fundação Coordenadoria de
Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior – CAPES) dados mais atualizados e b)
mesmo não sendo possível classificar o período mais recente da produção acadêmica
(pós-anos 80) com a identificação de uma “escola de pensamento” hegemônica, é
necessário se observar a produção mais recente justamente pela sua diversidade tanto de
temas quanto de abordagens e pelo grande crescimento quantitativo verificado,
permitindo se identificar as tendências da construção do conhecimento no campo.
Um segundo objetivo do trabalho, ainda mais central, é a identificação do perfil
dos dirigentes escolares e dos processos de gestão por eles utilizados na condução da
política escolar. Este objetivo se articula com o necessário conhecimento do perfil
próprio das pessoas que dirigem as escolas (idade, sexo, salário, formação), bem como
da sua experiência na educação e na função dirigente. De outro lado, é importante para
este objetivo compreender as formas adotadas pelos sistemas de ensino para a escolha
dos diretores escolares e, no âmbito escolar, os instrumentos coletivos da política
escolar, como o conselho de escola e o projeto pedagógico, além das avaliações que os
dirigentes fazem sobre as interferências políticas na gestão escolar advindas tanto do
sistema de ensino quanto da comunidade escolar.
Uma terceira disposição do trabalho está na articulação entre os perfis do diretor
escolar e dos processos de gestão com os resultados estudantis nos testes
estandardizados. O SAEB coleta esses dados e permite tal cotejamento. Este objetivo é
o de verificar a possível existência de um efeito-gestão. Não se trata aqui de saber qual
modelo de gestão escolar proposto ao longo da história do campo no Brasil tem
melhores resultados, mas sim de se avaliar a diversidade existente na realidade da
gestão das escolas atualmente, as bases conceituais de onde ela advém e as relações
possíveis com os resultados escolares, uma vez que as escolas de pensamento, no que
tange as concepções de gestão articuladas ao longo da história, apresentam idéias sobre
o papel da gestão escolar e dos seus dirigentes e, ainda que não seja reconhecido pelos
estudiosos do campo em dados momentos, são concepções que expressam uma visão de
escola e de trabalho pedagógico.
E o quarto e principal objetivo, articulado centralmente com o problema de
pesquisa desta tese, é

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