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Guido Liguori - Estado e sociedade civil_ entender Gramsci para entender a realidade

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BIBLIOTECA 
Elab Bla uma 
International Gramsci Society 
Ler Gramsci, 
entender a realidade 
ORGANIZAÇÃO E APRESENTAÇÃO 
Carlos Nelson Coutinho 
Andréa de Paula Teixeira 
2 L619 
itulo: Ler Gramsci, entender a realidade. 
LO 146302 
x. 1 UEFS BCJC 
o 
 
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA 
 
Rio de Janeiro 
2003 
EGISTRO 
Estado e sociedade civil: entender Gramsci 
para entender a realidade 
GUIDO LIGUORI 
Nos últimos anos, tive várias ocasiões de voltar ao tema “Estado e socieda- 
de civil em Gramsci”!. A maioria das intervenções e dos artigos que dediquei 
até hoje a este tema foram de natureza polêmica. Diria mesmo “gramsciana- 
mente polêmica”, já que se sabe que Gramsci gostava de refletir e de escrever 
(seja antes da prisão, seja no cárcere) a partir de um artigo, de um livro, de 
uma tese contra a qual polemizar. Ocorreu-me polemizar repetidamente com 
as leituras dos Cadernos do cárcere que, sobretudo a partir de Bobbio, acredi- 
taram ver no conceito de sociedade civil a categoria central do pensamento 
gramsciano?. E, de resto, polemizei constantemente com as leituras da realida- 
de contemporânea que têm como base um elogio da sociedade civil e uma for- 
te crítica à forma-Estado, vista agora como condenada a um inevitável declí- 
nio, seja diante dos processos de mundialização, seja diante de uma suposta 
“desforra” da própria sociedade civil, interpretada também (mas não somen- 
te) como desforra do mercado sobre o estatismo socialista, socialdemocrata 
ou comunista. Dois fenômenos, o da mundialização e o da desforra da socie- 
dade civil, que estão obviamente ligados, na realidade e na ideologia. 
No que se refere a Gramsci, tenho defendido, em linhas muito gerais, 
que o conceito central dos Cadernos não é o de “sociedade civil”, mas o de 
“Estado ampliado”; que, sendo Gramsci um pensador fortemente dialético, 
Estado e sociedade (mas também estrutura e superestrutura) apresentam-se 
em seus escritos como conceitos distintos, mas não organicamente separados 
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LER GRAMSCI, ENTENDER A REALIDADE 
e separáveis; que essa sua concepção teórica reflete uma realidade histórico- 
social, aquela que dominou o cenário do século XX, que fez com que este 
século possa ser definido como o século do desenvolvimento do Estado, de 
seu “protagonismo” em relação à sociedade, embora se trate de um Estado, 
na maioria dos seus aspectos, bem diverso do velho “Leviatã” de Hobbes3. 
No que se refere à temática contemporânea da globalização, afirmei que 
não me parecia que estivéssemos nos encaminhando para um radical e rápi- 
do redimensionamento dos Estados (como pretendem os teóricos da globali- 
zação), mas para uma sua transformação, para um novo equilíbrio entre os 
Estados. Afirmei também que, depois do colapso da URSS, não haviam desa- 
parecido os poderes dos Estados, de todos os Estados, em favor de um 
aumento dos poderes da ONU — quase como se estivéssemos diante da rea- 
lização do projeto kantiano da “paz perpétua” —, mas que, ao contrário, 
era a superpotência ou super-Estado estadunidense a dominar cada vez mais 
o cenário. 
Os últimos e dramáticos acontecimentos parecem confirmar esta análise: 
basta pensar no esforço bélico dos Estados Unidos, no empenho do povo 
palestino no sentido de constituir um Estado nacional, mas também no “re- 
torno do Estado”, conforme uma expressão usada para caracterizar a inter- 
venção em apoio às economias nacionais em dificuldades. “Retorno do 
Estado”: mas quando é que o Estado foi realmente embora? 
Finalmente, afirmei também muitas vezes que — ainda que se admita, 
mas sem se concordar, que o processo de redimensionamento do Estado já 
tenha atingido o nível desejado por muitos — esse é (seria) um processo con- 
temporâneo, não da época de Gramsci, não teorizado por Gramsci. Ele não 
é, como se tem dito, o analista da “crise do Estado”, mas o autor que melhor 
apreendeu, no campo marxista, a nova relação entre Estado e sociedade que 
se realiza na modernidade do século XX, seja sob a forma do Estado fascis- 
ta ou do Estado keynesiano, do Estado bolchevique ou do Estado 
socialdemocrata. Um fenômeno que Gramsci descreve precisamente como 
“ampliação do Estado”, da sua presença, das suas funções. 
Tendo de analisar aqui o tema “sociedade e Estado na era da globaliza- 
ção”, no âmbito de um seminário dedicado a “ler Gramsci, entender a reali- 
dade”, não voltarei às polêmicas dos últimos anos contra o liberismo de 
direita e a liberal-democracia de esquerda. Gostaria de dar, nesta intervenção, 
uma contribuição diversa, subdividida em duas partes. Uma primeira parte, 
ESTADO E SOCIEDADE CIVIL 
mais consistente, será dedicada ao esclarecimento lexical-conceitual da 
temática Estado — sociedade civil — Estado ampliado, tal como a encontra- 
mos nos Cadernos. Ao que me parece, uma leitura atenta do texto gramscia- 
no — complexo e labiríntico, não isento de oscilações e de evoluções inter- 
nas — nos permite perceber que ele não só usa os termos dessa temática em 
acepções diversas das que eram predominantes em seu tempo, mas que Os 
utiliza frequentemente com conotações diferentes no interior de sua própria 
obra. E, numa segunda parte, tentarei oferecer sinteticamente algumas suges- 
tões referentes ao uso de categorias gramscianas para interpretar o atual e 
suposto protagonismo da sociedade civil na Itália, tomando como ponto de 
referência, sobretudo, a experiência política e governamental de Silvio 
Berlusconi. 
Começaria dizendo que, nos Cadernos, a “ampliação do conceito de 
Estado” — para utilizar a conhecida e merecidamente afortunada fórmula 
de Christine Buci-Glucksmann, que, de resto, tem suas raízes no próprio 
Gramscit — ocorre em dois planos. Por um lado, temos a compreensão da 
nova relação entre política e economia que se inicia já com a Primeira Guerra 
Mundial e se reforça enormemente depois da crise de 1929; e, por outro, 
temos a compreensão da nova relação entre sociedade política e sociedade 
civil, entre força e consenso, direção e dominação, coerção e hegemonia, que 
é desenvolvida a partir tanto da reflexão gramsciana sobre a história da 
Itália na era das Comunas quanto do estudo das diferenças existentes entre 
“Oriente” e “Ocidente”. Trato inicialmente do primeiro aspecto, até mesmo 
porque ele é certamente o mais negligenciado, o menos conhecido. 
Antes de mais nada, cabe eliminar um possível mal-entendido. Gramsci 
se situa firmemente no terreno marxista: não faz do Estado o “sujeito da his- 
tória” e, menos ainda, o sujeito do modo de produção capitalista. Com efei- 
to, ele afirma: “Certamente, o Estado não produz ut sic a situação econômi- 
ca, mas é a expressão da situação econômica” (CC, 1, 379). Para as classes 
fundamentais, ou seja, para a burguesia e o proletariado, Gramsci afirma 
que “o Estado [é] a forma concreta de um mundo produtivo” (CC, 1, 428). 
Na realidade, a peculiaridade dialética do pensamento de Gramsci impe- 
de uma “distinção orgânica” entre Estado e sociedade. Ele rechaça decidida- 
mente toda hipótese liberista e livre-cambista neste sentido, escrevendo que os
LER GRAMSCI, ENTENDER A REALIDADE 
liberistas e os livre-cambistas se baseiam num “erro teórico”, ou seja, “na dis- 
tinção entre sociedade política e sociedade civil, que de distinção metodológi- 
ca é transformada e apresentada como distinção orgânica. Assim, afirma-se 
que a atividade econômica é própria da sociedade civil e que o Estado não 
deve intervir em sua regulamentação. Mas, dado que sociedade civil e Estado 
se identificam na realidade dos fatos, deve-se estabelecer que também o libe- 
rismo é uma “regulamentação” de caráter estatal, introduzida e mantida por 
via legislativa e coercitiva” (CC, 3, 47). Deixemos de lado, por enquanto, os 
problemas que nascem da afirmação de que “sociedade política e sociedade 
civil se identificam na realidade dos fatos” (grifo meu), afirmação que acen- 
tua ainda mais o que,
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